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1 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML MANUAL DE PRESCRIÇÃO FARMACOLÓGICA RACIONAL Raquel Ascenção Miguel Julião Filipa Fareleira António Vaz Carneiro 2 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML CONTACTOS: CEMBE Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência Faculdade de Medicina de Lisboa - Pisos 3/6 Av. Prof. Egas Moniz 1649-028 Lisboa Tel.: 217 940 424 ou 217 985 135 Fax.: 217 940 424 Email: cembe@fm.ul.pt Web: www.cembe.org 3 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML ÍNDICE 1 Introdução 3 1.1 Definição de prescrição racional 3 1.2 Prescrição racional. Porquê? 4 1.3 Âmbito da prescrição racional 5 2 Causalidade em medicina e a importância da prova científica 8 2.1 Introdução 8 2.2 Conceito de factor de causalidade 10 2.3 Determinação de causalidade 11 2.4 Tipo de estudos de prova de causalidade 11 3 Pesquisa e avaliação crítica da literatura biomédica 14 3.1 Métodos de pesquisa da evidência sobre terapêutica 14 3.2 A investigação sobre resultados em saúde (Health Outcomes Research) 21 3.3 As Normas de Orientação Clínica 22 3.4 Métodos de avaliação crítica da evidência terapêutica 25 3.4.1 Avaliação crítica de um ensaio clínico aleatorizado 25 3.4.2 Avaliação crítica de uma revisão sistemática 31 4 Balanço risco/benefício da terapêutica 35 5 Construção de um formulário para uso pessoal 37 5.1 Construção do Formulário Pessoal (FP) 37 5.1.1 Introdução. O que é um FP? 37 5.1.2 Como escolher o FP? 38 6 Decisão sobre a aplicabilidade da terapêutica ao doente individual 46 6.1 Introdução 46 6.2 Aplicação ao doente individual dos resultados dos ensaios clínicos: regras práticas essenciais 54 7 Considerações sobre adesão terapêutica e preferências individuais 59 8 Conclusões e recomendações baseadas na evidência 62 9 Bibliografia 63 4 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML 5 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML 1 Introdução 1.1 Definição de prescrição racional A prescrição (ou acto de prescrever) pode ser definida como uma ordem escrita que inclui instruções detalhadas sobre o fármaco a ser administrado a uma determinada pessoa e respectiva formulação, dose e via, bem como a hora, frequência e duração de administração. Esta atitude inicia um processo experimental no qual o prescritor discute o tratamento com o doente e investiga e monitoriza os efeitos do fármaco, com o objectivo de alcan- çar a dosagem que maximize os efeitos benéficos e minimize o risco de efeitos adversos1. Na literatura internacional é feita referência a diversos adjectivos para caracterizar a melhor forma de prescrição: segura, adequada, racional, equilibrada. As expressões uti- lizadas mais frequentemente são as de prescrição racional (rational prescribing) e prescri- ção adequada (good prescribing). Quando se discute o adjectivo "adequado" em cuidados de saúde admite-se que caracte- rize o resultado de um processo de decisão que maximiza os ganhos individuais de saúde face aos recursos disponíveis. Deste modo, distingue-se prescrição racional como sendo o processo e a prescrição adequada como sendo o resultado2. Em consequência, entendemos por prescrição racional o acto de ponderação que se centra em quatro componentes principais: 1. maximizar a efectividade 2. minimizar os riscos 3. minimizar os custos, e 4. respeitar a escolha do doente. Todo este processo culmina na determinação de cinco parâmetros: dose adequada, se- lecção do fármaco correcto, para um diagnóstico preciso de um doente, com o tempo e via de administração apropriados3. Para a concretização de uma prescrição racional é necessário o conhecimento detalha- do da fisiopatologia da doença em causa, bem como a farmacodinâmica e farmacociné- 6 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML tica do fármaco escolhido. Este não é um processo estático, já que diferentes razões em diferentes situações necessitarão de respostas diferentes. No quadro 1.1.1 estão descri- tos os componentes da prescrição racional. Quadro 1.1.1 Componentes da prescrição racional Evidência Científica Fiabilidade (o gold standard é o ensaio clínico controlado e aleatorizado, e/ou revisões sistematizadas de ensaios clínicos), disponibilidade, avaliação crítica, número de doentes que é necessário tratar/lesar (number needed to treat/harm) Alternativas e Classe igual ou distinta, modalidades terapêuticas diferentes respectiva eficácia Contra-indicações Hipersensibilidade, grupos etários (crianças, idosos), grávidas, aleitamento materno, insuficiência renal ou hepática Interacções Mecanismos de acção ou efeitos adversos semelhantes, indutores medicamentosas e ou inibidores enzimáticos, janela terapêutica estreita, farmaco- características cinética/farmacodinâmica, via de administração, peso e superfície farmacológicas, dose corporal do doente, semi-vida plasmática do fármaco, erros de e duração óptimas cálculo (corrigir unidades) Formulação ou via Alvo terapêutico, rapidez de início de acção, biodisponibilidade, de administração frequência da administração, aceitação pelo doente Polimedicação, frequência da administração, efeitos adversos Adesão potenciais, capacidade do doente, crenças do doente, aconse- lhamento adequado Efeitos adversos Interpretação e comunicação do risco aos doentes Monitorização Objectiva ou subjectiva, eficácia (sintomas, marcadores de doença, níveis sanguíneos), toxicidade Disponibilidade Custo (medicamento genérico vs de marca), formulários, normas de orientação clínica Adaptado de 3 1.2 Prescrição racional. Porquê? Os fármacos são a espinha dorsal da maior parte das intervenções terapêuticas, seja para patologias agudas ou crónicas. De facto, na maior parte das patologias crónicas - 7 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML como a hipertensão arterial, por exemplo - o tratamento é necessário por longos perío- dos de tempo ou mesmo para sempre. O recurso a tratamentos farmacológicos traduz-se em custos avassaladores para os servi- ços de saúde. Nos seis primeiros meses de 2008 (Janeiro a Junho) foram gastos, em encargos com medicamentos no âmbito do SNS, 974.903.202 euros 1. À medida que os doentes envelhecem multiplicam-se os problemas de saúde e conse- quentemente as abordagens terapêuticas farmacológicas. Num estudo realizado em 2001 nos E.U.A., verificou-se que os indivíduos com idade inferior a 65 anos adquiriram em média 10,8 fármacos de prescrição médica obrigatória por ano enquanto os com idade igual ou superior a 65 anos adquiriram 26,5 fármacos4. Num recente artigo5, em que se discutiam as dificuldades de aplicação das Normas de Orientação Clínica (NOCs) à prática diária, foi apresentado o caso de uma doente-tipo (imaginária, mas muito seme- lhante às doentes reais...) com 79 anos, padecendo de osteoporose, osteoartrose, diabe- tes mellitus tipo 2, hipertensão arterial e doença pulmonar obstrutiva crónica (todas de gravidade média). Se as NOCs relevantes fossem aplicadas a esta doente, a paciente teria de tomar 12 medicamentos diários (para além de um complexo regime não farma- cológico), com diversos problemas de iatrogenia e de interacção medicamentosas e com um custo de US $ 406.00 (€ 302) por mês. Esta realidade obriga a que os sistemas de saúde e os seus actores envolvidos com a prescrição medicamentosa adoptem regras racionais, numa perspectiva não só de sus- tentabilidade do sistema como de normas éticas a respeitar. Por exemplo: os agentes individuais das classes farmacológicas anti-hipertensivas apresentam globalmente uma eficácia relativa (medida pela baixa da TA sistólica e diastólica) e um perfil de segurança (calculado pelo tipo e frequência de efeitos secundários) muito sobreponível entre eles; quando um medicamento anti-hipertensivo de uma nova classe terapêutica atinge o 1º lugar de vendas no SNS após um ano de lançamento no mercado (por ex.), esta prescri- ção não deve ser classificada necessariamente como errada (o fármaco consegue contro- lar omesmo número - de resto insuficiente... - de doentes); o que esta prescrição não pode é ser classificada como racional, já que existem no mercado medicamentos anti- hipertensivos com o mesmo perfil de benefício e risco que são muito mais baratos. É esta racionalidade que se procura definir neste manual. http://www.infarmed.pt/portal/page/portal/INFARMED/MONITORIZACAO_DO_MERCADO/OBSERVATORIO/ ANALISE_MENSAL_MERCADO/MEDICAMENTOS_SNS_MESES_ANTERIORES/2008/Rel-SNS-200808_Correct_Net.pdf 8 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML 1.3 Âmbito da prescrição racional O diagnóstico é imprescindível para a definição do objectivo terapêutico - factor deter- minante para a prescrição. O objectivo terapêutico pode ser o alívio de sintomas, o colmatar de deficiências, a prevenção ou a cura da doença. Ocasionalmente, a razão para o tratamento prende-se com outros factores, como ganhar tempo enquanto se aguarda por outra intervenção ou a realização de ensaios clínicos3. Por outro lado, em determinadas situações clínicas a prescrição racional poderá implicar pura e simples- mente a ausência de prescrição. Assiste-se actualmente na literatura internacional à discussão acerca da definição de doença, um dos mais importantes alvos terapêuticos da prescrição. Nomeadamente, importa definir-se doença, "não-doença" e opinar acerca da validade da medicalização crescente de sintomas e factores de risco. Procurando num dicionário médico a definição de doença esta surge-nos como ..."qual- quer alteração do estado de saúde, mais precisamente, conjunto de sinais e sintomas anormais e relacionados com perturbações funcionais ou lesões, em geral devidos a causas internas ou exter- nas bem conhecidas na sua maioria"6. O modelo biomédico, por outro lado, interpreta a doença como um distúrbio físico que poderá ser corrigido por um fármaco (ou qual- quer outra intervenção). Sabe-se, porém, que a complexidade do que envolve doença ultrapassa claramente a sua definição. Por isso, cada dia se torna maior a necessidade de "pensar" o que é uma doença. A Medicina tem sido tradicionalmente considerada como uma profissão de cura e a Medicina moderna legitimou este processo através do conhecimento científico. O "ca- samento" entre Medicina e Ciência permitiu aos médicos uma intervenção activa na história natural da doença, através da terapêutica, da prevenção e da erradicação de eventos desfavoráveis. No auge deste sucesso, o médico treinado numa raiz biomédi- ca foca a sua acção principalmente em quatro componentes: diagnóstico, tratamento, prognostico e prevenção. Grandes mudanças têm ocorrido nos padrões de morbilidade e mortalidade com os quais a Medicina se confronta. Muita da necessidade actual de cuidados médicos espe- cializados surge do crescente número de doenças crónicas e degenerativas, neoplasias, doenças psiquiátricas e doenças incapacitantes resultantes de condições ambientais. Perante esta realidade, a prevenção pode ser tão importante como o tratamento e os 9 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML cuidados globais tão importantes como a cura. Nesta linha de raciocínio, muitos auto- res têm sublinhado a necessidade de healing rather than curing, ou seja, numa adaptação possível para o português cuidar ou recuperar mais do que curar7. Eric Cassell avança que se pode cuidar/recuperar uma pessoa, sendo completo no processo, sem que se faça muita diferença na doença orgânica. Deste modo, a doença assume actualmente uma perspectiva mais abrangente: a ques- tão não é tratar ou não tratar, mas sim determinar qual o tratamento mais apropria- do em função das perspectivas biológicas e das circunstâncias pessoais e sociais do doente. Em suma, independentemente da definição operacional da doença ou do âmbito em que se pretenda utilizar um fármaco, por ex., é imprescindível que cada prescritor deter- mine o objectivo da prescrição antes da concretização da mesma. O objectivo determi- nará não só o fármaco escolhido mas também o modo como será realizada a monitori- zação da terapêutica. 2 Causalidade em medicina e a importância da prova científica2 2.1 Introdução A maior parte dos estudos de investigação biomédica tentam provar uma relação entre uma causa específica (que pode ser um factor de risco ou um tratamento curativo) e um efeito determinado (que é um resultado - outcome - que se deseja medir)8, 9. A determinação da causalidade em medicina é essencial, seja qual for o contexto da prática clínica. Por exemplo, quando um médico se decide por um esquema tera- pêutico determinado, assume que aquele causará uma melhoria no estado clínico do doente. Do mesmo modo, quando o clínico identifica um qualquer factor de risco e se propõe modulá-lo ou eliminá-lo, é porque está persuadido que este está relacionado com o aparecimento da doença, ou que a poderá causar directamente. A questão central é, uma vez mais, definir se a associação observada entre um factor causal (intervenção ou exposição) e um determinado resultado/efeito (outcome) cons- titui uma relação causa-efeito: no caso afirmativo, poder-se-á agir em conformidade10. 2 Este capítulo é baseado num artigo recentemente publicado (Carneiro AV. Causalidade em medicina. Revista Portuguesa de Cardiologia 2005;24:443-449), devidamente actualizado 10 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML A determinação de causalidade em medicina pode apoiar-se nas duas abordagens para definição de uma referência causal: • os postulados de A. Bradford Hill11 e • a chamada causa contributiva9, 12. Os postulados de B. Hill definem um grupo de princípios de causalidade, que se encon- tram descritos na quadro 2.1.18. Quadro 2.1.1 - Evidência de causalidade entre factor e efeito - critérios de Bradford Hill Critério Comentários Temporalidade a causa precede sempre o efeito Força uma associação causa-efeito consistente (por ex. o tabagismo aumenta 30 vezes a probabilidade de cancro do pulmão) Dose-resposta quanto maior for a dimensão do factor causal, maior será o efeito produzido (nº de cigarros fumados e incidência de doença coronária) Reversibilidade a remoção do factor causal diminui o risco da doença (após 36 meses, a cessação tabágica reduz o risco de enfarte até ao nível dos não fumadores) Consistência resultados análogos em estudos diferentes (de preferência com diferentes desenhos, com diferentes amostras e em alturas temporais diferentes) Plausibilidade consistente com o conhecimento biomédico mais actual e com biológica uma base conceptual lógica e coerente Especificidade uma causa, um efeito; por ex. a hipercolesterolémia familiar é provocada por um erro inato do metabolismo Analogia causas idênticas para doenças semelhantes; por ex. hipercoles- terolémia na doença coronária e no acidente vascular cerebral 11 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML Uma segunda abordagem conceptual na definição das relações causa-efeito é a chama- da causa contributiva9, 12. Esta é particularmente útil em doenças complexas ou multi- factoriais e, embora sendo menos rigorosa do que os postulados de Bradford Hill, reco- nhece a dificuldade de por vezes se identificar um efeito causal realmente responsável pela doença. Este sistema define 4 tipos de relações causa-efeito: 1. Necessária se o resultado (doença) ocorre apenas se se tiver verificado a operação do factor causal; 2. Suficiente, se a acção do factor resultar sempre na doença; 3. Necessária e suficiente, se o factor causal e a doença tiverem uma relação fixa, isto é, se nenhum ocorrer sem o outro; 4. Nenhuma, se a acção do factor causal aumentar a frequência da doença, mas este nem sempre se verificar, ou se verificar na ausência do factor causal. A maior parte das situações em medicina não caem debaixo da definição de causalida- de necessária ou suficiente isoladas. De facto, a maioria dos fenómenos biológicos ca- racteriza-se pela última definição (nenhuma): a hipertensão arterial (HTA) é um factorde risco conhecido para o acidente vascular cerebral (AVC), mas a maior parte dos doentes com HTA não vão ter um AVC e a maior parte dos doentes com AVC são normotensos13. Outro exemplo: o facto de o nosso avô estar vivo e de boa saúde aos 85 anos, tendo fumado dois maços de tabaco durante 70 anos, não permite afirmar que o tabagismo é inócuo para a saúde: apenas nos diz que fumar não é uma causa suficiente de morte ou doença antes dos 85 anos. Assumir, baseado neste exemplo, que não existe nenhuma relação entre o fumo e certas doenças seria análogo a afirmar que as guerras não matam pessoas porque existem veteranos de guerra vivos... Todas as considerações anteriores podem aplicar-se aos ensaios clínicos, em que o fac- tor causal é a intervenção (medicamentosa, cirúrgica, psicológica, etc.) e o efeito é o resultado (outcome) medido (mortalidade, morbilidade, etc.). 