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GERENCIAMENTO DE OBRAS • 2 • Apresentação Diante dos atuais desafios enfrentados pela construção civil e o reconhecido atraso na utilização de boas práticas e metodologias de gestão, um grande esforço tem sido realizado nos últimos anos no sentido de modernizar estas práticas de gestão. A proposta deste manual é apresentar um método estruturado de gestão para empreendimentos de construção civil que seja aderente aos desafios existentes, aumentando a probabilidade de atingimento de sucesso. A adoção de um método estruturado permite que a empresa possa replicar o modelo de forma efetiva para diversos canteiros de obra, uniformizando a gestão e permitindo maior previsibilidade na obtenção do resultado. Este manual está fortemente fundamentado em metodologias e boas práticas de gerenciamento reconhecidas pelo mercado, sem deixar de observar as necessidades do dia a dia do canteiro de obra. Tal característica torna o método consistente na obtenção de resultados e ao mesmo tempo simples em sua implantação. Apesar de este manual ser direcionado a obras prediais de múltiplos pavimentos, as práticas e diretrizes aqui apresentadas podem ser aplicadas em outros tipos de obras, necessitando, em alguns casos, de adaptações. O público alvo deste manual são engenheiros, gestores e diretores que de alguma forma atuem em empreendimentos de construção civil. Buscou-se utilizar uma linguagem simples e usual no dia a dia das construtoras de forma a facilitar a assimilação do conteúdo abordado. Este manual está estruturado em 9 capítulos. No capítulo 1 discorreremos sobre os desafios impostos à gestão de empreendimentos de construção civil no atual contexto. No capítulo 2, buscamos estabelecer um nivelamento básico dos leitores acerca das metodologias e conceitos que fundamentam o método proposto, sem no entanto, ter o objetivo de esgotar o assunto. O capitulo 3 apresenta de forma sintética o método de gestão, sendo o mesmo detalhado nos capítulos seguintes, capítulo 4 – gestão técnica, capítulo 5 – gestão do trabalho e capítulo 6 – gestão da produção. O capitulo 7 apresenta uma proposta para desdobramento dos objetivos e metas entre os vários níveis de gestão. O capítulo 8 discute as competências necessárias ao gerente de obra frente aos novos desafios impostos pelo atual contexto e pelo modelo proposto e o capitulo 9 sumariza e conclui a proposta do manual. O apêndice A apresenta modelos de formulários necessários à implantação do método proposto. Vale ressaltar que a estruturação adotada para este manual é apenas didática, e busca facilitar o entendimento do tema, uma vez que a gestão ocorre de forma sistêmica e integrada. Sendo assim, um mesmo assunto poderá ser abordado, sobre prismas diferentes, em vários capítulos. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 5 • Primeira parte Nesta primeira parte serão apresentadas uma visão geral do contexto da construção civil brasileira em relação aos sistemas de gestão e os referenciais teóricos utilizados no desenvolvimento do método proposto. 1. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 6 • GERENCIAMENTO DE OBRAS • 7 • 1. Competitividade e Gestão na Construção Civil O aumento da competitividade no setor e o aumento da complexidade dos projetos em construção civil vêm exigindo das construtoras a adoção de melhores práticas de gestão. Os desafios, peculiaridades e especificidades dos empreendimentos de construção civil predial tornam os modelos de gestão atuais insuficientes para garantir o atingimento dos objetivos propostos. Características como a dificuldade na definição e controle do escopo, o grande número de interdependências entre as atividades, a necessidade de grande velocidade de resposta, as interfaces entre várias especialidades, o grande número de intervenientes, fazem com que o ambiente seja desafiador para qualquer metodologia de gestão. O desafio a ser vencido é garantir o atingimento das metas, convivendo com essas incertezas. Mesmo naquelas empresas que utilizam boas práticas para o gerenciamento de prazo, custo e qualidade, não há garantia de sucesso do empreendimento. Percebe-se também que os empreendimentos muitas vezes fracassam por negligenciar áreas consideradas de segunda importância pelos gestores, como por exemplo: recursos humanos, aquisição de recursos, atendimento de requisitos dos stakeholders, gerenciamento de riscos, entre outros. Podemos afirmar, sem medo de errar, que a maioria dos problemas encontrados em nossos canteiros de obra e que impactam nosso resultado, não são de ordem técnica e sim gerencial. Mesmo não atingido resultados satisfatórios, as práticas de gestão tradicionais permanecem, em sua maioria, incontestadas pela alta administração das empresas. A gestão tradicional possui muitos mitos. Buscar gerenciar através de um modelo previsível, inflexível e exato é um deles. Na verdade, um empreendimento de construção civil é imprevisível, incerto, mutável e complexo. A crença de que basta ao engenheiro o conhecimento técnico para garantia do resultado é outro mito. É muito comum vermos projetos gerenciados por equipes, de conhecimento técnico inquestionável, fracassarem. Entendemos que é necessário atingir um nível adequado de maturidade, não somente nos aspectos técnicos, mas também no gerenciamento do trabalho e da produção. Outra característica danosa da gestão tradicional é o excesso de informalidade responsável por esquecimentos, omissões, negligência e principalmente improvisação na programação da produção. Para entendermos melhor o tamanho dos desafios a enfrentar, precisamos conhecer melhor como se estrutura um empreendimento. Um empreendimento de construção civil pode ser dividido em fases intermediárias que definem seu ciclo de vida. A divisão mais comum é: viabilidade, desenvolvimento, implantação e operação (Figura 1). Figura 1 – Ciclo de vida de empreendimentos de construção civil predial. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 8 • A fase de Viabilidade busca criar uma oportunidade de negócio através da criação de valor para acionistas, clientes e sociedade, oferecendo produtos melhores a um custo mais competitivo. É nesta fase onde o local é escolhido, o terreno adquirido, o produto é definido, as viabilidades são analisadas, o projeto legal é aprovado nos órgãos competentes (prefeitura, concessionárias, corpo de bombeiros), o memorial de incorporação é registrado e o empreendimento é lançado. No final desta fase temos um Business Case, ou seja, um negócio. A fase seguinte, o Desenvolvimento, é a etapa onde se busca potencializar a geração de valor através do desenvolvimento dos projetos executivos e dos projetos voltados à produção. A máxima é fazer mais com menos. Nesta fase são escolhidos os processos construtivos, as soluções técnicas para os vários subsistemas, compatibilizando-os entre si, buscando reduzir o custo de obra, o prazo executivo e as possíveis interferências entre os sistemas. Uma vez concebido e detalhado um empreendimento, é hora de executá-lo, ou seja, de entregar o valor ao cliente. É nesta fase, a Implantação, onde os recursos são adquiridos, mobilizados e aplicados, de acordo com procedimentos definidos. A qualidade dos serviços é inspecionada ao final de cada etapa, culminado com a conclusão da construção e entrega ao cliente final. E finalmente a última fase, a Operação, é a de manutenção do valor. Após sua construção, toda edificação necessita de acompanhamento e manutenção para que tenha sua habitabilidade e vida útil preservadas. É nesta fase que podemos avaliar se o desempenho projetado foi atingido e, desta forma, realimentar os processos de Desenvolvimento, garantindo assim a melhoria contínua. As características e os desafios de gestão de um empreendimento tendem a mudar ao final de cada fase, sendo que, na medida em que o mesmo avança, reduz-se a incerteza quanto ao atingimento, ou não, dos objetivos propostos. Descrevendo desta forma,parece até uma atividade simples, mas não o é. Escondidos debaixo desta simplicidade estão dezenas de stakeholders com interesses evoluindo em paralelo e com crescente grau de influência, centenas de interfaces que necessitam de gestão e milhares de requisitos a serem atendidos, muitos deles conflitantes entre si. Se já não bastasse, ainda é preciso conviver com variações climáticas, a comunidade no entorno, variações de mercado, dezenas de fornecedores, projetistas, sindicatos, associações e os mais variados órgãos públicos, todos eles fora da esfera de controle da construtora. Tudo isto, confere aos empreendimentos de construção civil um contorno de complexidade, caracterizado principalmente por aparente grau de imprevisibilidade. Esta imprevisibilidade provoca um alto grau de desordem e instabilidade na operação, tendo seus efeitos ampliados na ausência de um método estruturado de gestão. Outro fator de complexidade é a dinamicidade do ambiente no qual o empreendimento está inserido, onde as várias partes envolvidas reagem e interagem juntas, requerendo constantes negociações. A complexidade é tamanha que muitas empresas gerenciam perifericamente, negligenciando a gestão de importantes processos, deixando desta forma que os problemas se resolvam através da negociação entre as partes envolvidas. Esta negligência provoca grande perda de energia e recursos para o empreendimento. Contribui para aumentar ainda mais a complexidade dos empreendimentos o fato de que, normalmente, cada fase do ciclo de vida está sobre responsabilidade de uma área. A concepção do negócio normalmente fica a cargo de uma área de novos negócios, o desenvolvimento e aprovação do projeto legal é responsabilidade da área de incorporação, os projetos executivos e de produção são desenvolvidos pela área de projetos, o empreendimento é construído pela área de obras e a manutenção pós-obra é realizada pela área de assistência técnica (Figura 2). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 9 • Cada área tem seus próprios paradigmas, seus vícios, sua forma de entender o empreendimento e não raras vezes, objetivos diferentes. Na tomada de decisão quase nunca levam em conta as necessidades das outras áreas. Esta fragmentação do ciclo de vida do empreendimento cria uma grande quantidade de interfaces que precisam ser bem gerenciadas, caso contrário, provocarão uma ruptura e consequente perda de valor e impacto no resultado final. Não é raro encontrarmos sistemas construtivos sendo escolhidos unicamente em função do custo direto de execução, sem levar em conta a logística, o prazo de execução, etc. É comum projetistas serem bonificados exclusivamente pelo consumo de concreto, sem levar em conta a construtibilidade do projeto, a produtividade, a segurança, entre outros. Figura 2 – Interfaces no ciclo d e vida de um empreendimento. A gestão de um empreendimento é, em sua essência, um sistema, e como tal não pode ser visto como uma coleção de processos isolados. Por isto é necessário compreender e medir as inter-relações entre as partes, integrando-as de forma eficiente. Na visão sistêmica, o papel de cada componente é contribuir para maximizar o desempenho do sistema, mesmo que para isto seja necessário haver perda das partes. Um sistema é como uma corrente. O que determina o desempenho de uma corrente é o desempenho de seu elo mais fraco. É necessário ter uma visão global dos problemas, visão esta que é prejudicada pela excessiva especialização. É preciso abolir o conceito “departamentalista”, permitindo uma visualização horizontal do empreendimento, independentemente das áreas envolvidas. Para isto, é necessário alinhar inúmeros processos, planejar e controlar grande quantidade de variáreis em cadeia, em um ambiente deficiente em integração e comunicação. O modelo tradicional de gestão normalmente busca a análise e melhoria da atividade isoladamente perdendo o foco do impacto da mesma no todo. É preciso garantir que toda a empresa trabalhe para que a obra aconteça, uma vez que é lá que o valor é criado. Cada serviço executado no canteiro de obra deve ajudar a deixar a obra um pouco mais pronta, caso contrário, deve ser definido como desperdício. Entretanto, o processo mudança exige sacrifícios por parte dos gestores, de forma que os mesmos devem estar dispostos a abrir mão dos resultados de curto prazo a fim de estabelecer as bases para uma vantagem no longo prazo. Via de regra, as empresas tendem a investir muitos recursos nos desafios técnicos de implantação de um novo modelo de gestão sendo que os maiores desafios são, na verdade, comportamentais. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 10 • Figura 3 – Regra de Bourdichon & Darli “70/20/10” Uma das grandes barreiras à introdução de novas práticas de gestão na construção civil é a já conhecida resistência à mudança, inerente ao setor. Frases como “faço deste jeito há anos”, “Não tenho tempo para isto, estou ocupado demais” são comuns no processo de mudança. O medo do desconhecido é uma das grandes barreiras para as mudanças, sejam elas boas ou ruins. A estratégia de mudança deve ser criada considerando o grau de resistência que se espera interna e externamente (Figura 3). A cultura da empresa também merece uma atenção especial, uma vez que, muitos fatores humanos e contextuais podem interferir no nível de adesão dos profissionais aos novos processos de gestão propostos. Informação é o catalizador da mudança. A interação e troca de informação entre as pessoas é fundamental. É importante para quem está na liderança do processo de mudança identificar o estágio emocional da equipe de forma a evitar que hajam desistências ao logo do caminho de implantação. A implantação de uma nova forma de gestão leva tempo e requer investimentos significativos, sendo que os resultados não aparecem de imediato. Segundo FALCONI (2009), a mudança cultural em uma empresa leva cerca de 5 anos. Segundo o autor, “são cinco anos porque as pessoas levam cinco anos para mudar”. O processo de aprendizagem é lento e sempre existirão ilhas de excelência e ilhas de resistência, sendo que algumas pessoas jamais aceitarão a mudança dentro da empresa. É justamente neste contexto que entendemos haver espaço para a proposição de um método de gestão que aumente a capacidade das construtoras em lidar com este desafio e aumente a probabilidade de cumprimentos dos objetivos dos empreendimentos. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 11 • Não sugerimos neste manual eliminar as práticas tradicionais de gestão de obra e sim construir sobre elas novas formas de organização e estruturação. Devemos buscar um sistema simples de gestão, lembrando que simples não quer dizer fácil, muito menos simplório. A simplicidade é o último grau de sofisticação (Leonardo da Vinci). É importante deixar claro que a simples existência de um método não é capaz de garantir empreendimentos bem gerenciados. Os processos precisam estar efetivamente implantados e as pessoas capacitadas e motivadas. Em gestão não existe “bala de prata”, ou seja, não existe um método ou processo que resolva todos os seus problemas. Por mais similares que sejam, cada empreendimento é único e representa um desafio também único. A combinação certa de liderança, estratégia, método e conhecimento do processo é que vai distinguir o sucesso do fracasso. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 12 • GERENCIAMENTO DE OBRAS • 13 • 2. Fundamentação C om o objetivo de criar um nivelamento básico dos leitores acerca dos conceitos que fundamentam o método, apresentaremos a seguir um resumo dos principais modelos que o permeiam, sem, no entanto, ter a intensão de esgotar o assunto. 2.1 PDCA Apesar de existirem muitas metodologias gerenciais, com os mais variados nomes e roupagens, a verdade é que todas têm como pano de fundo o conhecido PDCA. O PDCA é com certeza o mais conhecido conceito de gestão da qualidade. Dentro de um sistema de gestão,o PDCA é um ciclo dinâmico aplicável a cada um dos processos da organização. Na prática, trata-se de método de análise e solução de problemas. O nome é o acrônimo das palavras em inglês plan, do, check, action, que em português pode ser traduzido em planejar, fazer, verificar, agir. O método é normalmente representado por um círculo dividido em quatro partes iguais (Figura 4). Esta figura remete ao significado de um processo cíclico e de uma igualdade de importância dos quatro passos, ou seja, de nada adianta planejar, se não implantar conforme planejado, se não verificar se os resultados foram atingidos, e se não agir para corrigir o resultado não atingido. Figura 4 – Ciclo PDCA. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 14 • Existe uma máxima no meio de construção civil que diz que os engenheiros querem partir para ação, querem começar imediatamente a obra, ao invés de sentar para planejar o que deve ser feito. O resultado disto é que se busca resolver as questões que surgem por tentativa e erro, gerando grande desperdício de recursos e perda de prazo. Os engenheiros normalmente estão em busca da eficiência, definida como utilizar a menor quantidade de recursos possível, e se esquecem de buscar a eficácia, ou seja, fazer o que deve ser feito (Figura 5). Figura 5 – Tipos de gerenciamento. Fontes: PRADO, 2004?. O PDCA é um método simples, mas de grande capacidade de melhoria dos resultados se inserido verdadeiramente na cultura da empresa. O método é capaz de criar um ciclo virtuoso de inovação e melhoria contínua, transformando a empresa numa escola de formação de bons gestores, que produzem bons resultados (Figura 6). Figura 6 - Melhoria contínua. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 15 • O fato de conhecer o funcionamento do método, por si só não confere nenhuma melhoria de resultados. A melhor forma de garantir a aplicação do método no dia a dia da companhia é inseri-lo efetivamente nos processos da empresa, criando processos de planejamento, de execução, de monitoramento e análise dos resultados, garantindo que o ciclo se feche. Para garantir a eficácia das análises realizadas, várias ferramentas podem ser utilizadas, entre as mais conhecidas estão o diagrama de Pareto, o diagrama de causa e efeito, o histograma, entre outros. 2.2 Gerenciamento de Projetos O gerenciamento de projetos vem ganhando importância dentro das corporações. De acordo com Prado e Archibald (2007), dominar a arte de executar projetos se tornou uma das necessidades de sobrevivência e progresso da empresa moderna. O gerenciamento de projeto tem como proposta estabelecer um processo estruturado e lógico para lidar com eventos que se caracterizam pela novidade, complexidade e dinâmica ambiental. Segundo Drucker (1998), o trabalho por projetos é o futuro das organizações. O projeto bem sucedido é aquele que é realizado conforme o planejado, nem mais, nem menos. O sucesso em um projeto é medido pelo atendimento ao prazo, custo, qualidade, entre outros. Segundo o Standish Group em seu Chaos Report de 2009 somente 32% de todos os projetos terminam dentro do prazo e orçamento previstos. O aumento médio dos custos é de 189% e o de prazo é de 222%, ambos em relação ao previsto. Segundo Prado e Archibald (2007), existe uma estreita relação entre o nível de maturidade em gestão de projetos de uma companhia e o sucesso alcançado em seus projetos, ou seja, quanto maior o nível de maturidade, melhores resultados são alcançados. Basicamente podemos definir projeto como um empreendimento temporário que busca entregar um resultado único. Outras características são adicionadas à definição de projeto, como por exemplo: possui sequência clara e lógica de eventos; é elaborado progressivamente; é conduzido por pessoas dentro de parâmetros predefinidos de tempo, custo, recursos envolvidos e qualidade; é complexo o suficiente para necessitar de uma capacidade de coordenação específica e um controle detalhado, entre outras (NOCÊRA, 2009; MULCARY,2007; VARGAS, 2009; HELDMAN,2009). Desta forma, podemos dizer que o gerenciamento de projetos é a utilização de conhecimento, habilidades, ferramentas e técnicas com a finalidade de organizar, monitorar e controlar atividades para atingir um objetivo dentro de restrições de tempo, custo e qualidade (VARGAS, 2009; HELDMAN,2009). Todas estas características acima descrevem também um empreendimento de construção civil. É importante deixar claro que temporário não significa necessariamente de curta duração, e sim que possui um início e um término, se diferenciando desta forma de trabalhos operacionais. Único indica singularidade, uma vez que, mesmo possuindo basicamente as mesmas características, o resultado de cada empreendimento é obtido sob uma combinação exclusiva de condições, fornecedores, equipe, objetivos, etc. O trabalho por projeto difere de um trabalho operacional pelo fato de que enquanto um projeto tem como propósito produzir um produto único, com prazo definido e ser finalizado, um trabalho operacional tem o propósito de manter a organização funcionando, sem data de término (NOCÊRA, 2009; HELDMAN,2009). Existem várias organizações que se propõe a estudar e desenvolver o gerenciamento de projetos. Seja através do desenvolvimento de metodologias, seja através da publicação de guias e coletâneas de boas práticas, ou até mesmo através do desenvolvimento dos profissionais encarregados de gerenciar os projetos. As mais conhecidas são: GERENCIAMENTO DE OBRAS • 16 • – OGC – The Office of Government Commerce – É um órgão do governo britânico que publica a metodologia PRINCE 2 – Projects in a controlled environment. É uma metodologia bastante difundida na Europa. – CII - Construction Industry institute. O CII é um consórcio formado por contratantes, contratadas, universidades e fornecedores interessados em melhorar seus projetos de construção e investimento. É capitaneado pela Universidade do Texas. Publica o CII Best Practices Guide - É um guia de boas práticas de gerenciamento de projetos para a industria da construção civil. – IPMA - International Project Management Association – É uma associação internacional de gestão de projetos com foco na capacitação profissional na área de gerenciamento de projetos. Seu trabalho é focado no desenvolvimento das competências necessárias ao gerente de projetos. – IPA – Independent Project analysis - uma empresa sediada nos Estados Unidos, cuja razão de ser é comparar e analisar “Projetos” (Empreendimentos) realizados em todo o mundo e publicar relatórios de boas práticas. – PMI - Project Management Institute - É uma organização sem fins lucrativos, com sede nos Estados Unidos, com filiais no mundo todo. Seu principal objetivo é disseminar as boas práticas na gestão de Projetos. Publica o PMBOK – Project Management Body of Knowledge. Discorreremos a seguir um pouco mais sobre o PMBOK, por se tratar do mais difundido guia de gerenciamento de projetos. O guia apresenta uma proposta genérica e sua utilização para qualquer projeto requer uma adaptação. Segundo o PMBOK, a única interface entre o planejamento e execução se refere à autorização de trabalho, ou seja, o gerenciamento de projeto não se atém ao gerenciamento da produção, não existindo uma teoria articulada de produção propriamente dita (HOWELL e KOSKELA, 2000). O PMBOK em sua quinta edição, estrutura o gerenciamento de projetos em 47 processos e o Construction Extension, publicação também publicada pelo PMI, acrescenta outros 17 processos, ambos agrupados logicamente em 5 grupos de processos: Iniciação, planejamento, execução, monitoramento e controle e encerramento, discriminados abaixo. • Grupo de processos de Iniciação: Define um novo projeto ou fase através de uma autorização de início. Os objetivos são definidos e as melhores estratégias selecionadas. • Grupo de processos de planejamento: Os processos realizados para definir o escopo do projeto, refinar osobjetivos e desenvolver o planejamento para o alcance dos objetivos. Detalha tudo o que será realizado. • Grupo de processos de execução: Os processos realizados para executar o trabalho definio pelo planejamento do projeto. É a materialização de tudo o que foi planejado. Todo erro ocorrido nas fases anteriores fica evidente nesta fase. Consome a maior parte do orçamento e do esforço do empreendimento. • Grupo de processos de monitoramento e controle: Processos necessários para acompanhar, revisar e regular o progresso e o desempenho do projeto. Através da comparação entre o planejado e realizado, busca identificar desvos e propor ações corretivas no menor tempo possível de forma a preservar os objetivos do projeto. • Grupo de processo de encerramento. Os processos executados para inalizar os processos e encerrar formalmente o projeto. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 17 • Apesar de definirmos os grupos de processos como se fossem elementos distintos, na prática estes grupos se sobrepõem e interagem entre si ao longo de todo o projeto (Figura 7). Figura 7 – Sobreposição dos grupos de processos ao longo do tempo. Fonte: PMBOK, 2013. Estes 64 processos são também agrupados em 14 áreas de conhecimento: Integração; escopo; tempo; custo; qualidade; recursos humanos; comunicação; risco; aquisições; partes interessadas; segurança; meio ambiente; financeiro e claim. Podemos representar esta organização em forma de matriz, onde as colunas representam os Grupos de Processos e as linhas representam as Áreas de Conhecimento, conforme a Figura 8. Os processos descritos em preto são pertencentes ao Construction Extension, os demais ao PMBOK. Podemos ainda representar a relação entre estes processos de forma muito simplificada através de diagrama, conforme a Figura 9. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 18 • Figura 8 – Mapeamentos dos processos de gerenciamento de projeto em grupos de processos e áreas de conhecimento Fontes: PMBOK 5º edição,2013; Construction Extension 3º edição, 2009 GERENCIAMENTO DE OBRAS • 19 • . Figura 9 – Representação simplificada da interação entre os processos de gerenciamento de projetos do PMBOK 5ª edição 2013 + Construction Extension 3ª edição 2009. Fonte: O autor, adaptado. Podemos descrever muito simplificadamente, a estrutura do PMBOK da seguinte forma: Escopo, tempo, custo e qualidade são os principais objetivos de um projeto, ou seja, busca-se fundamentalmente entregar uma obra (escopo), no prazo e custos definidos, com a qualidade adequada. Aquisições e recursos humanos são recursos de possibilitam o atingimento do objetivo. Comunicações e riscos são elementos que devem ser constantemente acompanhados durante o empreendimento. Segurança e meio ambiente possuem requisitos que devem ser atendidos em todos os processos de construção. Financeiro e Claim dizem respeito às demandas da organização. E finalmente a integração é o processo que equaliza todos os demais. Segundo Prado (2004), existe uma equivalência entre o modelo PDCA e o modelo PMBOK. Para o autor, ambos tratam de um conceito universal de gerenciamento, o PDCA. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 20 • Figura 10 - Interação entre os grupos de processos e Ciclo de gerenciamento MEPCP. Fontes: PMBOK, 2013 e PRADO, 2004. Os princípios de gerenciamento de projetos são aplicáveis genericamente a qualquer área de atuação, mas necessitam de customização, conhecimento e experiências específicas ao tipo de projeto. O PMBOK, tem se mostrado insuficiente para atender, sozinho, às demandas dos projetos de construção civil, uma vez que se limita a indicar qual trabalho deve ser realizado e não como ele deve ser realizado. O planejamento e controle da produção são extremamente importantes para a atividade de gerenciamento na construção civil. 2.3 Lean Construction O pensamento Lean é fundamentalmente uma filosofia que busca a geração de valor para o cliente e a melhoria contínua dos resultados. Não é somente a aplicação de ferramentas e técnicas organizadas. Trata-se de uma mudança cultural que deve ser estruturada dentro de uma estratégia de transformação da companhia. O pensamento Lean se baseia em cinco princípios: Criar valor (definido pelo cliente); Fluxo de valor (identificar e eliminar o que não agrega valor); Fluxo (produção em fluxo, estável e sem interrupções); Puxar (produzir somente quando demandado pelo cliente ou processo anterior) e Perfeição (busca incansável pela melhoria, através da rápida identificação e solução de problemas). Colocados nesta sequência, representam um guia para implantação da filosofia Lean. Em 2008 foi proposto pela CLT – Comunidade Lean Thinking a adoção de mais dois princípios que seriam: conhecer as partes interessadas e inovar sempre, com o objetivo de direcionar as empresas, rumo a altos níveis de desempenho (Figura 11). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 21 • Figura 11 – Os 7 princípios Lean Thinking revistos – CLT, 2008 Na década de 90 um novo referencial teórico foi desenvolvido para gestão de processos na construção civil com o objetivo de adaptar os conceitos do Lean Production às especificidades do setor. Este movimento teve seu início marcado pela publicação do trabalho: Application of de new production philosophy in the construction industry, no proceedings of PMI Research Conference 2002 por Lauri Koskela. A principal diferença entre a filosofia gerencial tradicional e o Lean Construction é conceitual. O modelo dominante define produção como um conjunto de atividades de conversão que transformam insumos (materiais, informações, equipamentos e mão de obra) em produtos intermediários (alvenaria, revestimento, azulejo, etc.). No modelo tradicional, o custo e o planejamento são segmentados apenas pelas atividades de conversão. Suas principais deficiências incluem o fato de que as parcelas de atividades que compõem os fluxos físicos entre atividades de conversão não são explicitadas nem consideradas no planejamento, apesar de consumirem recursos, dificultando desta forma, sua percepção e gestão. O controle da produção e melhorias é focado em subprocessos individuais e não no sistema de produção como um todo, o que não garante ganho de desempenho global, podendo, ao contrário, comprometer a eficiência dos fluxos e de outras atividades de conversão. O modelo Lean Construction entende a produção como um fluxo de materiais constituído por atividades de transporte, espera, processamento e inspeção (Figura 12), sendo que as atividades de transporte, espera e inspeção não agregam valor ao produto final. São denominadas atividades de fluxo. O foco deve ser na melhoria de desempenho das atividades que agregam valor e na redução das atividades que não agregam. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 22 • Figura 12 - Modelo de produção Lean Construction Fonte: Koskela, 1992 - Adaptado As empresas existem para criar valor. A ideia de geração de valor está diretamente relacionada à satisfação do cliente e, simultaneamente de todas as partes interessadas, não sendo inerente à execução de um processo. Um processo só gera valor se transformar matérias primas em produtos requeridos pelo cliente, internos ou externos. Desta forma, é fundamental iniciar a implantação da filosofia Lean através da identificação precisa do que representa, ou não, valor para o cliente. Estima-se que cerca de 67% do tempo gasto pelos trabalhadores da construção civil não agregam valor: transporte, estoque, retrabalho (FORMOSO e LANTELME, 2002). Sem a compreensão destas atividades de fluxo torna-se difícil e eliminação das causas de improdutividade. O conceito Lean Construction é definido por onze princípios, com grande interação e reforço mutuo entre eles (Koskela, 1992): 1. Redução das parcelas que não agregam valor; Parte da premissa de que a eficiência de um processo pode ser melhorada e suas perdas reduzidas através da eliminação de atividades que compõe fluxo. Exemplos comuns da aplicaçãodeste conceito são a pré-fabricação ou a otimização da logística eliminando manuseios desnecessários. Mas atenção, muitas atividades que não agregam valor diretamente, são importantes ao bom funcionamento do sistema, como por exemplo as inspeções de qualidade. Para iniciar aplicação deste conceito é necessário explicitar tais atividades no planejamento, permitindo assim seu controle, análise e possível eliminação. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 23 • 2. Aumento do valor do produto através de uma consideração sistemática dos requisitos do cliente; Trata-se de identificar as necessidades e expectativas dos clientes internos e externos e considera-las no projeto e na produção. São exemplos da aplicação deste conceito a utilização de informações obtidas com a assistência técnica ou em pesquisas de pós-ocupação para melhoria do produto ou do processo. Sua implantação passa pelo mapeamento dos processos e pela identificação sistemática dos requisitos dos clientes em cada estágio. 3. Redução da variabilidade; O combate à variabilidade visa atingir a maior satisfação do cliente (interno e externo). O aumento da variabilidade traz consigo o aumento das atividades que não agregam valor, bem como o tempo de execução da atividade. As faces mais visíveis da variabilidade são as interrupções de fluxo de trabalho causadas pela interferência entre as equipes e o retrabalho devido a não aceitação do produto. A variabilidade pode ser reduzida em parte através da padronização de processos; 4. Redução do tempo de ciclo; Podemos definir ciclo como a somatória de todos os tempos necessários à realização de uma atividade (transporte, espera, processamento e inspeção). Deve-se buscar a redução do número de atividades de fluxo, a concentração do esforço em um número menor de frentes, eliminar interdependências entre atividades, possibilitando a realização de atividades em paralelo. Um exemplo de aplicação deste princípio é a alocação das equipes para conclusão de pequenos lotes de produção ao invés de espalhar a equipe por todo canteiro. Os grandes benefícios desta prática é a maior facilidade no controle de produção em função da menor quantidade de frentes e trabalho e consequente concentração do esforço da equipe gerencial; a maior velocidade de aprendizagem, uma vez que os erros tendem a aparecer mais rapidamente; a maior precisão nas estimativas futuras em função da experiência gerada, tornando os novos ciclos mais estáveis; redução do tempo total de construção; redução do trabalho em progresso (estoque); entre outros. 5. Simplificação pela minimização do número de passos e partes; A máxima neste princípio é: quanto maior o número de passos de um processo, maior tende a ser o número de atividades que não agregam valor. Isto ocorre porque devido às atividades de preparação, apoio e inspeção para cada passo. Também está associada à quantidade e passos a possibilidade de interferência entre as equipes. Bons exemplos da aplicação deste conceito é o uso de elementos pré- fabricados e utilização de equipes polivalentes. 6. Aumento da flexibilidade de saída; Este conceito está associado à capacidade das equipes se adaptarem para atender ás diversas características dos produtos sem onerar seus custos. Podemos obtê-la reduzindo os lotes de produção, utilizando equipes polivalentes, adotando processos construtivos que tenham flexibilidade. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 24 • 7. Aumento da transparência; Busca-se com a transparência facilitar a identificação de erros, para identificar oportunidades de melhoria, disponibilizar informações para realização das atividades e envolver a equipe no processo de melhoria. Eliminação de tapumes, demarcação de áreas, comunicação visual, uso de indicadores de desempenho são formas de se aumentar a transparência. 8. Foco no controle de todo o processo; É muito importante não perder a visão do todo quando atuamos em atividades específicas dentro de um processo. Este é um risco real dentro da indústria da construção civil uma vez que existem muitos envolvidos no processo: projetistas diversos, fornecedores de materiais, subempreiteiros, áreas diversas. As melhorias nos fluxos devem preceder as melhorias no processamento. É preciso criar uma visão sistêmica em toda a equipe. 9. Estabelecimento de melhoria contínua ao processo; É necessário criar uma cultura voltada para a busca incessante pelo aumento de valor e pela redução do desperdício. Esta busca deve ser capitaneada pelos donos do processo. Fomentam a instalação desta cultura práticas como a gestão participativa, a definição de metas e o seu desdobramento por todos os envolvidos no processo, padronização como forma de disseminação de boas práticas, postura de aceitação de erros honestos. 10. Balanceamento da melhoria dos fluxos com a melhoria das conversões; É fundamental que exista um equilíbrio entre os avanços obtidos nos fluxos e nas conversões. A alternância entre o avanço incremental proporcionado pela melhoria dos fluxos e a ruptura provocada pelo avanço tecnológico proporciona um crescimento contínuo. Ambas se reforçam, ou seja, a melhoria nos fluxos facilita a introdução de novas tecnologias, bem como a estabilidade fornecida por tecnologias mais confiáveis beneficia os fluxos. 11. Benchmarking. É necessário que o tempo todo tenhamos um olho voltado para dentro da empresa (busca da melhoria contínua) e um olho voltado para o mercado (inovações). Não é possível falar em excelência e aumento de produtividade sem tratar de informações comparativas e identificar oportunidades de melhoria. Deve ser um processo estruturado dentro da companhia. O Lean Construction objetiva principalmente a redução nos prazos de execução, a redução de estoques, a redução de perdas e retrabalhos, a melhor aplicação dos recursos disponíveis (materiais e humanos), a identificação de toda a cadeia de valor, o maior nível de controle e a estabilização do ambiente operacional. Esta estabilização do ambiente operacional é etapa fundamental do processo de implantação, sendo a mesma perseguida através da redução da incerteza na cadeia de suprimentos (projeto, materiais, equipamentos, fornecedores de serviço). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 25 • 2.4 Gerenciamento pelas diretrizes O Gerenciamento pelas Diretrizes (GPD), proposto pelo prof. Vicente Falconi em 2004, tem sido aplicado por grandes corporações brasileiras e multinacionais com grande sucesso. Sua objetividade, simplicidade e pragmatismo, tornam o método uma ferramenta poderosa para obtenção de resultados. O método busca melhorar continuamente o sistema de gestão da empresa, de forma a tornar o atingimento da excelência nos resultados apenas uma questão de tempo. O GPD pode ser definido como um meio para se conduzir mudanças rigorosas de forma estruturada e controlada, objetivando transformar estratégias em realidade, ou seja, tirar a estratégia do papel. O GPD permite o rompimento com a situação atual para o atingimento dos resultados almejados. Muitas pessoas ainda acreditam ser possível melhorar o resultado sem promover mudanças. Infelizmente isto não é verdade. Segundo Einstein, não há nada que seja maior evidência de insanidade do que fazer a mesma coisa dia após dia e esperar resultados diferentes. As diretrizes são estabelecidas no processo de planejamento. As diretrizes devem permear toda a organização, sendo desdobradas em outras diretrizes sob a responsabilidade de cada nível hierárquico, sempre com relação meio-fim. É importante que no desdobramento das diretrizes para cada nível organizacional haja consenso entre as partes. Entretanto, a responsabilidade pelo resultado é indelegável, permanecendo sempre como responsabilidade do gestor. Com base nas diretrizes, são definidas as metas da organização. As metas devem ser atingíveis, porem audaciosas. Devem estar acima de sua capacidade atual em atingi-las de forma a exigir um crescimentoda organização para tal. Quando o desdobramento das metas é numérico, existe uma maior probabilidade de se atingir este resultado. No desdobramento das metas é necessário extrair todo o conhecimento da equipe e promover o entusiasmo e a determinação de se atingi-las. É também um momento de criar um compromisso de todos com os objetivos. Segundo FALCONI, 2004, o verdadeiro poder reside na habilidade de coletar, processar e dispor a informação de tal modo a transformá-la em conhecimento, que pode ser utilizado para atingir metas. O gerenciamento pelas diretrizes é um sistema focado no atingimento de metas e na resolução de problemas crônicos e desafiantes de uma organização. Podemos dizer que gerenciar é atingir metas, ou seja, não existe gerenciamento sem meta. (Figura 13). Empresas que queiram se destacar e criar diferenciais competitivos sustentáveis devem tornar-se exímias solucionadoras de problemas, uma vez que, podemos definir uma empresa, ou um empreendimento, como uma grande coleção de problemas. Grandes erros e desperdícios são evitados com a definição correta de um problema. Normalmente, ao se analisar um problema crônico, todos acham que já sabem quais as causas e como solucioná-las. É preciso romper com o “achismo” e construir um gerenciamento de bases científicas com finalidade de buscar resultados fora do comum. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 26 • Figura 13- Gerenciamento pelas diretrizes Fonte: Falconi, 2004, adaptado. Quando uma meta estabelecida e acordada não é atingida, é necessário que o responsável por ela apresente sua reflexão, identificando as causas que geraram a discrepância e as contra medidas para estas causas. O maior erro de um gestor é negligenciar a análise profunda das causas do não atingimento de uma meta. A boa reflexão é a força deste gerenciamento. A análise transforma a informação em conhecimento para que possa suportar a tomada de decisão acertada. Não existe o gerenciamento pelas diretrizes sem o exercício de análise e reflexão. Da mesma forma, análises realizadas sem o devido entendimento dos fatos, com base em “bom senso”, “experiência”, “intuição” ou “coragem”, resultam invariavelmente em planos de ação inócuos, e desperdiçam recursos valiosos da organização. Existe um mito em construção civil de que uma vez definida a meta, basta pressionar a equipe para que a mesma seja atingida. Tal mito não se sustenta na complexidade dos empreendimentos atuais. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 27 • A um conjunto de medidas para o atingimento de uma meta denominamos planos de ação. Os planos de ação colocam o gerenciamento em movimento, ou seja, viabilizam ações concretas. Cada pessoa em cada nível hierárquico deve ter seu próprio plano de ação. As medidas devem ser as mais eficazes, simples, baratas e rápidas de serem implementadas. Estas também devem ser priorizadas de forma a otimizar a utilização de recursos da organização e potencializar os resultados obtidos. Prioriza-se comumente em função da sua capacidade de contribuir com o resultado, emergência, custo e alinhamento com a organização. Para acompanhamento das metas são definidos itens de controle. Estes devem ser verificados sistematicamente de forma que, ao se perceber desvios em relação à meta, as causas destes desvios sejam identificadas. Gerenciar é atuar sobre estas causas. Este processo faz girar o PDCA e não deve ser utilizado apenas para se pressionar a equipe por resultados. Quando ações tomadas para solucionar problemas não obtiverem sucesso, não basta encontrar uma explicação. É preciso esclarecer os motivos de ineficácia das ações, e quais novas ações reverterão o resultado. O conhecimento das causas de variações positivas ou negativas nos resultados promovem a melhoria do processo de planejamento de ciclos futuros e um maior conhecimento do processo. Reuniões periódicas de acompanhamento dos resultados devem ocorrer também em todos os níveis, sendo que devem iniciar pelas equipes próximas à operação, seguido pelas gerências e diretoria (de baixo para cima). É preciso existir um equilíbrio na definição das metas. Avaliar os gerentes somente pelos resultados de prazo e custo leva-os a negligenciar os processos que produzem este resultado. É preciso que o gerente esteja sempre atento ao processo que produz o resultado de forma a identificar os erros, analisar, e promover a melhoria contínua. Para um gerente, não basta cobrar resultados, ele deve assumir a responsabilidade de levar a equipe ao atingimento das metas. São condições fundamentais para implantação do GPD a liderança e a motivação de todos os colaboradores. O aumento da maturidade da equipe nos métodos de análise leva tempo, e não existem atalhos. O que realmente melhora o resultado da empresa é desenvolver em todos os seus colaboradores a capacidade de atingir metas. Não adianta sofisticar o gerenciamento pelas diretrizes sem disciplina e estabilidade na operação. O GPD só mostrará completamente seus frutos se a gestão da rotina do dia a dia dos empreendimentos estiver sendo amplamente praticada. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 28 • GERENCIAMENTO DE OBRAS • 29 • 3. Método de gestão de empreendimentos U empreendimento de construção civil é um ambiente desafiador, com muitas variáveis interdependentes que precisam ser gerenciadas e equalizadas, mas não se trata necessariamente de um ambiente complexo, marcado pela imprevisibilidade. Entretanto, quando áreas de conhecimento importantes são negligenciadas durante o processo de gestão do empreendimento, o mesmo pode se tornar um ambiente muito inóspito. A abordagem tradicional de gestão, empregada em empreendimentos de construção civil, tem fracassado em entregar os resultados planejados. Isto se deve ao fato de que as práticas utilizadas estão estruturadas sobre um modelo previsível e estático. Normalmente, o conceito utilizado na construção civil se baseia no “execute como planejado”. Infelizmente, no mundo real, raramente encontramos um empreendimento em que esta premissa seja aplicável, até mesmo em empreendimentos muito simples. A verdade é que nenhum empreendimento é executado exatamente como foi planejado. A crença de que planos prematuros e extremamente detalhados são a garantia de que tudo vai ocorrer bem é falsa. Nem tudo pode ser planejado em detalhes previamente. É preciso admitir que mudanças ocorrerão, pois em trabalhos complexos é impossível se prever tudo o que irá acontecer. É comum ver cronogramas com milhares de linhas tornarem-se obsoletos, com a simples alteração de um requisito. E, no caso de alterações frequentes, em pouco tempo o cronograma estará correndo atrás da obra ao invés de servir-lhe como guia, sendo abandonado logo em seguida, por necessitar de muito esforço para sua atualização. A incerteza inerente à construção civil limita a elaboração de um planejamento detalhado logo no início do empreendimento, pois as mudanças são frequentes e o processo natural de aprendizagem durante a execução do empreendimento traz novas oportunidades de geração de valor. É preciso tratar as mudanças como algo normal, como um processo contínuo que, na medida em que obtemos mais informações, o planejamento é revisado. Os processos de planejamento e controle requerem a análise de uma grande quantidade de informações, que nem sempre estão disponíveis com a qualidade e velocidade necessárias para fazer frente à velocidade de mudança do ambiente. Sendo assim, é necessário utilizar um modelo de gestão que seja adaptativo e flexível, focado nos resultados do empreendimento e na satisfação de seus stakeholders. O planejamento deve ser vivo e acompanhar as alterações necessárias e inevitáveis que ocorrerão durante o ciclo de vida do empreendimento. Eles devem evoluir e se aprimorar conjuntamente. Esta evolução deve ocorrer em ondas sucessivas, onde cada nova onda de replanejamento é mais detalhada e mais aderente à realidadedo que a anterior, uma vez que trabalha com informações mais atuais. Deve ser um processo contínuo de reflexão e tomada de decisão, buscando continuamente reunir informações que subsidiem a próxima onda de replanejamento. As mudanças devem ser rapidamente identificadas e assimiladas, tendo seus impactos negativos nos resultados minimizados o mais rapidamente possível, através da otimização do processo de decisão. A agilidade na resposta representa a chave para o sucesso de um empreendimento em um ambiente incerto e em constante mudança. É necessário aceitar e se adaptar à mudança e não procurar prever o que irá ocorrer. Nenhum empreendimento acontece exatamente como planejado. O importante mesmo é planejar e ser ágil para replanejar. O bom planejamento deve ser factível e flexível de forma a continuar refletindo a realidade do dia a dia do canteiro de obras, durante todo o ciclo de vida do empreendimento. O planejamento deve propor prioridades claras para execução e tomada de decisão. Uma obra não pode ser gerenciada apenas de forma intuitiva, baseado na experiência e conhecimento do engenheiro e sua equipe. O verdadeiro problema não são as incertezas e sim como gerenciamos o empreendimento.. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 30 • Na construção do método que será proposto, foram utilizadas várias ferramentas, práticas e metodologias, reconhecidamente eficazes, e que se complementam e reforçam mutuamente. O BSC (Balance Score Card), o SWOT e o Modelo Diamante proposto por Shenhar & Dvir, estruturam a elaboração da estratégia e do modelo de governança para o empreendimento. O PMBOK e o Construction Extension dão forma à gestão do trabalho, primeiro por sua simplicidade de estruturação, flexibilidade de aplicação e ampla aceitação, e segundo por sua afinidade com sistemas de gestão ISO9001, ISO14001 e OHSAS18001, amplamente difundidos na construção civil. A Metodologia Estruturada de Planejamento e Controle de Projetos - MEPCP, desenvolvida pelo professor Darcy Prado, reforça os processos de monitoramento e controle, tendo em vista o rigor com que os trata. Já o Lean Construction direciona o planejamento e controle da produção, a logística e a busca pela redução do desperdício, todos reconhecidamente ausentes no guia PMBOK. O método, denominado como “Cubo de Gestão”, propõe que o gerenciamento do empreendimento seja desenvolvido de forma integrada, ou seja, que haja integração entre as perspectivas de gerenciamento do trabalho, de gerenciamento técnico e de gerenciamento da produção. Nesta visão, as decisões tomadas em cada uma das áreas de conhecimento devem levar em consideração os requisitos e impactos nas demais. O método é representado pela (Figura 14). Figura 14 – Cubo de Gestão GERENCIAMENTO DE OBRAS • 31 • O desenvolvimento de forma integrada permite que cada decisão seja tomada objetivando o melhor para o resultado final e não o melhor para cada parte. O gerenciamento técnico está relacionado às características técnicas que o produto deve possuir. É normalmente orientado ao cliente. Já o gerenciamento do trabalho diz respeito ao esforço e os recursos necessários para se obter o produto. Normalmente busca responder às perguntas: O que deve ser feito? Por quem? Quando? Com que recursos? Com que custo? Com que qualidade (PRADO,2004; PMBOK,2009)? E finalmente o gerenciamento da produção está relacionado à execução propriamente dita, tendo como foco a melhor utilização dos recursos, a redução da variabilidade dos fluxos, e a redução do desperdício, eliminando atividades que não agregam valor (transporte, retrabalho, estoque) e, melhorando a produtividade das que agregam valor. Dentro do método, o gerenciamento técnico aborda a análise de construtibilidade, a definição das tecnologias construtivas, o atendimento a padrões e requisitos de desempenho, a elaboração dos projetos executivos, a definição das necessidades de projetos a produção e sua elaboração e a compatibilização entre todos. Já o gerenciamento do trabalho aborda a identificação dos stakeholders e o levantamento de suas expectativas, o levantamento dos requisitos (normativos, técnicos, legais e contratuais), a identificação das restrições e dos riscos, o detalhamento do escopo e de suas exclusões, o planejamento das aquisições, comunicações, recursos humanos, segurança do trabalho, entre outros. O gerenciamento da produção aborda o plano de ataque, o planejamento logístico, a programação e controle da produção e a redução do desperdício sobre a perspectiva do Lean Construction. Em todos os casos, o impacto nas demais áreas deve ser sempre avaliado. O grau de importância de cada processo, bem como a importância relativa entre eles, variará de empreendimento para empreendimento, em função das características de cada um. Para que este modelo seja aplicado, os processos de planejamento técnico, do trabalho e da produção devem iniciar quase que simultaneamente, de forma que as demandas de cada um sejam identificadas a tempo de serem atendidas no menor custo e com menor impacto possível nas demais (Figura 15). Figura 15 – Interação da gestão técnica, do trabalho e da produção. As soluções devem ser concebidas de forma compartilhada entre as diversas áreas envolvidas, sob a ótica de várias especialidades, para posteriormente serem desenvolvidas e implantadas individualmente (Figura 16). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 32 • Figura 16 - Desenvolvimento de soluções compartilhadas Isto possibilita influenciar mutuamente nas escolhas realizadas de forma a maximizar a geração de valor e atender aos requisitos, premissas e restrições identificadas durante o processo. Quanto antes um requisito for identificado, mais simples, rápido e barato será seu atendimento, agregando, consequentemente, maior valor. Requisitos descobertos tardiamente ou interferências não previstas destroem valor, pois consomem muito mais recursos do que o benefício que geram (Figura 17). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 33 • Figura 17 – Geração x destruição de valor Podemos citar alguns exemplos simples de como as três perspectivas estão intimamente relacionadas e se impactam mutuamente: Primeiro exemplo: durante o planejamento da produção, foi identificada a necessidade de utilização de lajes do térreo para carga, descarga e estoque de materiais, afim de se otimizar a utilização do canteiro e reduzir o fluxo e o custo da logística. Este requisito leva a uma alteração no projeto do produto, especificamente no projeto estrutural, reforçando a estrutura para suportar as cargas temporárias necessárias. Esta alteração também leva a uma reavaliação pelo gerenciamento do trabalho de forma a avaliar e aprovar possíveis impactos no prazo, custo, escopo entre outros. Segundo exemplo: a decisão de substituir o processo construtivo de concreto moldado in loco, para estrutura pré-moldada de concreto, leva à revisão do plano de ataque do empreendimento, do plano de logística, do prazo de execução, do cronograma de suprimentos, marcos, risco, competências necessárias à equipe, tipo de fornecedores, impactos na vizinhança, fluxo de caixa, entre outros. O Cubo de Gestão foi organizado em processos considerados fundamentais, para o bom gerenciamento de um empreendimento. Os processos propostos e suas principais relações estão representados no fluxograma da Figura 18. No decorrer deste manual aprofundaremos em cada um destes processos e suas inter-relações. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 34 • Figura 18 – Relação entre os processos de gestão. Neste fluxograma os processos estão organizados em uma sequência lógica que pode ser descrita assim: depois de concebido um empreendimento e traçada uma estratégia para o atingimento dos objetivos propostos, são identificados os stakeholder e suas expectativas, os objetivos são transformados em pacotes de trabalho e são elaborados planos de ação para concretizá-los. Então, os projetos são desenvolvidosbuscando-se economia, produtividade e desempenho adequado. Os recursos são providos e as restrições à execução do plano são removidas. Os pacotes de trabalho sem restrição são programados e executados de forma a utilizar os recursos da melhor forma possível. Todos os níveis de gestão se fecham com o monitoramento, a análise e as ações corretivas necessárias. Ao se concluir todos os pacotes de trabalho previstos, o empreendimento é encerrado e desmobilizado organizadamente, promovendo uma passagem de bastão para a manutenção de pós-obra. É nesta última fase que avaliamos os resultados obtidos para a melhoria contínua da organização (Figura 19). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 35 • Figura 19 – Objetivos de cada componente do método cubo de gestão. A implantação deste método exige mudanças na cultura da organização. É preciso criar uma cultura de confiança mútua e aceitação ao erro honesto, de forma a permitir que as falhas sejam identificadas o mais rapidamente possível e, resolvidas, ao invés de escondidas, e de preferência, sem que sejam criados amortecedores para o desperdício (estoque, sobre consumos, etc.). É preciso estimular a criação de ciclos de melhoria contínua. Um dos grandes entraves à implantação deste método é a grande resistência das empresas em alocar recursos antecipadamente em um empreendimento. É necessário mover a alocação de recursos pela cadeia de geração de valor, investindo mais recursos nas etapas de desenvolvimento e planejamento para que menos recursos sejam necessários nas etapas de construção e manutenção. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 36 • A participação da equipe de produção no desenvolvimento dos projetos proporciona a melhoria na qualidade dos projetos elaborados e das soluções adotadas, a elaboração de planejamentos mais realistas, a incorporação de conhecimentos técnicos ao produto e aos processos, o aumento do comprometimento da equipe de produção com as soluções adotadas, o melhor entendimento do escopo, e a melhoria na capacitação de ambas as equipes. 3.1 Níveis de gerenciamento O Cubo de Gestão propõe que o gerenciamento seja realizado em ondas sucessivas, em três níveis, com diferentes focos e graus de autonomia e tomada de decisão. Os níveis se diferenciam por critérios como horizonte de planejamento, tipo de produto e natureza da decisão. A cada nível de gerenciamento é utilizado um grau de detalhamento apropriado. Quanto mais próximo da execução, maior será a quantidade e a qualidade da informação utilizada, de forma que, o planejamento ofereça um maior nível de detalhes, maior confiabilidade e menor incerteza. O gerenciamento deve ter um nível de detalhes suficiente para cumprir sua função básica de orientar a tomada de decisão. O gerenciamento em ondas sucessivas permite que algumas decisões sejam postergadas até que se tenham mais informações que subsidiem melhores decisões. Entretanto, adiar demasiadamente decisões pode se mostrar problemático e implicar em dificuldades de coordenação. Para que o gerenciamento em ondas sucessivas funcione, é condição sine qua non que exista consistência e sinergia entre os níveis hierárquicos da gestão, sob pena de se transformar em uma grande colcha de retalhos. Esta gestão em níveis também proporciona agilidade na percepção de desvios, aumentando a velocidade das decisões e ações corretivas, permitindo assim a redução dos impactos negativos nos principais objetivos do empreendimento (custo, prazo, qualidade). Os horizontes de cada nível de planejamento também podem ser flexíveis, variando durante o projeto, sendo, por exemplo, mais curtos no início do empreendimento, onde existem mais incertezas e mais restrições a serem removidas e, mais dilatados no final do empreendimento onde os resultados são mais previsíveis. A regra é a seguinte: Não devem ser nem tão longos de forma a se tornar apenas meras presunções do futuro, e nem tão curtos de forma a se tornar um fardo desnecessário à gestão. Os horizontes de gerenciamento normalmente costumam estar associados à natureza de suas decisões, ou seja, longo prazo – estratégica; médio prazo – tática; curto prazo – operacional (Figura 20). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 37 • Figura 20 – Planejamento, monitoramento e controle em ondas sucessivas. A etapa que inicia o processo de gestão é o planejamento. Existe certa confusão no entendimento do que efetivamente compõe o planejamento de um empreendimento. Via de regra, se você pedir ao gerente da obra que lhe traga o planejamento do empreendimento, ele fatalmente lhe trará apenas um cronograma de barras. Isto não é planejamento! Planejamento é muito mais do que um simples cronograma. Este apenas sintetiza uma organização lógica de execução, baseada no exercício do planejamento. O planejamento não pode ser um exercício teórico dissociado da realidade. Segundo Peter Drucker, planejamento é “Praparar-se para o inevitável, prevenindo o indesejável e controlando o que for controlável”. Formoso (1999) define planejamento como um processo gerencial que envolve o estabelecimento de objetivos e a determinação dos procedimentos necessários para atingi-los, sendo somente eficaz quando realizado em conjunto com o controle. Planejamento é um processo contínuo e dinâmico que consiste em um conjunto de ações intencionais, integradas, coordenadas e orientadas para tornar realidade um objetivo futuro, de forma a possibilitar a tomada de decisões antecipadamente. Essas ações devem ser identificadas de modo a permitir que elas sejam executadas de forma adequada e considerando aspectos como o prazo, custos, qualidade, segurança, desempenho e outras condicionantes. Devem ser realizadas em conjunto com os responsáveis pela execução. A separação entre planejadores e executores é um dos principais motivos do fracasso no planejamento. