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Semântica Argumentativa: Estudos dos Sentidos para o Ensino de Língua Portuguesa Michel Marcelo de França W B A 0 62 4_ v1 © 2018 por Editora e Distribuidora Educacional S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de infor- mação, sem prévia autorização, por escrito, da Editora e Distribuidora Educacional S.A. Presidente Rodrigo Galindo Vice-Presidente de Pós-Graduação e Educação Continuada Paulo de Tarso Pires de Moraes Conselho Acadêmico Carlos Roberto Pagani Junior Camila Braga de Oliveira Higa Carolina Yaly Danielle Leite de Lemos Oliveira Juliana Caramigo Gennarini Mariana Ricken Barbosa Priscila Pereira Silva Coordenador Danielle Leite de Lemos Oliveira Revisor Daniela Vitor Ferreira Silva Editorial Alessandra Cristina Fahl Daniella Fernandes Haruze Manta Flávia Mello Magrini Leonardo Ramos de Oliveira Campanini Mariana de Campos Barroso Paola Andressa Machado Leal Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) França, Michel Marcelo F814s Semântica argumentativa : estudos dos sentidos para o ensino da língua portuguesa / Michel Marcelo França – Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2018. 149 p. ISBN 978-85-522-0657-6 1. Semântica argumentativa. 2. Língua portuguesa. 3. Ensino. I. França, Michel Marcelo. II. Título. CDD 410 2018 Editora e Distribuidora Educacional S.A. Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza CEP: 86041-100 — Londrina — PR e-mail: editora.educacional@kroton.com.br Homepage: http://www.kroton.com.br/ Thamiris Mantovani CRB: 8/9491 SUMÁRIO Tema 1: Estudo dos significados em língua materna ................ 6 Tema 2: As diferentes abordagens semânticas ......................... 19 Tema 3: Texto e argumentação ................................................... 33 Tema 4: Semântica argumentativa ............................................. 49 Tema 5: Teoria da polifonia ........................................................... 64 Tema 6: Teoria dos topoi ............................................................... 79 Tema 7: Blocos semânticos .......................................................... 93 Tema 8: Semântica no ensino de língua portuguesa ................ 108 A Linguística e suas áreas de estudo e respectivas ramificações cons- tituem um fecundo terreno para investigações, descobertas e incertezas. Diferentemente do campo das ciências exatas, em humanas, especialmente nos domínios da linguagem, a interpretação da subjetividade inerente às relações sociais, culturais, e, portanto, ideológicas, torna a acepção da verdade um processo intangível, dando lugar ao verossímil e ao plausível (FRANÇA, 2015). Nessa perspectiva, em meio a outras disciplinas, como a Semiótica e a Semiologia, figura a semântica como uma das áreas legitimadas à investi- gação do significado dos signos linguísticos e extralinguísticos. Esta disci- plina possui diferentes vertentes que vão das mais tradicionais, como a Estruturalista e a Lógica, às mais vanguardistas, como a Semântica-Argu- mentativa e seus desdobramentos. Embora os manuais de ensino contemplem alguns tópicos semânticos em suas sequências didáticas − como o estudo de sinônimos/antônimos, homônimos/parônimos, hiperônimos/hipônimos, polissemia, conotação/ denotação, funções e figuras de linguagem etc. −, os estudos fonológicos, morfológicos e sintáticos estruturalistas ainda ocupam maior espaço nos livros escolares e na própria prática docente no ensino de Língua Portu- guesa enquanto língua materna. Atenta a essa problemática e às transformações recorrentes do advento das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC), a nova Base Nacional Curricular Comum (BNCC), de 2017, convida-nos a refletir sobre essas questões com vista a uma mudança de paradigma rumo ao ensino APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA participativo, colaborativo e, principalmente, significativo da Língua Portu- guesa. Nesse cenário, a semântica exerce papel de destaque, uma vez que é a disciplina que se ocupa em descrever o sentido e suas determinações. Considerando a relevância da semântica nesse novo cenário educacional que se desenha, é importante que você conheça melhor essa disciplina e se aprofunde em seu estudo. Para isso, nesse percurso, você vai conhecer diferentes vertentes semânticas e seus respectivos pressupostos, além de refletir sobre a aplicabilidade e relevância dessas teorias à melhora qualita- tiva dos processos de letramentos em língua materna. Bons estudos! 1 Estudo dos significados em língua materna 7 Objetivos Específicos • Delimitar o campo de estudo da semântica; • Apresentar a natureza epistemológica do estudo semântico; • Refletir sobre a importância da semântica para o ensino de Língua Materna (LM). Introdução Etimologicamente, a palavra semântica tem sua origem no grego, sēmantiká, o plural neutro de semantikos, cujo sentido é igual a significativo e/ou marcado. Outra possível origem seria a pala- vra grega semainein, verbo que significa mostrar e é derivada da palavra sema, que significa sinal e é sinônima de semîon, que significa signo. Cabe considerar também que a semântica, enquanto área de investigação da Linguística, caracteriza-se pelo estudo do significado dos signos linguísticos (1), sejam eles isolados ou articulados: grafemas, morfemas, palavras, frases e enunciados. A natureza do significado intriga teóricos e pesquisadores de toda ordem, principalmente no que versa sobre o seu grau de realidade. É fato, pois, que este não constitui o objeto a que se refere, mas é a representação psíquica deste, ou seja, uma imagem mental e simbólica, razão pelo qual reflete o conceito e não o objeto em si. Nesse campo de estudo, além de se estudar o significado de unidades linguísticas, são também analisadas as transformações e nuances de sentido a que estão expostos os signos linguísticos, decorrentes fatores alheios à relação dicotômica “significado/significante” proposta por Saussure (2012). Essas transformações e nuances se dão pois a língua e seu uso estão submetidos a questões de ordem situacional, relacional e contextual. A consideração desses fatores externos ao sistema lin- guístico em um estudo semântico depende da perspectiva teórica à qual ele se filia, pois, em uma perspectiva de ordem estruturalista ou de ordem referencialista, os fatores externos não são consi- derados no estudo do sentido. Em razão de sua flexibilidade e expansividade, a semântica por vezes é comparada à semiologia e/ou semiótica (2), cujo objeto de estudo, o signo, é a essência da representação de todo e qualquer 8 fenômeno físico, metafísico, biológico, quí- mico e/ou psíquico, abrangendo, assim, as linguagens verbais e não verbais. 1. Semântica e semiologia/ semiótica: entre dois reinos distintos, mas interconectados A exemplo de outras áreas, a Semântica também não possui vertente única e homogênea. Para além dos pressupostos teóricos e conceituais presentes nos manuais didáticos, de acordo com (FRANÇA, 2009), diferentes linhas de pesquisa de bases epistemológicas (3) distintas ora encontram pontos de convergência, ora se excluem mutuamente. Aristóteles (Estagira, 384 a.C. – Atenas, 322), pai da Retórica, uma das mais antigas ciências da linguagem, herda de seu mestre, Platão, um ensi- namento sobre o Crátilo (4), a respeito da origem das palavras e, subsequentemente, da linguagem. Os estudos de Aristóteles teriam, de acordo com alguns pesquisado- res, inaugurado os estudos linguísticos sobre a significação, sendo, portanto, um estudo embrionário dos signos. Em suas investigações,Aristóteles con- cluiu que o signo é uma espécie de conector das representações intrínsecas e extrínsecas Para saber mais (2) A semiologia: Ciência que se dedica ao estudo dos signos, dos modos que representam algo difer- ente de si mesmo, e de qualquer sistema de comu- nicação presente numa sociedade. Segundo Roland Barthes, análise das definições que são atribuídas às situações sociais tidas como sistemas de signifi- cação; estudo das imagens, dos gestos, dos cos- tumes, das tradições etc. Para saber mais (4) Crátilo (do grego antigo Kratulos): Diálogo platônico no qual Sócrates, seu mestre, é questio- nado por dois homens, Crátilo e Hermógenes, sobre a origem dos nomes à luz de duas reflexões: “con- vencionais” ou “naturais”, isto é, se a linguagem é um sistema de símbolos arbitrários ou se as pala- vras possuem uma relação intrínseca com as cois- as que elas significam. Este texto tornou-se uma referência filosófica no período clássico por cont- er estudos sobre Etimologia e Linguística (SEDLEY, 2003, p. 22-23). 9 entre os seres e o meio, pelo qual a língua passa a ser entendida não como um composto de sons aleatórios e arbitrários, mas como um conjunto convencionalmente significativo, um indicativo da racionalidade humana legitimada pelas tradições. Assume-se, assim, o convencionalismo aristoté- lico e o assentimento do caráter político e social da linguagem (FRANÇA, 2015) Para Saussure (2012), a língua é um sistema de signos que exprime ideias, portanto, a concepção de uma ciência que estude a semiose no bojo das práticas sociais está para além dos domínios da semântica. O que denominou como Semiologia necessitaria interagir com a Psicologia Social e, por conseguinte, com a Psicologia Geral. Ainda no esforço de delimitar a fronteira entre ambas, convencionou-se que a dimensão semântica reserva-se ao estudo dos conteúdos em si, ao passo que a Semiologia (5) e/ou Semiótica (6) à inves- tigação dos processos de significação em linhas gerais. Em outras palavras, a primeira se ocuparia do signo linguístico, a posterior dos signos verbais e não verbais e de suas respectivas semioses (7). 1.1 Histórico do estudo semântico Ao findar do século XIX, foram estabelecidos por Bréal (8) os princípios de uma semântica diacrônica (9), cuja fina- lidade era estudar a semiose das pala- vras, visando observar os mecanismos que regem as suas transformações. Já no início do século seguinte, uma semântica voltada à descrição sincrônica (10) dos significados emerge objetivando delimitar e analisar os Link • (5) Iniciação à Semiologia saussuriana. Di- sponível em: <https://www.youtube.com/ watch?v=c5D1UGk5Qm0> . Acesso em: 08 de fev. 2018. • (6) Iniciação à Semiótica de Peirce: Disponível em: <https://youtu.be/NN-KVLIrVn4>. Acesso em: 08 de fev. 2018. Para saber mais (8) Michel Bréal (1832-1915) foi um linguista francês, o primeiro a estudar cientificamente a polissemia. Para conhecer um pouco do seu estudo, consulte: BRÉAL, Michel. Ensaio de Semântica: ciência das significações. Tradução de Aída Ferrás et al. São Paulo: Pontes, 1992. 10 campos semânticos. Essa abordagem, cujo foco era a taxonomia (11a), não era pautada em critérios imanentes (11b) da linguagem, mas em aspectos associacionistas para o estudo no âmbito do conteúdo (FIORIN, 2008). Em 1957, Hjelmslev propõe as bases para uma semântica estrutural, argumentando que tanto a fonologia quanto a gramática apresentam uma estrutura evidenciada e representada. Tais características legitimariam o processo investigativo, pois o arsenal empregado está logrado à língua. O objetivo da semântica estrutural seria o desenvolvimento de uma investigação imanente, sem categorias de significados fundamentadas em classificação extralinguística, restringindo o escopo investigativo ao nível linguístico e instaurando duas perspectivas semânticas concorrentes: a estru- tural diacrônica e a estrutural contrastiva, cujo escopo era o léxico. Ainda nessa perspectiva, do ponto de vista discursivo, a distinção entre semântica, sintaxe, prag- mática ou mesmo a fonologia mostra-se plausível quando a finalidade é didático-pedagógica, no entanto, na condição de método, a indissolubilidade é mister, posto que a sinergia entre unidades de significação, as regras de combinação entre estas e os usos em determinados contextos situacionais não devem ser tratadas separadamente, já que con- correm à mesma teia de sentidos (12). Para França (2009), para além do enten- dimento sobre a semântica enquanto disci- plina da linguística que se ocupa do sentido e dos seus conceitos mais recorrentes em manuais didáticos - sinônimo, antônimo, parônimo, homônimo, campo semântico, Assimile (9/10) Saussure, em seu Curso de Linguística Geral, propõe que a língua seja estudada a partir da di- cotomia diacronia/sincronia. A diacronia ocupa-se do estudo dos termos sucessivos que se substituem uns aos outros no tempo, e a sincrônica estabelece os princípios de todo sistema sígnico, devendo con- siderar que os fatores constitutivos de todo estado de língua atendem à Gramática (SAUSSURE, 2012). Para saber mais Greimas (1967, p. 125): A descrição de uma estru- tura não é mais que a construção de um modelo metalinguístico, percebido em sua coerência inter- na e capaz de mostrar o funcionamento, no seio de sua manifestação, da linguagem que se propõe de- screver. 11 hipônimo, hiperônimo, campo lexical etc. –, é necessário considerar a existência de um contexto sociocultural que fomenta a dinâmica lexical, operacionalizando a criação de neologismos, emprésti- mos linguísticos, expressões idiomáticas etc., por meio de um processo de concepção que decorre da atividade cognitiva, resultando na concretude da palavra. Nas instâncias extralinguísticas, o político, o social e o cultural são exteriorizados, desnudados por meio das respectivas escolhas lexicais que o usuário da língua faz deste sistema sígnico, cuja natureza é ideológica e, portanto, admitem significados que reportam a algo para além de si mesmo, durante um processo dialógico discursivo em uma dada situação enunciativa, ratificando Bakhtin (2010, p. 37) quando afirma que: O signo é criado por uma função ideológica precisa e permanece inseparável dela. A pala- vra, ao contrário, é neutra em relação a qualquer função ideológica específica. Pode preen- cher qualquer espécie de função ideológica: estética, científica, moral, religiosa. 1.2 O papel da Semântica no ensino de língua materna A distância entre o conhecimento científico produzido nos centros acadêmicos e o disseminado nas instituições de Ensino Superior e Educação Básica, na maioria das vezes, é caracterizada por um hiato intelectual. Os desafios rumo à construção de um modelo educacional inovador e que estimule a criatividade diante das inovações tecnológicas e das novas práticas sociais mediadas por estas. A semântica enquanto ciência não está restrita ao campo dos estudos linguísticos, embora seja natu- ral deste. À guisa de exemplo, cita-se a web semântica (13) que, em colabora- ção com a sintaxe, atua na descrição do significado de construções válidas para a organização de um conjunto de regras que define a forma de uma linguagem, estabelecendo como são compostas as suas linguagens, bem como as normas de com- posição das estruturas básicas (palavras). Dito isto, demonstrar a necessidade da abordagem semântica nas atividades do Link (13) O que é web semântica? Disponível em: <https://www.tecmundo.com.br/web/800-o-que- e-web-semantica-.htm>. Acesso em: 28 jan. 2018. 12 ensino de língua materna é mais que defender a priorização de uma área de estudos linguísticos em detrimento de outra, na verdade, é assumir que os pressupostos teóricos dessa ciência estão enraizados na própria natureza comunicativa humana e em seus respectivos recursos midiáticos. Em consonância com os propósitosteórico-metodológicos da Base Nacional Curricular Comum, os componentes de ensino de Língua Portuguesa (14) enquanto Língua Materna devem contemplar o entendimento das transformações das práticas comunicativas motivadas pelas TDIC (15), das quais assume-se a visão enunciativa-discursiva da linguagem sob o entendimento de que esta é uma ativi- dade interindividual de exercício da cidadania em uma sociedade letrada. FIGURA 1 - Texto sincrético (veja o exemplificando) FONTE: UOL, 2018, on-line. 13 Em consonância com os propósitos teó- rico-metodológicos da Base Nacional Curricular Comum, os componentes de ensino de Língua Portuguesa (14) enquanto Língua Materna devem contemplar o enten- dimento das transformações das práticas comunicativas motivadas pelas TDIC (15), das quais assume-se a visão enunciativa- discursiva da linguagem sob o entendimento de que esta é uma atividade interindividual de exercício da cidadania em uma sociedade letrada. Concluindo, a BNCC sugere a transposição da prática educativa baseada em exercícios de cunho morfológico e sintático para ativi- dades que fomentem a reflexão sobre a lín- gua, contemplando a construção de sentido por meio de análise semântico-discursiva. Questão para reflexão Após todo estudo compartilhado neste material, você teve contato com diferentes vertentes de pesquisa na área de semântica. Baseando-se nestes estudos, construa um texto no qual você apresente uma reflexão sobre como empregar esta ciência no ensino de Língua Portuguesa enquanto língua materna. Exemplificando A interpretação do composto textual desse portal de notícias (figura 1), constitui um território fecun- do à demonstração. Note que são exploradas as cores vermelhas e pretas na composição do con- traste de todos os anúncios e manchetes. Observe que traçado um percurso entre os destaques em vermelho, você terá: “69%”, “Eu quero”, “Lula pode ser preso”, mera coincidência? Talvez, interpretar, atribuir significado, construir sentido sobre a re- alidade, é um processo de escolhas, observação e rearranjos. Um profissional de comunicação e linguagem não faz escolhas ingênuas, até porque nenhum dis- curso é neutro e despido de ideologia. Seria o “eu” o desejo do enunciador? Seria a cifra “69%” uma analogia quantificadora ao percentual de pessoas que supostamente também desejam? A expressão modalizadora “pode ser” atenua o tom do discurso. Ao observar os quadros em preto, traça-se também um paralelo em quem são comunicadas as grande- zas, note: “144,90 e 44,90”; “95”; “23 e 2º”. Seria também fruto do acaso a gradação numérica de- crescente? Seria uma tentativa de construir uma sensação de valores do mais para o menor, sendo o último recaído sobre o seu referente? No quadrante pontilhando em que se encontra o jogador Neymar Júnior é possível notar na direita abaixo um anúncio sobre o mundial na UOL, no su- perior direito o anúncio de outro produto também com a logo UOL. A disposição entre os três enun- ciados é novamente triangular. Nota-se que, após analisar essas diferentes relações enunciativas, um padrão organizacional começa a ser desenhado o que nesse objeto mostrou-se eficiente. É claro que está é apenas uma leitura entre as mui- tas que podem ser feitas. Trata-se apenas de uma exemplificação de leitura e interpretação funda- mentada em pressupostos linguísticos, semânticos e semióticos, a aplicação de um vasto arsenal à prática de leitura. 14 Considerações Finais • É importante considerar que há uma linha tênue entre os domínios da semântica e da semiótica, que por vezes promove enganos conceituais, epistemológicos e de finalidade. • A semântica não possui base teó- rica homogênea, uma vez que seus construtos epistemológicos são dis- tintos, sendo ora convergentes, ora divergentes, e/ou mesmo mutua- mente excludentes. • Embora Aristóteles já contemplasse em seus estudos a noção de signo e a importância do significado à linguagem, foi Ferdinand de Saussure que na modernidade forneceu bases teóricas conceituais para o desenvolvimento da Linguística e, consequentemente, da Semântica. • O estudo da Semântica no ensino de Língua Portuguesa enquanto língua materna não se caracteriza como modismo científico, mas como resposta às necessidades comunicativas da contemporaneidade mediadas pela multimodalidade linguística nativa das práticas sociais letradas digitais. Glossário Signo Linguístico: É uma unidade psíquica de duas faces, a união do conceito com a imagem acús- tica. O primeiro, significante (plano da expressão - fonética), que é a parte sensível. O segundo, o significado (ou ideia), é a representação mental de um objeto ou da realidade social em que nos situ- amos, representação essa condicionada por nossa formação sociocultural (SAUSSURE, 2012, p.106). Para saber mais O componente Língua Portuguesa da BNCC (BRA- SIL, 2017, p. 65, on-line) dialoga com documen- tos e orientações curriculares produzidos nas úl- timas décadas, buscando atualizá-los em relação às pesquisas recentes da área e às transformações das práticas de linguagem ocorridas neste século, decorrentes, em grande parte, do desenvolvimento das tecnologias digitais da informação e comuni- cação (TDIC). Assume-se aqui a perspectiva enun- ciativo-discursiva de linguagem, já assumida em outros documentos, como os Parâmetros Curricu- lares Nacionais (PCN), para os quais a linguagem é “[...] uma forma de ação interindividual orientada para uma finalidade específica; um processo de in- terlocução que se realiza nas práticas sociais exis- tentes numa sociedade, nos distintos momentos de sua história” (BRASIL, 1998, p. 20, on-line). 15 Epistemologia: Significa discurso (logos) sobre a ciência (episteme). (Episteme + logos). Epistemologia: é a ciência da ciência. Filosofia da ciência. É o estudo crítico dos princípios, das hipóteses e dos resultados das diversas ciências. É a teoria do conhecimento (ESSER, 1994, on-line). Semiose: Termo introduzido pelo filósofo e matemático norte-americano Charles Sanders Peirce, designando o processo de significação e a produção de significados (CARVALHO, 2016, on-line). Taxonomia: É o estudo científico responsável por determinar a classificação sistemática de dife- rentes coisas em categorias (SIGNIFICADO DE TAXONOMIA, 2018, on-line). Imanente: Que faz parte de maneira inseparável da essência de um ser ou de um objeto; ine- rente. [Filosofia] que está contido na parte da experiência possível, fazendo com que a realidade seja percebida através da utilização dos sentidos; segundo o Kantismo, diz respeito aos concei- tos e/ou preceitos de teor cognitivo. [Filosofia] que se refere à comprovação empírica da realidade (IMANENTE, 2018, on-line). Verificação de leitura QUESTÃO 1-A semântica, entendida como a disciplina que estuda o significado, nas pers- pectivas contextual e contextual-situacional, transcende a investigação da palavra para elementos extralinguísticos tais como: a) a natureza dos signos linguísticos. b) os tipos de signos linguísticos. c) os signos contextuais e relacionais. d) os aspectos contextuais e situacionais. e) a gênese dos signos relacionais. 16 QUESTÃO 2-Aristóteles postula que o signo é uma espécie de conector das representações intrínsecas e extrínsecas, entre os seres e o meio. Nesse sentido, compreende-se que: a) o signo é uma unidade estanque com sentido em si mesma. b) o signo é uma parte do real significado das coisas. c) o signo é fundamentado nas crenças dos interlocutores. d) o signo representa a realidade concreta da mente. e) o signo conecta a natureza material e conceitual da linguagem. QUESTÃO 3-É correto afirmar que a semântica estrutural: I. visa à investigação imanente. II. objetiva um estudo do significado sem elementos extralinguísticos. III. está atrelada à linguística diacrônica. IV. baseia-se na concepção estruturalista da linguagem. Estão corretos apenas os itens:a) I e III. b) I, II e IV. c) I, III e IV. d) I e II. e) II e IV. 17 Referências Bibliográficas BAKHTIN, M. M. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico da linguagem. Tradução de Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira, com a cola- boração de Lúcia Teixeira Wisnik e Carlos Henrique D. Chagas Cruz. 14. ed. São Paulo: Hucitec, 2010. BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília: MEC, 1998. 107p. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/portugues.pdf>. Acesso em: 07 maio 2018. ______. Base Nacional Curricular Comum. Brasília: MEC, 2017. 65p. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/index.php>. Acesso em: 28 jan. 2018. BRÉAL, M. Ensaio de Semântica. Tradução de Aída Ferrás et al. São Paulo: Pontes, 1992. CARVALHO, Felipe. 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Gabarito QUESTÃO 1-Alternativa D Nas perspectivas contextual e contextual-situacional são considerados elementos extralinguísti- cos como o contexto, a situação e o nível relacional e/ou interpessoal. QUESTÃO 2-Alternativa E O signo é uma espécie de conector das representações intrínsecas e extrínsecas entre os seres e o meio pelo qual a linguagem passa a ser entendida não apenas como um composto de sons aleatórios e arbitrários, mas um conjunto convencionalmente significativo. QUESTÃO 3-Alternativa B A semântica estrutural visa criar um conjunto analítico semelhante ao da Fonologia e ao da Gramática, desenvolvendo uma investigação imanente, sem categorias extralinguísticas, e está a atrelada à abordagem estrutural contrastiva. 2 As diferentes abordagens semânticas 20 Objetivos Específicos • Apresentar as diferentes vertentes semânticas e seus respectivos fundamentos; • Explicitar os respectivos construtos teóricos e operacionais de cada escola semântica; • Refletir sobre as diferentes correntes semânticas e seus respectivos representantes. Introdução Conforme já foi visto no capítulo introdutório, a semântica é o estudo dos significados imanentes das palavras, símbolos, imagens, frases, orações, enunciados, em linhas gerais, a investigação do todo que compõem o texto. Você também já sabe que esse campo de pesquisa, do ponto de vista gramatical, está diretamente associado à Sintaxe e à Fonologia. Neste capítulo, você conhecerá um pouco mais sobre as diferentes correntes semânticas, seus fundamentos teóricos e respectivos precursores. Será possível conhecer o objeto de estudo de cada uma dessas abordagens e a forma como cada qual concebe o seu processo hermenêutico. Esperamos que ao final dos estudos deste capítulo você tenha compreendido o porquê da exis- tência de tantas vertentes no campo das pesquisas semânticas e que, principalmente, seja capaz de associá-las às diferentes instâncias da linguagem de que se ocupam. Tais constatações permitirão fazer escolhas conscientes dentro do cabedal teórico à disposição, tornando possível investigar a dinâmica da construção de significado e/ ou sentido, a depender da abordagem empregada, com vistas ao processo de ensino de Língua Portuguesa e os aspectos que se deseja evidenciar em cada etapa dos estudos linguísticos. 