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HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Descrever a organização política e social da França pré-revolução. > Identificar os processos históricos que se desenvolveram após a Queda da Bastilha. > Relacionar a produção de diferentes intelectuais e historiadores acerca da Revolução Francesa. Introdução Entre meados do século XVII até o final do século XVIII, a França era uma espécie de vitrine do absolutismo no continente europeu. O luxo e a opulência dessa monarquia mostraram seu auge durante o reinado de Luís XIV, reconhecido como Rei Sol. O brilho desse “astro-rei” pairou sobre a França por mais de 70 anos, entre 1643 e 1715. É a partir desse longo reinado que é possível lançar um olhar de compreensão sobre a importância do sistema político francês e a ruptura ocasionada com o processo revolucionário ocorrido em 1789. Luís XIV foi um monarca que simbolizou o período em que viveu. Esse fato se deve menos ao tempo que governou e mais à estrutura política e social que foi fortalecida durante seu reinado. A nobreza francesa passou por uma mudança ocasionada pela construção do Palácio de Versalhes. Esse castelo evidenciou o poder real e transformou-se no novo local da corte francesa, ao mesmo tempo que uma parcela da aristocracia vivia no luxo e em festas sustentadas pelos cofres reais. Isso aumentava o desejo por parte da elite de viver perto do “Rei Sol”, criando uma relação de dependência. Assim, o monarca ampliava seu poder, A Revolução Francesa Hezrom Vieira Costa Lima pois a elite ficava subordinada aos interesses reais e ficava próxima, o que evitava uma fragmentação do poder. Essa forma de governar de Luís XIV foi responsável por originar um modelo em que a imagem do monarca deveria se fazer presente em todos os locais do reino. Quando não estava presente fisicamente, o brilho do Rei Sol iluminava os mais variados lugares por meio de diversas representações simbólicas, como estátuas, bustos, moedas, quadros, broches, entre outros. Esse modelo, baseado na “propaganda”, construiu uma imagem do rei que pode ser compreendida por meio de duas perspectivas: a pública e a privada (BURKE, 2018). Na perspectiva privada, a figura do rei ficava restrita a um círculo privilegiado que gravitava em torno do rei, por meio da corte. Nesse contexto, a imagem real era apresentada sob uma camada de maquiagem e outros elementos que faziam parte do estilo da época e refletiam os objetivos estéticos de Luís XIV. Já na perspectiva pública, em que as representações simbólicas do rei se faziam presentes, era mais fácil a manipulação estética real em torno dos objetivos almejados pelo rei. Embora o reinado de Luís XIV esteja separado dos eventos originários da tomada da Bastilha em 1789 por um período de 74 anos, contemplando os governos de Luís XV e Luís XVI, seus efeitos se mantiveram por meio da continuação da Dinastia Bourbon no trono e, em especial, por meio da manutenção da relação de dependência entre a aristocracia francesa e o monarca. Neste capítulo, você vai estudar as especificações políticas e sociais da França pré-Revolução, relacionando esse contexto com os desdobramentos ocorridos após o 14 de julho de 1789. Em seguida, você vai compreender as pluralidades de objetivos e interesses presentes no tecido social francês, bem como as interpre- tações acerca do processo revolucionário por parte desses grupos sociais. Por fim, você vai verificar diversas interpretações acerca da Revolução Francesa, compreendendo a perspectiva de diferentes intelectuais e até uma perspectiva historiográfica. A gênese do processo revolucionário: o contexto socioeconômico da França no final do século XVIII O processo revolucionário ocorrido na França em 1789 abalou o mundo. Na mesma medida em que lançou as bases para o surgimento de um novo mo- delo de sociedade, também solapou os alicerces que sustentavam o modelo absolutista, denominado Antigo Regime. Além disso, fez surgir no horizonte de expectativa uma nova relação com o tempo histórico, fruto de um evento A Revolução Francesa2 inédito. Organizou-se, portanto, outro regime de historicidade, de cunho futurista, que consistiu em um futuro a ser alcançado por todos os indivíduos. Para uma melhor compreensão das transformações ocorridas na França ocasionadas pelo processo revolucionário, faz-se necessária uma caracteriza- ção do contexto socioeconômico daquela nação, buscando-se o entendimento da gênese desses eventos e do porquê desse rumo até então inédito na história. A França, governada por Luís XVI desde 1774, ocupava uma posição de relevância no continente europeu, tanto em relação ao modelo de aristocracia utilizado, quanto em se tratando da composição social. Hobsbawm (2019) afirma que, no final do século XVIII, a França era um país populoso, com cerca de 23 milhões de habitantes — estima-se que um em cada cinco europeus era francês. A divisão social interna era organizada a partir de ordens, denominadas estados. A elite era composta por um seleto grupo de aproximadamente 400 mil pessoas, privilegiadas com a isenção de vários impostos e o direito de receber tributos feudais. Essa nobreza, dividida em três grupos, ilustrava os interesses de parte das forças políticas em atuação nesse período. No entanto, é errôneo imaginar que as pessoas possuíam uma unidade por fazerem parte do mesmo estado. De fato, distinções ocorriam dentro do próprio grupo. Um exemplo era a chamada noblesse de robe, ou nobreza de toga, uma classe média enobrecida pelo rei que servia aos seus interesses financeiros e administrativos. Foi nessa disputa interna por cargos da administração, outrora ocupados por indivíduos capazes tecnicamente e sem apresentar ameaça política e agora ocupados por uma nobreza tradicional, refletindo o inverso da situação, que surgiu a fagulha da chamada “reação feudal”, denominada revolução aristocrática por Lefebvre (2019). A Revolução Francesa foi interpretada sob as mais variadas lentes com o passar do tempo, sendo revisitada por grupos distintos, os quais lançaram luz para enfatizar aspectos que correspondiam aos interesses dos autointitulados herdeiros de 1789. Na época do bicentenário desse pro- cesso revolucionário, o historiador inglês Eric Hobsbawm analisou as várias interpretações