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1 Laís Flauzino | ANATOMIA PATOLÓGICA | 7°P Cardiomiopatias Doença do músculo cardíaco. • As cardiomiopatias são um grupo heterogêneo de doenças do miocárdio associadas a disfunções mecânicas e/ou elétricas que geralmente (mas não invariavelmente) exibem hipertrofia ou dilatação ventricular inadequada e são devidas a uma variedade de causas que, com frequência, são genéticas. • As cardiomiopatias são confinadas ao coração ou fazem parte de distúrbios sistêmicos generalizados, muitas vezes levando à morte cardiovascular ou à incapacidade relacionada à insuficiência cardíaca progressiva. Grupos de cardiomiopatias: • Cardiomiopatias primárias: envolvem o coração. Podem ser genéticas ou adquiridas – miocardite viral, antraciclinca cardiotóxica. • Cardiomiopatias secundárias: envolvem o miocárdio como componente de um distúrbio sistêmico ou de múltiplos órgãos – hemocromatose, amiloidose. Patogênese: Identificação das causas genéticas subjacentes, como mutações em proteínas miocárdicas envolvidas na geração de energia, contração, contatos célula a célula ou conexão do citoesqueleto à matriz extracelular. Estas, por sua vez, levam à contração ou relaxamento anormais, ou ao transporte desregulado de íons, podendo causar arritmias. Classificação: Podem ser classificadas de acordo com vários critérios, incluindo a base genética subjacente da disfunção. Limitando em distúrbios que produzem anormalidades anatômicas que se enquadram em um dos 3 padrões patológicos distintos: • Cardiomiopatia dilatada (CMD) (incluindo cardiomiopatia arritmogênica) – mais comum. • Cardiomiopatia hipertrófica • Cardiomiopatia restritiva – menos frequente Figura 12.28 Os três principais padrões morfológicos das cardiomiopatias. A cardiomiopatia dilatada leva, principalmente, à disfunção sistólica, enquanto as cardiomiopatias restritivas e hipertróficas resultam em disfunção diastólica. Observe as alterações na espessura da parede atrial e/ou ventricular. AE, átrio esquerdo; Ao, Aorta; VE, ventrículo esquerdo. Dentro de cada padrão, há um espectro de gravidade clínica e, em alguns casos, as características clínicas se sobrepõem entre os grupos. Além disso, cada um desses padrões está associado a uma causa identificável específica ou idiopática; embora muitos casos de CMD tenham sido previamente rotulados como “idiopáticos”, a maioria deles, agora, pode ser atribuída a uma etiologia genética, tóxica ou infecciosa. 2 Laís Flauzino | ANATOMIA PATOLÓGICA | 7°P CARDIOMIOPATIA DILATADA: CMD • Dilatação cardíaca e disfunção contrátil (sistólica) progressiva. • Em geral com hipertrofia concomitante. • Muitos casos familiares – mas o fenótipo é resultante de diversas causas. PATOGÊNESE: Vários caminhos diferentes. Figura 12.29 Esquema de um miócito mostrando as proteínas-chave mutadas na cardiomiopatia dilatada (em vermelho), na cardiomiopatia hipertrófica (em azul) ou em ambas (em verde). Mutações na titina (a maior proteína humana conhecida, com, aproximadamente, 30 mil aminoácidos) são responsáveis por cerca de 20% de todas as cardiomiopatias dilatadas. A titina se estende ao longo do sarcômero e conecta as linhas Z e M, limitando, assim, a amplitude passiva de movimento do sarcômero conforme ele é esticado. A titina também funciona como uma mola molecular, com domínios que se desdobram quando a proteína é esticada e se dobram novamente quando a tensão é removida, afetando, assim, a elasticidade passiva do músculo estriado. Identificar o que pode ser causal é frustrante. O diagnóstico só é feito depois que o paciente já desenvolveu insuficiência cardíaca em estágio terminal – o coração está dilatado de uma forma não específica e pouco contrátil. A avaliação clínica é feita para excluir causas isquêmicas, valvares, hipertensivas ou congênitas. Embora uma avaliação exaustiva possa não ser capaz de identificar uma etiologia específica (“CMD idiopática”), as formas familiares (genéticas) de CMD são cada vez mais reconhecidas e a patologia final também pode resultar de uma série de insultos miocárdicos: • Influência genética: pode ser familiar em até 50% dos casos – mutações em grupo