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INJÚRIA RENAL AGUDA Profa. Cláudia Oliveira 13 de setembro de 2022 OBJETIVOS 1. Aprender as definições de IRA 2. Entender a fisiopatologia da IRA 3. Saber classificar os tipos de IRA 4. Reconhecer as principais etiologias de IRA de acordo com sua classificação 5. Diferenciar a IRA pré-renal de uma necrose tubular aguda isquêmica 6. Aprender as principais diferenças entre IRA e IRC 7. Demonstrar em linhas gerais os principais exames diagnósticos na IRA IRA – Critérios para definição RIFLE -2004 AKIN -2007 KDIGO -2013 AKI = Acute Kidney Injury KDIGO AKI é definida por qualquer um dos critérios: na creatinina sérica ≥ 0,3 mg/dl em 48 horas; ou na creatinina sérica ≥ 1,5 vezes o valor basal, conhecido ou presumido nos últimos 7 dias; ou volume urinário para < 0,5 ml/kg/h por 6 horas Kidney int 2012; suppl 2: 8-12 KDIGO - Estágios da IRA Kidney int 2012; suppl 2: 8-12 Novos conceitos Até 7 dias: IRA injúria renal aguda 7-90 dias: Doença renal aguda IRA ou TFG < 60ml/min≤ 3 meses ↓ TFG ≥ 35% ou ↑da creatinina > 50% ≤ 3 meses Presença de marcadores de dano renal (albuminúria, hematúria, piúria) ≤ 3 meses >90 dias: Doença renal crônica Novos conceitos Nat Rev Dis Primers 2021;7(1):52 Novos conceitos ►Doença renal aguda → dano agudo, subagudo e/ou perda de função renal por uma duração entre 7-90 dias após exposição a um evento inicial de IRA ► Evolução da DRA → recuperação, recorrência da IRA, progressão da DRA ou morte Nature Reviews Nephrology v.13, p.241–257, 2017 Nature Reviews Nephrology v.14, p.607–625, 2018 Novos conceitos – estágios da DRA Novos conceitos – estágios da DRC Estágio 0 Recuperação parcial da injúria renal aguda Estágio 0A Paciente que teve um episódio de IRA, sem marcadores de dano ou estrutural de IRA, mas com riscos de eventos a longo termo Estágio 0B Creatinina retorna ao valor basal, mas ainda há evidências de dano, injúria ou perda de reserva funcional Estágio 0C Sem recuperação completa da IRA, mas creatinina < 1,5 vezes o valor basal Nature Reviews Nephrology v.14, p.607–625, 2018 IRA – o tamanho do problema IRA e mortalidade IRA - Classificação Débito urinário Causa da IRA Classificação IRA – Débito urinário Oligúrica Anúrica Não-oligúrica/poliúrica http://photobucket.com/ http://photobucket.com/ IRA - Débito urinário Oligúria: <400-500 ml/24 hs ou < 20ml/hora/24 hs ou < 0,3 ml/kg/hora/24 horas Anúria: < 100 ml/24 horas OLIGÚRIA não é invariável na IRA: 50% dos casos IRA não oligúrica: melhor prognóstico Traduz insulto renal menos severo Maior incidência de IRA nefrotóxica IRA ANÚRICA 1. Obstrução arterial ou venosa bilateral 2. Obstrução ureteral bilateral 3. GNRP 4. Necrose cortical http://dic.academic.ru/pictures/wiki/files/75/Kidney_%E2%80%93_acute_cortical_necrosis.jpg http://dic.academic.ru/pictures/wiki/files/75/Kidney_%E2%80%93_acute_cortical_necrosis.jpg Classificação IRA – Causa Revendo a auto-regulação renal FSR: 20-25 % do débito cardíaco (1,0-1,5 litro/min) 20% do FPR é filtrado a cada minuto (125 ml/min) Um mecanismo de feedback que mantém o FSR e a TFG constantes, a despeito de alterações na pressão arterial http://www2.kumc.edu/ki/physiology/course/images/fig2_10.gif http://www2.kumc.edu/ki/physiology/course/images/fig2_10.gif Ajustando a resistência da arteríola aferente e