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Ritmos da Vida Os relógios biológicos são ajustáveis ao meio ambiente pela ação de células sensoriais e vias aferentes, tornando-se sincronizados com os ciclos naturais. Seus efeitos são produzidos por vias eferentes. Esses três componentes (aferentes, marcapassos e eferentes) caracterizam os chamados sistemas temporizadores que induzem certas funções e comportamentos a operar em ritmos bem sincronizados com os ciclos naturais. Um dos marcapassos do sistema temporizador fica no diencéfalo e tem o nome de núcleo supraquiasmático, porque se situa no hipotálamo, bem acima do quiasma óptico. A retina envia informações luminosas para outras áreas além da área visual primária como para esse núcleo (trato retino- hipotalâmico). Dessa forma, o SNC pode reconhecer as oscilações claro-escuro do meio ambiente (dia- noite). Os neurônios do NSQ são gabaérgicos (inibitórios) e fazem conexões com outros núcleos hipotalâmicos, como o prosencéfalo basal e o tálamo (influenciando comportamento motivado). A luz é absorvida pela melanopsina das células ganglionares fotorreceptoras, cujos axônios excitatórios ativam os neurónios do supraquiasmático: estes, portanto, aumentam sua frequência de disparo durante o dia, e a diminuem durante a noite. Em resumo, o relógio hipotalâmico por si só é " impreciso", tem um ciclo um pouco diferente de 24 horas. Por essa razão precisa ser sincronizado ao ciclo natural dia-noite. Para que isso seja feito, a intensidade da luz (do dia) é diariamente monitorada pelo núcleo supraquiasmático através de seus aferentes visuais, o que serve de ajuste para os neurônios osciladores desse núcleo. As conexões eferentes do supraquiasmático (com outros núcleos hipotalâmicos e com o prosencéfalo basal) veiculam os comandos para que algumas das funções autonômicas, neuroendócrinas e comportamentais - inclusive a vigília e o sono - possam ser reguladas de acordo com o período de 24 horas. Há evidências de que existem outros relógios biológicos para controlar os ritmos não circadianos. O mais conhecido deles fica no epitálamo, na sua parte mais saliente, chamada de glândula pineal ou epífise. A pineal é um marcapasso do sistema temporizador infradiano circanual encarregado de monitorar as estações do ano e sincronizar com elas algumas funções que variam anualmente, como o comportamento reprodutor de muitos animais, o fenômeno da hibernação e outros. A luz é também o estímulo temporizador para a pineal, mas o circuito responsável é mais indireto que o do supraquiasmático. Sob ativação simpática, que aumenta durante a noite, as células da pineal aumentam a síntese e a secreção do hormônio melatonina quando o fotoperíodo (duração efetiva do dia que varia conforme a latitude e a estação do ano) se torna longo. O NSQ faz sinapse com outros núcleos hipotalâmicos como o núcleo paraventricular que envia axônios para a medula ao nível de T1 a T2, influenciando os neurônios pré-ganglionares simpáticos. Os neurônios pós- ganglionares, por sua vez, inervam a glândula pineal, cuja atividade resulta na síntese e liberação de melatonina. A redução do fotoperiodo durante o outono aumenta o tônus simpático e como consequência aumenta gradativamente a melatonina circulante. Sistemas Moduladores Além de circuitos neurais específicos (sensorial e motor), o SNC possui conexões nervosas amplamente espalhadas que “ligam” e “desligam” várias regiões do cérebro ao mesmo tempo. Isso sugere que deve existir um sistema atenuador/ativador geral de todo o sistema nervoso central. Graças à atividade desse sistema, o nosso estado de consciência e o desempenho comportamental podem variar ao longo de um dia. No SNC, mais precisamente na formação reticular, em núcleos específicos do tronco encefálico e do prosencéfalo basal, há coleções de neurônios exercendo funções moduladoras (atenuação/ativação) de amplas regiões do cérebro, cada qual através de um NT específico. Coletivamente esses neurônios formam o sistema difuso de modulação e possuem muitas características comuns: tem origem no tronco encefálico, NT são liberados no fluido extracelular e são do tipo metabotrópicos (acoplados à proteína G), a velocidade de transmissão é muito baixa. Os principais sistemas de modulação são os neurônios que liberam Noradrenalina (NE); Serotonina (5-HT); Dopamina (DA), Acetilcolina (Ach) e Histamina (His). Como a projeção desses neurônios é bastante difusa, a atividade de um determinado sistema cria um microclima neuroquímico mais noradrenérgico ou mais serotonérgico, ou mais colinérgico, conforme a situação. O balanço geral dos vários NT desse sistema de modulação afetaria o estado de excitabilidade dos neurônios corticais e regularia o estado de consciência e a atividade comportamental. Ciclo Sono - Vigília Vigília: estado em que a pessoa responde a estímulos sensoriais provenientes do ambiente e apresenta comportamento ativo com base em intensa atividade motora e locomotora, a taxa de PA é alta (córtex está ativo). Sono: ele diminui sua reatividade aos estímulos externos, apresenta redução da atividade motora (não se move) e assume uma postura estereotipada (geralmente deitado com os olhos fechados). Muitos fenômenos autonômicos ocorrem usualmente caracterizados por uma redução geral das funções vegetativas: diminui a frequência cardíaca e a frequência respiratória, e com isso cai a pressão arterial; diminui a motilidade gastrointestinal; a temperatura corporal cai um ou dois graus, acompanhada de redução da atividade metabólica dos órgãos e tecidos. O sono não é o mesmo durante toda a noite, mas possui vários estágios e dois estados diferentes. - REM: Denominado de sono paradoxal. O consumo de