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CURSO SUPERIOR DE TECNOLOGIA EM GESTÃO PÚBLICA Eixo tecnológico: Gestão e Negócios Disciplina: Planejamento e Orçamento Públicos Obs.: Material didático elaborado pelo Prof. Me. Nivaldo Faria e extraído do curso de Tecnologia em Gestão Pública da Univesp. Por este motivo, sua utilização na disciplina de PPE da UFDPar deve respeitar a indicação de autoria e uso correto das fontes. Etapas e Níveis de planejamento | Nivaldo Faria Esta aula abrange o desenvolvimento das etapas que compõem o processo de gestão e apresenta, de forma geral, a definição e as tarefas que o gestor público irá conduzir para alcançar seus objetivos, através do planejamento como função administrativa essencial. O planejamento define objetivos para o futuro desempenho organizacional e decide os recursos e tarefas necessários para alcançá-los de forma mais adequada. É a função utilizada pelo gestor público para se orientar e atingir os objetivos pretendidos, por intermédio de ações baseadas em métodos, planos ou lógica, e não ao acaso. Assim, planejar envolve soluções de problemas e tomadas de decisão. Portanto, planejamento tem como premissa básica estabelecer como os objetivos serão alcançados e determinar a melhor linha de ação para sua execução. O processo de gestão e os níveis de planejamento O planejamento é função primordial e básica na gestão de qualquer atividade pública. É a base para todas as outras funções administrativas (organizar, dirigir e controlar), sendo o principal processo utilizado para determinar como o governo pode chegar ao que pretende e como executará as tarefas para atingir seus objetivos. A figura a seguir representa o esforço da função de planejamento com as demais ações estratégicas de governo para que os objetivos tenham resultados eficazes e, assim, os recursos necessários em cada etapa ou tarefa sejam otimizados e facilitem a solução de problemas em ambientes locais ou nacionais. O processo de planejamento é a ferramenta para administrar as relações com o futuro. É a aplicação do processo de tomada de decisão que influencia o futuro da sociedade. A partir desse conceito básico, Rezende (2015) define planejamento como: “O processo de estabelecer objetivos sociais e definir, por intermédio de um plano, como alcançá-los”. Objetivos são os resultados específicos ou metas que se deseja atingir. Eles são os sinais orientadores das decisões de governo. Definem a missão e até a finalidade da ação. Plano é a colocação ordenada daquilo que é necessário para atingir os objetivos. Os planos identificam os recursos necessários, as tarefas a serem executadas, as ações a serem empreendidas e os prazos a serem cumpridos. Os planos são utilizados para identificar as ações necessárias para se atingir os objetivos e como parâmetro para o controle das operações da organização. O gestor é a peça fundamental da estrutura do planejamento, sendo o responsável pelo desenvolvimento do plano, bem como pelo aconselhamento das ações tático-operacionais para executá-lo e/ou colocá-lo em prática. São características fundamentais para o gestor: a) Experiência prática dentro de sua área de atuação: se possível, ter ocupado diversos cargos na gestão pública. b) Visão global: deve se preocupar com os objetivos amplos (macro) e não com áreas específicas (micro) da gestão. c) Conhecimento do ambiente geral e específico que influencia a gestão: é fundamental para o gestor fazer prognósticos, definir as tendências ambientais e propor ações para reagir a elas. d) Trabalho em equipe: deve possuir características pessoais que permitam colaborar e aconselhar outros gestores públicos. Deve, ainda, possuir facilidade de comunicação oral e escrita. O gestor, ao elaborar um planejamento, pode utilizar, conforme sua necessidade e condições ambientais, determinado tipo de filosofia de planejamento. Russel L. Ackoff aponta três tipos: • Planejamento conservador: volta-se à estabilidade e à manutenção da situação existente. A ênfase é conservar as práticas vigentes. Está mais preocupado com o saneamento de deficiências internas do que explorar oportunidades futuras. • Planejamento otimizado: foca em adaptabilidade