1. As Diferentes Escolas Semânticas Como acontece em toda e qualquer área da ciência, a Semântica também possui diferentes ver- tentes epistemológicas e, por conseguinte, abordagens distintas de investigação do significado em níveis díspares, tornando-a uma disciplina ampla e fecunda enquanto instrumento de construção de sentido da palavra ao discurso. 21 Nas diversas escolas de estudos semânticos, entre as principais correntes, podem ser destacadas: a abordagem estrutural de Saussure e Hjelmslev, denominada como semân- tica lógica ou da palavra isolada; a contextual de Pottier; a contexto-situ- acional de Ducrot; e a transformacional de Chomsky (FRANÇA, 2009, on-line). Cada qual com suas contribuições e limi- tações que, em determinados casos, ora contingentes, ora mutuamente excluden- tes, mas que, todavia, compõem um vasto arsenal a serviço das práticas comunicativas letradas mediadas pelos signos linguísticos verbais e não verbais, se considerada como estrutura do magma da Semiótica (1). 1.1 A Escola Estruturalista A semântica estrutural desenvolveu-se baseada nos moldes analíticos e discricionários da Fonologia e da Sintaxe, na busca de conceber um conjunto de categorias e classificações semânti- cas que pudessem limitar a construção de sentido à análise do objeto, desconsiderando os elemen- tos extralinguísticos como unidades de sentido. Nesse sentido, a frase é entendida como uma segmentação lógica, ao passo que o período é entendido como uma fisiologia emocional. A dicotomia saussuriana – eixo paradigmático e sintag- mático – contribui para relação entre as escolhas lexicais e a organização lógica constituída, com vista à construção de sentido durante a operacionalização do sistema linguístico. Resumindo, a língua enquanto um sistema arbitrário de signos à disposição do falante, mate- rializa as intenções comunicativas do usuário à medida que este opta por uma determinada lógica estruturante, entre as diversas possibilidades paradigmaticamente preestabelecidas à organização do conjunto sintagmático, razão pelo qual o significado, embora atrelado ao léxico (palavra/ signo), Link A semiótica parece ainda uma disciplina sem fron- teiras; portanto, nós a abordaremos criticamente para questioná-la sobre o texto. As respostas par- ciais que obteremos levar-nos-ão a propor outras questões no campo epistemológico. Para nós, a lin- guística é a semiótica das línguas e dos textos. Uma vez que a semiótica e a linguística conheceram des- tinos separados, é preciso examinar suas relações. Disponível em: <http://periodicos.ufpb.br/index. php/actas/article/viewFile/14633/8284>. Acesso em: 04 de fev. 2018. 22 verdadeiramente, emane da conjectura organizacional em que está inserido. Isso ratifica o entendimento de que a semântica estrutural tem como recurso fun- damental à construção de sentido, uma análisemorfossintática na qual a classe e a função dos sintagmas (2a), quando realoca- das na estrutura paradigmática (2b) resul- tam em projeções significativas distintas. 1.2 A Semântica Lógica Baseado no pensamento socrático e pla- tônico, Aristóteles (384-322 a.C.) inaugura a Lógica enquanto ciência, tendo por essência os seguintes estudos: • As definições universais usadas por Sócrates (469-399 a.C.); • O uso da redução ao absurdo de Zenão de Eléia (490-420 a.C.); • A estrutura proposicional e negação de Parmênides (515-445 a.C.) e Platão (428-347 a.C.); • As técnicas argumentativas encontradas no raciocínio legal e provas geométricas. Denominado como órganon (3), o conjunto lógico aristotélico constitui o alicerce dos princípios da semântica lógica, na qual afirma-se que uma proposição é um complexo envolto em dois termos: um sujeito e um predicado, cuja representação se dá, gramaticalmente, por meio de um substantivo. Ao aplicar a teoria de oposição e conversão, o ateniense investigava as relações entre duas proposi- ções contendo os mesmos termos, o que resultou em uma de suas maiores contribuições aos estu- dos desse campo, as proposições combinatórias conhecidas como silogismos (4) Para saber mais (2ab) O estudo da dicotomia dos eixos paradigmáti- co e sintagmático permite o perfeito entendimento das relações entre as escolhas lexicais e a forma pela qual as organizamos no uso da língua com vis- ta à construção de sentido (SAUSSURE, 2012). Exemplificando EX.1 - Além de linda, Maria é uma grande mulher. Adj. Subst. EX.2 - Além de linda, Maria é uma mulher grande. Subst. Adj. No Exemplo 1, conclui-se que Maria é uma pessoa dotada de qualidades e predicativos nobres, pois o adjetivo está anteposto ao substantivo. Já no Ex- emplo 2, com o adjetivo posposto ao substantivo, observa-se que o sentido é de que Maria é uma mulher alta, grande, ou mesmo obesa etc. 23 A seguir, analisemos as próximas proposições à luz dos princípios, em especial, o da oposição/ conversão e sujeito/ predicado: 1. Todos os homens mentem. (premissa maior) 2. Marivaldo é um homem. (portanto/ logo = logicamente) 3. Marivaldo mente. (Por quê?) Porque todo homem mente e Marivaldo é um homem. Com base nos princípios destacados, pode-se inferir que a terceira proposição é verdadeira, pois está fundamentada na premissa maior por contingência (Todos/ Marivaldo é parte do todo porque é da mesma espécie) do sujeito e pelo jogo de oposições e conversões dos predicativos (homens men- tem/ é um homem/ então mente). Em suma, a lógica tinha por objetivo codificar o entendimento sobre a linguagem de forma racional em um único sistema. Até o advento da semântica moderna, especialmente a da palavra, fundada pelo linguista alemão, Jost Trier (1894-1970), o órganon era a única base da lógica hermenêutica (5). Todavia, com o surgimento de novos estu- dos que apresentavam questões de gene- ralidades múltiplas, o modelo aristotélico mostrou-se pouco eficaz, dando início a diferentes abordagens fundamentadas nes- ses preceitos nucleares. À guisa de exemplo destacam-se a teoria da semântica da ver- dade, diálogo dos jogos e a probabilística. 1.3 A Semântica Contextual Tendo como seu fundador o francês Bernard Pottier (1933), a semântica contextual e/ ou compo- sicional estuda a linguagem enquanto meio de comunicação, analisando as palavras em consonân- cia com o contexto particular no qual se dá o processo comunicativo. Nesse sentido, a significado não é determinado apenas pelos seus aspectos elementares de sua natureza sígnica, mas em um Para saber mais (5) Hermenêutica: É a filosofia da interpretação, que foi fundada por Schleiermacher e tem por base a interpretação dos fenômenos humanos mediados pela linguagem. O autor a define como uma arte que deve ser construída sobre a compreensão, ex- igindo conhecimentos de Gramática e de Psicologia (FRANÇA, 2007, p. 26). 24 processo analítico concomitante ao uso da linguagem por parte dos sujeitos em um determinado cenário, onde diferentes domínios da significação se evidenciam nos atos de fala, contingenciando outro domínio dos estudos linguísticos denominado como pragmática. É comum, nos manuais didáticos de ensino de Língua Portuguesa, a presença de tópicos de estu- dos semânticos relativos à denotação/ conotação, sinonímia, antonímia, homonímias, parônimas, hiperonímias/ hiponímias, polissemia, entre outros (FRANÇA, 2009, on-line), destacando que as relações de significação, bem como os tipos de funções oriundas das interações entre elementos/ elementos, elementos/ conjuntos, conjuntos/ conjuntos, constituem nexo entre o composto signifi- cante (expressão) e o significado (conteúdo) do sistema lexical de uma língua. Para efeitos didáticos, pode ser sintetizada à fusão dos modelos conceituais e associativos: mag- mas distintivos dos dois princípios regentes nos estudos semânticos. TABELA 1 - Síntese da wfusão dos estudos semânticos Significado conceitual ou Sentido Conteúdo lógico, cognitivo ou denotativo Significado associativo conotativo sobre aquilo que a linguagem se refere social circunstância social do uso da linguagem afetivo comunica sentimentos/ atitudes do falante refletido associação com o sentido de outra expressão colocacional associação com palavras que atuam no ambiente de outra Significado temático forma pela qual a mensagem é organizada - ordem ou ênfase FONTE: Baseada em Geoffrey Leech - Semantics (1974) / Clariano, 2013. Resumindo, o significado conceitual está atrelado a dois princípios linguísticos: o da descrição dos signos (contrastividade) e o da estrutura, ou seja, fundamentado na dicotomia saussuriana 25 – paradigma e sintagma. Ao passo que o significado temático está associado à orga- nização da mensagem, levando em conside- ração a ordem, foco e ênfase. 1.4 Semântica Contextual-Situacional Fundada por Oswald Ducrot, alicerça-se no princípio de que a argumentação é o fator essencial à construção do sentido, que presente na língua é manifestado por meio dos enunciados. Nesse sentido, cabe recuperar o entendimento postulado pela Semântica Linguística, na qual a enuncia- ção é concebida como um acontecimento que se manifesta historicamente no gradiente do tempo/ espaço, um evento que marca o próprio enunciado, fazendo com que a situação se torne resultado do processo enunciativo. Ao contrário da Semântica Estruturalista, que desconsidera o contexto por se tratar de compo- nente extralinguístico, a Semântica Contextual-Situacional considera-o como elemento linguístico sob o entendimento de que, linguisticamente, não há contexto sem texto e vice-versa. Na perspectiva ducrotiana, a subjetividade do “eu” integra a linguagem na construção do pro- cesso interpretativo, uma vez que o locutor se posiciona ideologicamente a partir do discurso. Por conseguinte, a argumentação é manifestada nas relações subjetivas e intersubjetivas, das quais extrai-se o substrato da ação enunciativa da linguagem, ou seja, as intenções marcadas nos pres- supostos e subentendidos. A efeito de comparação, ao estabelecer um paralelo entre Benveniste e Ducrot, constata-se que o primeiro prioriza evidenciar as categorias da enunciação observadas nos enunciados e previstas no sistema, à medida que o segundo descreve a enunciação visando o enunciado, privilegiando o pro- duto, ou seja, o argumento, e não o processo. De acordo com Koch (2011), destaca-se o fato de que em 1978 ao revisar, ou melhor, apre- sentar uma autocrítica sobre a oposição que estabeleceu entre pressuposto e subentendido, são Link (6) O conceito de Significado em Semântica: Signifi- cado e Interpretação. Disponível em: <http://www. academia.edu/3525421/O_conceito_de_Significa- do_em_Sem%C3%A2ntica_Significado_e_Interpre- ta%C3%A7%C3%A3o>.Acesso em: 04 de fev. 2018. 26 apresentadas algumas convenções sobre as seguintes terminologias: frase (7), enunciado (8), signi- ficação (9), sentido (10) e enunciação (11). Somado ao conceito de polifonia (12), um dos principais pontos da teoria de Ducrot, por conse- guinte, da Semântica Contextual-Situacional, é a questão revisada sobre pressuposto e subenten- dido, que estabeleceu a significação da frase como propriedade do primeiro, enquanto o segundo ao enunciado e à interpretação que deste se dá, portanto estabelecendo uma distinção entre ambos, sobretudo a distinção entre duas instâncias semânti- cas: a da significação da frase e do sentido do enunciado, evidenciando a relevância dessa vertente semântica para as ciências recorrentes da interpretação (KOCH, 2011). Resumido, embora Ducrot tenha man- tido o princípio estruturalista em sua teoria semântica argumentativa, ratificou o fato de que o sentido de uma entidade linguística está na relação entre os elementos do sistema, motivo pelo qual o sentido de um enunciado deve ser analisado em conformidade com os encadeamentos discur- sivos em que ocorre argumentação, cuja natureza pode ser fragmentada em duas partes: retórica e linguística, articuladas de forma interdependente (DUCROT, 1979). 1.5 Semântica Transformacional Considerado um dos principais nomes da Linguística e da Psicologia do século XX, Noam Chomsky é um dos cofundadores da ciência cognitiva e o proponente de uma das mais polêmicas teorias filo- sóficas da linguagem, denominada como semântica da linguagem natural, cuja essência nunca fora aceita pelas correntes dominantes da área. Ao propor uma abordagem internalista para o estudo da linguagem, enfrentou grande resistên- cia dos linguistas externalistas que defendiam a ideia de que todos os fatos semânticos devem ser Assimile 12. O termo polifonia nasceu da constatação da di- versidade de vozes que podem povoar um mesmo discurso (POLIFONIA, 2018, on-line). 27 explicados a partir das interações entre os usuários da língua em um determinado contexto de prá- ticas sociais, sem considerar, todavia, os processos mentais que operacionalizam a linguagem. As bases internalistas da linguística chomskyana repousam sobre os respectivos argumentos: • A primeira língua de um falante é aprendida naturalmente, não havendo necessidade de ser ensinada. • A semelhança entre os erros cometidos pelos aprendizes da língua, nas mais diferentes culturas. • O fato de que os aprendizes desenvolvem uma determinada competência linguística mínima, em um espaço de tempo relativamente semelhante. • Frente à complexidade das estruturas das línguas naturais, o estímulo linguístico recebido é limitado, não explicando a riqueza da linguagem apresentada em poucos anos de vida. Fundamentado por tais argumentos, Chomsky defende a tese de que as estruturas elementares da linguagem estão assentadas em nosso aparato cognitivo, motivo pelo qual o filósofo propõe o nativismo linguístico, baseado na presunção de que possuímos uma gramática universal inata, que possibilita aprender uma determinada língua. Nessa perspectiva, infere-se que a mente é um composto dividido em diferentes setores e/ ou áreas interligadas que se responsabilizam por atividades díspares, sendo a faculdade da linguagem (deno- minação Chomskyana) a responsável por executar e gerenciar tarefas como a de formulação e inter- pretação de fonemas, compostos semânticos e estruturas gramaticais das mais simples às complexas. De acordo com Chomsky (2000), nascemos dotados desse complexo sistema linguístico, tor- namo-nos aptos a aprendê-lo e desenvolvê-lo, ratificando a tese da existência de uma gramática universal que rege as línguas naturais, possibilitando que diferentes indivíduos as aprendam, visto que em um nível elementar, todas as línguas estão alicerçadas sobre o mesmo princípio, o da facul- dade da linguagem que pressupõe e operacionaliza esse compêndio, permitindo ao usuário modelar as formas que a linguagem pode contemplar. Esse pensamento chomskyanos, culmina com a rejeição das teses de que a linguagem é um cons- truto público, uma propriedade de comunidade e que as expressões da linguagem denotam coisas do mundo, renunciando, portanto, a teoria de que a produção da linguagem ou dos significados 28 condiciona os eventos comunicativos entre os indivíduos. Segundo Chomsky (2000, on-line), geramos os nossos próprios significados e consentimos que os significados dos demais são como aos nossos. Resumindo, comunicamos aos outros os sentidos cunhados em nossas próprias mentes, motivo pelo qual chega-se ao entendimento de que lingua- gem não é usada para representar o mundo, e sim para exteriorizar nossas representações internas e interpretar as pertencentes às outras pessoas durante o processo comunicativo. Em suma, a compreensão do funcionamento da linguagem natural pressupõe, basicamente, que as palavras possuem aspectos de duas naturezas: fonéticas (som) e semânticas (significado), cujo papel é materializar e compartilhar as representações de um indivíduo com outro (os), pois a mente humana é dotada de algoritmos que codificam e decodificam as possibilidades semânticas da pala- vra, desencadeando as ações relativas ao objetivo comunicacional. Questão para reflexão Após todo estudo compartilhando neste material, você pôde conhecer um pouco mais sobre as características das diferentes vertentes semântica. Baseando-se nesses estudos, escolha duas entre as apresentadas e construa um texto no qual apresente uma avaliação contrastiva entre ambas, podendo explicitar o mérito de uma em detrimento de outra. Considerações Finais • A semântica estrutural desenvolveu-se baseada nos moldes analíticos e discricionários da fonologia e da sintaxe, imanente da teoria saussuriana. • A semântica lógica tem como base a lógica clássica aristotélica, que tinha por objetivo codificar o entendimento do discurso de forma racional em um único sistema como base hermenêutica. • A semântica contextual e/ ou composicional estuda a linguagem enquanto meio de comuni- cação, analisando as palavras em consonância com o contexto particular no qual se dá o pro- cesso comunicativo. 29 • A semântica contextual-situacional é alicerçada no princípio de que a argumentação é o aspecto essencial à construção do sentido, cuja essência repousa no enunciado. • A semântica transformacional chomskyana fundamenta-se sobre os respectivos argumentos: (1) a primeira língua de um falante é aprendida naturalmente, não havendo necessidade de ser ensinada; (2) a existência de semelhança entre os erros cometidos pelos aprendizes da língua nas mais diferentes culturas; (3) ao fato que os aprendizes desenvolvem uma determi- nada competência linguística mínima, em um espaço de tempo relativamente semelhante; (4) observada a complexidade das estruturas das línguas naturais, o estímulo linguístico recebido é limitado, não explicando a riqueza da linguagem apresentada em poucos anos de vida. Glossário Órganon: Do grego organikos, relativo ou pertencente a um órgão/ instrumento relacionado a ergon, trabalho. Conjunto de seis obras aristotélicas (ÓRGANON, 2018, on-line). Silogismos: Do grego syllogismos, originalmente “inferência, cálculo, conclusão”, de syllogizes- thal, “juntar, concluir, chegar a uma premissa”, literalmente “pensar junto”, de syn, “junto”, mais logizesthai, “raciocinar, contar”, relacionado a logos, “raciocínio, cálculo, estudo (SIGNIFICADO DE SILOGISMO, 2018, on-line). Frase: Entidade abstrata suscetível de uma infinidade de realizações particulares. Enunciado: Realizações abstratas particulares oriundos das frases. Significação: Descrição semântica que se dá a uma frase. Sentido: Descrição semântica que se dá a um enunciado. Enunciação: Evento constituído a partir da produção de um enunciado. 30 Verificação de leitura QUESTÃO 1-Analise as afirmações a seguir com relaçãoà semântica estrutural e responda: I – É fundamentada em princípios dicotômicos saussurianos. II – É baseada em moldes analíticos discricionários. III – Pressupõe a concepção de um conjunto de categorias e classificações. IV – A frase é compreendida como uma fisiologia lógica. É correto afirmar que: a) Apenas I, II, III estão corretas. b) Apenas I, III e IV estão corretas. c) Apenas II, III e IV estão corretas. d) Apenas II e IV estão corretas. e) Apenas III e IV estão corretas. QUESTÃO 2-Escolha a alternativa que melhor completa a proposição apresentada a se- guir, com base na semântica estrutural: “A língua enquanto um sistema arbitrário de signos à disposição do falante, externaliza as intenções do usuário (...)” a) ao passo que este renuncia à lógica estruturante. b) ao passo que este reestrutura a dicotomia sígnica. c) ao passo que este opta por uma determinada lógica paradigmática. d) ao passo que este lança mão de um determinada lógica sintagmática. e) ao passo que este reelabora a relação entre significado e significante. 31 QUESTÃO 3-Escolha a alternativa que apresenta a informação correta com relação à Se- mântica Lógica. a) A semântica lógica é fundamentada no princípio dicotômico saussuriano da língua/ fala. b) A semântica lógica possui seu alicerce no conjunto lógico aristotélico, denominado órganon. c) A semântica lógica concebe que o significado não é determinado apenas pelos aspectos elementares de sua natureza sígnica. d) A semântica lógica baseia-se nos processos semióticos, oriundos das relações sociais. e) A semântica lógica é um desdobramento metodológico da semiótica greimasiana. Referências Bibliográficas CHOMSKY, N. New horizons in the study of language and mind. Cambridge: Cambridge University Press, 2000. Disponível em: <https://academiaanalitica.files.wordpress. com/2016/10/noam-chomsky-new-horizons-in-the-study-of-language-and-mind.pdf>. Acesso em: 07 de fev. 2018. DUCROT, O. Princípios de semântica linguística (dizer e não dizer). São Paulo: Cultrix, 1979. FRANÇA, M. M. O computador no Ensino-aprendizagem Presencial de Língua Inglesa na Formação de Professores. Dissertação de Mestrado – Programa de Pós-graduação em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem, PUC-SP, 2007. FRANÇA. J. M. A semântica e o ensino de língua materna: da necessidade de subsídios teórico para o professor. Linguagem, edição 06, n.p., mar. 2009. Disponível em:<http:// www.letras.ufscar.br/linguasagem/edicao06/reflexoes_en_li_franca.php>. Acesso em: 28 nov. 2017. KOCH, I. G. V. Argumentação e Linguagem. 13. ed. São Paulo: Cortez, 2011. LEECH, Geoffrey. Semantics (1974). In: CLARIANO, Tiago. O conceito de Significado em Semântica: Significado e Interpretação. 2013. Disponível em: <http://www.academia. edu/3525421/O_conceito_de_Significado_em_Sem%C3%A2ntica_Significado_e_Inter- preta%C3%A7%C3%A3o>. Acesso em: 04 de fev. 2018. 32 ÓRGANON. In: Dicionário Informal, 2018. Disponível em: <https://www.dicionarioin- formal.com.br/%C3%B3rganon/>. Acesso em: 07 de fev. 2018. POLIFONIA. In: Infopédia, 2018. Disponível em: <https://www.infopedia.pt/$polifonia>. Acesso em: 05 de fev. 2018. SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de linguística geral. 28. ed. São Paulo: Cultrix, 2012. SIGNIFICADO DE SILOGISMO. In: Significados, 2018. Disponível em: <https://www.signi- ficados.com.br/silogismo/>. Acesso em: 07 de fev. 2018. Gabarito QUESTÃO 1-Alternativa A - A frase deve ser entendida como uma segmentação lógica, ao passo que o período à fisiologia lógica. QUESTÃO 2-Alternativa C - A língua, enquanto um sistema arbitrário de signos à disposi- ção do falante, explicita as intenções no instante em que este faz opta por uma determi- nada estrutura paradigmaticamente pré-estabelecidas. QUESTÃO 3-Alternativa B – Denominado como órganon, o conjunto lógico aristotélico constitui o alicerce dos princípios da semântica lógica. 3 Texto e argumentação 34 Objetivos Específicos • Apresentar as diferentes concepções entre texto, enunciado e discurso; • Refletir sobre o papel da argumentação no discurso; • Explicitar alguns dos princípios da argumentação. Introdução À medida que avançamos em nossos estudos semânticos, você já deve ter percebido que as abordagens e seus respectivos objetos de pesquisa vão se amplificando e se sofisticando. O limites e recursos teóricos, de uma vertente com relação à outra, tornam-se mais claros e perceptíveis, ao passo que os processos investigativos que compõem seus respectivos conjuntos analíticos vão sendo desenvolvidos. A semântica contemporânea, em distinção às correntes mais ortodoxas, caracteriza- se pelo interesse nas relações entre a linguagem e o pensamento. A concepção de que a linguagem é um mero instrumento de expressão dos nossos pensamentos é acrescida dos seguintes predicati- vos: moldura e conectivo de ideias durante o processo de interpretação dos enunciados, por parte dos interlocutores, o que permite conceber o significado como sendo o resultado da associação dos elementos sígnicos da linguagem. A compreensão dos enunciados não é função exclusiva de um pro- cesso analítico das estruturas linguísticas, a percepção da situação em que nos encontramos é fator extralinguístico determinante para acepção dos pressupostos e subentendidos negociados na tessi- tura argumentativa do texto, ou seja, assimilar o contexto. É compreender, portanto, que o sentido é construído a partir da análise das relações dialógicas manifestas nos processos de argumentação cuja natureza repousa sobre os fenômenos polifônicos e de intertextualidade nos quais cada texto se conecta a outro, atribuindo-lhes novas significações e rearranjos semânticos. 