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Autora: Profa. Mariana Garcia Colaboradoras: Profa. Cristiane Jaciara Furlaneto Profa. Laura Cristina da Cruz Dominciano Fisiologia Animal Comparada Professora conteudista: Mariana Garcia Graduada pela Universidade Paulista (UNIP) em 2009. Durante o curso, realizou iniciação científica em classificação e identificação de formigas. À época, irrompeu seu interesse pelos invertebrados. Subsequentemente, atuou como educadora na construção do primeiro zoológico de insetos do Brasil. Possui mestrado em Sanidade Vegetal, Segurança Alimentar e Ambiental no Agronegócio pelo Instituto Biológico (2013). Atualmente, é professora na Universidade Paulista. © Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Universidade Paulista. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) G216f Garcia, Mariana. Fisiologia Animal Comparada. / Mariana Garcia. – São Paulo: Editora Sol, 2023. 136 p., il. Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e Pesquisas da UNIP, Série Didática, ISSN 1517-9230. 1. Fisiologia. 2. Sistemas circulatórios. 3. Sistemas nervosos. Título. CDU 611 U518.19 – 23 Profa. Sandra Miessa Reitora Profa. Dra. Marilia Ancona Lopez Vice-Reitora de Graduação Profa. Dra. Marina Ancona Lopez Soligo Vice-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa Profa. Dra. Claudia Meucci Andreatini Vice-Reitora de Administração e Finanças Prof. Dr. Paschoal Laercio Armonia Vice-Reitor de Extensão Prof. Fábio Romeu de Carvalho Vice-Reitor de Planejamento Profa. Melânia Dalla Torre Vice-Reitora das Unidades Universitárias Profa. Silvia Gomes Miessa Vice-Reitora de Recursos Humanos e de Pessoal Profa. Laura Ancona Lee Vice-Reitora de Relações Internacionais Prof. Marcus Vinícius Mathias Vice-Reitor de Assuntos da Comunidade Universitária UNIP EaD Profa. Elisabete Brihy Profa. M. Isabel Cristina Satie Yoshida Tonetto Prof. M. Ivan Daliberto Frugoli Prof. Dr. Luiz Felipe Scabar Material Didático Comissão editorial: Profa. Dra. Christiane Mazur Doi Profa. Dra. Ronilda Ribeiro Apoio: Profa. Cláudia Regina Baptista Profa. M. Deise Alcantara Carreiro Profa. Ana Paula Tôrres de Novaes Menezes Projeto gráfico: Prof. Alexandre Ponzetto Revisão: Vitor Andrade del Mastro Juliana Mendes Fisiologia Animal Comparada APRESENTAÇÃO ......................................................................................................................................................7 INTRODUÇÃO ...........................................................................................................................................................7 Unidade I 1 SISTEMAS NERVOSOS .......................................................................................................................................9 1.1 Cnidários .................................................................................................................................................. 15 1.2 Platelmintos ............................................................................................................................................ 16 1.3 Moluscos .................................................................................................................................................. 17 1.4 Anelídeos ................................................................................................................................................. 18 1.5 Artrópodes............................................................................................................................................... 19 1.6 Vertebrados ............................................................................................................................................. 20 1.7 Sistemas sensoriais ............................................................................................................................. 24 1.8 Receptores sensoriais.......................................................................................................................... 25 1.8.1 Quimiorreceptores .................................................................................................................................. 27 1.8.2 Mecanorreceptores ................................................................................................................................ 30 1.8.3 Receptores táteis..................................................................................................................................... 30 1.8.4 Equilíbrio e audição ............................................................................................................................... 31 1.9 Fotorrecepção ........................................................................................................................................ 33 1.10 Termorrecepção .................................................................................................................................. 35 2 SISTEMA ENDÓCRINO ................................................................................................................................... 35 2.1 Prolactina ................................................................................................................................................. 37 2.2 Hormônios tireoidianos e a metamorfose de anfíbios .......................................................... 38 2.3 Endocrinologia do crescimento e metamorfose de insetos ................................................ 40 3 SISTEMAS CIRCULATÓRIOS ......................................................................................................................... 42 3.1 Animais sem sistemas circulatórios .............................................................................................. 42 3.2 Transporte e bombeamento ............................................................................................................. 44 3.3 Tipo de circulação ................................................................................................................................ 45 3.4 Circulação em invertebrados ........................................................................................................... 47 3.4.1 Moluscos .................................................................................................................................................... 47 3.4.2 Artrópodes ................................................................................................................................................. 47 3.4.3 Anelídeos .................................................................................................................................................... 48 3.4.4 Equinodermos .......................................................................................................................................... 48 3.4.5 Vertebrados ............................................................................................................................................... 48 4 SISTEMAS RESPIRATÓRIOS .......................................................................................................................... 57 4.1 Respiração em meio aquático ......................................................................................................... 60 4.1.1 Respiração em peixes ............................................................................................................................ 60 Sumário 4.2 Transição de ambientes...................................................................................................................... 63 4.3 Respiração na superfície ...................................................................................................................64 4.3.1 Pulmão dos vertebrados ...................................................................................................................... 64 4.3.2 Respiração em anfíbios ........................................................................................................................ 65 4.3.3 Respiração em répteis ........................................................................................................................... 66 4.3.4 Respiração em aves ................................................................................................................................ 67 4.3.5 Respiração em mamíferos ................................................................................................................... 68 4.3.6 Vertebrados mergulhadores ................................................................................................................ 70 Unidade II 5 EXCREÇÃO E EQUILÍBRIO HÍDRICO-OSMÓTICO .................................................................................. 78 5.1 Regulação osmótica no ambiente aquático .............................................................................. 79 5.1.1 Salmão – Um interessante peixe anádromo ................................................................................ 82 5.2 Regulação osmótica e excreção em animais terrestres ........................................................ 83 5.3 Excreção em invertebrados .............................................................................................................. 83 5.3.1 Protonefrídios e células-flama .......................................................................................................... 83 5.3.2 Metanefrídios em anelídios ................................................................................................................ 85 5.3.3 A excreção dos artrópodes – caminho para o sucesso terrestre ......................................... 85 5.4 A excreção dos vertebrados ............................................................................................................. 87 5.4.1 Forma e função dos rins ...................................................................................................................... 87 5.4.2 Variações nos rins dos vertebrados ................................................................................................. 89 5.4.3 Glândulas de sal ...................................................................................................................................... 90 6 NUTRIÇÃO E DIGESTÃO ................................................................................................................................. 91 6.1 Digestão ................................................................................................................................................... 94 6.2 Divertículos digestivos ....................................................................................................................... 99 6.3 Herbivoria e digestão de celulose .................................................................................................. 99 6.4 Animais ruminantes e não ruminantes ....................................................................................... 99 7 TEMPERATURA E MOVIMENTO ...............................................................................................................102 7.1 Fluxos de calor .....................................................................................................................................104 7.2 Manutenção da temperatura ........................................................................................................105 7.2.1 Termogênese ...........................................................................................................................................107 7.2.2 Regulação da temperatura corporal .............................................................................................108 7.3 Efeitos das temperaturas extremas .............................................................................................109 7.4 Estratégias térmicas ..........................................................................................................................110 7.5 Movimento ............................................................................................................................................111 7.5.1 Movimentos em esqueletos hidrostáticos ...................................................................................111 7.5.2 Musculatura em vertebrados ........................................................................................................... 112 7.5.3 Custo energético do movimento .................................................................................................... 115 8 SISTEMAS REPRODUTIVOS ........................................................................................................................116 8.1 Sistemas reprodutivos masculinos ..............................................................................................117 8.2 Sistemas reprodutivos femininos ................................................................................................119 8.3 Gestação e nascimento em mamíferos eutérios ...................................................................122 7 APRESENTAÇÃO Esta disciplina destaca os diversos mecanismos que movem a vida dos animais. Veremos como funcionam os sistemas nervosos e endócrinos que controlam outros sistemas, bem como a regulação osmótica e hídrica que permite a animais como o salmão viver em ambientes tão extremos como a água de um rio e do mar num mesmo ciclo de vida. Conheceremos as respostas dos animais capazes de tolerar condições climáticas extremas como o frio do Ártico ou as variações e o intenso calor dos grandes desertos quentes. Compreender o funcionamento da fisiologia nos levará não somente ao entendimento dos mecanismos e estruturas dos órgãos e sistemas, mas, também, e sobretudo, da sua relação com o meio. A comparação será nossa melhor aliada, entendendo como invertebrados e vertebrados apresentam diferenças e similaridades no funcionamento de seus corpos. INTRODUÇÃO A fisiologia é a ciência que estuda o funcionamento dos organismos vivos. Abrange diferentes áreas do conhecimento, como a fisiologia humana, a vegetal e a comparada. Nesta disciplina, analisaremos o desempenho dos organismos de diversos grupos de animais. A ciência busca responder a perguntas. Para tal, este livro-texto reúne instruções sobre vertebrados e invertebrados. Como exemplo, destacamos: De que maneira os animais se movimentam? Quanta energia é necessária para que possam viver? Como respiram ou se alimentam? Avaliando os sistemas envolvidos, nota-se que os animais estão constantemente interagindo com as adversidades ambientais. Os processos fisiológicos atuam de maneira integrada. Empenham-se em buscar a normalidade do sistema, a temperatura ideal, tentando fazer que as necessidades energéticas sejam supridas e que o corpo possa funcionar da melhor maneira possível. Contudo, basta pensarmos nos fatores externos para sabermos que os organismos buscam a manutenção das condições internas em limites toleráveis, e que o corpo dificilmente teria um meio perfeito ou sem oscilações. Diante de uma adversidade, o corpo tenta gerar respostas específicas, embora nem sempre consiga – e neste caso teremos um organismo doente ou debilitado. Essa manutenção das condições fisiológicas ideais é chamada de homeostase. Quando a temperatura externa está elevada, o corpo se aquece, acumulando calor em seus tecidos, e as células sensoriais indicam esse fato para os centros de controle no sistema nervoso. Então, respostas específicas são emitidas, por exemplo: a produção de suor para que o corpo perca calor; ou mesmo a sonolência, evitando o aumento dos gastos energéticose promovendo a preservação do corpo. Podemos classificar as respostas fisiológicas dos organismos reguladores de acordo com a velocidade em que estas acontecem e a ocorrência ou não da sua fixação no DNA. 8 A aclimatização é uma mudança fisiológica, bioquímica ou anatômica resultante de exposições crônicas a condições ambientais novas que ocorrem naturalmente em seu hábitat. Um peixe migratório pode viver a maior parte de sua vida na água marinha e em seu período reprodutivo dirigir-se para a água doce. Obviamente, esse peixe tolera a variação, mas sofrerá incialmente com as alterações. Ao chegar à água doce, vai precisar se aclimatizar, isto é, responder rapidamente às variações de sais na água. Já a aclimatação é um processo semelhante à aclimatização, entretanto não ocorre de maneira natural, e sim gera mudanças a partir da indução experimental. Pesquisas sobre fisiologia do exercício submetem cobaias a câmaras com diferentes valores de pressão atmosférica para compreender como será o desempenho do sistema respiratório de um atleta em provas realizadas em locais de altitudes elevadas. A princípio, a maioria dos indivíduos sofre, ficando ofegante e cansada; porém, com o passar do tempo, volta a respirar normalmente. Podemos dizer que a mudança foi rápida o suficiente para que esses profissionais sobrevivessem sem grandes danos físicos. Entretanto, não foi um processo natural, mas sim para fins de pesquisa experimental, e, após as pressões testadas, as cobaias estariam aclimatizadas. Diversos estudos comprovaram que a vida na Terra iniciou-se em ambiente aquático e a conquista do ambiente terrestre foi gradual, o que aconteceu de maneira simultânea com alguns grupos de animais. Tomemos como exemplo os artrópodes, que hoje são dominantes na superfície terrestre: para sair da água, precisavam se locomover sobre um substrato diferente, enfrentando pressões e temperaturas complexas. Nosso artrópode ancestral precisava ser capaz de se alimentar e, principalmente, respirar na superfície. Para nutrir-se, o indivíduo poderia retornar à água, mas as trocas gasosas são fundamentais, o que limitaria imensamente o tempo fora da água. Os primeiros artrópodes terrestres possivelmente realizaram trocas pela superfície corporal. Aleatoriamente, um indivíduo com brânquias mais rígidas conseguiu fazer trocas com o ar, o que aumentaria sua chance de reprodução, e seus descendentes acabaram herdando tal característica. Dizer que o organismo apresenta uma adaptação, como os artrópodes terrestres atuais, significa que ocorreram alteração de maneira fixa no DNA que permitem respostas fisiológicas contínuas ao longo de gerações. As adaptações são extremamente lentas e necessitam de muitos ciclos para que se concretizem como novas em um grupo, passando por muitas gerações. Com esses conceitos, discutiremos neste livro-texto como funcionam os principais sistemas corporais de diferentes animais. Iniciamos nosso estudo pelo sistema nervoso, que está intimamente ligado a qualquer outro sistema corporal. 