e inovação interna. Baseia-se na preocupação de melhorar as práticas vigentes. Sua base é incremental, buscando a melhoria contínua. • Planejamento adaptativo: refere-se às contingências e ao futuro da gestão. Procura reduzir o planejamento retrospectivo voltado para a eliminação de deficiências localizadas no passado. Visa o ajustamento das demandas ambientais e à preparação para as futuras contingências. Atitudes em relação ao planejamento: Planejar, além de ser um processo de tomada de decisão, é também uma questão de atitude. É o resultado de atitudes favoráveis a mudanças ou o reconhecimento da necessidade de mudar. Nas últimas três décadas, as mudanças foram dramáticas. Até 1980, ninguém tinha ouvido falar em Windows ou Microsoft; as indústrias brasileiras tinham a proteção contra produtos estrangeiros; na década de 1990, o mundo viu a queda do muro de Berlim e a União Soviética se desfazer em pequenas repúblicas. Todas essas alterações provocaram forte impacto na sociedade, empresas e, principalmente, na gestão pública. Tudo foi consequência da capacidade dos gestores em lidar com as mudanças, e das atitudes em relação a elas. O gestor pode ter atitude proativa ou reativa. • Atitude proativa: Representada pelas forças que desejam e impulsionam as mudanças na gestão. São os gestores que processam positivamente os sinais que vêm do ambiente e do próprio governo. Quanto mais rapidamente a gestão antecipa o futuro, mais proativa é a atitude. • Atitude reativa: Representada pelas forças que desejam a manutenção das condições do presente e a estabilidade. É a atitude dos gestores que não interpretam positivamente os sinais do ambiente e do próprio governo. A estabilidade é preservada por forças poderosas que oferecem resistência às mudanças. São exemplos dessas forças: a comodidade da situação, o hábito, os procedimentos padronizados e os sistemas de controle. É fundamental para a gestão pública que os dois tipos de forças estejam presentes e em perfeito equilíbrio: a atitude proativa para crescimento e mudança e a atitude reativa para manter o equilíbrio e evitar mudanças desnecessárias. Níveis de planejamento: A dimensão estratégica é um processo de gestão que procura responder a questões básicas, como: • Por que o governo existe? • O que o governo faz? • Como pretende fazer? • Quando pretende fazer? O resultado desse processo é um plano de governo que serve para guiar a ação com "visão de futuro" e apresenta cinco características fundamentais: a) Adaptabilidade: é voltada para as relações entre o governo e seu ambiente específico. Por se defrontar com a incerteza nesse ambiente, tem suas decisões baseadas em julgamento e não em dados concretos, visando adaptar as ações às condições ambientais. b) Orientado para o futuro: seu horizonte de tempo é em longo prazo e foca mais criteriosamente os problemas do futuro do que os atuais. c) Sistêmico: envolve a totalidade da gestão, todos os seus recursos para obter a sinergia necessária e atingir os objetivos globais planejados. d) Consensual: em função da diversidade de interesses e necessidades da sociedade, o planejamento propõe um meio de atender a coletividade na direção futura. e) Aprendizado: orientado para a adaptação da gestão ao contexto do ambiente, o planejamento constitui uma tentativa constante de aprender a se ajustar a um ambiente complexo, competitivo e mutável. A elaboração da dimensão estratégica compreende quatro fases: a) Formulação de objetivos: é a definição dos objetivos globais que se pretende atingir a longo prazo. b) Análise dos fatores internos: o gestor analisa os recursos e a estrutura, avalia indicadoresde desempenho em termos de produtividade, crescimento, vantagens competitivas, entre outros. c) Análise externa do ambiente: abrange a análise regional e de outros fatores externos, como: conjuntura econômica, tendências políticas e ações governamentais, alterações nas normas sociais, culturais e legais. d) Formulação das alternativas estratégicas: especifica onde a gestão pretende chegar e como se propõe a fazê-lo a partir do momento presente, e deve conter: • Objetivos a longo prazo; • As atividades escolhidas (o que a gestão pretende