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Prévia do material em texto

© Domício Proença Filho 
Diretor editorial Fernando Paixão 
Editor Carlos S. Mendes Rosa 
Editor assistente Frank de Oliveira 
Preparador de texto Eliel Silveira Cunha 
Coordenadora de revisão Ivany Picasso Batista 
Revisão Lumi Casa de Edição 
Estagiário Roberto Moregola 
 
ARTE 
Editora Cintia Maria da Silva 
Capa e projeto gráfico Homem de Mello & Tróia Design 
Editoração eletrônica Studio 3 
 
EDIÇÃO ANTERIOR 
Diretores Benjamin Abdala Júnior e Samira Youssef Campedelli 
Preparador de texto Pedro Cunha Júnior 
Coordenador de arte Antônio do Amaral Rocha 
 
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE 
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ. 
 
P9531. 
8ª.ed. 
Proença Filho, Domício, 1936- 
A linguagem literária / Domício Proença Filho. — 8.ed. — São Paulo : Ática, 
2007. 95p. — (Princípios; 49) 
 
Inclui bibliografia comentada 
ISBN 978-85-08-10943-2 
1. Análise do discurso literário. I. Título. II. Série. 
07-0594. 
CDD 401.41 
CDU 81'42 
 
ISBN 978 85 08 10943-2 (aluno) 
ISBN 978 85 08 10944-9 (professor) 
 
2007 
8ª edição 
1ª impressão 
Impressão e acabamento: Yangraf Gáfica e Editora Ltda. 
Todos os direitos reservados pela Editora Ática, 2007 
Av. Otaviano Alves de Lima, 4400 — São Paulo, SP — CEP 02909-900 
Tel..:(11)3990-2100-Fax: (11)3990-1784 
Internet: www.atica.com.br - www.aticaeducacional.com.br 
 
http://www.atica.com.br-/
http://www.aticaeducacional.com.br/
Pág. 05 
 
11 
IInnttrroodduuççããoo 
 
 
TTeexxttoo lliitteerráárriioo,, tteexxttoo nnããoo--lliitteerráárriioo 
Imaginemos que, na comunicação cotidiana, alguém nos diga a 
seguinte frase: 
— Uma flor nasceu no chão da minha rua! 
Conforme as circunstâncias em que é dita, isto é, de acordo com a 
situação de fala, entendemos que se refere a algo que realmente ocorreu, 
corresponde a um fato anterior ao seu enunciado e de fácil comprovação. 
Mesmo diante de sua transcrição escrita, o que nela se comunica 
basicamente permanece. 
Num ou noutro caso, para veicular essa informação, o nosso 
interlocutor selecionou uma série de palavras do idioma que nos é comum 
e, de acordo com as regras que presidem o seu funcionamento e que todos 
conhecemos, as dispôs numa sequência. A seleção feita e a sucessão 
estabelecida conferem à frase uma significação que pode ser submetida à 
prova da verdade em relação à realidade imediata. Como é fácil concluir, é 
isso que acontece ao nos comunicarmos no dia-a-dia do nosso convívio 
social. 
Retomemos a nossa frase inicial, agora ligeiramente modificada e 
combinada com outros elementos: 
Pág. 06 
 
Uma flor nasceu na rua! 
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. 
Uma flor ainda desbotada 
ilude a polícia, rompe o asfalto. 
Façam completo silêncio, paralisem os negócios, 
garanto que uma flor nasceu. 
 
Sua cor não se percebe. 
Suas pétalas não se abrem. 
Seu nome não está nos livros, 
É feia. Mas é realmente uma flor. 
 
Percebemos, desde logo, que estamos diante de uma utilização 
especial da língua que falamos. O ritmo que caracteriza o texto, a natureza 
do que se comunica e, ao chegar até nós por escrito, a distribuição das 
palavras no espaço do papel justificam essa conclusão. A nossa frase-
exemplo depende também, como ato linguístico que é, da gesticulação e da 
entoação que a acompanharem ao ser enunciada; por força, entretanto, de 
sua situação nesse conjunto e da associação com as demais afirmações que 
a ela se vinculam, abre-se para um sentido múltiplo, ganha marcas de 
ambiguidade: no contexto do fragmento transcrito e da totalidade do poema 
de que faz parte "A flor e a náusea", de Carlos Drummond de Andrade
1
, 
podemos entender essa flor como esperança de mudança, por exemplo. Mas 
esse sentido que o texto a ela confere não reproduz nenhuma realidade 
imediata; nasce tão-somente do próprio texto. A flor dessa rua deixa de ser 
um elemento vegetal para alçar-se à condição de símbolo, ganha uma 
significação que vai além do real concreto e que passa a existir em função 
do conjunto em que a palavra se 
Pág. 07 
 
encontra. É claro que os versos remetem a uma realidade dos homens e do 
mundo, mas para além da realidade imediatamente perceptível e traduzida 
no discurso comum das pessoas, li o que acontece com essa modalidade de 
linguagem, a linguagem da literatura, tanto na prosa como nas 
manifestações em verso. 
Na prosa, por exemplo, podemos encontrar a palavra flor em outro 
 
1 ANDRADE, Carlos Drummond de. A rosa do povo. In:______. Nova reunião: 19 livros de poesia. Rio de 
Janeiro/Brasília: J. Olympio/INL, 1983. v. 1, p. 112-3. 
contexto linguístico e com outro sentido, que lhe c conferido exatamente 
por essa nova circunstância: trata-se do romance Memórias póstumas de 
Brás Cubas, em que o termo aparece numa afirmação vinculada a um 
famoso personagem criado pelo escritor: "Uma flor, o Quincas Borba"
2
. 
Aí está um conteúdo inteiramente distinto do que se configura no 
poema drummondiano e que só pode ser percebido de maneira plena 
quando a frase é considerada na totalidade do romance em que se insere. É 
possível perceber a estreita relação entre a dimensão linguística e a 
dimensão literária que envolve a significação das palavras quando estas 
integram o sistema semiótico que é o texto literário. 
Os três exemplos que acabamos de examinar permitem algumas 
conclusões. 
A fala ou discurso é, no uso cotidiano, um instrumento da informação 
e da ação. A significação das palavras, nesse caso, tem por base o jogo de 
relações configuradoras do idioma que falamos. Vincula-se a uma verdade 
de correspondência. 
O mesmo não acontece com o discurso literário. Este se encontra a 
serviço da criação artística. O texto da literatura é um objeto de linguagem 
ao qual se associa uma representação de realidades físicas, sociais e 
emocionais mediatizadas pelas palavras da língua na configuração de um 
objeto estético. O texto repercute em nós na medida em que revele marcas 
profundas de 
 
Pág. 08 
 
psiquismo, coincidentes com as que em nós se abriguem como seres 
sociais. O artista da palavra, co-partícipe da nossa humanidade, incorpora 
elementos dessa dimensão que nos são culturalmente comuns. Nosso 
entendimento do que nele se comunica passa a ser proporcional ao nosso 
repertório cultural, enquanto receptores e usuários de um saber comum. 
O discurso literário traz, em certa medida, a marca da opacidade: abre-
se a um tipo específico de descodificação ligado à capacidade e ao universo 
 
2 MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Memórias póstumas de Brás Cubas. In: ______. Obra completa. 
Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1959. v. 1, p. 433. 
cultural do receptor. 
Já se percebe o alto índice de multissignificação dessa modalidade de 
linguagem que, de antemão, quando com ela travamos contato, sabemos ser 
especial e distinta da modalidade própria do uso cotidiano. Quem se 
aproxima do texto literário sabe a priori que está diante de manifestação da 
literatura. 
 
