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16/4/2018 Gestão de Cooperativas e Associativismo Material de Apoio – Unidade 3 – Período Letivo 2022/2 Professor: Fabrício Carvalho da Silva Novembro/2022 UNIVERSIDADE ABERTA DO PIAUÍ - UAB UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PIAUÍ - UESPI NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA BACHARELADO EM ADMINISTRAÇÃO ______________________________________________________________________________ Universidade Aberta do Piauí | Núcleo de Educação a distância | Universidade Estadual do Piauí Curso: Bacharelado em Administração Disciplina: Gestão de Cooperativas e Associativismo Professor: Fabrício Carvalho Período letivo: 2022.1 1 A ORGANIZAÇÃO FORMAL DAS COOPERATIVAS E ASSOCIAÇÕES: DIFERENÇAS ENTRE ASSOCIAÇÕES E COOPERATIVAS Por ser o associativismo a doutrina básica ou inspiradora dos modelos organizativos de base coletiva, costuma haver alguma confusão na hora de escolher um modelo ou outro. Essa confusão é maior quando o objetivo da organização envolve atividade econômica. O objetivo deste conteúdo é apresentar diferenças entre associações e cooperativas de modo a possibilitar um melhor entendimento sobre ambas e, assim, orientar quanto à escolha de um ou outro modelo. A diferença essencial está na natureza dos dois processos. Enquanto as associações, capituladas no artigo 53 e seguintes do Código Civil Brasileiro, são organizações que têm por finalidade a promoção de assistência social, educacional, cultural, representação política, defesa de interesses de classe, filantrópicas, as cooperativas têm finalidade essencialmente econômica, seu principal objetivo é viabilizar o negócio produtivo de seus associados junto ao mercado. A compreensão dessa diferença é o que determina a melhor adequação de um ou outro modelo. Enquanto a associação é adequada para levar adiante uma atividade social, a cooperativa é mais adequada para desenvolver uma atividade comercial, em média ou grande escala, de forma coletiva. Essa diferença de natureza estabelece também o tipo de vínculo e o resultado que os associados recebem de suas organizações. Nas cooperativas os associados são os donos do patrimônio e os beneficiários diretos do ganho que o processo por eles organizado propiciará. Uma cooperativa de trabalho beneficia os próprios cooperados, o mesmo em uma cooperativa de produção. As sobras, que porventura houverem das relações comerciais estabelecidas pela cooperativa, podem, por decisão de assembleia geral, serem distribuídas entre os próprios cooperados, sem contar o repasse dos valores relacionados ao trabalho prestado pelos cooperados ou da venda dos produtos por eles entregues na cooperativa. Em uma associação, os associados não são propriamente os seus “donos”. O patrimônio acumulado pertence à associação e não aos seus associados. No caso da sua dissolução, deverá ser destinado a outra instituição semelhante, conforme determina a lei. Os ganhos eventualmente auferidos pertencem à sociedade e não aos associados, que deles não podem dispor, pois, também de acordo com a lei, deverão ser destinados à atividade fim da associação. Na maioria das vezes, os associados não são nem mesmo os beneficiários da ação do trabalho da associação, assim como não há entre os associados direitos e obrigações recíprocas. A associação tem uma grande desvantagem em relação à cooperativa, ela engessa o capital e o patrimônio; em compensação, tem algumas vantagens que compensam grupos que querem se organizar, mesmo para comercializar seus produtos: o gerenciamento é mais simples e o custo de registro é menor. Outro ponto a destacar é que a qualidade de associado é intransmissível se o estatuto não dispuser o contrário. Em sendo o objetivo econômico, o modelo mais adequado é a cooperativa. Veja a seguir um quadro que mostra as principais diferenças entre associação e cooperativa: ______________________________________________________________________________ Universidade Aberta do Piauí | Núcleo de Educação a distância | Universidade Estadual do Piauí Curso: Bacharelado em Administração Disciplina: Gestão de Cooperativas e Associativismo Professor: Fabrício Carvalho Período letivo: 2022.1 2 1. Definição Legal ASSOCIAÇÃO COOPERATIVA Constituem-se as associações pela união de pessoas que se organizarem para fins não econômicos (art. 53, Lei nº 10.406/2002). São sociedades de pessoas, com forma e natureza jurídica próprias, de natureza civil, não sujeitas a falência, constituídas para prestar serviços aos associados, distinguindo-se das demais sociedades (art. 4º, Lei nº 5.764/71). 