35 1. Texto, enunciado, discurso Os linguistas, quando fazem referência às produções verbais, lançam mão de diferentes ter- mos para exemplificação desses fenômenos comunicativos. Por vezes recorrem à palavra texto, ora enunciado e/ ou discurso, embora esses recebam definições distintas entre si, e nesse cená- rio podem assumir conotações semelhantes visto que são materializados por meio da linguagem (MAINGUENEAU, 2005). De acordo com Fontanille (2007), o texto é objeto de estudo da Linguística (a gramática de texto ou linguística textual e, recentemente, da semântica textual, que se ocupa de qualquer manifesta- ção semiótica de natureza verbal). Nesse sentido, a palavra texto deve ser empregada no sentido de produção verbal oral ou escrita, estruturada e perpetuada para além de seu contexto original de produção. Em muitos casos, não é produzido por um único locutor, podendo assumir diferentes categorias de hierarquização entre os interlocutores de forma heterogênea e multimodal, permitindo a associação de signos linguísticos e icônicos em um mesmo contexto. Ao recorrer ao termo enunciado, renuncia-se aos valores conceituais que esse possui e que o dife- rencia dos demais. Em linha gerais, considerado como a marca linguística do ato enunciativo, pode ser definido como uma unidade elementar da comunicação verbal, ao passo que ainda há àqueles que o consideram em oposição à frase cujo contexto seria o elemento distintivo. O termo enunciado também é empregado para representar uma estrutura verbal que compõe uma unidade específica de comunicação plena, em uma determinada esfera discursiva, na qual a orientação comunicativa a ela está atrelada, tornando seu entendimento semelhante ao conceito de texto. No que se refere à noção de discurso, em linhas gerais, o termo pode assumir diferentes acepções como, por exemplo: enunciados solenes (o governador fez um discurso), sinônimo de falácias (O que sai da boca dele é só discurso), ou mesmo para caracterizar o uso restritivo da língua (discurso jurí- dico, publicitário, capitalista etc.). Nesse sentido, seu emprego é ambíguo visto que pode representar 36 tanto o sistema que permite a construção de um conjunto textual, bem como o composto resultante desta produção (MAINGUENEAU, 2005).Resumindo a questão, seja o discurso um conjunto de frases, proposições organizadas e/ ou produto da enunciação, estará sob enfoque das linguísticas textual e enunciativa, ou mesmo da retórica e da pragmática, indiferentemente da abordagem, pois sempre estará atrelado ao campo do estudo das ideias, cuja expressão se dá por meio da linguagem e, por conseguinte, pela argumentação. Portanto, fecha-se aqui a reflexão com o seguinte entendimento: quando em situa- ções específicas deve-se usar o termo texto para tratar de unidades verbais oriundas de um gênero discursivo, e enunciado quando a situação pressupor a análise da frase ins- crita em um contexto particular. 1.1 Discurso e Argumentação As relações humanas de toda natureza são mediadas também por signos diversos que relacionam as experiências sociais. A semântica ocupa-se da relação do homem com a linguagem e da repre- sentação de mundo dela constituída. Ao passo que a interação social dos indivíduos, na e pela lin- guagem, é do escopo da pragmática. É pela argumentatividade que a língua é aplicada na interação social, dotada de valores que per- mitem ao homem julgar, avaliar, criticar, escolher, definir uma razão legitimada. Já o discurso tem, na ação verbal, a negociação das intencionalidades dos interlocutores, promovendo a disputa das ideias e a dinâmica influindo sobre o comportamento do outro. Assim, a argumentação visa promover assentimento à adesão dos espíritos (2) e, portanto, pressu- põe a existência de uma relação de natureza intelectual, pois o plano das interações sociais e processos deliberativos fundamentam-se nessa máxima. Argumentar implica respeito às condições prévias de juízo compartilhado em uma determinada sociedade e em suas diferentes esferas do conhecimento. Link FIORIN, J. Conceito de enunciação. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=RQzJaFYiqhc. Acesso em: 13 fev. 2018. 37 Para Bakhtin (1997), o signo não constitui uma entidade meramente linguística como para Saussure (2012). Argumentar é orientar o discurso na direção de determinadas conclusões. O dis- curso subjaz o ato linguístico fundamental da comunicação, a expressão da ideologia. O russo, ao fundar as bases do estudo em enunciação, efetiva o signo linguístico como um signo sócio-ideológico, argumentando que: “A língua vive e evolui historicamente na ‘comunicação verbal concreta’, não no sistema linguístico abstrato das formas da língua nem no psiquismo individual dos falantes” (3) (BAKHTIN, 1997, p. 124). Nesse sentido, o discurso em sua acep- ção mais ampla é a representação da ideo- logia, ratificando o status de mito sobre sua condição de neutralidade. Seja ele culto ou ingênuo, irá expressar uma visão de mundo compartilhada enunciada a partir de seu lugar (Topoi) (4). A argumentação manifesta no discurso é a comunicação das intenções entre os interlocutores no processo de negocia- ção de ideias, valores e princípios de toda natureza nas práticas sociais letradas, inclusive as praticadas na ciber- cultura e seus respectivos gêneros textu- ais emergentes, conforme observado por Marcuschi (2004, p. 17): Os gêneros como texto situ- ado histórica e socialmente, culturalmente sensível, recor- rentes “relativamente está- vel” do ponto de vista estilís- tico e composicional, segundo Assimile 3. Crítica de Bakhtin ao signo saussuriano. O signo linguístico de Saussure (2012, p. 106) une não uma coisa e uma palavra, mas um conceito a uma imagem acústica,é, pois, uma entidade psíqui- ca de duas fases: conceito/ imagem acústica, sig- nificado e significante. O signo bakhtiniano é, de natureza sócio-ideológi- co, concebido por meio das relações dialógicas nas múltiplas esferas sociais. Para saber mais 4. SEMÂNTICA E ARGUMENTAÇÃO: DIÁLOGO COM OSWALD DUCROT. A teoria dos Topoi é apresentada como um modelo alternativo a uma semântica ba- seada no conceito de condições de verdade. MOU- RA, Heronides Maurílio de Melo. SEMÂNTICA E AR- GUMENTAÇÃO: DIÁLOGO COM OSWALD DUCROT. DELTA [online]. 1998, vol.14, n.1, pp.169-183. ISSN 0102-4450. http://dx.doi.org/10.1590/S0102- 44501998000100008. Acesso em: 19 fev de 2018. 38 a visão bakhtiniana (Bakhtin, 1979), servindo como instrumento comunicativo com propósi- tos específicos (Swales, 1990) e como forma de a ação social (Miller 1984), é fácil, perceber que um novo meio tecnológico, na medida que interfere nessas condições, deve também interferir na natureza do gênero produzido. Segundo Perelman (2014), grande parte dos textos dos gêneros de publicidades e propaganda visa atrair a atenção do enunciatário em meio a sua indiferença, sendo essa uma condição indispen- sável à argumentação e, por conseguinte, à persuasão. Para Charles Perelman, que foi filósofo do Direito, um dos mais importantes teóricos da Retórica e da Nova Retórica e Argumentação no século XX, a persuasão constitui um ato diferente ao de con- vencer. O primeiro busca o assentimento, o desejo do interlocutor por meio de argumentos plausí- veis, verossímeis e de caráter ideológico, subjetivo e temporal, dirigido a um auditório (enunciatá- rio) particular. O segundo objetiva atingir a razão por meio do raciocínio lógico e provas objetivas de natureza demonstrativa e atemporal (conclusão decorrente de premissas = raciocínio lógico-mate- mático), comumente empregado com vista a um auditório universal. A distinção entre o ato de persuadir e convencer instaura diferentes categorias e tipos de argu- mentos, que visam estabelecer relações de certezas por meio de processos indutivos e os que con- duzem às inferências lógico-dedutivas por associação. Nesse cenário, o discurso torna-se objeto central de diversas vertentes da linguística moderna, dentre as quais está a Análise do Discurso, A Teoria de Texto (5) e a Semântica Argumentativa, que de acordo com Koch (2011, p. 19) “[...] preocupa-se com a construção de uma macrossintaxe do discurso, postula uma pragmática integrada à descrição linguística [...]”, uma espécie de nível interme- diário entre o sintático e o semântico, criando um complexo linguístico estruturado em três níveis indissoluvelmente interligados. Para saber mais 5. Distinção entre Linguística do texto e Teoria do Texto. Disponível em: <https://periodicos.ufpe.br/ revistas/INV/article/view/231381>. Acesso em: 13 de fev. 2018. 39 A autora ainda argumenta que um discurso, para ser bem estruturado, deve estar fundado sobre o implícito e o explícito, sendo que os elementos indispensáveis a sua compreensão devem atender às condições de progresso e coerência, possuindo a capacidade intrínseca de produzir comunicação, constituindo-se enquanto um texto. Em suma, evidencia-se a concepção de que o processo de semiose, ou interpretação de códigos de um mesmo sistema linguístico, pressupõe a dimensão sintática da linguagem que se refere às relações dos signos entre si; a dimensão semântica, que diz respeito às relações entre os signos ou complexos de signos e os objetos por eles designados; e a dimensão pragmática, que trata das rela- ções entre os signos e os seus utilizadores. A noção de texto, nessa abordagem, caracteriza-se pela textualidade (tessitura) que transcende à junção estruturada das frases, rumo às redes de relações intertextuais que revelam a conexão entre as ideias, as intenções e as unidades linguísticas enunciativamente encadeadas, constituindo a essência da argumentação por meio de unidades semânticas, entendidas aqui como entidades de significado, conteúdo e expressão e não meramente morfossintáticas. Resumindo, o processo de semiose, ou interpretação de um sistema linguístico, deve perceber a dimensão sintática da linguagem concernente às relações dos signos entre si; o nível semântico, como instância das relações entre os signos ou complexos de signos e os objetos por eles designados; e, por fim, o plano pragmático na qual as relações entre os signose os seus usuários se materializam. Cabe ainda destacar que o componente que produz o significado diz respeito à semântica, enquanto o significado final, à análise do significado literal, mais os fatores extralinguísticos, repou- sando sobre os domínios da pragmática (TRUJILLO, 2012). 1.2 Intertextualidade Materializado por meio das relações sociais, tanto o signo ideológico, quanto o linguístico, são moldados pelas marcas culturais de uma época e de um grupo social determinado, estabelecendo uma conexão direta entre as unidades imanentes das formações sociais, ideológicas e, por conse- quência, das discursivas. Uma vez que os signos são criados por convenção social e consubstanciam 40 em si os valores compartilhados, atribuídos por um determinado grupo, toda atividade linguística é um processo de atividade mental coletiva. Bakhtin (1997), em sua teoria da enunciação, propõe que a língua deve ser investigada em seus contextos concretos de uso, situando os sujeitos envolvidos historicamente (contextos imediatos e amplos) e configurando os usos da linguagem ou enunciados, sendo que a situação social mais ime- diata e o meio social mais amplo determinam a estrutura da enunciação. Isso porque os usos de lin- guagem, sejam textos escritos ou orais, implicam essencialmente uma interação verbal, que pressu- põe a existência básica de interlocutores com objetivos persuasivos distintos. A natureza dialógica dos signos configura e reconfigura as relações sociais à construção de pro- cessos subjetivos de interpretação, que interconectam textos e outros discursos produzidos e que produzem os sujeitos sociais, assim evidenciando a condição de indissolubilidade da unidade crono- trópica tempo/ espaço e do seu papel na tessitura dos arranjos intertextuais polifonicamente entre- laçados no magma do discurso. Embora a enunciação seja um fenômeno singular, a cada novo enunciado há uma referência implícita a discursos que foram internalizados no indivíduo, motivo pelo qual a enunciação é conce- bida a partir da relação dos sujeitos consigo e com os demais membros de uma mesma sociedade, ratificando a essência dialógica do texto manifesta entre os interlocutores e pelo diálogo com outros textos. Em síntese, o signo linguístico, ao assumir sua condição sócio-ideológico, portanto de natureza dialógica, afasta-se da concepção de entidade abstrata, neutra e monológica, para assumir um sta- tus de locus de múltiplas vozes, uma espécie de entidade intertextual e fundamentalmente polifônica. 41 FIGURA 1 - Intertextualidade no tempo/ espaço FONTE: AS CHARGES…, 2013, on-line. 1.2.1 Argumentação O objetivo de toda argumentação é promover ou ampliar o assentimento e/ ou a adesão à tese apre- sentada. É fato que, quando eficaz, o processo argumentativo conduz à persuasão ou mesmo à disposição para ação que, em linhas gerais, sempre objetiva e modificar o estado de coisas preexistentes. O uso da argumentação implica renunciar a força, em detrimento da conquista da atenção e do apreço à adesão do enunciatário à causa defendida de forma racional, promover a comunidade dos espíritos com vista à valorização da liberdade dos juízos e o aceito dos pressupostos dialogicamente negociados na situação argumentativa. 42 Entre as premissas da argumentação repousa o fato de que é necessário haver um acordo entre os interlocutores sobre o que pode ser aceito do ponto de vista do raciocínio, subsequentemente, a maneira pela qual serão desenvolvidos no processo de conexão (intertextualidade) e/ ou mesmo de desconexão por incipiência nos elos temáticos. À argumentação, contemplados os fatos, verdades e presunções ensejados no acordo entre os interlocutores, cabe incluir os valores, as hierarquias e os lugares do preferível, a fim de que se possa delimitar os argumentos cabíveis em um auditório universal e os reservados ao convencimento e à persuasão de grupos específicos. A concordância de um valor implica em aceitar a condições para que um objeto, ser ou ideia possa exercer influência sobre o processo argumentativo de forma determinada, deliberando a respeito da validade de um determinado ponto de vista e se é aplicável de forma universal ou particular. Em linhas gerais, a argumentação baseada em valores pressupõe uma distinção entre os abstratos e os concretos. O primeiro está à justiça e à veracidade, ao passo que o segundo ao caráter único e particular derivado de uma experiência humana singular por excelência (PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, 2014). No que diz respeito às hierarquias, podem ser interpretadas sob dois aspectos característicos: as concretas, expressas nas relações de capital entre os homens e os outros seres; e as abstratas, nas comparações de superioridade entre o justo e o útil. Entre os princípios mais usuais hierarquizantes está a quantificação de algo baseada na preferência concedida a um dos dois valores. Em oposição, estão as hierarquias heterogêneas, cujos valores abstratos não implicam independência ou excluem sua relativização ou subordinação. Por fim, à questão dos lugares, os Topoi, dos quais derivam os tópicos, ou tratados legitimados ao raciocínio dialético (6), podem ser designados como categorias sobre as quais se podem classificar os argumentos. Aristóteles distinguia os lugares comuns dos específicos, sendo que o primeiro pode- ria atender a quaisquer ciências sem que houvesse relação de dependência; enquanto o segundo como próprio de uma ciência particular (PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, 2014). 43 1.2.2 Argumentação e Intertextualidade Em linhas gerais, considerada como uma atividade estruturante do discurso, a argumentação consiste na apresentação e organização dos argumentos e raciocínios por meio dos quais se objetiva alcançar determinados resultados. Também entendida como um modo de interação humana, na qual aquele que argumenta, visa interferir sobre as representações ou convicções do outro, buscando modificá-las ou aumentar a adesão. A função argumentativa da linguagem tem sido explorada pela Semântica Argumentativa, que eviden- cia as marcas nas estruturas dos enunciados como elementos de valor argumentativo, destacando que uma frase não se refere apenas às informações que ela veicula, mas pode comportar signos e expressões que orientam a argumentação como forma de ação que se inscreve sobre o outro e sobre o mundo. Nesse sentido, a atividade estruturante do discurso encontra, na intertextualidade, uma forma de encadeamento argumentativo fundamentado no diálogo entre textos, recuperando vozes contin- gentes ou divergentes, que permitem aos interlocutores expressar-se, apresentando diferentes pon- tos de vista acerca do mundo e posicionando-se diante da realidade. Portanto, a intertextualidade enquanto atividade argumentativa, é ideologicamente mar- cada, presumindo sempre uma intenção e ressignificando a palavra do outro de novas signifi- cações. Para Bakhtin (1981), o texto constitui-se sobre múltiplas relações dialógicas com outros textos, congregando modalidades textuais, discursivas e polifônicas nas quais coexistem outras vozes e consciências. Em suma, a intertextualidade explicita a dinâmica relação dialógica de cada texto em relação aos outros, no constante processo diálogo entre as obras e cada voz e/ ou novo conjunto de vozes que ressignificarão as anteriores, construindo-lhes novas significações e rearranjos semânticos argu- mentativos no gradiente do tempo. Enquanto recurso de argumentação, a intertextualidade sempre é evocada quando a utilização da palavra do outro servir de argumento a uma determinada tese em questão. Seja qual forma a modalidade de referencialidade - citação, alusão, paráfrase etc. - essas conjecturas sempre revelam 44 ou revelarão aspectos argumentativos do discurso e, sobretudo, auxiliam os interlocutores durante o processo de leitura e produção de textos. Questão para reflexão Após todo estudo compartilhando nestematerial, você pode conhecer um pouco mais sobre as noções de texto, enunciado e discurso no processo de argumentação. Baseando-se nesses estudos, você irá analisar o objeto a seguir à luz do escopo oferecido, articulando os pressupostos semânticos argumentativos subentendidos. Elabore um pequeno texto que traduza a ideia vinculada à Figura 2 (Terras Tupiniquins). FIGURA 2 - Terras Tupiniquins FONTE: O autor, baseado em imagens disponíveis em: <https://goo.gl/yxESgL>. Acesso em: 14 de fev. 2018. 45 Considerações Finais • Os termos texto, enunciado e discurso podem ser empregados como sinônimos quando não há compromisso teórico específico que impeça que uso. Do contrário, faz-se necessário observar- mos distintos respectivos conceitos que os caracterizam como entidades heterogêneas. • A argumentação visa promover assentimento à adesão dos espíritos e, portanto, pressupõe a existência de uma relação de natureza intelectual, pois o plano das interações sociais e proces- sos deliberativos fundamentam-se nessa máxima. • A intertextualidade é construída por meio das relações sociais nas quais tanto o signo ideoló- gico, quanto o linguístico, são moldados pelas marcas culturais de uma época e de um grupo social determinado, estabelecendo uma conexão direta entre as unidades imanentes das for- mações sociais, ideológicas e, por consequência das discursivas. • A intertextualidade é recurso à argumentação sempre que evocada a palavra do outro a título de argumento em uma determinada situação enunciativa. Glossário Adesão dos espíritos: Conceito aristotélico relativo ao processo argumentativo no estudo da Retórica e Argumentação, proposto por Perelman e Olbrechts-Tyteca (2014). Dialética: O termo grego designa igualmente a divisão lógica – sentido também platônico – que chega a descobrir, gradualmente, os conceitos fundamentais ou ideias; evoca-se naturalmente a propósito de Platão uma dialética ascendente (parte do concreto para chegar a uma ideia do bem) e uma dialética descendente (retornando da contemplação do bem à contemplação do cotidiano) (DUROZOI; ROUSSEL, 1990, on-line). Ressignificar: Mudar a estrutura de referência para lhe dar um novo significado, o mesmo que remodelar e/ ou ressemiotizar. 46 Verificação de leitura QUESTÃO 1-Analise as afirmações a seguir, considerando a concepção de texto à luz da teoria da enunciação bakhtiniana e responda: I. O texto é objeto de estudo da linguística textual e da gramática de texto. II. O texto é um conjunto polifônico estruturado de forma argumentativa. III. O texto é um conjunto de sintagmas paradigmaticamente estruturadas. IV. O texto é um conjunto de frases sintaticamente organizadas. É correto afirmar que: a) Apenas I, II, IV estão corretas. b) Apenas I, III estão corretas. c) Apenas III e IV estão corretas. d) Apenas II está correta. e) Apenas III está correta. QUESTÃO 2-Escolha a alternativa que melhor completa a proposição apresentada a se- guir, com base na Semântica Estrutural: “O termo enunciado também é empregado para representar uma estrutura verbal que compõe uma unidade específica de comunicação plena”: a) Quando em uma orientação discursiva, na qual a comunicação a ela está atrelada. b) Quando em uma determinada esfera discursiva, na qual a orientação comunicativa a ela está atrelada. c) Quando em uma determinada esfera discursiva, na qual a enunciação a ela está atrelada. d) Quando em uma determinada enunciação, na qual a esfera comunicativa a ela está atrelada. e) Quando em uma determinada esfera discursiva, na qual a orientação e a argumentação a ela estão atreladas. 47 QUESTÃO 3-Escolha a alternativa que apresenta a informação correta com relação ao signo bakhtiniano. a) Constitui-se como uma unidade de cunho estrutural. b) Constitui-se como uma entidade embutida de significado e não de significante. c) Constitui-se por meio das relações dialógicas. d) Constitui-se sobre a concepção monológica da língua. e) Constitui-se por meio das relações dicotômicas. Referências Bibliográficas AS CHARGES e os contos de fadas. In: A magia das histórias infantis. 21 jan. 2013. Disponível em: <http://amagiadashistoriasinfantiss.blogspot.com.br/2013/01/as-charges-e-os-contos-de- fadas.html>. Acesso em: 13 fev. 2018. BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. 8. ed. São Paulo: Hucitec, 1997. ______. Problemas da poética de Dostoievski. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1981. DUROZOI, F.; ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. 5 ed. São Paulo: Papirus, 1990. Disponível em: <https://goo.gl/5kzZuX>. Acesso em: 13 de fev. 2018. FONTANILLE, J. Semiótica do Discurso. São Paulo: Contexto, 2007. KOCH, I. G. V. Argumentação e Linguagem. 13. ed. São Paulo: Cortez, 2011. MAINGUENEAU, D. Análise de Textos de Comunicação. 4 ed. São Paulo: Cortez, 2005. MARCUSCHI, L. A. Gêneros textuais emergentes no contexto da tecnologia digital. In: MARCUSCHI, L. A. & XAVIER, A. C. (Orgs.) Hipertexto e gêneros digitais. Rio de Janeiro: Editora Lucerna, 2004. PERELMAN, C.; OLBRECHTS-TYTECA, L. Tratado da argumentação. 3 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2014. SAUSSURE, F. Curso de linguística geral. 28 ed. São Paulo: Cultrix, 2012. TRUJILLO, A. Semântica, Pragmática e Tradução. Revista Intertexto, v. 5, n. 2, p. 1-20, 2012. 48 Gabarito QUESTÃO 1-Alternativa D À teoria da enunciação bakhtiniana, o texto é conjunto polifônico, no sentido de que congrega várias vozes (outros textos e discursos) na tessitura argumentativa. QUESTÃO 2-Alternativa B O termo enunciado também é empregado para representar uma estrutura verbal, que compõe uma unidade específica de comunicação plena, em uma determinada esfera discursiva, na qual a orienta- ção comunicativa a ela está atrelada, tornando seu entendimento semelhante ao conceito de texto. QUESTÃO 3-Alternativa C Para Bakhtin (1997), o signo não constitui uma entidade meramente linguística como para Saussure (2012), o signo é construído de forma sócio-ideológica por meio das relações dialógicas. 4 Semântica argumentativa 50 Objetivos Específicos • Explorar os fundamentos da semântica argumentativa; • Apresentar os tipos marcadores linguísticos a serviço da interpretação; • Exemplificar o papel dos operadores linguísticos no processo interpretativo. Introdução A Semântica Argumentativa ou Teoria da Argumentação na Língua estuda o sentido construído a partir do material linguístico presente em uma determinada frase e/ ou oração, motivo pelo qual também pode ser denominada como Semântica Linguística e/ ou Linguística Textual. Essa aborda- gem objetiva analisar os processos de construção de sentido no âmbito da língua, sem que sejam contemplados os fatores extralinguísticos. As pesquisas sob essa perspectiva, também denominada como Teoria da Argumentação na Língua (ANL), foram iniciadas na década de 1970. Marcada pela publicação do livro L’argumentation dans la langue, de Jean Claude Anscombre e Oswald Ducrot, em 1983, é composta por três fases no seu desenvolvimento: a primeira, a forma standard (1983); a segunda, a Teoria dos Topoi e a Teoria Polifônica da Enunciação (1990) e a fase atual, a Teoria dos Blocos Semânticos (TBS), originada a partir da tese de Marion Carel, de 1992. Em linhas gerais, indi- ferente do estágio de amadurecimento desta vertente semântica, o seu preceito fundamental reside no fato de que o sentido do enunciado não está nele, tampouco em outro, mas na relação construída entre estes. Argumentar, portanto, é conduzir o interlocutor à determinada continuação por meio de tais relações, motivo pela qual a argumentação é essencial à linguagem e está inscrita na língua em razão de sua própria natureza e função comunicativa (BARBISAN, 2013). 51 1. Do estruturalismo à argumentação semântica Desenvolvida na França, na École des Hautes Études en Sciences de Paris por Oswald Ducrot, a semântica argumentativa iniciou-se com Jean-Claude Anscombre em conjunto com Ducrot,atual continuador com a colaboração de Marion Carel, atualmente ainda no mesmo centro acadêmico. Conhecedor da filosofia clássica e dos estudos de Saussure, Oswald Ducrot encontra na expla- nação sobre valor linguístico apresentada no memorável título “Curso de linguística geral de Ferdinand de Saussure”, a fundamentação à pesquisa da disciplina atualmente conhecida como Semântica Argumentativa. A relação estabelecida entre a noção de valor saussuriana e a clássica repousa sobre o estudo platônico em que são tratadas as categorias fundamentais da realidade (1) cujas premissas são: o Movimento, o Repouso, o Mesmo e o Ser, tendo sida acrescida uma quinta considerada o alicerce das demais - o Outro, recuperado por Saussure no estudo da língua como funda- mento a concepção de alteridade na construção do valor linguístico. A composição do signo linguístico – significante/signisficados é parte de um sistema nas quais as relações paradig- máticas/sintagmáticas de natureza asso- ciativas determinam o valor linguístico do signo, na relação deste com outros. Às bases da Semântica Argumentativa, a noção de língua extraída da dicotomia fala/língua, constitui-se pela relação entre entidades lexicais, enunciados, discursos e seus res- pectivos interlocutores. À luz da semântica, a Teoria da Argumentação na Língua ao conceber a significação como resul- tado do processo das relações sígnicas que por meio da palavra autorizam ou não a continuidade Link Linguagem e conhecimento no Cráti- lo de Platão. Disponível em <http://www. s c i e l o . b r / s c i e l o . p h p ? s c r i p t = s c i _ a r t t e x - t&pid=S0100-512X2007000200006>. Acesso em: 19 de fev. 2018. 