9 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA Unidade I 1 SISTEMAS NERVOSOS Para iniciarmos nossos estudos sobre os sistemas nervosos de diferentes animais, é vital relembrarmos os componentes básicos de um sistema nervoso qualquer. Apresentar um sistema nervoso não é característica determinante para um animal, uma vez que os poríferos ou esponjas-do-mar, embora sejam animais, não possuem sistema nervoso. Entretanto, se um espécime tem sistema nervoso, certamente estamos falando de um animal. Desde os cnidários, os primeiros a apresentarem sistema nervoso, o funcionamento desse sistema é dependente de células específicas, os neurônios. Neurônios são células excitáveis que utilizam combinações químicas e/ou elétricas para transmitir estímulos ou respostas entre os diferentes componentes do sistema. De uma maneira geral, são compostos por uma porção principal chamada de corpo celular, a qual abriga a maioria das organelas e o núcleo celular. Na extremidade mais próxima ao corpo celular, ramificam-se projeções receptoras, os dendritos; na outra extremidade, uma longa projeção estende o corpo celular em um axônio, uma região de transmissão que termina em ramificações que fazem contato com os dendritos do próximo neurônio. Neurotransmissor receptor Dendritos Sinapse Axônio Bainha de mielina Núcleo Nucléolo Membrana celular Sinapses Figura 1 – Estrutura básica de um neurônio Acervo UNIP/Objetivo. 10 Unidade I As informações são recebidas nos dendritos e convertidas em alterações no potencial de membrana do neurônio. Desse modo, a alteração nesse potencial inicia um potencial de ação, o qual é conduzido aos axônios terminais e, a partir destes, ocorre a transmissão de um neurotransmissor até a célula-alvo. Portanto, os neurônios são divididos em quatro regiões em relação ao sinal propagado: recepção, integração, condução e transmissão. Os diferentes neurônios da imagem a seguir estão divididos de acordo com suas regiões: Neurônio motor Integração do sinal Condução do sinal Transmissão do sinal Recepção do sinal Neurônio sensorial Célula de Purkinje Figura 2 – Três diferentes tipos de neurônio e suas divisões de acordo com o sinal nervoso Fonte: Moyes e Schulte (2010, p. 144). Para compreender o funcionamento dos neurônios, é essencial observarmos algumas características. Como o potencial de membrana, os axônios dos neurônios apresentam cargas iônicas em sua área externa, e essas cargas podem ser alteradas, mediando a passagem de um sinal e o envio da informação. Essa disponibilidade de cargas é o potencial de membrana, que é despolarizado na passagem do estímulo e repolarizado após este. Dessa forma, ocorre a transmissão de cargas que resultam em comunicação entre os neurônios. Para que as cargas sejam alteradas, canais nas membranas são mediados, regulando a quantidade de importantes elementos como o cálcio. Na figura a seguir, notamos o esquema da transmissão de um impulso nervoso. As cargas dispostas na membrana dos neurônios, conforme o impulso, fazem que ela se desloque ao longo dos axônios, e é possível ver a despolarização e a repolarização. 11 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA As cargas se alteram ao longo da membrana e tornam o neurônio permeável ao impulso, abrindo os canais de sódio e potássio. Figura 3 – Condução do impulso nervoso ao longo do neurônio Acervo UNIP/Objetivo. Os mamíferos apresentam 11 isoformas de canais que modulam a despolarização e a repolarização das membranas, proporcionando a estas a capacidade de regular a intensidade da propagação do sinal. Já em Drosophilas e lulas, há apenas duas isoformas, e os invertebrados dependem de outros mecanismos para regulação das transmissões nervosas. 12 Unidade I Não são apenas os canais que variam entre os animais. Em geral, os invertebrados apresentam dois tipos básicos de neurônios: o motor e o sensorial. O primeiro costuma estar envolvido na entrega dos estímulos aos órgãos efetores como a musculatura responsável por um movimento. Já os neurônios sensoriais fazem comunicação entre outros neurônios sensoriais e captam muitos dos estímulos externos. Os vertebrados podem exibir outros tipos de neurônios, como as células de Purkinje, as quais apresentam muitos dendritos e terminações reduzidas em seus axônios. Essas células são encontradas apenas no cerebelo e são responsáveis pelo controle do tônus muscular (figura 2). Em vertebrados, os neurônios podem contar com células acessórias, as células de Schwann. Estas se envolvem de forma espiral ao redor do axônio, promovendo dobras múltiplas de suas membranas. Essas células protegem o neurônio como se este fosse coberto por um fio de energia elétrica encapado, não havendo a despolarização e a repolarização do axônio nessa região. Essa proteção não recobre o neurônio inteiro, entre cada célula de Schwann existe uma parte de exposição, que são os nódulos de Ranvier. Um axônio que é recoberto pelas células de Schwannreúne uma sequência dessas células, e cada uma compõe um internó, que então é envolvido pelos nódulos de Ranvier. Essa estrutura que descrevemos forma a chamada bainha de mielina. A imagem a seguir apresenta um neurônio mielinizado: Substância de Nissl Dendritos Corpo celular Axônio Neurilema Bainha de mielina Neurofibrilas Nódulo de Ranvier Núcleo Telodendro Núcleo da célula de Schwann Figura 4 – Neurônio protegido por bainhas de mielina, presente somente em vertebrados Acervo UNIP/Objetivo. 13 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA As bainhas de mielina são responsáveis pelos impulsos saltatórios, e o potencial de ação ocorre nos nódulos de Ranvier. Assim, a transmissão da informação, chamada de sinapse, funciona com maior velocidade. Nas regiões de exposição, existem proteínas ligadas à condução da velocidade, promovendo o salto entre um nódulo e o próximo. Os neurônios contam com outras células acessórias, as células da glia, que darão apoio à operação ou nas estruturas dos neurônios. Como exemplo, temos os oligodendrócitos, que são responsáveis pela mielinização dos neurônios do encéfalo e da medula. Outra célula da glia extremamente importante é o astrócito, que dá suporte e nutrição aos neurônios. Os invertebrados não apresentam as bainhas de mielina. Em alguns grupos, existem neurônios cujos axônios são envolvidos por múltiplas camadas de membrana celular. São as células protetoras de axônios que cumprem esse papel, que é semelhante à função das células de Schwann. Entretanto, não estão presentes nos invertebrados as proteínas ligadas à velocidade, e o empilhamento é normalmente mais denso com membranas mais afastadas. A velocidade da condução é fundamental para que o animal possa responder aos estímulos ambientais a tempo de fugir ou interagir, conforme for necessário. Uma forma de acelerar as respostas é por meio dos axônios gigantes, neurônios que apresentam seus axônios com diâmetro e comprimento maiores. Muitos destes são tão grandes que podem ser vistos a olho nu, o que seria impossível com outros tipos de neurônios. Os axônios gigantes são encontrados em vertebrados e invertebrados, e acredita-se que estes tenham evoluído de maneira independente. Um dos neurônios com axônio gigante mais estudados é o encontrado em lulas, que foram o organismo-modelo para relevantes descobertas. Em 1939, Hodgkin e Huxley, dois importantes cientistas, faziam testes para comprovar sua teoria de que os neurônios eram condutores de impulsos elétricos. Esses pesquisadores tinham em seu laboratório equipamentos com eletrodos grandes que não funcionavam para comprovar a transmissão nos neurônios comuns de vertebrados. Assim, eles decidiram utilizar as lulas inserindo os eletrodos e então conseguiram atingir seus objetivos. Tal pesquisa rendeu a eles o Prêmio Nobel de Medicina em 1963. Esses neurônios de axônio gigante são os responsáveis pelas contrações musculares ao redor da cavidade do manto. Eles são mais distantes do gânglio cerebral em relação aos demais de axônios curtos, portanto os primeiros geram contrações simultâneas e são fundamentais para a natação. Quando a cavidade do manto está repleta de água, o gânglio cerebral envia sinais para os gânglios estelares, os quais emitem sinais ao longo dos diferentes axônios presentes no manto. Os impulsos nervosos chegam ao músculo em diferentes pontos. Assim, os neurônios gigantes conduzem a informação mais rápido. Contudo, por estarem mais distantes, ocorre uma contração sincronizada de todo o músculo da cavidade do manto, forçando a água para fora do sifão e possibilitando o deslocamento por propulsão em jato. 14 Unidade I Quando comparados, tanto em vertebrados como em invertebrados, os neurônios de axônio gigante são sempre mais rápidos do que os curtos. Sifão Manto Gânglio estelar Axônios no manto Fluxo da água Figura 5 – Neurônio gigante em uma lula: estrutura importante para aumentar a velocidade de condução na informação Fonte: Moyes e Schulte (2010, p. 177). Para a maioria dos animais, exceto os cnidários, os sistemas nervosos se dividem em central (SNC) e periférico (SNP). O SNP é a via inicial. Os receptores sensoriais captam os estímulos, e os neurônios aferentes levam tais informações para os centros de integração, e estes compõem o SNC. Como exemplo, citamos o encéfalo e os gânglios: após o processamento, são emitidas respostas, e estas são levadas por neurônios eferentes. Estudaremos a seguir as principais diferenças e novidades fisiológicas entre os sistemas nervosos de invertebrados e vertebrados. 15 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA 1.1 Cnidários Os cnidários são os primeiros animais a exibirem sistema nervoso, ainda que muito primitivo e simplificado, compondo um sistema nervoso difuso. Por meio dos impulsos, as informações nervosas são transmitidas em ambos os lados do neurônio, gerando impulsos nervosos multidirecionais. Esses neurônios são denominados multipolares, e suas extremidades liberam neurotransmissores tanto nos dendritos quanto nas terminações do axônio. Os neurônios ficam interconectados por meio de junções que permitem a comunicação celular, compondo uma rede nervosa. Sem o direcionamento, constituem o sistema nervoso difuso. Veja na imagem a seguir como está estruturado o sistema nervoso de um cnidário: Célula muscular Célula sensorial Sistema nervoso difuso Arco-reflexo simples Célula nervosa Figura 6 – Sistema nervoso difuso dos cnidários Acervo UNIP/Objetivo. Não há divisão entre central e periférico, tampouco um número de neurônios unidos ao ponto de se considerar uma cabeça. Contudo, os neurônios podem formar anéis nervosos, pequenos agrupamentos que funcionam como órgãos, sobretudo sensoriais. Em águas-vivas, mesmo com o sistema difuso, normalmente as células se dividem em dois sistemas: um é de rápida condução e coordena movimentos natatórios, e o segundo, de condução lenta, atua nos movimentos dos tentáculos. 16 Unidade I Na água-viva, podemos ver a formação de um anel nervoso, estrutura que concentra neurônios, mas que ainda não confere um sistema nervoso central. Canal radial Manúbrio Vela Tentáculo Anel nervoso interno Anel nervoso externo Estômago Figura 7 – Estrutura nervosa de uma água-viva Fonte: Ruppert e Barnes (1996, p. 121). 1.2 Platelmintos Os platelmintos são os primeiros a apresentar cefalização, isto é, o sistema nervoso tem grande concentração de células nervosas na região anterior, a cabeça. Nesse grupo já é possível a distinção entre sistemas central e periférico. Os platelmintos mais simples possuem seu sistema nervoso organizado em um plexo subepidérmico, uma rede bastante ramificada muito similar à organização dos cnidários. Entretanto, o principal arranjo encontrado entre a maioria das espécies de platelmintos é um sistema nervoso chamado de sistema em escada, com um a cinco pares de cordões nervosos longitudinais, os quais podem ser ligados a conjuntos de nervos ventrais (comissuras), remetendo á ideia de uma escada; 17 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA então, os longitudinais percorrem o comprimento do corpo e os centrais o atravessam. Os cordões longitudinais partem da região cefálica, mais precisamente do gânglio cerebroide, uma massa bilobada de neurônios (figura 8). A figura a seguir (à esquerda) destaca um animal com plexo subepidérmico. À direita, temos a estrutura nervosa em forma de escada. Na estrutura nervosa de uma água-viva podemos ver a formação de um anel nervoso. Cordão nervoso Comissura Figura 8 – Sistema nervoso dos platelmintos Fonte: Ruppert e Barnes (1996, p. 223). 1.3 Moluscos O sistema nervoso dos moluscos é formado por gânglios que compõem o sistema nervoso central, em geral três pares que se ligam a um par de cordões nervosos. Seus órgãos sensoriais são altamente especializados: tanto os mecanorreceptores quanto os quimiorreceptores estão dispostos ao longo do corpo, sobretudo, nos tentáculos. Em lulas e polvos, estão presentesolhos bastante eficientes, além de estatocistos, que dão ao animal a percepção da posição corporal e do equilíbrio. 18 Unidade I Em polvos, é possível observar uma importante novidade evolutiva – a capacidade de aprendizado. Quando estimulados, eles são capazes de responder e repetir comportamentos esperados; tal fato é possível graças à quantidade de neurônios que os polvos apresentam – mais de 160 milhões de células. Na imagem a seguir, é possível comparar a estrutura do sistema nervoso de um molusco não cefalópode e a de um cefalópode. Note que ambos possuem os gânglios centrais. Gânglios Encéfalo Gânglios Corda nervosa Molusco (lesma) Molusco cefalópode (lula) Figura 9 – Organização básica de dois moluscos Fonte: Moyes e Schulte (2010, p. 311). 1.4 Anelídeos Um sistema central e um periférico compõem o sistema nervoso dos anelídeos. O cérebro é considerado bilobado por representar a união de dois gânglios dorsais, e, em cada um dos segmentos corporais, há um par de gânglios que se comunicam por um nervo transversal. Cada par de gânglios funciona como uma pequena estação de processamento das informações, como um pequeno “cérebro”. Diante de respostas que precisam ser rápidas, como estímulo de toque que requerem fuga, os gânglios medeiam as reações sem a necessidade de chegar até o cérebro para depois a musculatura ser estimulada. 19 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA Tubo digestório Vista lateral Vista ventral Gânglios cerebroides Conectivos perifarígeos Cadeia nervosa ventral Figura 10 – Sistema nervoso dos anelídeos: vistas lateral e ventral Acervo UNIP/Objetivo. Os gânglios segmentares se ramificam em neurônios aferentes (sensoriais) e eferentes (motores) distintos. Essa alteração permanece de maneira evidente nos demais grupos de animais e permite respostas mais precisas e eficientes. Como órgãos sensoriais, os anelídeos contam principalmente com receptores unicelulares, células modificadas capazes de perceber estímulos ambientais. As células quimiorreceptoras podem ser ativadas a distância e perceber odores por contato, funcionando como paladar; as mecanorreceptoras detectam alterações na pressão com o deslocamento do ar, vibrações e movimentos; e as fotorreceptoras são capazes de identificar a intensidade da luz ou mesmo a formação de uma imagem, dependendo de sua complexidade. 1.5 Artrópodes O sistema nervoso dos artrópodes é ganglionar, muito similar ao dos anelídeos. Na cabeça há um gânglio principal, localizado na parte dorsal acima do esôfago, constituindo o cérebro. Logo abaixo, um anel nervoso envolve o tubo digestório. Na sequência, um par de cordões nervosos ventrais e longitudinais apresenta outros gânglios segmentares pares e nervos motores e sensoriais segmentares. 20 Unidade I Na verdade, o cérebro dos artrópodes é a fusão de dois ou três gânglios. Neste caso, dizemos que o indivíduo possui um cérebro bipartido ou tripartido, respectivamente. Cérebros bipartidos iniciam-se na região anterior, chamada de protocérebro, a qual recebe nervos sensoriais e os estímulos ópticos. Nesse caso, a segunda e última porção, conectada aos apêndices, é o tritocérebro, como as quelíceras dos aracnídeos e as mandíbulas e maxilas dos crustáceos e insetos. Os indivíduos de cérebro tripartido apresentam uma porção mediana, o deutocérebro, que recebe as informações das antenas – portanto somente os grupos portadores de antena o terão. Todavia, os crustáceos possuem dois pares de antenas, sendo o primeiro par ligado ao deutocérebro e o segundo ao tritocérebro. Em artrópodes, a presença de corpos pedunculares chama a atenção quando o assunto é sofisticação neuromotora. Por meio desses corpos, o artrópode passa a sofrer mudanças estruturais e funcionais em virtude de experiências vividas conforme a idade. Essas massas de neurônios são alteradas com o passar do tempo. Cérebro Gânglios nervosos Cordões nervosos Figura 11 – Sistema nervoso de um artrópode com seus gânglios nervosos Acervo UNIP/Objetivo. 1.6 Vertebrados Os vertebrados apresentam basicamente um mesmo esquema básico, com um tubo nervoso oco preenchido por células e/ou fluidos. Esse tubo é terminado em um encéfalo, conjunto de órgãos derivados do cérebro. A modificação da cefalização simples em um conjunto de órgãos é chamada de encefalização. Ao observar o sistema nervoso de um vertebrado, além do cérebro, notamos que ele frequentemente possui cerebelo e bulbo, entre outros órgãos dos quais falaremos a seguir. 