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@anabea.rs | Ana Beatriz Rodrigues 1 DOENÇAS INFECCIOSAS E PARASITARIAS EM CIRURGIA AMBULATORIAL INTRODUÇÃO O diagnóstico e o tratamento de inúmeras afecções de origem infecciosa ou parasitária exigem, muitas vezes, medidas cirúrgicas com finalidades propedêutica e/ou terapêutica. Essas intervenções são, na maioria dos casos, de fácil execução e podem ser realizadas em regime ambulatorial. CLASSIFICAÇÃO ETIOLÓGICA Pode classificar as doenças infecciosas e parasitárias de interesse em cirurgia ambulatorial, em: − Doenças produzidas por vírus: Molusco contagioso; Herpes-zóster; Verrugas. − Doenças produzidas por bactérias: Sífilis; Linfogranuloma venéreo; Tuberculose cutânea; Doença da arranhadura do gato. − Doenças produzidas por fungos: Paracoccidioidomicose; Esporotricose; Criptococose. − Doenças produzidas por protozoários: Leishmaniose cutâneo-mucosa. − Doenças produzidas por helmintos: Cisticercose cutânea; Larva migrans cutânea. − Doenças produzidas por artrópodes: Tungíase; Pediculose; Escabiose; Miíase. − Manifestações cutâneas na AIDS. DOENÇAS PRODUZIDAS POR VÍRUS MOLUSCO CONTAGIOSO DEFINIÇÃO: é um DNA poxvírus responsável por doença humana benigna que atinge a pele e as mucosas (raro). TRANSMISSÃO: por contato direto de pele a pele, por meio de fômites, uso de toalhas ou esponjas de banho contaminadas e, pela autoinoculação, pelo ato de se coçar. Pode ser também por contato sexual, pois em adultos se dá muito nas partes genitais. PERÍODO DE INCUBAÇÃO: varia de 2 a 7 semanas, podendo estender-se por até 6 meses. CARACTERÍSTICAS: As lesões, geralmente assintomáticas, podem ser solitárias ou múltiplas. Apresentam-se como pápulas arredondadas, da cor da pele, de 2 - 4 mm, com umbilicação central. Quando espremidas, deixam sair secreção esbranquiçada do tipo caseosa ou queratinosa. DIAGNÓSTICO: é feito com base no aspecto das lesões, exame histológico. DIAGNOSTICO DIFERENCIAL: verrugas, nevos, granuloma piogênico, foliculite e líquen plano. FATORES DE RISCO: pacientes HIV-positivos, crianças, vida sexual ativa. TRATAMENTO Muitas vezes tem resolução espontânea. Não existe tratamento sistêmico específico. Na presença de várias lesões, não é necessária a destruição individualizada de cada uma delas. Os principais tipos de tratamento local incluem: − Curetagem das lesões com pequena cureta afiada. − Punção das lesões com pequena lâmina ou agulha e espremedura; − Crioterapia com nitrogênio líquido, isoladamente ou precedendo a curetagem; − Cauterização com eletrocautério ou diatermia; − Aplicação de laser de CO2; − Cauterização química com fenol puro liquefeito, nitrato de prata, ácido monocloroacético, ácido tricloroacético a 10%, cantaridina a 0,7%, ácido salicílico, podofilina a 25% em álcool etílico a 95% ou hidróxido de potássio 5% a 10%; − Imiquimod a 5%. Tem sido utilizado com boa resposta clínica em pacientes com doença disseminada e em pacientes HIV-positivos; − Radiocirurgia. HERPES ZOSTER ETIOLOGIA: varicela-zóster, responsável pela doença varicela. FATORES DE RISCO: idosos, imunossuprimidos, portadores de linfomas e leucoses, especialmente nos portadores da doença de Hodgkin e de leucemia linfoide crônica; e nos pacientes transplantados e naqueles infectados pelo vírus HIV. @anabea.rs | Ana Beatriz Rodrigues 2 MANIFESTAÇÕES: Os sinais premonitórios incluem dor em queimação e hiperestesia, geralmente correspondentes às áreas de distribuição de um ou mais nervos espinais ou cranianos (dermátomos). Muito importante é a unilateralidade das lesões que nunca ultrapassam a linha média. Depois dessa fase, que dura entre 3 e 5 dias, segue-se a formação de