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Indaial – 2022 ClíniCa Prof.ª Juliana Ferreira Barbosa 1a Edição Citopatologia Elaboração: Prof.ª Juliana Ferreira Barbosa Copyright © UNIASSELVI 2022 Revisão, Diagramação e Produção: Equipe Desenvolvimento de Conteúdos EdTech Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada pela equipe Conteúdos EdTech UNIASSELVI Impresso por: B238c Barbosa, Juliana Ferreira Citopatologia clínica. / Juliana Ferreira Barbosa– Indaial: UNIASSELVI, 2022. 184 p.; il. ISBN 978-85-515-0643-1 ISBN Digital 978-85-515-0640-0 1. Farmácia – Brasil. II. Centro Universitário Leonardo da Vinci. CDD 615 Caríssimo acadêmico de farmácia! É um prazer fazer parte da sua jornada acadêmica! Bem-vindo ao Livro Didático de “Citopatologia clínica”. Tenho certeza de que você já ouviu falar de algum exame dessa área. Provavelmente, já ouviu, em algum momento, alguma mulher falando: “Tenho que fazer meu preventivo!” Este livro tem como objetivo ajudá-lo no entendimento e na compreensão dos conteúdos de citopatologia clínica, fazendo sempre uma conexão entre a teoria e a prática, fundamental na nossa vida profissional. Neste percurso acadêmico, sempre teremos os conceitos teóricos que os grandes pesquisadores e cientistas da área nos oferecem, assim como os aspectos clínicos que estão relacionados a eles. Algumas das ferramentas, tipos de análises e técnicas aqui apresentadas serão utilizadas de forma tão natural e automática, que você, ao final, nem irá perceber que se tratam de princípios e/ou análises da citopatologia. Em Citopatologia, espera-se sempre que o analista seja capaz de identificar os componentes celulares, mas principalmente que ele seja capaz de identificar qualquer indício sugestivo de uma doença, ou ainda que a médio e longo prazo estes achados possam ser responsáveis por alterações celulares não desejadas, como um câncer, principalmente. Com os estudos desta unidade curricular, você será capaz de analisar e liberar resultados de diversas amostras clínicas e contribuirá muito com o estado de saúde de várias pessoas, que aqui chamaremos de pacientes. Análises que no início serão difíceis e trabalhosas, a cada dia se tornarão mais simples e práticas de serem concluídas com sucesso e qualidade. Por muitas vezes, essa fundamental área de atuação do farmacêutico não recebe a devida importância ou reconhecimento, mas cabe a cada um de nós provar sua importância e relevância na vida de cada um dos nossos pacientes. Desta forma, caro acadêmico, sempre estaremos pautados nas diretrizes e orientações do Ministério da Saúde (mais atuais), e ainda reforçamos a importância de sempre estarmos nos atualizando, reciclando nossos conhecimentos, para sempre entregar ao nosso paciente um laudo de qualidade. Para tal, na Unidade 1, abordaremos o contexto histórico da citopatologia, a cronologia das descobertas e seus respectivos impactos na clínica da época. Vamos estudar também as principais características dos tipos celulares e seus tecidos e, posteriormente, as principais técnicas de coleta, conservação e coloração de amostras citológicas, além dos principais equipamentos e instrumentos que utilizamos em laboratórios de citologia. APRESENTAÇÃO Em seguida, na Unidade 2, estudaremos a citologia clínica com foco na célula em condições normais, benignas e malignas, e ainda a anatomofisiologia da tireoide e da mama com suas particularidades e suas características próprias, a fim de estabelecermos familiaridade com a cito-histologia destes locais para posteriormente vislumbramos as citopalogias mais comuns de cada um deles. Por fim, na Unidade 3, vamos aprender e conhecer mais sobre a citologia ginecológica. Essa unidade vai trazer informações direcionadas aos procedimentos de coleta e análise. Vamos aprender as principais alterações celulares e as técnicas de esfregaço cervicovaginal – exame colopatológico, popularmente conhecido como exame preventivo ou ainda como Papanicolau. Estudaremos também as principais nomenclaturas utilizadas na confecção e análise de laudos citológicos. Ainda, nesta unidade, vamos aprender sobre o controle de qualidade em laboratórios citológicos. Então, caro acadêmico, dedique-se! Envolva-se! Mergulhe fundo neste novo mundo citopatológico! Adapte-se e melhore sua capacidade de raciocinar, de estudar, de aprender, de analisar, de buscar soluções plausíveis e realistas para os mais diversos problemas que possam surgir a sua frente, tanto no mundo acadêmico quanto no profissional. Nunca esqueça: você irá se deparar com várias tarefas que, por enquanto, irá considerar difícil, cansativas e trabalhosas, mas acredite, todas elas irão ficar, dia após dia, mais simples e fáceis de serem resolvidas, a ponto de um dia você desejar novos desafios! Bons estudos e sucesso, sempre! Prof.ª Juliana Ferreira Barbosa GIO Olá, eu sou a Gio! No livro didático, você encontrará blocos com informações adicionais – muitas vezes essenciais para o seu entendimento acadêmico como um todo. Eu ajudarei você a entender melhor o que são essas informações adicionais e por que você poderá se beneficiar ao fazer a leitura dessas informações durante o estudo do livro. Ela trará informações adicionais e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto estudado em questão. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material-base da disciplina. A partir de 2021, além de nossos livros estarem com um novo visual – com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura –, prepare-se para uma jornada também digital, em que você pode acompanhar os recursos adicionais disponibilizados através dos QR Codes ao longo deste livro. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com uma nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página – o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Preocupados com o impacto de ações sobre o meio ambiente, apresentamos também este livro no formato digital. Portanto, acadêmico, agora você tem a possibilidade de estudar com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Preparamos também um novo layout. Diante disso, você verá frequentemente o novo visual adquirido. Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar os seus estudos com um material atualizado e de qualidade. Olá, acadêmico! Para melhorar a qualidade dos materiais ofertados a você – e dinamizar, ainda mais, os seus estudos –, nós disponibilizamos uma diversidade de QR Codes completamente gratuitos e que nunca expiram. O QR Code é um código que permite que você acesse um conteúdo interativo relacionado ao tema que você está estudando. Para utilizar essa ferramenta, acesse as lojas de aplicativos e baixe um leitor de QR Code. Depois, é só aproveitar essa facilidade para aprimorar os seus estudos. QR CODE ENADE LEMBRETE Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma disciplina e com ela um novo conhecimento. Com o objetivo de enriquecer seu conheci- mento, construímos, além do livro que está em suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, por meio dela você terá contato com o vídeo da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complementa- res, entre outros, todos pensados e construídos na intenção de auxiliar seu crescimento. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada! Acadêmico, você sabe o que é o ENADE? O Enade é um dos meios avaliativos dos cursos superiores no sistema federal de educação superior. Todos os estudantes estão habilitados a participar do ENADE (ingressantes e concluintes das áreas e cursos a serem avaliados). Diante disso, preparamos um conteúdo simples e objetivopara complementar a sua compreensão acerca do ENADE. Confira, acessando o QR Code a seguir. Boa leitura! SUMÁRIO UNIDADE 1 - INTRODUÇÃO À CITOPATOLOGIA CLÍNICA ..................................................... 1 TÓPICO 1 - CONTEXTO HISTÓRICO DA CITOPATOLOGIA ....................................................3 1 INTRODUÇÃO .......................................................................................................................3 2 EVOLUÇÃO DA CITOLOGIA AO LONGO DOS TEMPOS .......................................................3 3 INTER-RELAÇÃO ENTRE A EVOLUÇÃO DA CITOLOGIA E SUA APLICAÇÃO CLÍNICA ....... 6 4 IMPACTO DAS ANÁLISES CITOPATOLOGIAS NA SAÚDE POPULACIONAL .....................8 RESUMO DO TÓPICO 1 .........................................................................................................10 AUTOATIVIDADE ...................................................................................................................11 TÓPICO 2 - CARACTERIZAÇÕES CELULARES E TECIDUAIS EM CITOPATOLOGIA ......... 13 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 13 2 TIPOS CELULARES ........................................................................................................... 13 3 CÉLULAS E TECIDOS DE INTERESSE EM CITOPATOLOGIA ........................................... 19 RESUMO DO TÓPICO 2 ......................................................................................................... 31 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................. 32 TÓPICO 3 - TÉCNICAS E MATERIAIS DE COLETA, CONSERVAÇÃO E COLORAÇÃO DE AMOSTRAS CITOLÓGICAS ................................................................................................. 35 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 35 2 TÉCNICAS E MATERIAIS DE COLETA ............................................................................. 36 2.1 COLETA DE MATERIAL E CONSERVAÇÃO ...................................................................................... 37 2.1.1 Escovados e raspados ..............................................................................................................39 2.1.2 Imprints – impressões teciduais ............................................................................................42 2.1.3 Lavados ........................................................................................................................................42 2.1.4 Líquidos cavitários ....................................................................................................................43 2.1.5 Materiais obtidos espontaneamente ....................................................................................43 2.1.6 Punções: por agulha fina (PAAF) e por capilaridade ........................................................44 2.2 COLORAÇÕES EM CITOPATOLOGIA ................................................................................................46 2.2.1 Coloração de Papanicolaou ....................................................................................................46 2.2.2 Coloração de May-Grünwald-Giemsa ................................................................................ 48 2.2.3 Coloração hematoxilina eosina (HE) ....................................................................................49 2.2.4 Outras colorações usuais .......................................................................................................49 3 ADEQUABILIDADE DAS AMOSTRAS ............................................................................... 52 LEITURA COMPLEMENTAR ................................................................................................ 54 RESUMO DO TÓPICO 3 .........................................................................................................57 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................. 58 REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 60 UNIDADE 2 — COMPONENTES CELULARES EM CONDIÇÕES NORMAIS, BENIGNAS E MALIGNAS APLICADAS À CITOPALOGIA CLÍNICA ....................................................................... 63 TÓPICO 1 — A CÉLULA ......................................................................................................... 65 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 65 2 NÚCLEO E CITOPLASMA ................................................................................................. 65 2.1 NÚCLEO ................................................................................................................................................. 67 2.2 NUCLÉOLO ...........................................................................................................................................70 2.3 CITOPLASMA........................................................................................................................................ 72 2.4 MEMBRANA CELULAR ....................................................................................................................... 73 3 MAMA E TIREOIDE: PADRÕES CITOPATOLÓGICOS DE INTERESSE CLÍNICO ............... 77 3.1 MAMA ..................................................................................................................................................... 77 3.2 TIREOIDE ............................................................................................................................................... 81 RESUMO DO TÓPICO 1 ........................................................................................................ 84 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................. 85 TÓPICO 2 - PARTICULARIDADES DO TRATO GENITAL FEMININO (TGF) ........................ 89 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 89 2 ANATOMOFISIOLOGIA E CITO-HISTOLOGIA DO TGF ..................................................... 89 3 METAPLASIAS .................................................................................................................. 92 4 CITOLOGIA HORMONAL ................................................................................................... 94 5 CITOLOGIA INFLAMATÓRIA .............................................................................................97 5.1 BACTERIANA......................................................................................................................................... 97 5.2 FÚNGICA ...............................................................................................................................................98 5.3 PROTOZOÁRIA ...................................................................................................................................100 5.4 VIRAL ...................................................................................................................................................100 6 CITOLOGIA DAS ALTERAÇÕES REATIVAS.....................................................................102 RESUMO DO TÓPICO 2 .......................................................................................................103 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................... 104 TÓPICO 3 - ATIPIA CELULAR, LESÕES PRÉ-CANCEROSAS E CARCINOMAS DO COLO UTERINO ..................................................................................................................................1071 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................107 2 CÉLULAS ESCAMOSAS ATÍPICAS: CLASSIFICAÇÕES, CRITÉRIOS E CONDUTAS ........ 107 3 LESÕES PRÉ-CANCEROSAS E MORFOGÊNESE DO CARCINOMA ESCAMOSO ........... 110 3.1 HPV: MANIFESTAÇÕES E DIAGNÓSTICO.......................................................................................112 4 LESÕES INTRAEPITELIAIS E SUAS CLASSIFICAÇÕES ................................................ 113 4.1 CARACTERÍSTICAS CITOHISTOLOGICAS E SEUS DIAGNÓSTICOS .........................................113 LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................... 115 RESUMO DO TÓPICO 3 ....................................................................................................... 121 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................122 REFERÊNCIAS ....................................................................................................................124 UNIDADE 3 — CITOPALOGIA GINECOLÓGICA E GESTÃO DA QUALIDADE EM LABORATÓRIOS DE CITOPATOLOGIA CLÍNICA ................................................................ 127 TÓPICO 1 — ESFREGAÇOS CERVICOVAGINAIS ................................................................129 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................129 2 TÉCNICA E OBJETIVOS ..................................................................................................129 3 RECOMENDAÇÕES E INDICAÇÕES DO EXAME CITOPATOLÓGICO DE PAPANICOLAOU .................................................................................................................132 3.1 PROCEDIMENTOS PRÉ-COLETA .................................................................................................... 132 3.2 PROCEDIMENTOS DE COLETA.......................................................................................................133 3.3 PROCEDIMENTOS PÓS-COLETA ...................................................................................................136 RESUMO DO TÓPICO 1 .......................................................................................................138 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................... 140 TÓPICO 2 - TÓPICOS ESPECIAIS: ANORMALIDADES ENDOCERVICAIS E 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................145 2 ANORMALIDADES GLANDULARES E SUAS CLASSIFICAÇÕES ...................................145 ENDOMETRIAIS ..................................................................................................................145 2.1 ADENOCARCINOMAS CERVICAIS ...............................................................................................146 2.2 ADENOCARCINOMAS ENDOMETRIAIS .........................................................................................149 3 NEOPLASIAS MALIGNAS METASTÁTICAS .................................................................... 151 4 NOVAS TECNOLOGIAS APLICADAS À CITOPATOLOGIA CLÍNICA ................................ 157 RESUMO DO TÓPICO 2 ....................................................................................................... 161 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................163 TÓPICO 3 - GESTÃO DA QUALIDADE EM LABORATÓRIOS DE CITOPATOLOGIA CLÍNICA .............................................................................................................................. 167 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 167 2 SISTEMAS DE MONITORAMENTO ..................................................................................168 2.1 MONITORAMENTO INTERNO ............................................................................................................ 171 2.2 MONITORAMENTO EXTERNO ......................................................................................................... 173 3 ACREDITAÇÃO PARA LABORATÓRIOS DE CITOPATOLOGIA CLÍNICA ........................ 174 LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................... 177 RESUMO DO TÓPICO 3 .......................................................................................................180 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................ 181 REFERÊNCIAS ....................................................................................................................183 1 UNIDADE 1 - INTRODUÇÃO À CITOPATOLOGIA CLÍNICA OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • conhecer e entender os principais fundamentos da citopatologia clínica; • compreender a importância das técnicas citopatológicas para a clínica médica; • reconhecer a arquitetura celular e tecidual dos principais tipos de tecidos humanos requeridos em citopatologia clínica. • eleger a melhor técnica e os melhores instrumentos para coleta de amostras clínicas; • conhecer e empregar as diversas técnicas de preservação das amostras coletadas garantindo uma análise citológica dentro dos padrões de qualidade e excelência; • conhecer as principais técnicas utilizadas nos exames citopatológicos; • empregar as principais técnicas de coloração aplicadas à cito-histologia clínica. A cada tópico desta unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – CONTEXTO HISTÓRICO DA CITOPATOLOGIA TÓPICO 2 – CARACTERIZAÇÕES CELULARES E TECIDUAIS EM CITOPATOLOGIA TÓPICO 3 – TÉCNICAS E MATERIAIS DE COLETA, CONSERVAÇÃO E COLORAÇÃO DE AMOSTRAS CITOLÓGICAS Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 2 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 1! Acesse o QR Code abaixo: 3 CONTEXTO HISTÓRICO DA CITOPATOLOGIA 1 INTRODUÇÃO TÓPICO 1 - UNIDADE 1 Acadêmico, neste tópico, abordaremos o contexto histórico da citopatologia, a cronologia das descobertas e seus respectivos impactos na clínica. É muito importante conhecer os principais estudiosos da área da citologia e suas contribuições para a ciência até os dias atuais, e, claro, conhecer os primórdios técnicos, classificações e nomenclaturas que ainda utilizamos na clínica. Este tópico tem como objetivo relacionar as tecnologias que existiam à época de suas criações com aquelas que empregamos nos dias atuais. Perceber e entender a necessidade da evolução tecnológica pelas quais as técnicas passaram para chegarem conforme hoje as utilizamos. Ainda, quem sabe, daqui a pouco tempo, você, possa propor melhorias às técnicas atuais! Não faz muito tempo que você estudou estes conteúdos, mas vamos relembrar alguns conceitos e contextos que vão nos ajudar no entendimento da citopatologia clínica. Vamos lá? 2 EVOLUÇÃO DA CITOLOGIA AO LONGO DOS TEMPOS O Ministério da Saúde (2012a) nos traz uma cronologia interessante sobre a evolução da citologia e seus respectivos ganhos para a área da citologia: • 1590: Zaccharias inventou o primeiro microscópio, a partir de uma combinação de lentes que permitia a ampliação de objetos em até dez vezes. • 1665: Robert Hooke, figura 1, descobre as células (cellas) a partir de análises em pedaços de cortiça. Descoberta confirmada por vários cientistas da época, entre eles Malpighi e Grew. 4 FIGURA 1 – ROBERT HOOKE (1635-1703) FONTE: <http://twixar.me/Dmcm>. Acesso em: 23 fev. 2022. • 1674: Leeuwenhoek realizamelhorias no microscópio e consegue um aumento surpreendente de duzentas e setenta vezes. Em conjunto com Fontana, descobriram uma estrutura no interior da célula que Robert Brown chamou de núcleo. • 1838-1839: Matthias Schleiden comprova a existência de células em organismos vegetais e Theodor Schwann comprova a existência de células em organismos humanos – Teoria Celular. • 1858: Rudolf Ludwig Karl Virchow conclui que células dão origem a outras células – “Omnis cellula e cellula” – toda célula é oriunda de outra célula. • 1931: Knoll e Ruska fazem a substituição de raios de luz por feixes de elétrons nos microscópios e obtêm um aumento de quinhentas vezes, revolucionando ainda mais a citologia e suas ciências correlatas. INTERESSANTE Um nome que merece destaque neste contexto sem dúvidas é Robert Hooke (1635-1703), conhecido pelas suas contribuições memoráveis à microscopia – com a criação de um modelo de microscópico formado pela combinação de três lentes em um artefato de madeira, que permitia ajustes de inclinação. Segundo Almeida e Magalhães (2010), possuía ainda um sistema de iluminação revolucionário para a época – uma esfera de vidro com água que era responsável por fazer a recepção da luz advinda de lamparina a azeite, provocando uma concentração luminosa sob a amostra a ser estudada (Figura 2). Vale lembrar que este instrumento permitia a ampliação da imagem em trinta vezes e foi responsável por colocar a microscopia no auge do avanço tecnológico durante o século XVII. 5 FIGURA 2 – MICROSCÓPIO DE ROBERT HOOKE FONTE: <http://twixar.me/Fmcm>. Acesso em: 23 fev. 2022. Almeida e Magalhães (2010) nos trouxeram a informação de que Hooke sempre era dedicado às situações que lhe traziam alguma forma de curiosidade, sejam sobre aves, rochas, insetos, sempre fazendo desenhos criteriosos, que foram reunidas em um livro chamado “Micrographia”, publicado em 1665 pela Royal Society, que se tornou a primeira coletânea de reprodução de observações microscópicas. E o microscópio de hoje? Você conhece? Atualmente existem vários tipos de microscópios. Na figura 3, temos um exemplo de microscópio utilizado em laborató- rios clínicos. FIGURA 3 – MICROSCÓPIO ATUAL FONTE: <http://twixar.me/Lmcm>. Acesso em: 26 fev. 2022. 6 3 INTER-RELAÇÃO ENTRE A EVOLUÇÃO DA CITOLOGIA E SUA APLICAÇÃO CLÍNICA Agora vamos pensar o seguinte: como a descoberta do microscópio e os estudos sistemáticos de plantas e animais nos ajudam nos diagnósticos clínicos? A resposta é simples: possibilita o diagnóstico precoce de inúmeras doenças. Através das análises microscópicas das diversas amostras, que em maioria são de células e tecidos, a citologia aliada à patologia e à histologia permitem a realização de diagnósticos de uma vasta gama de doenças que podem desde prevenir doenças, até possibilitar a confirmação de curas clínicas. ATENÇÃO Citologia: área de estudo da biologia que dedica ao estudo das células – unidade fundamental e estrutural dos seres vivos – o termo tem origem grega: kytos = célula e logos = estudo, portanto, estudo das células. Histologia: área de estudos da biologia e das ciências médicas que dedicada à análise dos tecidos, animais e vegetais. O referido termo também tem origem grega: hystos = tecidos e logos = estudos, estes relacionados aos tecidos. Patologia: área da biologia dedicada ao estudo das alterações celulares, teciduais e bioquímicas que muitas vezes são incompatíveis com a saúde do indivíduo. O nome tem origem grega: pathos = doença e logos = estudo; estudo das doenças. A Teoria Celular proposta pelos cientistas Mathias Schleiden e Theodor Schwann e com contribuições dos trabalhos de Rudolf Virchow possibilitou vários avanços, entre eles a descoberta de que as células apenas podem se originar de outras células, constituindo a base da biologia celular (BRASIL, 2012a). Por não se enquadrarem na Teoria Celular, os vírus são considerados acelulares e, portanto, não são considerados seres vivos pela maioria dos estudiosos da área, mesmo precisando obrigatoriamente do maquinário celular para se reproduzirem. Segundo Molinaro, Caputo e Amendoeira (2010), de maneira genérica, o conjunto de técnicas citológicas utilizadas nas rotinas laboratoriais investigam as células presentes nas amostras obtidas em diversos sítios de interesse clínico, por técnicas que podem utilizar raspados, imprints, secreções, líquidos, punções, aspirados ou mesmo lavados, através de análises microscópicas que geralmente passam por processos de coloração. 7 De acordo com o Ministério da Saúde (2012a), a citopatologia faz estudos e análises de possíveis doenças através de comparações, com auxílio do microscópio, em amostras, que podem ser obtidas de várias áreas do corpo humano – todo o organismo pode ser estudo, desde que empregando as técnicas certas. Podemos dizer ainda que as técnicas empregadas em citopatologia possuem execução fácil e simples, não são invasivas, e ainda possuem vantagens como o baixo custo e ainda um prazo relativamente curso para análise. Iremos nos dedicar com mais atenção às técnicas de obtenção de amostras e de coloração ainda nesta unidade, no Tópico 3. A praticidade da obtenção das amostras citológicas, aliada à forma de obtenção, que geralmente é indolor e ainda poder ser obtidas em consultórios médicos, ambulatórios ou mesmo nos próprios laboratórios de análise, contribuem muito com a adesão do paciente (à aceitação da realização do exame) e são técnicas cobertas pelo Sistema Único de Saúde – SUS – na imensa maioria. Claro que dependendo da natureza e complexidade do local a ser investigado e do diagnóstico a ser feito, fazem-se necessários exames complementares, como os de imagem – ultrassom, tomografias –, mas por si só a citologia já permite realizar diagnósticos diferenciais importantes, como a distinção entre uma tumoração benigna e maligna, de lesões decorrentes de processos inflamatórios ou advindas de variações anatômicas pré-existente, que nesta área sempre devem ser consideradas, tudo com o objetivo de auxiliar o médico assistente a estabelecer um diagnóstico clínico assertivo, possibilitando esquemas terapêuticos efetivos e precoces, quando identificado uma enfermidade, precocemente, provoca um aumento da qualidade de vida do paciente e suas chances de cura, além da sua adesão ao tratamento – grande entrave na clínica na maioria das doenças (BRASIL, 2012a; KOSS; GOMPEL, 2014). Sem sombra de dúvidas, o maior quantitativo de análises citológicas realizadas em um laboratório citopatológico clínico deve-se aos exames citológicos ginecológicos, tema da Unidade 3, porém, várias outras citologias são realizadas, seja para identificar processos inflamatórios nas diversas partes do corpo humano (e animal) ou mesmo para verificar possíveis malignidades em nódulos e cistos, além de possibilitar o acompanhamento da evolução terapêutica nos casos de doenças diagnosticadas. Dentre as citologias consideradas não ginecológicas, foco de estudos mais aprofundados da Unidade 2, podemos citar: as citologias de tireoide e de mama. Nestes estudos, vamos aprender a reconhecer as estruturas fisiológicas e ainda aquelas consideradas patológicas. Devemos sempre buscar situações anormais nos exames citopatológicos. Estas anormalidades podem ser decorrentes de situações reativas, adaptativas ou ainda patológicas. Mas não se preocupe! Vamos aprender a diferenciar cada uma delas na nossa jornada citopatológica. 8 4 IMPACTO DAS ANÁLISES CITOPATOLOGIAS NA SAÚDE POPULACIONAL Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA, 2019), o câncer está entre as quatro principais causas de morte prematura (mortes antes dos 70 anos) no mundo. Este fato está ligado principalmente com o envelhecendo da população mundial e ainda com o aumento da exposição aos fatores de risco. Ainda, segundo este instituto, em 2018, houve 18 milhões de novos casos de câncer no mundo e9,6 milhões de óbitos, e, para o Brasil, somente no triênio 2020-2023, estima-se, para cada ano, 625 mil novos casos, sendo o câncer de pele não melanoma o mais incidente, seguido pelos cânceres de mama e próstata. FIGURA 4 – ESTATÍSTICAS DE CÂNCER FONTE: <http://twixar.me/Wmcm>. Acesso em: 26 fev. 2022. Pulmão Próstata Colorretal Pulmão Mama Colorretal TIPOS DE CÂNCER MAIS COMUNS De acordo com o INCA (2019), podemos ter a dimensão da importância e o impacto dos exames citológicos com a finalidade de diagnóstico ou mesmo de acompanhamento de terapêutica. Atualmente, percebe-se uma queda das taxas de incidência provavelmente devido às campanhas dos programas de rastreamento e prevenção, chamados de “Vigilância do Câncer”, intensificados após a década de 1960. Várias campanhas, inclusive com a utilização de fitas coloridas, conforme aquelas exemplificadas na Figura 5 – “Outubro Rosa” (prevenção ao câncer de mama), “Novembro Azul” (prevenção ao câncer de próstata) – têm contribuído com a diminuição dos casos e buscam maior o engajamento de toda a população para a prevenção e para o diagnóstico precoce, promovendo e facilitando o acesso da população aos serviços de saúde para os respectivos exames preventivos. 9 FIGURA 5 – CORES DE FITA CORRESPONDENTES ÀS CAMPANHAS DE PREVENÇÃO AO CÂNCER CÂNCER DE MAMA CÂNCER DE OVÁRIO CÂNCER DE TESTÍCULO CÂNCER INFANTIL CÂNCER DE CABEÇA E PESCOÇO CÂNCER DE PRÓSTATA CÂNCER DE FÍGADO LINFOMA NÃO HODGKIN LINFOMA HODGKIN CÂNCER DE PELE CÂNCER DE TIREOIDE SARCOMA OU CÂNCER DE OSSOS CÂNCER DE ESTÔMAGO CÂNCER DE PULMÃO CÂNCER DE RIM LEUCEMIA CÂNCER DE CÓLON CÂNCER CERVICAL CÂNCER UTERINO OU ENDOMETRIAL CÂNCER DE PÂNCREAS CÂNCER DE BEXIGA CÂNCER CEREBRAL MIELOMA MÚLTIPLO CÂNCER DE APÊNDICE FONTE: <http://twixar.me/Zmcm>. Acesso em: 26 fev. 2022. 10 Neste tópico, você aprendeu: • Os principais nomes da área da citologia e as principais contribuições de cada um deles. • Robert Hooke foi o responsável pela criação de um microscópio ótico que era capaz de produzir ampliações de até 30 vezes, e através dele, foi possível observar pedaços de cortiça e descobrindo as células. • Schleiden e Schwann foram os responsáveis pelos fundamentos da Teoria Celular, utilizados até os dias atuais. • Rudolf Virchow comprova que toda célula é obrigatoriamente oriunda de outra célula viva. • Existe uma relação direta entre a evolução da citologia e a melhoria das análises e diagnósticos na clínica, pois melhores condições de análises, maior possibilidade e exatidão das análises citológicas, possibilitam a realização de diagnósticos cada vez mais precoces de várias doenças. • Os principais e mais prevalentes tipos de câncer na atualidade. • Entender a importância e os impactos da realização dos exames de citopatologia na vida da população em geral. RESUMO DO TÓPICO 1 11 AUTOATIVIDADE 1 A Teoria Celular possui três postulados principais: I- Os seres vivos são formados por uma ou mais células e pelas formações estruturais que elas produzem. II- As células são as unidades funcionais e morfológicas dos seres vivos. III- Toda célula origina-se de outra célula preexistente. Estes postulados são atribuídos a Theodor Schwann e Matthias Schleiden com contribuições de Rudolf Virchow. Qual alternativa indica o grupo de organismos que não são considerados seres vivos? a) ( ) Vírus. b) ( ) Fungos. c) ( ) Bactérias. d) ( ) Protozoários. 2 (Adaptada de UEMS, 2016) Hoje em dia é muito difundida a ideia de que os seres vivos são formados por células, com exceção apenas dos vírus. Essa ideia, no entanto, surgiu apenas após diversas observações e posterior formulação da chamada Teoria Celular. Qual das afirmativas a seguir não está de acordo com os postulados da Teoria Celular, que foi baseada nos estudos dos pesquisadores Schleiden (1838) e Schwann (1939)? FONTE: <https://exercicios.mundoeducacao.uol.com.br/ exercicios-biologia/exercicios-sobre-teoria-celular.htm>. Acesso em: 30 maio 2022. ( ) Os seres vivos, animais, vegetais ou protozoários, são compostos sem exceção por células e seus produtos celulares. ( ) As células podem ser formadas através da divisão de outra célula, dentre outras formas. ( ) O funcionamento de um organismo como um todo não depende do resultado do funcionamento das unidades celulares, exceto os vírus. ( ) O funcionamento de um organismo como unidade é o resultado da soma das atividades e interações das unidades celulares. 12 3 A Citopalogia é uma das áreas de atuação da patologia que realiza estudos sobre as alterações celulares provocadas por patologias, responsáveis ou não pelo processo de adoecimento em organismos vivos. Sobre as amostras citopatológicas, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Amostras obtidas de nódulos e cistos. b) ( ) Amostras obtidas através de aspirados mamários. c) ( ) Amostras obtidas de secreções e/ou de lavados do trato respiratório. d) ( ) Todas as alternativas estão corretas. 4 Grandes avanços na área da pesquisa clínica foram obtidos após a descoberta do microscópio ótico e que foram intensificadas após a criação dos microscópios de feixes de elétrons, introduzidos por Knoll e Ruska no início da década de 1930. Disserte sobre os avanços na área da citologia após a descoberta do microscópio. 5 Atualmente, a expectativa de vida da população mundial vem crescendo e junto com ela a maior exposição dessa população a fatores considerados como de risco para o desenvolvimento de cânceres. Fato este que pode ser comprovado em várias pesquisas realizadas por instituições conceituadas na área que demonstram o número crescentes de novos casos e de óbitos por esta que é a quarta causa de morte do mundo. Como as análises citopatológicas podem auxiliar na diminuição do número de óbitos por câncer? Disserte sobre essa problemática. 13 CARACTERIZAÇÕES CELULARES E TECIDUAIS EM CITOPATOLOGIA 1 INTRODUÇÃO UNIDADE 1 TÓPICO 2 - Acadêmico, neste tópico, nós vamos falar sobre as características dos tipos celulares nos principais tecidos de interesse em citopatologia. Vamos recordar as morfologias celulares e a cito-histologia dessas células, tecidos, e ainda seus respectivos comportamentos frente às principais técnicas de coloração. Este tópico tem fundamental importância porque é nele que vamos recordar as formas celulares e suas arquiteturas, o que irá nos propiciar as caracterizações dos tipos celulares provocando uma padronização do que é considerado “normal” ou “fisiológico” nos exames celulares. Vamos relembrar algumas técnicas de coloração e ainda como o mesmo tecido se comporta frente às colorações diferentes, pois a eleição da melhor coloração vai depender principalmente do objetivo da análise. Então, vamos começar a buscar as caracterizações celulares? Vamos começar a nos habituar as colorações citológicas? Vamos juntos! 2 TIPOS CELULARES Segundo Lopes e Ho (2013), os seres vivos estão divididos em cinco grandes reinos, conforme a figura 6: Monera: são os seres classificados como procariontes – bactérias e cianobactérias; Protista: seres unicelulares eucariontes; Plantae: seres multicelulares eucariontes que fazem fotossíntese; Fungi: seres eucariontes multicelulares heterótrofos que adquirem sua nutrição por absorção e Animalia: seres eucariontes multicelulares heterótrofos. Vale ressaltar que existem classificações mais atuais, porém, esta ainda tem grande uso no ensino de ciências e Biologia. 14 FIGURA 6 – GRANDES REINOS FONTE: <http://twixar.me/hmcm>. Acesso em: 26 fev. 2022. NÚMERO ESTIMADO DE ESPÉCIES VIVAS CONHECIDAS INSETOS 740,00 PLANTAS 290,000 ALGAS 23,000 PROTOZOÁRIOS 30,000 FUNGOS 66,000 OUTROS ANIMAIS 280,000 MONERA (BACTÉRIAS E FORMAS SEMELHANTES) 4,600 VÍRUS 1,100 As células de todos os seres dos cinco reinos (Figura 6) apresentam diferenças entre si, mas todas praticamente desempenham os mesmos papéis: funçõesestruturais, metabólicas e reprodutivas. Existe um grupo, porém, que são seres acelulares, conforme já dito no tópico anterior, que fogem à Teoria Celular, o tão popular grupo do Vírus, que não se enquadra em nenhum dos grupos mencionados. Eles são organismos dotados de material genético revestido por uma cápsula proteica, mas que necessitam de uma célula hospedeira para “viver” e então se reproduzirem, devido a este fato, são chamados de parasitas intracelulares obrigatórios (LIMA, 2001; LOPES; HO, 2013). 