52 e/ou necessidade de determinados enunciados, permitindo a emersão dos sentidos imanentes das palavras através da linguagem a ratificar a função intersubjetiva a ela intrínseca, operacionalizada nos mais diversos contextos-situacionais e nas mais diferentes esferas do conhecimento, cons- truindo o entendimento de que: O sentido do enunciado não está nele, nem no outro, mas na relação que se estabelece entre ele e o outro: a realidade linguística é sempre opositiva. Em vista disso, argumentar é levar o Outro, ao locutário, a determinada continuação. Assim, a argumentação torna-se fundamental na linguagem. Está inscrita na língua, é inerente a ela, está na própria natu- reza da língua. Essa é a razão pela qual a Semântica Argumentativa é também denominada Teoria da Argumentação na Língua (BARBISAN, 2013, p. 21). Nessa perspectiva, ao delimitar o objeto de estudo da Semântica Argumentativa e/ou Teoria da Argumentação na Língua, ou mesmo Semântica Linguística, a explicação do processo significativo esta- belece-se nos domínios da língua, afastando-se das intervenções do material extralinguísticos e deter- minando como propósito a investigação do sentido linguístico produzido pelo discurso por meio da língua. A teoria ducrotiana evidencia dois tipos de relações essenciais ao discurso, o normativo e o trans- gressivo, sendo o primeiro articulado pelos conectores “portanto”, “por isso”, “consequentemente” etc., e o segundo nas composições em que se emprega os síndetos (2) “no entanto”, “apesar de” e “mesmo assim”, sob o argumento de que os dois tipos de argumentação resistem à descrição extralinguística, com perdas a sua compreensão para além da relação entre os enunciados (BARBISAN, 2013). Para Ducrot (1979), a semântica linguística enquanto abordagem teórica compreende que todo enunciado produzido em meio a um universo discursivo é dotado de uma natureza argumentativa intrínseca, que pode ser explicitada a partir da operacionalização da língua no processo de encade- amento enunciativo, momento em que produzimos a argumentação. Em síntese, a essência desta teoria está justamente no fato de que o sentido deve ser explicado a partir das relações decorrentes dos arranjos das palavras no emprego do sistema linguístico com vista à construção de frases e enunciados que permitam a expressão discursiva. Portanto, legi- tima-se enquanto semântica porque objetiva o estudo do sentido e explica sua construção por meio 53 das relações entre as entidades da língua, não se restringindo à palavra e/ou à frase, mas a operacionalizar um procedimento investigativo da linguagem à luz dos funda- mentos epistemológicos sobre os quais se sustentam. 1.1 Semântica Argumentativa aplicada A partir dos conceitos de frase e enun- ciado, os fenômenos linguísticos podem ser explicados com foco para o sentido produ- zido. Concebido como uma realização da frase (entidade teórica), o enunciado cons- titui uma entidade empírica. A língua, portanto, é um conjunto de palavras que constituem conjun- tos de frases, ao passo que o discurso é uma conjectura de enunciados cujos sentidos emanam da relação entre ambos, frase/enunciando e/ou língua/discurso. Isto posto, conclui-se que frase e enunciado são inseparáveis, visto que o segundo é a realização do primeiro e se estrutura sobre o Este. Nesse entendimento, são também inseparáveis a concepção de significação como resultado da frase e o sentido do enunciado. Assim, ratifica-se o entendimento de que o sentido é produzido por meio do componente linguís- tico, afastando-se dos fatores externos à linguagem e imprimindo a significação o status de entidade lexical cuja a orientação ao discurso possibilita ou não determinada continuação enunciativa. O conceito de alteridade platônico, incorporado ao de valor por Saussure, evidencia as relações, tanto paradigmáticas quanto sintagmáticas, o que nos leva a concluir que as continuações permiti- das podem ser múltiplas, desde que estejam linguisticamente previstas pelo sistema nas diferentes combinações à disposição dos interlocutores e, discursivamente encadeadas à argumentação. As regras que expressam as possibilidades ou impossibilidades (3) de interpretação dos enunciados Para saber mais As principais correntes dos estudos enunciativos da linguagem. Fundamentos epistemológicos em teorias da enunciação. As relações língua/ sujeito falante/comunicação; língua/enunciação/(inter) subjetividade; sujeito/linguagem/dialogismo. Os desdobramentos teóricos em enunciação: a hetero- geneidade discursiva. Leitura e discussão de aná- lises linguísticas que tomam por base as teorias da enunciação. A interface sintaxe/semântica/enun- ciação: dêixis e atividade linguística; a paráfrase como processo de significação; relações gramat- icais e enunciação; o discurso citado. Enunciação e argumentação. Disponível em: <https://www. ufrgs.br/ppgletras/2014-1/LIN00010-Fundamen- tosemTeoriasdaEnunciacao.pdf>. Acesso em: 06 de mar. 2018. 54 em um discurso específico revelam-se por meio da orientação determinada pela significação, resul- tando em um conjunto de normas e padrões estruturalmente convencionalizados e aceitos pela lógica da língua. Esse processo de orientação também contempla os efeitos subjetivos e intersubjetivos do enun- ciado, resultado da união desses aspectos, da relação entre os interlocuto- res, tornando a Semântica Argumentativa uma teoria da enunciação, visto que sua consolidação interpretativa se rea- liza nos níveis da frasais e enunciativos, por conseguinte na camada discursiva fundada sobre linguagem. Ao lançar mão da denominação Semântica Linguística, institui-se ao proce- dimento metodológico a distinção de julga- mentos sobre o enunciado, um conjunto de procedimentos à análise do discurso, consi- derando que há valores que estão expressos na frase, por conseguinte no enunciado, pode-se con- cluir que os subentendidos gerados a partir dos pressupostos instaurados nas escolhas lexicais e no arranjo sobre o qual este se constitui em discurso, contribuem à construção da argumentação rumo à persuasão. Para Ducrot (1979), o rumo argumentativo está grifado linguisticamente nos enunciados, reve- lando pontos de vista que referenciamargumentos que levam à determinada conclusão, motivo pelo qual os operadores argumentativos ocupam papel de destaque no direcionamento da argumentação em meio ao composto de enunciados. À guisa de exemplo, destaca-se o conectivo “mas”, apontado pelo autor como sendo um opera- dor argumentativo (4) e/ou contra argumentativo (4) por natureza, pois trabalha invertendo a dire- ção argumentativa iniciada por um enunciado que orienta o encaminhamento proposto no segundo enunciado, instruindo a conclusão no sentido apreendido ou que se visa apreender. Exemplificando 3. Moisés trabalha, por isso _____________ (é rico / tem uma bela casa/ possui um carro novo). Observe que o verbo “trabalhar” analisado em con- sonância com o conectivo normativo “por isso” ori- enta continuações positivas, inviabilizando com- plementos negativos, pois deixa subentendido que trabalhar implica conquistas, e não o contrário. 55 Com esse olhar, todos os temas referen- tes à linguagem produzida por um locutor para seu alocutário (5) tornam-se objeto de estudo para a explicação do sentido. Este será sempre compreendido tanto do ponto de vista argumentativo, que decorre do lin- guístico, quanto do ponto de vista da rela- ção desses sentidos com a enunciação, defi- nido como o surgimento do enunciado criado por um ser de fala, o locutor, para seu alocutário. 1.1.1 As marcas linguísticas do processo semântico-argumentativo A construção do processo semântico-argumentativo constitui-se da rela- ção entre texto e o evento que operacionaliza a enunciação. A trama argu- mentativa se perfaz em meio a um conjunto de marcas linguísticas que fornecem aos interlocutores condições de identificar as proposições, as intenções explícitas e implí- citas presentes no texto, modalizadores ati- tudinais (advérbios: modo/tempo), os ope- radores argumentativos que fornecem a orientação discursiva pelo encadeamento dos enunciados, e as imagens de reciprocidade (6) entre os interlocutores e suas representações. Por meio dessas marcas, os elementos mencionados associam-se à composição discurso, espelhando-o enquanto desdobramento da sua própria enunciação (KOCH, 2011). 1.2 As pressuposições Para saber mais 4. Operadores argumentativos: São elementos da língua que indicam a força argumentativa dos enunciados, ou seja, a direção do sentido que quer- emos tomar ao dizer/escrever algo (KOCH, 2004). Para saber mais 6. KOCH, I. G. V. Argumentação e Linguagem. 13. ed. São Paulo: Cortez, 2011. 56 Segundo Koch (2011), o trabalho de Frege (1848-1925) foi um dos primeiros a distinguir posto do pressuposto ao estudar as referências das proposições, estabelece como máxima que toda proposi- ção manterá o valor de verdade se esta mantiver a referência. Para tal, emprega critérios de nega- ção e interrogação modificando os enunciados sem que haja alteração na estrutura referencial con- forme ilustra o exemplo a seguir: (1) Aquele que manteve sua fé padeceu sem dor. (1a) Aquele que manteve sua fé não padeceu sem dor. (negativa) (1b) Aquele que manteve sua fé padeceu sem dor? (interrogativa) A partir da exemplificação é possível concluir que nos três enunciados corroboram o mesmo pres- suposto: há alguém que manteve a fé, ratificando o seu valor de verdade, todavia, se alguém pade- ceu com dor, ou sem ela, essa é uma questão cuja análise do enunciado não é capaz de revelar. Ao aplicamos a concepção de que o encadeamento dos enunciados se dá pelo emprego lógico, entendido como uma condição a ser atendida para que se preencha a função a que se propõe, ou mesmo ignorando-a, as pressuposições contidas nos enunciados ainda permanecem como condição requerida para que este possa atingir sua função argumentativa. Segundo Koch (2011, p. 49 apud COLLINGWOOD, 1940), a pressuposição dos enunciados repre- senta uma particularidade de um fenômeno muito mais amplo, cuja abrangência se dá em toda atividade humana, uma vez que é orientado para determinada finalidade. Em sua teoria, o pesquisador ainda destaca a natureza assertiva do enun- ciado, pois considera que toda afirmação é uma resposta a uma pergunta, mesmo que a interrogação não se efetive de fato, é preciso que haja condição para que seja realizada. Nesse sentido, se retomarmos o exem- plo anterior, pode-se constatar que o enun- ciado (1) é uma assertiva com relação ao Assimile Analisado o pressuposto à luz do emprego lógico dos enunciados, chega-se a resultado semelhante, pois ao considerar que a “fé” é a força, a salvação, o porto seguro etc., pressupõe-se que se o indivíduo teve fé, sua necessidade (padecer sem dor) aten- dida. Embora não seja uma condição de verdade absoluta, apresenta-se como uma possibilidade ar- gumentativa. 57 questionamento presente em (1b), e que se valendo da condição de possibilidade da pergunta, é possível pressupor que: (1b) Aquele que manteve sua fé pade- ceu sem dor? Resposta: Sim. (1) Aquele que manteve sua fé padeceu sem dor. (assertiva) Ainda com relação ao estudo do pressu- posto, Koch (2011) amplia sua concepção ao afirmar que não só os enunciados assertivos possuem pressupostos, associando o fenô- meno a outros atos de linguagem, segundo o qual só podem ser realizados se atendidas as condições de felicidade que são de natu- reza objetiva (7a) e subjetiva (7b). 1.3 Os operadores argumentativos De acordo com Koch (2011), a tese defen- dida por Ducrot, Anscombre e Vogt propõe que a argumentatividade está inscrita na língua como fenômeno inerente ao seu uso. Nesse entendimento, a significação assume o status de conjunto de instruções relativas às estraté- gias empregadas na codificação e decodificação dos enunciados, pelos quais se dão as atualizações frasais, possibilitando a escolha das leituras possíveis de acordo com o percurso estabelecido. Tais instruções codificadas são de natureza gramatical o que evidencia o valor argumentativo da gramática enquanto conjunto de possibilidades paradigmaticamente organizadas à disposição do Link Disponível em: <https://www.youtube.com/ watch?v=5BEBz_ebEwk>. Acesso em: 20 de fev. 2018. Para saber mais 7a. Exigências objetivas: Indispensáveis para que o ato possa realizar-se, visto que ele só pode ocorrer em tipos particulares de situação fora das quais se torna nulo. 7b. Exigências subjetivas: Condições de sinceri- dade, constituídas por um conjunto de sentimen- tos, desejos e intenções, necessárias para que se possa ser considerado sério, importante. Cabe ainda destacar que as condições objetivas constituem um paralelismo (8) nas pressuposições, visto que, se forem falsas, o ato não se concretizará. Evidencia-se também o fato de que o estudo da pressuposição se constitui como uma das bases da obra de Ducrot, crítico ácido de Austin no que versa sobre esta temática. 58 locutor e alocutário com vistas à construção dos argumentos e à orientação da sequência discursiva. Toda língua possui em sua gramática diversas palavras que se ocupam da função conectiva. As relações estabelecidas por estes morfemas caracterizam-nos como operadores argumentativos ou discursivos. É importante grifar que, em linhas gerais, tal papel é exercido pelos conectivos/conjun- ções, entre outras possibilidades composicionais que não se enquadram em nenhuma das 10 clas- ses gramaticais, podendo inclusive receber outras denominações tais como: palavras denotativas, denotadores de inclusão, exclusão, ratificação, situação etc. Resumindo, a Semântica Argumentativa valoriza a presença dos operadores argumentativos ou discursivos, em razão do valor que estes imprimem ao enunciado ao longo do processo de argumen- tação por meio das marcas linguísticas inerentes à enunciação. 1.3.1 Síntese dos principais tipos de operadores O estudo sobre os operadores argumentativos possibilita uma leitura compreensiva das relações entre os períodos, favorecendo o reconhecimento das estratégiasdiscursivas realizadas pelo enun- ciador. Nas gramáticas tradicionais, o estudo dos conectivos restringe-se à classificação das conjun- ções coordenativas e subordinativas, abstendo-se de uma reflexão sobre a língua enquanto recurso à atividade discursiva. As relações constituídas por meio das conjunções transcendem a finalidade meramente sintática de conectar orações e períodos, uma vez que permitem manter e/ou opor a orientação argumenta- tiva elaborada pelo enunciador, permitindo a condução do argumento à conclusão que se objetiva negociar com o interlocutor. Portanto, além de conectarem partes de orações ou unirem orações, os conectores atribuem sentido à relação que estruturam, construindo percepções sobre os enunciados e suas respectivas intencionalidades argumentativas como de adição ou de exclusão, possibilitando o entendimento do sentido pleno dessas relações. No quadro a seguir, a exemplo, são apresentados outros conectivos e expressões conectivas e suas respectivas funções desempenhadas enquanto operadores argumentativos: 59 QUADRO 1 - Operadores argumentativos FONTE: Baseado em Koch (2004). Resumindo, os operadores argumentativos são entidades linguísticas responsáveis por estabele- cer a coesão textual, promovendo coerentemente o encadeamento dos enunciados, estruturando-os em blocos textuais e ordenando a sua orientação discursiva (KOCH, 2011). Questão para reflexão Após todo estudo compartilhando neste material, você pôde conhecer um pouco mais sobre a 60 semântica argumentativa e seus respectivos pressupostos teóricos e aplicabilidade. Baseando-se nestes estudos, você irá analisar, à luz do escopo oferecido, destacando os operadores argumentati- vos e a função desempenhada por este o poema “O amor, Meu amor” de Mia Couto, disponível em: <http://www.contioutra.com/dez-inesqueciveis-poemas-de-mia-couto/>. Acesso em: 22. Bons estudos! Considerações Finais • A essência da teoria que fundamenta a semântica argumentativa repousa no fato de que o sentido deve ser explicado a partir das relações decorrentes dos arranjos das palavras no emprego do sistema linguístico com vista à construção de frases e enunciados que permitam a expressão discursiva. • O rumo argumentativo está grifado linguisticamente nos enunciados, revelado pontos de vista que referenciam argumentos que levam à determinada conclusão, motivo pelo qual os ope- radores argumentativos ocupam papel de destaque no direcionamento da argumentação em meio ao composto de enunciados. • As marcas linguísticas podem ser denominadas como proposições, modalizadores atitudinais, os operadores argumentativos e as imagens de reciprocidade. • As relações estabelecidas por meio das conjunções ultrapassam a finalidade organizacional sintática de conectar orações e períodos, pois autorizam a orientação argumentativa elabo- rada pelo enunciador, permitindo a condução do argumento à conclusão. Glossário Síndeto: Conectivo – origem no grego syndeton. Alocutário: Conceito ducrotiano em analogia ao enunciatário. Paralelismo: Palavras e expressões que apresentam entre si relações de semelhança que podem se dar morfologicamente (quando as palavras são da mesma classe gramatical), sintaticamente (quando as construções das orações ou das frases são semelhantes) ou semanticamente (quando há correspondência no sentido). 61 Verificação de leitura QUESTÃO 1-Com base nos estudos relativos à semântica argumentativa, avalie as asser- tivas a seguir: I – Seu único objeto de estudo é a palavra em sua relação dicotômica conceito/materiali- dade; II – É por meio da frase que se encontra o material linguístico na qual manifesta a enun- ciação; III – A argumentação está inscrita na própria língua e é inerente a ela; IV – O sentido dos enunciados está marcado nos aspectos extralinguísticos. Após tal avaliação, é correto afirmar que: a) Apenas I está errada. b) Apenas IV está errada. c) Apenas I e IV estão erradas. d) Apenas I e II estão erradas. e) Apenas II e III estão erradas. QUESTÃO 2-Escolha entre as alternativas a seguir a que melhor completa o argumento apresentado no excerto: “A Semântica Argumentativa ou Teoria da Argumentação na Língua estuda o sentido construído a partir do material linguístico presente em uma determinada frase e/ou ora- ção, motivo pelo qual também pode ser denominada como Semântica Linguística e/ou Linguística Textual. Nesse sentido, sua abordagem visa analisar...” a) os processos de construção de sentido no âmbito da língua, sem que sejam contemplados os fatores extralinguísticos. b) os processos de construção de sentido no âmbito da língua, incluindo os fatores extralin- guísticos. c) os processos de construção de sentido no âmbito da língua em nível pragmático. 62 d) os processos de construção de sentido no âmbito frasal, sem que sejam contemplados os fatores extralinguísticos. e) os processos de construção de sentido no âmbito da frasal, contemplando os fatores ex- tralinguísticos. QUESTÃO 3-Com base nos estudos desenvolvidos sobre semântica argumentativa, aná- lise o excerto a seguir e complete suas respectivas lacunas com a sequência de palavras corretas à construção de sentido sobre o assunto em questão. “O_________do ____________não está nele, nem no outro, mas na_______ que se es- tabelece entre ele e o outro: a _____________linguística é sempre opositiva. Em vista disso, argumentar é levar o Outro, ao___________, a determinada _____________. As- sim, a argumentação torna-se fundamental na linguagem. Está inscrita na língua, é ______________a ela, está na própria ______________da língua. Essa é a razão pela qual a Semântica Argumentativa é também denominada Teoria da Argumentação na Língua” (BARBISAN, 2013, p. 21). A alternativa que completa corretamente as lacunas do texto é: a) Locutário, natureza, inerente, sentido, enunciado, continuação, realidade, relação. b) Enunciado, sentido, inerente, natureza, relação, continuação; locutário, realidade. c) Sentido, locutário, enunciado, inerente, natureza, realidade, continuação, relação. d) Locutário, enunciado, continuação, sentido, inerente, natureza, realidade, relação. e) Sentido, enunciado, relação, realidade, locutário, continuação, inerente, natureza. Referências Bibliográficas BARBISAN, Leci. Semântica Argumentativa. In: FERRAREZI JUNIOR, Celso; BASSO, Carlos (Org.). Semântica, semânticas: uma introdução. São Paulo: Contexto, 2013. p. 19-30. DUCROT, O. Princípios de semântica linguística (dizer e não dizer). São Paulo: Cultrix, 1979. KOCH, I. G. V. A inter-ação pela linguagem. São Paulo: Contexto, 2004. ______. Argumentação e Linguagem. 13. ed. São Paulo: Cortez, 2011. 63 Gabarito QUESTÃO 1-Alternativa C – A semântica argumentativa não se ocupa exclusivamente da dicotomia significante/significado (I); o sentido é construído por meio das relações enun- ciativas sem qualquer interferência extralinguística. QUESTÃO 2-Alternativa A – À semântica argumentativa só interessa a significação ima- nente da frase com vista ao sentido estabelecido por meio das relações entre os enuncia- dos. Neste processo interpretativo os fatores extralinguísticos, a exemplo questões prag- máticas, são desconsiderados. QUESTÃO 3-Alternativa E - “O sentido do enunciado não está nele, nem no outro, mas na relação que se estabelece entre ele e o outro: a realidade linguística é sempre opositi- va. Em vista disso, argumentar é levar o Outro, ao locutário, a determinada continuação. Assim, a argumentação torna-se fundamental na linguagem. Está inscrita na língua, é inerente a ela, está na própria natureza da língua. Essa é a razão pela qual a Semântica Argumentativa é também denominada Teoria da Argumentação na Língua” (BARBISAN, 2013, p. 21). 5 Teoria da polifonia 65 Objetivos Específicos • Apresentar a noção de polifonia proposta na obra de Ducrot; • Explicitar o ponto de partida à pesquisa sobre polifonia na perspectiva de Ducrot; • Criar um paralelo entreas primeiras teorizações sobre polifonia e acepção atual. Introdução A noção de polifonia em Ducrot é apresentada pela primeira vez no capítulo 1 de Les mots du dis- cours (1980), sendo recuperada com alterações em Le dire et le dit (1984) e reformulada nas confe- rências de Cali (1988). Após esse período, o autor retoma o tema em um artigo publicado pela revista escandinava Polyphonie – linguistique et littéraire (2001), cujo título Quelques raisons de distinguer ”locuteurs” et “énonciateurs”, foi um resposta à proposta de exclusão do conceito de enunciador, apresentada pelo grupo escandinavo (ScaPoLine) ao estudo da polifonia. Originalmente, a palavra polifonia refere a uma classe de disposição musical, organizada pela sobreposição de instrumentos e/ ou vozes, pelos quais diferentes mensagens e/ou ideias são concorrentes em um mesmo enunciado, via de regra em ritmos e/ou contextos distintos. Ducrot ao lançar mão dessa palavra, emprega-a em uma concepção mais livre que a assumida na literatura por Bakhtin à luz da linguística. Nesse sentido, observa-se que enquanto Bakhtin concebe a polifonia dentro do universo enun- ciativo de um texto, portanto no âmbito discursivo, Ducrot desenvolve o conceito no nível linguís- tico, assinalando à possibilidade de desdobramentos enunciativos em meio ao próprio enunciado, tal como atuação de diferentes personagens em uma encenação. Em suma, cabe ainda destacar que a teoria polifônica, ao longo de seu desenvolvimento, permanece em constante modificação, reformu- lando argumentos à sustentação de suas ordenações. 