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apostila fund. e Met. historia e cultura Afro- Brasileira

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Prévia do material em texto

FUNDAMENTOS E METODOLOGIA 
DO ENSINO DA HISTÓRIA E 
CULTURA AFRO-BRASILEIRA 
 
Letícia Cristina Fonseca Destro 
FACULDADE ÚNICA 
DE IPATINGA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
2 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Letícia Cristina Fonseca Destro 
 
Graduada em História pela Universidade Federal de Viçosa (2010), Mestre em História 
Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2012) e Doutora em História Social da 
Cultura da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2016). Atualmente é 
Professora Titular e coordenadora do curso de História EaD da Faculdade Única de 
Ipatinga, além de professora da Educação Básica na rede estadual de ensino. 
1ª edição 
 
Ipatinga – MG 
2020 
FUNDAMENTOS E METODOLOGIA DO 
ENSINO DA HISTÓRIA E CULTURA 
AFRO-BRASILEIRA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
3 
 
 
 
 
Menu de Ícones 
Com o intuito de facilitar o seu estudo e uma melhor compreensão do 
conteúdo aplicado ao longo do livro didático, você irá encontrar ícones ao lado 
dos textos. Eles são para chamar a sua atenção para determinado trecho do 
conteúdo, cada um com uma função específica, mostradas a seguir: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
São sugestões de links para vídeos, documentos 
científico (artigos, monografias, dissertações e teses), 
sites ou links das Bibliotecas Virtuais (Minha Biblioteca e 
Biblioteca Pearson) relacionados com o conteúdo 
abordado. 
 
Trata-se dos conceitos, definições ou afirmações 
importantes nas quais você deve ter um maior grau de 
atenção! 
 
São exercícios de fixação do conteúdo abordado em 
cada unidade do livro. 
 
São para o esclarecimento do significado de 
determinados termos/palavras mostradas ao longo do 
livro. 
 
Este espaço é destinado para a reflexão sobre questões 
citadas em cada unidade, associando-o a suas ações, 
seja no ambiente profissional ou em seu cotidiano. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
4 
 
 
 
 
SUMÁRIO 
 
POVOS INDÍGENAS E A COLONIZAÇÃO PORTUGUESA .......................... 7 
1.1 INTRODUÇÃO.......................................................................................................... 7 
1.2 A “QUARTA PARTE” DO MUNDO............................................................................ 8 
1.3 A CHEGADA DOS EUROPEUS ............................................................................... 10 
1.4 “CIVILIZANDO” OS ÍNDIOS? ................................................................................ 14 
1.5 DOS ESTEREÓTIPOS ............................................................................................... 16 
1.5.1 Selvagens desordenados ............................................................................ 16 
1.5.2 Bárbaros canibais .......................................................................................... 17 
1.5.3 Luxuriosos e preguiçosos .............................................................................. 19 
FIXANDO CONTEÚDO .......................................................................................... 21 
POLÍTICA INDIGENISTA NO BRASIL INDEPENDENTE ............................... 26 
2.1 INTRODUÇÃO........................................................................................................ 26 
2.1.1 Primitivismo e Romantismo .......................................................................... 26 
2.2 SOB A TUTELA DO ESTADO ................................................................................... 28 
2.3 QUESTÃO DAS TERRAS INDÍGENAS ...................................................................... 30 
FIXANDO CONTEÚDO .......................................................................................... 35 
DIREITOS INDÍGENAS E A CONSTITUIÇÃO DE 1988 ............................... 40 
3.1 INTRODUÇÃO........................................................................................................ 40 
3.2 MOVIMENTO E RESISTÊNCIA INDÍGENA .............................................................. 40 
3.3 POR UMA EDUCAÇÃO INDÍGENA ....................................................................... 42 
3.4 AS TRANSFORMAÇÕES CULTURAIS ...................................................................... 46 
FIXANDO CONTEÚDO .......................................................................................... 48 
A ESCRAVIDÃO NEGRA NO BRASIL ....................................................... 53 
4.1 INTRODUÇÃO........................................................................................................ 53 
4.2 ESCRAVIDÃO ANTIGA E MODERNA .................................................................... 53 
4.3 TRÁFICO TRANSATLÂNTICO ................................................................................. 55 
4.4 ESCRAVIDÃO NO BRASIL ..................................................................................... 59 
FIXANDO CONTEÚDO .......................................................................................... 65 
O LEGADO DA ESCRAVIDÃO NA ESTRUTURA SOCIAL BRASILEIRA ....... 70 
5.1 INTRODUÇÃO........................................................................................................ 70 
5.2 A ESCRAVIDÃO COMO CARACTERÍSTICA NACIONAL DO BRASIL ................... 71 
5.3 A TESE DA DEMOCRACIA RACIAL COMO PRODUTO DA ESCRAVIDÃO ........... 73 
5.4 O PROBLEMA DA INTEGRAÇÃO DO NEGRO NA SOCIEDADE DE CLASSES ...... 74 
5.5 RAÇA E DESIGUALDADE SOCIAL BRASILEIRA ..................................................... 76 
FIXANDO O CONTEÚDO ...................................................................................... 78 
NEGRITUDE, AFRODESCENDÊNCIA E DIÁSPORA AFRICANA ................ 82 
6.1 INTRODUÇÃO........................................................................................................ 82 
6.2 DIMENSÕES DA NEGRITUDE ................................................................................. 83 
6.3 NEGRITUDE E AFRODESCENDÊNCIA .................................................................... 84 
6.4 O CULTO ÀS RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA .................................................. 85 
6.5 OS REMANESCENTES DAS COMUNIDADES DOS QUILOMBOS ........................... 88 
6.6 NEGRITUDE E DIÁSPORA ....................................................................................... 88 
FIXANDO O CONTEÚDO ...................................................................................... 91 
UNIDADE 
01 
UNIDADE 
02 
UNIDADE 
03 
UNIDADE 
04 
UNIDADE 
05 
UNIDADE 
06 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
5 
 
 
 
RESPOSTAS DO FIXANDO O CONTEÚDO ........................................... 94 
REFERÊNCIAS ...................................................................................... 95 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
6 
 
 
 
 
 
CONFIRA NO LIVRO 
 
Nesta unidade estudaremos os impactos da chegada dos 
portugueses no território que viria a se chamar o Brasil tendo em 
vista as populações nativas que aqui já habitavam. Veremos o 
processo de escravidão dos indígenas, seus formas de resistência 
bem como as imagens criadas e divulgadas acerca dessas 
populações. 
Nesta unidade estudaremos as políticas desenvolvidas para lidar 
com a questão indígena ao longo da História do Brasil 
independente. Compreenderemos o histórico de criação das 
primeiras instituições governamentais e suas ações. 
 
 
Nesta unidade conheceremos as lutas e demandas da população 
indígena brasileira, especialmente no âmbito da educação, e os 
direitos adquiridos pela Constituição de 1988. 
Nesta unidade vamos discutir o conceito de escravidão moderno, 
bem como a estrutura sócio-econômica do tráfico transatlântico 
de escravizados e a própria escravidão no Brasil. Além disso, 
abordaremos as formas de resistência escrava destacando o 
papel ativo dos indivíduos escravizados dentro da própria lógica 
escravocrata. 
 
 
Nesta unidade conheceremosa discussão sobre a escravidão 
como uma característica nacional do Brasil no âmbito do 
pensamento sociológico e político brasileiro, sobretudo do ponto 
de vista da formulação da tese da democracia racial e de sua 
crítica. 
Nesta unidade nos voltaremos para a compreensão dos sentidos 
da negritude enquanto uma experiência social que aponta, de um 
lado, para a ancestralidade cultural de matriz africana, e de outro, 
para os paralelos com os diferentes modos de vida das 
populações negras ao redor do mundo no contexto da chamada 
"diáspora africana". 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
7 
 
 
 
POVOS INDÍGENAS E A 
COLONIZAÇÃO PORTUGUESA 
 
 
1.1 INTRODUÇÃO 
Antes da chegada dos europeus às terras americanas, e à terra que daria 
origem ao país chamado Brasil, já habitavam este território povos diversos em 
termos linguísticos, culturais, políticos e econômicos – nesse sentido, são 
considerados povos nativos e/ou originários. Contudo, não se sabe exatamente de 
onde vieram, algumas teorias não consensuais apontam para a Ásia de onde 
teriam vindo pelo Estreito de Bering (faixa de terra congelada que ligaria a Sibéria 
ao Alasca) e outras para a Polinésia ou Oceania a partir de possíveis navegações. 
De acordo com o Instituto Socioambiental, estima-se que hoje o Brasil possua 
cerca de 256 povos falantes de mais de 150 línguas diferentes. Contudo, apesar de 
toda sua história e importante presença na formação do Brasil, a grande maioria 
dos brasileiros ainda ignora a imensa diversidade desses povos nativos que vivem no 
país. Mesmo em termos historiográficos, a densidade histórica do Brasil indígena e 
sua profunda influência na formação do Brasil foi por muito tempo ignorada. Na 
disciplina, portanto, vamos compreender mais sobre a história e cultura desses 
diversos povos que povoaram e povoam o território brasileiro, além de conhecer 
um pouco das suas lutas e demandas por reconhecimento. 
 
