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LIÇÕES DE CRASE AA 2 Lição 3 - Uso da crase por tradição A A Ao final da aula, você deverá ser capaz de: 1. Identificar as situações nas quais a crase ocorre com as locuções adverbiais, prepositivas e conjuntivas; 2. Diferenciar períodos nos quais as locuções admitem dupla interpretação para usar a crase quando necessário. META OBJETIVOS Compreender que o fenômeno da crase, fusão sonora da preposição A com o artigo feminino A e com outras palavras iniciadas pela mesma letra, é consequência das relações de regência verbal e nominal. SUMÁRIO Introdução.......................................................................................4 3.1 Locuções adverbiais...................................................5 3.2 Locuções prepositivas........................................11 3.3 Locuções conjuntivas..........................................13 3.4 Locuções que não recebem o acento grave...................................................................................14 Exercícios...................................................................................15 Conclusão....................................................................................18 Referências.................................................................................19 4 Lição 3 - Uso da crase por tradição introdução Olá, sejam bem-vindos ao nosso terceiro encontro! Na lição anterior, falamos sobre a crase relacionada à preposição “de” e aos pronomes “que, a qual, aquele, aquela e aquilo”. Mostramos que, em alguns desses casos, temos, na verdade, um substantivo feminino subentendido diante do pronome. Vimos ainda os testes que podem ser aplicados para comprovar a necessidade do acento grave. Em nosso terceiro encontro, estudaremos a crase usada por tradição em locuções adverbiais, prepositivas e conjuntivas. Vejamos um exemplo na imagem: Às vezes vocês não se sentem um tanto quanto indefinidos? Reparou que há acento na expressão “às vezes”? Você já se perguntou por que ela recebe o acento grave? Aparentemente não há razão para isso, afinal o “as” não está entre duas palavras, uma delas a exigir a preposição e a outra a aceitar o artigo feminino. Nesta lição, vamos descobrir o motivo de haver crase em locuções desse tipo. Antes de prosseguir, que tal revisar o conceito de locução gramatical? Leia o quadro abaixo: A + Para saber mais PARA SABER MAIS Locuções gramaticais Conjunto composto por duas ou mais palavras equivalentes a um sig- nificado único. Ao se unirem, as palavras formadoras da locução perdem a classe gramatical original e ajudam a compor outra. A locução adjetiva, por exemplo, é formada por uma preposição e por um ou mais substan- tivos. Confira: de Marte preposição Substantivo O vocábulo Marte, quando sozinho, é substantivo, refere-se ao nome do planeta. Ao integrar uma locução adjetiva (de marte), o significado muda para “marciano”. Há locuções gramaticais de vários tipos: adjetiva, adverbial, prepositiva, conjuntiva, verbal, inter- jetiva, substantiva, etc. 5 Lição 3 - Uso da crase por tradição As locuções que nos interessam são as adverbiais, as conjuntivas e as prepositivas, pois existe possibilidade de que elas usem o acento grave, por isso vamos estudá-las um pouco mais. 3.1 Locuções adverbiais As locuções adverbiais são formadas pela sequência: Preposição A + substantivo ou adjetivo. Elas expressam a circunstância em que a ação verbal aconteceu: modo, lugar, tempo, etc. Em “desenho feito a lápis”, por exemplo, “a lápis” é uma locução adverbial de modo. Veja como essa expressão é formada: a lápis preposição Substantivo masculino Nas locuções adverbiais, tais como: a pé, a cavalo, a caminho, a caráter, etc., a letra A, além de ser uma simples preposição, está diante de uma palavra masculina, então não existe razão alguma para se usar o acento grave. Já com as locuções adverbiais femininas a história é outra. Mesmo