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Amanda Simon Puziski- T16 Síntese da 3º tutoria OBJETIVO GERAL: Compreender a dor visceral. OBJETIVOS ESPECÍFICOS: - Caracterizar a dor visceral e a sua fisiopatologia; - Diferenciar a dor irradiada e a dor referida; - Conhecer a semiologia da dor visceral (principais causas); - Citar sobre os exames diagnósticos da dor visceral. DOR VISCERAL E SUA FISIOPATOLOGIA: DEFINIÇÃO E CARACTERÍSTICAS: É a dor nociceptiva decorrente da estimulação dos nociceptores viscerais. As dores relacionadas às vísceras torácicas e abdominais nos acompanham desde a infância precoce, em situações como cólicas intestinais e infecções. Continuam na idade adulta na dor do parto e em lesões estruturais de vísceras ocas (gastrite, úlcera gástrica, colelitíase, cálculos renais, apendicite, etc). Finalmente, costumam acompanhar várias doenças comuns na velhice, tais como infarto do miocárdio, neoplasias abdominais, entre outras. - Não é precisa, geralmente é difusa e mal localizada, pode ser referida em locais distantes da víscera acometida, devido a organização das vias nocicepivas viscerais no SNC ascenderem conjuntamente com as de origem somática. Embora a dor visceral verdadeira, em geral, apresente as características mencionadas anteriormente, ela tende a se localizar próximo ao órgão que a origina; - É acompanhada de reflexos autonômicos e motores que servem como sistema mantenedor e facilitador da transmissão dolorosa; - A dor visceral não costuma ser evocada pelas vísceras e órgãos sólidos; - Não está sempre associada a lesão visceral. Um baixo estimulo limiar pode provocar ativação de aferentes sensoriais, como a pressão gasosa intraluminal. - Descrita como um dolorimento ou uma dor surda, vaga, contínua, profunda, que tende a acentuar-se com a solicitação funcional do órgão acometido; - Nos danos viscerais muito localizados raramente causam dor grave mas lesões que estimulam várias fibras dolorosas difusas ao mesmo tempo podem resultar dor extrema. Ex: isquemia. - Outro fenômeno característico das dores viscerais é a associação mais exuberante com fenômenos neurovegetativos, tais como palidez, mal-estar, sudorese e aumento do peristaltismo. Amanda Simon Puziski- T16 Além disso, as pesquisas clínicas demonstram que nem todas as vísceras respondem à dor. Alguns locais, como os parênquimas pulmonar, hepático e renal, são praticamente insensíveis à dor, mesmo quando estímulos altamente lesivos são aplicados. As vísceras ocas, tais como estômago, intestino, ureteres e bexiga, são, em condições normais, praticamente insensíveis ao corte e à queimadura, mas são dolorosos quando ocorrem distensão, isquemia ou inflamação. Ocasionalmente, uma doença que acomete uma víscera pode se alastrar, passando a acometer nervos somáticos. Quando isso ocorre, a dor, antes difusa, pode se tornar mais localizada. Um exemplo clássico ocorre na apendicite, que, em uma fase inicial, tem localização abdominal difusa, passando a se localizar na fossa ilíaca direita após comprometimento peritoneal. Tal fato provavelmente se explique pela existência de nociceptores silentes, os quais não manifestam atividade em situações normais, mas seriam ativados pela presença de substâncias químicas liberadas na região afetada quando ocorre sensibilização. CLASSIFICAÇÃO: De um modo geral, a dor visceral pode ser relacionada com quatro condições: 1) Comprometimento da própria víscera (dor visceral verdadeira); 2) Comprometimento secundário do peritônio ou pleura parietal (dor somática profunda); 3) Irritação do diafragma ou do nervo frênico; 4) Reflexo viscerocutâneo (dor referida). CAUSAS DA DOR VISCERAL VERDADEIRA: Essencialmente, qualquer dor que se origine nas cavidades torácica ou abdominal é transmitida pelas fibras delgadas do tipo C e, portanto, só podem transmitir o tipo crônico-persistente de dor. → ISQUEMIA: A isquemia causa dor visceral da mesma forma que causa dor em outros tecidos, presumivelmente, devido à formação de produtos finais metabólicos ácidos ou produtos degenerativos dos tecidos como a bradicinina, enzimas proteolíticas ou outras que estimulem as terminações nervosas para dor. → ESTÍMULOS QUÍMICOS: Algumas vezes, substâncias nocivas escapam do trato gastrointestinal para a cavidade peritoneal. Por