66 1. Fundamentos da polifonia ducrotiana Ducrot em sua obra Logique, strucuture, énonciation (1989), no capítulo VII, explica como encon- trou alento para sua teoria linguística da polifonia, a partir da leitura de Linguistique générale et lin- guistique française de Charles Bally (1965). Inicialmente, partindo da afirmação de Bally, a língua é um instrumento que viabiliza a exteriori- zação do pensamento, portanto sua comunicação ocorre por meio da palavra, argumento este que também já se fazia presente na Gramática de Port-Royal, para quem a língua atende à necessidade de significar nossos pensamentos. Ao confrontar as duas concepções, é possível constatar que para o primeiro a língua é entendida como instrumento de comunicação do pensamento, ao passo que o segundo a compreende como entidade capaz de significar. Bally ainda defendia que o pensamento pode não ser, necessariamente, o do sujeito falante, até porque há uma distinção entre pensamento e ideia, noções essas de grandes implicações à descrição semântica. Analisadas estas constatações, recai sobre Ducrot o entendimento de que todo pensamento con- siste da reação a uma representação, que pode ser de natureza intelectual, afetiva ou volitiva (1), podendo ainda ser decomposto em elementos ativo ou subjetivo (reação) e em passivo ou objetivo (representação). Trata-se de uma semelhante acepção descartiana, segundo a qual o pensamento deve ser analisado como um conjunto de decisões e vontades (elemento subjetivo), a respeito de ideias objetivas, concebidas pela compreensão. Nessa perspectiva, a condição atribuída à significação se assemelha à apresentada pela moderna filosofia da linguagem quando se refere à natureza ilocutória das proposições, estabelecendo um elo com a representação tradicional do pensamento, sobre os quais repousam a dissociação entre a entidade objetiva (representação para Bally, proposição para Searle), e subjetiva (reação de Bally, força ilocutória da pragmática). Cabe destacar que as concepções de Descartes, Port-Royal, Bally e, por conseguinte, a da teoria dos atos de fala, constituem-se sobre raízes distintas. As de natureza cartesiana se fundamentam na análise 67 do pensamento, ao passo que Searle no ato comunicativo. Até porque, a força enunciativa de uma frase repousa na sua capacidade ilocutória oriunda do ato enunciativo, enquanto que o pensamento sig- nificado em uma frase é uma reação a uma representação que não comanda a enunciação. Gramática de Port-Royal, ou Gramática Geral e Racional. Nessa gramática, expli- cita-se a noção de signo como meio, através do qual os homens expressam seus pensa- mentos. Na relação pensamento/linguagem, os gramáticos de Port-Royal elaboraram teorias, pelas quais essa relação era dada por princípios gerais, que se estenderiam a todas a línguas. Assim, afirmaram que, através das operações do espírito, o homem concebia, julgava e raciocinava. Tais operações serviam ao aspecto interno da linguagem e, a partir delas, os homens utilizavam-se dos sons e das vozes, ou seja, do aspecto externo da linguagem, para expressar o resultado daque- las operações (ARNAULD; LANCELOT, 1992). Alguns princípios permitem que se atribua parentesco às diversas teorias enunciativas. Eles estão vinculados, principalmente, aos conceitos saussurianos de relação, de língua e fala e à importância da prioridade da ordem linguística. Um dos editores do Curso de Linguística Geral, Charles Bally, ao criar uma estilística, constrói uma análise fundamentada na presença da enunciação no enunciado (BARBISAN; FLORES, 2009, on-line). Portanto, a relação entre força ilocutória e a reação relacionada à enunciação imprimem diferen- tes consequências no que tange à identidade dos sujeitos. Resumindo, no ato ilocutório o sujeito é o falante, na medida que não é constatada uma relação de identidade entre o sujeito falante e o da reação à comunicação na concepção de Bally, para quem essa dissociação é fundamental. A teoria polifônica de Ducrot eclode por meio a aceitação de que o sentido concerne à enuncia- ção, conforme concebe a teoria dos atos de fala, mas é necessário considerar o fato de que o sentido pode evidenciar outros sujeitos, alheio ao sujeito falante. Para saber mais Para Descartes, a Filosofia seria como uma árvore, na qual a metafísica forma a raiz, a física o tronco e as diversas ciências os galhos, aceitando assim que o pensamento existe e, em seguida, indivídu- os pensantes existem, uma vez que o pensamen- to não pode ser separado daquele que pensa (MA- CIEL, 2018, on-line). 68 • Polifonia: primeira fase de teorização Em sua obra Les mots du discours (1980), Ducrot faz a primeira menção ao conceito de polifonia, vinculada ao argumento de que o enunciado veicula uma imagem de sua enunciação. O cerne da questão desenvolvida pelo autor repousa do fato de que a descrição da enunciação deve ser distin- guida em razão do entendimento sobre quem é o autor das palavras (locutor) e o agentes do ato ilocutório (enunciadores). Nesse sentido, à díade locutor/ enunciador é associada à alocutário/desti- natário (2), sendo que o alocutário é aquele a quem a enunciação do locutor se dirige e o destinatário é aquele para quem os atos ilocutório produzidos pelo enunciador efeti- vamente se destinam. Deste contexto emerge a necessidade de distinção entre a noção de polifonia e a possibilidade de reportar em um determinado discurso, o discurso de um outro (modalidades discursivas dire- tas como indireta). Ou seja, é fundamen- tal estabelecer que há uma fronteira entre o conceito de polifonia e modalidades dis- cursivas, pois o discurso relatado constitui- se como uma referencialidade marcada pelo locutor, e não pelo locutário. No ano de 1984, a teoria da polifonia é efetivamente desenvolvida, com destaque à correção de alguns aspectos. A tese de que é neces- sário distinguir locutor de enunciador é mantida, embora apresentada sob novos fundamentos. A saber: i. O locutor é entendido como alguém a quem se deve imputar a responsabilidade pelo enun- ciado, ou seja, os pronomes “eu” e as “demais marcas” de primeira pessoa. Link ilocutório/alocutário/destinatário: Disponível em: <https://www.infopedia.pt/$alocutario>. Acesso em: 28 de fev. 2018. Para saber mais Adiante você poderá verificar que esta discussãoserá retomada e o relato em estilo direto que será elevado ao status de um tipo de polifonia no nível do locutor. 69 ii. O locutor é distinguindo do autor empírico, elemento da experiência por se tratar de uma ação discursiva ficcional, evidenciando a recusa ao argumento que aspira introduzir a concepção de que um produtor de fala está integrado a descrição do sentido do enunciado. iii. O locutor recebe duas representações diversas, sendo este responsável pela enunciação (A) (3) e pela presença no mundo (B) (3), ou seja, constitui-se também enquanto indivíduo. iv. A reformulação da noção de enunciador, que até então era concebida no acepção de que são sujeitos dos atos ilocutórios elementares (afirmação, negação, pergunta), sendo aqueles a quem se atribui a responsabilidade pelos atos ilocutórios que o enunciado do locutor conduz. Após a reordenação do conceito, emerge a concepção de que as vozes veiculadas por meio da enunciação denotam perspectivas pela qual o locutor identificar-se à aceita- ção ou oposição enunciada. Nesse sentido, essas vozes não são expli- citadas, pois sua existência decorre da enun- ciação manifestada por meio dos enuncia- dores, sem que para estes sejam atribuídas palavras específicas, pois comunica o que a enunciação expressa ideologicamente, dis- tinguindo-se do que está presente no sen- tido material das palavras e limitando-se; portanto, a produzir atos enunciativos e ilocutórios. v. A apresentação de uma polifonia no nível do locutor eclode do argumento de que os casos de dupla enunciação, na qual se inserem os relatos em estilo direto, constituem-se como uma forma de polifonia, assim estabelecendo que a primeira e mais frequente ocorre no nível do locutor e a segunda no âmbito do enunciador. Nesse contexto, a distinção entre os três tipos sujeitos - autor/locutor/ enunciador, assume um Assimile (3) Ambas são representações internas ao enun- ciado enquanto subdivisões, e, portanto, con- stituem-se como entidades do discurso. Do ponto de vista metodológico é diferenciada do sujeito fa- lante, elemento não-enunciativo e externo ao dis- curso. [A] é constituída no nível do dizer, pela for- ma do enunciado responsável pela enunciação; [B] é constituído no nível do dito, por meio do conteú- do presente no enunciado. Nesse sentido, caracter- iza-se como ser empírico do mundo, cuja referência é dada pelo enunciado, representando sua própria origem. Em suma, a identificação de [B] somente é possível em razão da presença de [A], que qualifica a produção de [B]. 70 papel essencial neste processo de acepção dos dois tipos de polifonia. Para tal, basta considerar que o autor que produz uma determinada história, não pertence, necessariamente, a ela, tampouco é o locutor parte do sentido imanente do enunciado. Portanto, pode-se afirmar que há um fenômeno polifônico oriundo do relato em estilo direto marcado pelo autor ou mesmo pelo locutor, e um outro nível que se manifesta no campo da enun- ciação, produzido pelo enunciador ao estabelecer relações ideológicas com outros pensamentos por meio da intertextualidade. Cabe ainda destacar que a teoria polifônica da enunciação provoca mudanças significativas na teoria ducrotiana da pressuposição e da argumentação, na qual a primeira passa a ser descrita como apresentando dois enunciadores, E1 e E2, responsáveis, respectivamente, pelos conteúdos pressu- posto e posto. Destarte, E1 é identificado na voz coletiva interior onde o locutor está localizado, ao passo que sendo que E2 caracteriza o locutor. No que versa à argumentação, passa a explorar o con- ceito de polifonia, incluindo-se a este a noção de topos (4). • Polifonia e Argumentação A relação entre polifonia e argumentação fundamenta-se em um pressuposto enunciativo geral, em que se admite que os conteúdos são introduzidos em um enunciado por um determinado autor, denominado como locutor, em direção ao sujeito falante (CAREL, 2010). Também é necessário admitir que os conteúdos dos enunciados podem ser introduzidos de diversas formas, que podem ser descritas a partir de dois princípios: (I) a atitude discursiva e o (II) pessoa. Na primeira, o locutor indica o papel atribuído em seu discurso ao conteúdo apresentado, em outras pala- vras, é a instância na qual é possível defender, ilustrar ou comentar o conteúdo, ou mesmo excluí-lo. Nesse sentido, as atitudes do locutor são meramente discursivas e não psicológicas, validando o papel argumentativo que o conteúdo desenvolverá no discurso. No que se refere à noção de pessoa, esta deriva da acepção de enunciador na qual se entende que estes não são indivíduos particulares, e sim funções discursivas, que podem se desdobrar em outras duas: i. Indicativa do ângulo; ii. Garantia da validade do conteúdo. 71 Em relação à primeira, expressões como: ao ver de, segundo, de acordo com, nas palavras de etc., resultam em leituras atributivas pelo qual o locutor introduz sua perspectiva, relativizando os conteúdos explicitados pelos enunciados que as transportam. Isto que significa atribuir-lhe o sentido que é definido pelo ângulo do qual esse conteúdo é apresentado (5). Ainda no que se refere à pessoa, também pode ser traduzida como doxa (6) e/ou da opinião pública. A saber, em Língua Portuguesa pode estar representada nas estruturas sintáticas em que operadores argumentativos “se/quando” são operacio- nalizados como marca de impessoalidade. Ainda há o que pode ser denominado como voz dos fatos, ou mesmo voz do mundo na qual o locutor assume o seu próprio papel e o de pessoa, à guisa de exemplo: “nunca antes na história desse país...” Ao longo de seu desenvolvimento, as teorias polifônicas encontram obstáculos em razão de um modelo analítico fundamentado em unidades discursiva fechadas em si mesmas, pois descrever o sentido de duas proposições independentes entre si, de um mesmo enunciado, pode resultar num distanciamento de sua unidade intuitiva. Tal constatação aponta para uma acepção argumentativa do sentido, inaugurando uma descrição dos enunciados a partir do que mais tarde viria a ser deno- minado como Teoria dos Blocos Semânticos (TBS). Cabe destacar que a Teoria Argumentativa da Polifonia (TAP) agrega ao seu arsenal investigativo a Teoria dos Blocos semânticos (TBS), pois a primeira se inscreve na linhagem das teorias que objeti- vam a enunciação, na qual sua operacionalização, inicialmente, se dá por meio de indicações do tipo falso, verdadeiro, necessário, provável etc., atribuindo-lhe um carácter negativo do ponto de vista da análise do discurso. Ao passo que a segunda se ocupa do conteúdo, ou seja, daquilo que é mate- rializado no discurso, descrevendo as palavras, os grupos de palavras e os enunciados pelos quais Exemplificando (5) De acordo com o professor, Mariana está apta a passar no teste final. Nota-se no exemplo que a aptidão é atribuída pelo professor. É a sua perspec- tiva e/ou ponto de vista que engendra o conteúdo do enunciado enquanto processo argumentativo à construção de sentido. 72 essas unidades (blocos semânticos) constituem os processos argumentativos, conforme argumenta Gomes (2016, p.70 apud Carel, 2010): A TAP propõe preservar a dicotomia dos sentidos entre um “conteúdo” e a “colocação desse conteúdo em discurso” (la mise en dircours). Para manter essa dicotomia, a autora propõe repartir as tarefas entre duas teorias: a TAP que é uma teoria da “colocação do conteúdo em discurso”; a TBS que é uma teoria de “conteúdo”, quer dizer, uma teoria que se ocupa daquilo que é colocado em discurso. Inscrita no quadro geral da Teoria da Argumentação na Língua, a TBS descreve as palavras, os grupos de palavras, os enunciados pelos discursos argumentativos que essas unidades evocam. Em síntese, é importante frisar que, atualmente, a teoria Argumentativa da Polifonia (TAP), em consonância com a Teoria da Argumentação na Língua (ANL), renunciaa hipótese dos estudos linguís- ticos clássicos sob os quais se fundamentam os princípios analíticos de que o sentido de um enunciado deve ser isolado em uma descrição lógica em termos de verdadeiro e falso, hipótese de que a enun- ciação descreve o estado psicológico de um indivíduo, o sujeito falante ou outro, mais exatamente. • A Teoria Polifônica dentro da análise semântica A Teoria Argumentativa da Polifonia (TAP), decorrente da Teoria da Argumentação na Língua (ANL), ainda que de forma ensaística, possui elementos que podem contribuir à explicitação dos conteúdos e à construção dos sentidos por eles produzidos, em meio à diversidade de enunciadores que configura a polifonia enquanto recurso argumentativo presente na tessitura textual. Para tal, inicialmente, segundo Gomes (2016, p. 71), a descrição de enunciados pressupõe assu- mir a coexistência de um locutor único responsável pelas atitudes frente aos conteúdos e aos enun- ciadores evocados na produção de um enunciado, que, indiretamente, apropria-se da ideia seja con- cordando ou excluindo a voz que conduz o conteúdo, ou mesmo que o garante. Nessa direção, de acordo com Barbisan e Teixeira (2002), o locutor coloca em cena enunciadores e promove indicações sobre sua atitude em relação a eles, de onde se pode identificar o alocutário, um terceiro ou qualquer outro com relação ao enunciador. As autoras (ibidem) ainda argumentam que é no processo de interpretação dos enunciados, ou seja, no nível do sentido, que as instruções da significação conduzem a indicações mais explícitas e 73 concretas, na qual são apresentados os enunciadores do texto em relação uns com os outros, deter- minado o papel discursivo que estes personagens desenvolvem na trama argumentativa e que o texto incorpora ao seu conteúdo. Ao distinguir o sujeito falante e o locutor, estabelece-se a máxima de que ao primeiro destina-se a existência material do enunciado, ao passo que ao segundo o status de ser discursivo que indica a forma de apresentação do conteúdo, assumindo sua função textual e permitindo uma análise cen- trada na materialidade da língua. Deste modo, por meio dessa trajetória reflexiva-teórica até aqui apresentada, revela-se o poten- cial da Teoria da Argumentação Polifônica (TAP) como uma possibilidade instrumental à análise semântica do discurso, visto que em seus desdobramentos há a possibilidade de se estabelecer dois caminhos investigativos: um concernente à função textual do conteúdo e outro à forma de manifes- tação desse conteúdo no enunciado. O estudo da ANL, continuado na TAP e na TBS, conduz ao entendimento de que a construção de sentido em uma análise discursiva, deve ser formulada a partir das relações estabelecidas as entre palavras, as frases, os parágrafos e os textos, de modo que esse processo analítico permita a des- crição dos enunciados e, por conseguinte, sua interpretação. Em suma, acreditamos que não seria um erro afirmar que obra de Ducrot e de seus colaborado- res é um tema distante de esgotamento, até porque está em constante processo de reavaliação e atualização de seus fundamentos e conceitos, sendo este material apenas um apanhado geral dos princípios conceituais relativos a essa teoria, cujo objetivo único é o de contribuir para uma iniciação ao estudo das bases dessa abordagem investigativa. Questão para reflexão Após todo estudo compartilhando neste material, você pôde conhecer um pouco mais sobre a 74 Teoria da Argumentação Polifônica e seus respectivos pressupostos teóricos e possíveis aplicabili- dade. Baseando-se nestes estudos, você irá construir um texto conciso apresentando o seu enten- dimento sobre o papel da teoria da polifonia na argumentação. Bons estudos! Considerações Finais • Em primeira instância é importante destacar que Ducrot desenvolve o conceito de polifonia no nível linguístico, assinalando a possibilidade de desdobramentos enunciativos em meio ao pró- prio enunciado, tal como atuação de diferentes personagens em uma encenação. • A teoria polifônica de Ducrot eclode por meio a aceitação de que o sentido concerne à enun- ciação, conforme concebe a teoria dos atos de fala, mas que é necessário considerar o fato de que o sentido pode evidenciar outros sujeitos, alheios ao sujeito falante. • Com vistas a evitar equívocos conceituais e, por consequência, analíticos-metodológicos, é fundamental estabelecer que há uma fronteira entre o conceito de polifonia e modalidades dis- cursivas, pois o discurso relatado constitui-se como uma referencialidade marcada pelo locu- tor, e não pelo locutário, o que mais tarde, após reavaliação, passa a ser reconhecido como um tipo de polifonia. • A distinção entre os três tipos sujeitos - autor/locutor/ enunciador, é essencial ao entendi- mento da acepção dos dois tipos de polifonia. Em linhas gerais, basta considerar que o autor que produz uma determinada história, não pertence, necessariamente, a ela, tampouco é o locutor parte do sentido imanente do enunciado. Portanto, reportar o discurso do outro é tam- bém uma forma de trazer sua voz ao texto como um tipo de argumento. Glossário Volitiva: Etimologia (origem da palavra volitivo). Do latim volitivus; volitio de voluntas. atis. Que resulta da vontade; determinado pela vontade ou causado por ela; em que há intenção: ação volitiva 75 (VOLITIVO, 2018, on-line). Topos origem grega / topoi: são lugares comuns que as pessoas utilizam como ponto de partida de uma argumentação. A tópica surgiu na Grécia antiga através de Aristóteles. Segundo ele perten- ceria ao campo da lógica dialética, visto que “o raciocínio é dialético quando parte de opiniões geral- mente aceitas” e estas são “aquelas que todo mundo admite, ou a maioria das pessoas, ou os filósofos - em outras palavras: todos, ou a maioria das pessoas, ou os mais notáveis (RIBEIRO, 2018, on-line). Doxa: é um termo referente a crença comum ou simplesmente opinião, enquanto que a episte- mologia é um ramo da Filosofia que se preocupa com as questões fundamentais acerca do conheci- mento. Algumas perguntas fundamentais que a epistemologia se preocupa em responder é “o que é conhecimento”, “como podemos conhecer algo” e “qual é a diferença entre crença (doxa ou opinião) e conhecimento (epistemologia). A Doxa pode referir-se a algo subjetivo, contraditório ou simplesmente uma manifestação psicológica do exercício da linguagem e o seu julgamento acerca de algo. Em outras palavras, ela pode ser entendida como um conjunto de pensamentos que não necessitam de quaisquer bases epistemológicas ou metodológicas e fundamentos para aplicá-la (RODRIGUES, 2016, on-line). Verificação de leitura QUESTÃO 1-Com base nos estudos de Teoria da Polifônica, avalie as assertivas a seguir: I. A noção de polifonia em Ducrot é apresentada pela primeira vez no capítulo 1 de Les mots du discours (1980), sendo recuperada com alterações em Le dire et le dit (1984) e reformulada nas conferências de Cali (1988). II. Originalmente, a palavra polifonia refere a uma classe de disposição musical, organiza- da pela sobreposição de instrumentos e/ou vozes, pelos quais diferentes mensagens e/ou ideias são concorrentes em um mesmo enunciado, via de regra em ritmos e/ou contextos distintos. III. A teoria polifônica, ao longo de seu desenvolvimento, permanece em constante modi- ficação, reformulando argumentos à sustentação de suas ordenações. IV. Ducrot em sua obra Logique, strucuture, énonciation (1989), no capítulo VII, explica como encontrou alento para sua teoria linguística da polifonia, a partir da leitura de Lin- guistique générale et linguistique française, Ferdinand Saussure (26 de nov de 1857 - 22 de fev de 1913 - idade 55). 76 Após a avaliação é correto afirmar que: a) Apenas I está errada. b) Apenas III está errada. c) Apenas III e IV estão erradas. d) Apenas II está errada. e) Apenas IV está errada. QUESTÃO 2-Escolha entre as alternativas a seguir a que melhorcompleta o argumento apresentado no excerto: “[...] a relação entre força ilocutória e a reação relacionada à enunciação, imprimem dife- rentes consequências no que tange à identidade dos sujeitos. Resumindo, no ato ilocutório o sujeito é o falante, na medida que não é constatada uma relação de identidade entre o sujeito falante e o da reação à comunicação na concepção de Bally, [...].” a) para quem essa dissociação é fundamental. b) cujo entendimento era contrário. c) na qual estabelece-se uma relação entre sujeito falante perlocutório. d) na acepção do conceito de polifonia. e) ao que é tangível de ser analisado. QUESTÃO 3-Com base nos estudos desenvolvidos sobre a Teoria da Polifonia, analise o excerto a seguir e complete suas respectivas lacunas com a sequência de palavras corre- tas à construção de sentido sobre o assunto em questão. A alternativa que completa corretamente as lacunas do texto é: 77 “A teoria polifônica de Ducrot eclode por meio a___________de que o sentido concerne à ____________, conforme concebe a_____________dos atos de fala, mas que é neces- sário considerar o fato de que o ____________pode evidenciar outros sujeitos, alheio ao sujeito falante.” a) Enunciação, teoria, sentido, aceitação. b) Enunciação, teoria, aceitação, sentido. c) Enunciação, aceitação, teoria, sentido. d) Aceitação, enunciação, teoria, sentido. e) Aceitação, teoria, aceitação, sentido. Referências Bibliográficas ARNAULD, A.; LANCELOT, C. A gramática de Port-Royal. São Paulo: Martins Fontes, 1992. BARBISAN, L. B.; TEIXEIRA, M. T. Polifonia: origem e evolução do conceito em Oswald Ducrot. Organon, UFRGS, Instituto de Letras: Porto Alegre, RS, v.16, n 32 e 33, 2002. p. 161-182. BARBISAN, Leci Borges; FLORES, Valdir do Nascimento. A enunciação em perspectiva. Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 44, n. 1, p. 5-8, jan./mar. 2009. Disponível em: <http:// revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/fale/article/viewFile/5645/4113>. Acesso em: 06 de mar. 2018. CAREL, Marion. Polifonia e Argumentação. Desenredo, Revista do Programa de Pós- Graduação em Letras da Universidade de Passo Fundo, v. 6, n. 1, p. 22-36, jan.-jun. 2010. DUCROT, Oswald. Esboço de uma teoria polifônica da enunciação. In: ___. O dizer e o dito. Campinas, SP: Pontes, 1987. p. 161-218. GOMES, Neiva M. T. Argumentação linguística, enunciação e polifonia. Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 51, n. 1, p. 65-72, jan.-mar. 2016. MACIEL, Willyans. René Descartes. In: Infoescola, 2018. Disponível em: <https://www. 78 infoescola.com/filosofos/rene-descartes/>. Acesso em: 06 mar. 2018. RIBEIRO, Lúcio Ronaldo Pereira. Comunicação docente e o uso dos topoi. In: Busca Legis, 2018. Disponível em: <http://www.buscalegis.ufsc.br/revistas/files/anexos/25064- 25066-1-PB.htm>. Acesso em: 28 fev. 2018. RODRIGUES, Douglas. Doxa e Epistemologia. In: Climatologia Geográfica. 13 out. 2016. Disponível em: <https://climatologiageografica.com/doxa-e-epistemologia/>. Acesso em: 28 fev. 2018. VOLITIVO. In: Dicionário on-line de Português, 2018. Disponível em: <https://www.dicio. com.br/volitivo/>. Acesso em: 26 fev. 2018. Gabarito QUESTÃO 1-Alternativa: E - Ducrot em sua obra Logique, strucuture, énonciation (1989), no capítulo VII, explica como encontrou alento para sua teoria linguística da polifonia, a partir da leitura de Linguistique générale et linguistique française de Charles Bally (1965). QUESTÃO 2-Alternativa: A - A relação entre força ilocutória e a reação relacionada à enunciação imprime diferentes consequências no que tange à identidade dos sujeitos. Resumindo, no ato ilocutório o sujeito é o falante, na medida que não é constatada uma relação de identidade entre o sujeito falante e o da reação à comunicação na concepção de Bally, para quem essa dissociação é fundamental. QUESTÃO 3-Alternativa: D - A teoria polifônica de Ducrot eclode por meio a aceitação de que o sentido concerne à enunciação, conforme concebe a teoria dos atos de fala, mas que é necessário considerar o fato de que o sentido pode evidenciar outros sujeitos, alheio ao sujeito falante. 6 Teoria dos topoi 80 Objetivos Específicos • Evidenciar as características da teoria dos topoi; • Exemplificar sua aplicabilidade no ato interpretativo; • Apresentar aspectos que sofreram atualizações e reformulações. Introdução A Teoria dos Topoi, versão mais recente da Teoria da Argumentação na Língua, desenvolvida por Ducrot e colaboradores, apresenta-se como um modelo alternativo a uma semântica fundamentada no conceito de condições de verdade. Sobre os postulados dessa teoria, estão tópicos tais como a relação entre o conceito de pressuposição e a Teoria da Argumentação, a relação entre linguagens lógicas e línguas naturais, a definição de sentido lexical e a traduzibilidade de sentidos lexicais não definidos referencialmente. Envolve, portanto, uma série de hipóteses sobre o sentido lexical, con- duzindo as pesquisas no campo da argumentação à formulação de uma teoria sobre o sentido lexi- cal. Exemplo de constante transformação, autocrítica e reformulações, a pesquisa ducrotiana e de seus colaboradores ressignifica conceitos e definições. A saber, a definição de topoi como garantia (garant) de inferências. Atualmente, entendida como fonte de discurso, como a garantia condução que orienta, assegura e valida o fluxo de ideias que permite a movimentação do argumento à con- clusão. Anteriormente, a teoria vislumbrava a apresentação dos topos fundamentado no princípio inferencial, semelhante ao sentido atribuído por Aristóteles. Essa teoria suscita uma série de ques- tões que merecem atenção, entre elas, destaca-se a relação entre a Teoria dos Topoi e outras teorias do sentido não-logicistas, como a Teoria dos Protótipos; os efeitos para a teoria da tradução da defi- nição do sentido lexical como um feixe de topoi e o paralelo entre os conceitos de implicação lógica e de encadeamento discursivo. 