oxigênio pelo cérebro é igual ou maior do que em vigília, o indivíduo sonha e seus olhos se movem rapidamente. A medida que se aproxima a hora de despertar, a duração do sono REM aumenta e não ocorrem mais os estágios 3 e 4. - NÃO REM: Denominado de sono de ondas lentas, pela natureza mais sincronizada do EEG (eletroencefalograma). O cérebro repousa, sua taxa de consumo de oxigênio está em nível baixo. Possui 4 fases: 1. Fase inicial, dura cerca de 5 min, é muito leve, estado de consciência baixo 2. Ainda é um sono leve e dura cerca de 10 a 20 min. Atividade motora semelhante à fase 1 3 e 4. Sono profundo e dura cerca de 20 a 40 min Geralmente, ao adormecer, em menos de 1 hora seu sono passará pelos estágios 1 a 4 do sono NÃO REM, depois alternará entre os estágios 3 e 4 durante cerca de meia hora, a seguir passará por um período de aproximadamente 20-30 minutos de sono paradoxal ou REM, e repetirá tudo outras vezes. De 90 em 90 minutos haverá alternância entre o sono NÃO REM e o REM, mas ao longo da noite a duração de cada estágio e do sono REM ficará gradualmente maior. Ao final do período de sono, é provável que você acorde de modo espontâneo durante um período de sono paradoxal e relate algum sonho, que é mais frequente no sono REM. Em todos os estágios e estados do sono, há grupos de neurônios com fibras ascendentes que controlam a excitabilidade do tálamo e do córtex cerebral, e outros com fibras descendentes que regulam a atividade dos órgãos (coração, pulmão, trato digestório e outros) e dos músculos. Os núcleos tálamo que tem projeção no córtex comportam-se de duas maneiras: a) Modo de transmissão, é típico do estado de vigília: No modo de transmissão os relês tálamo-corticais respondem continuamente aos estímulos do ambiente e essa via encontra-se extremamente facilitada (potencial de membrana mais próximo do limiar) por meio de sinapses excitatórias glutamatérgicas: é o que esperamos para um indivíduo que está acordado. Assim, durante a vigília os dendritos dos neurônios corticais são maciçamente bombardeados por aferências talâmicas, tornando o EEG bastante dessicronizado (ondas rápidas e de baixa amplitude) ou seja, várias áreas corticais estão em operação. b) Modo de disparo em salvas, típico do estado de sono: No modo de disparo em salvas, os relês tálamo- corticais estão inexcitáveis (hiperpolarizados). Aconteceque esses neurônios talâmicos possuem canais de Ca+ voltagemdependentes, que se tornam ativos quando há hiperpolarização, mas é desativado quando ela despolariza. Assim, no modo de transmissão não entra cálcio através desses canais, mas no modo de disparo em salvas os canais abrem-se quando a membrana hiperpolariza, produzindo um "potencial de cálcio" despolarizante, que atinge o limiar e provoca alguns PAs. Só que a despolarização fecha o canal, a membrana se hiperpolariza novamente e o ciclo se repete. A atividade se toma rítmica e sincronizada. No tálamo, além de neurônios relês há neurônios do núcleo reticular (GABAérgicos) que fazem sinapse inibitória com os demais neurônios relês do talâmo. Sob a ação do sistema de modulação difuso colinérgico, os neurônios gabaergicos reduzem a excitabilidade dos neurônios talamo-corticais e esses passam a disparar em salvas (sono), lentificando e sincronizando as ondas do EEG. Durante a vigília, esse sistema está inoperante e somos mantidos acordados graças a atividade do sistema ativador reticular ascendente (SARA) responsável pela dessincronizaçâo do EEG e pelos neurônios histaminérgicos do hipotálamo posterior e do núcleo tuberomamilar. Quando esses núcleos são destruídos causam coma e a sincronização do EEG; se forem estimulados, causam efeitos opostos. É por isso que as drogas anti-histamínicas (contra a alergia) induzem o sono. O sistema de modulação histaminérgico (hipotálamo posterior) que nos ajuda a ficar acordados recebe inervação inibitória GABAérgica do hipotálamo anterior que induz à sincronização do EEG. O sono de ondas lentas é causado pelo bloqueio das vias histaminérgicas, ativação do sistema de modulação colinérgico e mudança de atividade dos neurônios tálamo-corticais ao modo de disparo em salvas. Há duas maneiras de despertar: uma é ser despertado por estímulos externos mais intensos (sons, estímulos táteis, luz intensa) que ativará o SARA e dessincronizará o córtex. A outra é despertar espontaneamente e, nesse caso, acredita-se que na transição entre o sono paradoxal e a vigília, o lócus ceruleus deve dessincronizar ainda mais as ondas corticais. Atenção e Percepção Seletiva Prestar atenção é focalizar a consciência, concentrando os processos mentais em uma única tarefa principal e colocando as demais em segundo plano. A atenção tem dois aspectos principais: a criação de um estado geral de sensibilização (alerta), e a focalização desse estado de sensibilização sobre certos processos mentais e neurobiológicos (atenção propriamente dita). A atenção mental pode ser chamada cognição seletiva, enquanto a atenção sensorial é chamada percepção seletiva. Há diferentes tipos de atenção sensorial: - Atenção explícita ou aberta: o foco da atenção coincide com a fixação visual (se localiza no eixo visual). - Atenção implícita ou oculta: o foco da atenção não coincide com o olhar (estar olhando para algum lugar, mas não está prestando atenção). Os experimentos de registro de potenciais do EEG e campos magnéticos relacionados a eventos indicaram que a focalização atencional provoca o aumento da amplitude dos sinais. Conclui-se que a seleção perceptual resulta de um mecanismo facilitador das respostas neuronais, e que tal mecanismo ocorre tanto nas áreas sensoriais como nas associativas (responsável pela integração de informações).