exemplo, o suco gástrico ácido proteolítico pode escapar por úlcera gástrica ou duodenal perfurada. Esse suco causa digestão disseminada do peritônio visceral, estimulando amplas áreas de fibras dolorosas. A dor geralmente é excruciante e grave. → ESPASMO DE VÍCERA OCA: O espasmo de porção da alça intestinal, da vesícula biliar, do dueto biliar, do ureter ou de qualquer outra víscera oca pode causar dor, possivelmente, pela estimulação mecânica das terminações nervosas da dor. Ou o espasmo pode causar diminuição do fluxo sanguíneo para o músculo, combinado com o aumento das necessidades metabólicas do músculo para nutrientes, causando dor grave. Em geral, a dor de víscera espástica ocorre na forma de cólicas, com a dor Amanda Simon Puziski- T16 chegando a alto grau de gravidade e depois diminuindo. Esse processo continua de modo intermitente, uma vez a cada poucos minutos. Os ciclos intermitentes resultam de períodos de contração da musculatura lisa. Por exemplo, a cólica ocorre toda vez que a onda peristáltica percorre a alça intestinal excessivamente excitável. Essa dor do tipo cólica frequentemente ocorre na apendicite, gastroenterite, constipação, menstruação, parto, doenças da vesícula biliar ou obstrução ureteral. → DISTENSÃO EXCESSIVA DA VÍCERA OCA: O preenchimento excessivo de víscera oca também pode resultar em dor, presumivelmente, devido à distensão excessiva dos tecidos propriamente ditos. A distensão excessiva também pode interromper os vasos sanguíneos que circundam a víscera ou que passam por sua parede, talvez promovendo dor isquêmica. → PROCESSOS INFLAMATÓRIOS: Nas infecções de vias urinárias, o simples fato de urinar já se torna doloroso, assim como na esofagite e úlcera gástrica ocorrem desconforto e dor relacionados à alimentação. Pode-se dizer ainda que determinadas qualidades de dor são mais específicas para certo tipo de víscera. Assim, a dor das vísceras maciças e dos processos não obstrutivos das vísceras ocas é descrita como surda; a dos processos obstrutivos das vísceras ocas é do tipo cólica; a por comprometimento da pleura parietal (dor somática profunda e não visceral) é em pontada ou fincada; a por isquemia miocárdica é constritiva ou em aperto; e por aumento da secreção do ácido clorídrico (gastrite, úlcera gástrica ou duodenal) é do tipo em queimação ou ardor. LOCALIZAÇÃO: A dor visceral verdadeira tende a se localizar na projeção anatômica do órgão onde se origina. A dor cardíaca, por exemplo, tem localização retroesternal ou precordial; a pleural, na parede do hemitórax correspondente; a esofágica, na região retroesternal ou epigástrica; a gastroduodenal, no epigástrio e no hipocôndrio direito; a ileojejunal e dos cólons é predominantemente periumbilical; a do sigmoide e do reto, na região pélvica e perineal; a hepática e biliar, no hipocôndrio direito e epigástrio; a esplênica, no hipocôndrio esquerdo; a pancreática, no epigástrio, hipocôndrio esquerdo e parte média do dorso; a renal, nos flancos; a ureteral, nos flancos com irradiação para o baixo ventre e genitália; a vesical e uretral proximal é pélvica ou no baixo ventre; a uterina, no baixo ventre, região pélvica, perineal e lombar baixa; a originada nos ovários e anexos, na região pélvica, perineal, lombar baixa e nas fossas ilíacas. FISIOPATOLOGIA: RECEPTORES: Na ausência de fenômenos inflamatórios modificadores da sensibilidade, as vísceras são insensíveis a estímulos mecânicos ou térmicos, no entanto, a dor pode ser desencadeada por tração ou distensão. Por isso a dor difusa e irradiante é muitas vezes referida emestruturas somáticas. Receptores viscerais: sensíveis a estímulos que surgem dentro do corpo → variações de pH, temperatura interna, estiramento tecidual. Amanda Simon Puziski- T16 A inervação visceral é mediada principalmente por fibras C, tendo proporção de 1:8 a 1:10, enquanto na pele a proporção é de 1:2. Sendo assim as vísceras tendem a transmitir o tipo crônico persistente de dor. Os mecanorreceptores existentes na musculatura lisa de todas as vísceras ocas são do tipo Aδ e C, e respondem a estímulos mecânicos leves, tensão aplicada ao peritônio, contração e distensão da musculatura lisa. O trato gastrintestinal possui receptores químicos e mecânicos de adaptação lenta e rápida que são classificados em dois