15 IMPORTANTE Segundo Montanari (2016) e Alberts (2017), existem dois tipos celulares: eucariontes e procariontes. As primeiras são tipos celulares que possuem envoltório nuclear chamada de carioteca, com formação de um núcleo verdadeiro, comuns em animais e plantas, conforme demonstrado na Figura 7. As células procariontes são aquelas que não possuem envoltório nuclear delimitando o seu material genético, caso das bactérias. FIGURA 7 – CÉLULAS FONTE: <http://twixar.me/vmcm>. Acesso em: 23 fev. 2022. 16 FIGURA 8 – EUCARIOTOS: DESENHO ESQUEMÁTICO DAS PRINCIPAIS PARTES FONTE: <http://twixar.me/4mcm>. Acesso em: 24 fev. 2022. Mitocondria Centrossoma Núcleo Retículo endoplasmático Aparelho de Golgi Ribossomo Lisossomos Nucléolo Núcleo Retículo endoplasmático Aparelho de Golgi Centrossoma Lisossomos Ribossomo Mitocondria Através da Figura 8 podemos entender a definição de células eucarióticas. Percebe-se o DNA em um local individualizado do citoplasma, formado por um envoltório de dupla membrana, o núcleo. Outra característica, segundo este mesmo autor, que nos permite diferenciar eucariotos de procariotos, são as dimensões celulares. Células eucarióticas, segundo este mesmo autor, são em média dez vezes maiores que as procarióticas quando consideramos as dimensões lineares e mil vezes maiores quando analisamos o aspecto volume! Incrível, não é mesmo?! NOTA Vale lembrar ainda as diferenças entre as células animais e vegetais, como a presença de parede celular, cloroplastos e vacúolo, conforme a Figura 9, e ainda as diferenças existentes entre as células fúngicas e bacterianas (Figuras 10 e 11). Na Figura 12 podemos ver a imagem de células vegetais vistas no microscópico. 17 FIGURA 9 – CÉLULA VEGETAL X CÉLULA ANIMAL FONTE: Adaptado de <http://twixar.me/lmcm>. Acesso em: 24 fev. 2022. Microtúbulos Centríolos Cloroplasto Amiloplasto Parede celular Ribossomos Lisossomos Núcleo Nucléolo Mitocôndria Retículo endoplasmático bruto Retículo endoplasmático liso Vacúolo Peroxissomo Aparelho de Golgi Membrana Celular Citoplasma CÉLULA VEGETAL CÉLULA ANIMAL FIGURA 10 – CÉLULA BACTERIANA FONTE: <http://twixar.me/bmcm>. Acesso em: 23 fev. 2022. Ribossomos Mesossoma Inclusão Nucleóide (DNA) Plasmídeo Flagelo Citoplasma Membrana de plasma Parede celular Cápsula Pilus CÉLULA DE BACTÉRIAS 18 FIGURA 11 – CÉLULA FÚNGICA CÉLULA FUNGAL Vesículas Septo Aparelho de Golgi Ribossomos Mitocôndria Peroxissomo Citoplasma Vacúolo Cicatriz de broto Retículo endoplasmático Parede celular Membrana celular Nucléolo Núcleo Lisossomo FONTE: <http://twixar.me/9mcm>. Acesso em: 23 fev. 2022. FIGURA 12 – CÉLULA VEGETAL VISTA EM MICROSCÓPIO FONTE: <https://stock.adobe.com/br/search?k=c%C3%A9lula+vegetal&search_type=default-view- results&asset_id=310774697>. Acesso em: 26 fev. 2022. 19 Segundo Molinaro, Caputo e Amendoeira (2010) e o Ministério da Saúde (2012a), podemos dizer que a citopatologia (e as técnicas citológicas) realizam o estudo das células de maneira individual, sejam elas obtidas através de descamações, expelidas ou ainda quando retiradas de partes do corpo de interesse com finalidade de diagnóstico clínico ou não. Neste contexto, vale salientar novamente que os tecidos do organismo possuem características próprias e isso nos faz ter ainda mais cuidado no momento da coleta dos materiais para análise. Dessa forma, estudaremos mais a frente as várias metodologias para coleta dos variados tipos materiais. Talvez o exame popularmente conhecido como Papanicolau – exame colpocitológico – seja o citológico mais conhecido, pois tem sido muito estimulado e veiculado em mídias de massa como indispensável e fundamental para o rastreamento e diagnóstico precoce de câncer de colo de útero. 3 CÉLULAS E TECIDOS DE INTERESSE EM CITOPATOLOGIA Para Junqueira e Carneiro (2018), existem basicamente quatro tipos de tecidos nos organismos humanos: epitelial – Figura 13, conjuntivo – Figura 14, muscular - Figura 15, e nervoso – Figura 16. Para serem enquadrados nestas classificações, vários critérios são utilizados principalmente a localização e função que eles estão desempenhando. Os tecidos epiteliais são formados por células responsáveis pelo revestimento das superfícies e geralmente apresentam outras funções, entre elas a secretora e a absortiva. O tecido conjuntivo possui grande quantidade de matriz extracelular produzida pelas próprias células. O muscular possui células mais longas e são responsáveis pela contração muscular; já o nervoso é responsável pelos impulsos nervosos (MONTANARI, 2016; JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2018). 20 FIGURA 13 – CÉLULAS DO TECIDO EPITELIAL CÉLULA EPITELIAL Epitélio Escamoso Simples • Linhas de Vasos Sanguíneos e Sacos Alveolares • Permite Troca de Nutrientes, Resíduos e Gases Núcleo Membrana Basal Célula Epitélio Colunar Ciliado • Áreas Sensíveis - Traqueia, Brônquios e Útero • Absorção e Secreção Epitélio Cuboidal Simples • Alinha Túbulos Renais e Glândulas • Secretam e Reabsorvem Água e Pequenas Moléculas Epitélio Colummar Simples (Liso) • Alinha a maioria dos órgãos digestivos • Absorve Nutrientes e Produz Muco FONTE: <http://twixar.me/Jmcm>. Acesso em: 23 fev. 2022. 21 FIGURA 14 – CÉLULAS TECIDO CONJUNTIVO FONTE: <http://twixar.me/ymcm>. Acesso em: 23 fev. 2022. Matriz extracelular Célula mesenquimal Fibras de colágeno Fibras elásticas Vaso sanguíneo Macrófago Substância fundamental Colágeno Adipócito (célula de gordura) FIGURA 15 – CÉLULAS DO TECIDO MUSCULAR FONTE: <http://twixar.me/7dcm>. Acesso em: 23 fev. 2022. TECIDO MUSCULAR LISO TECIDO MUSCULAR ESTRIADO (ESQUELÉTICO) TECIDO MUSCULAR CARDIACO MEMBRANA CELULAR (SARCOLEMA) CAPILARES ESTRIAÇÕES TRANSVERSAISMIOFIBRILASMIOFIBRILAS NÚCLEO REDONDO CITOPLASMA ESTRIA CLARA (FILAMENTOS DE ACTINA) ESTRIA ESCURA (FILAMENTO DE MIOSINA) DISCO INTERCALADO NÚCLEO PLANO SOB A MEMBRANA CÉLULAR NÚCLEO DE TECIDO CONJUNTIVO NÚCLEO CENTRAL 22 FIGURA16– CÉLULAS DO TECIDO NERVOSO FONTE: <http://twixar.me/gmcm>. Acesso em: 23 fev. 2022. DICAS Aproveitando o tema sobre as funções dos tecidos, você conhece o filme chamado “O óleo de Lorenzo?” É um filme de 1992, mas que traz um tema muito atual: a busca dos pais de um menino que após os seis anos de idade apresentou uma doença rara, chamada atualmente de Adrenoleucodistrofia (ALD). Esta é uma doença que provoca a degeneração precoce das células do tecido nervoso. Se você já assistiu, vale a pena assistir novamente, agora com um novo olhar. Para você que não assistiu, curta essa história emocionante! Outro ponto muito importante é entendermos que as células e os tecidos não estão isolados e nem muito menos independentes do restante do organismo. Eles estão estreitamente correlacionados através de junções bastante específicas. Falando de modo genérico, são estas associações que permitem a formação dos órgãos e em última análise, dos sistemas do organismo humano, figura 16. A única exceção a ser considerada é o sistema nervoso, que praticamente é formado apenas por células nervosas, e ainda as células livres nos sistemas linfático e sanguíneo (MONTANARI, 2016; JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2018). 23 FIGURA 16 – TECIDOS DO CORPO HUMANO TIPOS DE TECIDOS TECIDO MUSCULAR TECIDO NERVOSO TECIDO EPITELIAL TECIDO CONJUNTIVO Músculo cardíaco Músculo esquelético MúsculoLiso Cérebro Medula espinhal Nervos Células musculares Células nervosas Revestimento do trato gastrointestinal e outros órgãos ocos Tendão Osso Colunar Ciliado Colunar Simples Cuboidal Simples Simples Escamoso Gordura e outros tecidos de preenchimento macioSuperfície da Pele Membrana de Base Células de gordura FONTE: <http://twixar.me/zmcm>. Acesso em: 23 fev. 2022. Os tecidos epiteliais merecem atenção em citopatologia devido à grande recorrência nas amostras citopatológicas, sejam em raspados e imprints cervicovaginais, biópsias de bexiga, pulmão, tireoide, entre várias outras. Assim, é importante “treinar os olhos” para conseguir distinguir os vários tipos de epitélios e as possíveis alterações por ventura existentes nas amostras analisadas. Desta forma, ao longo desta unidade e das próximas, serão apresentadas fotos cito-histológicas de células e tecidos humanos para estudarmos as particularidades de cada um dos tecidos, possibilitando a visualização das principais particularidades de cada um deles. O epitélio pode ser caracterizado pela justaposição de suas células e pela pouca presença de matriz extracelular. Sua principal função é o de revestimento, protegendo o corpo e os órgãos. Este tecido ainda faz absorção (intestino através das microvilosidades), excreção (túbulos renais) e ainda a excreção (glândulas) (MONTANARI, 2016; JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2018). 24 As células possuem formas e tamanhos diferentes nos diversos tecidos epiteliais, a depender do local onde estão (aqui vamos nos ater a apenas alguns). Se pensarmos na arquitetura das células, elas podem ser basicamente de dois tipos: cúbicas, quando a largura, comprimento e altura são iguais; e, quando a largura e o comprimento da célula são maiores que sua altura elas são classificadas como pavimentosas (Figura 17). FIGURA 17 – TIPOS DE TECIDO EPITELIAL TECIDOS EPITELIAIS Cuboidal simples Colunar simples Escamoso simples Colunar estratificado Escamoso estratificado (não queratinizado) Escamoso estratificado (queratinizado) Cuboidal estratificado Pseudoestratificado colunar Transitório FONTE: <http://twixar.me/5mcm>. Acesso em: 24 fev. 2022. Na Figura 18 podemos ver células epiteliais pavimentosas na porção superior. 25 FIGURA 18 – TECIDO EPITELIAL PAVIMENTOSO FONTE: <https://stock.adobe.com/br/search?k=histologia&load_type=tagged+keyword&prev_ url=detail&search_type=keyword-badge-details-panel&asset_id=184601525>. Acesso em: 26 fev. 2022. Na Figura 19, temos a presença de tecido epitelial em corte histológico de intestino delgado. Observe a disposição das células e a justaposição entre elas, característica importante deste tecido. FIGURA 19 – TECIDO EPITELIAL DO INTESTINO DELGADO FONTE: <http://twixar.me/Smcm>. Acesso em: 25 fev. 2020. Existem algumas imagens cito-histológicas, que estudaremos a seguir, que são importantes nas investigações de alterações celulares, e também muito requeridas na parte de citopatologia não ginecológica divido a sua grande incidência de cânceres, conforme já citado no Tópico 1, através das informações estatísticas de INCA (2019). Vale lembrar que as imagens cito-histológicas ginecológicas serão estudadas com riqueza de detalhes nas Unidades 2 e 3 deste livro didático. São elas: esôfago (Figura 20), traqueia (figura 21), intestino delgado (Figura 22), bexiga (Figura 23) e tireoide (Figura 24). 26 FIGURA 20 – EPITÉLIO DO ESÔFAGO FONTE: <http://twixar.me/Xmcm>. Acesso em: 26 fev. 2022. Na Figura 20, nós temos um corte cito-histológico de esôfago. Nele, temos o tubo digestivo formado por quatro camadas: a mucosa mais externamente, seguida pela submucosa. Na porção mais interna, o esôfago é envolvido por uma camada de tecido conjuntivo – adventícia, na porção inicial temos as glândulas esofágicas (tipo mucoso) presentes na camada submucosa e logo após geralmente podemos encontrar a musculatura da mucosa. Vale ressaltar que no corpo humano apenas o esôfago e o duodeno no tubo digestivo possuem glândulas na camada submucosa. FIGURA 21 – TRAQUEIA FONTE: <http://twixar.me/jmcm>. Acesso em: 26 fev. 2022. 27 Na Figura 21 podemos ver um corte histológico de traqueia. Nela, podemos identificar o epitélio pseudoestratificado ciliado no lado esquerdo, ponta da seta (►), e ainda a presença de cartilagem hialina na porção central indicada pela seta (↑). FIGURA 22 – INTESTINO DELGADO FONTE: <http://twixar.me/VGcm>. Acesso em: 24 fev. 2022. FIGURA 23 – EPITÉLIO DE TRANSIÇÃO DA BEXIGA URINÁRIA FONTE: <http://twixar.me/7Gcm>. Acesso em: 26 fev. 2022. 28 Na imagem anterior percebemos um epitélio especial, o epitélio de transição, que está apoiado por uma lâmina própria (uma fina camada de tecido conjuntivo). Essa imagem foi corada com hematoxilina e eosina (HE). Note a presença dos núcleos das células do epitélio e as mudanças de suas morfologias, caracterizando assim o epitélio de transição. A glândula tireoide, apresentada na Figura 24, é formada por vários agrupamentos celulares que formam milhares de estruturas arredondadas, chamadas de folículos tireoidianos. Já as paratireoides, incrustadas na tireoide possuem semelhança com os órgãos linfoides, como o baço, porção inferior da imagem. FIGURA 24 – TIREOIDE FONTE: <http://twixar.me/NGcm>. Acesso em: 26 fev. 2022 Na Figura 22, nós podemos ver do lado direito as células que formam essa glândula endócrina folicular. Observe as células apontadas pela seta (↑). Elas são as responsáveis pela produção de coloide, apontado pela ponta de seta (▼). Estas unidades secretoras são células epiteliais cúbicas, simples (note o formato de seus núcleos – bem arredondados. Vale mencionar que a tireoide é formada por vários folículos. 29 INTERESSANTE Você sabia o porquê de a maioria dos cortes cito-histológicos usarem a coloração chamada de hematoxilina eosina (HE)? Não? Então vamos saber um pouquinho sobre ela. Neste tipo de coloração, os núcleos que possuem característica ácida – principalmente devido à presença neles dos ácidos nucleicos – tem grande afinidade pelos corantes classificados como básicos, como é o caso da hematoxilina (o H da sigla “HE”). As estruturas que apresentam esta característica química são chamadas em cito-histologia de estruturas basófilas e, coram-se de roxo. O citoplasma das células, nesta coloração, apresenta-se corado de rosa ou até mesmo alaranjado, devido à afinidade com a eosina (“E” da sigla “HE”), que é um corante prioritariamente ácido. Desta forma, os constituintes que são acidófilos vão se apresentar em cor de rosa. Aliados, estes dois corantes oferecem às lâminas de cito-histologia excelentes contrastes, o que facilita muito os estudos e as análises pertinentes a elas. Tendo, portanto, grande utilização nas rotinas laboratoriais. IMPORTANTE Uma dica valiosa: quando queremos descobrir o tipo de célula presente no epitélio, olhamos para o seu núcleo, ele geralmente reflete o tipo da célula. Núcleos mais alongados, sugerem tecidos colunares; núcleos mais arredondados, células cúbicas. E aí, depois de todo este estudo que fizemos para podemos reconhecer os perfis “normais” das células, vocês podem estar se perguntando o porquê de estudar todas estas características? Por que é preciso saber as características de núcleos e citoplasmas em tecidos sadios? Para que relembrar tudo isso de cito-histologia? Para que você seja capaz de identificar alterações celulares em situações inflamatórias ou ainda em diagnósticos envolvendo a malignidade celular. Várias características consideradas “normais” são perdidas nestes casos. Por isso, todo esse esforço em relembrar a citologia normal dos principais tipos celulares e teciduais de interesse na Citopatologia, já trazendo a outra fundamental importância, que veremos mais detalhadamente no Tópico 3, as técnicas de coleta e de coloração para diagnósticos seguros. 30 Caríssimo acadêmico! Você viu a importância de identificarmos as arquiteturasconsideradas normais das células em seus respectivos tecidos? Viram a importância das colorações? Em Citopatologia, fazemos sempre comparações entre as células e os tecidos sadios com as amostras que estamos analisando. É o reconhecimento das estruturas “diferentes”, com auxílio das as colorações diferenciais, que nos conduz ao diagnóstico da patologia que por ventura exista na amostra em estudo. Mas não se preocupe! Estamos apenas no início da nossa jornada pelo mundo da citopatologia clínica. Aos poucos, vamos nos habituando a ver as diferenças e nos inteirando das técnicas de coleta, de conservação e das principais colorações utilizadas em laboratórios citológicos. Inclusive, esse é o tema do nosso próximo tópico! Aguardamos você! 31 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu: • Existem cinco grandes reinos: monera, protista, plantae, fungi e animalia. • As principais funções das células são: estruturais, metabólicas e reprodutivas. • Os vírus são seres acelulares, portanto, não vivos, e são classificados como parasitas intracelulares obrigatórios. • A diferença entre as células eucarióticas e as procarióticas é a presença de membrana de envoltório celular – carioteca, no primeiro tipo celular. • As células (e tecidos) utilizados nas análises citológicas podem ser obtidas por descamação, expelidas ou ainda retiradas de partes do corpo de interesse clínico. • Os tecidos que formam o organismo humano são: epitelial, conjuntivo, muscular e nervoso. • A hematoxilina e eosina (um dos principais corantes utilizados em citologia, conhecido como HE) cora o núcleo com colorações arroxeadas e citoplasma com coloração rósea ou alaranjada. 32 AUTOATIVIDADE 1 O tecido epitelial é um dos quatro principais tipos de tecidos que formam o organismo humano. Entre suas principais características podemos mencionar: presença de células justapostas e ainda pouca matriz extracelular. Sobre a arquitetura celular destes tecidos passíveis de visualização nos principais tipos de colorações empregadas em citopatologia, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Existe entre o tecido epitelial e o conjuntivo, este que sempre acompanha o epitelial dando a eles sustentação principalmente, a presença de uma lâmina basal visível. b) ( ) Existem apenas dois tipos de tecido epitelial: o tecido epitelial de revestimento pavimentoso, comum no trato genital feminino e o tecido epitelial conjuntivo que oferece sustentação ao tecido conjuntivo. c) ( ) O tecido epitelial prismático, também chamado de colunar ou cilíndrico apresenta sempre núcleos celulares arredondados e com pouca coloração independente da coloração utilizada. d) ( ) O tecido epitelial sempre apresenta várias camadas celulares, portanto, pode ser sempre classificado como tecido epitelial estratificado. 2 A mucosa intestinal é formada por uma série de projeções que formam pregas e vilosidades (microvilosidades) que aumenta a sua superfície de contato e consequentemente possibilita a maior absorção dos nutrientes. Este epitélio possui grandes propriedades absortivas e ainda células produtoras de muco que protege e lubrifica o intestino. Um especialista em citopatologia, ao analisar uma lâmina de intestino com microvilosidades, espera visualizar qual(is) tipo(s) celular(es)? a) ( ) Células com alta produção de matriz extracelular. b) ( ) Células pertencentes ao tecido epitelial de revestimento prismático-cúbico. c) ( ) Células epiteliais colunares e células caliciformes. d) ( ) Somente células do tecido conjuntivo e do sistema muscular. 3 Ao analisar uma lâmina de citologia, um aluno do curso de farmácia percebeu que as coleções celulares visualizadas apresentavam formato cúbico, estavam muito próximas umas das outras, com pouca matriz extracelular e existia a presença de células produtoras de muco. Diante desta caracterização, sobre o tipo do tecido em análise pelo acadêmico, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Tecido conjuntivo propriamente dito. b) ( ) Tecido epitelial cúbico com células caliciformes. c) ( ) Tecido muscular estriado esquelético. d) ( ) Tecido nervoso. 33 4 A realização de análises citológicas sempre está relacionada com comparações entre as células e os tecidos sadios com as amostras em análise. Reconhecer as estruturas “diferentes”, com auxílio das colorações diferenciais e principalmente das arquiteturas celulares permitem o diagnóstico da patologia que por ventura exista na amostra em estudo. Neste contexto, disserte sobre a importância de saber reconhecer a arquitetura fisiológica dos tecidos humanos para realizar um diagnóstico clínico confiável e com segurança. 5 A chamada “Doença da inclusão das microvilosidades ou atrofia das microvilosidades” é uma patologia que ocorre devido a um distúrbio congênito que afeta as células epiteliais do intestino, e como principal sintoma, tem-se diarreia aquosa abundante e persistente, que se apresenta ainda no período neonatal. Os primeiros relatos desta doença aconteceram em 1978 e sua principal forma de diagnóstico é através de biópsia intestinal que indica uma atrofia das microvilosidades e ausência de processos inflamatórios. De acordo com seus conhecimentos sobre os constituintes celulares e a arquitetura intestinal, disserte sobre a possível aparência de uma lâmina cito-histológica desta patologia. 34 35 TÓPICO 3 - TÉCNICAS E MATERIAIS DE COLETA, CONSERVAÇÃO E COLORAÇÃO DE AMOSTRAS CITOLÓGICAS 1 INTRODUÇÃO UNIDADE 1 Caro acadêmico, neste Tópico 3, abordaremos as principais técnicas de coleta de materiais citopatológicos e ainda os melhores métodos de conservação e de coloração. Estes são requisitos fundamentais para uma análise satisfatória e assertiva. O primeiro esclarecimento a ser feito neste tópico é que a citologia, ou ainda a citopatologia, é o ramo das ciências médicas e biológicas pertencente ao grupo da histotecnologia que possui imensa relevância clínica, pois é a partir dela que é possível realizar o diagnóstico de uma grande gama de doenças que podem acometer os seres humanos e também os animais. Citopatologia é a ciência que realiza os estudos, e posteriormente o diagnóstico, através de modificações celulares – tanto nucleares quanto citoplasmáticas. Seu desenvolvimento ocorreu principalmente devido aos inúmeros avanços tecnológicos, como a invenção do microscópio por Zaccharias até a descoberta e desenvolvimento de inúmeras técnicas de coloração que permitiram melhores estudos citológicos por propiciarem melhores visualizações das estruturas celulares. É inegável que técnicas complementares podem ser necessárias para fechar um diagnóstico clínico como ultrassons, tomografias e ainda a biologia molecular. Outro fato que deve ser considerado e que nem sempre é possível obter amostras clínicas de qualidade para as análises e contra análises (quando necessárias), por diversos fatores. Dentre elas, o principal entrave, talvez, sejam os sítios de investigação de difícil acesso. Devemos considerar ainda que as diversas enfermidades (ou doenças) que acometem os tecidos humanos podem ter diversos agentes etiológicos responsáveis: fungos, vírus, bactérias, protozoários e até mesmo diversos corpos estranhos, e cada um deles exige uma especificidade para seu respectivo diagnóstico. Então, vamos estudar agora as várias técnicas de coleta, como devemos conservar cada uma das amostras, respeitando sempre suas características, e ainda como utilizar as técnicas de coloração como auxílio nos diagnósticos clínicos. Vamos lá?! 36 2 TÉCNICAS E MATERIAIS DE COLETA O primeiro relato na literatura sobre a utilização das técnicas citológicas para fins de diagnóstico é datado de 1843, por Sir Julius Vogel, que realizou a identificação de células portadoras de malignidade em secreções drenadas de fistulas de um tumor mandibular. Após ele, foi a vez de Henri Lebert, em 1845, registrar seus achados morfológicos de células tumorais obtidas por aspiradostumorais. Em 1853, o pesquisador Donaldson descreveu a citologia de células tumorais, obtidas de cortes de superfícies tumorais, quando explicava a aplicação prática do microscópio à época. Como outros nomes contemporâneos, com a utilização de técnicas citopatológicas, temos o professor Lionel Beale, em analises de escarro, e o Doutor Lambl de Praga, em amostras de urina, ambos com descrições de achados celulares com características de malignidade (BRASIL, 2012a; INCA, 2019). Segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a), foi apenas após os trabalhos do Dr. George Papanicolau, em 1917, que as análises citológicas voltaram ao auge na comunidade científica. Talvez tenham sido necessários avanços relacionados às colorações e às técnicas cito-histológicas para que as análises citológicas voltassem a ser utilizadas pelos pesquisadores. DICAS Quer conhecer mais sobre a história do Dr. George Papanicolaou? Veja a leitura complementar ao final desta unidade e ainda acesse o site do Museu Histórico da Faculdade de Medicina de São Paulo – FMUSP – http:// www.pesquisadores.museu.fm.usp.br/index.php/papanicolau-george- n;isad).Vale muito a pena conhecer mais da história deste médico e pesquisador que viveu muito à frente de seu tempo. Boa leitura! Dr. Papanicolaou foi o responsável pela criação da metodologia chamada de citologia esfoliativa para diagnóstico, sobretudo, precoce, como forma de diagnosticar o câncer cervical. Para entender a técnica, faz-se necessário estudarmos os tipos de descamação celular existentes, que, por sua vez, pode ser de dois tipos. A primeira é espontânea, em que temos como exemplo a urina e o escarro, e a segunda, o método artificial, que é aquele que conta com a utilização de algum tipo de objeto ou instrumento para a obtenção da amostra citológica (INCA, 2019). A citologia esfoliativa é uma técnica muito empregada para estudos celulares com alterações displásicas – células que apresentam alterações em sua fisiologia e que na maioria das vezes apresentam crescimento anômalo –, mas também empregada primordialmente como forma de identificar processos inflamatórios e fisiológicos, 37 causados por microrganismos nas diversas partes do organismo humano. Deve-se considerar também que nesta modalidade de coleta vários tipos celulares podem ser identificados – o que reforça ainda mais a necessidade de reconhecer a maioria deles – como as células pertencentes aos tecidos locais e circunvizinhos, células sanguíneas (advindas de microlesões que ocorrem no momento da coleta ou ainda devido a processos inflamatórios já estabelecidos no sítio de coleta) e células do sistema de defesa (sistema imunológico) principalmente leucócitos (BRASIL, 2012a). Ainda, para o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a), as vantagens desta técnica são várias: simples execução, rápida amostragem, possibilidade de obter-se mais de uma amostra relativa ao mesmo sítio, caso desejado, ou ainda quando solicitado pelo médico assistente, permite excelente sensibilidade para diagnóstico, e principalmente, baixo custo. A citologia preparada em meio líquido vem crescendo nas últimas décadas, principalmente com o advento da maior sensibilidade das análises citológicas. Esta me- todologia permite preparar as lâminas de análise com menores quantidades de mate- riais sobrepostos, além de propiciar a realização de testes moleculares, principalmente aqueles destinados à identificação do vírus do HPV. Falaremos detalhadamente sobre esta nova tecnologia citológica em tópicos especiais na Unidade 3. 2.1 COLETA DE MATERIAL E CONSERVAÇÃO Acadêmico, até aqui, no percurso de nossos estudos, vimos falando sobre esfregaços, raspados e aspirados, mas ainda não tínhamos detalhado cada uma das técnicas. É o que vamos fazer agora. Vamos estudar cada técnica com o máximo de detalhes possíveis. Assim como qualquer técnica de diagnóstico possui alguns inconvenientes ou limitações, como já dito anteriormente, com as técnicas citológicas não é diferente. Podemos citar: tempo relativamente longo para preparo e devidas interpretações, limitação da determinação da extensão das lesões nos casos em que existem, dentre outras. Temos que ter sempre em mente que os principais objetivos dos exames citopatológicos são: I - confirmação das suspeitas clínicas; II - identificar doenças sem sintomatologia clínica (diagnósticos precoces, como no Papanicolau) e, III - acompanhamento da terapêutica em tratamento farmacológico ou não (BRASIL, 2012ª; BRASIL, 2012b). Devemos ter consciência que as amostras citológicas podem ter variadas origens. Didaticamente, costuma-se separar as amostras em: citopatológicas não ginecológicas e amostras ginecológicas, que vamos estudar mais detalhadamente na Unidade 3. Além dos vários possíveis sítios de coleta, temos variadas técnicas e preparações, que ao final, tem o mesmo objetivo: analisar a existência de possíveis alterações celulares. 38 Para Molinaro, Caputo e Amendoeira (2010), genericamente, as amostras podem ser classificadas de três formas: líquidas, em grande parte oriundas de cavidades corpóreas: como pleura, cápsulas articulares, peritônio, líquor etc., além da urina; amostras pastosas, advindas de punções ou drenagens e ainda, os esfregaços, comumente obtidos de Colpocitologia. Ainda segundo esses autores, pode-se relacionar a origem da amostra ao método de coleta, e esta, à classificação amostral, conforme exposto no Quadro 1. QUADRO 1 – CLASSIFICAÇÃO DAS AMOSTRAS E MÉTODOS DE COLETA EM CITOPATOLOGIA Classificação da amostra Método de coleta Origem da amostra Distensão celular (esfregaço) Raspagem swab ou espátula (Ayres) Colpocitologia Olhos Lavado brônquico Imprint ou decalque Lesões cutâneas Biópsias Peças cirúrgicas Punção aspirativa Sangue Lavado brônquio Líquor espinhal Amostras pastosas Expectoração Escarro Punção ou drenagem Abscessos Massas necróticas Amostras líquidas Espontânea ou por cateter Urina Escovação Líquido sinovial Escovação ou lavado Líquido peritoneal ou ascítico Punção Líquido pleural Líquido peritoneal ou ascítico Líquido pericárdio Lavado brônquio alveolar Lavado vesical Líquido estomacal Lavado brônquico Líquido sinovial FONTE: Adaptado de <https://www.epsjv.fiocruz.br/sites/default/files/capitulo_4_vol2.pdf>. Acesso em: 5 jan. 2022 39 2.1.1 Escovados e raspados Segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012ª; BRASIL, 2012b; BRASIL, 2012c), os escovados e raspados são materiais obtidos através da esfoliação das superfícies de interesse clínico, por intermédio de instrumentos específicos para esta finalidade. São empregados atualmente “escovinhas” (Figura 25) e espátulas de Ayres, conforme a Figura 26. FIGURA 25 – ESCOVA FONTE: <http://twixar.me/cGcm>. Acesso em: 26 fev. 2022 FIGURA 26 – ESPÁTULA DE AYRES FONTE: <http://twixar.me/sGcm>. Acesso em: 26 fev. 2022. 40 Outro instrumento muito utilizado nas coletas de amostras citopatológicas, Papanicolaou é o espéculo, ou o popular bico de pato, chamado assim devido ao seu formato que se assemelha ao formato do bico deste animal (Figura 27). Ele é utilizado para afastar as paredes da vagina, facilitando a visualização e realização do exame. FIGURA 27 – ESPÉCULO OU BICO DE PATO FONTE: <http://twixar.me/MGcm>. Acesso em: 26 fev. 2022 Para o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012ª; BRASIL, 2012b; BRASIL, 2012c) e Molinaro, Caputo e Amendoeira (2010), os raspados podem ser obtidos de vários sítios – pele, boca, cavidades etc. A recomendação é de não realizar a higiene do local de coleta nem fazer a utilização de medicações tópicas, pois estas práticas prejudicam a coleta das amostras, podendo comprometer sua análise e, consequentemente, o diagnóstico. A depender das dimensões da área de coleta, realiza-se, geralmente, até três raspagens – coleta tríplice –, da maneira mais delicada possível para evitar microlesões e prováveis sangramentos, o que poderia, também, comprometer a amostra. Os escovados podemser obtidos com o auxílio de endoscópicos, que facilitam a visualização de possíveis lesões, sendo que podem ser de diversos sítios, como brônquico, intestinal e até mesmo gástricos, e as amostras obtidas analisadas através de esfregaços ou de cell blocks – bloco celular. A técnica de cell blocks é um procedimento que combina técnicas cito histopatológicas e tem como principal indicação os casos em que a coleta oferece baixas contagens celulares. Ela permite armazenar todo sedimento celular obtido na amostragem, pelo método de centrifugação, seja esta líquida ou pastosa, possibilitando análises posteriores, fato crucial nos casos em que existem indícios de tumores pouco diferenciados (BRASIL, 2012a). 41 Conforme afirma o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a), após a coleta, o material é depositado suavemente em distensão em uma lâmina de vidro limpa e desengordurada (Figura 28), através de um espalhamento fino e rápido, de maneira mais uniforme possível. Outra metodologia possível é cortar a ponta da escova ou espátula, imergi-la em salina ou em líquido conservante e submetê-la à centrifugação. Após desprezado o sobrenadante e com auxílio de uma alça bacteriológica pode ser retirado uma alíquota do sedimentado e depositá-lo em lâmina para confecção do esfregaço para posterior procedimentos de análise. FIGURA 28 – LÂMINA DE VIDRO E ESCOVINHA FONTE: <http://twixar.me/QGcm>. Acesso em: 26 fev. 2022 Após esta etapa, é realizada a fixação, na qual pode ser utilizado álcool a 95% ou ainda um spray fixador. Este procedimento deve ser rápido para evitar a dessecação do material e comprometer a amostra. Em seguida é realizada a coloração. Uma observação importante no momento da fixação, é o cuidado para não criar artefatos de coleta ou artefatos técnicos – contaminações da amostra com fios de algodão ou gaze, ou ainda, pelo talco das luvas de procedimento (BRASIL, 2012a, BRASIL, 2012b). O talco apresenta forma de cristal em forma de cruz de malta. Quando a amostra é contaminada com sangue – chamado na prática laboratorial fundo hemorrágico – provavelmente devido a uma microlesão no momento da coleta da amostra. Outro cuidado que devemos ter é evitar o esmagamento das células, devido, provavelmente a uma pressão exagerada no momento da confecção da lâmina, provocando uma lise celular, que pode ser caracterizada pelo aparecimento de filamentos basofílicos na lâmina, que na realizada são restos dos núcleos celulares. Conforme afirma o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a, BRASIL, 2012b), após todos estes procedimentos, devemos passar para a etapa de fixação dos esfregaços citológicos, que podem ser feitos em álcool, etanol 95%, que é o fixador de rotina devido ao baixo custo e baixíssima toxicidade. Ela deve ser realizada ainda com o esfregaço úmido, por imersão. Somente deverá ser retirado no momento da coloração. Lembrando que o tempo mínimo recomendado pela literatura é de 15 minutos e o tempo máximo em imersão, deverá ser de 14-15 dias. 42 O Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a) nos alerta para o fato das amostras que ficam em contato com o fixador por um período maior que o recomendado (ou se a solução fixadora estiver fora do padrão de concentração), podem comprometer a amostra, provocando até mesmo a inviabilização da análise. Entre os fatores que podem comprometer a análise, temos: opacidade, aumento da eosinofilia citoplasmática, aumento das dimensões nucleares (até 6x), dentre várias outras. Outros fixadores podem ser empregados: Carbowax (etanol e polietileno glicol) e ainda sprays (álcool isopropílico e glicol). Estes possuem vantagem sobre o fixador de rotina, devido a maior praticidade de transporte das amostras quando estas são obtidas a grandes distâncias do local de análise, evitando, dessa forma, possíveis vazamentos ou mesmos danos às lâminas, mas como desvantagem apresentam maior custo. Devemos lembrar que o principal objetivo de todos os tipos de fixadores é sempre a preservação da arquitetura celular e de sua composição química, presentes no momento da coleta da amostra. 2.1.2 Imprints – impressões teciduais Para o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a), esta técnica baseia-se literalmente em colocar o material amostral (geralmente um corte de tecido – geralmente histopatológico) em contato com a superfície de vidro da lâmina, e, por impressão, transferir as células para análise na lâmina de vidro. Muitos autores chamam está técnica de ‘citologia por decalque’ ou ‘citologia de decalque’. 2.1.3 Lavados Segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a), lavados são amostras obtidas através da utilização de cateteres. A lavagem com soluções salinas de uma determinada cavidade de interesse do organismo. Esta técnica geralmente fornece baixas contagens celulares para análise. Elas podem ser broncoalveolar (LBA), brônquios (LB) entre vários outros. A instilação da solução de lavagem geralmente ocorre nos locais onde há lesões ou o máximo possível de proximidade dela, guiada por endoscópio e posteriormente aspirada. O procedimento pode ser realizado ambulatorialmente, com paciente levemente sedado. Vale lembrar que, após a coleta, os líquidos resultantes são levados à centrífuga, obtendo-se o sobrenadante que é descartado e o precipitado utilizado para confecção do esfregaço ou cell block. Os fixadores ficam a critério do laboratório mediante a disponibilidade, mas geralmente emprega-se etanol 95% ou Carbowax. O LBA é uma metodologia bastante empregada no diagnóstico de infecções oportunistas em pacientes com baixa imunidade, com o de Pneumocysti carinii. Esta técnica apresenta sensibilidade de 30 a 70% nos diagnósticos de malignidade, principalmente em tumorações difusas e/ou multifocais (BRASIL, 2012a, BRASIL, 2012b; BRASIL, 2012c). 43 Os lavados esofágicos e gástricos também são obtidos por meio de guias endoscópicas. Para o primeiro, há recomendação de jejum de 8 horas, para o segundo, 12 horas. Os lavados são obtidos de áreas que requerem investigações de mucosa. O fixador geralmente mais empregado nestes casos é o etanol a 50% para o primeiro e etanol 95% para o segundo. De acordo com o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a), os lavados peritoneais requerem maior nível de atenção, pois deve-se adicionar à amostra três unidades de heparina para cada mililitro de volume de amostra e refrigeradas a 4°C até o momento da concentração e realização do esfregaço. Caso a demora seja um pouco mais prolongada, é necessário o acréscimo de etanol 50% em partes iguais. Em lavados que apresentam indícios de hemorragia, deve-se adicionar anticoagulante – o mais utilizado é citrato de sódio a 3,8% na proporção de 1:5 ou ainda heparina, na proporção de 5-10 unidades para cada 10mL de amostra. 2.1.4 Líquidos cavitários Para o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a), as amostras líquidas (pleurais, ascíticos ou pericárdicos), são investigados agentes infecciosos, alterações celulares benignas, e claro, alterações celulares malignas em estágio primário ou mesmo em metástases. As amostras devem ser obtidas em ambientes hospitalares e devem conter entre 2mL e 500mL, amostras maiores ou menores ao intervalo são consideradas inadequadas. O processamento ocorre sem adições, exceto em casos hemorrágicos, onde é acrescido heparina. As análises que ocorrem após 12 horas de coleta devem sofrer acréscimo de etanol 50% para sua preservação. Como recomendação complementar nestes casos, indica-se o emprego da técnica de cell blocks para obtenção de amostras permanentes para a realização de colorações especiais, caso necessário. 