LLiitteerraattuurraa:: ccoonncceeiittooss 
A literatura é tradicionalmente entendida como uma arte verbal. A arte 
da palavra, segundo Aristóteles. Mas isso diz pouco. Mesmo porque, 
durante longo tempo, limitava-se às composições poéticas. 
Considerado o termo, em sentido restrito, a partir de uma perspectiva 
estética, isto é, como o equivalente à criação estética, o conceito de 
literatura, como acontece com outros fatos culturais, não é matéria pacífica 
entre os estudiosos que a ela se dedicam. Resiste ao rigor de uma 
conceituação. Assim situado, tem vivido, ao longo da história, variações 
significativas. Foge ao propósito deste volume rastrear tal percurso; 
indicam-se, entretanto, na bibliografia do final do volume, algumas obras 
ampliadoras de esclarecimentos nessa direção. 
Tais circunstâncias não impedem,porém, que sejam deslocadas 
concepções que a têm identificado, com maior relevo, 
 
Pág. 09 
 
no âmbito da cultura ocidental, em que pese a crise vivida, há algum tempo, 
pela teoria da literatura. 
Há os que entendem que a obra literária envolve uma representação e 
uma visão do mundo, além de uma tomada de posição diante dele. Tal 
posicionamento centraliza, assim, suas atenções no criador de literatura e 
na imitação da natureza, compreendida como cópia ou reprodução. A 
linguagem é vista como mero veículo de comunicação, e, como assinala 
Maurice-Jean Lefebve, "a 'beleza' da obra resulta, então, de um lado, da 
originalidade da visão, e, de outro, da adequação de sua linguagem às 
coisas expressas"
3
. E a chamada concepção clássica da literatura. 
No século XIX, os românticos acrescentam algo a esse conceito: à luz 
da ideologia que os norteia, entendem que ao artista cabe a visão das coisas 
como ainda não foram vistas e como são profunda e autenticamente em si 
mesmas. Associa-se ao texto literário, desse modo, a valorização da 
subjetividade. O que não impede que teorizadores como Mme. de Staël, no 
seu De la Lit-térature considerée dans ses rapports avec les institutions 
sociales, livro de 1800, ainda entendam que, em sentido amplo, como 
assinala Luiz Costa Lima, a literatura englobe "todos os escritos filosóficos 
e as obras de imaginação, 'tudo o que, enfim, concerne ao exercício do 
pensamento nos escritos, com exceção das ciências físicas'"
4
. 
A segunda metade da mesma centúria assiste a uma mudança 
significativa: o núcleo da conceituação se desloca para o como a literatura 
se realiza. Sua especificidade, segundo essa nova visão, nasce do uso da 
linguagem que nela se configura. 
 
Pág. 10 
 
Em texto de 1972, Algirdas-Julien Greimas acentua a relatividade do 
conceito, ao vincular a interpretação da "literariedade", ou seja, das 
características que tornam "literário" um texto, "a uma conotação 
sociocultural e sua consequente variação no tempo e no espaço humanos"
5
. 
E, no ano seguinte, Michel Arrivé, reitera o posicionamento, ao 
afirmar que "a literatura é o conjunto dos textos recebidos como literários 
numa sincronia sociocultural dada"
6
. 
Paralelamente, o caráter ficcional que, durante largo tempo, foi 
considerado uma das características básicas do texto de literatura, entendida 
a ficção como fingimento, resultante do ato de fingir, tem sido posto em 
 
3 LEFEBVE, Maurice-Jean. Structure du discours de la poésie et du récit. Montreux: Éditions de La 
Baconnière, 1971. p. 14. 
4 Cf. LIMA, Luiz Costa. História. Ficção. Literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 326-27. 
V. STAËL-HOLSTEIN, L. G. de Necker. De la littérature considerée dans ses rapports avec les institutions 
sociales. G. Gengembre e J. Goldxink (eds.). Paris: Flammarion, 1991. 
5 GREIMAS, Algirdas-Julien et al. Essais de sémiotique poétique. Paris: Larousse, 1972. p. 6. 
6 ARRIVÉ . Michel. La sémiotique littéraire. In. POTTIER, Bernard (Dir.). Le langage. (Les dictionnaires du 
savoir moderne). Paris: Bibliothèque du CEPL, 1973. p. 271. 
questão. Para alguns especialistas contemporâneos, o ficcional não se 
confunde com o falso: nele se abriga alguma coisa captada da realidade.
7
 
A conceituação da literatura, assim, permanece em aberto, na medida 
em que acompanha o dinamismo da cultura em que se insere. 
A questão fundamental, e que continua desafiando os especialistas, é a 
caracterização da natureza das propriedades estéticas do texto literário e 
quais as ligações entre ambas. 
Se é difícil, entretanto, conceituar ou definir, por meio de palavras, 
certas realidades do mundo, isso não significa que deixem de existir os 
elementos que as singularizem. 
É consenso ainda, na atualidade, que os aspectos estéticos da obra 
literária podem ser alcançados por meio do texto e que todos eles têm uma 
base linguística (sintática, semântica ou estrutural). 
 
Pág. 11 
 
Acredito que, se não podemos, até o momento, caracterizar 
plenamente a especificidade da literatura, temos possibilidade, graças ao 
desenvolvimento dos estudos e das pesquisas na área, de indicar traços 
peculiares e identificadores do discurso literário enquanto tal. Sem a menor 
pretensão ou a veleidade de decifrar o mistério da esfinge. 
 
