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AULA 4 MEDIAÇÃO FAMILIAR Profª Larissa Ribeiro Tomazoni 2 INTRODUÇÃO O processo de mediação possui variações em sua abordagem, diferentes modelos teóricos e técnicas. Existem três abordagens diferentes que aparecem como modelos básicos da mediação, são elas: a mediação estruturada, a mediação transformadora e a mediação narrativa. Existe ainda outra abordagem um pouco menos conhecida, mas apropriada aos assuntos de família chamada de mediação ecossistêmica (Parkinson, 2016, p. 63-64). O objetivo desta aula é conhecer alguns modelos teóricos da mediação, como a mediação estruturada, a mediação transformadora, a mediação narrativa e a mediação ecossistêmica, bem como os chamados ecogramas1, que são uma etapa anterior à mediação, sendo a construção de um mapa familiar com o objetivo de conhecer e entender o funcionamento de cada família envolvida no processo de mediação. TEMA 1 – MEDIAÇÃO ESTRUTURADA A mediação estruturada ou orientada para o acordo é baseada no sistema de negociação de Harvard, na qual se defende o sistema de “ganhos mútuos”. Esse modelo visa assegurar a participação equilibrada das partes por meio de regras e diretrizes previamente acordadas entre elas e o mediador. Na mediação estruturada são estabelecidos limites físicos e psicológicos que ajudam a conter as emoções das partes envolvidas, canalizando-as para a negociação e a resolução dos problemas (Parkinson, 2016, p. 64-65). Uma das principais características dessa modalidade de mediação é o seu foco em interesses e não em posições. Uma posição é a declaração de uma determinada solução, no entanto, envolvem elementos não negociáveis como acusações e xingamentos. Os interesses, por sua vez, são necessidades ou objetivos que podem ser cumpridos e que são, portanto, negociáveis. A mediação estruturada permite que as partes trabalhem em conjunto para chegar a um 1 O “ecograma” serve para a descrição do modelo familiar, permitindo ao mediador melhor compreensão sobre as relações entre a família e outros possíveis membros. Para Parkinson o ecograma é uma versão modificada do genograma, que é uma ferramenta clássica na terapia famíliar utilizada para o tratamento das “famílias em transição”. (Parkinson, 2014, p. 81). Embora este termo (ecograma) não seja corriqueiramente utilizado na mediação, a autora da obra respeitou a grafia contida na tradução do livro e o conteúdo da teoria de Lisa Parkinson. 3 acordo, em vez de desperdiçar tempo e energia em uma competição destrutiva (Parkinson, 2016, p. 64-66). A mediação estruturada é composta basicamente por quatro fases, conforme exposto no Quadro 1. Quadro 1 – Fases da mediação estruturada Fase Descrição 1. Definição das questões Os participantes explicam suas posições. 2. Análise dos fatos Levantamento e compartilhamento de informações. 3. Exploração das opções Análise das necessidades, das preocupações e das consequências. 4. Obtenção de acordos Negociação para um resultado mutuamente aceitável. Fonte: Parkinson (2016, p. 66). Quando o foco está nos interesses e não em posições, diferentes formas de satisfazer os interesses podem ser exploradas criando áreas de entendimento. A mediação estruturada é preferida por muitos profissionais porque é baseada em resultados concretos e os advogados se sentem mais à vontade, pois podem exercer um papel mais ativo de conselheiro jurídico (Parkinson, 2016, p. 66-67). TEMA 2 – MEDIAÇÃO TRANSFORMADORA A mediação transformadora encoraja as partes a conduzirem a mediação em vez de se deixar levar pelo mediador. Busca, por meio do diálogo e da escuta, obter novas perspectivas sobre o problema em questão. As técnicas de mediação ajudam as partes a escutar o outro e a si mesmo, propiciando o diálogo com o objetivo de resolver os problemas de modo criativo, negociar e colaborar com o outro, para que possam se reconciliar (Parkinson, 2016, p. 68-69). A mediação só terá efeitos transformadores se o mediador introduzir dois objetivos-chave: a capacitação e a sensibilização. A capacitação incita a autonomia e a capacidade de as partes verem com clareza a sua situação e tomar decisões por si próprias. A sensibilização envolve a capacidade de as partes reconhecerem sentimentos e perspectivas recíprocos, tornando-as mais sensíveis às necessidades do outro. Tais elementos ajudam as partes a se compreenderem mutuamente, reconhecendo as necessidades do outro com mais empatia (Parkinson, 2016, p.69). Na mediação transformadora existem dez pontos fundamentais: 4 1. Compromisso para a capacitação e a sensibilização como o principal objetivo do processo de mediação e um dos aspectos mais importantes do papel do mediador. 