não havendo contração da preposição com o artigo feminino, o acento pode ser empregado por tradição histórica do idioma. Confira alguns exemplos: À primeira vista, o pedido encontra fundamento no princípio da ampla defesa. A interessada informa que a liminar foi deferida às pressas. O produto foi colocado à venda. A prescrição médica deve ser seguida à risca. As locuções adverbiais femininas que recebem o acento grave geralmente expressam ideias de tempo, lugar e modo. Nas locuções de instrumento, acentuar é opcional, a depender do contexto. Para entender melhor o assunto, vamos ler o texto da professora Maria Thereza Piacentini: Nas locuções circunstanciais femininas, embora esse A possa ser só preposição, é de tradição acentuá-lo por motivo de clareza. Compare nos exemplos abaixo o significado da frase sem o acento e com ele: Favor lavar a mão. Favor lavar à mão, e não à máquina. Caiu a noite (anoiteceu). Ele caiu à noite. Vendeu a vista (os olhos). Vendeu à vista. Foi caçada a bala (a bala foi caçada). Foi caçada à bala. https://www.linguabrasil.com.br/nao-tropece-detail.php?id=36 6 Lição 3 - Uso da crase por tradição Cortei a faca (cortou a própria faca). Cortei à faca. Coloquei a venda (faixa nos olhos). Sim, coloquei à venda. Trancou a chave (a chave foi trancada). Trancou à chave. Pagou a prestação (pagou-a). Pagou à prestação (em prestações). É por essa questão de clareza que se recomenda e geralmente se acentua o a nas locuções femininas de circunstância, para que a preposição não seja confundida com o artigo feminino. Nestes casos, não funciona o artifício de ver como é que se comporta uma expressão similar no masculino, pois não haverá correspondência de à com ao. Trata-se de uma exceção. Então, por ex., mesmo que se escreva a prazo (subst. masc.), escreve-se à vista, com acento. Vejamos outros exemplos em que a preposição poderia se confundir com o artigo e por isso o acento é de praxe: à evidência, estou à disposição, fique à vontade, encontra- se à paisana, à espreita, escreve à perfeição, vive à toa, o cão anda à solta, cumpriu o trato à risca, navegar à vela, apanhar (flores) à mão, escrever à caneta, cortar à faca ou à gilete, falar à boca pequena [em voz baixa], provou o caso à saciedade [plenamente], tomou a injeção à força, amor à primeira vista, assalto à mão armada, modéstia à parte, às (ou a) expensas etc. É facultativo o acento indicativo de crase quando não há confusão possível: carro a gasolina, barco a vela, matou o cachorro a bala, guardar o dinheiro a chave etc. (Grifos nossos) Concluímos, após a leitura do texto, que o acento grave, nas locuções adverbiais femininas (e também nas prepositivas e conjuntivas), é empregado como sinal esclarecedor do sentido da oração. Em razão disso, seu uso torna-se obrigatório em alguns contextos, mas em outros é facultativo. Caso decida não acentuar, o período estará gramaticalmente correto, mas talvez o leitor não entenda rapidamente o que você quis dizer. Ele precisará ler o trecho novamente para que outros elementos do texto indiquem o verdadeiro sentido. Que tal economizar o tempo dele? Afinal, como ressalta Celso Luft em Decifrando a crase, “o fim da linguagem é a comunicação clara, inequívoca”. Vale a pena frisar que locuções adverbiais masculinas não recebem o acento grave: a pé a cavalo a prazo a frio a gás a gosto a lápis a nado a meio mastro a óleo a postos a prazo a sério a sangue-frio a vapor Em locuções adverbiais femininas de meio e de instrumento (à mão, à chave), a gramática era taxativa e rejeitava a crase. No entanto, em nome da clareza, muitos gramáticos atuais recomendam acentuar a preposição para eliminar a ambiguidade. Veja alguns exemplos: 7 Lição 3 - Uso da crase por tradição Casos em que pode haver ambiguidade: Quando ocorre duplo sentido com as locuções adverbiaisfemininas, há também mudança de classe gramatical, além da possibilidade de a preposição A ser confundida com o artigo