2.2 Conceito de factor de causalidade Podemos então começar por definir o que se considera uma causa: um factor é conside- rado causal se a sua operação aumentar a frequência de um resultado/efeito. É impor- tante aqui lembrar que um factor preventivo é também causal, mas opera de maneira inversa, diminuindo a frequência de um resultado/efeito10. 12 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML O conceito médico de causalidade é complexo, porque habitualmente uma doença é causada não por um, mas por vários factores operando em conjunto: o tabaco provoca cancro do pulmão e da bexiga, doença pulmonar crónica obstrutiva, úlcera péptica e doença coronária (DC), mas esta tem várias causas para além do tabaco (hipercolestero- lémia, diabetes, hipertensão, carga genética). Definir e identificar um factor causal de doença pode ser deste modo bastante difícil, sendo possível obter um impacto impor- tante na saúde do doente intervindo apenas num ou dois (pedir ao doente para deixar de fumar, por ex.). Quando dois ou mais factores causais actuam em conjunto, o risco resultante pode ser superior à simples soma dos efeitos individuais - dizendo-se, neste caso, que existe uma sinergia. Um exemplo típico deste conceito é o sistema de estratificação de risco de Framingham, referente à doença coronária e ao AVC, cujos factores preditivos incluem a idade, a pressão arterial sistólica, o colesterol total e o HDL, o género, a presença de diabetes ou de tabagismo e a hipertrofia ventricular esquerda no ECG14. Estes factores individuais, só por si, têm um efeito menor que a sua simples soma permitiria supor. 2.3 Determinação de causalidade A determinação de causalidade em medicina é muito difícil. De facto, ela é mesmo impossível: o melhor que se pode conseguir é aumentar a nossa convicção num fenó- meno de causa-efeito quando existem dados empíricos de experimentação de alta qua- lidade que o suportem. Deste modo, uma vez convencidos da qualidade da evidência de base, passamos a acreditar na causalidade do factor estudado. Claro que também poderemos assumir o processo contrário, isto é, tentar obter evidência de que um factor não é causa de um efeito determinado - o raciocínio é semelhante. Um dos primeiros problemas no estabelecimento de uma relação causa-efeito é diferen- ciar entre associação e causalidade. É óbvio que o factor e o efeito devem estar associados se houver entre eles uma relação causal, mas nem todas as associações são causais: existe uma associação entre o porte de isqueiro e a doença coronária, por ex., mas esta não é provocada por aquele; a associação existe porque os fumadores necessitam de isqueiros, sendo o tabagismo - esse sim - uma causa de DC. Se este exemplo é fácil de compreender, muito mais difícil se revela o estabeleci- mento de causalidade inequívoca em muitas outras situações em medicina15. Em 13 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML primeiro lugar, é fundamental determinar se uma associação entre um determina- do factor e um efeito é de facto real, ou se provém de um qualquer viés (dos quais o mais frequentes são o de selecção3 e o de medição) ou ainda de uma variação alea- tória (provocada pelo acaso). Em segundo lugar, dever-se-á assegurar a exclusão de um qualquer factor de confundimento que possa estar presente (e que, estando associado, não é causal - o exemplo do isqueiro na DC). Só então se assume a causalidade. 2.4 Tipo de estudos de prova de causalidade A definição acima indicada de factor causal (um factor é considerado causal se a sua operação aumentar a frequência de um resultado/efeito) permite seleccionar o tipo de estudos que provam causalidade. Com efeito, a definição implica que: 1) os doentes afec- tados pelo agente causal apresentarão uma frequência aumentada do resultado (outcome); e 2) os indivíduos que apresentam o resultado deverão ter uma frequência mais elevada de exposição passada ao agente causal10. Assim sendo, os estudos comparativos podem ser de dois tipos: os que testam a implica- ção nº 1 comparando um grupo de doentes expostos ao factor putativo com outro grupo de doentes não-expostos (estudo de coorte); e os que testam a implicação nº 2, comparando um grupo de doentes que já experimentaram o resultado com um outro grupo em que os doentes não experimentaram um resultado, identificando retrospecti- vamente o factor causal (estudo caso-controlo). É claro que o que se procura aqui é o estabelecimento da relação quantitativa de causalidade, em que o factor não é nem necessário nem suficiente para o aparecimento do efeito - com os resultados expressa- dos em riscos, rácios, etc. Os estudos de coorte podem ser descritivos (quando se limitam a descrever a incidência de certos resultados durante um intervalo de tempo) e analíticos (quando analisam as associações entre factores preditivos e resultados); prospectivos, quando se iniciam com a exposição ao factor e estabelecem um seguimento futuro durante um determinado período de tempo ou retrospectivos, quando utilizam informação do passado para iden- tificar a exposição ao factor e providenciar a informação de seguimento desde essa altura. 3 viés de selecção (selection bias): é um erro sistemático devido à existência de diferenças nas características dos sujeitos seleccionados para um estudo, versus os não seleccionados; por exemplo, voluntários seleccionados por se encontrarem num determinado lugar a determinada hora (serviço de urgência à noite), esquecendo os outros potenciais candidatos (consulta de dia) 14 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML Nos estudos de coorte de intervenção (experimentais) - dos quais o ensaio aleatorizado prospectivo e controlado (randomized controlled trial - RCT) constitui o paradigma - os investigadores controlam de modo aleatório (estudo aleatorizado) a exposição dos sujei- tos ao factor causal putativo (estudo controlado), definindo a possível relação causal entre os dois. Nos estudos observacionais de coorte os investigadores não influenciam as variáveis em presença, limitando-se a analisar os resultados obtidos. Cada tipo de estudos tem as suas vantagens e desvantagens - quadro 2.4.1 - pelo que será baseada nestas que os investigadores decidirão que desenho de estudo adoptar para cada questão individual. Quadro 2.4.1 - Vantagens e desvantagens de diferentes tipos de estudos Tipo de estudo Atributos Comentários De coorte, Vantagens definição da incidência da doença prospectivo investigação da etiologia da doença definição de factores de risco de doença estudo de antecedentes de doenças fatais Desvantagens formato dispendioso e ineficiente para estudo de resultados (outcomes) raros De coorte, Vantagens mesmos do que os estudos prospectivos retrospectivo menos dispendiosos e mais rápidos que os estudos prospectivos Desvantagens difícil selecção da amostra de doentes impossibilidade de definir a natureza e qualidade dos factores preditivos de doença Caso-controlo Vantagens eficiente para resultados (outcomes) raros úteis na geração de hipóteses Desvantagens informação limitada (não é possível saber da incidênciaou prevalência da doença) apenas se pode estudar um resultado (outcome) aumento da probabilidade de viéses (de selecção e de medição, por ex.) 15 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML 3 Pesquisa e avaliação crítica da literatura biomédica A prática clínica da Medicina é caracterizada pela permanente necessidade de resolução dos confrontos com problemas de conhecimento e de informação médica. Nos dias que correm, a velocidade à qual se produz conhecimento é vertiginosa, tornando a actualização do conhecimento uma tarefa hercúlea. No entanto, a selecção da infor- mação científica válida, importante e aplicável à situação (e ao doente) individual é imprescindível se quisermos garantir a qualidade da prática clínica. No início dos anos 90 do século passado, a Medicina Baseada na Evidência surgiu como resposta à necessidade de utilizar de forma consciente, explícita e criteriosa, a evidência (prova científica) disponibilizada pela literatura biomédica na tomada de de- cisões acerca do tratamento individual dos doentes16. A prática da medicina baseada na evidência requer quatro passos metodológicos16, 17: 1. formular questões clínicas a partir do problema do doente; 2. pesquisar a literatura para selecção de artigos/estudo relevantes, identificando a melhor evidência científica existente; 3. avaliar criticamente a evidência - validade, importância e utilidade práticas; e 4. implementar a evidência em doentes específicos. De seguida, debruçar-nos-emos sobre os aspectos relacionados com os métodos de pes- quisa e avaliação crítica da avaliação terapêutica. 3.1 Métodos de pesquisa da evidência sobre terapêutica A pesquisa da evidência científica permitirá a avaliação crítica e posteriormente a selec- ção da informação que melhor responde à questão clínica inicialmente colocada. As questões clínicas são habitualmente classificadas como avançadas, ou de perito (foreground question: por exemplo, qual é a opção mais correcta de prevenir um AVC, anticoagulação ou antiagregação?) ou de base, ou de noviço (background question: quais são as complicações mais frequente da pancreatite aguda?). As questões de perito obedecem, na sua resposta, ao formato PICO (Paciente, Interven- ção, Comparação e resultadO). Como é natural, a classificação "de perito" ou "de novi- 16 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML ço" é apenas aproximativa, já que apenas procura demonstrar a diversa complexidade das questões que se deparam ao clínico (é óbvio que um perito tem também questões de noviço e vice-versa). As fontes potenciais de informação incluem a experiência pessoal ou de peritos, livros de texto, artigos originais publicados em periódicos, revisões sistemáticas da literatura e normas de orientação clínica baseadas nas anteriores. As três últimas serão as que mais servem para classificar uma actuação de "baseada na evidência científica" e são as que formam a base de decisão em clínica, por outras palavras, as mais importantes. Se aceitamos esta classificação, então o passo seguinte será responder à questão "Quais são os critérios de selecção de fontes de informação para apoio à prática clínica?". Estes devem ter em conta quatro factores18: 1) a sua base científica (qual a validade dos estudos? a evidência está hierarquizada em termos da sua força? pode aceder-se às fontes primárias?); 2) a sua abrangência e especificidade (a área de inte- resse está efectivamente coberta e responde às questões importantes sobre diagnós- tico, tratamento, prognóstico?); 3) facilidade de utilização (resumos bem estrutura- dos? motor de busca eficaz?) e 4) disponibilidade (encontra-se facilmente? é dispen- dioso?). Mas é necessário mais um passo: a categorização das fontes de informação. O texto que se segue, nesta secção, deve muito ao trabalho de Brian Haynes e do grupo da McMas- ter University e os interessados podem referir-se aos textos clássicos publicados por estes investigadores18-20. O modelo que adoptamos é designado como "5S" devido às iniciais inglesas dos seus constituintes - systems, summaries, synopses, synthesis e studies - e está graficamente represen- tado na figura 3.1.1. 17 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML Figura 3.1.1 - O sistema 5S para organização da evidência de apoio à prática As categorias informacionais definem-se através da maneira como a evidência científica de base é processada, assim como a facilidade da sua utilização: 1. ESTUDOS (Studies) - são os estudos primários de base (ensaios clínicos, estudos diagnósticos e prognósticos, etc.), que se encontram nas bases de dados mais conhe- cidas (Medline, EMBASE, etc.), sem qualquer processamento específico; os utiliza- dores têm de analisar cada artigo per si, pelo que são algo difíceis de utilizar devido às aptidões necessárias para seleccionar (ie. construção de filtros de pesquisa) e avaliar (grelhas de avaliação crítica) os estudos. Existem literalmente milhões. 2. SÍNTESES (Synthesis) - são os estudos secundários (dos quais os paradigmas são as revisões sistemáticas da literatura) que sintetizam a evidência cuidadosamente avali- ada segundo critérios explícitos previamente definidos; são relativamente simples de utilizar e existem milhares publicadas. Exemplos: Cochrane Database of Syste- matic Reviews, DARE. 3. SINOPSES (Synopsis) - são descrições sucintas de um estudo ou de uma revisão individual incorporando guias ou aconselhamento de aplicação por peritos clíni- cos; a evidência é avaliada externamente, com descrição das suas forças e fraquezas no contexto da sua aplicação; são de fácil utilização e o seu número anda pelos milhares. Exemplos: Evidence Based Medicine, ACP Journal Club, Essential Evi- dence Plus. 18 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML 4. SUMÁRIOS (Summaries) - são livros de texto totalmente baseados na evidência, com actualizações periódicas de curta duração e que procuram integrar a informa- ção dos níveis inferiores, de modo a fornecer uma abordagem prática; apresentam integração avançada da evidência e constituem uma fonte de apoio à decisão muito útil; existe um número reduzido destes instrumentos. Exemplos: UpToDate, Dyna- Med, EBM Guidelines, Clinical Evidence. 