diverso de genes que codificam proteínas envolvidas no citoesqueleto, sarcolema e envelope nuclear. Pode haver penetrância variável mesmo dentro da mesma familiar – sugere que a progressão para CMD pode ser multifatorial. Os defeitos mitocondriais costumam se manifestar na população pediátrica, enquanto a CMD ligada ao X costuma se apresentar após a puberdade e no início da idade adulta. A cardiomiopatia ligada ao X também pode estar associada a mutações que afetam a proteína distrofina - a distrofina está mutada nas miopatias esqueléticas mais comuns, as distrofias musculares de Duchenne e Becker. • Miocardite: progressão de miocardite para CMD. A detecção das impressões genéticas de Coxsackie B e outros vírus no miocárdio de pacientes com CMD sugere que a miocardite viral pode ser causal. • Álcool e outras toxinas: O álcool ou seus metabólitos (sobretudo o acetaldeído) têm um efeito tóxico direto no miocárdio. Além disso, o alcoolismo crônico pode estar associado à deficiência de tiamina, que pode levar à doença cardíaca por beribéri (uma forma de CMD). O cobalto é um exemplo de metal pesado com cardiotoxicidade que causou CMD no cenário de contaminação inadvertida (p. ex., na produção de cerveja). Medicamentos cardiotóxicos usados para quimioterapia também são causas importantes de CMD. • Parto: cardiomiopatia periparto pode ocorrer no final da gravidez ou até 5 meses após o parto; é provável que o mecanismo seja multifatorial, incluindo contribuições de suscetibilidade genética, hipertensão associada à gravidez, 3 Laís Flauzino | ANATOMIA PATOLÓGICA | 7°P sobrecarga de volume, deficiência nutricional e/ou outros distúrbios metabólicos sutis. Em mulheres grávidas com predisposição genética particular, moléculas antiangiogênicas elevadas podem levar a um desequilíbrio angiogênico microvascular (perda microvascular em relação à angiogênese), resultando em lesão isquêmica funcional. • Sobrecarga de ferro no coração: pode ser resultante de hemocromatose hereditária ou de múltiplas transfusões. A CMD é a manifestação mais comum desse excesso de ferro e pode ser causada por interferência com sistemas enzimáticos dependentes de metais ou por lesão decorrente da produção de espécies reativas de oxigênio mediada por ferro. • Estresse suprafisiológico: também pode resultar em CMD. Isso pode ocorrer com taquicardia persistente, hipertireoidismo ou mesmo durante o desenvolvimento, como nos fetos de mães diabéticas insulinodependentes. O excesso de catecolaminas, em particular, causa necrose multifocal das bandas de contração miocárdica, que pode, com o tempo, progredir para CMD. sso pode acontecer em indivíduos com feocromocitomas, tumores que elaboram epinefrina; o uso de cocaína ou agentes vasopressores, tais como a dopamina, pode ter consequências semelhantes. Esse “efeito das catecolaminas” também ocorre no cenário de estimulação autonômica intensa, por exemplo, secundária a lesões intracranianas ou coação emocional. A cardiomiopatia de Takotsubo é uma entidade caracterizada por disfunção contrátil do ventrículo esquerdo após estresse psicológico extremo (também chamada de síndrome do coração partido); o miocárdio afetado pode ficar atordoado ou apresentar necrose das bandas de contração. Por motivos não esclarecidos, o ápice do ventrículo esquerdo é mais frequentemente afetado, levando ao “balonismo apical” que se assemelha a um takotsubo, termo em japonês que significa “pote de pescar polvo” (daí o nome). O mecanismo da cardiotoxicidade das catecolaminas é incerto, mas, provavelmente, está relacionado à toxicidade direta aos miócitos devido à sobrecarga de cálcio ou à vasoconstrição focal na macro ou microcirculaçãoarterial coronariana em face da frequência cardíaca elevada. MORFOLOGIA: • Coração tipicamente aumentado, pesado (2-3x o normal) e flácido – devido a dilatação de todas as câmaras. • Trombos murais podem ser resultantes da estase relativa do sangue em câmaras pouco contráteis e ser uma fonte de tromboêmbolos. • Para ser considerado CMD, o coração não deve apresentar alterações valvares primárias; se houver regurgitação mitral (ou tricúspide), ela resulta da dilatação da câmara ventricular