produzir); • A região visada; • Os resultados esperados; • As alternativas estratégicas quanto aos objetivos (manter ou alterar?); • Novos investimentos. A dimensão tático-operacional determina o que as secretarias devem fazer a fim de que a gestão alcance os objetivos propostos no período definido nos programas e ações do Plano Plurianual. Os planos, geralmente, são desenvolvidos para as áreas estratégicas ou mais carentes do governo, cujo objetivo é transformar a missão estratégica em algo mais acessível para http://campus20162.unimesvirtual.com.br/mod/book/view.php?id=67559 http://campus20162.unimesvirtual.com.br/mod/book/view.php?id=67504 elaboração dos planos operacionais, enquanto o planejamento estratégico tem por finalidade a gestão em futuro próximo. As metas são fixadas levando em consideração a dimensão estratégica e são dispostas em planos anuais de gestão, que possibilitam sua visualização por todos os gestores envolvidos. Logo, a dimensão tático-operacional é focalizada para curto prazo e cobre cada uma das tarefas ou operações individualmente. Preocupa-se com "o que fazer” e com o “como fazer” as atividades cotidianas da gestão. Refere-se, especificamente, às tarefas e operações realizadas na prática. Alcançando esses objetivos, pressupõe-se que os objetivos fixados nessa fase serão também contemplados e, consequentemente, se torne mais fácil o alcance dos objetivos da dimensão estratégica. O planejamento da dimensão tático-operacional é distribuído por toda a gestão, seus participantes elaboram planos nos quais serão organizadas e definidas as metas por áreas ou secretarias e serão, posteriormente, controladas e avaliadas de acordo com o desempenho do respectivo setor. Para o sucesso da gestão, é necessário que cada setor tenha êxito nas propostas fixadas e, dessa forma, mantém-se a direção estabelecida. Portanto, planejar é fundamental para qualquer atividade, conhecendo bem as bases desse planejamento o sucesso está garantido. Planejamento e políticas públicas e Modelos de planejamento governamental | Nivaldo Faria O planejamento também seria um artigo de primeira necessidade? Ainda que necessário no setor público, o planejamento não é óbvio nem trivial. O planejamento estratégico está sempre relacionado à capacidade de uma instituição se adaptar à incerteza permanente que envolve o futuro e às mudanças imprevistas nos ambientes. Isso vale tanto para o setor privado quanto para o público (podemos observar o atual cenário da pandemia de covid-19 que afeta a cadeia produtiva e a economia mundial). No entanto, as rápidas mudanças políticas, econômicas e sociais pelas quais o país tem passado desde a redemocratização não sustentam mais esse argumento. Portanto, desde a Constituição Federal de 1988, o planejamento de médio e longo prazos é obrigatório pelo art. 165 e, após a aprovação do Poder Legislativo, ele se tornou lei. A relação das políticas públicas com o planejamento denota, claramente, que se não houver uma ação estratégica do gestor, todo esforço contido nessa política acontece sem a efetiva possibilidade de atender à demanda social. O planejamento com os modelos de análise e as políticas públicas com o ciclo de elaboração e execução é, em uma rápida análise, crítica das reformas gerenciais do Estado e sua relação mais imediata às transformações do planejamento federal. O planejamento estratégico é a ciência e a arte de atingir os objetivos estabelecidos por meio do cálculo estratégico sobre o futuro, sendo capaz de orientar as ações no momento presente. De Toni (2016), faz uma reflexão sobre o planejamento no ciclo de políticas públicas e as reformas gerenciais, destacando a importância das políticas públicas e do planejamento como elementos fundamentais para que as demandas da sociedade possam ser atendidas com necessária eficiência, observando a limitação de recursos que o governo dispõe para esses programas de dimensões tático-operacionais. Uma política pública, em sentido amplo, é tudo o que resulta de uma iniciativa governamental para responder a uma demanda legítima da sociedade, contudo, está longe de ser a única, pois o tema é amplo e complexo. Logo, se tentamos submeter o ritmo