 
 O Instituto Socioambiental (ISA) é uma organização não-governamental, sem fins 
lucrativos, fundada em 1994 com o objetivo de defender os bens e direitos humanos 
dos povos nativos. Acesse em: https://bit.ly/3nbxytY. Acesso em: 27 set. 2020; 
 O programa Povos Indígenas no Brasil, por sua vez, é parte do portal do Instituto com 
oferece informações sobre os povos e a temática indígena. Para saber mais acesse: 
https://bit.ly/35oRDqD. Acesso em: 27 set. 2020. 
UNIDADE 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
8 
 
 
 
 
 
1.2 A “QUARTA PARTE” DO MUNDO 
Quando os europeus chegaram no território que batizaram de América, por 
um equívoco histórico, toda a diversidade populacional que aqui já existia foi 
genericamente chamada de Índios e/ou Ameríndios. Mas por que o termo é 
considerado um equívoco histórico? Ao não reconhecerem as terras como um 
novo continente, julgaram ter chegada na região que almejavam alcançar para 
fins comerciais: a Índia. Expliquemos melhor isso. 
Para começarmos a compreender o contexto da época, é muito importante 
nos deslocarmos do nosso próprio. Como as pessoas daquela época pensavam? 
Como elas compreendiam o mundo? Pois bem, o mundo para os europeus 
medievais, de uma maneira geral, estava baseado nos ensinamentos bíblicos em 
função da importante e forte presença da Igreja Católica no cotidiano e na 
formação do conhecimento. Tendo a Bíblia como uma verdade absoluta, o mundo 
de então seguia sua narração. Assim, ele era dividido em três partes, que de 
acordo com a Bíblia, havia sido povoado, após o grande dilúvio, pelos três filhos de 
Noé: Sam, Jafé e Cam. Nesse sentido, de acordo com a interpretação bíblica da 
época, Sam teria povoado a Ásia, Jafé a Europa e Cam a África. Veja um esquema 
de mapa estilo T.O. comum na Idade Média para representar o mundo de então. 
 
Figura 1: Mapa Esquemático estilo T.O 
 
Fonte: Isidoro de Sevilha (1492) 
Antes de começarmos, faça um exercício e responda: o que é ser índio? O que você 
sabe e aprendeu sobre a população indígena no seu país? Na sequência, veja o que 
alguns brasileiros responderam essas perguntas no primeiro capítulo da sério Índios no 
Brasil: https://bit.ly/3kkPctn. Acesso em: 27 set. 2020.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
9 
 
 
 
Não havia, nesse sentido, espaço para uma quarta parte do mundo. Por 
conta disso, em um primeiro momento, quando os navegadores europeus 
desembarcaram nessas longínquas terras acreditaram que haviam chegado nas 
Índias, região que buscavam alcançar para comercializar. Conforme salienta 
Edmundo O’Gorman em seu livro A Invenção da América, Cristovão Colombo 
acreditou que havia chegada ao extremo oriente do mundo e todas observações 
que fazia eram provas empíricas de sua hipótese, respaldada, vale destacar, pela 
dimensão que a Ilha da Terra (como era chamado a parcela de terra habitada) 
possuía no imaginário de então. Somente com Américo Vespúcio que aquelas 
terras passaram a ser consideradas uma entidade geográfica desconhecida, um 
“Novo Mundo”. 
 
 
 
Apesar da posterior adequação da novidade, o termo genérico “índio” 
continuou a ser utilizado para denominar toda a diversidade populacional desse 
grande território que viria a ser chamado de América e é hoje adotado até por 
parte dos próprios nativos de maneira ressignificada. Contudo, não podemos 
desconsiderar a grande diversidade que eles possuem. Ou seja, apesar de usarmos 
um termo genérico para denominá-los não podemos unificar sua cultura, história, 
 
Apesar de ser muito comum falar-se em descobrimento 
da América, o historiador mexicano Edmundo 
O’Gorman, no livro citado de 1955, analisa que a 
América foi inventada e não descoberta. A América, 
nesse sentido, não existia antes da chegada do 
europeu, não possuía esse nome e nem os sentidos que 
ela representa. Ou seja, América não é algo natural, foi 
resultado da ação de agentes históricos. 
Para O’Gorman, ao se considerar que a América foi descoberta parte-se da noção 
de que a mesma já existia antes da chegada de Cristóvão Colombo e como já 
analisado anteriormente, nem mesmo Colombo considerou de imediato ter chegado 
na dita América. Considerar aquele território como uma nova parte do mundo, um 
novo continente chamado América foi um processo histórico. Disponível em: 
https://bit.ly/3eU2fB4. Acesso em: 27 set. 2020. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
10 
 
 
 
organização e língua. 
 
1.3 A CHEGADA DOS EUROPEUS 
Ao chegarem ao território que viria ser o Brasil, os europeus logo perceberam 
que grande parte do litoral se encontrava ocupada por sociedades nativas, que 
compartilhavam, conforme ressalta Monteiro (1994), certas características básicas 
comuns à cultura tupi-guarani. No entanto, ainda assim, mantinham suas 
diversidades. Para enfrentar este problema, os europeus do século XVI resumiram o 
vasto panorama cultural em duas categorias genéricas: Tupi e Tapuia. Os Tupis 
seriam as sociedades litorâneas em contato direto com os europeus desde o 
Maranhão até Santa Catarina, incluindo os Guaranis. Já os Tapuias eram os grupos 
menos conhecidos dos europeus. Além dessas denominações, também havia 
outras comumente encontradas nas primeiras descrições acerca da terra e seus 
habitantes como: “gentios” (pagãos), “brasis”, “negros da terra” e “índios”. 
Com a intensificação da exploração, os portugueses buscaram impor 
diversas formas de organização do trabalho. Os nativos foram primeiramente 
utilizados para a extração do pau-brasil (madeira corante valorizada na Europa). Os 
nativos cortavam e transportavam a mercadoria até a feitoria, onde era trocada 
por artigos diversos a partir dos escambos. A mão de obra indígena também foi 
utilizada na extração das drogas do sertão (especiarias comercializadas com 
preços muitos elevados). 
 
Figura 2: Representação dos índios extraindo pau Brasil 
 
Fonte: Thévet (1575) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
11 
 
 
 
Com a introdução da cultura da cana-de-açúcar, os colonos passaram a 
utilizar a mão de obra indígenaescrava. Houve, na sequência, um declínio do 
escambo em função das exigências que passaram a inviabilizar o mercado. A 
escravidão indígena foi utilizada em larga escala tanto para a produção comercial 
quanto de subsistência. E como se adquiria essa mão-de-obra? A partir do resgate, 
aprisionados em decorrência de guerras intertribais, e também a partir das 
chamadas “guerras justas”, que buscavam aprisionar os indígenas considerados 
“inimigos”. Nesse processo, combatia-se, inclusive, os missionários jesuítas (padres 
pertencentes a ordem religiosa Companhia Jesus ligada à Igreja Católica) que 
eram contrários a escravização dos índios aldeados (ver o próximo item). Muitos 
indígenas foram forçadamente deslocados de outras regiões para o litoral, onde 
concentravam as fazendas produtoras do açúcar. 
 
 
Estas diversas formas de exploração acabaram gerando uma 
desorganização social, que somada às mortes em decorrência das epidemias, 
fomes e guerras (entre tribos e com os europeus) causaram um extermínio de boa 
parte da população indígena. Observe o gráfico da Funai (Fundação Nacional do 
Índio) acerca da densidade populacional indígena no Brasil desde 1500. Lembrem-
se que os dados dos séculos iniciais são baseados em descrições e podem variar, 
pois não há muita precisão no levantamento. 
 
 
 
 
 
 
 
No livro “Negros da Terra”, o historiador John Monteiro analisa que com os 
aprisionamentos em decorrência das bandeiras, as guerras e os descimentos, a captura 
de mão de obra obra escrava indígena viabilizou a agricultura em São Paulo. Assim, a 
inserção indígena na sociedade paulista foi de suma importância para a formação 
sociocultural de São Paulo. Disponível em: https://bit.ly/2GXNAZ6. Acesso em: 27 set. 
2020.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
12 
 
 
 
Figura 3: Dados demográficos da população indígena no Brasil (Dados da FUNAI) 
 
Fonte: Elaborado pelo Autor (2020) 
 
Ao observar a tabela e o gráfico (Figura 3) fica evidente a perda 
populacional dos povos indígenas entre 1500 e 1970. Vale ressaltar que somente em 
1991 que o IBGE os incluiu no censo demográfico brasileiro e por isso tivemos um 
aumento de 150% dessa população na década de 1990. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
13 
 
 
 
 
 
Contudo, devemos salientar que o processo acima descrito não pode ser 
resumido apenas pelo extermínio indígena. Muitas foram as resistências dessas 
sociedades frente aos avanços europeus. Diante da exploração de seu trabalho, 
muitos desertavam e fugiam para a floresta e passavam a adotar emboscadas 
para atacar governamentais e bandeiras. Outros chegaram a organizar e participar 
de importantes revoltas do século XIX como a Cabanagem e a Cabanada 
(OLIVEIRA; FREIRE, 2006). 
Também foi necessário aos europeus aliar-se à grupos indígenas como 
estratégia. No século XVI, os franceses e os portugueses em guerra aliaram-se aos 
Tamoios e Tupiniquins, respectivamente. Já no século XVII, os holandeses se aliaram 
a grupos “tapuias” contra os portugueses. Os grupos indígenas, por sua vez, tinham 
seus próprios interesses ao se aliarem aos europeus. Os grupos Canibos, por exemplo, 
se aliaram aos missionários espanhóis para contestar o monopólio piro (arawak) no 
comércio dos Andes. De uma forma ou de outra, os povos indígenas eram sujeitos 
 Para conhecer um pouco da história e realidade dos povos indígenas, com especial 
atenção para o papel da mulher, pela ótica nativa assista o episódio do 
documentário Vozes da Floresta realizado pelo Le Monde Diplomatique Brasil com 
Edna Shanenawa: Disponível em: https://bit.ly/3aVESoB. Acesso em: 27 set. 2020; 
 Assista ao vídeo da antropóloga brasileira Lilian Schwarcz sobre o extermínio indígena 
nos primeiros contatos. Disponível em: https://bit.ly/2CXcUMK. Acesso em: 27 set. 2020; 
 Assista ao vídeo da historiadora Maria Regina Celestino na Bienal do Livro de 2019 
sobre seu livro Os Índios na História do Brasil. Disponível em: https://bit.ly/2YywtTe. 
Acesso em: 27 set. 2020; 
 Leia mais no livro “Os Índios e o Brasil” de Mércio Pereira Gomes disponível na 
Biblioteca virtual em: https://bit.ly/2Qo00dN. Acesso em: 27 set. 2020; 
 O livro “Os índios antes do Brasil“ de Carlos Fausto fala sobre a organização indígena 
antes da chegada dos europeus disponível na Minha Biblioteca Virtual Única: 
https://bit.ly/2D39rfO. Acesso em: 27 set. 2020. 
 Para saber mais sobre as guerras e revoltas indígenas leia a Parte 2 do livro “A 
presença indígena na formação do Brasil” de João Pacheco de Oliveira e Carlos 
Augusto da Rocha Freire, disponível em: https://bit.ly/3jcvdwN. Acesso em: 27 set. 
2020. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
14 
 
 
 
ativos da história (CUNHA, 2012). 
 