5. SISTEMAS (Systems) - estes são os instrumentos mais avançados que existem, inte- grando dados do doente individual com os da investigação clínica relevante ao caso individual, através de sistemas informáticos; o seu número é escasso. Exemplos: software de apoio à decisão de internar o doente com dor retroesternal no serviço de urgência ou de estratificação de risco do doente coronário (QRISK, Framin- gham scores, Euroscore). Para além da imposição imediata de procurar responder às questões clínicas no contex- to assistencial directo, existe naturalmente a necessidade da actualização permanente do clínico prático. A abordagem habitual implica o scanning das revistas que este con- sidera mais relevantes, com leitura de todos os resumos e retenção dos que ele conside- ra mais importantes. Esta técnica tem vários problemas, a maior das quais será o facto de o clínico ter de ter acesso às revistas - fácil se estiver num hospital universitário, difícil se não for esse o caso. Para além disso, o tempo necessário para investir nesta actualização é enorme e a selecção das revistas algo aleatória. Estes problemas são solucionados por um conjunto de serviços de alerta que, gratuita- mente, enviam por correio electrónico diversos resumos de artigos que todos os dias vão sendo publicados e que são considerados os mais importantes por um conjunto de peritos internacionais (um dos autores deste manual - AVC - recebe periodicamente da parte do BmjUpdates + um artigo para classificar em relação à sua relevância e novida- de, que classifica de acordo com uma grelha previamente definida; esta classificação é tida em conta na divulgação dos estudos disponibilizados). No quadro 3.1.1 estão exem- plificados os serviços de alerta mais utilizados. 19 Manual de PrescriçãoFarmacológica Racional - CEMBE da FML Quadro 3.1.1 - Serviços de actualização e alerta Serviço Morada electrónica Descrição BmjUpdates+ www.bmjupdates.mcmaster.ca/index.asp Alerta para estudos e revisões sistemáticas avaliadas pela sua relevância. Tem tabela de conteúdos enviada periodicamente Essential www.essentialevidenceplus.com/index.cfm Alertas para estudos rele- Evidence Plus vantes que vão saindo dia- riamente Journal Watch www.jwatch.org/issues_by_date.shtml Produzido pelo NEJM, tem resumos e comentários. Não é baseado na evidência. DynaMed http://www.ebscohost.com/dynamed/ Comentários detalhados sobre os artigos mais importantes As bases de dados electrónicas biomédicas são fontes de informação com "motores de busca" que permitem a consulta rápida de dados com qualidade e aplicabilidade imedi- atas. Estas bases de dados podem ser classificadas em dois grupos. O primeiro grupo é constituído pelas fontes bibliográficas tradicionais, em que os artigos originais estão indexados para fácil acesso e selecção. O segundo grupo inclui artigos seleccionados de investigação primária ou secundária. Os representantes de cada um dos grupos podem ser encontrados no Quadro 3.1.2 (a lista não é exaustiva). Finalmente, colocar-se-á regularmente a questão de saber, perante um conjunto de estu- dos ou outras fontes de informação sobre o mesmo problema clínico, qual deverá ser a hierarquia da evidência científica sobre intervenções terapêuticas ou preventivas a esco- lher num caso específico. Como ilustrado no Quadro 3.1.3, e por ordem decrescente, a decisão deve apoiar-se nos resultados de revisões sistematizadas e meta-análises, seguida de ensaios clínicos aleatorizados (caso não existam as anteriores), ou estudos prospectivos, ou estudos retrospectivos, ou em casos clínicos ou, finalmente, em opinião de peritos. 20 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML Quadro 3.1.2 - Exemplos de bases de dados/programas electrónicos Tipo Representantes Acesso Endereço electrónico Medline (base de dados principal da Livre http://www.ncbi.nlm.nih.gov/PubMed/ National Library of Medicine) EMBASE (base de dados biomédica Pago http://www.embase.com/ e farmacêutica) Convencional IndexRMP Livre (indexação de (Base de dados de literatura (com http://www.indexrmp.com/ artigos originais) e teses médicas nacionais) registo) SumSearch (motor de busca em várias bases Livre http://sumsearch.uthscsa.edu/ de dados simultaneamente) TRIP (motor de busca em várias Livre http://www.tripdatabase.com bases de dados simultaneamente) Cochrane Library (inclui uma biblioteca de revisões sistematizadas; edição online Pago http://www.thecochranelibrary.org e em papel) Evidence-Based Medicine (revista de investigação secundária; Pago http://ebm.bmj.com/ edição online e em papel) Bandolier Programas (selecção de revisões sistematizadas Livre seleccionados e meta-análises; edição online - (online) http://www.jr2.ox.ac.uk/Bandolier/ 6 meses após a publicação em papel) UpToDate (sistema de informação médica disponibilizado online, Pago http://www.uptodate.com/ computador ou PDA) DynaMed (sistema de informação médica disponibilizado online, Pago http://www.ebscohost.com/dynamed/ computador ou PDA) 21 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML Quadro 3.1.3 - Hierarquização da evidência científica terapêutica/preventiva17 Tipo de estudo Definição Revisão bibliográfica e científica sobre um determinado tema, em que os viéses se encontram reduzidos ao máxi- mo. A característica fundamental de uma revisão sistema- tizada é a explicitação clara e não ambígua dos critérios utilizados para a selecção, avaliação crítica e inclusão da evidência científica naquela. Deste modo, uma revisão sis- tematizada apresenta objectivos formais e precisos e os cri- térios de inclusão (e exclusão) dos estudos são explicitados detalhadamente. Técnica estatística que permite a combinação de resulta- dos de diferentes estudos (habitualmente RCTs) duma re- visão sistematizada. A racionalidade desta abordagem jus- tifica-se pelo facto da maior parte dos ensaios não possuír poder suficiente per si para responder eficazmente à ques- tão colocada. As meta-análises possuem dois tipos de com- ponentes estruturais: 1) qualitativos, com aplicação de crité- rios metodológicos de qualidade pré-definidos (ausência de viéses, grau de disponibilidade dos dados, por ex.) e 2) quan- titativos, que é a integração da informação numérica. As meta- análises têm normalmente uma representação gráfica típica. Uma meta-análise pode ser considerada uma revisão sistema- tizada com informação estatística formal. Experiência epidemiológica na qual os sujeitos em estudo (amostra), seleccionados através de métodos explícitos de um grupo mais vasto (a população), são aleatoriamente distribuí- dos (pelo menos) entre dois grupos: o experimental, sobre o qual vai incidir o tratamento (ou medida preventiva, ou in- tervenção) e o controlo. Os resultados são avaliados rigoro- samente, comparando entre os dois grupos taxas de doença, de recuperação, de mortalidade, de morbilidade ou qual- quer outro resultado (outcome) que se revele de interesse. Revisões sistematizadas (systematic reviews) Meta-análises (meta-analyses) Ensaios clínicos aleatorizados e controlados (randomized controlled trials - RCTs) 22 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML RCTs cujos resultados não atingiram a significância esta- tística. Tipo de estudo em que os sujeitos são recrutados e segui- dos para a frente no tempo, durante um determinado perí- odo. É um desenho particularmente utilizado para defini- ção de risco e prognóstico. Neste caso, a comparação, no final do período de followup, da incidência da doença em determinados subgrupos permite o estabelecimento da for- ça da relação entre o factor de risco e a respectiva doença. Estudo com um desenho que permite testar a etiologia de uma doença. O conceito em que assenta este tipo de estu- do aceita que o esclarecimento da relação entre uma expo- sição a factores que se acreditam poder estar na origem de uma determinada doença (factores putativos/causais) e essa doença, possa ser conseguido através de dados relaciona- dos com as características individuais dos sujeitos de estu- do, assim como a identificação de eventos/acontecimen- tos por estes experimentados no passado. O ponto essenci- al é o de que alguns sujeitos sob estudo apresentam a do- ença (ou outro resultado de interesse) e outros não, permi- tindo a comparação dos dois grupos em termos de even- tos/acontecimentos passados. Descrição do caso de um doente individual e do tratamen- to escolhido e respectiva monitorização. A opinião de um profissional com conhecimento ou habi- lidade extensa numa determinada área pode ser particu- larmente importante no caso de doenças raras ou quando não estão disponíveis outros tipos de evidência. Ensaios clínicos aleatorizados e controlados sem resultados significativos/definitivos Estudos prospectivos (estudos de coorte) (cohort studies) Estudos retrospectivos (case-control studies) Casos clínicos Opinião de peritos Tipo de estudo Definição 23 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML Os estudos secundários (revisões sistematizadas e meta-análises) e os ensaios clínicos aleatorizados fornecem, portanto, informação de maior qualidade e validade e devem por isso ser pesquisados em primeiro lugar. Caso não estejam disponíveis, utilizam-se as fontes imediatamente a seguir na hierarquia da evidência clínica. 3.2 A investigação sobre resultados em saúde (Health Outcomes Research) A utilização criteriosa dos recursos de saúde implica o conhecimento do impacto das intervenções dos sistemas de saúde nas populações. Por outras palavras, as intervenções classificadas como positivas em termos de benefício/riscocom base em resultados de ensaios clínicos (metodologia experimental) necessitam de ser analisadas após generali- zação no quotidiano prático. A investigação sobre resultados em saúde (health outcomes research - HOR) procura com- preender e caracterizar os resultados finais de uma intervenção específica21. Estes resul- tados incluem efeitos que os doentes apresentam e que são para eles clinicamente rele- vantes (capacidade de função, qualidade de vida, morbilidades, etc.). A investigação sobre resultados em saúde estuda o efeito dos cuidados de saúde prestados na saúde e bem-estar do doente individual e da população http://www.ahrq.gov/clinic/ outfact.htm. Este tipo de abordagem define o sucesso através dos efeitos de um trata- mento em diferentes áreas da vida do doente. Os resultados são medidos em termos do estado funcional, bem-estar e satisfação do doente, os quais completam os resultados fisiológicos tradicionais (resultados de testes laboratoriais, taxas de complicações ou mortalidade). Deste modo, a avaliação tem em conta outros aspectos para além do sucesso ou insucesso clínicos de uma intervenção. Esta abordagem é particularmente útil nas doenças crónicas ou incuráveis e, ao conec- tar os cuidados que os doentes recebem com os resultados obtidos, a HOR permite desenvolver melhores maneiras de monitorizar e melhorar os cuidados de saúde. O quadro 3.2.1 demonstra alguns exemplos de resultados em saúde (health outcomes). 24 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML Quadro 3.2.1 - Alguns resultados em saúde Resultado (outcome) Exemplo Mortalidade Taxa de mortalidade infantil Medidas fisiológicas Pressão arterial Eventos clínicos Acidente vascular cerebral Sintomas Dispneia Medidas funcionais SF-36, ADL Experiências dos doentes Escalas de avaliação Fonte: http://www.ahrq.gov/clinic/outfact.htm 21 A investigação sobre resultados em saúde avalia todos os aspectos do fornecimento de cuidados de saúde, desde o encontro com o prestador de cuidados médicos até ques- tões relacionadas com a organização, financiamento e regulação dos sistemas de saúde. Ao avaliar os resultados de uma intervenção no contexto real da prática clínica, obtêm- se dados de efectividade, em contraposição aos dados obtidos nos ensaios clínicos alea- torizados e controlados que permitem a obtenção de dados de eficácia. 3.3 As Normas de Orientação Clínica As normas de orientação clínica (NOCs) (guidelines na designação inglesa) podem ser definidas como ..."um conjunto de recomendações desenvolvidas de forma sistematizada que se destinam a apoiar o médico e o doente na tomada de decisões acerca dos cuidados de saúde em situações clínicas específicas"22. As NOCs são um instrumento importante para - entre outras tarefas - permitir a disse- minação dos resultados da investigação sobre resultados em saúde. A importância das NOC como método de apoio à decisão clínica tem crescido ao longo das últimas déca- das e presentemente as NOCs constituem um instrumento de qualidade de prestação de serviços pelos profissionais de saúde, contribuindo, igualmente, para a melhoria dos sistemas de saúde. Como princípios gerais orientadores, com eficácia reconhecida, e que devem ser perfei- tamente reconhecidos por todos contam-se "10 mandamentos": 1. O principal objectivo de uma NOC é o da melhoria da qualidade em saúde centra- da em objectivos claros, válidos e relevantes (sobrevivência, qualidade de vida, etc.) 25 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML 2. A criação de NOCs deve ter origem numa equipa multidisciplinar, com colabora- ção de médicos, associações profissionais, pessoal de saúde em geral e representan- tes dos doentes/utentes/pacientes sobre as quais incidirão as recomendações 3. Previamente à elaboração de NOCs devem sempre ser explicitados os seus objecti- vos, os critérios metodológicos aplicados, os potenciais utilizadores finais, os con- textos de aplicação, os processos de prioritização e a garantia, à partida, dos recur- sos necessários para a sua criação, distribuição, implementação e revisão 4. As NOCs devem basear-se e sintetizar a melhor evidência científica disponível, devendo ser organizadas e publicadas sob a forma de resumos estruturados 5. As recomendações emitidas de forma clara e concisa, graduadas de acordo com a sua importância/força, devem ser suficientemente flexíveis para que, tanto os mé- dicos como os doentes, possam exercer um julgamento objectivo e seja possível implementá-las e adaptá-las a uma população-alvo 6. As NOCs devem servir de base a uma decisão informada por parte dos profissio- nais de saúde e dos doentes, melhorando a aprendizagem profissional, a educação do doente e a comunicação entre ambos 7. As NOCs devem ser revistas por peritos e utilizadores antes da respectiva imple- mentação e, se possível, testadas em condições piloto nos contextos respectivos 8. As NOCs devem incluir instruções e estratégias adaptativas eficazes para a respecti- va implementação (de preferência voluntária), enfatizando o envolvimento dos do- entes, médicos e outros agentes de saúde 9. As NOCs devem ser avaliadas em termos da sua eficácia, com recurso a instrumen- tos de medida rigorosos 10. As NOCs devem sofrer um processo de revisão e actualização regular e programa- da, cuja periodicidade está dependente do avanço dos conhecimentos