21 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA A encefalização foi responsável pelo aumento do tamanho da massa cefálica e da capacidade funcional. A partir dos animais encefalizados, é possível observar a memorização, entendida como a capacidade de formar associações entre eventos passados, presentes e futuros. Obviamente, a memorização passa a ser mais bem-observada, exibindo um espectro maior, em mamíferos como elefantes, cães, gatos e humanos. A figura a seguir destaca as modificações que ocorreram no encéfalo de diferentes vertebrados: Lampreia Tubarão Bacalhau Rã Jacaré Cavalo Cérebro Lobo óptico Cerebelo Ganso Bulbo (medula oblongata) Bulbo olfatório Figura 12 – Evolução do encéfalo de diferentes vertebrados Fonte: Hickman Junior, Roberts e Larson (2014, p. 777). Lembrete A cefalização surgiu em ancestrais dos atuais platelmintos e deu aos animais maior capacidade de foco e busca por alimento. 22 Unidade I Ao longo da evolução dos vertebrados, todo o encéfalo apresentou um aumento progressivo, crescendo a relação entre equilíbrio e coordenação motora, ambos aliados à evolução dos órgãos sensoriais. No sistema nervoso de vertebrados adultos, se iniciarmos da região mais anterior em direção à posterior ou caudal, em geral o encéfalo se divide em prosencéfalo (dividido em telencéfalo e diencéfalo), mesencéfalo e rombencéfalo (dividido em metencéfalo e mielencéfalo). No fim destes últimos, está a medula espinhal. Veja na imagem a seguir as divisões do encéfalo dos vertebrados: Anterior (rostral) Prosencéfalo Te le nc éf al o Córtex cerebral Bulbo olfatório Hipotálamo Hipófise Ponte Tálamo Cerebelo Bulbo Di en cé fa lo M es en cé fa lo M et en cé fa lo M el en cé fa lo M ed ul a es pi na l Medula espinal Mesancéfalo Rombencéfalo Medula espinal Vesículas encefálicas primárias Vesículas encefálicas secundárias Sistema nervoso central de adultos (vertebrados em geral) Posterior (caudal) Figura 13 – Divisões do sistema nervoso central dos vertebrados Fonte: Moyes e Schulte (2010, p. 315). 23 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA Quadro 1 – Principais componentes das regiões encefálicas Estrutura e principais componentes Função Prosencéfalo: telencéfalo Encéfalo Processamento da informação Bulbo olfatório e acessório Olfação, detecção de feromônios Prosencéfalo: diencéfalo Tálamo Informações sensoriais Hipotálamo, hipófise Regulação térmica, alimentar, reprodutiva e ciclos circadianos Epitálamo Regulação da fome e sede Mesencéfalo Teto (lobos ópticos) Informações visuais, auditivas e táteis Tegmento Respostas reflexas, visuais, auditivas e táteis Rombencéfalo Bulbo Ritmo respiratório, frequência cardíaca e PA Ponte Centro pneumotáxico, integração de sinais Cerebelo Postura corporal, locomoção, coordenação e integração com proprioceptores As áreas específicas foram se modificando gradativamente nos peixes. A maior parte do encéfalo é constituída de rombencéfalo, com poucas modificações. O mesencéfalo dos peixes ósseos é bastante evidente, e este grupo já apresenta melhor capacidade sensorial, além de melhores informações visuais, auditivas e táteis. Répteis, aves e mamíferos passam por aumento considerável do prosencéfalo, ganhando alta capacidade de processamento das informações. Os mamíferos ainda podem exibir dobras no prosencéfalo, expandindo a superfície e o número de neurônios. Os mamíferos revelam diferenças significativas em relação às áreas funcionais do cérebro. Algunsmamíferos, como os ratos, têm as páreas responsáveis pela percepção sensorial, olfatória e visual desenvolvidas, e são superiores à região de associação. Os primatas têm grande parte de seu cérebro como região de associação, e em humanos esta é ainda mais desenvolvida. Saiba mais O documentário a seguir destaca diferentes experimentos que comprovam a capacidade nervosa de diferentes vertebrados: POR DENTRO da mente dos animais. Direção: Graham Russell. BBC, 2014. 59 min. (episódio II). 24 Unidade I 1.7 Sistemas sensoriais Os diferentes organismos que conhecemos interagem constantemente com o ambiente. As plantas modificam suas estruturas em virtude das alterações climáticas; os protistas e algumas bactérias, ao perceberem condições inóspitas, reduzem seu metabolismo e ficam latentes, mantendo-se imóveis e resistentes até o retorno das condições ideais. Os protistas paramécios mostram que a resposta sensorial pode acontecer, ainda que não haja a presença de células nervosas, o que é feito por meio de alterações em seus canais de cálcio presentes na membrana celular. Assim, eles produzem um comportamento chamado de reação de evitação. Quando o paramécio se depara com um obstáculo, ele tende a retrair seu corpo, no caso, uma única célula, movimentando-se na direção contrária. Já os animais apresentam mecanismos complexos que lhes permitem interagir com os meios externos e internos, monitorando as alterações e comunicando os diferentes sistemas corporais para que estes possam emitir respostas e reagir sempre que possível. A percepção de estímulos é parte do sistema nervoso, entretanto possui órgãos próprios e constitui o sistema sensorial. Para cada tipo de percepção, existe um neurônio específico capaz de ligar-se ao estímulo e transmitir ao sistema nervoso. Como exemplo de estímulo, citamos substâncias químicas, que dão a percepção de cheiro ou gosto, e a pressão mecânica, que promove a percepção de sons ou mesmo o tato. Para ser notado, o estímulo tem como alvo uma proteína específica localizada na membrana do neurônio à qual ele vai se ligar. A percepção de um estímulo envolve quatro etapas distintas. Para descrevê-las, utilizaremos um neurônio quimiorreceptor, isto é, responsável pela percepção de substâncias químicas. Vejamos a sequência: • Recepção: esta é a etapa inicial. As moléculas da substância química em questão se ligam em proteínas de membrana, e essa ligação somente ocorrerá se o indivíduo apresentar tal proteína. O mecanismo depende de especificidade. • Transdução: neste momento, a ligação gerada na etapa anterior promove a liberação de íons, que migram do interior da célula e promovem abertura dos canais iônicos existentes na membrana celular do neurônio. • Transmissão: uma vez alterada a conformação dos canais, há alteração no potencial de membrana, permitindo que ocorra a sinapse e a consequente propagação do estímulo até os centros de integração. • Percepção: os neurotransmissores desencadeados pelas sinapses chegam até os centros de integração, órgãos responsáveis por integrarem o estímulo e dar a este uma resposta. No caso de uma molécula química ser de odor, por exemplo, esta chegará até o bulbo olfatório, e este responderá ao estímulo recebido. 25 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA Estímulo químico Estímulo de pressão Proteína receptora Estímulo luminoso Canal iônico Canal iônico Via de transdução do sinal Sinal para o centro integrador Sinal para o centro integrador Sinal para o centro integrador Alteração no potencial de membrana Alteração no potencial de membrana Alteração no potencial de membrana Via de transdução do sinal Via de transdução do sinal Canal iônico Figura 14 – Etapas da percepção de um estímulo sensorial para diferentes tipos de estímulos Fonte: Moyes e Schulte (2010, p. 250). 1.8 Receptores sensoriais Os receptores são fundamentais. Sem eles, não ocorre a percepção dos estímulos. Há diversos tipos de receptores, e vamos classificá-los de duas formas: de acordo com a localização do estímulo ou com o tipo de estímulo. Conforme a localização do estímulo, os receptores podem ser: • telerreceptores: captam estímulos que incidem a distância, como os receptores encontrados nos olhos e que assimilam a luz do sol; • exteroceptores: recebem estímulos que se encontram na parte externa do corpo, como aqueles que dão a percepção do tato; • interoceptores: reconhecem estímulos gerados internamente, por exemplo, alterações de pH ou da temperatura interna, que pode indicar um estado febril. Há muitos tipos de estímulos; citemos os mais abundantes: • quimiorreceptores: percebem moléculas, reconhecendo efetivamente a estrutura química de um elemento ou composto; • mecanorreceptores: notam alterações na pressão, providas por ondas mecânicas, como pressão atmosférica, movimento, sons, tato e equilíbrio; 26 Unidade I • fotorreceptores: captam ondas luminosas e conferem ao indivíduo a percepção de imagens ou movimento; • termorreceptores: são detectores de calor que indicam ao indivíduo se este se expôs a altas ou baixas temperaturas; • eletrorreceptores: alguns animais que apresentam esses receptores são capazes de detectar cargas elétricas que outros animais naturalmente emitem; • magnetorreceptores: detectam campos magnéticos como aqueles presentes em solos específicos ou regiões diferenciadas do globo. Dentre todos os receptores conhecidos, a maioria é específica, detectando apenas um tipo de estímulo. Entretanto, os chamados receptores polimodais são capazes de captar mais de um estímulo no mesmo neurônio. Devemos ressaltar o seguinte: se o receptor é capaz de detectar mais de um estímulo, isso se deve tão somente pela presença de mais de um tipo de proteína receptora em sua membrana. Entre os exemplos de receptores polimodais podemos citar os nociceptores – os receptores de dor. Diferentes estímulos são capazes de induzir o animal para que este sinta dor, como choques mecânicos em uma queda, calor excessivo ou mesmo luz em elevadas intensidades. Outro exemplo pode ser encontrado em tubarões: as ampolas de Lorenzini, que são órgãos repletos de receptores polimodais, e estes dão ao indivíduo a capacidade de detecção de temperatura, salinidade e pressão da água, além de campos elétricos como os gerados por meio dos batimentos cardíacos de peixes, mesmo que a presa esteja a alguns metros de distância. As ampolas de Lorenzini são receptores polimodais e se comunicam com os neuromastos, células que compõem a linha lateral e, juntos, permitem ao animal perceber a aproximação de outros indivíduos. A imagem a seguir destaca a distribuição das ampolas de Lorenzini e sua relação com a linha lateral: Células neuromastos Abertura para a superfície Cana da linha lateral Linha lateral Ampolas de Lorenzini Figura 15 – Estruturas sensoriais de um tubarão Fonte: Hickman Junior, Roberts e Larson (2014, p. 517). 27 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA 1.8.1 Quimiorreceptores Destacaremos a seguir alguns receptores importantes encontrados em diferentes vertebrados e invertebrados. Começamos pelos quimiorreceptores, que podem ser diferenciados inicialmente por serem estimulados por contato ou a distância. No primeiro caso, tratamos do sentido gustação ou paladar, que permite ao indivíduo reconhecer moléculas que, associadas a memórias, experiências ou mesmo preferências metabólicas, darão a ele a sensação do sabor do alimento. Já o segundo caso gera o sentido da olfação, que é muito mais sensível que o primeiro na maioria dos animais. Como exemplo de tal sensibilidade, em humanos há a diferenciação entre octanol e ácido octanoico, substâncias muito semelhantes em composição. Entretanto, a primeira nos oferta a percepção do odor de rosas ou laranja; o segundo, do odor de suor. A olfação pode ser percebida por diferentes órgãos, com maior ou menor especificidade. Em geral, neurônios encontrados nas cavidades nasais de vertebrados cumprem esse papel,ligando-se às substâncias químicas e enviando tais informações aos centros de integração. Em invertebrados, a percepção obviamente depende de neurônios quimiorreceptores, mas estes geralmente estão situados sob depressões ou cavidades corporais nas proximidades de seus exoesqueletos ou sua epiderme. Nervo olfativo Bulbo olfativo Corpo celular do receptor olfativo Figura 16 – Receptores olfativos do nariz Acervo UNIP/Objetivo. 28 Unidade I Quando se trata de um órgão olfatório específico, podemos citar aqueles responsáveis por captar principalmente ferômonios, tais como de agregação, sexuais ou de alerta, e este recebe o nome de órgão vomeronasal. Para a maioria, são órgãos acessórios que complementam os principais. Em mamíferos, são encontrados órgãos vomeronasais pareados lateralmente na cavidade nasal. Já em répteis, estão localizados na região superior da cavidade oral (palato superior) e também são conhecidos como órgãos de Jacobson. Devido à localidade deste último órgão, as serpentes, por exemplo, necessitam do auxílio de sua língua, a qual capta as moléculas de odor e as transportam até o órgão de Jacobson, que está dentro da boca. Epitélio olfatório Cavidade nasal Cavidade nasal Língua A) B) Bulbo olfatório acessório Bulbo olfatório principal Duto nasopalatino Órgão vomeronasal Órgão vomeronasal Figura 17 – Órgãos vomeronasais, responsáveis pela percepção de cheiro: A) órgão vomeronasal de mamíferos; B) órgão vomeronasal (de Jacobson) de répteis Fonte: Moyes e Schulte (2010, p. 260). Em invertebrados, os órgãos olfativos estão quase sempre na região da cabeça, onde também se concentram os demais receptores. Em artrópodes, esta percepção foi cuidadosamente estudada. Ela ocorre por meio de sensilas, cerdas ocas formadas por cutícula acelular, e, dentro desta, preenchendo seu interior, estão os neurônios sensoriais. Cada sensila apresenta um poro em sua extremidade anterior para que haja o contato com o meio externo. Alguns artrópodes dependem quase exclusivamente desse sentido para se comunicar como as formigas, que se relacionam por meio de feromônios, notificando comida ou perigo, sem que estas necessitem retornar aos seus ninhos. Há ainda as moscas necrófagas, que percebem a longas distâncias o odor de corpos em estado de degradação, que, além de alimentá-las, poderão ser essenciais para sua oviposição. Na gustação, são encontrados receptores para cinco diferentes percepções. O sabor salgado e o doce são entendidos pelo cérebro como benéficos ao corpo, embora nem sempre vitais; já os sabores amargo e ácido são geralmente associados a substâncias tóxicas, venenos ou alimentos maléficos. A percepção de umami (origem japonesa que une duas palavras: delicioso e essencial) dá ao animal a sensação de um alimento com necessidades nutricionais essenciais, como o sabor da carne aos predadores, que não são nem salgada, nam doces, e sim umami. 29 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA Nos vertebrados terrestres, a gustação ocorre por meio de agrupamentos que reúnem entre 50 e 100 células, chamados de botões gustatórios. Podem ser encontrados na língua, no palato mole, na laringe e no esôfago. Os botões se localizam entre as células da epiderme e são formados por células de sustentação intercaladas entre células receptoras gustatórias, que, por sua vez, conectam-se com neurônios aferentes, que então levarão a informação ao centro de integração. Na extremidade em contato com o alimento, as células receptoras gustatórias têm sua membrana repleta de microvilosidades, resultando em aumento de superfície de contato e melhor captação de moléculas. O número e a distribuição de tais botões são altamente variados, e isso ocorre por conta do grupo que se está observando. As imagens a seguir ilustram tais botões: A) B) C) Papila filiforme Papila circular Botão gustativo Nervo sensorial Receptor Figura 18 – Botões gustativos, estruturas formadas por células nervosas para percepção de substâncias químicas por meio do contato Acervo UNIP/Objetivo. Já vertebrados aquáticos contam na maioria das vezes com a percepção do sabor antes que o alimento adentre a boca. Células quimiorreceptoras por contato estão presentes em estruturas como os barbilhões dos bagres (figura 19) ou nas nadadeiras do peixe-leão. Essa capacidade permite ao animal explorar o sabor antes mesmo de ingerir o alimento, minimizando riscos como intoxicações. Nos invertebrados, a percepção de gosto é frequentemente associada a quimiorreceptores isolados encontrados na epiderme que reveste a região da cabeça ou ainda nos apêndices e noutras estruturas móveis. 30 Unidade I Figura 19 – Barbilhões de um bagre (estruturas portadoras de células quimiorreceptoras) Acervo UNIP/Objetivo. 1.8.2 Mecanorreceptores Explorar o ambiente é uma tarefa que demanda grande parte da vida do animal. A percepção do gosto exige um contato direto, e os odores estão geralmente limitados a curtas distâncias. Assim, os animais reúnem seus sentidos e passam a buscar o maior número de estímulos possível para suas tarefas diárias, como a busca pelo alimento ou a reprodução. A mecanorrecepção está presente na maioria dos organismos e representa papéis diversos: desde a regulação do volume celular, por meio da percepção da pressão exercida pelo citoplasma nas membranas celulares, até mesmo o mecanismo mais popular – que permite ao indivíduo tocar e reconhecer pelo tato. A mecanorrecepção está envolvida ainda na regulação da posição corporal e de equilíbrio, da pressão arterial e da audição. 1.8.3 Receptores táteis Nos vertebrados, os receptores táteis encontram-se espalhados pela pele por meio de células isoladas ou que se ramificam e constituem terminações nervosas. Entre os principais receptores táteis, existem percepções diferenciadas. Vejamos a seguir: • Discos de Merkel: trata-se de terminações nervosas livres que são estimuladas quando pressionadas, por exemplo, quando estamos tateando manualmente uma superfície. • Plexo do folículo piloso: teminações nervosas que envolvem a base do folículo produtor dos pelos ou cabelos. Ao arrancarmos um pelo, se este for retirado desde a base, provocará alterações no plexo e haverá consequente percepção de dor. Entretanto, se apenas cortarmos o pelo, não ocorrerá o contato com tais neurônios, por ser constituído de matéria acelular, não havendo dor. 31 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA • Corpúsculos de Pacini: são estruturas que permanecem estimuladas do início ao fim do impulso, estando envolvidas em percepções que não são ignoradas até que cessem, como as vibrações do meio. • Corpúsculos de Ruffini: são mecanorreceptores que estão envolvidos na percepção corporal e na capacidade de consciência da forma, posição ou espaço corporal, e estão associados a estímulos independentes da visão. Exemplo: quando conseguimos desligar um despertador sem vê-lo, apenas tateando e coordenando a distância entre o corpo e o objeto. A imagem a seguir destaca alguns dos receptores táteis presentes na epiderme: Corpúsculo de Meissner Epiderme Derme Corpúsculo de Ruffini Terminação nervosa livre Corpúsculo de Paccini Figura 20 – Mecanorreceptores táteis na epiderme dos mamíferos Acervo UNIP/Objetivo. 