crostas, que se desprendem, raramente deixando cicatrizes. Na grande maioria dos pacientes, a cura das lesões e o desaparecimento espontâneo da dor ocorrem após 10 a 15 dias, porém pode-se observar pigmentação da pele na região atingida, podendo permanecer durante algum tempo. Em alguns casos, mesmo após a resolução das lesões, pode persistir a sensação de dor, conhecida como nevralgia pós-herpética. COMPLICAÇÃO: No acometimento anogenital, a impossibilidade de urinar e defecar é complicação grave. DIAGNÓSTICO: é feito com base no aspecto das lesões, geralmente característico, e na história anterior de dor em faixa. TRATAMENTO: é sintomático e visa a combater a dor. Algumas vezes, analgésicos comuns são suficientes, porém pode ser necessário o uso de narcóticos. Os salicilatos não devem ser utilizados, pois podem desencadear a síndrome de Reye, especialmente nas crianças. O uso do aciclovir tem sido recomendado no tratamento do herpes-zóster em hospedeiros previamente sadios, já que diminui o número de novas lesões, reduz o tempo de formação destas, acelera a cura, alivia a dor local e a neurite aguda. Em adolescentes e adultos, a dose oral é de 800 mg, 5 vezes ao dia, por 7 a 10 dias. Em crianças de 2 a 16 anos, a dose oral é de 20 mg/kg, 4 vezes ao dia (máximo de 800 mg por vez), durante 5 dias. As drogas antivirais são mais efetivas quando utilizadas até 72 h após o início do rash e 24 h após o início das lesões. Na fase aguda da doença, tem sido recomendado o uso da gabapentina associada ao valaciclovir. VERRUGAS ETIOLOGIA: São causadas pelo papilomavírus humano (HPV). Eles são hospedeiros específicos, e cada tipo está, na maioria das vezes, associado ao processo histopatológico específico. TRANSMISSÃO: pode ocorrer diretamente por meio de contato pele com pele, ou, indiretamente, mediante contato com partículas infectadas (fômites). A autoinoculação também pode ocorrer. TIPOS DE VERRUGAS Verrugas vulgares: Verrugas filiformes; Excrescências córneas cutâneas. Elas estão associadas principalmente ao HPV tipos 1, 2 e 4. Acometem de preferência crianças na idade escolar e adolescentes. Apresentam-se como pápulas hiperqueratósicas, vegetantes, pequenas, em geral com milímetros de diâmetro, de consistência firme e coloração amarelada ou pardacenta. Os limites são geralmente precisos, a superfície é rasa e áspera. Geralmente, as lesões são assintomáticas, embora possa ocorrer sangramento, ou dolorosas, se localizadas em regiões submetidas a pressão ou fricção. Verrugas plantares: estão associadas principalmente ao HPV tipos 1 e 2. Surgem geralmente nas áreas de maior apoio da região e apresentam-se quase sempre rodeadas de uma calosidade que, às vezes, mascara a lesão. São dolorosas e, em 66% dos casos, uma verruga isolada acompanha-se de grupos de verrugas-satélites que se desenvolvem ao redor da primeira. Verrugas planas (juvenis): estão associadas principalmen-te ao HPV tipos 3 e 10. São pequenas, pouco salientes, consistentes, de cor amarelada ou semelhante à da pele vizinha e de morfologia variada. Localizam-se predominantemente na face, região cervical e nas mãos. O ciclo vital é muito variável, podendo ocorrer resolução espontânea após alguns meses. @anabea.rs | Ana Beatriz Rodrigues 3 Verrugas anogenitais (condiloma acuminado): estão associadas principalmente ao HPV tipos 6 e 11. Apresentam-se com aspecto vegetante, róseo e em forma de couve-flor, nas regiões genital e anal principalmente. Podem ter pequenas dimensões (menores do que 1 mm) ou mostrar-se como massas volumosas. Deve-se realizar exame vaginal e retal para correta avaliação da extensão das lesões visíveis. Essa lesão aparece na sífilis secundária, apresenta-se