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EXCELENTÍSSIMO(A) SENHOR(A) DESEMBARGADOR(A) RELATOR(A) DA 11ª CÂMARA DE DIREITO PRIVADO DO EGRÉGIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SÃO PAULO Agravante: Banco Nesco Agravada: Fernanda Origem: 7ª Vara Cível de São Paulo Processo nº xxxxxx.xxx.xxxxx FERNANDA, devidamente qualificada nos autos do processo de número em epígrafe, vem, respeitosamente, por seu advogado abaixo identificado (procuração anexa), perante Vossas Excelências, alicerçada no art. 1.019, inc. II, do Código Processo Civil, para, tempestivamente, na quinzena legal, apresentar CONTRAMINUTA AO AGRAVO DE INSTRUMENTO interposto pelo BANCO NESCO, também devidamente qualificado, pelos fatos e fundamentos a seguir descritos. Pugna pela juntada da presente contraminuta e seu conhecimento no julgamento junto ao Egrégio Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, tendo em vista o recurso interposto pela parte contrária. Nesses Termos, Pede Deferimento. São Paulo/SP, Data LUIZ OAB/SP nº ... CONTRAMINUTA A AGRAVO DE INSTRUMENTO Processo de Origem: XXXXXX – 7ª Vara Cível da Comarca de São Paulo/SP Agravante: Banco Nesco Agravado: Fernanda EGRÉGIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO EMÉRITOS DESEMBARGADORES I - DA TEMPESTIVIDADE A contraminuta ao Agravo de Instrumento é apresentada dentro do prazo legal estabelecido pelo Código de Processo Civil, conforme determinado no artigo 1.019, inciso II, do referido diploma legal. A intimação da decisão agravada foi devidamente realizada em xx/xx/xxxx, concedendo-se o prazo de 15 (quinze) dias para a apresentação da contraminuta, sendo o presente documento protocolado perante este Egrégio Tribunal dentro desse lapso temporal. Dessa forma, demonstra-se a tempestividade da contraminuta, estando em conformidade com os ditames processuais vigentes, eis que apresentada dentro do prazo legal estabelecido. II - DOS FATOS Fernanda, é funcionária pública municipal, que recebe vencimentos de R$ 10.000,00 (dez mil reais) por mês, mas está repleta de dívidas com empresas de cartão de crédito e bancos, além de já ter perdido o seu veículo, o apartamento em que vive e o seu plano de saúde. Por ter enfrentado algumas dificuldades nos últimos anos, Fernanda passou a não quitar as faturas de seus cartões de crédito, levando ao constante parcelamento e pagamento do mínimo previsto, o chamado crédito rotativo do cartão de crédito. Após um ano, ela viu que as contas do cartão superavam em muito o valor de seu salário e pegou um empréstimo consignado para realizar a sua quitação. Contudo, o valor do empréstimo impossibilitou-a de realizar outros pagamentos, devendo se valer de novos empréstimos consignados para pagamento das dívidas anteriores e se manter. Nesse tempo, vendeu o seu carro e comprou outro financiado, para com o valor da venda pagar alguns dos empréstimos. No entanto, não conseguiu pagar as parcelas e teve que entregar o carro para leilão, tendo perdido o valor de entrada e, ainda, permanecido com a nova dívida referente ao veículo. A agravada tentou realizar uma conciliação com os devedores em uma feira que estava ocorrendo junto a uma empresa de proteção de crédito, mas não houve acordo, uma vez que os parcelamentos oferecidos comprometiam integralmente o seu salário. O mesmo ocorreu em uma tentativa de conciliação perante o Procon da capital de São Paulo. As dívidas da agravada estão concentradas em três instituições financeiras: Banco Itubank (R$ 700.000,00), Banco Nesco (R$ 300.000,00) e Financeira Boa Grana (R$ 100.000,00). Fernanda não possui mais nenhum bem em seu nome e vive de favor na casa de uma amiga de família. A agravada ingressou com a ação de superendividamento em face das credoras. A ação foi recebida na 7ª Vara Cível de São Paulo e, pelo juiz da causa, foi ordenada a citação das partes passivas com a ordem de apresentação de todos os documentos, em especial, os contratos de empréstimo firmados entre Fernanda e os credores, como foi requerido na inicial. Inconformado com a ordem de apresentação dos documentos referidos, o Banco Nesco interpôs Agravo de Instrumento contra essa decisão, alegando ser ônus da parte autora a apresentação de tais documentos, não devendo ser a ele imputada essa obrigação sob pena de ferimento ao princípio do contraditório e da ampla defesa. III – DO DIREITO III.1 DA AUSÊNCIA DE FUNDAMENTO JURÍDICO DO AGRAVO Excelência, o Banco Nesco, ao interpor o presente agravo de instrumento, parece desconsiderar a natureza e os objetivos da ação de superendividamento. Conforme preceitua a Lei nº 14.181/2021, que dispõe sobre o tratamento do superendividamento, a ação visa proporcionar ao consumidor superendividado meios para reestruturar suas dívidas, buscando-se a preservação da dignidade da pessoa humana (art. 1, inciso III, da CF/88) e a manutenção da sua capacidade produtiva. Dessa forma, é imperativo reconhecer que, diante da situação de superendividamento da parte autora, Fernanda, a obtenção dos contratos de