do desenvolvimento dos acontecimentos à vontade humana, devemos imediatamente pensar que governar em situações complexas exige exercer a prática do planejamento estratégico até seu último grau. Política pública e planejamento podem provocar alguns conflitos no entendimento e na interpretação de gestores iniciantes, mas enquanto o primeiro envolve escolhas e decisões sobre prioridades coletivas, o segundo é a ciência e a arte de alcançar objetivos futuros, orientado por ações atuais. Quase sempre as políticas públicas são parte da solução de conflitos sociais ou a causa de novas disputas coletivas. Seu sucesso não depende exclusivamente do modelo, mas, sobretudo, de sua estratégia de implementação e de governança. Na implementação das políticas públicas, outras variáveis ganham relevância, tais como a natureza das instituições, o tipo de processo decisório, a capacidade administrativa e organizativa, a gestão orçamentária, o comportamento da burocracia pública, a reação de beneficiários e eventuais prejudicados, o calendário eleitoral e os processos de controle, monitoramento e avaliação. A figura a seguir traz a representação do ciclo simplificado de políticas públicas, a elaboração de uma política pública começa quando um problema é percebido pelo público como uma demanda que não pode ser resolvida sem a presença do Estado. A natureza coletiva e o tipo de solução definem a entrada de um problema na agenda do governo. Na fase de formulação da política, o governo, sujeito a múltiplas pressões, define as alternativas para solucionar o problema, sendo na implementação da política pública que outras variáveis ganham relevância, tais como: a natureza das instituições, o tipo de processo decisório, a gestão orçamentária, entre outras. Quanto à avaliação, é a última fase do ciclo simplificado de políticas públicas e o momento de identificar se os produtos do programa ou projeto produziram os resultados esperados. Fonte: De Toni (2016, p. 37). Ribeiro e Bliacheriene (2013, p. 36) apontam que a elaboração de políticas públicas precede ao modelo de planejamento governamental adotado pelos gestores, pois é um instrumento legal de médio prazo que, por meio de diretrizes governamentais, estabelece programas, ações, objetivos e metas da administração pública, para um período de quatro anos, promovendo a identificação clara dos objetivos e prioridades da União, Estados e Municípios. Todo governo deve definir suas prioridades na forma de programas e projetos, com diretrizes, objetivos e metas. Embora a metodologia mude, é o Plano Plurianual (PPA) que deve orientar a ação do Estado e da sociedade a ajudar construir uma visão de futuro que, a partir das lições do passado, oriente o presente. O Plano Plurianual (PPA) define as diretrizes, os objetivos e as metas relativas aos programas de duração continuada que serão planejadas por meio das ações que integrarão esses programas, bem como as despesas delas decorrentes. Historicamente, o PPA é o instrumento de planejamento tático-estratégico das ações estatais e dele derivam as Leis de DiretrizesOrçamentárias (LDO) e as Leis de Orçamento Anuais (LOA). Também é importante destacar que, pelo menos em dois casos, a Constituição Federal (Art. 214) prevê a existência de planos setoriais (Educação e Cultura) de longo prazo aprovados por lei e com vigência de longo prazo e não de médio prazo, como ocorre no caso do PPA. Os principais objetivos do PPA são: • definir, com clareza, as metas e prioridades da administração, bem como os resultados esperados; • organizar, em programas, as ações de que resultem oferta de bens ou serviços que atendam às demandas da sociedade; • estabelecer a necessária relação entre os programas a serem desenvolvidos e a orientação estratégica de governo; • nortear a alocação de recursos nos orçamentos anuais, compatível com as metas e recursos do plano; • facilitar o gerenciamento das ações do governo, atribuindo responsabilidade pelo monitoramento dessas ações e pelos resultados obtidos; • integrar ações desenvolvidas pela União, Estado e governo local; (vii) estimular parcerias com entidades privadas, na busca de fontes alternativas para o financiamento dos