como placa de cumes achatados e coloração branca. O contato sexual prévio não é obrigatório para o desenvolvimento das lesões. Os vírus já foram identificados na fumaça liberada das lesões durante tratamento com eletrocauterização ou laser de CO2, sendo possível fonte de contaminação. Por isso, a utilização de óculos e máscaras é recomendadaaos profissionais que realizam esses tipos de tratamento. TRATAMENTO: não existe tratamento de escolha. Seu tratamento deve ser individualizado de acordo com o número de lesões e o local acometido. Inicialmente começa com o tratamento clínico (sobretudo nas lesões múltiplas). A intervenção cirúrgica fica reservada para quando ocorrer falha do tratamento clínico, especialmente nas lesões solitárias. Existe associação entre a infecção pelo HPV e o câncer do colo uterino. Por isto, as verrugas anogenitais sempre devem ser tratadas e os parceiros examinados. Podemos dividir as modalidades terapêuticas nos seguintes grupos: − Tratamento clínico: Medicamentos de uso sistêmico e de uso tópico. − Tratamento cirúrgico: Curetagem e cauterização, Radiocirurgia, exérese cirúrgica, Eletrocauterização, Criocirurgia e Cirurgia com laser de CO2. Tratamento clínico Medicamentos de uso sistêmico: A cimetidina, agonista dos receptores H2, tem sido utilizada no tratamento das verrugas recidivantes. A dose recomendada é de 30 a 50 mg/kg/dia, dividida em 4 tomadas, por um período de 3 meses. Medicamentos de uso tópico: Os principais são os cáusticos, ácidos e queratolíticos. Assim, para as verrugas vulgares, principalmente das mãos, podem ser usadas a solução saturada de ácido monocloro-acético a 80% ou os ácidos dicloroacético ou tricloroacético (30% a 90%) aplicados a cada 2 a 3 semanas durante até 16 semanas, e a pasta de ácido salicílico + ácido láctico + coloide elástico (1:1:4), aplicada a cada 24 h. Tratamento cirúrgico O tratamento de escolha, para a maioria das verrugas solitárias, é a curetagem com cauterização das lesões ou a radiocirurgia. A curetagem com cauterização é especialmente útil nas verrugas plantares. A radiocirurgia com eletrodo em alça pode ser utilizada no tratamento de verrugas solitárias. DOENÇAS PRODUZIDAS POR BACTÉRIAS SÍFILIS DEFINIÇÃO: é uma doença infecciosa, de evolução crônica. ETIOLOGIA: causada pelo Treponema pallidum, que pode afetar vários órgãos. Na pele, causa lesões cutâneas polimorfas. Na evolução, períodos de atividade precoce (primário e secundário) e tardia (terciário) são intercalados por um período de latência. @anabea.rs | Ana Beatriz Rodrigues 4 O período recente (sífilis primária e secundária) é caracterizado pela reversibilidade das lesões e riqueza de treponemas. O período tardio (sífilis terciária) é caracterizado por lesões destrutivas e baixo número de treponemas. TRANSMISSÃO: através da placenta (sífilis congênita) ou adquirida pelo contato sexual, beijo, transfusões de sangue ou inoculação acidental por agulhas ou material contaminado. A transmissão direta, de indivíduo para indivíduo, é quase que exclusivamente venérea, e, em mais de 90% dos casos, as lesões infectantes localizam-se nos órgãos sexuais. SÍFILIS PRIMARIA O período de incubação é de 21 dias, em média. Após esse período, geralmente surge, no local da inoculação, um cancro único e indolor. O cancro sifilítico, ou cancro duro, inicia-se como uma pápula circular de 1 cm a 2 cm de diâmetro, que pode rapidamente ulcerar e tornar-se endurecida. A base é frequentemente lisa e suas bordas elevadas e duras, com consistência cartilaginosa. > 90% dos cancros ocorrem na região anogenital (principalmente genitália externa). Acompanhando a lesão primária, ocorre linfadenomegalia