2. Objetivos ASSOCIAÇÃO COOPERATIVA Prestar serviços de interesse econômico, técnico, legal, cultural e político de seus associados. Prestar serviços de interesse econômico e social aos cooperados, viabilizando e desenvolvendo sua atividade produtiva. 3. Mínimo de pessoas para constituição ASSOCIAÇÃO COOPERATIVA A Lei não define o número mínimo de pessoas para se constituir uma associação. 20 (vinte pessoas) (se singulares), físicas, exclusivamente. 4. Roteiro simples para constituição ASSOCIAÇÃO COOPERATIVA 1. Definição do grupo de interessados. 2. Definição dos objetivos concretos do grupo. 3. Elaboração conjunta do Estatuto Social. Realização da Assembleia de Constituição, com eleição dos Dirigentes. 4. Registrar o Estatuto Social, os livros obrigatórios e a Ata de Constituição. 5. Registros na prefeitura, INSS e Ministério do Trabalho. 6. Elaboração do primeiro plano de trabalho. 1. A sociedade cooperativa constitui-se por deliberação da Assembleia Geral dos fundadores. 2. Constituição, com eleição dos Dirigentes. 3. Subscrição e integralização das cotas de capital pelos associados. 4. Encaminhamento dos documentos para análise e registro na Junta Comercial. 5. Inscrição na Receita Estadual. Inscrição no INSS. 6. Alvará de Licença e Funcionamento na prefeitura municipal. 7. Outros registros para cada atividade econômica. 8. Abertura de conta bancária. 5. Pontos essenciais nos Estatutos Sociais ASSOCIAÇÃO COOPERATIVA 1. Nome da Associação. Sede e Comarca. 2. Finalidades/objetivos concretos. 3. Se os associados respondem pelas obrigações da entidade. 4. Tempo de duração. Cargos e funções dos Dirigentes e Conselheiros. 5. Como são modificados os estatutos sociais. 6. Como é dissolvida a entidade e destino do 1. Nome, tipo de entidade, sede e foro. 2. Área de atuação. 3. Duração do exercício social. Objetivos sociais, econômicos e técnicos. 4. Forma e critérios de entrada e saída de associados. 5. Responsabilidade limitada ou ilimitada dos associados. ______________________________________________________________________________ Universidade Aberta do Piauí | Núcleo de Educação a distância | Universidade Estadual do Piauí Curso: Bacharelado em Administração Disciplina: Gestão de Cooperativas e Associativismo Professor: Fabrício Carvalho Período letivo: 2022.1 3 patrimônio. 6. Formação, distribuição e devolução do capital social. 7. Órgãos de direção, com responsabilidade de cada cargo. 8. Processo de eleição e prazo dos mandatos dos 9. Dirigentes e Conselheiros. Convocação e funcionamento da Assembleia Geral. 10. Forma de distribuição das sobras e rateio dos prejuízos. 11. Casos e formas de dissolução. 12. Processo de liquidação. 13. Modo e processo de alienação ou oneração de bens imóveis. 14. Reforma dos estatutos. 15. Destino do patrimônio na dissolução ou liquidação. 6. Representação Legal ASSOCIAÇÃO COOPERATIVA Representa, se autorizado pelo Estatuto Social, os associados em ações coletivas e prestação de serviços comuns de interesse econômico, social, técnico, legal e político. É representada por federações e confederações. Representa, se autorizado pelo Estatuto Social, os cooperados em ações coletivas e prestação de serviços comuns de interesse econômico, social, técnico, legal e político.Pode constituir federações e confederações para sua representação. 7. Área de Atuação ASSOCIAÇÃO COOPERATIVA Limitada pelos seus objetivos. Limitada pelos seus objetivos. 8. Atividades mercantis ASSOCIAÇÃO COOPERATIVA Pode ou não comercializar. Pratica qualquer ato comercial. 