eferente, os rins podem regular: Alterando a TFG e/ou a reabsorção tubular em resposta à demanda homeostática Auto-regulação do Fluxo Sanguíneo Renal Controle intrínseco Hipótese miogênica Feedback túbulo- glomerular Aparelho justaglomerular COMPOSIÇÃO Células da mácula densa Células justaglomerulares produtoras de renina (células granulares das arteríolas aferente e eferente) Células mesangiais extraglomerulares Aparelho justaglomerular Células JG: cél. mm lisas modificadas nas art. aferente/eferente Contém grânulos de renina pressão de perfusão renal liberação de renina Baroreceptor Mácula densa: Alça de Henle/TCD Detectam a conc. cloreto NaCl liberação de renina Quimioreceptor Feedback tubuloglomerular: quando diminui a PA e a TFG oferta de NaCl ao TD reabsorção de cloro liberação de óxido nítrico? PGE? vasodilatação da aferente TFG a secreção de renina das cél. JG das art. aferente e eferente vasoconstricção da eferente PHCG TFG Renina: vasoconstricção eferente Angio II: reabsorção tubular proximal de Na+ e água Aldosterona: reabsorção tubular distal de Na+ e água IRA - Fisiopatologia IRA pré-renal Perfusão renal diminuída sem injúria celular Função glomerular e tubular intactas Reversível se causa subjacente é corrigida IRA pré-renal Causa mais freqüente de IRA: 55-60% dos casos Idosos mais susceptíveis Predisposição à hipovolemia Alta prevalência de doença aterosclerótica da artéria renal 55% 40% 5% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% pre-renal renal pos renal IRA pré-renal Autorregulação só é feita até um valor de PAS = 80mmHg. Abaixo disso, a azotemia pré-renal se instala: auto-regulação renal não é mais capaz de evitar o hipofluxo pela vasodilatação da arteríola aferente IRA pré-renal Hipofluxo renal pode acontecer com PA > 80 mmHg em: idosos, diabéticos, hipertensos, pacientes com DRC* * disfunção crônica da aferente Causas de IRA pré-renal Hipoperfusão renal 1. volume extracelular: desidratação, hipovolemia 2. volume circulante efetivo: sepse, cirrose, baixo DC, sd hepatorenal 3. Alteração na hemodinâmica glomerular Vasoconstricção aferente: AINES, Contrastes Vasodilatação eferente: IECA/BRAs AINES Inibição das PGs Vasoconstricção renal perfusão renal IECA/BRAs tônus art. eferente pressão de FG TFG Alteração na hemodinâmica glomerular 35-40% dos casos de IRA Não melhora com a correção da desidratação/ hipovolemia 85% dos casos de IRA renal Necrose Tubular Aguda Perda do epitélio tubular em diversos pontos do parênquima renal, bilateralmente Síndrome de natureza auto-limitada Duração: 1-3 semanas, podendo durar vários meses NTA - Apresentação Clínica Oligúrica: 74% Não oligúrica: 26% 74% 26% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% oligurica não oligúrica 72% 26% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% isquêmica nefrotóxica Isquêmica: 72% Nefrotóxica: 28% NTA - Etiologia Isquêmica Choque ou hipotensão prolongada Pós-operatório Septicemia SIRS (pancreatite, grande queimado) Nefrotóxica Medicamentos: aminoglicosídeos, ciclosporina, anfotericina, contraste iodado Pigmentos: rabdomiólise, hemólise intravascular Venenos: etilenoglicol, veneno de cobra Exógena Endógena NTA isquêmica Continuum da azotemia pré-renal Azotemia pré- renal sustentada é o principal fator que predispõe o paciente à NTA isquêmica Resposta à