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FORMAÇÃO E PROFISSIONALIZAÇAO DOCENTE SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO .................................................................................................... 3 2. A FORMACAO DE PROFESSORES NO ÂMBITO INVESTIGAÇÃO: A SITUAÇÃO DAS PESQUISASA NA ÁREA .............................................................. 5 2.1 Contextualizando o Limiar da Investigação.......................................................... 5 3. A FORMAÇÃO DE PROFESSORES NO ÂMBITO DO ENSINO ........................ 9 3.3.1 Formação Complementar ..................................................................... 19 3.3.2 Formação Continuada .......................................................................... 25 Referências .............................................................................................................. 42 1. INTRODUÇÃO O ser professor, no contexto atual, exige certa ousadia aliada a diferentes saberes. Na era do conhecimento e numa época de mudanças, a questão da formação de professores vem assumindo posição de urgência (PERRENOUD, 2001) nos espaços escolares. Nessa perspectiva, a formação continuada associa-se ao processo de melhoria das práticas pedagógicas desenvolvidas pelos professores em sua rotina de trabalho e em seu cotidiano escolar. Além disso, a formação relaciona-se também à ideia de aprendizagem constante no sentido de provocar inovação na construção de novos conhecimentos que darão suporte teórico ao trabalho docente. O professor é um profissional que domina a arte de reencantar, de despertar nas pessoas a capacidade de engajar-se e mudar. Neste aspecto, entende-se que a formação do professor é indispensável para a prática educativa, a qual se constitui o lócus de sua profissionalização cotidiana no cenário escolar. Desse modo, compreender a formação docente incide na reflexão fundamental de que ser professor é ser um profissional da educação que trabalha com pessoas. Essa percepção induz este profissional de educação a um processo permanente de formação, na busca constante do conhecimento por meio dos processos que dão suporte à sua prática pedagógica e social. Neste sentido, a educação é um processo de humanização e, como afirma Pimenta (2010), é um processo pela qual os seres humanos são inseridos na sociedade. Aqui, cabe lembrar Freire (1996) ao expressar que o ensinar não se limita apenas em transferir conhecimentos, senão também no desenvolvimento da consciência de um ser humano inacabado em que o ensinar se torna um compreender a educação como uma forma de intervir na realidade da pessoa e do mundo. E ainda de acordo com Demo (2000), a pedra de toque da qualidade educativa é o professor visto como alguém que aprende a aprender, alguém que pensa, forma-se e informa- se, na perspectiva da transformação do contexto em que atua como profissional da educação. Pensa-se na formação continuada como atitude fundamental para o exercício profissional docente no intuito de estimular a busca do conhecimento e o aprimoramento da prática pedagógica. Um olhar atento a seu respeito poderá contribuir para futuras pesquisas e servir de base para a formação docente permanente, em vista de um trabalho social e humanizado. 2. A FORMACAO DE PROFESSORES NO ÂMBITO INVESTIGAÇÃO: A SITUAÇÃO DAS PESQUISASA NA ÁREA 2.1 Contextualizando o Limiar da Investigação As orientações apresentadas nas Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais da Educação Básica sustentam que é necessário “[...] problematizar o desenho organizacional da instituição escolar, que não tem conseguido responder às singularidades dos sujeitos que a compõem” (BRASIL, 2013, p. 16). Dessa forma, além de se fazer necessária a implementação de uma educação que motive os sujeitos a serem participativos social, política e culturalmente, é importante que se promovam sujeitos criativos e “capazes de intervir e problematizar as formas de produção e de vida” (idem, p. 16). Dentre as ações sugeridas, a formação de professores tem sido considerada um dos eixos centrais para as mudanças pretendidas e, com isso, torna-se premente a necessidade de repensar a estrutura curricular dos cursos de licenciatura e as ações formativas em serviço (GATTI, 2010; IMBERNÓN, 2011; NÓVOA, 2012). Nesse contexto, vários autores têm apontado a inserção da investigação como princípio educativo no desenvolvimento profissional docente, já que proporciona a reflexão do fazer em uma permanente problematização de suas atividades (HERNÁNDEZ, 1998; DEMO, 2002; IMBERNÓN, 2011). As Diretrizes Curriculares Nacionais incentivam a postura investigativa dos professores quando sustentam que “[...] a transformação necessária pode ser traduzida pela adoção da pesquisa como princípio pedagógico” (BRASIL, 2013, p. 163). 2.2. Algumas Concepções sobre a Pesquisa como Princípio Educativo A educação tem se constituído como uma das formas dominantes de socialização nas sociedades modernas nos últimos dois séculos (GATTI, 2010). Ela, em conjunto com outros aspectos da cultura e da sociedade, influencia a visão de vida de cada um, as aspirações, ideais e formas de participação social. Em função desses aspectos, aponta-se para a redefinição da docência como profissão, uma necessária renovação da instituição educativa que engendre “novas competências profissionais no quadro de um conhecimento pedagógico, científico e cultural revistos” (IMBERNÓN, 2011, p. 12). Torna-se fundamental a formação de professores que sejam profissionais capazes de incentivar e promover educação para o contexto atual e estejam envolvidos e comprometidos, cientes de que têm uma parcela de responsabilidade pelas características que a sociedade tem assumido. Isso tudo nos leva a valorizar a aprendizagem da relação, a convivência, a cultura do contexto, a capacidade de interação com os demais colegas e com a comunidade que envolve a educação. Segundo Imbernón (2011), quando se dedicam a ser pesquisadores, “os professores colaboram mais uns com os outros aprendendo a ser professores melhores sendo capazes de transcender o imediato, o individual e o concreto” (p. 81). A formação docente para a atitude investigativa nas perspectivas teórica e prática é necessária (IMBERNÓN, 2011). O debate, a reflexão, os diversos pontos de vista e a análise do contexto escolar dentro da realidade social são aspectos necessários para os professores planejarem e implementarem suas práticas. A formação também deve caracterizar-se pela prática de fazer-se professor, em “[...] processos de pesquisa colaborativa para o desenvolvimento da organização, das pessoas e da comunidade educativa que as envolve” (IMBERNÓN, 2011, p. 72). Significa a abertura para reorientar a própria prática colocando em questão suas percepções e interpretações, aprendendo sobre seus colegas, alunos e sobre si mesmo, em uma atitude de escuta dos outros, da realidade. Algumas investigações demonstram a importância da inserção da pesquisa na formação (inicial e continuada) de professores. Por exemplo, Bello e Breda (2007), no intuito de investigar os saberes, as práticas e as dificuldades pedagógicas de alunos da licenciatura em Matemática quando estes realizavam seus estágios de docência, concluíram que, além de abordar as práticas tradicionais de regência de classe e de ensino de matemática durante o processo de formação inicial, faz-se necessário incorporar, em âmbito curricular, a realização de atividades de pesquisa (no sentido de envolver atividades de observação e de indagação do perfil, das expectativas, das demandas, das crenças, dos preconceitos, dos valores, da ética da comunidade escolar como um todo), ensino e extensão em torno da realidade educacional, e esses aspectos devem ser os precursores da constituição desaberes docentes. No âmbito da formação continuada, o trabalho de Flores, Rocha Filho e Samuel (2015), no intuito de analisar as contribuições de uma disciplina de Ciências (na modalidade a distância) do curso de licenciatura em Pedagogia, verificou que a disciplina motivou reflexões a partir das trocas de experiências dos participantes, relatadas no fórum de discussões da disciplina, o que gerou possibilidades de ressignificação da própria prática pedagógica e ampliou os conhecimentos de Ciências e seu ensino. Para que o professor incorpore a pesquisa em sua prática, é necessário que ele tenha desenvolvido as competências para isso em sua formação. Daí a necessidade de, nos currículos das instituições formadoras, estar presente a meta de se desenvolverem atitudes investigativas nos futuros docentes. “A fundamentação deste modelo encontrasse na capacidade do professor de formular questões válidas sobre sua própria prática e se prefixar objetivos que tratem de responder a tais questões” (IMBERNÓN, 2011, p. 77). Essas constatações orientam para que o professor seja pesquisador, maneje a pesquisa como princípio científico e educativo e a tenha como atitude cotidiana (DEMO, 2002). Nesse contexto, entende-se que a base da educação não é a aula, mas sim a pesquisa. Para Demo (2002), pesquisa e educação coincidem, já que a característica emancipatória da educação e da produção