 
 
No final do século XVI, o uso da mão-de-obra escravizada dos indígenas nos 
engenhos acabou declinando e passou a predominar a escravização dos africanos, 
que somente foi abolida no final do século XIX. Contudo, vale ressaltar que apesar 
de ter sido abolida a escravidão indígena, ainda é possível observar a sua 
existência na prática ao longo dos séculos seguintes até pelo menos 1850. 
 
1.4 “CIVILIZANDO” OS ÍNDIOS? 
A catequese dos índios na colônia portuguesa foi iniciada tão logo iniciou-se 
a exploração e colonização estratégica do território. Os primeiros responsáveis pela 
conversão indígena foram os jesuítas, que eram missionários vinculados à ordem 
católica conhecida como Companhia de Jesus fundada por Inácio de Loyola no 
contexto da Contrarreforma Católica. 
Os primeiros missionários jesuítas desembarcaram em Salvador, na Bahia, já 
em meados do século XVI acompanhando o primeiro governador-geral, Tomé de 
Sousa. A sua função seria a de converter os pagãos da terra à fé cristã. 
 
 
 
Os missionários jesuítas, nesse sentido, foram os primeiros a adotar, conforme 
analisa Fabricio Santos, a prática de aldear ou reunir os índios com o objetivo de 
No livro “As muralhas do Sertão”, a autora Nádia Farage analisa as intensas disputas 
territoriais envolvendo portugueses, espanhóis, ingleses e holandês em torno da região 
do Rio Branco. Na sua análise, Farage considera a importante participação dos 
indígenas como um agente histórico e social na contenda. 
Nos relatos de época, os europeus chamavam pagãos e gentios povos que geralmente 
possuíam tradições religiosas politeístas (acreditavam na existência de vários deuses e 
não apenas um – monoteísmo – como o Cristianismo. Os gregos antigos, romanos 
antigos, povos africanos, indígenas eram considerados pagãos pela perspectiva cristã. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
15 
 
 
 
torná-los cristãos. A instalação do aldeamento podia se dar pela construção da 
igreja e da residência do missionário em uma aldeia indígena já existente ou em um 
outro sítio. Nesses aldeamentos, a catequese era iniciada com o ensinamento 
rudimentar da fé e com a preparação para o batismo. Novos grupos indígenas 
eram constantemente deslocados (“descimento”) para essas povoações, visando 
concentrar a catequese naqueles espaços (SANTOS, 2012). 
Para os jesuítas, os nativos deveriam abandonar características fundamentais 
de sua cultura e adotar os preceitos e estilo de vida cristão. Os índios, por sua vez, 
estavam dispostos a manter seus costumes, apesar de aceitarem, aparentemente, 
com facilidade a nova religião. Essa aparente contradição observada pelos 
missionários, fez com que o aldeamento se tornasse uma solução para que 
pudessem controlar cotidianamente os nativos. Assim, esta inserção na vida social 
indígena possibilitou aos missionários criar uma rotina de ensino e catequese que 
transformavam lentamente o modo de vida daqueles nativos aldeados (SANTOS, 
2012). 
A conversão católica, dessa forma, operou no sentido de domesticar os 
considerados “selvagens” obtendo, além disso, trabalhadores para os 
empreendimentos missionários – o que gerou tensão com os interesses dos colonos e 
autoridades civis que tambémse interessavam por recrutar mão de obra indígena 
para suas atividades econômicas. O conflito de interesses ocasionados culminou 
com a expulsão dos jesuítas no século XVIII. No período, a política colonial buscava 
uma maior laicização (separação do Estado da Igreja) do Estado, incluindo o 
controle de todos os agentes em contato com as populações nativas. 
Nesse contexto, implantou-se uma política guiada pelo Diretório (um 
documento com 95 parágrafos com determinações sobre economia e 
administração dos aldeamentos), de 1757, que não só dispôs sobre a liberdade dos 
índios como também alterou a administração destes, reorganizando as aldeias 
após a expulsão dos missionários (OLIVEIRA; FREIRE, 2006). 
Os novos diretores de índios, conforme o decreto real, deveriam, de maneira 
geral, expandir a fé católica, extinguir o gentilismo, civilizar os índios, introduzir o 
comércio e aumentar a agricultura. A língua portuguesa tornou-se uma exigência 
para os povos indígenas, que deveriam se comunicar exclusivamente por ela. A 
“civilização” dos índios, por sua vez, ficava a cargo das escolas públicas, que os 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
16 
 
 
 
ensinava ofícios domésticos dentre outras competências. Buscava-se também 
combater a suposta “ociosidade” com o uso do trabalho dos indígenas para fins 
particulares. Os índios, dessa forma, passariam a ser governados por juízes e 
vereadores, e não mais pelos missionários. 
Vale ressaltar, por fim, que na prática o Diretório enfrentou muitas 
dificuldades como epidemias, mortes, fugas, desorganização social. Com o fim do 
Diretório em 1798, juízes de órfãos passaram a ser responsáveis pelos índios 
considerados “domésticos” e eles juntamente com o Estado velavam pelos bem 
índios, considerados incapazes (OLIVEIRA; FREIRE, 2006). 
Com a revogação do Diretório, criou-se um vazio administrativo acerca do 
governo povos indígenas que só foi preenchido em 1845, pelo “Regulamento 
acerca das Missões de catequese e civilização dos índios”. 
 
1.5 DOS ESTEREÓTIPOS 
Como já estudado, quando os europeus desembarcaram no Novo Mundo, 
desconheciam sua existência e a seus habitantes. O processo de exploração e 
colonização também passou pela avaliação dos costumes e culturas desses povos 
sob a ótica da própria cultura europeia. Nesse item, portanto, vamos estudar como 
as diferenças culturais foram adaptadas e divulgadas pelos colonizadores a partir 
de pinturas e relatos de viagens, contribuindo para se criar uma imagem do índio 
que justificava a presença europeia. 
 
1.5.1 Selvagens desordenados 
Para começar, os nativos foram considerados homens selvagens 
contrapostos ao ideal de civilidade ocidental por viveram, de acordo com os 
colonizadores, sem controle, sem o ordenamento do Estado e sem a salvação 
prometida pela Igreja. O cronista português, Pero Magalhães Gândavo, resume de 
forma canônica essa premissa: “A língua deste gentio toda pela Costa he huma: 
carece de três letras – scillet, não se acha nela f, nem l, nem r, cousa digna de 
espanto, por que assi não tem Fé, nem Lei, nem Rei; e desta maneira vivem sem 
justiça e desordenadamente” (GANDAVO, 1980, p. 52). 
Além disso, ao contrário dos europeus muito interessados em riquezas 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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materiais, as sociedades indígenas não se importavam, de maneira geral, com 
coisas materiais como o ouro, por exemplo. 
 
 
 
A partir do pensamento do francês Michel de Montaigne, por sua vez, a 
suposta selvageria aproximou-se ao tema do primitivismo no qual o selvagem viveria 
em um estado de pureza, sem as marcas do pecado original (lembrando que o 
pensamento da época era muito moldado pelos ensinamentos bíblicos, como 
ressaltado anteriormente). Na Carta de Pero Vaz de Caminha (primeira escrita 
sobre o Brasil e encaminhada ao el-rei dom Manuel em 1500), ainda é possível ver 
referências ao primitivismo ao endossar a inocência dos nativos e a boa vontade 
com que aceitavam a conversão, uma vez que seriam desprovidos, aos olhos de 
Caminha, de qualquer crença. Os nativos seriam, assim, uma espécie de papel em 
branco: 
 
Parece-me gente de tal inoce ̂ncia que, se homem os entendesse e 
eles a nós, seriam logo cristãos, porque eles, segundo parece, não 
têm, nem entendem em nenhuma crenc ̧a. E portanto, se os 
degredados, que aqui hão de ficar aprenderem bem a sua fala e os 
entenderem, não duvido que eles, segundo a santa intenção de 
Vossa Alteza, se hão de fazer cristãos e crer em nossa santa fé, à qual 
praza a Nosso Senhor que os traga, porque, certo, esta gente é boa 
e de boa simplicidade. E imprimir-se-á ligeiramente neles qualquer 
cunho, que lhes quiserem dar. E pois Nosso Senhor, que lhes deu bons 
corpos e bons rostos, como a bons homens, por aqui nos trouxe, creio 
que não foi sem causa (CAMINHA, 1500, 11-12) 
 
1.5.2 Bárbaros canibais 
Bárbaro foi um termo utilizado na Grécia Antiga para denominar, de maneira 
O filósofo e etnólogo Pierre Clastres analisa a noção de sociedade e Estado em seu livro 
A sociedade contra o Estado para refutar a ideia de que a evolução das sociedades 
deve ser medida pela presença ou ausência da centralização do poder. Para ele, o 
poder coercitivo do Estado é somente apenas uma modalidade de poder dentre 
diversas outras. Ou seja, as sociedades ameríndias seriam, para Clastres, “essencialmente 
igualitárias” recusando qualquer força que impunha o enriquecimento de um pequeno 
grupo. A chefia indígena, nesse sentido, é esvaziada de poder coercitivo e considerada 
um importante mecanismo contra a concentração de poder. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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geral, os povos estrangeiros destacando a superioridade grega. A partir de então, 
seu uso passou a ser mais diversificado e recorrente. Na Idade Média, bárbaro 
equivalia ao pagão como aquele que não havia convertido à fé cristã. 
A ideia do barbarismo, conforme demonstra Ronald Raminelli, atravessou o 
Oceano Atlântico e encontrou solo fértil nas narrativas de viagens acerca do 
continente americano. Bárbaros eram os índios de corpos nus, eram os “canibais” 
que devoravam a carne dos inimigos, os indivíduos que viviam em guerra 
(RAMINELLI, 1996). 
 
