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1 2 Exercício I 2º simulado julho de 16 QUESTÃO 01 A “tirinha” é um gênero textual de cunho humorístico – às vezes político –, muito comum em jornais, cuja constituição se estabelece pela combinação de frases curtas – geralmente de efeito ambíguo – com desenhos que ilustram e complementam o sentido da obra. Na tirinha acima O efeito de humor se deve, respectivamente: A) à postura desobediente de Mafalda diante da mãe. B) à resposta autoritária da mãe de Mafalda à pergunta da filha. C) ao uso de palavras em negrito e cada vez maior do 2º ao 4º quadrinho. D) ao fato de aparecer apenas a fala da mãe de Mafalda e não sua imagem. E) aos sentidos atribuídos por Mafalda para as palavras “títulos” e “diplomamos”. QUESTÃO 02 POR QUE COMEMOS COM O GARFO? Norbert Elias, sociólogo alemão que viveu entre 1897 e 1990, analisa, a partir de manuais de boas maneiras produzidos entre a Idade Média e o início da era moderna, as mudanças operadas no âmbito do uso do garfo, utensílio que surgiu no fim da Idade Média, com o objetivo de retirar alimentos da travessa comum. Paulatinamente, foi introduzido como utensílio de uso individual. De início, o uso do garfo para se levar o alimento à boca era considerado um sinal exagerado de refinamento e seriamente reprimido. Na análise de Elias (1994, p. 133), “o garfo nada mais é que a corporificarão de um padrão específico de emoções e um nível específico de nojo”. Esse processo nos mostra como ocorriam as relações entre as pessoas na Idade Media. Segundo o sociólogo alemão, “as pessoas que comiam juntas na maneira costumeira na Idade Média, pegando a carne com os dedos na mesma travessa, bebendo vinho no mesmo cálice, tomando a sopa na mesma travessa ou prato fundo – essas pessoas tinham entre si relações diferentes das que hoje vivemos. E isto envolve não só o nível da consciência, clara e racional, pois sua vida emocional revestia-se também de diferente estrutura e caráter” (ELIAS, 1994, p. 82). Fonte: PACHECO, S.S.M. O habito alimentar enquanto um comportamento culturalmente produzido. In: FREITAS, M.C.S.; FONTES, G.A.V.; OLIVEIRA, N. (Orgs.). Escritas e narrativas sobre alimentação e cultura [online]. Salvador: EDUFBA, 2008, p. 228-229. (adaptado) O fragmento acima pertence ao gênero textual artigo científico, em geral essa construção textual, refere-se à apresentação de um relatório escrito de estudos a respeito de uma questão específica ou à divulgação de resultados de uma pesquisa realizada. A passagem do artigo em questão, dentro de uma ideia de gênero textual tem por objetivo, A) tornar conhecido o diálogo produtivo com o referencial teórico utilizado no estudo. B) apresentar a metodologia empregada e a análise da questão-problema junto aos resultados obtidos. C) promover o intercâmbio de ideias entre os estudiosos de uma área de atuação. D) esclarecer as ideias do escritor Norbert Elias para a compreensão de todo o texto. E) chamar a atenção para o contexto histórico dos objetos simples do cotidiano. QUESTÃO 03 A tira “As cobras”, de autoria de Luis Fernando Veríssimo, expõe a opinião da lesma Flecha acerca do machismo. Sobre isso, pode-se afirmar que: A) explicitamente, Flecha se revela machista. B) Flecha não possui, de fato, uma opinião formada a respeito da temática do machismo. C) Flecha defende, em seus dois momentos de fala, um único ponto de vista, que é contrário a atitudes machistas. D) Flecha, através de uma opinião implícita, pode ser caracterizada como uma personagem que possui um raciocínio machista. E) a partir das duas falas, de forma explícita, podemos perceber a defesa de pontos de vista conflitantes por parte da lesma Flecha. QUESTÃO 04 FAVELÁRIO NACIONAL Carlos Drummond de Andrade Quem sou eu para te cantar, favela, Que cantas em mim e para ninguém a noite inteira de sexta-feira e a noite inteira de sábado E nos desconheces, como igualmente não te conhecemos? Sei apenas do teu mau cheiro: Baixou em mim na viração, direto, rápido, telegrama nasal anunciando morte... melhor, tua vida. ... Aqui só vive gente, bicho nenhum tem essa coragem. ... 3 Tenho medo. Medo de ti, sem te conhecer, Medo só de te sentir, encravada Favela, erisipela, mal-do-monte Na coxa flava do Rio de Janeiro. Medo: não de tua lâmina nem de teu revólver nem de tua manha nem de teu olhar. Medo de que sintas como sou culpado e culpados somos de pouca ou nenhuma irmandade. Custa ser irmão, custa abandonar nossos privilégios e traçar a planta da justa igualdade. Somos desiguais e queremos ser sempre desiguais. E queremos ser bonzinhos benévolos comedidamente sociologicamente mui bem comportados. Mas, favela, ciao, que este nosso papo está ficando tão desagradável. vês que perdi o tom e a empáfia do começo? ... (ANDRADE, Carlos Drummond de, Corpo. Rio de Janeiro: Record, 1984) Nos versos abaixo, percebe-se que foram utilizadas figuras de linguagem, enfatizando o sentimento do eu-lírico em: A) “e traçar a planta/da justa igualdade.” B) “Medo: não de tua lâmina nem de teu revólver” C) “Aqui só vive gente, bicho nenhum” D) “sociologicamente/mui bem comportados.” E) “a noite inteira de sexta-feira/e a noite inteira de sábado” QUESTÃO 05 A charge dialoga com acontecimentos noticiados através de referências que deslocam os fatos de seus cenários habituais, promovendo uma inversão de valores. O que originalmente era sério ou grave é ridicularizado. Neste contexto, pode-se dizer que A charge acima satiriza: a) a presunção do consumidor quando este revela sua “esperteza” em comprar carro com IPI baixo e IOF reduzido. b) a alienação do interlocutor por desconhecer as atuais formas facilitadas de pagamento propostas pelo governo. c) a visão excessivamente materialista da sociedade de consumo a qual vê o automóvel como um fetiche. d) a postura paternalista que a população espera do governo nas relações econômicas. e) o modelo econômico de redução de IPI e IOF para incentivar o desenvolvimento da indústria brasileira. QUESTÃO 06 O mundo dessa pintura, como o dos sonhos, é ao mesmo tempo familiar e desconhecido: familiar, em razão do estilo minuciosamente realista, que permite ao espectador o reconhecimento de uma figura ou de um objeto pintados; desconhecido, por causa da estranheza dos contextos em que eles aparecem, como num sonho. (Fiona Bradley. Surrealismo, 2001. Adaptado.) O comentário da historiadora de arte aplica-se à pintura reproduzida em: A) B) C) D) E) 4 QUESTÃO 07 Na tirinha de Quino, a personagem Mafalda afirma, no último quadrinho, ter sido persuadida por Susanita (sua interlocutora), esta teria sido, inclusive, a razão para Mafalda apelar para a violência. Diante de uma análise interpretativa linguística, pode-se afirmar que a estratégia argumentativa de que se valeu a personagem Susanita para convencer Mafalda é: a) explicativa, pois Susanita cita um fato ocorrido com Mafalda que materializa a tese que defende. b) utilização de dados concretos, visto que a personagem faz uso de elementos como: estatísticas, valores financeiros e pesquisas de opinião. c) a argumentação por causa-consequência, pois estabelece uma relação entre a sua tese e as consequências que uma opção diferente poderia gerar. d) a argumentação por testemunho de autoridade, uma vez que Susanita é uma pessoa reconhecida como profunda conhecedora do assunto debatido. e) indução, pois