de conhecimentos exige pesquisa. Nicolini (2005, p. 117) afirma que “a educação só melhorará se todos tivermos a consciência de que é preciso ser um professor pesquisador de sua prática”. A via da investigação é caracterizada por processos reconstrutivos, de busca, de formação de argumentos e conjecturas e de diálogo, tipicamente de dentro para fora (DEMO, 2007). Nesse contexto, a formação deve também alertar para situações sobre as quais o professor não terá total controle, ao contrário do que ocorre nas atividades de transmissão de conteúdo. Isso requer do professor maior preparação em relação: à sua área de conhecimento, aos processos de ensino e aprendizagem e ao conhecimento do ambiente escolar como um todo. Dessa forma, as noções de incompletude, inacabamento e incerteza estão presentes e podem gerar algum desconforto quando se esperam resultados bem definidos (MORAES, 2004). No entanto, estar disposto a aceitar essas noções como inerentes à profissão, à própria vida e à natureza significa estar aberto para o novo, para a invenção, para ser surpreendido e desafiado pelos alunos. Para Hernández (1998), a investigação como princípio formativo motiva para que as práticas tornem-se desafiadoras e instiguem a curiosidade para novas formas de interpretar a realidade em relações intersubjetivas, podendo-se, assim, questionar qualquer forma de pensamento único, “[...] suspeitando de realidades baseadas em verdades estáveis e objetivas” (HERNÁNDEZ, 1998, p. 33). Esses elementos, brevemente abordados, compõem algumas das competências docentes para o exercício da profissão e deveriam estar presentes nos programas de formação dos cursos de licenciatura. No entanto, o que se constata é que na maioria dos currículos dos cursos há predominância de carga horária dedicada às áreas de conhecimento, ficando as questões ligadas à docência com uma pequena parcela do total das horas (GATTI, 2010). Essas constatações levaram-nos à procura de projetos de formação de professores que contemplassem a pesquisa como princípio, pois, por essa via, acreditamos na possibilidade de aprendizados significativos. 3. A FORMAÇÃO DE PROFESSORES NO ÂMBITO DO ENSINO 3.1. Fundamentos da Formação Docente Há décadas discute-se em congressos, seminários, cursos e outros eventos semelhantes, qual a formação ideal ou necessária do professor do ensino básico (fundamental e médio), numa demonstração ostensiva de insatisfação generalizada com relação aos modelos formativos vigentes, principalmente nos cursos de licenciatura. No entanto, dessa ampla e continuada discussão, não têm emergido propostas que ultrapassem o nível de recomendações abstratas sobre a necessidade de "sólida formação dos educadores", da "integração de teoria e prática", da "interdisciplinaridade" etc. É claro que sugestões dessa natureza são capazes de entreter colóquios e debates, mas a sua utilidade não vai além desses efeitos retóricos. Nessas discussões, quase sempre se parte de uma noção vaga e impressionista de "escola brasileira", caminha-se para a afirmação da necessidade de uma "política nacional de formação de professores" e, em seguida, desenha-se o "perfil profissional" desses professores por meio de um arrolamento de competências cognitivas e docentes que deveriam ser desenvolvidas pelos cursos formadores. Embora esse traçado das discussões seja um pouco simplificado, ele capta duas tendências sempre presentes no encaminhamento do tema da formação de professores: o vezo centralizador das normas gerais e a fixação na figura individual do professor. Com relação à primeira tendência, talvez seja sensato convir que, num país com tão grandes diferenças econômicas, sociais e culturais, a única política nacional de formação de professores deva ser uma simples indicação de rumos, tal como a própria LDB já fez. Ultrapassar esse limite e tentar estabelecer normas gerais pode acabar conduzindo à formulação de um modelo abstrato inviável na ampla variedade da situação nacional. Quanto à segunda tendência, o problema é ainda mais grave porque as discussões e propostas que surgem em congressos, seminários e outros eventos têm se detido na caracterização da figura abstrata de um profissional dotado de determinadas qualidades como sendo um ideal de formação. Nessa linha, as preocupações sobre a formação docente aproximam-se da concepção de Comênio (Didática Magna, 1657), segundo a qual o "bom professor" seria aquele capaz de dominar a "arte de ensinar tudo a todos". Comênio, como um baconista convicto, tinha uma profunda confiança no poder do método, achava possível que a arte de ensinar fosse codificável num conjunto de prescrições cuja observância estrita faria de uma pessoa interessada um professor competente, ele queria implantar no campo da educação a reforma pretendida por Bacon no domínio das ciências. Como para Bacon fazer ciência era aplicar um método, Comênio imaginou que ensinar era também a aplicação de um método. Contudo, quando Comênio falava em método de ensino era no sentido claro e forte de uma transposição para a educação da concepção baconiana de método científico. Essa ideia, embora equivocada, pois respaldava-se numa discutível analogia entre o desenvolvimento do conhecimento individual e o desenvolvimento social da ciência, sobreviveu pelo menos até os trabalhos de John Dewey, neste século. Mas, nos últimos tempos, essa vinculação direta entre método de conhecimento e método de ensino teve o seu significado original substituído por uma pletora de metáforas sobre conhecimento das quais se fazem enigmáticas ilações sobre ensino. No que diz respeito às propostas de formação docente, o estado de coisas está tão desarranjado que, quando se fala em metodologias e estratégias de ensino, não se consegue discernir entre possíveis relações conceituais entre conhecimento, ensino e valores e hipotéticas relações entre capacidade de aprender e supostas fases de desenvolvimento psicológico. Enfim, nem sempre se procura e se consegue distinguir entre o que são exercícios de um jargão na moda daquilo que tem respaldo em investigações teóricas e empíricas. A ideia de que ensino eficaz é basicamente a aplicação competente de um saber metodológico, epistemologicamente fundamentado em outros saberes, principalmente de natureza psicológica, é altamente discutível. Teorias da aprendizagem, da inteligência e do desenvolvimento cognitivo eemocional da criança e do adolescente aparecem, entram em moda e saem de moda. Pouco há de seguro, nessas áreas do conhecimento, que permita fundamentar a formação do professor. Além disso, é preciso ainda chamar a atenção para o fato de que tentativas de derivar regras práticas de teorias científicas são, na maior parte das vezes, exercícios claudicantes do ponto de vista lógico, por desconsideração das complexas questões implicadas no trânsito entre o conhecimento de fatos e possíveis regras que consistiriam numa aplicação desse conhecimento. Essas duas dificuldades — a insuficiente comprovação empírica de teorias disponíveis sobre as várias dimensões do fenômeno educativo e o embaraço lógico de derivar dessas teorias recomendações metodológicas inequívocas — sugerem que talvez não convenha alicerçar a formação de docentes sobre terreno tão movediço. Mas, além dessas questões científicas e lógicas, é preciso levar em conta que, mesmo naqueles casos em que reiteradas comprovações empíricas parecem dar sustentação e credibilidade a algumas teorias ou hipóteses científicas, permanece a questão propriamente educacional de saber se uma determinada atuação pedagógica deve ser posta em prática apenas porque teria algum respaldo científico. O valor de programas educacionais exige uma avaliação mais abrangente. Enfim, a validade científica de uma teoria não constitui base suficiente para formulação de diretrizes educativas que sempre exigem opções entre valores. Pense-se, por exemplo, na educação sexual, que jamais poderá ser conduzida a partir apenas de informações sobre desenvolvimento e fisiologia do sexo. Esse é o ponto que realmente importa. A adequada formação do professor não pode ser imaginada como a simples e direta aplicação à situação de ensino de um saber teórico. Não se trata de substituir uma orientação psicológica por outra nem de ampliar os estudos de ciências sociais como a Sociologia, a Antropologia e outras. O ponto de vista pedagógico não é uma soma de parcelas de saberes teóricos que, embora necessários, nunca serão suficientes para alicerçar a compreensão da situação escolar e a formação do discernimento do educador. Nesses termos, é claro que não há fórmulas prontas para orientar essa formação, mas o próprio conceito de vida escolar é básico para que se alcance esse discernimento. Aliás, Scheffler, no livro A linguagem da educação (Saraiva/EDUSP, 1974, p. 45), após examinar os enganos lógicos das tentativas de derivar diretrizes educacionais de concepções filosóficas de homem, mostra que Uma observação análoga vale para a transferência de definições da ciência para a educação, transferência essa cujos perigos já notificamos. Observamos que as definições científicas estão em continuidade com as teorias e com as evidências próprias aos seus domínios respectivos, e que o melhor, portanto, é que sejam tratadas à parte. (...) Elas devem ser julgadas, grosso modo, pela contribuição que fazem à adequação das suas respectivas redes científicas com relação à explicação dos fatos. Segue-se daí que adotar uma definição científica para uso programático não significa evitar a necessidade de uma avaliação do programa que esse uso veicula. A adequação científica de uma definição não é um signo do valor prático de tal programa (...). Além das considerações anteriores, uma outra crítica muito grave que se pode fazer às diferentes propostas de bases teóricas da formação docente está na unanimidade que apresentam ao focalizar a figura individual do professor. Traçar o perfil profissional do professor, detentor de determinadas competências cognitivas e docentes, é um exercício pedagógico para esboçar um "retrato imaginado" do que seria o professor universal. Esse exercício seria tão útil para a educação quanto a descrição do "espírito científico" para a ciência. 