feminino. Sem a crase, a expressão pode ser objeto direto, sujeito ou locução adverbial feminina. Com o acento grave, ela será apenas locução adverbial. Vejamos alguns exemplos abaixo: Ele decidiu cortar a faca. (A faca é o objeto que está sendo cortado ou é o instrumento de corte?) Ele decidiu cortar à faca. (Com o acento só há uma interpretação possível: à faca é o instrumento usado para fazer a ação verbal.) O recepcionista deve bater a máquina. (Ele vai bater a máquina em algum lugar ou é o instrumento com o qual se realizará a ação verbal? No primeiro caso, a máquina é objeto direto; no segundo, temos uma locução adverbial de instrumento.) O recepcionista deve bater à máquina. (Com o acento só há uma interpretação possível, à máquina é o instrumento usado para realizar a ação verbal.) Chegou a noite. (sujeito da oração, faz a ação verbal) Chegou à noite (locução adverbial de tempo) Casos em que não se detecta ambiguidade: Em geral, não ocorre duplicidade de sentido quando não existe possibilidade de mudança de classe gramatical. Se a locução adverbial for formada por um substantivo masculino, como nos casos abaixo, dificilmente haverá ambiguidade, uma vez que o artigo a ser aceito é o masculino (o), que não poderia ser confundido com a preposição A. Comprou um carro a gasolina. (Não há possibilidade de dupla interpretação.) Resolveu andar a pé (Não existe ambiguidade, uma vez que “pé” é substantivo masculino.) À distância ou a distância E a locução adverbial “a distância”? Enquadra-se na mesma situação? Com essa expressão, o acento pode ser opcional em alguns casos e em outros é obrigatório. Nas situações em que é facultativo empregá-lo, é preciso verificar o contexto: existe a possibilidade de duplo sentido? Se houver, seu uso é recomendado, ainda que gramaticalmente não exista justificativa para a crase. 8 Lição 3 - Uso da crase por tradição Vamos comparar duas frases para entender melhor: 1. Estudar a distância. 2. Estudar à distância. Na primeira frase, sem a crase, há duas interpretações possíveis: estudar a distância refere- -se ao modo de ensino (não presencial) ou ao objeto de estudo (a distância está sendo estudada). Na segunda, não há dúvida alguma. A mesma ambiguidade aparece nas frases a seguir: Viu a distância. (A distância está sendo vista ou é o modo como ele viu?) Escreveu a distância. (Escreveu a expressão ou é a forma como se deu a ação verbal?) Fotografou a distância. (A distância foi fotografada ou é o modo de se fotografar?) Em “educação a distância” e “curso a distância”, não se verifica duplo sentido, uma vez que “educação” e “curso” são substantivos, além disso, essas expressões já estão consagradas sem o acento. Já em “cursar a distância, ensinar a distância, estudar a distância”, pode ocorrer duplo sentido. Se o contexto não for suficiente para elucidar o significado, o acento grave poderá ser usado sem problema algum. Caso a distância seja determinada ou especificada, é obrigatório acentuar o A: Instale o poste à distância de um metro da casa. O mercado fica à distância de uns 10 km daqui. 9 Lição 3 - Uso da crase por tradição Vamos ler o texto de Sérgio Rodrigues, autor da coluna Sobre palavras na revista Veja, para entender melhor o assunto: “Prezado Sérgio, tenho visto a frase ‘ensino a distância’ sem crase. Isso me parece estranho, pois trata-se de uma expressão adverbial, como ‘monitoramento à distância’. Na verdade, já li das duas formas. Favor esclarecer minha dúvida.” (Fabio Drad de Souza) As duas formas dessa locução adverbial são usadas: a distância e à distância. No primeiro caso, temos simplesmente a preposição a. No segundo, temos a mesma preposição a, mas ela leva um acento grave. Este pode ser indicativo de crase, isto é, de contração com o artigo definido a, ou apenas diferencial, empregado em nome da clareza. O Houaiss observa que os autores clássicos da língua dão preferência à primeira forma quando a distância não é