na área res- pectiva 26 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML As recomendações são elaboradas de acordo com diferentes níveis de evidência, o que permite a caracterização da força relativa de cada uma delas. Deste modo, de acordo com a qualidade da evidência subjacente a cada uma das recomendações é estabelecido o grau da mesma (quadro 3.1.1). Quadro 3.3.1. Níveis de evidência e graus de recomendação terapêutica Grau de Nível de Análise metodológica Recomendação evidência A 1a RS (com homogeneidade interna) de RCTs 1b RCTs individuais (com IC curtos) 1c Todos ou nenhuns * B 2a RS (com homogeneidade interna) de estudos de coorte 2b Estudos de coorte individuais (incluindo RCTs de baixa qualidade, por exemplo <80% de follow-up) 2c Investigação sobre resultados (outcomes research) 3a RS (com homogeneidade interna) de estudos caso-controlo 3b Estudos caso-controlo individuais C 4 Estudos de séries de casos (e também estudos coorte e caso-controlo de baixa qualidade**) D 5 Opinião de peritos sem explicação prévia da metodologia de avaliação crítica de evidência, ou baseada em inves- tigação básica (extrapolação) ou em princípios primários * quando todos os doentes faleciam antes do tratamento estar disponível mas alguns agora sobrevivem; ou quando alguns doentes faleciam antes do tratamento estar dispo- nível mas nenhum agora morre quando a ele é sujeito ** os estudos de coorte de baixa qualidade são os que não definiram claramente os grupos em comparação; e/ou não mediram as exposições e resultados (outcomes) de maneira objec- tiva (de preferência em ocultação) em ambos os grupos (expostos e não-expostos); e/ou não identificaram ou controlaram apropriadamente os factores de confusão (confounders); e/ou não levaram a cabo um seguimento (follow-up) suficientemente longo e completo. Os estu- dos caso-controlo de baixa qualidade são aqueles que não definiram claramente os grupos em comparação; e/ou não mediram as exposições e resultados (outcomes) de maneira objec- tiva (de preferência em ocultação) em ambos os grupos (casos e controlos); e/ou não identi- ficaram ou controlaram apropriadamente os factores de confusão (confounders). Adaptado de 17 27 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML Um dos sistemas presentemente mais utilizados é o Grades of Recommendation, Assess- ment, Development and Evaluation (GRADE), que apresenta uma abordagem diferente. Os interessados em conhecer o sistema em pormenor podem recorrer ao website da organização respectiva (http://www.gradeworkinggroup.org/). As NOCs constituem, pela sua organização, disponibilidadee conteúdo, uma das fon- tes mais válidas de informação sobre opções terapêuticas, mas apenas deverão ser consi- deradas as que forem baseadas, explicitamente, na evidência científica. 3.4 Métodos de avaliação crítica da evidência terapêutica O passo seguinte após a selecção da evidência publicada é a avaliação crítica em termos metodológicos, para definição da sua validade (se o seu desenho permite responder à ques- tão colocada inicialmente), importância (se os resultados são clinicamente relevantes e esta- tisticamente significativos) e aplicabilidade (aos doentes encontrados na prática clínica). A necessidade da utilização de um critério de avaliação rigoroso advém do facto da maior parte da investigação publicada possuir pouco rigor metodológico e por vezes ser também pouco relevante em termos de utilidade prática. 3.4.1 Avaliação crítica de um ensaio clínico aleatorizado As questões metodológicas enunciadas no quadro 3.4.1 pretendem analisar os parâme- tros de validade, importância e aplicabilidade dos estudos clínicos de terapêutica, enun- ciados anteriormente. 28 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML Quadro 3.4.1 - Grelha para avaliação crítica de um artigo descrevendo um ensaio clínico VALIDADE DOS RESULTADOS S ? N n/a A gama de doentes foi bem definida? 2 1 0 n/a O diagnóstico da doença estava bem caracterizado? 2 1 0 n/a Os critérios de inclusão e exclusão são lógicos e claros? 2 1 0 n/a Os doentes foram aleatorizados? 2 1 0 n/a A aleatorização foi ocultada? 2 1 0 n/a Os doentes foram analisados nos grupos para os quais tinham sido aleatorizados inicialmente (intenção-de-tratar)? 2 1 0 n/a O método de aleatorização foi explicado? 2 1 0 n/a A dimensão da amostra foi estatisticamente calculada 2 1 0 n/a Os doentes nos grupos em comparação eram semelhantes em termos dos seus factores de prognóstico conhecidos? 2 1 0 n/a Com excepção do tratamento em estudo, todos os doentes foram tratados da mesma maneira? 2 1 0 n/a Foi ocultado aos doentes o grupo a que pertenciam? 2 1 0 n/a Foram ocultados aos investigadores os grupos em estudo? 2 1 0 n/a Foram ocultados aos analisadores dos dados os grupos em estudo? 2 1 0 n/a O seguimento (followup) final foi superior a 80%? 2 1 0 n/a IMPORTÂNCIA DOS RESULTADOS A dimensão do efeito terapêutico (RRR, RRA, NNT) foi importante? 2 1 0 n/a A estimativa do efeito é suficientemente precisa (IC)? 2 1 0 n/a Esse efeito tem importância clínica? 2 1 0 n/a APLICABILIDADE DOS RESULTADOS Os doentes do estudo são semelhantes aos da prática clínica do médico individual? 2 1 0 n/a Foram considerados todos os resultados clínicos importantes? 2 1 0 n/a Os benefícios do tratamento sobrepõem-se aos potenciais riscos e custos da sua implementação? 2 1 0 n/a Em termos práticos, cada questão é classificada em 4 hipóteses: • resposta afirmativa = sim (codificada com 2) • pouco claro/possivelmente (codificada com 1) • resposta negativa = não (codificada com 0) • não aplicável 29 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML No final de responder às 20 questões, obtém-se a soma de todas as questões individuais e calcula-se um score final, segundo o esquema: • Score total (soma dos scores atribuídos) ________ [A] • Nº de questões aplicáveis (máx. 20) ___________ [B] • Score máximo possível (2 x B) _______________ [C] Os ensaios clínicos classificados com uma pontuação de 75% ou mais do total são considerados de boa qualidade e reúnem condições para serem considerados evidência de boa qualidade. Todos os outros são, em princípio, excluídos, não devendo ser utiliza- dos na prática clínica. De seguida, será feita uma descrição breve de alguns dos tópicos que devem ser cumpridos23. Os resultados do estudo são válidos? Esta questão está relacionada com a credibilidade dos resultados e tem por objectivo averiguar se a avaliação do efeito do tratamento representa de um modo fidedigno a direcção e magnitude do verdadeiro efeito subjacente. A gama de doentes e o diagnóstico da doença estava bem caracterizado? Os critérios de inclusão e exclusão são lógicos e claros? Apenas deste modo será possível perceber o âmbito do estudo e reconhecer a população para a qual os resultados são válidos, isto é, a definição da doença em causa. Os doentes foram aleatorizados? A aleatorização permite que os doentes dos dois gru- pos (experimental e controlo) tenham uma maior probabilidade de apresentarem carac- terísticas semelhantes relativamente aos determinantes conhecidos (e desconhecidos) dos resultados em estudo. A aleatorização foi ocultada? Se a aleatorização não for ocultada, o seu princípio inicial é posto em causa, já que os intervenientes do estudo podem falsear os resultados (pode ocorrer um viés quando por exemplo os investigadores têm acesso ao braço do estudo em que o doente vai ser colocado e gerem a admissão dos doentes, colocando por exemplo, os doentes menos graves no grupo controlo). Os doentes foram analisados nos grupos para os quais tinham sido aleatorizados ini- cialmente (intenção-de-tratar)? Os investigadores podem falsear a aleatorização ao omi- 30 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML tirem sistematicamente os doentes que não cumprem o tratamento que lhes foi destina- do ab initio. A estratégia da análise pela intenção-de-tratar (avaliação dos resultados baseada na distribuição dos doentes pelo tipo de tratamento para o qual foram aleato- rizados, ao invés do tratamento que na verdade receberam) preserva o valor da aleatori- zação, já que os factores prognósticos (que conhecemos e desconhecemos) estarão equi- tativamente presentes em ambos os grupos de estudo (experimental e controlo) e o resultado advirá unicamente do tratamento realizado. Os doentes nos grupos em comparação eram semelhantes em termos dos seus facto- res de prognóstico conhecidos? A aleatorização pretende gerar grupos com prognóstico semelhante relativamente ao resultado em estudo. No entanto, o processo de aleatoriza- ção pode não ser bem-sucedido por obra do acaso. Quanto mais pequena a amostra, maior a probabilidade de ocorrer um desequilíbrio prognóstico entre os grupos. Todos os ensaios devem apresentar as características basais dos grupos controlo e experimen- tal. Deste modo obter-se-á a distribuição dos factores prognósticos (aqueles possivel- mente relacionados com os resultados em estudo) nos grupos controlo e experimental. Pretende-se acautelar que as características são o mais semelhante possível entre os gru- pos (apesar de não ser possível conhecer a distribuição dos factores prognósticos desco- nhecidos, a distribuição equitativa dos factores conhecidos garante uma maior confian- ça no estudo). Não se pretende estudar se as diferenças entre os grupos, à entrada no estudo, são estatísticamente significativas mas sim se a sua dimensão é importante. Com excepção do tratamento em estudo, todos os doentes foram tratados da mesma maneira? Qual a terapêutica standard realizada pelos doentes em estudo - ela é seme- lhante? Co-medicações de base podem alterar os resultados de um estudo. Foram ocultados aos investigadores os grupos em estudo? A ocultação eficaz elimina a possibilidade da administração preferencial (consciente ou inconsciente) de terapêuti- cas adjuvantes ao grupo controlo ou experimental. Foram ocultados aos analisadores dos dados os grupos em estudo? A proveniência dos dados em avaliação deve ser também ocultada do grupo de investigadores encarregue do tratamento dos dados já que nesta fase do processo também podem ser introduzidos viéses. Quanto maior julgamento crítico for necessário para a determinação da ocorrên- cia ou de um resultado, maior a necessidade de ocultação. 31 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML Foi ocultado aos doentes o grupo a que pertenciam? Os doentes que realizam um tratamento que acreditam ser eficaz podem sentir-se e desempenhar funções melhor do que aqueles que não acreditam na validade do tratamento, mesmo que estenão seja biologicamente activo. É possível que este efeito placebo possa interferir na determina- ção do impacto biológico de uma determinada terapêutica farmacológica. O seguimento (followup) foi completo? Quanto maior o número de doentes perdidos durante o período de seguimento, maior a probabilidade da validade do estudo estar comprometida. A importância deste aspecto prende-se com o facto de os doentes "per- didos" apresentarem geralmente prognósticos diferentes daqueles que se mantêm em estudo (quer no sentido da melhoria ou do agravamento). Esta é uma situação análoga à importância da análise segundo a intenção-de-tratar. Quais são os resultados? Esta questão considera a amplitude e precisão do efeito do tratamento. A dimensão do efeito terapêutico (RRR, RRA, NNT) foi importante? Geralmente, os ensaios clínicos monitorizam a frequência com que os doentes apresentam resulta- dos positivos ou adversos (ocorrência de resultados, como por exemplo, morte). Podem ser usados vários métodos para demonstrá-los24. É possível demonstrar a extensão do benefício em comparação com o risco inicial, calculando a redução do risco relativo (RRR). A RRR não reflecte o risco do evento sem terapêutica (risco basal) não podendo por isso diferenciar entre diversas dimensões do tratamento. A redução do risco absolu- to (RRA) é a diferença aritmética entre a taxa de eventos no grupo controlo e a taxa de eventos no grupo experimental. A RRA é uma medida mais significativa dos efeitos do tratamento do que a RRR porque leva em conta o risco basal. O número que é necessá- rio tratar (NNT) é o recíproco da RRA; é sempre referido a um intervalo de tempo, a um resultado e um comparador específicos. O NNT reflecte o número de doentes que terão de ser tratados com a intervenção em questão, para que um doente adicional atinja o resultado definido naquele período de tempo. Assim, o NNT reflecte o núme- ro de doentes que será tratado desnecessariamente. Quanto maior o NNT, maior o esforço que a intervenção em causa implica. O cálculo destas medidas de associação consegue-se através da construção das chamadas tabelas de contingência 2 x 2: 32 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML Quadro 3.4.2 - Tabela de contingência para cálculos de medidas de associação em RCTs Resultado (outcome) SIM NÃO Exposição SIM a b NÃO c d Risco Relativo. RR = [a / (a + b)] / [c / (c + d)] Redução do Risco Relativo. RRR = [c / (c + d)] - [a / (a + b)] / [c / (c + d)] Redução do Risco Absoluto. RRA = [c / (c + d)] - [a / (a + b)] Número Necessário Tratar. NNT = 1 / RRA Odds Ratio. OR = [(a/b) / (c/d)] = ad / cb A estimativa do efeito é suficientemente precisa (IC)? Na realidade, a verdadeira esti- mativa da redução do risco nunca é conhecida. Todavia, através de RCTs é possível obter a melhor estimativa para o efeito de uma intervenção. Este é um valor que estará próximo do "real" mas não será certamente o "correcto". Podemos considerar o interva- lo de confiança a 95% como o intervalo de valores que inclui o valor "real" em 95% das vezes. Isto faz com que se relaciona estritamente com o nível convencional de significân- cia estatística, habitualmente P<0,05. Estes resultados são aplicáveis ao meu doente? Esta questão tem duas partes: em primeiro lugar, é necessário saber se os resultados são generalizáveis ao doente concreto, ou se o doente é demasiado diferentes dos que parti- ciparam no ensaio para haver dúvidas quanto ao interesse do tratamento específico; em segundo lugar, se os resultados são aplicáveis, qual é o impacto do tratamento. Os doentes do estudo são semelhantes aos da prática clínica do médico individual? Na prática clínica diária lidamos com doentes individuais que, regra geral, é difícil adequar completamente aos critérios de inclusão e exclusão estabelecidos nos ensaios clínicos. Parece sensato, e preferível, perguntar se existe alguma razão pertinente e importante para que os resultados de um determinado estudo não possam ser aplicados a um doente "real" ao invés de o encaixar em critérios "irreais". Caso a primeira premissa se cumpra, é ainda necessário avaliar se o doente tem capacidade para aceitar as recomendações e aderir ao 33 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML esquema terapêutico. Por outro lado, convém frisar que os ensaios clínicos aleatorizados demonstram o efeito médio verificado numa amostra de doentes, pelo que um doente particular pode não apresentar