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EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS INTRODUÇÃO Prezado aluno, O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma pergunta, para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em tempo hábil. Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que lhe convier para isso. A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser seguida e prazos definidos para as atividades. Bons estudos! 1 UM BREVE HISTÓRICO DA EJA NO BRASIL Após a análise de algumas leituras e estudos relacionados à Educação de Jovens e Adultos (EJA) no contexto brasileiro, considerando o extenso período de mais de quatro séculos de experiências e envolvimento nesse âmbito educacional, é notório que se tornou um desafio significativo para os historiadores reconstituir essa trajetória. As circunstâncias da educação, ao longo desse período, têm sido marcadas pela perda gradual de registros e informações devido a condições inadequadas de preservação e ausência de armazenamento adequado, muitas vezes atribuíveis às gerações precedentes. Deste modo, é perceptível que a tarefa enfrentada pelos historiadores não foi de simplicidade, mas os vestígios documentados têm relevância suficiente para lançar luz sobre a evolução até o ponto em que nos encontramos atualmente. Esses indícios proporcionam uma base sólida para uma compreensão mais profunda da situação vigente, permitindo-nos examinar as complexidades do ensino destinado aos jovens e adultos em nossa nação. De forma ainda mais ampla, esse exame nos proporciona a chance de explorar as raízes que estão por trás da contínua questão do analfabetismo que afeta a sociedade do Brasil. Durante essas investigações, foram encontradas várias situações educativas que envolviam práticas tanto formais quanto não formais. Algumas dessas práticas tinham o propósito de instruir e impor normas, enquanto outras visavam a adaptação e o preparo para o trabalho escravo. Além disso, algumas experiências educativas buscavam conquistar direitos civis. Essas formas de educação são moldadas pela ação humana e carregam consigo os interesses dos seus agentes educadores. A responsabilidade pela efetivação dessas práticas não está vinculada ao tipo específico de prática em si. O que confere responsabilidade, no sentido de garantir o cumprimento do seu propósito, promovendo o desenvolvimento em direção à cidadania, é a qualidade ética da abordagem educativa. Em outras palavras, ser responsável no âmbito de qualquer prática educacional implica, por um lado, cumprir deveres e, por outro, exercer direitos. Como mencionado por Paulo Freire em 1992, “ser responsável no desenvolvimento de uma prática qualquer implica, de um lado, o cumprimento de deveres, de outro, o exercício de direitos” (FREIRE, 1992, p. 89). Com a chegada dos Jesuítas ao nosso território, estabeleceu-se o ensino público na colônia. O ato de instruir os adultos indígenas a ler e escrever despertou um grande interesse por parte dos sacerdotes. Isso ocorreu porque a principal intenção por trás dessa forma de educação era a conversão dos indígenas ao catolicismo. A fim de alcançar êxito nessa empreitada, os Jesuítas perceberam ser essencial dominar a língua indígena, o tupi. Com essa finalidade, eles desenvolveram um material educacional específico para organizar o processo de ensino e melhorar a comunicação entre os professores e os alunos. Posteriormente, com a chegada dos escravos, algumas dessas pessoas também foram instruídas e catequizadas pelos religiosos. Um pequeno contingente de mulheres participou dessas experiências educativas. A abordagem educacional dos Jesuítas estava principalmente focada na alfabetização, uma vez que o governo de Portugal não autorizava a fundação de universidades nas colônias. Isso ocorria porque o acesso a esse tipo de educação superior estava reservado apenas para os reduzidos grupos da nobreza. No decorrer do século XIX, houve uma determinação de que o processo de educação deveria abranger os estratos sociais conhecidos como “camadas inferiores”, conduzindo à formulação de uma política instrutiva especialmente direcionada a jovens e adultos. Essa abordagem educacional voltada para esse grupo assemelhava-se a uma iniciativa filantrópica. Era caracterizada por apelos no sentido de combater o analfabetismo, e os educadores não recebiam nenhuma compensação financeira pelo serviço que prestavam. Isso significa que, conforme destacado por Galvão e Soares em 2006 (p. 53), qualquer pessoa movida por “boa vontade”, dotada de “paciência” e guiada por um “espírito missionário”, poderia assumir o papel de alfabetizador. No que se refere à estrutura do currículo, existiam distinções entre os gêneros, com objetivos práticos claros. Para as mulheres, a formação era orientada para o desempenho das tarefas domésticas, enquanto para os homens, visava à sua integração na sociedade civilizada. Na época republicana, observou-se a presença significativa de altas taxas de analfabetismo. Isso indica que a maioria da população brasileira estava excluída de oportunidades educacionais. Essa exclusão derivava tanto da insuficiência de vagas direcionadas para adultos como da ineficácia do sistema educacional, que ainda mantinha um formato dualista. Nesse contexto, aqueles com recursos financeiros estudavam em instituições de ensino superior, enquanto os menos privilegiados buscavam alternativas mais práticas, como a formação profissionalizante, para se inserir no mercado de trabalho. Essa realidade evidencia que a educação de adultos não foi adequadamente implementada durante esse período. Nas primeiras décadas do século XX, surgiram diversas propostas de reforma no sistema educacional, visando eliminar o analfabetismo entre os adultos. Essas iniciativas incluíram a reestruturação dos cursos noturnos, mudanças nos conteúdos abordados, estabelecimento de programas educacionais suplementares e criação de cursos voltados para a formação profissional. A erradicação do analfabetismo no Brasil passou a ser uma meta importante para muitos. No entanto, mesmo com a necessidade evidente de alfabetizar a população, havia uma preocupação paralela por parte da elite em relação a perder o controle sobre as camadas mais amplas da sociedade. Esse contexto resultou em uma dinâmica complexa. Dessa forma, o ensino “se reduz ao ato mecânico de 'depositar' palavras, sílabas e letras nos alfabetizandos” (FREIRE, 1976, p.13). Com o advento do processo de industrialização, ocorreram várias transformações no campo da educação, uma vez que a demanda por trabalhadores qualificados para operar as máquinas era alta. Como resultado, muitos cursos práticos e exames supletivos foram implementados durante esse período, possibilitando a capacitação de inúmeras pessoas em um espaço de tempo reduzido. Dessa forma, o foco da educação estava primordialmente na preparação da mão de obra necessária para as atividades laborais e os serviços associados, bem como na oferta de educação profissional ao nível técnico. No entanto, essa abordagem frequentemente negligenciava a promoção de uma educação voltada para a conscientização e a emancipação dos indivíduos. A partir dadécada de 40, surgiram as primeiras iniciativas de alfabetização em larga escala nacionalmente. Entre elas, destaca-se a Campanha de Educação de Adolescentes e Adultos (CEAA), a Campanha Nacional de Educação Rural (CNER) e a Campanha Nacional de Erradicação do Analfabetismo (CNEA). A CEAA tinha como objetivo eliminar o analfabetismo em um curto período, mas não investiu na formação adequada dos alfabetizadores, o que resultou em insucesso e abriu caminho para a CNER. Esta, por sua vez, queria atingir as áreas rurais, pois apresentavam um grande atraso nas políticas de alfabetização das pessoas do campo. Devido aos resultados desfavoráveis apresentados em relação à eficácia da mencionada campanha, surgiu a Campanha Nacional de Erradicação do Analfabetismo (CNEA). Essa iniciativa foi estabelecida com a intenção de aprimorar as condições de vida das populações menos privilegiadas, visando impulsionar o progresso econômico e social do país. No entanto, apesar das intenções nobres, a atuação dessa campanha não conseguiu provocar mudanças significativas no sistema educacional. A instrução manteve-se superficial, deixando de alcançar uma profundidade mais significativa de aprendizado. Isso levou gradualmente à desconexão das escolas, tanto nas áreas rurais quanto urbanas, em relação ao contexto dos estudantes adultos. Como resultado, as três campanhas nacionais - CEAA, CNER e CNEA - voltadas para a alfabetização de adultos, encontraram dificuldades em serem implementadas completamente. Essas iniciativas eram focadas em uma abordagem educacional com metas principalmente quantitativas, que não correspondiam à nova abordagem na educação para adultos que emergiu com o surgimento dos movimentos de educação das classes populares. Os movimentos citados emergiram durante as décadas de 1950 e 1960, caracterizando-se por iniciativas voltadas para as camadas populares, influenciadas e moldadas pelas concepções de Paulo Freire. Esses movimentos englobaram diversos segmentos da sociedade, incluindo estudantes, artistas, intelectuais e membros da Igreja Católica. Eles se uniram e contribuíram de diferentes formas, como através da música, do teatro, do rádio, entre outros meios, para alterar o cenário educacional vigente na época. “Mais de 50% da população brasileira era excluída da vida política por ser analfabeta” (GALVÃO; SOARES, 2006, p.44). Citemos algumas dessas mobilizações, a saber: o MEB (Movimento de Educação de Base); o MCP (Movimento de Cultura Popular); os CPCs (Centros Populares de Cultura); a CEPLAR (Campanha de Educação Popular); e a Campanha “De Pé No Chão Também Se Aprende A Ler”, entre outras. Através dos movimentos educacionais populares, começaram a surgir reflexões e ações que buscavam uma transformação na concepção de alfabetização. Anteriormente, a alfabetização era frequentemente reduzida à simples soletração da leitura e à mera cópia na escrita. No entanto, a partir dessas mobilizações, a perspectiva sobre a alfabetização começou a evoluir, focando em métodos mais significativos e abrangentes, que consideravam a compreensão e o uso efetivo da leitura e escrita. Através dessas mobilizações, passou-se a considerar um conjunto abrangente de habilidades a serem desenvolvidas durante o processo de alfabetização, com uma ênfase na compreensão do contexto dos alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Isso significava que o ensino se voltava para a leitura do mundo dos educandos, buscando criar um aprendizado com significado para eles. Como expresso por (GADOTTI,2005, p.32), “aprender e ensinar com sentido é aprender e ensinar com um sonho na mente. A pedagogia serve de guia para realizar esse sonho”. Ou seja, a pedagogia passou a ser um instrumento orientador para a concretização desse sonho de aprendizado com significado e relevância. Em um período subsequente, ocorreu o golpe militar de 1964, que resultou na interrupção e desmobilização de muitas campanhas e movimentos. Durante esse período, os instrumentos utilizados nesses esforços foram destruídos, assim como os registros e anotações relacionados a eles. Além disso, os idealizadores e participantes desses movimentos educacionais foram presos, pois eram vistos como elementos subversivos, capazes de perturbar a ordem estabelecida. Esses indivíduos foram considerados uma ameaça pelo regime vigente, o que levou a muitos deles serem submetidos a tortura, exílio ou até mesmo à morte. As autoridades consideravam que esses esforços educacionais representavam uma ameaça potencial caso fossem permitidos a prosseguir com suas atividades educativas. Quando os militares tomaram o controle do governo nos anos iniciais, não demonstraram grande interesse em dar continuidade ao trabalho iniciado por figuras como Freire e outros educadores. Esse trabalho era sobre ensinar adultos que não sabiam ler e escrever, algo muito importante. Naquela época, eles achavam que os adultos que não sabiam ler e escrever só precisavam aprender a assinar o próprio nome. Isso fez com que muitas pessoas se tornassem analfabetas funcionais, ou seja, não conseguiam fazer coisas básicas que envolviam a leitura e a escrita. No entanto, depois de um tempo, eles perceberam ser urgentes resolver o problema do analfabetismo, ou pelo menos diminuir a quantidade de pessoas que não sabiam ler e escrever. Foi nesse momento que eles lançaram a Cruzada ABC, também conhecida como Cruzada de Ação Básica Cristã. Essa iniciativa tinha como objetivo auxiliar as pessoas a aprender a ler e escrever, mas seguia uma abordagem mais tradicional e conservadora. Infelizmente, essa abordagem não conseguia atender às necessidades das pessoas naquele momento, pois não acompanhava as mudanças e demandas da sociedade. Com essa iniciativa, foi criado o MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização). Essa campanha também tinha um caráter de urgência, assim como as anteriores, pois tinha o objetivo de reduzir rapidamente os níveis de analfabetismo. O MOBRAL planejava eliminar o analfabetismo em um prazo de 10 anos e ficou ativo no Brasil por 15 anos. No entanto, suas mudanças na educação de jovens e adultos eram mais superficiais. Embora o MOBRAL usasse o método de alfabetização de Paulo Freire, havia uma grande diferença. Ele não incluía o mesmo conteúdo político e ideológico que visava empoderar as pessoas, mostrar a realidade a elas e motivá-las para a aprendizagem. O método adotado pelo MOBRAL estava alinhado com a ideologia predominante e tinha uma abordagem manipuladora. Ele buscava promover a aceitação do governo autoritário que estava no poder na época, ao mesmo tempo, em que enfatizava o aprendizado do alfabeto e da decodificação das palavras. Devido a essa abordagem, o MOBRAL não obteve sucesso como uma campanha de alfabetização para adultos e acabou sendo encerrado. Sua proposta não conseguiu atingir os resultados desejados e não se mostrou eficaz para resolver o problema do analfabetismo de maneira significativa. Com a transformação da situação política em nosso país, ou seja, a saída do governo ditatorial e o início de um processo de redemocratização, é natural surgirem novas iniciativas não apenas na área da educação, mas também em outros setores da sociedade. Nesse contexto, surgiu a Fundação Educar, uma instituição ligada ao Ministério da Educação, que tinha a responsabilidade de supervisionar e inspecionar as atividades e projetos desenvolvidos nas secretarias e outras entidades educacionais. Essa supervisão visava garantir que os recursos financeiros fornecidos pelo Governo fossem utilizados adequadamente. Quando a nova Constituição Federal de 1988 foi estabelecida, ela garantiu o direito à educação formal para todos os que haviam sido excluídos do processo de aprendizagem. Isso incentivou diversos espaços fora do ambiente escolar a desenvolver experiênciasde formação e instrução. Entre esses espaços, destacam- se as ONGs (Organizações Não-Governamentais), os movimentos sociais e as universidades. Durante esse período, um movimento que se destacou foi o MOVA (Movimento de Alfabetização). O MOVA tinha uma abordagem especial porque envolvia tanto o poder público quanto a sociedade civil no processo de educar pessoas que ainda não sabiam ler e escrever. Esse movimento se baseava na educação popular como a base de suas práticas. Isso significava que ele focava em métodos educativos que eram acessíveis, relevantes e construídos em conjunto com a comunidade, para melhor atender às necessidades das pessoas não alfabetizadas. Após passar vários anos sem uma política pública clara para alfabetizar jovens e adultos, o Governo Federal finalmente introduziu o PAS (Programa de Alfabetização Solidária). Este programa não dependia apenas do suporte do governo, mas também contava com a colaboração de empresas, governos municipais e universidades. É importante notar que o PAS foi lançado em um contexto político marcado pelo neoliberalismo, que valoriza a participação do setor privado na tomada de decisões e ações governamentais. Nesse cenário, o PAS representou uma abordagem onde a colaboração entre diferentes setores da sociedade, incluindo o governo e empresas privadas, foi enfatizada para enfrentar o desafio da alfabetização. O envolvimento das empresas, administrações municipais e universidades ressaltou a busca por uma solução mais ampla e colaborativa para o problema da baixa alfabetização entre jovens e adultos. O programa recebeu inúmeras críticas por parte dos educadores e pesquisadores da área, pois apresentava um formato que reforçava a imagem pejorativa que se atribuía ao indivíduo não alfabetizado, de sujeito incapaz, sem cultura, vazio, passivo, etc. Além da redução no treinamento dos educadores de alfabetização e no processo de formação dos aprendizes, que ocorreu em um período de cinco meses, houve também a desorganização das configurações das salas de aula. Apesar dos esforços do Governo Federal, como a implantação do Bolsa Família para incentivar a frequência escolar das crianças, a educação no Brasil ainda apresentava resultados insatisfatórios em termos de habilidades de leitura e matemática. Mesmo com esse incentivo, a qualidade do ensino permanecia baixa. Nesse contexto, em 2003, o Ministério da Educação (MEC) criou o Programa Brasil Alfabetizado. O objetivo desse programa era promover o acesso à educação como um direito para todas as pessoas, independentemente da idade, em qualquer fase da vida. Nos anos seguintes, foram implementadas diversas outras iniciativas de política nacional destinadas a jovens e adultos que em algum momento de suas vidas foram privados de oportunidades educacionais. O propósito dessas ações era promover a inclusão social desse público, focando na construção da cidadania. Alguns exemplos dessas intervenções incluem o Programa Nacional de Inclusão de Jovens (PROJOVEM), o PROJOVEM URBANO, o PROJOVEM CAMPO e o Programa Nacional de Educação do Campo (PRONACAMPO). Esses programas foram criados para proporcionar uma chance às pessoas, que foram excluídas do sistema educacional regular, seja porque não frequentaram a escola no período normal ou porque não conseguiram completar a educação básica. Eles tinham como objetivo oferecer oportunidades de educação e capacitação a esses indivíduos, visando não apenas preencher lacunas educacionais, mas também melhorar suas perspectivas de participação social e cidadania. Mesmo que verifiquemos inúmeros diferentes programas, discussões e debates para alfabetizar e instruir os adultos não-alfabetizados, devemos nos perguntar se essas iniciativas atendem a toda diversidade de educandos existentes: os indígenas, as pessoas migrantes, as originadas do campo, etc. Aqui está o desafio substancial! É devido a todos esses aspectos que a Educação de Jovens e Adultos (EJA) surge para promover a concretização de uma aprendizagem contínua, que se estenda ao longo de toda a vida. Portanto, esse breve ensaio sobre a educação brasileira nos permite observar como ela passou por uma série de métodos, práticas pedagógicas, campanhas e movimentos educacionais ao longo do tempo. Essas diversas maneiras de instruir e ensinar foram moldadas por interesses políticos, econômicos e ideológicos. Devido a esses interesses, frequentemente associados à elite dominante, a educação no Brasil por muito tempo careceu de propostas pedagógicas e políticas verdadeiramente comprometidas com a escolarização de todos os cidadãos, especialmente os jovens e adultos que eram analfabetos. É notável a dívida histórica que carregamos com as pessoas não alfabetizadas. Isso ocorreu na maioria devido a omissões, falta de preparo, desconexão com a realidade social desses indivíduos e, por vezes, preconceitos. Essa situação muitas vezes levou à desistência, à evasão escolar e à exclusão desses indivíduos do sistema educacional. Essas dificuldades históricas destacam a necessidade de um compromisso contínuo e abrangente para garantir a educação para todos, independentemente da idade ou das circunstâncias. 