Susanita elabora sua estratégia argumentativa de acordo com os anseios que a personagem Mafalda possui. QUESTÃO 08 Pau de Dois Bicos Um morcego estonteado pousou certa vez no ninho da coruja, e ali ficaria de dentro se a coruja ao regressar não investisse contra ele. – Miserável bicho! Pois te atreves a entrarem minha casa, sabendo que odeio a família dos ratos? – Achas então que sou rato? Não tenho asas e não voo como tu? Rato, eu? Essa é boa!... A coruja não sabia discutir e, vencida de tais razões, poupou-lhe a pele. Dias depois, o finório morcego planta-se no casebre do gato-do- mato. O gato entra, dá com ele e chia de cólera. – Miserável bicho! Pois te atreves a entrar em minha toca, sabendo que detesto as aves? – E quem te disse que sou ave? - retruca o cínico - sou muito bom bicho de pelo, como tu, não vês? – Mas voas!... – Voo de mentira, por fingimento... – Mas tem asas! – Asas? Que tolice! O que faz a asa são as penas e quem já viu penas em morcego? Sou animal de pelo, dos legítimos, e inimigo das aves como tu. Ave, eu? É boa... O gato embasbacou, e o morcego conseguiu retirar-se dali são e salvo. Moral da Estória: O segredo de certos homens está nesta política do morcego. É vermelho? Tome vermelho. É branco? Viva o branco! (LOBATO, José Bento Monteiro. Fábulas. 45. ed. São Paulo: Brasiliense, 1993. p. 49.) A charge de Sassá refere-se a um problema que afeta a cidade de Londrina e muitas outras cidades brasileiras: o risco de contrair doenças transmitidas pelas pombas que vivem na região urbana. O que permite ao morcego, da fábula, e à pomba, da charge, disfarçarem sua condição é A) o fato de suplicarem pela vida e pela misericórdia de seus inimigos. B) a postura corporal, visto que um imita o comportamento do outro. C) o uso de recursos argumentativos presentes na fala. D) a confiança na consciência ambiental dos interlocutores. E) a esperteza simbolicamente atribuída a esses animais. QUESTÃO 09 Leia a letra da canção e observe a pintura a seguir para responder à(s) questão(ões). Metamorfose ambulante Prefiro ser essa metamorfose ambulante Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo Quero dizer agora o oposto do que eu disse antes Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante 5 Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo Sobre o que é o amor Sobre o que eu nem sei quem sou Se hoje eu sou estrela amanhã já se apagou Se hoje eu lhe odeio amanhã lhe tenho amor Lhe tenho amor Lhe tenho horror Lhe faço amor Eu sou um ator É chato chegar a um objetivo num instante Quero viver nessa metamorfose ambulante Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo Vou desdizer aquilo tudo que eu lhe disse antes Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo Vivi a viver a vida no segundo e no instante Prefiro ser essa metamorfose ambulante Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo SEIXAS, Raul. Metamorfose ambulante. Disponível em: <http://www.letras.com.br/#!raul-seixas/metamorfose-ambulante>. Acesso em: 02 set. 2015. Tanto a letra da canção quanto a pintura são paradoxais porque expressam A) exagero expressivo B) aspecto satírico C) ideias contrastantes D) formas abstratas E) opiniões distintas nos conteúdos QUESTÃO 10 Ainda com base nos textos da questão anterior, em relação à letra da música, a pintura retrata uma cena A) discrepante, na medida em que faz referência ao caráter estável de tudo quanto existe. B) complementar, na medida em que corrobora a noção de que o ser humano é decidido e linear. C) discrepante, na medida em que o trabalho com luzes e sombras simboliza a imutabilidade da alma humana. D) complementar, na medida em que alude, por meio de jogos de luz, à passagem do tempo, que tudo transforma. E) experimentalista, na medida em que busca elementos ainda não tanto explorados do universo da pintura. QUESTÃO 11 Para responder à questão a seguir, leia o fragmento de um romance de Érico Veríssimo (1905-1975). O defunto dominava a casa com a sua presença enorme. Anoitecia, e os homens que cercavam o morto ali na sala ainda não se haviam habituado ao seu silêncio espesso. Fazia um calor opressivo. Do quarto contíguo vinham soluços sem choro. Pareciam pedaços arrancados dum grito de dor único e descomunal, davam uma impressão de dilaceramento, de agonia sincopada. As velas ardiam e o cheiro da cera derretida se casava com o perfume adocicado das flores que cobriam o caixão. A mistura enjoativa inundava o ar como uma emanação mesma do defunto, entrava pelas narinas dos vivos e lhes dava a sensação desconfortante duma comunhão com a morte. O velho calvo que estava a um canto da sala, voltou a cabeça para o militar a seu lado e cochichou: — Está fazendo falta aqui é o Tico, capitão. O oficial ainda não conhecia o Tico. Era novo na cidade. Então o velho explicou. O Tico era um sujeito que sabia animar os velórios, contava histórias, tinha um jeito especial de levar a conversa, deixando todo o mundo à vontade. Sem o Tico era o diabo... Por onde andaria aquela alma? Entrou um homem magro, alto, de preto. Cumprimentou com um aceno discreto de cabeça, caminhou devagarinho até o cadáver e ergueu o lenço branco que lhe cobria o rosto. Por alguns segundos fitou na cara morta os olhos tristes. Depois deixou cair o lenço, afastou-se enxugando as lágrimas com as costas das mãos e entrou no quarto vizinho. O velho calvo suspirou. — Pouca gente... O militar passou o lenço pela testa suada. — Muito pouca. E o calor está brabo. — E ainda é cedo. O capitão tirou o relógio: faltava um quarto para as oito. (Um lugar ao sol, 1978.) A força expressiva da locução silêncio espesso resulta do fato de o substantivo e o adjetivo A) traduzirem conceitos religiosos. B) produzirem uma reestruturação sintática do período. C) apresentarem sentidos similares. D) harmonizarem sensações agradáveis e desagradáveis. E) associarem características sensoriais distintas. 6 QUESTÃO 12 TEXTO I CLIII Criou a Natureza damas belas, Que foram de altos plectros celebradas; Delas tomou as partes mais prezadas, E a vós, Senhora, fez do melhor delas. Elas diante vós são as estrelas, Que ficam com vos ver logo eclipsadas. Mas se elas têm por sol essas rosadas Luzes de sol maior, felizes elas! Em perfeição, em graça e gentileza, Por um modo entre humanos peregrino, A todo belo excede essa beleza. Oh! Quem tivera partes de divino Para vos merecer! Mas se pureza De amor vale ante vós, de vós sou digno. (CAMÕES, Luís de. Rimas: Segunda parte, Sonetos. In: Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003. p. 529.) TEXTO II 34. Seu João, perdido de catarata negra nos dois olhos: – Meu consolo que, em vez de nhá Biela, vejo uma nuvem. As referências à Senhora de Camões (texto I) e à nhá Biela de Dalton Trevisan (texto II) têm em comum: A) as antíteses reiteradas. B) a comparação aos deuses. C) a metáfora celeste. D) a aliteração sibilante. E) a hipérbole da beleza. QUESTÃO 13 O efeito de humor produzido pela tira decorre do fato de A) o interlocutor se impressionar com a incredulidade do indiozinho. B) o nome do indiozinho remeter a uma ascendência japonesa. C) o indiozinho ter dificuldades de se acostumar à cidade grande. D) o indiozinho afirmar que a cidade grande é também uma selva. E) o interlocutor se incomodar em função da timidez do indiozinho. QUESTÃO 14 Acudiro. Nhola tinha ânsia, tonteira, celeração, corpo largado, não via nada, nem a lampa da candeia. Dei chá de goiabeira. Esperei clareá o dia, bandiei o corgo, fui na casa da Delíria. Aí falei: — Delíria, me prouve um insonso de sal, Nhola tá ruim... Delíria me pruveu o sal. Eu fiz um engrossado de farinha de milho, Nhola comeu, descansou, miorou e falou: 7 — Nunca comi comesinho tão bão. Louvado seja Deus. Nóis demos gaitada... Aí correu mundo que Nhola teve vertige de fraqueza, falta de cumê... A casa se encheu de vizinho. Cada um trazendo uma coisa pra nóis. Até pedaçode capado e cuia de sal; café pilado e açúcar branco. Nóis fiquemo tão contente... Nhola dava gaitada... virou uma infância. CORALINA, Cora. Quadrinhos da vida. In: Estórias da casa velha da ponte. 