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439743
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Estelle M. Morin . caroline Aubé
PstcoLoGlA
E GEsTÃo
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4.o
'( ..
A percepção
Uma das funções impoÍtantes da administra-
.ril c a tomacla de decisão. Ora, quando se lorna
,,la decisão, a questão da objetividade se coioca
'.,:almenre. De que maneira se pode garantir a ob-
:::,,'iclarde de uma decisão? E, no caso em qlle esta
::,;isão concerne ao trabalho de uma equipe, ou
.: refletirá nas pessoas, de que maneira se conse-
." j3 compreender as diferenças de opinião, e como
:i'á-las em conta no momento da tomada de de-
:.ião? A compreensão dos mecanismos da per-
,=pcão e a compreensão da inteiigêncra huntana
:'jpresentam um instrumento importante para se
.":sponder a essas questoes. Esre capítu1o tem por
:.1etivo descrevcr e expiicar os mecanismos qrle
::rmitem à pessoa entrar em rclaçãcl com os or1-
^:-es, interagir com seu meio e se adaptar a ele. Na
;rineiça parte do capírulo, o problema da objeti-
', idade e da origem do conhecimento é cliscutido
rsra que se capte melhor a importância dos con-
:itos percepçào e inreligência. A segunda pane
:uoduz as noções de sensação, de percepção_ e de
:lgnição para facilitar a compreensão clos concei-
:.s em foco. A terceira parre expôe a importâncla
:o sistema nelvoso na compreensão das ativiclacles
..'rceprir.as. A quaga parrc aprescnLa as ariviclades
:rentais que intervêm no ato c1e perceber; essa par-
Consciência, conhecimento e imagrnacão sáo as
caracteristicas stngulares da especie humana.
L,reor r (1 97 4, p. 2A')
te lgm por objetivo explicar como a pessoa percebe
o contexto em qlle vive, o papel que sua própria
ativ'ldade aí desempenha e a importância que pocle
!!1 sLra própria subjernidade. A quinra parre rrata
dós erros de percepçào: a iclenrilicaçào das infc-
rcnciirs e clas at:vidadcs responsár'cis por esses ei.-
ros per ntitc corrigi-los. ou ao menos compensá-l,rs.
A (1tiq1a parte do capítulo apresenta uma compe,
tência inrportanre em admínistraçào. a emparia.
ou a capacidade de cornpreender o ponto de vista
dos outros. Essa facr-rldade se revela muito útil nas
relações profissionais, relações em qlle é pr:eciso
colaborar para encontrar soluções para problemas
simples ou complexos. Porem, antes de explorar
mais a fundo os mecanismos da percepção, faça-
mos um exame rápido dessa noçâo, bem como das
várias concepções que algr-ins pesquisadores e pen-
sadores, que deixaram sua marca nesse ciomínio,
têm a respeito dela.
Da consciência ao conhecimento
O conceito de percepção esrá, há mr-rito rem-
po, r,inculado ao problema clo conhecimento. Des-
de a Antiguidade, a começar por platão (427^347
54 psicologia e gestão . Morin e Aubé
a.C.) e Aristóreles (384-327 a.C.), os filósofos se
interrogaram sobre algo que constitui uma carac_
teristica essenciaj da espécie humana, a busca de
conhecimento. Segundo Anstóreles, os sentjdos
fornecem os elementos necessários ao conheci-
mento e a razâo os organiza, para torná_lo, int"
ligíveis. Essa maneir, ,i" .onceb". u .rp".rtuçao
sobre o conhecimenro marcou profundamente o
pensamento científico moderno: existe um mundo
ob.ietivo, uma verdad
ro da pesso, 0," "0,::i Tll':l:;ii "ri::ff';fonte de erros.
prova que o que vemos é produto de nossa ex1
riência sensorial (convicção), e não fruto de nos
imaginação (persuasão) ?
Da perspectiva do ceticismo radical, se dique a pessoa não pode estar absolutamente c€ta de alguma coisa; da perspectiva do senso c
mum se dirá, em vez clisso, que se pode esrar cer
de alguma cor'sa mesmo quando essa certeza nê
é absolura. para Denjs (1989), o problema não
tanto saber se as representações são verriacieir;
ou falsas, mas saber se elas são utilizadas efica:
menre pelo indivíduo para regular seus compor
tamentos.
No texto clássjco apresentado no final dest,
capítulo, Laing et al. (1966) demonsram que ;
percepção é produto de rrês farores: (1) do própri<
estímulo; (2) da interpretação do esrímulo graçal
as atividades cognitivas; e (3) dos fenômenos psí 
.
quicos associarios a esse estímulo, como a proje_
ção. Na verdade, é possível perceber aiguma coisa
sem qlle haja esrímulo aparente, isto é, perceptível
para um observador. E isto não é um sintoma de
doença mental, mas de imaginação.
A objetividade e a subjetivid.ade
O problema da objerividade e da subietividade
continua a ser muito discutido no meio erudito e
também no ambiente de trabalho, onde as pessoas
são chamadas a fomar clecisôes. Na verdarie, todo
o campo da resoluçâo de problemas e da toma-
da de decisão se defronta com os problemas colo-
cados pela subjetividade e com a iossibilidade de
tornar os processos de resolução de problemas ede tomada de decisão mais oúletivos, Enrreranro,
quando se olha mais de perro a questão da obje_
tividade e da subjetividacie, percete,se que o ver_
dadeiro problema reside no fato de que se iiga a
obietividade à neutralidade, à imparciali<,lade, àyerdade única e inteira, e a subleiividade ao ar-
bitrário, à desigualdade e à imafinaçao. Trara-se
mais de um probJema moral do que de um proble-
ma epistemológico.
Por outro lado, quando se concebe a ob-jetivi-
dade como a qualidade clo que é rea1, do que existe
independentemente do espírito quu p"r."b., colo-
ca-se a questão da existência mesmo da realidade,
daquilo que consdtlri as coisas, dos fatos que es-
tão presentes no contexto e podem ser percebidos
por todos. Além disso, o problema do conhecimen-
to está também em que não conseguimos nos en_
tender sobre o gue é a realidacje.. ô qr" garante à
pessoa que o que e1a percebe e real? O faro de se
poder tocar alguma coisa pocleria ser uma respos_
ta, porém a realidade não se apresenta unicamen-
te sob formas tangíveis. Muitas coisas sâo senddas
por outros receptores menos confiáveis; é o caso,
entre ourros, da vista (DIXON, 19BS). E o que nos
O problema da realidade dos fenômenos já foi
levantado por platâo na narativa sobre os homens
aprisionados em uma caverna, que expomos bre,
vemente no destaque 2.1, narrativa que explica a
natureza do espírito humano e do conhecimento.
Nessa história, platão conta que os homens
tomam as sombras
caverna onde se "".:::.;rTr:lTnj;;:1" 
j:
jetos reais e se exercitam procurando diferenctá-
los e lembrar-se da sequência de seu surgimento.
Ele explica, em seguida, o que acont..".iu se um
desses homens fbsse livre e puclesse sair da caver_
na. Inicialmente, esse homem sofreria, pois deve_
ria utilizar faculdacles que, até entâo, tinham sido
foustradas mâs, a partir do momento em que to_
masse consciência de que as sombras eram apenas
o reflexo de olltras coisas, ele não poderia mais
acreditar na reaiidade delas e nem poderia voltar
a viver na caverna com â Tnêcmâ i,.^^^,^-
ti nha an terio.*",rr",'#,: j:::31, *t:T[X:.t;:
conhecer e descobrira o rnundo qua o a"..u.
Para conhecer, o indrvíduo se fia em sua per-
cepção, ou seja, na aparência das coisas tal como
I
í
I
l
.PL-
'ssa
.ri percebe. À maneira clos prisioneiros da caverna
':,.:e acreditavam que as sombras sobre a parer1e
:iam reais, o indiúduo tem confiança na qparên-
:,a das pessoas e das coisas tal como elas são per-
,:'bidas pelos sentidos.lEssas aparências são ape-
ras ilusões mas, apesar de tudo, seryem para que
,* conheça; eias servem como hipóteses sobrc o
;ile se passa aqul e agora e como crença a respei-
rr da realidade. A convicçâo de que as coisas são
-;mo elas aparecem na consciência torna possível
r atividade da razâo, ou seja, faz com que seJa pos_
.,-,'el conhecer e julgar as percepções, distinguir os
rlietos e apreender a signilicação deles. Em resu-
:o, a inteligência, no sentido de platão, é o poder
:e aprender e de pensar por si mesmo, um pouco
.-rmo o homem livre que viu a luz do dia.
rA ilusão da certeza é expllcada não apenas
ro plano pgicológico mas também * e sobrerudo
* no plano ._biológico, Segundo Dixon (1985), a
:onsciência produzida pela percepção gera fatal-
nente o sentimento de objetividade, e três 1ãtores
,,-xplicariam esta ilusão. Em primeirolugar, o indi-
i'iduo não tem consciência de todas as atividades
Co sistema nervoso; quando ele percebe, não tem
ionsciência de todos os dados sensoriais que esti-
GEEEEEEFI& o "u".n,,u,,,,,o
A percepção 55
mulam os receptores nem do tratamento a que o
cérebro submete tais dados. Como veremos nes-
te capítulo, o sistema nervoso é responsável pela
transmissão dos dados sensoriais até o cérebro e
por sua organização, que objetiva proreger a vida
do indivíduo e assegurar seu desenyolvimento no
ambiente em que vive.
Em segundo lugar, o indivíduo que percebe al_
guma coisa rampouco está consciente da informa_
ção já memorizada que se ajunta aos dados senso-
riais para completá-los, corrigi-los, e lhes ciar um
sentido; em outras paiawas, ele não está conscien-
te dos sistemas de representação que são utiiiza-
dos para construiÍ as imagens presentes em seu
espírito (DENIS. i9B9). Isto é evidente: quando
olhamos um objeto, não nos damos conta das ati-
vidades de reconhecimento e de organização efe-
tuadas pela inteligência. Veremos neste capítulo
qr,ie a memória c as atividades da inteligência sâo
imprescindíveis para se descobrir um sentido na
experiência imediara.
Em terceiro lugaE o indivíduo não rem cons-
ciência dos rnecanismos da percepção subliminar
que incorporam dados sensoriais à representação
Írá
:D.
TÍ3
ão
é
1)
Z-
r-
e
1
,
i
Suoonna alguns homcns em uma ryro.arja subtor.Jnea, onr
{o'ma dc caverna, cula entrada core por toda à suà e.{er,áo
abrindo para a luz do dia toda a caverna. E es estáo lá desde a
iníáncja, as Ílernâs e o pesco(o oÍcsos oo. corerrtes qJe ôs
obrigam a olhar somente à fre,rle, iqcapazes que sào de virar
a cabeça oor càusâ dos grilhôes À ,r.lz de uma log-ei16 qse
arde numa elevação e à distârcra lhes cheqa por tiás, e entre â
{ogrleira e os nomens acorrenrarjcrs. passa-um cdrntnho aÕ
longo do qual um peq.ueno muro foi levantado, semelharrte
aos tabiques que os àpresentàdores rje marioneres utrlizam
para separá-los do púbtrco e por crma dos quais exrberr suas
haoilroades (p J5it. J.. l
Pata começar, você acredita que esses homens poderram ver
alguma coisa além de s, mesmos e cJos o,_itros cile náo fosse
ds sombÍas proletadas pelo fogo sobre a parede da (averna
d;ante de/esz f ..J
Entào, se eles quisessenr f3l3r í13n63n1srr1e rrns com os
oulros. você nào acha "1ue eles Lorsíderdndm o quc v?em
comooqueerealmênte?
Analise entáo o que se passa-ia se os liocrlássemos de ser.s
grithÕes (p 157-J58) l .l
Cada vez que um delcs Íosse sorto, se'râ oblqddo d:i.,
levantár irnediatamente, a volver a cabeça, a ólhar a luz, e
oic soí,eriê a cada um desses ges:os. c o o,uscdÍento o
tcrnariâ tncapaz de drstrnguir as coisas, coisas cie que, há
pouco mesnlo, eie via as sombras | ] Você r"lao acha que
ele ficaria desr'roareado e consideraría que as coisas que via
ate pouco rempo dlras era-n rna,S verdadeiras do c,je as
coisas que vê agora? (p 358-359). t ..l
Sim, creio que ele teria necessidade de se habituar pôra ver
as Lo sas la de cina Pa:a 666psç6., ele <J,stinquir,a mars
{acilngnlp as somoras e d:poi< di5so as águas. as in,aqens
dos homt ns e as das or1'65 .s3liiades eue netas se
reÍletem, e mãis tãrde ainda veria as próprias realidades. Ern
sequida, ele seria capaz cle, à noite, voltando os olhos para
a luz oos astros e cia Iua. co.tremplar mais facilmente os
oojetos qirc estáo no ceu, e o própr,g ceu do que. drrrante
o dia, çt53r o sol e à tuz do col Í...i
Vas, drga rne vocô náo acha que, Ierrb.ando.se de sua
prime;ra morada e da sab"doiia ' cjc Ià. e de seus
companhorros de entác, ele :e sert,ria ,eliz com a
rnud.tnÇa eneuênto seus rompannerros o lastimarra,n? íp.
3sq-360)
tonte: Plàtáo 427,347 a.C.
(Ediçôes GaÍlimard, 1 993)
Como acabamos de ver, o problema do conhe-cimenfo reside, entre olltras coisas, na distinçãodo reat, togo rlo objerivo, 
" o;;;;;;Jr, rngo aosubjetivo, EIe consisre ranrbém .*'.o*p.".na".
os mecanismos de aquisição e de desent olr,imentodo conhecimenro. euanrà u.rr" r;;;;, ; duas hi-póreses: ou o ser humano vem ao mundo com umamemórja virgem e adquire .ont..irn"ntl, gruçu, asua arividade, ou o ser humano nrr.;;;; conhe_cimentos elementarr
ve ourros .nnh*.i*fi,;r:*"t 
dos quais desenvol-
A origem do conhecimento: oempirismo e o ínetismo
Para Descartes (1596_1650), apenas os ele-mentos psrcofísicos dr
te d o conhe ;;;;". l::ffi :::;r::':::::ri#::
velmenre, na ongem oa psicnfisiJtà*, 0,,".0,r",j:::::* das relações enrre as anvrdarles fisioló_
ff: i{]F,ti*T,:lTi::-i,:::,:t :xxl:menros). O progresso cla psicofisioiogiale.mitiu.
ademais, compreender as bases neurofisiológica:
da percepção e c1a inteligência.
Descartes reconhece o valor cla informaçãodita objerrva, da informaçao p.uu.n,J,.,o ,rr"io cir_cundanre, isto é, dos daclos sensoria,s. àànria"ran-
do-se o fato cre que os receptores sensoriais sãocontinuamente estimulados ior u., p"n.u O. in-fbrmaçoes sobre o ambienre, po.l"_o, no, pergun_tat'que rleios e me,
conse gu ir corocar fi:il'::;,TITIJ IJ:ff ::produzido pela sensaçâo.
Para empirisras como Locke (1632 -1704) eHume (17L1 7776), a percepção faz associaçõesde dados sensoriais regidas por leis de similitude(parecido,/diferente) e de càntiguiaJa"".rpn.irl_
temporal (acontecin
s eri a m aprenrli d as,:T:::H::L,,i;,ll:l;,t:
indivíduo em seu ambiente.
Kant (1224-1804) dá uma explicação comple-tamenre diferente dos mecanir;", ;;;."ptivos,Segundo esse filósofo, o indivídu"-rrã O"O" 0..ceber alguma coisa cla qualJá ,ào ,1";;;u utgrniconhecimento. Exist' .
mentos inatos tais ."[:T 
"'J:X:J:'*J:]::::reciprocidade e, especialmenre, , ô;;;; o rern-po. Esses conhecimentos elementares fbrneceriam
à percepção estruturas que lhe permitiriam colocarordem no caos sensorial. o ,enriao lLr. "lrr'r".r,,-tem encolltrar na exoeriêncie .o-.^'_,^,---.-
,, i,, ; ;; ; ; ; ;# ;;: ";:,;::: j;"' "., a, g u i ari a as
56 pslcologia e gestào . Àtorjn e i\Lbé
mental do objeto percebido. Experiências sobre oconsulno de bebidas gasosas ou o consumo de pi_poca nos cinemas tenlaram demonstrar os eÍeitosda percepção subliminar: Ainda q;;r:. assunroainda seja objeto de controvérsias, esrá assentacloque o cérebro trata os dados sensoriais q,," *rtãoabaixo do limiar perceptívei.