2 PROPOSTA CURRICULAR DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS A Educação de Jovens e Adultos (EJA), enquanto uma vertente educacional da educação básica, necessita de um currículo estruturado com base nas diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), conforme reiterado pelas Diretrizes Operacionais para a Educação de Jovens e Adultos (BRASIL, 2021). Ainda que não haja orientações na BNCC para um atendimento específico da EJA, esse público tem especificidades que precisam ser consideradas (BRASIL, 2017). Essas particularidades estão abordadas no Plano Nacional de Alfabetização (PNA): Ao jovem e ao adulto que não sabem ler e escrever busca-se não apenas proporcionar autonomia para ler e escrever o próprio nome e algumas palavras relacionadas ao seu cotidiano, mas, além disso, apresentar a leitura e a escrita como meios de desenvolvimento pessoal e profissional, de acesso à literatura e de outras possibilidades, conforme as motivações e aspirações de cada pessoa (BRASIL, 2019, p. 35). Essa abordagem ampla nos leva a considerar que o currículo na educação básica tem como base os conhecimentos, as competências e as habilidades delineadas na BNCC. No entanto, é essencial que as instituições que oferecem a EJA realizem ajustes adequados para atender aos jovens e adultos que, devido às suas experiências de vida, já possuem competências e habilidades desenvolvidas. Por essa razão, é de grande importância que os educadores tenham um entendimento claro da história de vida de seus alunos e das vivências deles, especialmente no que diz respeito à escrita e à leitura. Essa compreensão possibilitará que os professores readéquem o currículo para favorecer a aprendizagem desses estudantes. Ao alfabetizar uma turma de EJA, é crucial reconhecer que esses indivíduos já possuem uma compreensão da utilidade social da escrita, uma vez que estão inseridos em um ambiente letrado. No entanto, é importante notar que eles podem carecer do capital linguístico formal, conforme definido por Soares (2017), que demarca a distinção entre alfabetização e letramento. O letramento é um conjunto de conhecimentos culturais, sociais e linguísticos adquirido por meio da interação social. Essa compreensão é desenvolvida ao longo do convívio com a sociedade, transmitida de geração em geração. Por outro lado, a alfabetização está relacionada à compreensão das estruturas da escrita e ao funcionamento do sistema de escrita como um todo. Geralmente, o conhecimento de alfabetização é formal e adquirido principalmente na escola. Conforme destacado pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), existem diversos eixos de conhecimento que devem ser aprofundadosno ensino da língua. Isso inclui a oralidade, a análise linguística e semiótica, a leitura, a escuta e a produção de textos. Cada um desses elementos desempenha um papel fundamental na construção das habilidades linguísticas e comunicativas dos estudantes. No âmbito do eixo da oralidade, destacam-se as situações de comunicação e a aproximação com as práticas de utilização da linguagem falada, frequentes no dia a dia, seja em podcasts, programas de rádio ou televisão. A revisão do currículo precisa focalizar a análise das condições que cercam a produção desses discursos falados, os variados tipos de gêneros presentes e o ambiente no qual essas comunicações são disseminadas. O ensino da língua na oralidade deve ser atrelado ao aspecto crítico e reflexivo sobre as intenções do discurso nos diferentes espaços em que estes circulam, pois, como afirma Bakhtin (2003, p. 261), “todos os diversos campos da atividade humana estão ligados ao uso da linguagem”. A linguagem nunca é desprovida de significado, tornando-se essencial direcionar os alunos para a apreensão dos gêneros discursivos sob sua dimensão ideológica. Para tal, é imperativo possuir proficiência tanto na língua quanto na linguagem, além de entender o emprego de expressões específicas e do vocabulário próprio do contexto em que o discurso é gerado. Isso envolve a concepção da palavra como um ato, conforme delineado por Bakhtin (2003), em que cada palavra reflete um pensamento e uma intenção intrínseca. Dentro dessa abordagem, estabelecemos uma ligação entre o ensino e uma postura política, conforme a perspectiva de Paulo Freire, que visa capacitar o aluno a interpretar o mundo e emancipar-se da alienação gerada pelo analfabetismo. No mesmo sentido, no eixo da leitura, enfatizamos o desenvolvimento de estratégias para compreender diferentes tipos de textos, abrangendo a multimodalidade, a modalidade oral e a escrita. Isso capacita os estudantes a autonomamente apreciar textos literários, muitas vezes inacessíveis para os analfabetos, e também a interpretar textos jornalísticos, que fornecem informações sobre o presente momento, um aspecto crucial para a inclusão social. Na análise linguística e semiótica, os alunos são incentivados a se aprofundar na sua própria produção de registros escritos, explorando a estrutura do sistema de escrita, a relação entre grafemas e fonemas, a ortografia fonética, a morfossintaxe, a sintaxe, a semântica, a variação linguística, os elementos de notação, entre outros aspectos. É importante ressaltar que o ensino da língua deve estar sempre voltado para promover a autonomia dos alunos e o desenvolvimento da consciência crítica. A imposição exclusiva da língua na forma culta não é apropriada, pois, como destacado por Gadotti (2021), no contexto da educação formal, há o perigo de perpetuar a hegemonia do poder estabelecido, o que poderia comprometer a capacidade de emancipação dos alunos. Conforme afirmado pelo autor, o analfabetismo é uma manifestação da pobreza. Portanto, um programa de EJA não deve se basear apenas em metodologias rigorosas, mas também considerar como os conhecimentos linguísticos podem influenciar positivamente a qualidade de vida dos estudantes. Afinal, “a educação de adultos está condicionada às possibilidades de uma transformação real das condições de vida do aluno-trabalhador” (GADOTTI, 2021, documento on-line). É fundamental destacar que a BNCC estrutura a construção do currículo tendo em vista a abrangência do ensino fundamental como um todo. Nesse sentido, os anos iniciais e finais são concebidos como um percurso contínuo e interligado (conforme representado no Quadro 1). Quadro 1 - Organização da BNCC para o ensino fundamental Anos iniciais Anos finais Campo da vida cotidiana Campo artístico - literário Campo artístico - literário Campo das práticas de estudo e pesquisa Campo das práticas de estudo e pesquisa Campo da vida pública Campo jornalístico-midiático Campo de atuação na vida pública Fonte: BNCC (2017). Acima de tudo, a escola deve assegurar o letramento por meio do processo de alfabetização. Como descreve Soares (2012, p. 12), “não basta apenas saber ler e escrever, é preciso também saber fazer uso do ler e do escrever e saber responder às exigências de leitura e de escrita que a sociedade faz continuamente”. As Diretrizes Operacionais para a Educação de Jovens e Adultos enfatizam, em seu artigo 13, que, independentemente de os estudantes da EJA estarem no ensino fundamental ou no ensino médio, o currículo deve garantir os direitos e objetivos de aprendizagem, com destaque para as competências de língua portuguesa, matemática e inclusão digital (BRASIL, 2021). Este último porque as diretrizes também preveem o ensino à distância para os estudantes da EJA a partir dos anos finais do ensino fundamental, então é muito importante organizar um currículo que dialogue com as tecnologias. Tanto o discurso oral quanto o escrito precisam ser ressignificados no processo de alfabetização, pois a língua precisa ser conhecida na vida desses estudantes de forma viva (BRASIL, 2021). Neste tópico, ficou evidente que é crucial redirecionar os currículos educacionais a fim de abordar as particularidades do público da EJA, que difere em suas demandas daquelas das crianças em processo de educação. No próximo tópico, exploraremos os atributos do público da EJA, reconhecendo o seu papel central no processo de aprendizagem. 2.1 Perfil do aluno da Educação de Jovens e Adultos Na Educação de Jovens e Adultos (EJA), os atores centrais são o estudante e o educador. Neste segmento, exploraremos as particularidades do aluno nesse contexto educacional, reconhecendo os traços que o definem como o agente principal em sua própria jornada de aprendizado. Segundo o artigo 37 da LDB, a EJA é destinada àqueles que não tiveram acesso ou continuidade dos estudos em idade própria e, por isso, será responsabilidade do Estado garantir as condições para sua educação escolar. Para concluir o ensino fundamental, os alunos devem ter completado 15 anos; para o ensino médio, devem ter completado 18 anos. Conforme apontado por Moraes, Araújo e Negreiros (2020), as políticas públicas destinadas à Educação de Jovens e Adultos (EJA) são frequentemente consideradas de menor prioridade em relação a outras estratégias educacionais. Inicialmente concebida como uma medida compensatória, a EJA foi concebida para atender um grupo de adultos por um período determinado e então ser eventualmente descontinuada. No entanto, a EJA expandiu seu escopo para incluir dois novos segmentos demográficos, idosos e jovens, o que trouxe à tona a característica de rejuvenescimento da modalidade e levou a uma alteração na identidade original do público alvo. Serra e Furtado (2016) ressaltam que os idosos têm começado a exercer o seu direito à educação como um meio de se envolverem ativamente na vida, considerando que muitos deles foram privados do acesso à escola por variadas razões, como compromissos de trabalho, responsabilidades familiares, resistência por parte de esposos e a falta de escolas próximas de suas residências. No entanto, a disposição deles para aprender não diminuiu, e eles continuaram a nutrir a esperança de transformar suas vidas, acreditando que adquirir habilidades de leitura e escrita proporciona maior autonomia e independência, inclusive ao acompanharem os estudos de seus filhos e netos. Conforme indicado por Souza Filho, Cassol e Amorim (2021), o fenômeno da juvenilização tem se ampliado devido a uma série de fatores, com destaque para a própria fase da adolescência e a problemática da indisciplina, que muitas vezes resulta na rotulação de adolescentes como alunos difíceis. Além disso, os jovens frequentemente enfrentam dificuldades persistentes na aprendizagem e a busca por oportunidadesde emprego, o que acaba por afastá-los da escola. O principal desafio da juvenilização é a exclusão do ambiente escolar e, consequentemente, a perda de interação social e cultural. O perfil dos estudantes da EJA tem se tornado cada vez mais heterogêneo, especialmente no que diz respeito a interesses e conhecimentos já adquiridos. Os adultos frequentam para o aprimoramento visando a manutenção no emprego ou mesmo a progressão profissional. Por outro lado, os idosos muitas vezes buscam resgatar oportunidades, que foram negadas a eles anteriormente, em busca de autonomia e independência. Os jovens, por sua vez, procuram apoio e a oportunidade de reintegração social, especialmente quando se sentiram excluídos na escola convencional. Além desses grupos, entre os estudantes da EJA estão também os detentos, que podem reduzir suas penas por meio do estudo. Esses indivíduos podem ou não participar das aulas nas instituições prisionais. Conforme observado, os alunos da EJA já trilharam percursos de vida diversos, resultando em uma variedade de experiências, inclusive em relação à escrita. Atualmente, com a interconexão global, muitas regiões afastadas dos centros urbanos estão interligadas por meios de comunicação que fazem uso tanto da linguagem oral quanto escrita. A estruturação do discurso requer que os indivíduos acessem sua compreensão interna da gramática, sendo frequentemente adquirida de maneira informal, mas que pode ser aprimorada com o passar do tempo. Além disso, as pessoas adquirem um vocabulário específico relacionado ao seu ambiente de trabalho e às suas vivências sociais. Isso demonstra que a linguagem é um reflexo das experiências individuais e do contexto no qual cada pessoa está inserida. O discurso oral é descrito como um campo de expressão individual no qual os alunos têm a oportunidade de interpretar com base em suas próprias experiências. Isso ocorre porque o conhecimento prévio possui uma natureza que pode ser “acumulativa, expansível e sujeita a mudanças”, influenciando diretamente o conhecimento linguístico. Dessa forma, compreendemos que existe uma fundação de conhecimento subjacente à língua. Uma característica preponderante entre os jovens e adultos é a sua condição de trabalhadores, o que se configura como um dos principais incentivos para o retorno à escola. Esse retorno visa aprimorar suas qualificações profissionais e aprimorar suas condições de vida (MORAES; ARAÚJO; NEGREIROS, 2020). Independentemente de sua origem em áreas urbanas ou rurais, esses estudantes estão imersos em relações comerciais, uma vez que atuam como consumidores e, em diversas ocasiões, como produtores de bens e/ou serviços. Isso destaca suas interações com objetos e elementos provenientes do universo letrado. No entanto, é importante ressaltar que muitos desses indivíduos ainda são categorizados como semianalfabetos ou analfabetos funcionais. Os estudantes da EJA, conforme Arroyo (2013, p. 274), se encontram fora do lugar na escola regular, por isso é preciso inventar “outros lugares, outros tempos inclusivos educativos: extraturnos, extratempos, extrapercursos, extradisciplinas, extraordenamentos curriculares, extra-avaliações”. Afinal, mais que trabalhadores anônimos, excluídos e defasados na escolarização, os alunos da EJA são sujeitos de direitos: [...] constituídos por e nas relações sociais, na vida em sociedade, pela intermediação da cultura, dos valores e crenças que dotam essas relações de significados e sentidos. Inserem-se em um contexto histórico, político e econômico e nele ensaiam suas trajetórias de vida. Ao mesmo tempo, realizam um movimento próprio para interpretar esse mundo e traduzi-lo a si mesmo, percebendo-se como parte constituinte de um ou de vários grupos (SANTOS; SILVA, 2020, p. 3). Os estudantes devem ser reconhecidos como indivíduos que possuem conhecimentos acerca do mundo em que vivem. Eles participam de interações sociais e comerciais, adotam valores e atribuem significados diversos, o que lhes confere autonomia na compreensão do seu lugar no mundo. Portanto, sob essa perspectiva, é essencial que esses alunos sejam ativamente incluídos nos processos educacionais, especialmente no que diz respeito às práticas de alfabetização e letramento. Compete a eles estabelecer conexões entre suas experiências do dia a dia e os conhecimentos formais apresentados pela escola. Em outras palavras, é crucial que os estudantes assumam um papel protagonista na escola. O domínio da língua portuguesa e da linguagem escrita não apenas influencia as interações desses alunos com o mundo, mas também molda a maneira como organizam seu pensamento. A língua vai além de ser apenas um código; ela é um terreno de ideologias e poder. Consequentemente, compreender sua estrutura e os elementos que a constituem pode estimular a inclusão e expandir a perspectiva de mundo desses indivíduos. De acordo com Paulo Freire (2010), os estudantes da EJA necessitam participar ativamente na construção do processo de aprendizagem. Eles devem adquirir consciência das verdades veladas pelas ideologias que permeiam a realidade. Dentre essas ideologias, encontra-se até mesmo a concepção de escola em si, já que é inviável integrar os alunos da EJA em estruturas que excluem, possuindo calendários, rituais e conteúdos voltados para a educação regular. Nessa perspectiva, o empoderamento desses estudantes não surge naturalmente e, quando ocorre, pode ser perturbador para a ordem preexistente. O protagonismo desses alunos emerge a partir de sua presença, do direito à expressão, da escuta atenta, do pensamento conjunto e da oportunidade de transformação que buscam na escola. A escola assume um significado fundamentalmente diferente para os alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) em comparação com as crianças. Os estudantes da EJA não frequentam a escola por obrigação ou para dominar diversos conteúdos, mas sim para alcançar dignidade e autonomia em um mundo letrado. Eles buscam atender às demandas de inclusão, as quais frequentemente requerem conhecimentos, sendo adquiridas apenas por meio da educação formal. Nesse contexto, o papel social da escola na EJA é claramente definido pela promoção da inclusão social e da formação humana. Essa instituição atua como um meio de empoderamento, trazendo a habilidade de leitura e escrita para as pessoas que vivem em uma sociedade baseada na escrita. Ao assumirem o protagonismo em sua jornada educacional, os alunos da EJA têm a oportunidade de recriar a história de sua trajetória escolar de acordo com suas aspirações. Neste módulo, exploramos o perfil dos alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA), suas aspirações e o papel central que desempenham no processo educacional. 3 PERFIL DO PROFESSOR DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS Atuar na docência exige do profissional conhecimento técnico e, principalmente, conhecimento humano. Portanto, é fundamental que todas as abordagens técnicas se submetam à causa da evolução humana, e não o contrário. Os educadores envolvidos na Educação de Jovens e Adultos (EJA) devem possuir domínio das técnicas e tecnologias inerentes à sua profissão, como a didática, além dos conteúdos que serão ministrados. Além disso, é necessário que eles estruturem esses elementos de forma que seus alunos encontrem o que estão almejando: dignidade, progresso em suas carreiras, um ambiente acolhedor, inclusão, redefinição de suas perspectivas de mundo e capacitação, proporcionada pelo conhecimento, para aqueles que o possuem na sociedade contemporânea. Para Charlot (2013, p. 114), “ensinar é, ao mesmo tempo, mobilizar a atividade dos alunos para que construam saberes e transmitir-lhes um patrimônio de saberes sistematizados legado pelas gerações anteriores de seres humanos”. Em essência, a proposta é uma jornada intelectual. Consequentemente,será necessário questionar as convicções e estimular as discrepâncias, uma abordagem que nos guia como seres que refletem e pensam. Como já observado, na EJA, o professor necessita lidar com uma considerável heterogeneidade. Na perspectiva de Charlot (2013, p. 162), isso permite combater a ideia de carência dos alunos dos meios populares, pois “eles não têm carências; têm, sim, outra forma de se relacionar com o mundo, outro tipo de vínculo com o mundo, outra forma de entrar em um processo de aprender”. Portanto, não se trata de um ambiente carente, mas de um ambiente riquíssimo de saberes e experiências que podem promover o desenvolvimento reflexivo por meio das relações dialógicas e dialéticas conduzidas pelo professor. Afinal, “na medida em que, enquanto falamos, somos leitor um do outro, leitores de nossas próprias falas, o que ocorre aqui é que cada um de nós é estimulado a pensar e repensar o pensamento do outro” (FREIRE; SHOR, 1986, p. 3). O professor precisa olhar para seus alunos, não para suas carências, pois elas não os caracterizam. O que caracteriza uma pessoa, segundo Charlot (2013, p. 162), “é sua forma de se relacionar com o mundo, com os outros, consigo mesma e, portanto, com o saber e, de forma mais geral, com o aprender”. Nesse cenário, a principal incumbência do professor é familiarizar-se com seus alunos, compreendendo suas trajetórias de vida, conhecimentos prévios, aspirações e interpretações individuais do mundo. Freire (1989, p. 13) ressalta que “a leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra, e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele”. Dessa forma, os estudantes tornam-se os protagonistas de suas próprias vidas. As abordagens educacionais devem buscar romper com o paradigma predominante de simples transmissão de informações. Afinal, embora a educação não seja neutra em si, não é necessário reproduzir a ideologia dominante, que está ligada a um conhecimento mecânico. Segundo Freire (1989, p. 16), educadores críticos “sabem que não é o discurso que ajuíza a prática, mas a prática que ajuíza o discurso”. Portanto, é preciso mudar a ação educativa. Esse movimento requer dos educadores uma prática de escuta ativa, que compreenda a perspectiva do outro, não a sua própria. É crucial estabelecer uma relação democrática de diálogo, na qual o aluno tenha o direito de expressar sua opinião, e é responsabilidade do professor ouvi-la. Da mesma forma, o professor tem o direito de se comunicar com os alunos, interagir com eles e não apenas falar para eles. Essa interação dialógica desempenha um papel fundamental como um gesto de acolhimento para esses alunos, especialmente porque muitas vezes chegam à escola sem a certeza de serem bem recebidos. A estruturação e elaboração do ensino, assim como a implementação do currículo, demandarão dos professores da EJA uma abordagem colaborativa. É fundamental criar espaço para que esses alunos assumam o papel de protagonistas, justificando a possibilidade de os professores compartilharem seus planos de curso. Ao permitir isso, os alunos podem oferecer contribuições valiosas que auxiliam os docentes a criar desafios relevantes, promovendo assim a motivação e a participação ativa nas atividades. Segundo Charlot (2013, p. 178), “o essencial é que o aluno se aproprie de conhecimentos que façam sentido para ele e, ao responderem a questões ou resolverem problemas, esclareçam o mundo”. Nesse processo de autodesenvolvimento, discente e docente estão envolvidos em uma atividade interligada e inseparável. Caso o professor não proporcione as condições adequadas, o aluno pode não conseguir construir novos conhecimentos. A essência reside no entendimento que o professor possui sobre seus alunos. Esse entendimento é resultado de uma avaliação diagnóstica eficaz, que deve direcionar as primeiras sessões de ensino, bem como de discussões em grupo ou de atividades que conectem o dia a dia com o conhecimento formal. Dessa maneira, o docente adquire uma compreensão do que os discentes já sabem, de suas vivências anteriores e de suas expectativas. Com base nisso, o professor estrutura as abordagens metodológicas em suas aulas. Na Figura 1, é apresentada uma ilustração do processo metodológico da aula, que envolve a estruturação do ensino com base no nível de independência dos alunos em relação ao conteúdo que será tratado. Quando o conteúdo for mais familiar aos estudantes, o professor tem a opção de introduzir desafios, seja em atividades de grupo ou individuais. Por outro lado, quando o tema for mais desconhecido ou as dificuldades forem maiores, ele pode optar por conduzir a introdução das atividades de maneira conjunta, permitindo que todos os alunos se apoiem mutuamente. Durante esse momento de colaboração, o docente pode explorar os conhecimentos prévios dos alunos, facilitando a troca de diversos saberes na sala de aula. Uma ideia pode dar origem a outra, enriquecendo o conjunto de conhecimentos de toda a turma. À medida que os alunos adquirirem maior familiaridade com o conteúdo, o professor pode introduzir atividades em grupos reduzidos e, posteriormente, atividades individuais. Essa abordagem metodológica promove o desenvolvimento do processo de aprendizado e compartilhamento, possibilitando que os discentes gradualmente construam autonomia e aumentem sua confiança na participação ativa. Figura 1 - Movimento metodológico Fonte:curtlink.com/TKb0tXx Os alunos da EJA devem ser proporcionados com a oportunidade de demonstrar seus conhecimentos e reconhecerem-se como agentes históricos, com experiências sociais que lhes conferiram esses saberes. É incumbência do professor estabelecer situações de aprendizado enriquecedoras, que permitam aos alunos assumirem um papel central em seu próprio desenvolvimento educacional. Ensinar na EJA demanda do professor uma abordagem distinta, onde seu papel vai além da simples transmissão de conhecimento. Na EJA, o docente assume a responsabilidade de promover inclusão, dignidade e protagonismo entre os discentes. 