benefícios com a intervenção (e sofrerá, no entanto, o custo e a eventual toxicidade do tratamento). Podemos obviar esta vicissitude realizando um ensaio aleatorizado e controlado num doente individual (Ensaio aleatorizado e controla- do N de 1). Neste caso, o doente particular inicia uma ronda de dois períodos de tratamen- to: um em que recebe o tratamento, e outro em que recebe o placebo. Nesta intervenção são mantidas todas as condições necessárias à validade de um ensaio clínico aleatorizado e controlado convencional. No entanto, nem sempre é exequível uma intervenção deste tipo. Quando um doente particular pertence a um subgrupo avaliado por um ensaio clínico, é prudente avaliar cuidadosamente as condições do estudo. O tratamento só beneficia realmente (positiva ou negativamente) o subgrupo quando a diferença entre os efeitos é de grande dimensão e difícil de ocorrer por acaso. Todavia, mesmo quando estas premissas se cumprem, os resultados podem ser enganadores se os investigadores não especificaram as premissas no início do ensaio, se estipularam um grande número de hipóteses ou se outros estudos não forem capazes de demonstrar o mesmo efeito23. Foram considerados todos os resultados clínicos importantes? É necessário que a evi- dência demonstre não só que a terapêutica melhora resultados importantes para os doentes como também que não interfere negativamente noutros resultados. Os benefícios do tratamento sobrepõem-se aos potenciais riscos e custos da sua imple- mentação? O impacto de uma terapêutica está relacionado não só com a RRR como também com o risco do resultado adverso cuja ocorrência pretende prevenir. Para uma dada RRR, quanto maior a probabilidade da ocorrência do resultado adverso se não tratado e quanto maior a probabilidade de que o doente beneficie do tratamento, quanto menos doentes será necessário tratar para prevenir uma ocorrência do resultado adver- so. O conhecimento do NNT auxilia no balanço dos benefícios e riscos associados às opções terapêuticas. O balanço do risco/benefício deve ser também suportado pelo conhecimento dos efeitos adversos associados ao tratamento em questão. No entanto, em última análise, são as preferências ou valores do doente que determinam a escolha face aos riscos e benefícios da terapêutica23. 3.4.2 Avaliação crítica de uma revisão sistemática Uma revisão sistemática (RS) pode ser definida como a resposta a uma questão clíni- ca, utilizando métodos que reduzam a probabilidade de viéses. O termo meta-análise 34 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML descreve as revisões que utilizam métodos quantitativos para sumariar os resultados. A realização de uma RS passa por diferentes etapas: definir o tema; identificar, selecci- onar e avaliar de forma crítica os estudos relevantes (designados por estudos primários); reunir e resumir a informação relevante (de forma qualitativa ou quantitativa) e tirar conclusões. As RS constituem sínteses concisas da melhor evidência disponível, que abordam ques- tões clínicas relevantes cuidadosamente elaboradas. Ao contrário das revisões narrati- vas, isto é, as que classicamente são pedidas a um ou mais autores que as escrevem livremente (sem justificação prévia sobre que artigos irão discorrer e porquê), as RS utilizam métodos rigorosos e explícitos para identificar, criticar e sintetizar estudos rele- vantes, procurando agregar e examinar toda a evidência de alta qualidade acessível que diga respeito à pergunta em questão. No quadro 3.4.2.1 estão resumidas algumas dife-renças entre as revisões narrativas e as sistemáticas. Quadro 3.4.2.1 - Diferenças entre as revisões narrativas e as sistemáticas REVISÃO NARRATIVA REVISÃO SISTEMATIZADA Questão alargada focalizada Fontes e pesquisa não especificadas e enviesadas pré-especificadas e abrangentes, com uma estratégia explícita Selecção dos estudos não especificada e enviesada baseada em critérios e uniformemente aplicada Avaliação crítica variável rigorosa e completa Síntese sumário qualitativo sumário quantitativo Inferências por vezes baseadas na evidência sempre baseadas científica na evidência científica As bases de avaliação crítica de uma revisão sistemática empregam as mesmas guias gerais dos ensaios clínicos, mas com questões específicas diferentes. No quadro 3.4.2.2 estão descritos os passos para uma avaliação crítica de uma RS, que são detalhados nas secções seguintes. 35 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML Quadro 3.4.2.2 - Grelha para avaliação de estudos de revisão VALIDADE DOS RESULTADOS S ? N n/a A revisão aborda de forma explícita uma questão clínica sensível? 2 1 0 n/a A pesquisa dos estudos relevantes foi detalhada e exaustiva? 2 1 0 n/a Os estudos primários têm elevada qualidade metodológica? 2 1 0 n/a A interpretação dos estudos é reprodutível? 2 1 0 n/a IMPORTÂNCIA DOS RESULTADOS 2 1 0 n/a Os resultados foram semelhantes entre os estudos? 2 1 0 n/a Quais são os resultados gerais dos estudos? 2 1 0 n/a Quão precisos são os resultados? 2 1 0 n/a APLICABILIDADE DOS RESULTADOS 2 1 0 n/a Qual é a melhor forma de interpretar os resultados para aplicá-los na prática clínica? 2 1 0 n/a Foram considerados todos os outcomes clinicamente importantes? 2 1 0 n/a Os benefícios do tratamento sobrepõem-se aos potenciais riscos e custos da sua implementação? 2 1 0 n/a Os resultados são válidos? A revisão aborda de forma explícita uma questão clínica sensível? Para se verificar que a questão clínica é sensível, a biologia subjacente ao problema deve permitir o mesmo efeito terapêutico em todos os doentes. Para que este ponto seja correctamente avalia- do, a revisão sistematizada deve apresentar de forma explícita quais os critérios de inclu- são dos estudos que foram utilizados. A pesquisa dos estudos relevantes foi detalhada e exaustiva? A pesquisa dos estudos deve ser feita em bases de dados bibliográficas (como a MEDLINE, EMBASE, Registo de Ensaios Clínicos da Cochrane, etc.) e nas que contenham estudos em curso, bem como a partir das listas de referências dos artigos seleccionados e através do contacto pessoal com peritos na área em causa. Pode ser importante consultar resumos de reuni- ões científicas bem como bases de dados consultadas com menos frequência (que inclu- am por exemplo teses de doutoramento). Os estudos primários têm elevada qualidade metodológica? As diferentes metodologi- as utilizadas no desenho dos estudos podem explicar as diferenças encontradas nos resultados dos mesmos. Por outro lado, a determinação da validade é também impor- 36 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML tante quando os resultados de diferentes estudos são consistentes já que as conclusões serão mais apelativas caso resultem dos estudos com qualidade superior. A interpretação dos estudos é reprodutível? A revisão dos artigos (critérios de inclu- são, avaliação da validade, extracção de dados) quando realizada por um grupo de 2 ou mais pessoas, previne melhor a ocorrência de erros. Quais são os resultados? Os resultados foram semelhantes entre os estudos? Na avaliação da semelhança entre os resultados dos estudos deve atentar-se a duas questões: (1) as melhores estimativas (point estimates) do efeito do tratamento em cada estudo são semelhantes? (2) as diferen- ças entre os resultados dos estudos individuais são maiores do que aquelas esperadas pelo acaso? Em relação ao segundo ponto, pode ser feita uma avaliação inicial pela avaliação dos intervalos de confiança - quanto mais próximos uns dos outros, maior a segurança no agrupamento dos resultados. Por outro lado, a análise estatística formal através dos testes de heterogeneidade fornece também pistas importantes. Quanto o valor P associado com o teste de heterogeneidade é baixo (por exemplo P<0,05) a expli- cação da magnitude do efeito simplesmente pelo acaso torna-se menos plausível. As revisões sistematizadas devem incluir hipóteses para a variabilidade encontrada entre os estudos. Quais são os resultados gerais dos estudos? Na revisão sistematizada de uma questão terapêutica deve-se avaliar, tal como num estudo primário, o risco relativo e a redução do risco relativo ou o odds ratio. Quão precisos são os resultados? A avaliação da precisão dos resultados deve ser feita através da avaliação do intervalo de confiança (lista de valores com uma probabilidade específica, geralmente 95%, de incluir o verdadeiro resultado) do efeito médio estima- do entre os estudos. Como posso aplicar os resultados ao doente individual? Qual é a melhor forma de interpretar os resultados para aplicá-los na minha prática clínica? Os critérios que tornam a diferença entre subgrupos mais credível são: conclu- sões retiradas dentro de cada estudo, ao invés da comparação entre estudos; diferença marcada no efeito do tratamento entre os subgrupos; diferença estatisticamente signifi- cativa no efeito do tratamento; hipótese levantada antes do início do estudo (e uma das 37 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML poucas estudadas) e existência de evidência indirecta que explique a diferença. Se estes critérios não forem cumpridos deve assumir-se que os resultados da análise de subgru- pos não são credíveis e que o efeito global entre todos os doentes e tratamentos se aplica ao doente em questão e ao tratamento em análise. Foram considerados todos os outcomes clinicamente importantes? As revisões siste- matizadas geralmente não incluem dados acerca dos efeitos adversos e dos custos ine- rentes à terapêutica. Os benefícios do tratamento sobrepõem-se aos potenciais riscos e custos da sua imple- mentação? Apesar das revisões sistematizadas fornecerem a melhor forma de quantifi- car os resultados esperados para uma determinada intervenção, estes devem ser sempre considerados face aos valores e preocupações do doente em questão. 4 Balanço risco/benefício da terapêutica Os fármacos são prescritos pelo seu potencial benefício, mas desde sempre é conhecido que associado a cada um deles existe o risco de efeitos adversos. Antes de qualquer prescrição ou acto terapêutico devem ser ponderados os seguintes factores25: • características clínicas da doença a tratar; • gravidade e frequência dos possíveis efeitos adversos; • eficácia do fármaco a ser utilizado; • perfil de segurança e a eficácia de fármacos alternativos. O balanço risco/benefício deverá ser avaliado considerando dois aspectos distintos do espectro de decisão: ele será favorável/alto quando a doença constitui risco iminente de vida, o fármaco é eficaz e um dos poucos disponíveis e se o risco de efeitos adversos é desprezível e desfavorável/baixo quando a doença é comum, o fármaco é pouco eficaz, existem outros medicamentos alternativos e os efeitos adversos são elevados (quadro 4.1). 38 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML Quadro 4.1 - Quadro resumo do balanço benefício/risco FACTOR FAVORÁVEL DESFAVORÁVEL Gravidade da doença de base Muito grave/mortal Trivial Eficácia do medicamento seleccionado Elevada Baixa Gravidade dos efeitos adversos Trivial Elevada Frequência dos efeitos adversos Rara Frequente Eficácia das alternativas terapêuticas Má Boa Segurança das alternativas terapêuticas Má Boa Para melhor ilustrar o que foi dito, consideremos o exemplo da fenilbutazona, um anti- inflamatório não-esteróide (AINE) usado no tratamento de muitos estados inflamatórios como a crise gotosa, artrite reumatóide e a espondilite anquilosante. A incidência de aplasiamedular durante o tratamento com este fármaco varia entre 1:30.000 e 1:100.000, podendo atingir valores mais elevados em indivíduos idosos ou submetidos a tratamento crónico. Enquanto não existia nenhum outro AINE disponível com semelhante eficácia, o balanço risco/benefício era considerado suficientemente alto para ultrapassar o risco de aplasia medular. Contudo, assim que outros fármacos com menos efeitos adversos fica- ram disponíveis o risco associado à fenilbutazona excedia claramente o possível benefício. Foi então decidido que não seria mais prescrito como AINE de primeira linha, estando hoje disponível apenas para tratamento dirigido na espondilite anquilosante. Deste modo, torna-se claro que a escolha de um determinado agente não se centra só no seu benefício absoluto, mas antes na relação entre a gravidade da doença e o benefí- cio de outros agentes terapêuticos alternativos. Nem sempre se torna possível conhecer os benefícios de determinada terapêutica antes de esta ser administrada a um doente. Por exemplo, é possível que não existam dados publicados acerca da dimensão do risco, pelo que diferentes doentes podem apresentar diferentes graus de risco para o mesmo efeito adverso, como é o exemplo dos determi- nados geneticamente. Por outro lado, o benefício terapêutico (por exemplo no que concerne a alívio de sintomas) varia entre doentes e só pode ser calculado após iniciado o tratamento e avaliados os seus efeitos. 39 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML O seguinte exemplo ilustra os problemas na análise do balanço risco/benefício: Será benéfico tratar uma doente idosa com prednisolona para uma arterite de células gigantes, com risco de agravamento da osteoporose, da diabetes mellitus 2 ou da insuficiên- cia cardíaca com retenção de fluidos que esta doente também apresenta? À parte da dor associada a esta patologia, uma das complicações nefastas da doença é a amaurose resul- tante do envolvimento dos vasos retinianos. Assim, a decisão de iniciar tratamento deve ponderar a globalidade da situação: a gravidade da doença e os vasos que afecta, mas também as suas complicações. Até que estudos apropriados de risco/benefício sejam efectuados, cada caso deve ser decidido de acordo com esta ponderação racional, investigando os factores envolventes ao doente e à doença, ponderando-os cuidadosamente. É através deste processo que se podem diminuir os riscos, mantendo a eficácia terapêutica. 5 Construção de um formulário para uso pessoal A abordagem da construção de um formulário pessoal, com selecção e uso preferencial de determinados medicamentos, tem-se tornado uma das mais eficazes bases para uma terapêutica racional. Diversos manuais incluem detalhes mais ou menos aprofunda- dos, mas optámos, pela sua qualidade, seguir o modelo da OMS26. 