especificada (“viram algo movendo-se a distância”), e à segunda quando se trata de uma distância precisa: “o portão ficava à distância de quatro metros”. Na mesma nota, porém, o melhor dicionário de nossa língua sugere usar acento também no primeiro caso, “quando a sua falta comprometer de algum modo a clareza da frase”. Dá o seguinte exemplo: “a sentinela vigia à distância”. Se a ideia a ser comunicada é a de que a sentinela se mantém distante daquilo que vigia, a ausência do acento poderia sugerir erroneamente que a distância é aquilo que ela vigia. A meu ver, a eliminação desse tipo de ambiguidade fortuita é suficiente para recomendar o uso da locução adverbial “à distância” em todas as situações, seja a distância especificada ou não. Tal opção pela clareza parece ser a inclinação contemporânea. Se não há ambiguidade na expressão “ensino a distância” quando ensino é claramente um substantivo, ela se instala quando falamos em “ensinar a distância”: ensinar de longe ou, poeticamente, ensinar o próprio distanciamento? Seria absurdo usar acento no segundo caso e não no primeiro, pois o método de ensino é o mesmo. “À distância” acaba com a confusão. Há outras locuções adverbiais em que o acento é sempre recomendado como forma de evitar ambiguidade: “à mão” é o caso clássico. “Que mão?”, podem perguntar os que estranham o artigo definido embutido na crase. Ocorre que “lavar à mão” é uma coisa e “lavar a mão”, outra bem diferente. O gramático Evanildo Bechara não vê nesse caso contração de preposição e artigo, mas “a pura preposição a que rege um substantivo feminino no singular, formando uma locução adverbial que, por motivo de clareza, vem assinalada com acento diferencial”. O mesmo raciocínio justifica o emprego do acento grave em locuções adverbiais como “à força”, “à míngua” e “à noite”. É uma forma interessante de encarar a questão – suficiente, aliás, para abonar a preferência por “à distância”. Mas acredito haver outro enfoque possível, em que o artigo definido se faz presente e existe, sim, crase. A que mão nos referimos quando dizemos “à mão”? À mão genérica, ora. À mão como ideia, ao ideal platônico de mão. Pronto, eis o artigo. https://veja.abril.com.br/coluna/sobre-palavras/ensino-a-distancia-ou-ensino-a-distancia 10 Lição 3 - Uso da crase por tradição Naturalmente, a ambiguidade e a necessidade de eliminá-la (com crase ou com acento diferencial) só ocorrem porque distância, mão, força, míngua e noite são substantivos femininos. Em expressões como “terminar a tarefa a jato” e “talhar a canivete”, o gênero masculino dos substantivos jato e canivete não permite confundir preposição com artigo, motivo pelo qual se dispensam medidas adicionais para esclarecer o sentido da mensagem. Usar o acento nesses casos (à jato, à canivete) é um erro crasso e infelizmente comum. E já que falamos nisso: quando o artigo definido masculino se impõe, é óbvio que não existe crase, mas a contração ao: “Vimos relâmpagos ao longe”. Uso obrigatório da crase em locuções adverbiais 1. Locuções femininas no plural Em certas locuções adverbiais, o uso do acento grave é obrigatório, pois efetivamente o fenômeno da crase ocorre. Para esclarecer quais são elas, vamos nos lembrar da pergunta que fizemos no início da lição: por que razão a expressão “às vezes” recebe crase? Como vimos, locuções adverbiais são formadas por preposição + substantivo ou adjetivo. É preciso acrescentar ainda que preposições não admitem plural. Sabendo disso, concluímos que, no “as” de “às vezes”, ocorre o encontro de duas letras iguais: um artigo feminino plural e uma preposição, ou seja, as + a = às. Dois sons idênticos, portanto, que se fundem em um só. Em síntese, é obrigatório o acento grave quando, na locução adverbial, o substantivo está no plural e o artigo também. Vejamosmais exemplos: Fez o trabalho às pressas. Fingiu que tudo está às mil maravilhas. Deixou o quarto às avessas. Estou às ordens. Cuidado! Se o A