3.2 A "Natureza" da Relação Pedagógica A maciça expansão das matrículas no ensino fundamental desde há trinta anos, e no ensino médio mais recentemente, inviabilizaram uma concepção da atividade de ensino fundada na relação professor-aluno, na qual a imagem do "bom professor" era basicamente a daquele profissional que dominava um saber disciplinar que seria transmitido a um discípulo. O êxito desse ensino dependia — pensava-se — de uma combinação de conhecimento disciplinar e de preparo didático do professor. No quadro dessa concepção, nasceram e permaneceram durante muitos anos os cursos de licenciatura no ensino superior brasileiro e em outros países. No Brasil, a explosiva expansão do ensino de 1º grau, desde 1971, exigiu também a expansão acelerada dos cursos de licenciatura que simplesmente disseminaram o modelo associado a essa concepção. Refletindo em grande parte as aflições norte-americanas com a corrida espacial no final da década de 50, houve uma forte preocupação com a qualidade do ensino de ciências, de matemática e, por contaminação, com a das demais disciplinas no ensino fundamental e médio. Por razões que ainda não estão suficientemente estudadas, essa pretendida qualidade foi interpretada como uma questão a ser resolvida metodologicamente, por meio de procedimentos de ensino supostamente mais eficazes porque seriam apoiados em teorias psicológicas do desenvolvimento e da aprendizagem. O impacto dessas ideais influiu fortemente nos cursos de licenciatura, ampliando substantivamente o espaço curricular de disciplinas vinculadas às temáticas específicas de feição metodológica e psicológica. Obviamente, tudo isso reforçou uma concepção de ensino preceptorial fundada numa relação pessoal entre professor e aluno. O fulcro do problema, que ainda permanece, está no caráter abstrato da concepção da relação pedagógica como se ela fosse uma relação entre dois — aquele que ensina e aquele que aprende —, abstraída do contexto institucional. Ao considerar que a relação pedagógica pode ser orientada a partir de teorias que pretendem descrever e explicar a natureza do conhecimento, que o professor ensina, e a natureza da aprendizagem, que o aluno desenvolve, essa ideia ganha a fisionomia de um jogo abstrato entre parceiros abstratos: o preceptor e o discípulo. Na escola contemporânea, seja ela pública ou privada, o professor individual que ensina e o aluno individual que aprende são ficções; seres tão imaginários quanto aqueles a que se referem expressões como "homo oeconomicus", "aluno médio", "sujeito epistêmico" e outras semelhantes. Não se trata de discutir a necessidade teórica ou prática de conceitos gerais abstratos, mas a utilidade que eles possam ter para fundamentar e orientar práticas docentes que devem ocorrer em situações escolares concretas muito diferentes entre si. No atual quadro histórico — de ascensão das massas a uma educação cada vez mais ampliada — não há lugar para essa visão elitista e petrificada da relação pedagógica. Aliás, desde sua origem, a relação pedagógica preceptorial foi uma condição distintiva das elites, embora, ao longo dos séculos, tanto o preceptor como o seu discípulo tenham sido figuras sociais diferentes; num momento, eram o monge e o noviço, num outro, o cavaleiro e o pajem, num outro ainda, o homem de letras e o príncipe da casa real ou o filho do nobre etc. A relação pedagógica preceptorial nunca foi, na verdade, uma relação escolar, isto é, o seu contorno social natural não era a escola, mas a casa, o convento, o castelo etc. Há algumas décadas, no Brasil principalmente, para a nascente e escassa escola pública pretendeu-se — e se conseguiu, em parte — transplantar um estilo de relacionamento pedagógico que era, no seu aspecto geral, uma espécie de "preceptorado coletivo". Hoje, porém, a grande expansão do ensino fundamental deu origem a um tipo de escola que é uma novidade institucional, na qual as relações pedagógicas possíveis não podem ser modeladas a partir apenas demétodos e procedimentos de alguém que ensina e de habilidades, competências e qualidades psicológicas de alguém que aprende. A própria relação preceptorial desapareceu como instituição educativa, mas não sem deixar vestígios numa concepção idealizada da relação pedagógica. No entanto, essa contraposição entre a figura do preceptor e a do professor não pode ter uma interpretação simplificada, que consistiria na ideia de que aquele estaria apenas empenhado numa relação de ensino individual, enquanto este, numa relação de ensino coletivo. Essa passagem do ensino de feição preceptorial para o ensino escolar é muito complexa e não se reduz à questão didática de um ensino individualizado versus um ensino coletivizado. Essa redução seria fruto de uma confusão entre individual e privado e entre coletivo e público, obscurecendo o fato essencial de que o preceptor era um agente da família e a escola é um agente social. Como disse Hannah Arendt (Entre o passado e o futuro, Perspectiva, 1972, p. 238-9), a escola é: a instituição que interpomos entre o domínio privado do lar e o mundo com o fito de fazer que seja possível a transição, de alguma forma, da família para o mundo. Aqui, o comparecimento não é exigido pela família, e sim pelo Estado, isto é, o mundo público, e assim, em relação à criança, a escola representa em certo sentido o mundo (...). O preceptor atuava em nome da família, o professor atua na escola (estatal ou particular) em nome de um mundo público. Por isso, não é suficiente contrapor o caráter individual do ensino preceptorial ao caráter coletivo do ensino escolar. A escola contemporânea é, pois, uma novidade social e cultural. Nesse novo espaço institucional, o desempenho do professor não mais pode ser pensado como uma simples questão de formação teórica de alguém que ensina, como também o desempenho do aluno não mais pode ser considerado como uma simples questão de motivação e de esforços individuais. A escola de hoje é uma ruptura com a escola do passado, sempre inspirada numa visão preceptorial da relação pedagógica. Analogamente, a família contemporânea é uma novidade social e cultural em comparação com a família de algumas décadas atrás. As relações entre pais e filhos, nessa nova situação, não podem tomar como modelo aquelas vigentes no passado. Tanto no que diz respeito à escola como no que se relaciona com a família houve mudanças e rupturas institucionais. Descrever esse quadro como sendo de crise é uma apreciação valorativa que pode ser um descaminho teórico de análise e de investigações empíricas e, por isso mesmo, conducente a sérios equívocos na fixação de diretrizes de atuação na esfera pública ou privada. A emergência de novidades não é necessariamente uma indicação de crises institucionais, mas talvez apenas de mudanças sociais inerentes aos quadros da sociedade contemporânea. No caso da escola, haveria crise se o mundo escolar, que tem uma subcultura própria, permanecesse imobilizado num momento que é caracterizado por fortes mudanças sociais e culturais. A escola básica de hoje não é, pois, um retrocesso com relação à escola de ontem. É uma outra escola, principalmente por ser altamente expandida, e suas alegadas deficiências precisam ser enfrentadas por um esforço permanente de investigação e busca. Nesse quadro, a questão da formação docente não será convenientemente encaminhada se insistirmos na busca alquímica de panacéias pedagógicas. Não há dúvida de que o professor deve ser um profissional competente, mas não há uma "estrada real" para conseguir esse desiderato. "Escola brasileira" é uma expressão excessivamente abstrata para ter poder descritivo; consequentemente, uma política nacional de formação docente poderá ser um malogro se ignorar a imensa variedade da situação escolar brasileira. As instituições formadoras de docentes têm de ver nessa variedade o ponto de partida para formular suas propostas. Diferentemente de outras situações profissionais, o exercício da profissão de ensinar só é possível no quadro institucional da escola, que deve ser o centro das preocupações teóricas e das atividades práticas em cursos de formação de professores. O professor precisa