programas; • explicitar, quando couber, a distribuição regional das metas e gastos do governo; • tornar transparente a aplicação de recursos e os resultados obtidos. As estratégias desenvolvidas para consolidar a missão e abordar os cenários são decorrentes e condicionantes da visão e do papel do Estado vislumbrado. Nesse sentido, há um forte contato entre a questão técnica de planejamento e sua abordagem política, que emerge das eleições. A construção de cenários tem por objetivo reduzir as incertezas no processo de planejamento e gestão. Normalmente, esse esforço de construção de cenários alternativos envolve sondagens nos ambientes interno e externo à organização, em dimensões econômicas, sociais, tecnológicas e de produção e/ou entrega de bens e serviços. Quase todas as técnicas recomendam, pelo menos, a construção de três cenários (o otimista, o provável e o pessimista). O número de cenários a serem apresentados depende da natureza da atividade a ser desenvolvida e das incertezas envolvidas. A necessidade de se definir uma ferramenta de planejamento que explicite as principais características e a lógica central de intervenção da ação estatal nos coloca o imperativo de adotar uma técnica que seja de fácil visualização e aplicação. A partir das orientações do Banco Mundial, desde os anos 1990, praticamente todas as organizações no âmbito da cooperação internacional utilizam o instrumento “Quadro Lógico ou Marco Lógico”, e muitas adotaram também o processo do enfoque com foco participativo na modelagem de planejamento governamental. A estrutura do quadro lógico tem por objetivo explicitar a vinculação entre os objetivos governamentais, as ações a serem desenvolvidas e os resultados esperados, bem como evidenciar as métricas que serão desenvolvidas para aferir resultados e como serão levantados os dados. A figura a seguir apresenta o Quadro Logico que representa a explicitação de um resumo do plano de intervenção, que fornece respostas basicamente às seguintes perguntas: • Por que o projeto deve ser realizado? • Qual é o seu propósito e quais as mudanças a serem alcançadas? • Como se pretende produzir melhorias? • Quais são as condições externas que influenciam o alcance dos resultados e dos seus efeitos? • Como é possível identificar o alcance das melhorias e mudanças? A construção do Quadro Lógico envolve a elaboração da matriz de ações planejadas para a solução de um problema e resultados esperados de forma a explicitá-los de forma lógica e transparente. Essa descrição permite, em primeiro lugar, verificar se um projeto está bem estruturado e, em segundo lugar, o acompanhamento sistemático e uma avaliação mais fácil e mais objetiva. Modelo de Matriz do Marco Lógico Lógica da Intervenção Indicadores Objetivamente comprováveis Fontes de comprovação Suposições Importantes Objetivo Superior Objetivo do Programa Resultados Atividades Principais Fonte: Ribeiro; Bliacheriene (2013, p. 73). Para os autores, o modelo de “programas”, bem desenvolvido, possibilita a visualização do conjunto de produtos e determina a construção de indicadores de eficácia e efetividade da ação estatal. Existem modelos que permitem a construção de “programas”, dentre os quais o mais difundido internacionalmente é o Marco Lógico, descrito em detalhes no cap. 3.3.5.4 – “Utilização do marco lógico para definição dos atributos do programa” - p. 71. O processo de planejamento com foco participativo para construção do Marco Lógico prevê a realização de workshops nos quais estão reunidas as equipes de construção/implantação da política pública mediadas por um facilitador, tendo por objetivo a construção do “Quadro Lógico” que será o elemento principal do Marco Lógico a ser desenvolvido. Abordagem sistêmica e estratégica de planejamento - Planejamento, avaliação e monitoramento | Nivaldo Faria Não só as funções da administração (planejamento, organização, direção e controle) devem ser consideradas em um planejamento estratégico, mas também a administração estratégica deve ser entendida e vivenciada na sua elaboração. Em algumas organizações, a palavra direção tem sido substituída por liderança e por gestão. A abordagem sistêmica da administração estratégica