empréstimo firmados entre esta e os credores é crucial para a análise da condição financeira da devedora, bem como para possibilitar a construção de uma solução justa para o caso em apreço. O superendividamento, fenômeno retratado no presente caso, atenta contra o princípio da dignidade humana, uma vez que compromete não apenas a estabilidade financeira do consumidor, mas também sua integridade social, familiar e profissional. Nesse contexto, a Lei nº 14.181/2021, em consonância com o Código de Defesa do Consumidor, estabelece a garantia de práticas de crédito responsável e a prevenção e tratamento do superendividamento, visando à preservação do mínimo existencial do consumidor. Reconhecendo a desigualdade intrínseca nas relações de consumo, o CDC impõe ao fornecedor o dever de atuar com boa-fé objetiva, equilibrando as partes contratantes. No caso em tela, a vulnerabilidade da consumidora Fernanda é evidente, dada sua situação de superendividamento, o que justifica a determinação de apresentação dos documentos pelos credores, a fim de garantir sua defesa efetiva Nesse sentido, a determinação judicial de apresentação dos referidos documentos pelas partes passivas está plenamente alinhada com o espírito da legislação vigente, não ferindo, portanto, os princípios do contraditório e da ampla defesa, mas sim promovendo a igualdade processual e a efetividade do acesso à justiça. III.2 DA INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA O Agravante alega que a apresentação dos documentos referentes aos contratos de empréstimo firmados entre Fernanda e os credores seria ônus da parte autora, não devendo recair sobre ele tal obrigação. Contudo, tal argumento carece de respaldo legal e jurisprudencial, conforme passo a demonstrar. Conforme preceituado pelo artigo 6º do Código de Defesa do Consumidor (CDC), é dever das partes cooperarem entre si e com o juízo na busca pela efetividade da prestação jurisdicional. Nesse contexto, a determinação de apresentação dos documentos solicitados visa justamente a permitir que o juízo tenha acesso às informações necessárias para uma análise adequada do caso, garantindo a ampla defesa e o contraditório. Nos termos do artigo 6º, inciso VIII, do CDC, é possível a inversão do ônus da prova em favor do consumidor quando verossímil a alegação ou quando ele for hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de experiência. No caso em análise, a situação de superendividamento enfrentada por Fernanda evidencia sua hipossuficiência técnica e econômica, bem como a verossimilhança de suas alegações quanto à necessidade de revisão e repactuação dos contratos de empréstimo. A inversão do ônus da prova se justifica pela necessidade de equilibrar as relações entre as partes, especialmente quando uma delas se encontra em posição de vulnerabilidade,como é o caso de Fernanda. Nesse contexto, cabe aos credores demonstrar a legalidade e a regularidade dos contratos de empréstimo firmados, sob pena de prejudicar a efetiva defesa da consumidora e comprometer a justa solução da controvérsia. III.3 PRINCÍPIO DA COOPERAÇÃO PROCESSUAL E DA FACILITAÇÃO DA DEFESA O princípio da cooperação processual, consagrado no ordenamento jurídico brasileiro, implica que as partes devem colaborar entre si e com o juízo na busca pela efetivação da prestação jurisdicional. Essa colaboração não se restringe apenas à produção de provas, mas também engloba a apresentação de documentos e informações relevantes para o deslinde da controvérsia. Nesse sentido, a determinação de apresentação dos contratos de empréstimo solicitados pelo juízo de origem visa garantir que este tenha acesso a todos os elementos necessários para uma análise completa e justa da situação enfrentada pela parte autora, Fernanda. Além disso, a facilitação da defesa, prevista no Código de Defesa do Consumidor (CDC), objetiva assegurar que o consumidor tenha condições plenas de exercer seus direitos de forma efetiva e equilibrada. No caso em questão, a exigência de apresentação dos documentos pelos credores se enquadra nesse contexto, uma vez que possibilita que Fernanda exerça sua ampla defesa de maneira adequada, garantindo-lhe acesso à informação necessária para contestar os termos dos contratos de empréstimo e defender seus interesses. Diante do exposto, requer-se o não provimento do Agravo de Instrumento interposto pelo Banco Nesco S.A., mantendo-se incólume a decisão proferida pelo juízo de origem, que ordenou a apresentação dos documentos referentes aos contratos de empréstimo firmados entre Fernanda e os credores. IV. DOS PEDIDOS Ante o exposto, requer-se: 1. O não provimento do Agravo de Instrumento interposto pelo Banco Nesco S.A.; 2. A manutenção da decisão proferida pelo juízo de origem, que ordenou a apresentação dos documentos referentes aos contratos de empréstimo celebrados entre Fernanda e os credores; 3. A condenação do Agravante ao pagamento das custas processuais e honorários advocatícios. Nestes termos, pede deferimento. São Paulo/SP, DATA Luiz OAB/SP XXX