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1 Definir abdome agudo Quadro clínico abdominal caracterizado por dor, de início súbito ou de evolução progressiva, que necessita de definição diagnóstica e de conduta terapêutica imediata. A conduta para o paciente com abdômen agudo deve ser ordenada e completa. O tratamento adequado de pacientes com dor abdominal aguda necessita de uma decisão em tempo hábil quanto à necessidade de cirurgia. Esta decisão exige avaliação da história e do exame físico, exames laboratoriais e exames de imagem. A anamnese e o exame físico costumam sugerir as prováveis etiologias e orientar a escolha dos exames diagnósticos iniciais. O médico deve decidir se há exigência de observação em regime hospitalar, se são necessários exames adicionais ou se já existe indicação cirúrgica imediata. Conhecer os tipos de abdome agudo e suas características De acordo com a natureza do processo determinante - Inflamatório: apendicite, colecistite aguda, pancreatite aguda, diverticulite, doença inflamatória pélvica, abscessos intra-abdominais, peritonites primárias e secundárias, dentre outros. A dor é de início insidioso, com agravamento e localização com o tempo. O paciente apresenta sinais sistêmicos, tais como febre e taquicardia. As doenças mais comuns são: apendicite aguda, colecistite aguda, diverticulite aguda, pancreatite, anexite aguda. A apendicite é a causa mais comum de abdômen agudo cirúrgico no mundo. Pode ocorrer em qualquer faixa etária, mas é mais comum em adolescentes e adultos jovens - Perfurativo: úlcera péptica, neoplasia gastro-intestinal perfurada, amebíase, febre tifóide, divertículos do cólon, dentre outros. A dor é súbita e intensa, com defesa abdominal e irritação peritoneal. Há derrame do conteúdo de víscera oca no peritônio, geralmente secundário à úlcera gastroduodenal, diverticulite, corpos estranhos e neoplasias - Obstrutivo: aderências intestinais, hérnia estrangulada, fecaloma, obstrução pilórica, volvo, intussuscepção, cálculo biliar, corpo estranho, bolo de áscaris, dentre outros. A dor é em cólica, geralmente periumbilical. Associadamente surgem náuseas, vômitos, distensão abdominal, parada da eliminação de flatos e fezes. Acontece na oclusão mecânica por bridas, hérnias, neoplasias e invaginação - Vascular: isquemia intestinal, trombose mesentérica, torção do omento, torção de pedículo de cisto ovariano, infarto esplênico, dentre outros. A dor é difusa e mal definida, há desproporção entre a dor e o exame físico e as causas mais comuns são embolia e trombose mesentérica, com isquemia intestinal - Hemorrágico: gravidez ectópica rota, ruptura do baço, ruptura de aneurisma de aorta abdominal, cisto ovariano hemorrágico, necrose tumoral, endometriose, dentre outros. A dor é intensa, com rigidez e dor à descompressão; há sinais de hipovolemia, tais como hipotensão, taquicardia, palidez e sudorese. As causas mais comuns são prenhez ectópica rota, ruptura de cistos, ruptura de aneurismas, rotura de baço. Explicar os mecanismos de dor abdominal Dor visceral A dor originada das diferentes vísceras do abdome e do tórax é um dos poucos critérios que podem ser utilizados para o diagnóstico de inflamação visceral, doença visceral infecciosa e outros males viscerais. Geralmente, as vísceras têm receptores sensoriais exclusivos para a dor. Além disso, a dor visceral difere da dor superficial em vários aspectos importantes. Uma das diferenças mais importantes entre a dor superficial e a dor visceral é que os danos viscerais muito localizados raramente causam dor grave. Por exemplo, cirurgião pode dividir as alças intestinais em duas partes em paciente consciente, sem causar dor significativa. Inversamente, qualquer estímulo que ocasione estimulação difusa das terminações nervosas para a dor na víscera causa dor que pode ser grave. Por exemplo, a isquemia, provocada pela oclusão do suprimento sanguíneo para grande área dos intestinos, estimula várias fibras dolorosas difusas ao mesmo tempo, podendo resultar em dor extrema. → Causas de dor visceral verdadeira Qualquer estímulo que excite as terminações nervosas para a dor, em áreas difusas das vísceras, pode causar dor visceral. Esses estímulos incluem isquemia do tecido visceral, lesão química das superfícies das vísceras, espasmo da musculatura lisa de