1.8.4 Equilíbrio e audição Os mecanorreceptores não são apenas táteis, mas sim responsáveis pela percepção de equilíbrio e posição corporal. Na maioria dos vertebrados, a audição é aliada ao equilíbrio. No caso dos mamíferos, células ciliadas presentes no labirinto do ouvido detectam alterações na posição do líquido que o preenche. Essa percepção é mediada por neurônios. À medida que o animal se move, ele também movimenta o líquido, e as células informam ao sistema nervoso central tais variações. Nos invertebrados, a percepção do corpo em relação à gravidade independe da audição. O principal órgão receptor de equilíbrio dos invertebrados é o estatocisto, que pode ter formas diferenciadas e em geral são cavidades ocas preenchidas porlíquidos como a água e forradas por neurônios mecanorreceptores em seu interior. Movimentando-se nesse líquido, estão fragmentos de rocha obtidas durante os processos de crescimento, e essas partículas são os estatólitos. Há diferenciação entre as células sensoriais que revestem o estatocisto. São elas: máculas – percepção de movimentos retos – e cristas – detecção de movimento angular. 32 Unidade I A audição dos invertebrados desenvolveu-se fortemente apenas em artrópodes, que possuem estruturas específicas para tal finalidade. Os órgãos timpânicos estão presentes em cavidades ou apêndices, sobretudo nas pernas; nesses locais, uma membrana tensionada vibra mediante a passagem da onda sonora. Na face interna da membrana, estão os neurônios mecanorreceptores, que medeiam o processo enviando o estímulo aos gânglios nervosos. Há ainda os órgãos cordotonais, que funcionam de maneira semelhante, mas as estruturas tensionadas estão abrigadas em cavidades ocas que intensificam a vibração do som. Quanto aos vertebrados, apresentaremos a audição dos mamíferos e a das aves. A percepção do som é dividida por três conjuntos de órgãos, descritos na imagem a seguir: Orelha interna Orelha externa Canal auditivo Estribo Bigorna Martelo Orelha média Janela oval Janela redonda Nervo cócleo-vestibular CócleaTímpano Figura 21 – Estruturas do sistema auditivo de um mamífero Acervo UNIP/Objetivo. Orelha externa: nesta região dá-se início à captação do som. A orelha externa é formada pelo pavilhão auditivo ou auricular e pelo canal auditivo, e ambos atuam na proteção ao ouvido médio e ao tímpano. A forma da orelha cria uma área de amplificação que intensifica o som. Orelha média: esta é também parte do processo de ampliação das ondas sonoras. Grande parte da orelha média é uma cavidade repleta de ar. O tímpano vibra mediante a onda sonora e coloca os ossos martelo, bigorna e estribo em movimento com a mesma frequência da onda, intensificando a força da vibração. 33 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA Anfíbios, répteis e aves possuem apenas um ossículo chamado de estribo ou columela. Tal modificação representa uma transição e um registro da evolução dos vertebrados, e os ossículos são originados de ossos da mandíbula. Orelha interna: constituída de cóclea, canais semicirculares e nervo auditivo. Na cóclea ocorre a conversão do som em pulsos elétricos, etapa fundamental para que os estímulos possam chegar até o sistema nervoso. 1.9 Fotorrecepção A percepção da luz é geralmente mediada por neurônios simples que apresentam células específicas: os cones e os bastonetes. Os cones são células fotossensíveis capazes de distinguir cores. Há diferentes tipos de cones, cada um responsável pela percepção de uma cor primária. Já os bastonetes são células com menor poder de acuidade visual, porém bem mais sensíveis à percepção de luz. Em períodos noturnos ou de baixa luminosidade, o animal dependerá principalmente de seus bastonetes. A figura a seguir destaca cones e bastonetes, células fotorreceptoras de um mamífero: Bastonete Conjunto de membranas pigmentadas Cone Figura 22 – Microscopia eletrônica e uma representação de suas formas Acervo UNIP/Objetivo. São encontrados três tipos de estruturas ópticas nos animais: • Ocelos: aglomerado de células que detectam intensidade de luz sem a formação de imagens ou detecção de movimento, apenas claro e escuro. Essa estrutura surge de maneira eficiente e concreta em platelmintos e é claramente visível em planárias de água doce. 34 Unidade I • Olhos simples: são órgãos estruturados por uma única lente externa e são capazes de perceber imagens ou movimentos, e, ainda, a intensidade de luz – os humanos são o exemplo mais frequente. Nossa memória é de um olho simples, porém as aranhas chegam a apresentar até oito olhos simples, que geram uma única imagem no cérebro e são estruturalmente menos complexos que os dos vertebrados. Esclerótica Corioide Íris Lente Retina Fóvea Nervo óptico Disco óptico Pupila Córnea Humor aquoso Corpo vítreo Músculos ciliares Figura 23 – Olho simples de um vertebrado Acervo UNIP/Objetivo. • Olhos compostos: são compostos por conjuntos de omatídeos, e cada um dos omatídeos é formado por córnea, cone cristalino e rabdoma. Tais estruturas funcionam como uma unidade de recepção de luz, e a imagem é resultado da soma dos fragmentos captados por cada omatídeo, ampliando a capacidade e o campo visual. Omatídeos Olho composto em corte Figura 24 – Estrutura de um olho composto: a córnea (azul), o cone cristalino (vermelho) e o rabdoma (abaixo) Acervo UNIP/Objetivo. Vimos, portanto, que os animais podem ter diferenças significativas em seus tipos de olhos, e outro fator que pode influenciar nesse sentido é o hábito de vida. Animais diurnos têm maior disponibilidade de luz, o que torna a visão mais fácil; já os noturnos podem contar com estruturas refletoras que potencializem os raios luminosos. 35 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA Certamente você já encontrou um gato à noite e notou que os olhos deles pareciam revestidos por espelhos. O funcionamento é de fato semelhante aos jogos de luzes produzidos pelos espelhos. Além desse mecanismo, podem ocorrer variações na forma das pupilas: as pupilas arredondadas, como as encontradas em humanos e cães, facilitam a entrada rápida de luz, mas não garantem um grande espectro de variação e contração. Entretanto, as pupilas verticais, que podem ser facilmente observadas nos répteis, por exemplo, são reguladas por contrações do olho, permitindo variar a entrada da luminosidade e, principalmente, melhorar a profundidade de campo e o foco. 1.10 Termorrecepção A temperatura é um estímulo importante para que o animal possa procurar um abrigo, deslocar-se em busca de calor ou, no caso dos animais homeotérmicos (capazes de produzir calor), iniciar respostas metabólicas que aqueçam o corpo. Os receptores térmicos são capazes de enviar sinais indicando altas ou baixas temperaturas, além de avisos de dor decorrentes de temperaturas extremas. Receptores espalhados por todo o corpo se comunicam com o hipotálamo, que regula as respostas fisiológicas ou comportamentais que possam alterar a temperatura. Na maior parte dos animais, não existem órgãos específicos para percepção de calor. Em geral, esse estímulo é captado por células isoladas. As serpentes e outros répteis se distinguem por apresentarem os chamados órgãos em forma de fossa localizados entre as narinas e os olhos e formados por uma depressão oca revestida por células termorreceptoras. 2 SISTEMA ENDÓCRINO A comunicação traz aos animais a capacidade de transmitir respostas entre indivíduos ou em um mesmo corpo. Assim, a comunicação pode ser interna ou externa. Como destacamos anteriormente, os sinais podem ser transmitidos de maneira elétrica ou química. O sistema nervoso é o principal responsável pelos controles corporais, mas possui um grande aliado: o sistema endócrino. Este realiza o controle químico de muitas funções corporais. A fisiologia é controlada por muitos hormônios, por exemplo, a testosterona, que regula modificações importantes em machos, ou os hormônios tireoidianos, que regulam o metabolismo dos mamíferos. Não apenas o funcionamento dos órgãos como todo o crescimento corporal é controlado pelo mesmo endócrino. Nos artrópodes, por exemplo, o hormônio ecdisona controla a continuidade do crescimento e a troca de exoesqueletos. Muitas funções corporais são reguladas quimicamente pelo sistema endócrino, como a reprodução, o desenvolvimento e a defesa. Entretanto, os mensageiros químicos são ainda notáveis aliados na comunicação. Basta observarmos quando derrubamos alguma migalha de alimento no chão. Em instantes, você certamente verá uma formiga, que, ao encontrar o fragmento, libera hormônios voláteis que são percebidos por outras formigas, e estas chegam sem que a primeira tenha saído do local. 36 Unidade I O sistema endócrino é usualmenteassociado ao controle de atividades cujas respostas são lentas e de efeito prolongado, diferentemente do sistema nervoso, que, em geral, exerce o controle de atividades com respostas rápidas e de curta duração. Entre as palavras mais lidas nos últimos trechos está hormônios, mas, afinal, o que são eles? Hormônios são substâncias químicas liberadas por órgão ou estrutura delimitados com efeitos específicos sobre estruturas ou funções diferentes. Cada hormônio tem uma célula-alvo, que é portadora de receptores específicos que se ligarão, desencadeando as respostas. Para que o hormônio chegue até sua célula-alvo, ele cai na circulação, a qual o transportará. Em vertebrados, a maior parte dos hormônios possui órgãos secretores que podem ser parte do sistema nervoso ou não, e, no primeiro caso, são chamados de neuro-hormônios. Toda vez que um neurônio produz uma substância e esta cai na corrente sanguínea – até atingir sua célula-alvo e desencadear as respostas –, dizemos que este é um controle neuro-hormonal. Outro termo importante diz respeito a sua capacidade. Se uma célula apresenta o receptor específico para se ligar a um hormônio ou neuro-hormônio, dizemos que ela é responsável, caso contrário, denominamo-la como não responsável. Imagine que um hormônio encarregado do crescimento de pelos precise chegar à epiderme e que até esse local passará por muitas células não responsáveis. Os hormônios da figura a seguir são produzidos por neurônios (em cinza), que são liberados na corrente sanguínea (em vermelho); nesta, ele passará por muitas células, mas somente as responsáveis vão recebê-lo, ou seja, as portadoras de receptores específicos. Neurônio Receptor Sistema circulatório Neuro-hormônio Célula não responsável Célula responsável Figura 25 – Ação dos neuro-hormônios Os hormônios podem ser polipeptídicos, portanto derivados de aminoácidos como a insulina e o paratormônio. Há também os hormônios esteroides, que são sintetizados a partir do colesterol. Como exemplo, podemos citar o cortisol, a progesterona e a testosterona. Por fim, há também os derivados especificamente do aminoácido, tirosina, como os hormônios tireoidianos. Os hormônios podem ter ação direta próximo ao local de produção ou por vias diretas, em que um único hormônio é o responsável pelo início da resposta. Outras vezes a resposta é dependente de 37 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA cascatas hormonais, ocasião em que um hormônio estimula a produção de outro e muitos hormônios podem estar envolvidos em uma resposta final. Entre os órgãos produtores de hormônio, podemos citar: epífase, hipófise, glândulas tireoide e paratireoides, glândula suprarrenal, pâncreas, ovários, testículos etc. Muitos são os hormônios encontrados nos animais, e o quadro a seguir traz alguns exemplos relevantes dos órgãos produtores e a função em mamíferos. A seguir trataremos de alguns hormônios que, embora apresentem a mesma constituição, têm função diferente em outros grupos de animais. Quadro 2 – Características dos hormônios Hormônio Onde é produzido Função Aldosterona Adrenais Osmorregulação e balanço hídrico Hormônio antidiurético (vasopressina) Hipófise Atua na regulação hídrica renal, contribuindo na regulação da pressão arterial Corticosteroide Adrenais Atuação generalizada com ação anti-inflamatória; regulação da concentração sérica de açúcar, da pressão arterial e da força muscular Corticotropina Hipófise Controla a produção e a secreção de hormônios do córtex adrenal Eritropoietina Rins Estimula a produção de eritrócitos Estrogênios Ovários Controla o desenvolvimento e manutenção das características sexuais e reprodutivas femininas Glucagon Pâncreas Aumenta a concentração sérica de açúcar Hormônios do crescimento (GH; GSH) Hipófise Controla o crescimento e o desenvolvimento corporal Insulina Pâncreas Reduz a concentração sérica de açúcar; afeta o metabolismo da glicose, das proteínas e das gorduras em todo o corpo Hormônio luteinizante e hormônio foliculoestimulante (FSH) Hipófise Controlam funções reprodutivas: produção de espermatozoides e sêmen, maturação dos ovócitos e os ciclos menstruais; influências sobre características sexuais como pelos e voz Ocitocina Hipófise Produz contração da musculatura uterina e dos condutos das glândulas mamárias Paratormônio Paratireoides Controla a formação óssea e a excreção de cálcio e fósforo Progesterona Ovários Preparação do útero para a implantação do óvulo fertilizado e das glândulas mamárias para a secreção de leite Prolactina Hipófise Inicia e mantém a produção de leite das glândulas mamárias Renina e angiotensina Rins Controlam a pressão arterial Hormônios tireoidianos – Tri-iodotironina (T3) e Tiroxina (T4) Tireoide Regulam o crescimento, a maturação e a velocidade do metabolismo Hormônio estimulante da tireoide (TSH) Hipófise Estimula a produção e a secreção de hormônios pela tireoide 2.1 Prolactina A prolactina ou PHL é um hormônio peptídico produzido pela adeno-hipófise ou hipófise anterior. Recebeu esse nome pelo fato de seus efeitos terem sido estudados primeiro em mamíferos. Nestes, o hormônio atua nas glândulas mamárias controlando a liberação e a produção do leite. Nos mamíferos, a prolactina exerce ainda influência sobre o comportamento materno. 38 Unidade I A prolactina associada a hormônios esteroides altera o metabolismo do encéfalo e afeta o comportamento da fêmea. Esse processo é ininterrupto, iniciando-se na gravidez e prosseguindo durante a lactação. Mesmo em fêmeas virgens, constatou-se que o contato com filhotes recém-nascidos pode gerar a produção de prolactina, fazendo que elas criem afeto e adotem o filhote. Curiosamente, nas espécies em que o cuidado é paternal, os machos apresentam níveis elevados de prolactina em relação aos filhotes machos recém-nascidos. Os mecanismos de regulação da prolactina em machos ainda são desconhecidos, mas foi constatado que em espécies cujos machos participam auxiliando no parto da fêmea os níveis posteriores permanecem elevados. Atualmente, sabe-se que esse hormônio exerce diferentes funções e está presente em praticamente todos os vertebrados, exceto nos peixes ágnatos. Em algumas aves, como pombos e pinguins, a prolactina estimula o papo, órgão do sistema digestório, que então libera uma secreção que é regurgitada e serve de alimento aos filhotes conhecida como leite de pombo. Já em peixes ósseos, a prolactina afeta a permeabilidade das brânquias, controlando a osmorregulação e a consequente eliminação de íons. Nos anfíbios, inibe os processos de metamorfose do girino ao adulto. 2.2 Hormônios tireoidianos e a metamorfose de anfíbios Os hormônios tireoidianos são dois, tiroxina e tri-iodotironina, conhecidos popularmente por T4 e T3, respectivamente. Ambos são intimamente ligados, atuando muitas vezes juntos. Para a formação desses hormônios, é necessária a produção do hormônio tireoestimulante na hipófise, o qual atua na glândula tireoidiana – que vai produzir tais hormônios. Epiglote Cartilagem tireóidea Glândula tireóidea Glândula paratireóideas superiores Glândula paratireóideas inferiores Traqueia Figura 26 – Glândula tireoidiana e paratireoides Acervo UNIP/Objetivo. Na maior parte dos vertebrados, principalmente em mamíferos, T3 e T4 regulam o metabolismo oxidativo. Altas concentrações aceleram o metabolismo e concentrações reduzidas tornam-no lento. Em anfíbios T3 e T4, junto com o hormônio prolactina, regulam a metamorfose. Os hormônios tireoidianos induzem os processos metamórficos, e a prolactina é responsável pela inibição do mesmo processo. 39 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA A inibição é fundamental, pois, se o processo se iniciar antes do acúmulo de energia corporal nos girinos, poderá fracassar. + Estímulo Hipófise Tireoide Hormônio estimulante da tireoide Hormônio tiroxina Prolactina - Inibição Figura 27 – Vias de estímulo e inibição da metamorfose de anfíbios Acervo UNIP/Objetivo. Os ovos e os juvenissão aquáticos, e o adulto é terrestre. Para essa transição de ambientes, os indivíduos necessitam de modificações drásticas, que lhes permitam resistir à própria falta de água ou à disponibilidade de oxigênio. Os óvulos e espermatozoides dos anfíbios são depositados na água, e a fecundação é externa. Então, os ovos dão origem aos girinos. Ao nascerem, os girinos exibem adaptações para a vida aquática: a boca filtra a água e retira partículas em suspensão; o sistema digestório porta um intestino longo, característico de vertebrados herbívoros, permitindo maior superfície de contato e absorção lenta; sua respiração é branquial; e a locomoção natatória executa-se com o auxílio de uma longa cauda. Sapo adulto Girino-sapo Ovos Embrião Girino Início da respiração pulmonar Surgem as patas dianteiras Figura 28 – Fases de vida e ciclo dos sapos Acervo UNIP/Objetivo. 40 Unidade I Os adultos têm bocas largas adaptadas à predação, com pernas desenvolvidas para salto e locomoção por caminhamento. O trato digestório é curto, próprio dos carnívoros, e a respiração é pulmonar ou cutânea. A metamorfose se divide em quatro etapas de acordo com a regulação dos hormônios tireoidianos: 1) Pré-metamorfose: os níveis de prolactina são altos, enquanto as larvas estão adquirindo sensibilidade do hipotálamo (sistema nervoso central) ao hormônio tireoidiano (T3/T4); nesta etapa, a larva ou girino leva uma vida normal, alimentando-se e acumulando energia para a metamorfose. 2) Pró-metamorfose: o hipotálamo já apresenta sensibilidade ao T3 e ao T4, resultando na maturação do controle da prolactina. Em consequência, os níveis circulantes de prolactina caem rapidamente, e eleva-se o nível de hormônio estimulador da tireoide (TSH). 3) Clímax da metamorfose: os hormônios tireoidianos T3/T4 encontram-se bastante elevados. Atuam nas estruturas, que necessitam de modificações ou estimulação de outras glândulas, afetando o crescimento. 