atribuídas ao processo revolucionário naqueles 200 anos. Para saber mais, consulte a obra de Hobsbawm intitulada Ecos da Marselhesa: dois séculos reveem a Revolução Francesa (1996). A situação financeira da França se agravou devido à participação em con- flitos bélicos, como a Guerra dos Sete Anos (1756–1763), na qual foi derrotada pela Inglaterra, e a Revolução Americana (1765–1783), que culminou com o A Revolução Francesa 3 processo de independência da colônia inglesa mais próspera da América do Norte. Embora os motivos de envolvimento nas guerras fossem distintos, o resultado foi o mesmo: o aumento dos gastos públicos para o financiamento e o pagamento das dívidas contraídas durante os conflitos. Foi com relação a essa questão — o contexto socioeconômico da França no final do século XVIII — que surgiu a faísca da revolução. Hobsbawm (1996, p. 19) aponta que “[...] a Revolução começou como uma tentativa aristocrática de recapturar o Estado”. Na esteira desse processo, o rei Luís XVI decidiu convocar, em 1787, a Assembleia de Notáveis (Assemblée des Notables), buscando resolver a crise financeira na qual a França se encontrava. Como o próprio nome sugere, esse órgão de caráter consultivo correspondia a um seleto grupo de indivíduos próximos ao monarca, escolhidos devido à sua lealdade ao soberano. En- tretanto, a crise financeira não foi resolvida, pois, conforme aponta Volvelle (2019), a elite se recusou a pagar pelos gastos governamentais caso seus privilégios não fossem mantidos. Como o resultado obtido pelo rei não foi o esperado, ele decidiu tomar outra atitude, já no ano de 1789, e optou por convocar outra assembleia consultiva, a dos EstadosGerais (États Généraux) (Figura 1), inativa há mais de um século — a última ocorrência tinha sido no ano de 1614, durante o reinado de Luís XIII. Essa estrutura funcionava por meio de petições por parte dos representantes de cada ordem. O voto era estabelecido pelas ordens — dessa forma, o Primeiro Estado, representado pelo clero, tinha direito a um voto, e o Segundo Estado, constituído pela nobreza, também tinha um voto. Por fim, o Terceiro Estado, uma denominação que englobava os grupos que não faziam parte do clero ou da nobreza, correspondendo a 95% da população francesa, também tinha direito a um voto. A Revolução Francesa4 Figura 1. Litogravura de 1789, produzida por Isidore-Stanislaus Helman e Charles Monnet, representando a seção de abertura dos Estados Gerais, ocorrida em 5 de maio de 1789. Fonte: Helman e Monnet (1789, documento on-line). Os representantes do Terceiro Estado passaram a protestar pela injusta forma de representação política, desejando ampliar o seu direito de voto para uma proporção igual aos membros dos outros Estados, que correspondia a 300 votantes em cada, respectivamente. Dessa forma, o equilíbrio de forças se mostraria mais eficaz, pois os votos seriam contabilizados individualmente, o que impossibilitaria uma prática bastante comum de união entre os dois Estados contra os interesses do Terceiro Estado. Porém, o rei, percebendo a exaltação dos ânimos por parte dos reunidos e vislumbrando como seus interesses estavam em risco, decidiu por abortar a seção e dissolver os Estados Gerais. Porém, algo de diferente pairava no ar da França naquele período. Os ideais defendidos pelo Iluminismo e encarnados na maçonaria se faziam presentes no imaginário coletivo de uma burguesia que sonhava com transformações de cunho político (GRESPAN, 2003). Somava-se a isso o alto custo de vida enfrentado pela população, que, nos anos anteriores, desde 1787, enfrentava um inverno rigoroso e uma crise de produção nas lavouras. Isso levou a um encarecimento no custo de vida, sobretudo no valor do pão, principal alimento consumido pelas camadas populares. Nas palavras de Hobsbawm (2019, p. 115), “[...] o preço do pão registrava a política de Paris com a exatidão de um termômetro”. Para Lefebvre (2020), o maior inimigo da população francesa A Revolução Francesa 5 era a fome. Essa insatisfação homogênea contra os privilégios do clero e da nobreza, somada à união de um grupo tão heterogêneo, foi responsável por uma transformação profunda na sociedade francesa. Ao serem impedidos pelo próprio rei de se reunirem novamente no salão principal, onde desde o dia 5 de maio ocorria a organização dos Estados Gerais, os representantes do Terceiro Estado — constituído nesse momento por membros da burguesia, chamados sans-culottes —, os representantes do baixo clero e alguns indivíduos convencidos pelo discurso de Robespierre decidiram se reunir na sala ao lado. O local não era destinado para esses fins, afinal de contas, tratava-se de um ambiente destinado ao jogo da péla, uma prática esportiva que se assemelha ao tênis atual. A reunião por parte de um grupo insatisfeito em um ambiente destinado a uma atividade lúdica é emblemática porque simboliza o que estava em jogo na França naquele momento. Em 20 de junho de 1789, três dias após o Terceiro Estado se declarar em Assembleia Nacional contra a reação estatal por parte do rei Luís XIV, ocorreu o juramento do jogo da péla (Figura 2). Nesse episódio, o grupo de repre- sentantes do Terceiro Estado decidiu só se dissipar após a criação de uma nova Constituição para o governo francês. Esse evento marcou o início de transformações na sociedade francesa. Figura 2. Litogravura de 1791, produzida por Jacques-Louis David, retratando o juramento do jogo da péla, ocorrido em 20 de junho de 1789. David foi deputado na Convenção em 1793. Fonte: Fhore e Torrès (1789, documento on-line). A Revolução Francesa6 Assembleia Nacional Constituinte: o prelúdio da derrocada da monarquia absolutista na França Ao se reunir em Assembleia Nacional, o objetivo era diminuir o poder real, mas sem romper, necessariamente, com o regime monárquico, afinal de contas, o rei ainda simbolizava o modelo de governança dentro da sociedade francesa. Após a criação de uma nova Constituição, um novo sujeito entrou em cena como ponta de lança dos interesses do povo francês: a nação francesa. Uma postura pacifista foi adotada pelos revolucionários franceses, per- cebida no decreto da Assembleia Constituinte de 22 de maio de 1790, sob o título sugestivo de “a paz para o mundo”. Nele, “[...] a nação francesa renuncia a empreender