víscera oca, distensão excessiva de víscera oca e distensão do tecido conjuntivo que circunda ou é localizado na víscera. Essencialmente, qualquer dor que se origine nas cavidades torácica ou abdominal é transmitida pelas fibras delgadas do tipo C e, portanto, só podem transmitir o tipo crônico- persistente de dor. - Isquemia: A isquemia causa dor visceral da mesma forma que causa dor em outros tecidos, presumivelmente, devido à formação de produtos finais metabólicos ácidos ou produtos degenerativos dos tecidos, como a bradicinina, enzimas proteolíticas ou outras que estimulem as terminações nervosas para dor. - Estímulos Químicos. Algumas vezes, substâncias nocivas escapam do trato gastrointestinal para a cavidade peritoneal. Por exemplo, o suco gástrico ácido proteolítico pode escapar por úlcera gástrica ou duodenal perfurada. Esse suco causa digestão disseminada do peritônio visceral, estimulando amplas áreas de fibras dolorosas. A dor costuma ser é excruciante e grave - Espasmo de Víscera Oca. O espasmo de porção da alça intestinal, da vesícula biliar, do ducto biliar, do ureter ou de qualquer outra víscera oca pode causar dor, possivelmente, pela estimulação mecânica das terminações nervosas da dor. Outra possibilidade é a de que o espasmo pode acarretar diminuição do fluxo sanguíneo para o músculo, o que combinado com o aumento das necessidades metabólicas do músculo para nutrientes, causa dor grave. Em geral, a dor de víscera espástica ocorre na forma de cólicas, com a dor chegando a alto grau de gravidade e depois diminuindo. Esse processo continua de modo intermitente, uma vez a cada poucos minutos. Os ciclos intermitentes resultam de períodos de contração da musculatura lisa. Por exemplo, a cólica surge toda vez que a onda peristáltica percorre a alça intestinal excessivamente excitável. Essa dor do tipo cólica frequentemente ocorre em pessoas com apendicite, gastroenterite, constipação, menstruação, parto, doenças da vesícula biliar ou obstrução ureteral. 2 - Distensão Excessiva de Víscera Oca. O preenchimento excessivo de víscera oca também pode resultar em dor, presumivelmente, devido à distensão excessiva dos tecidos propriamente ditos. A distensão excessiva também pode interromper os vasos sanguíneos que circundam a víscera ou que passam por sua parede, talvez promovendo dor isquêmica - Vísceras Insensíveis. Poucas áreas viscerais são quase completamente insensíveis à dor de qualquer tipo. Elas incluem o parênquima do fígado e os alvéolos pulmonares. Por sua vez, a cápsula hepática é extremamente sensível tanto ao trauma direto quanto à sua distensão, e os ductos biliares também são sensíveis à dor. Nos pulmões, embora os alvéolos sejam insensíveis, tanto os brônquios quanto a pleura parietal são bastante sensíveis à dor. Dor parietal Quando a doença afeta a víscera, o processo doloroso geralmente se dissemina para o peritônio, a pleura ou o pericárdio parietal. Essas superfícies parietais, como a pele, são supridas com extensa inervação dolorosa, originada nos nervos espinais periféricos. Portanto, a dor da parede parietal sobre a víscera é, muitas vezes, aguda. Exemplo pode enfatizar a diferença entre essa dor e a dor visceral verdadeira: incisão do peritônio parietal é muito dolorosa, enquanto incisão similar do peritônio visceral ou da parede intestinal pode não ser muito dolorosa ou até mesmo ser indolor. Localização da dor A dor oriunda de diferentes vísceras frequentemente é difícil de localizar, por inúmeras razões.Primeiro, o sistema nervoso do paciente não reconhece de experiência anterior, a existência dos diferentes órgãos internos; portanto, qualquer dor que se origine internamente pode apenas ser localizada com imprecisão. Segundo, as sensações do abdome e do tórax são transmitidas por meio das duas vias para o sistema nervoso central — a via visceral verdadeira e a via parietal. A dor visceral verdadeira é transmitida pelas fibras sensoriais para dor, nos feixes nervosos autônomos, e as sensações são referidas para as áreas da superfície do corpo, geralmente longe do órgão doloroso. Inversamente, as sensações parietais são conduzidas diretamente para os nervos espinais locais do peritônio parietal, da pleura ou do pericárdio, e essas sensações geralmente se localizam diretamente sobre a área dolorosa. Quando a dor