3.1 Proposta metodológica: adaptação à diversidade encontrada em sala de aula As percepções sociais sobre jovens e adultos não alfabetizados no Brasil frequentemente assumem uma abordagem negativa, refletindo por vezes preconceitos que permeiam as crenças comuns. Diante da realidade de uma sociedade amplamente alfabetizada nos dias atuais, surge a necessidade de integrar aqueles que não possuem habilidades de leitura e escrita no âmbito da cultura escrita e nos contextos de comunicação. Isso demanda o desenvolvimento de abordagens eficazes para implementar ações que verdadeiramente promovam essa inclusão, respondendo a interesses políticos, sociais e educacionais. A importância de unir forças tanto no âmbito político quanto acadêmico para persistir na batalha pela redução do insucesso escolar é o motivo subjacente aos estudos dedicados à alfabetização e ao letramento. Esses estudos colaboram para assegurar que todos os alunos, independentemente de serem jovens ou adultos, tenham a oportunidade de exercer seu direito à aprendizagem e à aplicação da linguagem em variados contextos. Essa abordagem também desempenha um papel crucial na luta contra as disparidades sociais. A concepção simplificadora do processo de educação de adultos tende a ver o alfabetizando como alguém que não se desenvolveu culturalmente. Por isso, nesse contexto, a prática pedagógica é orientada apenas para a lógica do ensino, utilizando, muitas vezes, os mesmos procedimentos didáticos inadequados empregados também para ensinar as crianças. Essa forma de ver a questão parece menosprezar o conhecimento do sujeito analfabeto, porque percebe a alfabetização de adultos como uma “[...] retomada de crescimento mental de um ser humano que estacionou na fase infantil” (PINTO, 1994). Essaabordagem não leva em consideração o conhecimento prévio do indivíduo em processo de alfabetização, os conhecimentos adquiridos ao longo de sua trajetória pessoal, e negligencia o fato de que o desenvolvimento e a aprendizagem ocorrem por meio de interações sociais, que não se interrompem simplesmente pelo fato de o indivíduo ser analfabeto. A Educação de Jovens e Adultos é caracterizada pela inclusão dos alunos, pela adaptabilidade, pelo foco no processo, considerando as particularidades de cada educando, sem estar rigidamente centrada no conteúdo. As abordagens metodológicas e a organização curricular são moldadas para serem mais flexíveis. A participação ativa dos alunos é essencial em várias etapas do processo de ensino- aprendizagem, incluindo a identificação das necessidades educacionais, a criação de planos e definição de objetivos com base em diagnósticos e avaliações apropriadas. Diante da vasta diversidade cultural e social, bem como das diferentes características individuais dos alunos e da complexidade das diversas situações cotidianas na sala de aula, a prática de ensino encontra-se em um estado de constante evolução. Isso demanda a aplicação de uma variedade de conhecimentos para tomar decisões e agir de maneira mais informada, produtiva e cativante no processo de planejamento educacional e na sua efetiva implementação. No contexto escolar, é comum deparar-se com situações imprevistas, desafios, obstáculos e até surpresas. Para enfrentar essa dinâmica, é essencial possuir uma preparação adequada que permita abordar criativamente o desenvolvimento dos conteúdos. Quando algum aspecto do planejamento não se realiza conforme esperado, é natural sentir decepção e frustração. No entanto, é crucial não se desanimar. O que importa é analisar os contratempos, identificar os erros e compreender por que o planejado não se concretizou conforme o previsto. Uma educação genuinamente focada no fortalecimento da cidadania deve estabelecer um ambiente propício para cultivar a habilidade de utilizar a linguagem de maneira eficaz, atendendo às necessidades individuais. Essas necessidades podem envolver ações práticas do dia a dia, a comunicação de informações e a capacidade de reflexão crítica. Desse modo, a escola tem como responsabilidade promover o acesso dos estudantes ao universo dos textos que circulam socialmente, ensinando-os a interpretá-los e a produzi-los. No contato com textos de diversas naturezas e que tragam informações sobre diferentes áreas do conhecimento, os alunos devem ser levados a compreender um conceito, descrever um problema, identificar uma nova informação, comparar pontos de vista e argumentar a favor ou contra determinada teoria, ou hipótese (BRASIL, 1997). É crucial que o professor tenha um entendimento prévio dos alunos para garantir a eficácia dos processos de ensino e aprendizagem. No que diz respeito aos jovens e adultos em processo de alfabetização, além do diagnóstico, é fundamental abordar questões como: Quem são esses aprendizes? Como é a realidade de suas vidas, quais são seus pensamentos, suas atividades diárias? Qual é o motivo por trás de sua decisão de retornar ou iniciar seus estudos? (SCHWARTZ, 2012). É de extrema importância abandonar a percepção de que os analfabetos são desprovidos de conhecimento, inocentes ou incapazes. Em vez disso, devemos reconhecê-los como indivíduos inteligentes, que desenvolveram táticas de adaptação em um ambiente orientado pela cultura escrita, mesmo sem terem sido completamente capacitados para isso. Eles conseguem solucionar problemas, viver, trabalhar e amar, demonstrando resiliência e competência. Na vivência dos alunos da EJA, a aquisição das habilidades de leitura e escrita costumava ser conectada a um processo enfadonho, uma vez que as aulas eram percebidas como monótonas. É de suma importância fomentar a convicção entre os estudantes de que ocorreram avanços no entendimento de como facilitar o processo de ensino e aprendizado, o que resultou na adoção de uma abordagem mais diversificada nas aulas. Esse enfoque tem a capacidade de estimular o interesse, ampliar a motivação e induzir a uma participação mais ativa e entusiástica por parte dos alunos. Ao reconhecerem que as aulas agora são mais adaptadas às suas necessidades e mais eficazes, os alunos tendem a se engajar mais ativamente no processo de aprendizado. O ser humano é influenciado pelo princípio do prazer, e essa motivação deve ser incorporada no processo de aprendizado da leitura e escrita. A educação de jovens e adultos deve ser direcionada a cultivar na mente do aluno a conscientização sobre a relevância da alfabetização e da busca pelo conhecimento. Esse desejo será estimulado por meio de uma compreensão crítica da própria realidade e da sociedade na qual ele está inserido. Os alunos adultos frequentemente regressam à escola em busca de conhecimento que não conseguiram adquirir em fases anteriores da vida. Nesse contexto, o docente deve compreender os discentes e suas aspirações, descobrindo seus objetivos e como a aprendizagem será aplicada, visando alcançar os alvos propostos. A partir dessa compreensão, é responsabilidade do educador ajustar suas estratégias, criando espaços para que os alunos possam manifestar suas opiniões, oferecer contribuições, apresentar sugestões e compartilhar detalhes sobre suas expectativas e preocupações. Essa metodologia contribui para diminuir a ansiedade em relação ao desconhecido, o que, por sua vez, possibilita que os estudantes experimentem maior conforto e confiança no processo. A prática do professor deve ser caracterizada por um alto nível de competência técnica, a fim de possibilitar o progresso das habilidades linguísticas de leitura, escrita, fala e audição dos alunos. Estabelecer um acordo de confiança entre o educador e os alunos é essencial para alcançar integralmente os objetivos delineados pela EJA. O conhecimento, em suas dimensões contemporâneas, requer uma interação mais profunda entre a escola e o ambiente social circundante. Isso envolve um processo contínuo de aprendizado e reaprendizado ao longo de todas as fases da vida e a reestruturação da educação para se adequar a essa nova realidade. Segundo Raiça (2008), o papel do professor é atuar como mediador em uma complexa rede de relações da vida, dentro desse mundo em constante mudança e diante das inúmeras ferramentas tecnológicas, enquanto mantém sua essência fundamental: a paixão pelo ato de educar. A educação não pode mais ser percebida como um domínio isolado; é necessário reconhecê-la em sua relação intrínseca com outros campos do conhecimento. Isso envolve estabelecer conexões, integrar conceitos no contexto, assimilar o que é proveniente de fontes externas, adquirir saberes, revelar significados ocultos, ir além das aparências e das superfícies, transcender o que é previsível e externo, explorar a profundidade das descobertas e aprofundar nossa compreensão sobre a realidade, tanto exterior quanto interior. 4 AÇÕES METODOLÓGICAS A PARTIR DE UMA PROPOSTA INTERDISCIPLINAR E INTERCULTURAL PARA A EJA O planejamento educacional constitui um processo em constante evolução, orientado por um objetivo a ser alcançado, e engloba as estratégias para sua realização. Esse processo tem como ponto de partida a avaliação da situação educacional presente e tem em vista alcançar uma situação futura plausível para a educação, com o intuito de satisfazer as necessidades tanto do indivíduo quanto da sociedade (MARTINS,1999). Dentro desse enfoque, a educação representa um desafio contínuo para a sociedade, demandando esforços constantes. Enfrentar o problema do insucesso escolar exige a adoção de abordagens pedagógicas inovadoras e métodos de ensino atualizados. Além disso, a capacitação aprofundada dos educadores e a estreita colaboraçãoentre a escola e a família emergem como elementos essenciais no empreendimento de cultivar habilidades para a vida por meio da educação. Com base nessas considerações, torna-se crucial reavaliar o currículo escolar, uma vez que a instituição educacional desempenha um papel fundamental na capacidade de moldar os indivíduos como agentes ativos na construção de suas trajetórias pessoais. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) normatizam a organização pedagógica da escola em torno de três princípios orientadores, a qual são a contextualização, a interdisciplinaridade e as competências e habilidades. A interdisciplinaridade encontra uma conexão intrínseca com o conceito de contextualização sócio-histórica, atuando como um princípio unificador no desenvolvimento do currículo. Juntamente com a interdisciplinaridade, a transversalidade estrutural atua de maneira complementar, inserindo a educação no contexto social e histórico. Isso ocorre porque ambas propõem uma integração que vai além das fronteiras cognitivas das disciplinas escolares, sem, no entanto, cair no relativismo epistemológico. Pelo contrário, essas abordagens fortalecem as disciplinas ao se basearem em abordagens conceituais consistentes e nos contextos sócio- históricos, criando as condições necessárias para a existência e formação dos objetos de conhecimento nas diversas disciplinas. Interdisciplinaridade é uma nova atitude diante da questão do conhecimento, de abertura à compreensão de aspectos ocultos do ato de aprender e dos aparentemente expressos, colocando-os em questão (FAZENDA, 2001, p.11). Isso significa olhar para o cotidiano escolar problematizando as supostas obviedades. A sede da busca encontra abrigo na escola, especialmente na sala de aula, onde as interações se difundem. Nesse ambiente, surgem indivíduos que dividem e ocupam um espaço comum, mesmo que provenientes de locais distintos, trazendo consigo expectativas e necessidades diversas. Na abordagem interdisciplinar, a sala de aula se configura como um espaço de intermediação entre os indivíduos, onde as barreiras existenciais e intelectuais são entrelaçadas, com a atenção voltada para fomentar um diálogo contínuo e um compartilhamento que transforme esse ambiente em um local habitável. A interdisciplinaridade demanda uma certa organização e um rigor específico, enquanto também reconhece tanto os alunos quanto os professores como agentes portadores e construtores de suas próprias trajetórias históricas. Consequentemente, abordar a interdisciplinaridade envolve lidar tanto com a história no contexto singular quanto no plural, ou seja, com suas diversas narrativas. Elas constituem o ponto de partida e o ponto de chegada para a compreensão e a reconfiguração da realidade, constantemente permeada de significados. Esses significados não podem ser ignorados em prol de abordagens predefinidas para os perfis dos alunos. A teoria da interdisciplinaridade sustenta-se em uma relação de reciprocidade, onde o desvendar de novos saberes é também compartilhado pelo professor por meio da atitude de se desafiar e de se encantar perante o novo. É necessário que o educador aprenda a interagir com o outro e não apenas com os educandos, que desempenhe um papel social na interação e na construção dos saberes interligados e que suas atitudes em relação ao outro sejam estabelecidas e fundadas na busca de sua identidade. As responsabilidades devem ser executadas com satisfação, através da colaboração mútua, em ambientes edificados sobre fundamentos robustos e estruturas duradouras, avançando gradualmente. Nesse processo, é possível reconhecer o educador como um indivíduo singular, juntamente com os alunos, formando um conjunto que se molda com identidade e cooperação, estabelecendo laços, compondo um pequeno universo com energia única. Aceitar a natureza da busca implica em reconhecer tanto a própria identidade quanto a dos outros como agentes ativos na formação da história e do saber. Esse procedimento é caracterizado por uma colaboração recíproca, onde o educador atua como alguém que estimula a formulação de perguntas e dúvidas, resultando assim em uma variedade de abordagens. Trabalhos interdisciplinares nos primeiros ciclos da Escola Fundamental, na EJA, como no ensino para crianças, encontram um espaço muito mais receptivo do que nos ciclos seguintes. É imprescindível abordar esse aspecto considerando sua interligação com a capacitação dos educadores e com a própria estrutura do ambiente educacional. Nos primeiros anos de escolaridade, observa-se uma flexibilidade significativamente maior na distribuição de horários, espaços e pessoal para abordar diversas disciplinas. A abordagem interdisciplinar envolve o planejamento, a disposição para reavaliar posturas, o respeito pelo aluno e a transformação da sala de aula em um ambiente inovador e repleto de descobertas para a aprendizagem. Ela representa o esforço do ensino em promover uma troca de experiências, estimulando um enriquecimento no processo de construção do conhecimento. Conforme afirmado por Fazenda (1994, p. 31), o educador interdisciplinar carrega consigo um interesse particular em explorar e investigar, demonstrando um nível de comprometimento distinto em relação aos seus alunos, e emprega métodos e abordagens contemporâneas de ensino. No caso específico da EJA, na linha da Proposta Curricular para Jovens e Adultos, elaborada pela Ação Educativa sob a chancela do Ministério da Educação, foram produzidos materiais didáticos bastante consistentes para o desenvolvimento de um projeto pedagógico de escolarização de jovens e adultos. Estes materiais foram elaborados a partir de tópicos como a identidade dos estudantes, suas jornadas de vida, relações com o ambiente físico e social, questões relacionadas à saúde, condições de vida, integração com o ambiente, cidadania e participação. Esses aspectos ganham características distintas quando abordados no contexto da EJA. Um deles se destaca por sua intensidade, especialmente quando se torna crucial não apenas para as escolhas pedagógicas dos educadores, mas também para a inclusão, permanência e crescimento do aluno no processo educacional. Os temas transversais desempenham um papel significativo no contexto da sala de aula. São explorados em diversas esferas sociais em busca de soluções e alternativas, gerando debates que confrontam diferentes perspectivas. Essas discussões se estendem tanto à intervenção em questões sociais abrangentes quanto à ação individual. Eles abordam temas sociais relevantes que questionam a experiência humana e a realidade em construção. Ao incorporar os temas transversais, os educadores estão empregando uma ferramenta valiosa e poderosa no desenvolvimento humano, ao abordar assuntos que fazem parte do dia a dia da sociedade. Os Parâmetros Curriculares Nacionais tratam essas duas dimensões diferenciadamente, porém, na prática pedagógica, alimentam-se mutuamente, tornando o currículo estruturado e priorizando o desenvolvimento de competências e de habilidades. Desenvolver habilidades e competências implica em fornecer recursos que serão ativados na estrutura cognitiva, trabalhando de maneira colaborativa para alcançar um comportamento eficaz diante de situações complexas na vida. Assim, o conceito de competência se refere à habilidade de reunir e integrar recursos criativamente para resolver situações complexas. De acordo com Ambrossetti (2002, p. 90), o que se percebe na dinâmica da sala de aula é que o processo de aprendizagem deixou de ser uma questão individual para se tornar um empreendimento coletivo. É fundamental que o aluno sinta satisfação ao adquirir conhecimento, e é responsabilidade do professor abordar o conteúdo para explorar novas abordagens visando aprimorar a experiência de aprendizado. A abordagem pedagógicainterdisciplinar visa superar a fragmentação do conhecimento ao articular conteúdos, metodologias e práticas pedagógicas. Nesse contexto, o processo de ensino é conduzido com base em conceitos de interatividade, interdisciplinaridade, multidisciplinaridade e transdisciplinaridade, que funcionam como abordagens pedagógicas capazes de fomentar a conexão, integração, diálogo, interseção, reciprocidade e abrangência das experiências entre as diferentes disciplinas da EJA. O processo de ensino e aprendizagem não é uniforme para todos os indivíduos, uma vez que cada pessoa aprende de maneira única, influenciada por suas experiências e conhecimentos prévios. Essa abordagem sustenta a necessidade de reestruturar os conteúdos educacionais com base na compreensão individual e na resolução de problemas. Na contemporaneidade, observa-se um preconceito em relação às pessoas que não possuem habilidades no uso da escrita. A proficiência na leitura e escrita desempenha um papel crucial na promoção da cidadania. Como resultado, existem políticas públicas oriundas de movimentos sociais e projetos educacionais que visam a integrar os indivíduos não alfabetizados na sociedade. Muitas dessas iniciativas buscam não somente alfabetizar, mas também incorporar jovens e adultos que não frequentaram a escola nas estruturas sociais de forma mais ampla. O domínio da leitura e escrita é uma habilidade que, por si só, tem o potencial de conduzir à prosperidade e ao bem-estar social. No entanto, a simples aquisição de conhecimentos e habilidades não é o único fator determinante para alcançar esse objetivo. É necessário combinar essa aquisição com iniciativas coordenadas com outras políticas e mudanças sociais mais amplas para efetivamente promover o progresso e a qualidade de vida. Dessa forma, é fundamental reconhecer a relevância desse objetivo ao incorporar abordagens metodológicas que se traduzam em práticas no contexto da EJA. Isso inclui avaliar o conhecimento prévio dos alunos. De acordo com Sampaio (2009), alfabetização e educação estão interligadas em uma perspectiva abrangente de aprendizado que se estende ao longo da vida. Portanto, as pessoas estão constantemente envolvidas em processos educativos. Ao invés de oferecer respostas educativas genéricas e sem conexão com a realidade, os programas educativos, incluindo os de