13. ed. São Paulo: Global, 2006. p. 39-40. A partir de uma leitura atenta aos textos apresentados acima, permite dizer que a temática da pobreza A) é abordada de maneira análoga nos dois textos, pois o primeiro sugere ajuda humanitária entre as classes sociais, e o segundo explicita um drama de ordem moral. B) é tratada de modo igual em ambos os textos, uma vez que os problemas aos quais aludem não são minimizados por quaisquer ações governamentais. C) surge associada a um problema de impossível solução nos quadrinhos e a uma questão político-religiosa no excerto literário. D) surge associada a uma questão político-social nos quadrinhos e a um entrave social suavizado pela caridade no texto de Cora Coralina. E) aparece como forma de fenômeno natural e a um contexto superficial da solidariedade. QUESTÃO 15 Na tira do cartunista argentino Quino, utilizam-se recursos gráficos que lembram o cinema. A associação com a linguagem artística do cinema, que lida com o movimento e com o instrumento da câmera, é garantida pelo procedimento do cartunista demonstrado ao: A) ressaltar o trabalho com a vassoura para sugerir ação B) ampliar a imagem da mulher para indicar aproximação C) destacar a figura da cadeira para indiciar sua importância D) apresentar a sombra dos personagens para sugerir veracidade E) selecionar um tamanho único para todos os quadros. QUESTÃO 16 A questão a seguir focaliza uma passagem da comédia O juiz de paz da roça do escritor Martins Pena (1815-1848). JUIZ (assentando-se): Sr. Escrivão, leia o outro requerimento. ESCRIVÃO (lendo): Diz Francisco Antônio, natural de Portugal, porém brasileiro, que tendo ele casado com Rosa de Jesus, trouxe esta por dote uma égua. “Ora, acontecendo ter a égua de minha mulher um filho, o meu vizinho José da Silva diz que é dele, só porque o dito filho da égua de minha mulher saiu malhado como o seu cavalo. Ora, como os filhos pertencem às mães, e a prova disto é que a minha escrava Maria tem um filho que é meu, peço a V. Sa. mande o dito meu vizinho entregar-me o filho da égua que é de minha mulher”. JUIZ: É verdade que o senhor tem o filho da égua preso? JOSÉ DA SILVA: É verdade; porém o filho me pertence, pois é meu, que é do cavalo. JUIZ: Terá a bondade de entregar o filho a seu dono, pois é aqui da mulher do senhor. JOSÉ DA SILVA: Mas, Sr. Juiz... JUIZ: Nem mais nem meios mais; entregue o filho, senão, cadeia. (Martins Pena. Comédias (1833-1844), 2007.) O efeito cômico produzido pela leitura do requerimento decorre, principalmente, do seguinte fenômeno ou procedimento linguístico: A) paródia. B) intertextualidade. C) ambiguidade. D) paráfrase. E) sinonímia. QUESTÃO 17 DICIONÁRIO FEITO POR CRIANÇAS REVELA UM MUNDO QUE OS ADULTOS NÃO ENXERGAM MAIS Em abril, aconteceu a Feira do Livro de Bogotá, e um dos maiores sucessos foi um livro chamado Casa das estrelas: o universo contado pelas crianças. Nele, há um dicionário com mais de 500 definições para 133 palavras, de A a Z, feitas por crianças. 8 1O curioso deste “dicionário infantil” é como as crianças definem o mundo através daquilo que os adultos já não conseguem perceber. O autor do livro é o professor Javier Naranjo, que compilou informações ao longo de dez anos durante as aulas. Ele conta que a ideia surgiu quando ele pediu aos seus alunos para definirem a palavra “criança”, e uma das respostas que lhe chamou atenção foi: 2“uma criança é um amigo que tem o cabelo curtinho, não toma rum e vai dormir cedo”. Veja outros verbetes do livro e as idades das crianças que os definiram: - 3Adulto: pessoa que, em toda coisa que fala, fala primeiro dela mesma. (Andrés, 8 anos) - Água: transparência que se pode tomar. (Tatiana, 7 anos) - 4Branco: o branco é uma cor que não pinta. (Jonathan, 11 anos) - 5Camponês: um camponês não tem casa, nem dinheiro, somente seus filhos. (Luis, 8 anos) - 6Céu: de onde sai o dia. (Duván, 8 anos) - Dinheiro: coisa de interesse para os outros com a qual se faz amigos e, sem ela, se faz inimigos. (Ana María, 12 anos) - 7Escuridão: é como o frescor da noite. (Ana Cristina, 8 anos) - 8Guerra: gente que se mata por um pedaço de terra ou de paz. (Juan Carlos, 11 anos) - Inveja: atirar pedras nos amigos. (Alejandro, 7 anos) - 9Mãe: mãe entende e depois vai dormir. (Juan, 6 anos) - 10Paz: quando a pessoa se perdoa. (Juan Camilo, 8 anos) - Solidão: tristeza que dá na pessoa às vezes. (Iván, 10 anos) - Tempo: coisa que passa para lembrar. (Jorge, 8 anos) - 11Universo: casa das estrelas. (Carlos, 12 anos) André Fantin Adaptado de repertoriocriativo.com.br, 22/05/2013. A partir de uma análise do texto acima, vê-se que uma afirmação paradoxal contém alguma contradição interna. Neste sentido, pode-se dizer que um exemplo de afirmação paradoxal é identificado em: A) Adulto: pessoa que, em toda coisa que fala, fala primeiro dela mesma. B) Guerra: gente que se mata por um pedaço de terra ou de paz. C) Mãe: mãe entende e depois vai dormir. D) Paz: quando a pessoa se perdoa. E) Tempo: coisa que passa para lembrar. QUESTÃO 18 Ainda com base no texto da questão anterior, podemos observar uma intenção discursiva proposta pelo professor Javier Naranjo, como objetivo a ser alcançado, que se configura como: A) criar um novo dicionário de utilização específica das crianças. B) reelaborar um universo de significação para os dicionários dos adultos. C) provocar humor a partir das respostas das crianças envolvidas D) enfatizar a demasiada inocência das crianças com base nas definições adquiridas. E) resgatar a sensibilidade do universo linguístico infantil que os adultos perderam. QUESTÃO 19 O último poema Manuel Bandeira Assim eu queria o meu último poema Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos A paixão dos suicidas que se matam sem explicação. BANDEIRA, Manuel. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996, p. 223. De acordo com uma análise interpretativa do o poema acima, é coerente afirmar que: A) neste poema de versos regulares, o eu lírico emprega o metadiscurso, debruçando-se sobre seu próprio fazer poético. B) neste poema de versos livres, o eu poético lança mão da metalinguagem para refletir sobre o seu próprio processo criativo. C) neste poema de versos brancos, o eu lírico, pelo processo metalinguístico, compara a poesia ao suicídio. D) neste poema de versos rimados, o eu lírico, pelo processo da metapoesia, compara o fazer poético ao diamante. E) neste poema de versos hendecassílabos, o eu lírico reflete metalinguisticamente sobre o fazer poético. QUESTÃO 20 CANÇÃO DO VER Fomos rever o poste. O mesmo poste de quando a gente brincava de pique e de esconder. 