9. Operações financeiras ASSOCIAÇÃO COOPERATIVA Pode realizar operações financeiras e bancárias usuais, mas não tem como finalidade nem realiza operações de empréstimos ou aquisições com o governo federal. Não é beneficiária de crédito rural. Realiza plena atividade comercial, operações financeiras e bancárias e pode candidatar-se a empréstimos e aquisições do governo federal. As cooperativas de produtores rurais são beneficiadas do crédito rural de repasse. Pode realizar qualquer operação financeira. São beneficiárias de crédito rural. ______________________________________________________________________________ Universidade Aberta do Piauí | Núcleo de Educação a distância | Universidade Estadual do Piauí Curso: Bacharelado em Administração Disciplina: Gestão de Cooperativas e Associativismo Professor: Fabrício Carvalho Período letivo: 2022.1 4 10. Responsabilidade dos sócios ASSOCIAÇÃO COOPERATIVA Os associados não são responsáveis pelas obrigações contraídas pela associação. A sua diretoria só pode ser responsabilizada se agir sem o consentimento dos associados. Os cooperados não são responsáveis diretamente pelas obrigações contraídas pela cooperativa, a não ser no limite de suas quotas-partes e também nos casos em que decidem que a sua responsabilidade é ilimitada. A sua diretoria só pode ser responsabilizada se agir sem o consentimento dos cooperados. EMPREENDEDORISMO SOCIAL Comunidade que Sustenta a Agricultura – CSA CSA é um modelo de um trabalho conjunto entre produtores de alimentos orgânicos e consumidores: um grupo fixo de consumidores se compromete por um ano (em geral) a cobrir o orçamento anual da produção agrícola. Em contrapartida os consumidores recebem os alimentos produzidos pelo sitio ou fazenda sem outros custos adicionais. Desta forma o produtor sem a pressão do mercado e do preço, pode se dedicar de forma livre a sua produção. Os consumidores recebem produtos de qualidade, sabendo quem os produz e aonde são produzidos. CSA é um modelo de Agricultura Solidária em que o agricultor deixa de vender seus produtos através de intermediários e conta com a participação de membros consumidores para a organização e o financiamento de sua produção, colaborando para o desenvolvimento sustentável da região e estimulando o comércio justo. Objetivos Novas formas de propriedade: a ideia que a terra deve pertencer e ser mantida pela comunidade, sendo arrendada pelos produtores. Novas formas de cooperação: a ideia que as redes de relações humanas devem substituir o sistema tradicional de empregador/empregado. Novas formas de economia: ideia que a economia não se deve basear apenas no aumento do lucro, mas sim nas necessidades das pessoas que estão dentro da empresa. Como funciona uma CSA (Exemplo)? ______________________________________________________________________________ Universidade Aberta do Piauí | Núcleo de Educação a distância | Universidade Estadual do Piauí Curso: Bacharelado em Administração Disciplina: Gestão de Cooperativas e Associativismo Professor: Fabrício Carvalho Período letivo: 2022.1 5 ASSOCIAÇÕES E COOPERATIVAS Por ser o associativismo a doutrina básica ou inspiradora dos modelos organizativos de base coletiva, costuma haver alguma confusão na hora de escolher um modelo ou outro. Essa confusão é maior quando o objetivo da organização envolve atividade econômica. O objetivo deste conteúdo é apresentar diferenças entre associações e cooperativas de modo a possibilitar um melhor entendimento sobre ambas e, assim, orientar quanto à escolha de um ou outro modelo. A diferença essencial está na natureza dos dois processos. Enquanto as associações, capituladas no artigo 53 e seguintes do Código Civil Brasileiro, são organizações que têm por finalidade a promoção de assistência social, educacional, cultural, representação política, defesa de interesses de classe, filantrópicas, as cooperativas têm finalidade essencialmente econômica, seu principal objetivo é viabilizar o negócio produtivo de seus associados junto ao mercado. A compreensão dessa diferença é o que determina a melhor adequação de um ou outro modelo. Enquanto a associação é adequada para levar adiante uma atividade social, a cooperativa é mais adequada para desenvolver uma atividade comercial, em média ou grande escala, de forma coletiva. Essa diferença de natureza estabelece também o tipo de vínculo e o resultado que os associados recebem de suas organizações. Nas cooperativas os associados são os donos do patrimônio e os beneficiários diretos do ganho que o processo por eles organizado propiciará. Uma cooperativa de trabalho beneficia os próprios cooperados, o mesmo em uma cooperativa de produção. As sobras, que porventura houverem das relações comerciais estabelecidas pela cooperativa, podem, por