regional, com linfonodos moderadamente aumentados de tamanho, indolores e não supurativos. Que persiste por um tempo maior. Os testes sorológicos só se positivam 1 a 2 semanas após o aparecimento do cancro. Diagnóstico diferencial: Cancro mole, Linfogranuloma venéreo, Granuloma inguinal (donovanose). SÍFILIS SECUNDARIA Caracteriza-se pela disseminação de treponemas pelo organismo, surgindo de 2 a 8 semanas após o aparecimento do cancro. Os testes sorológicos para sífilis são sempre positivos nessa fase, que é a mais contagiosa devido ao número das lesões infectantes. A lesão inicial na pele é a roséola sob forma de erupção. Pode ser muito esmaecida e, às vezes, de difícil visão. Geralmente as lesões surgem primeiro, no tronco e extremidades proximais, sendo bilaterais. Posteriormente, surgem máculas, pápulas, pústulas, rashes papulares (especialmente palmares e plantares). TRATAMENTO: O tratamento das sífilis primária, secundária e latente precoce pode ser feito com a dose única de 2.400.000 U de penicilina G benzatina, por via IM ou doxaciclina 100 mg de 12/12 h, VO, por um período de 15 dias. Nas sífilis latente tardia e terciária, um total de 7.200.000 U de penicilina G benzatina, VI, divididas em 3 doses de 2.400.000 U a cada 7 dias, deve ser utilizado. LINFOGRANULOMA VENÉREO É uma infecção sistêmica transmitida habitualmente por contato sexual. A doença é causada pela Chlamydia trachomatis, sendo o homem o seu hospedeiro natural. O período de incubação é de 3 a 30 dias, geralmente entre 15 e 21 dias. No ponto de entrada, forma-se pequena pápula ou úlcera herpetiforme. As lesões geralmente são indolores e podem passar despercebidas. Ocorre cicatrização espontânea em alguns dias, sem formação de cicatriz. De 2 a 4 semanas após, ocorre o infarto dos linfonodos regionais. Eles aumentam de tamanho, se fundem e, juntamente com periadenite, formam um bubão volumoso com flutuação (adenopatia regional). De início, ele é consistente, mas, posteriormente, começa a apresentar flutuação e, em cerca de 50% dos casos, abre- se para o exterior, formando uma ou mais fístulas. O acometimento linfonodal inguinal é mais frequente nos homens do que nas mulheres, pois, nestas, os linfáticos da vagina drenam diretamente para os linfonodos ilíacos profundos e perirretais, o que aumenta a possibilidade de retite estenosante. DIAGNÓSTICO: deve ser feito com base na história de contato sexual e exame da lesão. Laboratorialmente, o melhor método para o diagnóstico é o isolamento da C. trachomatis na cultura. Entre os testes que não dependem de cultura para detectar a bactéria, a pesquisa de DNA por PCR é o mais sensível. TRATAMENTO: Nas formas não complicadas de uretrite e cervicite mucopurulenta, é preconizado o uso de doxaciclina na dose de 100 mg VO, 2 vezes ao dia, durante @anabea.rs | Ana Beatriz Rodrigues 5 7 dias, ou azitromicina na dose de 1 g VO, em dose única. Os bubões que apresentarem flutuação devem ser aspirados, para evitar ruptura espontânea e formação de fístulas. TUBERCULOSE CUTÂNEA A tuberculose, em sua forma cutânea, pode ocorrer devido a dois mecanismos básicos: colonização da pele pelo bacilo ou como consequência de processo de hipersensibilidade a um foco tuberculoso ativo em qualquer ponto do organismo (tubercúlides). A primoinfecção tuberculosa ocorre quando o organismo entra em contato, pela primeira vez, com o bacilo de Koch. É geralmente de localização pulmonar, mas pode, ocasionalmente, processar-se na pele, onde desenvolve o complexo primário cutâneo. A lesão inicial apresenta-se sob a forma de pequeno nódulo endurecido, avermelhado, doloroso, com cerca de 2 cm de diâmetro. Esse nódulo ulcera-se, posteriormente, ficando