5.1 Construção do Formulário Pessoal (FP) 5.1.1 Introdução. O que é um FP? A prática clínica diária imprime um ritmo, por vezes demasiado rápido, às decisões que o clínico tem de continuamente tomar. A dicotomia entre o tempo de consulta e o número de doentes apresenta-se como um dos factores que interfere com uma prescri- ção racional centrada no doente, na sua doença e no seu bem-estar. O desafio que se coloca actualmente a todos os médicos, principalmente aos mais jo- vens, é que fármaco escolher de entre a longa e exaustiva lista de medicamentos que habitualmente compõem o formulário terapêutico existente em cada país. O processo de selecção e prescrição de tratamento parece fácil e rápido quando obser- 40 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML vamos o médico experiente (ou perito), mas a tentativa de mimetizar o comportamento daquele no início da formação do jovem médico pode originar erros. Além disso, os peritos variam substancialmente nas selecções terapêuticas que fazem, deixando o jo- vem clínico na dúvida sobre as bases de decisão de cada um deles (qual das opções será a mais correcta?). A selecção do tratamento correcto é mais difícil do que possa parecer e para adquirir experiência é preciso trabalhar de forma sistematizada. Para tal existem dois passos a seguir: 1. Reflectir sobre o tratamento de primeira escolha 2. Verificar a adequação do tratamento ao doente individual. Para solucionar este desafio, existe o conceito de Formulário Pessoal (FP), que consiste numa lista organizada de fármacos eficazes que o clínico prescreve regularmente, com características de boa tolerância e (se possível) baixo custo, construída de forma racio- nal, baseada em evidência científica de boa qualidade e aplicada ao doente ideal. Este conceito engloba não só a substância activa, mas também a dosagem e posologia do medicamento. A construção do FP deverá ser fruto de um processo posto em prática anteriormente ao momento da prescrição, podendo ser realizado idealmente aquando da formação pré-gradu- ada do médico, sendo continuamente actualizado ao longo da carreira deste. Ao utilizar metodicamente o FP, o médico conhece particularmente bem as principais vantagens e efeitos secundários de cada medicamento, retirando daí os lógicos benefícios para o doente. 5.1.2 Como escolher o FP? Como já foi referido, a constituição do FP deverá ser um processo racional e baseado em dados científicos válidos. É aceite que, tradicionalmente, a forma mais popular de construir o FP se baseia na transmissão oral a partir de colegas ou professores. Esta abordagem possui indiscutível validade mas existem algumas razões pelas quais os mé- dicos não devem seguir exclusivamente este caminho: 1. a responsabilidade do tratamento e bem-estar do doente pertence a cada profissio- nal médico e não deve ser imputada aos colegas que cederam a informação (que pode estar completamente correcta, mas também pode ser errada...) 41 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML 2. ao construir e utilizar o FP aprender-se-á a lidar mais profundamente com determi- nados fármacos e suas características clínicas, permitindo uma distinção mais clara acerca da sua utilização e potencial terapêutico 3. a utilização e revisão dos fármacos que compõem o seu FP permitirá ao médico famili- arizar-se, com o correr do tempo, com fármacos alternativos mais recentes. A construção do FP deverá seguir os seguintes cinco passos: 1. definição do diagnóstico correcto do doente 2. estabelecimento do objectivo terapêutico para o doente específico 3. construção de um inventário pessoal dos grupos farmacológicos eficazes 4. eleição de um grupo farmacológico a utilizar 5. selecção de um medicamento individual do FP. PASSO 1: DEFINIR O DIAGNÓSTICO A correcta formulação do diagnóstico é a base racional que conduz ao início de um correcto tratamento. Para tal, deverá o clínico reunir os diversos elementos, como a história clínica orientada às queixas do doente, os antecedentes pessoais, o exame ob- jectivo e os resultados de exames complementares. Os dados relevantes obtidos devem ser integrados com a fisiopatologia da doença ou dos sintomas apresentados na fase inicial, sendo verdade que o conhecimento dos seus mecanismos básicos ajudará ao estabelecimento de hipóteses credíveis. No processo do diagnóstico diferencial existem classicamente várias estimativas proba- bilísticas de doença (as chamadas listas)18: 1. a lista de possibilidades, quando se consideram vários diagnósticos igualmente pos- síveis e se testam simultaneamente (com eventual nº excessivo de testes) 2. a lista de probabilidades, quando se seleccionam as doenças mais prováveis 3. a lista prognóstica, quando as doenças consideradas são as que, se não tratadas, apresentam pior prognóstico; e 4. a lista pragmática, que são as doenças mais facilmente tratáveis. 42 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML Tomemos como exemplo a angina de peito, que constitui um sintoma, mais do que um diagnóstico. Esta pode ser dividida em angina estável, instável e de Prinzmetal. Sendo a etiologia das duas primeiras a existência de ateromas luminais e a últimade espasmo focal de uma artéria coronária, a abordagem do tratamento destas patologias difere naturalmente entre si. Contudo, em algumas situações, o clínico não conhecerá a fisiopatologia da doença e terá que tratar o doente com base em sinais e sintomas (tratamento sintomático). Em qualquer dos casos, quer haja uma definição clara de diagnóstico ou não, este será o passo inicial que guia a construção da lista dos fármacos capazes de interferir na fisiopatologia da doença, alterando beneficamente a sua história natural. PASSO 2: ESTABELECER O OBJECTIVO TERAPÊUTICO Antes de escolher o medicamento, é importante estabelecer qual o objectivo tera- pêutico a alcançar. O que se pretende atingir realmente com o tratamento? A clareza deste conceito evita alguma prescrição medicamentosa desnecessária, já que no processo de raciocínio se eliminou (espera-se!) o conjunto de factores que podiam confundir-se com o verdadeiro objectivo. Quanto mais claro for este con- ceito, mais fácil será a escolha do fármaco e a explicação do seu potencial tera- pêutico ao doente. Clarifiquemos este conceito com a seguinte história clínica: Criança de 4 anos com desidratação ligeira, associada a diarreia aquosa com 3 dias de evolução. Sem vómitos. Não urina há 24 horas. Ao exame objectivo: apirexia, taquicar- dia, diminuição do turgor cutâneo. Neste caso, a etiologia mais provável é a viral, uma vez que existe uma diarreia aquosa, sem febre. A desidratação é a principal preocupação médica e não o tratamento da infecção. Os antibióticos revelar-se-iam ineficazes conside- rando a etiologia viral. Assim, tratar e prevenir a (grave) desidratação constitui o objectivo terapêutico. A maioria dos casos segue um percurso linear de reconhecimento de sinais e sintomas, formulação de diagnóstico e tratamento, como é o caso de uma infecção bacteriana documentada, mas algumas situações clínicas são pouco claras. 43 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML A especificação do objectivo terapêutico ajuda a manter o raciocínio estruturado, for- çando a concentração no problema real, de forma a limitar o número de tratamentos possíveis. Por outro lado, a discussão com o doente sobre qual a meta a atingir com a terapêutica permitirá eventualmente melhorar a adesão. Ele tornar-se-á um participan- te informado e activo no processo, revelando algumas das suas diferentes visões acerca da causa de doença, seu diagnóstico e tratamento. PASSO 3: CONSTRUIR UM INVENTÁRIO PESSOAL DOS GRUPOS FARMA- COLÓGICOS EFICAZES Após se ter definido claramente o diagnóstico e qual o objectivo terapêutico a alcançar para modificar a história natural da doença, deve-se pesquisar, recolher e organizar os conjuntos de fármacos (grupos farmacológicos) eficazes no tratamento da doença. Por grupo farmacológico entende-se o que engloba todos os fármacos com igual meca- nismo de acção e estrutura molecular similar, pelo que, em princípio, os seus efeitos secundários, contra-indicações e interacções serão semelhantes (efeito de classe). No grupo farmacológico é também característica a partilha de um sufixo no nome da maioria das substâncias do grupo, como é o exemplo dos inibidores da enzima de con- versão da angiotensina: captopril, ramipril, enalapril, perindopril, etc. PASSO 4: ELEGER UM GRUPO FARMACOLÓGICO Para a selecção de um grupo farmacológico, o clínico deverá estabelecer uma com- paração entre os vários grupos possíveis, usando os critérios a seguir detalhados (quadro 5.1.2.1). Quadro 5.1.2.1. Exemplo ilustrativo da comparação entre 3 grupos farmacológicos Eficácia Segurança Adequação Grupo A ++ + +++ Grupo B + + + Grupo C - + ++ 44 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML Eficácia - medida do efeito de uma intervenção em condições ideais, habitualmente nos ensaios clínicos aleatorizados e controlados. Em oposição (ou complementaridade) com o de efectividade, entendendo-se por esta a medida do efeito de uma intervenção nas condições da prática clínica normal, quotidiana. Os dados de eficácia e de efectivi- dade (caso existam) devem ser conjugados para que o clínico construa um inventário dos grupos farmacológicos que interessa conhecer e os saiba manusear no correcto tratamento do doente individual. Para ser eficaz, um fármaco tem que atingir uma concentração plasmática mínima e o seu perfil farmacocinético deve permitir a defini- ção de um esquema terapêutico simples. Segurança - conhecimento do risco de efeitos secundários e reacções adversas causados pelo medicamento. Estima-se que 6,5% das admissões hospitalares nos EUA são devi- das a reacções adversas e, embora nem todas possam ser evitadas, muitas são causadas por selecção e dosagem inapropriada do fármaco. Há grupos de risco a ter em especial atenção: idosos, crianças, grávidas e doentes com patologia renal ou hepática. Particu- larmente importante é o grupo de doentes polimedicados, já que a probabilidade de interacções medicamentosas aumenta substancialmente nestes casos. Adequação (tolerabilidade e simplicidade) - a tolerabilidade está relacionada com o perfil de efeitos secundários e a simplicidade com a substância activa, a dosagem, a posologia do tratamento e a forma como estas se adaptam ao doente individual. Custo - eticamente falando, entre fármacos igualmente eficazes e seguros, deverá ser prescrito aquele que é mais barato, mas os aspectos relacionados com o custo não po- dem ser decididos apenas sobre esta perspectiva: o médico deverá ter em consideração não somente o preço do medicamento por unidade, mas também o custo total do tratamento. De uma forma geral, os medicamentos genéricos são mais baratos, pelo que devem ser escolhidos preferencialmente. Sem dúvida que são variados os parâmetros contabilizados para a selecção dos fármacos e no entanto, são relativamente universais os critérios usados para esta escolha (Quadro 5.1.2.2)26. 45 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML Quadro 5.1.2.2 - Critérios para a selecção de fármacos • Deve ser dada prioridade aos fármacos com eficácia e segurança comprovadas, de forma a responder às necessidades da maioria das pessoas. Devem ser evita- das duplicações desnecessárias de fármacos e dosagens. • Apenas devem ser seleccionados os fármacos com evidência científica sólida sobre a sua segurança. Só devem ser adicionados os mais recentes se houver vantagens claras na sua utilização, comparativamente aos já existentes. • Cada fármaco deve obedecer a um padrão de qualidade, nomeadamente bio- disponibilidade e estabilidade, segundo as suas condições de armazenamento e utilização. • Deve ser usado a designação comum internacional (DCI). Este é o mais peque- no nome científico baseado no princípio activo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem a responsabilidade de decidir e publicar os nomes genéricos em Inglês, Francês, Latim, Russo e Espanhol. • O custo do tratamento e principalmente o balanço custo/benefício de um fár- maco ou da sua via de administração é um critério major de selecção. • Quando dois ou mais fármacos parecem ser semelhantes, devem preferir-se: 1) os melhor investigados; 2) os com propriedades farmacocinéticas mais favorá- veis; 3) os com produção local fiável. • A maioria dos fármacos deve ser concebida com componentes únicos. Combi- nações só são aceitáveis quando a dose de cada fármaco responde às necessida- des de um grupo populacional definido e quando esta possui sobre o uso dos fármacos individuais vantagens comprovadas no efeito terapêutico, na segurança, na adesão ou no custo. PASSO 5: SELECCIONAR UM MEDICAMENTO DO FP Decidir o fármaco adequado dentro do grupo é um processo semelhante ao explicado anteriormente para seleccionar o melhor grupo farmacológico. Para isso, o médico deve utilizar novamente os conceitos eficácia, segurança, adequação e custo (Quadro 5.1.2.2) mas desta vez para comparar os diferentes medicamentos. 46 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML Como já foi dito, duma maneira geral,entre fármacos igualmente eficazes e seguros, deverá ser prescrito aquele que é mais barato. Aspectos relacionados com o custo não podem ser decididos apenas sob esta perspectiva, já que o aspecto económico se prende também com a duração da terapêutica. Escolher uma substância activa implica pensar na sua via de administração e dosagem, assim como na posologia. As duas primeiras têm que ser, acima de tudo, eficazes, pelo que é vantajoso pensar nelas em conjunto. Dosagem e posologia são, por sua vez, resul- tado de investigação científica realizada num determinado grupo de doentes. É impor- tante reconhecer se os nossos futuros doentes são semelhantes aos estudados em ensai- os clínicos, pois quanto mais diferentes forem da média estatística obtida - devido por ex. à idade, metabolismo, absorção, excreção, doenças e fármacos concomitantes - mai- or probabilidade existirá do esquema de dosagem e posologia ser inadequado. Uma solução possível será a de indicar no FP os limites mínimos e máximos relativos à dosa- gem e posologia. A utilização de fármacos julgados similares na sua acção - e portanto substituíveis - é muito frequente: são exemplos desta realidade terapêutica a utilização de beta-bloque- antes como antihipertensivos, ou de inibidores da enzima de conversão (IECA) na insuficiência cardíaca congestiva. Será importante realçar que o conceito de "efeito de classe" dos medicamentos é mais complexo do que se pensa e passa pela existência de três conceitos fundamentais: uma estrutura química semelhante (por exemplo, o anel dihidropiridina em certos bloqueadores dos canais de cálcio), um mecanismo de acção semelhante (os beta-bloqueantes bloqueiam os receptores adrenérgicos) ou um efeito farmacológico semelhante (antihipertensores, antianginosos, etc.). Apesar de estarmos, neste momento, perante substâncias activas do mesmo grupo, gran- des diferenças podem existir no que concerne à adequação e segurança dos diferentes fármacos, pois podem possuir propriedades farmacocinéticas variadas. Estas caracterís- ticas podem alterar a adesão do doente à terapêutica, pelo que devem ser tidas em especial atenção aquando da criação do FP. β 47 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML SUMÁRIO DA DECISÃO DE TRATAMENTO PASSO 1: Definir o diagnóstico PASSO 2: Estabelecer o(s) objectivo(s) terapêutico(s) PASSO 3: Construir um inventário pessoal dos grupos farmacológicos eficazes PASSO 4: Eleger um fármaco dentro do grupo farmacológico seleccionado PASSO 5: Escolher um medicamento do FP (eficácia + segurança + adequação + custo). Escolher a substância activa e dosagem e definir a posologia do tratamento CONCLUSÃO Desta forma sistematizada e racional pode o médico individual constituir uma lista organizada de fármacos para prescrição regular aos doentes que assiste. Assim, e a título de exemplo, um FP possível para o tratamento da HTA não complicada no adulto poderia conter as seguintes conclusões27: • A maioria dos fármacos anti-hipertensivos é eficaz, com um excelente perfil de risco • O diurético ocupa um papel primordial, podendo ser utilizado na maioria dos doentes • O β-bloqueante constitui uma excelente alternativa ao diurético, como fármaco de 1ª linha (com excepção do atenolol) • Os fármacos de 2ª linha incluem - em associação com os diuréticos - os IECAs, ARAs, β-bloqueantes e antagonistas do cálcio (AC) • Os fármacos individuais deverão ser seleccionados segundo as características clíni- cas das populações de doentes com diversos factores de risco, diferenças demográfi- cas (idade, sexo, raça, etc.), ou patologias concomitantes, que podem exigir fárma- cos específicos. Por ex.: o angina: β-bloqueantes e AC o diabetes mellitus ou insuficiência renal crónica: IECAs ou ARAs, β-bloqueantes o insuficiência cardíaca congestiva: IECAs, ARAs, β-bloqueantes selectivos o HTA sistólica isolada no idoso: diuréticos, AC o pós-enfarte agudo do miocárdio: β-bloqueantes selectivos, IECAs. 