4) Pós-metamorfose: nesta etapa o corpo estabelece o controle hormonal, elevando novamente os níveis de prolactina e regulando o eixo hipotálamo-hipófise-tireoide. 2.3 Endocrinologia do crescimento e metamorfose de insetos A metamorfose dos insetos é um dos fatores de maior impacto sobre o sucesso desse grupo. As mudanças pós-embrionárias geradas por ela permitem ao animal alterações corporais e comportamentais. A metamorfose deu asas aos insetos, fazendo que pudessem transpor barreiras geográficas, com melhorias na busca por parceiros reprodutivos. Em mais de 1 milhão de espécies, a fração analisada é muito pequena, e os hormônios e seus efeitos são conhecidos para poucos artrópodes. Entretanto, os indivíduos pesquisados exibem semelhanças surpreendentes. Os insetos apresentam secreção de hormônios por tecidos glandulares específicos ou por tecido nervoso. O primeiro tem dois conjuntos principais: as glândulas pró-torácicas, produtoras de hormônios esteroides, e os corpos alados. 41 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA Corpora cardíaca Corpora cardíaca Muda ecdisona Hormônio ecdisiotrópico Pares intercerebrais Corpora allata Corpora cardíaca Células neurossecretoras mediais Células neurossecretoras laterais Gânglio frontal Gânglio ventricular Gânglio ecdisal Figura 29 – Estruturas glandulares reguladoras do crescimento dos insetos Acervo UNIP/Objetivo. Os indivíduos hemimetábolos que exibem mudanças graduais ao longo de suas ecdises apresentam um amadurecimento mais rápido de suas glândulas secretoras; já os holometábolos sofrem as modificações apenas na última etapa larval, e só nesse momento manifestam o amadurecimento do sistema endócrino. São dois os principais hormônios envolvidos na metamorfose e o crescimento dos insetos: o hormônio juvenil e a ecdisona. Para cada etapa de crescimento do inseto, são necessárias a troca do exoesqueleto e as modificações corporais, bem como o desenvolvimento dos tecidos e a formação da nova cutícula. Quando o animal apresenta níveis de hormônio juvenil altos, a ecdisona desencadeia a mudança de um estágio larval para o estágio seguinte – também larval. Se o nível do hormônio juvenil estiver baixo em insetos holometábolos, a ecdisona induzirá a formação da pupa – o estágio de transformação. No momento em que o hormônio juvenil cessa sua produção, a ecdise resulturá em um indivíduo adulto. O encéfalo dos insetos produz um neuro-hormônio chamado de protoracicotrópico (PTTH), que estimula a glândula protorácica a secretar a ecdisona. A ecdisona é um pró-hormônio convertido pelas enzimas periféricas em um hormônio ativo, a 20-hidroxiecdisona ou ecdiesterona, a qual se liga em receptores intracelulares responsáveis pela regulação gênica, induzindo as modificações corporais. A ecdiesterona tem semelhante estrutura aos esteroides encontrados nos vertebrados, e alguns estudos têm demonstrado efeitos anabólicos, resultando em aumento de massa muscular em vertebrados. 42 Unidade I 3 SISTEMAS CIRCULATÓRIOS Os animais dependem de diferentes mecanismos corporais para transportar substâncias em seus corpos. Em geral, remetemos essa função ao sangue, mas veremos que muitos animais não apresentam esse fluido da maneira como conhecemos nos mamíferos. Os sistemas circulatórios têm múltiplas funções: transporte de nutrientes do trato digestório até os diferentes tecidos corporais; transporte de excretas, que precisam percorrer todos os tecidos do corpo até o rim, os nefrídios ou os túbulos de Malpighi. Os hormônios discutidos no tópico anterior são muitas vezes dependentes da circulação pela qual vão se deslocar até as células responsáveis. A transmissão de força é uma tarefa da qual normalmente nos esquecemos. O sistema circulatório de anelídeos é fundamental na movimentação de seu corpo. À medida que a musculatura se contrai, o sangue passa a compor o que chamamos de movimento peristáltico, e grupos de segmentos relaxados são seguidos por grupos contraídos. O sangue exerce ainda a condução de calor. Em animais ectodérmicos como os répteis, o calor é obtido do meio externo e necessita do sangue para retirar o calor da superfície corporal até os demais tecidos. A coagulação é uma função praticamente exclusiva dos sistemas circulatórios. Quando um animal se fere, ela garante que seu sangue não extravase em grandes volumes. Os insetos, por exemplo, têm em seu sangue uma notável reserva energética e hídrica. Então, conclui-se que se ele perder seu sangue poderá morrer rapidamente. Há múltiplas funções dos sistemas circulatórios, mas agora falaremos dos animais que não apresentam tais sistemas. Uma importante questão é: como esses indivíduos são capazes de realizar transportes em seus corpos? 3.1 Animais sem sistemas circulatórios Os primeiros animais ou os de corpos mais simples não apresentam sistemas circulatórios, entretanto requerem mecanismos transportadores, pois, semelhantemente aos indivíduos mais complexos, seus nutrientes, excretas e outros compostos precisam circular por todo o corpo. A ausência de um sistema circulatório efetivo dificulta o crescimento de corpos extensos. Imaginemos que tenhamos cinco fileiras sobrepostas de células como um muro, uma se sobrepondo à outra; se a célula mais externa captar quatro moléculas de oxigênio e consumir uma, a célula seguinte só terá três moléculas; assim, a quinta célula ficará sem o oxigênio. Desse modo, corpos muito densos requerem sistemas circulatórios para que suas necessidades metabólicas sejam atingidas. Os poríferos não apresentam estrutura tissular, isto é, não há a formação de tecidos verdadeiros; tudo o que é conduzido entre suas células depende exclusivamente de mecanismos de transporte celular como difusão, osmose ou transportes ativos. A água é um excelente condutor, e é por meio dela que o indivíduo capta seus nutrientes; todavia, o porífero não exerce controle sobre a direção da água; nesse caso, ele utiliza seus coanócitos para obter seu alimento. 43 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA Oscnidários já possuem formação tecidual, mas ainda não apresentam órgãos e sistemas; seus corpos são formados por um tecido de revestimento externo (a ectoderme) e de um revestimento interno que origina uma cavidade denominada gastrovascular. Esta cavidade, como o próprio nome sugere, acumula mais de uma função, participando não somente da digestão, mas também da circulação e da excreção, além de atuar na reprodução e no suporte corporal. No transporte interno, a cavidade serve como uma área de transição pela qual o conteúdo passará. Por meio de mecanismos de transporte celular, nutrientes, excretas e outras substâncias são conduzidas. Entre seus dois tecidos corporais, uma matriz gelatinosa preenche o corpo do animal, e nela são encontradas células ameboides, que também podem atuar no deslocamento interno. Os platelmintos são desprovidos de sistemas respiratórios. No que diz respeito à espessura, seu tamanho corporal e sua forma achatada trazem um arranjo com poucas células, permitindo que tanto trocas gasosas quanto o transporte interno aconteçam por difusão. O nome Platyhelminthes significa verme achatado. Com sua forma achatada, o transporte por difusão é bastante eficiente. Porém, a ausência de um sistema circulatório que funcione concomitantemente ao respiratório traz limitações, como ao próprio crescimento, pois um corpo maior demanda mais células, e todas elas precisam de oxigênio. Em animais maiores, o oxigênio é entregue pelo sistema circulatório. Os platelmintos fazem respiração aeróbia, e, para captar o oxigênio, as células precisam estar em contato com o meio externo, pois realizam respiração cutânea, ou seja, por meio das células que o revestem externamente; essas células captam o oxigênio, utilizam-no em seus processos e o entregam para as células adjacentes, e assim sucessivamente. Na imagem a seguir, destacamos um exemplo do processo de respiração de um platelminto. Há muitos animais que dependem de sua superfície corporal para realizar as trocas gasosas. Células internas Camada muscular Revestimento externo CO2 O2 Figura 30 – Respiração por difusão Acervo UNIP/Objetivo. 44 Unidade I 3.2 Transporte e bombeamento A composição do sangue pode variar bastante entre os animais. Os artrópodes, dependentes dessa composição para as trocas gasosas, têm muitos transportadores de oxigênio, como a hemocianina e poucas células; já os anelídeos têm outro transportador, a hemoglobina. Em vertebrados, aproximadamente dois terços do volume sanguíneo consiste em água, e o sangue chega a corresponder a até 10% do peso corpóreo total. Assim como nos invertebrados, o sangue apresenta condutores de oxigênio, além de células que podem contribuir no transporte ou na defesa imunológica. Esses condutores são moléculas formadas a partir de um conjunto proteico associado a um elemento metálico. Sua função é carregar o oxigênio, que, na maioria dos sistemas, não se desloca livremente. A hemoglobina é composta por várias cadeias de aminoácidos. Formam as cadeias proteicas, e a hemoglobina se liga ao grupo heme – que possui íons de ferro ao centro. A hemoglobina está presente em anelídeos e na maioria dos vertebrados. Nos vertebrados existem variações, sobretudo, na disponibilidade de hemoglobina, em virtude de condições externas. Estudos demonstram que peixes habitantes de águas pobres em oxigênio têm alta concentração de hemoglobina. Ainda, há outros transportadores de oxigênio como a hemocianina, que, em vez de associação com o ferro, o elemento metálico é o cobre (SCHMIDT-NIELSEN, 2002). Para que o sangue e todos os seus componentes, incluindo os transportadores de oxigênio, sejam impulsionados pelo corpo, é necessário que haja o bombeamento, ou seja, estruturas capazes de transmitir força e impulsionar o sangue por todos os tecidos. Há três tipos de bombeamento encontrados nos animais. O coração é uma bomba importante do tipo que apresenta câmaras e válvulas, porém nem todo animal tem corações como esses. Veja a seguir os tipos de bombeamentos: • Bombas peristálticas: são constituídas por vasos muscularizados que se contraem e propagam uma onda. Então, essas zonas comprimidas são seguidas por regiões relaxadas. Assim, o sangue passa do local mais estreito, ou reduzido, para as regiões mais largas ou relaxadas. Esse tipo de bombeamento é visto em artrópodes, alguns moluscos e anelídeos. • Bombas com câmaras e válvulas: esse tipo de bomba pode ocorrer em vasos ou em corações. São estruturas que possuem mais de uma câmara no mesmo órgão. As válvulas ou valvas controlam a entrada e a saída do fluxo sanguíneo nas câmaras. Uma vez que o sangue entra na câmara, a valva se fecha e a pressão é exercida pelas paredes musculares, que o impulsionam em direção à abertura de outra valva. • Bombas externas: geralmente apresentam estruturas como as valvas controladoras de fluxo, porém a força de contração é realizada não pelo vaso portador do sangue, e sim pela musculatura externa. Como ocorre em muitas artérias, sua força de bombeamento é feita pelos músculos, como nas patas, que, por meio da movimentação, contribuem para o retorno do sangue ao coração. 45 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA Valva de uma via Valva de uma via Valva de uma via Onda de contração Valva de uma via Parede muscular A) Câmara contrátil B) Bomba externa C) Contração peristáltica Pressão da contração Músculo esquelético Vaso sanguíneo ArtériaVeia Vaso sanguíneo contrátil ou coração peristáltico Figura 31 – Tipos de bombas circulatórias Fonte: Moyes e Schulte (2010, p. 330). 3.3 Tipo de circulação Os animais possuem dois tipos distintos de circulação: a aberta e a fechada. A circulação aberta não exibe vasos ou capilares que conectem o sistema. Podem apresentar vasos isolados, mas não há a interface com as células, portanto nos tecidos vai ocorrer a mistura entre o sangue rico em oxigênio e o pobre em oxigênio. Os órgãos são banhados pelo sangue e fazem trocas por difusão com o fluido. Esse tipo de circulação está presente em artrópodes e em moluscos não cefalópodes (polvos, lulas e náutilos). Animais que possuem circulação aberta terão maiores volumes sanguíneos e alta dependência de água – alguns chegam a apresentar até 50% do volume corporal de sangue. Em geral, esses indivíduos contam com um coração principal e outros acessórios que aumentam a pressão pelo corpo, como os próprios apêndices, que, durante a locomoção, elevam o bombeamento. 46 Unidade I Átrio Rim Brânquias Ventrículo Lacuna dos tecidosLacuna dos tecidos Figura 32 – Sistema circulatório aberto de um mexilhão Acervo UNIP/Objetivo. A circulação fechada é encontrada em anelídeos, cefalópodes e em todos os vertebrados. O sangue é sempre confinado em vasos por todo o sistema circulatório. Desde o coração até cada um dos tecidos, o sangue passa por veias, artérias, capilares e outros vasos que se ramificam pelo corpo. A circulação fechada permite maior direcionamento e fluxos separados. O sangue pobre em oxigênio pode ser direcionado para os órgãos que realizam trocas gasosas, e o rico em oxigênio, para os tecidos que necessitam desse aporte. A figura a seguir destaca o sistema circulatório de uma minhoca. O sistema fechado conta com um vaso dorsal que funciona como um coração, e, junto a este, uma rede de vasos e capilares, incluindo os arcos aórticos, que atuam como corações acessórios e ligam o fluxo dorsal ao ventral. Esôfago Vaso dorsal Coração Vaso ventral Figura 33 – Sistema circulatório de uma minhoca Acervo UNIP/Objetivo. 47 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA 3.4 Circulação em invertebrados 3.4.1 Moluscos Em moluscos, é possível perceber duas diferenças básicas. Os cefalópodes apresentam movimentação rápida, são nadadores ativos e grandes predadores. Seu metabolismo é acelerado e o consumo de oxigênio é proporcional a sua fisiologia. Nesses animais a circulação é fechada, garantindo um bom suporte de oxigênio e pressão elevada para que a musculatura sejanutrida e oxigenada. Já os demais moluscos têm circulação aberta ou lacunar: um coração tubular impulsiona o sangue para o interior de alguns pequenos vasos e estes liberam o sangue diretamente na cavidade corporal, também chamadas de lacunas ou hemocele. As lacunas são cavidades espalhadas por todos os tecidos, e nesses locais ocorre acentuada perda de pressão e a circulação torna-se mais lenta, permitindo a troca direta com os tecidos que permanecem banhados nesses fluidos. Em geral, esses moluscos têm metabolismo mais lento e adaptaram-se a tal padrão circulatório. 3.4.2 Artrópodes O sistema circulatório dos artrópodes é um sistema aberto e, em geral, conta com um coração tubular e dorsal. Este possui várias aberturas – chamadas de óstios, por onde o sangue entra e segue em uma única direção (HICKMAN JUNIOR; ROBERTS; LARSON, 2014). Ao coração podem estar ligadas artérias e veias que desembocam diretamente na hemocele ou lacunas corporais, onde os órgãos são banhados pela hemolinfa e os transportes são realizados principalmente por difusão. Na maioria dos artrópodes, as artérias são responsáveis pela distribuição e as veias, pelo retorno da hemolinfa ou do sangue. A força da circulação é dada pelo coração, que é muscular, contrátil e peristáltico. Ao bombear a hemolinfa, a pressão torna-se constante, graças à movimentação das pernas, que contribuem com a emissão de força para o retorno ao coração. O sangue dos artrópodes, a hemolinfa, é constituída de açúcares e elementos circulantes, como toxinas, excretas, hormônios e outros; há poucas células (principalmente amebócitos), e estas, fagocitando organismos ou corpos estranhos, atuam na defesa corporal. A hemolinfa desses animais é capaz de se coagular diante de algum ferimento. É óbvio que o sistema circulatório é fundamental para a maioria dos transportes que ocorrem no corpo do artrópode, mas os gases nem sempre são carregados por esse sistema nesse grupo. Entretanto, naqueles que dependem da hemolinfa para essa função, o transporte é dependente de hemocianina. 48 Unidade I 3.4.3 Anelídeos O sistema hemal dos anelídeos é o nome dado ao sistema circulatório, embora alguns autores defendam a tese de que o fluido de transporte ainda não pode ser chamado de sangue. A circulação é fechada (figura 33), e a força do bombeamento é dada por dois vasos longitudinais principais, e estes se ligam a várias artérias, as quais, por sua vez, unem-se a veias. Estas terminam em capilares, vasos extremamente ramificados que chegam até as células transportando nutrientes, excretas e gases. A maior parte das espécies possui pigmentos respiratórios, em especial hemoglobina, substância que apresenta alta afinidade com o oxigênio e permite a circulação desse elemento no corpo do anelídeo. As trocas gasosas são cutâneas, ou seja, os anelídeos utilizam sua pele para obter o oxigênio, e assim a circulação é vital para a distribuição dos gases. 3.4.4 Equinodermos Os equinodermos apresentam um sistema circulatório chamado de sistema hidrovascular, que acumula várias funções: além do transporte interno, atua na locomoção e apreensão de alimentos. Esse sistema é chamado de sistema ambulacral, que é formado por um conjunto de estruturas, canais ligados a projeções corporais e ao seu esqueleto. O líquido circulante não é chamado de sangue; trata-se, na verdade, do fluido celomático – que é composto sobretudo de água. A água advinda do ambiente entra no corpo e circula pelo sistema ambulacral, formado por uma rede de canais radiais. Estes se estendem aos braços, no caso das estrelas, ou ocorre a extensão corporal, como nos ouriços. Esses canais são controlados por vesículas capazes de regular a pressão interna e funcionam como pequenas bombas acessórias. Aqui a água é o veículo condutor dos gases, nutrientes, hormônios e excretas. 