Figura 4: Canibais, século XVI 
 
Fonte: Theodor de Bry ([1596] 2015) 
 
O canibal também era uma figura que já permeava o imaginário europeu 
sem ter um ponto geográfico específico. Mas os Tupinambás, principais 
representantes desse canibalismo brasileiro, eram antropófagos e não canibais. 
Canibalismo apresenta-se a partir de uma noção bestial de indivíduos que 
consomem carne humana para saciar-se. 
É nesse sentido que o canibalismo se distancia da antropofagia, esta última 
mais praticada entre alguns grupos indígenas brasileiros como os Tupinambás à 
época da chegada dos europeus (não é mais uma prática ritual entre os povos 
atualmente). A antropofagia tinha um sentido mais social ritualístico. Ou seja, o ato 
de comer carne humana era realizado em cerimônias com diversos significados 
simbólicos a incluir vingança. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
19 
 
 
 
 
 
1.5.3 Luxuriosos e preguiçosos 
A sexualidade indígena também suscitou grande interesse. Por princípio 
cristão, os europeus defendiam a monogamia, ou seja, o casamento apenas entre 
um homem e uma mulher. Contudo, entre os povos indígenas, eram muito comum 
a poligamia e não possuíam, como os europeus, diversas regras matrimoniais e 
sexuais, o que fora visto como luxúria conforme ressalta o cronista português Gabriel 
Soares de Souza em 1597: 
 
São os Tupinambos, tão luxuriosos que não há pecado de luxúria que 
não cometam […] são muito afeiçoados ao pecado nefando, entre 
os quais se não têm por afronta; […] e nas suas aldeias pelo sertão há 
alguns que têm tenda pública a quantos os querem como mulheres 
públicas (SOUZA, 1971, p. 308). 
 
No caso das relações de trabalho, os povos indígenas foram associados à 
indolência e preguiça em função darecusa destas populações em serem 
escravizados. Outro detalhe importante é que a cultura indígena não valoriza a 
produção de excedentes para acúmulo, como as sociedades europeias. De uma 
maneira geral, a produção era/é para a subsistência para que sobrasse tempo 
para dedicar-se a outras atividades consideradas importantes como rituais, cuidado 
com o corpo, convívio com a família e o lazer. 
Assim sendo, a difusão desses, e diversos outros, estereótipos constituiu uma 
forma de absorver a diversidade cultural encontrada no Novo Mundo tendo sempre 
 Para saber mais, leia o artigo “Antropofagia ritual e identidade cultural entre os 
Tupinambás” de Adone Agnoli. Disponível em: https://bit.ly/34weCQH. Acesso em: 
27 set. 2020. 
 
Um dos poucos relatos da antropofagia indígena no 
Brasil é o do mercenário alemão Hans Staden, que foi 
aprisionado pelos Tupinambás e a partir dessa 
experiência escreveu um relato. Baseado na 
descrição de Stade, na década de 1970 foi lançado o 
filme “Como era gostoso o meu francês”. A 
iconografia do filme foi baseada nos trabalhos do 
gravurista Theodore de Bry. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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como parâmetro a própria cultura europeia. Ou seja, não houve uma 
preocupação em compreender as culturas nativas pela sua própria organização. 
Os perfis traçados envolvendo guerra, canibalismo, nudez, hábitos alimentares 
distintos, habitação, suposta ausência de uma legislação e de poder centralizado 
compunham as representações dos índios como seres inferiores, legitimando, assim, 
a guerra justa, a necessidade urgente de conversão. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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FIXANDO CONTEÚDO 
1. Professor de História / SEDUC-MT (adaptada) Leia atentamente o trecho a seguir: 
“Os grupos do Brasil central, desde os princípios da colonização, foram 
enquadrados na categoria genéricas de tapuias (os de língua travada, que não 
falam o tupi – Guarani). Entre eles os Jê – que englobam uma grande parte das 
etnias nos cerrados do Centro-Oeste brasileiro...”. 
Considerando o trecho acima e seus conhecimentos sobre as culturas indígenas 
no Brasil assinale a alternativa correta. 
 
a) Podemos perceber que o Indígena no Brasil era e é pouco reconhecido de 
maneira geral, considerando que foram e são tratados por termos genéricos 
como “tapuias", sem muita preocupação em conhecer e perceber as diferenças 
culturais que cada etnia possui, e reflete de forma política na vida desses grupos. 
b) O indígena no Brasil há muito foi incorporado na sociedade branca, além das 
terras que lhes foram dadas, muitos fazem uso de tecnologias e da cultura 
ocidental, como internet, celulares, contas bancarias. 
c) Não se pode dizer que no Brasil ainda há indígenas, pois se no início da 
colonização os portugueses foram responsáveis pelo assassinato em massa 
desses grupos, posteriormente o império pouco ajudou aqueles que ainda viviam. 
A consequência disso é a não presença indígena na sociedade brasileira atual. 
d) A situação do indígena no Brasil se resolveu logo após o fim do período colonial, 
pois os europeus se preocuparam logo em compreender a realidade local e as 
necessidades específicas desses povos. 
e) Os indígenas brasileiros só sofreram grandes perdas demográficas com a 
chegada dos europeus porque não gostavam de trabalhar e resistiram 
violentamente a qualquer tipo de trabalho. 
 
2. (Professor de História / IF-MT - adaptada) Por aqui lhe urdem os portugueses 
muitas brigas com que se desavêm umas nações com as outras, com o qual ardil 
os entramos e desbaratamos, que todos juntos ninguém pudera com eles [...] 
 
WEHLING, A.; WEHLING, M. J. Formação do Brasil Colonial. 2ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 
1999.) 
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O trecho do documento acima faz referência a uma estratégia largamente 
utilizada pelos portugueses na conquista da América, tanto para a incorporação 
de terras como para a escravização dos indígenas. Assinale a alternativa que 
apresenta essa estratégia. 
 
a) Estímulo às rivalidades existentes entre grupos indígenas. 
b) Massacre sistemática das populações nativas. 
c) Aldeamento dos índios pelos jesuítas. 
d) Aliança política com as elites indígenas. 
e) Aliança econômica com outras nações europeias. 
 
3. (INEP/História do Brasil) “Dali avistamos homens que andavam pela praia, obra de 
sete ou oito. Eram pardos, todos nus. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Não 
fazem o menor caso de encobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta 
inocência como em mostrar o rosto. Ambos traziam os beiços de baixo furados e 
metidos neles seus ossos brancos e verdadeiros. Os cabelos seus são corredios. 
 
CAMINHA, P. V. Carta. RIBEIRO, D. et al. Viagem pela história do Brasil: documentos. São Paulo: 
Companhia das Letras, 1997 (adaptado). 
 
O texto é parte da famosa Carta de Pero Vaz de Caminha, documento 
fundamental para a formação da identidade brasileira. Tratando da relação que, 
desde esse primeiro contato, se estabeleceu entre portugueses e indígenas, esse 
trecho da carta revela a 
 
a) preocupação em garantir a integridade do colonizador diante da resistência dos 
índios à ocupação da terra. 
b) postura etnocêntrica do europeu diante das características físicas e práticas 
culturais do indígena. 
c) orientação da política da Coroa Portuguesa quanto à utilização dos nativos 
como mão de obra para colonizar a nova terra. 
d) oposição de interesses entre portugueses e índios, que dificultava o trabalho 
catequético e exigia amplos recursos para a defesa da posse da nova terra. 
e) abundância da terra descoberta, o que possibilitou a sua incorporação aos 
interesses mercantis portugueses, por meio da exploração econômica dos índios. 
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4. (TJ-SC adaptada.) “ [...] Eles não lavram nem criam. Nem há aqui boi ou vaca, 
cabra, ovelha ou galinha, ou qualquer outro animal que esteja acostumado ao 
viver do homem. E não comem senão deste inhame, de que aqui há muito, e 
dessas sementes e frutos que a terra e as árvores de si deitam. E com isto andam 
tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto, com quanto trigo e 
legumes comemos.” 
 
O trecho acima, retirado da Carta que Pero Vaz de Caminha redigiu ao Rei D. 
Manuel, é um exemplo do deslumbramento do europeu diante do Novo Mundo 
e das pessoas que por aqui eles encontraram. Quanto às sociedades indígenas 
do Brasil, leia as alternativas abaixo e marque Verdadeiro e Falso. 
 
(X) A antropofagia entre os indígenas tinha caráter ritual. Para alguns grupos a 
alimentação de carne humana era parte dos cultos religiosos e das tradições 
tribais. 
(X) As grandes nações indígenas estavam distribuídas por, praticamente, toda a 
extensão do território brasileiro. Os Tupis estavam espalhados pelo litoral e foram 
os primeiros a ter contato com os brancos. 
(X) Atualmente, estudos comprovam que a origem dos primeiros habitantes do Brasil 
é proveniente, unicamente, da corrente migratória asiática. 
(X) Diferentemente das demais sociedades indígenas americanas, os povos que 
viviam no território brasileiro possuíam uma característica homogeneidade 
cultural e linguística. 
(X) A chegada dos europeus não causou grandes impactos nas sociedades nativas 
do território americano. 
 
A sequência correta é 
 
a) F, F, V, F, V. 
b) V, V, F, F, F. 
c) F, V, F, V, V. 
d) V, V, F, V, F. 
e) V, F, V, V, F. 
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5. (Enade) 
Documento I 
 E, segundo que a mim e a todos pareceu, esta gente não lhes falece outra coisa 
para ser toda cristã, senão entender-nos, porque assim tomavam aquilo que nos 
viam fazer, como nós mesmos, por onde nos pareceu a todos que nenhuma 
idolatria, nem adoração têm. E bem creio que, se Vossa Alteza aquimandar 
quem entre eles mais devagar ande, que todos serão tornados ao desejo de 
Vossa Alteza. E por isso, se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os 
batizar, porque já então terão mais conhecimento de nossa fé, pelos dois 
degredados, que aqui entre eles ficam, os quais, ambos, hoje também 
comungaram. 
Carta de Pero Vaz de Caminha. In: PEREIRA, Paulo Roberto (org). Os três únicos testemunhos do 
Descobrimento do Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Lacerda, 1999. p. 54;57. 
 