,.., 
O estudo da percepção leva à comprecnsão
dos fenômenos da consciência, a quai consrirui aomesmo tempo o domínio das crenças c clas emo-
ções- e, consequentemente, da racionalidade dasconduras e da aferjvidade. Em g".of, l.'lrrocia aracionalidade à inrelígên.i, . u uf"ti"àoà" a *o,tivaçâo. I,lo entanlo, essas associações aplicam_se
lr:ff ::rjte., As. atjvida cl es co gnitivoJrào parua ruuJeu\.loade do indivíduo o qLte as arivjcladesafedvas são para a racionalidaa"'a. ,"r, .ompor-tamentos. Em outras palavras, o *r,rau à11";;;
çâo desvenda as atividad., ar'int.iigê;ir*" .olu.uem relevo a riqueza da subjedvid"aããã,na,",arq
3-!_t-3a",qu 
morivação rer,.eta ,, n".";;;;;es e oscampos cle inreresse da pessoa . urtrri.o llrr,.,de seus comporramen,o, no .";,;;;;"n., iu" *tuse encontra.
' Á ideia de que uma estrlltura mental possasenir para selecion
:':: i:;-1":,;,, *Í: ffi rffi:,j,?H #::loamos na introdução deste livrol,De u.iAo .o*essa reoria, a pessoa.que percebe um objeto cap-ta imediatamenre a significaçâo a"r.^",i"rruu ,oo
ll1rd" 
e o sentido que enconrm nul.-i*joe umaestrutura aos elemet
jeto por 
"."-Ã,"-il]il#il"il:f,T,j'llJl.be uma mesa, ele the atribui imediatamenre umaforml e uma função (é uma _"r;;;;;..f.ições);
essa forma e essa função serão dr;;;;il;;-ver o objeto (ela e rr
quarro pés etc,) 
^ 
;XlJ::, r*#::ff;,f,'#lei importante no estudo do pensamento: o todoj: to*irl é mais que a soma das paües (dos ele_mentos). par"a compreender 
" ,"nrra" qu.* ood.
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:- *:: obieto ou um fenômeno para uma pessoa,
:::::s0 saber como ele se apresenta no campo
,; -',:;-iciência dessa pessoa, já que é a forma que;.:. :j relaçôes entre os elementos desse objeto ou
ri)* aenômeno que possui um seltrido para ela, e
..:i ÊlÊmento não pode ser compreencldo senào
,:,{s reiações que tein com a forma. Dessa ótica,
,, .:rnentos sensoriais não são os elementos es_
-:,:rantes da experiência consciente, mas os ele_
::,.:,:*s estruturados pelo campo da consciência. A
' .*1- À^ __---1,: rÍa da gestab permitiu compreender e valorizar
FeÍrepÇão e a subjetividade humanas.
"{ percepção consritui um objeto de estudo
:- ::i0 aÍ1tigo, e as teorias propostas para compreen-
'.='.a se inspiram na filosofia, na psicofisiologia e
- : :sicologia da gesrolt. Arualmente, as pesquisas
i -:re a percepção estão associadas à psicologia
- - :nitiva.
Os estudos sobre a percepção colocam em evi_
:iilcia as riquezas do pensamento, ou a faculda_
:: da imagrnação criativa, como a chama Laborit
i!70b) quando fala da faculdade cie reestruturar,
:lda vez de ntodo original, as experiências e os
:i:lhecimentos adquiridos no decorrer de sucessi-
' .ts geraçôes. Com efeito. a culrura desempenha
:m papel essencial nas arividades perceprir:as, já
:ue é ela quem fornece os conhecimentos neces-
.{ Ferc-rc. .)
sários para encontrar sentido nas experiências da
exis tência.
,J9an Piag-et foi um dos pioneiros da explora-
ção dos mecanismos perceptivos; pBra ele, o co-
nhecimento não se desenvolve apenas a partir dos
dados sensoriais, mas rambem a parti; cie tocla
uma ação desenvolvida pela pessoa que quer saber
e aprender. Nós veremos que a.percepção ge baseia
em atividades complexas, que prefiguram as arivi-
dades da inteligéncra.
A percepção constiruiJ por conseguinre, um
processo essencial à aquisição do conhecimenro e
para o desenvolvimento da consciência. Ela garan_
te o contâto direto e imediato enrre a pessoa e seu
ambiente, e isso permite à pessoa tomar consciên-
cia de suas necessidades e das oportunidades que
o ambiente the oferece de atendê-ias. A percep-
ção permire à pessoa adquirir conhecimenros so-
bre si mesma e sobre seu ambiente; permite que
ela transforme este último de maneira a atender
suas necessidades e se adapte ao seu ambiente e aí
se clesenr.oiva. É preciso toàavia nâo esquecer que
a percepção se inscreve na estrutura do compor-
tamento e não pode, sozinha, explicar a interação
entre a pessoa e seu ambiente. Apesar disso, ela
constitui um processo essenciai, porque permite a
apreensão do real, isto é, traz o conhecimento sen-
sír'ei desse real.
A apreensão do real: a sensação, a percepção e a cognição
Perceber náo é experÍmentdr uma tnftnidade de lmpressoes
que trariam com e/as lembranças capazes de completa-las,
perceber e ver jorrar um sentldo imanente de uma constelaçào
de dados, sern o qual nenhum recurso às lembranças e possível.
p3t9 de percepção pressupõe duas coisaq: (1)
um cerpo capaz de perceber e de conhe_qçr; e (2)
uma pessoa conscienqe de seu coípo e de suas re_
lações gom o meio ambiente e que age com uma
intençáo, ou seja, de acordo com um"prolero pelo
menos consciente de um objerrvo a atingir.
Mrntuu Poaty (l 945, p. 30)
Para ter consciência de alguma coisa, é preci-
so, evidentemente, ser capaz de perceber essa ,,al-
guma coisa" com os sentidos e lhe atribuir uma
significação. Isso exige que os receptores sensoriais
estejam em bom estado; assim, um daltônico não
consegue perceber certas cores mesmo quando en_
5B Psicologia e gestão . Morin e Auhc
xerga com niüdez. perceber e conhecer depende,
além disso, do bom ftrncionamenro do cerebro. por
exempio, se as áreas associativâs do córtex visual
.sofreram um üaumatismo, uma p"rrou Ooa" 
"n-xergar alguma coisa sem conseguir saber o que vê.O sistema nervoso é um pouco corno o hard.ware
da consciência. pode ser úti.l saber como .t" frr,-ciona para compreender melhor a lógica do com-portamento humano.
para se ter consciência de alguma coisa, épreciso que se se,a capaz de triar 
-" 
d" ,.uru. o,dados sensoriais, para em seguicla encontrar umsenddo para o objero percebião. tsso imptica uUlizar esquemas de regulrçao, *.gudiretrizes oumegacrirérios que mal são conscientes (lÁlNG etal., 1966). Reromando a analogia do, ,irt*rrru, in-formáticos, diremos que a inteligência, de onde seoriginam esses es
represenra 
",rr*:l;];Xr.,,L:egarliretrizes,
A consciência é a síntese de todos os eiemen-
tos percebicios pela pessoa, .r.o.r_n" ), 
"rru o"r_.soa dar um sentido à sua experiência imediata,
concreta, e compreendê-la na continujdade de seupassado e err seus projetos futuros, em função desua personalidacle, de suas motivações e do con-texro em que vive. O resultado das ativiclades per-
ceptjvas constjtui o campo da consciência da pes-
soa, o que Lewrn (1950-lg7|) chama de campopsicoiógico e Saint_funaud (7974) de campo per_ceprual. Laing er al. (1966) urilizam o rermo ex-periêncía. Dixon (19g.5) emprega, de preferência,
a expressão cantpo f-enomenal pa.a fala. daquilode que a pessoa rem consciência aqui e agora,por oposiçã o ao campo subLiminal, q.," .o_p.u"n_
de todos os faros não percebiaor'puio 
O""rrou ouque são inconscient
nuenc i am rr", ;;;;T;,T": J: ".ffi :ã,:lã:,;
psicoló gíco, camp o percep tu aL, c amp o frr, ; ";r'í ;e4teríência são expressões sinônjmu, qr" fazemreferência ao conjunto dos fatos a. quã u pessoatem consciencia e que determjrr, ;;; :;r;;;:tamento. O inconsciente e composto por todos oselementos que não são percebidn, n"_ ,ro 0".-ceptíveis à pessoa, mas que, não obstanre, exer_cem uma inlluência em suas atitudes e conclutas.
Segundo Jung, ele seria constit.,i.io po, .ont",i_
ci()s primirivos, arcaicos, imaruros e e.xerceria uma
função compensarória em relação às atividades daconsciência.
A experiência conscienre que resulta das ari-
r,'idades perceptivas determina o .o*fo.rr;;;;
1" 
,n], pessoa em dada siruaçâo; 
"rr;'J;;;.;-ro axioma da teoria de Laing et al. (1966), apre_sentada no rexto clássico no final deste capítulo.
Em ourras palawas, o ser humano age, no momen-to em que age, em função daquilo ã" qr* ele remconsciênçia aquie agora (SAINTARNAi;, WT4).
A primazia da subjerividade enunciada aquinão quer dizer que os dados do meio ou o, funO_
menos inconscientes não sejam importantes, muitopelo contrário. Ela signifi.u qr" o .o*Oo*r*"n,o
cla pessoa e função do que ela percebe.
O segundo axioma da teorja de Laing et ai.(1966) esdpula que a experiêncja e o .onlpo.ru-
mento estão sempre em conexão com alguém, oualguma coisa, que não é o eu. Com efeito, é por
meio da relação com um objeto ou uma pessoa queo indivíduo molda sua identidade, aciara e dife-rencia suas percepções e, em consequer.irl"l",
adapta seus comportamenfos, E é por isso que sepode dizer que o comporramenro e'função da pes_
soa e do meio amtri
ção e cr e rerm,,,o ; Jl:',#ll'ilji;"lXl iiillil,res do contexto em
n u inuo a, eã; ; ;;;"HT iff illr",I}r}]T ; ;I"', pocle-se descrev
aj ud a.de q u aüo, r". ; : : ;Til Jjil] :ffi ;,T":por vários processos cle conhecimento; (1) a sensa-
çâo, (2) a percepção,.(3) a cogniçao, 
" i+l a mega-cognição (t"AIIvG et al., 1966; PINARD, 
'tóçZl
A sensação designa, em geral, um acontecimen_
to psicoiógico elementaq determinado pela atrvaçâo
de nrodalidades sensoriajs. Sua _onif"r,uçao no or-ganismo é global, imediata e indiferenciuà. a prh-
cipal função da sensação e reagir e informar o corpo
sobre o que se passa tanto no seu interior como noseu exrerior. Suas mensagens são fisiológicas. O fatode senrir produz uma mudança, um a"esel,ritfurio
o.: urn desequilíbrio potencial na esffutura áu .orrr-ciência da pessoa, que o esforço desenvolüdo para
saber o que se passa ajudará a restabelec". fluffn-LEAU PONry 194S). A sensação engendra a toma_
da de consciôncia de alguma coisa.
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a!i-
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":- A percepção é um processo que seleciona e
,-i:qaniza os dados sensoriais de maneira a encon-
::âr um sentido neles. A percepção é, por assim
ilizet uma atividade cognitiva que permire à pes-
i,râ captar de imediato, na enoÍrne quantidade de
lados provenientes de seu corpo e de seumeio,
:i sentido que une esses dados e thes é atribuído
,,IIEI{LEAU PONTY, 1945). As principais funções
:a percepção consistem em explorar o meio inter-
:o e externo (e sinalizar desequiiíbrios), em retra-
.;r ou configurar os dados sensoriais (figura, ima-
gem, forma) e preparar a ação (alimentancio as
llnções de antecipação da inteligência). Segundo
Piaget {797A), a percepção não é a simples leitura
:os dados sensoriais. Em vez rlisso, ela comporta
'.;ma organização ativa em que decisões e pré-infe-
:encias se intrometem e atestam a influência <las
nperações intelectuais desenvolvidâs. A percepcào
implica necessariamente atividades sensório-mo-
loras já que ela é, ela própria, uma experiência
sensório-motriz. A percepção engendra a consciên-
cia implÍcita.
A cognição é "o conjunto das atividades in,
ielectuais e dos processos que se reportam ao co-
nhecimento e à função que faz com que e1e se
efetive" (BLOCH et a1., 2002). O termo cognição
significa, simultaneamente, o conhecimento e o
processo pelo qual este conhecimento é adquiri-
do. Muitas expressões são utilizadas em psicologia
cognitiva para designar esse conccito; elas podem
ser substituídas umas pelas outras seur itrconve-
niente. Por exemplo, pode-se utilizar a expres-
são esquema de ação (Piaget), estrutura operaúvo
(Piaget, Neisser), noção, conhecimento, crença,
conceito (Changeux). Esses termos designam a
organização dos dados da experiência consciente
em um sistema equilÍbrado de relações interde-
pendentes. Segundo Piaget {1947, 7967), "cada
estrutura deve ser concebida colrlo unla forma
particular de equilíbrio, mais ou menos estável
em seu campo restrito, e que se torna instável nos
limites" (p. 13).
Em outras palavras, a cognicão e um conheci-
mento formacio de muitos elenrentos ligados en-
tre si de maneira coerente, como uma rede. A1-
guns elementos de conhecimento atlquirem certo
valor para a pessoa, eles se situam no centro da
rede e são relativamente perntanentes. Outros
. A perlepc,âo 19
elementos de conhecimento são instáveis; eles fi-
cam na periferla da rede e podem ser modificados
pela experiência. A cognição gera a consciência
explícita.
Tomemr:s como exemplo o conhecimento que
temos de gestão. A gestão é a ciência da adminis-
tração, da direção de uma organização e de suas
diversas funções. Podemos dizer que a gestão é
isso. Isso constitui o cenffo de nosso conhecimen-
to de gestão. Sobre essas ideias. outras se enxer-
tam. Por exemplo, a ciência é o estudo de alguma
coisa, um corpo de couirecimentos, um sayorr,râzr-
re, uma habilidade etc. A administracão está as-
sociada ao exercício das tunções de direção e de
controle, a aplicação das leis ou das diretrizes de
um governo, à ação de administrar um sacramen-
to, à ação de ministrar um remédio a alguém etc.
A direção de uma organização está ligada aos ne-
gócios, às pessoas que ela emprega, à iiderança, à
orientação das atlvidades da empresa, à sua mis,
são etc. As funções da gestão são a gesrão dos re,
cursos humanos, a contabilidade e as finanças, a
gestão das operações e da produção, a adminis-
l-ração, o marketing, a pesquisa e desenvolr.imento
etc. A Figura 2.1 ilustra a rede da gestão tal corlo
acabamos de descrevê-la. Como se pode observar,
quarlto mais vagas, incertas, são as ideias que se
têm de gestão. mais elas se aiàstam do centro da
rede e mais instáveis são.
A cognição, ou o esqllema de ação, llão eferua
apenas a tra4uçãÕ dos dados sensoriais: ela os cor-
rige. os enriquece e r-ls rransforma. Logo. ela de-
sempenha papel irnportanle no ato de percepção,
pois permite assimilar e elaborar o próprio perce-
bido ajuntando-se aos dados sensoriais. A expe-
riência (ou os dados oferecidos pelo objeto) e a
dedução (ou as operações mentais da pessoa) são
inseparávcis, segundo Piaget (1970), Para com-
preender a percepçào e pr.eciso, enLão. analis-i- as
operações mentais ef'etuadas peios esqr:emai Ie
ação. São muitas as funções da cognrção. Tocias
elas visam oÍ'erecer ao sujeito um senticlo para as
imagens percebidas, para isso elas transformam,
corrigen, compleram, enriquecem, compensam,
sornam, subtraem etc.
Ern psicologia cognitiva e em pslcologia so-
cial, utiliza-se frequentemente o conceito "crença"
para descrever as ideias que se têm a respeito de
i
a
60 Psicologia e gesrào . N,torrn e Aubc
Rede da "ideia de oc<tÀn',
M ssác
Cestâr: das
cperaçÕes e
da produção
alguém ou de algumâ coisa. Mais especificamente,
uma crença é definida como a ,,atitude intelectual
de uma pessoa que toma por verdadeiro um enun-
ciado ou um fato sem que haja necessariamenre
uma prova objetiva ou aceitável pâra sua atitude,,
(BLOCli er al., 2002). Crença é o mesmo que cer-
tezo, confiarrya, convicçõ.o e fé; essas palawas tra_
duzem o conhecimenro de um objero. s"ju .rr. ob_jero uma opinião (creio que fará sol amanhã), um
conhecimento verdadeiro (dois mais dois sào qua_
l
,t', ; i. :Lesmo um conhecintento 11ão verificár,el
: , ii Delrs). De todo modo, esse conhecimen-
::' aie possa ser provado ou não, coll]porta
ft -,ri& aietiva, mais forte no caso da fé. Essa
.., I rr:=rir,a, cotnum à at.itude e à crença acerca
-t , ii, :-,rjeto. provém do valor que inspirou estas
:.,, :.:i, Às crenças dão lugar a atitudes, as quais
r , :,:.:isposiÇões adquiridas para se reagir de
:.,, ' :.::-i positiva ou negativa a ulll estímu1o, de
::r. :*m os sentimentos e as ideias que ele evo-
., - :i; atitude é, então, um comportamellto que
.." - r lâo ganhou sua forma acabada, uflta estru-
" , : "r slljeito que comanda uma reação ante um
, ,:.:-: i\u uma classe de objetos.