grupos: - Receptores de alto limiar: estímulos mecânicos leves - esôfago, sistema biliar, intestino delgado e cólon; - Receptores de baixo limiar: estímulos mecânicos que responde a estímulos agressivos e não agressivos - esôfago e cólon. VIAS: As vias da sensação visceral são organizadas de forma difusa tanto periférica quanto centralmente. As fibras nervosas aferentes primárias que inervam as vísceras se projetam para o sistema nervoso central por três vias: - Nervo vago e seus ramos; - Dentro e ao longo de vias eferentes simpáticas (cadeia simpática e ramos esplâncnicos, inclusive ramos torácicos e lombares maior, menor e mínimo); - Nervo pélvico (com eferentes parassimpáticos) e seus ramos. A maior parte das fibras aferentes viscerais, antes de se dirigirem à medula espinal, trafegam para gânglios simpáticos pré-vertebrais e paravertebrais. - Os gânglios pré-vertebrais são representados pelos gânglios celíaco e mesentéricos superior e inferior. - Os gânglios paravertebrais são representados pelos gânglios cervicais superior, médio e inferior, gânglio estrelado, gânglios toracolombares, gânglio sacral e gânglio ímpar coccígeo (gânglio de Walther). - Uma pequena parte dos estímulos dolorosos, no entanto, trafega por nervos do sistema nervoso parassimpático. O trato gastrointestinal e os gânglios periféricos formam grandes plexos neuronais que controlam as funções autonômicas. Os corpos celulares aferentes primários que vão em direção ao sistema nervoso central se localizam principalmente no gânglio nodoso (vagal) e nos gânglios das raízes dorsais T2-L2 e S1-5 (associadas ao simpático e associadas ao nervo pélvico). Pode haver função dos aferentes vagais na sensação nociceptiva. Enquanto as fibras aferentes somáticas são numerosas e penetram na medula espinal em determinado segmento, as fibras aferentes viscerais são poucas e penetram Amanda Simon Puziski- T16 no corno posterior da medula espinal em vários níveis. Esses aferentes têm contato sináptico com neurônios superficiais e profundos do corno dorsal ipsilateral e contralateral ao lado de entrada. O resultado é ativação extensa e difusa do sistema nervoso central. Na medula espinal, as fibras se dirigem especialmente à lâmina superficial (lâmina I e II de Rexed) e a outras mais profundas (V). Daí, os estímulos são transmitidos pelas mesmas vias da dor superficial, ou seja, vão cruzar a linha média e ascendem pelo trato espinotalâmico lateral até os núcleos ventrais do tálamo e daí ao córtex cerebral (insular, cingulado anterior e no somatossensorial). Outras vias, tais com o a espinorreticular e a espinomesencefálica, devem ter papel importante em fenômenos associados, tais como o alerta à dor e aos fenômenos neurovegetativos que o acompanham. A via paleoespinotalâmica pode ser subdividida quanto à sua transmissão em: - Via visceral verdadeira, que age por meio dos feixes nervosos autônomos simpáticos e em que se relatam as sensações em superfícies corporais geralmente longe do órgão afetado; - Via parietal, que conduz diretamente para os nervos espinhais locais e a sensação se localiza sobre a lesão. Essas duas vias muitas vezes são ativadas simultaneamente. Por exemplo, inicialmente a dor de um órgão lesionado não cirurgicamente é transmitida pela via de dor visceral verdadeira e essa dor, persistente e espasmótica, induz liberação de mediadores inflamatórios sobre a superfície parietal, ocasionando a ativação da via parietal, que culmina em dor pontual e aguda, já cirurgicamente a dor via parietal é inicialmente ativada, no entanto ocorre mais tardiamente ativação da visceral verdadeira devido ao procedimento. SENSIBILIZAÇÃO PERIFÉRICA: Como a dor visceral é um tipo de dor nociceptiva, a fisiopatologia aplicada a ela é bem semelhante, tendo apenas alguns pontos de especificidade. Por isso, todo o processo da dor se inicia na sensibilização periférica: Amanda Simon Puziski- T16 A sensibilização periférica ocorre em tecidos lesados ou inflamados, quando mediadores inflamatórios ativam a transdução de sinais nos nociceptores intracelulares, determinando o aumento na produção, transporte e inserção na membrana de canais iônicos ativados quimicamente e ativados por voltagem. Tais alterações aumentam a excitabilidade dos terminais nociceptores e reduzem seu