alfabetização, deveriam ser projetados de modo a atender às necessidades fundamentais das populações. Portanto, a estruturação desses programas deve ser tão variada quanto as particularidades dos ambientes em que são implementados e os grupos que estão sendo atendidos. Os processos de aprendizagem deveriam concentrar-se nas práticas culturais associadas à escrita, abrangendo uma variedade de maneiras nas quais ela é utilizada, para além das formas tradicionalmente abordadas pela escola. Nesse contexto, o processo de alfabetização tem o propósito de permitir que as pessoas desenvolvam uma compreensão versátil e fluente das várias práticas sociais que envolvem o uso da linguagem em diferentes contextos e instituições. Esse processo desempenha um papel fundamental ao capacitar as pessoas para buscar conhecimento e informações de forma contínua, promovendo aprendizado ao longo de toda a vida (SAMPAIO, 2009). Os jovens e adultos que não tiveram acesso à educação formal são detentores e criadores de cultura. Isso demanda, por um lado, a identificação dos conhecimentos, valores, representações, expectativas e habilidades que eles possuem. Por outro lado, requer a investigação das situações que eles experimentam e como participam delas. Isso inclui compreender o ambiente em que estão inseridos e as atividades nas quais se envolvem. A diversidade cultural deve ser abordada como tema nas práticas pedagógicas e no ambiente das salas de aula, promovendo o respeito e a compreensão de que essa diversidade se manifesta de variadas maneiras. Portanto, a escola desempenha um papel significativo na criação de novas representações sociais e na educação para uma cidadania crítica. Os “arco-íris de culturas” em nossas escolas fazem com que o trabalho docente seja mais complexo e desafiante. Demandam considerar como se faz viável despertar o interesse de alunos que são tão diferentes, atender às especificidades de distintos grupos, problematizar relações de poder que justificam situações de opressão, assim como facilitar a aprendizagem de todos os estudantes. Ao mesmo tempo, a multiplicidade de manifestações culturais e de identidades torna a sala de aula rica, plural, estimulante e desafiante (STOER; CORTESÃO, 1999). Ao abordar as diferenças na sala de aula, é fundamental evitar contribuir para a segregação de grupos, a formação de guetos ou o agravamento da fragmentação social que se visa mitigar. O ambiente escolar tem o potencial de ser enriquecido pela diversidade cultural, e para isso é necessário repensar suas práticas a fim de desafiar e superar as representações sociais comuns que prevalecem na sociedade. Muitas vezes, as escolas frequentadas pelas classes populares enfrentam desafios, sendo vistas como espaços improvisados e carentes de significado. Essas instituições, que muitas vezes se expandem inadequadamente para acolher crianças e jovens de origens populares, têm o potencial de conter a pobreza e o preconceito. Nesse cenário, os atores da instituição escolar precisam desenvolver práticas que gerem significado e sentido para os alunos. A reorganização do currículo, fundamentada na consideração da diversidade e na perspectiva multicultural, crítica ou intercultural, desempenha um papel fundamental em elevar a autoestima dos estudantes no ambiente escolar. Isso acontece quando eles enxergam sua herança cultural sendo reconhecida e valorizada na sala de aula, e percebem a importância atribuída à sua identidade cultural. (BRASIL, 1998; CANDAU; MOREIRA, 2008). De acordo com Leite (1996), a escola precisa adotar abordagens baseadas em propostas e projetos que envolvam jovens e adultos, com o intuito de integrá-los na sociedade por meio de uma educação que tenha relevância e significado. Isso implica transformar o ambiente escolar em um espaço dinâmico, propício ao diálogo, à realidade, às suas diversas facetas e às necessidades concretas dos estudantes. Pozo (2002) destaca que muitas vezes os desejos não estão inicialmente motivados de maneira adequada, mas a persistência em uma atividade ocorre porque, ao longo do processo, novas motivações emergem. A aprendizagem ocorre por meio da participação ativa, experimentando emoções, tomando decisões diante dos eventos e escolhendo estratégias para alcançar objetivos específicos. Portanto, o ensino e a aprendizagem não são sempre resultados das respostas fornecidas, mas são moldados pelas experiências compartilhadas e pelos desafios enfrentados. Em última análise, a vida é um contínuo processo de aprendizado. Dentro dessa perspectiva, os educadores têm a constante oportunidade de redefinir o propósito de suas práticas, considerando as diversas redes de conhecimento e experiências nas quais estão inseridos. Nesse contexto, a concepção de interdisciplinaridade na EJA implica em romper com a abordagem pedagógica linear, superando os modelos tradicionais de transmissão de informações para adotar uma abordagem mais conectada e integrada. Isso facilita a construção de significado nas aprendizagens, promovendo uma abordagem articulada que envolve diferentes áreas do conhecimento. 4.1 Adequação das práticas metodológicas com a realidade do aluno O planejamento é o processo de preparação para qualquer empreendimento, e essa definição se encaixa de maneira adequada na formulação das práticas pedagógicas. Antes de serem implementadas em sala de aula, essas práticas necessitam ser concebidas, desenvolvidas, pesquisadas e estruturadas (FERREIRA,1996).Há décadas que se buscam métodos e práticas adequadas ao aprendizado de jovens e adultos, como define Paulo Freire (1979): “Por isso a alfabetização não pode se fazer de cima para baixo, nem de fora para dentro, como uma doação ou uma exposição, mas de dentro para fora pelo próprio analfabeto, somente ajustado pelo educador.” A abordagem tradicional, que se baseia principalmente na memorização de conhecimentos e utiliza predominantemente a metodologia expositiva em sala de aula, já não é mais aceitável. A partir de uma perspectiva mais instrumental da educação, o foco central está em capacitar o aluno para dominar os conhecimentos convencionais do currículo escolar. Na perspectiva dialógica, o foco está no desenvolvimento da consciência política por meio da colaboração coletiva e da valorização das práticas sociais dos participantes do processo educativo. O cerne dessa abordagem é permitir que o aluno possa se engajar com os conhecimentos que tenham relevância sociocultural para ele. Nesse sentido, a alfabetização de jovens e adultos ocorre ao longo de um processo que não apenas capacita os aprendizes a ler, produzir e compreender diversos tipos de texto, mas também os guias para uma leitura crítica da realidade. Isso implica ajudá-los a perceber, conscientizar-se e nutrir um desejo de transformação quando a situação o requerer. A prática pedagógica deve proporcionar aos alunos ferramentas para poderem tomar decisões em relação ao seu próprio futuro na sociedade. Valorizar a prática pedagógica e a produção de pensamento, mas tendo também clareza de que os conhecimentos socialmente construídos são necessários para servirem de base para elaborar outros conhecimentos é fundamental, pois é dessa forma que o professor poderá organizar o que os alunos descobrem, criam e formulam em sala de aula. No contexto das metodologias e técnicas de ensino, os professores empregam abordagens didático-pedagógicas e atitudinais nas diversas disciplinas. Ao longo de todo o período da EJA, a relação entre teoria e prática é enfatizada. Além disso, as atividades curriculares buscam conectar dados da realidade com o conhecimento construído, visando tanto à geração de novos conhecimentos como à sua aplicação prática. Compreende-se que a metodologia deve aderir a parâmetros claramente definidos, permitindo que ela seja: • Problematizadora: à medida que apresenta as contradições básicas de uma situação existencial concreta com problemas que desafiam as pessoas nela envolvidas; • Interdisciplinar: à medida que várias disciplinas ou vários ramos do saber abordam determinado tema sob prismas diversos; • Integradora: à medida que possibilita às pessoas captarem o desafio como um problema que tem conexões com outros problemas; • Crítica: à medida que oportuniza a busca das causas sociais, políticas, econômicas e históricas de sua situação existencial; • Impulsionadora da ação: à medida que, ao responderem os desafios, as pessoas se sintam comprometidas e cada vez mais engajadas no processo de transformação de sua realidade; • Dialogante: à medida que os alunos são chamados a conhecer e a elaborar o seu conhecimento, quando se encontram em autêntica comunicação com outras pessoas; • Criativa: à medida que oferece às pessoas a possibilidade de construir seu saber, partilhando suas experiências, inventando e reinventando seu mundo, criando sua cultura e forjando seu destino como seres históricos; • Permanente: à medida que, considerando os alunos como seres inacabados, inseridos em uma realidade igualmente inacabada, chance de refazerem, na ação-reflexão, constantemente, sua realidade existencial, tendo em vista sua plena libertação. As abordagens pedagógicas empregadas pelo professor no processo de ensino-aprendizagem, em concordância com a metodologia proposta, podem incluir: • Exposição pelo professor, na forma de aulas expositivas participativas, dialogais e interativas; • Estudos de texto; de casos reais e/ou simulados; • Estudos dirigidos e/ou orientados; • Mesa redonda; círculo de estudos; painéis; e similares; • Trabalho e apresentação em grupo; • Utilização da informática como técnica de apoio didático pedagógico; • Pesquisas orientadas de campo; • Encenações teatrais e técnicas de oratória, etc. Continuamos em busca de um método que possa servir como ferramenta tanto para o aprendiz quanto para o educador. Um método que integre o conteúdo da aprendizagem com o próprio processo de aprender. É por isso que não temos confiança nas abordagens simplistas que tentam impor uma estrutura gráfica como se fosse um presente, reduzindo assim o analfabeto à posição de objeto a ser alfabetizado, em vez de reconhecê-lo como sujeito ativo desse processo (FREIRE, 1979). Podemos constatar que desde a década de 1970, e até mesmo antes desse período, a utilização inadequada de cartilhas e métodos na educação de jovens e adultos era uma preocupação entre os educadores da época. Infelizmente, essa questão persiste atualmente. A educação voltada para jovens e adultos precisa ser intrinsecamente significativa, proporcionando ao aluno a sensação de empoderamento para influenciar seu próprio percurso histórico e modificar sua trajetória. Isso implica que o aluno deve acreditar em sua capacidade de aprender, explorar, conceber soluções, enfrentar desafios, propor novas ideias, fazer escolhas e aceitar as consequências de suas decisões. É imperativo alterar a abordagem dos educadores que ainda recorrem a desenhos pré-concebidos para colorir, textos pré-fabricados para serem meramente copiados, trilhas pontilhadas a seguir e narrativas que alienam os estudantes. Métodos desse tipo negligenciam completamente a lógica daqueles que estão aprendendo (FUCK, 1994). A alfabetização não deve ser simplificada como um processo técnico-linguístico isolado, tratado como algo já concluído e neutro, ou meramente como uma conquista individual de natureza intelectual. A alfabetização abrange dimensões lógico- intelectuais, emocionais, socioculturais, políticas e técnicas (FREIRE,1996). O professor, ao planejar suas aulas, deve se lembrar de desenvolver estratégias de ensino “adequadas para que seus alunos tenham acesso a uma cultura de letramento diversificada”. Adotar a abordagem de alfabetizar letrando ou letrar alfabetizando é indiscutivelmente a estratégia mais eficaz para abordar os desafios do insucesso observado em muitas instituições escolares e, consequentemente, transformar as estatísticas educacionais. De acordo com Soares (2001), acredita-se que os programas de preparação de educadores, independentemente da disciplina, deveriam direcionar seus esforços para cultivar habilidades sólidas de leitura e produção textual específicas daquela área de estudo. A responsabilidade do professor vai além da simples instrução dos alunos; ela abrange também o seu contínuo aprimoramento como profissional da educação. O educador deve ser capaz de atuar de maneira impactante na realidade, o que naturalmente o levará a adquirir novos conhecimentos. Essa busca por conhecimento vai além da mera adaptação às circunstâncias presentes e se configura como uma conquista significativa. É importante destacar, como já mencionamos em várias ocasiões neste módulo, que o letramento é um fenômeno intrinsecamente social. Assim, essa mediação crucial pode ser efetuada por meio dele. Para o educador evoluir para um “professor letrador”, é essencial que ele possua um sólido entendimento e esteja bem informado sobre o assunto, compreendendo suas várias dimensões e, principalmente, sua aplicação prática. Segundo Soares (2001), “[...] alfabetizar letrando significa orientar a criança para que aprenda a ler e a escrever levando-a conviver com práticas reais de leitura e de escrita.” Para elucidar esse processo de aquisição da línguaescrita, buscamos evidenciar as práticas e intervenções realizadas pelo professor alfabetizador na formação do sujeito letrado. Até os dias atuais, o modelo educacional tradicional perdura e se mantém estável, com poucas mudanças ou variações em sua abordagem, apesar das diversas tentativas de romper com ele. É evidente a persistência desse enfoque pedagógico nas escolas contemporâneas. Os métodos clássicos de tortura escolar como a palmatória e a vara já foram abolidos. Mas poderá haver sofrimento maior para uma criança ou um adolescente que seja forçado a mover-se em uma “floresta de informações” que ele não consegue compreender, e que nenhuma relação parece ter com sua vida? (ALVES, 2007, p. 18). A alfabetização na EJA deve acontecer partindo de algo concreto, que pertença ao meio em que o aluno está inserido e não de cartilhas com visão fictícia, sem ligação com a realidade. 5 A IMPORTÂNCIA DE UMA DIDÁTICA FLEXÍVEL E DINÂMICA A pedagogia envolve a análise sistemática da educação, contemplando as doutrinas e sistemas educacionais. Já a didática é um segmento particular da pedagogia que aborda os materiais educacionais e as abordagens específicas para a construção do conhecimento. Enquanto a pedagogia desempenha o papel de ciência e arte da educação, a didática assume a função de ciência e arte do ensino. Segundo Haydt (2006), ensino e aprendizagem são como faces interligadas de uma moeda. O educador, ao abordar a didática do ensino, deve simultaneamente considerar o processo de aprendizagem do aluno. Além disso, a didática também é influenciada pelos contextos socioeconômicos e políticos, que moldam as tendências pedagógicas em diferentes períodos históricos. No Brasil, de acordo com Libâneo (1990), essas tendências pedagógicas são categorizadas em dois tipos, sendo: • Tendências pedagógicas liberais: sustentam a ideia de que a escola tem por função preparar os indivíduos para o desempenho de papéis sociais, conforme as aptidões individuais. • Tendências pedagógicas progressistas: partindo de uma análise crítica das realidades sociais, sustentam implicitamente as finalidades sociopolíticas da educação. É essencial que os professores compreendam as limitações e as oportunidades pedagógicas inerentes a essas distintas tendências, para embasar sua prática de ensino. A compreensão da dinâmica da aprendizagem é crucial para uma abordagem didática que se baseia não na passividade, mas na participação ativa do aluno. A construção do conhecimento ocorre por meio de processos interativos e, portanto, sociais, nos quais os participantes estabelecem interações entre si. Através dessas trocas de ideias, opiniões e experiências, os alunos gradualmente adquirem conhecimento e diversas perspectivas sobre o mundo. A relação entre professor e aluno desempenha um papel fundamental nesse processo, visto que o docente desperta e engaja o interesse do discente, guiando-o em sua jornada de aprendizado. Conforme Haydt (2006), o professor desempenha um papel crucial no processo de ensino-aprendizagem, possuindo essencialmente duas funções na interação com o aluno. A primeira função é estimulante e energizante, utilizando a curiosidade do estudante para despertar o interesse e ativar seus processos cognitivos. A segunda função é orientadora, direcionando os esforços do aluno para a aprendizagem e auxiliando-o na construção de seu próprio conhecimento. O professor auxilia o aluno a canalizar sua curiosidade em esforço cognitivo, promovendo a transição de um conhecimento desordenado e fragmentado para um saber organizado e preciso. No entanto, é crucial que o docente esteja ciente de que ele é um educador que serve como modelo para seus alunos. Sua personalidade, valores e princípios de vida são veículos que não apenas transmitem conhecimento como informações, mas também facilitam a transmissão de ideias, valores e princípios de vida na sala de aula. O diálogo em sala deverá representar uma troca de ideias e informações tanto para o professor quanto para o aluno, momento em que o conhecimento será construído em conjunto, chegando-se a uma síntese do saber de cada um. A aprendizagem se desenrola de maneira orgânica quando o aluno se envolve ativamente na reconstrução do conhecimento, empregando seus esquemas operacionais de pensamento. Visto que a aprendizagem é uma atividade mental, é essencial envolver o processo de pensamento e reflexão. Quando consideramos os métodos didáticos mais apropriados para o ensino, é fundamental lembrar que o procedimento mais eficaz é aquele no qual o aluno incorpora os novos conhecimentos de maneira ativa, compreensiva e construtiva, promovendo o desenvolvimento do pensamento operatório. Dentro desse contexto, é responsabilidade do professor apresentar desafios que ativem os esquemas operatórios de pensamento dos alunos, conduzir diálogos e explicações claras, criar oportunidades para a investigação e usar diversos métodos de ensino. Isso permitirá ao discente uma ampla gama de experiências de aprendizagem. No entanto, é crucial reconhecer que a aprendizagem será mais eficaz, significativa e duradoura quando o estudante construir seu entendimento por meio da atividade mental e quando suas experiências, vivências e conhecimentos prévios forem respeitados. Conforme apontado por Candau (2002), a escola é concebida como um centro cultural, onde uma variedade de linguagens e expressões culturais coexistem sendo criadas. O foco central para o professor deve ser a aprendizagem do aluno. Assim, ao conduzir suas aulas, é crucial que o professor sempre reconheça e valorize as experiências anteriores dos estudantes, estimulando sua participação e viabilizando a transferência e aplicação dos conhecimentos obtidos. Isso contribui para instigar uma abordagem reflexiva. Além disso, é importante que o educador adapte tanto o conteúdo quanto a linguagem conforme as características individuais dos alunos, e também deve realizar verificações regulares para assegurar que o estudante tenha compreendido o conteúdo. As abordagens didáticas comuns no ensino regular não são aplicáveis na Educação de Jovens e Adultos (EJA), o que pode resultar em uma educação que carece de relevância para o aluno. Trabalhar com jovens e adultos requer a habilidade de estabelecer um diálogo com cidadãos que trazem consigo vivências moldadas pela realidade social em que estão inseridos, e que conseguem engajar em um diálogo significativo com o professor. A EJA está recebendo um contingente crescente de alunos jovens, refletindo as mudanças sociais e no mundo do trabalho. A pressão das necessidades econômicas em muitas famílias leva os jovens a abandonar seus estudos. Os métodos didáticos empregados em sala de aula precisam considerar as necessidades específicas desses jovens, auxiliando-os no processo de reconstrução do conhecimento e na eficácia da abordagem pedagógica. Isso se reflete nos resultados da avaliação de desempenho do aluno e, especialmente, na capacidade de potencialmente transformar sua posição social. O docente dispõe de diversas ferramentas para atingir seus objetivos. A incorporação de jogos na sala de aula contribui para criar um ambiente motivador, que engaja estudantes de todas as idades no processo de aprendizado. Além disso, o professor pode recorrer a situações-problema e à técnica de dramatização, as quais facilitam assimilar conhecimentos e a compreensão de conceitos. Outra abordagem é a utilização do trabalho em grupo, que não apenas facilita a aquisição de conhecimento e a troca de ideias, mas também promove a formação de hábitos de estudo. Enfim, há uma ampla variedade de formas, métodos e procedimentos que o professor pode adotar para alcançar sucesso em seu trabalho e tornar a aula mais cativante. Contudo, é fundamental que o educador reconheça que a prática pedagógicademanda uma análise e reflexão contínuas. Além disso, é importante adaptar o método de ensino conforme as características específicas de seus alunos. 