2.1.5 Materiais obtidos espontaneamente Um dos materiais mais analisados na rotina de citopatologia para diagnóstico lesional no trato respiratório é o escarro, principalmente devido a sua facilidade de obtenção e que gera pouco ou nenhum desconforto ao paciente. Mesmo com estas vantagens, a broncoscopia e a punção por agulha fina (PAAF – tema de estudo do nosso próximo item (2.1.6)) vemganhando mais espaço nas análises referentes ao trato respiratório. Nas amostras de escarro, deve-se verificar a sua adequação à análise, pois a mostra, para ser adequada, precisa apresentar células cilíndrica ciliadas e ainda macrófagos alveolares, indicando que o trato respiratório inferior está com representatividade amostral. As amostras, múltiplas de escarro devem ser coletadas 44 2.1.6 Punções: por agulha fina (PAAF) e por capilaridade Segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a) e INCA (2019), foi nos Estados Unidos, em 1926, que a punção aspirativa por agulha fina (PAAF) foi apresentada, por Martin e Ellis, e somente na década de 1950 que passou a ter uso mais recorrente, quando agulhas de menores calibres passaram a ser utilizadas. Nos dias atuais, tem sido uma prática comum na clínica, principalmente na obtenção de amostras celulares em órgãos mais profundos e de difícil acesso às técnicas citopatológicas. As punções são metodologias simples, executadas de maneira ágil e apresentam excelente precisão de diagnóstico. Elas podem ser realizadas ambulatorialmente e complicações decorrentes do processo são consideradas raras. Existem apenas algumas contraindicações para grupos específicos de pacientes: portadores de distúrbios de coagulação e em uso de anticoagulantes, pacientes com tosse e tumor carotídeo, aos demais deve avaliar-se o risco benefício (BRASIL, 2012a). em dias consecutivos, o que confere um aumento de sensibilidade de 42% para uma amostra e, em casos de cinco amostras, para 91%. Devem ser fixadas com etanol 95% ou, quando não for possível a preparação imediata do esfregaço, deve-se realizar uma prefixação, diluição em 1:1 de etanol a 50% ou 70% ou ainda com Carbowax em etanol 50% (BRASIL, 2012a, BRASIL, 2012b). Outra amostra espontânea comum em citopatologia é a urina. Por meio dela, pode-se verificar a existência de lesões pré-cancerosas na pelve renal, bexiga, ureter e também da uretra. A primeira urina do dia não é indicada. A recomendação é que o paciente esvazie a bexiga e faça hidratações a cada 30 minutos por duas horas. A coleta da próxima urina deve ocorrer ainda pela manhã, diretamente no coletor, preferencialmente no laboratório que fará a análise, após devida higienização da genitália com água e sabão é a mais indicada. Alguns autores aconselham aos pacientes uma prática de atividade física, de quinze minutos antes da coleta, como forma de provocar uma maior mobilização da urina dentro da bexiga facilitando o processo de descamação epitelial (e/ou tecidual), melhorando a qualidade da amostra, que deve ter entre 25 e 100mL. O processamento do material deve ser imediato ou em até seis horas pós coleta (BRASIL, 2012a, BRASIL, 2012b). As secreções mamárias também são relativamente comuns em citopatologia e tem como objetivo diagnosticar infecções, papilomas e até mesmo neoplasias. Este tipo de amostra citológica é utilizado somente quando não é possível perceber anormalidades na mamografia ou ainda aquelas percebidas à palpação, e em muitos casos a secreção é a única anomalia percebida. O obtido deve ser depositado diretamente na lâmina de vidro com confecção do esfregaço e posterior fixação com etanol 95% (BRASIL, 2012a, BRASIL, 2012b). 45 Segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a), a assepsia do local a ser puncionado geralmente é feita com álcool iodado. Existe a recomendação, por alguns autores, do uso de pistola porta seringa – instrumentação utilizada para dar suporte à agulha e seringa. O Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a) recomenda, ao realizar-se a PAAF, colocar o paciente na posição mais privilegiada para a coleta, de preferência com certo conforto ao paciente. Deve-se previamente realizar a escolha do local, por palpação ou com auxílio de exames de imagem, fazer a assepsia do local, segurar o sítio da punção entre os dedos indicador e médio, e posteriormente, efetuar a punção. Para realizar-se a punção, conforme afirma o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a), devemos seguir a seguinte sequência de procedimentos: A: manter o êmbolo na posição zero e introduzir a agulha na lesão em ângulo perpendicular à superfície da pele; B: promover forte pressão negativa no interior da seringa, deslocando o êmbolo para estabelecer vácuo, mantendo-o; C: fazer movimentos de “vai e vem” com a agulha na lesão, nas diversas direções e profundidades, mantendo a pressão negativa ainda com a agulha na lesão; D: soltar o êmbolo da seringa, desfazendo a pressão negativa, ainda com a agulha na lesão; E: retirar a agulha da lesão e comprimir o local com uma gaze; F: retirar a agulha da seringa com o êmbolo na posição zero; G: puxar o êmbolo da seringa, fazendo vácuo; H: acoplar a agulha na seringa para em seguida, empurrando o êmbolo, depositar o material na lâmina e proceder a preparação do esfregaço. Para o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a) e Molinaro, Caputo e Amendoeira (2010), quando o material resultante da PAAF é líquido, faz-se necessário centrifugar a amostra, para sedimentar as células para realizar o esfregaço (e desprezar o sobrenadante). Nos casos em que a amostra é oriunda de nódulos sólidos, deve-se apenas permitir a entrada de um pouco de ar, acoplar nova agulha e fazer o depósito da amostra sobre a lâmina, cerca de 2 a 3mm e confeccionar o esfregaço. Em amostras semissólidas ou com traços hemorrágicos, deve-se utilizar uma lâmina inclinada a 45° para estender o material de forma delicada, rápida e de maneira uniforme. Outro tipo de punção muito utilizada na clínica nos dias atuais, segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a), é a punção por capilaridade foi utilizada pela primeira vez em 1986 pelo médico francês Zajdela em uma coleta oftalmológica. Nela, a obtenção do material ocorre através do deslocamento celular promovido pela ponta da agulha (bisel) no ato de sua introdução no tecido, não existe o emprego de pressões negativas. Ao perceber a existência de amostra no bisel, a agulha é retirada da lesão com o material coletado e posteriormente depositado em várias lâminas para a confecção dos esfregaços. Esta técnica, ainda segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a), foi disseminada na comunidade científica posteriormente, e hoje passou a ser empregada em diversos órgãos, principalmente devido aos menores traumas causadas pela técnica, ser de fácil execução e ainda por fornecer bom quantitativo celular às análises citológicas. Os materiais utilizados são basicamente os mesmos utilizados na PAAF tradicional. 46 2.2 COLORAÇÕES EM CITOPATOLOGIA De acordo com Molinaro, Caputo e Amendoeira (2010), vários fatores são determinísticos para um diagnóstico assertivo em citopatologia clínica. Entre eles, temos a qualidade das colorações, a preparação da amostra e sua fixação. Devem ser evitados os artefatos advindos de colorações que podem em situações extremas inviabilizar a análise do material citopatológico. Muitos corantes com emprego tradicional em histologia são e devem ser utilizados em citologia com algumas pequenas adaptações, seja no processamento das amostras ou ainda em condições e situações especiais, como na imunocitoquímica, porém, de maneira rotineira, na citopatologia, a metodologia de coloração desenvolvida por Papanicolaou é a mais empregada e recomendada. Outras colorações utilizadas são: hematoxilina-eosina (HE), May-Gruenwald Giemsa (MMG), Shorr, entre outras (MOLINARO; CAPUTO; AMENDOEIRA, 2010; BRASIL, 2012a, BRASIL, 2012b). Pela grande importância e pelo vasto uso, vamos estudar mais detalhadamente algumas colorações. 2.2.1 Coloração de Papanicolaou Molinaro, Caputo e Amendoeira (2010) afirmam que a coloração de Papanicolaou é formada por um corante natural, a hematoxilina, e ainda por dois outros corantes com afinidades citoplasmáticas o Orange G6 e o EA, que são formados pela combinação de eosina, verde luz (também conhecido por verde brilhante) e pelo pardo de Bismarck. O conjunto de corantes utilizados por estatécnica tem como principal objetivo evidenciar a morfologia das células bem como os graus de maturidade celular (MOLINARO; CAPUTO; AMENDOEIRA, 2010; BRASIL, 2012a, BRASIL, 2012b). Esta técnica é realizada em etapas, conforme descrito no Quadro 2. Vale lembrar que cada laboratório faz suas próprias adaptações, seja pelo tempo de técnica ou pelo custo da coloração. A hematoxilina tem afinidade pelos núcleos, e estes são corados de azul-roxo. O verde brilhante cora os citoplasmas de verde-azul de células parabasais e intermediárias, células colunares e ainda os histiócitos. A eosina irá realizar a coloração citoplasmática das células superficiais, de nucléolos, mucinas endocervicais e ainda de cílios no tom rosa. O Orange G6 vai realizar a coloração de hemácia e de células queratinizadas em laranja brilhante. Em seguida, os esfregaços passam por uma etapa chamada de clareamento, por xilol (MOLINARO; CAPUTO; AMENDOEIRA, 2010; BRASIL, 2012a, BRASIL, 2012b). Vamos estudar várias lâminas de esfregaços cervicovaginais nas Unidades 2 e 3. Inclusive, vamos estabelecer comparações entre aquelas “normais” e outras, em que patologias se fazem presentes. 47 QUADRO 2 – MÉTODO DESCRITIVO DA COLORAÇÃO DE PAPANICOLAOU Etapa Corante/reagente N° de mergulhos 1 Etanol 80% 5-10 2 Etanol 70% 5-10 3 Etanol 50% 5-10 4 Água destilada I 5-10 5 Água destilada II 5-10 6 Hematoxilina de Harris 1 a 5 minutos 7 Água destilada 5-10 8 Diferenciar em álcool-ácido 3 9 Água destilada 5-10 10 Banho de água amoniacal 5 11 Água destilada 5-10 12 Etanol 50% 5-10 13 Etanol 70% 5-10 14 Etanol 95% 5-10 15 Orange G, solução de trabalho 1 minuto 16 Etanol 95% 5-10 17 Etanol 95% 5-10 18 Etanol 95% 5-10 19 Eosina-EA65, solução de trabalho 5 minutos 20 Etanol 95% 5-10 21 Etanol 95% 5-10 22 Etanol 95% 5-10 23 Etanol 100% I 5-10 24 Etanol 100% II 5-10 25 Etanol 100% III 5-10 26 Xilol I 5-10 27 Xilol II 5-10 28 Xilol III 5-10 29 Selar em meio hidrófobo FONTE: Adaptado de <https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/tecnico_citopatologia_ caderno_referencia_1.pdf>. Acesso em: 6 jan. 2022. 48 • Resumo do resultado da colação, segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a): I- Células escamosas maduras -> róseo-avermelhada. II- Nucléolo -> vermelho- arroxeado. III- Células metabolicamente ativas -> verde azulado. IV- Citoplasma queratinizado -> laranja ou amarelo. 2.2.2 Coloração de May-Grünwald-Giemsa Molinaro, Caputo e Amendoeira (2010) discorrem que essa coloração é bastante utilizada em distensões em que a amostra é oriunda do sangue periférico, medula óssea, elementos celulares obtidos por punção, esfoliação e imprint. São utilizados dois corantes e as soluções podem ser ajustadas. Outra observação a ser feita é que as soluções devem ser preparadas no momento do uso e desprezadas após seu término. QUADRO 3 – MÉTODO DESCRITIVO DA COLORAÇÃO DE MAY-GRUNWALD-GIEMSA Etapa Corante e/ou reagente 1 Fixar em Metanol por 15 min 2 Corar com Solução May-Grünwald por 5 min. 3 Escorrer o corante da lâmina 4 Corar com Giemsa por 10min. 5 Lavar em tampão Soren pH 6,8 e deixar secar naturalmente. 6 Clarificar com xilol e secar em meio hidrofóbico. FONTE: Adaptado de <https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/tecnico_citopatologia_ caderno_referencia_1.pdf >. Acesso em: 6 jan. 2022. • Resumo do resultado da colação, segundo o Ministério da Saúde (2012a): I- Núcleos dos leucócitos -> azul-pálido. II- Citoplasma -> azul muito claro ou incolor. III- Granulações neutrófilas -> vermelho claro. IV- Granulações basófilas -> azul escuro. V- Eosinófilos e eritrócitos -> vermelho alaranjado. 49 2.2.3 Coloração hematoxilina eosina (HE) Esta coloração é utilizada nas preparações cell blocks e ainda nos esfregaços realizados a partir da PAAF. Várias imagens de lâminas cito-histológicas apresentadas até aqui foram submetidas a este tipo de coloração. • Resumo do resultado da colação é similar aquele apresentado nas colorações realizadas em cito-histologia, segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a): I- Núcleos -> azul. II- Citoplasma -> rosa. 2.2.4 Outras colorações usuais Várias outras colorações são utilizadas na rotina laboratorial citopatológica, conforme discorrem Molinaro, Caputo e Amendoeira (2010). A escolha do tipo de coloração a ser utilizada vai depender do principal objetivo da análise. Para isso, deve- se levar em consideração variados fatores, entre eles, as suspeitas clínicas do médico assistente no ato da solicitação do exame, que vem descritas na ficha de solicitação do exame. As mais utilizadas são: • Panótico: técnica rápida utilizada em amostras por PAAF. São três soluções (I, II e III) e o tempo de processamento é de 15 min. • Shorr: coloração diferencial de células escamosas superficiais e profundas, mas não é muito utilizado porque os detalhes nucleares ficam difíceis de serem apercebidos. • PAS – ácido periódico de Schiff: coloração especial e diferencial. Cora carboidratos e fungos de cor magenta e o “fundo” (demais estruturas) de verde. • Gram: coloração que permite identificação de bactérias Gram positivas e Gram negativas além da conformação bacteriana (cocos, bacilos etc.) (figura 30). • Ziehl-Neelsen: permite a identificação de bactérias – bacilos – álcool resistentes, chamados de BAAR. 50 FIGURA 29 – COLORAÇÃO DE GRAM FONTE: <http://twixar.me/xGcm>. Acesso em: 23 fev. 2022 Gram-negativo MICROBIOLOGIA Coloração de Gram das Bactérias violeta cristal iodo álcool (descoloração) safranina Gram-positivo A coloração de Gram permite a diferenciação das bactérias que podem estar acometendo determinada região do corpo (Figuras 30 e 31), o que facilita a escolha de um possível esquema medicamentoso (os medicamentos de escolha para combate de Gram positivos geralmente são diferentes daqueles empregados para Gram negativos) e ainda auxilia na descoberta da morfologia ou arranjo celular destes agentes infecciosos, conforme a Figura 30. FIGURA 30 – AMOSTRA SUBMETIDA A COLORAÇÃO DE GRAM: BÁCTÉRIA ESCHERICHIA COLI – BASTONETE GRAM NEGATIVO FONTE: <https://stock.adobe.com/br/search?k=ESCHERICHIA%20COLI%20 colora%C3%A7%C3%A3o%20de%20gram&search_type=default-asset-click&asset_ id=488852867>. Acesso em: 23 fev. 2022. 51 FIGURA 31 – AMOSTRA SUBMETIDA À COLORAÇÃO DE GRAM: BÁCTÉRIA GRAM POSITIVA – ESTREPTOCOCOS FONTE: <http://twixar.me/6Gcm>. Acesso em: 26 fev. 2022. FIGURA 32 – PRINCIPAIS AGENTES INFECCIOSOS EM HUMANOS E SEUS RESPECTIVOS ARRANJOS FONTE: <http://twixar.me/CGcm>. Acesso em: 26 fev. 2022. 52 3 ADEQUABILIDADE DAS AMOSTRAS É de extrema importância, antes de efetivamente realizar a análise citológica, conferir os dados do paciente – nome e sobrenome, número de registro do exame ou código de barras, com a ficha de cada um dos pacientes que sempre acompanha as amostras. Voltaremos a falar com maiores detalhes da importância desta conferência de dados na Unidade 3, em controle de qualidade em laboratórios citopatológicos. O Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a) nos alerta sobre um ponto fundamental: verificar a qualidade da amostra, de sua fixação e da sua coloração. Esta análise é feita em menor aumento, objetiva de 4x. O fundo, área onde encontramos as células a serem analisadas – tipo celular –, a quantidade destas células, como as células estão dispostas e o modo pelo qual se encontram dispostas no esfregaço são os aspectos a serem considerados para avaliar-se a adequabilidade da amostra, segundo a Nomenclatura Brasileira para Laudos Cervicais e Condutas Preconizadas proferidas pelo Ministério da Saúde, em 2006, que fora adaptado do Sistema Bethesta de classificação citológica dos esfregaços cervicais de 2001, que vamos estudar com mais detalhes na Unidade 3. As categorias de avaliação, segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a), são: I- Satisfatória: amostra apresenta células em quantidade representativa (8000 a 12000 células escamosas) bem distribuídas, fixadas e coradas, de modo apermitir a visualização e chegar a uma conclusão diagnóstica, como na Figura 33. II- Satisfatória, mas limitada para avaliação por falta de informações clínicas. Esfregaços comprometidos entre 50-75% de sua tonalidade por diversos fatores. Exemplos: esfregaço hemorrágico, esmagamento celular por compressão na confecção do esfregaço, demora da fixação. Outros fatores fisiológicos também podem interferir, como a escassez celular por atrofias diversas comuns na menopausa. III- Insatisfatória: esfregaço comprometido em mais de 75% (mesmos fatores citados). Quando o exame citológico é satisfatório, mas limitado, ou ainda classificado como insatisfatório para análise, este deve ser repetido o mais breve possível. 53 FIGURA 33 – AMOSTRA SATISFÁTORIA DE ESFREGAÇO VAGINAL FONTE: <http://twixar.me/Pdcm>. Acesso em: 26 fev. 2022. O Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a) traz um importante conselho sobre as análises/leituras de lâminas de esfregaços: iniciar a análise dos esfregaços sempre da esquerda para a direita, correndo a lâmina de cima para baixo, sempre com sobreposição das áreas para evitar que passe desapercebido alguma arquitetura celular de importância clínica. 54 QUEM FOI GEORGE PAPANICOLAOU, CRIADOR DO EXAME CONSIDERADO UMA DAS ARMAS MAIS PODEROSAS CONTRA O CÂNCER BBC News Brasil 13 de maio de 2019 LEITURA COMPLEMENTAR George Papanicolaou (1883-1962) Quando George Papanicolaou (1883-1962) chegou aos Estados Unidos, vindo da Grécia, já era um médico experiente que tinha trabalhado como cirurgião militar na primeira guerra dos Bálcãs (1912 – 1913). No entanto, nem ele nem sua mulher, Andromachi Mavroyenis, sabiam falar inglês e tinham apenas cerca de US$ 250 consigo, "a quantia exigida para entrar no território americano", como explica uma pesquisa da Associação Médica de Cingapura (AMC) sobre o homem que é homenageado neste 13 de maio pelo Google por causa do 136º aniversário de seu nascimento. Andromachi cosia botões por US$ 5 semanais, enquanto Papanicolaou, após durar só um dia em um emprego de vendedor de tapetes, voltou a se dedicar a sua paixão: tocar violino, desta vez, em restaurantes. Ninguém imaginava que pouco tempo depois ambos trabalhariam juntos no desenvolvimento de um exame simples que revolucionou a medicina ao permitir detectar de forma precoce o câncer de colo do útero. A prática já ajudou a salvar milhões de mulheres. O método ficou conhecido no Brasil como Papanicolaou ou Papanicolau, mas também é chamado de Pap. 55 Como surgiu o exame Nascido em 13 de maio de 1883, na ilha de Eubea como Georgios Papanikolaou, ele se formou em Medicina com louvor aos 21 anos, depois de também ter estudado música e humanidades. Um ano depois de ter chegado aos Estados Unidos, ainda sem trabalhar como médico, ele foi contratado pelo departamento de Anatomia da Universidade de Cornell, em Nova York, como pesquisador. Mavrovenis, por sua vez, passou a trabalhar no mesmo local como técnica e, às vezes, alvo dos experimentos realizados ali. “O sucesso científico da dupla ocorreu após recrutarem um grupo de amigas suas para participarem de um estudo que envolvia o exame de Papanicolaou", diz o Google ao explicar a homenagem ao médico grego. “No estudo, Papanicolaou detectou células malignas em uma das amostras, o que levou ao diagnóstico de câncer para uma amiga de sua mulher”. Exame já salvou milhões de vidas O teste permite detectar alterações anormais em células do colo uterino antes que o câncer se desenvolva. Como explica a AMC, por ter um baixo custo, ser fácil de ser realizado e bastante efetivo, o Pap se tornou o "padrão de excelência na detecção do câncer cervical” em todo o mundo. Um estudo de cientistas do Instituto Karolinska de Estocolmo, na Suécia, com 1,23 mil mulheres que foram acompanhadas por oito anos após o diagnóstico, ajuda a ilustrar sua importância. A pesquisa mostrou que, entre as mulheres que se submetem a este exame e conseguem detectar o câncer cervical precocemente, a taxa de sobrevivência é de 92%, enquanto o índice para as pacientes diagnosticadas quando já começam a apresentar sintomas é de 66%. Como este é o quarto tipo de câncer mais comum entre as mulheres, segundo a Organização Mundial da Saúde, é atribuído a este teste - e seu criador - o feito de ter ajudado a salvar milhões de vidas. "Este exame será sempre uma das armas mais poderosas contra o câncer", diz outro artigo citado pela AMC ao explicar a importância da "descoberta deste grande pioneiro". Pap está disponível na rede pública de saúde No Brasil, o Pap está disponível na rede pública. Segundo o Ministério da Saúde, toda mulher que tem ou já teve vida sexual deve submeter-se ao exame preventivo periódico, especialmente as que têm entre 25 e 59 anos. A recomendação do ministério é de que, inicialmente, o exame seja feito anualmente. Após dois exames seguidos (com um intervalo de um ano) com resultado normal, pode ser feito a cada três anos. 56 Para garantir um resultado correto, a mulher não deve ter relações sexuais (mesmo com camisinha) nos dois dias anteriores ao exame, evitar também o uso de duchas, medicamentos vaginais e anticoncepcionais locais nas 48 horas anteriores à realização do exame. É importante também que não esteja menstruada, porque a presença de sangue pode alterar o resultado. Mulheres grávidas podem fazê-lo, sem prejuízo para sua saúde ou a do bebê. Para a coleta do material, é introduzido um instrumento chamado espéculo na vagina, conhecido popularmente como "bico de pato", devido ao seu formato. O médico faz a inspeção visual do interior da vagina e do colo do útero. Em seguida, o profissional provoca uma pequena escamação da superfície externa e interna do colo do útero com uma espátula de madeira e uma escovinha. As células colhidas são colocadas numa lâmina para análise em laboratório especializado em citopatologia. FONTE: Adaptado de <https://www.bbc.com/portuguese/geral-48235865>. Acesso em: 2 jan. 2022. 57 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu: • As principais técnicas e procedimentos de coleta em citopatologia clínica são: escovados, raspados, PAAF, imprints, lavados, entre outros. • A obtenção das amostras em citopatologia geralmente é por meio de procedimentos não invasivos e não geram maiores complicações ao paciente. • As técnicas empregadas em cito-histologia são de baixo custo e de fácil execução. • As principais colorações utilizadas em cito-histologia e suas particularidades são: Papanicolaou, hematoxilina-eosina (HE), May-Gruenwald-Giemsa (MMG), Shorr e outras. • As etapas de fixação, coloração e de coleta são fundamentais para a adequabilidade das amostras. 58 AUTOATIVIDADE 1 (Adaptada Enade 2016) Para garantir que resultados falso-negativos ou falso-positivos não ocorram na rotina clínica, devemos verificar a qualidade da amostra e ainda os procedimentos corretos e necessários para realizar boas colorações. As colorações podem ser realizadas através de reagentes preparados diretamente nas unidades laboratoriais ou ainda podem ser adquiridas prontas no formado de Kits Rápidos (TR). Cuidados adicionais devem ser tomados para que seja possível a obtenção de resultados confiáveis, entre eles, a leitura atenta das instruções fornecidas pelos fabricantes. Sobre a prevenção de falhas de análise ou leitura quando empregado os TR, analise as sentenças a seguir: FONTE: <https://www.ufcspa.edu.br/editora_log/ download.php?cod=015&tipo=pdf>. Acesso em: 30 maio 2022. I- Abrir a embalagem do TR somente no ato da sua utilização. II- Realizar vários TR ao mesmo tempo. III- Cronometrar o tempo de teste conforme instruções do fabricante. IV- Evitar tocar, bater ou agitar os instrumentos ou reagentes dos dispositivos integrantes do TR de modo que possa comprometer a sua integridade. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I, III, IV e V estão corretas. b) ( ) As sentenças I, II e IV estão corretas. c) ( ) As sentençasII, IV e V estão corretas. d) ( ) As sentenças I, II, III e V estão corretas. 2 Foi Johannes Müller o responsável pelo primeiro exame citológico em 1838. Nele foi descrita a imagem microscópica das células malignas que foram obtidas por raspado superficial de tumores. Sobre as técnicas de obtenção de amostras citológicas, analise as sentenças a seguir: I- As técnicas de obtenção são procedimentos simples, com menor grau de invasão. II- As técnicas possuem menores taxas de complicações durante e após a coleta. III- As técnicas não oferecem vantagens quando comparadas a outras técnicas de coletas de amostra, como nas biópsias. IV- As técnicas empregadas permitem diagnósticos rápidos, seguros e de excelente qualidade. 59 Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I, II e IV estão corretas. b) ( ) As sentenças III e IV estão corretas. c) ( ) As sentenças I e III estão corretas. d) ( ) As sentenças I, II e III estão corretas. 3 As punções, capilaridade ou por agulha fina (PAAF) são métodos bastante utilizados na obtenção de amostras citopatológicas. Trata-se de uma metodologia simples, rápida e segura que permite uma boa precisão de diagnóstico. Na realização da técnica, alguns preparativos e materiais são necessários. Sobre o exposto, analise as sentenças a seguir: I- Preparo do local de coleta e do psicológico do paciente. II- Anestesia do local a ser utilizado como sítio da punção. III- Um pequeno curativo oclusivo após a punção. IV- Espátula de Ayres e espéculo. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I, II e IV estão corretas. b) ( ) As sentenças III e IV estão corretas. c) ( ) As sentenças I e IV estão corretas. d) ( ) As sentenças I, II e III estão corretas. 4 O lavado broncoalveolar (LBA) é uma técnica de coleta de células, partículas, organismos infecciosos e corpos estranhos que porventura estejam nos espaços alveolares do pulmão. É uma técnica que vem sendo bastante utilizada na área clínica como ferramenta de estudos na área da imunologia. Disserte sobre como esta técnica vem sendo utilizada nos exames citopatológicos de vários tipos de doenças. 5 A qualidade dos diagnósticos citopatológicos dependem de variados fatores, dentre eles a adequabilidade da coleta e ainda de fatores ligados ao processamento das amostras. Geralmente, os materiais são coletados pelo médico assistente durante rotina clínica, principalmente esfregaços cervicovaginais. Descreva os procedimentos a serem realizados pelos laboratórios citopatológicos após a recepção destas amostras. 60 REFERÊNCIAS ALBERTS, B. et al. Biologia molecular da célula. 6. ed. – Porto Alegre: Artmed, 2017. Editado como livro impresso em 2017. Disponível em: https://docero.com.br/ doc/50e1cx. Acesso em: 5 jan. 2022. ALMEIDA, A. V.; MAGALHÃES, F. O. Robert Hooke e o problema da geração espontânea no século XVII. Scientiae Studia: 3. 2010. Disponível em: https://www. revistas.usp.br/ss/article/view/11209. Acesso em: 4 jan. 2022. ANDRADE, F. G.; FERRARI, O. Atlas digital de histologia básica. Londrina: Universidade Estadual de Londrina – Centro de Ciências Biológicas. 2012. Departamento de Histologia. 2014. Disponível em: http://www.uel.br/ccb/histologia/ portal/pages/arquivos/Atlas%20Digital%20de%20Histologia%20Basica.pdf. Acesso em: 2 jan. 2022. INCA. Estimativa 2020: incidência de câncer no Brasil. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Rio de Janeiro: INCA, 2019. 120 p. Disponível em: https:// www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files/media/document/estimativa-2020- incidencia-de-cancer-no-brasil.pdf. Acesso em: 3 jan. 2022. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Caderno de referência 1: citopatologia ginecológica. Brasília: Ministério da Saúde, 2012a. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/ publicacoes/tecnico_citopatologia_caderno_referencia_1.pdf. Acesso em: 3 jan. 2022. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Caderno de referência 2: citopatologia não ginecológica. Brasília: Ministério da Saúde, 2012b. Disponível em: https://bvsms.saude. gov.br/bvs/publicacoes/tecnico_citopatologia_caderno_referencia_2.pdf. Acesso em: 3 jan. 2022. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Caderno de referência 3: citopatologia não ginecológica. Brasília: Ministério da Saúde, 2012c. Disponível em: https://bvsms.saude. gov.br/bvs/publicacoes/tecnico_citopatologia_caderno_referencia_3.pdf. Acesso em: 3 jan. 2022. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Políticas de Saúde Programa Nacional de DST e Aids Técnica de Coloração de GRAM. Brasília: Ministério da Saúde, 2001. 63 p. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/115_03gram.pdf. Acesso em: 5 jan. 2022. CONSOLARO, M. E. L.; MARIA-ENGLER, S. S. Citologia clínica cervicovaginal: texto e atlas. São Paulo: Roca, 2014. 61 HENRY, J.B. Diagnósticos clínicos e tratamento por métodos laboratoriais. 20 ed. São Paulo: Manole, 2008. JUNQUEIRA, L. C. U; CARNEIRO, J. Histologia básica: texto e atlas. 13. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018. KOSS, L. G.; GOMPEL, C. Introdução à citopatologia ginecológica com correlações histológicas e clínicas. São Paulo: Roca, 2014. LIMA, A. O. Métodos de laboratório aplicados à clínica – técnica e interpretação. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2001. LOPES, S. G. B.; HO, F. F. Panorama histórico da classificação dos seres vivos e os grandes grupos dentro da proposta atual de classificação – Tópico 1. 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Acesso em: 24 maio 2022. 62 63 COMPONENTES CELULARES EM CONDIÇÕES NORMAIS, BENIGNAS E MALIGNAS APLICADAS À CITOPALOGIA CLÍNICA UNIDADE 2 — OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • analisar laudos técnicos em conformidade com a legislação brasileira; • interpretar os diagnósticos citopatológicos, correlacionando-os com a clínica; • conhecer a importância dos exames citopatológicos em amostras de mama e tireoide; • desenvolver as habilidades técnicas mínimas para estudos e análises das alterações morfofuncionais do trato genital feminino (TGF); • conhecer as alterações citopatológicas decorrentes dos processos inflamatórios e degenerativos; • compreender a importância da realização do exame de Papanicolaou no rastreamento de alterações celulares benignas, pré-malignas e malignas no colo do útero; • reconhecer as alterações pré-malignas e malignas nas amostras cervicovaginais e fazer constá-las nos laudos citológicos de modo crítico e ético; • trabalhar em equipes multiprofissionais, contribuindo ativamente com o diagnóstico clínico do paciente de forma ética e profissional. A cada tópico desta unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – A CÉLULA TÓPICO 2 – PARTICULARIDADES DO TRATO GENITAL FEMININO (TGF)TÓPICO 3 – ATIPIA CELULAR, LESÕES PRÉ-CANCEROSAS E CARCINOMAS DO COLO UTERINO Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 64 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 2! Acesse o QR Code abaixo: 65 TÓPICO 1 — A CÉLULA UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Caro acadêmico! Bem-vindo à Unidade 2! Nesta unidade, vamos estudar os principais componentes celulares em condições consideradas normais, ou seja, fisiológica, e ainda as possíveis alterações que podem ocorrer a eles. Devemos considerar ainda que estas ‘possíveis alterações’ podem ocorrer de duas formas: a primeira, considerada benigna, onde as alterações não interferem na funcionalidade fisiológica daquele tecido ou órgão, e a outra, maligna, quando ocorrem profundas alterações, e muitas delas incompatíveis com o funcionamento do organismo, requerendo a retirada emergencial daquela alteração, impedindo o colapso daquele órgão e ainda impedindo a migração das células alteradas, cancerosas, para outros órgãos do corpo, a chamada metástase. Vamos juntos nesta nova jornada? 2 NÚCLEO E CITOPLASMA Na Unidade 1 recordamos as principais diferenças entre as células animais e vegetais, assim como as células bacterianas e fúngicas, caso você não se lembre ou se ficou em dúvida de alguma característica volte à Unidade 1. Agora, neste tópico, vamos estudar as principais características da célula humana. Segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a), o principal princípio dos diagnósticos citopatológicos é a análise criteriosa dos núcleos celulares, pois são eles que nos transmitem o estado de saúde da célula, se em estado normal, sob processos inflamatórios, neoplasias etc. Já o citoplasma da célula será o responsável por transmitir informações sobre a sua origem e ainda acerca do grau de diferenciação funcional. Quando esta análise ocorre simultaneamente, pode-se obter informações fundamentais para a realização de diagnósticos assertivos. Como dito anteriormente, a célula animal é eucariótica (possui envoltório nuclear – carioteca), o que permite a identificação do núcleo e do seu nucléolo, e ainda da porção citoplasmática. 66 Vale lembrar que estas células, quando coradas com a hematoxilina – eosina (HE) –, ao serem visualizadas em microscópio óptico, possuem núcleo arroxeado e seu nucléolo em roxo escuro, (quase negro) e o citoplasma corado de rosa, conforme figura 1. As demais organelas celulares dificilmente podem ser visualizadas. FIGURA 1 – CÉLULA HUMANA FONTE: <http://twixar.me/LGcm>. Acesso em: 18 mar. 2022 ATENÇÃO Você conhece os principais tipos de microscópios? Está lembrado das principais partes do microscópio que mais utilizamos em citopatologia? Existem, basicamente, quatro tipos: o primeiro é o mais utilizado em laboratórios de análise, microscópio ótico (MO). Ele usa a luz visível para ampliar as imagens em até 2000X, e podem ainda ser de fluorescência (onde são utilizadas substâncias que realçam determinadas estruturas com brilho colorido) ou ainda confocal (formam imagens de altíssima resolução através da eliminação de pontos sem foco). O segundo tipo é o microscópio de força atômica (AFM). Ele gera imagens tridimensionais, permitindo análises da topografia, dentre outras características. O terceiro, é o microscópio eletrônico de transmissão (MET), que usa um feixe de elétrons para formar as imagens, e pode ampliar amostras de diversas origens em até impressionantes 1.000.000X! Por fim, temos o microscópio eletrônico de varredura (MEV), que também pode ampliar as amostras em até 1.000.000X, porém as amostras podem ser mais grossas e densas, por isso é o tipo mais comum em laboratórios e centros de pesquisa de ponta. 67 DICAS Ficou curioso sobre este mundo fascinante dos microscópios? Convidamos você a ler o texto disponível em: http://www.fiocruz.br/ioc/media/comcien- cia_01.pdf. Este é um material produzido pela LBC/IOC/Fiocruz, chamado de “Com Ciência na Escola”. Vale a pena conhecer e desvendar mais misté- rios sobre o mundo microscópio. Confere lá! 2.1 NÚCLEO Segundo Montanari (2016), as dimensões do núcleo variam de acordo com os tipos celulares, porém, geralmente possuem entre 5 e 10 µm, apresentam-se arredondados, alongados ou até mesmo lobulados, conforme já exemplificado na Figura 1. De modo geral, segundo Junqueira e Carneiro (2018), o envoltório nuclear, em observações no MO, é visualizado como uma camada de cromatina que faz o revestimento do conteúdo nuclear, porém, quando analisada através do microscópio eletrônico verifica-se que, na verdade, o envoltório nuclear é composto por duas membranas separadas por um espaço de 40 a 70nm, chamada de cisterna perinuclear. No núcleo encontramos o material genético celular, o ácido desoxirribonucleico (DNA), que está cuidadosamente enrolado em histonas (proteínas), formando a chamada cromatina. Esta cromatina, a depender do seu grau de condensação, pode ser classificada como eucromatina (difusa e passível a ‘transcrição’) ou ainda como heterocromatina (condensada e ‘inativa’) (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2018; MONTANARI, 2016; BRASIL, 2012a). Vale ressaltar que o núcleo somente estará presente quando a célula estiver na fase de interfase, pois, quando em divisão, a cromatina estará altamente condensada, o que provocará a desintegração da membrana celular, originando os cromossomos. Outro fato interessante sobre a eucromatina é que na maioria das vezes, em preparações com HE, ela apresenta-se pouco corada, dificilmente perceptível, diferentemente da heterocromatina, que apresenta boa afinidade com a hematoxilina, e quando presente é facilmente identificada. Este comportamento é importantíssimo em citopatologia! Células discarióticas (malignas) apresentam, algumas vezes, seus núcleos descorados, quase não se coram! Observe atentamente a Figura 2, em que se pode perceber os núcleos das células maiores, pouco corados! Isso é um forte indicativo/característica que precisa ser investigada com maior riqueza de detalhes, pois pode-se estar frente a um diagnóstico de carcinoma (BRASIL, 2012b). 68 FIGURA 2 – CÉLULAS DE CÂNCER DE MAMA – CARCINOMA DE CÉLULAS DUCTAIS FONTE: <http://twixar.me/WGcm>. Acesso em: 18 mar. 2022. Segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012ab), as proteínas encontradas no núcleo celular podem ser classificadas em dois tipos diferentes: histonas e não histonas. As primeiras são cilíndricas, fazem a proteção do DNA e ainda participam do processo de transformação da cromatina em heterocromatina. O outro tipo, proteínas não histonas, apresenta caráter ácido, assim como a heterocromatina, e juntas, são responsáveis por apresentarem o aspecto da coloração nuclear típica que estamos acostumados a ver. Ainda relacionado à coloração nuclear, é importante falarmos dos cromocentros. Eles são partículas de heterocromatina relativamente largas. Um exemplo famoso de cromocentro é o Corpúsculo de Baar, que é um cromossomo X inativo, quando ausente tem-se portadores da Síndrome de Turner (X0), quando em quantidades maiores, pode- se ter a Síndrome de Klinefelter (47XXY) (BRASIL, 2012b). De acordo com o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012b; BRASIL, 2012c), estes corpúsculos ainda podem se fazer presentes em células malignas, demonstrando a existência de cromatina com anormalidades. Desta forma, o grau de condensação da cromatina também é um achado citopatológico de grande importância, podendo apresentar-se fina ou grosseira, e ainda, com distribuição regular ou irregular. Ainda segundo este mesmo autor, a cromatina pode estar dissolvida – cariólise –, ou ainda formar uma massa compacta – picnose – nas células superficiais. Em situações degenerativas, a cromatina apresenta-se em porções regulares, redondas podendo ser múltiplas e de dimensões variáveis; em casos de câncer, a condensação ocorre de forma irregular, tanto de forma quanto de dimensões. 