visceral é referida para a superfície do corpo, a pessoa, em geral, a localiza no segmento dermatômico de origem do órgão visceral no embrião, e não necessariamente no local atual do órgão visceral. Por exemplo, o coração se origina do dermátomo do pescoço e da região superior do tórax, assim as fibras para a dor visceral do coração cursam de forma ascendente ao longo dos nervos simpáticos sensoriais e entram na medula espinal entre os segmentos C-3 e T-5. Portanto, como mostrado na Figura 49-6, a dor cardíaca é referida ao lado do pescoço, sobre o ombro, sobre os músculos peitorais, ao longo do braço e na área subesternal da região superior do tórax. Essas são as áreas da superfície corporal que enviam suas próprias fibras nervosas somatossensoriais para os segmentos C-3 a T-5 da medula espinal. Em geral, a dor se localiza no lado esquerdo, porque o lado esquerdo do coração está envolvido, com maior frequência, na doença coronariana. O estômago se origina, aproximadamente, entre o sétimo e o nono segmento torácico do embrião. Portanto, a dor do estômago é referida ao epigástrio anterior acima do umbigo, que é a área de superfície do corpo suprida pelos segmentos torácicos de sete a nove. A Figura 49- 6 mostra várias outras áreas de superfície em que a dor visceral de outros órgãos é referida, representando em geral as áreas no embrião, das quais os respectivos órgãos se originaram. Via Parietal para a Transmissão da Dor Abdominal e Torácica. A dor oriunda de vísceras frequentemente se localiza em duas áreas na superfície do corpo ao mesmo tempo, por causa da dupla transmissão da dor pela via visceral referida e a via parietal direta. Dessa forma, a Figura 49-7 mostra a dupla transmissão oriunda de apêndice inflamado. Os impulsos dolorosos passam inicialmente do apêndice por fibras dolorosas viscerais, localizadas nos fascículos nervosos simpáticos, seguindo para a medula espinal no nível de T-10 ou T-11; essa dor é referida para área ao redor do umbigo e é do tipo persistente e espasmódica. Os impulsos dolorosos, geralmente, se originam no peritônio parietal, onde o apêndice inflamado toca ou está aderido à parede abdominal. Esses impulsos causam dor do tipo pontual diretamente sobre o peritônio irritado, no quadrante inferior direito do abdome Abordar as principais causas do abdome obstrutivo A dor abdominal pode-se iniciar repentinamente ou instantaneamente, sem sintomas prévios. O início súbito ou explosivo sugere perfuração de uma víscera para o peritônio livre, como o duodeno ou estômago, ou isquemia intestinal aguda, em virtude de embolia arterial visceral. A dor de caráter progressivo. corresponde à apresentação habitual de doenças que comumente produzem abdômen agudo, tais como colecistite aguda, pancreatite aguda e obstrução de delgado proximal. 3 Algumas doenças iniciam-se com desconforto abdominal, vago generalizado, que evolui para dor abdominal em algumas horas. A dor torna-se mais intensa e subsequentemente se localiza. Este grupo de doenças inclui a apendicite aguda, hérnia encarcerada, obstrução de delgado distal, obstrução de cólon, diverticulite e perfuração de víscera bloqueada. A qualidade, gravidade e periodicidade da dor podem colaborar no diagnóstico. A úlcera duodenal e a apendicite perfurada causam dor constante e aguda. Dor precoce de obstrução de delgado é vaga e profunda. A partir daí, esta dor assume características crescentes e decrescentes, tipo cólica (Quadro 4). Se a obstrução causar infarto intestinal, a dor se tornará prolongada e constante. A dor da obstrução ureteral é extremamente intensa. Dor aguda no abdômen superior, no tórax inferior ou região interescapular sugere dissecção aórtica. Em casos de abdome agudo obstrutivo, a dor é em cólica, geralmente periumbilical e progressiva. Ao exame físico, pode ser identificado distensão abdominal, peristaltismo aumentado (denominado “peristaltismo de luta”), sons metálicos na ausculta e hipertimpanismo na percussão. a) Obstrução Intestinal A obstrução intestinal compõe cerca de 20% dos casos de abdome agudo. O diagnóstico pode ser estabelecido através da TC ou radiografia simples, uma vez que ambos os métodos apresentam sensibilidade, especificidade e acurácia semelhantes. b) Intussuscepção A intussuscepção consiste no prolapso de uma alça intestinal e seu mesentério