recoberto por crostas escuras. O complexo tuberculoso primário cutâneo compreende: − Cancro de inoculação; − Inflamação perifocal; − Linfangite; − Linfadenite. TUBERCULOSE COLIQUATIVA (escrofuloderma): é a forma de tuberculose cutânea mais encontrada no Brasil. As lesões surgem geralmente no pescoço e são consequentes a processo tuberculoso linfonodal cervical. A lesão inicial é um nódulo avermelhado que, posteriormente, se rompe, dando formação a trajetos fistulosos com drenagem de secreção turva. Nessa região podem surgir úlceras. A biópsia linfonodal tem grande valor diagnóstico pelo encontro dos bacilos e aspecto histológico. Na suspeita,devemos biopsiar apenas um linfonodo. A pesquisa no exsudato das lesões geralmente é positiva. O diagnóstico diferencial deve ser feito principalmente com paracoccidioidomicose, esporotricose, actinomicose, hidrosadenite supurativa e formas graves de acne conglobata. ABSCESSO TUBERCULOSO METASTÁTICO: Ocorre por disseminação hematogênica de micobactérias de um foco primário durante período de baixa resistência ou imunodeficiência. Os abscessos podem ser cutâneos ou subcutâneos, únicos ou múltiplos. DIAGNOSTICO: histopatológico com coloração específica ou cultura de bactérias. O diagnóstico diferencial deve ser feito com todas as formas de paniculites, infecções fúngicas profundas, goma sifilítica e hidrosadenite supurativa. DOENÇA DE ARRANHADURA DO GATO (Linforreticulose Benigna de Inoculação) ETIOLOGIA: é a Bartonella henselae (Rochalimaea). TRANSMISSÃO: faz-se principalmente por arranhaduras, mordeduras ou lambidas de gatos jovens. Raramente, pode ser transmitida por cães ou por traumatismos com pedaços de madeira, espinhos ou objetos metálicos contaminados. A doença é mais comum em crianças na idade escolar e adolescentes, talvez pelo maior contato destes com os animais. Tem distribuição universal, e é sazonal nas regiões de clima temperado, com frequência maior no inverno. CARACTERÍSTICA: Após pequeno período de incubação, de 3 a 10 dias, surge, no local da inoculação, pápula eritematosa, que pode evoluir para pústula ou crosta. Concomitantemente (em torno de 2 semanas após a inoculação) ocorre linfadenopatia-satélite ipsilateral, que geralmente persiste por 2 a 4 meses. Os linfonodos mais acometidos são os das regiões axilar e cervical. Os linfonodos encontram-se aumentados de tamanho, são sensíveis e, algumas vezes, podem abscedar. DIAGNÓSTICO: é feito com base na história, presença de lesão cutânea provocada por animais e linfadenopatia- satélite. Testes sorológicos para pesquisa de anticorpos, juntamente com a cultura, constituem os métodos laboratoriais de escolha. O exame anatomopatológico dos linfonodos corados por hematoxilina-eosina é bastante sugestivo. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL: linfadenite piogênica ou fúngica, toxoplasmose, mononucleose infecciosa, tularemia, bru-celose, tuberculose linfonodal, linfogranuloma venéreo, sífilis, leucose. @anabea.rs | Ana Beatriz Rodrigues 6 TRATAMENTO: Os linfonodos abscedados devem ser drenados e o material enviado para cultura. A maioria dos pacientes necessita apenas de sintomáticos, uma vez que a doença, geralmente, cura-se espontaneamente. DOENÇAS PRODUZIDAS POR FUNGOS PARACOCCIDIOIDOMICOSE DEFINIÇÃO: é uma doença sistêmica que se manifesta por lesões na pele, mucosas, linfonodos e outros órgãos. ETIOLOGIA: É causada por um fungo dimórfico, o Paracoccidioides brasiliensis. MANIFESTAÇÕES: Um dos primeiros sinais de infecção é uma linfadenomegalia progressiva, acompanhada de lesões cutâneas e/ou mucosas. As lesões cutâneas ocorrem principalmente na face ou bordas mucocutâneas, e são de