.: :rlegacognição é o procedimenro mental que
:-,:-iie Êilt refletir sobre a maneira como pensa-
- :i §egundo Pinard (7992), rrara-se da capaci-
. : , -; ,je tomar a seu cargo, de maneira consciente
:=.;:erada, seu próprio funcionamento cogniti-
nni outras palawas, seu próprio pensamento.
.,,r . :ignifica que a pessoa adqurriu a maturida-
.. : i-,tcessária para tomar distância e refletir soi:re
-;i'r próprias atitudes e sobre suas motivaçoes no
-= iespeita suas experiências e as situações pro-
.::áticas que deve enfrentar cotidianamente. A
':..gecognição significa, também, o conhecimen-
r . :_re a pessoa tem de sua eficácia pessoal, de
r':i estilo de arribuição (exteriorização ou inter-
:.,::izaçãoJ, de seus diálogos internos etc. As prin-
,.:.:is funções da megaconsciência são a intros-
r":iiào, a autorregulação, ou a gestão de si, e a
::i', rduação.
.{ megaconsciência que decorre da tomada de
',:isciência traduz um níve1 superior da consciên-
;:rt que implica o desenvolvimento da autonomia
: ji pessoa no que diz respeito à maneira de pensar
; :ô sentido que eia quer dar à sua existência. O
i:sen\rolvimento da megaconsciência permite ao
,::iirríduo tornar-se cada vez mais consciente de
,';as possibilidades e de seus limites, de seus valo-
:;s. dos perigos da inconsistência, de desmorona-
:rÊnto ou de decadência que comporta a vida que
.:,e leva, bem como das pressões exercidas pelo
píogresso da tecnologia e das motivaÇõcs reais de
jeus colxportamentos. A megaconsciência torna
::ossíveis a ar"ltenticidade e a transcendência da
:r€SSOA.
A percepçáo 6l
0 sistema nervoso
A percepção comporra atlvidades biológicas,
que são da alçada do slstenla neryoso, e atividades
mentais, que são da a1çada da inteligência. Assim,
um pouco ao modo de Dejours (1986), fazernos
unra aproximação entre o corpo e a consciência
com o obietir,o de melhor compreender a unida,
de do ser hurnano e colocar os fenômenos psico-
1ógicos na materialidade que caracteriza a área da
biologia, sem o que a psicologia coÍÍe o risco de se
tornar artificial on sem vida.
O corpo é [..,] um objeto sensivel a rodos
os outros, qLie ressoa por todos os sentidos,
vibra por todas as cores e confere as pala-
vras sua significação primordial pela manei-
ra como as acolhe (MERLEAU PONry 1945,
p. 273).
O corpo, na medida em qlle e1e tem "con-
dutas", é este estranho objeto que utiliza
suas próprias partes como linguagem geral
do mundo e por meio do qualpodemos "fre-
quentar" este mundcl, podemos "compreen-
dê-lo" e encontrar uma significacão para ele
(N{ERLEAU PoNry 7945, p. 27 4).
Essas citações de Merleau Ponry não são ape-
nas poéticas, elas valorizam o papel do corpo e de
suas relações com o ambiente na constituição dos
fenômenos da consciência e. em particular, cla per-
ccpção que o indivíduo tem de si e do meio am-
biente. Com efeito, as atividades da consciência e
a ação da pessoa em seu meio dependem da or-
ganização interna do sistema neri/oso, graças ao
qual a informação é transmitida em código, é tra-
tada, armazenada e depois utilizada para preparar
a ação (CI-L\NGEUX, 1983).
O sistema nerr/oso forma uma vasta r ,.le de
células neruosas chamadas neurônios, Um mesmo
neurônio se encontrar via de regra, efit contato com
tum número relativamente grande de outros neurô-
r.rios que Ihe transmitem influxos que provocam ou
efeitos excitativos (pensemos na posição "partida"
de um botão de comando), que originam a trans-
missão sináptica do influxo, ou efeltos inibidores
(pensemos na posição "parada"), que bloqueiam a
3
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62 Psrcologia e gesrào . Í\íorin e Âub.
transmissão do influxo e permitem gar.anrir o con-
trole de atividades como a percepcão.
As principais atividades do sistema neÍvoso
consistem em transmitir as mensagens dos órgãos
dos sentidos a respeito do ambiente externo are os
centros superiores (sisterra nervoso centralJ, para
onde confluirão também as mensagens do"^ recep-
tores viscerais e dos proprioceptores quanro ao es-
tado de desequilíbrio cio organismo para agir sobre
o meio externo tendo em vjsta restabelecer o equi,
lÍbrio do organismo (lÁBORiI !g74).
A Figura 2.2, adaptada de Laborit {.1974),
apresentâ o esquema de arividade funcional do sis-
tema nervoso, que leva finalmente à consciênr-.ia.
Os receptares sensori ais: estimular
A sensibilidade do corpo é possibilitada pelos
diversos receptores sensoriais que captam e trans_
formam as propriedades llsicas ou química.s dos
estímulos em energia eletrica, o influxo nervoso. C)
termo esrr'mulos designa loda forma cle energia que
se produz no interior ou no exterior dr: organrs-
nro e tenr intensidade suliciente para desencadear
uma reação psicofisioiógica específica ou, em úu-
tras palavras, para excitar um receptor sensorial.
A Figura 2.2 sugere ao rrenos dois tipos c1e
receptores: receptores que captam informação no
ambiente externô e receptores que captam informa-
ção no estado interno do organismo. Na verdade,
Sherringron {1947) caracrerizou três receptores, de
acordo com sua ktcalização no corpo: os interocep_
fores, os proprioceptores e os exteroceptores.
A sensibilidade interoceptiva compreende as
sensações provenientes da parede das vísceras e
das mucosas, em especial do estômago e do tubo
digestivo. Os receptores viscerais informam o or_
ganismo das suas necessidades e de suas emoções.
Suas mensagens têm forte teor aferivo. A sensibili_
dade interoceptiva está esrreiramente ligada à mo_
tivação irumana. As atividades do sisteÀa nervoso
permitem à pessoa totrar consciência do estado in-
terno de seu organismo, a sabe4 de suas necessida_
des, de suas emocões, do seu nível de estresse etc.
Estes estados sâo de natureza afedva, eles são ne_
cessários para organizar as condutas de adaptação
e conferem um valor a essas conduras.
A sensibilidade proprioceptiva informa o orga_
nismo quanto a suas posições e seus movimentos
no espaÇo e no rempo. Os proprioceptores estão
localizaclos no nÍvel dos músculos, dos tendões e
das articulações.
Por fim, a sensibilidade exteroceptiva informa
o organismo qllanto ao mundo exterjot seja por
conrato direto (o tocar e o gosto), seja por pré-
r:corrência, isto e, as sensações obtidas sem con_
tato direto (por meio da visão, do ouvido e do ol_
[squematizaçáa Íuncional da sistema nervosa
Srnais inÍernl:
ôu vegetativos
Fonte: Adâprâda dc Laborir {1974. o
n rnforma-
i verdade,
ptores, de
hterocep_
rÊs.
eende as
ísceras e
do tulro
im o or_
moções.
:nsibili-
aàmo-
lÉnroso
ado in-
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1
I
l
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I
,i- Os exteroceptores, os órgãos dos sentidos,
: .i: situados na periferia do corpo.
-, surema nervaso central:
..:'nIL( perceber e conhecer
Desde sua concepção, o organismo humano
, -:'.eralmente assediado, o tempo toclo, por toda
, '.:te de estímulos, captados e codificados pelas cé-
,--as receptoras. O sistema nervoso central (SNC)
r;r1 por principais funções levar as mensagens
:'ls receptores até o córtex cerebral, selecionar as
-:.nsagens para reter apenâs as que têm um valor
. r:al para o organismo, memorizar a experiência
:.:quirida e coordenar as ações da pessoa em seu
:nbiente. Portanto, as atividâdes do sistema ner-
. ,so permitem, entre outras coisas, a org,auizaçào
:.rs dados sensoriais, a imposição de um sentido
r,r caos sensorial. É graças ao SNC que estas fi1n-
iÕes serão realizadas.
À percepçro ó3
O SNC, que chamamos habitualmente de cé-
rebro, é de fato responsávei pelas funções sensó-
rio-motrizes e peias ftrnções mentais. Suas ativi-
dades permltem, fundamentalmente, a coleta e t-r
tratamento da informação, seu armazenamento na
memória e a organização das ações adequadas às
condições clo meio. E graças a esse sistema que a
pessoa pode entrar em relação com o que a circun-
da e se adaptar ao seu ambiente, adaptanclo-o à
suas necessidades (lÂBOzuT, 1974).
A principal função do SNC é, por conseguinte,
permitir a ação do indivíduo em seu meio, quan-
dci isso ó possívei. Ele tem por finali<lade a prescr-
vação or-r a manutenção da estrutura do organis-
mo ou, dito de outra forma, a busca do equilíbrio.
Este sistema se compõe de várias estruturas, como
o tronco cerebral, o sistema lírnbico e o neocórtex.
A F'igura 2.3 apresenta L1m corte mediano do cére-
bro humano.
Area sensonal
associação Area sensrtiva
Ârea m(]lrz
r.ia
:b:;:l
l]ffi-
fronco ccrcl:ral
Cofte mediano do cérebro humana
I
l:
Ctirtex cereora
ou neocórtex
Area visual S ;lerna límb co
i;tti
::::::.tl
64 Psjcol0qia e gesr;io . I\,Íorin e Âube
O tronco cerebral: o cérebro límbico
Segundo Laborit (1974) e Omstein e Thompson
(LgB7), o rronco cerebral corresponde à região
muito primitiva do cérebro. EIe é responsável pe_
1os comportamentos instintivos. que garautem a
sobrevivência do inclir,íduo e da espé.i". O tron_
co cerebral intervém em comportamentos virais,
tal como a motricidacle, a respiração e o sono, Ele
determina, igualmente, o nível gerai de vigilância
e parricipa da Íansmissão dos dacios do exterior
para os centros nervosos superlores; na verdade,
tudo passa pelo ronco cerebral.
O sistema límbico: o cérebro mamífero
O sisrema lftnbico, que abrange o hipotiila_
mo, está situado na parte mediana do cérebro. EIe
rem papel importante na organização das respos_
tas emocionais que regem as conciutas. Ele exerce
igualmente r'rm papel essencial no estaberecimenro
da mernória de longo prazo, que permite ao orga-
nismo reperir as experiências clue considera agra-
dáveis e evirar as que julga desagradáveis (IABO-
RIX 1974). Comum aos primeiros mamíferos, esse
sistema torna possír,el certa forma de civilidade ao
permitir a expressâo das cmoções.
O hipotálamo compõe_se de uma série cle nú_
cleos sensíveis no inrerior r1o organismo; ele tem
papei imporranre na regr,rlação do sistema endó_
crino e da temperatura, na interação das emoções
e das necessidades vitais como u iu,r". a secle e o
sono. Essa estrutura é responsável pela organiza-
ção da reação fisiológica a um esrímuio, logo, pela
resposta efetiva a csse estímulo.
O sistema nervôso autônomo (SNA), confro_
lado principalmente pelo hipotálo*o, *;r;;.-;;
sua parte a regulação das funções víscerais, o co_
mando dos múscuios involuntários rais como o co-
ração, os pulmões e as r,rsceras. E esre sisrenra que
permite a regulação das necessidaries r.itais couto
o sono e a vigília, a fome, a sede e o desejo sexual;
o SNA assegura também a regulação das emoçOescomo o medo, a cólera e o prazer. É estc sistema
que intervém quandc.r das situações urgerrtes, pre-
parando a pessoa para agir rapidamente. Graças
às atividades desse sisrema, a pessoa tem conclição
de fugir quanclo sente meclo, ou de lutaq quanclo
senre raiva (i,\BORlT. j974).
O córtex cerebral ou neocórtex: o novo cérebro
Por fim, o córtex cerebral ou neocórtex, esrru-
tura comum às espécies evoluídas, é indispensá,,.el
ao rra[amento e à inemorização de longo prazo da
informação, à integração das mensagen, ,"nro.iuiu
e em particular à conscjência, ao conhecimento e à
imaginação criariva (LABORII 1974).
Três categorias de áreas corticais caracteri-
zam o neocórrex (CHANGEUX, 1983; IÁBORII
1974):
áreas sensoriais primárras, que recebem
os dados sensoriais;
1.
2. áreas sensoriais secundárias, situadas na
proximídade das áreas primárias: elas
permitem o reconhecimento;
3. áreas associativas, preparadas para com-
binar e recombinar os e.lementos memô-
rizados de um modo original, portanto
capazes de imaginação e de criatividade.
E um pouco como um centro de tratamento de
dados. As infbrmações prorrenientes dos recepro_
res sensoriais são acolhidas, cm primeiro lugar, nas
áreas sensoriais primárias, oncle s" tonrfo.mam em
sensações elementares. Desde a chegacla deias, ,,en_
carregados da percepção,,, que se encontram nas
proximidades (nas áreas sensoriais secundárias),
tenram identificar essas informaçôes e organizá-1as
de tal sorte que seja possÍr,el ,abà, o que ãlas signi-
ficam para o organismo. A interação àas sensaçôes
eiementares e dos ,,encarregados,, cria o percebidcl
(o percepto), isto é. uma imagem, uma estrutura
figurativa. para fazer corretamente seu trabalho, os
"encarregados,, enviam e recebem stur:ltaneamente
mensagens procedentes das áreas as- rciativas até o
momento em que o senddo da infonnação sensorial
é descobeno e o percebicio é completajo.
Essas estruturas tornam possível a percepção
pelo sistema ncr1,oso. Os Destaque s Z,Z, Z.S e Z.+ilustranr as atividades desre úliimo po,. _.io a.
excmplo: de r.econhecimcnro.
A percepçâo 65
rr, quando
' cérebro
l.{, esu-u-
lensável
]razo da
nsoriais
snto e à
:aüeri_
loRrx
, vrlll
15 tlA
elas
üm-
rlitl-
flI()
ie,
Como podemos ver simbolicamente no exem-
,rr retratado no Destaque 2.2, os estímulos exrer-
: -r5 (o nome "Michel Dufrénoy,' escrito no bilhete
::rregue peio jovem) são captados pelos recep-
:-:es especializados (os olhos), que os codificant
:: um influxo nervoso, percorrendo as vias sen-
::;-iais (os nen.os), eles auavessam dois relés, o
::lmeiro no níve1 do tronco cerebrai e o segundo
:,., nível do tálamo, antes de serem lançados nas
::'eas sensoriais primárias, onde nascefir as sensa-
--,es elementares (M-i-c-h-e_l D-u,f-r-é,n-o-y), re-
: .,nhccidas graças à mobiiizaçâo qrrase simultâ-
--,;a das áreas secr-rnclárias (,,Michel Dufrénoy,,).
:ltào, nasce o percebido (.,É Michel Dufrenoyl,,).
iaangeux (1983) explica o fenômeno clo seguinre
:odo:
Pode-se conceber a formação do perce-
bido primário como resultanre da enüada
simultânea em arividade, por meio dessas
diversas vias paralelas, das representações
primárias e secundárias do córtex, enqllan-
ro as vias hierárquicas pardcipam clo ,,fe,
chamento" destas várias representações do
objeto. A inreração recíproca clas diversas
áreas que entraram em atividade permite,
por conseguinte, que análise e síntese sejam
feitas ao mesmo rempo (p. 1BS).
Se o conraro direto é uma condicão da percep_
ção, seu conteúdo pode ser colocado na memória
pelas áreas associativas, primeiramente sob a for-
ma de imagens, em seguida sob a forma de concei_
tos, tornando assim possível o reconhecimento, a
evocação, a combinação e a criação de cotrceiros e,
portanro, tornando possível o desenvolvimento da
linguagem e da inteligência (CHANGEUX, 1983)
(ver o prosseguimento do fenômeno de reconheci-
mento no Destaque 2.3).
O cérebro humano tem a capacidade de evo_
car conceitos ou imagens, de combiná-los, de ima-
giná-los, de criá-los (CHAÀIGEUX, 1983; LABORII
1974). O cérebro também funciona corno um si_
mulador, o que confere a pessoa o poder cle anre-
cipar os acontecimentos e prever os resujtados de
sua ação. Nesse contexto, a linguagem desempe-
nha papel fundamental na relação que se estabele_
ce entre a pessoa e seu ambiente. Segundo Chan-
geux (1983):
De acordo com esse esquema, a hngua-
EIem, com seu sistema arbitrário de sinajs e
de
D-
11
5
Exemplo de reconhecin-tento (evocação).