ser formado para enfrentar os desafios da novidade escolar contemporânea. Nessas condições, qualquer proposta de formação docente deve ter um sentido de investigação e de busca de novos caminhos. A premência do problema educacional não justifica o apressamento de soluções, que devem ter sempre o caráter de tentativas. Nos casos dos cursos de licenciatura, em face dos desafios desse novo quadro institucional, não há respostas teóricas ou modelos práticos que possam orientar com segurança qualquer esforço de renovação de currículos, programas e métodos. A única certeza é que não há certezas. Novas propostas de formação docente devem partir do próprio conceito de escola, não apenas como é formulado pela eventual contribuição de teorias da Sociologia, da Antropologia, da Administração e de outras áreas do conhecimento que se propõem descrever e explicar os "fatos" da vida escolar, mas também pelo desenvolvimento de um ponto de vista pedagógico que leve em conta esses fatos na ordenação desejável das atividades escolares. Comunidades sociais como igrejas, partidos políticos, Forças Armadas, associações culturais ou recreativas e outras têm semelhanças com a escola básica porque, como esta, são instituições empenhadas, de alguma forma, num esforço de ensino e de transmissão cultural. Mas a escola tem um traço que a singulariza: a escolarização básica, que alcança a todos numa sociedade democrática, deve deixar- se impregnar extensivamente pela herança cultural e não pela parcialidade de propósitos doutrinários, ideológicos ou de cultivo e de preparação para atividades específicas. Outro traço distintivo da escola é que ela sempre tem endereço e vizinhança, o que afeta profundamente a sua convivência social interna, muito além do que é possível ou desejável em outras instituições. Cada escola, mesmo quando integra um sistema, desenvolve uma comunhão espiritual a partir do seu enraizamento numa situação local. Como disse M. Oakeshott, a ideia de 'escola' é a de uma comunidade histórica de professores e alunos, nem muito grande nem muito pequena, com tradições próprias que dão origem a lealdades, obrigações e sentimentos dedicados a iniciar sucessivas gerações de recém-chegados à condição humana (Education: The engagement and its frustration. In: Education and the development of reason, Dearden, R.S. (org), Routledge e Kegan Paul, Londres, 1972, p. 26). O ponto de vista pedagógico não deve, pois, ser uma tentativa de aplicação de conhecimentos auferidos em possíveis descrições e explicações de "fatos" escolares, mas um esforço de compreensão da escola como um projeto institucional para transformar uma comunidade de professores e alunos onde ocorrem encontros de gerações numa comunidade espiritual fundada numa visão ética cujos efeitos educativos se prolongam além dos anos de escolaridade. 3.3 A Formação de Professores Formação de professores é um termo amplo, que pode se referir tanto à formação básica quanto à formação complementar ou continuada. 3.3.1 Formação Complementar No Brasil, hoje, a formação institucional de docentes compreende vários modos de fazê-la. A primeira e a mais antiga é a do Curso Normal em nível Médio. Essa maneira profissionaliza docentes para atuarem em estabelecimentos de educação infantil e dos quatro primeiros anos de escolaridade. Esse formato continua vigente. Após 1996, com as novas Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), Lei n. 9.394/96, criou o Curso Normal Superior com os mesmos objetivos do curso normal médio, mas com formação superior. Esse curso, segunda possibilidade de formação, deve se situar nos Institutos Superioresde Educação (ISE). A partir dos anos 80, muitas universidades passaram a oferecer, dentro dos cursos de Pedagogia, a modalidade que habilita os formados para lecionar na educação infantil e nos quatro primeiros anos da escolarização. É a terceira possibilidade. Para os anos subsequentes aos quatros primeiros anos, há exigência dos cursos de Licenciaturas para as disciplinas específicas tais como a língua e literatura, a matemática, a geografia, a história, a física, a química, as artes, a filosofia, a sociologia e a biologia, entre outras. É a quarta possibilidade. Existe também, em casos especiais, a possibilidade de uma formação pedagógica para bacharéis que queiram se dedicar à educação escolar e em cujos 2 locais de atuação não haja professores habilitados em licenciaturas. É uma possibilidade que deve ser vista como excepcional. Contudo, essa apresentação sumária e descritiva deve ser vista de um modo amplo e contextual. O modelo institucional de formação docente no Brasil sofreu, nos últimos anos, modificações significativas. As associações científicas e os estabelecimentos universitários -- com a elevação do número de professores portadores do diploma de doutor ou de mestre --, passaram a contar com pesquisas avançadas (nacionais e internacionais) no assunto, questionando o status quo da formação existente e propondo alternativas. A circulação internacional, propiciada pelo sistema nacional de pós- graduação, pela rapidez dos novos meios de comunicação e de informação, pela presença em congressos e eventos, foi fator determinante para novos pontos de vista. Também o ordenamento jurídico conheceu alterações a partir da Constituição Federal de 1988 e da Lei de Bases da Educação Nacional (LDBEN) que formalizaram uma série de mudanças legais entre as quais a maior autonomia dos estabelecimentos na definição curricular. Vale considerar também a hermenêutica das leis dada pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), criado pela Lei 9.131/95. Além disso, a prática revelou experiências e projetos levados adiante pelas instituições de ensino superior, especialmente, nas universidades públicas. Para se entender esse processo, faz-se necessário conhecer um pouco mais do Brasil, de sua organização político – administrativa e de aspectos contextuais significativos. Esses aspectos, aqui denominados preliminares, devem servir de referência para um esboço de contextualização. - Formação Docente no Brasil: pressupostos e contexto O primeiro pressuposto é não ignorar a situação do Brasil em matéria socioeconômica e vê-lo como suscetível de superar, por meio de políticas sociais redistributivas e de reconhecimento, suas desigualdades sociais, discriminações étnicas e disparidades regionais. Afirmar a relação entre o contexto socioeconômico e a educação é não abster-se de um realismo indispensável para uma política educacional emancipatória. Nesse sentido, não é novidade que nem a educação escolar foi prioridade de governos nacionais e regionais durante séculos e nem as heranças dessa situação foram eliminadas. Sabe-se o quanto a alta concentração da renda em camadas privilegiadas é perversa para o desenvolvimento social. O impacto dessa situação sobre as camadas populares e sobre o corpo docente é altamente negativo e interfere no acesso, na permanência e na qualidade da escolaridade oferecida. O segundo pressuposto a ser analisado é o conceito de educação básica. Trata-se de um conceito avançado, pelo qual o olhar sobre a educação ganha uma nova significação e estrutura. A Constituição Federal de 1988, cujo avanço em matéria de direitos é inequívoco, e a LDBEN assumiram este conceito. O art. 21 da LDBEN o define um nível da educação nacional com três etapas sucessivas: a educação infantil, o ensino fundamental e o ensino médio. A educação infantil, primeira etapa da Educação Básica, se subdivide em creche (de zero a três anos) e pré-escola (de quatro a cinco ou de quatro a seis anos). Já o ensino fundamental, atribuição de Municípios e Estados, é gratuito em escolas públicas, obrigatório para todos (na faixa de sete a quatorze anos), pode iniciar-se aos seis anos.3 O ensino médio, etapa conclusiva da educação básica, competência dos Estados, é gratuito nos estabelecimentos estatais e vai dos quinze aos dezessete anos sendo progressivamente obrigatório. Segundo o Plano Nacional de Educação, em 2011, o ensino médio deverá ser universalizado e obrigatório para a faixa dos quinze aos dezessete anos. A educação básica é direito do cidadão e dever do Estado, mas a obrigatoriedade inarredável do Estado, da família e do indivíduo – cidadão é inerente apenas do ensino fundamental é direito público subjetivo. A LDBEN, no art. 22, estabelece os fins da educação básica: A educação básica tem por finalidade desenvolver o educando, assegurar- lhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhe meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores. Esse conceito, original e amplo, em nossa legislação educacional, é fruto de muita luta e de esforço histórico por parte de educadores. Sua intencionalidade maior está posta no art. 205 da Constituição Federal: A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. A formação docente está diretamente intencionada a essas etapas. Na educação infantil e nos 4 primeiros anos do ensino fundamental estão habilitados a exercer o magistério os formados no curso normal médio, ou no curso normal superior ou em faculdades de pedagogia quando essas explicitamente contenham essa habilitação. Já nos 4 últimos anos do ensino