1Agora ele estava tão verdinho! O corpo recoberto de limo e borboletas. Eu quis filmar o abandono do poste. O seu estar parado. O seu não ter voz. O seu não ter sequer mãos para se pronunciar com as mãos. Penso que a natureza o adotara em árvore. Porque eu bem cheguei de ouvir arrulos1 de passarinhos que um dia teriam cantado entre as suas folhas. Tentei transcrever para flauta a ternura dos arrulos. Mas o mato era mudo. Agora o poste se inclina para o chão − como alguém que procurasse o chão para repouso. Tivemos saudades de nós. Manoel de Barros Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010. 1 arrulos − canto ou gemido de rolas e pombas No poema, o poste é associado à própria vida do eu poético. Nessa associação, a imagem do postese constrói pelo seguinte recurso da linguagem: A) anáfora B) metáfora C) sinonímia D) hipérbole E) metonímia 9 QUESTÃO 21 BEM NO FUNDO 1no fundo, no fundo, bem lá no fundo, 2a gente gostaria de ver 3nossos problemas resolvidos por decreto a partir desta data, aquela mágoa sem remédio é considerada nula e sobre ela − silêncio perpétuo extinto por lei todo o remorso, maldito seja quem olhar pra trás, lá pra trás não há nada, e nada mais mas problemas não se resolvem, problemas têm família grande, e aos domingos saem todos a passear o problema, sua senhora e outros pequenos probleminhas LEMINSKI, Paulo. Toda poesia. São Paulo: Cia. das Letras, 2013. 25. (Uerj 2015) no fundo, no fundo, bem lá no fundo, (ref. 1) Nesses versos iniciais do poema, a repetição de palavras e o emprego do vocábulo “bem” produzem um efeito de: A) ênfase B) eufemismo C) enumeração D) ambiguidade E) comparação QUESTÃO 22 Capítulo CVII Bilhete “Não houve nada, mas ele suspeita alguma cousa; está muito sério e não fala; agora saiu. Sorriu uma vez somente, para Nhonhô, depois de o fitar muito tempo, carrancudo. Não me tratou mal nem bem. Não sei o que vai acontecer; Deus queira que isto passe. Muita cautela, por ora, muita cautela.” Capítulo CVIII Que se não entende Eis aí o drama, eis aí a ponta da orelha trágica de Shakespeare. Esse retalhinho de papel, garatujado em partes, machucado das mãos, era um documento de análise, que eu não farei neste capítulo, nem no outro, nem talvez em todo o resto do livro. Poderia eu tirar ao leitor o gosto de notar por si mesmo a frieza, a perspicácia e o ânimo dessas poucas linhas traçadas à pressa; e por trás delas a tempestade de outro cérebro, a raiva dissimulada, o desespero que se constrange e medita, porque tem de resolver-se na lama, ou no sangue, ou nas lágrimas? ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. Ao comentar o bilhete de Virgília, o narrador se vale, principalmente, do seguinte recurso retórico: A) Hipérbato: transposição ou inversão da ordem natural das palavras de uma oração, para efeito estilístico. B) Hipérbole: ênfase expressiva resultante do exagero da significação linguística. C) Preterição: figura pela qual se finge não querer falar de coisas sobre as quais se está, todavia, falando. D) Sinédoque: figura que consiste em tomar a parte pelo todo, o todo pela parte; o gênero pela espécie, a espécie pelo gênero; o singular pelo plural, o plural pelo singular etc. E) Eufemismo: palavra, locução ou acepção mais agradável, empregada em lugar de outra menos agradável ou grosseira. QUESTÃO 23 O milagre das folhas 1Não, nunca me acontecem milagres. Ouço falar, e às vezes 2isso me basta como esperança. Mas também me revolta: por que não a mim? Por que só de ouvir falar? 3Pois já cheguei a ouvir conversas assim, sobre milagres: “Avisou-me que, ao ser dita determinada palavra, um objeto de estimação se quebraria”. 4Meus objetos se quebram banalmente e pelas mãos das empregadas. 5Até que fui obrigada a chegar à conclusão de que sou 6daqueles que rolam pedras durante séculos, e não 7daqueles para os quais os seixos já vêm prontos, polidos e brancos. Bem que tenho visões fugitivas antes de adormecer – seria milagre? Mas já me foi tranquilamente explicado que isso até nome tem: cidetismo (sic), capacidade de projetar no alucinatório as imagens inconscientes. Milagre, não. Mas as coincidências. 8Vivo de coincidências, vivo de linhas que incidem uma na outra e se cruzam e no cruzamento formam um leve e instantâneo ponto, tão leve e instantâneo que mais é feito de pudor e segredo: mal eu falasse nele, já estaria falando em nada. 9Mas tenho um milagre, sim. O milagre das folhas. Estou andando pela rua e do vento me cai uma folha exatamente nos cabelos. A incidência da linha de milhões de folhas transformadas em uma única, e de milhões de pessoas a incidência de reduzi-las a mim. 10Isso me acontece tantas vezes que passei a me considerar modestamente a escolhida das folhas. Com gestos furtivos tiro a folha dos cabelos e guardo- a na bolsa, como o mais diminuto diamante. 11Até que um dia, abrindo a bolsa, encontro entre os objetos a folha seca, engelhada, morta. Jogo-a fora: não me interessa fetiche morto como lembrança. E também porque sei que novas folhas coincidirão comigo. 12Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza. LISPECTOR, Clarice. In: SANTOS, Joaquim Ferreira dos. Organização e introdução. As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. p. 186-187. 10 A partir de uma leitura atenta do texto acima, é coerente dizer que o enunciado da referência 4, “Meus objetos se quebram banalmente e pelas mãos das empregadas”, A) tem sutis conotações irônicas. B) é puramente informativo. C) exige um conhecimento especializado do leitor. D) traz uma informação indispensável para a atribuição de um sentido ao texto. E) cobra do leitor uma atenção extralinguística para compreensão de todo texto. QUESTÃO 24 O nome de Emir quase nunca era mencionado nas horas das refeições ou nas conversas animadas por baforadas de narguilé, goles de 1áraque e lances de gamão. 2Os filhos de Emilie éramos proibidos de participar dessas reuniões que varavam a noite e terminavam no pátio da fonte, aclarado por uma luz azulada. Era um momento em que os assuntos, já peneirados, esgotados e fartos de serem repetidos, 3davam lugar a 4confidências e 5lamúrias, 6abafadas às vezes pela linguagem dos pássaros, e entremeadas por exclamações e vozes que pronunciavam o nome de Deus. Era como se a manhã – 7como uma intrusa que silencia as vozes calorosas da noite – 8dispersasse o ambiente festivo, 9arrefecendo os gestos dos mais exaltados, chamando-os ao ofício 10que se inicia com a aurora. 11Mas, em algumas reuniões de sextas-feiras, o 12prenúncio da manhã não os dispersava. Eu acordava com berros dilacerantes, gemidos terríveis, ruídos de trote e 13uma algazarra de alimárias que 14assistiam à agonia dos carneiros que possuíam nomes e 15eram alimentados pelas mãos de Emilie. HATOUM, Milton. Relato de um certo Oriente. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, pp. 50 e 51. Em relação à obra Relato de um certo Oriente de Milton Hatoum, pode-se afirmar que: A) o uso do sinal gráfico da crase é opcional em “abafadas às vezes” (referência 6), assim como em “davam lugar a confidências” (referência 3). B) em “Os filhos de Emilie éramos proibidos de participar dessas reuniões” (referência 2) há a figura de linguagem chamada silepse de pessoa. C) as palavras “áraque” (referência 1), “confidências” (referência 4), “lamúrias” (referência 5) e “prenúncio” (referência 12) são acentuadas por serem paroxítonas terminadas em ditongo. D) infere-se da leitura da obra, que o nome de Emir, filho mais novo de Emilie, quase nunca era mencionado nos encontros familiares porque há muito abandonara a família, causando mágoa. E) infere-se da leitura da obra, que os empregados, principalmente as mulheres, eram tratados com muita regalia, pois participavam de todos os encontros e de todas as atividades festivas da família de Emilie. QUESTÃO 25 OS HUMANOS SÃO UMA PARTE IMPORTANTE DA BIOSFERA As maravilhas do mundo natural atraem a nossa curiosidade sobre a vida e tudo que nos cerca. Para muitos de nós, nossa curiosidade sobre a Natureza e os desafios de seu estudo são razões suficientes. 1Além disso, contudo, nossa necessidade de compreender a Natureza está se tornando mais e mais urgente, 2à medida que o crescimento da população humana estressa a capacidade dos sistemas naturais em manter sua estrutura e funcionamento. Os ambientes que as atividades humanas dominam ou criaram – incluindo nossas áreas de vida urbanas e suburbanas, nossas terras cultivadas, nossasáreas de recreação, plantações de árvore e pesqueiros – são também ecossistemas. O bem-estar da humanidade depende de manter o funcionamento desses sistemas, sejam eles naturais ou artificiais. Virtualmente toda a superfície da Terra é, ou em breve será, fortemente influenciada por pessoas, se não completamente sob seu controle. 3Os humanos já usurpam quase metade da produtividade biológica da biosfera. Não podemos assumir essa responsabilidade de forma negligente. 4A população humana se aproxima da marca de 7 bilhões, e consome energia e recursos, e produz rejeitos muito além do necessário ditado pelo metabolismo biológico. Essas atividades causaram dois problemas relacionados de dimensões globais. O primeiro é o seu impacto nos sistemas naturais, incluindo a interrupção de processos ecológicos e a exterminação de espécies. O segundo é a firme e constante deterioração do próprio ambiente da espécie humana à medida que pressionamos os limites dentro dos quais os ecossistemas podem se sustentar. 5Compreender os princípios ecológicos é um passo necessário para lidar com esses problemas. RICKLEFS, Robert E. A economia da natureza. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010. p. 15. (Adaptado). No trecho “Os humanos já usurpam quase metade da produtividade biológica da biosfera. Não podemos assumir essa responsabilidade de forma negligente” (ref. 3), os períodos apresentam pessoas verbais diferentes. O uso da primeira pessoal do plural, no segundo período, constitui um recurso linguístico por meio do qual o autor A) assume ser parte da comunidade humana e, consequentemente, responsável pelo modo como ela tem explorado os recursos naturais. B) evidencia sua concordância sobre o modo como os humanos usam, de forma desequilibrada e devastadora, os recursos da terra. C) retira de si a responsabilidade sobre o modo como os recursos da biosfera têm sido consumidos pelas sociedades urbanas e suburbanas. D) conclama a humanidade à invenção de tecnologias que possibilitem a descoberta de novos organismos e a criação de novos bens de consumo. E) exime-se da responsabilidade dos efeitos catastróficos da natureza quando se utiliza de uma figura de construção em que o verbo não concorda com o sujeito. QUESTÃO 26 MEC quer rever veto a livro de Monteiro Lobato O ministro da Educação, Fernando Haddad, pedirá que (sic) o CNE (Conselho Nacional de Educação) reveja o parecer que recomendou restrições à distribuição do livro “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, em escolas públicas. O Conselho de Educação quer vetar livro de Monteiro Lobato em escolas. Como revelou a Folha, o conselho sugeriu que a obra não seja distribuída pelo governo ou, caso isso seja feito, que contenha uma “nota explicativa”, devido a um suposto teor racista. Haddad disse ter recebido diversas reclamações de educadores e especialistas contra a decisão do CNE. “Foram muitas manifestações para 11 que o MEC afaste qualquer hipótese de censura a qualquer obra”, afirmou. (PINHO, Angela. In: http://www.substantivoplural.com.br/monteiro-lobato- e-a-proibicao-da-cacada-de-pedrinho/. Acessado em 09/09/2011) No trecho acima predomina a função referencial da linguagem, por meio da qual o emissor: A) imprime ao texto as marcas de sua atitude pessoal, seus sentimentos. B) transmite informações objetivas sobre o tema de que trata o texto. C) busca persuadir o receptor do texto a adotar certo comportamento. D) procura explicar a própria linguagem que utiliza para construir o texto. E) objetiva verificar ou fortalecer a eficiência da mensagem veiculada. QUESTÃO 27 leia o fragmento de um texto publicado em 1867 no semanário Cabrião. São Paulo, 10 de março de 1867. Estamos em plena quaresma. A população paulista azafama-se a preparar-se para a lavagem geral das consciências nas águas lustrais do confessionário e do jejum. A cambuquira* e o bacalhau afidalgam-se no mercado. A carne, mísera condenada pelos santos concílios, fica reduzida aos pouquíssimos dentes acatólicos da população, e desce quase a zero na pauta dos preços. O que não sobe nem desce na escala dos fatos normais é a vilania, a usura, o egoísmo, a estatística dos crimes e o montão de fatos vergonhosos, perversos, ruins e feios que precedem todas as contrições oficiais do confessionário, e que depois delas continuam com imperturbável regularidade. É o caso de desejar-se mais obras e menos palavras. E se não, de que é que serve o jejum, as macerações, o arrependimento, a contrição e quejandas religiosidades? O que é a religião sem o aperfeiçoamento moral da consciência? O que vale a perturbação das funções gastronômicas do estômago sem consciência livre, ilustrada, honesta e virtuosa? Seja como for, o fato é que a quaresma toma as rédeas do governo social, e tudo entristece, e tudo esfria com o exercício de seus místicos preceitos de silêncio e meditação. De que é que vale a meditação por ofício, a meditação hipócrita e obrigada, que consiste unicamente na aparência? Pois o que é que constitui a virtude? É a forma ou é o fundo? É a intenção do ato, ou sua feição ostensiva? Neste sentido, aconselhamos aos bons leitores que comutem sem o menor escrúpulo os jejuns, as confissões e rezas em boas e santas ações, em esmolas aos pobres. (Ângelo Agostini, Américo de Campos e Antônio Manoel dos Reis. Cabrião, 10.03.1867. Adaptado.) * Iguaria constituída de brotos de abóbora guisados, geralmente servida como acompanhamento de assados. [...] fica reduzida aos pouquíssimos dentes acatólicos da população. Na expressão dentes acatólicos, a palavra “dentes” é empregada em lugar de “pessoas”, segundo uma relação semântica de a) símbolo pela coisa significada. b) parte pelo todo. c) continente pelo conteúdo. d) causa pelo efeito. e) todo pela parte. QUESTÃO 28 EM RESPEITO A SUA NATUREZA, SÓ TRABALHAMOS COM O MELHOR DA NATUREZA Selecionamos só o que a natureza tem de melhor para levar até a sua casa. Porque faz parte da natureza dos nossos consumidores querer produtos saborosos, nutritivos e, acima de tudo, confiáveis. www.destakjornal.com.br, 13/05/2013. Adaptado. Sabe-se que as estratégias linguísticas permeiam os significados e significantes na construção dos textos. No texto acima, o autor procura dar maior expressividade discursiva pois, a) serve-se do procedimento textual da sinonímia. b) recorre à reiteração de vocábulos homônimos. c) explora o caráter polissêmico das palavras. d) mescla as linguagens científica e jornalística. e) emprega vocábulos iguais na forma, mas de sentidos contrários. QUESTÃO 29 O texto pode ser considerado uma manifestação da linguagem, ou seja, a linguagem é o meio pelo qual o texto se materializa. O texto acima é um típico exemplo de texto não verbal, que busca transmitir a mensagem crítica temática que: A) edifícios e outros grandes empreendimentos estão dialogando com os grandes centros urbanos. B) as residências não fazem mais parte do cenário das grandes metrópoles. C) a verticalização dos grandes centros urbanos dominam o cenário atual. D) a modernização tende a descaracterizar a imagem dos centros urbanos. E) o acelerado desenvolvimento não permitirá a construção de casas. QUESTÃO 30 O texto a seguir é um excerto retirado do primeiro parágrafo do artigo de opinião “Com um braço só”, escrito por J. R. Guzzo, que trata da corrupção na política. 