estiver sem o “s”, não ocorrerá a crase: Sobreviveu a duras penas. Pagou tudo a prestações. Foi recebido a pauladas. Você consegue entender o motivo de não haver crase nessas locuções, não é? É isso mesmo, temos apenas a preposição a. 11 Lição 3 - Uso da crase por tradição 2. Locução adverbial de indicação de horas É obrigatório assinalar a crase em locuções adverbiais que exprimem hora determinada: às sete horas, às dezenove horas. Observe que temos artigo masculino antes da expressão “ao meio-dia”, logo haverá crase também em “à meia noite”. Vejamos exemplos: Às 19 horas nos encontraremos na igreja. O sinal será acionado às 13 horas e à uma hora da madrugada. O remédio deverá ser tomado às duas horas da tarde. Faremos a ronda ao meio-dia e à meia-noite. O aumento entra em vigor à zero hora. Na lição 4, vamos estudar com mais profundidade a crase na indicação de horas, sobretudo quando elas aparecem em construções paralelas. 3.2 Locuções prepositivas Preposição é a palavra invariável que liga dois termos, estabelecendo entre eles determinadas relações de sentido e de dependência. As locuções prepositivas têm a mesma função e, como você agora já sabe, são formadas por mais de um vocábulo, sendo o último deles uma preposição simples. Veja exemplos: a respeito de atrás de dentro de quanto a Quando iniciadas pela preposição “a” e terminadas na preposição “de”, as locuções prepositivas femininas recebem o sinal de crase, como nas expressões abaixo: à beira de à maneira de à espera de à moda de à procura de à base de à cata de à custa de à força de à semelhança de à esquerda de à direita de à frente de à mercê de à guisa de Leia algumas frases: 12 Lição 3 - Uso da crase por tradição A vítima ficou à mercê do algoz. Ela estava à frente do projeto. À procura de justificativa para a denegação, compulsou os autos. Antes de prosseguir, analise a frase abaixo e verifique se é necessário acentuar a locução prepositiva “a despeito de”: A despeito da densidade jurídica do princípio da ampla defesa, essa garantia constitucional não protege práticas escusas. Como realizar essa avaliação? A primeira providência é verificar o gênero da palavra principal. Se for masculina, como “despeito” de fato é, não existe razão para acentuar. Vejamos agora outro tipo de locução prepositiva: as que terminam com a preposição “a”. O que elas têm de especial? Quando se ligam a um substantivo feminino determinado, recebem o acento grave. Observe que, nas masculinas, sempre aparecerá artigo também, basta fazer o teste da troca da palavra feminina pela masculina para confirmar. Confira exemplos abaixo: Graças à intervenção do procurador, o feito prosseguiu rapidamente. Graças ao pedido do paciente, a dieta não foi tão restritiva. Em atenção à queixa do recorrente, dispensou a leitura do relatório. Em atenção ao acordo realizado, dispensou a leitura do relatório. Com vistas à aplicabilidade imediata da norma, redigiu o regulamento. Com vistas ao atendimento da norma, expediu o alvará. Opinou quanto à possibilidade de adoção de meio menos gravoso para chegar-se ao mesmo fim. Opinou quanto ao recebimento da denúncia. Devido à falta de evidências, opinou pelo desprovimento do agravo regimental. Devido ao aditamento da denúncia, estabeleceu novo prazo. 13 Lição 3 - Uso da crase por tradição 3.3 Locuções conjuntivas Usadas para ligar orações, as locuções conjuntivas femininas “à proporção que” e “à medida que” também recebem o acento indicativo de crase. Confira exemplos a seguir: A dívida aumentava à medida que os gastos continuavam. O bloqueio do orçamento será revisto à medida que a receita for aumentando. À proporção que o homem exterior se destrói, o homem interior se renova. [Michel de Montaigne] A + Para saber mais PARA SABER MAIS Cuidado! Não confunda a locução “à medida que” com “na medida em que”. As duas estão corretas, mas apresentam sentidos diferentes. “À medida que” expressa desenvolvimento simultâneo