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ISTs que causam úlcera genital

Apostila sobre herpes genital (HSV‑1/HSV‑2) e sífilis (Treponema pallidum) com etiologia, epidemiologia (inclui dados de prevalência e notificações), fatores de risco, manifestações clínicas, transmissão, complicações e diagnóstico laboratorial (cultura, PCR, sorologia).

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APG 28 
Herpes simplex (ou herpes genital) 
Etiologia: 
Vírus herpes simplex (HSV) 1 (lesões periorais) e 2 (causam úlceras genitais). 
Tipo 2 é mais comum que o tipo 1. 
● 2 membros intimamente relacionados da família Herpesviridae 
● grandes vírus de DNA de fita dupla 
● HSV-1 e HSV-2 têm 83% de homologia genômica 
● maioria dos casos de herpes genital recorrente causada por HSV-2 
 
Epidemiologia: 
É uma das ISTs mais comuns. 
A maioria dos casos é causada pelo vírus herpes simplex (HSV)-2, mas o HSV-1 é 
responsável pelo aumento do número de infecções anogenitais nos países desenvolvidos, 
especialmente em mulheres jovens e homens homossexuais. 
A soroprevalência de anticorpos para o vírus herpes simplex (HSV)-2 varia de 7% a 40% 
em mulheres grávidas a 60% a 95% em pessoas infectadas pelo HIV e mulheres profissionais do 
sexo em diferentes regiões do mundo. 
Nos EUA, a prevalência estimada de 11,9% de infecção genital por HSV-2 em pessoas de 
14 a 49 anos. 
 
Fatores de Risco: 
● contato sexual com pessoa infectada 
● alto número de parceiros sexuais ao longo da vida 
● história prévia de infecções sexualmente transmissíveis 
● idade precoce da primeira relação sexual 
 
Manifestações Clínicas: 
Assintomático na maioria dos casos. 
Pode ter dor, coceira, queimação, disúria. 
Lesões: apresentação clássica de infecção genital primária por herpes simplex vírus 
(HSV)-1 ou HSV-2 caracterizada por aglomerados bilaterais de pápulas eritematosas e vesículas 
na genitália externa, geralmente 4-7 dias após a exposição sexual. 
Lesões também podem aparecer em: 
- região perianal 
- nádegas 
- parte superior das coxas 
Comum em pacientes com infecção pelo HIV 
Sintomas menos comumente relatados: 
- febre 
- dor de cabeça 
- Mal-estar 
- mialgias 
- linfadenopatia 
75% dos pacientes têm lesões novas e existentes que progridem para vesículas, pústulas 
e podem coalescer em úlceras antes de formar crostas e cicatrizar 
As lesões nas superfícies mucosas parecem ulcerativas sem formar pústulas ou crostas. 
Lesões atípicas podem apresentar-se semelhantes a: 
- fissuras 
- furúnculos 
 
- eritema irregular 
- ulcerações lineares 
- escoriações 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Transmissão: 
É altamente infeccioso. 
Saliva, contato direto ou atividade sexual. 
 
Complicações: 
11,5% dos pacientes com infecções genitais por herpes apresentam infecções 
extragenitais. 
Sofrimento psicossocial 
Disfunção autonômica incluindo retenção urinária 
Meningite asséptica 
Mielorradiculite sacral apresentando constipação, retenção urinária, parestesias perineais 
e disfunção erétil em homem de 18 anos com herpes genital em relato de caso 
Complicações durante a gravidez: 
● herpes neonatal: risco de transmissão de mãe para filho alto entre mulheres que 
adquirem infecção próximo ao momento do parto (30%-50%) e baixo entre 
mulheres com história pré-natal de infecção recorrente ou infecção durante a 
primeira metade da gravidez (< 1%) 
 
Diagnóstico: 
O diagnóstico clínico deve ser confirmado com exames laboratoriais de swab de lesão 
genital, como: 
● cultura viral 
● reação em cadeia da polimerase (PCR) do DNA do vírus herpes simplex (HSV) 
Em pacientes sem lesões genitais, testes sorológicos específicos do tipo podem auxiliar 
no diagnóstico. 
A falta de detecção de HSV por cultura ou PCR não indica falta de infecção (derramamento 
viral intermitente). 
HSV-1 genital não pode ser diferenciado de infecção por HSV-2 apenas no exame clínico. 
A história clínica e o exame têm baixa sensibilidade e especificidade, muitos pacientes 
apresentam manifestações atípicas. 
 
 
Treponema pallidum (sífilis) 
Etiologia: 
Espiroqueta Treponema pallidum. 
 Bactéria gram-negativa espiralada móvel. 
 Crescimento lento, com taxa de replicação de cerca de 30 horas. 
 Cepas múltiplas, variam de acordo com a geografia. 
 