12 1Um dos aspectos menos atraentes da personalidade humana é a tendência de muitas pessoas de só condenar os vícios que não praticam, ou pelos quais não se sentem atraídas. Um caloteiro que não fuma, não bebe e não joga, por exemplo, é frequentemente a voz que mais grita contra o cigarro, a bebida e os cassinos, mas fecha a boca, os ouvidos e os olhos, como 6os três prudentes macaquinhos orientais, quando o assunto é honestidade no pagamento de dívidas pessoais.É a velha história: 2o mal está 4sempre na alma dos outros. Pode até ser verdade, 5infelizmente, quando se trata da política brasileira, em que continua valendo, mais do que nunca, a máxima popular do 3“pega um, pega geral”. Extraído do artigo ”Com um braço só”, de J.R. Guzzo. VEJA. 21/08/2013. 37. (Uece 2014) O articulista inicia o texto com a expressão: “Um dos aspectos menos atraentes da personalidade humana”. Sobre esse começo de texto, pode-se dizer que expressa dentro de uma construção linguística coerente: A) a linguagem é figurada, portanto direta e sem subterfúgios, de modo a preparar o leitor para o tom contundente do texto. B) a linguagem é simples, sem elementos apelativos ou argumentativos. Predomina nela a função fática da linguagem. C) a linguagem é eufemística, demonstrando uma intenção do enunciador: preparar o leitor para o teor pesado do texto. D) o início do texto manteria a mesma força argumentativa se fosse reescrito da seguinte maneira: Um dos aspectos mais repulsivos da personalidade humana [...]. E) a expressão “menos atraente” sugere para o leitor uma irrelevância do conteúdo administrado no entorno do texto. QUESTÃO 31 Disponível em: http://orion-oblog.blogspot.com.br. Acesso em: 6 jun. 2012 (adaptado). O cartaz aborda a questão do aquecimento global. A relação entre os recursos verbais e não verbais nessa propaganda revela que A) o discurso ambientalista propõe formas radicais de resolver os problemas climáticos. B) a preservação da vida na Terra depende de ações de dessalinização da água marinha. C) a acomodação da topografia terrestre desencadeia o natural degelo das calotas polares. D) o descongelamento das calotas polares diminui a quantidade de água doce potável do mundo. E) a agressão ao planeta é dependente da posição assumida pelo homem frente aos problemas ambientais. QUESTÃO 32 Leia o soneto de Cláudio Manuel da Costa para responder à questão. Onde estou? Este sítio desconheço: Quem fez tão diferente aquele prado? Tudo outra natureza tem tomado; E em contemplá-lo tímido esmoreço. Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço De estar a ela um dia reclinado; Ali em vale um monte está mudado: Quanto pode dos anos o progresso! Árvores aqui vi tão florescentes, Que faziam perpétua a primavera: Nem troncos vejo agora decadentes. Eu me engano: a região esta não era; Mas que venho a estranhar, se estão presentes Meus males, com que tudo degenera! (Obras, 1996.) Com base em uma leitura interpretativa do poema acima, vê-se no soneto, que o eu lírico expressa-se de forma a) eufórica, reconhecendo a necessidade de mudança. b) contida, descortinando as impressões auspiciosas do cenário. c) introspectiva, valendo-se da idealização da natureza. d) racional, mostrando-se indiferente às mudanças. e) reflexiva, explorando ambiguidades existenciais. QUESTÃO 33 O que a internet esconde de você Sites de busca manipulam resultados. Redes sociais decidem quem vai ser seu amigo — e descartam as pessoas sem avisar. E, para cada site que você pode acessar, há 400 outros invisíveis. Prepare-se para conhecer o lado oculto da internet. 13 GRAVATÁ, A. Superinteressante, São Paulo, ed. 297, nov. 2011 (adaptado). Analisando-se as informações verbais e a imagem associada a uma cabeça humana, compreende-se que a venda A) representa a amplitude de informações que compõem a internet, às quais temos acesso em redes sociais e sites de busca. B) faz uma denúncia quanto às informações que são omitidas dos usuários da rede, sendo empregada no sentido conotativo. C) diz respeito a um buraco negro digital, onde estão escondidas as informações buscadas pelo usuário nos sites que acessa. D) está associada a um conjunto de restrições sociais presentes na vida daqueles que estão sempre conectados à internet. E) remete às bases de dados da web, protegidas por senhas ou assinaturas e às quais o navegador não tem acesso. QUESTÃO 34 O nada que é Um canavial tem a extensão ante a qual todo metro é vão. Tem o escancarado do mar que existe para desafiar que números e seus afins possam prendê-lo nos seus sins. Ante um canavial a medida métrica é de todo esquecida, porque embora todo povoado povoa-o o pleno anonimato que dá esse efeito singular: de um nada prenhe como o mar. (João Cabral de Melo Neto. Museu de tudo e depois, 1988.) Ao comparar o canavial ao mar, a imagem construída pelo eu lírico formaliza-se em A) uma assimetria entre a ideia de nada e a de anonimato. B) uma descontinuidade entre a ideia de mar e a de canavial. C) uma contradição entre a ideia de extensão e a de canavial. D) um paradoxo entre a ideia de nada e a de imensidão. E) um eufemismo entre a ideia de metro e a de medida. QUESTÃO 35 Crianças brincando Uma psicóloga da PM-SP defende que crianças de oito anos podem manusear armas de fogo, “desde que acompanhadas pelos pais”. É normal, diz ela, que o filho de um policial tenha curiosidade sobre o instrumento de trabalho de seu pai, “assim como o filho do médico tem sobre o estetoscópio”. A recente tragédia em São Paulo, envolvendo o menino Marcelo Pesseghini, 13, suspeito de matar seus pais (ambos, po- liciais militares), a avó e a tia-avó, e que se matou em seguida, tudo a tiros, não abalou sua convicção. Vejamos. É normal que o filho de oito anos de um piloto de aviação tenha curiosidade sobre o instrumento de trabalho do pai - o avião. Isso autoriza o piloto a pôr o filho na cadeira do copiloto e “acompanhá-lo” enquanto ele pousa o aparelho levando 300 passageiros? O filho de um madeireiro, apenas por ser quem é, estará autorizado a brincar com uma motosserra? E o filho de um proctologista estará apto a manipular o instrumento de trabalho de seu pai? (...) A professora Maria de Lourdes Trassi, da Faculdade de Psicologia da PUC-SP, rebate o argumento da psicóloga da PM, dizendo: “O cirurgião pode até dar o estetoscópio ou a luva [para o filho