5.1 A proposta freiriana de ação - reflexão A metodologia, os procedimentos de ensino e as práticas pedagógicas adotadas pelo professor estão intrinsecamente ligados ao planejamento construído para alcançar um processo educativo de excelência, cumprir objetivos educacionais específicos e possibilitar a aprendizagem de conteúdos determinados. Essa abordagem também está em sintonia com a realidade educacional única da turma que ele está ensinando. A atitude do professor em sua interação com a classe e nas relações com cada aluno é influenciada pela postura que ele adota em relação à vida e ao seu papel pedagógico. Essa postura é um reflexo direto das concepções do professor sobre a natureza humana, o mundo e a educação. Não basta adquirir conhecimento sobre novos métodos de ensino e empregar uma variedade de recursos pedagógicos se enxergarmos os alunos como meros receptores passivos. Além disso, é essencial reconhecer que a aprendizagem eficaz não se deriva apenas do tempo gasto na escola, mas sim da maneira apropriada em que esse tempo é utilizado. As atividades não devem ser orientadas somente por propósitos utilitários ou fins práticos. O aluno deve buscar o conhecimento pelo próprio ato de conhecer; por isso, seu foco não deve ser apenas em objetivos práticos, mas sim na sua própria evolução. A busca pelo aprendizado não se trata de seguir trilhas seguras rumo a verdades inabaláveis, mas sim de lidar com incertezas e suspeitas, conviver com diversas perspectivas, explorar significados e representações, questionando interesses, visões de mundo e ideologias. A aprendizagem significativa ocorre quando o aluno constrói seu próprio conhecimento; quando ele se envolve em um processo pessoal de aprendizado e gradualmente conquista sua independência. Para Haydt (2006, p. 150), o “[...] professor deve variar os procedimentos didáticos, usando os mais adequados aos objetivos propostos e à natureza do conteúdo estudado. Ele deve favorecer a compreensão, a assimilação e a construção do conhecimento por parte do aluno.” Nesse sentido, é fundamental que o professor reavalie suas práticas pedagógicas como um meio de aprimorar sua trajetória profissional. A prática reflexiva oferece uma base para desenvolver sua abordagem, resultando em um maior entendimento de seus recursos pedagógicos e aumentando sua confiança ao executar suas atividades. Ao compartilhar conhecimento com seus pares e outros profissionais, o educador formula novas estratégias para aprimorar sua prática, reforçando a interligação entre ação, reflexão e subsequente ação no ambiente educacional. Ele deve engajar-se em um diálogo contínuo com as situações cotidianas, questionando aquilo que pode parecer evidente e mantendo uma postura de ceticismo em relação ao que é considerado estável e verdadeiro. Nesse contexto, é com essa visão crítica que o docente orienta seu olhar para examinar a experiência formativa. Problematizar é tomar a realidade como ponto de partida e chegada, comprometendo-se com mudanças qualitativas no percurso de levantar problemas, teorizar e propor intervenções (BERBEL, 2001; FREIRE, 1996). É essencial transcender as noções comuns acerca da própria formação profissional, cultivando abordagens teóricas mais sólidas. A conexão que um professor desenvolve com o conhecimento permite que ele implemente, em suas atividades diárias, o propósito da educação escolar. O exercício de reflexão capacita o docente a reconhecer tanto a relevância quanto as novas demandas que emergem no cotidiano, ultrapassando suas próprias limitações e potenciando o desenvolvimento máximo de seus alunos. O educador não detém o monopólio do conhecimento, e é crucial que permaneça em contínua busca por aprimoramento e especialização, enquanto reflete sobre suas ações na sala de aula. Como tal, o instrutor está em constante evolução, modificando sua base de conhecimento, métodos pedagógicos e perspectiva global. Ele desempenha o papel de um influenciador de opiniões, que não se satisfaz em ser um mero depositário de conhecimento, mas busca a capacidade de compartilhá-lo com os alunos, orientando-os para um desenvolvimento mais completo do indivíduo. Ele assume o papel de um agente influenciador de opiniões, que não se contenta em ser apenas um receptáculo passivo de conhecimento. O grande desafio é repensar a prática docente e sua importância na vida dos alunos. Tomando como referência as reflexões de Freire (1986), o professor precisa possuir alguns saberes e determinadas atitudes essenciais à prática do educador da EJA: assumir-se como profissional libertador que tem postura crítica diante da realidade vivida, valorizando o sujeito com que trabalha, respeitando-o e tendo a intenção de propiciar novos aprendizados; ter papel diretivo no processo educativo, não como quem ocupa uma posição de comando, mas como articulador de um estudo sério sobre algum objeto de investigação; colocar-se na posição de quem busca superar-se constantemente em uma atitude práxica; fazer do ato educativo um ato de conhecimento; colocar-se em constante processo de formação ( o que é central no desenvolvimento de uma prática criadora); trabalhar com indissociabilidade entre teoria e prática mediante reflexão crítica sobre a prática; respeitar o educando e a si próprio como sujeito do conhecimento, ou seja, adotar a postura de um sujeito pensante criativo. Há uma multiplicidade de conhecimentos e posturas que direcionam para uma abordagem dialógica da educação na EJA. É responsabilidade individual de cada professor tomar as decisões adequadas, visando a orientar a sociedade rumo à emancipação, transcender as várias formas de opressão que ainda permeiam as interações sociais. Sem uma compreensão profunda do que está sendo realizado, a prática pedagógica se torna uma simples repetição de hábitos já existentes ou reações a pressões externas. Um projeto educacional só se efetiva por meio da ação dos professores, que o internalizam de certa forma, o interpretam e o ajustam à realidade (SACRISTÁN, 1997). Conforme Schwartz (2012), o conhecimento é uma base essencial para a ação, porém, por si só, não é suficiente. O entendimento de um professor vai além do conhecimento teórico, envolvendo também habilidades e recursos que extrapolam o âmbito teórico. Ter conhecimento não é apenas uma questão de estar ciente, mas também de conseguir aplicar esse conhecimento em situações concretas. É vital que o professor reconheça que, sem uma abordagem crítica, pode estar caminhando em direção à alienação, à falta de profissionalismo e à incompreensão dos aspectos sociais e educativos. Quando o docente adquire um entendimento sobre como os indivíduos aprendem e como ensinar efetivamente a todos, ele consegue compreender as respostas dos alunos, planejar e implementar estratégias voltadas para esses indivíduos reais, facilitando um processo de ensino-aprendizagem mútuo. A função do professor deve estar centrada na contínua construção e reconstrução, em um ciclo incessante de ação, reflexão e subsequente ação no contexto da prática educacional, buscando dar sentido aos conteúdos em relação à vida dos alunos. 5.2 Organização do planejamento: escolhas metodológicas importantes O termo “didática” ainda mantém os significados de suas definições iniciais. É uma palavra de origem grega que carrega o sentido de ensinar ou fazer aprender. No século XVII, o educador Comenius (1997) a utilizou, definindo-a como a arte de ensinar. A didática está intimamente ligada à atividade do professor e aos impactos sociais no contexto das responsabilidades educacionais, em geral (LIBÂNEO, 1990). Quando o professor e a instituição educacional se envolvemna tarefa de ensinar, assumem uma responsabilidade de caráter social. Isso ocorre porque o propósito do processo educativo é preparar os indivíduos para se tornarem cidadãos bem-informados e garantir que eles adquiram adequadamente os conhecimentos e competências essenciais para sua participação na sociedade. A didática, nesse contexto, canaliza seus esforços, primeiramente, para estruturar os conhecimentos já existentes nas diversas áreas do saber e aplicá-los nas práticas pedagógicas. Depois, ela se dedica a desenvolver novos conhecimentos relacionados às abordagens de ensino, criando métodos e abordagens inovadores para o processo educativo. A didática vai além de uma simples reflexão teórica e se concentra em compreender os procedimentos cotidianos. Seu foco está em melhorar constantemente a qualidade da prática educacional, adaptando-se às necessidades dos alunos e aos desafios da educação contemporânea. Ela desempenha um papel crucial ao integrar teoria e prática, promovendo uma educação significativa e eficaz que atenda às demandas da sociedade e prepare os indivíduos para uma participação consciente e responsável. De acordo com Maseto (1997), a didática orienta o educador sobre como planejar um curso, promovendo a participação ativa dos alunos. Isso envolve distribuir as responsabilidades do processo, tornando tanto os alunos quanto os professores conscientes de que a colaboração é mútua e compartilhada. A abordagem didática possibilita a escolha de tópicos relevantes e a adoção de técnicas que fomentem o envolvimento dos alunos, resultando em uma aprendizagem mais eficaz. O autor destaca que a didática também viabiliza a conexão entre teoria e prática, integrando o conhecimento científico ao contexto diário dos alunos. Além disso, enfatiza que a didática desempenha um papel crucial ao transformar a avaliação em um incentivo para os alunos, afastando-se do conceito de punição ou ameaça. Através da didática, o professor não apenas orienta as práticas de aprendizagem dos alunos, mas também favorece seu próprio desenvolvimento, motivando-o a explorar a pesquisa e a adquirir novos conhecimentos que enriqueçam sua atuação profissional. Isso, por sua vez, possibilita que ele compartilhe suas experiências e conhecimentos com seus colegas docentes, promovendo uma troca enriquecedora de informações. A instituição escolar representa um espaço onde os indivíduos adquirem habilidades específicas consideradas essenciais para a vida nas sociedades humanas. Quando mencionamos a escola, estamos nos referindo a um ambiente de aprendizado contínuo (MASETO, 1997). Nesse contexto, o estudante desempenha um papel central nesse processo, que abrange a busca por informações, a experimentação e a reflexão sobre suas experiências, a capacidade de se adaptar a mudanças, a descoberta e construção de significados para eventos e situações, bem como a aquisição de comportamentos e normas sociais. Se o aluno assume o papel de protagonista na aprendizagem, o professor se torna o protagonista no ato de ensinar. É de responsabilidade do professor comunicar os conhecimentos, apresentar as informações, mediar os saberes e servir como guia para conduzir os alunos em direção às habilidades necessárias. Ensinar e aprender são aspectos interligados de um processo unificado, constante e inseparável. Um docente competente deve conseguir conectar aquilo que ensina com os contextos nos quais é para os quais está ensinando. A construção do conhecimento frequentemente requer implementar métodos de ensino e um planejamento didático sólido. Portanto, na abordagem da Educação de Jovens e Adultos (EJA), o educador precisa se concentrar na abordagem didática, dominando não somente o conteúdo de sua área de formação, mas também compreendendo as metodologias de ensino. O conhecimento sobre educação deve ser um componente integral da formação do professor. Na atuação com a EJA, é essencial ter em mente que o adulto não está em um processo de formação, pois já acumulou experiências e habilidades ao longo da vida. Ele desempenha um papel central em sua própria aprendizagem, fazendo escolhas e determinando os caminhos a serem percorridos. Essas escolhas são moldadas por suas necessidades e pelo reconhecimento da importância de adquirir conhecimento relevante. Além disso, os adultos geralmente possuem uma motivação intrínseca para aprender, e suas determinações e escolhas são guiadas por esse princípio subjacente. O docente atua de maneira consciente, onde suas práticas devem ser cuidadosamente planejadas e organizadas para assegurar a aprendizagem dos alunos. Para estruturar essas práticas, o educador necessita de ferramentas que coordenem suas ações, orientem seu trabalho e conectem as atividades com o ambiente escolar. Esses instrumentos são fornecidos pelo processo de planejamento. Planejar engloba escolhas, estabelecimento de metas, compreensão da dinâmica escolar, identificação das necessidades dos alunos diante do currículo e preparação das atividades a serem conduzidas. O planejamento implica em analisar com critério sua função social. Nas palavras de Freire (1986), isso envolve reconhecer que a educação é uma forma de intervenção no mundo, demandando decisões conscientes e deliberadas. Na elaboração do currículo, é essencial reconhecer a diversidade das realidades escolares, uma vez que os estudantes provêm de diversos grupos culturais, étnicos e religiosos, além de apresentarem variados níveis de conhecimento sobre os temas a serem abordados. A organização dos conteúdos curriculares deve seguir uma sequência que não se limita à simples acumulação de informações. Os conteúdos desempenham um papel fundamental na transmissão e assimilação do conhecimento. Ao escolher quais conteúdos ensinar, o professor deve orientar-se por critérios como validade, relevância prática, significado, adequação ao estágio de desenvolvimento dos alunos e flexibilidade. A seleção dos métodos de ensino e a organização das experiências de aprendizagem mais apropriadas dependem dos objetivos educacionais estabelecidos, da natureza do conteúdo a ser abordado, das características dos alunos, das condições físicas e do tempo disponível. No contexto da expansão do acesso à Educação Básica, um dos desafios mais significativos enfrentados pela educação brasileira é proporcionar um ensino de alta qualidade. Isso implica garantir que os estudantes possam realmente assimilar e internalizar os conhecimentos apresentados durante o período escolar. Na busca por enfrentar tais desafios, é crucial reconhecer que a educação constitui uma forma de intervenção no mundo, demandando a adoção de decisões alinhadas com o tipo de cidadão que se deseja formar. Nesse contexto, as práticas pedagógicas podem atuar de maneira a sustentar a dominação e a preservar a ordem social existente, ou podem se empenhar em capacitar os indivíduos, visando a sua emancipação e contribuindo para a transformação das relações sociais em uma escala mais ampla. Com base nesse reconhecimento, ao examinar as maneiras como a avaliação escolar é incorporada às práticas pedagógicas dos professores, é possível concluir que a atividade de avaliação pode ser utilizada como um dispositivo de controle social. Isso pode perpetuar o receio da avaliação por parte dos alunos e conceder ao professor o poder de avaliar. Por outro lado, é possível adotar uma perspectiva alternativa, na qual a avaliação educacional é vista como um meio pelo qual os discentes demonstram seu nível de compreensão das matérias estudadas. Ela também se configura como um elemento que permite ao docente reexaminar sua abordagem pedagógica. Isso evidencia que a avaliação do processo de ensino e aprendizagem não possui neutralidade. Como destacam Andre e Passos (2002), é necessário abordar a avaliação apartir de diversas perspectivas, incluindo as epistemológicas, históricas, filosóficas, psicológicas, sociológicas e pedagógicas. Na perspectiva epistemológica, podem ser identificadas três principais correntes que abordam a origem do conhecimento: o empirismo, o inatismo e o interacionismo. No contexto empirista, a avaliação tem o propósito de determinar o alcance dos objetivos de ensino previamente estabelecidos. Já na abordagem inatista, a avaliação envolve a autoavaliação para mensurar o próprio crescimento e desenvolvimento. Na perspectiva interacionista, a avaliação visa a identificar o nível de desenvolvimento e aprendizado alcançado pelo indivíduo até aquele momento. Na perspectiva psicopedagógica, a avaliação é percebida como uma ferramenta de aprendizado para os alunos, uma vez que destaca suas conquistas e obstáculos; ao mesmo tempo, assume o papel de instrumento investigativo para o educador, ajudando-o na tomada de decisões e na organização do processo de ensino. Na ótica sociológica, a avaliação revela sua natureza como um mecanismo de controle, bem como o seu impacto no fortalecimento das disparidades sociais, visto que pode contribuir para o surgimento do fracasso escolar. É importante ressaltar que a escola exerce uma influência significativa na construção das representações da realidade, muitas vezes apresentando-as como verdades e imutáveis. Essa observação possibilita a compreensão de que a avaliação é um processo intrincado, que não se restringe à adoção de certos métodos, como provas ou trabalhos, mas engloba uma variedade de fatores condicionantes. Estes aspectos necessitam ser esclarecidos e discutidos pelos participantes das interações de ensino e aprendizagem no ambiente escolar. Para tanto, é urgente a construção de propostas formativas que permitam ao professor questionar seu papel social na formação de cidadãos e os reflexos da avaliação do ensino e da aprendizagem nesse processo. É preciso construir respostas para a pergunta: que cidadão eu pretendo formar? Aquele passivo e acomodado diante de sua realidade? Ou um cidadão que será capaz de se apropriar dos conhecimentos escolares e a partir deles traçar análises críticas de suas realidades? Na tentativa de responder essas questões, é preciso que o professor tome consciência de que as formas de organizar o processo de ensino e aprendizagem e, consequentemente, a avaliação, não são neutras, e que suas escolhas devem ser conscientes e coerentes com o perfil dos cidadãos que ele pretende formar. 6 MODALIDADE EAD: UMA POSSIBILIDADE DE INSERÇÃO E PERMANÊNCIA NA EJA Os progressos tecnológicos são uma parte integrante do nosso dia a dia e, consequentemente, os métodos educacionais também estão intrinsecamente ligados à tecnologia. O potencial das Tecnologias de Comunicação e Informação (TICs) é inegável, uma vez que podem ser utilizadas para criar um ambiente estimulante para facilitar a aprendizagem eficaz dos estudantes. O desafio reside em conceber abordagens pedagógicas genuinamente inovadoras, que transcendam a mera reaplicação em diferentes contextos de aprendizado, como ressaltado por Magnavita (2003). O uso das TICs tem o potencial de aprimorar as abordagens pedagógicas, contudo, é imperativo que o educador esteja disposto a empregá-las para fomentar um método de ensino e aprendizagem que capacite os alunos a desempenhar um papel ativo. Nesse cenário, os estudantes devem ser encorajados a dialogar com os professores, colaborar na produção e construção coletiva do conhecimento, em vez de simplesmente reproduzir um modelo de instrução baseado na memorização e concentrado exclusivamente no conhecimento transmitido pelos professores. Dessa maneira, as TICs trouxeram à Educação a Distância por meio da internet a capacidade de reduzir a separação geográfica entre educador e aluno, promovendo o crescimento de um formato que oferecem flexibilidade tanto em relação aos horários quanto ao local designado para o aprendizado. Isso concede ao aluno a capacidade de gerenciar o tempo dedicado aos estudos e elimina os custos associados aos deslocamentos. Para prosseguir com o tópico, é crucial compreender o conceito de Educação a Distância (EAD). Esta constitui uma forma de instrução que atravessou diversas metamorfoses sociais e avanços tecnológicos, evoluindo desde a correspondência por carta até a nossa atualidade, em que tablets e smartphones ocupam um lugar central no dia a dia urbano. No Brasil, a EAD teve sua expansão mais efetiva a partir da popularização dos computadores e da Internet. Foi reconhecida ao nível de legislação educacional a partir da publicação da LDB lei nº 9.394/96, que no art. 80 destaca que: “O Poder Público incentivará o desenvolvimento e a veiculação de programas de ensino a distância, em todos os níveis e modalidades de ensino, e de educação continuada.” A EAD desempenha um papel fundamental na democratização da educação no Brasil, por viabilizar que estudantes entrem em contato com o ensino formal, mesmo quando estão afastados dos principais centros educacionais. Além disso, a EAD oferece uma oportunidade para pessoas que trabalham, permitindo-lhes participar de cursos sem a necessidade de frequentar aulas presenciais de segunda a sexta-feira, em um horário específico em uma instituição educacional. Isso é especialmente significativo, já que as responsabilidades ligadas à vida familiar e profissional tornariam inviável o deslocamento diário para uma escola. Com o rápido acesso à informação, em uma sociedade, com inúmeras possibilidades e diversos meios de comunicação na web, um dos grandes desafios impostos à educação contemporânea, segundo Oliveira (2008, p. 195), “[...] consiste justamente em como desenvolver, de forma prioritária, mais competências e habilidades do que assimilações de conteúdos.”, visto que, devido às rápidas mudanças, essas informações envelhecem e/ou se tornam obsoletas. O cenário educacional futuro está sendo moldado no presente, influenciado de maneira significativa pelas comodidades oferecidas pelas ferramentas eletrônicas. As sofisticadas tecnologias da comunicação digital não necessitam serem rejeitadas, mas sim compreendidas, a fim de serem harmoniosamente incorporadas ao campo