Epidemiologia: 
Encontrado em todo o mundo. 
De acordo com dados do Boletim Epidemiológico de Sífilis 2019, 
foram notificados 158.051 casos de sífilis adquirida em todo o país em 2018, com aumento de 
28,3% em relação ao ano anterior. Em gestantes, foram 62.599 casos – ampliação de 25,7% dos 
casos na comparação com 2017. Já em bebês, foram registrados 26.219 casos de sífilis congênita 
(transmitida a mãe para o bebê), representando aumento de 5,2% em relação a 2017. 
 
Fatores de Risco: 
● pessoas com IST atual ou outras infecções no ano passado, principalmente HIV 
● pessoas com múltiplos parceiros sexuais ou parceiros sexuais em populações com 
alta prevalência de IST 
● pessoas que não usam consistentemente preservativos 
 
Manifestações Clínicas: 
 Os sintomas surgem cerca de 1-3 semanas após a exposição. 
 Úlcera tipicamente indolor (cancro) no local de inoculação, mais frequentemente na 
genitália externa. 
 Pode se desenvolver em qualquer local de exposição, incluindo: 
 - períneo 
 - colo do útero 
 - ânus 
 - reto 
 - lábios 
 - orofaringe 
 - mãos 
 Cancros múltiplos podem estar presentes, especialmente em pacientes com HIV 
 Meningite sifilítica rara nesta fase, mas os sintomas podem incluir: 
 - dor de cabeça 
 - fotofobia 
 - rigidez do pescoço 
 - zumbido ou perda auditiva 
 - visão prejudicada 
 - confusão 
 - convulsão 
 
 
 
Estágios de infecção se sobrepõem clinicamente e são definidos por características 
clínicas: 
Sífilis primária 
● ocorre 1 semana a 3 meses (mediana 21 dias) após a infecção 
● tipicamente caracterizada por um cancro (úlcera indolor) no local da infecção, 
geralmente na genitália 
 
Sífilis secundária 
● ocorre 2-8 semanas após a resolução do cancro, mas o tempo varia 
● ampla gama de apresentações (levando à denominação de "O Grande Mascarado" 
ou "Grande Imitador") 
- febre 
- erupção cutânea (mais frequentemente maculopapular e classicamente 
envolvendo palmas e plantas dos pés) 
- faringite 
- lesões mucocutâneas, como manchas mucosas, condiloma lata e alopecia 
- linfadenopatia 
- doenças neurológicas como: 
* AVC 
* uveíte 
* meningite 
* déficits de nervos cranianos 
 
Sífilis terciária 
● incomum, ocorre anos a décadas após a infecção inicial 
● caracterizada por endarterite ou infecção parenquimatosa levando à disfunção de 
múltiplos sistemas de órgãos 
Sistema nervoso central 
- tabes dorsalis - envolvimento sifilítico das colunas posteriores da medula espinhal 
- paresia geral - meningoencefalite crônica 
Cardiovascular 
- aortite ou aneurisma 
- isquemia miocárdica ou insuficiência cardíaca devido à inflamação crônica das 
artérias coronárias 
Sífilis gomosa 
 
- destruição granulomatosa de órgãos viscerais 
- pode afetar qualquer órgão, mais comumente o fígado 
 
Sífilis latente 
● Sífilis latente precoce 
- sífilis assintomática adquirida no ano anterior 
- infeccioso 
● Sífilis latente tardia 
- fase assintomática da sífilis adquirida > 1 ano antes 
- não considerado infeccioso 
● Neurossífilis 
- refere-se a qualquer envolvimento neurológico ou ocular e qualquer estágio 
- pode ser assintomático 
- subtipos incluem, mas não estão limitados a: 
Meningite sifilítica 
* primeira manifestação 
* ocorrendo tipicamente com sífilis secundária 
Sífilis meningovascular 
* devido à inflamação da vasculatura que supre o sistema nervoso central 
* normalmente ocorre cerca de 6-7 anos após a infecção inicial 
* pode se manifestar como acidente vascular cerebral 
Neurossífilis parenquimatosa 
* sífilis gomosa afetou o parênquima cerebral 
* ocorre mais frequentemente com doença tardia 
* inclui tabes dorsalis e paresia geral 
 
Transmissão: 
Sexual (principal modo): vaginal, anogenital ou orogenital. Acredita-se que as taxas mais 
altas de transmissão ocorrem no primeiro ano. 
Congênita: no útero (mais comum), via passagem pelo canal de parto. 
Transfusão de sangue e transplante de órgãos (ambas raras). 
 
