Prévia do material em texto
Brenna G Bonfante 1 Omielite - A artrite séptica e a osteomielite aguda são patologias distintas, mas similares na sua apresentação clínica, diagnóstico e tratamento. Ambas são geralmente secundárias à bacteremia, ocorrendo isoladas ou simultaneamente. A artrite séptica pode ser secundária à osteomielite. Definição - Processo inflamatório ósseo causado por um organismo piogênico, que pode se apresentar sob as formas clínicas aguda, subaguda ou crônica. Etiologia - Geralmente causada por bactérias, raramente por fungos (exceto em imunossuprimidos). - Pico de ocorrência: 18 aos 24 meses e outro pico aos 6 anos - Meninos > meninas - RN pode ser vistos focos múltiplos de infecções, já em crianças maiores geralmente é monostótica. Epidemiologia - São consideradas uma emergência e não devem ser tratadas ambulatorialmente, devido ao risco de septicemia e morte. Fisiopatologia - Os mecanismos de infecção podem ser: 1. Inoculação direta: causada por ferimentos penetrantes, infiltrações, picadas de insetos, fratura exposta, cirurgia e outras. 2. Contiguidade: infecção por proximidade de foco infeccioso adjacente. 3. Via hematogênica: circulação sanguínea por bacteremia (crianças) - A região metafisária é muito vascularizada, o que diferencia o osso da criança em relação do adulto. Também a membrana sinovial é mais vascularizada em crianças, o que favorece os processos infecciosos nesse local em crianças. - O sangue, ao atingir os ramos terminais das artérias metafisárias, sofre redução da velocidade e turbilhonamento, que propicia a condição favorável para a bactéria se alojar nessa região. - A epífise geralmente é poupada, pois a placa de crescimento constitui uma barreira mecânica e circulatória natural. - A infecção pode progredir pela cavidade medular, até o córtex metafisário, elevando o periósteo e formando um abscesso subperiosteal. - A liberação de citocinas e interleucinas, pelo processo inflamatório associado à trombose dos vasos terminais, pode causar necrose e osteólise em 12 a 24 horas após o início da infecção. - Mas, a manifestação radiológica só é visível 10 a 14 dias após o início da doença, com áreas de radiotransparência e reação periosteal. - O estado geral, nutricional e imunológico do paciente é um fator que influencia diretamente no estabelecimento de uma infecção. Nota: os ramos terminais das artérias formam alças na altura da placa de crescimento e entram nos sinusoides venosos, provocando fluxo lento e turbulento, que facilita a instalação de bactérias. - Osteomielite hematogênica é mais comum em crianças, podendo ser decorrente de bacteremia em infecções como impetigo, otite média, faringite ou pneumonia. - A osteomielite hematogênica pode ser classificada em aguda, subaguda e crônica. Osteomielite hematogênica aguda - Via de contaminação hemática devido à existência prévia de um foco séptico a distância. - Mais comum em crianças e adolescentes - Diagnosticada até 2 semanas do início dos sintomas. - Sexo masculino, bimodal: < 2 anos e dos 5 aos 12 anos. - Geralmente lesão única (monostótica) que acomete MMII em 90% dos casos Brenna G Bonfante 2 - Locais mais comum (ordem de frequência): tíbia proximal, fêmur proximal, úmero, rádio e pelve. - Em prematuros é comum osteomielite multifocal devido a imaturidade do sistema imunológico e a necessidade frequente de cateteres intravenosos. Fatores de risco, agentes mais comuns e antibióticos Anemia falciforme S. aureus Ceftriaxona Salmonella S. pneumoniae Ferimento puntiforme no pé S. aureus Ceftazidima ou piperacilina-tazobactam Gentamicina Pseudomonas asruginosa Quadro Clínico Sinais e sintomas variam conforme localização, gravidade, idade e condições clínicas. - Dor óssea sentida pela movimentação passiva, ativa ou pela palpação - Febre, astenia e dor localizada - Manifestações sistêmicas de septicemia aguda (febre alta, calafrios, vômitos e desidratação) podem estar presentes ou não. - Recusa alimentar - Irritabilidade - Edema (depende da proximidade do osso com a pele). - Limitação da amplitude se próximo a articulações. (Menos restrita que AS) Clínica tênue ou inexistente em recém-nascidos e lactentes. Diagnóstico História + exame físico + laboratório + imagens • História - Dor, sem trauma, sem relação com movimento ou esforço e aumento de volume do segmento afetado. - Queda do estado geral, febre, inapetência e irritabilidade • Exames - Hemograma (leucocitose ou leucopenia) - VHS (pode aumentar) -PCR (pode aumentar) - Hemocultura (associada à punção aspirativa identifica o agente) • Radiografia - Normais na fase inicial ou mostrar edema nas partes moles. Alterações evidentes entre 10 a 14 dias. *Elevação do periósteo e das áreas radiotransparentes, com esclerose ao redor, devido à formação óssea reativa na metáfise – esse levantamento periosteal determina a formação de camadas de osso lamelar por aposição ( “casca de cebola”). • Ultrassonografia - Pode revelar precocemente o edema de partes moles, deslocamento periosteal ou abscesso. - Auxilia na punção • Cintilografia com Tecnécio - Boa sensibilidade, baixa especificidade - Útil para mostrar áreas de hipercaptação e identificar múltiplos focos de infecção • Tomografia computadorizada Útil para visualizar: - Pequenas áreas de osteólise na cortical óssea - Periostite - Corpos estranhos • RNM - Mais sensível e específico. Apenas quando diagnostico