 
7 Cf. pro domo nostra, LIMA, Luiz Costa, op. cit., texto de Sérgio Alcides na orelha da 1ª capa e palavras 
do autor, na p. 21. Observe-se que o livro estabelece limites en-tre história, ficção e literatura, data de 
2006 e foi escrito entre 2002 e 2005. 
Pág. 12 
 
 
22 
LLiitteerraattuurraa ee lliinngguuaaggeemm 
 
 
MMaaiiss uumm tteexxttoo nnoo ppeerrccuurrssoo 
Vejamos agora um breve poema de Manuel Bandeira: 
 
Irene no céu 
Irene preta 
Irene boa 
Irene sempre de bom humor. 
Imagino Irene entrando no Céu: 
— Licença, meu branco! E São Pedro bonachão: 
— Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.1 
 
O texto centraliza-se na exaltação da humildade e da simplicidade, à 
luz do cristianismo. Remete também a uma realidade social brasileira, não 
apenas na vinculação a tal dimensão de religiosidade mas ainda a uma 
atitude paternalista em relação 
 
Pág. 13 
 
ao negro, revelada na caracterização de Irene, no comportamento a ela 
atribuído diante de São Pedro bonachão e na reação do santo porteiro do 
Céu à sua atitude. 
O poema mobiliza elementos de nossa emoção relacionados com a 
formação cristã e com certos comportamentos sociais que, como 
 
1 LBERTINAGEM. In: ______. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1946. p. 125. 
brasileiros, nos são peculiares. 
Observe-se que a humildade e a simplicidade depreendidas dos versos 
não se configuram apenas na parte de sentido de cada palavra que 
corresponde à representação do mundo, mas sobretudo na parcela de 
significação que nelas corresponde à capacidade de manifestar estados de 
alma e exercer uma atuação sobre o próximo. O sentido do texto emerge do 
ambiente linguístico em que os termos se inserem. Estes, como ocorre com 
os citados versos drummondianos, também não reenviam necessariamente 
a uma realidade passível de ser comprovada de forma imediata. A 
"verdade" que neles se consubstancia funda-se na coerência. 
O poema, ainda que capte algo da realidade, é o que é porque foi feito 
como foi feito. Irene, essa Irene, passa a "viver" a partir de sua presença 
nesse texto, por força da linguagem de que este último se faz, onde alguns 
procedimentos se destacam em relação ao uso da língua portuguesa. O 
autor valeu-se de termos do falar cotidiano; reproduziu formas da fala 
coloquial despreocupada: ao atribuir ao santo o emprego da forma entra, 
em lugar de entre, exigida pelo tratamento você, afastou-se da norma culta 
da língua, em nome do efeito expressivo. Por norma, nesse sentido, 
entenda-se, como registra o Dicionário de filologia e gramática de Joaquim 
Mattoso Câmara Jr., "o conjunto de hábitos linguísticos vigentes no lugar 
ou na classe social mais prestigiosa do país". De forma mais ampla, a 
norma pode ser caracterizada, de acordo com Eugenio Coseriu, como "um 
sistema de realizações obrigatórias consagradas do ponto de vista social e 
culturalmente: não corresponde ao que 
 
Pág. 14 
 
se pode dizer, mas ao que já se disse e tradicionalmente se diz na 
comunidade considerada".
2
 
Em se tratando de Bandeira, o aparente "erro" ajuda a traduzir a 
naturalidade e a afetividade que marcam as palavras de São Pedro. O 
adjetivo "bonachão" e a simplicidade da expressão "— Licença, meu 
branco!" — popular, típica, coloquial — como que autorizam a forma 
 
2 COSERIU, Eugênio. Sincronia, diacronia e história: o problema da mudançalinguística. Tradução de 
Carlos Alberto da Fonseca e Mário Ferreira. Rio de Janeiro: Presença; São Paulo: Edusp, 1979. p. 50. 
"entra". Por outro lado, para dar maior autenticidade ao que revela, o poeta 
recorreu ao diálogo; dividiu a composição em duas estrofes: a primeira 
centrada na caracterização da figuração de Irene; a segunda, feita de elipses 
e entoação, vinculada à caracterização de São Pedro e à ação de ambos, 
exigindo maior participação do leitor para melhor captar o que no poema se 
comunica. Os versos se fazem de emoção subjetiva, trazem elementos 
narrativos e até traços típicos da linguagem dramática. Na sua feitura, nota-
se, além disso, o aproveitamento do falar simples da gente simples do 
Brasil, que ganha condição de linguagem literária. 
No texto de Bandeira, literário que é, inter-relacionam-se, 
interdependem-se elementos fônicos, ópticos, sintáticos, morfológicos, 
semânticos, formando um conjunto de relações internas, por meio das quais 
se revela uma realidade que não preexiste ao poema, a não ser como 
potencialidade. Caracteriza-se uma perspectiva existencial relacionada com 
o complexo cultural de que essa manifestação literária é representativa, a 
partir das vivências de um escritor brasileiro. Configura-se um 
posicionamento ideológico na visão de mundo do autor. 
Na abertura para a descodificação, essa matéria cultural, veiculada por 
meio das palavras da língua aproveitadas no código literário, pode ser 
apreendida pelo leitor ou ouvinte do poema, 
 
Pág. 15 
 
com maior ou menor grau de informação estética, na dependência, reitero, 
do seu universo cultural. 
No percurso dessa apreensão, situa-se a dimensão conotativa, chave 
da plurissignificação do texto literário, como se explicitará adiante. 
 
LLiitteerraattuurraa ee ccoonnhheecciimmeennttoo 
Longe estamos de penetrar totalmente no mistério do processo criador 
da poesia. As considerações feitas sobre o texto de Bandeira limitaram-se a 
alguns aspectos da manifestação literária em verso. Elas permitem, 
entretanto, algumas deduções e conclusões. 
Para revelar o que se consubstancia no poema, o autor, como é óbvio, 
se valeu da língua portuguesa do Brasil e, a partir dela, buscou caracterizar 
uma realidade apoiada em vivências humanas. O que depreendemos de 
suas palavras, porém, ultrapassa os limites da mera reprodução ou 
referência, para nos atingir com um tipo de informação que não 
conseguimos mensurar ou traduzir plenamente, vai além dos limites 
individuais do codificador e atinge espaços totalizantes. A linguagem 
literária — concretização de uma arte, a literatura — é marcada por uma 
organização peculiar. 
A arte é um dos meios de que se vale o homem para conhecer a 
realidade. 
Esta última se efetiva na constante relação entre homem e mundo, vale 
dizer, entre sujeito e objeto, como costumam lembrar os filósofos. 
Nesse jogo dialético, o homem busca aceder à interioridade da sua 
essência, para melhor saber de si e situar-se. E, no seu percurso existencial, 
tem procurado conhecer a si mesmo, o mundo, a sua relação com os outros, 
a sua relação com o mundo. 
 