brincar]. Mas não vai lhe apresentar o bisturi”. Também acho. E há muitas coisas com que o filho de um PM pode brincar - gás de mostarda, bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha -, sem ter de apelar para armas de fogo. (Ruy Castro, Folha de S. Paulo, 19.08.2013) Dos objetos citados no texto, pode-se dizer aquele que possui grau diferente de importância se comparado aos demais é: a) armas de fogo b) estetoscópio c) motosserra d) bisturi e) instrumento do proctologista QUESTÃO 36 A(s) questão(ões) a seguir toma(m) por base um poema satírico do poeta português João de Deus (1830-1896). Ossos do ofício Uma vez uma besta do tesouro, Uma besta fiscal, Ia de volta para a capital, Carregada de cobre, prata e ouro; E no caminho 14 Encontra-se com outra carregada De cevada, Que ia para o moinho. Passa-lhe logo adiante Largo espaço, Coleando arrogante E a cada passo Repicando a choquilha Que se ouvia distante. Mas salta uma quadrilha De ladrões, Como leões, E qual mais presto Se lhe agarra ao cabresto. Ela reguinga, dá uma sacada Já cuidando Que desfazia o bando; Mas, coitada! Foi tanta a bordoada, Ah! que exclamava enfim A besta oficial: — Nunca imaginei tal! Tratada assim Uma besta real!... Mas aquela que vinha atrás de mim, Por que a não tratais mal? “Minha amiga, cá vou no meu sossego, Tu tens um belo emprego! Tu sustentas-te a fava, e eu a troços! Tu lá serves el-rei, e eu um moleiro! Ossos do ofício, que o não há sem ossos.” (Campo de flores, s/d.) Considerando que a sátira se apresenta sob forma de fábula, com personagens animais assumindo modos de agir e pensar tipicamente humanos, verifica-se que a atitude da besta real em relação à outra traduz um preconceito de A) cor. B) raça. C) credo religioso. D) credo político. E) classe social. QUESTÃO 37 TapuiaAs florestas ergueram braços peludos para esconder-te com ciúmes do sol. E a tua carne triste se desabotoa nos seios, recém-chegados do fundo das selvas. Pararam no teu olhar as noites da Amazônia, mornas e imensas. No teu corpo longo ficou dormindo a sombra das cinco estrelas do Cruzeiro. O mato acorda no teu sangue sonhos de tribos desaparecidas – filha de raças anônimas que se misturaram em grandes adultérios! E erras sem rumo assim, pelas beiras do rio, que teus antepassados te deixaram de herança. O vento desarruma os teus cabelos soltos e modela um vestido na intimidade do teu corpo exato. À noite o rio te chama e então te entregas à água preguiçosamente, como uma flor selvagem ante a curiosidade das estrelas. (Raul Bopp apud Mário da Silva Brito. “Tapuia”. In: Poesia do Modernismo, 1968.) A metáfora é uma figura de linguagem em que um termo substitui outro, em vista de uma relação de semelhança entre os elementos designados por tais termos. Essa figura ocorre no verso: A) que se misturaram em grandes adultérios! B) O vento desarruma os teus cabelos soltos C) As florestas ergueram braços peludos para esconder-te D) e então te entregas à água preguiçosamente, E) E erras sem rumo assim, pelas beiras do rio, QUESTÃO 38 Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança; todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades. Continuamente vemos novidades, diferentes em tudo da esperança; do mal ficam as mágoas na lembrança, e do bem (se algum houve), as saudades. O tempo cobre o chão de verde manto, que já coberto foi de neve fria, e, enfim, converte em choro o doce canto. E, afora este mudar-se cada dia, outra mudança faz de mor espanto, que não se muda já como soía*. Luís Vaz de Camões *soía: Imperfeito do indicativo do verbo soer, que significa costumar, ser de costume 15 Com base em uma análise do poema, vê-se que o sentido dos versos de Camões representam dentro de uma coerência interpretativa: A) o foco temático do soneto está relacionado à instabilidade do ser humano, eternamente insatisfeito com as suas condições de vida e com a inevitabilidade da morte. B) a inferência, a partir da leitura dos dois tercetos, que, com o passar do tempo, a recusa da instabilidade se torna maior, graças à sabedoria e à experiência adquiridas. C) que trata-se de mudanças e da passagem do tempo, o soneto expressa a ideia de circularidade, já que ele se baseia no postulado da imutabilidade. D) que na segunda estrofe, o eu lírico vê com pessimismo as mudanças que se operam no mundo, porque constata que elas são geradoras de um mal cuja dor não pode ser superada. E) que as duas últimas estrofes autorizam concluir que a ideia de que nada é permanente não passa de uma ilusão. QUESTÃO 39 O amor é feio Tem cara de vício Anda pela estrada Não tem compromisso [...] O amor é lindo Faz o impossível O amor é graça Ele dá e passa A.Antunes, C.Brown, M.Monte, “O amor é feio” Cotejando a letra da canção com os famosos versos camonianos Amor é fogo que arde sem se ver / É ferida que dói e não se sente, afirma-se corretamente que: A) assim como Camões, os compositores tematizam o amor, valendo-se de uma linguagem espontânea, coloquial, como prova o uso da expressão cara de vício. B) o caráter popular da canção é acentuado pelo uso de redondilhas, traço estilístico ausente nos versos camonianos citados. C) a concepção de amor como sentimento contraditório, típica de Camões, está ausente na letra da canção, uma vez que seus versos não se compõem de paradoxos. D) a ideia de que a dor do amor não é sentida pelos amantes, presente nos versos de Camões, é parafraseada nos versos Anda pela estrada /Não tem compromisso. E) a canção recupera o tom solene e altissonante presente nos versos camonianos. QUESTÃO 40 XENOFOBIA E RACISMO (fragmento) As recentes revelações das restrições impostas, há mais de meio século, à imigração de negros, judeus e asiáticos durante os governos de Dutra e Vargas chocaram os brasileiros amantes da democracia. Foram atos injustos, cometidos contra estes segmentos do povo brasileiro que tanto contribuíram para o engrandecimento de nossa nação. Já no Brasil atual, a imigração de estrangeiros parece liberalizada e imune às manchas do passado, enquanto que no continente europeu marcha-se a passos largos na direção de conflitos raciais onde a marca principal é o ódio dos radicais de direita aos imigrantes. Na Europa, a história se repete com o mesmo enredo centenário: imigrantes são bem-vindos para reforçar a mão-de-obra local em momentos de reconstrução nacional ou de forte expansão econômica; após anos de dedicação e engajamento à vida local, começam a ser alvo da violência e da segregação. (O Globo, 13/7/01) Dentro de uma compreensão interpretativa, percebe-se que a seleção vocabular do primeiro período do texto permite dizer que: A) o adjetivo recentes traz como inferência que as revelações referidas no texto ocorreram nos dias imediatamente antes da elaboração do artigo. B) a escolha do substantivo revelações se refere a um conjunto de informações que, para o bem do país, deveria permanecer oculto. C) o substantivo restrições indica a presença de limitações oficiais na política migratória do país. D) o adjetivo impostas se liga obrigatoriamente a um poder discricionário, como o presente nas ditaduras de Dutra e Vargas. E) em razão das referências históricas imprecisas do texto, o segmento há mais de meio século se refere a uma quantidade de anos superior a 50 e inferior a 100. QUESTÃO 41 Ainda com base no texto anterior, ao escrever que os atos injustos