educacional. Esse processo possibilita que o indivíduo aprendiz se aproprie dessas tecnologias, em vez de ser subjugado por sua própria lógica (OLIVEIRA, 2008). Sobre as aulas virtuais, Oliveira (2008, p. 199) destaca que “O termo “virtual” é atribuído a uma realidade que não existe fisicamente, pois não pode ser percebida pelos órgãos dos sentidos; geralmente alguma abstração de algo real.” Dessa forma, a aula virtual se materializa por meio de um Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA), acessível a professores e alunos através da internet. Esse ambiente virtual engloba uma série de ferramentas e recursos digitais que viabilizam a interação entre educadores e estudantes. Portanto, ao ponderar sobre as abordagens pedagógicas tanto na aula virtual quanto na aula presencial, Oliveira (2008) revisita questões cruciais ao enfatizar que não há uma única abordagem para moldar a educação em contextos presenciais ou online. Em vez disso, é necessário obter uma compreensão mais profunda dos mecanismos das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) na educação, a fim de aproveitar plenamente as oportunidades de comunicação e troca de informações que elas proporcionam. Frente a esses desafios que os educadores enfrentam ou podem enfrentar, Oliveira (2008) observa que não existe um método específico para conduzir uma aula, independentemente da modalidade de ensino na qual o professor esteja envolvido. Porém, ele reforça a importância do professor ser um orientador “[...] na mediação didático-pedagógica a distância, para garantir a interatividade dos protagonistas do processo didáticoe o desenvolvimento de uma aprendizagem sólida e duradoura.” (OLIVEIRA, 2008, p. 202). Assegurar o engajamento ativo dos alunos, evitando a armadilha de proporcionar uma educação centrada unicamente no saber dos educadores, é um desafio relevante. Essa questão é explorada por Freire (1994), que critica o modelo educacional em que o professor desempenha o papel de um “depositante” de conteúdo e os alunos são conduzidos a uma mera memorização dos tópicos abordados em sala de aula, sem estimular a busca pelo conhecimento. Esse formato de ensino é rotulado por Freire como “educação bancária”. Na visão “bancária” (FREIRE, 1994) da educação, o “saber” é uma doação dos que se julgam sábios aos que julgam nada saber: [...] O educador, que aliena a ignorância, se mantém em posição fixas, invariáveis. Será sempre o que sabe, enquanto os educandos serão sempre os que não sabem. A rigidez desta posição nega a educação e o conhecimento como processos de busca (FREIRE, 1994, p. 33 – 34). Seguindo essa ideia, é de extrema importância, durante o processo de planejamento e implementação de um curso ou disciplina na modalidade de EAD, evitar o equívoco de simplesmente transpor o modelo de ensino presencial para o ambiente online. No contexto do ensino à distância, é imperativo que o educador se envolva completamente no processo de planejamento desde o início, contemplando a gestão pedagógica do Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) e considerando até mesmo aspectos relacionados ao suporte técnico para auxiliar tanto professores quanto alunos. O docente que está prestes a trabalhar em um ambiente virtual deve ter uma compreensão profunda de que a EAD apresenta características próprias que exigem uma abordagem diferenciada. Essas particularidades devem ser tratadas com meticulosidade e revisadas sempre que necessário, garantindo assim um ambiente de aprendizagem eficaz e envolvente. Arredondo (1999) ressalta aspectos que necessitam de consideração para a estruturação e realização da modalidade de ensino à distância, tais como: • Planejamento de metodologia específica considerando a separação geográfica de alunos e professores; • Quais serão os recursos utilizados para a comunicação e mediação entre professores e aluno; • Elaboração de materiais próprios, suporte fornecido para o aluno; e auxílio e formação continuada dos professores. Ao contribuir significativamente para a democratização da educação no Brasil, a EAD emerge como uma ferramenta de destaque na inclusão de jovens e adultos no sistema educacional formal. Além disso, ela desempenha um papel crucial na promoção da retenção desses estudantes, permitindo que eles estudem e se organizem de maneira autônoma, respeitando seus próprios ritmos e disponibilidade de tempo. No entanto, é vital que a instituição educacional (gestão e professores) esteja ciente da vasta diversidade social entre os alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Em uma sala de aula, é possível encontrar uma gama variada de situações: desde alunos que possuem acesso a celulares, computadores e internet, até aqueles que não têm qualquer familiaridade com tecnologias ou até mesmo não são alfabetizados. “Quando pensamos em EAD para grupos de EJA, remete-nos uma possibilidade de acessibilidade de complementação dos estudos e, principalmente, para obtenção do reconhecimento formal de suas aptidões, que acaba sendo o diferencial desses trabalhadores diante de um mercado de trabalho cada vez mais competitivo.” (SOUZA; FERNANDES; BARRETO, 2014, p. 10). Alunos que não foram alfabetizados ou não concluíram a fase de alfabetização requerem, em primeiro lugar, o estabelecimento de uma base sólida em leitura e escrita. Esse processo pode ser facilitado mediante uma introdução inicial ao uso de tecnologias na própria sala de aula. Além disso, o desenvolvimento da autonomia é um fator crucial para os estudantes envolvidos na Educação de Jovens e Adultos (EJA). Assim, uma vez que essa etapa seja completada, eles estarão preparados para integrar a modalidade de Educação a Distância (EAD) e continuar sua jornada educacional. O ponto crucial a lembrar é que, seja qual for o nível de alfabetização, é responsabilidade do professor criar um ambiente que motive os alunos a reconhecer a importância do compromisso e do envolvimento com o próprio processo de aprendizado. Para Boff, Ferrari e Zanin (2016, p. 4): Nesse contexto e com esse pensar, nossa escola entende que a educação contribui para que as pessoas aprendam a gerenciar as informações disponíveis e se constituam dinâmicas, autônomas, cooperativas, críticas e criativas. Entende, também, que prepara o cidadão para interagir na sociedade de maneira consciente, crítica e coerente, integrando as dimensões do pensar, sentir e agir. No que diz respeito à integração tecnológica dos alunos, Souza, Fernandes e Barreto (2014) destacam a importância de debater o uso da Educação a Distância (EAD) na Educação de Jovens e Adultos (EJA). É fundamental considerar os progressos tecnológicos e a necessidade de familiarização com a tecnologia que os jovens e adultos devem possuir atualmente. Isso não apenas possibilita a sua integração social, valendo-se das novas formas de comunicação, mas também é essencial para a sua inserção e/ou permanência em um mercado de trabalho cada vez mais orientado pela informatização. Os autores reforçam a ideia de inserção da EAD na EJA afirmando que “Fazer uso da educação a distância como continuidade de formação para indivíduos que configuram os sujeitos da EJA, significa inseri-los à sociedade contemporânea, e ofertar uma forma maleável, estimulante, diversificada, atual de formação básica”. (SOUZA; FERNANDES; BARRETO, 2014, p. 4). E complementam que “O processo de socialização dos estudantes da EJA inclui a preparação desses alunos para o uso dos mecanismos tecnológicos disponíveis na sociedade, como o computador e o uso de internet com todo o arsenal de redes sócio - virtuais de amizades e conhecimentos diversos.” (SOUZA; FERNANDES; BARRETO, 2014, p. 4). Nessa perspectiva, a chance de retenção desses estudantes na instituição educacional cresce, visto que eles percebem a atenção dada às suas necessidades e iniciam o processo de vivenciar a evolução de sua inclusão na comunidade, resultando em um fortalecimento de sua participação como cidadãos plenos. 6.1 Modalidades semipresenciais e a distância: EJA A modalidade semipresencial da Educação a Distância (EAD) viabiliza um método de instrução que combina aulas virtuais com encontros presenciais entre educadores e estudantes. Esses encontros podem ser agendados em uma base semanal, quinzenal ou até mensal. Por outro lado, na modalidade totalmente a distância, as interações entre professores e alunos ocorrem inteiramente online, com a possibilidade de reservar encontros presenciais somente para a realização de avaliações. Tanto a aula presencial quanto a aula virtual devem ser conduzidas com o propósito de promover uma abordagem educacional que estimule a análise crítica, baseando-se na interação construtiva entre o educador e os educandos. Isso implica em incentivar a participação ativa de todos os envolvidos no processo de aprendizado. Nesse contexto, destaca-se a relevância da orientação humana, evidenciando a função crucial do professor em criar um ambiente de ensino enriquecedor, cativante e variado. O docente também deve reconhecer o aluno como um indivíduo capaz de pensar e agir na prática pedagógica, organizando o ambiente virtual de maneira a propiciar uma experiência que favoreça a construção do conhecimento por parte do aluno. A educação a distância, então, pode ser sumariamente definida como uma educação em que existe uma união de alunos e professores por mecanismos tecnológicos, onde os educandos e os professores se encontram de acordo com a necessidadee disponibilidade do aluno, e não mais, exclusivamente, por processos físicos e temporais como na educação presencial (SOUZA; FERNANDES; BARRETO, 2014, p. 6). O ensino à distância (EAD) não tem a finalidade de diminuir o envolvimento do professor, mas sim remodelar seu papel, uma vez que o educador continua a ser fundamental na orientação do processo. O objetivo do professor é guiar e facilitar a jornada do aluno, assegurando que este não esteja em isolamento durante o processo educacional. No planejamento das aulas, o educador precisa se preparar para empregar táticas de interação e mediação tanto entre os alunos quanto com eles próprios. Essa abordagem visa a inspirar e provocar os alunos, estimulando-os a explorar novos saberes. Importante ressaltar que: A Educação de Jovens e Adultos a distância significa, então, a possibilidade de articular no trabalho pedagógico, a realidade sociocultural dos estudantes, o desenvolvimento e os interesses específicos de cada educando, bem como os conhecimentos acumulados historicamente pela humanidade, a qual todos têm direito de acesso, de acordo com as políticas fundamentais que democratizam o saber (SOUZA; FERNANDES; BARRETO, 2014, p. 10). Conforme ressaltado por Souza, Fernandes e Barreto (2014), a Educação a Distância (EAD) reitera a importância de examinar e explorar o papel do educador em face dessas inovadoras oportunidades advindas das tecnologias no contexto das abordagens pedagógicas. Isso naturalmente evoca considerações sobre a preparação inicial e contínua do professor. Segundo Freire (1996, p. 18) “Por isso é que, na formação permanente dos professores, o momento fundamental é o da reflexão sobre a prática. É pensando a prática de hoje, ou de ontem que se pode melhorar a próxima prática.” Proporcionar uma intervenção educativa que crie um ambiente propício para a aprendizagem do aluno implica na constante reavaliação da prática pedagógica, em conjunção com os princípios teóricos orientadores seguidos pelo professor. [...] se os homens são seres do que fazer é exatamente porque seu fazer é ação e reflexão. É práxis. É transformação do mundo. E, na razão mesma em que o que fazer é práxis, todo fazer do que fazer tem de ter uma teoria que necessariamente o ilumine. O que fazer é teoria e prática. É reflexão e ação (FREIRE, 1994, p. 70). Dessa forma, é evidente a importância do professor em manter uma busca contínua por conhecimento, abrangendo tanto os aspectos específicos de sua área quanto a compreensão dos recursos digitais à sua disposição. Essa busca transcende a modalidade de ensino escolhida para sua atuação, permitindo-lhe reformular estratégias didáticas pertinentes. Isso ressalta que o ato de ensinar traz consigo demandas significativas, exigindo do professor que ele não se autorize a transmitir aquilo que não domina: Aprender precedeu ensinar ou, em outras palavras, ensinar se diluía na experiência realmente fundante de aprender. Não temo dizer que inexiste validade no ensino de que não resulta um aprendizado em que o aprendiz não se tornou capaz de recriar ou de refazer o ensinado, em que o ensinado que não foi apreendido não pode ser realmente aprendido pelo aprendiz. (OLIVEIRA, 2008, p. 12-13) Para efetivamente conduzir uma aula virtual, é imperativo considerar as particularidades inerentes à sua organização e planejamento, independentemente de ser uma aula semipresencial ou totalmente a distância. Nesse contexto, é fundamental examinar os desafios emergentes e indicar direções que enriqueçam a qualidade das aulas virtuais, oferecendo propostas pedagógicas que fomentem a aquisição de novas competências por parte dos alunos. Esse processo visa prepará-los adequadamente para enfrentar um mercado de trabalho caracterizado por intensa competitividade e avanços tecnológicos. 7 EVASÃO ESCOLAR NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS O problema da evasão escolar é uma das questões graves que afetam a qualidade da educação no Brasil. No entanto, na modalidade de Educação de Jovens e Adultos, esse mesmo problema apresenta características diferentes. O estudante da EJA é aquele indivíduo que, por diversas razões, não teve a oportunidade de completar sua educação básica na idade convencional. Para esclarecer de maneira mais precisa o tópico em discussão, é essencial estabelecer e distinguir os termos que frequentemente são incorretamente utilizados como sinônimos: abandono e evasão. Ambos se referem a estágios distintos no percurso educacional. O abandono escolar ocorre quando o aluno não consegue concluir o ano letivo devido a um número excessivo de faltas. No entanto, se no ano subsequente esse mesmo aluno não efetuar a matrícula para retomar a série que anteriormente abandonou e, em vez disso, deixa de frequentar a escola, ele passa a ser considerado parte das estatísticas da evasão escolar. Diferentemente do abandono, evasão: [...] é uma quebra de frequência dentro do ano letivo ou o não retomo para a matrícula no ano seguinte e que resulta no encerramento da vida escolar do aluno. De forma genérica o abandono escolar potencializa a evasão escolar [...] é, portanto, medida a longo prazo, em uma abordagem da história de vida do aluno, quando em última instância, avalia-se a quantidade de anos de estudo da população fora da idade escolar” (IBGE, GEPE, 2000, p. 10). A evasão escolar é um reflexo das questões sociais decorrentes da desigualdade no Brasil, ao mesmo tempo, em que contribui para a continuidade dessa desigualdade ao perpetuar a exclusão, o que impede que uma parcela da sociedade tenha acesso ao conhecimento. É observado que no início do ano letivo, há uma alta demanda por matrículas e uma presença notável dos estudantes nas salas de aula. No entanto, ao longo do ano, muitos dos alunos matriculados deixam de comparecer às aulas. Além disso, existe um grupo de discentes que, motivados pela falta de estímulo, começam a se ausentar com frequência e, como resultado, acabam abandonando o processo educacional. É crucial ressaltar que o fenômeno da dificuldade escolar, originado pela evasão, não é uma característica exclusiva da EJA. Contudo, é evidente que esse desafio tem acompanhado de forma quase simbiótica a educação voltada para jovens e adultos. As razões que levam à interrupção da frequência escolar e, por conseguinte, à evasão, são claramente evidenciadas por fatores de natureza socioeconômica, como desemprego, mudanças no local de trabalho e carga horária excessiva, bem como por motivos de outras origens. Quando analisamos essa problemática, surgem considerações acerca da metodologia de ensino utilizada em sala de aula e da estrutura organizacional das escolas que oferecem aulas de EJA. A partir desses pontos, investigam-se as possíveis influências desses aspectos no contexto da evasão escolar entre os alunos. A educação insuficiente e a interrupção prematura dos estudos são sinais de uma estrutura social desigual. As habilidades fundamentais de leitura, escrita, compreensão e resolução de problemas são requisitos essenciais para a integração em uma sociedade alfabetizada. A aquisição da alfabetização é uma das vias para alcançar a cidadania plena. É importante considerar que os jovens e adultos não alfabetizados, ao buscarem oportunidades educacionais, visam adquirir habilidades de leitura e escrita. Isso ocorre porque, ao fazerem parte da sociedade, eles enfrentam inúmeras desvantagens em um mundo voltado para a alfabetização. Desde os primórdios da história humana até os dias de hoje, observamos uma série de transformações na sociedade, nos ideais, nas atitudes e nas percepções humanas. Esse processo evolutivo também teve um impacto nas transformações da educação. À medida que as sociedades humanas evoluem, o grau de complexidade cresce, demandando um nível mais elevado de educação para os indivíduos, a fim decapacitar a criação de soluções capazes de enfrentar os desafios que surgem. É reconhecido que o público da Educação de Jovens e Adultos (EJA) apresenta características distintas. São indivíduos excluídos do sistema educacional e, como resultado, têm pouca ou nenhuma experiência escolar. Além disso, estão integrados no mundo profissional, ocupando posições que não requerem qualificação. Essa realidade estabelece uma diferenciação entre os alunos da EJA e os alunos da educação regular, enfatizando a necessidade urgente de abordagens educacionais específicas. Essas abordagens devem considerar as particularidades de aprendizado e adotar métodos adequados ao contexto de trabalho desses indivíduos. A Lei nº 9.394/96 assegura a “oferta de educação escolar para jovens e adultos, com características e modalidades adequadas às suas necessidades e disponibilidade, garantindo-se aos que forem trabalhadores as condições de acesso e permanência na escola”. Dessa forma, as instituições de ensino podem serem estruturadas de maneira a atender às necessidades específicas dos estudantes que também estão inseridos no mercado de trabalho. No entanto, é possível observar que ainda existe uma tentativa de aplicar na EJA os mesmos modelos organizacionais presentes no ensino diurno regular. É crucial evitar que o ensino na Educação de Jovens e Adultos (EJA) simplesmente reproduza o formato de aula utilizado no ensino regular. Isso se deve à necessidade de considerar e compreender as circunstâncias específicas dos alunos que frequentam as aulas da EJA. A maioria desses alunos são adultos que dedicam pelo menos oito horas por dia ao trabalho e possuem uma variedade de ocupações, que vão desde atividades domésticas não remuneradas até empregos formais com carteira assinada em empresas ou em serviços públicos, como, por exemplo, vigilantes. Outros circulam entre várias outras ocupações: cozinheiras, arrumadeiras, diaristas, trabalhadores da construção civil. A organização vigente da escola convencional não abrange a realidade do aluno trabalhador e, consequentemente, contribui para sua exclusão. As estruturas administrativas são rígidas, o currículo não se adapta adequadamente, os métodos de ensino e os sistemas de avaliação refletem uma mentalidade seletiva que reproduz a lógica da meritocracia, ignorando as origens dos alunos de classes populares. Isso dificulta significativamente o acesso à aprendizagem para esses estudantes. A função da escola vai além de apenas assegurar a entrada dos alunos; é crucial priorizar sua continuidade. Nesse contexto, é essencial implementar abordagens pedagógicas que abarquem a complexa situação caracterizada por profundas disparidades sociais. É imperativo criar políticas públicas educacionais que se adéquem às particularidades e necessidades dos jovens e adultos que também são trabalhadores. Ao considerar um ambiente educacional voltado para jovens e adultos que também são trabalhadores, é fundamental reexaminar o modelo tradicional de escola. A instituição educativa deve perceber o aluno trabalhador como alguém que já possui conhecimentos, capaz de utilizar a educação para refletir sobre sua própria prática social, além de conseguir identificar e definir suas próprias necessidades de aprendizado. A abordagem pedagógica empregada no processo educativo deve ser construída de forma dialógica, permitindo a análise dos conhecimentos em discussão e facilitando o acesso a outras informações, contribuindo para o processo de recriação e reelaboração desses conhecimentos. A visão de que um adulto que não frequentou a escola é alguém sem conhecimentos, necessitando assim recuperar o tempo perdido ao abordar superficialmente e não aprofundada todo o conteúdo do Ensino Fundamental e Médio, contradizendo os princípios da educação libertadora e democrática. Ao focalizar a escolaridade não realizada ou interrompida no passado, o paradigma compensatório acabou por enclausurar a escola para jovens e adultos nas rígidas referências curriculares, metodológicas, de tempo e espaço da escola de crianças e adolescentes, interpondo obstáculos à flexibilização da organização