qualquer guerra cujo objetivo seja a conquista e não empregará jamais suas forças contra a liberdade de qualquer povo” (MONDAINI, 2008, p. 199). Os interesses da população divergiam dos interesses do monarca, en- caminhando-se para um ponto de ruptura. A Declaração de Mirabeau, um ex-nobre, frente à Assembleia Nacional Constituinte, lançou luz ao choque de interesses que se fez presente naquele período revolucionário. Conforme relata Hobsbawm (2019, p. 108), “Mirabeau, um brilhante e desacreditado ex-nobre disse ao rei: ‘Majestade, vós sois um estranho nesta Assembleia e não tendes o direito de se pronunciar aqui’”. Manifestando os interesses do povo, o “[...] rei não era mais Luís, pela Graça de Deus, rei da França e Navarra, mas Luís, pela Graça de Deus e do direito constitucional do Estado, rei dos Franceses” (HOBSBAWM, 1996, p. 21). Essa alteração no status do soberano mostra o direcionamento que o processo revolucionário tomou: a encarnação dos interesses por parte de um grupo — a nação francesa — frente aos privilégios exacerbados de uma pequena elite. A figura de Luís XVI desperta sentimentos distintos por parte dos his- toriadores; alguns o consideram estúpido e desprezível, como Hobsbawm (2019), outros apontam que ele não era um governante ruim, como na opinião de Volvelle (2007). Entretanto, as decisões tomadas por esse monarca, que tinha acabado de ter seu poder diminuído consideravelmente — ao seguir os conselhos de sua esposa estrangeira, Maria Antonieta, e de seus ministros —, não necessariamente garantem uma análise de suas capacidades cognitivas e de seus posteriores fracassos. Elas servem mais para proporcionar uma compreensão maior dos interesses políticos que estavam em disputa por parte das monarquias absolutistas europeias. A mobilização das massas, incluindo trabalhadores comuns, intelectuais, camponeses, desempregados e todo tipo de profissional liberal, juntamente A Revolução Francesa 7 com a burguesia, operou um sentimento antinobiliárquico que ocasionou uma politização do cotidiano (HUNT, 2007). Na próxima seção, serão abordadas questões como: de que forma o soberano francês lidou com a modificação de status no seu governo? Por que a monarquia constitucional foi substituída por outro governo, de caráter republicano? Qual foi a reação popular frente à contrarrevolução iniciada por Luís XVI? Como as aristocracias estrangeiras enxergaram a mudança gerada na França? Como grupos distintos passaram a disputar os rumos da Revolução? Desde o início do processo revolucionário francês, e no desenrolar desse processo, existiram distinções na forma de percepção sobre os rumos que a França deveria tomar após o fim da monarquia absolutista. Esses acontecimentos foram fruto das diferenças de classe e percepção existentes nos grupos que formavam o tão heterogêneo Terceiro Estado. Essa é a discussão proposta pela historiadora estadunidense Lynn Hunt no livro Política, Cultura e Classe na Revolução Francesa (2007). A Revolução Francesa A constituição de uma monarquia parlamentar, em substituição do modelo vigente pautado nos preceitos absolutistas, marcou politicamente a transfor- mação da estrutura política da França e serviu como norte para os episódios da Revolução Francesa. Porém, o seu significado simbólico e marco fundante ganhou força coma Tomada da Bastilha, episódio ocorrido em uma terça- -feira, 14 de julho de 1789, que contou com a participação das duas principais forças que levaram a cabo o processo revolucionário: os sans-cullotes e as camadas populares de Paris. Uma das primeiras medidas adotadas pelo povo francês após a Assembleia Constituinte foi a adoção da Guarda Nacional (La Garde Nationale), criada a partir do Comitê de Vigilância. Ela visava a cumprir a função dupla de impe- dir a reação por parte das antigas elites, representadas pelo rei, nobreza e clero, e garantir a manutenção dos direitos adquiridos naquele momento. Para tanto, foi necessário um chamado geral à nação para que todos os cidadãos capazes pegassem em armas para defender os interesses do povo francês. Para garantir o exercício da defesa, ficou decidido que cada distrito se responsabilizaria pelo envio de 200 cidadãos para pegar em armas e lutar. A Revolução Francesa8 A Tomada da Bastilha, evento fundante e marco simbólico da Revo- lução Francesa, não foi entendido da mesma forma por aqueles que interpretaram o processo revolucionário. Os acontecimentos narrados a seguir fazem parte da obra O Renascimento do Acontecimento (2013), do historiador francês François Dosse. Nela, são apresentadas visões distintas e até mesmo antagônicas sobre a interpretação de um evento que faz parte da memória coletiva da Revolução de 1789 na França. Vale a pena a leitura da obra para você entender como um evento pode ser ressignificado e utilizado de formas distintas ao longo do tempo. No dia 13 de julho, a Assembleia se reuniu e enviou uma delegação ao rei para que ele retirasse suas tropas. Ao mesmo tempo, corria um rumor de que o rei estava organizando um ataque em sete locais na noite do dia 14 para o dia 15 de julho. Esse rumor tinha fundamento, afinal de contas, o rei não ficou passivo frente às mudanças orquestradas pelo povo que clamava por mudança. O evento ocasionou a dissolução da Assembleia Nacional. O resultado foi uma marcha da população em direção à prefeitura (Hôtel de Ville), exigindo as armas que garantiriam a defesa do regime recém-im- plementado. Em seguida, a população se direcionou ao Palácio dos Inválidos (Hôtel des Invalides), um local criado pelo rei para abrigar soldados inválidos, feridos em batalha, e que também funcionava como depósito de armas. Nesse local, foram obtidos entre 28 e 32 mil fuzis, que foram utilizados para enfrentar as tropas realistas que tinham como objetivo a restauração da monarquia absolutista. Desse ponto, o grupo decidiu marchar em direção à Bastilha, uma fortaleza que funcionava como prisão política e simbolizava o domínio do modelo absolutista nas ruas de Paris. Quando a multidão chegou na entrada da Faubourg Saint-Antoine, uma fortaleza de pedra surgia no horizonte como um colosso indestrutível. Essa era a Bastilha; sua estrutura possuía muralhas de 30 metros de altura, rodeada por oito torres, e seus fossos atingiam 25 metros de largura e eram repletos