"Você é M chel Dr;Írero, - ç:-itou o ve'ho. .Com cfc,to. eu ^ão o l,.r.a olhado a,nda...(p 62)
Exemplo de reconhecimento (contato).
or1 ,uo. \fl. oz,,
ÊC".e. ./e.re,.9qd
66 Psirologra e gesrio . lvlôrjn e Á.ube
símbolos, serve de mediador entre esta ,,lin-
guagem do pensamcnto,, e o mundo exre_
rior. Ela serve para üaduzir os estímulos ou
os acontecimentos em símbolos ou concei_
tos internos paÍa, a seguir, a partir dos no-
vos conceitos produzidos, traduzi_los mais
uma vezJ desta vez em processos externos
(p.181).
Como a pessoa pode saber se o que ela per_
cebe é verdadeiro, real, e não uma pura ficção?
Na realidade, é provável que seja impossível saber.
Segundo os ensinamenros de Changeux (19g3),
psicologicamente o cérebro age con.lo um compa_
radoE procurando relacionar um conceito ou uma
imagenl (no exemplo que clemos, a lembrança que
o velho tem de Michel) com urrl percebido (o nome
de Michel no bilhete e seu rosro).
Quando um conceito (o conhecimento de Mi,
chel), produzido por um gnrpo de neurônios nas
áreas associativas (isto é, o conjunto dos neurô-
nios que participaram da configuração do conheci-
mento "N1ichel Dufrenoy,,), é confrontado com um
percebido [o nome e o rosrú), produziclo por ou_
tro grupo de neurônios nas áreas sensoriais (isto
é, o conjunto clos neurônios que pârriciparant da
estrufuração das sensaçôes elemenrares pror.indas
dos olhos), isso ocasiona uma potenciaçào cla ati_
vidade cortical (ou seja, uma consonância ou r-rma
concordância), e o teste e positlvo (,,E o meu sobri_
nhol"). Quando essa confrontação acarreta, pelo
contrário, uma extinção da atividade (isto é, uma
dissonância), o teste é negativo. Changeux expres_
sa isso da seguinte forma:
A comprovação da realidade consiste na
comparação de um conceito ou de uma ima_
gem com um percebido. O teste poderá se
resumir em ',entrada em concordância,,ou,
pelo contrário, por entrada *em dissonân-
cia" de dois grupos de neurônios confron-
tados. A concordância se manifestará por
uma potenciação da atividade, a dissonân-
cia peia extinçâo deia. Desse procedimento
pode resultar a seieção do que é considera_
do "concordante,,- adequado ao rea1, logo
"verdadeiro". É evidente que este compara_
dor funcionará também de maneira ,,inter-
na" entre objetos de memória, percebidos e
imagens (p, 188).
O cérebro não faz nenhuma distinção entre
um objeto percebido e um objeto imagina<lo, de
onde a dificuldade de se dererminar o que é real
- no sentido positivo - e o que não é.
Fisiologícamente, a pessoâ é capaz de senrir
grâças a seus vários receptores sensoriais e a seu
sistema nervoso; ela é capaz de perceber e de reco-
nhecer os fenômenos por meio das atividades das
áreas sensoriais primárias e secundárias; ela é ca-
paz de memorizar grâças ao sistema límbico; ela
é capaz de conhecer, de imaginar e de se lembrar
graças às atividades das áreas associativas do neo_
córtex. O Destaque 2.4 fornece um exemplo das
capacidades de memória e de imaginação.
Exemplo de reconhecímento teencontros).
ir§ expres_
Enquanto sistema de relações, a linguagem
;:.:rmite à pessoa entlar em contato com os outros
r ritquirir a cultura de seu meio. porém, a lingua-
,.;.1 não é apenas um sistema de comunicação, ela
: :anbém um sistema arbitrário de sinais (pala-
,'r1! que designam objetos, ideias, pessoas etc.) e
;.:: símbolos (imagens, figuras, metáforas, alego,
'.,1s etc.) que fornece ideias e conceitos ,,prontos
;,{fs o uso". Ela é ainda um sistema que permite à
:Éssoa tomar uma distâacia em relação à experiên_
-;,.: concreta,e refleti6 e dar a si mesma uma ex_
:riiação sobre o que observa. Ela permite à pessoa
.,:pliar seu campo perceptual graças ao aumento
-ls possibilidades de combinações novas, e desen_
l i'"er sua imaginação criativa. O desenvolvimento
:r linguagem está, de resto, estreitamente ligado
:: desenvolvimento das habilidades inrelectuais e,
--:ir1o consequência, ao amadurecimento do siste-
:ã nervoso (plAGET, 196n.
Dessa perspectiva, pode-se dizer que a percep-
,-âo é uma atividade de simbolização (que uriliza
.:inais e símbolos, na gênese da linguagem) que as-
".Lme um caráter simbólico sá que ela produz ima-
gens e formas). A percepção é um fenômeno ativo,
:ue recorre ao sistema nervoso, à inteligência e à
-.nguagem para encontrar um sentido na experiên-
:ia que vive a pessoa, aqui e agora (CHANGELIX,
i983). As representações mentais que ela pemite
ionstmir estão intimamente ligadas às atividades
iognitivas, que são da aiçada da inteligência, às
etir,'idades afetivas, que sâo da aiçada da motiva-
r:ào, e às ariüdades culturais, que são da aiçada da
linguagem.
As representações e as operações mentais
Quando percebemos um acontecimento, não
nos vem à cabeça duvidar da autenticidade de nos-
sas impressões. Este é, aliás, o postulado do empi-
rismo: os dados que nossos scntidos nos fornecenr
são sempre reais; são os julgamentos que fazemos
deles que falseiam nosso conhecimento. poder-se-
ia concluir daí que, para sermos objetivos, deve-
mos nos esforçar por quedar passivos quando ob_
servamos um fenômeno? Isso é possível?
r n"r.,.pt " 6l
O progresso da psicologia cogn.itiva nos per-
mitiu descobrir que é impossível para um obser-
vador permanecer passivo, o fato de perceber já
sendo uma ação em si. Altás, foi constataclo que
frequentemente há discrepâncias, às vezes gran-
des, entre a estrutura e o conteúrlo cle um estímu-
1o e a configuração perceptiva da pessoa a resperro
dele (I{ASTIE, 1981).
Na verdade, a percepção contém em si uma
organização ativa das experiências passadas. se-
jam elas recentes ou remotas, que, incorporadas
à experiência imediata, t_ransformam os dados dos
sentidos em uma síntese original, nova e sobretudo
significativa no que respeita à finaljdade da ação.
Quando a pessoa percebe um objeto, ela não
é, portanto, passiva, muito pelo contrário. Como
vimos precedentemente, esquemas preexistentes
são postos em atividade nas áreas associativas do
neocófiex, eles transformam os dados dos sentr-
dos nas áreas sensoriais impondo-lhes uma forma
que é o aspecto cognitivo do ato, e um valoq que
corresponde a seu aspecto afetir.o. O ato de per-
cepção comporta, então, decisões e pré-rnf'erências
que atesram as atividades da inteligência (plAGE!
1975b). Do ponto de vista da bioiogia, a inteligên-
cia é vista como o conjunto das atividades do neo_
córtex, que elabora respostas originais, adequaclas
as condições do ambiente. Do ponto de vista psi-
cológico, a inteiigência é o conjunto das atividacles
de adaptação do indivíduo a seu meio.
Os esquemas.. suo natureza e suas funções
Imaginentos uma situação: são 1S horas, Clau-
de rabalha sem descanso desde o meio_clia. Ele
não viu o tempo passar, tanto slla tarefa o absor-
ve. Seus olhos ardem e sua garganta está seca. Ele
toma consciência de sua fadiga. Ele olha em tor.no,
vê sua cadeira, seu porta-documer,ios, ele se recor-
da de ter colocado ali seu ianche ê.ia manha. Ele
para. O que aconteceu?
Claude tomou consciência de que devia des-
cansar um pouco e recobrar forças antes de termi-
nar sua jornada de trabalho. Ele tomou consciên-
cia de suas necessidades graças acis sinais emifidos
por seu organismo. euase ao mesmo tempo. tí.r-
mou consciência dos meios de satisfazel sLli:1 r ri-
nsiste na
tma ima-
:derá se
.14 OU,
ssonán-
onfron-
uo pOf
50nân-
Jnento
,idera-
, jogo
Pâra-
arer-
)
,.los e
l) lrn
de
ea.l
t.rr
-tl
l(
t-
q
ce que as atividades da percepção são invariavel_
rnenre dirigidas por hipóteses produzidas pelas ati_
vidades intelectuais. A pessoa nâo tem consciência
dessas hipóteses, a não ser que faça ,m .rforçogrande de inftospecção. Na uerclacle, podemos
nos tornar conscientes dc nossas hipóteses quan_do elas são invahdadas pela .*p"riàn.iu. A frus-
rração pode levar um indivíciuo a questionar suas
expectativas e suas conviccões no que cliz rcsperro
a situação e, por meio de reflexão, muaJ-im poru
adqurrir llovas.
As hipóteses enconrram,se perntanentemen_
te sujeitas ao controle cla experiência conscrente;
em outros termos, o indjvíduo espera perceber coi-
sas em unta sirrracâo e, mais ou menos conscientc_
68 Psicoioqia e gesráo . f,lorrn e ALrbil
cessjdades. e uma intenção se formoll no campo
de sua consciência, a intençào de fazer uma pausa.
Essa intenção vai orientar suas condutas. Ela im-piica um plano de ação (onde proclrrar seu lanche,
onde repousar, durante quanto tempo etc.) e pre-
visões (se ele comer e descansar ,rl pouco, t".á
condições de ser mais eficient" do que se rentar
terminar sua jornada de outro moao). Em outras
palavras, mais ou menos conscientemenre, Clau_
de formula hrpóteses quanto ao melhor modo de
atender suas necessidades, dadas iis condiçôes nas
quais se encontra.
mente, compara o qlle percebe efetivamenÍe com
suas expe$ativas (NEiSSER, 1926). Em psicologia
cognitiva, as estruturas que fornecem t;is hipóte_
ses lerram o nome de cognição ou de esquema de
ação íptAGET t97Sb).
Distingr-rimos, no início deste capítulo, quato
nír,eis c1e consciência: o sr-rbconscient", onda ,a .;-
tua a sensação, a c<tnsciêncra imediata, onde se si-
rua a percepção, a consciência explícíta, onde se si_tua a cognição e a megaconsciência, onde se sirua
a megacognição. A distinção clesses níveis nos per_
mite "localizar', as operações mentais e compreen-
der os mecanismos do pensamento. No 
".rturto,esta distinção é bem arbirrária, já que, de Íato, aconsciência deveria ser ciescrita preferencialmen_
le como um conflnur
do inconscier,. u n,';uX:;.§il.il:JT.:jl ::]trururas mentais aJargando-se e tornando-se maisilexíveis progressivamente (pIAGET 197Sb), Essa
disrinção se baseia nas estrurllras nerv.osas respon-
sáveis peias ativiclades conscienres, como mostra
o Quadro 2 1' Esse quadro resume os vários níveisda consciêncta, bem corro as estÍuturas nervosas
corresponclentes e fambém os tipos cle estrutura
mental e as operacões que os caracterizam.
Piager (l97Sb) tlisringue dois tipos de esru-turas: as estrutllras {.
percepção, e as estrutr 
uratlvas' produzidas pela
pela i nteligê,.,, ;;J;L',i,liTl li;.iT**Íl]
rativas (da percepção) estão necessariamente su-
Estruturas nervosâs Tipos de estrutura
Neocórtex (áreas assccíatrvas)
Neocórtex (áreas assoc arivas)
Est.ui!ras operôt yes.
megacrrtenos, n- ega cii retrizes
Esiruturas operati,;ast
ssquenras de ação,
esquemâ5 de reçlLriação e cle
coorcjen.tçáo das condutas;
conceitos, noçÕes
lntrs5po.t;o, autorregulação,
individuaÇác
Iransíormar. corrigir,
completar, enriquecei
(oíaoc, 5ô . so .dí :,.J1,êr. elL
Explorar, configrlrar, srna iza;
antecipar
Reagrr; in iormar
raolc,td con-o-rtárc,à oá I ."a -.r, u,,
açáo)
5ensaçáo (su bconsciente) Neoacftex (ái eas sensolais
c,rimá rias)
Estruturês figurativas,
representações, esc uemas,
percebidos, imaqens
lnfluxc nerioso
\4 eg a cogn ição
(m ega con scrência)
Cognição (conscrência
explícrfa, expressa)
I com
rlogia
ipóte-
lâtro
)e ç1-
;r si-
;e si-
irqd
:
ito,
)râ
l'aí
lis
5a
lt-
-a
:-
;.5
,5
3
:.:radas às estruturas operativas (cla inteligên-
, lor que isso é assim?
lorque, de um 1ado, sendo a exploração e o re-
. ,.:l das formas e dos conteúdos as principais ati-
::,:es da percepção, clificilmente elas poderiant
:: :.ealizadas sem que certas condições estejanr
:':,.1amenre presentes; essas condiçôes referern-
: , QUe explorat e conlo registtat.
Essas condições são impostâs pelas estruturas
:.rativas. Dessa maneira, na presenÇa do obje-
,.: papel lundamental das estruturas operati-
,,: consiste em guiar as atividades perceptivas em
--.::cão das relações previstas entre a açãoe a fi-
- r,iidade. Por causa disso, a percepção é essencial-
.:-.rnte seletiva.
De outro lado, sem o auxí1io das estruturas
lerativas (ou dos esquemas de ação), a pessoa
As quatro ilusões óttco-geometricas.
À prrcr:lc'ão 69
ficaria exposta a toda sorte de ilusoes sistemáticas
e de impressões. Em psicologia da percepção nós
nos seln'imos, de resto, das ilusões para compreen-
der os fenômenos perceptivos e desvendar as ope-
rações mentais necessárias para as transformar. A
Figura 2.4 apresenta uma amostra dessas ilusÕes.
Como podemos ve! r,árias figuras parecem corre-
tas. Lemoine (1995a) utilizou a ilusão de NIúller-
Lyer para mostrar a atividade das pessoas quando
colocadas em uma situação al,aliativa. Com essa
pesquis;r, este proíessor provou que indivíduos co-
iocados em rlma situação desse tipo prestam aten-
ção ao que fazem, pois sua imagem está em jogo.
Por conseguinte, isso tem consequências nas situa-
ções de avaliação de renclimento.
Evidentemente, nossa percepçào nào nos en-
gana scmpre, certas estruturas figurativas seguin-
Descriçáo da ilusáo
lnscr to em B, o circulo A, parece
maicr que o cÍrcrio A.
(de fato, A, - A,)
O compr mento de unra lrnha e
superest mado q'.;ando 1in'ita,1c
por cunlras exiernas (A) e
subestimado no cêso contÍáro
(deíáto,A= 3)
O segmento B está sttuado no
prolongamento do segmenio A
ôrDora p.i.ôÍ a 'ies ocado pa'à ( nd
Nome
llusâo de Delboer;{
I usáo de Müller-Lyer
llusáo de PoggendorÍf
1usão de I'rering
Configu raçáo
,,í:\B
((o )'
\\ /,1\y
€
AB
4r
As rnh;s A e B, errbora pareçem
curvas, sáo exatâmente retãs e
paraielas
Fonte: fuchel1e e Droz {7976, p. 194).
7O psicoiogia e gestijo . Morin e Aubé
do verossímeis. porém, na maioria cias vezes elas
comportam erros, automaticamente corrigidos pe_
ias operações mentais. Essenciarmente egocêntri-
caj a percepção é deformadora e reque! poftanto,
correções das estruturas da inteligência.
A percepçã.o, os estrLtfures
figurativas e as representações
A percepçâo gera esüuturas figurativas, ou
seja, representações que têm uma função de sina-
lização e de configuração. O percebido e a imagem
pertencem a esta categoria.
Como pertencem à espécie cognitiva, as esrru_
turas figurativas têm uma gênese, isto e, um de_
senvolümenro que vai do indiferenciado ao mais
diferenciado. Nesse senrido, pode_se dizer que apercepção é uma habilidade que se desenvolve
acompanhando os diversos estágios da inteligên-
cia (NEISSER, 1976). O desenvolvimenro das es_
fruturas figurativas se dá por enriquecimentos
sucessivos a partir das estruturas operadvas e de
suas interações com os dados sensoriais..Exercícios
de derecção, de diferenciação e de idàntificação
podem ajudar o desenvolvimento perceptivo. Da
mesma maneira que as estruturas da inteligência,
elas constituem formas de equilíbrio, caracteriza,
das pelas leis de totalidade (ptAGEt; tgTilb).