decisão de assembleia geral, serem distribuídas entre os próprios cooperados, sem contar o repasse dos valores relacionados ao trabalho prestado pelos cooperados ou da venda dos produtos por eles entregues na cooperativa. Em uma associação, os associados não são propriamente os seus “donos”. O patrimônio acumulado pertence à associação e não aos seus associados. No caso da sua dissolução, deverá ser destinado a outra instituição semelhante, conforme determina a lei. Os ganhos eventualmente auferidos pertencem à sociedade e não aos associados, que deles não podem dispor, pois, também de acordo com a lei, deverão ser destinados à atividade fim da associação. Na maioria das vezes, os associados não são nem mesmo os beneficiários da ação do trabalho da associação, assim como não há entre os associados direitos e obrigações recíprocas. A associação tem uma grande desvantagem em relação à cooperativa, ela engessa o capital e o patrimônio; em compensação, tem algumas vantagens que compensam grupos que querem se organizar, mesmo para comercializar seus produtos: o gerenciamento é mais simples e o custo de registro é menor. Outro ponto a destacar é que a qualidade de associado é intransmissível se o estatuto não dispuser o contrário. Em sendo o objetivo econômico, o modelo mais adequado é a cooperativa. Veja a seguir um quadro que mostra as principais diferenças entre associação e cooperativa: 01. Remuneração dos Dirigentes ASSOCIAÇÃO COOPERATIVA Não são remunerados pelo desempenho de suas funções. Recebem apenas o reembolso das despesas realizadas para o desempenho dos seus Podem ser remunerados por retiradas mensais de pró-labore, definidas pela assembleia, além do reembolso de suas despesas. Não possuem vínculo ______________________________________________________________________________ Universidade Aberta do Piauí | Núcleo de Educação a distância | Universidade Estadual do Piauí Curso: Bacharelado em Administração Disciplina: Gestão de Cooperativas e Associativismo Professor: Fabrício Carvalho Período letivo: 2022.1 6 cargos. empregatício. 02. Destino/Distribuição do Resultado Financeiro ASSOCIAÇÃO COOPERATIVA As possíveis sobras obtidas de operações entre associados serão aplicadas na própria associação. Não há rateio de sobras das operações financeiras entre os sócios. Qualquer superávit financeiro deve ser aplicado em suas finalidades. Após rateio em assembleia geral, as sobras são divididas de acordo com o volume de negócios de cada cooperado. Deve recolher o IRPJ sobre operações de terceiros. Paga as taxas e os impostos decorrentes das ações comerciais. Há rateio das sobras obtidas no exercício financeiro, devendo antes a assembleia destinar partes ao Fundo de Reserva (mínimo de 10%) e FATES – Fundo deAssistência Técnica, Educacional e Social (mínimo de 5%). As demais sobras podem ser destinadas a outros fundos de capitalização ou diretamente aos associados de acordo com a quantidade de operações que cada um deles teve com a cooperativa. 03. Escrituração Contábil ASSOCIAÇÃO COOPERATIVA Simplificada e objetiva. A escrituração contábil é mais complexa em função do volume de negócios e em função da necessidade de ter contabilidades separadas para as operações com os cooperados. É específica e completa. Deve existir controle de cada conta capital dos cooperados e registrar em separado as operações com não cooperados. 04. Obrigações fiscais e tributárias ASSOCIAÇÃO COOPERATIVA Deve fazer anualmente uma declaração de isenção do Imposto de Renda. Deve, porém, declarar a isenção todo ano. Não está imune, podendo ser isentada dos demais impostos e taxas. Não paga imposto de renda nas operações com os cooperados. No entanto, deve recolher sempre que couber Imposto de Renda na fonte e o imposto de renda nas operações com terceiros. Paga todas as demais taxas e impostos decorrentes das ações comerciais. 