fundamental e nos anos do ensino médio só podem exercer aí o magistério os formados em licenciaturas ou, excepcionalmente, os que fizeram a formação pedagógica. Um terceiro pressuposto resulta, então, da mola insubstituível que põe em marcha este direito a uma educação básica: a ação responsável do Estado e suas obrigações correspondentes. Sendo a educação escolar um serviço eminentemente público da cidadania, a nossa Constituição a reconhece como o primeiro dos direitos sociais e como dever do Estado, no seu artigo 6º. São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição. Quando autorizada pelo Estado a oferecer este serviço, a instituição privada pode prestar esse serviço de caráter público inerente à educação escolar (finalidade) ainda que sendo pessoa jurídica de direito privado (meio). Um quarto pressuposto se refere ao caráter federativo do Estado Nacional Brasileiro. O Brasil, Estado Democrático de Direito, é um país federativo. E um país federativo supõe o compartilhamento do poder e a autonomia relativa das circunscrições federadas em suas áreas de competências próprias. Outra característica de uma organização federativa é a não centralização do poder em um único locus ou seja: um certo grau de unidade convive com o partilhamento relativo de poderes sem amordaçar a diversidade. E, na forma federativa adotada pela CF/88, com 27 Estados e mais de 5.500 Municípios, a realização do sistema federativo deve(ria) se dar por um regime de cooperação recíproca constitucionalmente prevista. Sem esse regime cooperado recíproca que inclui a divisão de tributos, dificilmente o Brasil poderá encontrar os caminhos para superar os problemas que o atingem. E sem a compreensão do federalismo, dificilmente se poderá entender os modelos institucionais de formação docente. O Brasil é, pois, uma República Federativa formada pela União indissolúvel dos Estados, Municípiose Distrito Federal, todos entes federativos e autônomos em suas áreas de competências. Para dar conta deste modelo federado e cooperativo, a Constituição compôs um ordenamento jurídico complexo no qual coexistem as finalidades gerais e comuns com competências privativas de cada ente federativo, competências concorrentes entre si, com a eventual possibilidade de delegação de competências. Junto a essas, associam-se também as competências comuns a todos os entes federativos. Percebe-se, pois, que, ao invés de um sistema hierárquico/dualista, comumente centralizado, a Constituição Federal montou um sistema de repartição de competências e atribuições legislativas entre os integrantes do sistema federativo, dentro de limites expressos, reconhecendo a dignidade e a autonomia próprias dos mesmos enquanto poderes públicos e a necessidade da cooperação recíproca e entendimento mútuo entre os entes federativos. No caso da educação escolar, a Constituição não optou por criar um sistema nacional de educação ou um sistema único. A escolha foi por uma pluralidade de sistemas de ensino (art. 211) cuja articulação mútua exige uma engenharia consociativa por meio de finalidades gerais e respeito às competências. Temos quatro sistemas de educação: o federal, os estaduais, os municipais e o distrital. As leis nacionais com suas normas e diretrizes gerais devem ser acatadas por todos os sistemas. A situação educacional do país, em contraste com os benefícios que a educação propicia e em contradição com os valores sustentados por uma legislação avançada, se revela excludente. 3.3.2 Formação Continuada A formação de professores tem se revelado tema de discussões seja no que diz respeito à discussão de problemas educacionais, seja no que concerne à busca de soluções para os referidos problemas, fato que, a rigor, tem gerado importantes debates, que têm colaborado com a produção de uma ampla literatura nesse âmbito, isto é, de um arcabouço teórico, fomentando a elaboração de várias abordagens acerca da referida temática, a exemplo de estudos como os de Pacheco e Flores (1993), Zabalza (2004), Guanieri (2005), Mendes Sobrinho (2006; 2007) Formosinho (2009), Brito (2006), Schön (2000), Pimenta (2005), dentre outros. A propósito, cabe acrescentar o contributo de Nóvoa (2000, p. 15) a ressaltar que nas últimas décadas “a literatura pedagógica foi invadida por obras e estudos sobre a vida de professores, carreiras e percursos profissionais, as biografias e autobiografias docentes ou o desenvolvimento pessoal dos professores”, e que comporta incluir as discussões sobre formação continuada. Na verdade, dizemos que essa literatura teve/tem seu significativo papel, nesse entorno discursivo, no sentido de reconduzir os professores para o âmago dos debates educativos, na perspectiva de tomar a formação docente como “problemática da investigação” de muitos estudos. Assim, ao tornar-se objeto de investigação, a formação docente deu surgimento a uma pluralidade de teorias e práticas pedagógicas que viabilizaram a produção de uma diversidade de concepções que validaram a experiência vivenciada pelos profissionais da docência. Nessa direção, Veiga (2012) corrobora essa reflexão ao enfocar que a formação deve configura um aspecto de “inacabamento”, num movimento de vinculação à história de vida dos indivíduos em constante processo de formação, que propicia a preparação profissional e, igualmente, revela uma trajetória multifacetada, plural, que tem começo e nunca tem fim, pois é inconcluso e, inclusive, autoformativo muitas vezes. Para essa autora, ao falar em formação de professores, alguns aspectos devem ser evidenciados, a saber: trata-se de uma ação contínua e progressiva que envolve várias instâncias, que atribui uma valorização significativa para a prática pedagógica, para a experiência, enquanto componente constitutivo da formação; revela-se como ação contextualizada histórica e socialmente e, sem dúvida, constitui um ato político; implica preparar professores para o incerto, para a mutação; inspira-se em objetivos que sinalizam a opção política e epistemológica adotada; significa- como processo- uma articulação entre formação pessoal e profissional. É, na verdade, uma forma de encontro e confronto de experiências vivenciadas; trata-se de um processo coletivo de construção docente, que passa pela descoberta do outro e pela elaboração de pensamentos autônomos e críticos que propiciem aos sujeitos o poder de decidir por si mesmos. A esse respeito, Leitão de Mello (1999, p. 47) confirma esse panorama, registrando sua concepção acerca da formação de professores: [...] um processo inicial e continuado que deve dar respostas aos desafios do cotidiano escolar, da contemporaneidade e do avanço tecnológico. O professor é um dos profissionais que mais necessidade têm de se manter atualizados, aliando à tarefa de ensinar a tarefa de estudar. Transformar essa necessidade em direito é fundamental para o alcance da sua valorização profissional e desempenho em patamares de competência exigidos pela sua própria função social. Diante dessa visão, a formação se apresenta como processo de incompletude, vinculado à trajetória de vida dos professores num movimento de construir e reconstruir experiências. Um processo que permite a análise dos propósitos que fundamentam suas ações, num movimento dinâmico de revisitação da prática pedagógica, de ressignificação da cultura profissional e pessoal do professor. Nesse sentido, Alarcão (2011) afirma que são muitas as exigências para composição da base do paradigma da formação docente que busca proporcionar a emancipação desse profissional. Essas exigências passam pela valorização da curiosidade intelectual, pela capacidade de empregar e reconstruir o conhecimento, pela necessidade de questionar e indagar, de expressar um pensamento próprio, de produzir meios de autoaprendizagem. Além disso, diz a autora, é necessária, também, a capacidade de gerenciar sua história individual e coletiva, de se perceber responsável pelo seu desenvolvimento contínuo. Em Giroux (1997) acessamos ao entendimento de que os professores precisam se apresentar como intelectuais transformadores caso pretendam educar os educandos para o exercício de uma cidadania ativa e crítica. Nessa perspectiva defendida pelo autor em referência, faz-se necessário, para tanto, tornar o pedagógico mais político e o político mais pedagógico. Esse movimento requer a utilização de mecanismos de pedagogia que tratem os alunos como sujeitos críticos, que tornem o conhecimento problemático, que utilize o diálogo crítico e afirmativo, bem como o debate em prol de uma sociedade qualitativamente melhor para todos os sujeitos nela inseridos. Nessa perspectiva, no contexto discursivo acerca da formação de professores, comporta entendermos a importância de concebermos formação continuada como momento que propicia ao professor exercitar a reflexão sobre a prática pedagógica, com a possibilidade de fazer um trabalho docente mais consistente, mediante a busca de novas alternativas de ensino, permitindo a releitura do exercício docente por meio de uma retomada reflexiva e avaliativa dos propósitos a serem atingidos. Em outras palavras, um processo formativo que possibilite ao professor a busca de alternativas de solução para as dificuldades de sua prática pedagógica, diante de um diálogo, cada vez, mais profundo entre teoria e a realidade circundante. Tem sido massivamente tratada no âmbito do discurso acadêmico e da legislação educacional o componente formação continuada na condição de um movimento de construir e reconstruir experiências, uma oportunidade de o professor experienciar a reflexão crítica sobre preceitos formativos e produzir espaço para uma compreensão de sua práticapedagógica, no sentido de intervir na qualidade do ensino ministrado nos sistemas educativos, atentando, no entanto, para o fato de que essa realidade é sujeito a críticas, visto que estudos têm revelado que os resultados das ações de formação continuada têm mostrado pouco relevância para as práticas profissionais docentes, com rupturas pouca consistentes para essas práticas e para transformações de suas concepções de ensino e aprendizagem. Diante dessa realidade, cabe indagarmos: 1. Onde estaria a problemática das formações oferecidas aos professores? 