3.4.5 Vertebrados Todos os vertebrados apresentam circulação fechada, que sempre traz o sangue no interior de vasos. Além desse conceito, veremos que esses sistemas podem se classificar como circulação dupla ou simples. A circulação simples também pode ser denominada como unidirecional. O sangue passa pela circulação uma única vez até fechar o ciclo entre os tecidos e o sistema respiratório. Já na circulação dupla o coração traz dois sentidos de bombeamento: saindo do coração, o sangue percorre os tecidos, e, antes de ser oxigenado no pulmão, por exemplo, precisa passar novamente pelo coração – que vai bombeá-lo para os órgãos de trocas gasosas. Para os animais que têm circulação dupla, ela pode ser caracterizada como incompleta ou completa. Na completa, câmaras e vasos são distintos para os fluxos de sangue rico e pobre em oxigênio; neste caso, um fluxo que chega aos tecidos e perde oxigênio não se encontra com o fluxo que acaba de passar pelo sistema respiratório. Entretanto, a circulação incompleta ocasiona misturas entre ambos os fluxos. 49 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA Os corações da maioria dos vertebrados são capazes de se contrair de maneira inerente e sem estímulos externos, graças a sua musculatura. O coração de uma rã ou de uma tartaruga, mesmo fora do corpo, pode continuar a bater por horas; já o dos mamíferos não resiste muito tempo, haja vista precisar de maior aporte de oxigênio. Veja a figura a seguir, repare na densa musculatura: Veia cava superior Aorta Artéria pulmonar Músculo do coração Figura 34 – Coração de um mamífero Acervo UNIP/Objetivo. Muitos elementos podem influenciar a circulação dos vertebrados, incluindo a própria pressão dos sistemas, a frequência cardíaca, ou seja, o número de contrações cardíacas em uma determinada unidade de tempo é altamente influenciada pelo tamanho corporal e pela taxa metabólica. Animais maiores com metabolismo lento têm batimentos também lentos como o peixe bacalhau – famoso por habitar águas geladas –, apresentando uma frequência de 30 batidas por minuto, enquanto um elefante tem 25 batidas por minuto; por sua vez, um mussaranho, pequeno roedor de metabolismo extremamente acelerado, apresenta 300 batidas por minuto. Em geral, a pressão sanguínea varia de acordo com a região do corpo do animal. As regiões mais distantes do coração costumam perder pressão à medida que o sangue flui; para isso, o animal pode necessitar de bombas acessórias ou outros mecanismos. Em contrapartida, animais podem ter de controlar pressões excessivamente altas, como as girafas, que podem atingir pressão maior que 260 mmHg no coração, a qual chega a 400 mmHg nos membros e em torno de 75 mmHg no crânio, ou seja, duas vezes mais altas do que em humanos. O sistema circulatório das girafas é formado de paredes muito espessas, com válvulas por toda a sua extensão, o que permite o retorno do sangue – sobretudo dos membros. Há também muitos capilares para nutrir os tecidos mais distantes. 50 Unidade I As girafas sofrem mais com os efeitos da gravidade, principalmente nas patas. 200 mnHg 100 mnHg 60 mnHg 400 mnHg 75 mnHg 250 mnHgAl tu ra (m ) 4 3 2 1 Figura 35 – Comparação da pressão sanguínea entre um humano de altura média e uma girafa adulta Fonte: Moyes e Schulte (2010, p. 333). As serpentes possuem corpos basicamente alinhados ao seu coração; não apresentam pressão adicional na cabeça, ou seja, há a tendência de o sangue acumular-se sem chegar à cabeça quando esta se levanta. Veremos adiante os principais grupos de vertebrados e como são caracterizados seus sistemas circulatórios. 3.4.5.1 Peixes O coração dos peixes, tanto teleósteos quanto elasmobrânquios, apresenta duas câmaras, um átrio e um ventrículo. O átrio recebe o fluxo e o bombeia. No lado venoso, o átrio é precedido na altura da veia por uma câmara maior chamada seio venoso, que assegura o fluxo contínuo de sangue para o coração. Já na extremidade arterial, o ventrículo bombeia o sangue para uma porção muscular espessa; nos teleósteos, essa região é o bulbo arterial, e, nos elasmobrânquios, o músculo cardíaco compõe o cone arterial.O cone é equipado por válvulas, evitando o retorno do fluxo ao interior do ventrículo. 51 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA Átrio Ventrículo Figura 36 – Coração de peixe com suas duas câmaras Acervo UNIP/Objetivo. O sangue percorre um circuito único, caracterizando um sistema de circulação simples. Então, entra no seio venoso, que o bombeia e segue para o átrio e depois para o ventrículo. O ventrículo muscular bombeia o sangue através do bulbo arterial ou cone arterial e, subsequentemente, para o corpo. Entre as câmaras do coração dos peixes, existem valvas que exercem abertura e fechamento em virtude das mudanças de pressão existentes nas câmaras. Essas valvas são estruturas passivas não dotadas de contrações próprias. O coração dos peixes tem contrações em série, iniciando-se no seio venoso. Essa câmara apresenta paredes finas e não compreende importância significativa na força de bombeamento; não há valvas capazes de impedir o retorno de sangue da cavidade seguinte, e a pressão não é efetiva. Contudo, o seio venoso tem como papel iniciar o batimento cardíaco. Seguindo o fluxo, o átrio se contrai. Assim, causa o aumento da pressão atrial e promove o fechamento da valva para o seio venoso e a abertura da valva para o ventrículo. A diferença de pressões entre o átrio contraído e o ventrículo relaxado impulsiona o fluxo. Em seguida, o ventrículo se contrai, a valva atrial é fechada e a valva para o bulbo é aberta. Nos peixes ósseos, o sangue flui para o bulbo, que tem caráter elástico. A pressão do próprio fluxo faz o bulbo expandir-se. O bulbo atua finalmente como uma estrutura reguladora da pressão cardíaca, sua forma elástica, amortecendo variações de pressão e permitindo um fluxo mais contínuo de sangue. Nos elasmobrânquios, o sangue do ventrículo segue para o cone arterial, e este apresenta várias valvas adicionais, que garantem uma estabilidade da pressão e maior direcionamento do fluxo. 52 Unidade I Além das brânquias, os peixes pulmonados possuem pulmões como órgãos respiratórios, trazendo variações importantes em sua circulação. Eles são considerados um princípio da circulação dupla presente nos demais vertebrados. As brânquias recebem o fluxo sanguíneo que já passou pelos pulmões. Supondo que a maioria dos pulmonados viva em águas pobres em oxigênio, crê-se que eles perderiam oxigênio para o meio. Entretanto, eles apresentam modificações em suas brânquias, com arcos que permitem fluxo direto por elas. O coração dos peixes pulmonados possui dois átrios e um ventrículo parcialmente dividido. A seguir, veremos que apenas aves, mamíferos e crocodilos têm divisão ventricular total. O fluxo vindo dos pulmões chega ao átrio esquerdo, enquanto o átrio direito recebe sangue sistêmico. No decorrer do fluxo para o ventrículo, a divisão parcial tende a manter duas correntes distintas. Desse modo, o sangue oxigenado flui em direção aos dois arcos branquiais, que nutrem a cabeça, e então o sangue menos oxigenado do lado direito flui pelos arcos branquiais posteriores e segue para os pulmões. Brânquias Tecidos Coração Brânquias Corpo Figura 37 – Fluxo circulatório de um peixe Fonte: Moyes e Schulte (2010, p. 333). Os anfíbios podem apresentar duas regiões para suas trocas gasosas, a pele e o pulmão, ou brânquias, no caso dos aquáticos. Diante disso, o sistema circulatório dos anfíbios necessita ser capaz de percorrer todo o corpo e redistribuir os gases. O coração dos anfíbios possui três câmaras, com dois átrios e um ventrículo. O sangue oxigenado dos pulmões entra pelo átrio esquerdo por meio da veia pulmonar. Então, o sangue desoxigenado ou pouco oxigenado vindo da pele entra pelo átrio direito por meio do seio venoso. Na imagem a seguir, vimos como está estruturado o coração de um anfíbio: 53 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA AD AE V Átrio direito Átrio esquerdo Ventrículo Figura 38 – Coração de um anfíbio, com suas três cavidades Acervo UNIP/Objetivo. Em seguida, ambos os átrios encaminham o sangue ao ventrículo único. Um desses átrios, as trabéculas, evita que os dois tipos de sangue se misturem. Esse mecanismo ainda é pouco compreendido, e, aparentemente, tem a forma interna septada como um impedimento da mistura. Uma valva espiral dentro do cone arterial direciona o sangue desoxigenado para a artéria pulmocutânea, que o carrega em direção ao pulmão e à pele onde este será oxigenado; já o sangue oxigenado segue para as artérias sistêmicas e nutre os tecidos. A valva espiral demonstra importância ao manter as correntes separadas. Aorta Tecidos Coração Ventrículo Átrio direito Artéria pulmocutânea Átrio esquerdo Pele Pulmão Figura 39 – Fluxo circulatório de um anfíbio, com circulação dupla Fonte: Moyes e Schulte (2010, p. 334). 54 Unidade I 3.4.5.2 Répteis Os répteis denotam variações relevantes em sua circulação. O coração dos não crocodilianos é composto por cinco câmaras e possui dois átrios. O ventrículo é dividido em três compartimentos: cava venon, cava pulmonar e cava arterial. Todos eles são interconectados por paredes musculares e septos. O cone arterial é segmentado e composto por três artérias. A artéria pulmonar direciona o fluxo ao pulmão, e as aortas direita e esquerda nutrem o restante do corpo. A cava pulmonar envia o sangue pela artéria pulmonar, e as demais aortas partem da cava venon. Aorta direita Aorta esquerda Veia pulmonar Átrio direito Átrio esquerdo Artéria pulmonar Cava venon Cava pulmonar Cava arterial Figura 40 – Coração de um réptil não crocodiliano Fonte: Moyes e Schulte (2010, p. 336). Assim como os anfíbios, os répteis não apresentam divisão total de seu ventrículo, mas mesmo assim os fluxos tendem a não se misturar. O sangue desoxigenado entra pelo átrio direito e segue a cava venon, atravessa a parede muscular e passa para a cava pulmonar, saindo pela artéria pulmonar para ser oxigenado. O sangue oxigenado entra no átrio esquerdo e segue para a cava venon, e depois sai pelas aortas direita e esquerda. Uma grande vantagem adaptativa dos répteis permite que esses animais desviem seu fluxo sanguíneo entre a circulação pulmonar e a sistêmica, otimizando o consumo de oxigênio em situações extremas ou regiões prioritárias. Essa capacidade de encurtar caminhos na circulação ou alterar o direcionamento é chamada de desvio. Nos répteis não crocodilianos, ocorrem dois tipos de desvio: o desvio D-E, isto é, da direita para a esquerda, e o desvio E-D, em movimento contrário. No desvio D-E, uma pequena fração de sangue desoxigenado deixa de seguir no sentido pulmonar e cai novamente na circulação sistêmica, levando sangue pouco oxigenado pelo corpo. No desvio E-D, uma fração do sangue pulmonar rico em oxigênio entra novamente no sentido do pulmão. Cada espécie de réptil consegue regular o tempo e o grau desses desvios. Sabe-se que existem variações significativas, entretanto não são conhecidos os mecanismos de todas as espécies. 55 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA Os répteis são capazes de interromper sua respiração e volver após longos períodos, como no descanso debaixo d’água. Nesses períodos, os répteis executam um forte desvio D-E, retornando o sangue que deveria seguir para o pulmão e enviando-o ao corpo. Já os répteis crocodilianos, que reúnem crocodilos, aligátores e jacarés, têm um coração com quatro câmaras completamente separadas, logo seus ventrículos são totalmente distintos. Entretanto, pode existir mistura entre o sangue rico e o pobre em oxigênio, uma vez que seus sistemas estão conectados e desvios podem ocorrer. Como nos demais répteis, os crocodilianos possuem três vasos sanguíneos principais partindo do coração. A aorta direita envia principalmente sangue para o cérebro e a região anterior do corpo, e a aorta esquerda envia sangue para as regiões posteriores e os demais órgãos. Essas duas aortas apresentam anastomoses, ou seja, estão conectadas em dois pontos no sistema circulatório: o forâmem de Panizza, na base das aortas (próximoao coração) e outro no abdome. Aortas Forâmen de panizza AD VD AE VE Figura 41 – Coração de um réptil crocodiliano (o forâmem de Panizza torna-se um ponto de desvio de uma fração sanguínea) Acervo UNIP/Objetivo. As anastomoses desses répteis permitem que desvios D-E sejam possíveis, uma vez que os ventrículos separados impedem desvios E-D. Quando esses animais estão ativos e respirando ar, a pressão sanguínea é alta no ventrículo esquerdo em relação ao direito, então o sangue oxigenado passa do ventrículo esquerdo para as aortas direita e esquerda por meio do forâmem de Panizza e da anastomose abdominal. Isso evita que o sangue desoxigenado de ventrículo direito siga para a circulação sistêmica, indo somente para os pulmões. Outra adaptação presente nos crocodilianos se refere às valvas de entrada na circulação pulmonar, que, diferentemente de outros grupos de vertebrados, não são passivas, apresentam nodos de tecido que estabelecem conexões como engrenagens que se conectam e formam um elo firme, obstruindo o fluxo. Os níveis de adrenalina controlam a posição dessas conexões nas valvas, funcionando de maneira ativa, em vez de simplesmente abrir e fechar em virtude da variação de pressão no coração. 56 Unidade I Quando os crocodilianos estão em repouso debaixo d’água, os níveis de adrenalina são reduzidos e os dentes da engrenagem se fecham, e daí o fluxo sanguíneo é desviado da artéria pulmonar. Já quando o animal está ativo, os dentes se abrem e o fluxo segue para os pulmões. 3.4.5.3 Aves e mamíferos Aves e mamíferos possuem corações formados por quatro cavidades distintas, revestidas internamente por paredes relativamente lisas. Do lado esquerdo, o átrio exibe paredes finas e um ventrículo de paredes espessas; do lado direito, o átrio e o ventrículo apresentam paredes relativamente finas. O ventrículo esquerdo bombeia o sangue em direção sistêmica. Desse modo, precisa ter alta resistência, pois sua força de bombeamento deve ser maior em relação ao ventrículo direito, o qual bombeia a circulação pulmonar. Os ventrículos são separados por um septo denominado intraventricular, já os átrios são isolados pelo septo interatrial. Entre o átrio e o ventrículo direito, está a valva tricúspide; do lado esquerdo, a valva bicúspide. Ainda há as valvas semilunares presentes na saída dos ventrículos, que impedem o retorno de fluxos para os ventrículos. A valva semilunar pulmonar se localiza entre o ventrículo direito e a artéria pulmonar, que bombeia o sangue aos pulmões. A valva semilunar aórtica está entre o ventrículo esquerdo e a aorta, que leva o sangue à circulação sistêmica. Veja a estrutura do coração de um mamífero: Crossa aorta Artéria pulmonar Veia cava superior Valva semilunar fechadaValva semilunar Átrio direito Valva tricúspide Ventrículo direito Cone muscular cardíaco Septo interventricular Veia cava inferior Ventrículo esquerdo Veias pulmonares Átrio esquerdo Endocárdio Miocárdio Periocárdio Valva bicúspide Figura 42 – Coração de um mamífero, com dois átrios e dois ventrículos Acervo UNIP/Objetivo. A circulação é fechada, dupla e completa, não ocorrendo nenhuma mistura entre o sangue desoxigenado e o oxigenado. 57 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA O sangue sistêmico chega ao coração no átrio direito por meio da veia cava, então é bombeado para o ventrículo direito, que se contrai e o impulsiona para a artéria pulmonar. O sangue pulmonar volta ao coração após sua oxigenação por meio das veias pulmonares, chegando ao átrio esquerdo, cuja contração o leva até o ventrículo esquerdo; após sua contração, o sangue sai do coração pela aorta em direção aos tecidos. Existem duas diferenças básicas entre a circulação de aves e a de mamíferos. Estes mantêm o arco aórtico esquerdo, aquelas possuem o arco aórtico direito. Outra diferença é a permanência da circulação da porta renal, que aparece em vertebrados não mamíferos e se caracteriza pelo fato de os rins receberem sangue venoso das regiões posteriores do corpo. Veja a imagem a seguir e compare os corações de uma ave e de um mamífero: A) B) Átrio direito Átrio direito Átrio esquerdo Átrio esquerdo Ventrículo direito Ventrículo direitoVentrículo esquerdo Ventrículo esquerdo Aorta Figura 43 – Comparação entre o coração de aves (A) e o de mamíferos (B) Acervo UNIP/Objetivo. 