81 1. Topoi argumentativos e tópicas A dificuldade de manter o princípio de que a argumentação estava somente na língua, uma vez que um mesmo operador argumentativo conduzia a conclusões distintas, permite a Ducrot evoluir à noção de topos, pois a concepção de argumentação como um conjunto de conclusões possíveis para um enunciado, encontrava grandes obstáculos para se sustentar. Ao propor a noção de topos argumentativo e de formas tópicas, Ducrot (1989) dá início aos tra- balhos com o topos (lugar comum argumentativo), cuja estrutura possui três propriedades: 1. Universalidade, em sentido limitado, os enunciados apresentados como compartilhados por uma coletividade, mesmo que apenas entre um enunciador e um destinatário; 2. Generalidade, pois é aplicável inúmeras situações análogas, além do momento em que é empregada; 3. Gradualidade, a mais fundamental para essa teoria, pois a partir dela foi possível chegar ao estudo das formas tópicas dos enunciados, relacionando duas escalas na qual a movimentação contrária delas implica o movimento em ambas. A guisa de exemplo fórmula ducrotiana da gradação dos topoi, apresentada em Campos (2007, p. 146) contribui para seu detalhamento, em especial no processo descritivo sob a qual se estrutura a dinâmica das formas tópicas. Observe a seguinte orientação de sentido para os seguintes enunciados: • A propriedade P é favorável à propriedade Q; • A propriedade P se opõe à propriedade Q. Destarte, chega-se a dois topoi, respectivamente: • Quanto mais se sobe na escala P, mais se sobe na escala Q; • Quanto mais se sobe na escala P, menos se sobe na escala Q. Como formas tópicas, têm-se, para o primeiro: • Quanto mais P, mais Q” e “quanto menos P, menos Q; • Quanto mais P, menos Q” e “quanto menos P, mais Q. 82 Ducrot (1989) inaugura o estudo dos princípios da argumentação no interior do enunciado, arro- lando a possibilidade de conclusões, sejam elas idênticas ou antagônicas, um princípio operaciona- lizado pelo enunciado, o topos ou lugarcomum argumentativo. Nesse sentido, ratifica-se o entendimento de que um mesmo operador argumentativo (palavras e ou expressões que conectam frases e/ou enunciados) pode ser capaz de encadear conclusões diferentes, pois o topos, por vezes não segue o mesmo encadeamento argumentativo, ou seja um mesmo lugar comum. Portanto, os encadeamentos e as conclusões diferen- tes que utilizam o mesmo operador argumentativo explica-se pelo fato de um enunciado poder ser apresentado em regiões discursivas distintas, o que possibi- lita à construção de diferentes conclusões. É possível notar que o princípio de que a argumentação se dá pela língua é man- tido na teoria dos topoi argumentativos, o diferencial é que nesta etapa evolucioná- ria do estudo ducrotiano à argumentativi- dade tem-se como referência o local do qual provém o ato argumentativo, pois o valor argumentativo dos enunciados pressupõe a existência de um enunciador a argumentar, identificado ou não. O padrão teórico no exemplo, define o potencial argumentativo de um enunciado como o con- junto das conclusões às quais se pode chegar a partir desta análise. Este entendimento sobre a argu- mentação é relevante, pois possibilita evidenciar as expressões argumentativas de um determinado enunciado. A substituição de uma expressão por outra em um enunciado, conduz outras conclusões, caracterizando assim natureza argumentativa dessas expressões, todavia não permite a descrição do valor semântico dessas expressões. Exemplificando Valendo-se dos seguintes enunciados que utilizam o operador argumentativo: muito, um pouco: 1. Ele estudou muito. Ele vai passar. 2. Ele estudou muito. Ele não vai passar. 3. Ele estudou um pouco. Ele vai passar. 4. Ele estudou um pouco. Ele não vai passar. Pode-se observar no exemplo dois topoi contrários: T1 conduz ao êxito e ao fracasso (DUCROT, 1989, p. 35-36). A partir destes topoi, são conjuradas for- mas tópicas distintas, sendo para o T1: FT1: Quanto mais se estuda, mas se tem êxito e FT2: Quanto mais se estuda menos se tem êxito; e para o T2: FT3: Quanto menos se estuda, mais se tem êxito e FT4: Quanto menos se estuda, menos se tem êxito. 83 1.1 Os topoi argumentativos Embora seja considerada uma evolução no que se refere à construção de um arsenal teórico- metodológico de análise de sentido, três fatores foram culminantes a algumas alterações na teoria, pois a tentativa de se construir uma forma padrão à investigação se mostra insuficiente se conside- rada as questões a seguir apresentadas: i. A dificuldade de descrição das expressões argumentativas; ii. O fato de que é possível encontrar duplas de frases com o mesmo operador argumentativo, mas que possibilitam evidenciar conclusões diferentes; iii. O fato de que é possível encontrar frases com operadores diferentes, e que podem conduzir à mesma conclusão. A concepção até então empregada mostra-se ainda insuficiente, uma vez que se admite que há a possibilidade de duas frases distintas, com mesmo operador argumentativo, conduzirem a conclu- sões, sem necessariamente distinguirem-se com relação aos fatos enunciados por ambas. Observe os exemplos a seguir. 1. É quase uma hora. Esta tarde. 2. É quase uma hora. Apresse-se. O operador argumentativo destacado é a palavra “quase”, que, em uma primeira interpretação, promove uma orientação positiva, isto é, dizer “é quase uma hora” é dizer que uma determinada par- cela de tempo decorreu, que se está próximo da uma hora. Entretanto, é possível a partir do mesmo enunciado chegar a conclusões distintas, nesse caso, em (1) é possível inferir que uma parcela de tempo já foi contemplada, frente a um espaço temporal, restando pouco à sua completude. Em (2) pode-se inferir que em razão do espaço temporal já passado, resta pouco tempo à realização de alguma tarefa e/ou compromisso. Outro aspecto relevante contra a definição de potencial argumentativo dos operadores enquanto propulsor de conjunto de conclusões possíveis reside no fato de que, apesar de um par de expres- sões como “muito” e “um pouco” manifestarem valores argumentativos contrários, ao mesmo tempo 84 podem conduzir a uma mesma conclusão, considerando-se, todavia, a orientação do princípio argumentativo subjacente. Ao evocar os exemplos nas frases (1) e (3), “Ele estudou muito”, pode-se concluir que ele “vai ter êxito na sua empreitada”, pois o estudo leva à aprovação e/ou sucesso em testes. Em (3), “Ele estudou um pouco”, temos a possibilidade de chegar à mesma conclusão, “vai ter êxito”, uma vez que a preparação para um teste leva ao sucesso e/ou resultado satisfatório à aprovação, e nesse caso, embora “um pouco”, mesmo assim ele se pre- parou, o que dessa perspectiva não inviabiliza a sua conquista, podendo também ser o contrário, ou seja, já que estudou “um pouco”, está mal preparado, logo reprovará. Note que, apesar das frases permitirem construir conclusões diferentes, também não inviabilizam conclusões idênticas, comprometendo, portanto, a concepção de modelo padrão à teoria, reafir- mando a necessidade de reformulações e ajustes, sobretudo na acepção de uma teoria da argumen- tação na língua que defende a análise e valoração argumentativa a partir do conjunto de conclusões possíveis para um enunciado. Nesse sentido, enquanto solução à questão, é concebida a ideia de que a possibilidade de conclu- sões diferentes serem extraídas de uma mesma frase, não seria um princípio interno, mas externo à língua, entretanto convocado pela própria frase a partir do topos. Outro aspecto fundamental com relação à forma padrão da teoria repousa sobre o fato de que até então, a argumentação era descrita com base nos enunciados, visando à definição do ato argu- mentativo. Na teoria dos topoi, em contrapartida, a descrição é feita a partir dos enunciadores, objetivando a identificação do caráter argumentativo das diferentes perspectivas que se apresen- tam no enunciado. Assimile Na versão dos Topoi, concebe-se que os pontos de vistas distintos de um enunciado evocam princípios argumentativos a partir dos quais o locutor argu- menta, ora se opondo, ora aprovando e ora se iden- tificando com esses pontos de vista (INÁCIO, 2008, on-line). 1. Ele estudou muito. Ele vai passar. 2. Ele estudou muito. Ele não vai passar. 3. Ele estudou um pouco. Ele vai passar. 4. Ele estudou um pouco. Ele não vai passar. 85 Nesse sentido, o valor argumentativo dos enunciados submete-se à necessidade de aceitação da premissa de que há um enunciador que argumenta, esteja ele em consonância com o locutor, ou não, o que pressupõe duas condições para que o ponto de vista de um enunciador seja considerado argumentativo, conforme orienta Campos (2007, p. 144): A primeira é que ele sirva para justificar uma determinada conclusão, que pode estar explí- cita ou implícita no enunciado e pode ser assumida ou não pelo locutor. A segunda condição postula a noção de topos, fundamental nessa fase da teoria. O valor argumentativo passa a ser entendido como parte constitutiva do enunciado: o princípio argumentativo, designado de topos, é o responsável pela orientação do enunciado em direção à conclusão; é o inter- mediário entre o argumento e a conclusão. Em síntese, pode-se considerar que deste ponto de vista, o valor argumentativo deve ser con- templado como uma face constitutiva do enunciado, conduzindo o entendimento sobre a teoria do topos, ao status de princípio responsável pela orientação do enunciado em direção à conclusão. Uma entidade intermediária entre o argumento e a conclusão. Segundo Campos (2007), os topoi possuem três propriedades básicas: a. são concebidos como “universais”, não que de fato o sejam, todavia estão presentes no enun- ciado como se fossem compartilhados por uma coletividade, sendo familiar ao enunciador e ao destinatário; b. são gerais, uma vez que podem ser aplicados à inúmeras de situaçõesargumentativas, para além do próprio momento enunciativo; c. são graduais, portanto, permitem a orientação à conclusão, relacionando duas escalas, na qual o movimento de uma implica também o da outra. De modo que a direção do movimento de uma condiciona a direção do movimento da outra. Ou seja, quando o valor de uma das escalas aumenta, na outra ocorrerá o mesmo fenômeno. Nesse sentido, a argumentação deixa de ser analisada por meio de um conjunto das conclusões possíveis com relação à frase e passa a ter uma conexão direta com os topoi escolhidos, pois o vín- culo estabelecido pelo topos entre as propriedades graduais também é essencialmente gradual. 86 Para sustentar a tese da gradualidade do topos, Ducrot (1999) apresenta uma noção denominada como forma tópica. O autor argumenta que há uma relação gradual entre duas escalas e seus respectivos topoi, e que existe uma reciprocidade lógica entre duas formas do topos. Ou seja, quanto mais se sobe em uma das escalas, mais se sobe também na outra, sendo recíproco e válido o processo inverso, gerando o entendimento de que cada um desses dois condicionantes é constituído como uma forma tópica. Vejamos: i. A propriedade P é favorável à propriedade Q. ii. A propriedade P se opõe à propriedade Q. Em (I), observa-se um topos que indica: “quanto maior a crescente na escala P, maior será na escala Q”, por conseguinte, obtém-se duas formas tópicas que estabelecem duas formas de recipro- cidade: “quanto mais P, mais Q” e “quanto menos P, menos Q”. Em (II), o topos é concebido de forma inversa: “quanto maior o crescimento na escala P, menor o crescimento na escala Q”, constituindo formas tópicas que também são recíprocas e contrárias às anteriores: “quanto mais P, menos Q” e “quanto menos P, mais Q”. Em síntese, Campos (2007, p. 146) afirma que quando há duas escalas graduais como P e Q, pode-se constituir dois topoi contrá- rios conforme exemplo descrito. Cabendo ainda destacar em que cada um dos topoi serão constitu- ídas, reciprocamente, duas formas tópicas do mesmo topos. Ainda segundo Campos (2007, p. 146/7), esta discussão é diretamente responsável pelo aprimo- ramento desta teoria, por proporcionar as seguintes conclusões: 1ª. o valor argumentativo dos enunciados, assim como os pontos de vista neles expressados estão inscritos na língua, ou seja, são determinados pela frase; 2ª. a determinação argumentativa é possibilitada principalmente pelas expressões argumentativas; Para saber mais Polifonia e Topos na Linguagem: um terceiro enun- ciador para dar conta da ironia. Disponível em: <http://www.ufscar.br/~uehposol/art_iel.htm>. Acesso em: 08 de mar 2018. 87 3ª. o valor argumentativo dos pontos de vista dos enunciadores corresponde à convocação por parte deles de topoi graduais; 4ª. cada topos contém duas formas tópicas recíprocas; 5ª. os operadores argumentativos são os responsáveis pela natureza das formas tópicas utilizadas. Tal discussão também proporcionou outras conclusões de natureza mais genérica, todavia não menos importante ao processo evolutivo da teoria, são elas: a. a utilização de uma língua pressupõe que a coletividade possui topoi; b. não é da competência da língua quais sejam os topoi, mas apenas o fato de que eles existem; c. algumas palavras não só indicam como utilizar os topoi, como os contêm nelas mesmas. Resumindo, na teoria dos topoi argumentativos, o foco está especificamente nos enunciados, sendo o topos entendido como o elemento que permite que se extraiam diferentes conclusões de uma mesma frase por meio do princípio da gradualidade das escalas, constituídas a partir das rela- ções estabelecidas por meio das formas tópicas. 1.2 Os topoi na teoria da argumentação na língua Ducrot (1999, p. 1) argumenta que “[...] é impossível argumentar com as palavras, que nossos dis- cursos, mesmo que sejam comumente qualificados de ‘argumentativos’, não correspondem a nada do que se entende por argumentação, ou ainda que a argumentação é uma miragem”. Nesse sentido, os trabalhos desenvolvidos à luz da teoria dos topoi argumentativos não consegui- ram se desvincular dos estudos retóricos, pois a teoria dos topoi inseria na argumentação um terceiro termo, externo à linguagem, tratando a argumentação como entrelaçado de enunciados que condu- zem a conclusões determinadas e aproximando-a dos princípios contidos na demonstração lógica. De acordo com Campos (2007, p. 148), no princípio os estudos ducrotiano estavam situados em uma tradição [de Aristóteles a Perelman, Grize e Eggs], tendo como original a relação entre a essên- cia da linguagem e necessidade existente de se substituir a argumentação pela demonstração, na qual pensava-se encontrar a partir das palavras a causa ou o sinal da natureza retórica, ou como dito na ocasião “argumentativo” do discurso. Como desdobramento desta constatação, conclui-se que as 88 palavras, além de não autorizarem a demonstração, também não permitem representar a argumen- tação de forma degradada por esse modelo de demonstração até então concebido. Quando fundamentado no estruturalismo saussureano, a teoria adotava para si a concepção de signo como entidade capaz de ser valorada semanticamente, entretanto, destaca-se o fato de que o elemento até então contemplado como signo era a frase, portanto era a ela que se atribuía um signi- ficado, entendido na ocasião por “significação”, sobretudo recusando-se a caracterizar os elementos linguísticos levando em consideração os aspectos extralinguísticos. Concluindo, segundo Campos (2007, p. 148), a proposta de um terceiro termo (o topos) e o lapso entre o argumento e a conclusão são opções teóricas que não se afastam de uma abordagem retó- rica do discurso, cuja essência está em revelar as ações desencadeadas por meio da linguagem, des- crevendo os atos de argumentação manifestos pela linguagem, que neste cenário é concebida como um instrumento, e não como propriedade na qual a argumentação está inscrita. Questão para reflexão Após todo estudo compartilhando neste material, você pôde conhecer um pouco mais sobre a Teoria dos topoi e seus respectivos pressupostos teóricos e possíveis aplicabilidade. Baseando-se nestes estudos, você irá construir um texto conciso apresentando o seu entendimento sobre o per- curso de desenvolvimento dessa teoria e sua reformulação, evidenciando os aspectos contrastivos entre a proposta inicial e a atual. Bons estudos! Considerações Finais • Ao propor a noção de topos argumentativo e de formas tópicas, Ducrot (1989) dá início aos trabalhos com o topos (lugar comum argumentativo), cuja estrutura possui três propriedades: universalidade, generalidade e gradualidade. • O princípio de que a argumentação se dá pela língua é mantido na teoria dos topoi argumenta- tivos, o diferencial é que nesta etapa evolucionária do estudo ducrotiano, a argumentatividade tem como referência o local do qual provém o ato argumentativo, pois o valor argumentativo 89 dos enunciados pressupõe a existência de um enunciador a argumentar, identificado ou não. • Um aspecto fundamental com relação à forma padrão da teoria, repousa sobre o fato de que até então, a argumentação era descrita com base nos enunciados, visando à definição do ato argumentativo. Na teoria dos topoi, em contrapartida, a descrição é feita a partir dos enuncia- dores, objetivando a identificação do caráter argumentativo das diferentes perspectivas que se apresentam no enunciado. • A teoria dos topoi, quando fundamentada no estruturalismo saussureano, adotava para si a concepção de signo como entidade capaz de ser valorada semanticamente, entretanto destaca- se o fato de que o elemento até então contemplado como signo era a frase, portanto era a ela que se atribuía um significado, entendido na ocasião por “significação”, sobretudo recusando-se a caracterizar os elementos linguísticos levando em consideração os aspectosextralinguísticos. Glossário Logicistas: Relativo à lógica, estudo sobre lógica e/ou aquele que a pratica. Evocar: Sinônimo de invocar, conjurar, clamar. Verificação de leitura QUESTÃO 1-Com base nos estudos de Teoria dos Topoi, avalie as assertivas a seguir: I - A Teoria dos Topoi pode ser considerada uma versão mais recente da Teoria da Argu- mentação na Língua. II – A definição de topoi repousa sobre a ideia de como (garant) de inferências. III – A noção de topos nasce pela dificuldade de manter o princípio de que a argumentação estava somente na língua, uma vez que um mesmo operador argumentativo conduzia a conclusões distintas. IV - Ao propor a noção de topos argumentativo e de formas tópicas, Ducrot (1989) dá iní- cio aos trabalhos com o topos (lugar comum argumentativo), cuja estrutura possui quatro propriedades: universalidade, generalidade, argumentatividade e gradualidade. Após a avaliação é correto afirmar que: 90 a) Apenas I está errada. b) Apenas III está errada. c) Apenas III e IV estão erradas. d) Apenas II está errada. e) Apenas IV está errada. QUESTÃO 2-Escolha entre as alternativas a seguir a que melhor completa o argumento apresentado no excerto: “Ducrot (1989) inaugura o estudo dos princípios da argumentação no interior do enun- ciado, arrolando a possibilidade de conclusões, sejam elas idênticas ou antagônicas, um princípio operacionalizado pelo enunciado, o topos ou lugar comum argumentativo. Nesse sentido, ratifica-se o entendimento de que um mesmo operador argumentativo pode ser capaz de encadear conclusões diferentes, (...)”. a) pois o topos segue o mesmo encadeamento argumentativo, ou seja, um mesmo lugar comum. b) pois o topos, por vezes, não segue o mesmo encadeamento argumentativo, ou seja, um mesmo lugar comum. c) pois o topos segue o mesmo encadeamento argumentativo, levando a um diferente lugar. d) pois o topos, por vezes, não segue o mesmo encadeamento argumentativo, ou seja, con- duz a lugares diferentes. e) pois o topos, por vezes, segue encadeamentos argumentativos distintos que levam a um mesmo lugar comum. 91 QUESTÃO 3-Com base nos estudos desenvolvidos sobre a Teoria da polifonia, analise o excerto a seguir e complete suas respectivas lacunas com a sequência de palavras corre- tas à construção de sentido sobre o assunto em questão. No início da década de 1990, no artigo “Os topoi na teoria da argumentação na língua” (Ducrot, 1999), uma nova atualização e_____________conceitual é proposta, na qual se recusa a _____________da própria teoria dos topoi no que se refere à __________________ anteriormente apresentada, superando a_______________de que a realização discursiva é constituída por argumentos e conclusões, dando lugar à ___________________de enca- deamento discursivo, manifesta por meio da dependência entre argumento e conclusão, constituída mutuamente. A alternativa que completa corretamente as lacunas do texto é: a) Concepção, argumentação, noção, visão, revisão. b) Argumentação, concepção, noção, revisão, visão. c) Revisão, concepção, argumentação, visão, noção. d) Concepção, revisão, argumentação, visão, noção. e) Revisão, concepção, visão, noção, argumentação. Referências Bibliográficas CAMPOS, Claudia M. O percurso de Ducrot na Teoria da Argumentação na Língua. Revista da ABRALIN, v.6, n.2, p. 139-169, jul./dez. 2007. Disponível em: <http://www.abralin. org/site/data/uploads/revistas/2007-vol-6-n-2/07-claudia-mendes-campos1.pdf>. Acesso em: 08 de mar. 2018. DUCROT, Oswald. Argumentação e “Topoi” Argumentativos. In: GUIMARÃES, Eduardo (org). História e sentido na linguagem. Campinas, São Paulo: Pontes, 1989. ______. Os topoi na teoria da argumentação na língua. In: Revista Brasileira de Letras, São Carlos, UFSCar, v. 1, n. 1, p. 1-11, 1999. (Tradução de Rosa Attié Figueira). INÁCIO, Daniele A. A Polifonia e os Princípios argumentativos subjacentes ao Discurso Indígena Guarani. Cadernos do IL, Porto Alegre, n.º 36, junho de 2008. Disponível em: 92 <http://www.seer.ufrgs.br/cadernosdoil/>. Acesso em: 08 de mar 2018. MOURA, Heronides M. M. Semântica e Argumentação: diálogo com Oswald Ducrot. DELTA, vol. 14 n. 1, São Paulo, Fev. 1998. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?s- cript=sci_arttext&pid=S0102-44501998000100008&lng=en&nrm=iso&tlng=pt>. Acesso em: 03.03.2018. Gabarito QUESTÃO 1-Alternativa E – São apenas três propriedades: universalidade, generalidade e gradualidade. QUESTÃO 2-Alternativa B - Ducrot (1989) inaugura o estudo dos princípios da argumenta- ção no interior do enunciado, arrolando a possibilidade de conclusões, sejam elas idênticas ou antagônicas, um princípio operacionalizado pelo enunciado, o topos ou lugar comum argumentativo. Nesse sentido, ratifica-se o entendimento de que um mesmo operador argumentativo pode ser capaz de encadear conclusões diferentes, pois o topos, por vezes, não segue o mesmo encadeamento argumentativo, ou seja, um mesmo lugar comum. QUESTÃO 3-Alternativa C - No início da década de 1990, no artigo “Os topoi na teoria da argumentação na língua” (Ducrot, 1999), uma nova atualização e revisão conceitual é pro- posta, na qual se recusa a concepção da própria teoria dos topoi no que se refere à argu- mentação anteriormente apresentada, superando a visão de que a realização discursiva é constituída por argumentos e conclusões, dando lugar à noção de encadeamento discursivo, manifesta por meio da dependência entre argumento e conclusão, constituída mutuamente. 7 Blocos semânticos 94 Objetivos Específicos • Apresentar a teoria dos blocos semânticos e seus pressupostos; • Expor suas relações com as teorias com a antecederam e que culminaram em seu desdobramento; • Demonstrar e exemplificar sua aplicabilidade enquanto instrumento de análise do discurso. Introdução O percurso da evolução teórica da obra de Ducrot, desde a sua interlocução com as teorias lógi- co-referencialistas, está presente nos primeiros textos (1966 - 1973) nos quais os princípios embrio- nários de sua teoria começam a ser desenhados. Destaca-se também a influência que seus estudos receberam da pragmática, levando-o posteriormente a adotar uma perspectiva mais estruturalista, a qual evidencia a importância dos operadores e articuladores argumentativos, introduzindo a teo- ria da polifonia (1980,1987/ [1984], 1990). Nesse constante processo evolutivo, chega-se à teoria dos topoi, enquanto lugar comum argumentativo (1995, 1999), cuja perspectiva fora abandonada na atual conjuntura em que se encontra a teoria, atualmente, fundamentada na noção de blocos semânticos e de encadeamentos argumentativos (1997, 2005). No quadro da Teoria dos Blocos Semânticos (TBS), é defendida a noção de que não há sentido fora do encadeamento discursivo, ou seja, que o argumento só tem sentido na sua relação com a conclusão; e a conclusão só tem sen- tido na sua relação com o argumento. Em síntese, esse entendimento conduz à exclusão da noção de topos da teoria ducrotiana, em razão dos princípios da retórica subjacente (1) a ela. A partir dessa fase, pressupõe-se que o texto é um bloco semântico inscrito no nível teórico da produção e reali- zado pelo encadeamento argumentativo complexo denominado como discurso, orientado argumen- tativamente pelo uso de conectores de natureza normativa e transgressiva. Esse movimento argu- mentativo é resultado da interdependência dos segmentos argumentativos, dos encadeamentos e por conseguinte dos blocos semânticos, que são interconectados e interdependentes nas relações de sentido que estabelecem entre si. 95 1. A teoria dos blocos semânticos Tomando como referencial a Teoria da Argumentação na Língua (ANL) em sua fase atual, a Teoria dos Blocos Semânticos é desenvolvida por Oswald Ducrot, em colaboração com Marion Carel, apre- sentando-se como um processo evolutivo dos estudos ducrotianos. Inicialmente elaborada por Oswald Ducrot, em cooperação com Jean-Claude Anscombre (1983), a propostateórica da Semântica Argumentativa, fundamenta-se sobre o pressuposto de que a língua é essencialmente argumentativa, e que o sentido é construído a partir do encadeamento discursivo. Fundamentada nas raízes estruturalistas de estudos linguísticos, a Teoria da Argumentação, no princípio, baseia-se em conceitos desta escola, posteriormente transformando-os e tornando-os mais amplos. Ao propor que o enunciado é unidade de sentido, produzida por um locutor posicio- nado entre o que diz e a outros discursos, dirigidos ao seu interlocutor, é inaugurada uma perspec- tiva enunciativa na (ANL). Todavia, é a partir das reflexões de Marion Carel que a Teoria da Argumentação na Língua sofre modificações significativas, com destaque para a tese de que os encadeamentos argumentativos não exprimem atos argumentativos. Atualmente, a TBS entende que é a interdependência entre os segmentos (argumento e conclusão) do discurso que constitui a argumentação. Segundo Freitas (2008), o caráter argumentativo de um encadeamento pela interdependência semântica de seus dois segmentos diferencia-se, na versão atual da teoria, por constituírem-se sobre duas estruturas básicas de argumentação: (I) a normativa em donc; (II) a transgressiva em pourtant. De modo que se constata que dois tipos elementares de argumentação fundamentam o discurso, não apenas a primeira forma. Ainda nesse percurso evolutivo, a Teoria dos Blocos Semânticos ainda amplia mais uma vez os horizontes da (ANL), ressignificando o conceito de enunciado, no qual a argumentação passa a ser concebida a partir do encadeamento enunciativo, desconsiderando o topos e seu entendimento como um terceiro elemento, responsável por articular a relação entre o argumento e a conclusão. 