abrange, além da gestão de suas partes ou estágios, os detalhes e as discussões que antecedem a elaboração do planejamento estratégico, pois torna-se um processo contínuo e iterativo que visa manter uma organização como um conjunto apropriadamente integrado a seu ambiente. Acentua que os gestores se dediquem a uma série de etapas ou a processos contínuos. O termo iterativo indica que as etapas são repetidas ciclicamente, em função dos ambientes organizacionais mudarem constantemente, e as organizações se transformarem de forma adequada para assegurar que as metas organizacionais possam ser alcançadas com maior eficiência. Além da abordagem estratégica, visão sistêmica, a ciência da administração contempla planos de ações operacionais e os programas tático-operacionais, divididos em etapas relacionados ao sistema de administração estratégica: • Analisar o ambiente (ex.: Análise SWOT); • Estabelecer a diretriz organizacional (metas, missão e objetivos claros); • Formular estratégias (definir como as ações alcançarão os objetivos); • Implementar estratégias (colocar em ação o plano desenvolvido) e • Elaborar o controle estratégico (monitorar e avaliar o processo). Atualmente, podem ser destacados os seguintes instrumentos estratégicos para organizações: planejamento estratégico organizacional; planejamento estratégico de informações; modelo de informações organizacionais e mapas de conhecimentos; metodologia para desenvolvimento de projetos; instrumento ou técnica de gestão de projetos; normas e padrões técnico-operacionais; manuais e documentações. As macroatividades presentes nas organizações para seu funcionamento sistêmico (integrado) e efetivo são chamadas de funções organizacionais, mas nas organizações públicas, são chamadas de funções públicas. Enquanto nas organizações privadas encontramos a função produção ou serviços, nas organizações públicas essa função pode ser chamada de serviços públicos, sejam serviços específicos ou de governos (federal, estadual e municipal), podendo ser subdividida em: educação, saúde, segurança, social, transporte, abastecimento, cultura, habitação, turismo, entre outros. A abordagem sistêmica nesse contexto precede a inovação e, pode ser entendida como fazer diferente com valor agregado um serviço público, sem necessariamente ser algo novo. Nesse sentido, a gestão pública inovadora é a que oferece produtosou presta serviços com valores agregados. A inovação no serviço público pode contemplar duas abordagens estratégicas: tecnológica e humana. A abordagem tecnológica está voltada ao ambiente interno da organização e, a abordagem humana ao ambiente externo e oferece serviços ou produtos, em um ou mais processos e, até mesmo, no modelo inovador da gestão pública. A inovação sempre requer um processo como premissa e pode ser entendido como uma metodologia que requer procedimentos. Uma metodologia exige a definição de suas partes ou fases, subfases, produtos e pontos de avaliação. Outro ponto a ser destacado na correlação entre a inovação e a abordagem sistêmica é que a inovação não acontece facilmente, ela encontra algumas barreiras, tais como: isolamento dos gestores organizacionais; falta de integração entre os gestores organizacionais e os seus subordinados; intolerância com pesquisadores locais; horizonte de curto prazo desprezando-se detalhes de planejamento e necessidade de tempo; práticas conservadoras; racionalismo e burocracia excessivos; excesso de informação e incentivos inadequados aos inovadores. A nova gestão é um largo campo de discussão sobre as intervenções políticas dentro do governo executivo. As características sistêmicas dos instrumentos das intervenções de políticas são regras institucionais e rotinas organizacionais que afetam o planejamento das despesas, a gestão das finanças, a administração pública, as relações civis de trabalho, as compras, a organização e métodos, a auditoria e a avaliação de todos esses processos. A estratégia de planejamento também pode ser entendida como um processo dinâmico e interativo para desenvolvimento estruturado e inteligente de projetos, visando à qualidade, à produtividade e à efetividade de projetos. Permite o uso de uma