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@vestibularesumido
17
Fazendo uma leitura desse delírio e levando em 
consideração todas as características do homem Brás 
Cubas, podemos inferir que a transformação da 
personagem na Suma Teológica adquire um teor de 
remissão dos pecados, por isso a transfiguração no 
objeto sagrado. Mais coerente com a ironia 
machadiana, o delírio pode ser interpretado como um 
sarcasmo, um deboche a uma obra cujo conteúdo 
sempre fora respeitado pelos cristãos. Pandora se 
revela sarcástica em seu encontro com Brás Cubas e, 
como portadora da vida e da morte, compara-o a um 
verme que quer viver por egoísmo e vaidade – o que 
se estende ao resto da humanidade.
Com certo sentimentalismo, Virgília, 
amante de Brás por tempos, é 
apresentada enigmaticamente ao leitor. 
Até esse momento, não se segue uma 
ordem de narração convencional, e tudo 
parece desordenado; no entanto, no 
capítulo 9 (“Transição”), o narrador 
retoma a data de seu nascimento, dando-
nos uma referência temporal. Repare, 
também, em seu diálogo com o leitor:
[...] 
Vejam: o meu delírio começou em presença de Virgília; Virgília 
foi o meu grão pecado da juventude; não há juventude sem 
meninice; meninice supõe nascimento; e eis aqui como chegamos 
nós, sem esforço, ao dia 20 de outubro de 1805, em que nasci. 
Viram? Nenhuma juntura aparente, nada que divirta a atenção 
pausada do leitor: nada.
ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas.
São Paulo: Globo Livros, 2008. p. 59. (Coleção biblioteca popular)
Ao se apresentar quando menino, Brás Cubas dá ao 
capítulo 11 o título “O menino é pai do homem”. 
Nesse trecho da história, o narrador fala sobre sua 
infância de “menino diabo”, maltratando escravos e 
fazendo o menino Prudêncio (escravo dos Cubas) 
servir-lhe de cavalinho todos os dias, uma 
“coisificação” do ser humano. 
“Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os 
dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos
queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma 
varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e 
ele obedecia – algumas vezes gemendo –, mas obedecia sem 
dizer palavra, ou, quando muito, um “ai, nhonhô!”, ao que eu 
retorquia: “— Cala a boca, besta!”.
ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas.
São Paulo: Globo Livros, 2008. p. 62. (Coleção biblioteca popular)
Machado de Assis apresenta ao seu leitor, por meio 
da relação entre as diferentes classes existentes no 
Brasil, as contradições da sociedade – ao mesmo 
tempo que deseja a cultura e o conhecimento aos 
moldes europeus, vinculados à liberdade, essa 
sociedade é sustentada por um modo de produção 
escravista, tipicamente colonial. Posteriormente, o pai 
de Brás Cubas estimula o exercício da masculinidade 
do filho assim que este se torna jovem. Dessa forma, o 
narrador se apaixona por Marcela, uma mulher 
espanhola que adorava joias, e se endivida fazendo-lhe 
todos os gostos. O que Machado de Assis faz ao 
delinear Marcela é destituir a mulher da aura idealizada 
das heroínas românticas, visto que Marcela é uma 
prostituta ambiciosa que dá “amor” em troca de joias; 
leviana e movida a interesses. O pai, tomando 
conhecimento dos gastos excessivos do filho, manda-o 
à Europa para estudar. Rico, superprotegido e agora 
homem feito e instruído, ele volta ao Brasil.
[...] 
A que me cativou foi uma dama espanhola. Marcela, a “linda 
Marcela”, como lhe chamavam os rapazes do tempo. [...] Era boa 
moça, lépida, sem escrúpulos, [...] luxuosa, impaciente, amiga de 
dinheiro e de rapazes. [...] Gostava muito das nossas antigas 
dobras de ouro, e eu levava-lhe quantas podia obter [...] ...Marcela 
amou-me durante quinze meses e onze conto de réis; nada menos. 
Meu pai, logo que teve aragem dos onze contos, sobressaltou-se 
deveras; achou que o caso excedia asraias de um capricho juvenil.
— Desta vez, disse ele, vais para a Europa 
[...]. 
ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Globo Livros, 
2008. p. 73, 76 e 79. (Coleção biblioteca popular).
Pensando em casar o filho e torná-lo deputado, o pai 
de Brás Cubas quer fazer o casamento do filho com 
Virgília – a “Ursa Maior” –, filha do Conselheiro Dutra, 
de alta classe social e forte influência política. Brás 
Cubas acaba perdendo a mulher e o cargo para Lobo 
Neves, mais astuto politicamente. Tempos depois, Brás e 
Virgília reencontram-se em um baile e se tornam 
amantes, em uma relação extraconjugal que dura 
muitos anos.
Veja, no trecho a seguir, como Virgília é caracterizada, 
em uma crítica mordaz ao Romantismo – momento de 
idealização feminina.
Virgília? Mas então era a mesma senhora que alguns anos depois...? 