de água. No seu interior estava uma guarnição de defesa, ocupada por 80 inválidos, protegidos por 30 sentinelas, todos liderados pelo governador de Launay. O primeiro contato feito entre eles ocorreu por parte do parlamentar Thuriot, que ordenou a rendição dos aquartelados na Bastilha, ordem que foi prontamente ignorada. Em seguida, uma segunda comissão foi enviada, liderada por dois deputados, responsáveis por tentar negociar a rendição das tropas leais ao rei. O governador De Launay convidou os dois deputados para entrar e, supostamente, almoçar com ele. Não se sabe se o governador A Revolução Francesa 9 simplesmente agiu covardemente ou se pensou ter caído em uma armadilha — o que se sabe é que, ao se deparar com a multidão que estava à frente da Bastilha, De Launay ordenou a suspensão da ponte levadiça e mandou as tropas atirarem na multidão que estava na frente da fortaleza. Diversas pessoas foram atingidas, e várias morreram com tiros à queima roupa. Após esse episódio, entendido pela população como traição, a situação se intensificou, e a população passou a pressionar os muros e insistiu em invadir a fortaleza. Enquanto o ataque acontecia, os guardas disparavam sem parar. No fim do dia, o total de mortos do lado de fora somava 83 pessoas, além de 88 que ficaram feridas. As tropas do governador De Launay, sob a proteção física e simbólica da Bastilha, sofreram apenas uma baixa. Em dado momento, um carroceiro tomou a frente do ataque, de machado na mão, subiu por uma guarita e, a golpes incessantes e sob forte rajada de balas, conseguiu destruir as correntes — com todo o simbolismo presente na mensagem. Dessa forma, derrubou a primeira ponte levadiça e abriu o caminho para a multidão, que ocupou o pátio da fortaleza de pedras. Os ata- cantes eram compostos por dois destacamentos das guardas francesas, uma multidão e alguns burgueses da milícia, que se somaram à força de ataque ao levar cinco canhões, retirados dos inválidos. Três deles foram posicionados em frente às portas da fortaleza. Percebendo o aumento do poder bélico dos atacantes e observando que estava cercado, De Launay ameaçou utilizar outra estratégia. Dentro da Bastilha estavam 20 mil quilos de pólvora, o que levou o governador a cogitar a possibilidade de explodir a fortaleza, juntamente com seu destacamento e o bairro. Quem conseguiu dissuadir o governador dessa atitude foi Béquart, um dos 80 inválidos que estavam protegidos dentro da Bastilha. Após mais de cinco horas de combate, os invasores conseguiram ocupar o pátio da Bastilha e renderam o governador. As chaves da prisão, símbolo da opressão real francesa, estavam agora na ponta de uma lança, assim como o regulamento do prédio. O governador De Launay foi capturado pela população e, como represália por ordenar o disparo inicial contra a população, foi vítima desta. Um dos principais algozes do governador De Launay foi um cozinheiro cha- mado Desnot. Em um momento anterior à Revolução, ele foi alvo da violência arbitrária do governador e recebeu um pontapé na barriga. Em um momento de inversão de papéis, foi Desnot quem cometeu a violência. Utilizando-se da sua habilidade com armas brancas, iniciou a decapitação do antigo governador (Figura 3) e desfilou pelas ruas da cidade com sua cabeça. A Revolução Francesa10 Figura 3. Pintura que referencia o episódio da Tomada da Bastilha, ocorrido em 14 de julho de 1789. Apesar da violência inerente ao processo da captura, existe uma exaltação por parte do autor, Charles Paul Landon. Fonte: Landon (1794, documento on-line). Após a conquista da Bastilha, a população tomou as chaves das prisões e libertou os sete prisioneiros que se encontravam lá dentro, em um sinal de libertação dos inimigos do rei, simbolizando o fim da opressão representada pelo antigo regime. A violência presente no episódio da conquista da Bastilha marcou o ápice de uma luta colossal entre dois lados que se enfrentavam em território francês e que culminou no primeiro confronto direto entre um grupo heterogêneo, o povo francês, contra os representantes de uma antiga ordem. Apesar de todo o esforço, esses lados já demonstravam que não possuíam mais forças para conviver naquele mundo, que dava os primeiros sinais de modificação. Após a vitória contra a Bastilha na capital parisiense, um sentimento antinobreza se espalhou pelo interior da França, conhecido como o Grande Medo (Grande Peur. Figura 4). Entre os dias 20 de julho e 6 de agosto de 1789, as demais províncias do território francês foram tomadas por uma espécie de revolta popular, em que os camponeses invadiram as propriedades dos nobres. Aproveitando o clima de transformação que pairava no ar, os cam- poneses realizaram uma espécie de justiça social, invadindo, saqueando e, em muitos casos, massacrando representantes da nobreza e do clero que A Revolução Francesa 11 outrora foram responsáveis por ocasionar sofrimentos e medo nos grupos mais vulneráveis daquelasociedade (LEFEBVE, 2020). Figura 4. Pintura de Jean Hans retratando o Grande Medo. É possível visualizar a dimensão dos envolvidos no sentimento antinobiliárquico e a reação frente às violências sofridas historicamente. Fonte: Hans (1789, documento on-line). Menos de um mês após o 14 de julho, “[...] a estrutura social do feudalismo rural francês e a máquina estatal da França Real ruíram em pedaços” (HOBS- BAWM, 1996, p. 25). Com o desenrolar dos eventos e a violência eminente no processo revolucionário, parte da nobreza francesa, incluindo membros do alto clero, decidiu emigrar para fugir da reação do povo. Os destinos principais foram a Áustria e a Prússia, nações vizinhas e com um governo absolutista. A burguesia moderada, principal articuladora do processo revolucionário, juntamente com a fúria arrebatadora das massas, saiu vitoriosa do processo e herdou um modelo de governança que estava em transformação. Cabia à burguesia finalizar o processo revolucionário e efetivar as mudanças que tanto almejavam. Iniciou-se uma nova etapa na Revolução (GALLO, 2012). Monarquia constitucional Para sustentar a nova etapa que o governo revolucionário inaugurou, fez-se necessária a criação de um documento que materializasse o pensamento A Revolução Francesa12 liberal burguês: a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, ratificada em 26 de agosto de 1789 (HUNT, 2007). A Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão (1789) estabeleceu os princípios defendidos pela sociedade francesa, tendo à frente os interesses liberais da burguesia. Os princípios de liberdade, propriedade, segurança e resistência à opressão expuseram uma nova ordem que nascia junto com o processo revolucionário. Confira a seguir alguns artigos presentes nesse documento. Art. 1º. Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem fundamentar-se na utilidade comum. Art. 2º. A finalidade de toda associação política é a conservação dos direitos na- turais e imprescritíveis do homem. Esses direitos são a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão. [...] Art. 10º. Ninguém pode ser molestado por suas opiniões, incluindo opiniões religio- sas, desde que sua manifestação não perturbe a ordem pública estabelecida pela lei. Art. 11º. A livre comunicação das ideias e das opiniões é um dos mais preciosos direitos do homem. Todo cidadão pode, portanto, falar, escrever, imprimir livremente, respondendo, todavia, pelos abusos desta liberdade nos termos previstos na lei. [...] Art. 17º. Como a propriedade é um direito inviolável e sagrado, ninguém dela pode ser privado, a não ser quando a necessidade pública legalmente comprovada o exigir e sob condição de justa e prévia indenização. (HUNT, 2009, p. 225-227). Luís XVI decidiu se mudar, deixando o Palácio de Versalhes e migrando para o Palácio das Tulherias. Essa medida foi fruto da reação popular que, dentre outras condições, condenava os gastos exorbitantes e o luxo que o antigo palácio representava na memória social francesa (GALLO, 2012). Outra medida adotada pela burguesia foi materializada na Constituição Civil do Clero, em 1790. Essa medida visou a submeter a autoridade clerical à nação francesa, culminando na nacionalização do clero daquele país. A medida gerou controvérsias e acabou dividindo os religiosos do país em dois grupos, clero constitucional e clero refratário. O primeiro corresponde ao grupo que se submeteu à vontade do povo, tornando-se funcionários públicos, e o segundo foi contra a medida, somando forças no processo contrarrevolucionário que continuava a operar em sigilo, visando a ocupar novamente o lugar de poder. A Revolução Francesa 13 O fim da monarquia Conforme menciona Hobsbawm (2019), seria uma grande inocência imaginar que Luís XVI aceitaria a derrota de bom grado e as mudanças que foram geradas desde a convocação dos Estados Gerais, e mais ainda supor que ele não estava orquestrando uma reação. As elites que fugiram para o exterior, sobretudo nas nações vizinhas Prússia e Áustria, essa última com vínculos fortalecidos com a monarquia francesa após o casamento de Luís XVI com Maria Antonieta, iniciaram uma operação de contrarrevolução. Elas conse- guiram convencer os monarcas dessas nações a enviar tropas para invadir a França e acabar de vez com o mau exemplo que aquela nação estava lançando para os demais Estados nacionais. As divergências se ampliaram após essa questão. Os jacobinos, lidera- dos por Robespierre, se posicionaram contra a guerra, visando a resolver problemas internos. Por sua vez, a extrema direita e a esquerda moderada enxergavam de forma positiva o conflito, cada um com um objetivo específico. Era por meio da guerra, e da ameaça estrangeira que ela ocasionava, que se poderia criar uma justificativa para a demora em solucionar problemas levantados pela população. Outra parcela enxergava no exemplo francês uma espécie de movimento que levaria à libertação das nações contra a tirania do absolutismo (HOBSBAWM, 2019). Uma declaração formal de guerra ocorreu em abril de 1792. Dois meses depois, em junho, Luís XVI, juntamente com sua esposa Maria Antonieta e membros da sua família, orquestraram um plano de fuga quase suicida. O plano foi incentivado por oficiais estrangeiros, sobretudo representantes da Áustria e da Prússia. Para Ozouf (2009), os planos de fuga foram um fracasso por diversos fatores: a demora no processo, as constantes pausas, a ausên- cia de troca de informações entre os envolvidos, entre outros. De qualquer forma, o rei, que viajava disfarçado, foi reconhecido e capturado em Varenes, próximo da fronteira com a Áustria. A partir daí, iniciou-se o processo irreversível do declínio da monarquia. O rei foi preso e se tornou o responsável pela situação na qual a França se encontrava: cercada de inimigos por todos os lados, com seu território profa- nado e a nação ameaçada por potências estrangeiras. Luís, agora considerado traidor, deixava de ser rei e se transformava em prisioneiro. Preso, julgado e condenado pela mais alta traição contra o povo, Luís foi condenado à gui- lhotina. Abriam-se as portas para um novo governo na França, orquestrado pelo povo. Quase instantaneamente, ao cair a coroa francesa, juntamente com a cabeça do rei, surgia um novo governo: a república. A Revolução Francesa14 República Francesa, Ano I: a Gironda A condenação de Luís XVI gerou reações entre as potências estrangeiras e também dentro do território francês. No oeste da França, ocorreu a Revolta da Vendeia, em que um grupo de camponeses de forte tradição católica, distantes da capital francesa e, consequentemente, dos ideais republicanos, decidiu participar de uma contrarrevolução e se levantou contra a recém- -instaurada República Francesa. A ação armada dos sans-cullote de Paris inaugurou a chamada ‘heroica idade de ferro da Revolução Francesa’ (HOBSBAWM, 2019). Nesse período, os republicanos, que acabavam de inaugurar um novo governo, refletido no Ano I do calendário revolucionário, deveriam enfrentar o inimigo estrangeiro. Ao mesmo tempo, julgavam e massacravam os traidores contrarrevolucionários e prisioneiros políticos e convocavam eleições para a Convenção Nacional. A República inaugurou um novo tempo na história não apenas da França, mas da humanidade. Os próprios revolucionários tinham percepção dessa realidade e criaram um calendário para representar essa nova época que acabara de surgir: 1791 seria o marco inicial, começando com o Ano I. O tempo seria marcado em 12 meses, com 30 dias cada, e as semanas seriam divididas em 10 dias. Os cinco dias restantes seriam destinados a festas, e a cada quatro anos um dia seria acrescentado (bissexto). � Vindimário, o mês da vindima (colheita da uva): setembro-outubro. � Brumário, mês das brumas: outubro-novembro. � Frimário, mês das frimas (geadas): nozembro-dezembro. � Nivoso, mês da neve: dezembro-janeiro. � Pluvioso, mês da chuva: janeiro-fevereiro.