A principal lei de totalidade é bem conheci_
da: o todo é diferente da soma de suas parres ou,
em outros termos, o conjunto das partes tem pro_
priedades que não se reduzem à soma das proprie_
dades das parres. O exemplo da mesa, que ümos
anteriormente, ilustra bem esta lei cla forma: a
pessoa que percebe uma mesa lhe atribui imedia-
tamente uma forma e uma função. Dessa maneira,
uma estrurura figurariva possui uma estabiljdade
que provém da organização dos dados sensoriais;
a forma percebicia não muda, a não ser que as re-
lações entre os daclos sensoriais sejam modifica_
das. Por exemplo, não podemos perceber ao mes_
mo tempo a mesma mesa de pé ou caída no chão,
como não podemos perceber ao mesmo ternpo um
mesmo livrr_r abeno e fechado.
Do mesmo modo, a forma percebida é indisso-
ciável de seu conreúdo; não percebemos, primei-
ro, sensaçôres e em seguida um objeto mas, em vez
disso, percebemos um objeto ,"nrírel que se des-
taca de seu conrexro (plAGEI 1975b). No exem-plo da mesa, esta é percebida em sua totalidade
no aposento em que se encontra. É o caso clássico
da imagem que se clestaca sobre um fundo: em um
campo sensorial, os estímulos estão estruturados
de tal modo que reunidos compôem uma imagem
sensÍvel (forma e conteúdo) que se destaca dos ou-
tros estímulos potenciais, indefinidos, que consti-
tuem o ftlndo. A forma percebida tem um sentido,
que se destaca do fundo no qual até então se en-
contrava. A forma é diferenciada e possui uma sig_
nificação, enquanro o fundo ,ug.r" por.o nítido,
indefinido, indiferenciado, sem limjtes precÍsos,
sem valor. A Figura 2.5, que mostra um vaso ou
um duplo perfil humano, ilusrra esse princípio.
lmdgem - fundo: o vaso ou o dupla pertíl humano.
Lii.
lropne-
l yimôs
rma: a
media-
rneira,
.hdade
rrlals;
as re-
Iifica-
mes-
:hão,
lum
155O-
nei-
\-ez
rtli-
,rl^
'co
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3s
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J,
I
i
:*,:m disso, as estruftrras figurativas, que de-
r:'i lÊi') da percepção, possuem certas particula-
' . , i*s que permitem distingui-las das estruturas
i".;;;ii.as, que dependem da inteligência.
: :,:rcepção é positiva
1 Dercepção é positiva, isto é, se percebe o que
. :.:do indiferente que os estímulos sejam inter-
.; :iJ externos. Só a estimulação dos receptores
.;-.-;r.iiais pode ocasionar a percepção. A presen-
. ::,s estímulos é necessária para que a pessoa
:-rceba; as estruturas da inteligência, pelo con-
--:",-:. fazem com que a pessoa possa representá-
,-.a imaginação. Por conseguinte, a imaginação
':.lre se encontÍa ligada ao campo sensorial; ela
:.:ce um conhecimento dos estímulos por meio
.. . . ;3ação imediata com eles.
O lato de percebermos apenas o que está pre-
:rrt. o que Piaget chama de os observáveis po-
-,','r:s, constitui por outro lado um incitamento
- lesenvolümento das estruturas inteiecruais:
,: ,i'-i:<imetria dos observáveis positivos e negativos
,,,, i* que se espera perceber mas que não se deixa
..:l: cornpromete o equilíbrio das esrurltras men-
-.,--i. de onde o desencadeamento dos processos de
':iuiâção (ações e operações) que visam resrau-
::-to. A tomada de consciênc.ia da ausência de um
--ieto só é possível após a ação de uma esrrutura
:irrativa (por compensação) e só se produz em
:,inção das antecipaçôes ou das expectativas da
::ssoa, que dependem igualmente dessa estrutura
.IÀGEI 197sb).
À percepção é sensível à proximidade
ios estímulos: ela é imeversível
Nem de estar subordinada à presença dos estí-
::,-:los, a percepção é iimitada peias condições espa-
",ais e temporais. Por exemplo, dificilmente pode-
.;lüs ve! simultaneamente, objetos colocados diante
i* nós e atrás de nós. Tampotico podemos ver um
*i'ento que aconteceu ontem; em contrapardda, po-
jrmos evocá-lo, o que é um feito da inteligência.
Iste úlrimo exemplo demonsrra ademais quc a per-
:tpção é uma atividade irreversível.
A percepção 71,
Por outro 1ado, a proximidade dos estímuios
cria entre eles relações que também serão percebi-
das pela pessoa. A proximidade dos esrimulos con-
cerne tanto sua similitude quanto sua aproximação
no espaço ou no tempo. As relações criadas a paflir
da proximidade dos estímulos dificilmente podem
ser ignoradas pela pessoa, a nâo ser quc uma estrLl-
rura operativa as subtraia do campo de consciência
dessa pessoa. A percepção das inrerações entre estí-
mulos próximos uns dos outros é uma fonte de erros
de julgamenro, em particuiar de erros de auibuição
no que toca a causaiidade de urn evento (JASpARS;
HEWTONE, 1984; PIAGEI 1975b).
Um exemplo permitirá compreender essa par-
ticularidade da percepção. Quando dois eventos
são semelhantes e acontecem próximo um do ou-
tro, um deles pode ser percebido como causa do
outro. lmaginemos uma classe de estudantes aten-
tos durante um curso de contabilidade financei-
ra que começou às th. São 10h15, os estudanres
pousam o lápis e comecam a se agitar em suas ca-
deiras. O professor olha a hora e o comporramen-
to dos estudantes e conclui que é chegada a hora
da pausa. A proximidade dos estímulos (a hora e
o comportamento dOs estudantes) sinaliza para o
professor que é tempo de fazer uma pausa. Nes-
te exemplo, não há erro de atribuição, dado queos estudantes procuram efetivamente sinaiizar
para seu professor que chegou o momento de fa-
zer uma pausa, e isso em virtude de acordo tácito
entre eles. Porém, há situações em que a proximi-
dade dos estímuios gera erros de julgamento; isso
acontece, notadamente, nos casos em que pessoas
testemunham acidentes,
A percepção é egocêntrica
A percepção é essencialmente egocênüica: a
pessoa percebe os acontecimentos de sua própria
perspectiva. (O egocentrismo não deve ser confun-
dido com egoísmo; são dois estados muito diferen-
tes; o segundo corresponde à tendência de tudo
subordinar a seu próprio interesse pessoal.) A per-
cepi.io e egocênrrica por várias razões. Em primciro
luga1 o que a pessoa percebe depende de sua posi
ção em relação ao objeto percebido, o que tem re-
lação com a focalização da atenção. A forma perce-
72 Psicologia e gesrão . l\,forin e Aube
bida será diferente de acorclo com o ponto de vista
adotado pela pessoa. por exemplo, imaginemos um
homem que assiste a um motch de futeboj. O.iogo
que ele vê será percebido de modo diferente se ele
estiver sentado atrás do gol clo time dos visitantes
ou se estiver sentado próximo do meio do campo.
Em segundo lugar, a percepção é egocênrrica
porque suas atiüdades são determinadas pelas ex_
pectarivas e pelas antecipações da pessoa na situa_
ção em que se encontra, que é o foco de sua arenção.
Por exemplo. o espectador do jogo rie futebol pen_
sa que o üme dos vi.sitaltes fará majs pontos que a
equipe local. Disto se
voltada para o jogo 
"#rT: ;::,ilJ f,:T::r::::':para as r,ulnerabiiidades da defesa do dme iocat.
Em terceiro lugar, a percepção é egocêntrica
no sentido que o que a pessoa percebe e esrrita_
mente pessoal e dificilmente pode ser comunicado
aos outros (ptAGEI t971b). Aliás, é por essa ra_
zão que se pode dizer que o conhecimento sensíyel
é puramente subjetivo.
O egocentrismo cla percepçào e unta fonte cle
erros de juigamento. São muitos os exemplos dis-
so. O da imagem da mulher jovem,/idosa, ijustrado
na Figura 2.6, mosüa a influência do foco da aten-
ção sobre a forma percebrda. Além disso, frequen-
temente, o egocentrismo leva a equívocos: cacla
pessoa tem sua opinião sobre dado acontecimento
e é levada a crer que os outros tambem pensam
como ela, o que pode ter efeitos embaraçosos nas
relações profissionais.
A percepção se limita à aparência
das pessoas e das coisas
Como os prisioneiros cla cavema de piatão. a
percepção se atém às ,,sombras,, dos objetos, das
pessoas e dos acontecimentos. Ela está centracla es_
sencialmente no que se passa no organismo (estí_
mulos internos) ou no meio ambiente (estímulos
externos), e isso da perspectÍva da pessoa que per-
cebe (egocentrismo). Segue-se qu* u pur."pção per_
mite ao indivíduo adquirir um .onhecim"n,u ,.rro-
rial sobre si mesmo e sobre o meio ambiente, mas
não faculta ir além dos dados sensoriais. para ranto,
as atÍvidades da inteligência se tornam necessárias.
A percepção comporta uma
significação imanenre
Se o daclo perceprivo tem uma significação
para a pessoa, essa significaçâo não ultrapassa os
hmites de indício. Todavia, este indício serve de si_
nal e Ieva a inteligência a selecionar determinado
Mulher jovem,,idosa.
*- - ----'-t
\- --. i\ '\i
\: ,,
N.
0nfecjmenro
]€m pensam
iIâçOSOS 
NAS
Dl^ -:' ratdO, â
,ietos, 
das
ltrada es-
no (esrí_
lslímulos
que per_
,c.io per-
ü senso-
re. mas
: ranto,
,sárias.
]ãCãO
!a os
je sl-
rado
.;:iiia de ação denrre outros possíveis (plAGEI
-*,:;.i. A percepção enseja atir,,idades <le explo-
":: 
";..r !ãra melhorar a Íbrma percebida. portanto,
,, , :iplica alguns processos de inferência, anteci_
:,.,.--.s que são imediatas e não dominárreis pela
.':::tt,ã. Como afirmou piaget (1975b): ,A percep-
...:.:i !É situa hic e nLLnc e tem por funçãr: inserir
' -: objeto ou acontecimento particular nesses
. - r,jros de assimilação possír,eis,, (p. 445).
,t percepção enquanto processo tenr então por
- -.:ào alimentar as estruturas da inteligência com
, ::.dos exteriores clue ela transforma, com a me-" r ieformação possíve1, em estruturas figurativas
". :epresentações. por conseguinte, ela garante
: t:inuanlente o contato entre as ações da pessoa
:::ruluras operativas ou esquclxas de ação) e o
,.:rriente (os acontecimentos, os objetos, árs pes-
;i erc.) (PIAGET. lgZSb).
i-ç arividad es perceptivas
Segundo Nleisser (_1976), a percepção é um
::.;.cesso circUlar qtle recorre a cognições, OS es-
.,\ pÊrli.ti:ia. -..,:,
qllemas de ação. Estas estruturas são interioriza-
das pela pessoa, modificadas pela experiência e
são próprias às configuraçôes perceptivas. que 1e-
vam o nome de "esquema,, na reoria apresentada
por Neisser.
Desse nodo. segundo este último, o processo
é circular porque é deflagrado pela construção de
r1m esquenla que drrige as atividades perceptiyas.
as quais, por sua vez, vão modificar o esquema.
As atividades pelceprivas rêm por ob.jerivo a bus-
ca da informação necessária para qlle a pessoa
possa satisfazer suas necessidades e realizar seu
pro-jeto. O conhecimento que elas fornecem se in_
tegra ao esquema inicial (por assimilação), mo-
dificando-o (por acomodação). A Figura 2.7 re-
trara o ciclo perceptual tal como Neisser (197S)
o descreve.
As atividades perceptivas são ademais sensó-
rio-motrizes pot-que comporram, alem da organi-
zação dos dados sensoriais, uma intenenÇão da
moricidade nesses mesmos dados por meio de ati-
vidades de exploração, de seleção ou de configu-
ração.
I
l
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e?\
t Êa 2\,\ ô 2,\
"â'oo'
/o-/ôao iy/o
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,/ §u,,'
.-. /
Fonte: Adaptada de Neisser (1976, p.
O ciclo percentual.
I
74 psicologia e gcsrão . Morin e Aubé
Atividades de exploração
O esquema é muito parecido com um plano de
aÇões, que são interiorizadas e coordenadas; ele
serve para descoLrrir e dar um sentido à informa-
ção recebida, e ajudar a adaptação da pessoa a seu
meio (NEISSER, 1926; pIAGEI 197Sb). O esque_
ma dirige a exploração do meio externo e a coleta
de informação. produzido a partir das expectativas
e das antecipações <1a pessoa, o esquema governa
os comportamentos desta no contexto exrerno e
suas atividades de exploração, para que a pessoa
encontre aí meios para atingir seus otrjetivos. Com
efeito, toda percepção não passa de uma solicita_
ção virrual de ações e cle reações conhecidas, todas
pronras para serem desencadeadas (GULIÁUME,
1969). Fica evidente que é quase impossível sepa_
rar a percepção de seu potencial de ação.
As atividades de exploração consistem funda,
rnentalmente em buscar informações c colocá_las
em relação. O esquema clue está se formando ciiri-
ge os mol.imentos da atenção e a escolha das atitu_
des ou focalizações cla atenção, Em razão das com-
pensaçôes às quais dão Iugar e das verificações que
possibilitam, as atividades exploratórias permitem
reduzir as ilusões e desenvolve. o, conhecimentos
(PTAGET 197sb).
Atividades de representação ou de configuração
O esquema opera também como um formato
de entrada de dacios, aceitando apenas a informa_
ção que tem certo valor para a pessoa, que parece
apropriada às necessidades desta úhima e condi-
zente com a intenção dessa pessoa. por via da as-
similação da informação, as relações entre os ele_
mentos constitutivos do esquema são modificadas
e, consequenfemente, transformam este último.
Isso é a acomodação. As atividades cje represen_
ração têm por objetivo construir a imagem e posi_
cioná-la em seu conrexro (DENIS, lg}g). Entre as
atividades de representação, encontram_se as ati_
üdades de construção das coordenadas percepri-
rras.. de referimento, de transporle e cie transposi_
Ção (PIAGEI 197sb).
A imagem é construída a par-tir dos clados sen_
soriars. graÇas às referências e âos conhecimentos
já memorizados que vão seryir para dirigir a cor
trução da imagem e para sua interpretação. A im
gem conrém um sentido que depende em gran(
parte de seu contexto, que é percebido pelas atir
dades de referimenro. Isso também acontece co.
as paiavras, por exempio, que podem ter vários set
tidos conforme seu contexto.Finalmente, as ativ
dades de transporre e de transposição designam r
deslocamentos. as manipuiações e as comparaçõr
que a pessoa fará a fim de reconhecer os estímulc
e diferenciá-los. Essas atividades permitem reduzr
os erros perceptivos graças a descentração, isto e
a organização de perspectivas diferentes, que el
possibilita. Um exemplo de descenrração é a em
patia, uma competência importante puiu o estabe
lecimento de relacionamentos positivos.
Atividades de antecipação
Enquanro plano de ação, o esquema predispõe
a pessoa a agir, a reagir ou a interagir de maneira
condizente com seu esrilo habitual. As atividades
de antecipação que decorrem desse esquema per_
mitem à pessoa se prepararr isto é, permirem que
ela evite as experiências inúteis ou a exposição a
experiências desagradáveis (GUILLAUÀAU, tqOg).
Isso tem um interesse ütal para a sobrevivência da
pessoa. O reconhecimento que resulta das ativida_
des de antecipação tem igualmente uma função de
sinalização para a ativação das estruturas opera-
tivas responsáveis pela configuração do esquema
perceptual.
O esquema exerce então duas funções princi-
pais: uma função de codificação e de ..p."r.r,u_
ção e uma função de inrerpretação e de inferência.
A primeira permite à pessoa adquirir informaçáo
referente a seu ambiente e representá-ia em sua
memória de curto prazo; a segunda permite à pes_
soa elaborar hipóteses sobre seu ambiente, desde
que eia renha captado a significação dessa infor_
mação (TAyLOR; CROCKER, 19Bt).