A mesma; era justamente a senhora, que em 1869 devia assistir 
aos meus últimos dias, e que antes, muito antes, teve larga parte 
nas minhas mais íntimas sensações. Naquele tempo contava apenas 
uns quinze ou dezesseis anos; era talvez a mais atrevida criatura da 
nossa raça e, com certeza, a mais voluntariosa. Não digo que já lhe 
coubesse a primazia da beleza, entre as mocinhas do tempo, 
porque isto não é romance, em que o autor sobredoura a 
realidade e fecha os olhos às sardas e espinhas; mas também não 
digo que lhe maculasse o rosto nenhuma sarda ou espinha, não. 
ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas.
São Paulo: Globo Livros, 2008. p. 101. (Coleção biblioteca popular)
Em outro momento, Brás Cubas conhece Eugênia, uma moça com 
uma deficiência congênita na perna. O pensamento de Cubas 
sobre a moça revela a oposição aparência × essência.
O pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, 
uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria 
suspeitar que a natureza é às vezes um imenso escárnio. Por que 
bonita, se coxa? Por que coxa, se bonita?
ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas.
São Paulo: Globo Livros, 2008. p. 109. (Coleção biblioteca popular)
@vestibularesumido
18
Já Quincas Borba aparece pela primeira vez no 
capítulo 13, ainda na infância dele e de Brás Cubas
Uma flor, o Quincas Borba. Nunca em minha infância, nunca em 
toda a minha vida, achei um menino mais gracioso, inventivo e 
travesso. Era a flor, e não já da escola, senão de toda a cidade. A 
mãe, viúva, com alguma coisa de seu, adorava o filho e trazia-o 
amimado, asseado, enfeitado [...]. 
ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas.
São Paulo: Globo Livros, 2008. p. 72. (Coleção biblioteca popular)
Ora rico, ora mendigo – quando rouba um relógio
de Brás Cubas, desaparece e depois volta herdeiro 
rico novamente –, Quincas Borba vai enlouquecendo 
progressivamente. É criador da teoria do 
Humanitismo, cuja síntese está na frase “Ao 
vencedor, as batatas”, e encontra em Brás um 
seguidor de sua proposta, e este acaba enxergando a 
explicação para sua vida esvaziada de sentido. 
Incidentes e fracassos constituem a vida de Brás 
Cubas, que termina suas memórias de forma bem 
melancólica, asseverando a miséria da raça humana.
Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a 
celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não 
conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, 
coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do 
meu rosto. Mais: não padeci a morte de D. Plácida, nem a 
semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e 
outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem 
sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E 
imaginará mal; porque, ao chegar a este outro lado do mistério, 
achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa 
deste capítulo de negativas: – Não tive filhos, não transmiti a 
nenhuma criatura o legado da nossa miséria.
ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. Cotia: Ateliê, 1998. p. 
254.
Elementos da narrativa
Tempo
Primeiro, é preciso lembrar que Brás Cubas narra 
suas memórias de seu túmulo, “do outro lado do 
mistério”, o que é incomum até mesmo na literatura 
da atualidade, quem dirá, então, em 1881. 
Didaticamente, dizemos que a personagem narrasuas memórias pautada em dois tempos: o tempo 
psicológico – um zigue- zague de 
acontecimentos contados arbitrariamente 
– e o tempo cronológico – em que Brás Cubas 
protagoniza infância, adolescência, fase adulta e 
morte.
Foco narrativo
Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o foco narrativo 
é em 1a pessoa, com um narrador personagem contando, 
de forma onisciente e depois de morto, sobre a sua 
existência. Brás Cubas assume a posição de ator e 
espectador ao tempo, o que confere à narrativa um 
ritmo próprio, o qual é lento ou veloz de acordo com a 
experiência contada. O narrador interrompe, comenta 
ou critica as situações e, é claro, ironiza-as – ri de sua 
miséria de alma e de si mesmo com ares de 
superioridade.
Digressão
O processo de digressão comum à obra machadiana é 
um “passeio”, um desvirtuamento intencionado da ideia 
principal, que dá espaço a comentários marginais. Com 
uma narração de temporalidade dupla, Brás Cubas tem 
como hábito a interrupção dos fatos para entremear 
comentários reflexivos ou críticos. Esse recurso acaba 
despistando leitores desavisados, que precisam “fechar e 
abrir parênteses” para acompanhar a narrativa 
fragmentada.
Metalinguagem
A metalinguagem, caracterizada como um recurso 
ostensivo, é um código que explica a ele mesmo: a 
linguagem fala sobre a própria linguagem, o livro fala 
sobre o livro, o narrador fala sobre a narrativa, entre 
outros. Assim, nos primeiros parágrafos, intitulados “Ao 
leitor” e “Óbito do Autor”, o narrador explica seu 
próprio texto e as razões pelas quais o escreve.
A barreira da ilusão/ficção é rompida quando somos 
confrontados com a autoexplicação do romance. De 
início, há um estranhamento; depois, o leitor é 
despertado, e sente admiração pela maestria literária de 
Machado de Assis.
A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da 
tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.
ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Globo Livros, 2008. 
p. 40.
Mas não; não alonguemos este capítulo. Às vezes, esqueço-me a 
escrever, e a pena vai comendo papel, com grave prejuízo meu, que 
sou autor. Capítulos compridos quadram melhor a leitores pesadões; 
e nós não somos um público in-folio, mas in-12, pouco texto, larga 
margem, tipo elegante, corte dourado e vinhetas... Não, não 
alonguemos o capítulo.
ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas.
São Paulo: Globo Livros, 2008. p. 22.