diversos tipos: placas, pápulas, nódulos, abscessos, úlceras ou vegetações. DIAGNÓSTICO: é feito pela pesquisa direta ou cultura da secreção purulenta eliminada das lesões. A biópsia com estudo anatomopatológico é de importância fundamental no diagnóstico. Testes cutâneos não são úteis para o diagnóstico. TRATAMENTO: Antifúngicos, por VO, são eficientes e responsáveis pelo avanço significativo na terapêutica dessa doença. ESPOROTRICOSE DEFINIÇÃO: É infecção crônica devida à implantação do fungo Sporothrix schenckii na pele. Acomete tipicamente a pele, o tecido celular subcutâneo e os linfonodos regionais. Do ponto de implantação, o fungo pode disseminar-se, por via linfática ou hematogênica, e atingir principalmente os ossos e articulações. A infecção geralmente ocorre após implantação traumática do fungo na pele, causada mais frequentemente por ferimentos, espinhos e palha. A lesão inicial é uma pápula, pústula ou nódulo que, frequentemente, ulcera-se e desenvolve bordas eritematosas e elevadas. O tamanho inicial da lesão pode variar desde poucos milímetros a até 2 cm a 4 cm. Outras lesões secundárias podem formar-se em disposição linear, seguindo os ductos linfáticos até os linfonodos regionais. A localização mais frequente da lesão inicial são as mãos. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL: deve ser feito com outras infecções micóticas, sífilis, erupção por medicamentos, tuberculose cutânea, lesões piogênicas, granuloma de corpo estranho e carcinoma. DIAGNÓSTICO: é difícil ser feito pelo exame anatomopatológico, pois o fungo não é usualmente visto. O diagnóstico geralmente é estabelecido pela cultura do Sporothrix schenckii. TRATAMENTO: O itraconazol é o medicamento de escolha. A dose preconizada é de 200 mg por dia, por 2 a 4 semanas, após o desaparecimento de todas as lesões, geralmente de 3 a 6 meses. CRIPTOCOCOSE ETIOLOGIA: Infecção causada pelo Cryptococcus neoformans, fungo saprófito, capsulado e de distribuição universal. TRANSMISSÃO: É encontrado principalmente nas fezes de pombos, sendo esta a principal fonte de infecção para os homens. Pode também crescer nas florestas de eucaliptos das regiões tropicais e subtropicais. A transmissão ocorre principalmente por via inalatória. Em pessoas imunocomprometidas, ocorre disseminação hematológica para outros órgãos, principalmente para o SNC, ou seja, são mais susceptíveis a forma sistêmica. MANIFESTAÇÕES CUTÂNEAS: da criptococose são, em sua maioria, inespecíficas e podem simular grande variedade de lesões. As manifestações inespecíficas incluem: celulite, úlceras, abscessos subcutâneos, púrpura palpável, equimoses, vesículas, pápulas, nódulos, pioderma gangrenoso, lesões tumorais ou granulomatosas. @anabea.rs | Ana Beatriz Rodrigues 7 As lesões podem ser solitárias ou múltiplas, indolores ou dolorosas. DIAGNÓSTICO: é feito por meio da biópsia das lesões, com preferência para a biópsia excisional. A biópsia e a cultura são essenciais para o diagnóstico nos pacientes imunocomprometidos. TRATAMENTO: Diversos esquemas são preconizados, como doses elevadas de anfotericina B associadas ou não a flucitosina inicialmente, seguidas de fluconazol ou itraconazol, por via oral, a longo prazo. DOENÇAS PRODUZIDAS POR PROTOZOÁRIOS LEISHMANIOSE CUTÂNEO-MUCOSA ETIOLOGIA: Doença infecciosa crônica produzida pela Leishmania braziliensis, que acomete usualmente a pele, podendo atingir secundariamente as mucosas. TRANSMISSÃO: A afecção não é contagiosa, sendo transmitida ao homem por insetos da família Lutzomyia. O homem e outros animais vertebrados funcionam como hospedeiros. CARACTERÍSTICAS: Os aspectos clinicomorfológicos são polimorfos, constituindo uma das