ou várias técnicas por opção dos envolvidos no projeto. As cidades ou os municípios também podem fazer seu planejamento estratégico por meio uma metodologia com as seguintes fases (e subfases): dados da cidade (município); análises estratégicas municipais (análises da cidade; análises externas à cidade; análises da administração municipal); diretrizes estratégicas municipais (diretrizes da cidade; diretrizes da administração municipal); estratégias e ações municipais (estratégias municipais; ações municipais; viabilização das estratégias e ações municipais); e controles municipais e gestão do planejamento. Em resumo, para elaborar, gerir e implementar o planejamento estratégico em organizações públicas, sugere-se a estruturação das seguintes fases: análises organizacionais; diretrizes organizacionais; estratégias organizacionais; e controles organizacionais e gestão do planejamento. Nas organizações públicas, o modelo de gestão pode ser influenciado pela legislação pertinente que rege a atividade pública da referida organização. Sob a ótica da administração, o planejamento estratégico está relacionado com o conjunto de recursos e a aplicação das atividades destinadas aos atos de gerir a organização e suas funções organizacionais. Na organização pública, a gestão pode ser direcionada à capacidade dos governos de gerir as funções federais, estaduais e municipais, bem como de implementar respectivas políticas públicas para facilitar as ações necessárias na condução do país, dos estados e das cidades, contextualizando a participação dos cidadãos nesses desafios. Planejamento, avaliação e monitoramento Ao partirmos de uma visão sistêmica e contingencial da administração pública, temos que as organizações devem se estruturar e se organizar de forma compatível com o ambiente em que a entidade está inserida e com a natureza da atividade desempenhada. Quem faz a mediação entre as estruturas organizacionais e o ambiente são as estruturas de planejamento e de gestão estratégicas. Ao entendermos o planejamento estratégico no setor público como a união entre as estruturas administrativas do Estado e a prospecção da realidade, passos a entendê-lo como o ponto de união onde se acoplam o ciclo de política e gestão. Diante dessas estruturas, vemos a construção de um ciclo de gestão e políticas públicas que envolve a essência do planejamento que deve ser monitorado e avaliado sistematicamente, em função das ações implantadas no ambiente - interno e externo - e do desenvolvimento de metodologias que apontem maior eficiência nas ações de governo. Mas, quais são os benefícios que o monitoramento pode trazer ao planejamento? O monitoramento de um programa ou projeto não pode ser confundido com o simples acompanhamento ou registro de eventos. Logo, a iniciativa de cobrar resultados é uma atribuição essencial da liderança do gestor público. Sem essa iniciativa, não há incentivo para o processo de planejamento. Se todos os níveis da organização estão engajados em um sistema coerente de monitoramento e avaliação, o processo de planejamento surge como resposta para organizar a instituição na direção de seus objetivos mais estratégicos. O monitoramento e a avaliação são a base do sistema de prestação de contas, isto é, de responsabilização de cada nível hierárquico sobre a implementação do plano estratégico. Esse conceito é fundamental para explicar a capacidade de governo que se desenvolve quando é exigida pelas regras do jogo político mediante práticas sistemáticas que exijam cobrança e prestação de contas por desempenho. A dinâmica e a finalidade do monitoramento é permitir rapidamente a correção de rumos; para isso serve a avaliação em suas diversas formas, momentos e processos. Paradoxalmente, a primeira dificuldade em monitorar os resultados de um projeto é o próprio projeto. A precariedade das metodologias contribui deliberadamente para que o desenho dos projetos tenha pouca avaliabilidade, por exemplo: objetivos incoerentes com diretrizes gerais, indicadores inexistentes ou mal elaborados, metas que não guardam relações lógicas com indicadores, produtos e resultados confusos e, assim por diante. O processo de avaliação também não pode