� Ventoso, mês do vento: 20/fevereiro-março. � Germinal, mês da germinação: março-abril. � Floreal, mês das flores: abril-maio. � Pradial, mês dos prados: maio-junho. � Messidor, mês das messes (colheitas): 18/junho-julho. � Termidor, mês do calor: julho-agosto. � Frutidor, mês das frutas: agosto-setembro. Tropas estrangeiras, representantes dos reinos católicos do absolutismo, treinadas por uma elite versada nas mais variadas técnicas de combate do mundo moderno europeu, enfrentaram os soldados republicanos seculares A Revolução Francesa 15 franceses, em sua maioria abalados pelos confrontos internos e a fome. A Batalha de Valmy, em que as tropas francesas ecoaram a Marselhesa (La Marseillaise), que posteriormente se transformaria em sinônimo de ideias revolucionárias, terminou com a derrota das forças invasoras. Ao mesmo tempo que lidava com as ameaças ao governo republicano, a burguesia, representada pela Gironda, demonstrava uma face conservadora, entendendo que o processo revolucionário estava encerrado e sentindo cada vez mais a pressão pela constante ameaça das massas em relação aos interesses desse grupo social. Ficava evidente para os sans-culottes e, sobretudo, para os jacobinos que medidas deveriam ser tomadas. Em 2 de junho de 1793, deputados girondinos foram expulsos e presos, acusados de traição. O primeiro governo republicano, de caráter burguês, chegava ao fim na França, terminando com uma alta nos preços, inflação e a constante ameaça de uma contrarrevolução. República Francesa, Ano II: jacobinos Como os girondinos tinham mostrado no seu governo, após a conquista da pauta burguesa, estes se tornaram cada vez mais reacionários, percebendo com desconforto o avanço cada vez mais significativo das massas, o que era visto como uma ameaça à ordem. Buscando dar continuidade ao processo revolucionário, a ala mais radical do antigo Terceiro Estado, os jacobinos, apoiados pelos sans-cullotes de Paris, assumiu o governo francês com um cenário problemático. A herança deixada pelo governo burguês dos girondinos criou um problema financeiro, e foi necessário mobilizar todos os recursos para que a França conseguisse derrotar seus inimigos externos e internos. Nesse sentido, a República jacobina foi o primeiro governo que adotou a noção de guerra total no sentido moderno do termo (HOBSBAWM, 2019). Ou seja, houve a mobilização de todos os recursos disponíveis para o sucesso das campanhas militares. Da cidade ao campo, tudo o que era produzido passava pelo critério de seleção dos jacobinos para fortalecer as tropas. Vencer os invasores e contrarrevolucionários era o principal motivo que levava os franceses a lutar. Sua derrota significaria o fim da Revolução e de todo o sistema de transformações que fora aberto de 1789 em diante. A vitória da república frente ao absolutismo significava a sobrevivência da Revolução. Visando a seguir com o processo revolucionário e, sem sombra de dúvidas, fazer valer o espírito mais radical da Revolução, os jacobinos reergueram o Comitê de Salvação Pública (Comité de Salut Public), um órgão A Revolução Francesa16 do Executivo criado pela Convenção, mas que ganhou notoriedade durante a república jacobina. O Comitê de Salvação Pública foi o mecanismo utilizado pelos jacobinos para fazer valer o ímpeto revolucionário, funcionando como uma espécie de política, em que os inimigos da revolução eram identificados, julgados e condenados por crime de traição contra a Revolução. Representantes dos jacobinos, como Maximilien de Robespierre e Saint-Just, foram os represen- tantes máximos da república jacobina e encarnaram o lado mais radical do processo revolucionário. Eles tiveram que enfrentar a ameaça estrangeira, representando os poderes absolutistas, e a ameaça interna, com os contrar- revolucionários desejosos de restaurar a monarquia e até mesmo uma parcela da burguesia, que queria parar o carro-chefe da Revolução. Nesse período, os inimigos da Revolução foram perseguidos e julgados pelos seus crimes. O destino de todos os acusados era a guilhotina, uma arma criada para evitar tortura e sofrimentos desnecessários para os acusados, mas que, no fim das contas, tornou-se símbolo desse período. O período em que os jacobinos utilizaram esse instrumento ficou conhecido como Terror. Porém, como bem demonstra Andress (2009), essa nomenclatura foi inventada pelos inimigos dos jacobinos e carregava um caráter ideológico, fazendo valer uma imagem que caricaturizava o período. Mas, afinal de contas, quais foram as principais medidas adotadas pelos jacobinos? Foi durante o Ano II da República, durante o governo jacobino, que a França conseguiu mobilizar recursos para vencer seus inimigos invasores. Os jacobinos criaram um modelo de promoção com base no mérito, o que favoreceu as iniciativas pessoais em combate. Dessa forma, um soldado passaria a subir de patente, sendo reconhecido entre seus pares, mediante o esforço pessoal empreendido em combate, quebrando o antigo modelo aristocrático do exército. O valor que a possibilidade de ascensão agregou para o exército ampliou consideravelmente o desempenho dos soldados em combate. No campo socioeconômico, os jacobinos foram responsáveis por elaborar transformações que moldaram essa nova fase da República, promulgando uma nova constituição em 1793, mais democrática e com participação popular, pondo fim ao voto censitário elaborado pelos girondinos. Nesse novo docu- mento, criou-se o sufrágio masculino, e a escravidão negra nas colônias foi extinta. Houve a distribuição de terras aos camponeses, garantindo também as sementes necessárias para o plantio, e a criação de escolas públicas. Em pouco mais de oito meses, a República jacobina conseguiu organizar as finanças públicas, montou um exército experiente e com moral elevada, A Revolução Francesa 17 além de derrotar os inimigos estrangeiros. Tudo parecia correr bem, mas a onda de perseguição aos contrarrevolucionários, incluídos aí os antigos aliados dos jacobinos, como foi o caso do girondino Danton, minou o