05. Fiscalização ASSOCIAÇÃO COOPERATIVA Pode ser fiscalizada pela prefeitura municipal (Alvará, ISS, IPTU), Fazenda Estadual (nas operações de comércio, INSS, Ministério do Trabalho e IR. Igual à associação. Poderá, dependendo de seus serviços e produtos, sofrer fiscalização de órgãos como Corpo de Bombeiros, Conselhos, Ibama, Ministério da Saúde etc. 06. Estruturas de representação ASSOCIAÇÃO COOPERATIVA Representada pelos associados em ações coletivas de seu interesse. É representada por federações e confederações. Pode constituir órgãos de representação e defesa, não havendo, atualmente, nenhuma estrutura que faça isso em nível nacional. Pode representar associados em ações coletivas de seu interesse. Pode constituir federações e confederações para sua representação. ______________________________________________________________________________ Universidade Aberta do Piauí | Núcleo de Educação a distância | Universidade Estadual do Piauí Curso: Bacharelado em Administração Disciplina: Gestão de Cooperativas e Associativismo Professor: Fabrício Carvalho Período letivo: 2022.1 7 07. Dissolução e Liquidação ASSOCIAÇÃO COOPERATIVA Definida em Assembleia Geral ou mediante intervenção judicial, realizada pelo Ministério Público. A dissolução é definida pela Assembleia Geral. Pode ocorrer a liquidação por processo judicial. Nesse caso, o juiz nomeia uma pessoa como liquidante. 08. Patrimônio/Capital ASSOCIAÇÃO COOPERATIVA É formado por taxa paga pelos associados, doações, fundos e reservas. Não possui capital social. A inexistência deste dificulta a obtenção de financiamento junto às instituições financeiras. Toda associação com personalidade jurídica é dotada de patrimônio e movimentação financeira, porém não poderá repartir o retorno econômico entre os associados, uma vez que será usada no fim da associação e nunca está sujeita à falência ou recuperação econômica. Os bens remanescentes na dissolução ou liquidação deverão ser destinados, por decisão da Assembleia Geral, para entidades afins. Possui Capital social, facilitando, portanto, financeiras. O capital social é formado por quotas partes podendo receber doações, empréstimos e processos de capitalização. Os bens remanescentes, depois de cobertas as dívidas trabalhistas e com o Estado, depois com fornecedores, deverão ser destinados a entidades afins. Em caso de liquidação, os associados são responsáveis, limitada ou ilimitadamente (conforme os estatutos, pelas dívidas). ADMINISTRAÇÃO DE COOPERATIVAS AGRÍCOLAS A necessidade de profissionalização da gestão das organizações cooperativas não é um tema recente. Com efeito, desde antes da constituição da Cooperativa dos Probos Pioneiros de Rochdale, já haviam iniciativas mal sucedidas de gestão de cooperativas, visto que a história cita exemplos de cooperativas constituídas e que encerraram suas atividades por problemas econômicos e sociais. Pesquisas indicam que em torno de 3/4 das cooperativas possuem algum tipo de problema considerável de gestão, principalmente no que diz respeito aos aspectos financeiros. Os problemas de planejamento financeiro tem constituído uma das fragilidades principalmente no ramo agropecuário. Aproximadamente 75% das sociedades cooperativas criadas apresentam sérios problemas de administração, principalmente no que diz respeito ao fluxo financeiro (capital). Outros motivos, também, contribuem para esse alto índice. A sociedade cooperativa caracteriza-se como empresa, organização dinâmica, inserida no ambiente, e que interage com o meio, onde são encontrados recursos materiais (bens, máquinas, equipamentos, mercadorias, construções); financeiros (compra, venda, dinheiro) e humanos (pessoas) com os quais há uma relação de diversas formas. Para poder atingir o equilíbrio do negócio, é necessário ter uma equipe de alto desempenho. Algumas vantagens são facilmente identificadas quando se trabalha em equipe. Uma destas vantagens está relacionada com a agilidade de informações e em seu uso. A dinâmica é muito rápida e todos têm que estar afinados no comprometimento da sociedade e de suas funções. Outra vantagem do trabalho em equipe consiste na riqueza das ideias do grupo, que são mais elaboradas e de mais qualidade porque se baseiam em apresentações de diferentes visões. ______________________________________________________________________________ Universidade Aberta do Piauí | Núcleo de Educação a distância | Universidade Estadual do Piauí Curso: Bacharelado em Administração Disciplina: Gestão de Cooperativas e Associativismo Professor: Fabrício Carvalho Período letivo: 2022.1 8 Uma terceira vantagem deste tipo de trabalho pode ser relacionada com a tendência de assumir maiores riscos, porque a responsabilidade pelos resultados é