esquerda (ou direita) (regurgitação funcional). • As artérias coronárias estão isentas de estreitamento significativo ou as obstruções presentes são insuficientes para explicar o grau de disfunção cardíaca. • As anormalidades histológicas na CMD são inespecíficas e costumam não apontar para uma etiologia específica. • A gravidade das alterações morfológicas pode não refletir o grau de disfunção ou o prognóstico do paciente. • Fibrose intersticial e endocárdica de grau variável está presente, e pequenas cicatrizes subendocárdicas podem substituir células individuais ou grupos de células, provavelmente refletindo a cura de necrose isquêmica prévia de miócitos causada por desequilíbrio induzido por hipertrofia entre perfusão e demanda. • A maioria das células musculares está hipertrofiada com núcleos aumentados, mas algumas estão atenuadas, alongadas e irregulares. • Na CMD causada por mutações truncadas no gene da titina, os miócitos podem exibir núcleos hipercromáticos e altamente distorcidos do tipo “estrela ninja” - achado inespecífico, mas é altamente sugestivo de mutação de truncamento da titina. Figura 12.31 Cardiomiopatia dilatada. A. Dilatação e hipertrofia das quatro câmaras são evidentes. Há um trombo mural (seta) no ápice do ventrículo esquerdo (visto à direita nesta vista apical das quatro câmaras). As artérias coronárias estavam pérvias. B. Corte histológico demonstrando hipertrofia de miócitos variável e fibrose intersticial (o colágeno está destacado em azul nesta coloração com tricrômio de Masson). C. Aparência histológica dos núcleos aumentados, bizarros e hipercromáticos (comparados a “estrelas ninja”) que são vistos em maior número em 4 Laís Flauzino | ANATOMIA PATOLÓGICA | 7°P pacientes com cardiomiopatia dilatada causada por mutações de truncamento da titina. CARACTERÍSTICAS CLÍNICAS: • Defeito fundamental é a contração ineficaz. • Na CMD em estágio final, a fração de ejeção cardíaca costuma ser inferior a 25% (normal de 50 a 60%). • Pode ocorrer em qualquer idade – afeta mais indivíduos entre 20-50 anos. • Se apresenta com sinais e sintomas de ICC lentamente progressiva: dispneia, fadiga fácil, baixa capacidade de esforço. • Regurgitação mitral secundária e ritmos cardíacos anormais são comuns e pode ocorrer embolização de trombos intracardíacos. • A morte costuma ser resultante de insuficiência cardíaca progressiva ou arritmia e pode ocorrer de forma repentina. • Alguns pacientes gravemente afetados respondem bem às terapias farmacológicas ou de ressincronização elétrica (estimulação biventricular). • Transplante cardíaco e assistência ventricular a longo prazo podem ser benéficos. • Em alguns pacientes o suporte cardíaco mecânico de relativamente curto prazo pode induzir melhora duradoura da função cardíaca. CARDIOMIOPATIA ARRITMOGÊNICA: • Do ventrículo direito. • Doença autossômica dominante. • Manifesta-se como insuficiência cardíaca direita e distúrbios rítmicos, que podem causar morte súbita cardíaca. • Também pode ocorrer o acometimento das câmaras esquerdas com insuficiência cardíaca do lado esquerdo. • Classicamente, a parede do ventrículo direito é seriamente atenuada (afilada) devido à perda de miócitos, acompanhada por infiltração gordurosa maciça e fibrose focal. • Pode haver inflamação mononuclear em torno dos cardiomiócitos em degeneração, mas a cardiomiopatia arritmogênica não é considerada uma cardiomiopatia inflamatória. • A cardiomiopatia arritmogênica clássica tem herança autossômica dominante com penetrância variável; muitas das mutações causais envolvem genes que codificam proteínas juncionais desmossomais no disco intercalar, bem como proteínas que interagem com o desmossomo. • A síndrome de Naxos é uma doença caracterizada por cardiomiopatia arritmogênica e hiperqueratose das superfícies cutâneas plantares e palmares, e também está associada a mutações da placoglobina. CARDIOMIOPATIA HIPERTRÓFICA: CMH • Distúrbio genético comum, clinicamente heterogêneo • Caracterizado por hipertrofia do miocárdio, miocárdio ventricular esquerdo pouco complacente levando a enchimento diastólico anormal e obstrução intermitente do fluxo ventricular. • Principal causa de