apoio dos jacobinos frente aos sans-cullotes de Paris e à população francesa de uma maneira geral. A burguesia, que foi afastada do poder, passou então a organizar um contragolpe e ascender ao poder novamente. Como Robespierre e Saint-Just, principais representantes dos jacobinos, ficaram sem base de apoio, foram encurralados, presos e condenados à morte na guilhotina, sem direito à julgamento, no episódio conhecido como Golpe de 9 Termidor. A reação conservadora e o Terror Branco A alta burguesia assumiu novamente o poder na França, tendo conseguido afastar os jacobinos. Iniciou-se um processo de retaliação contra as perse- guições sofridas durante o terror jacobino. A constituição jacobina do ano II foi anulada, sendo criada uma nova, a Constituição do Ano III. As principais conquistas obtidas pelos jacobinos foram canceladas: retornou-se ao voto censitário, afastando boa parte das camadas populares do processo demo- crático, o acesso às terras foi cancelado, e o congelamento do pão também foi encerrado. Além disso, a burguesia passou a perseguir os jacobinos. Iniciou-se um período chamado Terror Branco ou reação termidoriana, em que grupos reacionários, em sua maioria monarquistas e a alta burguesia, passaram a perseguir republicanos e jacobinos. Os massacres ocorreram em toda a França. Enquanto isso, as potências estrangeiras organizaram uma nova coalisão e partiram para mais uma tentativa de invasão na França, que, além de ser sacudida por problemas internos, deveria enfrentar mais uma vez a fúria das monarquias absolutistas. O Diretório Nesse contexto, a alta burguesia organizou um novo governo, em que o Poder Executivo era composto por um grupo de cinco indivíduos, eleitos para o cargo por cinco anos, visando assim a retirar a personificação do poder e evitar o controle por parte de um único indivíduo. Os grupos de oposição brotavam de todos os lados, desdeos nunca totalmente derrotados restauradores da monarquia até os recém-derrotados jacobinos. O governo parecia não conseguir lidar com essas questões. Os restau- radores da monarquia tentaram um golpe fracassado em 1795. No outro A Revolução Francesa18 ano, os jacobinos orquestram a Conspiração dos Iguais, mas também foram derrotados. O clima parecia insustentável. O exército fortalecido pelo governo jacobino, mas sem o pensamento ideológico, tomou as rédeas do poder e orquestrou um golpe de estado, o famoso 18 Brumário, começando assim uma nova etapa da Revolução Francesa. Ecos de 1789: as interpretações da Revolução Francesa A Revolução Francesa inaugurou um novo tempo no horizonte. O modelo absolutista foi derrotado, e os ideias de liberdade e igualdade pregados desde o início da Revolução alimentaram os desejos de transformação dos grupos que não participavam do poder. A partir da interpretação desses eventos, entende-se que o Terceiro Estado se mostrou um grupo heterogêneo, e as contradições da união desses indivíduos se mostraram por meio dos mais variados projetos e rumos que a Revolução tomou. Tendo como base esses pressupostos, fica evidente que o regime absolutista, bem como tudo o que ele simbolizava, dava sinais de que seus dias estavam contados, pois a po- pulação passou a combater o que esse modelo defendia e passou a acreditar em um novo ideal. O sol de 1792 passou a brilhar em outros cantos: eram a liberdade e a igualdade trazidas pela República. Mas será que a Revolução sempre foi percebida dessa maneira? A interpretação da Revolução, bem como a seleção de certos eventos para justificar o verdadeiro ideal de 1789, ocorreu desde o início do processo revolucionário (GALLO, 2012). Godechot (1969, p. 423) se refere a esse processo da seguinte maneira: De 1815 ao final do século XIX a Revolução foi um arsenal do qual os partidos po- líticos tiravam os seus argumentos: os liberais, os republicanos e os radicais para justificarem sua política; os realistas, os conservadores e em certos momentos, os bonapartistas, para condenarem a de seus adversários. Assim, a história política da Revolução ficou sendo o único objeto dos estudos Chartier (2009, p. 26) apresenta a interpretação clássica do historiador Daniel Mornet, que traça uma relação “entre o progresso de novas ideias através do século XVIII e a emergência da Revolução como acontecimento”. Nessa perspectiva, ainda segundo Chartier (2009, p. 26), três leis governavam a difusão das novas ideias: A Revolução Francesa 19 Primeiro, as ideias desciam pela escala social “das classes altamente refinadas para a burguesia, para a pequena burguesia e para o povo”. Em Segundo lugar, essa penetração se difundia do centro (Paris) para a periferia (as províncias). Finalmente, o processo foi se acelerando no decorrer do século, começando com minorias que anteciparam as novas ideias antes de 1750 e prosseguindo nos decisivos e mobilizadores conflitos na metade do século, para chegar, após 1770, na difusão universal desses novos princípios. A Revolução sob a ótica inglesa Do outro lado do Canal da Mancha, o irlandês Edmund Burke traçava um paralelo entre o processo revolucionário ocorrido na França em 1789 e a experiência britânica vivenciada pela Inglaterra com a Revolução Gloriosa (1688-1689), instituindo a monarquia parlamentar. Para Burke, que publi- cou Reflections on the Revolution in France em outubro de 1790 — ou seja, dois anos após o início do processo revolucionário —, a Revolução foi “uma reviravolta total das instituições tradicionais da França e um esforço para dar à sociedade francesa uma estrutura nova, construída em tabula rasa, segundo a doutrina dos filósofos”, conforme apresenta Godechot (1969, p. 424). O posicionamento desse intelectual era de que a Revolução foi uma utopia e uma quimera, pois, para ele, o natural era a herança do passado, o que garantia a legitimação das instituições tradicionais. Como o processo revolucionário não tinha precedentes históricos, ou seja, era um fenômeno novo, estava fadado ao fracasso, não poderia durar. A rixa histórica entre ingleses e franceses não produziu apenas visões contrárias ao processo revolucionário, como pode parecer a partir de uma leitura mais simplista desse processo. Thomas Paine publicou Rights of Man em 1791, obra que é interpretada como uma resposta às argumentações de Edmund Burke acerca do processo