69 Umatécnica comum em citopatologia é fazer a divisão do núcleo em quadrantes e posteriormente analisar o comportamento da cromatina, se esta estiver disposta irregularmente pode ser preditivo de câncer. Diante de tais constatações, o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012b; BRASIL, 2012c) nos traz a matriz diagnóstica apresentada no quadro 1. QUADRO 1 – MATRIZ DIAGNÓSTICA Tipo de cromatina Fina Grosseira Regular Normal Carcinoma in situ Irregular Adenocarcinoma Carcinoma de células escamosas FONTE: Adaptado de <https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/tecnico_citopatologia_ caderno_referencia_2.pdf>. Acesso em: 4 fev. 2022. Ao analisarmos uma lâmina citológica, devemos sempre ter em mente que as alterações nucleares possuem inúmeras possibilidades. Entre elas, a poliploidia ou aneuploidia. A que devemos estar sempre atentos é ao fato destas alterações serem muito intensas. Neste cenário, é necessária uma análise mais criteriosa e minuciosa, pois existe aí uma grande possibilidade de diagnóstico de malignidade. Nenhum critério isolado pode ser considerado patognomônico (característico) de câncer, sempre devemos nos atentar às combinações de critérios para estabelecer com segurança um diagnóstico de malignidade. Outro achado citológico relevante é a coloração da paracromatina. Quando a coloração é azulada, é observado um aumento do volume nuclear, sendo sugestivo de malignidade; quando a coloração é avermelhada, pode ser sugestiva de processos infecciosos. Nos casos de morte celular, pode ser observada a cariorrexe, que ocorre devido a ‘quebra’ da picnose e a dissolução da carioteca, ou ainda cariólise ou cromatólise, quando material nuclear estará totalmente dissolvido e passa a ser observado um espaço vazio e descorado na região nuclear. Outro ponto muito importante em citopatologia é o fato de o núcleo nos permitir determinar sua atividade celular atual. O núcleo também tem outras funções, como a transcrição do RNA (ácido ribonucleico) e seu transporte ao citoplasma para produção de proteínas, armazenamento e replicação de DNA (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2018; MONTANARI, 2016; BRASIL, 2012b; BRASIL, 2012c). 70 2.2 NUCLÉOLO É encontrado dentro dos núcleos celulares geralmente não individualizados por membranas. Possuem formato esférico, redondo ou mesmo ovais, com diâmetro médio entre 1-3 µm. São formados por proteínas, RNA e DNA. Local onde ocorre a transcrição de DNA ribossômico à RNAr – RNA ribossomal –, fato fundamental para síntese de proteínas. Existe uma correspondência entre o tamanho dos nucléolos e o grau de produção de proteínas, quanto maior o seu tamanho, maior a produção proteica (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2018; MONTANARI, 2016; BRASIL, 2012b; BRASIL, 2012c). Na citopatologia, nucléolos muito grandes e com aspecto irregular podem ser preditivos de câncer, mas podem ser também encontrados em situações benignas, como nos processos de reparação celular/tecidual. Grande parte das células humanas apresentam em média seis nucléolos. Já é classificado como anormalidade celular, merecendo toda a atenção para as possíveis combinações diagnósticas. Outro fato a ser considerado em citopatologia é o aumento celular (até duas vezes o seu tamanho original), principalmente quando a célula está pronta para a divisão celular – a célula irá entrar em processo de mitose. Junqueira e Carneiro (2018) nos alerta sobre a necessidade de conhecermos as fases da mitose, e ainda a correlacionar com a meiose. Segundo este mesmo autor e ainda conforme o Ministério da Saúde (2012b), podemos dividir, didaticamente, o processo da mitose em: I- Prófase: ocorre a desintegração da membrana celular. II- Metáfase: ocorre o alinhamento dos cromossomos na porção central (meridianos). III- Anáfase: fase em que ocorre a separação dos cromossomos. IV- Telófase: divisão celular. É fundamental conhecer a atividade mitótica do tecido em análise. Na figura 3, temos uma eletromiografia, exemplificando a mitose nas células meristemáticas de raiz de cebola. Na parte central, é possível verificarmos a fase de metáfase, onde os cromossomos encontram-se ao longo da placa equatorial e ainda pode-se observar as fibras do fuso e a direita tem-se uma prófase. 71 FIGURA 3 – FOTOMICROGRAFIAS DE RAIZ DE CEBOLA FONTE: <http://twixar.me/ZGcm>. Acesso em: 4 fev. 2022. Você sabe o porquê da importância de reconhecer as fases da divisão celular? Porque o aumento desta atividade e ainda visualizações de fases de divisão celular atípicas podem estar intimamente relacionadas à malignidade celular! Os cânceres em geral apresentam divisões celulares descontroladas, alterando a relação volumétrica entre o núcleo e o citoplasma. Segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012b), comumente após o término da divisão celular, com o amadurecimento celular, o núcleo e o seu nucléolo involuem, ou seja, ficam menores; fato que geralmente não ocorre no câncer, fazendo com o núcleo sempre esteja ativo e com isso apresenta-se muito maior que o normal, originando o macronúcleo. Este ‘acontecimento’ é muito comum em situações inflamatórias e como resposta a terapias que fazem uso de radiação, logo, diagnósticos de câncer não devem ser feitos apenas baseados em observações de alterações nucleares, várias outras características devem ser consideradas, conforme já dito anteriormente. DICAS Você sabe que o olho humano não tem a capacidade de visualizar a maio- ria das células animais, pois elas possuem em média 20μm (0,02 mm)? Neste momento, convidamos você, acadêmico, a saber ainda mais sobre os microscópios, instrumentos tão valiosos no dia a dia da citopatologia clínica. Acesse: https://www.ufmg.br/espacodoconhecimento/como-o-o- lho-funciona/ e https://www.unioeste.br/portal/microscopio-virtual/o-mi- croscopio-de-luz. Vale a pena conferir! 72 INTERESSANTE Quer conhecer mais sobre as técnicas de microscopia utilizadas atualmente? Não deixe de ler ao final desta unidade a Leitura Complementar! É uma reportagem da revista Galileu sobre as cinco principais técnicas usadas em laboratórios para estudar os vírus. Está muito interessante! Não deixe de conferir! Boa leitura! 2.3 CITOPLASMA O interior celular é preenchido com a matriz citoplasmática – citosol – ou mais popularmente conhecido como citoplasma e embebidos nele, encontramos as diversas organelas celulares. Como exemplo, podem ser citados: retículo endoplasmático, complexo de Golgi, mitocôndrias etc. O citosol apresenta-se como um gel de composição variada, podendo portar vitaminas, aminoácidos, ácidos nucleicos, proteínas, carboidratos, glicose, dentre várias outras (MONTANARI, 2016). Segundo Junqueira e Carneiro (2018), no citoplasma existe uma grande quantidade de microfilamentos de actina e microtúbulos que formam o citoesqueleto da célula. Existem ainda proteínas motoras responsáveis pelo transporte interno de organelas e de vesículas e enzimas, que possuem como substrato diversos tipos de moléculas, entre elas, as responsáveis pela quebra energética de ATP – trifosfato de adenosina, através da via glicolítica (anaeróbia). Para o Ministério da Saúde BRASIL, 2012b; BRASIL, 2012c), é possível identificar em algumas secreções, como a mucina, produzida em células tumorais e o glicogênio presente em células escamosas intermediárias da cérvice vaginal através da marcação/ coloração por ácido de Schiff, o que facilita o estabelecimento de um possível diagnóstico de malignidade, a partir da observação citoplasmática. Outros constituintes celulares ou mesmo outros constituintes de interesse podem ser marcados em amostras citológicas: como a melanina em casos de melanomas malignos, a hemossiderina presente em macrófagos presentes em áreas hemorrágicas e a queratina nos casos de carcinomas escamosos queratinizantes. Os limites citoplasmáticos da célula podem ser estabelecidos da seguinte forma: o que está fora do núcleo até a membrana celular. Infelizmente, algumas organelas não podem ser vistas em lâminas citopatológicas,exceto em circunstâncias extraordinárias, como nos hepatócitos que são riquíssimos em mitocôndrias, fundamentais na respiração celular, ou ainda em situações patológicas como nos tumores oncocíticos, que passam a apresentam um aumento considerável em sua eosinofilia, e ainda nas células beta das ilhotas de Langerhans. 73 DICAS Você sabia que as nossas mitocôndrias são oriundas apenas de nossa mãe genética? Ficou curioso? Não deixe de ler a reportagem “As filhas de Eva”, disponível no link: https://super.abril.com.br/ciencia/as-filhas-de-eva/. 2.4 MEMBRANA CELULAR Segundo Montanari (2016), a membrana celular ou membrana plasmática é formada por uma bicamada lipídica com espessura entre 9 e 10nm, o que é impossível de visualizar no MO! Vale considerar que essa estrutura nas organelas tem cerca de 7nm de espessura e também não é visível ao microscópio de luz. Ao ser analisada no microscópio eletrônico, podemos perceber sua estrutura trilaminar: duas linhas mais escuras separadas por uma linha central mais clara. A imagem traz uma representação esquemática da estrutura da membrana celular. Essa representação é conhecida como modelo de mosaico fluido. A membrana é formada por uma bicamada lipídica, com proteínas, glicolipídios, glicoproteínas e ainda proteoglicanos inseridas em sua estrutura. A membrana possui áreas hidrofóbicas, que correspondem às cadeias de ácidos graxos, que na figura correspondem às linhas amarelas. Observe no esquema de fosfolípide, na porção superior da Figura 4, e áreas hidrofílicas, representadas no esquema como pequenas esferas representadas no desenho esquemático. É possível perceber as proteínas integrais, também chamadas de proteínas transmembranas, que atravessam toda a membrana; as proteínas periféricas que se encontram parcialmente embebidas na estrutura da bicamada. 74 FIGURA 4 – ESQUEMA DA MEMBRANA PLASMÁTICA – MODELO MOSAICO FLUIDO FONTE: <http://twixar.me/hGcm>. Acesso em: 18 mar. 2022. Espaço extracelular Glicolipídeo Proteína globular Glicoproteína Membrana célular Citoplasma Proteína periférica Proteinas transmembranas Colesterol Junqueira e Carneiro (2018) explicam que na face externa da membrana, espaço extracelular, existe o glicocálice, estrutura formada pelo conjunto de glicoproteínas e glicolipídios (cadeias de hidratos de carbono). Quando a membrana passa pelo processo de criofratura (congeladas e/ou fraturadas), ocorre a clivagem das duas membranas e algumas proteínas ficam aderidas em uma das superfícies, enquanto outras se aderem à superfície oposta, mas a maioria das proteínas de membrana fica aderida à porção interna da estrutura trilaminar. Outra função primordial da membrana é a manutenção do meio intracelular, pois ele possui composição e concentrações diferentes daquelas apresentadas pelo meio extracelular, conforme Figura 5. Mesmo com estes limites estabelecidos, sabe- se que existe grande comunicação entre estes meios. Essa ligação é mediada pelas proteínas de membrana. 75 FIGURA 5 – TIPOS DE TRANSPORTE VIA MEMBRANA PLASMÁTICA FONTE: <http://twixar.me/4Gcm>. Acesso em: 27 fev. 2022. De acordo com o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012b), além de ser um dos responsáveis pelo estabelecimento de limite e barreira física, a membrana também é uma das corresponsáveis pela homeostase celular, pois permite ou não a passagem de algumas substâncias através de sua estrutura, principalmente mediada pelas proteínas transmembranas. Ainda podem apresentar pregas, que propiciam expansão do volume celular, ou ainda microvilosidades, como nas células do mesentério. Outra característica apontada por esse mesmo autor é a capacidade de realizar o catabolismo de bactérias ou outros produtos, processo conhecido como endocitose, que acontece a partir da invaginação da membrana com o englobamento da partícula a ser fagocitada. Outro ponto é que o crescimento celular ocorre até o contato com as células circunvizinhas, o que não ocorre nos casos de cânceres. Esta é uma das principais características perdidas nesta doença e que em citopatologia é muito importante, pois, com o crescimento desregulado, devido à perda da inibição por contato, é possível ver a invasão celular em estruturas vizinhas – veremos está situação mais detalhadamente nos próximos tópicos. Em algumas preparações citopatológicas, é possível ver a membrana celular nítida como nas células escamosas ou ainda nem tão nítida assim como nos histiócitos. 76 O Ministério da Saúde (BRASIL, 2012b; BRASIL, 2012c) ressalta que em preparações citopatológicas o “fundo” do esfregaço, também conhecido na área como background, corresponde ao material extracelular presente no local de coleta. Este pode apresentar-se como normal, refletir um possível processo inflamatório ou ainda displásico ou neoplásico. Quando é possível visualizarmos hemácias intactas, devemos considerar este achado como inespecífico, porém, quando identificamos células inflamatórias, temos um indicativo forte da ocorrência de processos inflamatórios locais. É comum, em processos em que ocorre invasão tecidual por tumores, a presença de diátese tumoral (presença de hemácias íntegras ou degeneradas e ainda de fibrina e restos celulares necróticos. Existe uma série de características citomorfológicas que devem ser observadas pelo analista para estabelecer critérios de malignidade. Estas características encontram- se reunidas no Quadro 2. QUADRO 2 – CARACTERÍSTICAS CITOLOGICAS IMPORTANTES NO DIAGNÓSTICO DE MALIGNIDADE Células Núcleo Citoplasma • Numerosas, desorganizadas (podendo apresentar- se empilhadas ou em formato de sincícios). • Atípicas e/ou isoladas. • Canibalismo (verifica-se uma célula dentro de outra estrutura celular). • Pleomorfismo. • Contornos anormais e aumento da relação núcleo-citoplasma) • Grande variabilidade das células de um mesmo local. • Estrutura nuclear desorganizada, aumentado e ainda com coloração atípica. • Tamanho, contornos e formas anormais. • Multinucleações (mais de seis). • Núcleos desnudos (sem citoplasma). • Cromatina anormal, irregular e divisões celulares anormais. • Falta de limites celulares definidos. • Colorações atípicas. • Constituintes celulares anormais, como queratina, mucinas etc. FONTE: Adaptado de <https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/tecnico_citopatologia_ caderno_referencia_2.pdf>. Acesso em: 4 fev. 2022. Outro aspecto fundamental nas análises citopatológicas é fazer o diagnóstico diferencial entre o quadro reacional do corpo humano, que é uma condição benigna, e aquelas características indicativas de malignidade, aquelas diagnosticadas como câncer, características diferenciais reunidas no Quadro 3. 77 QUADRO 3 – DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL ENTRE CONDIÇÃO BENIGNA REACIONAL E CÂNCER Locais a serem observados Reparo Câncer Grupo • No geral apresentam-se coesos, ordenados em linhas ou fileiras (arranjos ‘planos’) • Apresentam-se pouco ou nada coesos, desordenados e na maioria das vezes com sobreposição. Células • Com coesão e poucas células isoladas. • Menor coesão e muitas células isoladas. Citoplasma • Relação núcleo/citoplasma normal, não queratinizado. • Podem apresentar polimorfonucleares e ainda policromasia. • Relação núcleo/citoplasma aumentada. • Podem apresentar queratinização. • Geralmente não apresentam polimorfonucleares e nem monocromasia. Núcleo • Hipocromático, pálido e fino. • Hipercromático, escuro e grosseiro. Cromatina • Hipocromática e regular. • Hipercromática e irregular. Fundo do Esfregaço • Limpo com presença de células inflamatórias. • Presença de diátese. Nucléolo • Macronucléolo com semelhanças entre as demais células da amostra. • Pode apresentar macronúcleo, porém com grande variação entre as células da amostra. FONTE: Adaptado de <https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/tecnico_citopatologia_ caderno_referencia_2.pdf>. Acesso em: 4 fev. 2022. 3 MAMA E TIREOIDE: PADRÕESCITOPATOLÓGICOS DE INTERESSE CLÍNICO Entre os tipos de câncer mais prevalentes atualmente, temos o de mama, e ainda o câncer de tireoide. Devido a este fato, neste tópico, vamos estudar com mais detalhes as características cito histopatológicas e anatômicas destes dois sítios. Vamos estudar a fisiologia normal e aquela considerada patológica. Vamos juntos! 3.1 MAMA As mamas na raça humana estão localizadas na porção central do tórax. Apresentam a aréola e a papila na sua porção central. Cada glândula possui em média de 15 a 25 lóbulos de glândulas tubuloalveolares independentes, chamados de ductos galactóforos, e são separados, entre si, por tecido conjuntivo fibroso denso e ainda por tecido adiposo, que podem estar ativos ou inativos, quando ativos, sua função é secretar leite para nutrir os recém-nascidos, conforme figura 6 (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2018). 78 FIGURA 6 – ESQUEMA DA GLÂNDULA MAMÁRIA FONTE: <http://twixar.me/bGcm>. Acesso em: 18 mar. 2022. As doenças fibrocísticas, os fibroadenomas, os cistos e ainda a maioria dos cânceres possuem geralmente a mesma origem: os lóbulos. Os papilomas solitários, carcinomas papilares, ectasia ductal e a doença de Paget possuem origem nos grandes ductos. As doenças mais comuns que acometem as mamas podem ser classificadas em três grandes grupos: inflamação (aguda, crônica e mastite), hiperplasia (fibrocísticas, alterações da gestação e ainda neoplasias benignas) e câncer. As mamas possuem dois tipos celulares principais: epiteliais e mioepiteliais. As epiteliais têm funções secretoras e absortivas, e as mioepiteliais circundam os ductos, têm contratilidade e são responsáveis pelo trânsito da secreção do leite pelo sistema ductal. Estas são comuns em aspiradores de mama, apresentando-se pequeninas e com grande coesão. A membrana nuclear é tênue e delicada, hipercromática e nucléolo único e discreto. Quando as células se apresentam irregulares, nucléolo proeminente (macronucléolo) é preditivo de diagnóstico de malignidade. Outro achado sugestivo é a presença de vacúolos secretores de mucina, assim como células mioepiteliais soltas. Segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012b; BRASIL, 2012c), as células espumosas são encontradas isoladas ou ainda em grupo e apresentam citoplasma abundante, bordos irregulares e ainda multivacuoladas. Seus núcleos geralmente são pouco corados e arredondados, quando células espumosas multinucleadas são identificadas pode ser preditivo de lesões benignas ou mesmo de casos de câncer. Segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012b), os ductos medem em média de 2 a 4,5 cm de comprimento convergindo para o mamilo que por sua vez possui entre 15 e 25 aberturas, com diâmetro médio de 0,5mm. 79 Estas células são frequentemente observadas em aspirados benignos de mama nos cistos e nos fibroadenomas. Elas apresentam alta coesão, são regulares, planas e podem ainda ser vistas isoladas, tanto em materiais obtidos por PAAF de mama quanto por descarga mamilar. As categorias de diagnósticos na PAAF da mama são: I- Negativo para malignidade. II- Atípicos. III- Suspeitos. IV- Positivo para malignidade. V- Inadequado ou insatisfatório. FIGURA 7 – OBJETOS QUE PODEM SER UTILIZADOS EM PAAF DE MAMA FONTE: <http://twixar.me/gGcm>. Acesso em: 18 mar. 2022. Segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012b; BRASIL, 2012c), outro achado que devemos dispensar maior atenção são os vacúolos de gordura intracitoplasmáticos, pois são comuns nos carcinomas. Nas lesões classificadas como benignas, podem ser identificadas variabilidades nos tipos celulares, inclusive nas apócrinas, nas espumosas e ainda nos mioepiteliais. No Quadro 4 estão resumidos os principais padrões de benignidade e de malignidade apresentados pelos PAAF de mama. 80 QUADRO 4 – COMPARATIVO ENTRE PADRÕES DE BENIGNIDADE E MALIGNIDADE: PAAF DE MAMA Observações Benignidade Malignidade Celularidade • Pobre a moderada. • Elevada. Dissociação celular • Folhetos ou grupos coesivos. • Comumente células isoladas. Grupos celulares • Limites lisos ou em paliçada. • Limite denteado. Tamanho da célula • Pequenas. • Geralmente grandes. Tamanho do núcleo • Tamanho de uma hemácia. • Maiores que as hemácias. Pleomorfismo • Nenhum. • Comum. Núcleo • Contorno liso. • Contorno irregular. Cromatina • Vesicular ou finamente granular. • Em grumos. Necrose • Ausente. • Pode estar presente. Células mioepiteliais • Muitas. • Raras. Células isoladas do estroma • Comum. • Raras. Fragmentos do estroma • Comum. • Raras. Vacúolos citoplasmáticos • Incomuns. • Podem ser observados. Inclusões intranucleares • Incomuns. • Raros. Mucina • Rara. • Comum. Células inflamatórias • Podem estar presentes. • Podem estar presentes. Macrófagos espumosos • Geralmente presentes. • Às vezes presentes. Células tumorais gigantes • Ausentes • Podem estar presentes. Células apócrinas • Comuns • Raras. Mitoses • Incomuns • Comuns. FONTE: Adaptado de <https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/tecnico_citopatologia_ caderno_referencia_2.pdf>. Acesso em: 4 fev. 2022. 81 3.2 TIREOIDE A principal função da glândula tireoide é produzir e armazenar os hormônios tireoideanos que regem o metabolismo humano. A glândula é formada por dois lóbulos laterais, ligados por um istmo e sua unidade funcional é o folículo (Figura 8), que, por sua vez, é formado por um coloide ao centro, circundado por epitélio folicular, seu tamanho médio é de 200 µm de diâmetro (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2018; MONTANARI, 2016; BRASIL, 2012b; BRASIL, 2012c). FIGURA 8 – DESENHO ESQUEMÁTICO DA TIREOIDE 3D FONTE: <http://twixar.me/wGcm>. Acesso em: 18 mar. 2022. As células da tireoide, quando ativas, apresentam grande quantidade citoplasmática e se apresentam com um arranjo similar a “favo de mel” ou esféricos, característica muito importante no diagnóstico de possíveis malignidades (ANDRADE; FERRARI, 2012; JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2018; MONTANARI, 2016; BRASIL, 2012b; BRASIL, 2012c). Outra característica a ser observada nas benignidades é a integridade dos folículos, células esparsas e ainda isoladas, contrapondo aos amontoados celulares em rosetas ou microacinares em casos sugestivos de malignidade. Um fato que devemos ter atenção é a possível presença de nucléolos, que podem ser vistos em células reativas ou regenerativas. Multiplicidade é sugestivo de malignidade (BRASIL, 2012b; BRASIL, 2012c; JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2018). 82 Para Andrade e Ferrari (2012) e para o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012b; BRASIL, 2012c), as células de Hurte são afuncionais, pois não sintetizam tiroxina e ainda possuem produção de tireoglobulinas variáveis. Quando formam agrupamentos, são chamadas de ‘nódulos frios’ e são comuns em lesões benignas – Tireoidite de Hashimoto, bócio –, mas também podem estar presentes em neoplasias malignas (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2018; MONTANARI, 2016). Ocorreu em 2007, nos Estados Unidos, na cidade de Bethesta (Maryland), uma conferência com a finalidade de se estabelecer terminologias e critérios a serem utilizados nos diagnósticos de PAAF da tireoide. Encontram-se elencadas no Quadro 5. QUADRO 5 – CATEGORIAS DE DIAGNÓSTICO PARA PAAF DE TIREOIDE Classe Significado I Amostra insatisfatória. II Nódulo benigno. III Atipia de significado indeterminado ou lesão folicular de significado indeterminado. IV Neoplasia folicular ou nódulo suspeito de neoplasia folicular. V Lesão suspeita de malignidade. VI Nódulo maligno. FONTE: Adaptado de <https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/tecnico_citopatologia_ caderno_referencia_2.pdf>. Acesso em: 4 fev. 2022. Amostras satisfatórias são aquelas que apresentam pelo menos seis grupos de células foliculares benignas e com pelo menos dez células em cada um dos grupos. Em todos os casos que for possível estabelecer um diagnóstico específico a amostra será considerada satisfatória. Nos casos de amostras insatisfatórias, elas apresentaram- se muito hemorrágicas, espessos, dessecadosou quando apresentarem número de células foliculares inadequados. Dentre os diagnósticos benignos, os mais comuns, segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012b; BRASIL, 2012c), são os nódulos foliculares – bócio multinodular e o adenoma folicular. Menos frequentemente podemos citar os pseudonódulos decorrentes de processos inflamatórios como na Tireoide de Hashimoto e na Tireoidite aguda. Estes nódulos podem ser caracterizados pela variação do quantitativo de coloide, presença de células foliculares, células de Hurte e ainda de macrófagos. A atipia de significado indeterminado ou mesmo de lesão folicular de significado indeterminado ocorre quando os esfregaços celulares possuem células foliculares e linfoides (ou mesmo outras) com presença de atipia nuclear ou de arquitetura não suficiente para classificá-la. Nos casos de neoplasia folicular ou ainda de nodulações, as amostras apresentam alta celularidade, com células isoladas ou ainda em grupos. 83 Pode ser percebida ainda escassez de coloide, células com volume um pouco maior, com presença de citoplasma, porém com observação de atipias, o que oferece uma suspeita de adenoma ou mesmo carcinoma. Já aquelas classificadas com suspeita de malignidade apresentam alterações morfológicas que geralmente permitem direcionar a suspeita: carcinoma papilar, metastático ou medular e ainda linfomas. Nas nodulações malignas que já apresentam características suficientes para o diagnóstico definitivo, deve- se explicitar o tipo de neoplasia/carcinoma, que podem ser classificadas como: I- Carcinoma papilar de tireoide. II- Carcinoma pouco diferenciado. III- Carcinoma medular de tireoide. IV- Carcinoma indiferenciado (anaplásico). V- Carcinoma de células escamosas. VI- Carcinoma misto (com especificação dos tipos identificados). VII- Carcinoma metastático. VIII- Linfoma não Hodgkin, entre outros (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2018; MONTANARI, 2016; BRASIL, 2012b; BRASIL, 2012c; ANDRADE; FERRARI, 2012). 84 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você aprendeu: • As principais particularidades sobre o núcleo e o citoplasma das células. • As características fisiológicas e patológicas dos núcleos celulares e seus possíveis diagnósticos em citopatologia. • As principais características das fases da divisão celular e as características de cada uma delas. • Identificação nas amostras citopatológicas das células discarióticas (malignas). • Percepção de situações degenerativas nas amostras celulares. • As alterações nos nucléolos celulares preditivos de situações benignas e malignas. • Percepção das células com multiplicações descontroladas, bem como alterações de volume e da relação citoplasma/núcleo. • A importância da membrana celular na homeostasia celular e para a arquitetura das células humanas e as principais características do modelo “mosaico fluido” e seu auxílio nos vários tipos de diagnósticos em citopatologia. • Diagnóstico diferencial de condições benignas reacionais e do câncer aplicadas às mamas e a tireoide. • Reconhecimento de características citomorfológicas importantes no diagnóstico de malignidade. • Os padrões citopatológicos de interesse clínico aplicados as mamas e a tireoide. 85 RESUMO DO TÓPICO 1 AUTOATIVIDADE 1 (Adaptada do ENADE – Biomedicina, 2013) A imagem apresentada corresponde a uma ressonância magnética, na qual o segmento do paciente é separado, eliminando- se a superposição de estruturas adjacentes que ocorre na radiografia convencional, facilitando os diagnósticos diferenciais, que neste caso é sobre o câncer de mama. Sobre o processo de investigação do câncer de mama, assinale a alternativa CORRETA: FONTE: ALVAREZ, B. R. MICHELL, M. O uso na investigação do câncer mamário. Radiologia Brasileira, v. 36, n. 6, p. 373-378, 2003. FONTE: <https://download.inep.gov.br/educacao_ superior/enade/provas/2013/02_BIOMEDICINA.pdf>. Acesso em: 14 fev. 2022. a) ( ) Exames complementares não são necessários no diagnóstico de câncer de mama. b) ( ) O câncer de mama somente pode ser diagnosticado através de ultrassom. c) ( ) O câncer de mama somente pode ser diagnosticado por punções. d) ( ) Exames diferenciais, tomografias, ressonâncias, entre outros, podem auxiliar no diagnóstico, assertivo e precoce de casos de câncer de mama. 86 2 (Adaptado de PUC-RJ) A diferença entre células eucariontes e procariontes está no núcleo. Os indivíduos procariontes possuem a molécula de DNA espalhada no citoplasma, enquanto, nos indivíduos eucariontes, ela se encontra no núcleo da célula. Quanto a esse núcleo, assinale a alternativa CORRETA: FONTE: <https://exercicios.brasilescola.uol.com. br/exercicios-biologia/exercicios-sobre-nucleo- das-celulas.htm#:~:text=(PUC%2DRJ)%20A%20 diferen%C3%A7a,encontra%20no%20n%C3%BAcleo%20 da%20c%C3%A9lula>. Acesso em: 31 maio 2022. a) ( ) Um núcleo saudável de uma célula possui sempre uma forma redonda e se encontra em seu centro, pois assim controla igualmente toda a célula. b) ( ) No núcleo se encontra a cromatina, que é a associação das moléculas de DNA e proteínas, imersa no citoplasma e envolvida pela membrana nuclear. c) ( ) O núcleo é a região da célula que controla toda a produção de proteína, já que contém a molécula do DNA. d) ( ) Além da molécula do DNA, o núcleo da célula contém outros organoides, como os ribossomos e o retículo. 3 (Adaptada ENADE – Farmácia, 2013) A latenciação de fármacos consiste na transformação do fármaco em forma de transporte inativo que, in vivo, mediante reação química ou enzimática, libera a porção ativa no local de ação ou próximo dele. Várias macromoléculas biológicas naturais e sintéticas têm sido empregadas como transportadores de agentes quimioterápicos, partindo-se do conhecimento de que as características anatômicas e fisiológicas dos tecidos tumorais são diferentes dos tecidos normais. Os vasos dos tecidos tumorais apresentam as propriedades de permeabilidade e retenção aumentadas, as quais desempenham papel essencial na distribuição do fármaco no espaço intersticial. A figura a seguir ilustra uma representação esquemática de pró-fármaco. 87 FONTE: <https://download.inep.gov.br/educacao_superior/enade/provas/2013/05_FARMACIA.pdf>. Acesso em: 14 fev. 2022 Sobre as características da membrana plasmática, podemos afirmar: I. possui permeabilidade seletiva; II. possui porção polar; III. possui porção apolar; IV. pode apresentar proteínas transmembranas. É correto apenas o que se afirma em: a) ( ) I e II. b) ( ) I, II, III e IV. c) ( ) I e III. d) ( ) II, III e IV. 4 É inegável a importância das análises citopatológicas para o diagnóstico dos diversos tipos de cânceres. Sobre seus conhecimentos a respeito, disserte sobre os principais objetivos dos diagnósticos precoces. 5 Existem várias alterações celulares que devem ser observadas em análises citopatológicas com a finalidade de estabelecer-se um diagnóstico assertivo. Cite e explique as principais alterações celulares que podem ser identificadas em casos de malignidade. 88 89 PARTICULARIDADES DO TRATO GENITAL FEMININO (TGF) 1 INTRODUÇÃO UNIDADE 2 TÓPICO 2 - Acadêmico, neste Tópico 2, vamos estudar o trato genital feminino (TGF) e suas principais características referentes às estruturas anatômicas, fisiológicas e cito- histológicas. Também iremos estudar as características metaplásicas, fisiológicas e inflamatórias deste trato e as principais formas de diagnóstico de cada uma delas. A principal forma de diagnóstico das principais doenças que acometem o TGF é o esfregaço vaginal, muito conhecido como exame de Papanicolau. Este procedimento é não invasivo e não causa nenhuma complicação à paciente, além de apresentar baixíssimo custo. Vale lembrar que o exame citopatológico é o método de rastreio eleito para identificação e prevenção do câncer de colo de útero, que segundo estimativas do INCA, Instituto Nacional do Câncer, para o ano de 2020, no Brasil, seriam novos 16.710 casose, infelizmente, 6.596 óbitos decorrentes deste tipo de câncer. Estes dados apenas reforçam a necessidade real de estudarmos cada dia mais as particularidades do TGF. Então, vamos juntos! 2 ANATOMOFISIOLOGIA E CITO-HISTOLOGIA DO TGF O TGF é constituído por dois ovários ou gônadas, duas tubas uterinas, o útero, a vagina e a genitália externa ou vulva, além do clitóris, o bulbo do vestíbulo e as glândulas anexas, vestibulares maiores e menores (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2018). Os ovários são as gônadas femininas (Figura 9), e segundo Junqueira e Carneiro (2018), possuem em média 3 cm de comprimento, 1,5 cm de largura e aproximadamente 1cm de espessura, porém, estas dimensões variam de acordo com cada indivíduo (variações anatômicas) e a ainda dependem da fase do ciclo menstrual na qual as características estão sendo avaliadas. Outra informação importante é que são dois, um de cada lado do útero, estando interligadas pelas trompas. Produzem hormônios sexuais (progesterona e estrogênio) e ainda o gameta feminino (BRASIL, 2012a; KOSS; GOMPEL, 2014). 90 Os ovários são revestidos por tecido epitelial cúbico simples, e, em algumas porções, é possível encontrar tecido epitelial pavimentoso simples. Logo a seguir temos a túnica albugínea, em que o tecido conjuntivo denso e os vasos sanguíneos se fazem presentes além das células de Leydig, que produzem os hormônios sexuais estimuladas pelas gonadotrofinas, região conhecida como cortical e de aparência esbranquiçada. Os folículos ovarianos (ovócitos) desenvolvem nos ovários e podem ser encontrados junto ao tecido conjuntivo frouxo, na porção denominada como estroma, que possui conformação característica (em redemoinhos). Nesta região, durante o ciclo sexual dependente hormonalmente de FSH e LH ocorrem alterações ovarianas. Aqueles folículos não estimulados permanecem inativos, como na infância, período em que praticamente não ocorre secreção hormonal. FIGURA 9 – OVÁRIO FONTE: <http://twixar.me/9Gcm>. Acesso em: 18 mar. 2022. Um fato que devemos estar atentos é que as mulheres já nascem com sua totalidade de folículos, cerca de 400 mil deles, segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a) e Consolaro e Maria-Egler (2014). Em geral, cerca de 1000 ovócitos são recrutados para o amadurecimento, porém, na imensa maioria, apenas um, por ciclo, é liberado. Este ciclo menstrual é em média de 28 dias, com ovulação em torno do 14° dia (período fértil), e o folículo pós-período de ovulação transforma-se em corpo-lúteo, impedindo uma nova ovulação. As tubas uterinas são as responsáveis por captar o ovócito liberado pelo ovário e levá-lo em direção ao útero (BRASIL, 2012a; JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2018). O útero recebe o óvulo fecundado, fornecendo a ele tudo o necessário para o seu desenvolvimento. Ele é formado por três camadas: internamente, tem-se o endométrio (revestido por muco), externamente o perimétrio, camada serosa e, entre elas, existe o miométrio, formado por uma espessa rede de fibras musculares lisas e colágenas, e elas, a depender do estágio hormonal, apresentam três fases: proliferativa, secretora e menstrual – fases que iremos estudar neste tópico um pouco mais a frente. A estrutura uterina é dividida anatomicamente em: 91 I- corpo do útero – região com maior volume e possui aspecto de triângulo; II- colo do útero – região mais estreita por isso camada popularmente de canal cervical ou cérvice; III- istmo do útero – região da parte inferior do corpo do útero; IV- fundo do útero – região que fica acima do eixo que faz a ligação do útero com as tubas uterinas. O colo uterino possui como limites o óstio interno, próximo com o istmo do útero e o óstio externo, ligado ao canal vaginal. A parede do colo do útero é formada pela endocérvice e pela ectocervice. A primeira é uma camada mucosa, revestida por tecido epitelial colunar simples mucossecretor (Figura 21) – produtor do muco cervical –, e a segunda, é formada por um epitélio escamoso estratificado não queratinizado, semelhada a da vagina. A ligação entre estas duas camadas é chamada de junção escamocolunar (JEC), e pode ter pequenas alterações devido ao estado hormonal, gestacional, parto ou ainda devido a possíveis traumas. FIGURA 10 – CITO-HISTOLOGIA DO ÚTERO: ENDOCERVICE – TECIDO EPITELIAL COLUNAR SIMPLES MUCOSSECRETOR FONTE: <http://twixar.me/JGcm>. Acesso em: 27 fev. 2022. Quando o epitélio da vagina e útero estão maduros, ou seja, em fase reprodutiva, podemos dividi-lo, basicamente, em quatro camadas: I- camada parabasal, formada por várias camadas de células arredondadas, com características basófilicas, corando de azul ou verde; 92 II- camada intermediária, formada por células poligonais ou elipsoides grandes, com núcleos redondos vesiculares e citoplasma rico em glicogênio e núcleos com cromatina delicada e uniformemente distribuída, menos coradas que as parabasais, células escamosas intermediárias coradas de castanho devido ao grande acúmulo de glicogênio; III- camada superficial, epitélio composto por células aplanadas com citoplasma abundante, eosinofílico, e núcleos picnóticos, células superficiais com grânulos querato-hialinos; IV- camada celular em escamas, células desta camada são as mais comuns nos esfregaços no período ovulatório do ciclo menstrual, também são poligonais, mas para diferenciá-las das células intermediárias é fundamental a análise nuclear. Nestas, o núcleo é picnóticos (cromatina condensada) sem evidência de granulação, conforme a Figura 4 da Unidade 1. É importante salientar aqui que todas as camadas, exceto a basal, na verdade são células em diferentes estágios de amadurecimento das células basais (BRASIL, 2012a). As células das glândulas endocervicais também são revestidas por epitélio colunar simples, mucossecretoras, monoestratificadas, quando vistas de frente, ou ainda em forma de paliçada, quando vistas lateralmente. Possuem citoplasma cianofílico fraco com presença de vacúolos e grânulos acidófilos e núcleo em sua região basal e raramente são ciliadas. 