hipertrofia ventricular esquerda inexplicada por outras causas clínicas ou patológicas. • O coração apresenta paredes grossas, é pesado e se hipercontrai, em notável contraste com o coração flácido e hipocontrátil da CMD. • A CMH causa, primariamente, disfunção diastólica; a função sistólica costuma estar preservada. • As duas doenças mais comuns que devem ser distinguidas clinicamente da CMH são doenças de depósito (p. ex., amiloidose, doença de Fabry) e cardiopatia hipertensiva associada a hipertrofia septal subaórtica relacionada à idade. • Ocasionalmente, a estenose aórtica valvar ou a estenose aórtica subvalvar congênita também podem mimetizar a CMH. PATOGÊNESE: Na maioria dos casos, o padrão de transmissão é autossômico dominante com penetrância variável. A CMH é mais comumente causada por mutações em qualquer um dos vários genes que codificam proteínas sarcoméricas. O prognóstico de CMH varia bastante e se correlaciona fortemente às mutações específicas. Embora o mecanismo preciso pelo qual essas mutações causam CMH não seja claro, as evidências atuais sugerem que ele surge da transferência de energia defeituosa de sua fonte de geração (mitocôndrias) para seu local de uso (sarcômeros). Por outro lado, a CMD está associada, sobretudo, a anormalidades das proteínas do citoesqueleto e pode ser conceituada como uma doença de geração de força, transmissão de força ou sinalização de miócitos anormais. O teste genético em cardiomiopatias ainda é prejudicado pelo grande número de “variantes genéticas de significado desconhecido”, portanto, o exame genético de membros da família de indivíduos 5 Laís Flauzino | ANATOMIA PATOLÓGICA | 7°P afetados deve ser interpretado dentro do contexto clínico. MORFOLOGIA: • Característica essencial: hipertrofia miocárdica maciça, sem dilatação ventricular. • Padrão clássico: envolve espessamento desproporcional do septo ventricular em relação à parede livre do ventrículo esquerdo, denominado hipertrofia septal assimétrica. • Em cerca de 10% dos casos, a hipertrofia é concêntrica e simétrica. • No corte longitudinal, a cavidade ventricular esquerda normalmente arredondada a ovalada pode estar comprimida em uma configuração “semelhante a uma banana” pelo abaulamento do septo ventricular em direção à luz. • Embora a hipertrofia acentuada possa envolver todo o septo, costuma ser mais proeminente na região subaórtica; a via de saída do ventrículo esquerdo costuma exibir uma placa endocárdica fibrosa e espessamento do folheto mitral anterior. • Ambos os achados resultam do contato do folheto mitral anterior com o septo durante a sístole ventricular; eles se correlacionam com o “movimento sistólico anterior” do folheto anterior no ecocardiograma, com obstrução funcional da via de saída do ventrículo esquerdo durante a sístole. As características histológicas mais importantes do miocárdio com CMH são • hipertrofia maciça de miócitos, que, com frequência, apresentam diâmetros transversais superiores a 40 μ m (o normal é, aproximadamente, 15 μm); • desorganização aleatória de feixes de miócitos,miócitos individuais e elementos contráteis nos sarcômeros dentro das células (denominado desarranjo de miofibras); • estreitamento fibrótico de pequenas artérias intramurais; e • fibrose intersticial e de substituição CARACTERÍSTICAS CLÍNICAS: • Caracterizada pela redução do volume sistólico devido ao enchimento diastólico prejudicado - consequência do tamanho reduzido da câmara, bem como da complacência reduzida do ventrículo esquerdo hipertrofiado maciçamente. • 25% dos pacientes com CMH apresentam obstrução dinâmica à saída do ventrículo esquerdo à medida que o folheto mitral anterior se move em direção ao septo ventricular durante a sístole. • O débito cardíaco comprometido, em conjunto com um aumento secundário da pressão venosa pulmonar, explica a dispneia aos esforços observada nesses pacientes. • A ausculta revela forte sopro sistólico ejetivo causado pela obstrução do fluxo ventricular. • Por causa da hipertrofia maciça, alta pressão da câmara ventricular esquerda e, frequentemente, artérias intramurais de paredes espessas, comumente resulta em isquemia miocárdica focal, mesmo