e gradual. Pode ser trocado por “à proporção que”. O cansaço aumentava à medida que a noite avançava. Os motivos do crime foram ficando claros à medida que as investigações iam avançando. “Na medida em que” é conjunção causal, exprime relação de causa e equivale a “porque”, “já que”, “uma vez que”. Confira os exemplos: A referência não passa pelo crivo da racionalidade, na medida em que não apresenta motivação idônea. Na medida em que investimentos não foram realizados, a companhia elétrica foi sucateada. “A falta de recursos materiais a inviabilizar as garantias constitucionais dos acusados em processo penal é inadmissível, na medida em que implica disparidade dos meios de manifestação entre a acusação e a defesa.” [HC 85.200, rel. min. Eros Grau.] Por fim, é incorreto o uso de “à medida em que”. 14 Lição 3 - Uso da crase por tradição 3.4 Locuções que não recebem O ACENTO GRAVE A seguir uma lista de locuções que não são acentuadas, ora por serem formadas por palavras masculinas, ora por serem formadas por preposição seguida de palavra plural. a duras penas a bel prazer a boa distância de a bordo a bordoadas a calhar a braçadas a caráter a cabeçadas a cavalo a cacetadas a cargo de a cântaros a dedo a facadas a frio a chibatadas a diesel a chicotadas a esmo a cerca de a ferro a certa altura a galope a certa distância a gosto a começar de a álcool a contar de a curto prazo de alto a baixo a estibordo de cabo a rabo a fundo a grande distância a gás a juros a jato a granel a lápis a joelhadas a longo prazo a mais a lenha a longa distância a mando de a marteladas a meia altura a ouro a meio pau a menos a meu ver a montante a nado a óleo a olho nu a meia distância a par a partir de a pauladas a passos largos a pé a pedidos a pequena distância a pilha a pino a ponta de espada a pontapés a ponto de a porretadas a portas fechadas a postos a pouca distância a prazo a prestações a princípio a propósito a público a punhalada a pururuca a quatro mãos a querosene a rigor a rir a rodo a seco a seguir a sério a serviço a sete chaves a socos a sós a sono solto a termo a tiracolo a tiro a toda a toda força a toda hora a toque de caixa a trote a valer a vapor a vela a zero de alto a baixo de cabo a rabo de fora a fora de mais a mais de mal a pior de parte a parte de ponta a ponta fazer as vezes de folha a folha frente a frente meio a meio hora a hora Que tal agora fazermos exercícios? Por meio deles, fixamos o que aprendemos nesta aula e ainda verificamos se há alguma dúvida. 15 Lição 3 - Uso da crase por tradição A vamos exercitar Agora é sua vez! VAMOS EXERCITAR? Vamos aplicar os métodos que estudamos nesta aula. Resolva as questões abaixo e depois confira as respostas na sequência. 1. O acento grave, nos períodos abaixo, altera o sentido da frase, explique cada caso: I. Foi examinada a mais dura prova. Foi examinada à mais dura prova. II. Permissão legal dada ao juiz para que substitua a vontade. Permissão legal dada ao juiz para que substitua à vontade. III. Combateremos a sombra. Combateremos à sombra. IV. Passaram a segunda parte do programa. Passaram à segunda parte do programa. 2. Indique a crase se necessário e justifique a presença ou a ausência do acento grave nas frases a seguir: a) Sentou-se a beira da estrada e ficou a espera de ajuda. b) A camisa cheira a suor e a vinho. c) Tudo foi decidido a portas fechadas. d) O TCU estabeleceu situações nas quais será mantido o sigilo quanto a autoria da denúncia. e) Atravessou o canal a nado. f) Não resolveu o problema a tempo de evitar o choque. g) Ela sai a uma hora e só volta a meia-noite. h) Entre e fique a vontade. i) Andava as cegas pela casa, procurando vela e fósforos. 16 Lição 3- Uso da crase por tradição Vamos conferir? 