não puder ser feito pelos métodos usuais. • Punção - Após exames de imagem, faz punção aspirativa da área afetada e encaminha para análise (cultura e anatomopatológico). - Se purulento fazer limpeza cirúrgica Diagnóstico Diferencial - Artrite séptica - Celulite - Infarto ósseo - Fratura - Neoplasias Atenção: Tumor de Ewing devido a faixa etária de prevalência entre 5 a 15 anos, manifestação sistêmica (febre e leucocitose) e radiografia com lesão de aspecto lítico, Brenna G Bonfante 3 de limites pouco precisos, presença de reação periosteal (“em casca de cebola”) e comprometimento de partes moles adjacentes. Tratamento - Antibioticoterapia empírica com base na probabilidade x faixa etária, sempre incluir S. aureus. Ajustar após resultado do material. - Drenagem cirúrgica se os sintomas não regredirem em 48 hrs de ATB ou se houver abscesso verificado. Manter antibiótico por 6 semanas após limpeza cirúrgica, ou ate laboratorial normalizar, mantendo VO na alta. Neonatos ( < 8 semanas) Infecção hospitalar: S. aureus, Streptococcus, Enterobac e Candida Oxacilina + gentamicina Ou Cefotaxima + gentamicina Infecção comunitária: S. aureus, Streptococo B, E. coli e Klebsiella Lactentes e pré-escolares ( 2 meses a 3 anos) S. aureus, K. kingae, S. pneumoniae, N. meningitidis, H. influenza B (não imunizados) Imunizados Oxacilina ou cefazolina Não imunizados Oxacilina + cefotaxima ou cefuroxima Infantil ( 3 a 12 anos) S. aureus e Streptococo beta- hemolítico Oxacilina ou Cefazolina Adolescente ( 12 a 18 anos) S. aureus, Streptococo beta- hemolítico e N. gonorrhoeae Oxacilina ou cefazolina; Ceftriaxona e doxiciclina para infecção gonocócica sistêmica Complicações - Fratura patológica - Colonização a distância - Artrite séptica concomitante - Septicemia - Pioartrite - Cronificação • Sequelas -Lesão da placa fisária por proximidade com a infecção, levando a interrupção do crescimento e deformidade angular. - Cronificação (osteomielite crônica) com formação de sequestro. Prevencao através de diagnostico precoce correto e tratamento efetivo. Osteomielite hematogênica subaguda - Quando o diagnóstico é retardado ou o tratamento da fase aguda é inadequado, um germe de baixa agressividadee a imunocompetência do hospedeiro podem determinar uma infecção subaguda. - Quando o diagnóstico é feito entre 2 e 4 semanas do início dos sintomas, compondo quadro mais indolente e arrastado, sem clínica exuberante. - Quadro clínico não é típico e laboratório é inespecífico. - Crianças mais velhas, de ambos os sexos. - Febre baixa ou ausente, leucograma normal e VHS elevada ou normal. - Cultura positiva em 30% - Diagnóstico baseado no aspecto radiográfico da lesão, que geralmente é “lítica”bem delimitada na região metafisária, epifisária e mais raramente diafisária de ossos longos, conhecida como abscesso de Brodie. - Classificação de Roberts é muito útil na diferenciação de cada tipo de apresentação óssea da lesão. - Tratamento com drenagem cirúrgica, coleta de culturas e antibioticoterapia inicial empírica para S. aureus até o resultado das culturas - Na osteomielite vertebral, a coluna lombar é o local mais acometido Classificação de Roberts 1A Lesão metafisária radiolucente sem esclerose marginal 1B Lesão metafisária radiolucente com osso reativo adjacente (abscesso de Brodie) 2 Lesão metafisária radiolucente com erosão da cortical 3 Lesão diafisária localizada com reação periosteal 4 Lesao diafisária com neoformação óssea subperiosteal 5 Lesao epifisária 6 Discite Osteomielite hematogênica crônica - Resultante da osteomielite aguda não diagnosticada, não tratada, tratada de maneira tardia ou inadequada. - Apresenta sintomas por semanas a meses e está associada à antibioticoterapia por tempo insuficiente (< 3 semanas) - Estão presentes sequestros ósseos (tecido ósseo desvitalizado, sinal radiográfico radiolucente) devido ao prejuízo vascular do osso infectado. - Pode ocorrer comunicação do segmento ósseo com o meio externo (fistulização). A fístula drena o pus, mas também pode ser porta de entrada para infecção secundária. - O antibiótico não alcança todo o tecido necrótico que serve como meio de cultura para organismos patogênicos. - Paciente apresenta períodos de reagudização e remissão de crises inflamatórias, com frequente formação de fistulas. - Pode ter desmineralização e destruição óssea intensa, fragilidade e risco de fratura patológica - O tratamento requer debridamento agressivo de todo o osso necrótico e do tecido com vascularização deficiente, bem como antibioticoterapia guiado por culturas. - Procedimentos reconstrutivos podem ser necessário devido a extensão do comprometimento do tecido ósseo e partes moles. Brenna G Bonfante 4 - É essencial fazer cultura e antibiograma do osso infectado pois o pus que drena pela fístula pode estar contaminado com germes da pele. - Sempre que possível fazer cobertura óssea com enxertos ou retalhos musculocutâneos. Na impossibilidade de cobertura, fazer curativo úmido ou a vácuo até o tecido de granulação cubra a superfície exposta ou esteja pronto para receber a cobertura. - Se houver defeito ósseo importante após o debridamento colocar enxerto ósseo autólogo esponjoso - Antibioticoterapia intravenoso por 6 a 12 semanas e deve incluir gram negativos e S. aureus resistente a meticilina, se o paciente for diabético ou vítima de ferida aberta, até o resultado da cultura.