A percepção depende da sensibilidade da pes-
soa, de seu nível de atenção e de seu estado emoti_
vo, ela é igualmente influenciada pelo dpo de per_
sonajidade e pelas expectativas da pessoa. Além
lisso, ela é limitada pela habilidade que a pessoa
terrr dc perceber os fenômenos e pela experiência
dirigrr a cons-
:ração. A inra-
Íe em grande
:o pelas atiyi-
contece corn
:r úrios sen_
]te, as adyi-
iesignam 
os
imparações
s estímu.los
em reduzir
:âo, isfo é,
s, que e]a
oéaern-
o estabe-
:''':'sada dessa pessoa' os mecanismos que a per- ma": a forma percebida é a mais simples e a n.r'r..=' :::':ão emprega são automáticos e requerem pou- semerhante a toclas u. fo.-u, possíveis ,a siruacãc
,'W,,tl 
:.::',Í",,::[JiH*;]"T,',?l::"-T:::;l': :r "'" Em ce*o,"ntiJo, como expiica Gu,raun,e
ffi.t. :::i um rexro que envorve noçôes,,i"1r,Xillli,ff- :::i?,;rffi:,::,::,ITi:T:;,: *:l*;:"í ", ;Liü'"'Í,11r,"1T ffi:i.1}:1*::t lllo,, a n,ais esrável nos dados se*soriais, co,ri
d PercepCâql
i' ': esforço de arenção para ser compreendiao. a, ,iro;r"#;:;.,.'":":"j ,1::ãffi;T:,;:X;iiil ,,,r'r.*s se passâm de modo mlrito rii.ro..ô ^^,- ,,ã
edrspôe
'raneira
ruades
]a per-
[n que
iÇão a
e6».
:ja da
,,ida-
cL r1^
Ll d-
-jj Id
::riil1a§ se passâm de modo muito diverso côm rrrn :^::^"r*'açõurdrluaues e transtormando a forma
u,*o,o qu* 
"";;r;" noções desconhecid;.::H[ 
percebida até que ela atinja um ponto de equili
:rn lma linguagem com que a pessoa tem pouca
i*xrjliaridade; nesse caso, a pessôa é obrigada a
'**senvolver esforços de interpietação e compreen- As cogrriçôes sociais
*:ãr: para o ler. Os comporfamentos que ela adotaráii* tocante a esse texto serão então resultado das Em psicologia social, se utiliza a noção de es-
'lnvidades da inteligência. quema social, isto é, as consü-uções relatil-a s àspessoas e suas relações. Tâylor e Crocker (1981)
mencionam três categorias de tais 
"rq,,"*or, u p.j-'4 cognição, as estruturas operativas meira agrupa os esquemas que concernem às pes-e as opera"ções mentaís soas; a segunda, os papéis; e a terceira, os aconteci-
piaget (1e7sb) empresa a expressão estrutu. f:il:XTt;::;"Jfiilfff:Í] :IJJflT
â"íJ:'i',::,:ffii::'Xf;::i1::tr,*::Tff: ;;;;"* o eu ou o concei,o de si o recurso a
percebidos impondo.ihes uma rorma 
" 
u*,oÀ.."" :i,::::::Tl'"",:X:"":?*:lili*iliT lii.o epíteto operativa indica as operações efetua- nições sociais facilitam também o desenvolvimeirtodas pelo esqüema de ação 1ou esquem.mentâl, ou das habilidades qr:e p"r.,,i,.* perceber os outr:os,cognição) com o objetivo de encontÍar o sentido que permitem prever o que pode acontecer em umdos dados percebidos' uma ação exterior é uma dado contexto social e possibilitam compreendermanobra da pessoa para compreender ô que se as atitudes e os comportamentos do outro.passa (por transposição, deslocamento, compara- À ^^
ção), enquanto uma ação interio rizada;.";;ã;;; 
^" ^::l:toria 
dos esqtrcmas de pessoas abrange 
1
afeta a operação (por adição, subtraçãà, ir";;;; ::::.Y'o"s e os traços que se pode atribui, u uru
e.c.). tu noções e os conceitos podemr".;;;;": ::H:**1.',':::r:ff; :JT?r::ffi11r"_l :rados como esfirufuras operativas' 
extroversão ou a inüoversão etc. Esta classe de es-Enquanto estrutuÍa operadva, o esquema de quemas compreende também as inipressões que seação recorre ao conhecimento que a p"rnáu tem do tem de um indir,,rduo em pardcular, os atributosgbjero percebido' assim càmo at t"uotprs,siveis que se the atribui, as capacidades e as clisposiçõesentÍe seus elementos' o. esquema de ação permite que se rhe empresta.
à pessoa reccjnhecer rapidamente o ob.1àro á"roru.
de imediato sua forma e seu conrerá;ô#;; A categoria dos esquemas de papéis concerne
1975b; ravrot CROCKER, 1gB1). 
' g rvlr' aos comportamentos que se espera cias pessoas em
esquemâ de açâo gera hipóteses sobre o ob- ;:ffi,* 
seu srorüs e de seu ambiente' eJ, ogrupu
jeto percebido e, de frro, ,.,g".u meios para inter- a" prorirrlll ;J"Tj::,"J;:il"[:r-#t:::H:pretá-lo e enriquecê-lo, E-le ajr:nta à configuração e delegado sindicar. Ela abrange rambém papdisperceptiva do objeto a informação faltante ou ele- sociais como parenre, amigo, esrrangeiro, pessoamentos novos, e introduz nela correções bem ca- idosa, iovem. por fim, é nessa classe que se en-racterísticas da pessoa (plAGEr rg:'lib; TAYLOR; contram os estereótipos, ou seja, as caracterísricascRocKER' 19s1)' Isso é o princípio da "boa for- atribuÍdas a um conju,ro de pessoas que as fazem
.ict-
ia.
ia
la
A categoria dos esquerna s d-e acontecimentos
engloba as ideias que se faz de certas siruações e
do tipo de cena que aí ciel,eria se desenrolar. Ela
abrange evcntos particlrlares como a f.e-sta nacio-
nal de um país, reuniões à tarde e as reuniôes de
trabalho. Nessa categoria também se encontrant
atividades rotineiras (por exernplo: o rrabalho e
fazer compras), bem como os acontecimentos qLre
marcaram a história pessoal de alguém fpor exem_
plo: sua Íormatura, uma promoção, urr sucesso,
uma ialência etc,).
A categoria dos esquemas cie sl ntssmo, que
se designa geralmente por ,,conceiro clo eu,,, com-
preende o conjunto das idetas que temos sobre nós
mesmos, conjunto que nos confere nossa identida-
de e em função do qual agimos. L,Écuyer (1994)
definiu as dimensões ,,experienciais,, do conceito
de eu: o eu material (somárico e possessivo), o eu
pessoai (autoimagem e idenridade), o eu adaptati_
vo (valor e advidades), o eu social (preocupações,
atirudes sociais e sexuaiidade) e o er_r não eu (o ou_
tro e a opinjâo dos ourros sobre a pessoa). O con-
ceiro que a pessoa tcm de si mesura engloba essas
dimensões e a ajuda a organizar suas adrudes e
suas condutas.
Segundo Taylor e Crocker (i981), as cogni-
cões sociais nos ajudam a reconhecer e interpretar
rapidamente o sentido de nossos encontros com os
outros. Como também pertencem à espécie cog-
nitita, os esquemas socjais possuem u, *ar*r.
propriedades das esrruturas operâtirras. Eles têm
conteúdos específicos, estruturados por regras tais
como o equilíbrio, a reciprocidacle e a causalidade,
e sua organização hierárquica resulta de suas rela-
ções e de suas muiras possibilidades cle combina_
çâo (TA\,I_OR; CROCKER, t981).
As operações mentais
A inreligência é o conjunto cias arividacjes de
adaptação da pessoa a seu meio que tem cor,: .ob-
jetivo a atualização de seu porencial. para piager
cstes dois processos. Em outras palawas, todo es_
quema de ação é um esquema de assimilacão que
deve se acomodar aos novos clados t indo, a, 
"r_periência clapessoa para conservar seu equilíbrio.
Essas duas operações, a saber, a assimiiação e a
acomodaçào. são complexas; tenraremos áxpiicá-
las e ilusrm-hs abaixo.
Piaget (197Sb) coloca dois postulados. o pri-
meiro diz respeito à rendência clo esqtrema de ação
de incorporar infbrmaçao exterior, quer dizer, ele
tende em direção a condutas exploraiórias e de to-
mada de informação: ,,To<1o esquema de assimi_
laçâo tende a se alimentar, quer dizer, incorporar
elenrentos exfernos a ele, no entanto, esses ele_
menlos devem ser compatíveis com sua natureza,,(p t:). O segundo postulado aponra a neccssida-
de de adaptar o esquema de ação aos elementos
exrernos, quer dizer, necessidade de modificação
do esqr_iema ao mesmo tempo em que ele assimila
a informação:
Todo esquema de assimilação é obrigado
a acomodar_se aos eleillentos que assimila,
quer dizer, se modjficar em função das parti_
cularidades desses elementos, mas sem per-
der por conta disto sua coesào f ...] nem seus
poderes anreriores de assimilação (p. 13).
Esta tendência a incorporar elementos exre-
riores (assimilação) e esra necessidade de levar em
conta as características desses elementos para assi-
milá-los (acomodação) implicam um desáquiiíbrio
do esquema de ação e, por conseguinte, a busca de
equilíbrio. isro é, a equilibração cJa esturura.
76 Psicologla e gesrào . \{orÍn e Aube
franceses, os árabes.
parecer, todas elas, semelhantes a clespeito de suas
diferenças reais. Há srande onnnriÀqÁo,t^ --,^-
plos de estereótipos: os negros, as mulheres, os pa-
trões, os empregados, os carentes, os ingleses, os
(L975b), a adaptação é um problema cle equili
brio, em particular de equilíbrio entre a cliferen-
ciação e a integração. Como vimos no Capítulo 1,
o desenvoivimento da pessoa oscila entre sua dife_
renciação, ou seja, sua individuação em seu meio,
e sua integracão, or: seJa, sua socializaçâo. Uma
pessoa excessivamente diferenciada corre o nsco
de ser marginalizada pelo grupo a que penence,
do mesmo moclo que Llma pessoa excessivamente
integrada corre o risco de perder sua identidade
no grllpo. Da perspectiva do cognitivo, a diferen-
ciação corresponde ao processo de assimilaçào e a
integração, ao processo de acomodação. Confbrme
Plaget (1975b), rodo esquema de ação emprega
A equilibração se dá por meio de cicios fun-
cionais de assimilação e de acomodação (plAGET
1975a). A Figura 2.8 mostra uma lemniscara que
ilustra as relações entre os processos cle assimila_
ção e de acomodação bem como o problema geral
de equilibração dos esquemas de ação.
Como mostra a figura, a estrutura está em
equiiíbrio (ela é relatiyamente estável) no pon-
to indicado por um +, ao qual corresponde tam-
bem um desequihbrit_r mÍnimo (indicado por Lrm
-). Imaginemos que inesperadamente sobrevenha
um evento que ative a estrutura: corno ela tende a
incorporar os elementos compatíveis com ela, a es_
trutura vai tentar assimilá-1os, o que desencadeará
um desequilíbrio (em r.irtucle da desequilibração
da estrutura) que o processo de acomodação ten_
tará reverter restabelecendo o eqr.rilíbrio, A acomo_
dação visa ajustar a organização dos elementos e
das relações que formam a estrLlrura de maneira a
que ela possa reencontrar aiguma coerência e es-
tabilidade, ou algum equilíbrio (pela equilibração
da estrutura).
Segundo Piager (l97ia), os desequilíbrios
r.êm de duas fontes: (1) os gerados pela presen-
Assimilaçao, acomodaçáo e equitibra_cào dos esquernas de açào.
.l p.rr epcr. 77
ça ou ação de um agente ou de um fator do meio
externo, ocasionando inadequações ou desaciapta-
ções da esffutura (por exerrplo: Llma informação
inconsistente, unta situação desconhccida etc.), e
(2) os que decorrem das incoerências, das contra-
diçoes ou das disfunções cla própria estruiura. As
disfunçôes da esfrurura são geradas pela dissonân_
cia cognitiva ou pelas insuficiências «la estrutura
(por exemplo; pelo desconhecimento de um fenô-
meno), ou pela ngidez da própria esrrurura, resul_
tanre cla tendência desta última a se estabilizar, or.r
se,ja, atingir um estado de equilibrio considerado
seguro. Em outros termos, os desequilíbrios proce-
dem não só da interacão da estrurura com os da-
dos sensoriais mas também da própria estl-1ttura.
Do desequilíbrio nasce o dinamismo necessá-
rio às atit.idades e às condutas do indir,íduo, na
medida em que ele extrai os motivos de suas con_
dr.rtas de seu ambiente. Comumenre, o desequilí-
brio produzido segue local e parcial. Com efeiro,
os desequilíbrios aparecem em contextos intera_
tivos locais e parciais, frequentemente, eles con_
cernem apenas um certo núntero de condutas da
pessoa. Eles não têm. salvo exceção, valor rie ques-
Estado TransÍormações (movimentos) ] frtudo
+
Assrm ilação
f""
.«"
..-;.#
Fonrer Dolle (1987, p. i00)
Figura,i
7B psrco.logia e ge5tão . t\,Torin i Àuba
tionamento do conjr_rnto das atjvidades da pessoa
ou de sua personalidade.
Sendo um esquema de ação un: sistema aberlo
(em razão de suas atír,rdades com a percepção) e,
ao mesmo tempo, um sisrema fechaclo (em razãcr
do princípio cia boa forma), a equilibracão pode
provocar um rctorno ao estado anterior ao dese-
quilíbrio (conservação da estrutura) ou a instaura_
ção cle uüt no\io estado (translormação rla estnltu-
ra). Para que sejam portadores de rransformaçào,
os desequilíbrios devem ocasionar superações da
estnltura, instaurando um equih.brio melhnr do
que o anreriot o que se chama de equilibraçào ma_
,jorante.
Tomemos como exemplo o caso de uma pcs-
soa qlle tenta enviar unta mensagcm a Llrlt colega.
Empregando o procedimento habitual, ela ariva o
programa de correio eletrônico, clica o ícone ..cnar
umâ nova mensagem", redige sua mensaEiem e cli_
ca o íconc "enviar,/receber,,. Algr"rns rnstantes mars
rarde, ela recebe do sen-idor umu mens,rgem cie
erro. Cotno ela tende a proceder? Caso cla reto_
me o procedimento habitual, prestando arenção
ao que faz, estará diante de r.rm caso de eqr-rilibra_
ção simples. O que ela fará se receber de nr-rvo uma
mensagem de erro? Várias hipóteses são possíveis;
ou retorna o procedimento, or-r iê arertramente a
mensagem de erro para rerrer o procedimento, ol1
pede ajuda, ou abandona sua tentatrvâ e pega o te_
lefone etc. Todas esà-as condllru, ."pr"r"rtam ma-
neiras diferentes cle tentar resolver o problema e
enviar a mensagem a seu colega. Em termos psico-
1ógicos, se está diante de eqr-rilibraçoes simples.
A equilibraçâo simples visa funtlamenralmen-
re consei-var a eslrutura origir-ral; ela procecle ou
peia correção dos eiementos oll da;- relações que
formam a estrutura, ou pela compensação das per_
turbações causadas por eiementos estranhos.
Por exemplo, imaginenros rrm qnaclrudo for_
mado por nor,,e pontos, que é prcciso unir fazenclo
r.rso cle ]inhas retas contínuas.
para resolver esse problema, várias soluções
são possívcis, e nenhuma delas coloca em discus-
são a fonna do problema nem a tarefa a cumprir.
Consideremos agora o problema seguinte: imagi-
t-temos o mesmo quadrado de nove pontos, e desta
vez se tratâ de ligar os pontos por meio de quatro
linhas retas, sem levantar o Iápis.
Esse problema é c}ássico, eie pretende que se
perceba um orlrro ttpo de equilibração, a equilibra-
ção majorante. Sua solução exige exceder a estru-
tura. A equilibração majoranre age üa produçâo
de novos esquemas de ação ou arravés da transfor_
mação da estmtrlra atual, o que implica sua supe-
ração. Nesse caso, há emergência de novas signi-
ficações, ou utijizaÇão de novos procedimentos ou
ainda a descoberta de soluções mais apropriaclas
à situação.
No caso em que a equilibração reproduz o es_
tado anterioq o sistema efetua uçõ.s corretivas ou
compensatórias dos efeitos perturbadores, o que
permite consewar intacta sua estrutura. No caso
contrário, o sistema é apanhado em um impasse
do qual só pode escapar modificando sua esrrutu_
ra em funcão dos parâmetros dos novos elemen_
tos, dando um senddo novo aos desequilíbrios e
à sua estrutlrra (quer ciize4 mudando o quadro de
referência) ou empregando procedimentos mais
adcquadosfou seja, aplicando novas soluções).
Tais operações visam, nos cjois casos, não apenas o
equih'brio da estrutura mas também o crescimen-
to da complexidacle do conjunto, o que, para o ser
humano, significa a criação de nouas.eiaçOes e de
norros instrumentos de pensanento, que aumenta-
rao a capacidade de adaptação da pessoa e sua in_
clividuação, como aponra piaget (1975a).