Pág. 16 
 
Todo conhecimento se caracteriza como uma representação, como um 
tornar de novo presente a realidade em que vivemos, para que dela 
tenhamos uma visão mais clara e profunda, que escapa à nossa percepção 
imediata. Toda representação, nesse sentido, configura uma interpretação. 
"O homem é a presença de todas as determinações de uma interpretação. 
Rejeitá-las seria negar a própria existência. Portanto, o homem é um 
arranjo existencial definido, articulado, situado. É uma circunstância, dizia 
Ortega y Gasset", e lembra Arcângelo Buzzi, na sua Introdução ao pensar.
3
 
Esse interpretar se clarifica por meio de uma linguagem. 
A linguagem converte-se, desse modo, como destaca Eduardo 
Portella, na "fonte de toda e qualquer realidade; é precisamente a realidade 
mais livre, a mais aberta".
4
 Claro está que a natureza do compromisso entre 
 
3 BUZZI, Arcângelo R. Introdução ao pensar. 3. ed. Petrópolis. Vozes. 1973. p. 51. 
4 PORTELLA, Eduardo. Fundamento da investigação literana. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1981. p. 
74. 
a literatura e a cidadania reveste-se de traços ideológicos. Mas a reflexão 
que propicia abre-se ao necessário questionamento. O oxigênio da arte é a 
liberdade. E isso vale tanto para o escritor como para o leitor. 
O texto literário repercute em nós, na condição de leitores ou ouvintes, 
na medida em que revele traços profundos do nosso psiquismo, 
coincidentes com o que em nós se abrigue como seres sociais. O artista da 
palavra, co-partícipe de nossa humanidade, incorpora elementos dessa 
dimensão que nos são culturalmente comuns. Nosso entendimento do que 
no texto se comunica passa a ser proporcional ao nosso repertório cultural. 
O texto literário como tal pode ser lido, criticamente, no nível de 
superfície ou de profundidade, considerada a polissemia que o caracteriza, 
com base em três enfoques: em função de sua relação com aspectos 
existenciais, destacados processos 
 
Pág. 17 
 
cognitivos e éticos, e motivações nele configurados; podemos centrar a 
leitura nas dimensões sociais ou psicossociais que nele se fazem presentes, 
privilegiadas a relação entre a literatura e o social, a literatura e a história, a 
literatura e a cultura; podemos nuclearizá-la no diálogo intertextual, que 
privilegia influências. Alfredo Bosi, em livro de 2006 em que trata das 
Memórias póstumas de Brás Cubas, aponta tais linhas de abordagem e 
assinala que destacam respectivamente aspectos expressivos, miméticos e 
construtivos.
5
 
Uma leitura como a que o crítico propõe para a compreensão do olhar 
machadiano resiste à limitação da perspectiva centrada num determinado 
perfil do narrador, pautada numa autonomia compacta. Ela exige, como 
melhor resposta, "uma combinação peculiar de vetores formais, existenciais 
e miméticos, sem que uma instância monocausal tudo regule e 
sobredetermine".
6
 O crítico defende, desse modo, uma visão múltipla e 
integradora, que exige uma perspectiva hermenêutica, vale dizer, 
interpretativa, perspectiva que tem se revelado das mais promissoras nos 
 
5 Cf. Bosi, Alfredo. Brás Cubas em três versões: estudos machadianos. São Paulo: Companhia das Letras, 
2006. 
6 BOSI, Alfredo. Op. cit. p. 50-1. 
espaços da crítica literária, o que não invalida outras focalizações, desde 
que assumidas como setorizadas. 
O texto de literatura pode ainda ser considerado como pretexto para a 
compreensão da língua, seu ponto de partida, procedimento bastante 
comum na realidade pedagógica brasileira. Costuma também ser associado 
ao estudo de outras manifestações culturais. 
 
Pág. 30 
 
 
44 
AArrttee lliitteerráárriiaa,, llíínngguuaa ee ccuullttuurraa 
 
 
LLiitteerraattuurraa,, mmíímmeessee ee uunniivveerrssaalliiddaaddee 
Toda criação artística exige um suporte material. Como, entre outros, 
a tinta e a tela, na pintura; o mármore, a pedra, a madeira, o metal, na 
escultura. Trata-se, no caso, de produtos naturais. A literatura tem como 
suporte uma língua, um produto cultural. 
A realidade imediata não se diz em plenitude. 
A língua, na sua condição de concretização da linguagem da 
comunidade, restringe-se à simples representação de fatos ou situações 
particulares, observados ou inventados. A literatura se configura, 
tradicionalmente, quando, ao tratar desses fatos ou situações, dimensiona-
lhes elementos universais. 
Se a linguagem verbal caracteriza uma "desrealização" da realidade ao 
transformá-la em signos-símbolos, a mímese poética leva ainda mais longe 
esse desrealizar-se, quando, a partir do fingimento do particular, atinge 
espaços da universalidade. 
O texto literário veicula uma forma específica de comunicaçãoque 
evidencia um uso especial do discurso, colocado a serviço da criação 
artística reveladora. 
Por revelação compreenda-se a configuração mimética do real. Tal 
afirmação leva a um dos mais importantes conceitos ligados à arte literária: 
mímese. 
 
Pág. 31 
 
O conceito, importante para a compreensão do fato literário, também 
não é pacífico, e tem sido objeto da preocupação e do questionamento de 
inúmeros estudiosos, desde a sua caracterização pelos gregos. Notadamente 
por Platão e Aristóteles. Entendido como "imitação", levou, nesse sentido, 
a várias interpretações. Para os pitagóricos, por exemplo, correspondia à 
expressão ou representação de estados de alma, e o produto dela resultante 
teria função terapêutica, pois possibilitaria ao artista ou ao consumidor a 
liberação de suas próprias emoções. Para Platão, a arte envolveria a 
representação do mundo das aparências e das opiniões; a mímese, na 
concepção platônica, corresponde à imitação da aparência da realidade. 
Para ele, a realidade é "imagem" ("fantasma") de idéias eternas; a obra de 
arte seria "imagem de imagem", simulacro da realidade, e não 
caracterizaria conhecimento do real. Já para Aristóteles, a mímese 
corresponde à imitação das "essências"; imitar não é duplicar o referente; 
implica conhecimento da natureza profunda do ser humano e do mundo. O 
produto artístico que se concretiza a partir dela conduz ao efeito de 
"purgação" liberadora (catarse). 
Inicialmente mal descodificado com o sentido de "fotografia" ou 
"espelho" da realidade, o conceito atravessa os séculos e, com essa 
acepção, domina, não sem alguma controvérsia, a literatura clássica 
ocidental. A verdadeira natureza da teoria aristotélica sobre a arte em geral 
e a literatura em particular só começa a ser compreendida depois de Kant, 
de Hegel e de Croce, nos fins do século XIX, e, sobretudo, após os estudos 
de Hölderlin e a tradução e interpretação que da Arte poética de Aristóteles 
fez o escritor britânico S. H. Butcher. A partir de então, a mímese passou a 
ser entendida como revelação da plenitude do real. 
Se a linguagem verbal caracteriza uma "desrealização" da realidade ao 
transformá-la em símbolos que a essencializam, a arte literária amplia 
radicalmente essa "desrealização". A mímese poética, acentua Merquior, 
atinge, por meio da representação 
 