Documento II 
[...] nenhuma fé têm, nem adoram a algum deus; nenhuma lei guardam ou 
preceitos, nem têm rei que lha dê e a quem obedeçam, senão é um capitão, 
mais pera a guerra que pera a paz. 
SALVADOR, Frei Vicente do. História do Brasil (1500-1627). 6 ed. São Paulo: Edic ̧ões Melhoramentos, 
1975. 
 
A partir da análise desses documentos conclui-se que, no período compreendido 
entre a produção do primeiro e do segundo 
 
a) a administração portuguesa no Brasil orientou-se pelas observações dos autores 
dos documentos e optou pelo isolamento das populações indígenas por 
considerar que eram inúteis ao processo de colonização. 
b) a Coroa deixou integralmente a cargo da Igreja Católica a responsabilidade 
pela integração das populações indígenas ao modo de vida europeu, conforme 
as sugestões dos autores dos documentos. 
c) a predominância das ações de natureza religiosa, por meio da catequese junto 
às populações indígenas, preservou sua cultura e impediu que elas fossem 
escravizadas. 
d) o entendimento dos portugueses acerca das populações indígenas e de seus 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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costumes favoreceu o seu processo de integração pela religião, finalizado no 
século XVII. 
e) os colonizadores empenharam-se em transplantar para o interior das 
comunidades indígenas as formas de organização da sociedade portuguesa, 
usando a religião e a presença de europeus entre eles. 
 
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POLÍTICA INDIGENISTA NO BRASIL 
INDEPENDENTE 
 
 
2.1 INTRODUÇÃO 
Os povos indígenas que aqui se encontravam anteriormente a chegada dos 
europeus e que lutaram para manter seu território e sua existência gozam, hoje, de 
privilégios aos olhos de grande parte da população brasileira e não de direitos. 
Direitos estes conquistados historicamente e à custa de muita luta e pouco 
reconhecimento. Neste capítulo, portanto, entenderemos melhor o caminho 
historicamente percorrido para a aquisição dos direitos pelos povos indígenas, 
respaldado, atualmente, pela Constituição Federal de 1988, carta maior do país. 
 
2.1.1 Primitivismo e romantismo 
Para começar, vamos dar continuidade a uma análise iniciada no capítulo 
anterior acerca de alguns estereótipos que se incorporaram à imagem do índio 
desde o período colonial. No século XIX, passaram a circular na Europa imagens dos 
povos indígenas criadas por viajantes (dentre as quais podemos citar Spix e Martius, 
Rugendas, Debret dentre outros) que integravam missões científicas na América. 
Essas missões científicas tinham como intuito observar, descrever e ilustrar as viagens 
de modo a registrar a natureza local do território. Esses relatos, por sua vez, 
contribuíram para divulgar informações acerca do continente para o público leigo 
e ainda serviu como fonte de pesquisa para muitos cientistas de então. A partir 
dessas observações, os índios acabaram sendo enquadrados em “estágios de 
desenvolvimento” correspondentes à ideia evolucionista que se impunha no século 
XIX. Nesse ínterim, as discussões acerca das raças e a classificação dos grupos em 
termos hierárquicos e evolutivos ganharam maiores contornos e consequências. 
Algumas sociedades, nesse discurso, acabaram sendo alocadas no início do 
processo evolutivo. Por não conceberem a ideia de Estado centralizado tal como a 
Europa (que se tinha como modelo ideal), elas foram concebidas como sociedade 
“primitivas”. 
 
UNIDADE 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Nessa vertente, alguns cientistas como Carl von Martius e Francisco Adolfo 
Varnhagen postularam a decadência dos povos da América. Varnhagen, ao se 
fundamentar em uma posição etnocêntrica, chegara a defender as guerras como 
forma de controlar os “vícios” indígenas, que, na sua concepção, seriam 
proveniente do nomadismo. Para ele, somente o sedentarismo poderia promover a 
civilização (OLIVEIRA; FREIRE, 2006). 
 
 
 
Na contramão dessa visão, contudo, outras também surgiram no período. 
Políticos como José Bonifácio de Andrada e Silva, por exemplo, entraram em defesa 
da humanidade dos povos nativos influenciando, inclusive, a legislação indigenista 
do Brasil Imperial. Apesar do índio, no seu cotidiano, ser discriminado pela 
população de maneira geral e pela legislação imperial, muitos dirigentes políticos 
apropriaram-se da imagem do “bom selvagem” difundida pela Romantismo 
europeu no século XVIII com filósofos iluministas como Jean-Jacques Rousseau. A 
ideia do “bom selvagem”, por sua vez, encontrará expressão máxima no 
“indianismo” literário brasileiro. 
Na literatura brasileira, romancistas como José de Alencar (1829-1877) e 
Gonçalves Ledo (1823-1864) irão construir obras baseadas no imaginário romântico 
sobre os índios, distanciado da realidade. A natureza será valorizada pela sua 
intocabilidade e o índio eleito o herói nacional, nativo brasileiro legítimo que lutou 
No século XIX, circularam teorias que buscavam classificar os seres humanos. O 
darwinismo social (uma releitura da teoria de Charles Darwin) considerava, por exemplo, 
que os seres humanos eram desiguais por natureza e, portanto, alguns seriam superiores 
e outros inferiores. Nesse mesmo contexto, o racismo científico se funda dividindo os seres 
humanos em raças superiores (arianos) e inferiores (judeus, negros, indígenas, etc.). Para 
compreender melhor acerca dessas (e outras) teorias sociais que contribuíram para a 
circulação do conceito de raça e classificação dos seres humanos em escala evolutiva, 
leia: https://bit.ly/3goWzhr. Acesso em: 02 out. 2020. 
Vídeo explicando o que é Etnocentrismo: Acesso em: 02 out. 2020.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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heroicamente contra os colonizadores (OLIVEIRA; FREIRE, 2006). 
 
 
 
2.2 SOB A TUTELA DO ESTADO 
Tendo em vista todo esse repertório das teorias darwinistas que se criou 
acerca dos povos nativos, passou-se a instituir uma nova forma, política e social, de 
se lidar com os povos indígenas. O Código Civil de 1916, nesse sentido, vai instituir 
oficialmente o regime de tutela a partir do Estado (como estudado no capítulo 
anterior, a tutela ficava à cargo dos juízes de órfãos). No Código em questão fica 
expresso a intenção do Estado em promover a incorporação dos povos nativos à 
sociedade comum. A tutela, nesse sentido, se tornou um instrumento da missão 
civilizadora. Assim sendo, até que fossem civilizados e inseridos na sociedade, 
deveriam ser protegidos, conforme Oliveira (2001, p. 224): 
 
As terras ocupadas por indígenas, bem como o seu próprio ritmo de 
vida, as formas admitidas de sociabilidade, os mecanismos de 
representac ̧ão política e as suas relac ̧ões com os não-índios passam 
a ser administradas por funcionários estatais; estabelece-se um 
regime tutelar do que resulta o reconhecimento pelos próprios 
sujeitos de uma ‘indianidade’ genérica, condic ̧ão que passam a 
partilhar com outros índios, igualmente objeto da mesma relac ̧ão 
tutelar. 
 
De acordo com o Código Civil, até que fossem totalmente incorporados à 
sociedade, os povos indígenas ficavam sob os desígnios do Serviço de Proteção ao 
Índio (SPI). O SPI, criado em 1910, surgira como a primeira agência leiga do Estado 
brasileiro destinada à gerenciar os povos indígenas. Interessante observar que 
apesar de anunciarem uma proposta mais laica, na prática se assemelhou muito à 
administração colonial gerida pelas missões jesuítas. Assim, apesarde propor a 
proteção da cultura indígena, agia na prática transferindo índios, liberando 
territórios para ocupação e reprimindo práticas tradicionais o que foi chamado pelo 
antropólogo João Pacheco Oliveira de “paradoxo da tutela” (1987). Tanto o 
Código quanto o SPI, por sua vez, partiam de uma noção genérica de índio e não 
Para compreender mais sobre a construção da imagem do índio na literatura, leia o 
artigo: https://bit.ly/2QqVeMO. Acesso em: 02 out. 2020. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
29 
 
 
 
davam conta da diversidade dos povos nativos brasileiros. Vale ressaltar que muito 
das técnicas de aproximação adotadas pela SPI e pelos órgãos seguintes 
basearam-se nas condutas da Comissão do Marechal Rondon (1865-1958) que, 
inclusive, foi o primeiro presidente do órgão. Sua prática indigenista originou-se de 
sua atuação na Comissão de Linhas Telegráficas (1907-1915), na qual pode 
experimentar diversas técnicas de aproximação com os povos indígenas. 
 