foram cometidos “contra esses segmentos do povo brasileiro…”, o autor do texto mostra que: a) a população brasileira da era Vargas sofria pela discriminação oficial. b) negros, judeus e asiáticos são vistos como brasileiros pelo autor do texto. c) o povo brasileiro é constituído de raças e credos distintos. d) alguns segmentos de nosso povo foram autores de atos injustos. e) o Brasil e seu povo já passaram por momentos históricos difíceis. QUESTÃO 42 O problema ecológico Se uma nave extraterrestre invadisse o espaço aéreo da Terra, com certeza seus tripulantes diriam que neste planeta não habita uma civilização inteligente, tamanho é o grau de destruição dos recursos naturais. Essas são palavras de um renomado cientista americano. Apesar dos avanços obtidos, a humanidade ainda não descobriu os valores fundamentais da existência. O que chamamos orgulhosamente de civilização nada mais é do que uma agressão às coisas naturais. A grosso http://www.queima48horas.online/ 16 modo, a tal civilização significa a devastação das florestas, a poluição dos rios, o envenenamento das terras e a deterioração da qualidade do ar. O que chamamos de progresso não passa de uma degradação deliberada e sistemática que o homem vem promovendo há muito tempo, uma autêntica guerra contra a natureza. Afrânio Primo. Jornal Madhva (adaptado). Segundo o Texto, o cientista americano está preocupado com: (A) a vida neste planeta. (B) a qualidade do espaço aéreo. (C) o que pensam os extraterrestres. (D) o seu prestígio no mundo. (E) os seres de outro planeta. QUESTÃO 43 Jogar limpo Argumentar não é ganhar uma discussão a qualquer preço. Convencer alguém de algo é, antes de tudo, uma alternativa à prática de ganhar uma questão no grito ou na violência física — ou não física. Não física, dois pontos. Um político que mente descaradamente pode cativar eleitores. Uma publicidade que joga baixo pode constranger multidões a consumir um produto danoso ao ambiente. Há manipulações psicológicas não só na religião. E é comum pessoas agirem emocionalmente, porque vítimas de ardilosa — e cangoteira — sedução. Embora a eficácia a todo preço não sejaargumentar, tampouco se trata de admitir só verdades científicas — formar opinião apenas depois de ver a demonstração e as evidências, como a ciência faz. Argumentar é matéria da vida cotidiana, uma forma de retórica, mas é um raciocínio que tenta convencer sem se tornar mero cálculo manipulativo, e pode ser rigoroso sem ser científico. Língua Portuguesa, São Paulo, ano 5, n. 66, abr. 2011 (adaptado). No fragmento, opta-se por uma construção linguística bastante diferente em relação aos padrões normalmente empregados na escrita. Trata-se da frase “Não física, dois pontos”. Nesse contexto, a escolha por se representar por extenso o sinal de pontuação que deveria ser utilizado A) enfatiza a metáfora de que o autor se vale para desenvolver seu ponto de vista sobre a arte de argumentar. B) diz respeito a um recurso de metalinguagem, evidenciando as relações e as estruturas presentes no enunciado. C) é um recurso estilístico que promove satisfatoriamente a sequenciação de ideias, introduzindo apostos exemplificativos. D) ilustra a flexibilidade na estruturação do gênero textual, a qual se concretiza no emprego da linguagem conotativa. E) prejudica a sequência do texto, provocando estranheza no leitor ao não desenvolver explicitamente o raciocínio a partir de argumentos. QUESTÃO 44 Ardor em firme coração nascido; pranto por belos olhos derramado; incêndio em mares de água disfarçado; rio de neve em fogo convertido: tu, que em um peito abrasas escondido; tu, que em um rosto corres desatado; quando fogo, em cristais aprisionado; quando crista, em chamas derretido. Se és fogo, como passas brandamente, se és fogo, como queimas com porfia? Mas ai, que andou Amor em ti prudente! Pois para temperar a tirania, como quis que aqui fosse a neve ardente, permitiu parecesse a chama fria. O texto pertencente a Gregório de Matos, apresenta todas seguintes características: A) Trocadilhos, predomínio de metonímias, a dualidade temática da sensualidade e do refreamento, antíteses claras dispostas em ordem direta. B) Sintaxe segundo a ordem lógica do Classicismo, a qual o autor buscava imitar, predomínio das metáforas e das antíteses, temática da fugacidade do tempo e da vida. C) Dualidade temática da entrega e do refreamento, predomínio figurativo das metáforas e pares antitéticos que tendem para o paradoxo. D) Temática naturalista, assimetria total de construção, ordem direta predominando sobre a ordem inversa, imagens que prenunciam o Romantismo. E) Verificação clássica, temática neoclássica, sintaxe preciosista evidente no uso das síntese, dos anacolutos e das alegorias, construção assimétrica. QUESTÃO 45 A Bela Azul Como a Terra é bela! Certos estavam os teólogos e astrônomos antigos em colocá-la no centro do universo! Os astrônomos modernos e os geômetras se riram da sua ingenuidade e presunção... Ora, a Terra, essa poeira ínfima perdida em meio a bilhões de estrelas e galáxias – o centro em torno do qual todo o universo gira? Mas eles, cientistas, não sabem que há duas formas de determinar o centro. Pode-se determinar o centro com o cérebro e pode-se determinar o centro com o coração. O cérebro mede o espaço vazio com réguas e calculadoras para assim localizar o seu centro geométrico. Mas, para o coração, o centro do universo é o lugar do amor. Para o pai e a mãe, qual é o centro de sua casa? Não será o berço onde o filhinho dorme? E para o trabalhador na roça, cansado e sedento, o centro do mundo não é uma fonte de água fresca? Chove e faz frio. A família inteira se reúne em torno da lareira, onde o fogo crepita. Ali se contam estórias... E sabe o apaixonado que o centro do mundo é o rosto de sua amada, ausente... Recebi de um amigo, via Internet, uma série de fotografias da Terra, tiradas de um satélite. Vinha tudo com o nome de "A Bela Azul". Que lindo nome para a nossa Terra! Porque é com a cor azul que ela aparece. Lembrei-me de um verso de Fernando Pessoa: "... e viu-se a Terra inteira, de repente, surgir, redonda, do azul profundo". O filósofo Niezstche também era um apaixonado pela Terra. Dizia que era uma deformação do espírito ficar lendo um livro em casa, num dia luminoso, quando a natureza está lá fora, fresca e radiante. É possível imaginar que ele, que proclamou a morte de Deus, tenha secretamente elegido a Terra como seu objeto de adoração. Mas agora anunciam os cientistas que a Bela Azul está agonizante... (Rubem Alves, Folha de S. Paulo, 07/02/2007) 26. O autor afirma, no primeiro parágrafo: Certos estavam os teólogos e astrônomos antigos (...). Com essa afirmação, pretende ele A) menosprezar a legitimidade das investigações e das conclusões científicas. 17 B) provar que os astrônomos antigos colocavam a emoção acima da razão. C) iniciar uma argumentação na qual relativiza o peso das verdades racionais. D) concluir sua tese de que as propriedades do universo derivam do amor. E) demonstrar seu respeito pelos sábios antigos, mais sensíveis que os atuais. GABARITO 01. E 02. A 03. D 04. B 05. D 06. C 07. C 08. C 09. C 10. D 11. E 12. C 13. D 14. D 15. B 16. C 17. B 18. E 19. B 20. B 21. A 22. C 23. A 24. B 25. A 26. B 27. B 28. C 29. C 30. C 31. E 32. E 33. B 34. D 35. B 36. E 37. C 38. D 39. B 40. C 41. C 42. A 43. C 44. C 45. C