3 METAPLASIAS Conforme aponta o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a), ocorrem alterações hormonais nos epitélios da região do colo uterino, principalmente devido à maior exposição das células ao pH ácido vaginal após a puberdade e ainda durante processo gestacional. Esta situação dá origem a uma eversão, ectopia do epitélio da região endocervical, desencadeando o processo de metaplasia escamosa, que nada mais é que um processo adaptativo do epitélio colunar, que deixa de existir, dando origem ao epitélio escamoso estratificado não queratinizado. Para o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a), tecnicamente, existem três estágios no processo de metaplasia escamosa: no primeiro, temos o aparecimento de uma e posteriormente inúmeras células imaturas de células de reserva, processo chamado de hiperplasia das células de reserva. No segundo, existem transformações progressivas das células de reserva em células escamosas, processo chamado de metaplasia escamosa imatura, e, por fim, temos a perda definitiva do epitélio colunar e o novo epitélio agora mais diferenciado, maduro, devido a isso passa a ser uma metaplasia escamosa madura, torna-se praticamente igual a um epitélio escamoso original. 93 A região onde ocorreu a alteração metaplásica é chamada de zona de transformação (ZT), e é justamente nela que ocorrem as maiores incidências de lesão pré-cancerosa e de carcinoma escamoso do colo do útero. Isto provavelmente se deve ao fato de que as células desta região se tornam mais susceptíveis às ações de agentes carcinogênicos, entre eles tem maior destaque o Papiloma Vírus Humano, popularmente conhecido como HPV, sendo assim uma área de grande interesse clínico. Ainda segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a), as células metaplásicas imaturas são redondas a ovais, com pequeno aumento da relação núcleo/citoplasma, com citoplasma delicado que pode apresentar vacúolos. Geralmente, este tipocelular se apresenta em agrupamentos frouxos, lembrando ‘calçamento de pedra’. Já as células metaplásicas maduras apresentam citoplasma mais denso e são mais arredondadas podendo se apresentar também em agrupamentos frouxos. Estes dois tipos celulares podem apresentar-se, também, em formato estrelado – prolongamentos citoplasmáticos, Figura 11. Outra característica comum a elas é no quesito coloração. Elas podem apresentar coloração dupla – citoplasma mais denso (ectoplasma) na região periférica e na região perto do núcleo mais clara, quase que pálido. Note esta característica na Figura 11, na região central da imagem. FIGURA 11 – CÉLULAS COM PROLONGAMENTOS CITOPLASMÁTICOS FONTE: <http://twixar.me/yGcm>. Acesso em: 27 fev. 2022. 94 FIGURA 12 – COLORAÇÃO DE CÉLULAS EPITELIAIS ESCAMOSAS FONTE: <http://twixar.me/zGcm>. Acesso em: 27 fev. 2022. 4 CITOLOGIA HORMONAL É inegável que os hormônios produzam mudanças nos epitélios vaginais e uterinos durante o ciclo menstrual (Figura 13). Estrogênio e progesterona produzem alterações ativas nestes, e, dessa forma, provocam alterações morfológicas importantes no perfil celular das amostras cervicovaginais. 95 FIGURA 13 – CICLO MENSTRUAL E SEUS HORMÔNIOS FONTE: <http://twixar.me/5Gcm>. Acesso em: 27 fev. 2022 Considerando o ciclo menstrual de 28 dias, temos entre o 1° e 6° dia um predomínio de células escamosas intermediárias nas análises de esfregaço vaginais. Também podem ser visualizadas células endometriais e estromais, além de hemácias, bactérias e leucócitos. No segundo período, entre o 6° e 14° dia, a maior parte das células visualizadas são as superficiais, que estarão sob influência do estrogênio, que podem estar isoladas ou em agrupamentos frouxos. Neste período, o esfregaço apresenta-se limpo praticamente sem a presença de bactérias e leucócitos (BRASIL, 2012a). CICLO MENSTRUAL FASE FOLICULAR FASE LÚTEA ov u la çã o Folículos ovarianos óvulo corpo lúteo FSH LH ov u la çã o estrogênio progesterona en do m ét rio dia 1 dia 14 dia 28 MENSTRUAÇÃO FASE PROLIFERATIVA FASE SECRETORA 96 Na terceira fase, período entre o 14° e 24° dia, temos a progesterona em níveis cada vez maiores, o que propicia um predomínio de células escamosas intermediárias em agrupamentos compactos (Figura 14). Células naviculares e bactérias do tipo lactobacilos também podem estar presentes nos esfregaços. Estas bactérias podem provocar uma degradação celular, o que pode provocar a visualização de muitos núcleos desnudos e ainda restos de citoplasma. Por fim, no período entre o 24° e 28° dia, existe um predomínio de células intermediárias e naviculares e os agrupamentos celulares maiores, mais compactos e ainda mais frequentes (BRASIL, 2012a). FIGURA 14 – CÉLULAS CERVICAIS HUMANAS NORMAIS: AGRUPAMENTO DE CÉLULAS SUPERFICIAIS E INTERMEDIÁRIAS (AUMENTO DE 600X) FONTE: <http://twixar.me/SGcm>. Acesso em: 27 fev. 2022. Em algumas fases da vida da mulher, não existe a produção de estrogênio, como ocorre na infância, na lactação e ainda na pós-menopausa. Outras situações não fisiológicas, como a remoção dos ovários, terapias de rádio e quimioterapia, também podem mimetizar a baixa produção de estrogênio. Em todos estes casos, ocorre o predomínio de células escamosas parabasais nos esfregaços cervicovaginais, chamados de atróficos, que podem se apresentar isoladas ou ainda em arranjos que lembram sincícios (sobreposição nuclear e limites citoplasmáticos indistintos). Na gravidez ocorre um grande predomínio celular de células intermediárias, frequentemente com arquitetura navicular, principalmente a partir do 2° mês de gestação. O citoplasma celular apresenta grande quantidade de glicogênio, o que promove uma coloração acastanhada destas células. 97 Esta característica não é exclusiva da gravidez, pode ser observada também na fase secretória do ciclo menstrual, devido aos altos índices de progesterona característicos desta fase. No período pós-parto, o esfregaço atrófico persiste por algumas semanas ou até por alguns meses, apresentando células parabasais com grandes quantidades de glicogênio em seus citoplasmas (BRASIL, 2012a). 5 CITOLOGIA INFLAMATÓRIA O TGF contém a vagina, que está com o meio externo, o que propicia o aparecimento de variadas infecções. Estas podem ser identificadas por sintomas clássicos, como prurido, secreções fétidas ou não, dor e até mesmo sangramento em casos mais crônicos. Geralmente, o exame citológico é utilizado como forma de prevenção ao câncer de colo de útero, mas também é muito utilizado para identificação de processos inflamatórios e ainda ajudam a determinar a sua intensidade, bem como o agente etiológico. A coleta recomendada é a tríplice, onde obtém-se amostras da ectocervice, da endocérvise e ainda da vagina. Segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012ª; BRASIL, 2012c), identificar a presença de agentes infecciosos, não é indicativo de infeção, pois alguns agentes são residentes, principalmente na região vaginal e não provocam sintomatologia. Na região da vagina podemos citar como residentes as bactérias anaeróbicas, como os lactobacilos, o Staphylococcos epidermidis e o Streptococcos viridans, que não causam obrigatoriamente processos infecciosos. A maior ou menor susceptibilidade a infecções vai depender de várias condições, fisiológicas (gravidez, menopausa...), patológicas (distúrbios hormonais, diabetes...) ou ainda locais (DIU, exposição sexual). 5.1 BACTERIANA Vários agentes bacterianos podem ser identificados no TGF. Um deles é o Lactobacillus vaginalis, ou bacilos de Doderlein, que são gram-positivos e perten- cem à microbiota residente. Eles podem provocar citólise das células escamosas a depender do período do ciclo menstrual e são fundamentais na defesa contra mi- cro-organismos patogênicos. Agentes bacterianos mistos também podem ser identificados em esfregaços cervicovaginais, como a mistura de bacilos e cocos. O Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a) afirma que a Gardnerella vaginalis também pode ser identificada. Ela é um coco Gram negativo, e aproximadamente 50% das mulheres possuem essa infecção assintomática, 98 porém, quando o pH vaginal é maior que 4,5, essa bactéria pode associar-se a outras, inclusive ao Mycoplasma hominis e originar a infecções múltiplas, chamada na clínica de vaginose bacteriana. A presença de estreptococos nos esfregaços tem ocorrência, em média, de 30%. Eles têm predileção para pH mais alcalino e está associado a Trichomonas vaginalis. Segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a), outro achado citológico no TGF é o Actinomyces, muito comum na cavidade oral do trato gastrointestinal, porém, recorrente em mulheres que fazem uso do DIU (dispositivo intrauterino) por longos períodos, que deve ser tratado, pois pode ocorrer sua disseminação e provocar infecções severas, inclusive com abscessos. Nos esfregaços, eles se apresentam como estruturas filamentosas, não septadas e com aparência que lembra aranhas ou ouriços do mar. A Clamydia trachomatis, uma Gram-negativa intracelular obrigatória, também pode ser comumente encontrada nas análises citológicas do TGF, apesar de na maioria dos casos as infecções serem assintomáticas. Quando em situações mais severas, aumentam o risco de aborto espontâneo e morte fetal. Nos esfregaços, pode-se identificar esta infecção devido à ocorrência de inclusões citoplasmáticas diferentes, a depender do seu grau de desenvolvimento, podendo ser: corpos elementares, reticulares ou ainda agregados. A grande chave diagnóstica é a presença de macrófagos fagocitando linfócitos degenerados. Outro ponto importante que devemos ressaltar é que quando identificados estes sinais, o citopatologista está automaticamente autorizado a solicitar exames de imunofluorescência e de cultura para investigar a fundo este micro-organismo. Outra bactéria que pode ser identificada no TGF é a Leptothris vaginalis. Ela é uma bactéria anaeróbia filamentosaque se apresenta nos esfregaços em forma de “s” ou “u” com enovelamentos. Comumente está associada com o Tchichomonas vaginalis em mais de 75% dos casos (BRASIL, 2012a). 5.2 FÚNGICA Este tipo de infecção é responsável pela maioria dos casos de vaginite nas regiões tropicais, sendo que mais de 80% destes, são causados pela Candida albicans. A infecção acomete a vulva, vagina e, às vezes, o colo uterino (Figura 15). 99 FIGURA 15 – INFECÇÃO POR CANDIDA ALBICANS SÍNDROME VAGINAL Candidase Fundo ÚTERO Tubo uterino Ovário Ligamento ovariano Ligamento largo Miometria (camada muscular) Perimétrio (camada serosa) Canal cervical Endométrio Abertura do colo do útero Vagina (corte) FONTE: <http://twixar.me/XGcm>. Acesso em: 18 mar. 2022. Grande parte das mulheres são portadoras assintomáticas, mas quando os sintomas são notados, estes podem ser: secreção vaginal espessa, esbranquiçada podendo ter relato de prurido e ardência. Nos esfregaços, são notadas hifas e esporos redondos, que podem se corar de vermelho ou marrom. 100 FIGURA 16 – VISÃO MICROSCÓPICA DA CANDIDÍASE (CANDIDA ALBICANS) EM CITOLOGIA DE PAPANICOLAU FONTE: <http://twixar.me/jGcm>. Acesso em: 18 mar. 2022. 5.3 PROTOZOÁRIA O principal protozoário encontrado no TGF é o Trichomonas vaginalis. Ele é flagelado e possui transmissão por via sexual, desenho esquemático deste protozoário. Segundo relatos do Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a), aproximadamente 50% das mulheres possuem infecção assintomática por este protozoário. Quando os sintomas se fazem presentes, os principais são: corrimento abundante e de cor amarela esverdeada e odor local desagradável. Nos esfregaços, corados através da técnica de Papanicolaou, raramente é possível visualizar seus flagelos, sendo possível a visualização de seu núcleo pequeno, excêntrico, redondo e levemente basofílico. Outro ponto característico nas infecções provocadas por este protozoário é o fundo purulento, por vezes provocado pelo grande acúmulo de neutrófilos. 5.4 VIRAL A infecção pelo herpes genital é causada pelo vírus da Herpes simplex tipo 1 (HSV-1) e tipo 2 (HSC-2). O desenho esquemático da estrutura deste vírus é apresentado na Figura 17. Seus sintomas mais comuns são: febre, mialgia, vesículas na pele ou nas mu- cosas genitais e indisposição. Estas vesículas regridem espontaneamente em até quatro semanas e são recorrentes, porém, este mecanismo ainda não está totalmente elucidado. 101 FIGURA 17 – DESENHO ESQUEMÁTICO DA ESTRUTURA DE ALGUNS VÍRUS, INCLUSIVE DO HERPES VIRUS FONTE: <http://twixar.me/pGcm>. Acesso em: 18 mar. 2022. Citologicamente, temos o acometimento das células parabasais, metaplásicas e ainda as endocervicais, com a identificação de citomegalia e cariomegalia. Podem ser identificados ainda degeneração da cromatina, dando origem a núcleos foscos de forma homogênea e ainda uma membrana celular mais espessa. Outro ponto comum nesta infecção viral é a multinucleação, além de seu citoplasma também denso e opaco, devido à desnaturação proteica e sua consequente coagulação (BRASIL, 2012a). 102 6 CITOLOGIA DAS ALTERAÇÕES REATIVAS Nos processos de reparação, resultantes de vários tipos de processos, como morte celular, perda de tecido por ulceração, infecções, traumas etc., ocorre a reconstrução tecidual com substituição das células mortas por outras viáveis por meio de dois processos, fundamentalmente: o primeiro, regeneração, em que ocorre a substituição por células do mesmo tipo de tecido, mantendo-se a integridade e funcionalidade do tecido, ou, ainda, fibrose, quando ocorre a proliferação de tecido conjuntivo, perdendo-se, às vezes, a função original. Citologicamente, nas lesões do epitélio escamoso da ectocervice ou da endocervical, ocorre proliferação das células basais circunvizinhas à lesão para cobrir o local acometido pela injúria. Juntamente a esta proliferação, ocorre a proliferação de fibroblastos e células inflamatórias que irão originar o chamado tecido de granulação que irá promover o fechamento das margens da lesão. Após este processo de reparo, ocorre evolução, para uma fibrose que vai promover as condições normais do estroma, similares àquela anteriores a lesão. Nos esfregaços, o fundo pode apresentar hemácias, ainda que raras, e exsudado inflamatório, fatos que geralmente não são identificados nos casos de cânceres. As células em regeneração apresentam boa coesão em monocamadas e com mesma orientação nuclear. O citoplasma é pálido e basofílico com bordas indistintas. Como a reparação geralmente ocorre de forma rápida é possível identificarmos mitoses e multinucleações, além de cromatina mais grosseira (BRASIL, 2012a). 103 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu: • A principal forma de diagnóstico das principais doenças que acometem o TGF é o esfregaço vaginal, muito conhecido como exame de Papanicolau, que é um procedimento não invasivo e não causa nenhuma complicação à paciente além de apresentar baixíssimo custo. • TGF é constituído por dois ovários ou gônadas, duas tubas uterinas, o útero, a vagina e a genitália externa ou vulva, além do clitóris, o bulbo do vestíbulo e as glândulas anexas, vestibulares maiores e menores. • A parede do colo do útero é formada pela endocérvice e pela ectocervice, a primeira é uma camada mucosa, revestida por tecido epitelial colunar simples mucossecretor e a segunda, é formada por um epitélio escamoso estratificado não queratinizado, semelhada a da vagina, e, a ligação entre estas duas camadas é camada de junção escamocolunar (JEC), que pode apresentar pequenas alterações devido ao estado hormonal, gestacional, parto ou ainda devido a possíveis traumas. • Ocorrem alterações hormonais nos epitélios da região do colo uterino, principalmente devido à maior exposição das células ao pH ácido vaginal após a puberdade e ainda durante processo gestacional dando origem ao epitélio escamoso estratificado não queratinizado – processo de metaplasia escamosa. • Hormônios produzem mudanças nos epitélios vaginais e uterinos durante o ciclo menstrual. • Vários agentes podem ser identificados no TGF, entre eles: Lactobacillus vaginalis ou bacilos de Doderlein, Candida albicans, Trichomonas vaginalis e ainda Herpes simplex tipo 1 (HSV-1) e tipo 2 (HSC-2). • Os processos de reparação, podem ocorrer de duas formas principais: regeneração, onde ocorre a substituição por células do mesmo tipo de tecido, mantendo-se a integridade e funcionalidade do tecido, ou ainda, fibrose, quando ocorre a proliferação de tecido conjuntivo. 104 AUTOATIVIDADE 1 O câncer do colo do útero é um problema grave de saúde que atinge muitas mulheres no Brasil e no mundo. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), é o terceiro tumor mais frequente na população feminina. FONTE: Adaptado de <https://exercicios.mundoeducacao. uol.com.br/exercicios-biologia/exercicios-sobre-cancer- colo-utero.htm#questao-6702https://exercicios. mundoeducacao.uol.com.br/exercicios-biologia/ exercicios-sobre-cancer-colo-utero.htm#questao-6702>. Acesso em: 31 maio 2022. Sobre esse tipo de câncer, marque a alternativa incorreta: a) ( ) Existem diferentes tipos de HPV e todos eles podem causar câncer de colo do útero. b) ( ) Em seu estágio inicial, geralmente, o câncer do colo do útero não provoca sintomas. c) ( ) A vacina contra HPV é recomendada para meninos e meninas. d) ( ) O exame preventivo Papanicolau auxilia no diagnóstico de câncer do colo do útero. 2 (Osec-SP) No esquema a seguir, que mostra parte do aparelho genital feminino, em geral os fenômenos de nidação, fertilização e segmentação do ovo ocorrem, respectivamente, nas regiões indicadas por: FONTE: <https://exercicios.brasilescola.uol.com.br/exercicios-biologia/exercicios-sobre-sistema- genital-feminino.htm>. Acesso em: 31 maio 2022. 105 a) ( ) III, I e II. b) ( ) I, II e III. c) ( ) I, III e II. d) ( ) III, II e I. 3 (Osec-SP) Os ovários são duas glândulas situadasuma em cada lado do útero, abaixo das trompas. Produzem os óvulos e também os hormônios sexuais femininos. FONTE: Adaptado de <https://exercicios. brasilescola.uol.com.br/exercicios-biologia/ exercicios-sobre-sistema-genital-feminino. htm>. Acesso em: 31 maio 2022. Assinale a alternativa CORRETA que indica quais hormônios são produzidos pelos ovários: a) ( ) Estrogênio e progesterona. b) ( ) Estrogênio e testosterona. c) ( ) Progesterona e testosterona. d) ( ) Testosterona e hormônio estimulador das células intersticiais. 4 Na prevenção e controle do câncer do colo do útero, muitas ações são executadas na atenção primária à saúde, inclusive para a detecção precoce do câncer. Para tal, atualmente, no Brasil, são realizadas campanhas para a realização da coleta da citologia, e quando os laudos são recebidos, pode-se identificar mulheres com resultados positivos ou ainda daquelas cujo rastreamento e acompanhamento são sugestivos. Diante do exposto, disserte sobre metaplasia escamosa imatura e ainda diga qual a faixa etária aconselhável para acompanhamento do exame citopatológico. 5 A herpes é uma infecção causada pelo Herpes simplex vírus. O contato com o vírus ocorre ainda nos primeiros anos de vida, mas não necessariamente apresenta sintomas. A reativação do vírus pode ocorrer devido a diversos fatores desencadeantes, tais como: exposição à luz solar intensa, fadiga física e mental, estresse emocional, febre ou outras infecções que diminuam a resistência orgânica, mesmo que estes mecanismos ainda não estejam totalmente elucidados. Algumas pessoas têm maior possibilidade de apresentar os sintomas do herpes. Outras, mesmo em contato com o vírus, nunca apresentam a doença, pois sua imunidade não permite. Sobre este assunto e de acordo com seus conhecimentos sobre esta infecção, disserte acerca das principais alterações citológicas desencadeadas por este agente infeccioso. 106 107 TÓPICO 3 - ATIPIA CELULAR, LESÕES PRÉ-CANCEROSAS E CARCINOMAS DO COLO UTERINO 1 INTRODUÇÃO UNIDADE 2 Caro acadêmico, neste terceiro tópico, vamos estudar os principais tipos de atipias celulares encontrados nos esfregaços cervicovaginais. Inicialmente, nossos estudos serão sobre as principais classificações clínicas destas atipias, segundo os parâmetros da Nomenclatura Brasileira para laudos cervicais (proposto pelo Ministério da Saúde do Brasil e pelo INCA em 2006), que é baseado no Sistema Bethesda de 1991 e suas atualizações. Em seguida, iremos estudar as principais lesões cancerosas e as morfogêneses dos carcinomas escamosos e suas correlações com o Papiloma Vírus Humano, o HPV, bem como as lesões intraepiteliais e as diversas classificações clínicas. Por fim, estudaremos os diversos tipos de carcinomas que podem acometer o colo uterino, bem como as possíveis formas de diagnósticos, inclusive os diferenciais. Vamos juntos em mais uma etapa dos nossos estudos citopatológicos? 2 CÉLULAS ESCAMOSAS ATÍPICAS: CLASSIFICAÇÕES, CRITÉRIOS E CONDUTAS Com a ampliação e popularização dos exames de cito-histologia cervicovaginais, foi necessária uma uniformização dos termos e por consequência dos laudos. Desta forma foi possível estabelecer-se critérios para os possíveis diagnósticos dos processos patológicos correlacionados ao aparecimento do câncer cervicouterino, por todos os profissionais envolvidos no processo. Desta forma, a nomenclatura anterior, estabelecida por Papanicolau, é total- mente desaconselhada (I a V) nos laudos citológicos. A partir de 1991, introduzida pelo sistema Bethesda, foi instituída a categoria de ‘Atipia de células escamosas de significa- do indeterminado’ – ASCUS – como forma de padronizar as nomenclaturas e tornar as terminologias uniformes, indicando a presença de células anormais, mas com caracte- rísticas não suficientes para um diagnóstico definitivo de lesão intraepitelial escamosa. 108 Com o uso desta categoria foi possível minimizar a ocorrência de resultados citológicos falso-positivos e falso negativos nas determinações de situações patológicas do colo uterino. Desta forma, para aquelas células que possuíam alterações significativas além dos processos reativos e menos acentuadas que àquelas apresentadas pelas lesões escamosas (NIC), passou-se a atribuir a categoria ASCUS. Em uma revisão do Sistema Bethesda, em 2001, passou a ser adotada a nomenclatura ASC – Atipia de Células Escamosas – em substituição a ASCUS. Com critérios mais refinados, o sistema ASC é dividido em dois grandes grupos: ASC-US: atipias celulares escamosos de significado indeterminado; ASC-H: atipia de células escamosas que não se pode excluir lesões de alto grau. Para o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a), na ASC-US, tem-se alterações sugestivas de lesões intraepiteliais de baixo grau, mas ainda insuficiente para um diagnóstico definitivo. Entre os critérios citológicos, tem-se: I- núcleos 2,5 a 3 vezes maiores que uma célula normal; II- relação núcleo/citoplasma aumentado; III- hipercromia nuclear e leves alterações na distribuição da cromatina; IV- anormalidades nucleares concomitantes com alterações citoplasmáticas. Nesta categoria estão as células infectadas pelo HPV por exemplo. Para este mesmo autor, na categoria ASC-H temos alterações citológicas que ainda não podem ter seu diagnóstico definitivo como lesão intraepitelial escamosa de alto grau. As mulheres que possuem diagnóstico nesta categoria apresentam taxas elevadas de lesões pré-cancerosas. Também estão associadas às infecções de HPV, mas mesmo envolvendo a zona de transformação e a ausência de coilocitose, possuem imaturidade celular, prejudicando a sua diferenciação de lesões intraepiteliais escamosas de alto grau (NIC 3). Os critérios citológicos para esta categoria são: I- presença de células isoladas ou mesmo em pequenos grupos; II- células metaplasicas com núcleos 1,5 ou 2 vezes maiores que as células metaplásicas normais; III) leve hipercromasia nuclear; IV- leve irregularidade nuclear, e ainda, V- cromatina finamente granular uniformemente distribuída ou condensada. Conforme já dito, a nomenclatura brasileira emprega o sistema ASC, e as pacientes inclusas nesta categoria devem ser abordadas e convidadas a seguir o esquema proposto pelo Ministério da Saúde do Brasil, conforme a Figura 18, para ASC- US, e, Figura 19, para ASC-H, ambas adaptadas do Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a). 109 FIGURA 18 – CONDUTA PROPOSTA PELO MINISTÉRIO DA SAÚDE PARA DIAGNÓSTICOS DE ASC-US FONTE: Adaptado de <https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/tecnico_citopatologia_ caderno_referencia_1.pdf>. Acesso em: 2 mar. 2022. 110 FIGURA 19 – CONDUTA PROPOSTA PELO MINISTÉRIO DA SAÚDE PARA DIAGNÓSTICOS DE ASC-H FONTE: Adaptado de <https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/tecnico_citopatologia_ caderno_referencia_1.pdf>. Acesso em: 2 mar. 2022. 3 LESÕES PRÉ-CANCEROSAS E MORFOGÊNESE DO CARCINOMA ESCAMOSO O câncer de colo de útero é o segundo tipo de carcinoma mais prevalente em mulheres, perde apenas para o câncer de mama. Sabe-se que no Brasil e no mundo o rastreamento dos casos de câncer ainda é baixo, e são necessárias mais campanhas de conscientização populacional (Figura 20). 111 FIGURA 20 – CAMPANHAS DE PREVENÇÃO CONTRA O CÂNCER NO MUNDO: DIA 4 DE FEVEREIRO FONTE: <http://twixar.me/RGcm>. Acesso em: 18 mar. 2022. O público recomendado pelo Ministério da Saúde como prioritário para o rastreio são mulheres com idade entre 25 e 64 anos, e a principal estratégia a ser empregada é o exame de Papanicolau, o popular Pap test. Epidemiologicamente, verifica-se uma relação íntima entre a infecção pelo HPV e a ocorrência dos casos de câncer de colo de útero e anal. Os mais prevalentes são: carcinoma cervical, vaginal, vulvar, peniano e ainda de ânus. Quando consideramos os casos de câncer de colo de útero, essa relação torna-se muito sugestiva e significativa, estando presente em mais de 75% dos casos segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a).Os carcinomas escamosos têm origem no epitélio metaplásico da Zona de Transformação (ZT), conforme explicado anteriormente. Também já é sabido que as células metaplásicas desta região são mais suscetíveis à ação do Papiloma Vírus Humano (HPV). Observe a Figura 21, em que podem ser visualizadas células escamosas obtidas através de Pap Test, com provável contaminação por HPV. 112 FIGURA 21 – CÉLULAS EPITELIAIS ESCAMOSAS ANORMAIS – CRITÉRIOS DE HPV – LÂMINA CITOLÓGICA COM ESFREGAÇO DE PAPANICOLAOU FONTE: <http://twixar.me/YGcm>. Acesso em: 18 mar. 2022. 3.1 HPV: MANIFESTAÇÕES E DIAGNÓSTICO Segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a), existem mais de cento e cinquenta tipos de HPV. Destes, trinta estão diretamente relacionados ao aumento do risco de desenvolvimento de câncer cervicovaginal. Os tipos mais diretamente ligados ao desenvolvimento dos diversos tipos de cânceres no TGF estão o HPV 6 e o HPV 11, seguidos pelos tipos 16, 18, 31 e 45. Juntos, eles respondem por mais de 80% dos casos de cânceres cervicais. Os casos raros de câncer em que não são encontrados traços de infecção por HPV poderiam ser explicados por participações de outros tipos de HPV não identificados pelos testes moleculares empregados rotineiramente. Dentre as manifestações clínicas mais prevalentes do HPV, tem-se a presença de condiloma acuminado – verrugas – em 30% dos casos, tanto na vulva quanto no períneo. A infecção assintomática, em 70% dos casos, geralmente é identificada em colposcopias, citologias e ainda histologias onde é encontrado o DNA do vírus através de biologia molecular. As lesões, quando existentes, podem ser evidenciadas através de exames colposcópicos, mediante a utilização de ácido acético. Outros métodos de diagnóstico também podem ser empregados para a detecção do HPV, entre eles, os testes moleculares que detectam o DNA ou o RNA viral: southern blot, dot blot, hibridização in situ e o PCR, este último considerado como a técnica mais sensível para identificação do HPV. 113 A aplicação das vacinas contra o HPV no Brasil tem sido foco de várias discussões, principalmente após a incorporação da vacina quadrivalente (HPV 6, 11, 16 e 18) e/ou bivalente (HPV 16 e 18) nos esquemas vacinais de pessoas com idade acima de 9 anos. 4 LESÕES INTRAEPITELIAIS E SUAS CLASSIFICAÇÕES As neoplasias intraepiteliais cervicais – NICs – são classificadas levando em consideração a maturação anormal e as atipias celulares apresentadas pela lesão e ainda o grau de acometimento da região epitelial. Desta forma, as neoplasias intraepiteliais podem ser divididas em três graus: NIC 1: displasia leve; NIC 2: displasia moderada; NIC 3: displasia acentuada ou carcinoma in situ. Comparando as classificações de neoplasias intraepiteliais com o sistema Bethesda, temos uma nomenclatura muito utilizada pela maioria dos laboratórios citológicos atualmente e que se encontra evidenciado no quadro 6. QUADRO 6 – SISTEMA DE CLASSIFICAÇÃO DAS LESÕES PRÉ-CANCEROSAS DO COLO UTERINO OMS (1974) DISPLASIA NEOPLASIA INTRAEPITELIAL CERVICAL (NIC) BETHESDA LESÃO INTRAEPITELIAL ESCAMOSA Displasia leve NIC 1 Baixo grau Displasia moderada NIC 2 Alto grau Displasia acentuada/ carcinoma in situ NIC 3 Alto grau FONTE: Adaptado de <https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/tecnico_citopatologia_ caderno_referencia_1.pdf>. Acesso em: 2 mar. 2022. 4.1 CARACTERÍSTICAS CITOHISTOLOGICAS E SEUS DIAGNÓSTICOS Os diagnósticos e classificações histológicas (NICs) dependem diretamente da diferenciação, maturação e estratificação das células e de suas anormalidades. Também deve ser levado em consideração o grau de acometimento do epitélio e as atipias identificadas. 114 Entre as características histopatológicas, podem ser citadas: núcleos aumentados e por consequência maior relação núcleo/citoplasma, hipercromasia, variações de tamanhos e polimorfismo nuclear. Ainda é possível ver células em mitose, extremamente comuns em casos de câncer, pois em tecidos saudáveis são pouco frequentes e quando se fazem presentes estão restritas às camadas basais. Com a evolução da gravidade das lesões, também podem ser observadas mitoses anormais que devem ser levadas em consideração para estabelecimento do diagnóstico. De maneira resumida, o grau de displasia apresentada pelo epitélio à luz da análise histopatológica vai depender da espessura do epitélio e sua composição de células anormais. 115 TÉCNICAS USADAS EM LABORATÓRIOS PARA DESCOBRIR OS SEGREGOS DOS VÍRUS Grace C. Roberts Eles não são visíveis a olho nu (nem usando um microscópio óptico padrão) e causam estragos no planeta todo. Conheça alguns dos principais recursos para os estudos de virologia. LEITURA COMPLEMENTAR Imagem em microscopia eletrônica de transmissão de vírions de Influenza A (Foto: CDC) Os vírus são frequentemente chamados de “o inimigo invisível”. Eles não são visíveis a olho nu, ou mesmo usando um microscópio óptico padrão. Então, como sabemos que eles existem ou como são? Existem métodos bioquímicos, como os usados para confirmar a infecção por Covid-19, que buscam evidências do material genético de um vírus, mas também existem vários métodos diferentes que usamos no laboratório para “ver” vírus. Para entender esses métodos, primeiro precisamos compreender como os vírus realmente são pequenos. A maioria de nossas células tem cerca de 100 micrômetros (0,1 milímetro) de diâmetro. Os vírus são aproximadamente mil vezes menores do que essa média, em torno de 150 nanômetros (0,00015 milímetro). 116 1. Microscopia de luz Os microscópios de luz padrão nos permitem ver nossas células claramente. No entanto, esses microscópios são limitados pela própria luz, pois não podem mostrar nada menor que a metade do comprimento de onda da luz visível – e os vírus são muito menores do que isso. Células saudáveis de pulmão humano (esquerda) comparadas com células infectadas por vírus vistas em microscópio de luz padrão (magnificação 10x) (Foto: Grace Roberts/cedida pela autora) Mas podemos usar microscópios para ver os danos que os vírus causam às nossas células. Chamamos isso de “efeito citopático”, e é comparando as células infectadas com as não infectadas que detectamos a presença de vírus em uma amostra. Trabalhos preliminares sobre o Sars-CoV-2 (o vírus que causa a Covid-19), usando microscopia de luz, revelaram que o vírus é capaz de fundir células infectadas para formar sincícios – células grandes com múltiplos núcleos – um efeito que foi previamente observado em vários outros vírus respiratórios. 2. Imunofluorescência Uma maneira indireta de visualizar os vírus é usar anticorpos (muito parecidos com os que o seu corpo produz em resposta a uma infecção) para marcar os vírus com moléculas fluorescentes que emitem luz quando absorvem certos tipos de radiação. Podemos até marcar várias coisas (como vírus e componentes celulares) com cores diferentes para que possamos rastrear mais de uma ao mesmo tempo. 117 Imagem de imunofluorescência mostra os cílios pulmonares (rosa), o núcleo da célula pulmonar (azul) e partículas de vírus (verde) (Foto: Grace Roberts/Cedido pela autora) Podemos então detectar a luz fluorescente das marcas e ver para onde os vírus vão dentro de nossas células e com quais estruturas celulares eles interagem. Isso nos permite investigar, por exemplo, como as drogas afetam a replicação do vírus ou como diferentes cepas de vírus se comportam de maneira divergente. 3. Microscopia de super-resolução Avanços recentes na microscopia fluorescente levaram ao desenvolvimento da microscopia de super-resolução, que combina física muito inteligente com métodos computacionais para produzir imagens claras que revelam estruturas altamente detalhadas nas células Núcleo da célula de câncer ósseos em alta resolução padrão de microscopia fluorescente (esquerda) e após processamento em super-resolução (direita) (Foto: Christoph Cremer/ Wikimedia Commons, CC BY-SA)118 Usar essa técnica para virologia pode localizar áreas de uma célula infectada com mais precisão. Por exemplo, pode mostrar exatamente onde os vírus estão situados dentro da célula e quais partes específicas do mecanismo celular os vírus usam para se replicar. 4. Microscópio eletrônico Nenhuma das técnicas mencionadas até agora é capaz de visualizar diretamente as partículas virais. É aí que entra a microscopia eletrônica, pois ela pode produzir imagens em escala nanométrica. Ela faz isso disparando elétrons em uma amostra e vendo como eles interagem com ela. Um computador então interpreta essas informações para produzir uma imagem. Visualização de microscopia de elétron de partículas do Sars-CoV-2, com aproximadamente 150- 200 nanômetros de diâmetro (Foto: Liu et al., CC BY-NC-ND) Isso nos permite investigar visualmente os diferentes estágios da infecção do vírus dentro das células. A microscopia eletrônica também pode ser usada para visualizar partículas de vírus inteiras, como mostrado na figura anterior. A partir dessas imagens, podemos formar estruturas 3D de partículas de vírus inteiras por meio da montagem computacional de imagens de milhares de partículas tiradas em diferentes orientações, como este exemplo de uma renderização 3D EM [sigla em inglês para microscopia eletrônica] de Sars-CoV-2. 119 Morfologia estrutural do coronavírus (Foto: CDC/ Alissa Eckert, MSMI; Dan Higgins, MAMS) A microscopia eletrônica foi usada no Sars-CoV-2 para determinar como o vírus usa sua proteína “injetora” externa para interagir com nossas células e infectá-las. Esses estudos são realmente úteis para descobrir como o vírus obtém acesso às nossas células, para que possamos descobrir como usar medicamentos e bloqueá-lo. Avaliar a estrutura externa das partículas de vírus também é uma ótima ferramenta para identificar quais anticorpos podem neutralizar um vírus, o que pode ajudar a produzir vacinas mais precisas e eficazes. 5. Cristalografia A cristalografia nos permite ver as estruturas com ainda mais detalhes, em nível atômico. Para fazer isso, você precisa de uma amostra realmente pura de vírus (sem resíduos) suspensa na solução. O líquido da suspensão é evaporado, o que provoca a cristalização dos sólidos remanescentes (incluindo o vírus). Estes se alinham de maneira uniforme para formar cristais que podem então ser expostos aos raios-X. 120 Raio-x em cristalografia da estrutura do capsídeo do vírus Norwalk (Foto: BV Prasad et al.) Um detector registra a maneira pela qual os raios-X difratam (ou "rebatem") na amostra cristalizada, indicando onde os elétrons estão na estrutura da amostra. Esta informação pode então ser usada para construir uma estrutura 3D em escala atômica da amostra. Tal como acontece com a microscopia eletrônica, a cristalografia pode ser usada para determinar as estruturas dos vírus, como a proteína injetora do Sars-CoV-2. A compreensão dessas estruturas, especialmente como elas interagem com nossas células e anticorpos, informa a produção de vacinas e medicamentos. FONTE: Adaptado de <https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Biologia/noticia/2020/11/5-tecnicas- usadas-em-laboratorio-para-descobrir-os-segredos-dos-virus.html>. Acesso em: 14 fev. 2022. 121 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu: • O público de rastreio de câncer de colo de útero recomendado pelo Ministério da Saúde, prioritariamente, é composto por mulheres com idade entre 25 e 64 anos, e a principal estratégia a ser empregada é o exame de Papanicolau, o popular Pap test. • Os carcinomas escamosos têm origem no epitélio metaplásico da Zona de Transformação (ZT) e as células metaplásicas desta região são mais susceptíveis à ação do Papiloma Vírus Humano (HPV). • Existem mais de 150 tipos de HPV, destes, 30, estão diretamente relacionados ao aumento do risco de desenvolvimento de câncer cervicovaginal. • Os tipos mais diretamente ligados ao desenvolvimento dos diversos tipos de cânceres no TGF estão o HPV 6 e o HPV 11, seguidos pelos tipos 16, 18, 31 e 45. Juntos, eles respondem por mais de 80% dos casos de cânceres cervicais. • As neoplasias intraepiteliais podem ser divididas em três graus: NIC 1: displasia leve; NIC 2: displasia moderada; NIC 3: displasia acentuada ou carcinoma in situ. • Os diagnósticos e classificações histológicas (NICs) dependem diretamente da diferenciação, maturação e estratificação das células e de suas anormalidades. 