para o interior da luz de um segmento contínuo. Ocorrências no intestino delgado, em sua maioria, são secundárias a lesões benignas, já no intestino grosso, são mais frequentes as secundárias a lesões malignas. Em menos de 50% dos casos, o paciente pode apresentar a tríade clássica, composta por dor abdominal, fezes “em geleia de amora” ou hematoquezia e, massa abdominal palpável. Associadamente, podem ocorrer vômitos, letargia e convulsão. A TC é o método mais indicado para diagnóstico. Tal exame fornece informações adicionais que auxiliam na determinação da patologia subjacente e, permite a identificação de metástases ou linfonodomegalias. c) Corpo Estranho Objetos compridos ou pontiagudos, ao serem ingeridos, podem alojar-se em áreas de estreitamento ou de ângulo agudo, sendo o duodeno, junção duodeno-jejunal, apêndice e válvula íleo-cecal os locais mais frequentes de obstrução. A radiografia de abdome é vantajosa na identificação de objetos radiopacos. No entanto, itens radioluscentes tais como, madeira, plásticos e objetos finos de alumínio são de difícil diagnóstico. A USG também pode ser utilizada em complicações, como a perfuração, na pesquisa por coleções. Descrever no reflexo de vômito Náuseas, vômitos e dor constituem as complicações mais frequentemente observadas no pós-operatório com anestesia geral, regional ou local. Mais recentemente, com a introdução das novas drogas anestésicas e de potentes antieméticos, foi constatada uma substancial redução na incidência das náuseas e vômitos pós- operatórios Náusea é definida como uma desagradável sensação subjetiva, referida na faringe e abdome superior, associada com o desejo de vomitar ou com a sensação de que o ato do vômito é iminente. Pode ser breve ou prolongada, ocorrendo geralmente em “ondas” e precede o episódio de vômito ou ocorre isoladamente. É usualmente acompanhada da perda do tono gástrico, contração duodenal e refluxo do conteúdo intestinal para o estômago. Vômito é conceituado como uma expulsão forçada do conteúdo gástrico através da boca e é usualmente, mas nem sempre, precedido por vômitos secos em que não ocorre expulsão do conteúdo gástrico. É acompanhado por forte e sustentada contração dos músculos abdominais, abaixamento do diafragma e abertura do cárdia. O ato do vômito envolve uma sequência de eventos ou fases consecutivas que podem ser divididas em fases de pré-ejeção, de ejeção e de pós-ejeção. A fase de pré-ejeção ou fase prodrômica é caracterizada por sensação de náusea, juntamente com sinais autonômicos. como salivação, deglutição, palidez e taquicardia. Nesta fase de pré-ejeção os sinaisde sudorese fria, vasoconstrição cutânea e dilatação pupilar são mediados pelo simpático, enquanto a salivação é mediada pelo parassimpático. A fase de pré-ejeção é usualmente, mas não invariavelmente, seguida pela fase de ejeção. A fase de ejeção é representada pelo vômito seco e o vômito propriamente dito. O vômito seco é caracterizado por movimentos inspiratórios rítmicos e sincrônicos do diafragma, músculos abdominais e intercostais externos, enquanto a boca e a glote permanecem fechadas. Quando a porção antral do estômago se contrai a porção proximal se relaxa, mediada por nervos aferentes vagais que ativam neurônios pós-ganglionares da parede do estômago e o conteúdo gástrico oscila entre o estômago e o esôfago. Estes neurônios provavelmente tem como neurotransmissores o polipeptídio vasoativo intestinal (VIP) ou o óxido nítrico. Durante o vômito seco os músculos abdominais e o diafragma contraem sincronicamente, enquanto a porção hiatal do diafragma não se relaxa, concorrendo elevação da pressão intra-abdominal associada a redução na pressão intra-torácica. Em contraste, durante o ato do vômito o relaxamento do hiato diafragmático permite a transferência da pressão intra-abdominal para o tórax. A contração dos músculos reto abdominais e do oblíquo externo da parede anterior do abdome, o relaxamento do esfíncter esofágico, o aumento da pressão intra- torácica e intra-gástrica, a peristalse reversa e a abertura da glote e da boca, resultam na expulsão do conteúdo gástrico, constituindo o ato do vômito propriamente dito. 4 A contração retrógrada está sob o controle vagal e o neurotransmissor envolvido é a acetilcolina. Os dois eventos motores que ocorrem no intestino