96 Resumindo, essa teoria orienta-nos a uma descrição semântica lexical, por meio da lexi- calização do bloco semântico, e à reflexão, e, por conseguinte, à reformulação do con- ceito de argumentação, ampliando o enten- dimento para sua natureza interna e externa e sua forma normativa e transgressiva. 1.1 A TBS e suas características A teoria dos topoi e a teoria dos blocos semânticos servem igualmente ao quadro geral da (ANL) em momentos distintos. Todavia, destoam completamente no que se refere a considerar a possibi- lidade de que o argumento e a conclusão de um encadeamento possam ser interpretados indepen- dentemente um do outro. Para a TBS, não é possível aceitar que um argumento conduz à conclusão por estarem ligados um ao outro por um topos para garantir o movimento do argumento para a conclusão. Pelo contrário, o que é proposto é que a relação entre argumento e conclusão constitui um bloco semântico, ou seja, são representações unitárias que juntas constroem o sentido dos encadeamentos argumentativos. Nessa perspectiva, o sentido só pode ser concebido a partir da fusão entre os dois segmentos de um determinado encadeamento, analisados conjuntamente, pois o sentido do argumento orienta e determina o sentido da conclusão, bem como o sentido da conclusão define o sentido do argumento. Portanto, encadeamentos argumentativos são duas entidades discursivas consecutivas que estabe- lecem uma interdependência semântica, ou seja, uma unidade de sentido inseparável denominada bloco semântico. A TBS considera o discurso e seus respectivos encadeamentos argumentativos como doado- res de sentido. Esses encadeamentos devem ser entendidos, sintaticamente, como continuação de duas proposições, unidas por um conector responsável pelos encadeamentos argumentativos. Argumentar, portanto, consiste em estabelecer blocos semânticos cujo caráter argumentativo se Assimile Um texto/discurso constitui uma unidade semân- tico-argumentativa, em que os encadeamentos argumentativos que o compõem são interdepen- dentes. É dessa inter-relação que emana o sentido. 97 manifesta por meio de duas estruturas básicas de encadeamentos, com conectores do tipo geral de DONC e do tipo de POURTANT (CAREL, 1997). A função exercida pelos encadeamentos argumentativos, indiferentemente de sua natureza geral, é de desenvolvimento das formas de representação imanentes das palavras sempre em consonância com a natureza das coisas, uma vez que elas estão a serviço do processo de categorização e refle- xão sobre as coisas. Em sua essência, a Teoria dos Blocos Semânticos pode ser condensada à luz dos respetivos tópicos: i. apenas o discurso é doador de sentido e da totalidade dos discursos, sendo que a TBS consi- dera apenas os sentidos imanentes dos encadeamentos argumentativos; ii. um encadeamento argumentativo é composto a partir de duas conjecturas, uma destinada ao argumento e uma à conclusão, cujo sentido do encadeamento está na interdependência das conjecturas; iii. entende-se por encadeamento argumentativo qualquer discurso sintaticamente analisável em duas frases que, de um ponto de vista semântico, sejam interdependentes e de represen- tação única; iv. os encadeamentos argumentativos são produzidos a partir de duas estruturas opositivas, A donc C e A pourtant non C, sendo que em ambas são estabelecidas relações de causa e consequência entre os segmentos argumento e conclusão. Cabe ainda destacar que tanto os enca- deamentos em donc, como os encadeamen- tos em pourtant, são enunciados argumen- tativos pois sua argumentatividade se dá por meio das relações estabelecidas entre os blocos semânticos, sobretudo porque são encadea- mentos elementares e com interdependência entre ambos. Para saber mais [...] O sentido de uma entidade linguística é ou de evocar um conjunto de discursos ou, se ela tem função puramente combinatória, de modificar os conjuntos de discursos associados a outras enti- dades. Só o discurso é, portanto, doador de sentido (DUCROT, 2002, p. 7). 98 Destarte, os encadeamentos com donc e com pourtant são essencialmente paralelos, uma vez que reúnem blocos, regras, aspec- tos tópicos, apresentando-os da mesma forma. Ambos se valem de si mesmos para construir um discurso razoável e legítimo, característica esta que os tornam, natural- mente, argumentativos. Em resumo, a TBS fundamenta-se em uma dimensão estruturalista, uma vez que tudo na língua é percebido em relação ao que o próprio sistema possibilita. Pode ser considerada de natureza saussuriana no que se refere às reflexões sobre o signo, língua, sistema, relações sintagmáticas e valor linguístico. Na essência dos estudos ducro- tianos, tais princípio permitiram ao pesquisador opor-se a concepções como condições de verdade, fatos enquanto justificativas para conclusões, demonstrações e acepção da língua como um instru- mento de representação de mundo. 1.2 Bloco e quase-bloco O grande atributo da TBS, na primeira fase de construção teórica, foi o entendimento de que todo enunciado é parafraseável por aspectos em donc e pourtant. Na etapa de revisão, nota-se que existem palavras/significações em que seus aspectos são apresentados de modo intermediário, uma espécie de adição entre normativo (DC) + transgressivo (PT). Considerada ainda uma fase experimental, diz respeito ao período atual da TBS, da qual emerge a noção de quase-bloco, apresentada no período letivo francês de 2013-2014. Valendo-se de um exemplo fundamentado na palavra prudente, a nova acepção é descrita: Esse entendimento de que uma palavra possui a alternativa de apresentar dois aspectos, e não apenas um dos dois aspectos, pode ser notada em discursos polêmicos conforme aponta Machado (2017, p. 1949), no exemplo a seguir: Para saber mais As regras têm, não de modo acidental, mas por na- tureza, exceções. Por isso, elas podem ser apreen- didas, de maneira perfeitamente simétrica, sob dois aspectos tópicos: o que exprime A donc C (aspecto tópico normativo) e o que exprime A pourtant non C (aspecto tópico transgressivo). (CAREL, 1997, p. 37). 99 • (1) Recebi uma boa quantia de dinheiro este mês.Este mesmo enunciado pode ser encade- ado com o segmento: portanto vou gastar ou no entanto não vou gastar, vou guardar na poupança. Neste exemplo de Machado (2017) à luz da nova teoria de Carel e Ducrot, a palavra plena seria o léxico dinheiro, que expressa um quase bloco, no sentido de que: dinheiro DC gastar + dinheiro PT não-gastar. Segundo (ibidem), até a apresentação da noção de “quase bloco”, não havia na TBS esta possibilidade, pois até então a interpretação deveria ser efetivada em uma das duas direções: ou normativa, ou transgressiva. No entanto, nesta etapa de amadurecimento teórico, o conteúdo intermediário é incorporado à teoria por meio do conceito técnico de quase-bloco, que para além da exatidão prevê a alternativa à descrição da língua e à enunciação, evidenciando que alguém tem dinheiro, e que neste caso tê-lo implica duas alternativas contrárias: gastá-lo e guardá-lo. • (X DC Y) ou (X PT NEG-Y) = exatidão • (X DC Y + X PT NEG-Y) = alternativa De acordo com Machado (2017), na revisão teórica da noção de bloco percebe-se que a trans- gressividade passa adentrar a normatividade, por meio da noção de quase-bloco, passando a ser representado conforme o exemplo a seguir: i. Quase-bloco converso (A DC C + A PT NEG-C) notado: A (C); ii. Quase-bloco transposto [NEG-A PT C + A DC C] notado: “(A) C. Interpretando a demonstração anterior, afirma-se que A representa o aporte, C seu suporte e os parênteses (----) representam o segmento sobre o qual se sustenta a afirmação + negação, inerente Exemplificando • Prudente → argumentação interna = perigo (DC = portanto) precaução. • Prudente → argumentação externa dois aspec- tos conversos: prudente (DC = portanto) segu- rança; e prudente (PT = no entanto) neg-segu- rança. No exemplo, a hipótese de que a significação de prudente contém o aspecto perigo DC preocupação é mantida. Todavia, os dois aspectos prudente DC segurança e prudente PT neg-segurança é excluí- do. De acordo com Machado (2017, p. 1949), o que o quase bloco comporta é a alternativa destes dois aspectos, e não os dois. 100 ao quase-bloco. Nesse sentido, a TBS pressupõe a partir da revisão bloco/quase-bloco, três moda- lidades esquemáticas e procedimentais de análise: (DC), (PT) e (DC + PT) ou seja (Portanto), (no entanto) e (Portanto + no entanto). 1.2.1 Paradoxo de Oposição e de Complementação A noção de paradoxo constitui outro ponto de impacto na revisão da TBS, contribuindo à reestru- turação de seu cabedal teórico. Considerando que a TBS visa estabelecer que a teoria é submissa à significância, e não o contrário, é razoável que a disposição elementar do quadrado argumentativo seja questionada (MACHADO, 2017): • (A1) Se Pedro está diante de algo perigoso por fazer, (DC) (C1) ele renunciará a fazê-lo. • (A2) Se Pedro está diante de algo perigoso por fazer, (DC) (C2) ele se precipitará por fazê-lo. Para chegar à diferença entre os dois blocos semânticos, é necessário parafraseá-los por encade- amentos (DC) que é o seu quase-bloco, para explicitar seus aspectos: • (A1) Pedro está diante do perigo, portanto desistirá. • (A2) Pedro está diante do perigo, portanto não desistirá. A explicação à distinção de sentido deve considerar que a relação, portanto/no entanto, aqui não se faz presente, uma vez que o processo enunciativo se dá por meio da relação, portanto/portanto, constituindo um paradoxo na fase de consolidação teórica (de oposição entre doxa e paradoxo) e um paradoxo na fase de revisão teórica (de união entre doxa e paradoxo). Em um primeiro momento, a explicação seria de que os enunciados anteriores (A1) (A2) são blo- cos contrários. Os dois enunciados não pertencem ao mesmo bloco: um sentido prediz a desistência diante do perigo: • (A1): Pedro está diante do perigo, portanto desistirá); e o outro pressupõe a não-desistência diante do perigo • (A2): Pedro está diante do perigo, portanto não desistirá). 101 Diante desta questão, pode-se dizer que o encadeamento de (A1) está para o bloco de prudente, e que o encadeamento de (A2) do bloco de audacioso. São, portanto, dois blocos díspares. Segundo Machado (2017) não se trata aqui de um processo enunciativo de transgressão (PT), uma vez que transgredir os encadeamentos acima, iria nos conduzir aos seus respectivos correlatos: • (A1): Pedro está diante do perigo, no entanto, não desistirá. (um prudente que se portaria de modo audacioso). • (A2): Pedro está diante do perigo, no entanto desistirá. (um audacioso que se portaria de modo prudente). Frente, dispor os dois blocos em paralelo: • (A1): (perigo DC desistir) e (perigo PT neg-desistir); • (A2): (perigo DC neg-desistir) e (perigo PT desistir). Não que seja uma máxima, mas ao apreciar os enunciados fica mais clara e aceitável a ideia de que, com relação ao perigo, em linhas gerais, qualquer indivíduo busca evitá-lo (A1), como sempre se evitam lugares ermos, escuros e de pouca circulação de pessoas, sites e links desconhecidos etc. Todavia, é plausível considerar que qualquer visão contrária à doxa pode ser sustentada no fato de que a própria segurança é um estado imaginário, uma vez que o acaso não é previsível, nem tampouco pré-definido. À luz de uma perspectiva analítica fundamentada nos aspectos linguísticos, embora a reflexão filosófica e social que integra as significações e sentidos devam ser consideradas no processo interpretativo, Machado (2017) argumenta que no processo evolutivo da (ANL) e seu modelo atual, os pesquisadores Carel e Ducrot propuseram pesquisar esta relação de significâncias mais óbvias/menos óbvias, respectivamente, como bloco doxal e bloco paradoxal. Deste modo, (ibidi) o padrão analítico proposto pelos pesquisadores ao primeiro bloco (A1) = (Perigo DC Desistir) a recebe a classificação de bloco doxal, e o segundo (A2) = (perigo DC neg- desistir) a de bloco paradoxal. Da perspectiva da linguística, um bloco paradoxal tem por finalidade contradizer um bloco anterior doxal, seria esse o entendimento consolidado na primeira fase desen- volvimento dessa teoria, e que está representado na figura a seguir: 102 FIGURA 1 - Esquema Doxal/Paradoxal em oposição FONTE: Machado (2017, p. 1953 apud Carel e Ducrot (2008, p. 11). Em síntese, na etapa de consolidação desta abordagem teórica, o paradoxo constitui-se ape- nas como uma noção relacional entre blocos (A1 versus A2), não uma relação dentro do mesmo bloco (portanto versus no entanto, entre outras possibilidades). De acordo com Machado (2017, p. 1954): “Trata-se, então, apenas de um sentido relacional, isto é, o paradoxal só existe em corre- lação com o doxal. Nesta fase, localiza-se um bloco paradoxal para Carel se se localiza um bloco doxal, que lhe opõe”. 103 Questão para reflexão Após todo estudo compartilhando neste material, você pôde conhecer um pouco mais sobre a Teoria dos Blocos Semânticos e a noção de quase-bloco, bem como seus respectivos pressupostos teóricos e possíveis aplicabilidades. Baseando-se nestes estudos, você irá desenvolver um processo analítico ensaístico nos enunciados a seguir. Aplique a noção de Doxal/Paradoxal. Bons estudos! • José acabou de ficar desempregado, portanto irá economizar agora. • José acabou de ficar desempregado, mas vai comprar um carro agora. Considerações Finais • É uma teoria que nos orienta a uma descrição semântica lexical, por meio da lexicalização do bloco semântico e à reflexão, e, por conseguinte, à reformulação do conceito de argu- mentação, ampliando o entendimento para sua natureza interna e externa, e sua forma normativa e transgressiva. • Para a TBS, não é possível aceitar que um argumento conduz à conclusão por estarem ligados um ao outro por um topos para garantir o movimento do argumento para a conclusão. Pelo contrário, o que é proposto é que a relação entre argumento e conclusão constituem um bloco semântico, ou seja, são representações unitárias quejuntas, constroem o sentido dos encade- amentos argumentativos. • A TBS considera o discurso e seus respectivos encadeamentos argumentativos como doadores de sentido. Esses encadeamentos devem ser entendidos, sintaticamente, como continuação de duas proposições, unidas por um conector responsável pelos encadeamentos argumentativos. • O grande atributo da TBS, na primeira fase de construção teórica, foi o entendimento de que todo enunciado é parafraseável por aspectos em donc e pourtant. Na etapa de revisão, nota- se que existem palavras/significações em que seus aspectos são apresentados de modo inter- mediário, uma espécie de adição entre normativo (DC) + transgressivo (PT), surgindo assim a noção de quase-bloco. 104 • A noção de paradoxo constitui outro ponto de impacto na revisão da TBS, contribuindo à reestru- turação de seu cabedal teórico. Considerando que a TBS visa estabelecer que a teoria é submissa à significância, e não o contrário. Seus desdobramentos resultam na proposta de estudo da relação de significâncias mais óbvias/menos óbvias, respectivamente, como bloco doxal e bloco paradoxal. Glossário Subjacente = que vem de ou por baixo, que não se manifesta claramente, ficando encoberto ou implícito. (DC) donc (PT) pourtant. (ibidi) expressão latina que significa idem/igual ao anterior. Verificação de leitura QUESTÃO 1-Com base nos estudos de Teoria dos Blocos Semânticos, avalie as assertivas a seguir: I - No quadro teórico da (TBS), é defendida a noção de que não há sentido fora do enca- deamento discursivo. II - Atualmente, a (TBS) entende que é a interdependência entre os segmentos (argumento e conclusão) do discurso que constitui a argumentação. III - A teoria dos topoi e a teoria dos blocos semânticos servem igualmente ao quadro geral da (ANL) em momentos distintos. IV – Entre as teorias dos topoi e dos blocos semânticos, a primeira é uma extensão da (ANL), ao passo que a segunda é uma negação da primeira teoria. Após a avaliação, é correto afirmar que: a) Apenas I está errada. b) Apenas III está errada. c) Apenas III e IV estão erradas. d) Apenas II está errada. e) Apenas IV está errada. 105 QUESTÃO 2-Escolha entre as alternativas a seguir a que melhor completa o argumento apresentado no excerto: “Para a TBS, não é possível aceitar que um argumento conduz à conclusão por estarem ligados um ao outro por um topoi para garantir o movimento do argumento para a con- clusão. Pelo contrário, o que é proposto é que a relação entre argumento e conclusão constituem um bloco semântico, (...)”. a) ou seja, são representações binárias que juntas constroem o sentido dos encadeamentos argumentativos. b) ou seja, são representações unitárias que juntas constroem o sentido dos encadeamentos argumentativos. c) ou seja, são representações secundárias que juntas constroem o sentido dos encadea- mentos argumentativos. d) ou seja, são representações subjacentes que juntas constroem o sentido dos encadea- mentos argumentativos. e) ou seja, são representações constitutivas que juntas constroem o sentido dos encadea- mentos argumentativos. QUESTÃO 3-Com base nos estudos desenvolvidos sobre a Teoria dos blocos Semânticos, analise o excerto a seguir e complete suas respectivas lacunas com a sequência de pala- vras corretas à construção de sentido sobre o assunto em questão. Em resumo, a TBS fundamenta-se em uma__________ estruturalista, uma vez que tudo na língua é percebido em relação ao que o próprio sistema possibilita. Pode ser considera- da de natureza saussuriana no que se refere às____________ sobre o signo, língua, siste- ma, ____________sintagmáticas e valor linguístico. Na essência dos estudos ducrotiano, tais princípio permitiram ao pesquisador opor-se a ______________como condições de verdade, fatos enquanto justificativas para conclusões, demonstrações e ___________da língua como um instrumento de representação de mundo. a) Acepção, relações, reflexões, concepções, dimensão. b) Acepção, concepções, relações, reflexões, dimensão. c) Dimensão, reflexões, relações, concepções, acepção. d) Dimensão, reflexões, concepções, relações, acepção. e) Dimensão, concepções, reflexões, relações, acepção. 106 Referências Bibliográficas CAREL, Marion. L’argumentation dans le discours: argumenter n’est pas justifier. Letras de Hoje, Porto Alegre: EDIPUCRS, v. 32, n. 1, p. 23–40, março 1997. CAREL, Marion; DUCROT, Oswald. Descrição argumentativa e descrição polifônica: o caso da negação. Trad. Leci Borges Barbisan. Letras de Hoje, Porto Alegre, PUC, v. 43, n. 1, p. 7-18, 2008. DUCROT, Oswald. Os internalizadores. Letras de Hoje. Porto Alegre: EDIPUCRS, v. 37, n. 129, p. 7–26, setembro 2002. FREITAS, Ernani C. Blocos Semânticos: o movimento argumentativo na construção do sentido no discurso. Revista do GEL, S. J. do Rio Preto, v. 5, n. 1, p. 109-128, 2008. MACHADO, Júlio C. A Teoria dos Blocos Semânticos em revisão. Revista de Estudos da Linguagem, Belo Horizonte, v. 25, n. 4, p. 1935-1964, 2017. Gabarito QUESTÃO 1-Alternativa E - Tanto a teoria dos topoi como a dos blocos semânticos são pertencentes ao quadro da ANL e constituem-se como processo evolutivos desta. QUESTÃO 2-Alternativa B - Para a TBS, não é possível aceitar que um argumento conduz à conclusão por estarem ligados um ao outro por um topoi para garantir o movimento do argumento para a conclusão. Pelo contrário, o que é proposto é que a relação entre argu- mento e conclusão constituem um bloco semântico, ou seja, são representações unitárias que juntas constroem o sentido dos encadeamentos argumentativos. 107 QUESTÃO 3-Alternativa C - Em resumo, a TBS fundamenta-se em uma dimensão estrutu- ralista, uma vez que tudo na língua é percebido em relação ao que o próprio sistema possi- bilita. Pode ser considerada de natureza saussuriana no que se refere às reflexões sobre o signo, língua, sistema, relações sintagmáticas e valor linguístico. Na essência dos estudos ducrotianos, tais princípio permitiram ao pesquisador opor-se a concepções como condi- ções de verdade, fatos enquanto justificativas para conclusões, demonstrações e acepção da língua como um instrumento de representação de mundo. 8 Semântica no ensino de língua portuguesa 109 Objetivos Específicos • Apresentar as duas principais abordagens dos estudos linguísticos empregadas no processo de ensino-aprendizagem de línguas; • Refletir sobre o contexto atual de ensino de Língua Portuguesa no Brasil em meio a diferentes teorias semânticas; • Elaborar um modelo descritivo-analítico empregando diferentes recursos semânticos funda- mentados em diferentes vertentes. Introdução Os estudos desenvolvidos ao longo de todo esse percurso investigativo sobre as diferentes verten- tes semânticas possibilitaram ampliar o entendimento do papel dessa disciplina no processo inter- pretativo, consequentemente, a construção de sentido. Foi possível notar que cada escola e seus respectivos fundamentos, princípios e arsenal teórico corroboram ao desenvolvimento de múltiplas abordagens de análise discursiva. Do estruturalismo saussuriano à teoria dos blocos semânticos pro- posta por Ducrot, Carel e colaboradores, estabeleceu-se um percurso elucidativo, porém sintético àqueles que desejam se aprofundar na arte da interpretação textual, valendo-se de um conjunto de ferramentas diversificadas e organizadas de acordo com o movimento evolutivo dos estudos Linguísticos e da Semântica enquanto disciplina de seu arcabouço. É fato que essa trajetória permi- tiu-nos constatar limitações e fragilidades, bem como também notar a eficácia de alguns procedi- mentos analíticos e suas respectivas abordagens semânticas, entretanto é importante destacar que, de ambas as situações, é possível absorver suas respectivas noções e padrões operacionais à extra- ção do sentido das palavras, frases, enunciados, discursos e textos. Seja considerando a língua como instrumento de representação da realidade,como portadora de todo o sentido, ou mesmo como dependente de elementos extralinguísticos e/ou de relações lógi- cas, há um aspecto convergente entre todas as escolas estudadas: o sentido é objeto de investiga- ção da semântica e está inscrito na língua por meio de práticas e convenções sociais que de forma 110 direta, ou indireta atuam no processo de construção de sentido, portanto nas relações humanas mediadas pela linguagem. Deste modo, no atual cenário educacional dá-se vazão ao entendimento de que o estudo da Língua Portuguesa deve ser conduzido com vista à construção de sentido por meio da investigação das relações dialógicas, dos processos polifônicos e intertextuais, considerando sobretudo o conte- údo enunciado, deixando em segundo plano a forma e suas respectivas classificações e categoriza- ções, ou seja, um olhar atento para o sentido negociado entre os interlocutores. 