122 AUTOATIVIDADE 1 (X Olimpíada Brasileira de Biologia). Leia o texto a seguir e responda esta questão: Vacina contra HPV é uma das principais armas de combate ao vírus. O Ministério da Saúde incorporou a vacina no SUS para meninas de 9 a 11 anos. O Sistema Único de Saúde (SUS) vai começar a oferecer a vacina contra o papiloma vírus humano (HPV), a partir de 10 de março, para meninas de 11 a 13 anos, em postos de saúde e em escolas públicas e privadas de todo o país. A dose, que ajuda a proteger contra o câncer de colo do útero, estará disponível nos 36 mil postos de saúde da rede pública durante todo o ano, de acordo com o ministério. Em 2015, o público-alvo serão as meninas de 9 a 11 anos e, a partir de 2016, a ação ficará restrita às meninas de 9 anos. Até 2016, o objetivo do ministério é imunizar 80% do total de 5,2 milhões de meninas de 9 a 13 anos no país. Embora seja oferecida no SUS para uma faixa etária restrita, a vacina é recomendada para jovens de 9 aos 26 anos, uma vez que o vírus é transmitido no início da vida sexual. FONTE: <https://exercicios.mundoeducacao.uol.com. br/exercicios-biologia/exercicios-sobre-hpv.htm>. Acesso em: 25 maio 2022. Pode afirmar-se que uma característica do agente causador da doença supracitada é: a) ( ) Ser eucarionte. b) ( ) Ser procarionte. c) ( ) Possuir metabolismo anaeróbico. d) ( ) “Reproduzir” exclusivamente dentro de células. 2 (Uepa) Os papilomavirus humanos (HPV) são vírus transmitidos por contato direto com o revestimento corporal de pessoas infectadas. Ocasionam lesões de pele ou mucosa, podendo as lesões apresentarem a forma de verrugas. Alguns subtipos desses vírus podem causar na região genital, principalmente no colo do útero, alterações celulares pré-cancerígenas. FONTE: <https://exercicios.brasilescola.uol.com. br/exercicios-biologia/exercicios-sobre-hpv. htm#resp-2>. Acesso em: 31 maio 2022. 123 A adoção da vacina pela rede pública de saúde no Brasil atuará na prevenção da ocorrência dessa doença sexualmente transmissível (DST). Sobre o fato descrito afirma-se que: a) ( ) O lisossomo viral é responsável pelas lesões da pele. b) ( ) A porção do órgão feminino citado é local de implantação do zigoto. c) ( ) A prevenção proposta induzirá nas pessoas a formação de proteínas de defesa. d) ( ) A utilização do dispositivo intrauterino (DIU) pode evitar a infecção dessa DST. 3 Existem mais de 150 tipos de HPV, estando alguns relacionados ao surgimento de verrugas genitais e outros com o desenvolvimento de câncer. Que tipo de câncer apresenta relação direta com a infecção pelo HPV? Justifique. a) ( ) Câncer de mama. b) ( ) Câncer do colo do útero. c) ( ) Câncer de intestino. e) ( ) Câncer de pele. 4 O câncer de colo de útero é uma lesão geralmente invasiva intrauterina, que possui relação estreita com a infecção causada pelo HPV, o papilomavírus humano. Quando esta infecção apresenta sintomas, podem ser observadas verrugas na mucosa da vagina, do pênis, do ânus, ou ainda da laringe e do esôfago. O câncer de colo do útero é uma doença de progressão lenta, em alguns casos, mais de dez anos para desenvolver algum tipo de sintomatogia. Disserte sobre o câncer de colo de útero e ainda sobre a importância da realização de exames preventivos. 5 Segundo o INCA, podemos definir o câncer de colo de útero como: “(...) um tumor que se desenvolve a partir de alterações no colo do útero, que se localiza no fundo da vagina. Essas alterações são chamadas de lesões precursoras, são totalmentecuráveis na maioria das vezes e, se não tratadas, podem, após muitos anos, se transformar em câncer. As lesões precursoras ou o câncer em estágio inicial não apresentam sinais ou sintomas, mas conforme a doença avança podem aparecer sangramento vaginal, corrimento e dor, nem sempre nessa ordem. Nesses casos, a orientação é sempre procurar um posto de saúde para tirar as dúvidas, investigar os sinais ou sintomas e iniciar um tratamento, se for o caso”. FONTE: <https://www.inca.gov.br/perguntas-frequentes/ o-que-e-cancer-colo-utero>. Acesso em: 2 mar. 2022. Diante da definição exposta, disserte sobre as principais características cito-histológicas identificadas em esfregaços cervicovaginais que auxiliam no estabelecimento de um diagnóstico de câncer. 124 REFERÊNCIAS ANDRADE, F. G.; FERRARI, O. Atlas digital de histologia básica. Londrina: Universidade Estadual de Londrina Centro de Ciências Biológicas. 2012. Departamento de Histologia. 2014. Disponível em: http://www.uel.br/ccb/histologia/portal/pages/ arquivos/Atlas%20Digital%20de%20Histologia%20Basica.pdf. Acesso em: 2 jan. 2022. BRASIL. INCA. Estimativa 2020: incidência de câncer no Brasil. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Rio de Janeiro: INCA, 2019. 120 p. Disponível em: https://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files/media/document/estimativa- 2020-incidencia-de-cancer-no-brasil.pdf. Acesso em: 3 jan. 2022. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Caderno de referência 1: citopatologia ginecológica. Brasília: Ministério da Saúde; Rio de Janeiro: CEPESC, 2012a. Disponível em: https:// bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/tecnico_citopatologia_caderno_referencia_1. pdf. Acesso em: 3 jan. 2022. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Caderno de referência 2: citopatologia não ginecológica. Brasília: Ministério da Saúde. Rio de Janeiro: CEPESC, 2012b. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/tecnico_citopatologia_caderno_ referencia_2.pdf. Acesso em: 03 jan. 2022. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Caderno de referência 3: citopatologia não ginecológica. Brasília: Ministério da Saúde; Rio de Janeiro: CEPESC, 2012c. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/tecnico_citopatologia_caderno_ referencia_3.pdf. Acesso em: 3 jan. 2022. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Políticas de Saúde Programa Nacional de DST e Aids Técnica de Coloração de GRAM. Ministério da Saúde Secretaria de Brasília 2001. Brasília: Ministério da Saúde, Programa Nacional de Doenças Sexualmente Transmissíveis e AIDS, 1997. 63 p. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/ publicacoes/115_03gram.pdf. Acesso em: 5 jan. 2022 CONSOLARO, M. E. L.; MARIA-ENGLER, S. S. Citologia clínica cervicovaginal: texto e atlas. São Paulo: Roca, 2014. FERNANDES, M. G. Práticas de biologia celular. Dourados, MS: Ed. UFGD, 2017 (Coleção Cadernos Acadêmicos). 109p. Disponível em: https://repositorio.ufgd.edu.br/ jspui/bitstream/prefix/3103/1/praticas-de-biologia-celular.pdf. Acesso em: 6 fev. 2022. 125 JUNQUEIRA, L. C. U; CARNEIRO, J. Histologia básica: texto e atlas. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018. 13. ed. il. Disponível em: https://www.meulivro.biz/ protetor/?id=TXVQSHhfdjhwOVRFMHBHQWtkSEFFMXVHQzdJUkg0R1UxPWRpO3BtYSZ kYW9sbndvZD10cm9weGU/Y3UvbW9jLmVsZ29vZy5ldmlyZC8vOnNwdHRo. Acesso em: 5 jan. 2022. KOSS, L. G.; GOMPEL, C. Introdução à citopatologia ginecológica com correlações histológicas e clínicas. São Paulo: Roca, 2014. LIMA, A. O. Métodos de laboratório aplicados à clínica – técnica e interpretação. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2001. MOLINARO, E. M., et al. Conceitos e métodos para formação de profissionais em laboratórios de saúde. Volume 2. Rio de Janeiro: EPSJV. IOC, 2010. 290 p. Disponível em: https://www.arca.fiocruz.br/handle/icict/8659. Acesso em: 2 jan. 2022. MONTANARI, T. Histologia: texto, atlas e roteiro de aulas práticas. 3. ed. Porto Alegre: Edição do Autor, 2016. 229 p. Disponível em: http://www.ufrgs.br/livrodehisto/. Acesso em: 5 jan. 2022. 126 127 CITOPALOGIA GINECOLÓGICA E GESTÃO DA QUALIDADE EM LABORATÓRIOS DE CITOPATOLOGIA CLÍNICA UNIDADE 3 — OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • realizar as análises citopatológicas dentro dos padrões de qualidade, sempre pautado nos princípios éticos; • entender as limitações técnicas dos procedimentos de coleta relevantes à citopatologia; • compreender a importância da confecção de laudos citopatológicos seguros e assertivos; • identificar as principais anormalidades endocervicais e endometriais; • analisar as novas técnicas e tecnologias aplicadas a citopatológicas já disponíveis no mercado; • operacionalizar as principais formas de monitoramentos de qualidade em laboratórios citopatológicos; • trabalhar em equipes multiprofissionais auxiliando as tomadas de decisões técnicas e financeiras, conforme estudos técnicos científicos, de viabilidade financeira e nas rotinas laboratoriais. A cada tópico desta unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – ESFREGAÇOS CERVICOVAGINAIS TÓPICO 2 – TÓPICOS ESPECIAIS: ANORMALIDADES ENDOCERVICAIS E ENDOMETRIAIS TÓPICO 3 – GESTÃO DA QUALIDADE EM LABORATÓRIOS DE CITOPATOLOGIA Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 128 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 3! Acesse o QR Code abaixo: 129 TÓPICO 1 — ESFREGAÇOS CERVICOVAGINAIS UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Caríssimo acadêmico! Prazer em revê-lo! Estamos embarcando na nossa última etapa da viagem citopatológica. Neste primeiro tópico, vamos estudar com mais critério os exames de citopatologia. Muito se falou sobre pré-coleta e pós-coleta, sobre qualidade das informações, agora, vamos estudar formas de monitorar a qualidade dessas etapas, tanto interna quanto externamente. Vamos falar um pouquinho das contribuições do genial Dr. George Papanicolaou para os estudos dos esfregaços cervicovaginais e seus impactos no Sistema de Saúde. Atualmente, os mercados, e, por consequência, os consumidores/usuários de bens e serviços, estão cada dia mais exigentes quanto à qualidade dos serviços, e, claro, a qualidade do tratamento e das análises realizadas em suas respectivas amostras clínicas. Um diagnóstico assertivo, obtido precocemente, faz toda a diferença na conduta médica e na terapêutica do paciente, aumentando muito a possibilidade de cura e da adesão do paciente, conferindo sucesso ao tratamento. Então, preparado para nossa última parada? Esperamos que sim! Aproveitamos para fazer outro convite: nunca deixe de estudar! Esteja sempre se atualizando e buscando novas informações sobre a área. Estamos nos tempos da 4ª Revolução Industrial, ou Indústria 4.0, novas tecnologias (equipamentos, reagentes, técnicas...) são descobertas frequentes nestes tempos. Nunca deixe de se atualizar e aprender cada dia mais! 2 TÉCNICA E OBJETIVOS Segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a), foi o cientista Julis Vogel, em 1843, quem identificou as primeiras alterações citológicas – células malignas – em líquido de uma fístula de um tumor de mandíbula. No entanto, foi somente nos estudos do Dr. George Papanicolaou (Figura 1) – selo comemorativo da descoberta do teste, chamado de Pap Test –, que utilizava esfregaços vaginais de mulheres e que tinha como interesse inicial verificar os efeitos hormonais sobre a mucosa vaginal, que o pesquisador encontrou acidentalmente células malignas. 130 FIGURA 1 – DR GEORGE PAPANICOLAOU – SELO “PAP TEST” FONTE: <https://www.bbc.com/portuguese/geral-48235865>. Acesso em: 2 jul. 2022. Na leitura complementar da Unidade 1, falamos um pouco sobre a vida deste genial médico e pesquisador: “Quem foi George Papanicolaou, criador do exame considerado uma das armas mais poderosas contra o câncer”. Após a publicação de seutrabalho, em 1928, Papanicolaou estabeleceu um “novo diagnóstico de câncer”, que foi reafirmado neste mesmo ano, pelo patologista Aurel Babes, de maneira independente, através da publicação do trabalho “Diagnóstico do câncer do colo uterino por esfregaços” (BRASIL, 2016; 2012a; 2012b). Infelizmente, as pesquisas de Babes e Papanicolaou ficaram em descrédito por muitos anos. Mesmo assim, o chefe do departamento onde Papanicolaou trabalhava, Joseph Himsey, aconselhou a continuidade de seus estudos, até que 1943, ele publicou o trabalho “Diagnóstico de câncer uterino pelo esfregaço vaginal”, com colaboração de outro médico, ginecologista e patologista, Herbert Traut. No trabalho, existiam onze ilustrações coloridas e suas respectivas descrições e ainda 48 (quarenta e oito) páginas de texto explicando toda a técnica empregada para realização do diagnóstico de câncer uterino e ainda as lesões que o precediam, passíveis de identificação citológica, através da metodologia chamada de “Pap test” e ainda explicitava a possibilidade da realização de tal técnica em grande escala. George Papanicolaou, em sua publicação de 1954 – “Atlas de Citologia Esfoliativa” –, trouxe enormes contribuições sobre as características celulares de amostras de urina e escarro, dentre várias outras, fazendo sempre o paralelo entre as características normais e aquelas consideradas patológicas. Este gênio da citopatologia faleceu em 1962 de um infarto súbito do miocárdio, mas nos deixou inúmeros ensinamentos e técnicas desenvolvidas ao longo de sua carreira. 131 Outro pesquisador que contribuiu bastante à época foi o médico Ernest Ayre, que em 1940, criou uma espátula que possibilitava a coleta direta, por raspagem, de células do colo uterino. A espátula de Ayre, ainda hoje, é utilizada na coleta de material cervicovaginal, e passou a ser utilizada ao invés da coleta de secreções vaginais ‘espontâneas’ outrora preconizada por Papanicolaou (BRASIL, 2012a; 2012b; 2012c; 2016). Sem dúvida, o baixo custo operacional, a simplicidade de coleta e técnica, e sua excelente eficácia diagnóstica contribuíram para o sucesso do teste mundialmente, principalmente quando estatísticas mundiais apontam o câncer de colo de útero como um dos principais responsáveis por óbitos em mulheres. Infelizmente, a realização do teste de Papanicolaou ainda não é uma prática adotada por muitos países no mundo. Segundo dados do Ministério da Saúde (2012a), 500 mil mulheres são diagnosticadas com câncer de colo de útero no mundo por ano, e destas, infelizmente, 200 mil vem a óbito devido à doença ou por consequência dela. Mesmo com altos índices de óbitos, vários estudos realizados no Brasil e no mundo comprovam que a realização do exame de Papanicolaou é a estratégia de escolha para diagnóstico precoce de câncer de colo de útero ou ainda das situações/alterações preditivas dele, sendo também uma ferramenta fundamental na monitorização de possíveis casos de câncer. Segundo o Ministério da Saúde (2012a), não existem outros testes ou técnicas superiores para o diagnóstico precoce de cânceres cervicais, fazendo com que a citopatologia tenha seu devido reconhecido e importância sob a ótica diagnóstica, não só no âmbito ginecológico, mas de todo o corpo (FERNANDES, 2017; CONSOLARO, 2014). DICAS Você sabia que mesmo com todas as companhas para a prevenção do câncer de colo de útero ainda existe uma grande resistência das mulheres em realizar o exame? Acesse o artigo “Avaliação da não realização do exame Papanicolaou por meio do Sistema de Vigilância por inquérito telefônico”. Nele, os pesqui- sadores verificam que alguns grupos de mulheres acham desnecessária a realização deste exame tão importante. Disponível em: https://www.scielo. br/j/reeusp/a/7C6FcYZ68xHRQRhDD3kyCTy/?lang=pt. Outro artigo muito interessante sobre o exame preventivo é “Compreen- são de usuárias de uma Unidade de Saúde da Família sobre o exame Pa- panicolaou”. Alerte-se para o fundamental papel de todos os profissionais de saúde na promoção da saúde da mulher. Disponível em: https://www. scielo.br/j/csc/a/LFjrRDnvfS9dxRrBZy69Mpg/?lang=pt. Não deixem de ler! Bons estudos! 132 3 RECOMENDAÇÕES E INDICAÇÕES DO EXAME CITOPATOLÓGICO DE PAPANICOLAOU A indicação de realização do exame de Papanicolaou, segundo as Diretrizes Brasileiras, para o rastreamento do Câncer do Colo do Útero pelo Ministério da Saúde/ Instituto do Câncer – INCA – de 2019, é para mulheres sexualmente ativas entre 25 e 60 anos, porém muitos autores e pesquisadores aconselham que o início da realização do exame seja concomitante com o início da vida sexual da mulher (BRASIL, 2012a). Agora, pensando em periodicidade, a recomendação é a realização de exames anuais. Este prazo deve-se à característica evolutiva do câncer de colo de útero que, segundo dados epidemiológicos, revela a evolução relativamente lenta, o que facilita a descoberta precoce de possíveis alterações que podem ser indicativas de câncer, as chamadas lesões pré-cancerosas. Para mulheres que receberam o diagnóstico de tais lesões, a recomendação é de realizar-se o exame citológico semestralmente, conforme esquema já apresentado na Unidade 2. Após tratar-se tais lesões, e após dois exames negativos, a recomendação passa a ser a realização de exame anual. 3.1 PROCEDIMENTOS PRÉ-COLETA Dentre os principais procedimentos pré-coleta, que devem ser cuidadosamente explicados ao paciente, segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a) estão: • Não estar em período menstrual, pois podem comprometer a qualidade do esfregaço, principalmente o ‘fundo’, impossibilitando a análise do esfregaço. • Não realizar duchas vaginais. • Não fazer uso de medicações intravaginais, por exemplo: cremes, pomadas, óvulos e hormônios por no mínimo 48 horas antes da realização do exame. • Fazer abstinência sexual, também, por no mínimo 48 horas antes da realização do exame. Um ponto a ser observado, de fundamental importância, é a ficha de solicitação de exame. Ela deve acompanhar o material a ser analisado, e, se, porventura, não estiver anexa, o laboratório deve, ainda na recepção, rejeitar o material e notificar tal inconformidade, assim como nos casos de erros de preenchimento ou ainda possíveis danos sofridos pelo material que podem prejudicar a sua análise. Veremos outros requisitos no Tópico 3. Devem estar claros na ficha de coleta/solicitação de análise de material, no mínimo, os seguintes pontos: 133 • Dados de identificação da paciente: nome completo, idade, documento de identificação, endereço e contato – no caso do Sistema Único de Saúde (SUS) deve constar o número de cadastro da paciente. • Informações do médico solicitante: nome, endereço e contato. • Data da coleta. • Data da última menstruação, informações sobre possíveis gestações anteriores, possíveis queixas, uso de anticoncepcionais, procedimentos clínicos anteriores. • Dados macroscópicos da vagina e colo quando existirem. • Podem acompanhar, ainda, resultados de exames anteriores. 3.2 PROCEDIMENTOS DE COLETA Imediatamente antes do momento da coleta, o profissional responsável pela coleta deve realizar a identificação da paciente na lâmina de vidro que será utilizada na confecção do esfregaço, esta pode ser com o número do cadastro/prontuário ou mesmo o nome e em alguns casos até o código de barras atribuído àquela paciente. Observe na Figura 2 a lâmina de vidro. Note que uma das extremidades dela é fosca, justamente para propiciar a marcação/identificação da amostra a ser analisada. FIGURA 2 – LÂMINA DE VIDRO – LÂMINA PARA ESFREGAÇOS CERVICOVAGINAIS FONTE: <https://elements.envato.com/pt-br/female-scientist-examining-a-human-sample-on-a- mic-T5EQRZ2>. Acesso em: 2 jul. 2022. Esta prática é fundamental para garantir a identificação da amostra e evitar possíveis trocas, principalmente, no momento da análise pelo citopatologista, pois este profissional não irá realizar a análise e nem o preparo de coloração de uma lâminapor vez. Geralmente, um citotécnico analisa em média 50 a 70 lâminas em 8 horas de trabalho! Viu a importância desta etapa imediatamente antes do momento da 134 análise? Acadêmico, mais um conselho: quando se trata de amostras clínicas, sempre cumpra todos os procedimentos de identificação e de qualidade! Na rotina laboratorial, existem muitas amostras e análises a serem realizadas por dia, além da possibilidade da ocorrência de pacientes homônimos. Então, todo o cuidado é pouco! FIGURA 3 – CORANTES: PREPARO DE LÂMINAS FONTE: <https://elements.envato.com/pt-br/close-up-photo-of-medical-stuff-and-doctor-in-the-- GPLUXUN>. Acesso em: 2 jul. 2022. A coleta do material deve ser realizada inicialmente com a espátula de Ayre para amostras da ectocervice e da vagina e com o auxílio da ‘escovinha’ é feita a coleta da endocérvise. O procedimento de coleta das amostras encontra-se ilustrado na Figura 3. Nela, podemos observar a coleta de amostra com a espátula de Ayre na porção superior, inclusive com a indicação do procedimento correto, que deverá ser em círculos (360°) na região da junção escamocolunar, chamada de JEC. Amostras do fundo da vagina também são obtidas com esta espátula, porém com a outra extremidade (romba). Para facilitar o acesso do profissional de saúde ao colo do útero, vemos a utilização do espéculo, ou popularmente chamado de ‘bico de pato’ devido ao seu formato peculiar. Na porção inferior, do lado esquerdo, podemos observar a coleta de material da endocérvise com auxílio da escovinha (este procedimento será detalhado mais à frente). Neste ponto, é válido ressaltar que o espéculo a ser utilizado deve estar sem lubrificante, para evitar-se possíveis contaminações, o excesso de muco, sangue ou mesmo secreção, caso existam devem ser removidos, nesta prática pode ser utilizado o swab ou mesmo algodão, com o cuidado de evitar-se também a contaminação da amostra (evitar artefatos de técnica, conforme vimos na Unidade 1). 135 FIGURA 4 – COLETA DE AMOSTRAS PARA EXECUÇÃO DA TÉCNICA DE PAPANICOLAOU FONTE: <https://www.vidawellnessandbeauty.com/servicios/ginecologia/papanicolaou/>. Acesso em: 2 jul. 2022. A Figura 4 ainda nos traz um aspirador endocervical na parte inferior, a direta, hoje praticamente em desuso. A escovinha deve ser inserida no orifício cervical externo, e fazer um movimento completo de rotação (360°) no canal e para finalizar, recomenda- se realizar-se movimentos de vai e vem no canal, de forma delicada para evitar traumas na mucosa, o que poderia dar origem a pequenos sangramentos que poderiam comprometer a mostra a ser analisada (BRASIL, 2012a; 2019; LIMA, 2001). Quando ocorre a coleta tríplice (amostras citológicas de endocérvise, ectocervice e saco posterior da vagina), as três amostras devem ser dispostas sob a mesma lâmina na mesma ordem citada. Devido às inúmeras vantagens deste tipo de colheita, o INCA recomenda apenas a colheita dupla (endocérvise e ectocervise), visto que o exame citopatológico tem como principal objetivo verificar a existência de lesões pré ou mesmo cancerosas do colo, ficando a conduta a critério clínico. As amostras devem ser acondicionadas em potes plásticos contendo etanol 95%, até o momento da fixação e coloração. Sem dúvidas, é necessário um treinamento adequado para obter- se bons esfregaços e ainda evitar possíveis artefatos de técnicas, além de situações de esmagamento dos espécimes celulares e de dessecação de material (BRASIL, 2016; 2012a; 2019). 136 Confira algumas informações importantes, segundo apontamento de Junqueira e Carneiro (2018) e do Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a), principalmente para análises de amostras pertencentes a mulheres peri e pós-menopausadas: O fundo de saco vaginal pode ser reservatório de células malignas, principalmente advindas de tumorações do endométrio, trompas e ovário, o que faz ser fundamental a coleta de amostras desta região. A coleta de amostras vaginais tem grande interesse sob a ótica de identifica-se possíveis micro-organismos patogênicos, potencialmente infecciosos. Os públicos citados apresentam uma maior dificuldade de obtenção de amostras, porque existe naturalmente uma diminuição da atividade das glândulas secretoras o que provoca um maior ressecamento da mucosa vaginal. Nestas circunstâncias as amostras possuem poucas células e às vezes, ainda possuem degenerações, o que pode comprometer a amostra – amostra insatisfatória. Nos casos em que a mulher faz uso de estrógenos ou estriol, é aconselhável a repetição do exame após sete dias de interrupção de uso. Em mulheres histerectomizadas (remoção do útero) as amostras a serem coletas são raspados da cúpula e das paredes vaginais. 3.3 PROCEDIMENTOS PÓS-COLETA Como já dito, a lâmina com o esfregaço deve ser conservada em etanol 95%, imersa nele ainda úmido, onde deverá permanecer até o momento do preparo – coloração – e posterior análise. O tempo máximo que o esfregaço deverá permanecer na solução conservante, de acordo com a literatura, é de até 2 semanas (prazo máximo), conforme aponta o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a). O método de coloração desenvolvido por Papanicolaou sofreu várias adaptações e deve ser realizado conforme preconizado no laboratório de citopatologia na qual a mostra será analisada (KOSS; GOMPEL, 2014; BRASIL, 2012a; 2012b). Este e outros aspectos sobre a coloração das lâminas já foram discutidos detalhadamente na Unidade 1. Em caso de dúvidas não hesite em dar uma nova lida neste tópico. Após o processo de coloração, é necessário realizar a montagem dos esfregaços citológicos e para tal, é aplicada uma resina, geralmente o xilol, para conseguir a adesão da lamínula a lâmina. É a ligação entre lamínula e lâmina que protege o esfregaço de dessecação e ainda minimiza a possibilidade de perda de coloração ao longo do tempo. A montagem deve ser rápida para impedir a entrada de ar entre as duas superfícies e produzir artefatos de técnica, que também pode prejudicar a análise do material. Mas o que deve ser feito antes da análise efetiva (leitura) da amostra? Vamos ao passo a passo: 137 • Conferir o nome da paciente com a identificação da lâmina e seu respectivo número de registro. • Confrontar todos os dados da paciente e ainda ler atentamente todas as informações clínicas. • Avaliar a lâmina na objetiva de 4x quanto à fixação, coloração, características do fundo do esfregaço, quantidade de espécimes celulares, como está a distribuição celular e ainda como está a sua distribuição. Uma observação importante sobre a amostra é a ausência de componentes oriundos da zona de transformação (células endocervicais e/ou metaplásicas escamosas), pois esta ausência não impede e nem interfere na classificação do esfregaço no tocante a sua adequabilidade, mas deve ser relatada no campo de observações. Segundo o Ministério da Saúde/Instituto de Câncer INCA (BRASIL, 2019), estes aspectos devem ser satisfeitos, atestando a adequabilidade da amostra, atendendo os requisitos da Nomenclatura Brasileira para Laudos Cervicais e Condutas Preconizadas, que já estudamos na Unidade 2. Caso existem dúvidas, não deixe de reler a unidade. Uma dica importante do Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a) é iniciar a leitura da lâmina pela parte superior esquerda do esfregaço, realizando as análises verticalmente, sobrepondo sempre as áreas já analisadas com aquelas ainda a analisar. Durante a leitura é normal realizar-se marcações de campos suspeitos para uma análise mais criteriosa posteriormente, pelo próprio técnico ou mesmo pelo médico citopatologista. Esta marcação é feita com caneta ponta fina de tinta permanente, com um ponto acima ou abaixo da estrutura a ser estudada. Alguns profissionais preferem circular estas estruturas dando à área um maior destaque. Todos os resultados de exames citopatológicos devem apresentar, segundo Koss e Gompel (2014) e o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a): • Identificação da paciente. • Número de registrodo laboratório. • Metodologia de coleta das amostras (fixador, técnica de coloração, descrição microscópica). • Conclusão diagnóstica e comentários adicionais quando necessário. Segundo a Resolução do Conselho Federal de Medicina n° 1472/97 de 1997, as lâminas de exames citopatológicos devem ser arquivadas por um período mínimo de cinco anos no próprio laboratório – em ordem numérica –, independentemente do diagnóstico, ou ainda ser entregue à paciente ou seu responsável legal, após orientações sobre conservação e o tempo de guarda. Já os laudos devem ser guardados em sistema informatizado por período indefinido; ambos com acesso restrito e ainda com protocolos de entradas e saídas das lâminas. 138 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você aprendeu: • Foi o cientista Julis Vogel, em 1843, quem identificou as primeiras alterações citológicas – células malignas; porém, apenas nos estudos do Dr. George Papanicolaou sobre a mucosa vaginal, foram identificadas células malignas em esfregaços vaginais. • George Papanicolaou, em sua publicação de 1954 – “Atlas de Citologia Esfoliativa” –, trouxe enormes contribuições sobre as características celulares de diversos tipos de amostras biológicas. • Ernest Ayre, em 1940, criou uma espátula que possibilitava a coleta direta, por raspagem, de células do colo uterino – Espátula de Ayres – utilizada até hoje na rotina clínica. • O baixo custo operacional, sua simplicidade de coleta e técnica e sua excelente eficácia contribuíram para o sucesso do teste de Papanicolaou – Pap test – mundialmente. Não existem outros testes ou técnicas superiores ao exame de Papanicolaou para o diagnóstico precoce de cânceres cervicais. • Estatísticas mundiais apontam o câncer de colo de útero como um dos principais responsáveis por óbitos em mulheres. • Segundo as Diretrizes Brasileiras para o rastreamento do Câncer do Colo do Útero – Exame de Papanicolaou –, deve ser realizado em mulheres sexualmente ativas entre 25 e 60 anos, porém muitos autores e pesquisadores aconselham que o início da realização do exame seja concomitante com o início da vida sexual. • São orientações pré-coleta: não estar em período menstrual, não realizar duchas vaginais; não fazer uso de medicações intravaginais, abstinência sexual, também, por no mínimo 48 horas antes da realização do exame. • Na ficha de coleta devem constar: dados de identificação da paciente, informações do médico solicitante, data da coleta, data da última menstruação, informações sobre possíveis gestações anteriores, possíveis queixas, uso de anticoncepcionais, procedimentos clínicos anteriores e demais informações que o médico assistente julgar relevantes. • A coleta tríplice (amostras citológicas de endocérvise, ectocervice e saco posterior da vagina) deve ser disposta sob a mesma lâmina, nessa mesma ordem. 139 RESUMO DO TÓPICO 1 • Instituto Nacional do Câncer (INCA) recomenda apenas a coleta dupla de material (amostras da ectocervise e da endocérvise), pois o objetivo principal do exame é a identificação e rastreamento de lesões pré e cancerosas do colo de útero. • A Resolução do Conselho Federal de Medicina 1472/97 recomenda que as lâminas de exames citopatológicos devem ser arquivadas por um período mínimo de cinco anos, e, em ordem numérica. 140 AUTOATIVIDADE 1 (Adaptada de Enade de Biomedicina – 2010) As células do epitélio escamoso encontradas no esfregaço vaginal são divididas em três tipos: superficiais, intermediárias e parabasais. Essas células possuem desenvolvimento hormônio- dependente e, desse modo, o aspecto do esfregaço vaginal apresenta alterações cíclicas em consonância com os ciclos menstrual e ovariano. Considerando o processo de maturação das células do epitélio escamosos e sua correlação com os hormônios sexuais femininos, analise as sentenças a seguir: I- Os estrógenos induzem à maturação completa das células do epitélio escamoso, resultando no predomínio de células intermediárias e parabasais no esfregaço vaginal. II- Em condições de baixa produção de estrógenos, observa-se predomínio de células parabasais no esfregaço vaginal. III- Logo após o nascimento, o esfregaço vaginal da lactante apresenta aspecto idêntico ao observado no esfregaço materno, caracterizado pelo predomínio de células intermediárias e superficiais. IV- O predomínio de células superficiais no esfregaço cervicovaginal é observado durante a gestação e na fase progestacional do ciclo menstrual. FONTE: Adaptado de <https://download.inep. gov.br/educacao_superior/enade/provas/2010/ biomedicina_2010.pdf>. Acesso em: 29 jun. 2022. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças II e III estão corretas. b) ( ) As sentenças I e II estão corretas. c) ( ) As sentenças II e IV estão corretas. d) ( ) As sentenças III e IV estão corretas. 2 (Adaptada Enade Biomedicina 2013) “A detecção precoce do câncer de colo uterino é feita por um exame tecnicamente simples e de baixo custo, a partir do esfregaço cervicovaginal. Esse exame também é conhecido como exame citológico, de lâmina, citopatológico ou citologia cervicovaginal. Embora o principal propósito da citologia cervicovaginal seja a detecção das lesões precursoras do câncer cervical, o achado de condições infecciosas/reativas também pode contribuir para a saúde da mulher. 141 Um dos fatores de risco para o câncer de colo uterino é o histórico de infecções sexualmente transmissíveis, sendo comprovada essa relação por vários estudos epidemiológicos realizados no Brasil. Dessa forma, tem crescido o interesse na utilização do exame preventivo do câncer de colo uterino para o reconhecimento de infecções cervicovaginais, como uma importante alternativa diagnóstica”. FONTE: <http://www.scientiaplena. org.br>. Acesso em: 21 jun. 2022. FONTE: Adaptado de <https://download.inep.gov.br/educacao_superior/ enade/provas/2013/02_BIOMEDICINA.pdf>. Acesso em: 29 jun. 2022. Sobre o tema abordado no texto e sobre a técnica de Papanicolaou, assinale a alter- nativa CORRETA: a) ( ) A técnica é de difícil execução e possui alto custo. b) ( ) Somente a rede particular do sistema de saúde brasileiro preconizou o teste de Papanicolaou. c) ( ) O teste de Papanicolaou possui fácil execução, baixo custo e excelente eficácia diagnóstica. d) ( ) O teste desenvolvido por Papanicolaou não possui eficácia no diagnóstico precoce do câncer de colo de útero. 3 O teste de Papanicolaou é realizado para detectar alterações nas células do colo do útero. Este exame também pode ser chamado de esfregaço cervicovaginal e colpocitologia oncótica cervical. O nome “Papanicolaou” é uma homenagem ao patologista grego Georges Papanicolaou, que criou o método no início do século. Esse exame é a principal estratégia para detectar lesões precocemente e fazer o diagnóstico da doença bem no início, antes que a mulher tenha sintomas. Pode ser feito em postos ou unidades de saúde da rede pública que tenham profissionais capacitados. É fundamental que os serviços de saúde orientem sobre o que é e qual a importância do exame preventivo, pois sua realização periódica permite que o diagnóstico seja feito cedo e reduza a mortalidade por câncer do colo do útero. O exame preventivo é indolor, simples e rápido. Pode, no máximo, causar um pequeno desconforto que diminui se a mulher conseguir relaxar e se o exame for realizado com boa técnica e de forma delicada. Para garantir um resultado correto, a mulher não deve ter relações sexuais (mesmo com camisinha) nos dois dias anteriores ao exame, evitar também o uso de duchas, medicamentos vaginais e anticoncepcionais locais nas 48 horas anteriores à realização do exame. É importante também que não esteja menstruada, porque a presença de sangue pode alterar o resultado. Mulheres grávidas também podem se submeter ao exame, sem prejuízo para sua saúde ou a do bebê. FONTE: <https://bvsms.saude.gov.br/papanicolau-exame- preventivo-de-colo-de-utero/>. Acesso em: 28 jun. 2022.142 Analise as afirmativas abaixo e classifique-as com F para as falsas e V para verdadeiras: ( ) Deve conter na ficha de coleta/solicitação de análise de material, no mínimo, dados de identificação da paciente, informações do médico solicitante, data da coleta, data da última menstruação, informações sobre aspectos visuais da vagina e colo quando possível. ( ) O exame de Papanicolaou deverá ser realizado apenas em mulheres com idade entre 30 e 60 anos. ( ) O exame de Papanicolau é o método/técnica mais eficaz para identificação e rastreio de lesões pré-cancerosas atualmente. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – F – V. 4 Segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), o câncer de colo do útero é o terceiro tumor mais frequente na população feminina, atrás apenas do câncer de mama e do câncer colorretal. Diante desta afirmativa, discorra sobre a importância do exame de Papanicolau sobre a prevenção e o diagnóstico precoce desta doença. FONTE: Disponível em: <http://www.sbp.org.br/previna- se-contra-o-cancer-de-colo-do-utero/?gclid=EAIaIQo bChMI7aKjlKL59gIVgeF3Ch1-aQEbEAAYAiAAEgLFq_D_ BwE>. Acesso em: 2 abr. 2022. 5 É um teste realizado para detectar alterações nas células do colo do útero. Este exame também pode ser chamado de esfregaço cervicovaginal e colpocitologia oncótica cervical. O nome “Papanicolaou” é uma homenagem ao patologista grego Georges Papanicolaou, que criou o método no início do século XX. Esse exame é a principal estratégia para detectar lesões precocemente e fazer o diagnóstico da doença bem no início, antes que a mulher tenha sintomas. Pode ser feito em postos ou unidades de saúde da rede pública que tenham profissionais capacitados. É fundamental que os serviços de saúde orientem sobre o que é e qual a importância do exame preventivo, pois sua realização periódica permite que o diagnóstico seja feito cedo e reduza a mortalidade por câncer do colo do útero. O exame preventivo é indolor, simples e rápido. Pode, no máximo, causar um pequeno desconforto que diminui se a mulher conseguir relaxar e se o exame for realizado com boa técnica e de forma delicada. 143 Para garantir um resultado correto, a mulher não deve ter relações sexuais (mesmo com camisinha) nos dois dias anteriores ao exame, evitar também o uso de duchas, medicamentos vaginais e anticoncepcionais locais nas 48 horas anteriores à realização do exame. É importante também que não esteja menstruada, porque a presença de sangue pode alterar o resultado. Mulheres grávidas também podem se submeter ao exame, sem prejuízo para sua saúde ou a do bebê. FONTE: <https://bvsms.saude.gov.br/papanicolau-exame- preventivo-de-colo-de-utero/>. Acesso em 2 abr. 2022. Diante do texto apresentado, escreva como é realizado o teste de Papanicolaou com riqueza de detalhes. 144 145 TÓPICOS ESPECIAIS: ANORMALIDADES ENDOCERVICAIS E ENDOMETRIAIS 1 INTRODUÇÃO UNIDADE 3 TÓPICO 2 - Caro acadêmico, companheiro de viagem pelo mundo citopatológico, bem- vindo a esta etapa! Nesta penúltima parada, vamos estudar algumas particularidades endocervicais e endometriais. Veremos que, infelizmente, existem outros tipos de câncer que acometem o colo do útero, bem como outras partes do trato genital feminino. Outro assunto que também veremos aqui são as metástases. Vamos entender os mecanismos e as possíveis formas metastáticas que acometem o colo do útero e a vagina, além da importância de compreendermos todo este processo para a saúde humana. Na parte final, veremos as novas tecnologias disponíveis no ramo da citopatologia clínica e suas respectivas vantagens e desvantagens. Então, vamos iniciar essa nova etapa da jornada? Vamos juntos! 