Pág. 32 
 
de particulares, os espaços do universal.
1
 Como lembra Eduardo Portella, 
"devemos ao poeta Hölderlin a moderna revitalização do conceito de 
 
1 Cf. MERQUIOR, J. Guilherme. A astúcia da mímese. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1972. p. 8. 
mímesis. Ele faz ver que imitar não é copiar; é descer ao plano de 
articulação das possibilidades subjacentes na coisa. A arte supre a natureza 
e, desse modo, se relacionam sem se confundirem".
2
 Em síntese, mímese 
implica imitação da natureza (physis para os gregos), no que esta tem de 
capacidade criadora. 
Ao conceito de mímese vincula-se imediatamente a noção de catarse. 
Aristóteles não deixou muito claro o sentido do termo. Como esclarece a 
"Introdução" da Arte poética na edição de que me valho, emprega-o "na 
Política (1341, livro VIII, cap. VII, 4) anteriormente à composição da Arte 
poética" e o entende como "purificação", "purgação"; "uma expulsão 
provocada de um humor incômodo por sua superabundância. Do mesmo 
modo que a música apaixonada, a tragédia bem concebida deve determinar 
no auditório, que se deixou empolgar pelas paixões expressas, um gozo 
que, no final do espetáculo, dá impressão de libertação e de calma, de 
apaziguamento, como se a obra tivesse dado ocasião para o escoamento do 
excesso de emoções".
3
 
Ao lado da tradição como imitação das essências, a mímese envolve 
ainda, na estética do Ocidente, conforme assinala Stefan Morawski, uma 
tradição platônica (imitação das aparências) e uma tradição democrítica 
(imitação das ações da natureza).
4
 
 
Pág. 33 
 
Como quer que seja, é consenso, entretanto, que, no texto literário, se 
configura uma situação que passa a "existir" a partir dele como tal e que 
caracteriza uma apreensão profunda do ser humano e do mundo, a partir de 
tensões de caráter individual, como ocorre, por exemplo, em A paixão 
segundo G. H., romance de Clarice Lispector, ou coletivo, como em O 
cortiço, de Aluísio Azevedo, e que podem ainda configurar-se juntamente 
num mesmo texto, com prevalência de uma ou de outra, ou de equilíbrio 
entre ambas. 
 
2 PORTELLA, Eduardo. Teoria da comunicação literária. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1973. p. 34. 
3 ARISTÓTELES. Arte retórica e arte poética [Art rhétorique et art poétique]. São Paulo: Difel, 1964. p. 
258-59. Cf., para o conceito de mímese, PROENÇA FILHO, DOmício. Estilos de época na literatura. 15. ed. 
5ª reimpressão. São Paulo: Ática, 2002, p. 23-4. 
4 Cf. Mimesis. Semiótica, Ncuchâtel, 2(1); 36, 1970. 
Isso se dá num processo de constante diferenciamento, que permite 
perceber dimensões de visões de mundo e a presença de ideologias. O 
fenômeno literário se efetiva na inter-relação autor/texto/leitor. Já se 
percebe por que a obra literária sempre admite diferentes interpretações. A 
linguagem que a caracteriza é necessariamente ambígua e em permanente 
atualização e abertura, vinculadas estreitamente ao caráter conotativo que a 
singulariza. 
 
AAbbeerrttuurraa ee ccoonnoottaaççããoo 
A conotação, à luz do processo linguístico da comunicação e das 
funções da linguagem, é, como registra Mattoso Câmara Jr., "a parte do 
sentido de uma palavra que corresponde à sua capacidade de funcionar para 
uma manifestação psíquica ou um apelo".
5
 Em outros termos, a conotação 
se centraliza na parte do sentido das palavras ligadas às funções emotiva e 
conativa. 
Assim entendida, ainda de acordo com o mesmo linguista, a conotação 
depende de fatores vários: 
a) de aspectos fônicos do vocábulo, que podem "impressionar pela 
harmonia ou pela cacofonia"; 
 
Pág. 34 
 
b) "da associação com outras palavras, num dado campo semântico ou 
em frases usuais e frequentes"; 
c) da própria denotação, que evoca sensações agradáveis ou 
desagradáveis; 
d) "de pertencer a palavra a uma dada língua especial, como uma 
língua profissional, a língua literária ou a gíria"; 
e) "de se situar entre os arcaísmos ou os regionalismos"; 
f) "de impressões emocionais coletivas ou mesmo individuais, 
caracterizando o estilo individual, como as coletivas caracterizam o estilo 
 
5 CÂMARA Jr., J. Mattoso. Dicionário de filologia e gramática referente à língua portuguesa. 2. ed. Rio de 
Janeiro: J. Ozon, 1964. p. 88. 
coletivo de uma dada época".
6
 
Numa forma linguística, a conotação se distingue da denotação, com a 
qual se combina para dar a significação integral da referida forma. 
Por denotação compreende-se a parte da significação linguística 
ligada à função representativa ou referencial da linguagem. 
Esclarecedoras, a propósito, são as palavras de Georges Kassai: 
 
Uma importante distinção do ponto de vista do sentido é a feita 
entre a função referencial e a função emocional dos signos. Ela 
está na base das pesquisas estilísticas recentes e se vincula à 
oposição denotação/conotação já empregada pela lógica 
escolástica, mas admitida desde algum tempo na terminologia 
da Linguística moderna. Designada como "valor suplementar", a 
conotação seria "a definição em compreensão" ou "definição 
intensiva", enquanto a denotação é uma definição em 
extensão.7 
 
Se considerarmos, em termos de estrutura, que, em todo sistema de 
significação, esta resulta da relação entre um plano de expressão e um 
plano de conteúdo, teremos, nesse nível, a 
 
Pág. 35 
 
denotação. Já na conotação, o plano de expressão é constituído de um 
sistema de significação já dado. Explicito melhor,à luz de Hjelmslev e 
Roland Barthes, que, a partir dessa terminologia, ampliam as noções 
saussurianas de significante e significado. Para tanto, volto ao nosso 
exemplo inicial: "Uma flor nasceu no chão da minha rua". Observe-se, 
ainda uma vez, que o que se informa nesse enunciado se centraliza 
basicamente no referente, numa orientação para a representação mental 
ligada aos signos que o constituem, ou seja, para a denotação. Não nos 
esqueçamos de que consideramos o exemplo no espaço da comunicação 
cotidiana. 
 