48 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML 6 Decisão sobre a aplicabilidade da terapêutica ao doente individual 6.1 Introdução Após a definição do FP, o médico possui uma lista de medicamentos orientada para um conjunto de patologias. É a partir deste momento que está mais apto para aplicar o seu conhecimento ao doente individual que se apresenta na prática clínica diária26. A apli- cabilidade da terapêutica segue também um conjunto de passos para que o processo de prescrição se "molde" de forma capaz ao doente e o resultado terapêutico tenha sucesso. Para tornar mais explícito esta fase da prescrição racional, é apresentado o seguinte caso clínico: Caso clínico: Sexo masculino, 50 anos. Antecedentes pessoais: excesso de peso, diabetes mellitus tipo 2 diagnosticada há cerca de 3 meses, sem repercussão nos órgãos-alvo. Medicação: metformi- na 500 mg, 1 comprimido de 8/8 h. Motivo de consulta: medições de TA na farmácia com valores consistentes de 160/82 mmHg. PASSO 1: Definir o diagnóstico No caso clínico apresentado encontram-se os seguintes diagnósticos: � HTA � Diabetes mellitus tipo 2 � Excesso ponderal. Para o correcto estabelecimento do diagnóstico há que considerar aspectos fisiopatoló- gicos e relacioná-los. Assim, HTA, diabetes mellitus e excesso de peso são factores de risco para aterosclerose, sendo esta uma doença arterial sistémica que pode atingir pre- ferencialmente o território cerebrovascular, coronário, renal e periférico. PASSO 2: Estabelecer o objectivo terapêutico No doente diabético e hipertenso estabelece-se como objectivo terapêutico principal - para além do controlo da glicémia - uma TA alvo de 130/80 mmHg (ou menos), que 49 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML visa evitar as complicações dos órgãos-alvo, nomeadamente os acidentes vasculares cere- brais, os enfartes do miocárdio, isquémia aguda e crónica dos membros inferiores e a insuficiência renal. Este alvo para a pressão arterial nos diabéticos foi determinado em ensaios clínicos de alta qualidade28, 29, sendo hoje esta abordagem consagrada30. PASSO 3: Seleccionar a terapêutica farmacológica adequada A acção farmacológica de cada um dos grupos adequados ao tratamento da HTA é diferente e necessita de ser comparada e ajustada ao doente individual, à sua doença e às suas comorbilidades. Os 5 grupos farmacológicos seguintes parecem reduzir de forma igualmente eficaz a mortalidade e a morbilidade cardiovasculares em doentes hipertensos e diabéticos: 1. Diuréticos31 2. β-bloqueantes32 3. Inibidores da enzima conversora da angiotensina (IECAs)33 4. Antagonistas dos canais de cálcio34 5. Antagonistas dos receptores da angiotensina II35 6. Associações IECAs + diuréticos36. Assim sendo, já que temos um doente hipertenso e diabético, o grupo dos IECAs seria o eleito. Todos os IECAs revelam eficácia sobreponível no tratamento da HTA, com perfis de segurança idênticos e boa tolerância, portanto o médico deverá concentrar-se nos dois aspectos seguintes: adequação e custo. No caso clínico apresentado, o doente é distribuidor de mercadorias, tendo "pouco tempo para tomar medicamentos" (sic). Quando interrogado acerca do seu salário, refe- re que recebe "pouco mais do que o salário mínimo nacional" (sic). Perante esta informação um fármaco de toma única diária, ajustado à condição económica do doente poderia ser o enalapril 10 mg (MG), 1 comprimido ao pequeno-almoço. 50 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML PASSO 4: Iniciar a terapêutica farmacológica, mas considerar terapêuticas não- farmacológicas Após a escolha do(s) medicamento(s) apropriado(s), cabe ao médico o acto de escrever a receita, podendo decidir se fornece ao doente informação escrita adicional, como são exemplo os guias de tratamento4. Neste processo, algumas regras devem ser seguidas: � Devem ser utilizadas as receitas autorizadas, seguindo as indicações formais existen- tes para o seu preenchimento (deve ser consultada a Portaria n.º 1501/2002, de 12 deDezembro). � As receitas devem ser claras e escritas em português legível, já que, para o doente letrado, permite a sua leitura, compreensão da prescrição e alerta do médico ou outros profissionais de saúde para possíveis erros ou problemas. � Para o doente iletrado, as indicações terapêuticas devem ser dadas utilizando a ajuda de outra pessoa ou, quando isso não é possível, fornecendo um guia de tratamento com símbolos relativos aos diferentes períodos do dia (� - almoço; � - ao deitar, por exemplo), sendo estes também marcados na caixa do medicamento. � Se possível, devem ser eliminadas todas as abreviaturas (tal como "μg" em vez de "microgramas" ou "AAS" em vez de "ácido acetilsalicílico"). Devem ser incluídas por extenso as indicações das tomas antecipadas. Por exemplo, "SOS" deverá ser substi- tuído por "quando necessário". Uma prescrição racional engloba frequentemente terapêutica não farmacológica. Este passo deve ser discutido com o doente, para que entenda a sua importância e para que possa aferir os objectivos que pretendem alcançar. Neste caso, deve o médico construir um FP dos tratamentos não medicamentosos que, baseados em evidência científica, possam alterar a história natural da doença. Considerando o caso clínico apresentado anteriormente, poder-se-ia construir o seguinte FP de medidas não farmacológicas para a prevenção de doenças cardiovasculares: 51 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML • Substituição de gorduras saturadas por insaturadas na dieta (óleo vegetal em vez de banha), ingestão de alimentos ricos em Ómega-3 (peixe ou suplementos de peixe) e dieta rica em fruta, legumes e vegetais, amêndoas e cereais integrais (evitando os cereais refinados) • Exercício físico aeróbio (ou pelo menos actividade física regular) •Cessação tabágica (se for o caso). De seguida serão apresentados alguns exemplos de receita médica correctamente preen- chida e guias de tratamento para doentes letrados e iletrados. Figura 6.1.1. Exemplo de guia de tratamento para o doente iletrado Figura 6.1.2. Exemplo de guia de tratamento 52 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML Figura 6.1.3. Receita médica com exemplos de prescrição incorrecta e correcta PASSO 5: Disponibilizar informação, instruções e avisos No momento da prescrição, o médico deverá alertar de forma sucinta e clara o doente acerca dos objectivos esperados com a terapêutica, dos efeitos adversos mais frequentes ou que interferem de forma importante na qualidade de vida e da relação do efeito do fármaco com determinados alimentos ou períodos do dia4. Quando abordados os efeitos adversos, o médico deve explicar o que são, com que frequência ocorrem, utilizando para isso números absolutos em vez de percenta- gens ou probabilidades: por ex. 20 em 100 (em vez de 20%) doentes irão sentir cansaço. Deve mencionar também em que alturas do tratamento são mais frequen- 1 uma Ácido acetilsalicilico 100mg, comprimidos embalagem grande 1 uma AAS 100, cp, emb. grd. Tomar x comprimidos se sintoma y ✘✘✘✘✘ ✔✔✔✔✔ 53 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML tes e durante quanto tempo provável existirão (durante todo o tratamento, no início, etc.). Se existir algum aviso acerca da perda ou potenciação do efeito terapêutico do fármaco quando ingerido com determinados alimentos, este deve ser transmitido para ser cor- rectamente percebido pelo doente. Por exemplo, evicção de álcool durante a toma de metronidazol, ou a possibilidade de gravidez quando uma mulher toma a pílula conco- mitante com antibioterapia. Os doentes devem ser estimulados a repetir a informação pertinente, sendo aconselhável que lhes seja dada a oportunidade para colocar dúvidas. No caso clínico apresentado, o doente deveria ser informado sobre o fármaco escolhido (enalapril): Objectivos principais: •Redução da pressão arterial • Protecção renal. Efeitos secundários principais: � Tosse não produtiva e persistente: frequência: 5-39% (5 a 39 indivíduos em 100) com desaparecimento habitual 1 a 7 dias após interrupção do tratamento � Hipotensão: efeito de primeira dosagem, ponderar redução de diurético, aumen- to ingestão de sal na semana anterior ao início do tratamento ou vigilância médi- ca 2 horas após a dose inicial � Angioedema: em qualquer período do tratamento, frequência: 0,2% (raro; menos de 2 indivíduos em 1000) e desaparecimento após interrupção do tratamento � Insuficiência renal: frequência de 20% dos doentes (20 indivíduos em 100) com estenose uni ou bilateral da artéria renal; pode ser necessária a redução da dose ou a interrupção do fármaco � Hipercaliémia: frequência de ±1% (1 indivíduo em 100). 54 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML PASSO 6: Monitorização da terapêutica A prescrição racional não termina no momento em que o fármaco é prescrito, já que mesmo um tratamento adequado pode não estar a ajudar o doente. A única forma de confirmar que o fármaco seleccionado é de facto o adequado será pela monitorização da evolução do doente, face ao objectivo terapêutico traçado de início. Há duas formas de a concretizar, sendo óbvia a manutenção do contacto com o doente: � Monitorização Passiva - realizada pelo doente através da elucidação por parte do médico sobre o que deve fazer se o tratamento não for eficaz, se for inconvenien- te ou se ocorrerem demasiados efeitos adversos. � Monitorização Activa - marcação de consultas para determinar se o tratamen- to está a ser eficaz e planear a duração provável da terapêutica: se a duração não é conhecida ab initio, os intervalos entre monitorizações tornam-se mais relevantes, com intervalos iniciais mais curtos espaçando-se progressivamen- te, se necessário. Em doentes a fazer terapêutica de longa duração, três meses parece ser o tempo máximo de intervalo recomendado (dependendo da pato- logia, claro). A monitorização da terapêutica deve ser feita com base em métodos clínicos (história clínica, exame físico), farmacodinâmicos ou farmacocinéticos. Em alguns casos (por ex. aspirina, carbamazepina, digitálicos, ciclosporina, lítio, fenitoína, teofilina, etc.) o con- trolo dos fármacos pode ser conseguido através da monitorização das respectivas con- centrações plasmáticas. No entanto, será maioritariamente através da avaliação da sin- tomatologia e por vezes da evolução laboratorial que chegaremos a conclusões sobre a terapêutica aplicada. Havendo remissão completa da doença aguda, há que cessar a administração do fárma- co. Neste caso o tratamento revelou-se eficaz, não existindo justificação para a sua ma- nutenção. Existem fármacos que devem ser parados de forma gradual, com uma dose decrescente, devido à dependência física ou psicológica criadas (por ex. beta-bloquean- tes, anti-depressivos). De igual sucesso pode ser a terapêutica da doença crónica, mas contrariamente à primeira, e não se verificando efeitos adversos relevantes, deve ser mantida de forma a garantir o contínuo cumprimento do objectivo terapêutico. A mes- ma atitude deverá ser adoptada na doença ainda em remissão. 55 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML No entanto, se houver relato de reacções adversas há que verificar a posologia prescrita e se o doente está a cumpri-la adequadamente pois muitos destes efeitos são dose-de- pendentes. Diminuir a dose é, então, uma tentativa válida antes de se proceder à substituição do fármaco. Se o tratamento não foi eficaz, com ou sem efeitos adversos, o médico terá que verificar: � a precisão do diagnóstico � o fármaco escolhido � a posologia prescrita � as instruções fornecidas no início do tratamento � o grau de cumprimento da terapêutica pelo doente � a adequação da monitorização. O importante será detectar o eventual problema para que, quando encontrado, se reve- ja - se necessário - o processo de diagnóstico, a definição do objectivo terapêutico, a adequação ao doente do fármaco escolhido, as instruções e os avisos. Não encontrando a razão para a não eficácia dotratamento, a interrupção da administração do fármaco, atendendo aos princípios farmacodinâmicos ou farmacocinéticos do mesmo, pode ser uma opção viável. A ausência de adesão terapêutica (especialmente a que o doente oculta ao médico) e a interacção com substâncias farmacologicamente activas (produ- tos naturais ou terapêuticas alternativas, que raramente são comunicadas ao clínico...) são circunstâncias a ter também em linha de conta. Todo este problema atinge especial relevância devido ao facto de se reconhecer que 6,5% das hospitalizações se devem a efeitos adversos da terapêutica farmacológica. Muitos destes doentes são idosos, indivíduos particularmente susceptíveis à polifarmácia e que, em certas séries, podem chegar a fazer uma média 26,5 medicamentos/dia - sendo por isso imperativo as revisões regulares das suas terapêuticas. Torna-se também possível evitar a prescrição em cascata (medicar com novos fármacos efeitos secundários causa- dos por outros que pertencem já à terapêutica diária do doente)4. 56 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML Atendendo agora ao exemplo apresentado, há que conhecer os possíveis efeitos secun- dários da terapêutica com IECAs: • Passivos - tosse e angioedema; hipotensão de primeira toma (já referidos) • Activos - monitorizar: � função renal nas primeiras semanas de tratamento, pois alguns doentes hiperten- sos com estenose da artéria renal uni ou bilateral desenvolvem aumento da crea- tinina plasmática após redução da pressão arterial (20% dos doentes com enala- pril) - pode ser necessário reduzir a dose ou até mesmo parar a medicação � monitorizar a hipercaliémia � monitorizar contagem de leucócitos se insuficiência renal (creatininémia >1.6mg/ dL) ou doença vascular de colagénio. 