2. Deixar a responsabilidade do resultado para as partes – “é a decisão deles”. 3. Não criticar as opiniões e decisões das partes – “as partes sabem o que é melhor para elas”. 4. Ter um olhar optimista sobre a competência e motivação das partes. Os mediadores transformadores devem ter uma atitude positiva com a boa-fé e a integridade das partes, quaisquer que sejam suas aparências […]. 5. Permitir que as emoções sejam manifestadas. Os mediadores transformadores estimulam as partes a descrever e dividir com o outro as suas emoções e os acontecimentos que as causaram, a fim de promover a sua compreensão. 6. Permitir e explorar a incerteza das partes: a falta de clareza deveria ser vista positivamente e não negativamente […] a incerteza da direção a ser tomada ajuda os mediadores a formular mais perguntas em vez de estabelecer conclusões precipitadas. 7. Manter-se concentrado no aqui e agora da interação conflitual: “a ação está na sala”. Em vez de tentar resolver problemas, o mediador deve concentrar-se nas afirmações feitas pelas partes à medida em que forem sendo feitas, tentando identificar e esclarecer os seguintes pontos: participantes confusos, participantes que se sentem não compreendidos, ou participantes que não entende um ao outro. 8. Reagir às declarações das partes sobre acontecimentos passados: “discutir o passado pode ser importante para o presente” […] rever o passado pode revelar escolhas que foram feitas, soluções que estavam disponíveis e possíveis pontos-chave para se chegar a um acordo. Rever o passado pode conduzir a uma avaliação do presente. 9. Considerar a interrupção do processo de mediação como parte da interação conflitual e não como o fim da mediação […] os mediadores transformadores acreditam que tais ciclos fazem parte dos fluxos e influxos naturais do processo de mediação. 10. Ter a sensação de sucesso quando verificada a presença de responsabilidade e responsabilização, mesmo que em doses pequenas: “os passos pequenos contam”. […] permitir a nós mesmos de reconhecer e desfrutar dos pequenos sucessos é muito importante para manter a energia e a motivação. (Parkinson, 2016, p. 69-71) As pessoas, contudo, recorrem à mediação para resolver seus problemas e não para serem “transformadas”; dessa forma, o termo “mediação transformadora” talvez não seja o mais adequado, pois sugere que os mediadores fazem milagres transformando as pessoas e os conflitos em um período de tempo curto, e os mediadores que acreditam que eles têm como missão transformar seus clientes podem estar transcendendo as fronteiras éticas da mediação (Parkinson, 2016, p. 71). TEMA 3 – MEDIAÇÃO NARRATIVA 5 A mediação narrativa é baseada na ideia de que mediadores e litigantes exercem influência uns sobre os outros por meio do diálogo. Pode ser conceituada como “um processo de contar histórias na qual as partes estão convidadas a contar histórias com um duplo propósito: implicá-las no processo e ajudá-las a se compreender mutuamente” (Parkinson, 2016, p. 72). O conceito de enquadramento é a base do modelo de mediação narrativa, trata-se de um meio psicológicode delimitar ou controlar o que é dito. Os enquadramentos ocorrem quando incluímos certas mensagens e excluímos outras. O reenquadramento é uma das principais ferramentas do mediador para auxiliar as partes a chegar a um acordo. O enquadramento, por vezes, pode ser visto como uma função unilateral do mediador, entretanto, tal construção pode ocorrer de forma conjunta, nas quais o mediador e as partes envolvidas enquadram e reenquadram continuamente imagens uns para os outros (Parkinson, 2016, p. 72-73). TEMA 4 – MEDIAÇÃO ECOSSISTÊMICA A mediação sistêmica ou ecossistêmica é capaz de incorporar diferentes modelos e teorias; não opera no vácuo e estabelece conexões com outros sistemas. De um modo geral os mediadores trabalham com dois sistemas diferentes: o privado, voltado para a tomada de decisão pela família e o público, voltado para a aplicação da lei e da proteção à criança (Parkinson, 2016, p. 75). Quando um sistema público precisa ser envolvido o mediador pode facilitar a cooperação entre os dois sistemas, de modo que ambos possam ter um bom funcionamento. Na mediação ecossistêmica todos os que trabalham no sistema de justiça “sejam eles advogados, juízes, assistentes sociais e mediadores precisam compreender que todos possuem papéis complementares e responsabilidades diferentes” (Parkinson, 2016, p. 75). A mediação ecossistêmica oferece maneiras úteis de entender as estruturas familiares e o reconhecimento de diferentes sistemas por parte do mediador facilita a identificação de fatores sociais e legais relevantes para a solução do problema. A compreensão do impacto das questões jurídicas, econômicas, sociais, étnicas culturais, psicológicas e de gênero de qualquer conflito entre particulares é fundamental para as discussões que ocorrem no processo de mediação (Parkinson, 2016, p. 76). 