são de particular interesse no reflexo do vômito - o relaxamento gástrico servindo para confinar ao estômago a toxina ingerida oralmente, e a contração intestinal retrógrada para retornar qualquer conteúdo gástrico contaminado para o estômago e mais facilmente disponível para ejeção. A fase de pós-ejeção consiste de respostas autonômicas e viscerais que promovem o retorno do organismo a uma fase quiescente com ou sem náuseas residuais O mecanismo do reflexo do vômito envolve três grandes componentes: os detectores ou aferentes eméticos, um mecanismo central de integração do reflexo e uma via eferente ou motora. Como a função precípua do reflexo do vômito é a de proteção contra a ingestão acidental de toxinas ou de alimentos contaminados, não é surpreendente que o estômago e o intestino tenham sistemas de detecção capazes de ativar o reflexo. O nervo vago é o principal aferente dos estímulos eméticos produzidos no aparelho gastrointestinal seguido do aferente simpático. Estimulação elétrica do aferente vagal abdominal é capaz de induzir vômitos dentro de 20 segundos. Dois tipos principais de aferentes vagais estão envolvidos na resposta emética: I) Mecanorreceptores localizados na parede muscular do intestino podendo ser ativados por contração ou distensão do aparelho gastrointestinal. A distensão do antro gástrico ou do intestino delgado proximal pode induzir náuseas e vômitos por estimulação destes receptores II) Quimiorreceptores, localizados na mucosa da parte mais alta do intestino, monitoriza diversas alterações que ocorrem no ambiente intraluminal. Estes receptores respondem a irritação da mucosa, a soluções ácidas, alcalinas e hipertônicas, temperatura, irritantes (sulfato de cobre) e a alguns fármacos, como por exemplo, a cisplatina e os anestésicos A informação detectada no trato gastrointestinal é transmitida através de aferentes do nervo vago para o núcleo do trato solitário (NTS) e para a área postrema no sistema nervoso central (SNC) Foi também descrito detector de estímulos aferentes no tronco cerebral que por sua vez é capaz de estimular diretamente o centro do vômito. Wang e Borison14 demonstraram que a aplicação de diversos estímulos pode ativar diretamente células da área postrema, denominada de zona quimiorreceptora de gatilho (ZQG). A área postrema no homem é representada por uma estrutura em forma de U, com poucos milímetros de comprimento e localizada na extremidade caudal do quarto ventrículo. A área postrema é altamente vascularizada e os vasos terminam em capilares altamente fenestrados, facilitando a penetração de substâncias circulantes no cérebro. Como não existe uma efetiva barreira hematoencefálica nesta região, a ZQG pode ser facilmente ativada por substância químicas ou toxinas circulantes no sangue ou no fluido cerebroespinhal. A ZQG, é portanto, o local de ação de drogas como apomorfina, morfina e digitálicos que chegam a esta região através da corrente sanguínea. É provável que as substâncias endógenas produzidas na uremia e em outros distúrbios clínicos estimulem o vômito por atuação sobre a ZQG. A ZQG também encontra-se envolvida na mediação das cinetoses. Apresentar o diagnóstico diferencial de abdome agudo obstrutivo Em cerca de 75% dos casos, a oclusão intestinal tem como causa as aderências entre alças, provenientes de cirurgias abdominais prévias. As demais obstruções são causadas por hérnias, fecalomas, neoplasias, doença de Crohn, volvos, intussuscepção, íleo biliar e outras. Aproximadamente, 15% dos pacientes submetidos à laparotomias serão admitidos em serviços de urgência com quadros obstrutivos, e 3% necessitarão de reintervenções cirúrgicas para lise de aderências. Estima-se que, em 10 anos pós laparotomia, o risco de ser acometido por obstrução intestinal seja de 40%.4,22 O quadro clínico é típico com dores abdominais difusas tipo cólica, náuseas e vômitos, parada de eliminação de flatos e fezes, e distensão abdominal progressiva. Os vômitos são inicialmente com conteúdo gástrico, seguido de bile, chegando até a característica fecalóide. Ao exame físico notamos grande distensão abdominal, timpanismo à percussão, e dor difusa à palpação. Os ruídos hidroaéreos são inicialmente aumentados com timbre metálico, podendo estar ausentes em quadros avançados. O exame físico compreende também a avaliação da