6.2 Aplicação ao doente individual dos resultados dos ensaios clínicos: regras práticas essenciais Os ensaios clínicos aleatorizados, prospectivos e controlados (randomized clinical trials - RCTs) constituem o gold-standard da metodologia para gerar evidência científica terapêutica37. Na maior parte do tempo as preocupações centram-se na metodologia intrínseca do estudo, por exemplo na comparação entre os grupos em presença ou não da aleatoriza- ção dos participantes (a chamada validade interna), etc. Igualmente importante será a aplicabilidade dos resultados gerados num RCT a populações e/ou doentes individu- ais, diferentes dos analisados nesse ensaio específico. Por outras palavras, como é que o médico sabe quando deve utilizar um determinado fármaco - cuja eficácia e risco foram definidos num ensaio clínico de boa qualidade, isto é, com resultados válidos e impor- tantes - no seu doente individual? A solução mais simples estará encontrada na resposta à questão: "Será que o meu doente poderia ter participado - satisfazendo os critérios de inclusão e exclusão - no referido estudo?" Se a resposta for "sim", então a aplicabilidade dos achados do estudo é possível, ainda que deva ser feita com prudência. Se, pelo contrário, a resposta for "não" então a transferên- cia dos dados terapêuticos poderá ficar comprometida, sendo necessária uma reflexão cuidada sobre a oportunidade de utilizar o fármaco num doente não estudado38. 57 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML É, no entanto, importante relembrar que as eventuais diferenças entre os doentes parti- cipantes num estudo e os doentes da vida real tendem a ser mais quantitativas (diferen- ças nos riscos de base de doença, ou de resposta ao tratamento), do que qualitativas (risco ausente ou nenhuma resposta ao tratamento)39. A avaliação crítica da evidência científica (para qualquer que seja o tema considerado) passa pela definição de um conjunto de regras de análise da qualidade metodológica do estudo que se elegeu como base da prova científica. O quadro 6.2.1 resume as questões a serem respondidas em relação à aplicabilidade dos resultados de um RCT ao doente individual. Quadro 6.2.1 - Regras de avaliação crítica sobre a aplicabilidade dos resultados de um ensaio clínico ao doente individual COMO APLICAR OS RESULTADOS AOS DOENTES INDIVIDUAIS? • existem diferenças biológicas na doença ou no doente que possam diminuir a resposta ao tratamento? • em termos de adesão ao tratamento, existem diferenças significativas entre os do- entes? • em termos de disponibilidade de cuidados, existem diferenças significativas entre o estudo e a vida real? OS BENEFÍCIOS POTENCIAIS SOBREPÕEM-SE AOS RISCOS E CUSTOS? Os critérios de inclusão e exclusão, eventuais análises de subgrupos ou de tipos de intervenções são exemplos de informação para a decisão de tratar os doentes. As diferenças biológicas que podem alterar a resposta o tratamento incluem18: o género (por exemplo, a redução do risco de AVC ou doença coronária com aspirina é superior nas mulheres), existência de co-morbilidades (o tratamento da HTA é mais eficaz nos diabéticos), a raça (os diuréticos são mais eficazes nos indivíduos de raça negra), o grupo etário (a vacinação da gripe é menos eficaz no idoso) e a patologia de base (a eficácia da quimioprevenção do cancro da mama depende da expressão de determina- dos genes). 58 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML Os problemas de adesão terapêutica são naturalmente centrais na decisão de utilizar uma determinada intervenção farmacológica. A adesão dos doentes incluídos num RCT é, por definição, muito alta, mas na prática clínica verifica-se que a maior parte dos doentes não faz a terapêutica prescrita40, pelo que há que garantir um nível de toma de medicação análogo, se se quiser ter um resultado no doente individual semelhante ao verificado no RCT. Também certos tipos de terapêuticas, pelo seu risco (anticoagulação oral, por ex.), só devem ser recomendadas em doentes fiáveis (raramente num alcoólico, por ex., pelo risco de traumatismo craniano frequente que estes doentes apresentam). E a aplicação de novas técnicas terapêuticas? A garantia que um tratamento estuda- do num RCT será eficaz na vida real só pode conseguir-se se a intervenção prática for análoga à estudada no ensaio clínico; caso contrário, podem obter-se resultados diferentes ou mesmo contraditórios. Por exemplo, o estudo multicêntrico RALES, publicado em 199941, avaliou o efeito da terapêutica diária com espironolactona em doentes com ICC grave por disfunção ventricular esquerda. Tratou-se de um RCT duplamente cego, com um seguimento médio de 24 meses e com uma amos- tra de 1.663 doentes com diagnóstico de IC grave há mais de 6 semanas (classe IV pregressa, II-III à entrada), com uma fracção de ejecção <35% nos 6 meses anterio- res e que faziam terapêutica com IECAs (se tolerado) e diuréticos de ansa. Relativa- mente ao outcome primário (mortalidade), houve uma redução estatisticamente significativa de 30% no risco de morte global no grupo da espironolactona. No que diz respeito aos outcomes secundários, houve reduções estatisticamente significati- vas de 31% no risco relativo de morte por causas cardíacas, de 30% no risco relati- vo de hospitalização por causas cardíacas e 32% no outcome combinado de morte ou hospitalização por causas cardíacas. Ocorreram ginecomastia ou dor mamária em 10% dos homens tratados com espironolactona, comparado com 1% dos ho- mens no grupo controlo (p<0,001) e de hipercaliémia grave em 10 doentes (1%) do grupo controlo vs. 14 no grupo da espironolactona (2%) (p=0,42). Concluiu-se que o bloqueio dos receptores da aldosterona pela espironolactona, adicionada à tera- pêutica standard da ICC, reduziu substancialmente o risco de morbilidade e morta- lidade em doentes com IC grave. De posse destes resultados, e após uma massiva campanha promocional da indús- tria farmacêutica, generalizou-se na prática clínica o uso destes fármacos em outros doentes com ICC, mas com quadros clínicos menos graves (classes I e II da NYHA). Esta prática teve consequências desastrosas: num estudo de HOR, publicado 5 anos 59 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE daFML após o RALES42, verificou-se um aumento marcado da combinação farmacológica de um IECA com a espironolactona (quase 4 vezes mais), com consequente aumen- to da taxa de hospitalização por hipercaliémia (2,4/1.000 para 11/1.000 doentes) e de mortalidade global (0,3/1.000 doentes para 2,0/1.000 doentes)! Este exemplo demonstra bem a necessidade de se seguir à risca as intervenções definidas nos ensaios clínicos. Se, numa análise das características biológicas e socioeconómicas, não se detectam impedimentos na aplicabilidade dos resultados de um RCT ao doente individual, então o passo seguinte será calcular o benefício específico para o doente. Este defi- ne-se através do número necessário tratar (NNT), que se calcula como o nº de doen- tes que se têm de tratar durante um determinado período de tempo para evitar um evento pré-definido (morte, AVC, etc.). O NNT é o inverso da redução do risco absoluto (RRA) - que é o risco de base - e deve ser multiplicado por 100 e arredondado para a unidade superior24. Por exemplo: se, quando comparada com placebo, uma terapêutica com diuréticos reduz a taxa de incidência de AVC num período de 5 anos de 20% para 15%, então a RRA é de 5% (20%-15%) e é apenas necessário tratar 20 doentes (1/5 x 100) para se evitar um AVC durante aquele período de tempo. Como é que o clínico define o risco de base do doente (essencial para calcular o benefício da intervenção farmacológica)? De várias maneiras: 1) utilizando a sua experiência individual/intuição próprias (reconhecendo o problema das possí- veis variações das experiências individuais e da informação que cada médico pos- sui) 43; 2) através de RCTs e revisões sistemáticas que tenham definido não só as características da amostra em geral, mas também de eventuais subgrupos de do- entes semelhantes aos que se propõe tratar44; 3) por análise de subgrupos de do- entes incluídos em estudos de prognósticos23; e, finalmente, 4) a utilização de regras de predição clínica, permitindo a determinação do potencial benefício da intervenção em causa, pode revelar-se muito útil na determinação do risco abso- luto dos doentes 45, 46. 60 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML 7 Considerações sobre adesão terapêutica e preferências individuais A adesão terapêutica assume um papel primordial em todos os doentes, principalmen- te nos portadores de doenças crónicas, que se estima tenham um impacto económico mundial de cerca de 65% das despesas empregues em saúde no ano 202040. Por adesão terapêutica entende-se o "grau ou extensão em que o comportamento de uma pessoa, relativamente à toma de medicação, ao cumprimento de dieta e alteração de hábi- tos ou estilos de vida, corresponde às instruções veiculadas por um profissional" 449. A má adesão ao tratamento conduz a efeitos nefastos em termos de saúde pública, embora não seja conhecido o impacto da totalidade do problema ou a sua dimensão real. Contudo, alguns dados são preocupantes e apontam para que nos países desenvol- vidos se estime que o grau de adesão às terapêuticas crónicas seja cerca de 50% e, nos países subdesenvolvidos e em vias de desenvolvimento, ainda menor. Pesquisando ainda mais acerca deste assunto, encontram-se trabalhos que mostram que 6 a 20% dos doentes não aviam as receitas médicas e que 30 a 50% não cumprem o esquema prescrito47. Nos Estados Unidos da América, o impacto da má adesão terapêu- tica faz-se sentir também ao nível da mortalidade (125.000 mortes por ano) e das admis- sões hospitalares (5 a 15% por ano)48. Os termos compliance e adesão terapêutica surgem frequentemente como conceitos dife- rentes, contudo a sua distinção é puramente académica. Podem ser utilizados como sinónimos, desde que se entenda que a ideia subjacente a ambos é uma adopção de instruções médicas, que engloba a concordância, a aceitação e a intervenção activa e voluntária do doente que partilha a responsabilidade do tratamento. Os profissionais de saúde estabelecem um acordo ou uma aliança com o paciente, sem que neste processo se desrespeitem as crenças, os desejos ou se façam juízos depreciati- vos. Uma adesão terapêutica eficaz deve centrar-se na adopção e manutenção de com- portamentos terapêuticos e deve ser avaliada segundo os benefícios clínicos40. 4 Sabate E. Adherence Meeting Report. Geneva: WHO; 2001 61 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML A OMS elaborou em 2003 um documento sobre adesão à terapêutica crónica, deixan- do um conjunto de mensagens base: • a má adesão terapêutica é um problema mundial de grande importância •o impacto de uma adesão deficiente cresce em paralelo com o peso da doença global • as consequências de uma má adesão terapêutica incluem resultados desfavoráveis nos indicadores de saúde, assim como aumento das despesas em saúde • aumentar a adesão do doente individual significa aumentar a sua segurança • a adesão terapêutica constitui um agente modificador importante para os sistemas de saúde • em termos de impacto na qualidade da saúde das populações, é provável que a adesão terapêutica seja superior às potenciais melhorias que se venham a verificar com trata- mentos específicos • os sistemas de saúde devem evoluir, em resposta a novos desafios • os doentes necessitam de apoio, não de repreensões • a adesão terapêutica é influenciada por vários factores simultâneos • as intervenções devem ser específicas, em termos de doentes individuais • a adesão ao tratamento é um processo dinâmico, necessitando de um seguimento cuidadoso • os profissionais de saúde necessitam de treino específico para implementação de uma melhor adesão terapêutica • a família, as organizações de doentes e a comunidade em geral constituem factores- chave de sucesso na melhora da adesão terapêutica • uma boa adesão ao tratamento é fruto de uma abordagem multidisciplinar. Deste modo, cabe a cada profissional de saúde melhorar a sua prática clínica, tentando aumentar as taxas de adesão terapêutica através de normas de orientação simples, efica- zes e baseadas em evidência científica, favorecendo a saúde dos seus doentes e influen- ciando de forma mais lata o vasto problema de saúde pública. 62 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML No quadro 7.1 estão resumidas as recomendações principais para aumentar a adesão terapêutica em doentes com patologias crónicas, retirado de uma Norma de Orienta- ção Clínica publicada pelo CEMBE da FML40. Quadro 7.1 - Recomendações principais para aumentar a adesão terapêutica em patologias crónicas 1. Os profissionais de saúde devem estar em alerta permanente para o problema da má adesão e adquirir técnicas que lhes permitam estimular o aumento da adesão dos doentes às terapêuticas por eles prescritas. 2. Indagar em cada doente em todas as consultas ou avaliações qual o esquema terapêutico prescrito, para quantificação do grau de adesão terapêutica, para além do estado de saúde do doente. 3. As intervenções educacionais são úteis, devendo sempre ser implementadas. No entanto, não devem constituir o único componente do processo destinado a au- mentar a adesão terapêutica. 4. As intervenções comportamentais são eficazes na melhoria da adesão à medicação. 5. A comunicação e o aconselhamento permitem aumentar a adesão ao tratamento. 6. Regimes simplificados de tratamento aumentam a adesão terapêutica e melho- ram os resultados. 7. Dado que, na maioria dos casos, o tratamento das doenças crónicas é auto-admi- nistrado, os doentes devem controlá-lo correctamente. 8. O recurso a estratégias destinadas a incorporar a medicação na rotina diária me- lhora a adesão. 9. Os doentes com patologias crónicas que faltam às consultas devem ser contacta- dos e convocados para uma nova consulta. 10. Os incentivos facilitam um aumento da adesão ao regime terapêutico. 11. As estratégias que combinam intervenções comportamentais e educacionais têm maior sucesso no aumento das taxas de adesão do que cada uma delas individu- almente. Nenhuma estratégia individual tem umaeficácia absoluta em todas as doenças ou doentes. 12. O seguimento dos doentes com patologia crónica deve ser mantido durante um período longo e muitas vezes indefinidamente. 8 Conclusões e recomendações baseadas na evidência Considerar medidas não - farmacológicas 63 Manual de Prescrição Farmacológica Racional - CEMBE da FML 9 Bibliografia 1. Aronson JK. Rational prescribing, appropriate prescribing. British Journal of Clini- cal Pharmacology 2004;57:229-230. 2. Buetow SA, Sibbald B, Cantrill JA, Halliwell S. Appropriateness in health care: ap- plication to prescribing. Soc Sci Med 1997;45:261-271. 3. Thomas LJ, Coleman JJ. The medic's guide to prescribing: rational prescribing. BMJ Stud Ed 2007;15:133-168. 4. 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