Nesta seção, tentamos explicar as relações en-
rre a intenção. a ação e a experiência consciente
da pessoa, relações estas que não podem ser com-
preendidas sem qlle se leve em conta transforma_
çÕes operadas pela estrutura mental oriunda da
inteligência. O approach utilizado para estudar a
percepção e os fenômenos da consciência reconhe-
ce a teleonomia do comportamento, toda ação da
pe"§soâ pressuponcio uma intenção que a orienta
em direção a um objetivo. EIe reconhece igual-
mente a cnarividade da pessoa, possibilitada pelas
atividaCes clessa esrutura mental que organiza e
a
a
I
a
a
a
a
i i+i
t
l1
:
ti
Él!
,.,i1:,,,,,,*.
:nas soluÇôe$
:a em discus-
iã a curnprà
ijnter irnagj.
Itos, e desta
e de quaüc .
rde que se
equilibra-
-i -t eStfU-
Produção
rl anslOf-
;üa supe-
as signi-
_rrlUS OU
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1.âs ou
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1-
iiiiii;=:,,:::,1 rys dados da experiência consciente
ili :t;:§ptivos) em uma síntese originai,,t.,. , i:rr::ira de seus compofiarnentos.
: A perccpcâo :9
rações perceptivas su.feitas a deformações, sendo
elas rndefinidas ou mal delimitadas, náo podemos
nos fiar inteiramente em nossas percepções.
Importa, por fim, reconhecer a rrantagem ine-
gável da espécie humana que a inteligência repre-
senta: convém enrão utiiizá-la tanto no quadro de
nosso trabalho como no quadro das nos.ças rela-
ções com ()s outros.
Erros de percepção
A percepçâo comporta vários limires. Sempre
ligada ao canlpo sensorial e iimitada pelas condi-
ções espaço-tenrpora,l, eia é positiva e imediata.
Focada em pontos específicos ilo campo sensorial,
indiridual e incapaz de se comun:.aa ela é egocên-
trica. Guiada peias antecipaçôes e peias expectati,
vas qtle the proporcionam as estruturas operativas.
ela é fundamenlahlente seletiva. para finalizar, os
dados que e1a rransmite a essas esrururas têm
uma significacão, isto é certo, mas eles não ultra-
passam o nível de indícios.
Além de limitada, a percepção enrrolve várias
armadilhas qlle, de fato, são armadas peias esüu
turas. Por outro lado, elas prestam um grande ser-
viço ao possibiiitar as cognições. Se os sinais levam
a preferir um esquema de ação em detrimento de
outro, isso implica que toda intelpretaçâo dos da-
dos sensoriais dependerá desta úlrima, e não dos
dados. O que acontece efltão quando os sinais e o
esquema de ação não condizem?
A percepção algumas vezes também nos co-
loca em apuros, particularmente quando nos de
frontamos com a incerteza, a ambiguidade ou a
complexidade. por exemplo, às vezes acontece de
interpretarmos uma situaçâo de ta1 mo<jo que nos-
sos compoftanlelltos nâo se revelam absolutamen-
te apropriados a e1a (em linguagem popular, cha-
ma-se isso de ,,estar desligado',).
Ao guiar a exploração e o registro dos dados,
os esquemas conferem à percepçâo seu caráter se-
letivo. Se eles buscarn e autorizam a assimilaçâo
da informação compatível com eles, isso pressupõe
que não lncorporam qua.lquer inlormação presente
em seu campo sensorial.
(os
que
::.:.:.i totlt€xto, a percepção constitui um ato,: ':111;,.-1,1=aão e de registro dos dados sensoriais
:t i --:.,:i.t fundamental é alimentar as estl.utu_
.:l -::;:llls com elementos novos. Dado que osrr :r:i !: de ação são naturalmente receptivosi 1: :lenlentos novos, a assimiiação deles vai' ..:ii um desequilíbrio que será restabelecido. :::,..i,_rrmaçôes; as estruturas mentais veem-se
.-".Í:,::-i a se amoldar a esses novos parâmetros
,';;: ':,iicôotrar um estado de equiLbrio. porém,, :. _ ,',1 equilíbrio e melhor do que o anteriot: ,; :i.pr€sSao equilibração ntgoranfe (pIAGEll
:.i :struturas operativas guiam a percepção
': :,: áS expectativas qUe prodUzem. Essas ex-' -::t:;"âs têm repercussões sobre os sentimentos
,, : )mportamentos da pessoa, pois servem de" :i! para avaliação das relações interpcssoais,
.:-,,-idades como o trabalho e das reálizações'' ..;js^ As estruturas perceptivas, em paÍticu-,: : :,ilem conter um forte componente afetirro
". : LDR; CROCKER, 198i).
.tara aprender com esta exposição sobre a per,
-.-1: e utilizar esse ensinamento em um quadrr:" :-..ir-:nal, precisamos antes <ie tudo reconhe-
, - : iqueza de nossa sensibilidade, que nos ,.in_
.-:,:" sobre nossas necessidades e nossas emo_
. * j ipor intermédio dos interoceptores) e sobre o' .:. - €Nrerno (por intermédjo dos proprioceprores
;ji exteroceptores). Sem nossa sensibiliclade,
= r, ., saberíamos agir de maneira condizente com- ,:a ambiente, pois não teríamos como reconhe-
.:r tem nossas necessidades nem os meios de sa-
,:,:7g-1n5.
E preciso, em seguida, considerar a importân_
.' da percepção enquanto agente de ligacão en-': : esl'ímulosea significacàodeles. A pelccpçao
:.:::iite a exploraçâo e a seleção dos clados senso,
-";,: j. e sua codificação em um formato compatível
n uma eslrutura que lhes imporá um sentido.
.,.javia, subordinacia como se encontra à presen-
-,,' t à proximidade dos estímulos, 
" 
.*nr.ud, .*
::iados, a percepção dá ocasião a roda sorte de er_":-. Então, convém lembrar que sendo as configu-
;§&|:
80 Psicologia e gestão . Morjn e Aubé
Existem muitos erros de percepção. Alguns
deles provêm dos esquemas ou das affibuiÇões que
guiam as atividades perceptivas: trata-se clos erros
fundamentais de atribuição e dos erros que têm
origem no viés egocêntrico. Outrns erros derivam
dos esquemas sr:ciais, Esse é o caso dos estereóti_
pos, entre eles os preconceitos, o efeito pigmalião
e a iiusão. Da mesma forma, erros cle percepção
são gerados pelas impressões produzidas pol pes-
soas ou acontecimentos no indivíduo, entre eLes,
as primeiras impressões e o efeito halo são os mais
conhecidos. O efeito de conrraste e as profecias au_
torrealizáveis são outras fontes de elro a assina-
1ar.
Erros de atríbuiçã.o
Manancial de hipóteses, de anrecipações, de
previsões, os esquemas são fonte de erros de atri-
buiçâo. Uma atribuição é uma inferência ou uma
hipótese elaborada pela pessoa que tem por fun_
ção a explicação dos dados observados, dos acon-
tecimentos ou dos comportamentos (VALLERAND;
BOUFFARD, 1985). Vários fatores permitem expli-
car os comportamentos: fatores internos, que con_
cernem às disposiçôes da pessoa (a intenção dela,
sua modvaÇão, suas habilidades etc.), e fatores ex_
lernos, que concernem à situação em que a pessoa
se encontra (a atividade que ela exerceJ o contex_
to enl que vive, as condições aí existentes etc,). As
atribuições permitem compreender o que se passa
graças às causas possiveis dessas coisas que se pas_
sam; as atribuições colocam em relevo essas cau_
sas e, desse modo, permitem melhorar ao mesmo
tempo a previsão e o controie das ações.
Os riscos cie se incorrer em erros de atribuição
são altos quando se está incerto quanto aos senti_
mentos que se deveria nutrir a respeito dos outros
ou dos acontecimentos, quando se está em uma
situação complexa ou ambígua, ou dianre de in_
formações contradjtórias ou após um fracasso ou,
ainda, diante de acontecimentos inesperados.
O erro fundamental de atribuição
Enrre os erros de atribuição, o erro fundamen_
tal é o mais importante. Ele consiste em conceder
malor peso a causas internas (as disposições da pes-
soa) que a causas externas (a situação) quando se
procura compreender os comportamentos do ou-
tro (HAR\GY; WEARY 1984; VAI,LER \ND, 7gg4).
Por exemplo, no caso do atraso de um funcionário,
tem-se a tentação de atribuir a causa desse atraso
mais às disposições do funcionário (como sua fal_
ta de motÍvação ou de esforço) do que a aconte-
cimentos externos (como os engarrafamentos no
trânsito). Ou, no caso de atraso nos prazos de pro-
dução,tem-se a tentação de atribr_rir esse aüaso a
fatores outros que não uma possível ambiguidade
nos objerivos fixados para a produção.
O viés egocêntrico
Outro erro de atribuição, denominado viés
egocêntrico, tem por função a proteção da autoÍ-
magem e do sentimento de valor pessoai do indi-
víduo. Em razão disso, o indii,rduo tende a atribuir
seus êxitos a disposições pessoais e seus insuces-
sos, a fatores externos. por exemplo, no caso de
um fracasso pessoal, como a Íecusa de uma pro_
moção, tem-se a tentação de atribuir a causa dessa
recusa mais a fatores exrernos (como a iniquidade
do sistema de promoção ou a forte competição)
que a fatores internos (como a falta de qualifica-
ções). Comete-se esse mesmo erro, mas em sentido
inverso, quando se conquista alguma coisa. Tem-se
cntão tendência a atribuir esse sucesso mais a si
mesmo que a fatores externos (como a colabora_
ção de um colega ou o apoio de um superior).
Os estereótipos
Os estereótipos são crenças generalizadas so-
bre um grupo de referência; eles resultam da atri_
buição de características idêndcas a todas as pes-
soas associadas a esse grupo, sem que se levem em
conta diferenças individuais. Embora muitas pes-
soas não admitam nutrir essas crenças, os estereó_
tipos são inevitáveis, pois servem essenciaimente
para estrururar de maneira econômica a percep-
ção de si e do outro. Em razão da uniformização
que geram, os estereótipos reduzem a capacida-
de de um indivíduo conhecer realmente u, p"rrou,
que encontra. Os estereóripos decorrem, amiúdo,
I r: .,ir-ri lalta de informação ou do registro errôneo
, :; ,i:,rrírsâcão (ARONSON, 1976). Os estereótipos
i:"{;; niiúlâm dois erros de percepção: os preconcei-
t-.:: r 'i.) eieito Pigmalião.
,,ç Éreconceitos
ü-c estereótipos propiciam a formação de pre-
; nieilos. Um preconceito não é necessariamente
:i.;:.rivo, ele também pode ser positivo. Um pre-
:, r,i:ieito é na verdade uma atitude, positiva ou
:.:'lrliva, em relação a um grupo. Ele implica um
-,qirmento anles da interação, de onde o prefixo
':it''. e um conjunto de generalizações estabeie-
;,"ias a partir de informação falsa ou incomplera.
:i::,;Llanto âtitude, o preconceito implica também
-.na tendência a agir e a reagir de maneira coe-
;::,i,€ ou condizente com as crenças e o afeto que
:,, ruâ o grupo a1vo. O estereótipo ínfluencia, con-
::rlilerlt€rr1eote, a atilude adotada em relação a
-rma pessoa ou um grupo (on seja, o preconcei-
:;i que, por sua vez, reforça o estereótipo (ARON-
iüN,1976),
Certas situações são propícias ao rascimento
'ir preconceitos. Em situações de competição, so-
ii'etudo quando um grupo exibe mais força e poder
i',r que outro, o g11lpo "fraco" torna-se alvo de pre-
;:,rlnceitos (ARONSON,7976). No interior de um
íiupo, acontece de tensões se formarem, Quando
e tensão sobe ao ponto em que os membros do
iiupo sentem-se frustrados e não sabem como re-
'iuzir a frustração, a agressividade produzida por
rssa tensão se desvia de sua fonte e se \zolta para
a pessoa mais vulnerável do grupo. Esta se torna o
bode expiatório (ARONSON, 1976).
Para finalizar, em quase todas as situações so-
ciais existem normas de conduta que pautam as re-
iações. Essas normas também comportam precon-
ceitos. Para obter a aprovação dos outros ou para
evitar aborrecimentos, os indivíduos tendem a se
conformar e a aceitar preconceitos e esteleótipos
entranhados nessas normas.
O efeito Pigmalião
Um caso particular de preconceito é o efeito
Pigmalião, que pode ser observado na performonce
A percepçâo Bl
de pessoas em uma sltuação de aprencLzagem olr
de produção. Nessas situações, a pessoa em posi-
ção de autorídade (seia o professor ou o supen{-
sor) se faz uma imagem da capacidade das pessoas
que dirige e tem Llma opinião formada sobre a ca-
pacidade delas; esse julgamento, que na verdade
e um prcconceito, condiciona suas atitudes e seus
comportamentos em relação a seus subordinados
e influencia a performance desses últimos (EDEN.
1992). Segue-se que um preconceito favorável
produz r:m efeito Pigmalião positivo (ou seja, uma
nrelhoria naperformance) e um preconceito desfa-
vorável, um efeito negativo.
A ílusão
Erro simiiar e a ilusão, isto e. o fato de se per-
ceberem fenômenos que na realidade não existem
(TA!'I-OR; CROCKER, 1981). É o caso do empre-
gador que crê que seus funcionários são preguiço-
sos e motivados apenas pelo ganho. As verdadeiras
disposiçôes dos funcionários pouco importam, pois
esse empregador teimará em percebê-los como
preguiçosos e movidos pelo ganho e adotará con-
dutas em relação a eles que reforçarão suas lalsas
crenças. O efeito Pigmalião, que também pode ser
produzido por tal siruação, reforça iguaimente as
falsas crenças desse empregador.
As impressões
As impressões sào ideias e sentimentos que
nascem ao contato com o outro. Como os estereó-
tipos, é preciso saber reconhecê-las, pois tende-
mos a confiar nelas, em especial nas primeiras im-
pressões. Baseadas em um mínimo de informacào
a respeito de uma pessoa, nossas impressões são
duradouras porque são, em si, inf'erências qlle nu-
tren e orientam o ato de percepção. No entanto,
diz-se comumente que as impressões não enga-
nam. Na verdade, essa afirmação é falsa, porque as
primeiras impressões são justamente produzidas a
partir de muito pouca informação e estão sujeitas
não apenas aos estereótipos, mas também a me-
canismos de defesa como a projeção e a negação.
A projeção consiste em se livrar de certas disposi-
ções, percepções ou emoções penosâs ou intolerá-
Bt Psicolôgia e gesrào . Morin e Aubé
veis atribuindo_as ao outro. A negação consiste em
não se reconhecerem os dados reais, mesmo quan-
do eles são evidentes.
As primeiras impressões
Como seu nome indica, as primeiras impres_
sões são as impressôes qne nascem ao primeiro
contato com o outro e se baseiam, em grande par-
te, ern estereótipos e nos sentimentos que o pri-
meiro encontro evoca.
Asch i1952) descobriu que certas caracterÍsti-
cas parecem mais importantes que outras na deter-
minação da percepção da pessoa. Atributos como
caloros. ou frio paÍecem ter i,fluência raais derer-
minante sobre as impressões que atributos como
polido ou rude. Além disso, os estímulos que se
apresentam em primeiro iugar influenciariam mais
as impressões do que os que se apresentam em úl_
timo luga4 daí a crença nas primeiras impressões.
Porém, na verdade, também se descobriu que os
estímulos que se apresenraln em últimó lugar po-
deriam rer um felto de recentidade: o indir,rduo
lembra melhor das úkimas impressões do que das
primeiras.
De acordo com hipótese de Laing, a primei-
ra impressão produzida por uma p*rrãu serrla fru-
to da imagem dessa pessoa (de sua aparência, de
suâs atitudes, c1e seus comportamentos), de aüi-
buições que the são imputadas iestereótipos e oli_
tras crenças) e das imagens projetadas sobre ela
(inconsciente). Assim, a percepção que se tem cie
uma pessoa, no primeiro contato, está fundamen_
talmente baseada em hipóteses, de onde a impor_
tância de manrer o espírito aberto e dar provas de
empatia para com ela.
O efeito halo
O efeito halo é um caso particuiar de forma_
ção de impressão que influencia o juigamerto de
uma pessoâ. Ele consiste em se superestimar as as-
sociaçôes provocadas pelas características pessoais
de alguém, ocasionando dessa forma u*à dirro._
ção na percepção que se tem dela. por exemplo,
Brunswik (1956) descoLrriu uma forte correlação
entre o fato de se achar a.lguém amável e a inteli,
gência que se atribui a essa pessoa. O efeito halo é
particularmente perceptivei nas situações em que
pessoas são avaliadas, tal como nas entrevistas de
seleção ou de avaiiação de rendimento.
Outros erros de percepção
Existem outros erros de percepção que podem
ter repercussões às vezes desasüosas na qua-iida-
de das relações profissionais. Dois erros desse tipo
merecem ser idenrificados; o efeito de conrraste e
as profecias autorrealizáveis.