6 Id., ibid 
7 Le sens. In: MARTINET, André (Dir). La linguistique. Paris: Denoël, 1969. p. 342. 
Se nessa mesma frase a palavra "flor" deixasse, por força da situação 
de fala e do contexto verbal, de corresponder a um elemento vegetal, para 
indicar, por exemplo, um estabelecimento de ensino, uma sede de sindicato, 
já algo se acrescentaria à relação plano de expressão/plano de conteúdo. O 
novo sentido da palavra flor corresponderia, então, à relação significação 1 
(nascida da relação plano de expressão/plano de conteúdo no discurso 
comum) / plano de conteúdo (que já não conduz simplesmente à idéia de 
elemento vegetal). O algo mais que se acrescentou ao signo situa-se, como 
já observamos, no âmbito da conotação. No caso, esta se vincula à criação 
de uma metáfora, uma figura de linguagem que, como tal, torna mais 
expressivo o uso da língua, mesmo no discurso cotidiano. As figuras assim 
utilizadas se aproximam da linguagem literária, mas, se não integram um 
texto literário, não ganham a especificidade de representantes plenas desse 
tipo de linguagem que marca, por exemplo, a frase quando no texto 
drummondiano ou no romance de Machado de Assis. 
A conotação implica um universo cultural. A propósito, José 
Guilherme Merquior lembra que "Martinet considera conotativos os 
elementos do sentido que não pertencem a toda a comunidade utilizadora 
de determinada língua", e acrescenta: 
 
Pág. 36 
 
"a conotação das palavras, mais do que a sua denotação, varia entre os 
grupos etariais, as classes sociais etc; ela é uma função das múltiplas 
estratificações da comunidade linguística".
8
 
Por via da conotação, pode-se, pois, partir do texto para o social, uma 
vez que a literatura é, antes de tudo, um objeto de linguagem. E não nos 
esqueçamos de que o texto literário envolve dimensões históricas e 
ideológicas. E, portanto, sobretudo por força de sua dimensão conotativa 
que a obra literária se abre às mais variadas interpretações. 
 
 
 
8 Cf. MERQUIOR, J. Guilherme. Do signo ao sintoma. In:______. Formalismo e tradição moderna: o 
problema da arte na crise da cultura. Rio de Janeiro/São Paulo: Forense/Edusp, 1974. p. 129. 
Pág. 40 
 
 
55 
CCaarraacctteerrííssttiiccaass ddoo ddiissccuurrssoo lliitteerráárriioo 
 
 
LLiitteerraattuurraa ee eessppeecciiffiicciiddaaddee 
Se a literatura é uma arte, nessa condição ela é um meio de 
comunicação de tipo especial e envolve uma linguagem também especial. 
Esta última, como já foi visto, apóia-se numa língua e se configura em 
textos em que se caracteriza uma determinada modalidade de discurso. 
O código em que se pauta o discurso literário guarda íntima relação 
com o código do discurso comum, mas apresenta, em relação a este, 
diferenças singularizadoras. 
Diante do mistério do fenômeno literário, o grande desafio dos 
estudiosos e pesquisadores tem sido caracterizar plenamente essa 
especificidade. 
Identificar, entretanto, certos traços peculiares do discurso literário 
tem sido possível; o que ainda não se conseguiu definir, mesmo à luz 
desses traços, é o índice da chamada literariedade, busca mobilizadora 
sobretudo da crítica formalista e estruturalista. 
Essas limitações não impedem que assinalemos uma série de 
caracteres distintivos do discurso literário em relação ao discurso comum. 
Vamos a eles. 
 
Pág. 41 
 
 
CCoommpplleexxiiddaaddee 
O discurso da literatura se caracteriza por sua complexidade. No 
discurso não-literário, há um relacionamento imediato com o referente; 
caracteriza-se, na maioria dos casos, a significação singular dos signos, 
como vimos na frase-exemplo "Uma flor nasceu no chão da minha rua". Já 
o que depreendemos do texto literário ultrapassa, como já foi assinalado, os 
limites da simples reprodução. A natureza das informações que, por seu 
intermédio, são transmitidas, vai além do nível meramente semântico para 
se converter em algo tal que sua comunicação se torna impossível por meio 
das estruturas elementares do discurso cotidiano. 
No dispositivo verbal configurador da obra de arte literária, revelam-
se realidades que, mesmo vinculadas a elementos de natureza individual ou 
de época, atingem espaços de universalidade. 
O texto literário realmente significativo ultrapassa os limites do 
codificador para nos atingir, por força ainda do mistério da criação em 
literatura, com mensagens capazes de revelar muito da condição humana. 
Caracteriza um mergulho na direção do ser individual, do ser social, do ser 
humano. 
Dom Casmurro, para destacar um exemplo, romance de Machado de 
Assis, é, sob tais aspectos, obra exemplar. Diante do que nela se revela e do 
modo de realização que nela se configura, reveste-se de atualidade e abre-
se, na sua polissemia, a inúmeras e variadas leituras. Que nos permitem 
depreender, entre outros, aspectos individuais metonimizados nos 
personagens; multiplicidade de temas, como o ciúme; o adultério; a dúvida; 
o ressentimento; a fratura do resgate; o fazer do romance; a dissimulação 
do erotismo feminino; o desvendamento da prática jurídica; projeções do 
social, também metonimizados no microcosmo familiar dos Santiago e dos 
Pádua; visões de mundo; visões da vida no Rio de Janeiro do Segundo 
Reinado, configurações da complexidade da vida humana. 
 
Pág. 42 
 
A condição de habitante de uma cidade apresenta-se exemplarmente 
nas Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, 
que nos leva "ao tempo do rei", e o rei era Dom João VI. Pode ainda ser 
lida em Feliz Ano Novo, livro de contos de Rubem Fonseca, feito de 
metonímias hiperreais da violência urbana na Cidade Maravilhosa. 
A cidadania associa-se à nacionalidade na síntese que é Macunaíma, 
de Mário de Andrade, centrada nas aventuras e desventuras de um anti-
herói feito da fusão de características do brasileiro, seus defeitos, suas 
virtudes, suas aspirações. Um texto-paródia da história do Brasil. 
Dimensões psicológicas, geográficas, sociais, históricas, religiosas, 
míticas, metafísicas integram-se na linguagem singularíssima do Grande 
sertão: veredas. 
Em certo sentido, a linguagem literária produz; a não-literária 
reproduz. 
O fato literário caracteriza-se, entre inúmeras outras marcas, por uma 
dupla dimensão articulada: a dimensão semiótica, ligada aos signos de que 
se faz o texto, e a dimensão transfiguradora do real. Uma e outra, 
integradas, estão, por seu turno, na base da dimensão estética que o 
caracteriza. O texto literário é, ao mesmo tempo, um objeto linguístico e 
um objeto estético. 
Nessa situação, configura-se um sistema de signos secundário em 
relação à língua de que se vale, esta funcionando, no caso, como o sistema 
1. Entenda-se o adjetivo secundário vinculado sobretudo à natureza 
complexa que está sendo assinalada e não somente ao fato de que o sistema 
1 é uma língua natural. 
A obra de arte literária, valho-me ainda uma vez de Lefebve, é sempre 
"O lugar e como a intersecção de dois movimentos de sentidos opostos que 
envolvem, por um lado, um dobrar-se da literatura sobre si mesma num 
puro objeto de linguagem e, por outro lado, um abrir-se "ao mundo 
interrogado na sua realidade e na sua presença essencial [...] movimentos 
contraditórios 
 
Pág. 43 
 
e entretanto solidários, pólos ao mesmotempo complementares e 
antagonistas, criadores de um campo dinâmico que só ele permite 
compreender os diversos aspectos do fenômeno literário"
1
. 
 