 
 
Na sequência, já no período do Estado Novo (1935-1945), foi criado o 
Conselho Nacional de Proteção Indígena (CNPI) ainda sob a gerência e fama do 
General Rondon, mas que contava a atuação de antropólogos importantes como 
Heloísa Alberto Torres e Darcy Ribeiro. A participação dos cientistas sociais buscava 
levar às ações do SPI premissas antropológicas da época. As discussões propostas 
traziam debates internacionais realizados pela Organização das Nações Unidas 
(ONU) que, em 1977, havia promulgado a Organização Internacional do Trabalho 
(OIT) dispondo sobre a proteção e integração das populações indígenas do mundo. 
Foi também no âmbito desse Conselho que foram gestados os planos para uma 
nova política indigenista que superasse os impasses do SPI. Essa política seria, então, 
uma tópica da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) a partir de 1968. 
Na década de 1960, escândalos de corrupção, ineficiência administrativa e 
acusações de genocídio acabaram levando o SPI e CNPI à extinção. Assim, para 
continuar o programa de tutela foi, então, criada a FUNAI, que assim como o órgão 
anterior, contava com recursos escassos. A maior parte do corpo de funcionários do 
SPI foi transferido para a FUNAI, o que contribuiu para que a FUNAI continuasse 
muitas das práticas já desenvolvidas pelo SPI, inclusive, as indesejadas e altamente 
criticadas como o clientelismo, paternalismo, dentre outras. 
Durante a Ditadura Militar, inclusive, a ação da FUNAI foi fortemente 
marcada pela perspectiva assimilacionista, dado o interesse do regime em 
Acesso em: 02 out. 2020.
Acesso em: 02 out. 2020.
Acesso em: 02 out. 2020.
Acesso em: 02 out. 2020.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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promover a expansão pelo interior do país, em especial, pela região amazônica. E 
durante boa parte da sua existência, a FUNAI foi criticada especialmente pela 
ineficiência. A FUNAI também se viu envolta por polêmicas relativas a alta 
mortandade indígena, especialmente dos povos mais “isolados”. A tragédia dos 
Kren Akarore ou Krenakore (1974) é um caso emblemático, no qual mais da metade 
dos índios morreu em decorrência dos primeiros contatos. Em 2000, eles inclusive 
ganharam nos tribunais, contra a União e a FUNAI, uma ação indenizatória pelos 
danos materiais e morais causados. 
Em 2009, a FUNAI foi reformulada por um decreto do então Presidente Luiz 
Inácio “Lula” da Silva, no que se propôs oferecer maior capacidade de atuação 
técnica. Buscou-se regionalizar mais a administração e capacitar seus técnicos para 
estabelecer ações participativas em parceria com os índios. Contudo, diversos 
grupos indígenas constantemente reascendem debates chamando a atenção 
para a importância da sua participação nas tomadas de decisão do poder 
Executivo mesmo em relação ao órgão. 
 
2.3 QUESTÃO DAS TERRAS INDÍGENAS 
Apesar de muito se debater acerca das “terras indígenas”, o termo jurídico 
em si é desconhecido entre a maior parte da população brasileira. Os debates 
acalorados do senso comum atualmente ignoram os significados históricos que 
carrega e não contribuem para uma solução dos conflitos gerados em torno das 
demandas por reconhecimento e demarcação de terras. 
Terras indígenas, nesse sentido, é um conceito jurídico brasileiro com origem 
na definição de direitos territoriais indígenas. Estes direitos, por sua vez, foram 
reconhecidos, conforme ressalta a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, ao 
longo da história pelo Estado brasileiro por meio de diversos dispositivos legais, ao 
mesmo tempo que se busca burlar ilegalmente tais reconhecimentos. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
31 
 
 
 
 
 
Voltemos no tempo, em 1609, a Carta Régia já garantia os direitos indígenas 
às suas terras. Contudo, poderosos mecanismos desenvolveram-se para burlar tal 
demanda. Um importante instrumento utilizado foi o discurso negando a identidade 
ao índio. Ora, se não há índio, não há porque resguarda-lhes direitos, não é mesmo? 
As imagens negativas aqui analisadas, nesse sentido, de povos preguiçosos, 
primitivos, viciosos, violentos que permeou o imaginário acerca dos povos indígena 
foi um importante instrumento para negar-lhes uma identidade e garantir os direitos. 
No período imperial, mais precisamente no século XIX, o interesse pela 
questão de terras aumentou consideravelmente especialmente pelo interesse do 
então Império em expandir suas fronteiras. As políticas, nesse sentido, vão se 
estabelecendo no sentido de restringir o acesso à propriedade fundiária e converter 
os povos indígenas em assalariados. Sim, a política de terras não necessariamente é 
independente de uma política de trabalho (CUNHA, 2012). Já existia, em 
contrapartida, claramente expresso o reconhecimento da primazia dos índios 
sobres suas terras. Assim, na própria Lei de Terras de 1850 fica claro que as terras dos 
 O significado da terra para as culturas indígenas é complexo e diverso. Além disso, a 
cultura indígena não é o “lugar de fala” da autora desse material para que a apre-
sentação seja completa. Portanto, para compreender melhor os significados culturais 
em questão, se torna muito importante compreendê-los pela ótica dos próprios agen-
tes culturais, no caso, os povos indígenas. Sendo assim, para compreender a impor-
tância da terra veja o relato do Povo Baniwa e Koripako (lembrando que há aqui uma 
seleção do grupo apresentado, podendo, dessa forma, haver distinção quando 
comparado com outras etnias): https://bit.ly/3aVcWBt. Acesso em: 02 out. 2020. 
 Lugar de falar é um conceito bastante importante nos debates acerca das minorias 
sociais. Basicamente, refere-se a autoridade que pessoa possui para falar sobre algo 
enquanto pertencente a um grupo minoritário (minorias não em termos numéricos, 
mas por estarem em desvantagem social, cultural, política, religiosa, etc.), seja ele ét-
nico, de gênero, religioso, político e etc. Apesar de pessoas diferentes da realidade 
social estudas poderem analisar e teorizar sobre situações sociais de grupo do qual 
não pertence, quem possui argumentos de autoridade sobre essas situações são os 
grupos que possuem a experiência. Para compreender melhor, veja o vídeo da filóso-
fa Djalma Ribeiro: https://bit.ly/3aZuwEw. Acesso em: 02 out. 2020. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
32 
 
 
 
índios não poderiam ser devolutas, uma vez que o título dos índios sobres suas terras 
era um título originário, ou seja, decorre do simples fato de serem índios. 
A Lei de Terras também dispunha sobre as terras de aldeias extintas que, a 
rigor, deveriam ser dadas em plena propriedade aos índios. Contudo, esse 
entendimento será rapidamente esquecido e acabaram sendo distribuídos, quando 
muito, lotes aos índios. Tal situação será, por sua vez, ratificada na Constituição de 
1891 já no período republicano. As terras das aldeias indígenas extintas poderiam, 
enfim, ser devolutas e o processo de espoliação torna-se mais transparente. 
No Brasil independente,desde a Constituição de 1934, todas as demais leis a 
seguiram no tema tratado, assegurando um direito dos povos indígenas à terra, mas 
não garantia a inalienabilidade da mesma – o que favorecia, na prática, diversas 
manobras para tentar favorecer terceiros. Contudo, mesmo assim havia ressalvas. 
Nas Constituições de 1934, 1937 e 1946, por exemplo, garantia-se aos povos 
silvícolas o seu direito às terras que nela habitarem de maneira permanente. 
Entretanto, por viverem da agricultura, caça e pesca, muitos grupos circulavam 
pelo território de modo a buscar a melhor região para se estabelecer em dada 
época, essa necessidade de deslocamento foi utilizada, por sua vez, para destituir 
os índios de qualquer relação com a terra. O argumento, então, foi: se eles não se 
apegavam ao território, não haveria a necessidade de possuí-lo. 
Foi somente com a Constituição de 1967 que foi garantido a posse e o 
usufruto exclusivo das riquezas e a inalienabilidade das terras, dando algumas bases 
para a construção do conceito jurídico acima ressaltado, o de “terra indígena”. 
(CAVALCANTE, 2016). 
O conceito de “terra indígena” irá, por sua vez, aparecer pela primeira no 
Estatuto do Índio de 1973. Vale ressaltar, contudo, que apesar disso, o Estado 
brasileiro como um todo reconhecia somente àquelas terras já demarcadas pelo 
aparato estatal (as reservas indígenas) e ignorou os artigos constitucionais. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
33 
 
 
 
 
 
Foi somente com a Constituição de 1988, vigente hoje no Brasil, que irá se 
romper com a tradição assimilacionista trazendo mudanças fundamentais no 
ordenamento jurídico no que diz respeito ao conceito de índio e à posse de suas 
terras. Para começar, a Constituição Cidadã como é conhecida rompe com a 
herança tutelar estudada anteriormente mudando o status do índio, permitindo que 
individualmente ou através de suas organizações ingressem em juízo para defender 
direitos e interesses. 
 
 
 
No que tange o conceito de “terra indígena”, ele foi consideravelmente 
ampliado. No texto da Constituição se entende que terras indígenas se referem à 
toda terra necessária para a reprodução física, cultural e social do povo. Dessa 
forma, ao se realizar a identificada e a delimitação de uma terra indígena, o grupo 
técnico não deve se limitar a levantar os espaços para a habitação e reprodução 
econômica de um povo, mas também incluir a importância do local para sua 
cultura, religião e organização social. (CAVALCANTE, 2016, p. 23). A partir desse 
entendimento, não se fala mais em criação de terras indígenas, apenas de 
reconhecimento por parte da União da sua existência e demarcação. 
No Estatuto do Índio já três tipos de “terras indígenas”: 
1) terras ocupadas ou habitadas por silvícolas (sem necessidade de demarcação e/ou 
reconhecimento prévio pelo Estado) 
2) áreas reservadas (as chamadas reservas indígenas criadas e demarcadas pelo Esta-
do) 
3) terras de domínio das comunidades indígenas ou de silvícolas (CAVALCANTE, 2016) 
No artigo “No Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é” o antropólogo brasileiro 
Eduardo Viveiros de Casto analisa uma das principais questões levantadas acerca da 
identidade indígena: quem é índio? Disponível em: https://bit.ly/3hvyYNn. Acesso em: 03 
out. 2020. 
Tendo em vista a principal temática do artigo, como o antropólogo entende a 
identidade indígena? 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
34 
 
 
 
A demarcação de terras, entretanto, continua a ser extremamente 
importante, pois sem ela dificilmente os povos indígenas conseguiriam ter a plena 
posse de suas terras. Ainda se verificam, por exemplo, inúmeras dificuldades para a 
instalação de serviços públicos em áreas não homologadas como terras indígenas, 
deixando os povos indígenas sem a proteção do Estado (ou seja, sem acesso a 
saúde pública, educação, obras públicas, dentre outros). Além disso, o 
agronegócio e empresas de mineração tentam barrar os processos de 
demarcação de novas terras indígenas (especialmente diminuindo o poder da 
Funai). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A maior parte das terras indígenas encontra-se na chamada Amazônia Legal (área de 
nove estados brasileiros – Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, 
Roraima e Tocantins - pertencentes à bacia Amazônica). Acesse o mapa com a 
localização e extensão das terras indígenas produzido pela ISA Disponível em: 
https://bit.ly/3koXGje. Acesso em: 03 out. 2020. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
35 
 
 
 
FIXANDO CONTEÚDO 
1. (FUNAI – Indigenista) A demarcação de uma terra indígena é determinada 
 
a) pelo fato de serem terras utilizadas para suas atividade produtivas, e para os 
interesses de empresas que pretendem desenvolver economicamente as terras 
para o benefício dos índios. 
b) pelas 19 condicionantes do Supremo Tribunal Federal para a Terra Indígena 
Raposa Serra do Sol, no estado de Roraima, em 2009, que servem como uma 
orientação geral. 
c) pela tese do “marco temporal”, apresentada pelo Supremo Tribunal Federal, que 
sustenta que os indígenas só teriam direito às terras efetivamente ocupadas em 5 
de outubro de 1988, na data da promulgação da Constituição. 
d) pelo fato de serem terras tradicionalmente ocupadas pelos índios, as por eles 
habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, 
as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-
estar e as necessárias à sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, 
costumes e tradições. 
e) por uma negociação entre o Estado representado pela Fundação Nacional do 
Índio, as empresas que pretendem desenvolver projetos de desenvolvimento nas 
terras dos índios pagando indenizações e royalties aos indígenas e a anuência 
das comunidades indígenas. 
 