2. Nas próprias formações? 3. Em seus planejamentos que parecem ser escassos? 4. Em suas metodologias/estratégias que são tecnicistas? 5. Nos formadores que não têm o perfil adequado? 6. Nos professores para quem são oferecidas as ações de formação continuada? Afinal, onde se ancora a problemática da formação continuada? 7. Por que, a maioria das práticas formativas não atinge seus objetivos de transformar, significar, emancipar as práticas profissionais dos professores, decorrido algum tempo da ação de formação? Certamente, que responder a tais indagações constitui um desafio que comporta, em si, muitos obstáculos, notadamente no campo teórico, por não serem tão evidentes assim. Percebemos, no entanto, que o caminho das ponderações, análises e conclusões que podem ser articuladas sobre essas questões esteja ligado à epistemologia da formação continuada, em outras palavras, esteja ligado à origem, a seu âmago. Construímos, portanto, esse pensamento com base nos fatos revelados por outros, como temos sinalizado nesse estudo (GALINDO, 2011; GATTI, 2009; DAY, 2011, entre outros). Compreendemos por formação continuada a realização de ação formativa que dá suporte a uma ação primária, também de natureza formativa que chamamos de formação inicial. Por conseguinte, uma ação que se apresenta num movimento de dar continuidade a algo, a priori, que está iniciado, pelos menos no que se refere aos pressupostos e aos alicerces teóricos e metodológicos gerais em nível de ensino, que possibilitam a formação e o subsequente exercício prático e profissional em relação a uma área de conhecimento. Ou seja, um percurso formativo que dá continuidade a certo percurso formativo. A formação continuada, na feição de formação profissional, é definida pelo raciocínio da “requalificação” profissional e/ou pessoal, conforme Correia (2003), e nesse movimento está vinculada ao bom funcionamento da instituição ou contexto social. Logo, se ancora na lógica de uma qualificação precedente que proporcione componentes para a profissionalidade. Contudo, o que se tem percebido é que há discrepâncias conceituais e práticas no que diz respeito à natureza dessa formação. No cenário brasileiro, na última década, esse processo praticamente tem exercido o papel da formação básica docente. Galindo (2011) corrobora essa compreensão ao enfocar que para a formação continuada tem se atribuído variadas feições, a saber: • Iniciar e aprofundar fundamentos da educação; • Ofertar estratégias metodológicas variadas; • Disponibilizar orientações e diretrizes da política educacional; • Aprofundar conteúdos curriculares a serem ensinados no ambiente da prática profissional do professor. Para essa autora, tem sido apregoado um conceito deturpado do que seja a formação continuada, aspecto compreensivo que, no geral, tem proporcionado um viés para a propagação de ações diversas, tanto no cotidiano escolar como fora dele, sob o rótulo de formação continuada. Essas práticas “visam alcançar objetivos relacionados à formação profissional de base, ocorrendo, no entanto, em serviço” (GALINDO, 2011, p. 38). Na verdade, a lógica de formação profissional iniciante, que a formação continuada tem adotado no cenário brasileiro, justifica-se mediante as necessidades que os sistemas educacionais têm de responder aos modelos de qualidades preestabelecidos pelos órgãos superiores governamentais, a saber, Ministério da Educação, Secretarias e Departamentos, ou por outras entidades de atuação no âmbito educacional. O que se evidencia é que se tratam de medidas que, na maioria das vezes, não contemplam e nem respondem às necessidades dos professores no sentido de fortalecimento, enriquecimento de suas práticas educativas, de atendimento às suas ansiedades e carências de aprendizagem dos estudantes, muito menos no que diz respeito aos seus interesses de aprimoramento e desenvolvimento na carreira profissional. Desse modo, as reformas e as orientações legais produzem, de modo geral, uma necessidade de formação continuada que traz no seu bojo um caráter adaptativo à reforma que as (im)põem e que refletem na forma de diretrizes sobre o exercício docente, seja no cotidiano escolar, seja em outros ambientes, tempos e atividades que a profissão exija. Esse arcabouço discursivo compreensivo apresenta indicadores para pensarmos a epistemologia da formação continuada de professores e sua relevância, porque evidencia contradições em discursos e em práticas de formação continuada que cooperam para alicerçar o “postulado da necessidade e da ineficácia das ações de formação continuada tal como tradicionalmente se apresentam” (GALINDO, 2011, p. 39). Esse movimento é descrito por Gatti (2009, p. 221) da seguinte maneira: [...] a formação continuada é organizada com pouca sintonia com as necessidades e dificuldades dos professores e da escola; os professores não participam das decisões acerca dos processos de formação aos quais são submetidos; os formadores não têm conhecimento dos contextos escolares e dos professores que estão a formar; os programas não preveem acompanhamento e apoio sistemático da prática pedagógica dos professores, que sentem dificuldade de atender a relação entre o programa desenvolvido e suas ações no cotidiano escolar; mesmo quando os efeitos sobre a prática dos professores são evidentes, estes encontram dificuldade em prosseguir com a nova proposta após o término do programa; a descontinuidade das políticas e orientações do sistema dificulta a consolidação dos avanços alcançados; falta melhor cumprimento da legislação que assegura ao professor direito à formação continuada. Essa discussão indica-nos que o fundamento da formação continuada ancorasse em um discurso que, quando materializado, não dá conta da realidade das práticas educativas. Ou seja, existem planos e ofertas por parte de universidades, sistemas, governos e iniciativas privadas, em que, no entanto, a materialização dos objetivos é transitória, uma vez que sua abordagem dominante consiste, prioritariamente, na da realização de práticas de formação, que muitas vezes, estão distanciadas da realidade do cotidiano escolar, portanto, não atendem às necessidades dos professores, dos alunos, enfim, não atendem as exigências da escola. A observação dessa situação nos leva a indagar, afinal, a quais necessidades estão, de fato, desarticuladas? É preciso, nesse sentido, considerar que a vida escolar configura um espaço que comporta um grupo de professores, que se constitui de diferentes formações, saberes e experiências também diversificadas. Da mesma forma, constitui-se de interesses distintos, desejos formativos e anseios variados, com intencionalidades, muitas vezes, contrárias, reunidos em um lugar, em defesa de uma tese, de um ou mais objetivos gerais em comum, a saber: eficácia da aprendizagem, da capacidade e das habilidades dos alunos. Mesmo assim, convém esclarecer que tantas diferenças não cabem em um único tipo de formação que pretenda ter um desenvolvimento, a contento, sobre as práticas docentes. Percebemos que essa verdade aponta para direção de que sejam propostas modalidades formativas distintas, coerentes com as especificidades, desejos e necessidades dos professores e das escolas. Pois, o que se apresenta,na maioria das vezes, é uma formação continuada com programas, propostas ou pacotes formativos, que não acatam essa variedade factualmente existente, que se constitui em uma prática homogeneizadora, conteudista, prescrita, que se ancora em conhecimentos predeterminados para dar produtividade aos currículos, diretrizes operantes nas propostas que, superficialmente, contribuem com um movimento de transformação de práticas profissionalmente cristalizadas pelo tempo de exercício profissional. Para Day (2001), os programas de formação continuada se apresentam como dispositivos processuais que “deixaram de ser predominantemente determinados pelo indivíduo, que escolhe entre o “menu” de atividades organizadas por agentes externos, para serem predominantemente determinadas pelos administradores que “patrocinam a formação”. O autor, ainda, afirma que, não obstante diversos países se apresentarem como favoráveis e admitirem