O efeito de contraste
O efeito de contraste é um efeito perceptivo
de reforço produzido pela oposição .ro" pessoas,coisas ou situações que se apresentâm simulunea_
mente ou sucessivamente. Ele realça as diferen-
ças, e mesmo as oposições e os contrastes entre
pessoas, coisas ou situações, o que pode acarretar
distorçôes e erros de juigamento. O efeito do con-
rraste pode fazer com que um indinduo tome uma
posição favorávei a uma pessoa ou a uma situação
com a quai se idenilfica, e âssuma uma posição
conrária a uma pessoa ou a uma siruação quando
não se identifica com ela.
Existem meios para se controlarem esses vie-
ses percepdvos, a começar pelo desenvolvimento
de esffururas figurativas, Os erros cometidos pela
percepção são corrigidos pelas ações e operações
das estruturas mentais, as quais, po. ,u, vez, se
desenvolvem conforme um processo de superação
e de estabilização (equilibração majorante) a par-
tir, jusramente, dos erros perceptivos. A percepção
desempenha, por conseguinte, um papel essencial
no desenvolvimento da inteligência.
As profecias autorrealizáveis
Uma profecia aurorreaijzável (setf_fulfiiling
prophecy) é, em primeiro lugar, uma iAentificaçaã
errônea de uma siruação que acarreta um com_
portamento que, uma vez exibido, faz com que a
identificaçâo errônea se torne verossímii, e mesmo
real (MERTON, 1948). Isso significa que, quando
se considera que dada situação g reat, ela corre
!L
t:
*.
'h,:.
'§i
5:,t
:iro ha.lo e
'J ern que
r:,tistas de
.: tt.t. .;fijio de se tornar real por via de suas
i:,:::rr.:i.. ::i:,as. pensemos, notadamente, no estu-
-:-: ia convence de que falhará eln seLl exa-
' ',, .: rleba realmente por fracassar, r,-isto que
, r.:,s iempo antecipando seu fracasso que
i :i : -. Srí podemos falar de profecias autor-
I I ;;! na medida eln que crenças realmente
:' -iiiítiu a realidade. Qr:ando um aconreci-
,::- 
:1: 
j* se produzir independentemente clos
':' 
j:l. ;.::lentos que os indir,íduos possam adotat,
.r - :: :nso de falar de profecias autorrealizáveis
.'i ::;,a::plo: o so1 se levanta todas as manhãs.
" " - ,:rportando nossas previsões; todos os seres
' .'.r :.---.:-,-i um dia acabam por morrer, queiramos
- ::eito Pigmalião, descrito anteriormenre,
: :,.;. uma forma particular de profecia autor-
, , .::i-,:el, já que ele se refere à previsão de certo
' -. ,'; performance por parte do indivíduo. Ent
:':;iação com o efeito Pigmalião, a profecia
, . ;iealizávei não se limita aos comporramen-
, -.1íividuais e pode ser aplicada aos acontcci-
":-;,:is. Staszak (1999) relara o caso da falta de
.'.:imente, provocada por uma crenca dos cida-
-.:is, Convencidos de quc uma falta de gasolina
i r'.r iminente, os californianos xpl'cssaram-se a en-
-::ii sells tanques nas stotiorls-seryíce da região, o
"iaÉ teve como consequência esgotar as resenras
:. gasolina e provocar a falta prevista. Ela teria
:,;o evitada se os cidadãos não se rivessem mos-
::.:do tão precipitados.
O fenômeno das profecias autorrealizáveis
:.os leva a nos interrogar sobre a influência das
lessoas que se pronunciam sobre uma situação a
litulo de especialistas nessa slruação. Com efeito,
é difícil separar a parte de sua prevlsão, que têm
rfetivamente de seu conhecimento em Llm campo
Êarticuiar, da que pode ser atnbuída ao fenômeno
da profecia autorreallzável. A respeito disso, Fer-
raro et al. (2005) explicam como reorias, scja em
economia ou em outras ciências sociais, podem
exercer uma influência sutil, embora poderosa,
nâs crenças e nos comporlamcntos dos trabalha-
dores nas organizações e, dessc modo, folar a cr:i-
tura e a história da organizaçào.
A percepção 8il
Aplicação da psicologia da
percepçãor a empatia
Segunclo Bloch et al. (2002), a empatia cor-
responde a "um modo de couhecir.nento itrtuiLir.'o
do outro" (t:.426). A empatia é uma faculdade cli-
ferente da simpatia, ela raduz sobretudo um sen-
timento de benevolência e de compaixão pelo ou-
rro, implicanclo a participação no sofrimento de1e.
A empatia se distingue igualmenre do insighr, que
designa a compreensão súbita da natureza de uma
figura. de um objeto ou de um sr-rjeito. Coir-ro incli-
ca slra definicão, a etnpatla é um modo de conhe-
cimento intuitivo do outro; e1a recorre, então, à
intuição.
A vantagem da ernpatia foi descoberra inicial-
mente nas práticas terapêuticas, onde se percebeu
a vantagem de poder compreender o ponto de vista
de un.ia pessoa, sobretudo quando se trata de uma
pessoa difícii de se compreender e que exibe com
portamentos estranhos. A empatia, com a popu-
laridade crescente dos opprocches humanistas nas
organízacões, tornou-se um instrumento de gestào
nruito úti1, por assim dizeq para as pessoas encar-
regadas de lesolver problemas e tomar decisões de
comum acordo com ouüas. A empatia e uma habi-
lidade que se aprende, na medida ern que a pessoil
está disposta a aprender (ROGERS, 1980).
A aprenclizagern da empatia exige qualidades
pessoais, próprias a uma pessoa confiante (RO-
GERS, 1980). Como a emparia pressupõe que a
pessoa deva lazer conro se ela fosse a outra, isso
exige quc c1a se sinta suficientemente sepJura, sufi-
cien[enlente estáve1 para adotar uma posição que
the pareça pouco habitual ou estranlta. Uura pes-
soa segura se sente livre nas suas relaçÕes com o
outro e disposta a aceitar opiniões diferentes.
De acordo com Rogers (7947), uma primeira
qualidade requerida para a aprendizagem da em-
patia é a coerência da pessoa, quer dizer, o grau de
concordância ou de consistência interna exisrente
entre a exper.iência dessa pessoa, de sua representa-
ção consciente clessa experiência (a megaconsciên-
cia), da imagem que ela faz de si (o concelto de si)
e a expressão dessa experiência (suas atitudes e
seus comportamentos). O estado de coerência in-
terna permite a pessoa perceber os conlportamen-
r podern
lualida-
sse dpo
;l-aste e
rprivo
;s0â§,
l]lea-
-r Ltt-
lnare
elar
irna
Ção
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íe-
tc
1a
1(
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3
84 Pslcologia e gestão . Morin e Aubé
tos do outro de maneira correta e diferenciada, e
melhora sua capacidatle de lograr uma compreen-
são empática do quadro de referência do outro.
Rogers (7947) enunciou a seguinte 1ei das re-
lações humanas:
Quando há entre duas partes um dese-
jo mútuo de entrar em contato e se envol-
ver em Llm processo de comunicação, pode-
mos afirmar que quanto mais alto for o grau
de consistência de uma das partes acerca de
sua experiência, cie sua percepção e de seus
comportamentos, mais a relação será carac-
terizada por:
. umâ tendência à comunicação recíproca
caracterizada pelas mesmas proprieda-
des;
' uma compreensáo mútua mais correta
do objeto da comunicação;
. um funcionamento psicológico melhor,
de uma parte e da outra; por um aumen-
to da satisfação proporcionado pela rela-
ção (p.246-247).
Outra qualidade pessoal necessária para o es-
tabelecimento de conrato com o outro, no intuito
de compreender sua perspectiva, é a abertura à ex-
periência. A abertura tem por função fazer reinar
a segurança Ínterna necessária ao estabelecimen-
to de contato, É uma atirude do indivíduo que se
caracteriza por umã maneira espontânea, não se-
letiva e não diretiva de explorar a experiência de
contato, que se caracteriza pela disposição e pela
capacidade de se envolver em umâ yia sem precisar
verificar se eLa apresenta, ou não, dificuldades.
A abertura requer o reconhecimento e a tole-
rância das diíerenças, assim como a compreensão
da experiência vivida pelo outro. Certas caracte-
rísticas pessoais facilitam a abertura para a expe-
riência, tal como a disposição para aprender com
a experiência do outro e a capacidade de reagir de
uma maneira flexível e dinâmica,
A abertura à experiência exige também que o
indil,rduo seja capaz de suspender seu julgamen-
to por um certo tempo, para alcançar plenamen-
te a significação do ponto de vista do outro. Em
fenomenologla, esta capacidade corresponde à re-
gra da suspensão (MUCCHIELLI, 1983). A palavra
suspensdo (épochô, traduzida do grego, significa
literalmente "interrupção". Esse termo, que enlre
os céticos gregos designava a suspensão do julga-
mento, reproduz uma metáfora no idioma deles
(umperíodo é precisamente uma "parada", uma
suspensão no curso do tempo). A palavra foi reto-
mada por Husserl (7962) para designar a fase da
redução fenomenológica que consiste em "colocar
fora do .iogo", a "colocar entre parênteses" todo
julgamento existencial sobre os objetos (e mesmo
sobre os sr-rjeitos enquanto parte do mundo) de
maneira a fazer'jorrar" a pura consciêncla irre-
dutír,el que carrega esse julgamento ou o suspen-
de. Essa atitude c1e abertura pode ser percebida
pelo outro e o impele a exprimir livremente seu
pensamento, sem medo de ser mal compreendi-
do e mal julgado. A abertura permite alargar o
campo psicológico e aprofundá-1o. Ela facilita a
cor.npreensão da experiência do outro, isto é, a
apreensão sintética de seu ponto de vista, em ser-r
contexto, aqui e agora.
Ao contrário do que se poderia cret a capa-
cidade empática não parece ser determinacla pela
performance intelectual nem pela experiência, em-
bora estas últimas não a prejucliquem. Em outras
palar.ras, não é necessário ser brilhante nem um
expert para compreender os outros de maneira
empárica (ROGERS, 1980). A capacidade empáti-
ca depende no entanto das atitudes da pessoa em
relação a si mesma e em relação aos outros.
A empatia consiste na representação correta
do quadro de referência do outro, com as coerên-
cias subjetivas e os valores pessoais a ele conecta-
dos, A capacidade empática presume que o sujei-
to pode perceber r:ma situação e experimenrar um
sentin-Iento como se tbsse o outro, sem esquecer de
modo nenhum que se trata da experiência do or.r-
tro (ROGERS,1,947).
Essa capacidade parece poder se aperfeiçoar
com a idade, mas varia pouco na idade adulta. Não
se trata portanto dessa famosa sabedoria que se
adquire com os anos. As diferenças sexuais interfe,
ririam pouco na capacidade empática, embora as
mulheres pareÇam ter mais facilidade para perce-
ber correramente as experiências do outro. Por ou-
ilt
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-r -:do, e1a estaria estreitamente vinculada à per,
: :-:i1 idade, n oradamente à estabiliciacle emocional
-: rêssoâ (MASSARIK; WICHSLER, 1984).
:, co mpreensõ.o empática
A compreensão empática presume a capacida-
:: ie adotar a perspectiva do outro, de se descen-
-:rr. À descentração permite reduzir o egocentris-
:: da percepçâo, já que faculta à pessoa romar
:.-rláncia em reiação a sua própria perspectiva. a
:.:locar em suspenso, por certo tempo, seus .jul-
_.:Írlentos a fim de adotar uma perspectiva estra-
--ta. a perspectiva do ot-1tro. Na prática, trata-se de
:.rutar para compreender a significação, a mais
.:npleta possível, da mensagem, isto é, seu con-
".udo informativo e afetivo. para se lograr a com-
::eensão empática, é preciso perntanecer. atento a
,,.rdos os sinais, verbais e não verbais. É preciso se
lerguntar repetidamente: O que essa pessoa tenta
ne dizer? O que isso significa para ela? Como ela
rercebe esta siruação? Saber identrficar o ripo psi-
rológico da pessoa com quem se rrata pode ajudar
na compreensão empática, pois o conhecimento
Ce suas preferências de percepção e dejulgamento
tacilita as arividades de comunicação.
Berger (1987) descreveu os princípios da em-
patia. Para que possa haver empatia, e preciso en-
corajar a pessoa a explicitar sua opinião, r,isto que
a simples expressão da opinião nào garantirá que
eia seja compreendida. E preciso também perma-
necer atento aos sinais verbais e não verbais emi-
tidos pela pessoa, eles são porradores de signifi-
cações implíciras ou camufladas. É preciso a1ém
disso se sentir inteiramente livre para adotar, às
vezes, uma perspectiva externa ou de e"rpe rf no in-
tuito de fazer progredir a exploração, ao invés de
adotar a opinião da pessoa, para ajudá-lel a com-
preender e superar. É preciso, por fim, ser capaz
de reconhecer as imagens que a pessoa projeta (a
transferência), assim como as imagens qLre se pro-
jetam sobre ela (a contra-transferência), para me-
thor compreender a dinâmica da relação e os pa-
drões psíquicos que podem se esrabelecer.
Quando um indivíduo se senre escutado des-
sa maneira, com tânta consideração, ele tende a
se escutar com mais atenção, a compreender: de
A percepcão 85
modo mais claro suas ideias e sentimentos. Uma
vez que â escuta ativa tende a reduzir o sentitnclt-
to de ameaça gerado pela percepção do espírito
crítico do ouuo, a capacidade do inclivíduo cie per-
ceber sua experiência e a do ourro se aperfeiçoa,
e cada qual experimenta um senrimento de valor
pessoal.
A empatia recorre a várias tecnicas de escuta e
de comunicação, técnicas que provar.anr sua capa-
cidade e podem ser aprendidas a fim cle auxiliar o
desenvolvimento de reiações positivas e encorajar
a aberrura e a honestidade necessárias à resolução
de problemas. Por exemplo, para encorajar uma
pessoir a exprimir o que peltsa ou sentc, as tecni_
cas seguintes podent ser empregadas: o eco, a de-
volução, o silêncio atento, a pergunta, Llm gesto ou
uma palavra, o reflexo. O eco, o gesto ou a palavra
(por exemplo: hum hum) são técnicas a serem uri-
lizadas com parcimônia, pois tendem a irritar. O
silêncio atento é uma técnica eficaz, ntas provoca
ansiedade. Saber perguntar e uma arte, já qtre as
perguntas del,ent convidar a pessoA, de maneira
respeitosa, a exprimir e explorar conteirdos implí-
ciros, inconscientes ou dissimulados, Finalmenre,
o reflexo e Llnta tecnica inuito eficaz t-to que respei-
ta tornar claro o pensantento e a opinião do outr.o
e o reconhecimento de seu r.,alor ou importância.
Muitas técnicas se revelam íiteis no qrle tange
facilitar a compreensào da experiência da pessoa:
a reformulaçâo, a sínrese, a exploração, a eluci-
clacão, a clarificação e a confrontação cortstitueitl
exenpio disso. A reformulação, ulla técnica muito
eficaz, fica claramente ilustrada no rexro ciássico
de Rogers e Farson apresentado no final do Capí-
tulo 6. A síntese é irtil quando se trata de analisar
um conjunto de ideias já expressas antes de passar
a outro conjunto de ideias. A exploração, a eluci-
dação e a clarificação são técnicas úteis quando
se trata de examinar diferentes aspectos do que
foi expresso, de maneira explícita ou implícira, tor-
nando esse material cada vez mais claro nâo ape-
nas aos olhos da pessoal mas também de quem está
envolvido nesse esforço cie compreensão empáti-
ca. Por fim, a confrontaçáo e uma técnica a se em-
pregar corn parcimônia porque tende a estimular
defesas, .iá que consiste em colocar frente a Íl-ente
,
B6 rrsi.oloqia e gesrão i §{orin e Áubé
ideías expressas e aparentemente antagônicas com
o objetivo de se descobrir o sentido delas.
\.4aniÍestar emparia não é aparentar ser uma
"boa pessoa". Manifestar empada exige um esforço
consciente, exige prática e vontade de aperfeiçoar
sua maneira de ser (ROGERS, 1980). A empatia
requer o exercício de todas as funcões psicológicas
descritas no capítulo precedente. Ela se desenvol-
li:.,
$,,
*
â
,$.,,
ti!,.
Nl., .i\a
§l
K
ffi
verá de maneira diversa, conforme os tipos cle per-
sonalidade: asslm. o tlpo "pensamento,' precisará
reforçar sua capacidade de apreciar o valor das
outras pessoas, o tipo "senlimento" deverá aperfei_
çoar sua comperência e sua confiança no campo da
crítica, o ripo "intuição" deverá aprender a viver
aqui e agora e o tipo "sensação" deverá aprender a
se abrir ao mundo imaginário.
bl

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