limiar de ativação por estímulos mecânicos, térmicos ou químicos. Quando ativados, os nociceptores, em sua maioria, liberam mediadores polipeptídicos de suas terminações periféricas. Na sensibilização periférica, ocorre, então, a redução da intensidade dos estímulos necessários para iniciar a despolarização neuronal e o aumento do número ou da amplitude de descarga neuronal, em resposta a certos estímulos químicos ou mecânicos. Existe uma grande quantidade de mediadores periféricos (bradicinina, citocinas, prostaglandinas, serotonina, ATP, prótons H+) que agem diretamente nos receptores nociceptivos gastrintestinais e iniciam a transmissão dolorosa. Podem ativar imunócitos locais ou outras células, como mastócitos e varicosidades simpáticas, que liberam interleucinas e substâncias adrenérgicas, perpetuando e facilitando, assim, a hiper- excitabilidade neuronal. Na nocicepção a gente viu que a SP é um importante mediador nas fibras C, por ser de liberação lenta e crônica, aqui na dor visceral ela também é, mas temos outros mediadores importantes: As neurocininas (fator de crescimento nervoso - FCN) estão presentes no tecido intestinal e nos mastócitos e são liberadas durante a degranulação mastocitária. Estão envolvidas na plasticidade neuronal e podem alterar a distribuição de nociceptores e o limiar de sensibilidade para os estímulos mecânicos e químicos. Em decorrência do fato de as fibras C intestinais possuírem muitos “receptores silenciosos” para as neurocininas, essas substâncias possuem um papel importante na transmissão das mensagens nociceptivas do intestino. A serotonina, dentre os mediadores, é a única que parece ter alta seletividade para a nocicepção visceral. E liberada no intestino por células enterocromafins, plaquetas e degranulação dos mastócitos, e, subsequentemente, age nos aferentes viscerais por meio de receptores específicos, expressados também no SNC (estruturas límbicas, tronco cefálico e cordão espinal). (Apetite, temperatura...) O peptídeo relacionado ao gene calcitonina (CGRP) está presente na maioria dos aferentes esplâncnicos e, quando liberado perifericamente, pode modificar a descarga sensorial, causando alterações no fluxo sanguíneo, contração da musculatura lisa, reação imune e degranulação dos mastócitos. SENSIBILIZAÇÃO CENTRAL: Assim como na nocicepção, a sensibilização central é um processo resultante da atividade sustentada que acontece na fibra aferente primária, após a sensibilização periférica, favorecendo a liberação de neurotransmissores excitatórios. Estes aumentam a eficácia da transmissão sináptica, entre os neurônios aferentes primários e os do corno dorsal, envolvendo, portanto, receptores pré e pós-sinápticos específicos. Amanda Simon Puziski- T16 Embora o mecanismo desensibilização visceral central não seja totalmente conhecido, acredita-se que alguns mediadores, como substância P, CGRP, aspartato, glutamato, neurocininas, somatostatina e VIP, estejam envolvidos no desenvolvimento e na manutenção da sensibilização central induzida pela inflamação. A ação desses neuromediadores em receptores específicos ionotrópicos (AMPA, cainato) e metabotrópicos (NMDA) ativa segundos mensageiros (AMPc, PKC, fosfatidilinositol, fosfolipase C) para abertura de canais de cálcio e entrada dessas substâncias para o interior das membranas celulares. Ocorre então produção de outros mediadores (óxido nítrico e metabólitos do ácido araquidônico) e formação de oncogenes, que provavelmente alteram a transmissão do potencial de ação e ultra-estrutura dos nervos e suas sinapses e sensibilização medular e fenômeno de wind up (aumento da duração da resposta de certos neurônios). OBS: Períodos prolongados de estimulação provocam a liberação de neuromediadores centrais (substância P e glutamato), aumentando a eficácia sináptica da transmissão entre aferentes primários e neurônios espinais com sensibilização central. O neurotransmissor glutamato e o receptor N-metil-D-aspartato (NMDA) parecem estar mais envolvidos na hiperalgesia visceral e na dor persistente. DOR IRRADIADA E DOR REFERIDA: DOR REFERIDA: Pode ser definida como uma sensação dolorosa superficial, que está distante da estrutura profunda (visceral ou somática) cuja estimulação nóxica é a responsável pela dor. A explicação mais aceita