principais características da doença. No local da picada do inseto surge pápula eritematosa pequena, única ou múltipla. Durante a sua evolução, a lesão torna-se papulovesiculosa, papulopustulosa, ulcerocrostosa. A úlcera tem contornos circulares, bordas elevadas e infiltradas (aspecto em moldura) e fundo com granulações grosseiras, de cor vermelho-vivo, recoberto por exsudato seropurulento ou seroso. DIAGNOSTICO: o diagnóstico clínico da leishmaniose ajuda, mas o diagnóstico de certeza só pode ser estabelecido após confirmação laboratorial. Os métodos incluem identificação dos amastigotas nas lesões, crescimento de promastigotas na cultura, histopatologia e testes imunológicos. Identificação do parasito nas lesões: pode ser feita pela raspagem (shaving) das bordas com bisturi ou por imprint de biópsias das bordas. TRATAMENTO: O medicamento de primeira escolha é o glucantime. Nas formas cutâneas não complicadas, é recomendada dose de 10 mg a 20 mg/kg de peso por dia por 20 a 28 dias. Nos casos resistentes ao glucantime,está indicado o uso de anfotericina B, na dose de 0,5 mg/kg a 1 mg/kg de peso corporal por dia. Nesses casos, emprega- se também a eletrocoagulação ou radiocirurgia (tratamento cirúrgico). DOENÇAS PRODUZIDAS POR HELMINTOS CISTICERCOSE CUTÂNEA CARACTERÍSTICAS: manifesta-se como pequenos nódulos subcutâneos, duros, arredondados, indolores à palpação e recobertos por pele normal. O número de nódulos é variável, podendo haver apenas um, ou vários, distribuídos por todo o corpo. O homem pode adquirir a cisticercose por três mecanismos: − Heteroinfestação (ingestão de água ou alimentos contaminados por ovos do parasito, sendo a mais comum); − Autoinfestação interna (ruptura dos anéis grávidos dentro do tubo digestivo do homem); − Autoinfestação externa (ingestão de fezes com ovos de sua própria tênia). Na maior parte das vezes, o DIAGNÓSTICO só é feito após exame anatomopatológico. TRATAMENTO: exérese cirúrgica, com prévia anestesia local, nos cistos sintomáticos. LARVA MIGRANS CUTÂNEA É produzida pela migração de larvas de diversas espécies de nematódeos através das camadas superficiais da pele. As larvas originam-se das fezes humanas contaminadas e vivem em terras úmidas e praias. Elas penetram através da pele intacta e formam túneis na epiderme e na derme superior. Têm a forma de uma linha vermelha fina e tortuosa, que aumenta até 1 cm a 2 cm por dia. Inicia-se no local de entrada, poucas horas após a penetração, sendo acompanhado de dermatite, edema, pápulas e/ou papulovesículas. DIAGNÓSTICO: é feito principalmente pela história de exposição a áreas de risco de contaminação e pelo exame @anabea.rs | Ana Beatriz Rodrigues 8 físico. O exame histopatológico pode revelar as larvas, além de infiltrado inflamatório eosinofílico. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL: deve ser feito com miíase e com Strongyloides stercoralis. TRATAMENTO: O tratamento é feito com tiabendazol VO (50 mg/kg/dia, divididos em 2 doses, por 2 a 3 dias) ou aplicação tópica na forma de cremes a 5% ou 10% em curativos oclusivos. DOENÇAS PRODUZIDAS POR ARTRÓPODES TUNGÍASE (BICHO-DE-PÉ) ETIOLOGIA: é a parasitose produzida pela Tunga penetrans, pulga que habita lugares secos e arenosos. Os suínos e o homem são seus hospedeiros habituais. As fêmeas fecundadas penetram na pele, introduzindo a cabeça e o tórax na epiderme e deixando para fora o estigma respiratório e o segmento anal para postura dos ovos. Ocorre prurido, na fase inicial, acompanhado de dor e intumescimento dos tecidos vizinhos. Algumas vezes, a lesão pode servir como porta de entrada a outras infecções, levando a abscesso, linfangite e adenite. O tétano é complicação