na ausência de DAC epicárdica concomitante. • Os principais problemas clínicos na CMH são fibrilação atrial, formação de trombo mural levando à embolização e possível acidente vascular encefálico, insuficiência cardíaca intratável, arritmias venosas e, não raramente, morte súbita, sobretudo com certas mutações. Na verdade, a CMH é uma das causas mais comuns de morte súbita, de outra forma inexplicada, em jovens atletas. • A história natural da CMH é altamente variável. • A maioria dos pacientes pode ser ajudada por intervenção farmacológica (p. ex., bloqueio beta- adrenérgico) para diminuir a frequência cardíaca e a contratilidade. • Desfibriladores/cardioversores implantáveis são justificados para pacientes com CMH em risco de arritmias ventriculares. • Algum benefício também pode ser obtido com a redução da massa miocárdica septal, aliviando assim a obstrução da via de saída. Isso pode ser 6 Laís Flauzino | ANATOMIA PATOLÓGICA | 7°P obtido por excisão cirúrgica do músculo ou por infarto septal cuidadosamente controlado por meio de infusão de álcool por cateter. CARDIOMIOPATIA RESTRITIVA: Diminuição primária da complacência ventricular, resultando em enchimento diastólico ventricular prejudicado. • Como a função contrátil (sistólica) do ventrículo esquerdo costuma não ser afetada, a anormalidade funcional pode ser confundida com a da pericardite constritiva ou CMH. • A cardiomiopatia restritiva pode ser idiopática ou associada a distúrbios distintos que afetam o miocárdio, sobretudo amiloidose (descrita posteriormente), sarcoidose, fibrose induzida por radiação, tumores metastáticos ou acúmulo de metabólitos derivados de erros inatos do metabolismo. As características morfológicas macroscópicas são um tanto inespecíficas. • embora a dilatação biatrial seja comumente observada devido ao enchimento ventricular restrito e às sobrecargas de pressão, os ventrículos são de tamanho quase normal (ou ligeiramente aumentados), as cavidades não estão dilatadas e o miocárdio é praticamente normal. • Microscopicamente, pode haver fibrose intersticial irregular ou difusa, variando de mínima a extensa. • Exames de imagem do coração são cada vez mais usados para caracterizar “infiltrados” miocárdicos, e uma biopsia endomiocárdica pode, ocasionalmente, sugerir uma etiologia específica. Três outras condições restritivas merecem breve menção: • Endomiocardiofibrose: doença que acomete crianças e adultos jovens na África e outras áreas tropicais, caracterizada por fibrose do endocárdio e subendocárdio ventricular que se estende do ápice para cima, e muitas vezes acaba envolvendo as valvas tricúspide e mitral. A endomiocardiofibrose está ligada a deficiências nutricionais e/ou inflamação relacionada a infecções parasitárias (p. ex., hipereosinofilia); em todo o mundo, é a forma mais comum de cardiomiopatia restritiva. • Endomiocardite de Loeffler: também resulta em endomiocardiofibrose, geralmente com grandes trombos murais e uma morfologia geral semelhante à da doença tropical. No entanto, além das alterações cardíacas, muitas vezes há uma eosinofilia periférica e infiltrados eosinofílicos em vários órgãos, como o coração. A liberação de produtos tóxicos dos eosinófilos, em especial a proteína básica principal, provavelmente causa necrose endomiocárdica, seguida de cicatrização da área necrótica, estratificação do endocárdio por trombo e, por fim, organização do trombo. • Fibroelastose endocárdica: doença cardíaca incomum caracterizada por espessamento fibroelástico que, tipicamente, envolve o endocárdio ventricular esquerdo. É mais comum nos 2 primeiros anos de vida; em um terço dos casos, é acompanhada por obstrução da valva aórtica ou outras anomalias cardíacas congênitas. A fibroelastose endocárdica pode representar um desfecho morfológico comum de vários insultos diferentes, como infecções virais (p. ex., exposição intrauterina à caxumba) ou mutações no gene para tafazina, que afeta a integridade da membrana interna mitocondrial. O envolvimento difuso pode ser responsável por descompensação cardíaca rápida e progressiva e morte. AMIOLOIDOSE: Forma importante de cardiomiopatia restritiva resultante do acúmulo