1. O acento grave, nos períodos abaixo, altera o sentido da frase, explique cada caso: I. Foi examinada a mais dura prova. A expressão “a mais dura prova” é sujeito paciente. É a prova que está sendo examinada. Foi examinada à mais dura prova. À mais dura prova é o modo como alguém está sendo examinado. Trata-se, portanto, de locução adverbial feminina. II. Permissão legal dada ao juiz para que substitua a vontade. A vontade é objeto direto. Ela é que pode ser substituída por algo. Não recebe o acento indicador de crase, pois não temos a presença de preposição, apenas há artigo feminino. Permissão legal dada ao juiz para que substitua à vontade. À vontade é locução adverbial de modo. Recebe o acento indicador de crase por tradição, para diferenciar a preposição de artigo feminino. O juiz pode substituir algo da maneira que desejar. III. Combateremos a sombra. A sombra é objeto direto. Ela será combatida. A letra “a” é artigo feminino apenas. Combateremos à sombra. À sombra pode ser locução adverbial de modo ou de lugar. Indica a forma como o combate será feito ou o lugar onde ocorrerá.. IV. Passaram a segunda parte do programa. A segunda parte do programa foi passada por alguém. É objeto direto do verbo passar. Passaram à segunda parte do programa. Encaminharam-se para a segunda parte do programa. A expressão agora é um adjunto adverbial de lugar. 2. Indique a crase se necessário e justifique a presença ou a ausência do acento grave nas frases a seguir: a) Sentou-se à beira da estrada e ficou à espera de ajuda. Justificativa: As duas expressões são locuções prepositivas femininas, razão pela qual recebem o acento grave. b) A camisa cheira a suor e a vinho. Justificativa: A suor e a vinho são locuções adverbiais de modo formadas por preposição e palavra masculina, razão pela qual a crase é indevida. 17 Lição 3 - Uso da crase por tradição c) Tudo foi decidido a portas fechadas. Justificativa: A portas fechadas é locução adverbial de modo formada por preposição e palavras no plural, razão pela qual a crase é indevida. d) O TCU estabeleceu situações nas quais será mantido o sigilo quanto à autoria da denúncia. Justificativa: Locuções prepositivas que terminam com a preposição “a” recebem o acento grave quando se ligam a um substantivo feminino determinado. e) Atravessou o canal a nado. Justificativa: A nado é locução adverbial de modo formada por preposição e palavra masculina, razão pela qual a crase é indevida. f) Não resolveu o problema a tempo de evitar o choque. Justificativa: A tempo é locução adverbial formada por preposição e palavra masculina, razão pela qual a crase é indevida. g) Ela sai à uma hora e só volta à meia-noite. Justificativa: O acento grave é usado em locuções adverbiais que indicam horas. h) Entre e fique à vontade. Justificativa: À vontade é locução adverbial de modo formada por preposição e palavra feminina. O acento grave é usado por tradição. i) Andava às cegas pela casa, procurando vela e fósforos. Justificativa: Às cegas é locução adverbial de modo formada por preposição, artigo feminino plural e palavra feminina plural. A crase é, portanto, obrigatória. 18 Lição 3 - Uso da crase por tradição Conclusão Nesta lição 3, abordamos os casos em que o acento grave é usado por tradição nas locuções adverbiais, prepositivas e conjuntivas femininas. Nessas locuções, mesmo que as duas situações obrigatórias de ocorrência da crase não apareçam, empregamos o acento em nome da clareza. Em nossa próxima aula, estudaremos os casos em que a crase é opcional. Até lá. 19 Lição 3 - Uso da crase por tradição Referências CUNHA, Celso & CINTRA, Lindley L. F. Nova gramática do português contemporâneo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. FERREIRA, Mauro. Aprender e praticar: Gramática. São Paulo: FTD, 2003. LUFT, Celso Pedro. Dicionário prático de regência nominal. 4. ed. São Paulo: Ática, 2007. LUFT, Celso Pedro. Dicionário prático de regência verbal. 8. ed. São Paulo: Ática, 2008. LUFT, Celso Pedro. Decifrando a crase. 2. Ed. São Paulo: Globo, 2013. MORENO, Cláudio. Guia prático do Português: sintaxe. 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