região inguinal, à procura de possíveis herniações. Os exames laboratoriais apresentam alterações relacionadas às condições hidroeletrolítica e infecciosa. A radiologia simples do abdômen apresenta edema de alças intestinal e presença de níveis hidroaéreos nas grafias em posição ortostática, confirmando a obstrução de intestino delgado. - Constipação intestinal por opioides Entende-se por opioides qualquer composto natural, semissintético ou sintético, que possua propriedades similares às dos opioides endógenos e que se liguem especificamente aos receptores opioides que são importantes na regulação normal da sensação da dor. Em um estudo com pacientes que receberam opioides para tratamento paliativo da dor, observou-se que a constipação ocorreu em mais da metade dos pacientes, sendo quase sempre persistente, mesmo com o uso de laxativos. Três artigos definem a CIO como um sintoma originário na disfunção intestinal induzida por opioides (DIO), que é uma complicação comum no tratamento com opioides na dor crônica, cujos sintomas são 5 caracterizados pela redução do esvaziamento gástrico, cólicas estomacais, edema, redução de movimentos intestinais e fezes excessivamente endurecidas. Entre os sintomas, a constipação é o mais comum e debilitante da DIO, tendo a maioria das estimativas de prevalência baseadas apenas na frequência desse sintoma primário Seis estudos relatam que, além da constipação intestinal, outros efeitos adversos, secundários a terapia da dor, comumente podem ocorrer e incluem: sonolência, náusea, vômito, acidez, flatulência, anorexia, distensão e dores abdominais, que, por vezes, limitam o benefício do medicamento e podem provocar o abandono do tratamento. Dois artigos sugerem que o diagnóstico da CIOdeve basear-se em sintomas objetivos e subjetivos. Os sintomas objetivos, identificados por meio da frequência inferior a três evacuações por semana, e sintomas subjetivos, identificados pelo esforço de difícil eliminação, fezes excessivamente duras, com volume reduzido, sensação de evacuação incompleta, desconforto abdominal, plenitude gástrica e medidas facilitadoras para a saída do bolo fecal. Existem fatores de risco para o surgimento da CIO que dificultam o seu diagnóstico. Quatro artigos atribuíram esses fatores a aspectos debilitantes na capacidade funcional dos pacientes, como: imobilização (especialmente em decúbito dorsal), baixa atividade física, idade avançada, aceitação insuficiente de líquidos e alimentos, doença oncológica abdominal, polimedicação, falta de privacidade, e instabilidade clínica e emocional. Um estudo definiu que os fatores dependeram da presença de outros sintomas gastrointestinais, e esses, por sua vez, dependeram da duração da dor, sugerindo que provavelmente a incidência da CIO ocorre em pacientes com 12 meses ou mais em tratamento da dor crônica. Dois estudos afirmaram que os efeitos adversos da CIO seriam controlados com uso profilático de laxativos, sendo recomendada a prescrição de laxantes logo ao início do tratamento. Assim como a terapia medicamentosa pode ser essencial para o tratamento da constipação, de forma sinérgica, o incentivo à mudança dos hábitos alimentares, com maior ingestão de fibras e líquidos, também pode auxiliar nessa condição, uma vez que atuam diretamente sobre o funcionamento do intestino e a formação das fezes. Elucidar a fisiopatologia do megacolon chagásico A doença de Chagas (DC) é uma das consequências da infecção humana produzida pelo protozoário flagelado Trypanosoma cruzi. Na ocorrência da doença, observam-se duas fases clínicas: uma aguda, que pode ou não ser identificada, podendo evoluir para uma fase crônica. No Brasil, atualmente predominam os casos crônicos decorrentes de infecção por via vetorial. A doença é causada pelo protozoário T. cruzi, caracterizado pela presença de um flagelo. No sangue dos vertebrados, o T. cruzi se apresenta sob a forma de tripomastigota, que é extremamente móvel, e, nos tecidos, como amastigotas. No tubo digestivo dos insetos vetores, ocorre um ciclo com a transformação do parasito, dando origem as formas infectantes presentes nas fezes do inseto. A transmissão do T. cruzi para o homem ocorre por meio de um vetor – os triatomíneos. Porém esses triatomíneos apenas transmitem o parasito se estiverem infectados e isso acontece quando