1. A Linguística no processo de ensino-aprendizagem da língua A linguística contemporânea é constituída a partir de diferentes vertentes teóricas que emergiram ao longo do século XX e que se consolidaram no início do século XXI. O vasto cabedal teórico desen- volvido na formação epistemológica de seu objeto de estudo, conduziu a linguística a segregação no que se refere ao estudo da linguagem enquanto campo científico, estabelecendo em especial, duas correntes filosóficas: o Formalismo e Funcionalismo. Desenvolvidos do ponto de vista cronológico quase que de forma concomitante, as duas verten- tes sintetizam as duas principais abordagens de análise da linguagem, sendo que uma é fundamen- tada no primado da forma linguística, portanto está ligada às unidades estruturais da língua, e a outra priorizando a função que as unidades linguísticas assumem no sistema. Cabe ainda destacar que entre os expoentes do formalismo linguístico estão os linguistas vincu- lados à corrente estruturalista norte-americana, tais como Leonard Bloomfield, Fries, Harris, além de outros pesquisadores não tão renomados, mas que também contribuíram ao desenvolvimento do gerativismo proposto por Noam Chomsky. A escola funcionalista desenvolveu-se, inicialmente, em observância aos postulados teóricos oriundos do estruturalismo europeu, especificamente, das Escolas de Genebra, tendo como maio- res expoentes respectivamente, Saussure e Martinet, e de Praga com destaque para Trubetzkoy, 111 Jakobson e Danes. Posteriormente, ressig- nificada nos moldes da gramática funcional desenvolvida na Escola de Londres por Firth e Halliday, e no Grupo da Holanda, inicial- mente com Reichling, e subsequentemente com Dik. Em uma perspectiva formalista, estudar a língua implica destacar a autonomia das formas linguísticas, ou seja, uma valorização da sintaxe, na qual as unidades presentes no sistema são concebidas como suporte à gra- mática mental sob a qual se constitui a com- petência linguística (NEVES, 1994). Uma abordagem funcional se materializa pela investigação dos aspectos e mecanis- mos de funcionais que orientam o sistema, com vista ao uso e à competência comu- nicativa do falante. Ao lançar mão do seu conhecimento linguístico, o usuário da lín- gua é capaz de discernir entre o que é ine- rente à gramática e o não realizável com relação a ela, bem como a distinção entre esse conhecimento e o saber pragmático que permite adequar a linguagem ao seu contexto sociointeracional. Para Neves (1994, p. 114 apud Halliday 1985), as gramáticas formais se opõem às Exemplificando Se analisadas de categorias verbais, destacando-se a questão do uso de preposições na regência do verbo, o estudo formalista contemplaria apenas as possíveis combinações entre verbo e preposição na estrutura gramatical da língua, ao passo que em uma abordagem funcional essa mesma combinação seria observada à luz de seu emprego em diferentes contextos comunicacionais. Portanto, no paradig- ma funcional, a transitividade (direta ou indireta) e intransitividade de algumas categorias verbais (as- sistir, obedecer, atender etc.) podem ser percebi- das em sua natureza usual, para além da estrutura, permitindo capturar a orientação argumentativa do falante, conforme demonstra o modelo a seguir: a) Abordagem formalista: • Embora estivesse feliz, optou por não ir à festa. (1) (2) Sujeito oculto (ele) = estivesse / optou Estivesse = VL / Optou = VTI Feliz = predicativo do sujeito / não ir à festa = obje- to indireto (complemento verbal) Embora = conjunção subordinativa adverbial con- cessiva. Relação entre orações = (1) Oração Subordinada Adverbial Concessiva (2) Oração Principal. b) Abordagem funcionalista: Embora estivesse feliz, optou por não ir à festa. Forma: sujeito oculto (ele) = estivesse / optou / função: evitar a repetição desnecessária de um ter- mo e/ou palavra dando mais dinamismo ao enun- ciado, demonstrando domínio das estruturas do sistema linguístico. Forma: estivesse = VL / Optou = VTI / função: indi- car o estado das coisas e a escolha com relação a ele. Feliz = predicativo do sujeito / não ir à festa = ob- jeto indireto (complemento verbal) / função: qual- ificar e revelar estado do seu referente / explicitar a orientação de sua escolha mediante o estado do referente. Forma: embora = conjunção subordinativa adver- bial concessiva. Função: expressar relação de con- cessão entre ideias. Forma: Relação entre orações = (1) Oração Subor- dinada Adverbial Concessiva (2) Oração Principal. Função: permitir o sujeito falante que expresse ideia de exceção diante de uma circunstância seja ela favorável ou desfavorável. 112 funcionais porque, ao fundamentar-se na lógica e na filosofia, acabam por desenvolver uma orien- tação primariamente sintagmática. Ao passo que as funcionais, alicerçadas na retórica e na etno- grafia, são paradigmáticas. Ou seja, a abordagem formalista valoriza a relação entre os sintagmas como forma de análise e construção de sentido, enquanto a funcionalista evidencia a relevância das combinações possíveis no nível paradigmático e suas implicações. QUADRO 1 - Comparação entre o paradigma formal e o funcional Gramática formal Gramática funcional Orientação primariamente sintagmática Orientação primariamente paradigmática Interpretação da lingua como um conjunto de estruturas entre as quais podem ser estabelecidas relaçãos regulares Interpretação da língua como uma rede de relaçãos: as estruturas como interpretação das relações Ênfase nos traços universais da língua (sintaxe como base: organização em torno da frase) Ênfase nas variações entre línguas diferentes (semântica como base: organização em torno do texto ou discurso) FONTE: (M. A. K. Halliday, 1985, Introduction. Adaptação de M. H. M. Neves). QUADRO 2 - Comparação entre o paradigma formal e o funcional / Aspectos ASPECTOS PARADIGMA FORMAL PARADIGMA FUNCIONAL 1 Como definir a língua Conjunto de orações Instrumento de interação social 2 Principal função da língua Expressão dos pensamentos Cominicação 3 Correlato psicológico Competências: capacidade de produzir, interpretar e julgar orações Competência comunicativa: habilidade de interagir socialmente com a língua 4 O sistema e seu uso O estudo da competência tem prioridade sobre o da atuação O estudo do sistema deve fazer-se dentro do quadro de uso 5 Língua e - contexto/ situação As orações da língua devem descrever-se independentemente do contexto / situação A descrição das expressões deve fornecer dados para a descrição de seu funcionamento num dado contexto 113 6 Aquisição da linguagem Faz-ser com o uso de propriedades inatas, com base em um input restrito e não estruturado de dado Faz-se com a ajuda de um input extenso e estruturado de dados apresentado no contexto natural 7 Universais linguísticos Propriedades inatas do organismo humano Explicados em função de restrições: comunicativas: biológicas ou psicológicas; contextuais 8 Relação entrea sintaxe, a semêntica e a pragmática A sintaxe é autônoma em relação à semântica; as duas são autônomas em rrelação à pragmática; as prioridades vão da sintaxe A pragmática é o quadro dentro do qual a semântica e a sintaxe devem ser estudadas; as prioridades vão da pragmática à sintaxe, via semântica FONTE: Baseado em (C. S. Dik, 1978, p. 5, retomado e explicitado em 1989, p. 2-7. Adaptação de M. H. M. Neves). As diferenças entre as duas abordagens proporcionam modos distintos de se conceber a natureza da linguagem. Os formalistas, como Chomsky, percebem a linguagem como fenômeno mental, ao passo que os funcionalistas como fenômeno primariamente social. No que se refere aos universais linguísticos, pelos formalistas são compreendidos como herança linguística genética comum da espécie humana, enquanto que funcionalistas diluem a questão como derivação da universalidade dos usos da linguagem nas sociedades humanas. Quanto à aquisição da linguagem, os formalistas defendem a existência de uma capacidade humana inata para aprender a linguagem, enquanto os funcionalistas argumentam ser o fenômeno de aquisição da linguagem, um processo desenvolvimento das necessidades e habilidades comunicativas da criança. Em síntese, pode-se afirmar que os formalistas estudam a linguagem como um sistema autônomo, ao passo que os funcionalistas a estudam vislumbrando a sua função social. Apesar de serem pers- pectivas teóricas com bases epistemológicas distintas, tanto o formalismo quanto o funcionalismo não se posicionam de forma excludente, tornando-se auto complementares no percurso investiga- tivo enquanto recursos ao desenvolvimento das ciências da linguagem. Tal oposição filosófica apenas ratifica o caráter multifacetário linguagem, explicitando sua natureza formal e funcional, estrutural e usual, abstrata e real, dimensões essas essenciais e insubstituíveis à comunicação humana. 114 1.1 Semântica aplicada à leitura e produção textual em língua portuguesa Como dito anteriormente, a trajetória percorrida ao longo dos nossos estudos sobre semântica não teve por objetivo classificar esta ou aquela vertente como melhor, ou mais eficaz etc. Nosso intuito foi o de apresentar uma síntese do panorama geral das pesquisas nesse segmento da linguística. Do ponto de vista científico, fica evidenciado o processo evolutivo pelo qual a semântica, enquanto disciplina de linguística e instrumento da semiologia e/ou semiótica, parte do estudo da palavra ao discurso, ora contemplando aspectos de natureza retórica, lógica, estrutural e pragmática, ora fler- tando com o sentido por meio do léxico, da frase, do enunciado e do texto. O cerne da questão é: seja qual for a vertente teórica e seu respectivo enfoque metodológico, o objeto de estudo comum a toda e qualquer escola semântica é o sentido, seja ele observado e extraído à luz do formalismo ou do funcionalismo e/ou outras vertentes possíveis, o foco permanece sendo a construção de sentido e seus desdobramentos no processo comunicativo. Neste instante parece-nos oportuno recuperar um pressuposto já apresentado no tema 1, quando iniciamos os estudos sobre semântica e ensino de língua portuguesa. Na ocasião destacamos que o componente Língua Portuguesa da BNCC (2017, p. 65) dialoga com documentos e orientações curri- culares produzidos nas últimas décadas, buscando atualizá-los em relação às pesquisas recentes da área e às transformações das práticas de linguagem ocorridas neste século, devidas em grande parte ao desenvolvimento das tecnologias digitais da informação e comunicação (TDIC). Motivo pelo qual somos convocados a assumir uma perspectiva enunciativo-discursiva de lin- guagem, já assumida em outros documentos, como os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), sob o entendimento de que a linguagem é “[...] uma forma de ação interindividual orientada para uma finalidade específica; um processo de interlocução que se realiza nas práticas sociais existentes numa sociedade, nos distintos momentos de sua história” (BRASIL, 1998, p. 20). Em outras palavras, a Base Nacional Curricular Comum (BNCC - 2017) e os outros documentos oficiais Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) com os quais dialoga, orienta-nos a ressignificar 115 nossa prática docente no que se refere à abordagem empregada no ensino de Língua Portuguesa. Em nosso entendimento não está sendo solicitado que sejam abandonados e/ou extintos os estudos gramaticais de natureza fonética, fonológica, morfológica e sintática. Na verdade, muito pelo contrário, o que se espera é o emprego desses saberes na construção de um arsenal metodológico que atenda às demandas do processo ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa. Vamos refletir! Do que vale saber se um sujeito é simples, composto, oculto, indeterminado ou inexistente, se discursivamente o falante não sabe como interpretar os sentidos por detrás dessas escolhas por parte do enunciador, ou mesmo empregar essas estruturas sintáticas classificadas com nomenclatu- ras esdrúxulas na produção do seu próprio discurso nas práticas comunicativas diversas? De que forma saber que um fonema possui timbres com aspectos de sonoridade aberta, fechada e redu- zidas, oriundos das cavidades bucal e nasal etc. contribuirá para a realização da atividade comunicativa? Ou mesmo estabelecer a distinção entre uma conjunção e uma preposição, de um adjetivo e um advérbio etc.? A resposta a essas indagações é tão complexa quanto a própria área de estudo em que se enseja, pois graças a todos os avanços obtidos nos estudos linguísticos ao longo dos séculos e, porque não milênios, dispomos atualmente deste vasto arsenal descritivo à língua; sua relevância científica-his- tórica, portanto é inquestionável. Entretanto, a nova dinâmica sócio-comunicacional oriunda do advento das Tecnologias Digitais de Informação e comunicação (TDIC) multimodalizam as práticas letradas, produzindo textos cada vez mais sincréticos e notoriamente investidos das características dos ambientes virtuais. A noção de gênero enquanto forma de produção textual relativamente estável e atrelada a uma determinada esfera de atividade humana legitima-se na relativa estabilidade. As crianças e jovens da chamada geração de nativos digitais não concebem mais o processo de alfabetização e letramento como os indivíduos de outrora. O texto deixa de ser entendido como fruto da escrita tradicional fundamentada em um determinado sistema, dando lugar a uma trama discur- siva de natureza híbrida, na qual a tessitura argumentativa se perfaz por meio do sincretismo linguís- tico que originalmente denominamos como gêneros emergentes (MARCUSCHI, 2004; FRANÇA, 2015). 116 Em outras palavras, o que se pretende evidenciar aqui é o fato de que a leitura e a produção tex- tual na sociedade digital pressupõem a interpretação e o entendimento de estruturas enunciativas de naturezas diversas. A considerar os elementos textuais e paratextuais constituídos a partir de lin- guagens verbais e não-verbais (verbo-visuais) que corroboram à teia argumentativa. Embora haja aqueles que contestem o papel das TDIC no processo evolutivo das práticas comuni- cativas, alegando que as redes sociais e suas práticas promovem a inobservância das regras grama- ticais na produção escrita por parte dos internautas, é necessário também considerar que: 1. Os indivíduos tidos como nativos digitais se apropriam dos códigos linguísticos e das práticas letradas digitais de forma autônoma e autodidata. Antes mesmo de chegarem a idade escolar, já são capazes de navegar na WEB e manusear smarth phones e similares com relativo domí- nio e tranquilidade; 2. As práticas sociais digitais permitem uma maior exposição à leitura e, por conseguinte, à escrita, pois não há como participar desses espaços de interação, a menos que se faça uso da leitura e da escrita, a começar pelo login; 3. A maior parte dos serviços públicos (bancos,inscrição em concursos, reclamações, ocorrência policial etc.) são prestados, previamente, por meio dos ambientes virtuais, logo a necessidade de se alfabetizar e promover letramentos que empoderem os indivíduos às práticas letradas digitais e, consequentemente, ao exercício da cidadania, se faz iminente se realmente quere- mos avançar como nação e pátria educadora e participativa. Deste modo, ensinar e aprender língua portuguesa deixa de ser apenas uma mera operaciona- lização dos mecanismos e estruturas linguísticas previstos neste sistema para tornar-se um pro- cesso de investigação do sentido das coisas e da realidade ao entorno. Não aprendemos uma língua para descrevê-la e classificá-la de acordo com categorias pré-estabelecidas, independentemente, de qualquer finalidade que não está em si mesma. Em verdade, aprendemos sobre a língua em razão da necessidade comunicativa intrínseca ao ser humano, que à medida que desenvolve sua competência linguística, amplia sua competência comunicacional. Nesse sentido, é importante considerar que o contexto atual requer um novo olhar sobre 117 o ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa, uma abordagem que empo- dere os indivíduos não apenas a descrever e classificar as estruturas da linguagem, mas que sobretudo permita extrair o sen- tido negociado por meio do texto inscrito na própria língua em colaboração com os ele- mentos extralinguísticos, assim compondo um arsenal didático, metodológico e analí- tico coerente com as práticas da era digital e eficiente ao desenvolvimento das com- petências leitora e escrita, consequente- mente, comunicativa. 2. Da teoria à Aplicação Você pode estar se perguntando de que forma será possível aplicar conceitos e recursos de todas essas escolas semânticas que foram apresentadas, sem contar que por razões epistemológicas, algumas nem devem ser misturadas. Recuperado o objetivo central deste percurso de estudos - “Promover reflexão crítica acerca da semântica argumentativa no Ensino de Língua Portuguesa”, parece-nos razoável afirmar que a relação entre conhecimento conceitual apresentado e o atitudinal esperado seja justamente a capacidade de construir modelos investigativos do sentido presente nos mais diferentes discursos, gêneros e esferas do conhecimento. Ser capaz de articular os diferentes procedimentos descritivos e analíticos das teorias semânticas de fundamento linguístico, pressupõe o desenvolvimento de habilidades associativas, constitutivas, analíticas e avaliativas. O conjunto teórico compartilhado empodera seu detentor a experimen- tar, a criar, a inovar, portanto, é imperativo que nesse estágio o analista busque observar o texto Para saber mais É importante, de qualquer modo, enfatizar que a origem da linguagem está relacionada com a ne- cessidade de comunicação entre os seres humanos: Antes de mais nada é preciso dizer que a comu- nicação é uma necessidade inerente de qualquer ser humano. O homem das cavernas deixou sua história contada. No momento que dois ou mais seres humanos se encontram necessariamente a comunicação passa a ser vital para a convivência e reprodução deste grupo social. Agora, quanto mais organizada for uma sociedade humana, mais complexos serão os seus sistemas de comunicação e mais complexa será a sua compreensão (TRIGUE- IRO, 2001). 118 procurando reconhecer o conjunto argumentativo. Observar o todo, estabelecer relações dialógicas, polifônicas, intertextuais. Perceber os elementos paratextuais, marcas tipográficas, cores, gráficos, tabelas, figuras, cinética etc. Nessa etapa também deve ser operacionalizado o arsenal linguístico estrutural de natureza for- malista e funcionalista, desde que o objeto analisado permita tal emprego, que de alguma forma ainda contribui hipoteticamente a uma abordagem TBS da qual os blocos e quase-blocos nascem de alguns princípios estruturalistas em oposição ao extralinguístico. Note que a ideia aqui proposta é a de hibridizar as bases teóricas e seus respectivos recursos, é claro que para efeito de pesquisa é necessário que se respeite os limites epistemológicos que per- mitem tais conexões, todavia enquanto conjunto de ferramentas, devem ser exploradas de acordo com a demanda investigativa, o tipo de texto, contexto, entendimento, proposta, orientação prévia ou não, o que realmente importa é a eficiência em extrair sentido das coisas, sobretudo em colaborar para que o outro também o faça. Ou seja, aprimorar o processo comunicacional ao ensino-aprendi- zagem de Língua Portuguesa, fornecendo ferramentas de interpretação e produção textual sob dife- rentes concepções. Vejamos: 119 FIGURA 1 - Modelo descritivo-analítico semântico FONTE:O autor. Dados disponível em: https://www.uol.com.br/ . Acesso em 21 de mar. 2018. FIGURA 2 - Modelo descritivo-analítico semântico FONTE: O autor. Dados disponível em: https://www.uol.com.br/ . Acesso em 21 de mar. 2018. 120 Por fim, esperamos que você possa ter aprendido um pouco mais sobre cada Escola Semântica e seus respectivos expoentes e construtos. Acreditamos também, que a partir do conhecimento desen- volvido ao longo desse percurso de estudos, somado aos exemplos de aplicação teórica, você será capaz de criar seus próprios modelos de construção de sentido, subsequentemente, suas próprias estratégias à interpretação e produção textual, ressignificando o processo ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa em consonância ao que pactua a Base Nacional Curricular Comum (BNCC) . 3. Situação-problema Após todo estudo compartilhando neste material, você pôde conhecer um pouco mais sobre as teorias semânticas e sua aplicabilidade no ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa. Baseando-se nestes estudos, você irá desenvolver um processo descritivo-analítico no conjunto textual a seguir, conforme os exemplos das Figuras 1 e 2. Bons estudos! Conjunto textual FIGURA 3 - Atividade descritiva-analítica FONTE: Disponível em: <http://www.estadao.com.br/>. Acesso em: 21 de mar. 2018. 121 Questão para reflexão Baseando-se em todos os estudos desenvolvidos ao longo dessa jornada sobre as diferentes ver- tentes semânticas e suas implicações ao ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa, apresente de forma objetiva e fundamentada uma reflexão sobre as contribuições desses estudos ao processo comunicativo, com ênfase na construção de sentido para quem interpreta e produz texto. Considerações Finais • A linguística contemporânea é constituída a partir de diferentes vertentes teóricas que emergi- ram ao longo do século XX e que se consolidaram no início do século XXI. O vasto cabedal teó- rico desenvolvido na formação epistemológica de seu objeto de estudo conduziu a linguística à segregação no que se refere ao estudo da linguagem enquanto campo científico, estabele- cendo, em especial, duas correntes filosóficas: o Formalismo e Funcionalismo. • As diferenças entre as duas abordagens proporcionam modos distintos de se conceber a natu- reza da linguagem. Os formalistas como Chomsky percebem a linguagem como fenômeno mental, ao passo que os funcionalistas como fenômeno primariamente social. • Em síntese, pode-se afirmar que os formalistas estudam a linguagem como um sistema autô- nomo, ao passo que os funcionalistas a estudam vislumbrando a sua função social. • Seja qual for a vertente teórica e seu respectivo enfoque metodológico, o objeto de estudo comum a toda e qualquer escola semântica é o sentido, seja ele observado e extraído à luz do formalismo ou do funcionalismo e/ou outras vertentes possíveis, o foco permanece sendo a construção de sentido e seus desdobramentos no processo comunicativo. Glossário • Multimodalizam: Várias modalidades (linguagem). • Sincrética: Aquilo que mistura, mescla (linguagem). • Paratextuais: Elementos textuais de apoio, que colaboram no processo comunicativo das partes do texto. 122 Verificação de leitura QUESTÃO 1-Com base nos estudossobre semântica aplicada ao ensino de Língua Portu- guesa, avalie as assertivas a seguir: I - O atual cenário educacional dá vazão ao entendimento de que o estudo da Língua Por- tuguesa deve ser conduzido com vista à construção de sentido. II – O estudo sistematizado das classes e categorias funcionais de uma língua constituem os alicerces da BNCC (2017). III - A concepção semântica estruturalista compõe o eixo central de estudos da Língua Portuguesa de acordo com BNCC (2017). IV - O conteúdo enunciado deve ser valorizado em detrimento da forma e suas respectivas classificações e categorizações, ou seja, um olhar atento para o sentido negociado entre os interlocutores. Após a avaliação é correto afirmar que: a) Apenas I e II estão erradas. b) Apenas III está errada. c) Apenas II e III estão erradas. d) Apenas II está errada. e) Apenas IV está errada. QUESTÃO 2-Escolha entre as alternativas a seguir a que melhor completa o argumento apresentado no excerto: “A linguística contemporânea é constituída a partir de diferentes vertentes teóricas que emergiram ao longo do século XX e que se consolidaram no início do século XXI. O vasto cabedal teórico desenvolvido na formação epistemológica de seu objeto de estudo, con- duziu a linguística a segregação no que se refere ao estudo da linguagem enquanto campo científico, estabelecendo em especial, duas correntes filosóficas: (...)”. a) O Gerativismo formalista e a Lógica Clássica. b) O Formalismo e o Funcionalismo. c) A Linguística Textual e a Semântica da palavra. 123 d) O Formalismo e o Estruturalismo. e) O Estruturalismo e o Gerativismo. QUESTÃO 3-Com base nos estudos desenvolvidos sobre os estudos semânticos aplicados ao ensino de Língua Portuguesa, analise o excerto a seguir e complete suas respectivas lacunas com a sequência de palavras corretas à construção de sentido sobre o assunto em questão. As gramáticas _________ se opõem às _________ porque, ao fundamentar-se na _________e na filosofia, acabam por desenvolver uma orientação primariamente sintag- mática. Ao passo que as funcionais, alicerçadas na _________e na etnografia são para- digmáticas. Ou seja, a abordagem _________valoriza a relação entre os sintagmas como forma de análise e construção de sentido, enquanto a _________ evidencia a relevância das combinações possíveis no nível paradigmático e suas implicações. a) Funcionais, formais, lógica, formalista, retórica, funcionalista. b) Formalista, funcionais, retórica, lógica, funcionalista, formais. c) Funcionais, formais, lógica, retórica, formalista, funcionalista. d) Formais, funcionais, lógica, retórica, formalista, funcionalista. e) Funcionais, formais, formalista, retórica, funcionalista, lógica. 124 Referências Bibliográficas BRASIL. Base Nacional Curricular Comum. Brasília: Mec, 2017. 65 p. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/index.php>. Acesso em: 28 jan. 2018. FRANÇA, M. M. Retórica e discurso publicitário digital: Semiose da Trilogia Éthos, Lógos & Páthos. 2015. 226 f. Tese (Doutorado) - Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015. MARCUSCHI, L. A. Gêneros textuais emergentes no contexto da tecnologia digital. In: MARCUSCHI, L. A. & XAVIER, A. C. (Orgs.) Hipertexto e gêneros digitais. Rio de Janeiro: Editora Lucerna, 2004. NEVES, Maria H. Uma Visão Geral da Gramática Funcional. Alfa, São Paulo, 38: p.109-127,1994. TRIGUEIRO, Osvaldo. O estudo científico da comunicação: avanços teóricos e meto- dológicos ensejados pela escola latino-americana. Pensamento Comunicacional Latino Americano, v. 2, n. 2, jan.–mar., 2001. 125 Gabarito QUESTÃO 1-Alternativa C - (II) O estudo deve ser focado no discurso, e não formas estru- turais; (III) Não há predileção entre modelos semânticos A e B, o ponto-chave é a capaci- dade de articular as diferentes concepções em busca do sentido. QUESTÃO 2-Alternativa D - A linguística contemporânea é constituída a partir de dife- rentes vertentes teóricas que emergiram ao longo do século XX e que se consolidaram no início do século XXI. O vasto cabedal teórico desenvolvido na formação epistemológica de seu objeto de estudo conduziu a linguística a segregação no que se refere ao estudo da linguagem enquanto campo científico, estabelecendo em especial, duas correntes filosó- ficas: o Formalismo e Funcionalismo. QUESTÃO 3-Alternativa D - Para Neves (1994, p. 114 apud Halliday 1985), as gramáticas formais se opõem às funcionais porque, ao fundamentar-se na lógica e na filosofia, aca- bam por desenvolver uma orientação primariamente sintagmática. Ao passo que as fun- cionais, alicerçadas na retórica e na etnografia, são paradigmáticas. Ou seja, a aborda- gem formalista valoriza a relação entre os sintagmas como forma de análise e construção de sentido, enquanto a funcionalista evidencia a relevância das combinações possíveis no nível paradigmático e suas implicações.