4 SISTEMAS RESPIRATÓRIOS A respiração dos animais é estudada pelos fisiologistas há muito tempo. Entender como esse sistema funciona é extremamente crucial, pois compreende mecanismos essenciais para a vida, além de estar relacionado, é claro, com todos os outros sistemas, uma vez que são dependentes do oxigênio obtido por ela. O termo respiração é comumente associado a várias definições, e vamos relembrar algumas delas. Respiração pode ser designada como o processo, em si, da troca de gases entre o indivíduo e o meio, resultando em obtenção de O2 e eliminação de CO2. Quando um animal pratica ventilação pulmonar também dizemos que ele está respirando, entendendo então outro significado associado à entrada e à saída de diferentes gases no sistema respiratório. Não podemos esquecer ainda a definição bioquímica que trata da respiração celular cujo processo pode ser entendido como o objetivo do sistema respiratório. O oxigênio oriundo do ar é utilizado em processos de redução oxidativa, como na liberação de energia armazenada por meio das ligações existentes nas moléculas de ATP. A oxidação garante que o animal consiga disponibilizar a energia em 58 Unidade I seu corpo, e essa reação apresenta como produtos eliminados CO2 e H2O. Assim, poderemos entender futuramente que a respiração pode ser um mecanismo de perda considerável de água para os animais. Para captar o O2 necessário, o animal conta com diferentes locais para suas trocas gasosas; entretanto, independentemente do órgão envolvido, existem algumas características básicas observadas em todos eles. Em geral, trata-se de superfícies úmidas com potencial de difusão, ramificadas e capazes de entregar o oxigênio, ou altamente vascularizadas, para que o mesmo papel seja cumprido. Diante de suas adaptações e relações de disponibilidade, o animal pode utilizar superfícies não específicas para a troca, como a pele, cujo papel principal é revestimento e proteção do corpo, ou ainda por meio de órgãos específicos, como pulmões ou brânquias. O consumo de oxigênio de cada animal é uma equação extremamente variável, calculada com base nas diversas atividades realizadas pelo organismo ou por sua disponibilidade no meio. Nesse caso, um indivíduo terrestre tem a sua disposição quantidades superiores de oxigênio, uma vez que os níveis de oxigênio livres são muito superiores na superfície comparados aos da água. Tensão de oxigênio Sa tu ra çã o da h em og lo bi na (% ) 20 20 0 100 40 40 60 60 80 80 100 120 Girino Rã adulta Elefante Camundongo Homem Feto humano Figura 44 – Relação entre saturação da hemoglobina e tensão de oxigênio em diferentes vertebrados Acervo UNIP/Objetivo. Corpos com altas taxas metabólicas requerem altos níveis de oxigênio para que ocorra a oxidação necessária para a liberação de energia que será consumida nas atividades metabólicas. O desenvolvimento organizacional também pode ser um elemento regulador do consumo de oxigênio. As planárias têm corpos muito simples e achatados, como visto em sistemas circulatórios, portanto seu consumo de oxigênio é relativamente pequeno. Já os animais com grandes órgãos e maior complexidade necessitam de níveis mais elevados. Em relação aos fatores externos, a umidade relativa é vital para a respiração dos animais, isto é, a quantidade de água dispersa na atmosfera que entrará nos corpos junto dos gases que compõem o ar. Baixas porcentagens de umidade relativa são responsáveis por desidratação corporal, uma vez que o 59 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA corpo precisa lançar água de seu metabolismo no sistema respiratório, pois a águaé um componente importante no aumento de superfície entre o órgão e o veículo. Muitos animais possuem órgãos altamente suscetíveis a variações na pressão atmosférica. Assim, o ar comprimido dentro dos pulmões tem pressão própria, portanto executa força em direção às paredes do pulmão e, uma vez que a pressão externa se distingue da interna, variações no ambiente acarretarão mudanças fisiológicas. Nesse momento, é imperioso ressaltarmos a seguinte questão sobre a relação entre a pressão atmosférica e a respiração: qual ambiente possui níveis mais elevados de oxigênio: a praia na linha do horizonte ou o pico mais alto do Monte Everest? Na realidade, ambos apresentam a mesma disponibilidade; as variações são decimais e não exercem impacto nos sistemas respiratórios dos animais. O que se altera é a pressão atmosférica, que é muito inferior nas grandes altitudes. Talvez você já tenha ouvido falar do distúrbio respiratório chamado de “mal de atitude”, que ocorre quando um animal que vive em baixas altitudes realiza migração. No nosso caso, aplica-se quando fazemos uma viagem para um local mais alto, como uma montanha, causando-nos cansaço e falta de ar – às vezes por dias – até que nosso corpo se aclimatize. Esse mal é gerado devido ao fato de a pressão atmosférica de regiões altas ser mais baixa do que das regiões na linha do horizonte – quanto mais próximo se está do centro da Terra, maior é a pressão sofrida. Os mamíferos apresentam pulmões que aspiram o ar e que possuem pressão negativa em relação ao meio. Quando a pressão do ar no ambiente externo é baixa, a força passa a ser apenas do pulmão, tão logo a atmosfera não mais empurre o ar em direção ao órgão. Figura 45 – Algumas aves são capazes de sobreviver em altitudes elevadas Disponível em: https://encr.pw/6B1C5. Acesso em: 29 maio 2023. Na maioria dos animais, a respiração é dependente da circulação. O oxigênio é pouco solúvel, e raros animais apresentam dissolução desse oxigênio correndo livremente em seus sistemas circulatórios. Em geral, ocorre dependência de pigmentos respiratórios ou transportadores, e o primeiro nome deriva do fato de que muitos animais têm a cor de seu sangue determinada por seu transportador de oxigênio. São dois os principais: a hemoglobina e a hemocianina. 60 Unidade I Conhecendo as variáveis, vamos entender como os diferentes grupos de animais extraem o oxigênio necessário para sobreviverem, começando pela respiração na água. 4.1 Respiração em meio aquático Os primeiros animais surgiram na água e durante milhares de anos toda a fauna que existia era igualmente aquática. Portanto, os primeiros mecanismos respiratórios se iniciaram na água. Eles foram e ainda são muito eficientes. Animais de corpos reduzidos, como microcrustáceos, ou aqueles que apresentam metabolismo muito lento, como os cnidários, não denotam regiões específicas, logo fazem suas trocas apenas por difusão. Animais que utilizam seu revestimento corporal para tal função, como os invertebrados aqui citados, ou ainda os anfíbios, evidenciam umidade constante em tais regiões, alta permeabilidade e, quando necessário, estratégias de aumento de superfície, objetivando que as áreas centrais não fiquem sem oxigênio. Em geral, os órgãos específicos são as brânquias, que podem ser diferenciadas dos pulmões por apresentarem como área de trocas gasosas a região externa do órgão. Sua estrutura consiste em tecido lamelado repleto de dobras e é revestido de uma cutícula permeável, o que lhe permite aumento de superfície. Além das dobras, a brânquia pode contar com cílios, flagelos, além de musculatura suja, e essa ligação promove fluxo contínuo de água nas brânquias. 4.1.1 Respiração em peixes Existem ainda peixes com pulmões modificados capazes de extrair oxigênio da água; porém, como sua face de troca é a parte interna do órgão, ele se caracteriza como um pulmão. Sem dúvida, os peixes são exemplares em respiração. Possuem brânquias otimizadas, extremamente adaptadas para obter grandes quantidades de oxigênio. As brânquias podem estar recobertas por opérculos, como nos peixes ósseos, estrutura dotada de musculatura capaz de abrir ou fechar, o que garante proteção às brânquias – e também participam ativamente da respiração. Alguns peixes, como os cartilaginosos, exibem apenas fendas branquiais, e suas brânquias ficam no interior de regiões em geral mais expostas. Corte do opérculo Arcos branquiais Filamentos branquiais Fendas branquiais Espiráculo A) B) Figura 46 – Área das brânquias de um peixe ósseo (A) e de um peixe cartilaginoso (B) Acervo UNIP/Objetivo. 61 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA Os peixes ósseos possuem um mecanismo importante na captação de oxigênio. Imaginemos a seguinte situação: as brânquias são incapazes de aprisionar o veículo, neste caso, a água, portador de oxigênio. Assim, toda a sua fisiologia é adaptada para extrair o máximo de oxigênio possível de um fluxo de água. As lamelas que compõem as brânquias aumentam a superfície de contato, e a captura do oxigênio se dá por um processo chamado de contracorrente. O fluxo contracorrente torna o sangue que sai das brânquias saturado de oxigênio, pois a água rica em oxigênio se encontra com o sangue rico em oxigênio. Então, seguem o sentido oposto, e, à medida que o sangue percorre as brânquias, mais e mais receptores se ligam ao oxigênio. Ao chegar às brânquias, o sangue está pobre em oxigênio e depara-se com água pouco oxigenada, tendo a relação de alta disponibilidade de transportadores para uma grande oferta de O2 na água. À medida que o sangue percorre a brânquia, a disponibilidade de oxigênio aumenta; em contrapartida, seus receptores estão menos disponíveis; porém, diante da alta oferta na água, os receptores restantes se ligam ao O2 e seguem rumo aos tecidos com sua capacidade máxima de transporte. A imagem a seguir destaca o fluxo contracorrente. Note que as setas grandes indicam o gradiente das concentrações da água e do sangue durante o percurso pelas brânquias. Brânquia Água CO2 Sangue O2 Figura 47 – Fluxo contracorrente de um peixe ósseo Acervo UNIP/Objetivo. Para que o sangue possa estar sempre saturado ao sair das brânquias, é necessário manter bombeamento constante, e a água deve passar quase interruptamente – mantendo os suprimentos de O2. Nos peixes ósseos, ocorre o bombeamento opercular: a água entra pela boca e é direcionada para a cavidade branquial, que é recoberta pelo opérculo. Quando a boca está aberta, o opérculo permanece fechado, permitindo a pressão necessária para a chegada desta até as brânquias. Subsequentemente, a boca se fecha e o opérculo se abre, expulsando a água do corpo e percorrendo as brânquias. 62 Unidade I Figura 48 – Fluxo do bombeamento opercular Acervo UNIP/Objetivo. Vista dorsal Boca aberta Boca fechada Câmara bucal se expande Arcos branquiais Opérculo fechado Opérculo aberto Câmara bucal se contrai Figura 49 – Fluxo do opérculo aberto e fechado Acervo UNIP/Objetivo. Quando nadam em altas velocidades, peixes cartilaginosos e ósseos utilizam a ventilação forçada. A boca fica constantemente aberta, e a água passa direto para as brânquias. Os peixes cartilaginosos não apresentam opérculo, assim a água simplesmente segue o fluxo oposto ao sentido da natação. Já os peixes ósseos deixam seus opérculos sempre abertos, de maneira que a força seja advinda apenas da natação. Tubarões e outros que pratiquem exclusivamente ventilação forçada carecem de natação permanente, caso suas taxas metabólicas não estejam extremamente reduzidas. A ventilação forçada é uma opção aos peixes ósseos que minimiza o gasto energético. Em natação com alta velocidade, o animal já apresenta um custo energético alto em sua musculatura responsável pelo nado. Para suprir suas necessidades de oxigênio, seria preciso abrir e fechar a boca e o opérculo 63 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA de maneira muito rápida, e a musculatura envolvida em ambos os processos consumiriamuita energia. Logo, quando eles optam pela ventilação forçada, o esforço é apenas o de nadar. A ventilação forçada é o mecanismo utilizado pelos peixes cartilaginosos para que suas brânquias recebam oxigênio por meio do fluxo de água. Fendas branquiais Fenda branquial externa Esôfago Fenda branquial interna Espiráculo Faringe Brânquia Câmara brânquial Espiráculo Figura 50 – Ventilação forçada Acervo UNIP/Objetivo. 4.2 Transição de ambientes Os órgãos aquáticos sofreram modificações consideráveis para vencer as adversidades do ambiente externo. As brânquias dos artrópodes aquáticos são finas e membranosas, o que lhes confere a permeabilidade. Nos aracnídeos atuais, encontramos um pulmão chamado de foliáceo, o que evolutivamente é muito semelhante ao identificado nos primeiros artrópodes terrestres. Observação Na superfície, há maior disponibilidade de oxigênio livre do que na água, assim a transição para a superfície permitiu elevação do metabolismo, crescimento e novas adaptações. O pulmão foliáceo tem como região de trocas a face interna do órgão. Internamente, possui uma série de lamelas muito semelhantes morfologicamente às brânquias foliáceas dos indivíduos aquáticos. As brânquias finas não são capazes de se sustentar na ausência da água. As modificações foram graduais, passando possivelmente por órgãos que realizavam apenas difusão e, depois, conquistaram a capacidade de ventilação. Alguns peixes também desempenham respiração aérea, captam bolhas de ar pela boca. Então, o ar segue para alguma superfície fina e permeável como um pulmão modificado, vesículas, trato digestório ou mesmo a cavidade bucal. 64 Unidade I Os peixes de respiração aérea se dividem em indivíduos que a realizam de maneira obrigatória ou facultativa. Os primeiros não apresentam brânquias ativas, e sua respiração é apenas realizada por meio do ar da superfície, isto é, ocorre sobretudo em peixes que vivem em águas com baixa disponibilidade de oxigênio ou em transição de ambientes como áreas lamacentas. Os segundos possuem brânquias como principal captador de oxigênio, e, diante de adversidade, ou seja, baixa disponibilidade de oxigênio na água, esses peixes sobem à superfície e captam as bolhas de ar. 4.3 Respiração na superfície Entre os invertebrados mais bem-sucedidos no ambiente terrestre, sem dúvida estão os artrópodes, que podem fazer trocas pela superfície ou por pulmão modificado, mas o órgão mais eficiente é a traqueia. O sistema traqueal é composto por um acesso chamado de espiráculo, que é uma porta de entrada para o ar. Há uma rede de traqueias, tubos cilíndricos e ocos que permitem a difusão do oxigênio até os tecidos. Diferentemente de muitos sistemas respiratórios, o traqueal não é subordinado à circulação para a entrega do oxigênio, as próprias ramificações transportam os gases sem dependência dos transportadores, e o sangue pode ganhar outros papéis – como o de fazer reserva energética. Espiráculo Traqueia Traquíolas Músculo Limite do exoesqueleto Figura 51 – Estruturas do sistema traqueal Acervo UNIP/Objetivo. 4.3.1 Pulmão dos vertebrados Os pulmões dos vertebrados ganham complexidade. À medida que os grupos surgiam, o bombeamento tornava-se necessário para que o ar fosse aprisionado nas cavidade internas do órgão e as trocas pudessem ocorrer. O bombeamento dos vertebrados é ativo, isto é, executado pelo próprio órgão – com o auxílio de musculatura próxima. O bombeamento por pressão ocorre em anfíbios como os sapos. Nesse caso, o animal consegue regular a pressão interna e reter o ar mesmo em uma nova inspiração, assim é possível inspirar múltiplas vezes e finalizar com uma única expiração. As narinas são abertas, e o ar entra na cavidade bucal, que se expande para armazenar temporariamente o ar. Nesse momento, a 65 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA válvula da glote fica fechada, obstruindo o ar que já está presente nos pulmões. Em seguida, as narinas são fechadas, a glote é aberta e o pulmão se enche, aumentando seu volume de ar. Esse efeito é possível, pois a cavidade torácica dos anfíbios não é fechada e o volume pulmonar pode ser alterado. Narinas (abertas) Narinas (fechadas)Cavidade bucal Glote (fechada) Glote (fechada) Glote (aberta) Glote (aberta) Pulmão Boca Ar Figura 52 – Ciclo ventilatório de um anfíbio mediante bombeamento por pressão (a maior seta indica que o ciclo se repete) Fonte: Moyes e Schulte (2010, p. 341). A maioria dos vertebrados como répteis, aves e mamíferos realiza bombeamento por sucção, no qual a pressão interna é inferior à externa e o ar é empurrado em direção aos pulmões. Nesse caso, a cavidade torácica não pode expandir-se além de certo limite. Cada inspiração é seguida de uma expiração, obrigando o animal é expulsar o ar antes que coloque um novo volume. Observe na imagem a seguir a cavidade torácica de um cão: Pulmões Figura 53 – Pulmões de um mamífero, que são protegidos na cavidade torácica Acervo UNIP/Objetivo. 4.3.2 Respiração em anfíbios Os anfíbios podem obter oxigênio por via cutânea, pelas brânquias externas e pelos pulmões. Se o indivíduo for aquático ou terrestre, poderá combinar duas dessas opções. Em geral, os terrestres continuam altamente dependentes de água e respiram tanto por pulmões como pela pele. 66 Unidade I Figura 54 – Pulmão saculiforme de um anfíbio, um órgão com uma pequena área de contato Acervo UNIP/Objetivo. Anfíbios têm pulmões bilobados relativamente simples, com poucas áreas de contato e paredes muito finas na maioria das espécies. Porém, rãs e sapos terrestres exibem muitas divisões internas, os septos, que lembram um favo de mel e aumentam amplamente a superfície de contato. Os pulmões de todos os anfíbios são bem-vascularizados, o que eleva a velocidade de distribuição dos gases. Como discutido neste livro, os anfíbios ventilam seus pulmões por meio do bombeamento por pressão. 4.3.3 Respiração em répteis Os répteis apresentam dois pulmões. Em algumas serpentes, um deles pode estar reduzido ou ausente. Os pulmões dos répteis podem ser de dois tipos: unicameral – com um único saco septado; ou multicameral – que exibem um tubo enrijecido chamado de brônquio, que se ramifica e leva o ar para dentro das câmaras dos pulmões. O pulmão dos répteis revela grande quantidade de dobras internas, com pequenos alvéolos terminais. Na figura a seguir, notamos que o pulmão já apresenta aumento significativo de área de contato em relação aos anfíbios: Figura 55 – Pulmão unicameral de um réptil 67 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA Os répteis respiram por bomba por sucção, separando os músculos que atuam na alimentação dos envolvidos na ventilação. Em tartarugas e jabutis, a caixa torácica é fundida na carapaça rígida, sem que a movimentação muscular da caixa torácica possa mover-se e contribuir para a ventilação. Em contrapartida, esses animais apresentam um par de músculos abdominais que se expandem e se contraem, expandindo o pulmão. Observação A respiração cutânea presente nos anfíbios é basicamente impossível em répteis, uma vez que o tegumento desses animais é extremamente queratinizado, o que é uma estratégia importante para evitar a dissecação. 4.3.4 Respiração em aves O pulmão das aves é pareado e rígido. Seu volume altera-se muito pouco durante o ciclo ventilatório, e uma série de sacos aéreos associados aos pulmões atua na manutenção do fluxo de ar. Traqueia Interclavicular Cervical Abdominal Torácico superior Torácico anterior Figura 56 – Sistema respiratório das aves (traqueia, um par de pulmões e sacos aéreos) Acervo UNIP/Objetivo. O ar entra no sistema respiratório das aves por meio das narinas e da boca. Depois, passa pela traqueia, que tem vital reforço de cartilagens. Essas cartilagens podem ser muito longas, como nas aves de pescoços compridos. Em seguida, o ar passa pela siringe, importante órgão que atua na fonação, produzindo o canto. A traqueia então se divide em dois ramos, os brônquiosprimários, que entram nos pulmões, onde se ramificam; e brônquios secundários ou dorsobrônquios, que ficam em pequenos túbulos arranjados; e também de maneira paralela, com os parabrônquios. As paredes dos parabrônquios possuem dobras internas, formando centenas de estruturas chamadas de capilares aéreos. Estes são altamente vascularizados, e é por meio deles que ocorrem as trocas gasosas e o deslocamento do oxigênio para a corrente sanguínea. 68 Unidade I Figura 57 – Microscopia eletrônica dos parabrônquios de uma ave Schmidt-Nielsen (2002, p. 59). As aves necessitam de dois ciclos de inalação e exalação para a ventilação dos pulmões. Músculos peitorais ligados à caixa torácica promovem a expansão do tórax durante a primeira inspiração, fazendo que o ar fresco flua por meio dos brônquios para os sacos aéreos posteriores. A compressão do tórax durante a primeira expiração empurra o ar dos sacos aéreos posteriores para os pulmões. A expansão do tórax na segunda inspiração faz que o ar consumido flua dos pulmões para os sacos aéreos anteriores. A compressão do tórax na segunda expiração empurra o ar dos sacos aéreos anteriores para fora do corpo via traqueias. De maneira cíclica, à medida que o ar fresco entra, o ar já consumido é expulso do corpo. A respiração das aves por meio dos sacos aéreos apresenta a função de manutenção de níveis de ar constantes. Os pulmões são muito eficientes e capazes de extrair um percentual elevado de oxigênio. Tal aptidão nesse sistema é fundamental para o voo, uma vez que esta atividade desempenha alto consumo de oxigênio. Exemplo de aplicação A respiração das aves possibilitou o voo, pois este é uma locomoção de alto custo energético. Faça uma pesquisa sobre as aves migratórias e reflita sobre a importância da respiração nesse evento. 