para esse fenômeno é a convergência de impulsos dolorosos viscerais e somáticos superficiais e profundos para neurônios nociceptivos comuns localizados no corno dorsal da medula espinal (sobretudo na lâmina V). Então, ramos das fibras para a dor visceral fazem sinapse na medula espinal, nos mesmos neurônios de segunda ordem que recebem os sinais dolorosos da pele. Na apendicite, a dor começa na região epigástrica ou periumbilical (dor referida) e, posteriormente, por irritação do peritônio parietal suprajacente, passa a ser sentida na fossa ilíaca direita (dor somática profunda). A dor oriunda de vísceras frequentemente se localiza em duas áreas na superfície do corpo ao mesmo tempo, por causa da dupla transmissão da dor pela via visceral referida e a via parietal direta. Os impulsos dolorosos passam inicialmente do apêndice por fibras dolorosas viscerais, Amanda Simon Puziski- T16 localizadas nos fascículos nervosos simpáticos, seguindo para a medula espinhal ao nível de T-10 ou T-11; essa dor é referida para área ao redor do umbigo e é do tipo persistente e espasmódica. Os impulsos dolorosos, geralmente, se originam no peritônio parietal, onde o apêndice inflamado toca ou está aderido à parede abdominal. Eles causam dor do tipo pontual diretamente sobre o peritônio irritado, no quadrante inferior direito do abdome. A dor parietal localizada ou a dor parietal não referida resulta da irritação do peritônio parietal e localiza-se na parede abdominal correspondente ao local da lesão. Quando a doença afeta a víscera, o processo doloroso geralmente se dissemina para o peritônio, a pleura ou o pericárdio parietal. Essas superfícies parietais, como a pele, são supridas com extensa inervação dolorosa, originada nos nervos espinhais periféricos. Portanto, a dor da parede parietal sobre a víscera é frequentemente aguda. A irritação do diafragma ou do nervo frênico é comum nas doenças de órgãos torácicos e do andar superior do abdome. Quando ocorre, o paciente apresenta dor referida no ombro (dermátomo de C4) porque o nervo frênico, responsável pela inervação do diafragma, origina-se predominantemente do quarto segmento medular cervical. Porém, as afecções da vesícula biliar (colecistite, colelitíase), que não têm qualquer relação com o diafragma, também podem cursar com dor referida no ombro. Neste caso, ela é explicada pela participação do nervo frênico na inervação nociceptiva da vesícula biliar. Exemplos de dor referida: - Apêndice: dor na região epigástrica ou periumbilical (dermátomos de T6-T1); - Vesícula, fígado: dor na escápula e no ombro; - Ureter: dor na virilha e genitália externa; - Coração: dor na face mediai do braço. (dermátomo de T1) DOR IRRADIADA: Caracteriza-se por ser sentida a distância de sua origem, porém ocorre obrigatoriamente em estruturas inervadas pela raiz nervosa ou em nervo cuja estimulação nóxica é responsável pela dor. Um exemplo clássico é a ciatalgia, provocada pela compressão de uma raiz nervosa por uma hérnia de disco lombar. Amanda Simon Puziski- T16 A dor irradiada pode surgir em decorrência do comprometimento de praticamente qualquer raiz nervosa, podendo ser o território de irradiação predito pelo exame do mapa dermatomérico. Também chamada de dor radicular, é produzida pelo estiramento, torção, compressão ou irritação de uma raiz espinhal, central ao forame intervertebral. É relatada como uma dor aguda e muito intensa, que quase sempre se inicia em uma região central, próxima à coluna, e se dirige para uma parte da extremidade inferior. PRINCIPAIS CAUSAS DE DOR VISCERAL: → APENDICITE AGUDA: - Condição inflamatória aguda do apêndice cecal (ou vermiforme), com via final infecciosa. - Classicamente, postula-se que ocorra obstrução do lúmen do órgão (por fecalito, corpo estranho, parasitas, hiperplasia linfonodal ou tumor), que provoque aumento na secreção de muco e elevação da pressão intraluminal, resultando em estase venosa, compressão arterial e isquemia. Perde-se o mecanismo protetor de barreira, o que leva à invasão bacteriana da parede do apêndice, favorecendo o infarto e sua perfuração. - Dor epigástrica ou periumbilical, tipo visceral; seguida por anorexia, náuseas e vômitos, com posterior localização em fossa ilíaca direita; pode ocorrer constipação e parada de eliminação de