 
1 LEFEBVE, Maurice-Jean. Op. cit. p. 29. 
MMuullttiissssiiggnniiffiiccaaççããoo 
Ao caracterizar-se no texto literário um uso específico e complexo da 
língua, os signos linguísticos, as frases, as sequências assumem, em função 
do contexto em que se integram, significado variado e múltiplo. Assim, 
afastam-se, por exemplo, da monossignificação típica do discurso 
científico, para só citar um caso. 
É nesse sentido que alguns estudiosos situam o distanciamento que a 
linguagem literária assume em relação ao que chamam grau zero da 
escritura. 
Entenda-se, a princípio, grau zero como o discurso preocupado 
sobretudo com a plena clareza da comunicação nele veiculada e com a 
obediência às normas usuais da língua. (Para uma visão mais minuciosa do 
conceito, pode-se ver o livro de Roland Barthes Novos ensaios críticos 
seguidos de O grau zero da escritura, edição da Cultrix de 1974.) 
A multissignificação ou polissemia não é marca exclusiva do texto de 
literatura. Pode configurar-se em qualquer outra manifestação verbal. As 
diferentes interpretações das leis, por exemplo, que frequentam o discurso 
jurídico o evidenciam. No texto não-literário a ambiguidade dela decorrente 
prende-se necessariamente "a uma preocupação de imediata e utilitária 
funcionalidade".
2 
O texto de literatura, em função do contexto que o 
caracteriza, repele qualquer imposição coercitiva. Esse preocupar-se nele 
não se faz presente. O que o leva a possibilitar ao destinatário, leitor ou 
 
Pág. 44 
 
ouvinte, a depreensão de uma multiplicidade de sentidos. Tal depreensão 
vincula-se ao seu universo cultural e ao seu saber linguístico, na medida em 
que, como assinala Umberto Eco, "o estimula a interrogar a flexibilidade e 
a potencialidade do texto que interpreta, tal como a do código a que se 
refere".
3
 
A literatura, na verdade, cria significantes e funda significados. 
 
2 REIS, Carlos. O conhecimento da literatura: introdução aos estudos literários. Coimbra: Almedina, 
1995. p. 126. 
3 Eco, Umberto. Trattato di semiótica generale. 6. ed. Milão: Bompiani, 1978. p. 380. V., a propósito, 
REIS, Carlos. Op. cit. p. 126 e EMPSON, W. Seven types of ambiguity. Nova York: New Directions, 1966. 
Apresenta seus próprios meios de expressão, ainda que se valendo da 
língua, ponto de partida. Superposto ao da língua, o código literário, em 
certa medida, caracteriza alterações e mesmo oposições em relação àquele. 
É um desvio mais ou menos acentuado em relação ao uso linguístico 
comum. Em termos literários, por exemplo, assegurada a coerência do 
conjunto em que inseríssemos a afirmação, teriam sentido frases como "a 
flor de nossa rua comeu todos os medos" ou "a flor expulsou todos os 
monstros" e, fora desse âmbito sintático-vocabular, lembro versos como 
"Um supremíssimo cansaço/íssimo, íssimo, íssimo,/cansaço", de Fernando 
Pessoa, em que, como se vê, se fere, em nome da expressividade poética, a 
norma morfológica do idioma no seu uso cotidiano. 
E mais: para a plurissignificação do texto contribuem, como acentua 
Paul Ricoeur, fatores de ordem sincrônica e de ordem diacrônica. Vale 
dizer, os primeiros se vinculam à carga significativa ligada às relações entre 
as palavras no conjunto do texto de que fazem parte; já o plano da diacronia 
envolve tudo o que de significação e evocação o tempo agregou aos 
vocábulos, no decurso de sua história, incluídas nessa totalidade as 
dimensões resultantes do uso das palavras na tradição literária. 
Num ou noutro caso, a plurissignificação pode associar-se ao âmbito 
sociocultural, como quer, por exemplo, Delia Volpe, 
 
Pág. 45 
 
ou a espaços míticos e arquetípicos, como pretende Northrop Frye; situo-
me, no caso, entre os que acreditam que tais dimensões não se excluem, 
antes se complementam. 
A multissignificação é, pois, uma das marcas do texto literário como 
tal. É o traço que permite, entre outras, as múltiplas leituras existentes da 
obra de João Cabral de Melo Neto, de Carlos Drummond de Andrade, de 
Guimarães Rosa; que possibilita a Roland Barthes a sua apreciação da obra 
de Racine e que nos autoriza ler, em Iracema, de José de Alencar, uma 
síntese simbólica do processo civilizatório da América, entre outras 
interpretações. A permanência de determinadas obras se prende ao seu alto 
índice de polissemia, que as abre às mais variadas incursões e possibilita a 
sua atemporalidade. 
 
PPrreeddoommíínniioo ddaa ccoonnoottaaççããoo 
A linguagem literária é eminentemente conotativa. O texto literário 
resulta de uma criação, feita de palavras. E do arranjo especial das palavras 
nessa modalidade de discurso que emerge o sentido múltiplo que a 
caracteriza. 
Os signos verbais, no texto de literatura, por força do processo criador 
a que são submetidos, à luz da arte do escritor, revelam-se carregados de 
traços significativos que a eles se agregam a partir do processo 
sociocultural complexo a que a língua se vincula. O texto literário pode 
abrigar a presença de elementos identificadores de um real concreto, quase 
sempre garantidor de verossimilhança, como costuma também, nessa 
mesma dimensão, apresentar uma imagem desse real ligada estreitamente a 
outros elementos que fazem o texto. Essa presença, que pode trair uma 
dimensão denotativa, não é, entretanto, seu traço dominante. Este reside na 
conotação, conceito fundamental para os estudos de literatura, e de tal 
maneira que especialistas como André Martinet, Georges Mounin e, entre 
nós, José Guilherme 
 
Pág. 46 
 
Merquior chegam a admitir que nas conotações reside "o segredo do valor 
poético de um texto".
4
 