repleção de fluidos pode ajudar a distinguir entre as duas Retorno da função renal com 24-72 hs geralmente indica doença pré-renal IRA pré-renal: débito urinário em resposta à hidratação IRA renal: não débito urinário em resposta à hidratação IRA - Resposta à hidratação Prova terapêutica com cristalóide : SF 0,9% 1000 ml EV Diurese horária antes e depois da infusão Na azotemia pré-renal hipovolêmica significativo do débito urinário IRA - Resposta à hidratação Ausência de resposta: o que significa? Lesão renal intrínseca Hipovolemia mais grave, necessitando de mais volume HIPOPERFUSÃO GraveLeve a moderada AZOTEMIA RENAL Com lesão isquêmica do parênquima AZOTEMIA PRÉ- RENAL Sem lesão do parênquima renal NTA - Fisiopatologia Vasoconstricção aferente (ruptura do mecanismo de feedback tubuloglomerular) Obstrução intratubular Difusão retrógrada (Backleak) do filtrado glomerular Dano às celulas tubulares proximais oferta de NaCl ao néfron distal Ruptura do mecanismo de feedback tubuloglomerular NTA: o FSR em 30-50% NTA - Vasoconstricção aferenteNTA – Obstrução intra-tubular Obstrução intra-tubular pressão hidrostática intra-tubular TFG NTA - Backleak do filtrado pressão intratubular ruptura das “tight junctions” e adesão mediada por integrinas NTA - Fisiopatologia NTA: evento transitório e reversível na maioria das vezes, devido capacidade de regeneração e diferenciação das células tubulares Mesmo quando 90% das cel. epiteliais dos túbulos proximais estão destruídas, os 10% restantes podem entrar em proliferação, sob o estímulo de hormônios e fatores de crescimento e recompor o epitélio tubular Células regeneradas: núcleos volumosos, nucléolos evidentes, e citoplasma escasso e basófilo. Mitoses podem ser observadas Fluxo sanguíneo renal: ¼ do débito cardíaco = 1200 ml/min no adulto Fluxo cortical: 95-98% vs Fluxo medular: 2-5% NTA – Sítios de injúria Segmentos com alto consumo de ATP e gasto de energia para reabsorção tubular: pars reta do túbulo proximal e alça ascendente espessa de Henle 3. IRA pós-renal Obstrução do trato urinário Menos comum: 5-10% Hipertrofia prostática Câncer Coágulos Litíase bilateral Válvula de uretra posterior Necrose papilar bilateral Fibrose retro-peritoneal Ligadura dos ureteres IRA pós-renal IMPORTANTE: Descartar rapidamente Potencial de recuperação da função renal é inversamente relacionado com o grau e a duração da obstrução Identificação precoce é fundamental IRA pós-renal – obstrução persistente Liberação de fator quimiotáxico pelas células do epitélio tubular, sob efeito da maior pressão luminal Atração de cel. inflamatórias Nefrite tubulo-intersticial crônica Obstrução por mais de 2-4 semanas: fibrose intersticial, atrofia tubular progressiva e IRC IRA - Manifestações Clínicas OLIGÚRIA/ ANÚRIA AZOTEMIA HIPERVOLEMIA HIPERTENSÃO K+, Na+, Ca, P ACIDOSE METABÓLICA de U e Cr Podem sofrer influência de fatores extra-renais Ureia Desvantagens como marcador de função renal Parte da ureia filtrada é reabsorvida (40% no TCP) Condições que reabsorção tubular (hipovolemia) ureia sem queda de função renal IRA - Complicações neurológicas Sistema que menos tolera rápida redução da função renal: Sistema nervoso Encefalopatia urêmica: manifestação + comum da IRA Alteração intelectual e de memória Alterações do sensório Alterações motoras (asterixis, tremores, mioclonias) Convulsões Coma Consequências sistêmicas da IRA Nat Rev Dis Primers 2021;7(1):52 AKI induces a generalized inflammatory response that affects distant organs Full recovery of kidney function is uncommon, which leaves these patients at risk of long-term morbidity and death. IRA - Diagnóstico História e Exame Físico Testes sangüíneos: uréia, creatinina, eletrólitos, gasometria Urinálise Índices renais Avaliação por imagem Urinálise Urinálise na IRA pré-renal Sedimento urinário acelular Cilindros hialinos (mucoproteína de Tamm- Horsfall) Urinálise na IRA renal Cilindros epiteliais, cilindros granulosos pigmentares e muitas células tubulares (sedimento sujo) Leve proteinúria tubular (< 1g/dia) Cilindros estão ausentes em 30% dos casos de NTA Necrose tubular aguda - urinálise IRA - Índices Renais Na+ urinário Fração de excreção de sódio Relação ureia/creatinina no plasma Osmolaridade urinária IRA - Índices Renais Na+ urinário e Fração de excreção de sódio Dependem da concentração de sódio na urina Reabsorção de sódio e água intacta na insuficiência pré-renal prejudicada na NTA (Ins. Renal intrínseca) Interpretar com cautela se o paciente recebeu terapia com diuréticos IRA - Índices Renais Fração de Excreção de Na (FENa) FENa = [Nau/Na plasma] x 100 % Creat u/Creat plasma] Percentual de sódio filtrado que é excretado na urina Parâmetro mais confiável e fidedigno Na+ e FENa Pré-renal Na+ urinário baixo: < 20 mEq/l Ávida retenção de sódio e água pela hipoperfusão renal FENa: < 1% Urina pobre em sódio e muito concentrada NTA isquêmica Na+ urinário alto > 40 mEq/l Mecanismo: dano tubular FENa: > 2% Urina rica em sódio e ao mesmo tempo diluída Relação ureia/creatinina Pré-renal Ureia/Creatinina: > 40 (normal no plasma = 30-40) VEC Ureia reabsorvida no túbulo proximal e creat. não é reabsorvida Ureia * 0,467 = BUN NTA isquêmica Ureia/Creatinina < 20-30 Diminuição da reabsorção tubular de ureia Avaliar fatores extra-renais ao interpretar Ur/Creat Índices renais IRA - Avaliação por imagem Rx simples de abdome: valor limitado na IRA, exceto nefrolitíase Ultrassom, TC, RM: muito útil para excluir uropatia obstrutiva, medir tamanho renal e espessura cortical US renal: método simples, barato e não invasivo. Deve ser feito em todos os pacientes com IRA. Doppler avalia fluxo sanguíneo renal. TC de pelve BexigomaUS Renal Hidronefrose IRA pós-renal IRA - Algoritmo 1. Aguda ou crônica? História Creatinina prévia: muito importante Tamanho renal ao ultrassom: geralmente na IRC e normal na IRA. Pode ser normal ou na IRC: Diabetes PKD Amiloidose HIV Nefropatia falciforme **Anemia, hiperfosfatemia, hipocalcemia, hiperparatireoidismo, neuropatia ou rins ao US: fala a favor de IRC **pode ocorrer na IRA 2. Obstrução está excluída? História Anúria Bexiga palpável Ultrassom renal 3. O paciente está euvolêmico? Pulso, PVC ou pressão venosa jugular, peso, hipotensão postural, balanço hídrico (In/out) Aumento desproporcional na relação Ur/Cr FENa Prova de sobrecarga hídrica 4. Evidência de doença renal parenquimatosa outra, além de NTA? Urinálise Hemáceas Cilindros hemáticos Eosinófilos Proteinúria Cilindro hemático Cilindro leucocitário Capítulo 69 e 71 Capítulo 6 O bom médico trata as doenças. O grande médico trata o doente William Osler Recomendações para encaminhamento ao nefrologista