Complicações: 
Progressão para estágios posteriores da sífilis. 
Complicações na gravidez: 
● infecção sifilítica durante a gravidez pode levar a: 
- infecção neonatal 
- restrição de crescimento intrauterino- aborto espontâneo 
- morte fetal 
● transmissão transplacentária mais comum durante a sífilis materna precoce 
● manifestações neonatais podem incluir: 
- rinite (normalmente na fase inicial da doença) 
- irritação na pele 
- hepatite 
- esplenomegalia 
- pericondrite ou periostite, que pode levar a deformidades do nariz (nariz em sela) 
e/ou metáfises das extremidades inferiores (canela sabre) 
- hidropisia não imune 
- incisivos centrais em forma de pino (dentes de Hutchinson) 
 
- saliência frontal 
- artropatia recorrente 
 
Diagnóstico: 
Diagnóstico clínico de sífilis primária baseado em: 
● achados de histórico e exame físico compatíveis, como 
- lesão indolor, muitas vezes na genitália 
- linfadenopatia regional indolor associada 
● evidência sorológica da doença 
2 tipos de testes sorológicos estão disponíveis: 
● testes não treponêmicos, com opções comumente disponíveis, incluindo 
- Reagina Plasmática Rápida (RPR) 
- Teste do Laboratório de Pesquisa de Doenças Venéreas (VDRL) 
● testes treponêmicos, que incluem: 
- Absorção de anticorpos treponêmicos fluorescentes (FTA-ABS) 
- Ensaio de aglutinação de partículas de Treponemal pallidum (TPPA) ou 
hemaglutinação de Treponemal pallidum (TPHA) para anticorpos IgM e IgG 
- imunoensaios enzimáticos 
O diagnóstico definitivo de sífilis primária é feito pela detecção de T. pallidum no tecido 
afetado: 
● o exame microscópico de campo escuro do exsudato da lesão deve ser realizado 
quando disponível 
● a reação em cadeia da polimerase (PCR) é uma alternativa; ensaio validado 
localmente pode estar disponível 
Qualquer paciente com sífilis que apresente anormalidades neurológicas e lactentes com 
idade ≥ 1 mês com sorologia reativa para sífilis deve ser submetido à análise do líquido 
cefalorraquidiano (LCR). 
 
Haemophilus ducreyi (cancróide/cancro mole/ulcus molle) 
Etiologia: 
Bactéria Haempphilus ducreyi. 
Cocobacilo gram-negativo. 
 
Epidemiologia: 
Áreas de maior prevalência incluem algumas regiões da África, Caribe e Norte da Índia. 
Surtos esporádicos são raros, mas ocorrem em todo o mundo. 
A incidência real pode ser maior devido à subnotificação e ao fato de que o organismo é 
difícil de cultivar. 
 
Fatores de Risco: 
● Comportamento sexual de risco 
● Outras IST 
● Faixa etária entre 15 a 30 anos 
 
Manifestações Clínicas: 
Os sintomas geralmente surgem cerca de 3-7 dias após a exposição. 
Lesões anogenitais tipicamente dolorosas: 
● lesão começa como pápula que se desenvolve em pústula 
● pústula então ulcera 
 
A borda é irregular, apresentando contornos eritemato-edematosos e fundo heterogêneo, 
recoberto por exsudato necrótico, amarelado, com odor fétido, que, quando removido, revela 
tecido de granulação com sangramento fácil. 
Podem ser lesões únicas ou múltiplas (geralmente, múltiplas) 
No homem, as localizações mais frequentes são no frênulo e sulco bálano-prepucial; na 
mulher, na fúrcula e face interna dos pequenos e grandes lábios. 
Linfadenopatia inguinal dolorosa: 
● pode estar presente em cerca de metade dos pacientes 
● muitas vezes unilateral 
● podem se desenvolver em bubões (nódulos flutuantes) que drenam 
espontaneamente 
Lesões extragenitais em adultos são raras (relatadas em dedos e coxas), entretanto, o 
Haemophilus ducreyi também é relatado como a principal causa de úlceras cutâneas em crianças 
em áreas tropicais 
 
 
 
Transmissão: 
Sexual 80% (período de incubação de cerca de 3-7 dias), mais frequente em homens. 
 