compartilhada por todos. Por último, também está a vantagem relacionada com comprometimento. Quando o trabalho é participativo, todos se sentem responsáveis pelo resultado e engajam-se no processo. Uma equipe de alto desempenho tem que ter pessoas preparadas para orientar, coordenar e acompanhar o esforço de todos para os mesmos objetivos. O sucesso ou fracasso da empresa cooperativa depende de vários atores na organização, como o dirigente, (que é o líder escolhido democraticamente pelos associados), o seu conselho administrativo e seus funcionários, porque eles são, diretamente, os responsáveis pela condução, tomada de decisão e pela implementação de projetos. Para a empresa ter organização, direção e controle, é necessário possuir uma administração profissional bem preparada e em sintonia com os anseios dos seus donos e as exigências do mercado. No setor cooperativo, geralmente quem administra a empresa, até por razões legais como já foi mencionado, é o associado que, na maioria das vezes, é uma pessoa que possui facilidade nas relações pessoais, mas nem sempre reúne as qualificações específicas da área. Assim, surge uma forte necessidade de se buscar uma administração mais consistente, ágil e conectada com os acontecimentos do mercado, não esquecendo o foco principal, que são os resultados, inicialmente planejados pelos cooperados. Neste ponto, pode-se complementar, observando que a tendência é predominar nas organizações cooperativas, modernos complexos empresariais, com estrutura fluída, parceria estratégica, capital intelectual, cada vez mais importante, trabalho em equipe e marketing em rede de multimídia. Bem, como sabemos, para serem ágeis e competitivas as cooperativas precisam estar permanentemente atentas às tendências do mercado e evoluções tecnológicas. Esta tarefa deve ser realizada, se os gestores eleitos não possuírem as qualidades profissionais indispensáveis para as necessidades da organização, com a contratação de profissionaisexperientes, ou pela formação de colaboradores. Por isso, em vários estados, as OCEs – Organizações Cooperativas Estaduais, oferecem às cooperativas, através de parcerias com instituições de ensino superior e empresas de treinamento, oportunidades de melhorar a qualificação profissional de seus membros. Estes cursos, treinamentos, entre outros, são imprescindíveis, pois é impossível pensar em cooperativas sem uma gestão profissional. Observa-se que as cooperativas com maior nível de profissionalização, apresentam resultados maiores em relação às demais cooperativas, os indicadores econômicos e financeiros geralmente são os melhores e seguem uma tendência de crescimento ainda maior. Na mesma linha, as decisões de investimento nas cooperativas profissionalizadas obedecem aos requisitos básicos de análise de retorno do capital investido, considerando, taxas, prazos e valores de retorno, o potencial de mercado, a capacidade de financiamento próprio e o grau possível de endividamento. No Rio Grande do Sul, já existem muitas cooperativas trabalhando com planejamento estratégico, metas, monitoramento, uso de assessoria externa, entre outras medidas que caracterizam uma gestão profissional. Estas ações são essenciais para identificar os movimentos do mercado e traçar estratégias a partir dos diagnósticos precisos e consistentes. ______________________________________________________________________________ Universidade Aberta do Piauí | Núcleo de Educação a distância | Universidade Estadual do Piauí Curso: Bacharelado em Administração Disciplina: Gestão de Cooperativas e Associativismo Professor: Fabrício Carvalho Período letivo: 2022.1 9 Por outro lado, cooperativas que não têm bom trabalho de gestão tendem a repetir práticas ineficientes, sem conseguir fazer as mudanças necessárias. Cooperativas com gestão mais restrita, não conseguem identificar as oportunidades, nem se adaptar rapidamente a mudanças e possivelmente trabalha com resultados negativos, deteriorando a situação econômico-financeira e diminuindo o patrimônio da cooperativa e dos associados. Além disso, os gestores devem monitorar o equilíbrio entre os interesses dos associados e das necessidades da organização. Por isso, em uma cooperativa não deve haver apenas ganhos para os produtores. A saúde financeira das próprias