a relevância que essa formação continuada assume para os professores e para as escolas, essa mesma formação, ao longo da história, acontece sob escassas tentativas de apoio sistemático e diversificado aos professores ao longo da carreira e de seu desenvolvimento profissional. Nesse sentido, um estudo feito por esse autor, a partir de Sander , mostrou que, no contexto europeu, a formação continuada se realiza de forma voluntária, como é o caso da Austrália; ou não-coordenada, como acontece na Bélgica, na França e na Holanda; ou, ainda, como em Portugal e no Reino Unido que se efetiva sob a forma de cursos de curta duração. No âmbito dos Estados Unidos, a formação continuada se realiza com base na motivação individual e no empenho pessoal em termos de progressão na carreira4 , muito embora, segundo Zeichner (1998) esse desenvolvimento aconteça a partir de decisões isoladas ou em conjunto, em um distrito escolar, universidade ou sindicato, sobre o que os professores precisam aprender. A crescente realização de cursos organizados pelos próprios professores ou por outras pessoas, que lhes garantem a possibilidade de determinar o tipo e a direção do trabalho que vislumbre seu desenvolvimento profissional, na perspectiva de preparação de professores como profissionais reflexivos, aspectos que, na concepção de Zeichner (1998), muitas vezes, não asseguram a formação de profissionais reflexivos, ao contrário, garante maior controle dos professores e a manutenção de sua condição subalterna. No contexto da realidade japonesa, valorização recai sobre o desenvolvimento coletivo e colaborativo, em que a função dos pares assume um ponto determinante na formação continuada, pois se fundamenta na perspectiva de redes em trabalhos. Na Inglaterra, essa formação está sob a responsabilidade da Agência Nacional de Formação (Teacher Training Agency), encarregada de ofertar cursos em nível nacional. Esses cursos acontecem em “etapas-chave” do desenvolvimento da carreira, contudo, não consideram claramente, a longo prazo, as necessidades profissionais, intelectuais e individuais dos professores. Do mesmo modo como ocorre em outros países, tais atividades de formação não explicitam a aprendizagem em relação a contextos locais, estando articuladas a projetos especiais ou componentes de reformas que evidenciam as experiências de sala de aula (DAY, 2001). Em Portugal, a partir da reforma do sistema educativo, mediante a Lei de Bases de 1986, a problemática da formação continuada recebeu um lugar de relevância, principalmente, com o aparecimento de novas instituições formadoras, nos meados de 1992, notadamente os Centros de Formações de associações de escolas e os Centros de Formação de associações de professores. De acordo com Formosinho (2011, p. 2), uma feliz junção de situações possibilitou a constituição do sistema de formação continuada. Com “o desenvolvimento do exercício da docência e a consolidação da concepção da formação como processo ao longo da vida”, em oposição à figura social desgastada do professor, diversas necessidades de formação articuladas ao insucesso escolar, à inclusão de alunos com necessidades educativas especiais em classes regulares do ensino, ao surgimento de escolas multi-éticas e multi-culturais, à reforma e inovações curriculares e à mudança na gestão escolar adotada como democrática; à legislação alicerçada na produção científica da Educação; e a financiamentos abundantes da União Europeia na formação dos professores, de modo que esses aspectos asseguraram à formação continuada um lugar relevante no cenário formativo (GALINDO, 2011). Os fatos que originaram essa formação presente nos discursos dos interlocutores não favoreceram, contudo, a amplitude esperada, posto que não resultou em mudanças no contexto da prática. Os resultados mais importantes das ações da formação continuada em território português foram, de acordo com Formosinho (2009): • Acesso de todos os professores à formação, o apoio às transformações do sistema no âmbito do currículo e da gestão, o desenvolvimento de uma cultura de formação, benefícios destacados no relatório do Conselho Nacional de Educação; • Mudanças no nível da organização escolar com a elaboração conjunta de planos de formação de professores a partir das necessidades identificadas, e de incentivo ao trabalho coletivo e às trocas na escola, detectados com base nos relatórios dos Centros de Formação; • Trabalho de projetos como garantia da relação de formação e ação e articulação das escolas e dos centros de formação de associação de escolas (CFAE). O cenário atual da formação continuada em Portugal, bem como nos demais países da União Europeia, é de perda em termos de recursos às ações nesse âmbito, ocasionando, além de redução de ações “acreditadas” e ofertadas pelos Centros de Formação, pouca influência ou poucas incidências de melhoria percebida sobre as práticas. Fato que ocorre devido, muitas vezes, a cursos que são oferecidos não corresponderem às expectativas pessoais e às problemáticas vividas pelos professores, situação agravada pela acreditação tardia dos cursos, ou seja, pela demora na aprovação e na regulamentação das ações formativas para os Centros de Formação (GALINDO, 2011). A esse respeito, um estudo feito por Vaillant (2003) mostrou que, no contexto da América Latina, a formação continuada é organizada no modelo de aperfeiçoamento docente, na perspectiva de sanar deficiências deixadas pela formação inicial. Desse modo, reforça a autora, não consegue contemplar amplamente os contextos do professor, do aluno, da escola e da comunidade. Na verdade, de forma majoritária, o objetivo da formação continuada na América Latina é “Aperfeiçoar os conhecimentos e habilidades pedagógicas dos professores mal capacitados; Fornecer conhecimentos especializados em matérias em que se diagnosticam claras deficiências” (VAILLANT, 2003, p. 10). Sua pesquisa, ainda, revela que o documento resultante da Cumbre Latinoamericana de Educación da Básica contém uma síntese das políticas referentes à formação e aperfeiçoamento dos professores. Esse documento destaca que, de modo geral, os docentes latino- americanos têm uma menor carga horária de formação profissional, comparativamente aos professores de países desenvolvidos. Quanto à realidade brasileira, a literatura consultada registra que em pouco mais de 30 anos, a formação continuada, passou à condição de um direito legal. Essa legalidade teve início a partir dos anos 70 do século XX, diante de práticas de aperfeiçoamento profissional pautadas em pressupostos de um paradigma conservador, tendo em seu eixo central a 62 reprodução do conhecimento, ou seja, mediante a lógica tecnicista da reciclagem, treinamento, aperfeiçoamento de docentes articulada à reforma do ensino de primeiro e segundo graus, de 1976. A recente legalização e institucionalização da formação continuadade professores, no cenário brasileiro (BRASIL, 1996, 1999, 2015, 2005, 2006) tem implicações significativas tanto no viés prático como no teórico. A propósito, notamos que, no contexto prático, os desafios aparecem relacionados à capacidade técnica das Secretarias e Departamentos de Educação em materializar os princípios e orientações legais, mediante formação de quadro de formadores, convênios com terceiros ou parcerias com universidades locais, comprometidos com a oferta instrumental de formação, coerentes com as problemáticas que as reformas e contexto territorial e escolar revelam. Compreendemos que é indispensável frisar que toda área de conhecimento científico requer consensos para sua legitimidade, premissa que, também, comporta a formação continuada. Contudo, a questão terminológica e conceitual que diz respeito à formação continuada, ainda, é polissêmica tanto no âmbito das normas legais nacionais como no contexto da produção acadêmica da área, seja nacional e/ou internacional, como verificamos nas considerações que vimos registrando. Realçamos, contudo, que é pertinente essa discussão, considerando que a produção de consensos fortalece o contexto teórico, visto que no cenário das práticas, inclusive oficiais e legais, é perceptível, cada vez mais, a associação de práticas formativas variadas para os professores em ocasiões e situações diversas. Além disso, no que se diz respeito às propostas de formação direcionadas à capacitação e atualização, existe a percepção extensa e genérica em relação ao modo de atuação, com orientações na perspectiva dos objetivos manifestos na lei, a saber: “aperfeiçoar, atualizar conhecimentos, sanar dificuldades e problemas, melhorar a prática” (BRASIL, 1996, 1999). Contudo, com a Rede Nacional de Formação Continuada de Professores (BRASIL, 2005, 2006) visualizamos sinalização de algumas alternativas nessa direção, todavia sob as rédeas da amplitude e generalidade, que transforma a formação continuada em um território onde todas as falhas e dificuldades são bem vindas. Logo, a formação continuada na educação básica, no cenário brasileiro, institucionalizada e subsidiada pelo Estado, considerando as imensuráveis disparidades encontradas nas grandes regiões, mostra-se importante na organização de diretrizes num movimento de