Complicações: 
As complicações são raras, mas incluem: 
● fimose em homens 
● infecções bacterianas secundárias 
● cicatriz genital 
● fístulas retais ou urogenitais de bubões supurativos 
 
Diagnóstico: 
O diagnóstico pode ser feito clinicamente com base em: 
● presença de uma ou mais lesões genitais dolorosas com achados característicos 
- úlceras friáveis com bordas irregulares e exsudato purulento 
- linfadenopatia regional sensível 
 
● exclusão de infecção pelo vírus da sífilis e herpes simples 
O diagnóstico definitivo requer a detecção do organismo no tecido afetado, mas as opções 
de teste disponíveis têm limitações: 
● cultura de material obtido da base da úlcera 
- requer mídia especial 
- organismo é difícil de crescer e sensibilidade < 80% 
● detecção de ácido nucleico por reação em cadeia da polimerase (PCR) 
- maior sensibilidade do que a cultura 
- disponível apenas em configurações de pesquisa 
Todos os pacientes com suspeita de infecções sexualmente transmissíveis devem ser 
rastreados para coinfecção por HIV. 
 
Klebsiella granulomatis (granuloma inguinal/donovanose) 
Etiologia: 
Klebsiella granulomatis, anteriormente chamado de Calymmatobacterium granulomatis. 
Membro da família Enterobacteriaceae. 
Bactéria gram-negativa, imóvel, pleomórfica. 
A forma imatura está em forma de alfinete de segurança fechado e torna-se encapsulada 
quando amadurece. 
 
Epidemiologia: 
Endêmica em algumas áreas tropicais e em desenvolvimento, incluindo: 
- Índia 
- Papua Nova Guiné 
- o caribenho 
- África do Sul 
- Zâmbia 
- as Guianas 
- Brasil 
Até 70% dos casos ocorrem em pessoas com idade entre 20 e 40 anos 
 
Fatores de Risco: 
● comportamentos sexuais de alto risco (especialmente quando em regiões 
endêmicas ) 
 
Manifestações Clínicas: 
A apresentação principal é pápula ou úlcera genital indolor. 
Os pacientes podem apresentar 4 tipos de lesões, incluindo: 
● lesão ulcerogranulomatosa 
- mais comum 
- úlcera vermelha carnuda não dolorosa, única ou múltipla 
- sangra facilmente (começa como pápula ou nódulos e depois ulcera) 
- lesões satélites podem estar presentes 
● lesão verrucosa 
- úlcera endurecida com uma borda irregular e elevada 
- parece semelhante a verrugas genitais 
● lesão necrótica - geralmente com mau cheiro, úlcera rapidamente progressiva 
levando à destruição do tecido e necrose 
● lesão esclerótica 
- úlceras não sangrantes que cicatrizam 
 
- pode ser acompanhada de linfedema 
● lesões extragenitais podem ocorrer em 6% dos pacientes, geralmente em lábios, 
gengivas, bochecha, palato e faringe. 
O quadro clínico inicia-se com ulceração de borda plana ou hipertrófica, bem delimitada, 
com fundo granuloso, de aspecto vermelho vivo e de sangramento fácil. A ulceração evolui lenta 
e progressivamente, podendo tornar-se vegetante ou úlcero-vegetante. As lesões costumam ser 
múltiplas, sendo frequente a configuração em “espelho” nas bordas cutâneas e/ou mucosas. 
Há predileção pelas regiões de dobras e região perianal. 
 
Transmissão: 
O organismo é transmitido sexualmente, geralmente por meio de lesões na pele. 
Período de incubação é de 3 dias a até 50 dias. 
A transmissão da mãe para o feto ou recém-nascido é rara, mas pode ocorrer por 
transmissão vertical ou transvaginal durante o parto. 
 
Complicações: 
As complicações podem incluir: 
● cicatriz genital 
● mutilação genital 
● carcinoma escamoso 
Lesões genitais podem desenvolver infecção bacteriana secundária ou podem ser 
coinfectadas com outros patógenos sexualmente transmissíveis. 
Raramente, pode ocorrer infecção extragenital e doença disseminada em: 
● pélvis 
● osso 
● órgãos abdominais 
● boca 
 
Diagnóstico: 
Alto grau de suspeita clínica. 
A diagnóstico é feito pela identificação microscópica de corpos de Donovan característicos 
em esfregaço de úlcera ou espécimes de biópsia por punção de locais afetados (Esfregaço de 
Giemsa mais rápido e confiável) 
● Exame histológico: 
- caracterizada por grandes células mononucleares com cistos intracitoplasmáticos 
preenchidos com corpúsculos de Donovan Gram-negativos profundamente 
corados 
- corpos tipicamente pleomórficos e com tamanho de 1 a 2 micrômetros de 
comprimento e 0,5 a 0,7 micrômetros de largura 
- dependendo da coloração, densidades bipolares e cápsula podem ser visíveis 
Outras opções para teste incluem: 
● cultura - difícil e impraticável 
● sorologia ou ensaio de reação em cadeia da polimerase (PCR) - não disponível 
rotineiramente 
● teste para infecção por HIV e outrasinfecções sexualmente transmissíveis, 
incluindo sífilis e infecção pelo vírus da hepatite C.

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