 
LLiibbeerrddaaddee nnaa ccrriiaaççããoo 
As manifestações literárias podem envolver adesão, transformação ou 
ruptura em relação à tradição linguística, à tradição retórico-estilística, à 
tradição técnico-literária ou à tradição temático-literária às quais 
necessariamente está vinculado o trabalho do escritor. A literatura se abre, 
então, plenamente, à criatividade do artista. Em seu percurso, ela envolve a 
constante invenção de novos meios de expressão ou uma nova utilização 
 
4 Cf. MERQUIOR, J. Guilherme. Do signo ao sintoma. In: Formalismo e tradição moderna: o problema da 
arte na crise da cultura. Rio de Janeiro/São Paulo: Forense/ lidusp, 1974. p. 129. 
dos recursos vigentes em determinada época. Mesmo nos momentos em 
que a obediência a determinados princípios pareceu regular os 
procedimentos literários, a literatura, por sua própria natureza, levou à 
abertura de caminhos renovadores. 
Não existe uma "gramática normativa" para o texto literário. Seu 
único espaço de criação é o da liberdade. 
Se a norma, em alguns instantes, regulou a "arte", o "engenho" sempre 
foi além, com maior ou menor evidência. E os movimentos de vanguarda, a 
constante exigência e busca do novo continuam sendo suas marcas mais 
patentes, num curso que segue paralelo à dinâmica do processo cultural em 
que se integra. Nesse processo, ora o acompanha, ora se antecipa, 
transformadora, porta-voz do devir. Veja-se o Ulisses, de Joyce, por 
exemplo. O artista da palavra tem uma sensibilidade mais apurada do que a 
do comum das gentes, e essa acuidade mobiliza-lhe a criação progressora. 
 
Pág. 47 
 
Na maioria dos casos, é a própria obra que traz em si suas próprias 
regras. A obra de arte literária se faz, fazendo-se. 
Observe-se que as normas reguladoras do texto não-literário, aquelas 
que se impõem ao indivíduo por corresponderem àquilo que habitualmente 
se diz, precisam ser obedecidas, sob pena de sérios ruídos na comunicação 
e, em certas circunstâncias, até detotal obliteração do que se pretende 
comunicar. No texto literário a criação estética autoriza qualquer 
transgressão nesse sentido. E em termos de história literária, múltiplos e 
vários têm sido os percursos nessa direção, seja em termos individuais, seja 
em termos de movimentos de época. 
 
ÊÊnnffaassee nnoo ssiiggnniiffiiccaannttee 
Enquanto o texto não-literário confere destaque ao significado, ou 
seja, ao plano de conteúdo, o texto literário tem o seu sentido apoiado no 
significado e no significante, com especial relevo concedido a este último. 
A questão, entretanto, não é pacífica. Sobretudo quando pensamos que, ao 
situar significante e significado no âmbito da semiótica, estes ganham 
dimensões que, embora relacionadas com a visão da linguística, adquirem 
matizes diferentes e contribuem efetivamente para o sentido do texto, 
principalmente em termos da informação estética que nele se configura. 
Num poema como o "Soneto de separação", de Vinícius de Moraes, por 
exemplo, os fonemas bilabiais de certos vocábulos parecem contribuir para 
o sentido dominante no texto, centrado na separação entre dois seres: 
 
SSoonneettoo ddee sseeppaarraaççããoo 
 
De repente do riso fez-se o pranto 
Silencioso e branco como a bruma 
E das bocas unidas fez-se a espuma 
E das mãos espalmadas fez-se o espanto. 
 
Pág. 48 
 
De repente da calma fez-se o vento 
Que dos olhos desfez a última chama 
E da paixão fez-se o pressentimento 
E do momento imóvel fez-se o drama. 
De repente, não mais que de repente 
Fez-se de triste o que se fez amante 
E de sozinho o que se fez contente. 
Fez-se do amigo próximo o distante 
Fez-se da vida uma aventura errante 
De repente, não mais que de repente.
5
 
 
Textos há em que o significante sobressai de maneira ainda mais 
 
5 In:______. Livro de sonetos. 3. ed. Rio de Janeiro: Sabiá, 1967. p. 30-1. 
acentuada, como neste poema concreto de Ronaldo Azeredo
6
: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Pág. 49 
 
A questão é facilmente compreensível: basta substituir os vocábulos 
de um texto por sinônimos, para aquilatar a relevância do significante. 
Pensemos na fala famosa do Hamlet, de Shakespeare: 
 
To be or not to be: that is the question 
(Ser ou não ser: eis a questão) 
 
Veja-se o efeito de substituições: 
 
Am I or am I not: that is the question 
(Sou ou não sou: eis a questão) 
ou 
 
To be or not to be: that is what worries me 
(Ser ou não ser: é isso que me preocupa) 
 
 
6 Apud CAMPOS, Augusto de; PIGNATARI, Décio; CAMPOS, Haroldo de. Teoria da poesia concreta: textos 
e manifestos críticos — 1950-1960. São Paulo: Duas Cidades, 1975. p. 92. 
V V V V V V V V V V 
V V V V V V V V V E 
V V V V V V V V E L 
V V V V V V V E L O 
V V V V V V E L O C 
V V V V V E L O C I 
V V V V E L O C I D 
V V V E L O C I D A 
V V E L O C I D A D 
V E L O C I D A D E 
. 
Evidentemente, perde-se muito do efeito estético com as expressões 
substitutas, levando-se em conta, obviamente, o contexto em que as 
palavras do teatrólogo se inserem. 
No "Soneto de separação", de Vinicius de Moraes, é bastante trocar 
algumas palavras para verificar a força do significante, colocando, por 
exemplo, "repentinamente" em lugar de "de repente"; "juntas", onde está 
"unidas", ou "tranquilidade" onde se encontra "calma". 
 
VVaarriiaabbiilliiddaaddee 
O texto literário se vincula, como foi assinalado, a um universo 
sociocultural e a dimensões ideológicas; sua natureza envolve mutações no 
tempo e no espaço; ele tem uma língua como 
 
Pág. 50 
 
ponto de partida e de chegada; as línguas acompanham as mudanças 
culturais; mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, mudam as pessoas, 
os povos, a linguagem: a literatura, manifestação cultural, acompanha as 
mudanças da cultura de que é parte, integrante e altamente representativa. 
A literatura traz a marca de uma variabilidade específica, seja em relação 
aos discursos individuais, seja em termos de representatividade cultural. E 
não nos esqueçamos de que, na base da literatura, está a permanente 
invenção. 
 
MMooddooss ddee rreeaalliizzaaççããoo 
O texto literário — eis um traço óbvio e imediatamente comprovável 
— se faz de manifestações em prosa e de manifestações em verso. 
 
MMaanniiffeessttaaççõõeess eemm pprroossaa 
As manifestações em prosa envolvem as modalidades da narrativa de 
ficção. 
Ficção — do latim fictionem, cognato do verbo fingere, "dar forma a

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