revolucionário francês. Segundo Paine, a defesa da tradição significava que os mortos deveriam governar os vivos, e, na sua visão, os vivos possuem o direito de se reinventar. Essa linha de raciocínio justifica as ações francesas e cria, na visão do autor, um “adão político”, termo utilizado por ele para justificar um novo modelo social. A Revolução sob a ótica dos franceses Nenhuma análise historiográfica sobre a Revolução Francesa pode ser levada a sério se não for feita menção a Jules Michelet e à sua obra História da Re- volução Francesa, escrita entre 1846 e 1853. Michelet realizou pesquisas em arquivos e se ancorou em fontes como documentos impressos, manuscritos A Revolução Francesa20 e tradição oral para explicar o processo revolucionário. Segundo Godechot (1969, p. 432-433), Michelet: [...] consultou as fontes manuscritas nos arquivos parisieneses, naturalmente nos arquivos nacionais, dos quais era editor, e também no arquivo do Sena, hoje desaparecido pelo incêndio de 1871. Nesse aspecto sua obra tem valor excepcio- nal, porque é baseada em documentos aos quais é quase impossível recorrer, em especial os registros das deliberações da Comuna de Paris, os verbais das sessões “parisieneses” ou aqueles de certos clubes, como o clube dos cordoeiros. Apesar da vasta documentação, a obra de Michelet repousa sobre uma interpretação bastante subjetiva, pois, como afirma Godechot (1969, p. 431), ele era filho de um impressor arruinado por Bonaparte e pertencia ao grupo de herdeiros dos sans-culottes. Entretanto, o autor afirma que sua obra vale “sobretudo por seu estilo incomparável, por sua eloquência dominante, por seu generoso idealismo” (GODECHOT, 1969, p. 431). Fruto da Revolução de 1848 e da ascensão de Bonaparte ao poder na França, culminando com a instauração do II Império, o destino do processo revolucionário foi colocado em perspectiva. Alexis de Tocqueville publicou Ancien Régime et la Revolution Française em 1856. Segundo Chartier (2009, p. 35), “Para Tocqueville, era essencial expressar que a Revolução foi, para- doxalmente, o desfecho inevitável tanto de uma evolução extremamente longa da centralização administrativa assumida pela monarquia quanto de uma ruptura brutal, violenta e inesperada”. Segundo Tocqueville (1967, p. 81 apud CHARTIER, 2009, p. 35-36): O acaso não desempenhou papel algum na irrupção da Revolução; embora tenha apanhado o mundo de surpresa, foi o desfecho inevitável de um longo período de gestação, a conclusão abrupta e violenta de um processo no qual seis gerações desempenharam um papel intermitente. Mesmo que ela não tivesse ocorrido, de qualquer maneira, cedo ou tarde, a velha estrutura social teria sido abalada. A única diferença teria sido que, em vez de ruir de forma tão súbita e brutal, teria desabado pouco a pouco. Numa única e cruel arremetida, sem aviso, sem transição e sem compunção, a Revolução efetivou o que de todo modo tenderia a ocorrer, apenas de forma lenta e gradual. Assim, tal foi a conquista da Revolução. Em sua proposta, Tocqueville insere a análise do Antigo Regime e identifica continuidades acerca do processo de centralização praticadas no processo re- volucionário, bem como identifica rupturas violentas a partir desse processo. Chartier (2009, p. 36) ressalta que Tocqueville “enfatizou uma cronologia de A Revolução Francesa 21 curto prazo (os trinta ou quarenta anos que precederam a Revolução) e tentou discernir as mudanças culturais que produziram transformações rápidas em ideias e sentimentos”. Já Godechot(1969, p. 449) ressalta que o grande mérito de Tocqueville foi evidenciar a luta de classes na evolução histórica: A monarquia aliou-se rapidamente às classes populares contra a aristocracia, e aí Tocqueville, apesar da serenidade que habitualmente demonstrava, deixou subentendida a proteção à classe a que pertencia, e que não pudera realizar a tarefa a que era destinada, como realizara na Inglaterra. Os reis conduziram essa luta sobretudo por meio da centralização governamental e administrativa — cen- tralização que Revolução e Império acentuaram. Em 1885, na Sorbonne, foi criada a cadeira de História da Revolução Fran- cesa. Em 1937, Georges Lefebvre assumiu essa cátedra e se tornou o principal historiador sobre o assunto no início do século XX. De acordo com sua tese e o argumento apresentado intitulado La Révolution Française, publicados origi- nalmente em 1951 (Vol. 1) e 1957 (Vol. 2), o processo revolucionário apresentou três revoluções distintas, orquestradas por sujeitos e interesses heterogêneos. Segundo Lefebvre, existiram três processos em curso: uma primeira revolução aristocrática, uma revolução burguesa e uma revolução popular. Já a contribuição historiográfica de Michel Volvelle é voltada para o campo da história cultural, conhecido na tradição francesa como mentalidades. Suas obras envolvem diversos aspectos do processo revolucionário, como o processo de descristianização, em Religion et Révolution : la déchristianisation de l'an II, publicado em 1976, La Mentalité révolutionnaire: société et mentalités sous la Révolution française, de 1986, e La Révolution française expliquée à ma petite-fille, de 2006 — para citar apenas as obras mais conhecidas pelo público brasileiro. Por fim, também devem ser mencionados os estudos comparativos, como o clássico do historiador britânico Eric Hobsbawm, intitulado The Age of Re- volution: Europe 1789-1848. Nele, o autor introduz a noção de dupla revolução, enfocando as transformações ocorridas no mundo após a Revolução Industrial inglesa e a Revolução Francesa. Destacam-se também as contribuições de Hannah Arendt em On Revolution, publicado em 1963, em que a filósofa realiza uma análise comparativa entre a Revolução Francesa de 1789 e a revolução americana de 1776. A Revolução Francesa22 Referências ANDRESS, D. O terror: Guerra Civil e a Revolução Francesa. São Paulo: Record, 2009. BURKE, P. A fabricação do rei: a construção da imagem pública de Luís XIV. São Paulo: Zahar, 2018. CHARTIER, R. Origens culturais da Revolução Francesa. São Paulo: Editora Unesp, 2009. DOSSE, F. Renascimento do acontecimento: um desafio para o historiador: entre Esfinge e Fênix. São Paulo: Editora Unesp, 2013. FOHR, R.; TORRÈS, P. 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