flatos, assim como febre baixa. - Exame físico: dor à palpação de fossa ilíaca direita (maior sensibilidade); sinal do Psoas (maior especificidade); sinal do obturador: apresenta fáscia espessa, com irritação apenas se houver inflamação extensa, abscessos; Blumberg +. Amanda Simon Puziski- T16 → COLECISTITE AGUDA: - Trata-se de condição inflamatória aguda da vesícula biliar, classificada em litiásica (90 95%) e alitiásica. - O elemento-chave é a obstrução do ducto cístico na presença de bile supersaturada com colesterol. Caso a obstrução seja prolongada, inicia-se inflamação da parede cística, com tensão, espessamento e exsudato pericolecístico, inicialmente estéril, sobrevindo infecção por enterobactérias, enterococos e/ou anaeróbios. - Dor inicialmente epigástrica, visceral, episódica, acompanhada de náuseas e vômitos, pós-alimentar e noturna, tornando-se progressivamente mais intensa e localizada em hipocôndrio direito, podendo irradiar-se para regiões lombar e escapular direitas. Febre baixa é comum. - Exame físico: sinal de Murphy +. → DIVERTICULITE AGUDA: - Diverticulite, por sua vez, é uma condição inflamatória dos divertículos colônicos, geralmente acompanhada de micro ou macro perfurações, com ou sem infecção – consequência da diverticulose. - Observa-se dor em fossa ilíaca esquerda com ou sem alteração do hábito intestinal (em geral, mais constipação que diarreia), sensação de peso no reto, e febre baixa. Nos casos em que há sigmoide redundante, a dor pode ser hipogástrica ou mesmo à direita. → PANCREATITE AGUDA: - Pancreatite aguda é uma inflamação aguda com um envolvimento de tecidos peripancreáticos e/ou órgãos à distância. - A principal causa de pancreatite aguda é litíase biliar. - Dor abdominal é a principal queixa, com intensidade variável, e habitualmente contínua. Costuma ser mal definida, localizada em epigástrio ou andar superior abdominal, com irradiação para dorso ou flancos;melhora com a posição genupeitoral e piora com a posição supina ou aos esforços. Pode ser desencadeada pela cólica biliar ou 1-3 dias após libação alcoólica. Náuseas e vômitos acompanham a dor abdominal em 90% das vezes. → ÚLCERA GÁSTRICA: - Lesão em que há uma perda de integridade da mucosa estomacal ou duodenal, caracterizada por uma escavação com mais de 5 mm da parede. - Causas: H. Pylori e uso indiscriminado de AINES. - De uma forma geral, as úlceras irão desencadear um quadro clínico dispéptico geral, levando o paciente a manifestar epigastralgia, azia, náuseas, plenitude pós-prandial e outras. Amanda Simon Puziski- T16 - A complicação mais comum é a perfuração, levando o indivíduo a apresentar os sinais semiológicos de Jobert e Chilaiditi, sugestivos de pneumoperitônio. → HEPATITE AGUDA: - As hepatites agudas são processos inflamatórios que acometem o parênquima hepático de forma difusa, causando variáveis graus de necrose hepatocitária com elevação das aminotransferases. - Sintomas prodrômicos como náuseas, vômitos, fadiga, febre baixa, artralgias e cefaleia podem estar presentes, com duração habitual de 1 a 14 dias, além de dor em HPD. → LESÃO ESPLÊNICA: - Lesão esplênica geralmente resulta de trauma abdominal fechado. - Os pacientes costumam ter dor abdominal, às vezes irradiando para o ombro, e sensibilidade. - Exame físico: macicez em espaço de Traube. → NEFROLITÍASE: - Cálculos renais. - A apresentação clássica é a cólica ureteral. Caracteriza-se pelo início abrupto, com períodos de intensificação, localiza-se em geral no flanco e só melhora após a expulsão do cálculo. Tipicamente, o paciente encontra-se inquieto, sem encontrar posição que alivie a dor. A dor pode migrar da região anterior do abdome para a região inferior, com irradiação para virilha, testículo ou grandes lábios, especialmente quando o cálculo passa pela junção ureterovesical. Pode ser acompanhada de hematúria, náusea e vômito. - Exame físico: sinal de Giordano +. → DIP: - A doença inflamatória pélvica (DIP) é definida como uma infecção polimicrobiana do trato reprodutivo superior feminino que pode comprometer o endométrio, as tubas uterinas, ovários e estruturas adjacentes, como a cavidade pélvica. - Dor no abdômen inferior, dor a palpação dos anexos, dor a mobilização do colo uterino e dor e/ou queimação ao urinar ou durante o sexo. → CISTITE: - A cistite corresponde à infecção e inflamação da bexiga, principalmente por Escherichia coli, que é uma bactéria naturalmente presente no intestino e no trato urinário e que pode atingir a uretra e chegar à bexiga, levando ao aparecimento de sinais e sintomas de infecção do sistema urinário, como urgência em urinar e ardência ou queimação ao urinar. Amanda Simon Puziski- T16 - Sinais e sintomas, como febre baixa, vontade frequente em urinar, apesar de ser eliminada pouca urina, ardência ou queimação do urinar. Quando há dor no fundo das costas, pode ser indicativo de que a bactéria chegou aos rins e está provocando a sua inflamação. → IAM: - O infarto do miocárdio, ou ataque cardíaco, é a morte das células de uma região do músculo do coração por conta da formação de um coágulo que interrompe o fluxo sanguíneo de forma súbita e intensa. - O principal sintoma do Infarto é dor ou desconforto na região peitoral, podendo irradiar para as costas, rosto, braço esquerdo e, raramente, o braço direito. Esse desconforto costuma ser intenso e prolongado, acompanhado de sensação de peso ou aperto sobre tórax. Em idosos, o principal sintoma pode ser a falta de ar. A dor também pode ser no abdome, semelhante a dor de uma gastrite ou esofagite de refluxo, mas é pouco frequente. EXAMES DIAGNÓSTICOS DA DOR VISCERAL: Na abordagem inicial, anamnese e exame físico completo gerarão hipóteses diagnósticas que nortearão a necessidade de avaliação laboratorial e de eventuais exames complementares decisivos para a conduta. ANAMNESE COMPLETA: Para uma completa abordagem, a anamnese da dor deve abranger a duração, a localização, fatores precipitantes e de alívio, amplitude (escalas de dor), características como o tipo (queimação, fisgada, aperto, etc) e evolução. Devem ser pesquisados sintomas gastrintestinais, sistêmicos, perda ponderal, doenças prévias ou atuais, medicamentos em uso, data da última menstruação, sintomas e antecedentes gineco-obstétricos, sintomas urinários e respiratórios. Amanda Simon Puziski- T16 EXAME FÍSICO: → Na inspeção, deve ser caracterizado o formato do abdome (plano, arredondado, protruso ou escafóide) e pesquisadas alterações na pele e parede abdominal, como cicatrizes, veias dilatadas (hipertensão portal), alterações de coloração (equimoses, hematomas), abaulamentos, ou outras, como peristaltismo visível (presente em alguns casos de obstrução intestinal). Amanda Simon Puziski- T16 → A ausculta dos ruídos hidroaéreos em um único local é suficiente. Os ruídos podem estar alterados em frequência e timbre na peritonite, na obstrução intestinal, no íleo paralítico e na diarreia. → A percussão avalia a distribuição gasosa e pode levantar suspeita de massas abdominais. - Timpanismo costuma predominar, porém áreas de macicez podem ser encontradas normalmente devido à presença de líquido e fezes em alças. Abdome protruso, com timpanismo difuso, sugere obstrução intestinal. A manobra do piparote pode sugerir ascite. Regiões com alterações de percussão devem ser mais bem examinadas pela palpação. → Iniciando-se pela palpação superficial, devem ser procuradas massas superficiais e regiões de hipersensibilidade ou de maior resistência. Torna-se necessário fazer a diferenciação entre defesa voluntária e espasmo muscular involuntário por irritação peritoneal. O paciente, relaxado e tranquilizado, deve ser orientado a respirar pela boca entreaberta. A rigidez que persistir indicará, muitas vezes, irritação peritoneal. A palpação profunda é importante para definir massa abdominal, assim como sua localização, dimensão, formato, consistência, hipersensibilidade, pulsação e mobilidade. Manobras específicas (sinal de Blumberg, sinal de Murphy, sinal de Giordano...). EXAMES COMPLEMENTARES: Após anamnese e exame físico completos, solicita-se exames laboratoriais iniciais que devem constar de hemograma com plaquetas, exame qualitativo de urina, amilase e teste de gravidez para mulheres em idade fértil. Se, mesmo após estes exames, o diagnóstico ainda não for confirmado, deve- se então solicitar avaliação radiológica, iniciando-se por radiografia abdominal em “rotina de abdome agudo” (decúbito dorsal, ortostático, lateral esquerdo e incidência anteroposterior do tórax). Podem ser necessárias ainda avaliações como ultrassonografia, tomografia