2 ANORMALIDADES GLANDULARES E SUAS CLASSIFICAÇÕES O tipo mais prevalente de câncer de colo de útero é o carcinoma escamoso, responsável por 75% dos casos registrados, segundo o INCA (BRASIL, 2019), e que já estudamos na Unidade 2. Na segunda posição, temos os adenocarcinomas, responsável por aproximadamente 20% dos casos, também segundo o mesmo Instituto. NOTA Você sabe o que são adenocarcinomas? Já ouviu falar neste termo? Para o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a; 2012c), os adenocarcinomas são, histologicamente, tumores que mimetizam a aparência das células glandulares endocervicais. Estas neoplasias infiltram-se no estroma do colo do útero com forma glandular, que podem ter formas e tamanhos variados, e ainda, podem apresentar projeções em formatos de papilas na superfície e dentro de glândulas já existentes na região acometida. Já estudamos os principais tipos de tecidos epiteliais, mas a Figura 5 traz um desenho esquemático para relembrar as principais apresentações do tecido epitelial. Se ainda restarem dúvidas, não deixe de consultar novamente a Unidade 1. Bons estudos! 146 FIGURA 5 – PRINCIPAIS TIPOS DE TECIDOS EPITELIAIS FONTE: <https://www.wikiwand.com/pt/Epit%C3%A9lio>. Acesso em: 2 jul. 2022. 2.1 ADENOCARCINOMAS CERVICAIS O número de casos de adenocarcinoma cervical vem crescendo bastante nos últimos anos, segundo o Ministério da Saúde (BRASIOL, 2012a). Existe uma grande discussão na comunidade científica sobre este aumento. A dúvida que paira é a seguinte: este aumento é real ou aparente? A redução de casos de carcinoma escamoso cervical é uma consequência direta da efetividade dos programas de prevenção de câncer de colo de útero? Ou deve-se ao melhor preparo dos analistas citopatológicos no ato da interpretação e diagnóstico diferencial dos diferentes tipos de lesões? Estas questões ainda estão longe de serem respondidas e cada vez mais tenta-se buscar correlações que possibilitem os diagnósticos cada vez mais precoces e precisos. Sabe-se que o carcinoma escamoso e o adenocarcinoma possuem uma relação intima com infecções pelo HPV, principalmente os tipos 16 e 18, o segundo mais com o tipo 18. Outro fato também em discussão é a relação entre o adenocarcinoma e o uso prolongado de contraceptivos orais. Fatores que inicialmente não têm relação com o desenvolvimento de adenocarcinoma são: idade precoce do início da atividade sexual, bem como o número de parceiros e ainda o tabagismo. O diagnóstico precoce envolvendo lesões glandulares ainda é um grande desafio para os profissionais da área, porque não existem indicadores específicos, e os achados colposcópicos são na maioria dos casos vagos, compreendendo apenas pequenas alterações topográficas da superfície do colo, o que é muito complicado, pois as glândulas por vezes comprometidas encontram-se mais internas, profundas, difíceis de serem identificadas de forma precoce (BRASIL, 2012a). 147 A contraponto, temos as lesões escamosas, que são, por natureza, mais superficiais, logo, muito mais fáceis de serem identificadas em colposcopias, onde mais uma vez, as lesões ou ‘anormalidades’ glandulares, principalmente o adenocarcinoma in situ, geralmente são encontradas dentro de canais endocervicais e assim, inacessíveis. Neste cenário, temos as análises citológicas como coadjuvantes, para diagnós- ticos de lesões glandulares ou mesmo de adenocarcinomas, e uma alta efetividade para lesões escamosas. Agregado a isso temos falhas de interpretação por pouca experiên- cia dos analistas citopatológicos na identificação de adenocarcinomas endocervicais ou mesmo de suas lesões precursoras (BRASIL, 2012a; KOSS; GOMPEL, 2014). Ainda, neste tópico, iremos estudar as classificações AGUS! Nele, você enten- derá melhor este tipo de classificação das células glandulares. Aguarde! ESTUDOS FUTUROS Diagnosticar corretamente as lesões glandulares requer uma ampla percepção e conhecimento de várias características citológicas tanto das células isoladamente quanto do comportamento destas em coleções celulares. De maneira genérica, elas apresentam-se com citoplasma delicado e pouco corado devido à grande quantidade de mucina em seu interior. Seus núcleossão redondos ou levemente ovalados com cromatina granular fina, podendo possuir um ou até dois nucléolos. Em coleções, são organizadas de forma monoestratificadas, com limites bem definidos e nucleações mais centrais com distribuição uniforme; em estruturas de favo de mel, que já estudados na Unidade 2, em paliçada ou em ‘tiras’, permitindo a diferenciação das células endometriais, que são menores e são portadoras de pouco citoplasma e com cromatina grosseira e nucléolo quase imperceptível. Segundo o Ministério da Saúde (2012) e Consolaro (2014), as células endome- triais geralmente são observadas em pequenos grupos ou coleções celulares, geral- mente em formato esférico, podendo na maioria das vezes, ocorrer sobreposição nucle- ar. Isso é um ponto importante a que os analistas citopatológicos devem estar atentos e familiarizados, pois em alguns casos, como na metaplasia tubária e na hiperplasia mi- croglandular – reações benignas –, podem também apresentar-se deste mesmo modo, e podem provocar, falsos diagnósticos de malignidade. 148 O fato de existirem lesões escamosas concomitantemente com adenocarcinomas, relatadas entre 30 e 50% dos casos, contribuem com o mascaramento deste tipo de câncer. O que pode ser feito para aumentar o espectro de análise é através da ‘escovinha’ de coleta de amostras endocervicais com a realização do movimento de vai e vem delicadamente. Esta prática resulta em maior descamação celular o que auxilia no diagnóstico mais assertivo de possíveis lesões endocervicais. Estes tumores malignos que têm aparência de glândulas endocervicais (adenocarcinomas) geralmente são revestidos por epitélio simples ou estratificados de células tumorais cuboides ou mesmo colunares, com citoplasma turvo e granuloso e ainda com núcleos aumentados, hipercromáticos, com cromatina grosseira e podem apresentar nucléolo. Para o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a), conforme as recomendações da OMS, os tumores glandulares podem ser classificados em seis tipos histológicos: • Adenocarcinoma sem outras especificações. • Adenocarcinoma mucinoso (70% dos casos) – que pode ser de cinco tipos: endocer- vical, intestinal, de células em ‘anel de sinete’, de desvio mínimo e ainda viloglandular. • Adenocarcinoma tipo endometrioide. • Adenocarcinoma de células raras. • Adenocarcinoma seroso. • Adenocarcinoma mesonéfrico. As lesões precursoras do tumor podem ser subdivididas, histologicamente, em (BRASIL, 2012a): • Atipia glandular – alterações não neoplásicas associadas à inflamação. • Hiperplasia atípica (displasia glandular) – neoplasia glandular intraepitelial de menor intensidade que o adenocarcinoma in situ. • Adenocarcinoma in situ. Quanto às anormalidades apresentadas pelas células glandulares, o Ministério da Saúde (2012a) nos traz a classificação do Sistema Bethesda (2001), nas categorias: • Células glandulares endocervicais atípicas (sem outra especificação) – células epite- liais glandulares endocervicais atípicas de significado indeterminado provavelmente não neoplásicas. • Células glandulares endocervicais atípicas provavelmente neoplásicas – Células epiteliais glandulares endocervicais atípicas de significado indeterminado possivelmente neoplásicas - Nomenclatura Brasileira para laudos Cervicais (2006). • Adenocarcinoma endocervical in situ. • Adenocarcinoma endocervical invasivo. 149 O sistema de categorização das células glandulares atípicas de significado indeterminado (AGUS) teve sua origem no Sistema Bethesda de 1988, que foi renomeada posteriormente para evitar-se prováveis confusões com o sistema ASCUS de células escamosas, mas ainda hoje podemos nos deparar com esse tipo de classificação. Atualmente, recomenda-se indicar a origem das células glandulares atípicas: endocervical, endometrial ou ainda indeterminada. Um ponto considerado em alguns estudos e que deve ser observado nas análi- ses citopatológicas é a idade da paciente, pois atipias de células glandulares endocer- vicais e lesões consideradas significativas são mais comuns em mulheres mais velhas (após 35 anos), nas mais jovens geralmente é mais recorrente lesões intraepiteliais es- camosas – NICs (BRASIL, 2012a). 2.2 ADENOCARCINOMAS ENDOMETRIAIS Antes de começarmos os nossos estudos sobre os adenocarcinomas endometriais temos que ter uma ideia clara: amostras de citologia cervicovaginais não é a metodologia de escolha nas investigações de lesões endometriais, ela é apenas uma metodologia de rastreamento das lesões pré-cancerosas e malignas do colo uterino (CONSOLARO, 2014; BRASIL, 2012a; 2019). Dito isso, vamos começar a estudar as características principais das células endometriais ‘normais’, aquelas características consideradas fisiológicas. Após estes estudos, partirmos para as análises celulares patológicas. Então vamos lá! As mulheres em fase reprodutiva passam pela fase de descamação do endométrio até o décimo segundo dia do seu ciclo menstrual geralmente, conforme demostrado na Figura 6, porém aquelas mulheres que fazem uso de DIU ou que fazem terapia hormonal podem apresentar células endometriais em seus esfregaços cervicovaginais em qualquer período de seu ciclo. Nas amostras em que estes tipos celulares se fazem presentes, de acordo com o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a) e seguindo mais uma vez as recomendações/diretrizes do Sistema Bethesda, devem ser sinalizadas, principalmente para aquelas que não possuem justificativa aparente e ainda para aquelas com idade superior aos 40 anos. 150 FIGURA 6 – FASES DO PERÍODO MENSTRUAL: ACONTECIMENTOS NOS OVÁRIOS E ÚTERO DE ACORDO COM CICLO HORMONAL FONTE: <https://mundoeducacao.uol.com.br/sexualidade/ciclo-menstrual.htm>. Acesso em: 2 jul. 2022. A probabilidade da existência de lesões é considerada pequena quando células endometriais são identificadas em mulheres jovens, portando tal identificação deixa de ser obrigatória nestas amostras cervicovaginais. Quando ocorre o contrário, células endometriais são identificadas em amostras de mulheres pós-menopausadas, devem ser obrigatoriamente registradas/apontadas nos laudos citológicos (BRASIL, 2012a; MOLINARO, 2010). Fisiologicamente, e de maneira genérica, as células oriundas de glândulas endometriais se apresentam em pequenas coleções. As células, em sua maioria, são pequenas, com pouco citoplasma e com limites indistintos, podendo ou não apresentar vacúolos. Seus núcleos são arredondados e com cromatina fina, podendo apresentar cromocentros devidos a possíveis alterações degenerativas. Não é raro ser observado grandes conjuntos celulares, com estrutura esférica, bem coradas, entre o sexto e décimo dia do ciclo, pois neste período podem ocorrer descamações importantes das células estromais mais profundas do endométrio. A este movimento é dado o nome de “êxodo menstrual” (BRASIL, 2012). Agora que conhecemos a estrutura básica fisiológica das células glandulares endometriais, passaremos às características consideradas ‘anormais’, pois elas são consideradas por muitos estudiosos na área como características de difícil identificação quando comparadas às alterações apresentadas pelas células cervicais, tanto que existe uma classificação específica para os casos em que não se consegue subclassificar: ‘sem outra especificação e provavelmente neoplásica’, situação que não corre com as células cervicais. 151 Diante desta situação, e conferindo a ela a importância que merece, as células atípicas, ou suas coleções endometriais, apresentam, geralmente, as seguintes carac- terísticas: • Coleções celulares relativamente pequenas – entre cinco e dez células. • Células com núcleos pouco aumentados, em comparação com as células ‘normais’. • Apresentam leve hipercromasia nuclear e nucléolo pequeno. • Possuem pouco citoplasma e na maioria das vezes com presença de vacúolos. • Apresentam contornos celulares pouco definidos. Comumente para serem classificadas, ou consideradas, ‘células glandulares endometriais atípicas’ precisam apresentarvárias características e muitas destas de natureza reativa e podem estar associadas com o uso prolongado de DIU, presença de pólipos endometriais e endometrites, conforme afirma o Ministério da Saúde (2012a). Neste grupo de células, estão inclusas aquelas decorrentes de lesões significativas do endométrio, como nos casos de hiperplasias endometriais atípicas e ainda os adenocarcinomas diferenciados. Sem dúvida, a maior dificuldade no diagnóstico é a diferenciação entre adenocarcinoma endometrial e endocervical. Ambas possuem diversas variações (subclassificações) e muitas das características morfológicas utilizadas para a realizar- se a classificação assertiva podem estar sobrepostas. Na prática o adenocarcinoma endometrial está associado com coleções celulares menores, com células também menores e geralmente isoladas, com geometria esférica podendo ou não estar acompanhadas de histiócitos. Já o adenocarcinoma cervical apresenta-se com uma coleção celular maior, do tipo colunar, em arranjos de ‘tiras’ com pseudoestratificações, com núcleos maiores assim como seus nucléolos. Para um diagnóstico assertivo de adenocarcinoma, é recomendado um exame histopatológico, pois assim evita-se apenas sugerir a origem do tumor nos casos em que não é possível definir o quadro. 3 NEOPLASIAS MALIGNAS METASTÁTICAS Vamos agora entender um pouco sobre as metástases. Mas, antes de começarmos, você sabe o que é câncer? Qual é a sua origem? Como surgem as metástases? Então vamos responder a todas as perguntas a partir de agora. Segundo o INCA (BRASIL, 2016; 2019), os cânceres genericamente possuem origem genética, a partir de uma alteração no material genético das células sadias ‘normais’. Estas alterações podem ser provocadas por variados fatores, entre eles produtos químicos (alguns mais cancerígenos que outros), infecções, radiações etc., conforme Figura 7. Com a alteração do material genético celular (DNA – ácido 152 desoxirribonucleico), irá ocorrer a ativação de genes chamados de proto-oncogeneses, que nas células normais estão inativos. Após a ativação, estes genes passam a ser conhecidos como oncogenes, e serão os responsáveis pelas células ‘com defeito’, agora mutantes, chamadas de cancerosas. O processo que transforma células normais em células cancerosas chama-se carcinogêneses ou oncogênese. FIGURA 7 – PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO DO CÂNCER TECIDO SAUDÁVEL DIVISÃO CELULAR CÉLULA NORMAL ALTERAÇÕES GENÉTICAS TUMOR MALIGNO DIVISÃO DA CÉLULA CANCERIGENA CRESCIMENTO ANORMAL DE CÉLULAS DUPLICAÇÃO DA CÉLULA CANCERIGENA DESENVOLVIMENTO CELULAR NORMAL FONTE: <https://pt.vecteezy.com/arte-vetorial/6765635-diagrama-mostrando-cancer-processo- desenvolvimento>. Acesso em: 2 jul. 2022. Este processo de transformação, na maioria dos casos, ocorre de forma lenta e gradual, permitindo a identificação do processo ainda de forma precoce, pois existem processos que levam anos para poder causar sintomas específicos ou mesmo tumorações visíveis. 153 Neste contexto, vale ressaltar que os agentes cancerígenos, ou agentes carcinógenos, geralmente, apenas provocam a iniciação do processo tumoral, mas o seu acúmulo pode contribuir com sua progressão ou mesmo com os efeitos inibitórios do tumor. Outro ponto que merece atenção é o fato de o organismo humano possuir mecanismos de controle destas células mutantes (apresentam alterações genéticas), muitas delas são induzidas a entrar em apoptose. Neste processo, a célula defeituosa’ é eliminada e restabelece-se a higidez do organismo. O grande problema é que este sistema pode apresentar falhas e as células cancerosas conseguem ‘enganar’ o sistema e passam a ter uma multiplicação celular descontrolada, dando origem aos tumores. O processo carcinogênico basicamente pode ser dividido em três estágios, segundo o INCA (BRASIL, 2019), são eles: • Iniciação: os genes ficam sob influência dos agentes cancerígenos, que provocam as alterações celulares, mas, neste momento, ainda não é possível identificar o tumor. Podemos dizer que neste estágio as células estão iniciadas ou mesmo preparadas para o desenvolvimento tumoral. • Promoção: nesta fase, as células já ‘alteradas’ estão susceptíveis à ação de outras substâncias, chamadas de oncopromotoras e aí tem-se a célula antes alterada, promovida à célula cancerígena maligna. Para esta transformação ser concluída, tem- se geralmente um grande espaço de tempo, que pode ser reduzido ou aumentado dependendo do tempo e período de contato com o agente oncopromotor, e ainda da susceptibilidade e predisposição do indivíduo portador desta célula cancerígena. Na maioria das vezes, quando se retiram as células do contato com o agente promotor, o processo de tumoração cessa. Sabe-se alguns tipos de alimentos, radiações, hormônios e/ou mesmo determinados tipos de medicamentos podem ser considerados como oncopromotores. Logo, todo cuidado é pouco, caro acadêmico! • Progressão: estágio caracterizado pela multiplicação celular descontrolada, praticamente irreversível, das células magnificadas, e oficialmente, está instalado o câncer, e com isso, inicia-se a identificação dos primeiros sinais e sintomas clínicos da doença a variar dependendo do sítio de acometimento. Após a ocorrência da mutação, as células perdem características fundamentais como a inibição por contato, por isso, com o crescimento descontrolado, perde-se o controle da divisão celular, passando a apresentar ‘características’ muito diferentes daquelas apresentadas pelas células ‘normais’. Algumas delas já estudamos nas Unidades 1 e 2, como a aparência dos núcleos, aumento do número de nucléolos, apresentação irregular da cromatina, coeficientes núcleo/citoplasma anormais etc. A seguir, segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a; 2012b; 2012c) e INCA (2016; 2019), estão resumidas algumas das principais características e ocorrências de células/tecidos mutagênicos: 154 • Células multiplicam-se de forma totalmente descontrolada, ou seja, as células continuam a se dividir constantemente e de maneira rápida. • O grande quantitativo de células em constante crescimento ultrapassa os limites do tecido original, invadindo os tecidos circunvizinhos, provocando o adoecimento periférico com invasão progressivo de todo o organismo. • Quando o câncer está restrito ao tecido de origem, o consideramos como um carcinoma in situ, porém quando ele transpassa a membrana basal e passa a invadir outros tecidos, ele passa a ser considerado um câncer/carcinoma invasivo. • As novas células do ‘bolo’ tumoral, provenientes da proliferação celular descontrolada, estimulam o processo chamado de ‘angiogênese’, que será responsável pela formação de novos vasos sanguíneos que serão por sua vez, mantenedoras de todos os nutrientes necessários ao crescimento desordenado das células cancerosas. • As células tumorais malignas têm grande capacidade de desprendimento do tumor inicial e passam a se deslocar pelo corpo, principalmente via corrente sanguínea ou linfática. Quando estas células chegam em outros órgãos ou tecidos, e ali se instalam. Damos a este processo o nome de “metástase” • A ocorrência de metástase vai depender do tipo de célula tumoral, algumas podem apresentar metástases mais rapidamente, outras mais lenta, ou ainda em alguns casos, nem apresentar. • A sintomatologia apresentada pelo paciente vai depender do local de acometimento, e o quão rápido o tecido canceroso passa a substituir o tecido sadio, tanto no câncer inicial, quanto na metástase. As células tumorais perdem grande parte de sua especialização, consequentemente, os tecidos cancerosos perdem suas respectivas funções, por exemplo quando nos pulmões, o paciente apresenta dificuldades respiratórias, quando no fígado, problemas metabólicos etc. Cabe aqui ressaltar que mesmo perdendo uma grande parte de suas funções, as células cancerígenas guardam algumas características das células originais e de seu tecido de origem, o que possibilitadescobrir a origem da mutação genética. 155 FIGURA 8 – METÁSTASE FONTE: <https://alemdasaulas.files.wordpress.com/2014/10/cancro.jpg>. Acesso em: 9 abr. 2022. Agora que já estudamos os mecanismos mutagênicos e as metástases, passaremos às ocorrências metastáticas no colo do útero e na vagina. Estes dois são os principais sítios metastáticos advindos de adenocarcinomas, segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a). Estatisticamente, de acordo com este mesmo autor, as tumorações mais recorrentes são os adenocarcinomas de endométrio, 30%, de ovários, trompas, trato gastrointestinal e de mama (principalmente o carcinoma do tipo lobular). Pensando nos tipos mais raros temos os carcinomas de bexiga, pâncreas e pulmão. 156 FIGURA 9 – ESTÁGIOS DO CÂNCER DE OVÁRIO ESTÁGIOS DO CÂNCER DE OVÁRIO ESTÁGIO I O câncer está confinado aos ovários. ESTÁGIO II O câncer está em um ou ambos os ovários e se espalhou para a região pélvica. ESTÁGIO III O câncer está em um ou ambos os ovários, e o câncer se espalhou para o revestimento do abdome ou para os gânglios linfáticos na parte posterior do abdome. ESTÁGIO IV O câncer metastatizou para locais distantes ou outros órgãos fora do abdome e da região pélvica. FONTE: <https://br.freepik.com/vetores-premium/cancer-de-ovario-quatro-estagios- mencionando-ovarios_10977167.htm>. Acesso em: 2 jul. 2022. Quando pensamos nas principais vias de acometimento para colo e vagina, as estatísticas nos indicam, segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a), que são através das trompas, advindas da cavidade peritoneal ou ainda através diretamente da uretra ou reto. Os principais tipos de câncer de colo do útero: os carcinomas de células escamosas presentes em 80 a 90% dos casos, e os adenocarcinomas com 10% a 20% do número de casos notificados. 157 4 NOVAS TECNOLOGIAS APLICADAS À CITOPATOLOGIA CLÍNICA A área da citopatologia clínica vem crescendo muito nas últimas décadas. O baixo custo, método minimamente invasivo e a facilidade de execução facilitaram muito com a população de suas técnicas, além do enorme sucesso da técnica no diagnóstico precoce, e também da prevenção, do câncer de colo de útero além de inúmeras outras doenças do trato genital feminino. Neste contexto, temos o exame de Papanicolaou convencional que tem se mostrado como uma excelente arma contra o câncer de colo de útero e a consequente diminuição da taxa de mortalidade de mulheres com este diagnóstico. Mesmo com a consagração mundial da técnica de Papanicolaou, existem, infelizmente, taxas consideradas de exames falsos-negativos, o que compromete a clínica e o prognóstico das pacientes. Sabe-se que a sensibilidade da técnica é alta, até 90%, segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a), porém, devemos considerar algumas possíveis variáveis decorrentes de falhas de execução, preparação e/ou mesmo de leitura e interpretação (análise) dos achados celulares. Sem dúvidas, um dos maiores desafios enfrentados na citopatologia é a padronização e otimização das etapas do processo de preparo, cada dia mais cobradas pelos usuários, planos de saúde e ainda assim pelas instituições certificadoras de qualidade. É inegável que para atingir um padrão de qualidade satisfatório é fundamental a adoção de padrões na rotina clínica. O padrão nem sempre é atingindo, pois sempre estão envolvidos nos processos analíticos vários profissionais, e mesmo com uma rotina de treinamentos e programas de reciclagem, existem muitas variáveis envolvidas e ainda uma alta rotatividade de profissionais na área, o que acaba por comprometer a coesão da equipe. 158 FIGURA 10 – CERTIFICAÇÃO ISO FONTE: <https://br.freepik.com/vetores-gratis/ilustracao-de-certificacao-iso-com-pessoas-e-bloco-de- notas_10329155.htm#query=iso&position=12&from_view=search>. Acesso em: 2 jul. 2022. Uma das técnicas que vem ganhando espaço no mercado citopatológico é a citologia realizada em meio líquido, também chamada na área como LBC. Através desta técnica é possível melhorar consideravelmente a visualização das amostras celulares coletadas em citopatologias do colo uterino. A amostra é analisada por computadores que requerem praticamente nenhuma sobreposição celular o que aumenta consideravelmente a sensibilidade do diagnóstico. Com o emprego desta técnica, o citopatologista tem-se maior facilidade de analisar a coleção celular e assim melhores condições de identificar possíveis anormalidades citológicas, além de conferir uma melhor conservação da amostra. A LBC ainda propicia a realização de testes de biologia molecular, com identificação de DNA do HPV e ainda de outros micro-organismos potencialmente patogênicos, como a Chlamydia trachomatis e a Neisseria gonorrhoeae, na mesma amostra citológica. A amostra passa por um processo de suspensão em meio com o fixador, através de centrifugação, sendo possível dispor sobre a lâmina uma camada fina de células para serem analisadas, devido a este procedimento técnico, a técnica LBC também é conhecida como citologia em camada fina ou ainda como citologia em monocamada. Essa técnica já possui grande uso em países como estados Unidos e Inglaterra, e vem substituindo continuamente a técnica Citológica Convencional (CC) nas análises de colo do útero. Outras técnicas em meio líquido com maior grau de automatização também vêm ganhando espaço, como a BD Sure Path e a ThinPrep que são passíveis de padronização de coleta, preparo e de coloração, padrões que possibilitam na melhoria analítica e na qualidade dos testes, diminuindo consideravelmente os procedimentos 159 manuais. Usando a técnica de citologia em meio líquido, segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a; 2012b), é possível reduzir em até 81% a área de leitura, ganho de 50% no tempo de leitura e ainda melhoria de até 73% na produtividade do laboratório. Estes números se tornam mais impressionantes quando comparamos a produtividade dos profissionais com e sem auxílio de equipamentos. Na primeira hipótese, uma média de 50-70 lâminas por dia, com o auxílio, até 170 lâminas por dia de trabalho, para jornada de 8 horas. São números impressionantes, não concordam? FIGURA 11 – CENTRÍFUGA FONTE: <https://pixabay.com/pt/photos/centrifugador-m%c3%a9dico-prp- centr%c3%adfuga-3291253/>. Acesso em: 16 abr. 2022. Vantagens da LBC, segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012a): • Melhor espalhamento das células a serem analisadas sobre a lâmina. • Melhor preservação das coleções celulares. • Menor quantidade de variáveis de ‘fundo’: muco, exsudatos e de hemácias. • Possibilidade da realização de exames adicionais sem necessidade de nova coleta. • Resíduos do centrifugado podem ser utilizados para análises de DNA do HPV além de outros patógenos. • Menores quantidades de materiais devolvidos, por “insuficiência da amostra”. Como desvantagens, podem ser citadas (BRASIL, 2012a): • Maior custo operacional. • Maior tempo de análise. • Necessidade de treinamento para adaptação do técnico à nova técnica analítica. • Maior número de células para análise etc. 160 Estudos recentes afirmam que a LBC (Citologia realizada em meio líquido) apresenta um desempenho melhor que aquele apresentado pela CC (Técnica Citoló- gica Convencional), apresentando sensibilidade maior na identificação de lesões. Vários pesquisadores da área afirmam ainda a maior sensibilidade para detecção de lesões nos casos de ASC (Alterações em Células Escamosas de significado indeterminado) e melhor efetividade no diagnóstico de lesões de alto grau e ainda naquelas glandula- res. A LBC pode ser realizada através de técnicas automatizadas e não automatizadas, entre elas: • ThinPrep: em português significa ‘preparo fino’. A espessura chega a ser de uma única célula. O material utilizado: frasco com líquido conservante que receberá as células da amostra coletada no colo do útero, espátula plástica lisa (o que evita a menor adesão celular da amostra), espátula cervical de pontas protegidaspara evitar-se pequenas hemorragias no ato da coleta, lâmina de vidro, processador automático.. • SurePath (BD Sure Path TM Pap Test): método automatizado com uso de kit para a realização de coletas endocervicais. Possui uma escova endocervical que possibilita maior coleta de amostras celulares de modo fácil e rápido e recolhimento de 100% da amostra coletada para análise. Possui vantagens como: análise automatizada e passível de padronização em todas as etapas, leitura (análise) rápida e fácil, maior produtividade, pois processa e cora até 48 lâminas simultaneamente em no máximo 60 minutos. • Liqui-Prep: metodologia não automatizada e pode ser empregada em amostras líquidas de maneira geral. Como vantagem, temos a análise de 100% das células coletadas, o material também pode ser empregado em biologia molecular e apresenta grande reprodutibilidade além de ter baixo custo, pois não utiliza equipamentos especiais. Material utilizado: líquido preservativo onde a mostra pode permanecer por até 90dias; Liqui-Prep Cleaning Solution – solução que promove a separação física das células; Liqui- Prep Cellular base – adesivo especial entre células e lâmina de vidro, o que dispensa qualquer outro tratamento químico posterior. As células são depositadas sobre a lâmina após processamento em centrífugas, com auxílio de pipetas. Existem muitas possibilidades técnicas de análises em Citopatologia clínica atualmente, o que precisa ser feito previamente, é um estudo criterioso das técnicas disponíveis, e posteriormente, eleger aquela com maiores benefícios clínicos e operacionais. Vale considerar ainda que atualmente o exame de Papanicolaou contínua sendo a metodologia de escolha, considerada como o ‘padrão ouro’ na rotina do diagnóstico citopatológico. 161 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu: • Adenocarcinomas são tumores que mimetizam a aparência das células glandulares endocervicais. Infiltram-se no estroma do colo do útero com forma glandular, que podem apresentar formas e tamanhos variados. • Os casos de adenocarcinoma cervical vêm crescendo nos últimos anos e vêm preocupando os especialistas. • O carcinoma escamoso e o adenocarcinoma possuem uma relação íntima com infecções pelo HPV, principalmente os tipos 16 e 18, o segundo mais com o tipo 18. Outro fato também em discussão é a relação entre o adenocarcinoma e o uso prolongado de contraceptivos orais. • Fatores que inicialmente não têm relação com o desenvolvimento de adenocarcinoma são: idade precoce do início da atividade sexual, bem como o número de parceiros e ainda o tabagismo. • O diagnóstico precoce envolvendo lesões glandulares ainda é um grande desafio para os profissionais da área, porque não existem indicadores específicos, e os achados colposcópicos são na maioria dos casos vagos. • Diagnosticar corretamente as lesões glandulares requer uma ampla percepção e conhecimento de várias características citológicas tanto das células isoladamente quanto do comportamento destas em coleções. • Existem lesões escamosas concomitantemente com adenocarcinomas, relatadas entre 30% e 50% dos casos, contribuem com o mascaramento deste tipo de câncer. • Tumores malignos que têm aparência de glândulas (adenocarcinomas) geralmente são revestidos por epitélio simples ou estratificados de células tumorais cuboides ou mesmo colunares, com citoplasma turvo e granuloso e ainda possuem núcleos aumentados, hipercromáticos, com cromatina grosseira e podem apresentar nucléolo. • O câncer possui origem genética, a partir de uma alteração no material genético das células. Estas alterações podem ser provocadas por variados fatores, entre eles produtos químicos, infecções, radiações etc. • O processo carcinogênico basicamente pode ser dividido em três estágios: iniciação, promoção e progressão. 162 • As células tumorais malignas têm grande capacidade de desprendimento do tumor inicial e passam a se deslocar pelo corpo, via corrente sanguínea ou linfática. Quando estas células chegam a outros órgãos ou tecidos, e ali se instalam, damos o nome de metástase. • A ocorrência de metástase vai depender do tipo de célula tumoral, algumas podem apresentar metástases mais rápido, outras mais lentamente, ou ainda em alguns casos, nem apresentar. • Uma das técnicas que vem ganhando espaço no mercado citopatológico é a citologia realizada em meio líquido, também chamada na área como LBC. • Existem muitas técnicas de análise em Citopatologia, o que deve ser feito é um estudo prévio de todas elas e posteriormente eleger aquela com maiores benefícios clínicos e operacionais. • Atualmente, o exame de Papanicolaou continua sendo a metodologia de escolha, considerada como o ‘padrão ouro’ na prevenção e no diagnóstico de câncer de colo de útero. 163 AUTOATIVIDADE 1 Câncer é um termo que abrange mais de 100 diferentes tipos de doenças malignas que têm em comum o crescimento desordenado de células, que podem invadir tecidos adjacentes ou órgãos a distância. Dividindo-se rapidamente, estas células tendem a ser muito agressivas e incontrolá- veis, determinando a formação de tumores, que podem espalhar-se para outras regi- ões do corpo. Os diferentes tipos de câncer correspondem aos vários tipos de células do corpo. Quando começam em tecidos epiteliais, como pele ou mucosas, são denominados carcinomas. Se o ponto de partida são os tecidos conjuntivos, como osso, músculo ou cartilagem, são chamados sarcomas”. FONTE: <https://www.inca.gov.br/o-que-e-cancer>. Acesso em 28 jun. 2022 Como se chama o processo em que um câncer se espalha para além do local de surgimento? a) ( ) Reação tumoral. b) ( ) Metástase. c) ( ) Translocação. d) ( ) Neoplasia. 2 (Adaptado de COVEST, 2022) Sob certas circunstâncias, as células podem passar a se dividir de forma anormal e descontrolada. Essa multiplicação anômala dá origem a uma massa tumoral que pode invadir estruturas além daquelas onde se originou. Sobre o exposto, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) Células tumorais malignas podem se disseminar por todo o corpo do indivíduo, através da corrente sanguínea ou do sistema linfático. ( ) Radiação solar em excesso, exposição a radiações ionizantes e certas substâncias químicas se apresentam como fatores de risco para o surgimento do câncer. ( ) Diversas formas de câncer diagnosticadas em pulmão, laringe, esôfago e bexiga urinária, no homem, estão associadas ao tabagismo. FONTE: <https://exercicios.brasilescola.uol.com. br/exercicios-biologia/exercicios-sobre-cancer. htm#:~:text=(Covest)%20Sob%20certas%20 circunst%C3%A2ncias%2C,assunto%2C%20 analise%20as%20proposi%C3%A7%C3%B5es%20 abaixo>. Acesso em: 30 jun. 2022. 164 Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) F – F – F. b) ( ) V – V – F. c) ( ) F – F – V. d) ( ) V – V – V. 3 (Adaptado de UFTM, 2012) A Organização Mundial de Saúde classifica 432 agentes como cancerígenos ou potencialmente cancerígenos. Eles estão divididos em três grupos, sendo que no Grupo 1 estão agentes comprovadamente associados ao desenvolvimento de câncer, entre eles podem ser citados: bebidas alcoólicas, tabaco, radiação ultravioleta, vírus da hepatite B, vírus da hepatite C e outros. FONTE: <https://exercicios.brasilescola.uol.com. br/exercicios-biologia/exercicios-sobre-cancer. htm#:~:text=Eles%20est%C3%A3o%20divididos%20 em%20tr%C3%AAs,Adaptado>. Acesso em: 30 jun. 2022. Sobre os agentes que são comprovadamente associados ao desenvolvimento de câncer, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As bebidas alcoólicas e o tabaco causam câncer especificamente em órgãos dos sistemas digestório e circulatório. b) ( ) A radiação ultravioleta danifica moléculas de RNA, presentes no interior do núcleo das células epiteliais, e isso desencadeia o câncer de pele. c) ( ) Uma vez desencadeado o câncer em uma pessoa, que consiste em divisões meióti- cas descontroladas, seus descendentes tambémirão herdar essa característica. d) ( ) Os vírus, ao se reproduzirem no interior das células hepáticas, podem alterar o controle gênico celular e, com isso, promover divisões celulares descontroladas. 4 Leia o texto a seguir atentamente: “O adenocarcinoma é um tumor maligno, derivado de células glandulares epiteliais secretoras, que pode afetar quase todos os órgãos do corpo (pulmões, intestinos, pâncreas, fígado, colo do útero etc.). Estas células podem também originar um tumor benigno, o adenoma, o qual guarda a potencialidade de transformar- se em adenocarcinoma. Embora a prefixo “adeno” queira dizer “junto a uma glândula”, não é necessário que as células desse tumor pertençam a uma glândula, desde que sejam secretoras. Em geral, os adenocarcinomas são um tipo de câncer bastante agressivo e de difícil remoção cirúrgica e têm, por isso, um prognóstico desfavorável. O adenoma, embora benigno, pode causar sérios problemas ao funcionamento orgânico em virtude de compressões ou destruição de órgãos”. FONTE: <http://twixar.me/Ydcm >. Acesso em: 16 abr. 2022 165 Após ler atentamente o texto, explique com suas palavras, e com a maior riqueza de detalhes possível, o que são adenocarcinomas. 