2. (ENADE) Os atuais índios do estado de São Paulo não representam um elemento 
de trabalho e de progresso. Como também nos outros estados do Brasil, não se 
pode esperar trabalho sério e continuado dos índios civilizados e como os 
Caingangs selvagens são um empecilho para a colonização das regiões do 
sertão que habitam, parece que não há outro meio, de que se possa lançar mão, 
senão o seu extermínio. 
IHERING, H. A anthropologia do estado de São Paulo. Revista do Museu Paulista, VII. São Paulo: Typ. 
Cardozo, Filho & Cia, 1907. 
 
Opinião como essa, expressa em 1907, por um importante cientista teuto-
brasileiro, inspirava-se, segundo Darcy Ribeiro, em uma atitude secular presente 
em qualquer área onde sobrevivam grupos indígenas no Brasil. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
36 
 
 
 
Sobre a reação a essa “atitude secular”, no início do século XX, avalie as 
afirmações a seguir. 
 
I. Desenvolveu-se um ideal catequizador, responsável pelo aldeamento dos 
indígenas e pela entrada em cena do evangelismo protestante, bem como uma 
preocupação oficial com a saúde e proteção material das propriedades dos 
indígenas. 
II. Organizou-se o aldeamento dos indígenas em reservas criadas com a finalidade 
precípua de preservar a cultura das diversas etnias e possibilitar o aumento da 
população indígena, a fim de que esses povos conseguissem competir em 
igualdade com os imigrantes europeus. 
III. Surgiu uma ideologia inspirada no positivismo, caracterizada pela assistência 
leiga e pela crença de que bastava o Estado proteger os indígenas de ataques 
externos e assisti-los socialmente para que progredissem rumo à civilização. 
IV. Criaram-se instituições de proteção e defesa dos indígenas, destacando-se o 
Serviço de Proteção aos Índios (SPI), criado em 1910 a partir de ações oficiais 
lideradas pelo Marechal Cândido Rondon. 
 
É correto apenas o que se afirma em 
 
a) I e II. 
b) I e IV. 
c) III e IV. 
d) I, II e III. 
e) II, III e IV. 
 
3. (Professor/ Prefeitura de São Luis – MA) 
Canção do Tamoio 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
37 
 
 
 
(Natalícia) I 
Não chores, meu filho;Não chores, que a 
vida É luta renhida: Viver é lutar. A vida é 
combate, Que os fracos abate, Que os 
fortes, os bravos Só pode exaltar. 
 Um dia vivemos! O homem que é forte Não 
teme da morte; Só teme fugir; No arco 
que entesa Tem certa uma presa, Quer 
seja tapuia, Condor ou tapir. 
 O forte, o cobarde Seus feitos inveja De o 
ver na peleja Garboso e feroz; E os tímidos 
velhos Nos graves concelhos, Curvadas as 
frontes, Escutam-lhe a voz! 
 Domina, se vive; Se morre, descansa Dos 
seus na lembrança, Na voz do porvir. Não 
cures da vida! Sê bravo, sê forte! Não 
fujas da morte, Que a morte há de vir! 
 E pois que és meu filho, Meus brios reveste; 
Tamoio nasceste, Valente serás. Sê duro 
guerreiro, Robusto, fragueiro, Brasão dos 
tamoios Na guerra e na paz. 
Teu grito de guerra Retumbe aos ouvidos 
D'imigos transidos Por vil comoção; E 
tremam d'ouvi-lo Pior que o sibilo Das 
setas ligeiras, Pior que o trovão. 
 E a mão nessas tabas, Querendo calados Os 
filhos criados Na lei do terror; Teu nome 
lhes diga, Que a gente inimiga Talvez não 
escute Sem pranto, sem dor! 
 Porém se a fortuna, Traindo teus passos, Te 
arroja nos laços Do inimigo falaz! Na 
última hora Teus feitos memora, Tranqüilo 
nos gestos, Impávido, audaz. 
 E cai como o tronco Do raio tocado, 
Partido, rojado Por larga extensão; Assim 
morre o forte! No passo da morte Triunfa, 
conquista Mais alto brasão. 
 As armas ensaia, Penetra na vida: Pesada 
ou querida, Viver é lutar. Se o duro 
combate Os fracos abate, Aos fortes, aos 
bravos, Só pode exaltar. 
 
Gonçalves Dias. Canção do Tamoio. Internet: <www.dominiopublico.gov.br> (com 
adaptações). 
 
Na Canção do Tamoio, de Gonçalves Dias, apresenta-se o perfil literário do 
indígena construído pela poesia romântica com forte motivação nacionalista. 
Nessa fase da poesia romântica, o índio foi escolhido como o símbolo ideal do 
nacionalismo porque 
 
a) o negro e o português, vindos de outros continentes, não mantinham com as 
terras brasileiras o mesmo vínculo de identidade que os indígenas. 
b) a influência dos indígenas na formação da cultura nacional foi muito mais 
significativa que a exercida pelo negro e pelo branco colonizador. 
c) o negro e o português estavam mais distantes da realidade social imediata que o 
indígena, bem mais presente no cotidiano da vida nacional. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
38 
 
 
 
d) os indígenas, ao contrário dos negros, se adaptaram com maior facilidade aos 
costumes impostos pelo branco colonizador. 
e) os indígenas estiveram fortemente engajados na luta pela independência do 
Brasil, diferentemente do negro e do branco colonizador. 
 
4. (USP) O índio, em alguns romances de José de Alencar, como Iracema e 
Ubirajara, é 
 
a) retratado com objetividade, numa perspectiva rigorosa e científica. 
b) idealizado sobre o pano de fundo da natureza, da qual é o herói épico. 
c) pretexto episódico para descrição da natureza. 
d) visto com o desprezo do branco preconceituoso, que o considera inferior. 
e) representado como um primitivo feroz e de maus instintos. 
 
5. (UFRR adaptado) O processo de demarcação de terras indígenas no Estado 
brasileiro é marcado por lutas, conflitos e mortes. Nos territórios indígenas, a 
compreensão sobre a utilização dos recursos da terra, para os diversos povos 
indígenas, inclusive, em Roraima, não é a mesma, que predomina no sistema 
capitalista atual. Isso se comprova na fala do líder Xucuru, assassinado em 1998, 
no agreste pernambucano. 
"A gente tem a terra como nossa mãe. Então, se ela é nossa mãe, é ela quem 
nos dá todo fruto de sobrevivência, e deve ser zelada e preservada, a partir das 
pedras, das águas e das matas”. 
Fonte: (CIMI, Revista Coleção Fraternidade viva N.° 08. São Paulo, 2001. Pág. 21. In.: VIEIRA, J. G. 
Missionários, fazendeiros e índios em Roraima: a disputa pela terra – 1777 a 1980. Boa Vista: Editora 
UFRR, 2007). 
 
Com base nessas informações, analise as assertivas a seguir: 
 
I. Para os povos indígenas, a terra é seu território, espaço necessário e essencial à 
vida. Ou seja, isso significa que a terra vai além da própria vida, a memória dos 
seus antepassados, como também o futuro da sua gente. 
II. Ao afirmar que a “terra é nossa mãe”, o líder Xucuru entende que a terra é uma 
fonte de vida e não de capital financeiro. 
III. Se a terra, para o Líder Xucuru, “é sua mãe”, então, ela deve ser preservada 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
39 
 
 
 
como fonte de vida para as diversas populações indígenas que se utilizarão 
delas futuramente. 
IV. O líder Xucuru atribui valor de preservação para as pedras, águas, matas, que 
estão em sua terra, entretanto, o que preocupa e interessa ao indígena, é o 
valor monetário da terra para sua comunidade. 
V. O índio Xurucu, ao explicar o significado do uso da terra, este demonstra que a 
sobrevivência do seu povo não depende da terra, mas a considerada um ente 
sagrado e importante. 
 
Estão corretas 
 
a) III e V, apenas. 
b) I, II e III. 
c) I e II, apenas. 
d) I, II, IV. 
e) I, III e V. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
40 
 
 
 
DIREITOS INDÍGENAS E A 
CONSTITUIÇÃO DE 1988 
 
 
3.1 INTRODUÇÃO 
A Constituição de 1988 trouxe uma série de direitos indígenas reconhecendo 
a sua diversidade e importância para a formação identitária e cultural do Brasil. Sua 
promulgação foi um marco e contribuiu para organização de movimentos, de 
novas abordagens e novas demandas por políticas públicas específicas para as 
comunidades indígenas. Contudo, apesar de todos os avanços, ainda vemos 
resquícios das velhas políticas imperando na prática. Nesse capítulo, veremos mais 
sobre esses avanços e dificuldades que ainda vivenciam as comunidades indígenas. 
 