extracelular de fibrilas proteicas que formam folhas- β pregueadas insolúveis. A amiloidose cardíaca pode aparecer como consequência da amiloidose sistêmica (p. ex., devido a mieloma ou amiloide associada à inflamação) ou pode ser restrita ao coração, em especial em idosos (amiloidose cardíaca senil). A amiloidose cardíaca ocorre, caracteristicamente, em indivíduos com 70 anos ou mais, e tem um prognóstico muito melhor do que a amiloidose sistêmica. Os depósitos amiloides são amplamente compostos de transtirretina, uma proteína sérica normal sintetizada no fígado que transporta a tiroxina e a proteína de ligação ao retinol. Formas mutantes de transtirretina podem acelerar a deposição amiloide no coração; 4% dos afro- americanos têm uma mutação da transtirretina que substitui a valina por isoleucina na posição 122, produzindo uma proteína amiloidogênica particularmente responsável pela amiloidose transtirretina familiar autossômica dominante. A amiloidose cardíaca produz, mais frequentemente, uma cardiomiopatia restritiva, mas também pode ser assintomática, manifestar-se como dilatação ou arritmias ou simular doença isquêmica ou valvar. As apresentações variadas dependem da localização predominante dos depósitos, por exemplo, interstício, sistema de condução, vasculatura coronária ou valvas. Morfologia: • Na amiloidose cardíaca, a consistência do coração varia de normal a firme e elástica. • As câmaras são, geralmente, de tamanho normal, mas podem estar dilatadas e ter paredes espessadas. 7 Laís Flauzino | ANATOMIA PATOLÓGICA | 7°P • Nódulos pequenos e semitranslúcidos semelhantes a gotas de cera podem ser vistos na superfície endocárdica atrial, sobretudo à esquerda. • Histologicamente, depósitos eosinofílicos hialinos de amiloide podem ser encontrados no interstício, tecido de condução, valvas, endocárdio, pericárdio e pequenas artérias coronárias intramurais. • Os acúmulos de amiloide podem ser distinguidos de outros depósitos por colorações especiais, tais como o vermelho Congo ou o azul de Alcian; o primeiro produz birrefringência verde-maçã clássica quando visto sob luz polarizada. • Artérias e arteríolas intramurais podem ter amiloide suficiente em suas paredes para comprimir e ocluir suas luzes, induzindo isquemia miocárdica (“doença de pequenos vasos”). MIOCARDITE: Grupo diverso de entidades patológicas nas quais microrganismos infecciosos e/ou um processo inflamatório primário causam lesão miocárdica. A miocardite deve ser diferenciada decondições como a DIC, na qual a inflamação miocárdica é secundária a outras causas. PATOGÊNESE: • Os vírus Coxsackie A e B e outros enterovírus costumam ser responsáveis pela maioria dos casos. • Outros agentes etiológicos menos comuns incluem citomegalovírus, HIV e influenza. • Em alguns casos (mas não em todos), o agente agressor pode ser diagnosticado por estudos sorológicos ou pela identificação de sequências de ácidos nucleicos virais em biopsias miocárdicas. • Dependendo do patógeno e do hospedeiro, os vírus podem causar lesão miocárdica, seja como um efeito citopático direto ou induzindo uma resposta imune destrutiva. • As citocinas inflamatórias produzidas em resposta à lesão miocárdica também podem causar disfunção miocárdica desproporcional ao grau de lesão real dos miócitos. • Agentes não virais também são importantes causas de miocardite infecciosa, principalmente o protozoário Trypanosoma cruzi, o agente causador da doença de Chagas. • Cerca de 10% dos pacientes morrem durante um ataque agudo; outros desenvolvem uma miocardite imunomediada crônica que pode progredir para insuficiência cardíaca em 10 a 20 anos. • A triquinose (Trichinella spiralis) é a doença helmíntica mais comum associada à miocardite. • Doenças parasitárias, como toxoplasmose, e infecções bacterianas, como a doença de Lyme e a difteria, também podem causar miocardite. No caso da miocardite diftérica, a lesão miocárdica é consequência da liberação de toxina diftérica por Corynebacterium diphtheriae. • A miocardite ocorre em aproximadamente 5% dos pacientes com doença de Lyme, uma doença sistêmica causada pela espiroqueta bacteriana Borrelia burgdorferi. Ela se