5 Leia o texto a seguir: “Com aproximadamente 570 mil casos novos por ano no mundo o câncer do colo do útero é o quarto tipo de câncer mais comum entre as mulheres. Ele é responsável por 311 mil óbitos por ano, sendo a quarta causa mais frequente de morte por câncer em mulheres. No Brasil, em 2020, são esperados 16.710 casos novos, com um risco estimado de 15,38 casos a cada 100 mil mulheres. É a terceira localização primária de incidência e a quarta de mortalidade por câncer em mulheres no país, sem considerar tumores de pele não melanoma. Em 2019, ocorreram 6.596 óbitos por esta neoplasia, representando uma taxa ajustada de mortalidade por este câncer de 5.33/100 mil mulheres”. Taxas de mortalidade por câncer do colo do útero. Brasil e regiões, 1980 a 2019 FONTE: Adaptado de <https://www.inca.gov.br/controle-do-cancer-do-colo-do-utero/conceito-e- magnitude>. Acesso em: 16 abr. 2022 Análise o gráfico e aponte uma possível causa do aumento dos casos de câncer de colo de útero na região norte do país. 166 167 TÓPICO 3 - GESTÃO DA QUALIDADE EM LABORATÓRIOS DE CITOPATOLOGIA CLÍNICA 1 INTRODUÇÃO UNIDADE 3 Caro acadêmico, bem-vindo! Estamos na última estação da nossa viagem Citopatológica! Vivemos muitas aventuras e descobertas até aqui. Agora vamos estudar a área de gestão, veremos os principais requisitos necessários para ter-se um atendimento e uma análise de qualidade e assim, encantar nosso cliente/paciente. A primeira publicação do Manual de Gestão da Qualidade para Laboratórios de Citopatologia realizada pelo Instituto Nacional de Câncer José Alencar da Silva – INCA – é de 2012, foi feita através de meio eletrônico com a finalidade de auxiliar os profissionais inseridos no contexto da citopatologia o processamento ideal e desejável dos exames citopatológicos. Esta e outras ações integram a Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer, principalmente no SUS, normatizada pela Portaria n° 874, de 2013, que contém dentre diversas outras diretrizes as ações de monitoramento e de controle de qualidade das amostras citopatológicas empregadas no rastreamento/diagnóstico do câncer. Uma segunda publicação, a Portaria n° 3388 também de 2013, normalizou a QualiCito, que deu origem à primeira edição do Manual de Gestão da Qualidade para laboratórios de Citopatologia. Essas normatizações e a aplicação delas na rotina laboratorial permitem maior confiabilidade e agilidade na liberação de laudos. A Word Hearth Organization – WHO (2012) – em uma publicação do INCA (2016), estimou uma cobertura de 80% das mulheres foco dos rastreamentos, com diagnóstico adequado e assertivo, o que pode reduzir de 60% a 90% dos casos de diagnóstico de câncer cervical. Estes números já foram confirmados por alguns países desenvolvidos, onde, após a adesão ao rastreamento citopatológico de qualidade, conseguiram reduzir em 80% os índices de notificações de câncer de colo do útero. São admiráveis estas estatísticas! Então, passaremos, agora, para uma viagem especial, um tour especial pelas áreas de gestão e da qualidade! Vamos juntos! 168 2 SISTEMAS DE MONITORAMENTO Devemos ter clara a ideia de que o rastreamento do câncer de colo de útero deve ter seu curso baseado na progressão natural da doença, sendo imprescindível a sua identificação ainda no advento das lesões precursoras (HSIL – lesões intraepiteliais escamosas de alto grau – e, de AIS – adenocarcinoma in situ) que são passíveis de tratamento impedindo suas respectivas evoluções até o estabelecimento do câncer propriamente dito. Em pesquisas citadas pelo INCA (BRASIL, 2016), em um estudo transversal, foram analisados 2.220.298 exames citopatológicos aqui no país, e comprovou-se o que já sabíamos via literatura, o exame de Papanicolaou é extremamente efetivo na prevenção de: lesão intraepitelial de alto grau; de carcinoma escamoso invasor; de adenocarcinoma in situ e ainda de adenocarcinoma invasor, quando os exames foram realizados em um período de tempo menor que cinco anos. Fato importantíssimo para a saúde da mulher! Desta forma, o nível de qualidade e, por consequência, de confiabilidade dos exames citopatológicos possuem um peso enorme (Figura 12), pois precisa atender a vários requisitos que possibilitem minimizar possíveis deficiências do processo analítico dentro dos vários setores laboratoriais. É inegável que são vários os desafios no âmbito laboratorial, desde dificuldades e possíveis dúvidas decorrentes de interpretações e análises de amostras até aqueles referentes à qualificação dos profissionais envolvidas nas diversas áreas (BRASIL, 2012a; 2012b; 2012c; 2016). FIGURA 12 – QUALIDADE E CONFIABILIDADE DOS EXAMES DE CITOPATOLOGIA CLÍNICA FONTE: <https://br.freepik.com/vetores-gratis/conceito-de-certificacao-isometrica-iso_10296910. htm#query=iso&position=15&from_view=search>. Acesso em: 2 jul. 2022. 169 Como forma de melhoria de processos, ou mesmo de sua otimização, e maior confiabilidade, os exames citopatológicos nos laboratórios, principalmente aqueles prestadores da rede SUS, devem realizar monitoramentos internos (MIQ) e externos (MEQ). Os primeiros referem-se aos critérios iniciais, critérios avaliativos devidamente registrados e documentados, atestando possíveis não conformidades identificadas bem como as ações corretivas e/ou preventivas implementadas e adotadas para sanar tais não conformidades. Já o segundo estabelece uma série de quesitos estabelecidos por outro laboratório ou certificador referenciado que objetiva a avaliação dos parâmetros de qualidade do laboratório referente aos exames por ele executados, desde a fase pré-analítica (que já estudamos anteriormente) até a fase de liberação/emissão do laudo clínico. Existem ainda os requisitos de Boas Práticas em Laboratórios Clínicos (BPLC) que devem ser adotados pelos laboratórios de citopatologia, que fora elaborado pela Comissão Técnica dos Laboratórios (CTLE) vinculada ao Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia – INMETRO –, a Sociedade Brasileira de Laboratórios de Anatomia Patológica e Citopatologia (ABRALAPAC), a Sociedade Brasileira de Patologia (SBP) e ainda a Sociedade Brasileira de Citopatologia (SBC) que em conjunto também redigiram uma lista de verificação (LV) dos requisitos básicos das amostras laboratoriais. Uma das formas de garantir-se um maior nível de qualidade nas atividades laboratoriais é estabelecer-se padrões, e partir deles, sistemas de monitoramento, tanto internos quando externos, nos diversos setores laboratoriais, para validar-se estes padrões. Somente assim pode-se avaliar o desempenho e ainda identificar possíveis desvios de qualidade. As aplicações nas análises citopatológicas são diversas, desde identificar uma alteraçãoem células escamosas e/ou glandulares até mesmo quantificar possíveis laudos falsos-negativos. Segundo o INCA (BRASIL, 2016), um sistema de monitoramento da qualidade elementar deve possuir: • Manual da qualidade com os objetivos e requisitos de implantação do sistema da qualidade. • Registros documentados de todas as rotinas e procedimentos adotados no âmbito laboratorial. • Revisão dos esfregaços positivos (RP). • Revisão de todos os esfregaços considerados insatisfatórios. • Revisão amostral (aleatória) de 10% dos esfregaços negativos (R-10%). • Revisão dos esfregaços selecionados com base em critérios clínicos de risco (RCCR). • Pré-escrutínio rápido de 100% dos esfregaços (PER). • Implementação e registros de programas de MEQ. • Participação de comparativos interlaboratoriais. • Participação em programas de autoavaliação. 170 • Programas de educação continuada. • Consultas internas e externas. • Testes de proficiência. À primeira vista, os requisitos de padronização e de qualidade podem soar bastante burocráticos e trabalhosos, porém não passa de simples impressão. Estes requisitos após implementação, e no curso da rotina, facilitam muito o dia a dia das análises. Todos os indicadores incorporados à rotina são de fácil interpretação e construção, pois buscam refletir a realidade da rotina laboratorial, buscando, por parte dos colaboradores, principalmente, uma unidade (Figura 13), uma melhoria contínua dos processos e métodos presentes nas rotinas laboratoriais. FIGURA 13 – EQUIPE DE COLABORADORES: MELHORIA CONTÍNUA FONTE: <https://br.freepik.com/fotos-gratis/vista-aerea-de-uma-equipe-de-negocios_17117573. htm#query=iso&position=24&from_view=search>. Acesso em: 2 jul. 2022. Não se pode esquecer que os exames citopatológicos são exames de rastreamento e, portanto, fundamentais para o sucesso da clínica e da terapêutica do paciente. Caso não seja realizado a contento, pode chegar a comprometer todo o processo. Devemos lembrar que estão em jogo não só a prevenção do câncer de colo de útero, mas todo o círculo em volta do paciente, as estatísticas do serviço e do programa de prevenção em nível nacional, logo, todas as possibilidades de minorar os resultados errôneos ou não conformes devem ser exploradas. 171 2.1 MONITORAMENTO INTERNO Os indicadores de monitoramento interno da qualidade (MIQ) adotados em laboratórios citopatológicos podem auxiliar na identificação de não conformidades anteriores à chegada do material no laboratório e devem ser informados aos médicos solicitantes/assistentes responsáveis por tais coletas para que estes possam implementar ações corretivas com o objetivo de sanar tais não conformidades. Outro ganho com MIQ é o melhoramento e aprimoramento do corpo técnico e, por consequência, um atendimento de maior qualidade as pacientes. Podem ser citados entre os principais MIQs, além daqueles já citados no item de monitoramento: • Parâmetros de qualidade validados que permitam a quantificação do volume de análises e seu acompanhamento por todo o processo no âmbito laboratorial. • Realização de correlações com resultados anteriores disponíveis no laboratório e destes com os histopatológicos sempre que possível. • Reanálise dos exames classificados como discrepantes, como forma de confirmação. • Adoção de medidas corretivas e de melhoria de processos internamente após aprovação pelos responsáveis técnicos e sua posterior validação. • Melhoria contínua no tocante a qualidade dos exames citopatológicos – analisando sem- pre quais as metodologias a serem adotadas e padronizadas pelo laboratório, sempre com o objetivo de reduzir-se resultados falso-negativos ou ainda os falso-positivos. Outro ponto a ser salientado aqui, que já foi comentado no Tópico 1, é a conferência e acompanhamento dos dados de identificação, anamnese e ainda do exame clínico realizado pelo médico solicitante. No ato da recepção da amostra, é aconselhável que o profissional tenha um POP – Procedimento Operacional Padrão –, no qual conste todas as informações necessárias para aceitação ou mesmo rejeição do material amostral, e, neste último caso, notificar o responsável pela coleta dos pontos não conformes para adoção das medidas corretivas. Segundo Barbosa (2021), entre as principais ferramentas de gestão da qualidade, estão o Manual da Qualidade (MQ), Manual de Procedimentos Operacionais Padrão (POP) e as Instruções de Trabalho (IT). Juntas, estas ferramentas propiciam a minimização de erros e a padronização dos processos executados na rotina laboratorial. Nelas, é possível encontrar a descrição e a operacionalização dos processos analíticos, garantindo a qualidade dos processos, desde o momento da recepção das amostras para análise até o arquivamento das lâminas e laudos clínicos. No MQ é possível encontrar descritos dos requisitos de MIQs, além daqueles de MEQs, adotados no âmbito laboratorial. O MQ deve ser o ‘retrato da qualidade’ da organização, refletindo as padronizações e requisitos necessários para atingir-se os melhores padrões de qualidade dentro da instituição analítica. Cada uma destas ferramentas é criada especificamente para aquela instituição, respeitando sempre suas nuances, tradições e particularidades, e após 172 criadas, deve ser divulgada aos colaboradores acompanhados sempre de treinamentos e atualizações. Além disso, todos estes documentos/ferramentas devem sempre ficar ao alcance de todos os envolvidos, aptos a sanar quaisquer dúvidas que possam surgir durante a rotina laboral (BRASIL, 2012a; 2012b; 2012c; 2016). A Nomenclatura Brasileira para Laudos Cervicais e Condutas Preconizadas, republicada em 2012, fruto da parceria do Ministério da Saúde e do INCA, tornou obrigatória termos, formulários, check lists em todo o território nacional, contribuindo muito com a padronização das rotinas laboratoriais, principalmente daqueles que atendem a rede SUS (BRASIL, 2019). Outro parâmetro fundamental da qualidade é o tempo gasto para a liberação do laudo clínico, mesmo que conforme o escopo do programa de rastreamento de lesões pré ou cancerosas do colo do útero não configurem necessariamente um ‘status de urgência’, pois os laboratórios têm um prazo máximo recomendado de até 30 dias, é desejável que este prazo seja minorado, deixando este parâmetro a critério do laboratório, sempre pautado na qualidade e na ética. Devem estar presentes nos laudos as seguintes informações, conforme cita: • Qualidade da amostra recebida para a realização da leitura/análise. • Quais coleções celulares, epitélios, se fizeram presentes na amostra em estudo (células escamosas, glandulares, metaplásicas ou ainda de natureza indeterminada). • A conclusão da análise – diagnóstico. • Identificação do profissional que realizou a análise (nível superior e habilitado) (BRA- SIL, 2016). Dentre os MIQs, tem-se ainda a necessidade de confirmação daqueles que se mostrarem positivos ou mesmo insatisfatórios (dupla conferência/confirmação), que deverá ser sempre realizada por profissional de nível superior habilitado através de uma das seguintes metodologias: R-10%, RCCR, PER e RR-100% (já citadas acima). Dentre estas, o critério de escolha de uma ou mais metodologias ficará a critério da instituição responsável pela análise, e deve, ainda, indiscutivelmente constar nas ferramentas de qualidade (BRASIL, 2016; BARBOSA, 2021). A guarda de lâminas em arquivos deve estar de acordo com os parâmetros requeridos pela Portaria n° 3.388, de dezembro de 2013, publicada pela SBC/SBCC, em que todas as lâminas positivas ou com suspeita de câncer deverão permanecer em arquivo por no mínimo 20 anos, e aquelas consideradas negativas ou insatisfatórias, por 5 anos. Uma amostragem aleatória e representativa deverá ser reanalisada anualmente com o propósito de atestar a qualidade da lâmina, da coloração e ainda para garantir-se e atestar a agilidade de busca e recuperação de uma determinada amostra, caso seja necessário (BRASIL,2016). 173 Quanto aos laudos, cópias, rascunhos e demais documentos referentes ao diagnóstico, ainda seguindo a mesma legislação, devem ser arquivados, podendo ser em ambientes virtuais (microfilmagens ou ainda informatizados) por no mínimo cinco anos, mas com recomendação de alguns estudiosos, de guarda indefinidamente em ambiente seguro e de acesso controlado, devendo ser acessíveis, quando e se requeridos (BRASIL, 2016). Ainda é recomendada a prática de auditorias internas (Figura 14), e estas podem ser de vários modos e critérios, algumas sugestões, encontram-se elencadas em sequência: • Monitoramento e avaliação da qualidade das colorações. • Reanálise e discussões interdisciplinares de casos considerados divergentes. • Revisão de casos com diagnósticos clínicos específicos. • Análises interlaboratoriais. • Reanálises de casos considerados como negativos e positivos de modo duplo cego. • Monitoramento e reavaliação das amostras consideradas como insatisfatórias. • Monitoramento do tempo compreendido entre a recepção da mostra e a liberação do laudo. • Verificações de melhorias contínuas e/ou otimizações de processos (BRASIL, 2016). FIGURA 14 – AUDITORIA INTERNA: MIQS FONTE: <https://br.freepik.com/vetores-gratis/design-de-banner-de-auditoria-de-desenho- animado_24241933.htm#query=audit&position=22&from_view=search>. Acesso em: 2 jul. 2022. 2.2 MONITORAMENTO EXTERNO Quando pensamos nos MEQs, temos que ter em mente a revisão dos esfregaços realizados em uma instituição por outra, desde que devidamente certificada para isso, ou seja, um primeiro laboratório citológico recebe, processa e analisa a amostra (BRASIL, 2016). Um segundo refaz todos os procedimentos analíticos fazendo a revisão do exame. É importante deixar claro que mesmo um laboratório sendo certificado para reanálise nunca poderá reavaliar suas próprias amostras! Sempre se faz necessária uma 174 segunda instituição para proceder ao monitoramento externo. O laboratório que realiza a primeira análise é chamado de tipo I, e o laboratório responsável pela reanálise ou monitoramento externo é chamado de tipo II. Em municípios menores, caso não exista uma segunda instituição tipo II, deverá proceder o encaminhamento das amostras para outro estado ou município de referência para a conclusão do monitoramento. Para Barbosa (2021) o monitoramento externo é fundamental para a garantia da qualidade e sendo indispensável para a melhoria de processos – melhoria contínua de qualquer instituição. Quando pensamos nos laboratórios citopatológicos temos as seguintes finalidades, dentre várias outras: • Avaliação do desempenho do laboratório tipo I. • Qualidade dos exames citopatológicos do laboratório de origem da amostra de colo de útero. • Identificação de possíveis variáveis analíticas interlaboratoriais. • Identificação de possíveis divergências entre critérios citomorfológicos. • Minimização de resultados falso-positivos, falso-negativos e ainda daqueles classificados como insatisfatórios. • Melhorias dos processos analíticos. • Ação corretiva de possíveis não conformidades (BRASIL, 2016). 3 ACREDITAÇÃO PARA LABORATÓRIOS DE CITOPATOLOGIA CLÍNICA Segundo uma pesquisa, citada por Brasil (2016), realizada pelo Instituto Brasi- leiro de Geografia e Estatística – IBGE – em 2009, foi possui identificar 16.657 (dezesseis mil seiscentos e cinquenta e sete) laboratórios de análises clínicas no nosso país, e apenas 5854 (cinco mil oitocentos e cinquenta e quatro) destes, são de anatomia pa- tológica e citologia. E, ainda, destes, apenas 1170 (mil cento e setenta) são prestadores de serviços do SUS. Neste universo, é crucial ter-se um padrão de qualidade confiável, além de um acompanhamento sistemático de todas as atividades desenvolvidas desde a recepção da amostra até o seu arquivamento/conservação. Mesmo com a facilidade e simplicidade do exame citopatológico – exame de Papanicolaou – realizado no Brasil desde os anos de 1940 pelo SUS e desde lá realizado com praticamente a mesma base tecnológica de hoje, com execuções bem manuais, o processo demanda uma grande perícia, habilidade e competência técnica do analista citopatológico em meio a tantas variabilidades fisiológicas e também patológicas. 175 O sucesso das análises está estritamente relacionado com o conhecimento, competência técnica e sem dúvida com uma boa formação profissional. Estes são os pilares fundamentais da qualidade em qualquer instituição ou organização. Neste sentido, os programas de atualizações, educação continuada e treinamentos são sempre muito bem-vindos quanto à melhoria técnica dos profissionais envolvidos na prática analítica, principalmente. Pode-se dizer que a certificação de qualidade das instituições analíticas é uma terceira forma de garantir-se a qualidade, ficando atrás somente dos MIQs e MEQs. O processo de certificação é conduzido por profissionais qualificados e habilitados para tal, após uma série de auditorias – verificações documentais e visitas na planta laboratorial, em suas diversas áreas institucionais, com o intuito de verificar-se a adequabilidade dos processos e condutas em relação aos preceitos e requisitos exigidos pela BPLC. Quando todos os requisitos são atendidos a contento, tem-se a provação dos processos e padrões técnicos, conferindo ao laboratório um selo de qualidade e este torna-se apto a desempenhar a prestação de serviços de saúde com qualidade. Uma certificação bastante cobiçada e almejada pelas instituições, atualmente, é a certificação ISO – International Organization for Standardization (Organização Internacional de Padronização). Trata-se da maior instituição certificadora que avalia os requisitos e padrões técnicos baseados na família da ISO 9000, 17000 e 15000. É uma instituição não governamental, que foi fundada na década de 1940, que possui como principal objetivo a promoção dos parâmetros de qualidade no comércio internacional. A normatização das atividades, e posterior certificação, facilita, e muito, o comércio internacional de bens e serviços além de abrir portas de cooperação, tecnológica, profissional, intelectual e econômica, no cenário mundial. A representante da ISO no Brasil, é a ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas, sob representação do INMETRO – Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia. Segundo Brasil (2016), a necessidade de acreditar os laboratórios surgiu a partir da Comunidade Brasileira de Patologistas e Citopatologista após a demanda do próprio INMETRO em 1997, quando criou a CTLE-04, com convocação de vários laboratórios e conselhos de classes dos profissionais envolvidos, Medicina, Farmácia, Biologia e Biomedicina, além de universidades e o INCA. Vale lembrar que a acreditação ISO é um processo totalmente voluntário. Ela é implementada somente se a instituição assim desejar! Caso o laboratório opte pela certificação ela deverá passar a apresentar e atender a vários requisitos mínimos exigidos pelas normas da ABNT NBR ISO IEC 17025 e 15189, em seguida, o órgão certificador irá realizar várias auditorias e relatórios situacionais da instituição sobre o atendimento às normatizações. 176 As normas ABNT NBR ISO IEC 14500, a INMETRO NIT-DICLA-083 e ainda o Manual das Organizações Prestadoras de Serviços de Laboratórios Clínicos da ONA – Organização Nacional de Acreditação –, segundo Brasil (2016) e vários pesquisadores da área, são complementares e facilitadoras no processo de implementação de serviços e processos de qualidade no âmbito das intuições laboratoriais que desejam a certificação internacional. Caso existam não conformidades, um prazo será estipulado para a realização de ações corretivas e as devidas adequações, até que todos os critérios estejam satisfeitos em todos os setores institucionais. Comprovada a satisfação de todos os requisitos, o laboratório recebe a certificação de acreditação. Conforme o Ministério da Saúde (2016), no Brasil, a ANS – Agência Nacional deSaúde Suplementar – foi criada através da lei Federal n° 9961, de 2000, com o objetivo de promover a defesa do interesse público na assistência suplementar de saúde, e sua regulação setorial, com ações de promoção à saúde, assim, compete a esta agência, dentre outras funções: • Instituir parâmetros e indicadores de qualidade que objetivem a cobertura assistencial à saúde no tocante a serviços próprios ou de terceirizados. • Controlar e avaliar os critérios de manutenção da qualidade dos serviços prestados. • Criar critérios de monitoração, aferição e controle de qualidade dos serviços prestados por operadoras de planos de saúde. • Primar sempre pela qualidade dos serviços prestados na assistência à saúde suplementar. • Promover cursos de capacitação para equipes, tanto de auditoria interna, quanto para a equipe gestora. Quando o laboratório resolve optar pela acreditação e realiza a sua implantação efetivamente, passa a possuir um melhor nível de gestão da qualidade, melhorando o seu nome e respeito no mercado. Refletindo sua qualidade nos laudos analíticos e também na prestação de serviços a seus clientes. Existem atualmente vários programas de incentivo à acreditação de laboratórios clínicos, segundo Brasil (2016), e, a participação neles, apenas reafirma o compromisso e a responsabilidade da instituição com o cliente, na prestação de serviços de qualidade. Estes programas ainda permitem realizações periódicas de testes de proficiência, de avaliação e competência profissional e ainda a identificação de possíveis falhas operacionais que poderiam comprometer a qualidade dos processos, o que em última análise poderia incorrer em riscos para as populações atendidas. O sucesso da acreditação para laboratórios de citopatologia, segundo Brasil (2016), deve-se muito à criação de grupos de trabalho responsáveis pelo estabelecimento de padrões ou requisitos adotados pelo laboratório, assim como um planejamento criterioso de cursos de capacitação, formação e de reciclagem de equipes de auditores, sempre contando com profissionais experientes nas áreas gestoras e de citopatologia clínica. 177 NOVAS RECOMENDAÇÕES DE RASTREIO E TRATAMENTO PARA PREVENIR O CÂNCER DO COLO DO ÚTERO Organização Pan Americana da Saúde – OMS no Brasil Muitas mulheres em todo o mundo - principalmente as mais pobres - continuam morrendo de câncer do colo do útero, uma doença que pode ser prevenida e tratada. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Human Reproduction Programme (HRP) lançaram uma nova orientação para ajudar os países a progredir mais rapidamente e de forma mais equitativa no rastreio e tratamento dessa enfermidade devastadora. Acabando com o sofrimento devido ao câncer do colo do útero Em 2020, mais de meio milhão de mulheres tiveram câncer do colo do útero e cerca de 342 mil morreram em consequência - a maioria nos países mais pobres. Programas de rastreio rápidos e precisos são essenciais para que todas as mulheres com doenças cervicais recebam o tratamento de que precisam e para evitar mortes. A estratégia global da OMS para a Eliminação do Câncer de Colo do Útero, endossada pela Assembleia Mundial da Saúde em 2020, pede que 70% das mulheres em todo o mundo sejam examinadas regularmente para doenças cervicais com um teste de alto desempenho e que 90% delas precisam receber tratamento adequado. Juntamente com a vacinação de meninas contra o papilomavírus humano (HPV), a implementação dessa estratégia global poderia prevenir mais de 62 milhões de mortes por câncer do colo do útero nos próximos 100 anos. “Programas de rastreio e tratamento cervicais eficazes e acessíveis em todos os países não são negociáveis se quisermos acabar com o sofrimento inimaginável causado pelo câncer do colo do útero”, afirmou Princesa Nono Simelela, subdiretora-geral para Prioridades Programáticas Estratégicas: Eliminação do Câncer do Colo do Útero. “Esta nova orientação da OMS guiará o investimento em saúde pública em melhores ferramentas de diagnóstico, processos de implementação mais fortes e opções mais aceitáveis de triagem para atingir mais mulheres - e salvar mais vidas”. LEITURA COMPLEMENTAR 178 Mudança no atendimento A nova orientação inclui algumas mudanças importantes nas abordagens recomendadas pela OMS para o rastreio de câncer do colo do útero. Em particular, é recomendado um teste de HPV baseado em DNA (teste de HPV-DNA) como o método preferido, em vez de inspeção visual com ácido acético (VIA) ou citologia (Papanicolau), atualmente os métodos mais comumente usados mundialmente para detectar lesões pré-cancerosas. O teste de HPV-DNA detecta cepas de alto risco que causam quase todos os cânceres do colo do útero. Ao contrário dos testes que dependem de inspeção visual, essa ferramenta é um diagnóstico objetivo, não deixando espaço para dúvidas no processo de interpretação dos resultados. Embora o processo de obtenção de uma amostra do colo do útero por um profissional de saúde seja semelhante à citologia ou ao teste de HPV-DNA, o teste de HPV-DNA é mais simples, previne mais pré-cânceres e cânceres e salva mais vidas do que a inspeção visual ou a citologia. Além disso, é mais custo-efetivo. Mais acesso a insumos e auto amostragem é outro caminho a ser considerado para atingir a meta da estratégia global de testes de 70% até 2030. A OMS sugere que amostras podem ser obtidas pelo método de autocoleta a partir da introdução dos testes de HPV-DNA. Estudos mostram que as mulheres muitas vezes se sentem mais confortáveis colhendo suas próprias amostras, por exemplo, no conforto de sua própria casa, em vez de consultar um provedor de saúde para fazer o exame. No entanto, as mulheres precisam receber apoio adequado para se sentirem confiantes em lidar com esse processo. Recomendações respondem à ligação entre HPV e HIV Mulheres imunocomprometidas, como aquelas que vivem com HIV, são particularmente vulneráveis à doença cervical; elas são mais propensas a ter infecções persistentes por HPV e progressão mais rápida para lesões pré-cancerosas. Isso resulta em um risco seis vezes maior de câncer do colo do útero entre mulheres que vivem com HIV. Em reconhecimento a isso, a nova orientação inclui recomendações específicas para mulheres que vivem com HIV, incluindo o uso do rastreamento primário por teste de HPV-DNA seguido por um teste de triagem se os resultados forem positivos para HPV com o intuito de avaliar os resultados quanto ao risco de câncer do colo do útero e necessidade de tratamento. 179 As recomendações mundiais também orientam que o rastreio comece mais cedo (25 anos) do que para a população geral de mulheres (30 anos). Mulheres vivendo com HIV também precisam ser testadas novamente após um intervalo de tempo menor depois de um teste positivo e após o tratamento do que as mulheres sem HIV. “Com essas novas diretrizes, devemos aproveitar as plataformas já desenvolvidas ao atendimento e tratamento do HIV para melhor integrar o rastreio e o tratamento do câncer do colo do útero para atender às necessidades de saúde e aos direitos do grupo diversificado de mulheres vivendo com HIV para aumentar o acesso, melhorar a cobertura e salvar vidas”, disse Meg Doherty, diretora do Departamento de Programas Mundiais de HIV, Hepatites e Infecções Sexualmente Transmissíveis da OMS. Cada intervenção conta para eliminar o câncer do colo do útero Os dados que mostram onde os países ao redor do mundo estão atualmente em relação à carga de câncer do colo do útero e cobertura para rastreio e tratamento devem ser publicados até o final de 2021. Esses perfis de país podem ajudar os ministérios da saúde a identificarem onde seus programas precisam de fortalecimento e medir o progresso em direção às metas de 2030. Para que um programa de prevenção e controle do câncer do colo do útero tenha impacto, reforçar a adesão dos pacientes e garantir um tratamento rápido das mulheres com diagnóstico de HPV ou lesões pré-cancerosassão prioridades fundamentais. “O custo e a efetividade dos testes de rastreio são importantes para expandir os programas, mas outros aspectos da abordagem de saúde pública para eliminar o câncer do colo do útero também são vitais”, alegou Nathalie Broutet, do Departamento de Saúde Sexual e Reprodutiva e Pesquisa da OMS e do HRP. “O que mais importa é a coerência do programa de cada país para garantir a continuidade da atenção: que todas as mulheres tenham acesso ao rastreio, os profissionais de saúde sejam informados em tempo hábil sobre os resultados do teste de rastreio e possam, por sua vez, compartilhar essas informações com seu paciente, e que as mulheres possam ter acesso a tratamento apropriado ou encaminhamento, se necessário”. A OMS pede que todas as mulheres tenham acesso e façam testes regulares de rastreio do câncer do colo do útero de acordo com as recomendações das autoridades de saúde locais. FONTE: <https://www.paho.org/pt/noticias/6-7-2021-novas-recomendacoes-rastreio-e- tratamento-para-prevenir-cancer-do-colo-do-utero>. Acesso em: 11 abr. 2022. 180 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu: • A qualidade dos exames citopatológicos possuem grande impacto na clínica médica. Eles devem atender a requisitos que permitam minimizar problemas no processo analítico e garantir a qualidade dos laudos. • Existem vários desafios na rotina laboratorial: dúvidas de interpretação e análise das amostras e ainda falta de profissionais qualificados para exercer tal atividade. • Existem monitoramentos internos (MIQ) e externos (MEQ) que tem como objetivo a melhoria de processos, ou mesmo sua otimização, conferindo maior confiabilidade aos exames citopatológicos. • Requisitos e critérios devem ser devidamente registrados e documentados, atestando possíveis não conformidades identificadas bem como as ações corretivas e/ou preventivas implementadas e adotadas para sanar tais não conformidades. • O atendimento aos requisitos de padronização e de qualidade podem soar bastante burocráticos e trabalhosos, porém não passa de simples impressão. Estes requisitos após implementação facilitam muito a rotina laboratorial. • As principais ferramentas de gestão da qualidade são o Manual da Qualidade (MQ), Manual de Procedimentos Operacionais Padrão (POP) e as Instruções de Trabalho (IT). Juntas, estas ferramentas propiciam a minimização de erros e a padronização dos processos executados na rotina laboratorial. • Monitoramentos são fundamentais para a garantia da qualidade e indispensável para a melhoria de processos – melhoria contínua de qualquer instituição. • A certificação ISO – International Organization for Standardization (Organização Internacional de Padronização) – é concedida pela instituição certificadora após avaliar os requisitos e padrões técnicos baseados nas famílias da ISO 9000, 17000 e 15000. O principal objetivo da certificadora é a promoção dos parâmetros de qualidade no comércio internacional. 181 AUTOATIVIDADE 1 A certificação baseada na norma ISO confere a uma empresa grande credibilidade junto à sociedade, visto que, além de assegurar padrões, a norma valida a qualidade dos pro- cessos. Sobre a gestão da qualidade nas instituições, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As principais ferramentas de gestão da qualidade são o Manual da Qualidade (MQ), Manual de Procedimentos Operacionais Padrão (POP) e as Instruções de Trabalho (IT). b) ( ) Não é importante a gestão da qualidade nos laboratórios clínicos. c) ( ) As ferramentas de gestão da qualidade apenas oneram mais os colaboradores, aumentando suas respectivas cargas de trabalho. d) ( ) As ferramentas de qualidade auxiliam na maximização de erros de processos na prática laboratorial. 2 (Adaptado de FGV, 2016) A ISO (International Organization for Standardization) é uma instituição não governamental, fundada em 1947, na Suíça, que tem como função principal a elaboração de normas técnicas que promovam a padronização das práticas de boa gestão e o avanço tecnológico, além de ajudar na identificação de organizações que seguem essas regras. No Brasil, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) é a responsável pela elaboração e coordenação dessas normas, de acordo com as da ISO. FONTE: <https://www.qconcursos.com/questoes- de-concursos/questoes/c6ce9570-06>. Acesso em: 30 jun. 2022. Sobre a certificação ISO, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) A ISO apenas certifica laboratórios de citopatologia. b) ( ) A ISO apenas auxilia as instituições nas relações comerciais. c) ( ) A ISO tem como objetivo a promoção dos parâmetros de qualidade no comércio internacional. d) ( ) A ISO é uma certificadora nacional somente para serviços de saúde. 3 egundo dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA), o câncer de colo do útero é o terceiro tumor mais frequente na população feminina, atrás apenas do câncer de mama e do colorretal, e a quarta causa mais comum de morte de mulheres por câncer no Brasil. São estimados 16.340 novos casos da doença em 2016, com um risco estimado de 15,85 casos a cada 100 mil mulheres. Até 2030, esse número de novos casos deve aumentar para 435 mil. 182 Nesse cenário, o exame de Papanicolau é de grande importância, principalmente para detectar precocemente as lesões que precedem o câncer de colo do útero (displasias) e indicar o melhor tratamento antes do seu desenvolvimento. Esse teste também pode detectar alterações que indicam a presença nas células do HPV (vírus do papiloma humano), o mais importante agente causador do câncer do colo uterino. Segundo o médico patologista e membro da SBP, Victor Piana, o teste de Papanicolau conseguiu reduzir a mortalidade por câncer de colo uterino na população em todos os países onde foi implantado. “O câncer de colo uterino só não foi eliminado por completo por fatores como falta de comparecimento das mulheres para a realização do exame, altas taxas de infecção e reinfecção das mulheres pelo vírus HPV e as falhas na atenção à saúde, uma vez detectadas as lesões pré-neoplásicas”, conta. FONTE: <https://www.sbp.org.br/previna-se-contra-o-cancer-de- colo-do-utero/?gclid=EAIaIQobChMI89SCj_TQ-AIVgUBIAB2H- AvmEAAYASAAEgLlrvD_BwE>. Acesso em: 28 jun. 2022. Sobre o exposto, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) O rastreamento do câncer de colo de útero deve ter seu curso baseado na progressão natural da doença. ( ) Os laboratórios de citopatologia somente podem liberar os laudos citopatológicos com no mínimo 30 dias. ( ) O exame de Papanicolaou é extremamente efetivo na prevenção de lesão intraepiteliais, de carcinomas e de adenocarcinoma, quando realizados num período de tempo menor que cinco anos. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – F – V. 4 Existem muitas vantagens para os laboratórios de citopatologia quando implementam os requisitos de qualidade necessários à certificação, principalmente a ISO. Cite alguns aspectos benéficos às instituições pós-certificação. 5 Vários tipos de controles devem ser adotados pela instituição com a finalidade de garantir-se um nível de excelência em qualidade. Disserte sobre os principais tipos de monitoramento existes e suas vantagens para a instituição e seus clientes. 183 REFERÊNCIAS BARBOSA, J. F. Gestão da qualidade. Contagem: Senai, 2021. BRASIL. INCA. Estimativa 2020: incidência de câncer no Brasil. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Rio de Janeiro: INCA, 2019. 120 p. Disponível em: https://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files/media/document/estimativa- 2020-incidencia-de-cancer-no-brasil.pdf. Acesso em: 3 jan. 2022. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE: INCA. Manual de gestão da qualidade para laboratório de citopatologia. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Rio de janeiro: INCA, 2016, 188p. Disponível em: https://www.inca.gov.br/publicacoes/manuais/manual-de-gestao-da-qualidade-para-laboratorio-de- citopatologia. Acesso em: 16 mar. 2022 BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Caderno de referência 1: citopatologia ginecológica. Brasília: Ministério da Saúde; Rio de Janeiro: CEPESC, 2012a. Disponível em: https:// bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/tecnico_citopatologia_caderno_referencia_1. pdf. Acesso em: 3 jan. 2022. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Caderno de referência 2: citopatologia não ginecológica. Brasília: Ministério da Saúde. Rio de Janeiro: CEPESC, 2012b. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/tecnico_citopatologia_caderno_ referencia_2.pdf. Acesso em: 3 jan. 2022. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Caderno de referência 3: citopatologia não ginecológica. Brasília: Ministério da Saúde; Rio de Janeiro: CEPESC, 2012c. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/tecnico_citopatologia_caderno_ referencia_3.pdf. Acesso em: 3 jan. 2022. CONSOLARO, M. E. 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