grave que pode ocorrer nos indivíduos não vacinados. TRATAMENTO: consiste na extração da Tunga penetrans, usando-se agulha previamente esterilizada. Em alguns casos, pode ser necessário o uso de anestésico local e termo ou eletro cauterização. O uso de antibióticos está indicado nos casos de infecção secundária. PEDICULOSE ETIOLOGIA: Dermatose causada pelos piolhos, que são hematófagos exclusivos do homem. Os piolhos apresentam preferência por determinadas regiões da pele, sugando-a frequentemente para a sua nutrição. Nesses locais, por inoculação de saliva, forma-se um botão pruriginoso, podendo a pele, por efeito de coçadura, sofrer escoriações e infecção secundária (impetigo, foliculite e adenopatia cervical). ESCABIOSE ETIOLOGIA: Escabiose ou sarna é uma dermatose produzida por ácaros da espécie Sarcoptes scabiei, variedade hominis. Por outro lado, formas especiais, como a escabiose mínima de pessoa limpa, são muito mais comuns e difíceis de diagnosticar. O hospedeiro é infectado por fêmeas recém-fecundadas que penetram na epiderme, escavando galerias. TRANSMISSÃO: se dá por contato pessoal, independentemente de cor, sexo ou raça. A transmissão por meio das roupas ocorre ocasionalmente. MIÍASE DEFINIÇÃO: As larvas de algumas espécies de moscas, ao infectarem a pele normal, a ulcerada ou as cavidades naturais do organismo, recebem a designação genérica de miíase. As miíases compreendem dois grupos principais: − Larvas que se instalam em tecidos sadios ou cavidades naturais: Entre elas encontramos a larva da Cochliomyia hominivorax, Dermatobia hominis e Oestrus ovis. São conhecidas como berne. − Larvas que se instalam em lesões preexistentes: Entre estas, as mais comuns são larva de mosca doméstica, Cochliomyia macellaria, Fannia sp., Calliphora sp., Sarcophaga sp. Estas são conhecidas como bicheira. MIÍASE FURUNCULOIDE (BERNE): A larva da Dermatobia hominis, mosca nativa em nosso meio. Quando esses vetores picam o homem, a larva da dermatóbia se solta, penetrando pelo orifício da picada. O início da penetração da larva pode passar despercebido, formando-se depois, no local, nódulo semelhante a um furúnculo (donde o nome de furunculoide), com pequeno orifício central. Nesse orifício, pode-se observar, frequentemente, pequena protrusão da extremidade posterior do parasito. Não raro, pode complicar-se com @anabea.rs | Ana Beatriz Rodrigues 9 infecções secundárias: abscesso, linfangite, fleimão, erisipela, tétano etc., ou ser sede de deposição de outras larvas de dípteros, levando à “bicheira”. O tratamento visa à retirada do berne. Esse objetivo pode ser atingido por meio de medidas simples que impedem a natural respiração da larva, por oclusão do orifício cutâneo. Popularmente, utiliza-se o tamponamento do orifício com toucinho. Tal medida força a passagem do parasito para este, na tentativa de respirar. A oclusão do orifício com vaselina também é utilizada. Nesse caso, ocorre a saída da extremidade da larva, para respirar, o que permite a sua retirada após apreensão com uma pinça. Esta deve ser feita com extremo cuidado para não provocar ruptura da larva e consequente infecção secundária. Quando essas medidas falham ou quando há fragmentação da larva, está indicada a retirada cirúrgica. MIÍASE DE FERIDA (BICHEIRA): Necessitam de material necrosado para o seu desenvolvimento, pois as larvas consomem o tecido necrosado. Tem postura de ovos na ferida. O diagnóstico não traz dificuldades, já que as larvas são visualizadas movendo-se nas ulcerações. O tratamento visa à retirada mecânica das larvas com o auxílio de pinças, facilitada pelo uso prévio de éter ou cloreto de etila local, o que leva à morte das larvas.