equacionar as demandas dessa formação nos seus devidos fundamentos. Realçamos que esse dado é importante, ainda que seja visível a existência de projetos, como 63 se apresenta o Referencial Nacional para a Formação Continuada - RNFC, concentrado na formação em serviço, com especificidades diferenciadas. Outro marco normativo impulsionador de mudanças institucionais são as Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação inicial em nível superior (cursos de licenciatura, cursos de formação pedagógica para graduados e cursos de segunda licenciatura) e para a formação continuada (Resolução CNE/CP 2/ 2015). Compreendemos, que as Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação inicial e para a formação continuada, se devidamente implementadas, apresentam-se como uma das iniciativas do Conselho Nacional de Educação que busca contribuir para uma maior organicidade da formação por meio da articulação entre essas duas modalidades formativas. Entre os seus princípios, inclui-se a compreensão da formação continuada como elemento significativo da profissionalização, fundamentado nos diversos saberes e na experiência docente, num movimento de integração ao ambiente da instituição educativa, igualmente integrado ao projeto pedagógico da instituição de educação básica. A mencionada Resolução, no artigo 16, ainda confere que a formação continuada tem como principal finalidade a “reflexão sobre a prática educacional e a busca de aperfeiçoamento técnico, pedagógico, ético e político do profissional docente”. Para as Diretrizes Curriculares Nacionais, no seu parágrafo único, tratam sobre formação, inicial e continuada, destacando que a formação continuada sucede de uma concepção de desenvolvimento profissional dos professores, mediante as seguintes considerações: I – os sistemas e as redes de ensino, o projeto pedagógico das instituições de educação básica, bem como os problemas e os desafios da escola e do contexto onde ela está inserida; II – a necessidade de acompanhar a inovação e o desenvolvimento associados ao conhecimento, à ciência e à tecnologia; III – o respeito ao protagonismo do professor e a um espaço-tempo que lhe permita refletir criticamente e aperfeiçoar sua prática; IV – o diálogo e a parceria com atores e instituições competentes, capazes de contribuir para alavancar novos patamares de qualidade ao complexo trabalho de gestão da sala de aula e da instituição educativa. Com base nessa análise, depreendemos que a formação continuada não pode ser considerada um percurso formativo que se restringe apenas a ações de aperfeiçoamento das práticas pedagógicas, mas um processo contínuo de desenvolvimento profissional do 64 professor, de valorização da reflexão e da coletividade. Portanto, a formação continuada deve se efetivar mediante “projeto formativo que tenha por eixo central a reflexão crítica sobre as práticas e o exercício profissional e a construção identitária do profissional do magistério” (DOURADO, 2015, p. 34). No entendimento de Candau (2007), a preocupação acerca da formação continuada ofertada pelas universidades e outras instituições formadoras não é nova. Nesse sentido, é possível afirmar que essa preocupação ocorre devido à limitada contribuição desses cursos num movimento de promover a renovação das práticas pedagógicas dos professores. Ainda segundo a autora, esses cursos têm se ancorado numa perspectiva que enfatiza a reciclagem do professor, percebida como atualização da formação recebida. Percorrendo um viés emancipatório da formação continuada de professores, Candau (2007) sinaliza para a necessidade de mudanças na forma de conceber as práticas formativas, nesse contexto considera que: • O locus da formação continuada deve ser a própria escola; • O processo de formação continuada deve ter com referência fundamental o saber docente, o reconhecimento e a valorização desse saber; • Os processos de formação continuada devem fundamentar-se nas diferentes etapas de desenvolvimento profissional docente. Teóricos como Behrens (2009), Imbernón (2010) e Giovanni (2003), guardando certa sintonia em suas contextualizações e discussões, refere que é preciso cautela ao entender a perspectiva da escola como locus de formação continuada, pois a escola só poderá se tornar eixo de percursos de formação se, igualmente, for possível processar “[...] uma aprendizagem institucional e organizacional” (GIOVANNI, 2003, p. 219), não obstante saibamos que não é simples o caso de estar no cotidiano escolar e de desenvolver uma prática escolar concreta, que garanta a presença das condições mobilizadoras de um processo formativo críticoreflexivo. Ainda tratando sobre práticas da formação continuada no cenário brasileiro, Gatti (2009) diz que os processos de formação continuada desenvolvidos desde meados da década de 80, com a finalidade de atualização ou complementação de conhecimentos, bem como para preparar a implementação de uma reforma educativa, não geraram os efeitos esperados. De acordo com a autora, as razões para essa realidade “é a limitada, senão ausente, participação dos professores na definição de políticas de formação docente, como categoria profissional, e 65 na formulação de projetos que têm a escola e o seu fazer pedagógico como centro” (GATI, 2009, p. 201). Nesse sentido, os professores não têm um sentimento de pertencimento, não se apoderam dos princípios que regem essa demanda, bem como não se sentem, por um lado, instigados a alterar sua prática, mediante a construção de alternativasde ação, por outro lado, não aceitam a atuar como meros aplicadores de propostas externas, diz a autora em tela. Para Pimenta (2005, p. 40), os programas de formação continuada desde os anos 1980 não conseguiram alcançar seus objetivos devido sua não continuidade e também por não apresentarem uma política de formação que, concretamente, promova a necessária articulação entre a formação inicial e o desenvolvimento das escolas. Nessa direção, refere que, no mínimo, o se pode conseguir com esses programas de formação continuada é “apenas verniz que dá títulos” aos professores. Identificando-se com a defesa dessas ideias e reafirmando esse pensamento, Behrens (1996) destaca que, na maioria das vezes, a metodologia utilizada por esses cursos leva à concentração de grandes grupos de professores, desse modo, não permite o envolvimento, e a compreensão de todos com as ações de formação, de modo que, boa parte fica somente ouvindo para depois reproduzir o que foi anunciado. Esses tipos de ações formativas, como afirma a autora, não comportam a perspectiva de os professores falarem sobre suas dificuldades e expectativas, quando muito, “propõem discussões sobre eles e não com eles” (BEHRENS, 1996, p. 133). Nesse sentido, discute que a superação dessa perspectiva de formação requer avanços significativos no contexto das concepções, começando pela negação de modelos do tipo “pacote” de formação, ancorados em atividades preestabelecidas para propostas e modalidades que comportem e visualizem a construção coletiva do saber e o debate críticoreflexivo do saber fazer, num movimento que vislumbre possibilitar ao professor ser emancipado e emancipar-se, tendo como uma de suas finalidades o revigoramento de sua prática pedagógica. No contexto dessas considerações, citamos Galindo (2011) que corrobora com o conteúdo dessa reflexão ao enfocar que esse viés argumentativo gravita em torno de uma questão central nos percursos de formação, a saber: orientar o conhecimento prático que os professores possuem; persistir na formação perspectivando a prática profissional, num movimento de articulação de teoria-prática e vice-versa; valorizar o fazer docente nos aspectos em que ele acontece, ou seja, na sala de aula, nos momentos de planejamento e avaliação individual e coletiva, nas reuniões e em outros contextos de importância educacional e formativa, num movimento de considerar o seus saberes e a suas necessidades; 66 o que nos leva a conceber que a formação continuada, que se orienta por objetivos gerais amplos, precisa ser modificada na intenção de ter como alvo as necessidades docentes, desde seus níveis elementares. Concebemos, também, que para alterar o movimento da formação continuada faz-se necessário entender os fundamentos que amparam suas práticas. Essa é a chave mestra da questão, como reforça a autora em tela. Figura 1: Formação continuada. Fonte: https://www.google.com.br/ ➢ SAIBA MAIS: Rigorosidade metódica, pesquisa, respeito aos saberes dos educandos, criticidade, ética e estética, corporificar as palavras pelo exemplo, assumir riscos, aceitar o novo, rejeitar qualquer forma de discriminação, reflexão crítica sobre a prática, reconhecimento e assunção da identidade cultural, ter consciência do inacabamento, reconhecer-se como um ser condicionado, respeitar a autonomia do ser educando, bom senso, humildade, tolerância, convicção de que mudar é possível, curiosidade, competência profissional. https://www.google.com.br/ REFERÊNCIAS AROLLI, E.; FRANZONI, M.; VILLANI, A. e FREITAS, D. A crônica da disciplina: uma experiência na formação de professores de Ciências. In: MOREIRA, M. A. 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