manifesta, principalmente, como um distúrbio autolimitado do sistema de condução que pode exigir um marca-passo temporário. • A miocardite associada à AIDS pode se apresentar com inflamação e dano aos miócitos sem um agente etiológico claro, ou uma miocardite atribuível diretamente ao HIV ou a um patógeno oportunista. • Também existem causas não infecciosas de miocardite. Em termos gerais, elas são mediadas imunologicamente (miocardite por hipersensibilidade) ou condições idiopáticas com morfologia distinta (miocardite de células gigantes) suspeitas de ser de origem imunológica. • Mais recentemente, inibidores de pontos de controle imunológico administrados para o tratamento do câncer ocasionalmente levaram a uma miocardite linfocítica (muitas vezes fatal). MORFOLOGIA: 8 Laís Flauzino | ANATOMIA PATOLÓGICA | 7°P • Macroscopicamente, o coração na miocardite pode parecer normal ou dilatado; alguma hipertrofia pode estar presente dependendo da duração da doença. • Em estágios avançados, o miocárdio ventricular está flácido e, frequentemente, manchado por focos pálidos ou pequenas lesões hemorrágicas. • Trombos murais podem estar presentes. • A miocardite ativa é caracterizada por um infiltrado inflamatório intersticial associado a miócitos em degeneração ou apoptóticos; zonas maiores de perda de miócitos ou necrose com edema intersticial podem refletir lesão vascular com dano isquêmico secundário. • Um infiltrado difuso, mononuclear e predominantemente linfocítico é o mais comum. • Embora as biopsias endomiocárdicas possam ser diagnósticas, elas podem ser falsamente negativas porque a inflamação do miocárdio é irregular. • Se o paciente sobreviver à fase aguda da miocardite, as lesões inflamatórias se resolvem, sem deixar alterações residuais, ou se curam por fibrose progressiva. • A miocardite por hipersensibilidade é caracterizada por infiltrados perivasculares compostos de linfócitos, macrófagos e uma alta proporção de eosinófilos. • Uma forma morfologicamente distinta de miocardite, chamada miocardite de células gigantes, é caracterizada por um infiltrado celular inflamatório disseminado contendo células gigantes multinucleadas (macrófagos fundidos) intercaladas com linfócitos, eosinófilos, plasmócitos e macrófagos. • Danos miocitários focais a frequentemente extensos estão presentes. • Essa variante provavelmente representa a extremidade fulminante do espectro da miocardite e carrega um prognóstico ruim. • A miocardite da doença de Chagas é distinta em virtude da parasitização de miofibras dispersas por tripanossomos, acompanhada por um infiltrado inflamatório misto contendo neutrófilos, linfócitos, macrófagos e eosinófilos ocasionais. Figura 12.35 Miocardite. A. Miocardite linfocítica, associada à lesão de miócitos. B. Miocardite por hipersensibilidade, caracterizada por infiltrado inflamatório intersticial composto, em grande parte, por eosinófilos e células inflamatórias mononucleares, predominantemente localizado nos espaços perivascular e intersticial expandido. C. Miocardite de células gigantes, com infiltrado inflamatório mononuclear contendo linfócitos e macrófagos, extensa perda de músculo e células gigantes multinucleadas (macrófagos fundidos). D. Miocardite da doença de Chagas. Uma miofibra distendida com tripanossomos (seta) está presente com a necrose individual da miofibra e pequenas quantidades de inflamação. CARACTERÍSTICAS CLÍNICAS: • O espectro clínico da miocardite é amplo. • Por um lado, a doença é completamente assintomática e os pacientes podem esperar uma recuperação completa sem sequelas; no outro extremo está o início precipitado de insuficiência cardíaca ou arritmias, em algumas ocasiões seguido de morte súbita. • Entre esses extremos, estão vários níveis de sintomas, como fadiga, dispneia, palpitações, desconforto precordial e febre. • As características clínicas da miocardite podem imitar as do infarto agudo do miocárdio. • Conforme observado anteriormente, os pacientes podem desenvolver CMD como uma complicação tardia da miocardite. Kumar, Vinay, et al. Robbins & Cotran Patologia: Bases Patológicas das Doenças. Disponível em: Minha Biblioteca, (10th edição). Grupo GEN, 2023.