cooperativas também é essencial. As cooperativas precisam buscar o melhor resultado para o associado, mas também para si, para que possam continuar crescendo e ter suporte nos momentos de dificuldade no mercado. É muito importante desmistificar a questão dos resultados econômicos numa cooperativa: se ela não tiver excedentes econômico-financeiros para, no futuro, poder enfrentar momentos adversos, terá muitas dificuldades em sobreviver. Em uma análise preliminar, sobre os problemas que hoje permeiam o sistema cooperativo, através de informações atualmente disponíveis, pode-se inferir que algo em torno de 90 % (noventa por cento) das cooperativas tem problemas de ordem cultural, ou seja, pouco ou deficiente conhecimento do que é o cooperativismo e como praticá-lo nos processos de empreendimento econômico. Também, em 70 % (setenta por cento) delas identificam-se problemas de profissionais que não possuem perfil e qualificação para gerenciar um empreendimento como o negócio cooperativo, faltando treinamento adequado, capacitação, uso de ferramentas ou falta de tecnologia adequada para bem gerir. Enfim, em torno de 50 % (cinquenta por cento) das cooperativas existem problemas financeiros relevantes, decorrentes da falta ou fragilidade no planejamento. Em cooperativas, projetos com boas perspectivas de mercado, acabam sendo desativados frente a diversos problemas que vão surgindo no dia-a-dia. Nada muito diferente das empresas com fins de lucro operantes no mercado. Afinal, cooperativa também é um empreendimento econômico suscetível às alterações do mercado. Encontrar soluções que atendam aos valores e princípios do verdadeiro cooperativismo é uma questão imediata, que significa um grande desafio e não pode ser negligenciada por esta nova categoria profissional que está surgindo: O profissional formado em gestão de negócios cooperativos. O gestor de cooperativas atual é um profissional formado em diversas áreas, com conhecimentos na prática cooperativa, forçado, em muitas vezes, a se adaptar a uma nova realidade de sistema de trabalho. Preparar um novo perfil de formação de gestores, com uma visão mais reflexiva sobre o sistema, e com habilidades e competências para solucionar os problemas do dia a dia, planejando e operando o funcionamento da organização, pode ser uma forma de reverter os índices de fracasso do setor cooperativo. Também no sistema cooperativo, como em qualquer outro tipo de sociedade, presenciamos extremos. Se, por um lado, identificamos sociedades cooperativas que demonstram desenvolvimento digno dos melhores do mundo (e há vários exemplos), por outro, nos deparamos com inúmeros sócios-cooperados que ignoram os seus direitos e deveres, displicentes, e que estão navegando à mercê dos ventos. Quando favoráveis, são omissos, deixando que o negócio viva sem controle e quando desfavoráveis, reclamam da sua organização e de seus gestores e, ainda assim, sem se envolver em uma atuação que contribua efetivamente para o sucesso do seu negócio. ______________________________________________________________________________ Universidade Aberta do Piauí | Núcleo de Educação a distância | Universidade Estadual do Piauí Curso: Bacharelado em Administração Disciplina: Gestão de Cooperativas e Associativismo Professor: Fabrício Carvalho Período letivo: 2022.1 10 A questão cultural, instalada nesse meio também deve ter atenção dos profissionais de gestão cooperativa. O cooperativismo como essência de pensamento e modo de vida, embora intrínseco da natureza humana, precisa de estímulo para produzir seus efeitos, com forte trabalho educativo. Esse profissional precisa entender as questões culturais dos associados, de temas econômicos e sociais. Também, precisa entender, de políticas públicas e de temas relacionados ao meio ambiente e educação. Ela precisa usar esses conhecimentos para projetar uma cooperativa, considerando sua viabilidade econômica. Levar em conta também as necessidades da comunidade e suas condições de vida para determinar as atividades que serão oferecidas à população, o espaço físico, a cidade e o bairro em que será instalada, é relevante. Esse profissional pode ainda orientar os associados a gerenciar a cooperativa, de modo a promover o desenvolvimento social e econômico ou ocupar o cargo de gerente ou presidente.