computadorizada (sempre que possível com contraste endovenoso), ressonância magnética, e em alguns casos, até arteriografia. A videolaparoscopia e a laparotomia exploradora são meios diagnósticos definitivos nos casos em que todos os passos citados anteriormente não tenham sido efetivos, ou mesmo terapêuticos e onde os exames não definiram o diagnóstico. EXAMES LABORATORIAIS: → O hemograma com contagem diferencial é um exame útil, uma vez que a maior parte dos pacientes com abdome agudo terá leucocitose ou presença de células brancas imaturas. → Dosagem de eletrólitos séricos, e níveis de ureia e creatinina no plasma ajudarão na avaliação do efeito de fatores tais como vômitos e acúmulo de líquido no terceiro espaço. Além disso, estes marcadores de função renal podem sugerir distúrbios endócrinos ou metabólicos como causa do problema do paciente. Amanda Simon Puziski- T16 → As determinações da amilase e da lipase séricas podem sugerir pancreatite como causa da dor, mas podem também estar elevadas em outros distúrbios como infarto do intestino delgado e perfuração deúlcera duodenal. → Os exames da função hepática, inclusive bilirrubina total e direta, aminotransferase sérica e fosfatase alcalina, são úteis na avaliação do trato biliar como possível foco de dor abdominal. → Os níveis de lactato e as determinações da gasometria arterial podem ser úteis no diagnóstico da isquemia ou infarto intestinal. → A análise de urina é útil no diagnóstico de cistite, pielonefrite e determinadas anormalidade endócrinas, como diabetes e doenças renais. → As dosagens urinárias dos níveis da gonadotrofina coriônica humana podem sugerir gravidez que, além de ser um fator de confusão, influencia no manejo da paciente. EXAMES DE IMAGEM → As radiografias simples continuam desempenhando um importante papel no diagnóstico de pacientes com dor abdominal aguda. As radiografias do tórax com o paciente em posição ortostática podem detectar quantidades tão pequenas quanto 1 mL de ar livre na cavidade peritoneal. As radiografias também mostrar calcificações anormais. As radiografias simples abdominais nas posições ortostática e supina são bastante úteis para identificação de obstrução gástrica distal e obstrução do intestino delgado proximal, médio e/ou distal e podem também ajudar a determinar se uma obstrução do intestino delgado é completa ou parcial, pela presença ou ausência de gás no cólon. → A ultrassonografia abdominal é bastante precisa para a detecção de cálculos biliares e para avaliar a espessura da parede da vesícula biliar e a presença de líquido ao seu redor. A ultrassonografia abdominal e transvaginal pode ajudar na detecção de anormalidades dos ovários, anexos e útero. Também é utilizada para detectar líquido intraperitoneal. A presença de quantidades anormais de gás intestinal na maioria dos pacientes com abdome agudo limita a capacidade da ultrassonografia de avaliar o pâncreas ou outros órgãos abdominais. → A TC é também excelente para diferenciar obstrução mecânica do intestino delgado de íleo paralítico e pode, em geral, identificar o ponto de obstrução mecânica. Algumas das doenças de difícil diagnóstico, incluindo a isquemia mesentérica aguda e a lesão intestinal após trauma abdominal fechado, muitas vezes podem ser perfeitamente identificadas por esse método. → Apendicite: USG como primeira escolha. → Colecistite: laboratoriais: hemograma completo, proteína C reativa, hemoculturas, AST, ALT, fosfatase alcalina, gamaglutamil-transferase, bilirrubinas, amilase. USG de abdome superior. → Diverticulite: laboratoriais - hemograma, função renal e eletrólitos, além de proteína C reativa por sua correlação com complicações. TC com contraste. Amanda Simon Puziski- T16 → Pancreatite: TC de abdome e USG para avaliar vias biliares. → Úlcera gástrica: endoscopia digestiva alta. → Hepatite: exames laboratoriais (AST, ALT, fosfatase alcalina, gamaglutamiltransferase, bilirrubina total e frações, TP, albumina, creatinina, sódio, hemograma e sorologias para hepatites A, B e C. → Lesão esplênica: TC abdominal com contraste. → Nefrolitíase: TC abdominal → DIP: diagnóstico clínico, pode ser pedido USG da pelve e anatomopatológico do colo do útero. → IAM: ECG e dosagem dos marcadores de lesão miocárdica (CK total, CK-MB e TnI).