4.3.5 Respiração em mamíferos O sistema respiratório dos mamíferos está localizado dentro da cavidade torácica. O trato respiratório é dividido em porção superior, formada pela boca, cavidade nasal, faringe, laringe e traqueia. Já o trato inferior consiste em brônquios e porções de troca gasosa, o próprio pulmão. 69 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA Pomo de Adão Traqueia Brônquio direito Pulmão direito Brônquio esquerdo Bronquíolo Bronquíolo Artéria Pulmão esquerdo Veia Alvéolo Figura 58 – Pulmão de um mamífero Acervo UNIP/Objetivo. O ar entra pela boca ou pelas narinas, depois segue pela faringe e pela laringe, chegando até a traqueia, a qual se ramifica em dois brônquios primários. Essa estrutura se ramifica até partes mínimas, passando por brônquios secundários, terciários e bronquíolos. Cada bronquíolo termina em sacos de fundo cego de paredes muito finas (os alvéolos), onde ocorrem as trocas gasosas (figura 58). O revestimento dos alvéolos é formado por dois tipos de células. As do tipo I são responsáveis pelas trocas gasosas e do tipo II, por mais de uma função, como manutenção do equilíbrio hídrico e a secreção de lipoproteínas importantes – os surfactantes. Desse modo, os alvéolos são envolvidos por uma grande malha de capilares, que os torna altamente vascularizados; cerca de 90% da superfície dos alvéolos têm contato com os capilares. Ambos os pulmões dos mamíferos estão envolvidos em um saco pleural, duas camadas celulares, e estas armazenam uma pequena quantidade de líquido, constituindo um espaço chamado de cavidade pleural. Esse líquido lubrifica a pleura e permite que as camadas deslizem entre si ao longo da movimentação na contração e a expansão do pulmão. A ventilação dos mamíferos conta com o auxílio do diafragma, um tecido muscular que se situa abaixo dos pulmões. Neurônios motores iniciam a tomada de ar contraindo o diafragma e os músculos intercostais, expandindo o volume do tórax. O aumento do volume reduz a pressão intratorácica, promovendo a entrada de ar para os pulmões, devido à diferença de pressões em relação ao ambiente externo. 70 Unidade I Então, os estímulos nervosos cessam sobre o diafragma e a musculatura torácica, retomando o espaço e reduzindo o volume pulmonar, o que gera a expulsão do ar para fora dos pulmões. Os surfactantes são lipoproteínas cujo teor de lipídios pode variar entre as espécies. Seu principal papel consiste em aumentar a complacência pulmonar, isto é, quando os movimentos pulmonares geram proximidade entre as membranas do saco pleural, o líquido presente poderia criar um efeito adesivo, que é promovido por ligações de hidrogênio existente no líquido. Isso dificultaria o retorno do volume pulmonar. Desse modo, para a maioria dos mamíferos, o surfactante é fundamental na quebra da tensão superficial envolvendo o líquido pleural, e assim o pulmão se torna mais complacente e fácil de distender, reduzindo ainda a chance dos alvéolos e outras estruturas colabarem. Outra estratégia importante para evitar o colabamento dos alvéolos é a manutenção do volume morto. Toda vez que o ar é expirado dos pulmões, permanece dentro deste um volume residual, fazendo com que as paredes dos alvéolos não tenham contato completo. Portanto, a maior parte dos mamíferos não renova todo o seu volume de ar a cada ciclo respiratório, apenas o volume corrente, ou seja, a capacidade total menos o volume morto. 4.3.6 Vertebrados mergulhadores Muitos vertebrados adaptaram-se a viver totalmente ou parcialmente no ambiente aquático, porém ainda dependentes da respiração aérea. Viver na água e respirar no ar demandará estratégias fisiológicas capazes de aumentar o tempo de mergulho, já que muitas vezes o descanso, a fuga ou a busca por alimento ocorre justamente embaixo d’água. O tempo de permanência submerso é altamente variável. As baleias cachalotes tiveram mergulhos registrados em profundidades inferiores a mil metros, por mais de uma hora; já focas e leões-marinhos mergulham a aproximadamente 1.500 metros de profundidade e resistem por até 80 minutos. Os pinguins alcançam distâncias menores, em torno de 500 metros, e seus mergulhos têm média de 3 a 22 minutos. Já os répteis, como vimos anteriormente, têm excelente capacidade de redução metabólica e desvio circulatório. As tartarugas marinhas verdes podem ficar submersas por até 5 horas, embora mergulhos mais ativos durem em torno de 5 a 10 minutos (MOYES; SCHULTE, 2010). Lembrete O desvio da circulação em répteis crocodilianos é uma das importantes estratégias para um mergulhador que tem respiração aérea. Cada espécie apresenta um limite aeróbico de mergulho diferente, o ponto no qual o oxigênio corporal torna-se insuficiente e o animal necessita subir à superfície e captar um novo ar. Para aumentar o tempo deste limite, são dois os principais focos: aumento da reserva de oxigênio ou redução da demanda de oxigênio. 71 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA Uma técnica bastante simples utilizada pelos mamíferos é que durante o mergulho suas narinas se encontram fechadas, o que diminui o gasto energético e mantem a água fora do trato respiratório, reduzindo os riscos de uma inalação involuntária da água. Os golfinhos são mamíferos mergulhadores. Na figura a seguir, podemos ver o espiráculo, por onde o ar será expulso na subida após o mergulho, que é uma das adaptações do grupo. Espiráculo Figura 59 – Os golfinhos são exemplos de mamíferos mergulhadores Disponível em: https://encr.pw/exHAH. Acesso em: 29 maio 2023. Para aumentar a reserva, os vertebrados podem estocar oxigênio de três formas: no sangue ligado à hemoglobina; nos músculos ligados à mioglobina; e nos pulmões. Quando comparamos um mamífero aquático com um terrestre, os estoques de oxigênio dos primeiros costuma ser maior. O volume sanguíneo, por exemplo, é elevado nos aquáticos, permitindo maiores estoques de oxigênio. Elevar a quantidade de oxigênio requer aumento de eritrócitos e, assim como no mal de altitude, quantidades constantemente excessivas de eritrócitos tornam o sangue viscoso e dificultam a circulação. Alguns mergulhadores, como as focas, apresentam estoques de eritrócitosno baço, utilizando-os apenas durante o mergulho. O tamanho do pulmão não possui variação significativa em relação aos terrestres, assim não são estoques tão expressivos durante o mergulho. As vias aéreas são altamente reforçadas, com cartilagem e músculo para mantê-las abertas. Contudo, para melhorar a capacidade de mergulho, a maior parte dos mamíferos mergulhadores não apresenta volume morto em seus pulmões: seus alvéolos eliminam praticamente todo o ar neles contido. Para que não haja colabamento, o surfactante produzido por tais animais é altamente lipídico e com propriedades antiadesivas. O surfactante pulmonar dos mamíferos aquáticos é formado por aproximadamente 90% de lipídios e 10% de proteínas, o que, na prática, faz que os alvéolos encostem suas paredes umas nas outras, mas o efeito antiadesivo permite que estas retornem a sua forma original. 72 Unidade I Em mamíferos terrestres, cada capilar nutre em média dois alvéolos. Já nos marinhos a proporção é de um para um, o que promove maior área de absorção e permite maior estabilidade ao pulmão durante o mergulho. A redução do volume morto e a consequente expansão sem colabamento, além do reforço nas vias aéreas, diminui os efeitos de itrônio narcótico e outros gases, que, quando submetidos a altas pressões e em excesso, podem formar bolhas nos tecidos. Altas taxas de mioglobina muscular por grama de músculo são vistas nos mergulhadores, e essas proteínas são capazes de armazenar e transportar oxigênio no corpo dos mamíferos. Estudos observaram que os mamíferos marinhos apresentam formas da proteína com maior solubilidade, o que maximiza a concentração de mioglobina e as reservas de oxigênio nos músculos. A mioglobina é conhecida como a responsável pela cor vermelha da musculatura dos mamíferos, tanto que os mamíferos aquáticos possuem musculatura muito mais escura, tendendo ao preto. Como estratégias de redução metabólica, a circulação se altera, havendo uma vasoconstrição periférica e central, e a circulação sanguínea fica restrita quase unicamente ao cérebro e ao coração. Ocorre também bradicardia, diminuição dos batimentos cardíacos, que pode variar para 20% a 50% do normal em baleias e golfinhos ou até 90% em algumas focas e leões-marinhos. Saiba mais O surfactante é uma das adaptações mais fantásticas em mamíferos mergulhadores. Para mais informações sobre o tema, leia: SANTIAGO, V. G. et al. Diferença da atividade do surfactante pulmonar em mamíferos marinhos e terrestres. In: UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DE PERNAMBUCO, 2009, Pernambuco. Resumos... Pernambuco: UFRP, 2009. Disponível em: https://l1nq.com/o5KYh. Acesso em: 26 maio 2023. 73 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA Resumo Nesta unidade, destacamos que a manutenção das condições fisiológicas ideais é chamada de homeostase. Os animais são suscetíveis a estímulos; são acontecimentos positivos ou negativos que induzem o organismo a produzir uma resposta, uma alteração nos mecanismos fisiológicos a fim de restaurar a homeostase. O sistema nervoso é composto por células específicas os neurônios, células excitáveis que utilizam combinações químicas e/ou elétricas para transmitir estímulos ou respostas entre os diferentes componentes do sistema. Assim, o sistema nervoso ganha aumento de complexidade de maneira gradual. Em invertebrados, a cefalização torna-se um passo importante, pois faz que estes tenham melhor percepção e desenvolvimento de órgãos sensoriais. Nos vertebrados, ocorre a encefalização, com diferenciação do encéfalo em órgãos com funções específicas. A percepção de um estímulo envolve quatro etapas distintas: recepção, transdução, transmissão e percepção. Há diferentes tipos de receptores, como os mecanorreceptores, quimiorreceptores ou termorreceptores. Outro tópico abordado no livro-texto foi o sistema endócrino, que é usualmente associado ao controle de atividades cujas respostas são lentas e de efeito prolongado, diferentemente do sistema nervoso, que, em geral, exerce o controle de atividades cujas respostas são rápidas e de curta duração. Entre os hormônios dos vertebrados, e na maior parte dos vertebrados, os hormônios T3 e T4 regulam o metabolismo oxidativo, sobretudo em mamíferos. Estudamos que altas concentrações aceleram o metabolismo e concentrações reduzidas o tornam lento. Em anfíbios, os hormônios T3 e T4 estimulam a metamorfose, mas inibem a prolactina. Desse modo, vimos que um mesmo hormônio pode ter papéis opostos em grupos distintos. No decorrer desta unidade, também analisamos os sistemas circulatórios. Para que o sistema circulatório possa cumprir seu papel, o sangue, um fluido com composições diferentes, mas sempre líquido, é impulsionado a percorrer todo o corpo. Para impulsionar o sangue, existem três diferentes tipos de bombas: peristálticas, bombas com câmaras e válvulas, e as bombas externas. Vimos que os animais podem ter dois tipos distintos de circulação: a aberta e a fechada. 74 Unidade I Ressaltamos que todos os vertebrados têm circulação fechada. No caso dos peixes, o coração possui duas câmaras, um átrio e um ventrículo, e sua circulação é do tipo simples. Os anfíbios têm coração com três câmaras, com dois átrios e um ventrículo. O sangue oxigenado dos pulmões entra pelo átrio esquerdo pela veia pulmonar, e o sangue desoxigenado ou pouco oxigenado, que vem da pele, entra pelo átrio direito pelo seio venoso. Já os répteis apresentam variações importantes em sua circulação. Por exemplo, os corações não crocodilianos são compostos por cinco câmaras. Exibem dois átrios, e o ventrículo é dividido em três compartimentos interconectados por paredes musculares e septos. Desse modo, como os anfíbios, os répteis não possuem divisão total de seu ventrículo, mas mesmo assim os fluxos tendem a não se misturar. Aves e mamíferos têm corações com dois átrios e dois ventrículos completamente separados e mediados por valvas. Para captar o O2 necessário, o animal conta com diferentes locais para suas trocas gasosas; entretanto, independentemente do órgão envolvido, existem algumas características básicas observadas em todos eles. Ainda revelamos nesta unidade que os peixes ósseos fazem bombeamento opercular e fluxo contracorrente, e os cartilaginosos fazem ventilação forçada. Os pulmões dos vertebrados ganharam complexidade à medida que os grupos foram surgindo, e o bombeamento é necessário para que o ar seja aprisionado nas cavidades internas do órgão e as trocas possam ocorrer. Por fim, analisamos o sistema respiratório dos mamíferos. Localizando-se dentro da cavidade torácica, o trato respiratório é dividido em porção superior, formada pela boca, cavidade nasal, faringe, laringe e traqueia. Seu trato inferior consiste em brônquios e porções de troca gasosa, o próprio pulmão. 75 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA Exercícios Questão 1. (PUC-RS 2011) Dos sistemas respiratórios descritos a seguir, qual é o único que não depende do sistema circulatório para fazer o transporte de gases? A) As brânquias de um caranguejo. B) Os pulmões de um réptil. C) A pele de uma minhoca. D) O sistema traqueal de um inseto. E) As brânquias de um peixe. Resposta correta: alternativa D. Análise das alternativas A) Alternativa incorreta. Justificativa: a respiração é do tipo branquial. As brânquias são estruturas filamentosas e irrigadas pelo sangue que se projetam da superfície de certas regiões do corpo. A circulação da água entre as brânquias permite que o oxigênio da água difunda-se para o sangue. O gás carbônico presente no sangue difunde-se para a água ao redor. B) Alternativa incorreta. Justificativa: a respiração dos répteis é pulmonar; seus pulmões são mais desenvolvidos que os dos anfíbios, apresentando dobras internas que aumentam a sua capacidade respiratória. Os pulmões fornecem aos répteis uma quantidade suficiente de gás oxigênio, o que torna “dispensável” a respiração por meio da pele, observada nos anfíbios. Aliás, com a grande quantidadede queratina que apresenta, a pele torna-se praticamente impermeável, o que impossibilita a aquisição de gás oxigênio. O coração da maioria dos répteis possui dois átrios e dois ventrículos parcialmente divididos. Nos ventrículos ocorre mistura de sangue oxigenado com sangue não oxigenado. Nos répteis crocodilianos (crocodilo, jacarés), os dois ventrículos estão completamente separados, mas o sangue oxigenado e o sangue não oxigenado continuam se misturando, agora fora do coração. C) Alternativa incorreta. Justificativa: a pele das minhocas é extremamente fina e úmida por conta dessa mucosa. Para conseguir respirar, é fundamental que esses animais estejam sempre muito úmidos . A respiração das minhocas é cutânea, ou seja, feita por meio da cútis (pele), e é na mucosa presente em sua epiderme 76 Unidade I que a troca de gases é feita. A troca de gases é como a que nós fazemos: a minhoca inspira o oxigênio e expira gás carbônico. Possui vários vasinhos em todo o corpo que espalham o ar por toda a sua extensão. D) Alternativa correta. Justificativa: nos insetos, as trocas de gases na respiração não são feitas pelo sistema circulatório. O retorno da hemolinfa ao coração se dá por pequenos orifícios laterais (óstios) existentes nas paredes do órgão. E) Alternativa incorreta. Justificativa: os peixes respiram absorvendo o oxigênio presente na água. Por isso, precisam ficar continuamente engolindo a água dos rios ou do mar, que então segue para um órgão respiratório, as brânquias. Quando chega às brânquias (também conhecidas como guelras), a água passa primeiro por pequenos cílios existentes no órgão, e estes servem para filtrar impurezas como restos de alimento, areia ou detritos. Em seguida, a água filtrada atravessa as brânquias, que têm minúsculas estruturas formadas por filamentos e lamelas. É nos filamentos e nas lamelas que ocorre a troca gasosa. Ambos têm vasos muito finos, chamados capilares, por onde o sangue circula no sentido inverso ao da água, o que aumenta a eficiência da troca. Como a água concentra mais oxigênio (O2), e o sangue, mais gás carbônico (CO2), há uma tendência de essas concentrações se equilibrarem, num processo chamado de difusão. O oxigênio da água atravessa as paredes permeáveis das lamelas e dos filamentos e entra na corrente sanguínea; já o gás carbônico segue no sentido contrário. Enquanto o sangue leva o O2 para todo o organismo do peixe, a água carregando CO2 atravessa as brânquias e deixa o corpo pelas fendas branquiais, aberturas laterais próximas à cabeça do animal. Questão 2. (UFV 2009) Os animais obtêm energia para as suas atividades vitais por meio da respiração celular, que consiste na realização de trocas gasosas com o ambiente. Com base nesses conhecimentos, correlacione o tipo de respiração (Coluna X) com o respectivo grupo animal (Coluna Y): Coluna X Coluna Y I – Respiração por difusão. ( ) Insetos II – Respiração branquial. ( ) Peixes III – Respiração pulmonar. ( ) Répteis IV – Respiração traqueal. ( ) Cnidários ( ) Crustáceos ( ) Poríferos 77 FISIOLOGIA ANIMAL COMPARADA Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta: A) IV, II, III, I, II e I. B) I, III, IV, II, I e II. C) II, IV, I, III, III e IV. D) III, I, II, IV, I e IV. E) I, I, II, II, III, IV. Resposta correta: alternativa A. Análise das afirmativas I – Os poríferos e os cnidários não possuem estrutura especializada para as trocas gasosas, que ocorrem por difusão pela superfície corporal. II – Nos peixes e crustáceos, a respiração é do tipo branquial. III – Nos répteis, a respiração é pulmonar. IV – Em insetos, temos a respiração traqueal.