escolar necessária ao atendimento das especificidades desse grupo sociocultural. Ao dirigir o olhar para a falta de experiência e conhecimento escolar dos jovens e adultos, a concepção compensatória nutre visões preconceituosas que subestimam os alunos, dificulta que os professores valorizem a cultura popular e reconheçam os conhecimentos adquiridos pelos educandos no convívio social e no trabalho. (DI PIERRO, 2005, p. 1118). O direito à educação vai além da simples oportunidade de permitir que jovens e adultos das classes populares tenham acesso às escolas através do aumento do número de vagas. É necessário proporcionar um processo educacional que se destaque pela inclusão real. Isso significa garantir o direito a uma educação de excelência para aqueles que foram anteriormente privados dos direitos fundamentais no contexto do exercício da cidadania. Até o momento, as abordagens na educação de jovens e adultos foram predominantemente baseadas em políticas governamentais, em vez de políticas de longo prazo. Essas políticas tendem a se manifestar como programas de compensação, construídos sobre iniciativas ou campanhas que visam alcançar um amplo espectro de indivíduos. Pode-se alegar que a Educação de Jovens e Adultos ainda não se encontra firmemente incorporada ao sistema convencional de ensino. Este sistema deveria oferecer uma base educacional fundamental adaptada a um grupo demográfico específico, levando em consideração os interesses, traços distintivos e situações pessoais dos alunos que estão envolvidos em atividades laborais. A abordagem centrada em políticas de compensação é aqui percebida como ações desvinculadas, programas de instrução temporários e simplificados, elaborados para mitigar as deficiências educacionais, reduzir os investimentos na esfera educacional e, ocasionalmente, melhorar indicadores estatísticos que frequentemente são empregados para fins de promoção política. Associar a Educação de Jovens e Adultos (EJA) à abordagem de continuidade da escolarização reflete uma perspectiva limitada, uma vez que essa visão ainda considera os jovens e adultos principalmente com base na ausência de educação anterior. Essa visão precisa ser reavaliada; o direito à educação deve ir além de simplesmente oferecer uma segunda chance de escolarização. Os alunos da EJA devem ser reconhecidos como sujeitos plenos de direitos educacionais. Um dos principais obstáculos para o progresso da Educação de Jovens e Adultos no Brasil reside no preconceito associado a essa abordagem educacional. Esse preconceito pressupõe que indivíduos que não concluíram a educação básica são de alguma forma inferiores e incapazes. Essa mentalidade é perpetuada tanto no ambiente social dos aprendizes quanto nas próprias instituições de ensino, contribuindo para uma baixa autoestima. Esse preconceito também contribui para a negligência e falta de atenção por parte das administrações públicas em relação às necessidades dessa modalidade educacional. A vivência do processo de exclusão social, fruto do agravamento da desigualdade social que se expressa na falta de moradia, não atendimento à saúde, falta de oportunidade de trabalho e, inclusive, não acesso à educação, é uma experiência que deixa profundas marcas nos seres humanos. São jovens e adultos que vão construindo, ao longo de suas vidas, uma auto- imagem marcada pela falta e pela negatividade. (GIOVANETTI, 2005, p. 244- 245). A Educação de Jovens e Adultos (EJA) deve se comprometer com a reversão das desigualdades sociais, que frequentemente já estão enraizadas e aceitas. Ao iniciar a partir do reconhecimento da situação social em que os alunos vivem, a EJA confronta o desafio da exclusão,em contraste com as ideias de integração, adaptação e aceitação passiva. Ao internalizar essa abordagem renovada, a EJA tem o potencial de desempenhar um papel eficaz na promoção de mudanças sociais. Conforme mencionado por Arroyo (2005), é de suma importância adotar uma perspectiva que não apenas considere a trajetória escolar dos educandos da Educação de Jovens e Adultos (EJA), mas também sua trajetória de vida, considerando sua posição como sujeitos sociais e culturais detentores de direitos plenos. Esse enfoque permitiria superar a abordagem negativa focada nas lacunas e carências. As contribuições advindas da EJA, no desencadeamento do processo de mudança social, ganham fortalecimento no legado construído pela educação popular que concebe o mundo pela ótica do movimento: “O mundo em que vivemos pode e deve ser transformado continuamente em algo melhor, mais justo e mais humano” (BRANDÃO, 2002, p. 168). Para além de perceber o mundo através da lente dinâmica do movimento, a base da educação popular sustenta uma concepção educacional que reconhece o indivíduo como sujeito ativo. Nesse contexto, a Educação de Jovens e Adultos (EJA), ao se inspirar nos princípios da educação popular, incorpora uma contribuição significativa: os alunos passam a ser reconhecidos como sujeitos moldados pela interação social e cultural. Essa abordagem possibilita transcender a visão simplificada e uniforme. De acordo com Dayrell (1996), o objetivo é entender os jovens e adultos em toda a sua diversidade, considerando-os como indivíduos que possuem uma trajetória histórica única. Quando são reconhecidos como sujeitos, os alunos da EJA são percebidos como indivíduos em constante evolução. Isso implica a crença em sua capacidade de superar os desafios associados à sua situação de exclusão social, uma vez que os adultos e jovens envolvidos na EJA não se submetem passivamente a uma realidade marcada pela desigualdade. Além de não se conformarem com essa condição, também se engajam em um processo contínuo de resistência, expressando sua insatisfação diante das dificuldades enfrentadas por meio de negociação e contestação. Os estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA) que abandonam a escola frequentemente permanecem nas proximidades dela, buscando se adaptar. Isso ocorre porque a escola é vista como um caminho para alcançar melhores condições de vida e um futuro mais seguro e promissor. Esses indivíduos deixam para trás um passado de trabalhos árduos, com pouco reconhecimento e remuneração insatisfatória. A evasão escolar é uma questão complexa no contexto educacional brasileiro. No entanto, essa mesma problemática assume proporções singulares na EJA. Um ser humano, independentemente do gênero, que teve seu acesso à educação negado durante a infância e que, mais tarde, na fase adulta, opta por buscar conhecimento, o faz com uma determinação inabalável para enfrentar a discriminação e as barreiras vindas tanto de sua própria família quanto da escola e da sociedade em geral. Um erro nesse ponto crucial tem o potencial de gerar consequências significativas ao longo da trajetória desses indivíduos. Estabelecer vias para que todos os cidadãos brasileiros possam participar da educação, abrangendo crianças, adolescentes, jovens e adultos, vai além de simplesmente cumprir com as obrigações estipuladas pelas leis que determinam a oferta de educação básica universal. É imperativo criar circunstâncias que permitam a permanência contínua dos estudantes e assegurem uma aprendizagem genuína. Estudos recentes destacam que a evasão tem sido uma preocupação persistente nos Programas de Educação de Jovens e Adultos. Essas taxas elevadas de abandono podem sugerir, entre outras questões, uma falta de afinidade entre a escola e os alunos que se matriculam nesses programas. É importante observar que isso não significa desconsiderar os fatores socioeconômicos que podem impedir ou dificultar a continuidade da educação para aqueles que decidem retomar ou iniciar seus estudos na idade adulta. A evasão escolar é um tópico constante de debates e reflexões no contexto da educação pública no Brasil e, lamentavelmente, ainda mantém sua importância atualmente, influenciando as políticas públicas e a educação em geral. Diante dessa realidade, as conversas sobre evasão escolar frequentemente focam na busca por compreender as verdadeiras razões que levam a esse fenômeno. 7.1 Principais causas da evasão de jovens e adultos A complexidade subjacente à problemática da evasão escolar de jovens e adultos reside na ausência de uma única determinação e contexto definidos. Em contraste, a evasão está intrinsecamente ligada a múltiplos determinantes e contextos diversos. A análise das causas da evasão escolar adota uma abordagem multirreferencial, ampliando a compreensão das diversas facetas que indicam a ausência dos alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) no processo educativo. Acredita-se que a interrupção das etapas de escolarização esteja associada a uma variedade de fatores de naturezas distintas, como aspectos sociais, culturais, políticos, econômicos e pedagógicos. Esses fatores são considerados determinantes que contribuem para a falta de democratização da educação. Este tópico visa explorar os fatores que contribuem para a evasão de indivíduos na EJA, uma vez que restringir a análise da evasão escolar à perspectiva do fracasso acadêmico é uma abordagem limitada para compreender completamente essa questão. A análise centrada apenas no fracasso escolar não abrange adequadamente o estudo abrangente desse fenômeno. Essa limitação decorre do equívoco de tentar abordar o problema da evasão sem uma análise aprofundada das condições estruturais nas quais os alunos estão inseridos. Conforme apontado por Gadotti (2000), a evasão na Educação de Jovens e Adultos (EJA) é influenciada por diversas causas, que abrangem aspectos sociais, políticos, culturais e pedagógicos. Entre as causas pedagógicas, destaca-se a ausência de uma abordagem pedagógica que integre as disciplinas, uma vez que no mundo real essas áreas não se encontram isoladas. Isso é especialmente relevante, considerando que adultos trazem consigo um conjunto de conhecimentos construídos através da experiência social, sendo essencial que eles possam se relacionar com os conteúdos propostos em cada disciplina. O processo de industrialização e urbanização acarretou transformações sociais significativas, as quais trouxeram consigo novas demandas por formação educacional, ampliando o espaço destinado à educação formal. Um reflexo dessa mudança é observado no aumento do número de jovens e adultos que, anteriormente excluídos da Educação Básica, retornam à escola e participam de programas de Educação de Jovens e Adultos (EJA). Um exemplo que ilustra essa tendência é o contexto de 1950, quando o nível de educação primária frequentemente era suficiente para garantir acesso a diversas oportunidades de emprego no mercado de trabalho. Entretanto, nas décadas subsequentes e especialmente durante os anos 1990, observou-se um aumento na demanda por níveis mais elevados de educação para garantir a inserção no mercado de trabalho. Essa ênfase na necessidade de qualificação superior foi acentuada, conforme apontado por Zago (2000), devido à pressão exercida pela classe média em favor do ensino superior. A maioria dos estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA) aponta a busca por melhorias profissionais e ocupacionais como o motivo principal para retornar à escola. Essa constatação se respalda na percepção de que a instituição educacional ainda é vista como um ambiente capaz de proporcionar avanços na qualidade de vida das pessoas. Embora os motivos individuais possam diferir, é evidente que a maioria expressiva dos alunos que frequentam a Educação de Jovens e Adultos (EJA)retoma sua educação com o objetivo claro de alcançar uma notável melhoria em suas circunstâncias de vida. É uma observação recorrente ouvir de jovens e adultos que retornam à educação que sua formação anterior é considerada insuficiente. Muitas vezes, eles mencionam que em tempos passados, como o de seus pais e avós, possuir uma educação de nível primário era o suficiente. No entanto, mesmo com esse reconhecimento, o fenômeno da evasão escolar entre os jovens e adultos persiste. É crucial enfatizar que as situações resultantes na condição de jovens e adultos não escolarizados são consequências diretas do processo de desigualdade social. Essa triste realidade obriga esses jovens a optarem pelo trabalho como meio de sobrevivência, muitas vezes em detrimento de sua educação. A mesma realidade os impulsiona a retornar à escola na tentativa de melhorar suas chances de entrada no mercado de trabalho. Eles buscam atender às exigências estabelecidas pela competitividade no mercado de trabalho, frequentemente como uma condição imediata para garantir um emprego. Adicionalmente, há uma esperança entre eles em relação à escola como um possível meio de superar as condições de pobreza. Entretanto, esse retorno frequentemente acontece de maneira precária, manifestando-se mediante tentativas de voltar a frequentar a escola em horários noturnos ou por meio de cursos de suplência de curta duração. A reintegração desses alunos ao ambiente escolar muitas vezes é motivada principalmente pela pressão do mercado de trabalho. Isso ocorre porque os setores que oferecem oportunidades de emprego na sociedade contemporânea passam a demandar níveis mais avançados de conhecimento, habilidades e competências por parte dos indivíduos. Diante dessa situação, muitos estudantes passam por um processo de desilusão. Eles acreditam na oportunidade de entrar no competitivo mercado de trabalho formal ao se educarem. No entanto, ao retornarem à escola, muitos jovens estão mais preocupados em obter documentos que atestem sua certificação formal do que em realmente absorver o conhecimento escolar. Como resultado, aqueles que não conseguem obter sucesso na busca pela certificação escolar tendem a assumir uma posição em que atribuem a si mesmas características negativas, como incompetência e desinteresse. A idealização da individualidade leva os estudantes a acreditar que a responsabilidade pela sua permanência na escola recai totalmente sobre eles, e que cabe aos professores apenas a função de motivá-los e orientá-los. Conforme as reflexões de Castro (1997), a atribuição de responsabilidade ao aluno por seu insucesso escolar está enraizada nos princípios educacionais da ideologia liberal. Essa perspectiva oferece justificativas que validam e endossam a estrutura hierárquica da sociedade, ao mesmo tempo, em que visa convencer as pessoas de que a única entidade responsável pelo êxito ou fracasso de cada indivíduo no âmbito social é o próprio indivíduo, e não a configuração da sociedade como um todo. Jovens originários de famílias de baixa renda, que se viram obrigados a interromper sua educação durante a infância, enfrentam os desafios de se reintegrar ao mercado de trabalho sem possuírem o nível adequado de habilidades. Essa situação os relega a um estado de desemprego persistente, no qual lhes é negado o acesso a empregos mais seguros e estáveis, privando-os do direito a condições laborais mais seguras e menos precárias. Para a maioria expressiva dos indivíduos jovens e adultos que participam da Educação de Jovens e Adultos (EJA), o trabalho ocupa uma posição de extrema importância em suas vidas. Isso é frequentemente resultado da responsabilidade financeira que eles têm, sustentando um número considerável de familiares. Dessa forma, eles enfrentam uma carga de trabalho considerável, muitas vezes excessiva, e frequentemente se veem compelidos a fazer a escolha entre o emprego e os estudos. Isso se dá porque o trabalho se apresenta como a única via viável para garantir a sobrevivência, o que faz com que muitos desses alunos tenham que priorizar o emprego em detrimento da educação. A exclusão dos estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA) do processo educacional não é apenas resultado do impacto do trabalho. A violência presente nos grandes centros urbanos e regiões metropolitanas também exerce uma influência direta no funcionamento das escolas. Considerando que o horário de funcionamento da Educação de Jovens e Adultos é predominantemente à noite, os educadores ficam sem opção a não ser suspender as aulas por um período, o que na maioria das vezes os jovens e adultos tomados pelo medo e insegurança e ainda o total abandono do Estado nestas localidades, optam por não mais voltar às escolas. A localização das escolas também foi identificada como uma das razões subjacentes à evasão. Escolas situadas em áreas de difícil acesso e distantes das residências, combinadas com ruas mal iluminadas e o aumento da violência nos ambientes urbanos, geram um sentimento de medo. Esse medo, muitas vezes, afeta especialmente as mulheres, levando-as a desistirem de prosseguir com os estudos. Para muitos pais, a escola continua sendo vista como uma maneira de manter seus filhos afastados de situações violentas. No entanto, é lamentável que muitos jovens sejam atraídos pela perspectiva de ganhos financeiros rápidos e pela falta de oportunidades de emprego qualificado. Como resultado, eles abandonam a escola para se envolverem no tráfico de drogas. Esses jovens são enganados pela falsa promessa de alcançar ascensão social e prestígio que uma educação precária não conseguiu proporcionar. Sobre isso: [...] as famílias das camadas populares valorizam a instrução escolar ancoradas em dois aspectos: no primeiro, vê a escola como propiciadora dos domínios dos saberes fundamentais e integração ao mercado de trabalho e, no segundo, a escola se apresenta como espaço de socialização e proteção dos filhos do contato com a rua e as drogas (NOMA; CHILANTE, 2009, p. 235). Além da violência, há uma série de outros fatores interligados à situação social e econômica dos jovens e adultos que contribuem para o problema da evasão escolar. A ausência de políticas governamentais que assegurem não apenas o direito à educação, mas também direitos fundamentais como segurança, emprego, moradia e saúde, amplifica a questão da evasão. Diante das condições socioeconômicas desfavoráveis enfrentadas pelos jovens no Brasil, observa-se que muitos problemas de saúde, que eram tradicionalmente associados apenas a pessoas mais velhas, estão agora afetando também os jovens. Certamente, problemas de saúde como a acuidade visual são frequentes entre esse público. A dificuldade de enxergar de maneira adequada pode impedir que jovens, adultos e idosos desenvolvam habilidades de leitura e escrita. Ao se sentirem incapazes de adquirir essas competências devido à limitação visual, muitos podem acabar optando por abandonar suas aulas. Além dessa questão específica de saúde, sendo particularmente comum entre os jovens e ainda mais acentuada entre adultos acima dos 40 anos, também são observados outros problemas de natureza física e psicológica que transcendem o âmbito pedagógico. Esses problemas podem incluir dificuldades de locomoção, que tornam a participação nas atividades escolares mais desafiadoras, bem como questões psicológicas que afetam a compreensão e a capacidade de aprendizado. A interação entre a saúde física e mental e o processo de aprendizagem destaca a importância de abordar a educação de forma holística, considerando não apenas os aspectos puramente acadêmicos, mas também as necessidades de saúde e bem-estar dos alunos. Isso requer uma abordagem integrada que envolva não apenas educadores, mas também profissionais de saúde e outras áreas relevantes. É evidenteque entre os profissionais da educação, incluindo diretores e coordenadores pedagógicos, existe uma visão que associa a evasão de alunos na Educação de Jovens e Adultos (EJA) a uma série de fatores complexos. Esses especialistas apontam para a falta de merenda escolar como um obstáculo, particularmente quando os alunos dependem dela para garantir refeições adequadas durante o dia. Adicionalmente, os desafios de uma jornada de trabalho extenuante, bem como a natureza temporária de muitos empregos que levam a mudanças frequentes de residência, também são fatores que desempenham um papel significativo na evasão. A falta de conscientização sobre a importância da educação e o desinteresse dos alunos mais jovens também foram mencionados como fatores relevantes. Além disso, a ausência de esforços direcionados para a capacitação dos professores e a utilização de materiais didáticos ultrapassados e inadequados para a Educação de Jovens e Adultos também emergem como desafios que afetam a qualidade do ensino e, por consequência, a sua permanência. É evidente que questões relacionadas à dinâmica familiar e resquícios de discriminação de gênero ainda persistem, tornando a busca educacional das mulheres mais difícil, especialmente à noite. A influência da cultura e dos papéis tradicionais de gênero ainda afeta muitas mulheres, pois algumas delas encontram resistência de seus maridos para frequentar a escola, uma vez que esses homens têm uma visão arraigada de que o papel da mulher é restrito às tarefas domésticas e cuidado com os filhos. Esses conflitos familiares e atitudes discriminatórias têm um impacto psicológico profundo e negativo nas mulheres, dificultando sua permanência e sucesso na busca pela educação. A família, muitas vezes inconscientemente, pode agir como um obstáculo ao invés de um apoio, criando diversas formas de opressão que desencorajam as mulheres a prosseguir com seu processo educacional. De fato, a família desempenha um papel crucial no incentivo e na cobrança de disciplina dos estudantes durante o processo educacional. No entanto, as condições objetivas enfrentadas pela classe trabalhadora frequentemente resultam na necessidade de fazer escolhas difíceis entre cuidar dos filhos, netos, pais ou continuar a busca pela educação. O que fica claro é que muitos indivíduos optam por priorizar o bem-estar e a segurança de suas famílias, em vez de prosseguir com seus próprios percursos educacionais. É verdade, a questão da evasão escolar na Educação de Jovens e Adultos (EJA) é complexa e multifacetada, resultando em uma variedade de perspectivas entre os autores que abordam o assunto. Como afirma Carraher: Deficiências nas funções psiconeurológicas, bases para a leitura e matemática, conceitos básicos, operações cognitivas e linguagem, um auto conceito pobre, sentimento de culpa e vergonha, problemas familiares desconhecimento da própria cultura, etc (CARRAHER, apud, FERNANDES, 2002, p 43). A evasão escolar é uma realidade que transcende as fronteiras da educação formal, estando presente em todos os contextos onde a educação é oferecida, independentemente da faixa etária dos alunos. Sua incidência pode variar em diferentes graus, muitas vezes refletindo as disparidades econômicas entre os alunos e suas famílias. Assim, é importante destacar que o fenômeno da evasão não se restringe à Educação de Jovens e Adultos (EJA) e é observado em diversos níveis de ensino. 