ser visto como algo meramente punitivo, pois qualquer organização cujo sistema de gestão não tem capacidade de prestar contas está fadada à mediocridade funcional estável, isto é, a uma zona de conforto que a isola cada vez mais da realidade. Isto é muito comum no setor público, em que as práticas de gestão e planejamento estratégico são ainda incipientes e primitivas. A existência de uma organização pública jamais pode ser automotivada pelo interesse da própria burocracia ou de clientelismos injustificados. Logo, ela deve seguir a estratégia e existir para resolver problemas e aproveitar oportunidades na garantia do bem-estar coletivo e da cidadania. Avaliar impactos exige um olhar interdisciplinar e múltiplos saberes, pois o projeto (assim como o plano inteiro) visa superar uma situação problemática que é, por definição, síntese de múltiplas determinações - sociais, políticas e econômicas. Assim, a avaliação deve enfrentar esse primeiro desafio, aprender a multidimensionalidade dos fenômenos, recusar a formalização arbitrária que separa os saberes. O maior problema é a desconexão entre os processos avaliativos formais e os processos avaliativos reais, ocultos no processo e não transparentes. O risco dessa dissociação está na falta de planejamento da avaliação resultante da falta de demanda pela direção das organizações. Avaliações são julgamentos de valor e de mérito sobre o desempenho de pessoas, processos e instituições, e é por isso que os critérios de julgamento devem estar claros para todos os envolvidos e subordinados aos parâmetros das próprias diretrizes estratégicas da instituição. Toda avaliação é feita por alguém, por uma instituição, por um grupo de pessoas que têm posições, valores, referências, biografia. Então qual é a saída? A solução é sempre deixar claros o contexto e as circunstâncias em queo processo avaliativo acontece, para que a leitura de seus resultados possa capturar a complexidade de todo o fenômeno e deduzir as próprias conclusões. Por isso mesmo, as organizações mais maduras institucionalmente têm centros de monitoramento e avaliação independentes para tentar preservar um distanciamento crítico mínimo, que lhes garanta alguma isenção e independência nos pareceres. O monitoramento e a avaliação são cada vez mais demandados, necessários e rotineiros na vida dos gestores públicos. Não apenas os organismos de controle, mas a própria sociedade mais escolarizada e politizada demanda a avaliação do impacto do que é feito com os recursos públicos ou coletivos. A dimensão mais importante do processo avaliativo é a aprendizagem institucional. Portanto, uma instituição que entende o porquê de seus próprios insucessos e fracassos tem muito mais chance de avançar na sua maturidade e qualificar ainda mais os serviços públicos que fornece aos cidadãos. Bibliografia básica: CREPALDI, Silvio Aparecido. Orçamento público: planejamento, elaboração e controle. São Paulo: Saraiva, 2009. <BV> DE TONI, Jackson. O planejamento estratégico governamental: reflexões metodológicas e implicações na gestão pública. Intersaberes, 2016. <BV> PALUDO, Augustinho Vicente; PROCOPIUK, Mario. Planejamento governamental: referencial teórico, conceitual e prático. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2014. REZENDE, Denis Alcides. Planejamento estratégico público ou privado: guia para projetos em organizações de governo e de negócios. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2015. FUNDAP - Fundação do desenvolvimento Administrativo. Gestão estratégica: planejamento e gerenciamento de programas e projetos. São Paulo: Fundap, 2005. RATTNER, Henrique. Planejamento e bem-estar social. São Paulo: Perspectiva, 1979. Bibliografia complementar: ANDRADE, Nilton A. (Org.). Planejamento governamental para municípios: plano plurianual, lei de diretrizes orçamentárias e lei orçamentária anual. 2. ed. São Paulo: Grupo GEN, 2010. <BV> GIACOMONI, James. Orçamento público. 16. ed. São Paulo: Grupo GEN, 2012. <BV> RIBEIRO, Renato Jorge B.; BLIACHERIENE, Ana C. Construindo o planejamento público: buscando a integração entre política, gestão e participação popular. São Paulo: Grupo GEN, 2013. <BV> PPA; LDO; LOA; LRF.