eles se alimentam em um dos numerosos hospedeiros. Ou seja, se os mamíferos de uma determinada área apresentar altas taxas de infecção por T. cruzi, há probabilidade do vetor se infectar e, portanto, infectar o próximo mamífero (incluindo o homem), no qual se alimentar. As formas habituais de transmissão da doença de Chagas para o homem são: a vetorial, a transfusional, a transplacentária (congênita) e, mais recentemente, a transmissão pela via oral, pela ingestão de alimentos contaminados pelo T. cruzi. Mecanismos de transmissão menos comuns envolvem acidentes de laboratório, manejo de animais infectados, transplante de órgãos sólidos e leite materno. A transmissão vetorial acontece pelo contato do homem suscetível com as excretas contaminadas dos triatomíneos, também conhecidos como “barbeiros” ou “chupões”. Esses, ao picarem os vertebrados, em geral defecam após o repasto, eliminando formas infectantes de tripomastigotas metacíclicos, que penetram pelo orifício da picada ou por solução de continuidade deixada pelo ato de coçar. A transmissão transfusional da doença de Chagas é a segunda via mais importante de propagação da doença nos centros urbanos, sendo considerada a principal forma de transmissão em países não endêmicos (Canadá, Espanha, EUA e outros) e em países latino- americanos que estejam em processo de erradicação do vetor. O Brasil, que nos anos 80 apresentava prevalência média de 7,03% em candidatos à doação de sangue, teve esse coeficiente diminuído para 3,18%, na década de 90, e atualmente para 0,6%, na hemorrede pública, e de 0,7%, na rede privada. Esses índices refletem a efetividade dos programas de combate ao vetor e maior controle do sangue e hemoderivados, através de uma rigorosa triagem clínica e da doação voluntária de sangue. Também a atuação mais efetiva da vigilância sanitária sobre os serviços de hemoterapia públicos e privados tem contribuído para o aumento da segurança transfusional e, consequentemente, para eliminação da transmissão sanguínea dessa doença. A principal via da transmissão vertical é a transplacentária e pode ocorrer em qualquer fase da doença materna: aguda, indeterminada ou crônica. A transmissão também pode se dar em qualquer época da gestação, sendo mais provável no último trimestre, ou ocorrer na passagem no canal do parto, pelo contato das mucosas do feto com o sangue da mãe infectada. A transmissão congênita deve ser considerada em crianças nascidas de mãe com sorologia positiva para T. cruzi. Para confirmação de caso, é necessário identificar os parasitos no sangue do recém-nascido ou sorologia positiva após os 6 meses de idade. • Em gestante ou lactante com diagnóstico de DCA ou coinfecção T. cruzi-HIV, recomenda-se não oferecer amamentação no peito em virtude da possibilidade de transmissão por meio do leite ou fissura mami A transmissão do T. cruzi por via oral é comum entre animais (mamíferos), no ciclo primitivo deste parasito, por meio da ingesta de vetores e reservatórios infectados. É esporádica e circunstancial em humanos e ocorre quando alimentos são contaminados com o parasito, principalmente a partir de triatomíneo ou suas dejeções. Também, pode ocorrer por meio da ingesta de carne crua ou mal cozida de caça ou alimentos contaminados por urina ou secreção anal de marsupiais infectados, por acidentes em laboratório, ou por meio de hábitos primitivos de ingestão de triatomíneos. Sabe-se que a transmissão oral pode ocorrer a partir de formas tripomastigotas, epimastigotas e, provavelmente, de amastigotas. 6 Aspectos clínicos Após a entrada do parasito no organismo, basicamente ocorrem duas etapas fundamentais na infecção humana pelo T. cruzi - Fase aguda: – predomina o parasito circulante na corrente sanguínea, em quantidades expressivas. As manifestações de doença febril podem persistir por até 12 semanas. Nesta fase, os sinais e sintomas podem desaparecer espontaneamente evoluindo para a fase crônica ou progredir para formas agudas graves que podem levar ao óbito. - Fase crônica – existem raros parasitas circulantes na corrente sanguínea. Inicialmente, esta fase é assintomática e sem sinais de comprometimento cardíaco e/ou digestivo. Pode apresentar-se como uma das seguintes formas: • forma indeterminada: paciente assintomático e sem sinais de comprometimento do aparelho circulatório (clínica, eletrocardiograma e radiografia de tórax normais) e do aparelho digestivo (avaliação clínica e radiológica normais de esôfago e cólon). Esse quadro poderá perdurar por toda a vida da pessoa infectada ou pode evoluir tardiamente para a forma cardíaca, digestiva ou associada (cardiodigestiva). • Forma cardíaca – evidências de acometimento cardíaco que, frequentemente, evolui para quadros de miocardiopatia dilatada e insuficiência cardíaca congestiva (ICC). Essa forma ocorre em cerca de 30% dos casos crônicos e é a maior responsável pela mortalidade na doença de Chagas crônica. • Forma digestiva – evidências de acometimento do aparelho digestivo que, frequentemente, evolui para megacólon ou megaesôfago. Ocorre em cerca de 10% dos casos. • Forma associada (cardiodigestiva) – ocorrência concomitante de lesões compatíveis com as formas cardíacas e digestivas.Manifestações clínicas Na fase aguda (inicial), predomina o parasito circulante na corrente sanguínea, com parasitos abundantes, manifestações de doença febril, que podem persistir por até 12 semanas. A evolução natural dessa fase, mesmo não tratada nem diagnosticada, culmina no desaparecimento espontâneo da febre e da maior parte das outras manifestações. Nela, também é possível detectar anticorpos IgM. Gradativamente, há redução da parasitemia e aumento gradual de anticorpos IgG (da 4ª a 6ª semana de infecção). A manifestação mais característica é a febre, sempre presente, usualmente prolongada, constante e não muito elevada (de 37,5º a 38,5ºC), podendo apresentar picos vespertinos ocasionais. - sintomatologia inespecífica: • prostração, diarreia, vômitos, inapetência, cefaleia, mialgias, aumento de gânglios linfáticos; • manchas vermelhas na pele, de localização variável, com ou sem prurido; • irritação em crianças menores, que apresentam frequentemente choro fácil e copioso. - Sintomatologia específica • miocardite difusa com vários graus de severidade; • pericardite, derrame pericárdico, tamponamento cardíaco; • cardiomegalia, insuficiência cardíaca, derrame pleural. São comumente observados: • edema de face, membros inferiores ou generalizado; • tosse, dispneia, dor torácica, palpitações, arritmias; • hepatomegalia e/ou esplenomegalia, de leve a moderada; Em alguns casos por transmissão oral, foram observados sangramento digestivo (hematêmese, hematoquezia ou melena) e outros tipos de sinais hemorrágicos concomitantes. Exames sorológicos Têm utilidade complementar aos exames parasitológicos e devem sempre ser colhidos em casos suspeitos ou confirmados de DCA e enviados ao Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen). As metodologias utilizadas são a hemoaglutinação indireta (HAI), a imunofluorescência indireta (IFI) e o método imunoenzimático (ELISA). A reação de fixação de complemento (reação de Guerreiro-Machado) não é mais utilizada pelos laboratórios da rede do Sistema Único de Saúde. - Anticorpos IgG – a confirmação de caso por pesquisa de IgG demanda duas coletas que possibilitem comparar a soroconversão ou a variação de pelo menos dois títulos sorológicos (IFI), com intervalo mínimo de 21 dias entre uma coleta e outra; - Anticorpos IgM – método recentemente incorporado na rotina de poucos laboratórios no Brasil. Na prática, recomenda-se que, diante de um caso suspeito de DCA, sejam realizados exames parasitológicos diretos para leitura imediata, repetidas vezes, se for necessário. Caso resultem negativos ou não possam ser lidos no local da coleta, recomenda-se coleta de sangue total com anticoagulante, para realizar método de concentração, e de sangue, para sorologia, que deverão ser enviados para laboratórios de referência estadual (Lacen) ou nacional (Fundação Ezequiel Dias – Funed) Elencar o tratamento para abdome agudo obstrutivo O tratamento consiste em reposição hídrica vigorosa e restabelecimento hidroeletrolítico, jejum e descompressão do trânsito intestinal por sonda gástrica, durante 24 a 48 horas. Espera-se a resolução espontânea do quadro. Nos pacientes sem resolução ou melhora progressiva, deve-se avaliar a necessidade de tratamento cirúrgico para lise de aderências. A obstrução intestinal causada por hérnias, volvo de sigmóide, isquemia intestinal, intussuscepção e neoplasias devem ser tratadas, o mais precocemente possível, por meio de cirurgia.