3.2 MOVIMENTO E RESISTÊNCIA INDÍGENA 
Como vimos no capítulo anterior, o direito indígena à terra foi reconhecido 
pela Constituição de 1988 como um direito originário, ou seja, anterior ao próprio 
processo de formação do Estado brasileiro. Contudo, mesmo após a promulgação 
da Constituição, esse direito vive constantemente sob ameaça dos interesses do 
agronegócio, do garimpo, da grilagem e madeireiros. Ameaças estas muitas vezes 
desembocadas em grandes e violentos conflitos em decorrência da carência de 
políticas destinadas à efetiva demarcação e fiscalização das terras. 
Para dificultar ainda mais o processo já lento de demarcação, muitos 
projetos de emendas constitucionais (PEC) e normas federais foram elaboradas. 
Dentre vários, podemos citar a tentativa de flexibilização do Código Florestal, que 
delimita as áreas que devem ser preservadas e quais podem receber diferentes 
tipos de produção rural. Após a votação do código, parlamentares ligados à 
bancada ruralista (vinculados diretamente aos interesses de latifundiários, empresas 
e confederações do agronegócio), tem preparado projetos de lei que buscam 
extinguir direitos adquiridos e dificultar o processo de reconhecimento das terras 
indígenas – uma vez que o reconhecimento impossibilita a exploração da área 
para fins econômicos particulares. 
UNIDADE 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
41 
 
 
 
 
 
Diante desse cenário histórico de exploração e espoliação, os povos 
indígenas foram se organizando de modo a assumir cada vez mais novos espaços, 
além daqueles tradicionais. A partir da década de 1970 é possível encontrar 
associações e organizações indígenas em várias regiões brasileiras por influência da 
atuação do Conselho Indigenista Missionário que promoveu assembleias indígenas, 
onde se desenhou os primeiros contornos da luta. A partir delas, as lideranças 
passaram a lidar com o mundo institucional nacional e internacional tratando das 
suas demandas territoriais, assistenciais e comerciais. Na década seguinte, por sua 
vez, é eleito o primeiro deputado indígena e na sequência os indígenas passaram a 
fazer-se presente no CongressoNacional e na política de maneira geral. Os povos 
indígenas, inclusive, se fizeram muito presente na Assembleia Constituinte de 1987-
1988 com a finalidade de levantar suas demandas para que fossem incorporadas 
na Constituição de 1988. 
A unificação do movimento indígena se deu em 2002 com a criação da APIB 
(Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) que tem importantes representantes 
como a Sônia Guajajara do povo Guajajara do Maranhão. Sônia é muito 
conhecida por sua atividade em prol das demandas indígenas, tendo atuado em 
eventos internacionais como Conferência do Clima em Paris e no Conselho dos 
Direitos Humanos da ONU. Nas eleições de 2018, ela chegou, inclusive, a concorrer 
A Amazônia é um solo com um número quase incalculável de riquezas minerais e 
naturais. Uma dessas riquezas é o ouro. Sobre o garimpo na Amazônia e com este afeta 
as comunidades indígenas, sugerimos as seguintes materiais: 
 “Por dentro de um garimpo ilegal na Amazônia” é uma matéria da National 
Geographic que trata um pouco mais a fundo o garimpo ilegal na Amazônia. 
Disponivel em: https://bit.ly/3gwHr1w. Acesso em: 10 out. 2020. 
 Leia também sobre a denúncia de invasão das terras dos Yanomami e Yekwana por 
garimpeiros em 2019 “Povos Yanomami e Ye’kwana se unem e exigem: ‘Fora, 
garimpo!’”. plublicada pela ISA. Disponível em: https://bit.ly/35oVOCK. Acesso em: 10 
out. 2020. 
 Assista o vídeo “Serra Pelada | A História de Um Massacre” e entenda um pouco mais 
sobre o caso mais emblemático do grampimpo nacional. Disponíve em: 
https://bit.ly/3lrWVaD. Acesso em: 10 out. 2020. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
42 
 
 
 
como vice-presidente do Brasil. Também sobre a visibilidade internacional das 
questões indígenas e da preservação da floresta podemos citar o Cacique Raoni. 
No âmbito acadêmico, os povos nativos têm ocupado cada vez mais 
espaços de modo a congregar forças e conhecimentos que possam retornar em 
qualidade para seus grupos de origens. Muitos indígenas têm buscado formações 
acadêmicas para atuarem na melhoria da saúde e educação, principalmente, de 
suas tribos. Além de se tornarem representantes e porta-vozes da cultura e luta do 
povo indígena, como é o caso de Cristine Takuá, Renata Machado Tupinambá, 
Daiara Tukano, Célia Xakriabá, Ailton Krenak dentre diversos outros. 
 
3.3 POR UMA EDUCAÇÃO INDÍGENA 
Com a Constituição de 1988, entra em pauta diversas questões relacionados 
aos direitos indígenas, como direito a saúde e educação. Para fins didáticos e 
práticos, tendo em vista a especificidade do curso em questão, abordaremos a 
questão do direito indígena à escola e a processos educacionais diferenciados. 
Até então, o acesso dos nativos à escola se dava no modelo tradicional 
quando muito, cuja proposta educacional voltavam-se à integração e ao ensino 
monolíngue em português. Assim como a própria relação do Estado com os grupos 
indígenas, a educação tinha o propósito de integrá-los. Contudo, na passagem 
para a década de 1990, já sob a égide da Constituição, diversos grupos indígenas 
começaram a se organizar de modo a exigir uma reformulação desse modelo de 
modo a centrar-se em professores indígenas, valorizando as identidades indígenas 
bem como o ensino bilíngue. Nesse momento, irá formar-se as primeiras 
organizações de professores indígenas, haverá também o reconhecimento da 
educação alternativa, promulgação de leis e normas visando normatizar e 
reorganizar uma política específica para a educação escolar indígena (GRUPIONI, 
2008). 
 
Em contraposic ̧ão a uma escola que se constituía pela imposic ̧ão do 
ensino da língua portuguesa, pelo acesso à cultura nacional e pela 
perspectiva da integrac ̧ão é que se molda um outro modelo de 
como deveria ser a nova escola indígena, caracterizada como uma 
escola comunitária (na qual a comunidade indígena deveria ter 
papel preponderante), diferenciada (das demais escolas brasileiras), 
específica (própria a cada grupo indígena onde fosse instalada), 
intercultural (no estabelecimento de um diálogo entre 
conhecimentos ditos universais e indígenas) e bilíngüe (com a 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
43 
 
 
 
conseqüente valorizac ̧ão das línguas maternas e não só de acesso à 
língua nacional) (GRUPIONI, 2008, p. 37). 
 
Um dos principais princípios norteadores passou a ser o reconhecimento do 
direito indígena à educação. Dessa forma, o acesso à escola deveria ser tratado 
não como assistência e sim como um direito adquirido. A consequência dessa 
determinação retoma o mencionado anteriormente, passava-se a reconhecer a 
escola como um espaço que reforçasse a identidade étnica local. Do Estado, 
portanto, passou a ser exigido mecanismos garantidores desse direito. 
Também foi discutido a questão da laicidade desse ensino diferenciado. De 
maneira geral, a Constituição já reforçava o caráter laico que deveria ter a 
educação básica no país, contudo, o modelo de educação historicamente 
constituído especialmente no que tange às comunidades indígenas esteve 
associada ao proselitismo religioso. Lembrando que as populações indígenas 
possuem uma diversidade de crenças e religiões, a premissa se tornava 
fundamental para que a educação indígena não fosse encarada como catequese 
ou evangelização (GRUPIONI, 2008). 
Para efetivar todo esse processo por parte do governo, as políticas públicas 
de educação escolar indígena passaram a ser conduzidas no âmbito dos Ministérios 
da Educação e da Cultura que levando sempre em consideração a valorização e 
respeito à língua e à cultura indígena, bem como a formação de índios para a 
docência, na escola indígena. Dessa forma, efetivamente foi transferida da FUNAI 
para o MEC a coordenação das ações de educação indígena. Tal transferência 
contribuiu especialmente para a aceitação, por parte do Estado brasileiro, de uma 
nova ideologia quanto aos objetivos da educação a ser oferecida aos povos 
indígenas (GRUPIONI, 2008). 
A legitimação do MEC como operador das políticas públicas somada a 
articulação de um conjunto de atores (como professores indígenas, antropólogos, 
linguístas, educadores e indigenistas ligados à ONGs e universidades) que 
esforçaram-se por construir um novo papel para a escola indígena nos anos de 
1990. 
Em 1993 foi criado o Comitê de Educação Escolar Indígena que ficou com a 
tarefa de elaborar uma política nacional de educação indígena. O documento 
oficializado teve efeito importante no rompimento com o modelo de educação 
que até então vinha sendo operacionalizado pelo Estado. Diversos seminários foram 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
44 
 
 
 
promovidos para debater as estratégias que seriam implementadas visando o novo 
modelo de educação. Outro documento importante nesse processo, desenvolvido 
com base nos seminários, foi o Referencial Curricular Nacional para as Escolas 
Indígenas (RCNEI), lançado em 1998, cuja coordenação também ficara a cargo do 
Comitê. Dessa forma, a elaboração de documentos referenciais e de diretrizes 
constituiu uma importante atuação do MEC como coordenador do processos. 
Obviamente, a constituição de políticas públicas não se promove com 
documentos norteadores apenas, são necessários programas de investimentos de 
recursos públicos. O aumento de recursos financeiros para o apoio para a 
formação de professores indígenas, produção de materiais didáticos diferenciados 
foi visto ao longos dos anos. Contudo, não disponibilizaram recursos específicos ou 
suplementares para tanto, devendo os sistemas de ensino ficarem responsáveis 
pelas demandas, o que demonstra a baixa a institucionalidade dessas políticas 
públicas. Além disso, a prática de toda a discussão se demonstrou diferente das 
propostas apresentadas fazendo muitos questionarem se a nova escola 
diferenciada não seria apenas mais uma nova modelagem para a velha e 
conhecida escola civilizadora (GRUPIONI, 2008). Além disso, dada a diversidade 
brasileira, a realidade da educação indígena

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