8 APLICAÇÃO DAS TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS As Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) surgem da convergência entre os campos da informática, telecomunicações e mídias eletrônicas, interligando- se com os processos de informação e comunicação individuais. Amplamente, exemplifica-se a presença dessas tecnologias em nosso cotidiano por meio do sistema operacional Android, dos veículos inteligentes e dos jogos online (SILVA,2003). No âmbito escolar, a adoção das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) desempenha um papel fundamental tanto no gerenciamento administrativo quanto no pedagógico. Um exemplo é o computador, que simplifica a organização de informações e dados, permitindo a geração de históricos, o registro de notas e outras tarefas administrativas. Além disso, a incorporação da internet possibilita uma interconexão entre disciplinas quase ilimitadas, aprimorando a experiência de aprendizado dos alunos (MORAN; MASETTO; BEHRENS, 2003). Além disso, a quinta competência da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) prevê a utilização de TICs digitais como uma ferramenta para a construção de conhecimento, o desenvolvimento de habilidades e a formação de atitudes e valores, como destacado no trecho a seguir: Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva (BRASIL, 2017, p. 9). No contexto da Educação de Jovens e Adultos (EJA) e considerando a prevalente utilização de dispositivos móveis, especialmente celulares, em sala de aula, é essencial ressaltar que o emprego destes dispositivos para finalidades que não sejam educacionais ou inclusivas inevitavelmente leva a resultados insatisfatórios, como era de se prever. Inúmeros estudos enfatizam a relação entre o uso de dispositivos móveis como ferramentas de inclusão e difusão tecnológica, em contraposição ao seu uso restrito para fins de entretenimento durante as atividades escolares (SANTOS, 2013; RUTHES, 2018). O desafio que se apresenta é justamente incorporar esses dispositivos como aliados no processo de ensino e aprendizagem, impedindo que os alunos se desviem do foco da aula ao utilizá-los. De acordo com pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), oito a cada 10 domicílios no país utilizam a internet, sendo o celular o dispositivo mais utilizado para acessá-la: 79% dos brasileiros possuem um celular (IBGE EDUCA,2021). Então, por que não utilizar esses dispositivos e essas tecnologias para permear novas possibilidades dentro da EJA? Nessa perspectiva, as Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) têm o potencial de influenciar aspectos cognitivos significativos, como a atenção, o raciocínio, a flexibilidade mental e, em última instância, o próprio processo de aprendizado. Além disso, essas tecnologias podem ser empregadas como instrumentos inclusivos, especialmente para alunos de faixa etária mais avançada, que frequentemente enfrentam desafios ao lidar com tais dispositivos (QUIROZ; TEALDO, 1996; PORTO, 2006). Paulo Freire (2001, p. 98) reitera: A educação não se reduz à técnica, mas não se faz educação sem ela. Utilizar computadores na educação, em lugar de reduzir, pode expandir a capacidade crítica e criativa de nossos meninos e meninas. Dependendo de quem o usa, a favor de que e de quem e para quê. O homem concreto deve se instrumentar com o recurso da ciência e da tecnologia para melhor lutar pela causa de sua humanização e de sua libertação. Nesse contexto, é relevante ressaltar a considerável diversidade que caracteriza as turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA). Estas classes abrangem alunos de diferentes idades e trajetórias educacionais, o que por vezes dificulta a criação de atividades padronizadas, ou seja, atividades que não possam ser adaptadas. Diante disso, ganham destaque propostas que fomentem a expressão dos conhecimentos e das experiências de vida desses indivíduos, por meio de um diálogo construtivo entre educadores e educandos. Essa abordagem visa transcender as situações de desigualdade social. Somente dessa maneira é possível efetivamente promover aequidade entre todos os participantes do processo educacional (VOVIO; KLEIMAN, 2013; FREIRE, 2001; FERNANDEZ; 2015). Para atingir esse objetivo, uma premissa crucial deve ser observada: o despertar do interesse. É de suma importância instigar o interesse dos educandos, pois isso possibilita que eles se abram para as propostas educacionais, vivenciando- as plenamente e, assim, abrindo portas para novos conhecimentos e perspectivas, como defendido por Freire (2001, p. 98). Vale ressaltar que a simples utilização das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) não assegura, por si só, o sucesso pedagógico. É imprescindível planejar situações de aprendizado que sejam mediadas por essas tecnologias, promovendo momentos colaborativos e cooperativos entre educadores e educandos (MORAN, 2000; MASETTO, 2000). Essa integração das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) no contexto da Educação de Jovens e Adultos (EJA) requer que os educadores estejam dispostos a manter uma atitude de aprendizado constante. Afinal, as atualizações e novas versões das TICs acontecem em ritmo rápido e com grande diversidade. É necessário estar aberto a ajustar o curso diante das novas demandas tecnológicas, adaptando as atividades planejadas para incorporar não apenas os recursos mais recentes, mas também considerando a capacidade de assimilação dos educandos. Essa antítese é bem exemplificada pela obra Formação de professores: tecnologias e linguagens, de Barreto (2002, p. 75): A mulher entra no quarto do filho decidida a ter uma conversa séria. De novo, as respostas dele à interpretação do texto na prova sugerem uma grande dificuldade de ler. Dispersão pode ser uma resposta para parte do problema. A extensão do texto pode ser outra, mas nesta ela não vai tocar porque também é professora e não vai lhe dar desculpas para ir mal na escola. Preguiça de ler parece outra forma de lidar com a extensão do texto. Ele está, de novo, no computador, jogando. Levanta os olhos com aquele ar de quem pode jogar e conversar ao mesmo tempo. A mãe lhe pede que interrompa o jogo e ele pede à mãe “só um instante para salvar”. Curiosa, ela olha para a tela e se espanta com o jogo em japonês. Pergunta-lhe como consegue entender o texto para jogar. Ele lhe fala de alguma coisa parecida com uma “lógica de jogo” e sobre algumas tentativas com os ícones. Diz ainda que conhece a base da história e que, assim, mesmo em japonês, tudo faz sentido. Aquela conversa acabou sendo adiada. A mãe-professora não se sentia pronta naquele momento. O breve trecho do texto destaca como o processo pedagógico ocasionalmente pode ocorrer de maneira inversa entre o educador e o educando, por ser essencial reconhecer que todos os indivíduos possuem algum nível de conhecimento, experiências, desejos e raciocínio singular, que podem ser incorporados ao processo educativo. A importância da incorporação das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) na educação, especialmente na Educação de Jovens e Adultos (EJA), é amplamente discutida na literatura especializada. No entanto, o percurso ou a metodologia que os educadores devem seguir em sua abordagem é bastante individualizado. Como mencionado anteriormente, essa abordagem depende da experiência tanto do educador/docente quanto dos educandos, além dos recursos tecnológicos disponíveis. Diante do desafio de introduzir as TICs na EJA, é crucial considerar as bases da educação básica. A EJA se divide em dois níveis, o qual são o ensino fundamental e o ensino médio, acumulando seus próprios conhecimentos (SILVA, 2003; MORAN; MASETTO; BEHRENS, 2003; SANTOS, 2013; RUTHES, 2018). Por fim, é crucial ressaltar que a utilização das Tecnologias de Comunicação e Informação (TCIs) na Educação de Jovens e Adultos (EJA) não deve ser considerada apenas como um veículo de inclusão social e digital impactante, mas também como uma ferramenta de mediação essencial para o conhecimento, a reflexão e o desenvolvimento da capacidade crítica do indivíduo. Isso conduz o educando a um espaço de protagonismo e ação em sua própria educação. Cabe ao educador avaliar quais tecnologias são mais adequadas dentre as disponíveis e qual é o nível de conhecimento e familiaridade que seus educandos possuem. Isso permitirá que o docente mediei, da melhor maneira possível, um processo de ensino e aprendizagem alinhado com as oportunidades oferecidas pelo mundo digital. Além da necessária integração das TICs no processo educacional da Educação de Jovens e Adultos (EJA), a contemporaneidade também apresenta outras abordagens pedagógicas, como o ensino híbrido e o ensino à distância, nos quais o educador assume o papel de mediador no processo de aprendizado do aluno, mesmo que não esteja fisicamente presente. 8.1 Conhecendo os temas contemporâneos transversais Os Parâmetros Curriculares Nacionais representaram o pioneiro documento a introduzir na educação do Brasil a abordagem interdisciplinar e a inclusão dos temas transversais (BRASIL,1997). Essa abordagem transcende os conteúdos curriculares convencionais, visando a promover uma formação global dos estudantes e a incentivar a discussão e a formulação do pensamento crítico. Em 2019, é publicado o documento denominado Temas Contemporâneos Transversais na BNCC: Proposta de Práticas de Implementação, no qual são delineadas certas modificações e revisões nos temas transversais (BRASIL, 2019). Seu objetivo é fornecer opções e fomentar uma abordagem pedagógica não apenas interconectada e unificada, mas também com uma aplicação prática, aproximando os conceitos da teoria à prática e à realidade. Ele visa promover uma educação que atribui menos importância ao mero registro de informações e prioriza, em vez disso, a formação completa e abrangente do estudante. Cordeiro e Dravet (2019, p. 76) fazem uma interpretação muito certeira da finalidade dos TCTs, apontando que essa educação voltada para a transdisciplinaridade auxilia a "[...] religar o que antes estava separado, mas tudo isso ainda depende da adoção da lógica ternária que ajuda a unir o que aparentemente e culturalmente está desunido na escola, desde pessoas até conteúdos soltos e isolados [...]". Outro ponto fundamental está inserido no próprio termo, que é a palavra “transversal”. Ela nos transporta para o princípio da transversalidade, que não chega a ser uma metodologia, mas um elemento fundamental quando abordamos metodologias ativas — estas, sim, interferem diretamente na prática pedagógica. Inserir-se em uma perspectiva da transversalidade significa criar possibilidades de integrar diversos conhecimentos, conseguindo ultrapassar uma concepção fragmentada, em direção a uma visão sistêmica do conhecimento, entendendo-os como parte de um todo (BRASIL, 2019). Os TCTs encontram-se divididos em seis eixos temáticos distintos: economia, saúde, meio ambiente, multiculturalismo, ciência e tecnologia, cidadania e civismo. Cada um desses eixos possui suas próprias características particulares. É importante destacar que os eixos operam como um guia orientador, em vez de um dispositivo regulador ou de delimitação, uma vez que visam a apresentar uma trajetória que abarca elementos essenciais para a educação do estudante. Isso permite ao professor explorar outras abordagens caso surja a demanda ou o interesse por parte dos alunos. No âmbito de cidadania e civismo, o intuito é permitir que o estudante reflita sobre as normas e valores que regem a conduta humana. Já o multiculturalismo reflete em conhecer, respeitar e conviver com as diferenças individuais e culturais dos espaços que o estudante frequenta. Na saúde, são apontadas questões sobre o que é saúde, como funciona o corpo em diferentes situações, etc (BRASIL, 2019). Já em meio ambiente, a ideia é que o estudante avalie a pensar como as ações cotidianas impactam no meio ambientecomo um todo, criando possibilidades de consumo, que sejam amigáveis com a natureza. Quando abordamos ciência e tecnologia, é importante ter em mente que elas já fazem parte do nosso cotidiano e da educação. Então é necessário desenvolver as formas de utilizá-las em prol do conhecimento e não apenas de entretenimento, podendo entrar em questões mais técnicas, como a programação. E quando abordamos o eixo economia, a ideia é compreender o significado do dinheiro, os impostos que impactam no nosso cotidiano, por exemplo (BRASIL, 2019). Dessa forma, é possível perceber a importância de o professor estar ciente dos TCTs e utilizá-los de maneira assertiva, buscando criar discussões, debates e reflexões pertinentes e significativas em suas aulas. 8.2 Integrando os temas contemporâneos transversais com o currículo da educação de jovens e adultos A EJA é uma modalidade de ensino que tem como objetivo garantir a continuidades dos estudos daqueles que não tiveram "[...] acesso ou continuidade de estudos no ensino fundamental e médio na idade própria [...]" (BRASIL, 1996, documento on-line). Nesse sentido, mesmo quando se visa oferecer os estágios iniciais da educação básica para pessoas nessas condições mencionadas, as abordagens, os propósitos e as metodologias dessa modalidade de ensino são distintos, ajustando-se às idades e às particularidades da população envolvida. Embora a Educação de Jovens e Adultos (EJA) possua algumas características distintas, é crucial proporcionar uma educação abrangente e reflexiva, que estabeleça conexões entre o conhecimento teórico e a realidade, incorporando os eventos que afetam os estudantes. Esse enfoque continua a ser significativo e essencial. Essa perspectiva vem de encontro a uma ideia de formação para a cidadania, buscando uma participação social democrática e pacífica de um sujeito que compreende, entende e respeita a diversidade, apoiando-se no conhecimento para determinar suas ações (BRASIL, 1998). Ao abordar as Tecnologias de Comunicação e Informação (TCTs) na Educação de Jovens e Adultos (EJA), é crucial que o professor esteja ciente de que está lidando com adultos que vivenciam diversas realidades em seu dia a dia. Nesse contexto, é fundamental criar oportunidades para que esses adultos aprendam algo que tenha um impacto direto em suas atividades profissionais ou que os ajude a resolver problemas reais que enfrentam diariamente. Essa abordagem certamente cativa a atenção dos estudantes durante as aulas, uma vez que vincular o conteúdo ao seu cotidiano e ao mundo ao seu redor torna o aprendizado mais tangível e significativo. Vale ressaltar que é possível ampliar a abordagem das TCTs para além do que está estabelecido nos documentos oficiais, adaptando-se às necessidades específicas da comunidade escolar (FERRAZ, 2019). Dessa forma, a integração de tópicos interdisciplinares no plano de estudos escolares revela-se crucial para a análise de questões prementes e emergentes inerentes à sociedade, viabilizando uma profunda contemplação dos conteúdos. O plano curricular destinado à Educação de Jovens e Adultos (EJA), emitido pelo Ministério da Educação, revela que uma parcela substancial dos educadores declara empregar os temas interdisciplinares em suas aulas, ainda que focalizem principalmente aqueles mais afins ao âmago disciplinar que lecionam. Além disso, o documento aponta as ferramentas utilizadas para desenvolver os temas transversais nas aulas. São eles: debates (31%); palestras (19%); vídeos (14%); pesquisas (13%); trabalhos em grupo (12%); e aulas expositivas (10%), o que mostra uma variedade de possibilidades (BRASIL, 2002). Em seu estudo conduzido no ano de 2019, Ferraz examinou a interação entre os professores que atuam na EJA e seus alunos. O foco da pesquisa compreendeu as razões subjacentes à incorporação dos Temas Transversais Contemporâneos (TCTs) no contexto das aulas, bem como a percepção dos alunos em relação a essas práticas. Os resultados obtidos revelam que os alunos demonstraram um nível significativo de reconhecimento em relação aos TCTs. Isso se deve ao fato de que esses temas abordam questões práticas e tangíveis, com um impacto direto em suas vidas cotidianas. Um exemplo ilustrativo é o testemunho de uma aluna da EJA, que relatou como as aulas a auxiliaram na compreensão do funcionamento do sistema reprodutivo. Essa compreensão lhe proporcionou meios para evitar uma gravidez indesejada, permitindo-lhe planejar o momento mais adequado para conceber um filho. Este depoimento é de uma importância inestimável por evidenciar de maneira concreta como o conhecimento transmitido durante as aulas teve um impacto direto e transformador na vida da aluna. Ao questionar os professores, apontamos aqui um dos excertos da entrevista realizada por Ferraz (2019, p. 26) nos seus estudos: [...] para o aluno EJA, deve-se fugir do rigor dos livros e tratar com eles coisas que têm um significado na sua vida pessoal, coisas que possam aprender aqui e usar no cotidiano deles. Então surgiu disso, de uma clara ideia de dar significado ao que eles estudam. Essa expressão traz consigo uma carga profunda de significado em relação ao propósito da educação na Educação de Jovens e Adultos (EJA), bem como à imperativa necessidade de estruturar o material didático usando os Temas Transversais Contemporâneos (TCTs) como um elemento condutor que confere propósito, gera transformação e insufla significância ao conteúdo, visando torná-lo mais próximo e acessível ao estudante. Isso se baseia na valorização da liberdade e autonomia dos alunos, estabelecendo uma relação bidirecional na qual o aprendizado não é apenas unidirecional; o estudante não só absorve, mas também partilha seu próprio conhecimento (FREIRE, 2002). As narrativas dos professores e dos alunos mencionados acima reafirmam a importância de incorporar os Temas Transversais Contemporâneos (TCTs) nessa fase educacional. Eles destacam maneiras de adquirir conhecimento formal por meio de abordagens diretas e informais, evitando linguagem complexa e sendo altamente representativos e acessíveis para aqueles que estão recebendo o conhecimento (CAMPOS et al., 2010). Em seu estudo, Ferraz (2019, p. 21) sublinha a relevância de: [...] proporcionar ao educando da EJA o ideal proposto pelo trabalho com os temas transversais, ou seja, as lições de cidadania, o cuidado com a saúde, as orientações sobre sexualidade, o conhecimento do mundo do trabalho, o estudo e a preservação do meio ambiente são temáticas que intrinsecamente já fazem parte do cotidiano educacional da EJA. Isso ocorre porque, frequentemente na EJA, a instituição escolar é o único ambiente no qual os estudantes têm a chance de participar de diálogos, esclarecer suas incertezas e engajar em debates. Essa realidade, combinada com a falta de oportunidades que a maioria das pessoas nessa situação enfrenta, ressalta o papel social e transformador da educação. Nesse contexto, o professor atua como um agente de mudança, desempenhando um papel crucial em criar um ambiente educacional onde essa dinâmica ocorra. Isso é alcançado por meio da construção de conexões sólidas baseadas em relações interpessoais, algo que serve como uma plataforma para esse fenômeno acontecer (FERRAZ, 2019). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVES, R. Entre a ciência e a sapiência. São Paulo. Loyola, 2007. AMBROSETTI, N.B.O “eu” e o “nós”: trabalhando com a diversidade em sala de aula: In: ANDRÉ, M. Pedagogia das diferenças na sala de aula. 4. ed. Campinas: Papirus, 2002. ANDRE, M. E. D. A.; PASSOS, L. F. Avaliação escolar: desafios e perspectivas. In: CASTRO, A. D.; CARVALHO, A. M. P. (Org.). Ensinar a ensinar: didática para a escola fundamental e média. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2002. ARREDONDO,S. C. Educacion a distancia: bases conceptuales y perspectivas mundiales. In: MARTINS, O. B; POLAK, Y. N.; SÁ, R. A. (Org.). Educação a distância: um debate multidisciplinar. Curitiba: NEAD/UFPR, 1999. ARROYO, M. G. Currículo, território de disputa. Petrópolis: Vozes, 2013. ARROYO, Miguel González. 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