6 Se as negociações ocorrem sem levar em conta os fatores externos à mediação, os desequilíbrios de poder podem ser acentuados. Os modelos de mediação estruturada e transformadora tendem a se focar nas preocupações e nas perspectivas que os adultos apresentam na mediação. (Parkinson, 2016, p. 76) As crianças raramente são mencionadas em alguns processos de mediação, pois são vistas como objeto de cuidado e negociação e não como indivíduos que merecedores de consideração. O modelo ecossistêmico é bastante adequado à mediação familiar, pois os pais são encorajados a considerar o ponto de vista das crianças, levando em conta o seu melhor interesse e, assim, preservando as relações entre filhos e genitores (Parkinson, 2016, p. 76). A mediação ecossistêmica possui alguns princípios, vejamos: • Visão holística das famílias em transição, facilitar a comunicação entre os membros da família é de fundamental importância; • O objetivo é ajudar a família que passa por um período crítico, a negociar mudanças e chegar a acordos duradouros; • As necessidades dos membros da família são inter-relacionados e eles podem precisar de ajuda para se comunicar; • Os participantes são ajudados a negociar questões práticas bem como a valorizar, cooperar e apoiar um ao outro; • É necessária uma abordagem e conhecimento interdisciplinar por parte do mediador, pois a mediação ocorre dentro de diferentes contextos culturais, sociais e legais; • A mediação ecossistêmica relaciona-se com o sistema de justiça familiar e ajuda os participantes a sair da sombra do tribunal e alcançar suas próprias decisões acordadas; • As crianças são indivíduos com direitos próprios, incluindo o direito a manter as relações familiares; • Se ambos os pais concordarem as crianças e adolescentes podem ser incluídos na mediação de forma direta ou indireta, pois estes precisam entender as mudanças que vão ocorrer em suas vidas, os mediadores, entretanto, necessitam de formação adicional para que possam incluir crianças no processo de mediação. (Parkinson, 2016, p. 84) Cada família é única, tem suas próprias necessidades e cultura. Cada família precisa de acordos únicos projetados por ela própria e não impostos por sentença que podem ser diferentes do que cada uma delas precisa. A mediação ecossistêmica difere da mediação estruturada e da mediação transformadora na medida em que combina o conhecimento interdisciplinar com a gestão dos conflitos (Parkinson, 2016, p. 84-85). TEMA 5 – ECOGRAMAS/GENOGRAMA Antes de iniciar a mediação é fundamental entender o funcionamento de cada família. Uma das primeiras tarefas do mediador é traçar um “mapa” da família na sua forma atual, segundo a perspectiva de cada um deles. Esse mapa é 7 chamado de ecograma, é uma versão modificada do genograma, que é uma ferramenta clássica da terapia familiar e que pode ser utilizada de diferentes formas na mediação familiar (Parkinson, 2016, p. 81). O termo ecograma é utilizado no termo genograma para descrever o que chamamos de ecologia das famílias em transição. O termo ecologia aqui usado faz alusão à biologia e o estudo da relação dos seres vivos com o meio ambiente, o que ocorre também com as famílias, na qual cada membro tem uma função e interagem entre si de determinada maneira. Para entender a ecologia da estrutura e do sistema familiar, os mediadores utilizam os ecogramas para descrever o panorama da família (Parkinson, 2016, p. 81). A seguir, temos um exemplo de ecograma. Figura 1 – Ecograma Fonte: Schmidt; Gabarra; Gonçalves (2011, p. 426). 8 A visualização da família por meio dos ecogramas ajuda os membros da família a falar sobre seus relacionamentos. Alguns mediadores desenham o ecograma no início da mediação como forma de coleta de informações (Parkinson, 2016, p. 82). 9 REFERÊNCIAS PARKINSON, L. Mediação familiar. Belo Horizonte: Del Rey, 2016. SCHMIDT, B.; GABARRA, L. M.; GONÇALVES, J. R. Intervenção psicológica em terminalidade e morte: relato de experiência. Revista Paideia, Ribeirão Preto, v. 21, n. 50, set./dez. 2011.