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 38 • O planejamento também deve ser realizado em tempo hábil. Parar para pensar na atividade às vésperas de sua execução não permite que haja tempo para adequação de planos e impede que ações sejam tomadas a tempo de evitar impacto nos objetivos do empreendimento. O planejamento deve ser o centro da inteligência de gestão do empreendimento. Ele deve ser um componente interativo e progressivo durante o projeto, orientado pelo feedback de seu desempenho. Deve se tornar a ferramenta de trabalho do gerente da obra, sendo considerado fundamental para o cumprimento diário de suas atividades. Um bom planejamento deve refletir a realidade do canteiro durante todo o prazo de execução do empreendimento e ser sempre factível. O processo de elaboração do planejamento também é fundamental para sucesso de um empreendimento, por uma série de razões. Entre elas podemos citar: Ajuda a compreender o empreendimento, define todos os trabalhos necessários, identifica os riscos, referência o orçamento e a execução, fornece informações para tomada de decisão, melhora qualidade das decisões, identifica alternativas construtivas, aumenta a velocidade de resposta e fundamentalmente explora a experiência acumulada do corpo técnico da empresa e dos profissionais envolvidos, entre várias outras. Como falamos anteriormente, a incerteza e a variabilidade são endêmicas dos sistemas de produção complexos e, na medida em que os efeitos destas incertezas se concretizam, o planejamento deve ser ajustado de forma a garantir a eficiência na produção e o atingimento das metas. Deve-se buscar o equilíbrio adequado entre o planejamento e a adaptação, uma vez que frequentemente surgem requisitos inesperados que necessitam de adaptações. Devemos buscar unir as vantagens de ambas as abordagens. Existe um conceito importante que precisa ser conhecido ao se planejar um empreendimento: Restrição tripla. A restrição tripla se refere às restrições de prazo, custo, escopo e qualidade a que todo empreendimento está submetido. É importante observar que existe uma estrita relaçãoentre eles, ou seja, quando uma destas restrições é alterada, provavelmente haverá um impacto em pelo menos uma das demais, em outras palavras, é muito pouco provável que você possa reduzir prazo sem impactar o custo, a qualidade e o escopo do empreendimento e vice versa. Se escopo aumenta, existe mais trabalho a executar e é coerente que sejam necessários mais recursos e mais tempo para executá-lo. Podemos então afirmar que custo, prazo, qualidade e escopo competem entre si e que o atingimento dos objetivos do empreendimento invariavelmente envolverá o balanceamento entre eles (Figura 21). Também é preciso definir a prioridade de cada uma das restrições afim de auxiliar na tomada de decisão em caso de conflito entre elas. Figura 21– Restrição tripla GERENCIAMENTO DE OBRAS • 39 • Prazo e custo são os primeiros pontos que os diretores irão olhar e, na maioria dos casos, os únicos, talvez porque sejam tangíveis. Já escopo e qualidade apresentam maior dificuldade para serem compreendidos e mensurados. É comum que na busca pelo resultado, os gerentes dirijam seu foco essencialmente para o gerenciamento da restrição tripla. Prazo custo e qualidade são indispensáveis, mas não são mais suficientes para garantir o sucesso de um empreendimento. É preciso entender que estes são consequência de processos bem gerenciados, ou seja, custo prazo e qualidade são o fim e não o meio. É preciso ter uma ação sistêmica de forma a obtê-los através da gestão dos demais processos. O foco excessivo em prazo e custo também pode levar a uma postura de cumpri-los a qualquer preço, negligenciando questões como segurança do trabalho, requisitos legais, qualidade, etc. Muitas vezes é necessário definir qual das restrições prevalece sobre as demais. Normalmente está associada à estratégia do empreendimento. Por exemplo, obras de shopping, onde existe uma janela de tempo para a abertura do empreendimento e multas contratuais, a restrição de prazo costuma prevalecer sobre escopo, custo e qualidade. Uma estratégia comumente utilizada para amortecer a incerteza e variabilidade do processo produtivo é o uso do chamado “pulmão” de recursos, ou seja, uma reserva extra de recursos. Os pulmões podem ser positivos ou representar desperdícios a serem combativos. Pulmões de prazo e de orçamento alocados no final do empreendimento podem ser gerenciados de forma a garantir o atingimento dos objetivos, entretanto, se estiverem distribuídos nas atividades do empreendimento mascaram as metas e se incorporam nas mesmas, sem cumprir seu verdadeiro papel. Pulmões de recursos como estoque de materiais, espaço, equipamentos e mão de obra apesar de reduzirem a variabilidade e estabilizarem a produção, representam desperdício e roubam o resultado do empreendimento e por isto devem ser combatidos. Entretanto, o planejamento sem monitoramento e controle e praticamente inócuo. Desta forma, uma vez planejado, o empreendimento deve ser executado e seus resultados monitorados e controlados. O planejamento e controle, juntos, exercem forte influência no êxito de um empreendimento. São dois processos dinâmicos e complementares durante o empreendimento. O planejamento define as ações necessárias para se atingir o objetivo, enquanto o controle assegura as tarefas ocorrerão conforme planejado. Havendo substancial descolamento entre o planejado e o realizado, as causas devem ser avaliadas e novo planejamento deve ser realizado, fechando assim o ciclo de gestão e melhoria. O horizonte de planejamento deve ser sempre superior ao do ciclo de controle. O controle deve ser exercido tanto sobre a eficiência no uso dos recursos (materiais, Mão de obra e equipamentos), quanto sobre a eficácia no atendimento às metas acordadas. 3.1.1 Longo prazo O gerenciamento de longo prazo é o nível menos detalhado da gestão devido ao grande número de incertezas que ainda existem no empreendimento no momento em que é realizado. É caracterizado pelo alto risco, grande incerteza, longa duração e pouco detalhamento. Detalhar excessivamente este nível pode se mostrar muito ineficiente diante de uma situação de alta incerteza uma vez que, o tomador de decisão terá dificuldade em compreendê-lo e disseminá-lo e o esforço para atualizá-lo ou revisá-lo será enorme. O excesso de detalhamento é um dos grandes inimigos da gestão. Pode ser tão danoso quanto à falta de informação. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 40 • O foco principal deste nível é o estabelecimento dos objetivos do empreendimento, bem como das estratégias de alto nível para atingi-los. É muito importante que sejam envolvidos representantes das diversas áreas envolvidas, com profissionais de diversas especialidades, afim de permitir análises por vários ângulos diferentes. A equipe de planejamento deve ser composta por projetistas das diversas disciplinas, arquitetos e engenheiros de variada senioridade, mestres de obra, profissionais de segurança do trabalho e de meio ambiente, entre outros. É fundamental a participação do futuro gerente do empreendimento. O produto final desta fase é o plano do empreendimento, também chamado de plano mestre, contendo o detalhamento do escopo, as principais linhas de base (custo, prazo), as premissas e restrições consideradas, os principais stakeholders identificados e seus requisitos e expectativas, o cronograma de suprimentos, os marcos gerenciais e físicos, o plano de ataque, o fluxo de produção, o projeto logístico de alto nível e projetos executivos. O plano do empreendimento deve ser sucinto e não deve deixar margem às interpretações. O nível de detalhamento do plano do empreendimento e, a sofisticação das ferramentas de gestão utilizadas, varia em função da complexidade do empreendimento e da maturidade da equipe. O gerenciamento de longo prazo atravessa todo o ciclo de vida do empreendimento sendo revisado somente quando ocorrerem alterações significativas nos objetivos do projeto, que justifiquem uma reanálise (alterações de escopo, revisão de prazo ou custo, riscos significativos, etc.). 3.1.2 Médio prazo O Gerenciamento de médio prazo busca o detalhamento da gestão de longo prazo de forma a identificar e eliminar restrições à produção. Podemos entender como restrições à produção atividades físicas e gerenciais ou recursos (pessoas, projetos, materiais, capital, informações, equipamentos, necessidades físicas) que impeçam a execução das atividades. Este nível de gerenciamento tem como horizonte, aproximadamente, 90 dias, com revisões mensais, tendo como principal cliente a área de suprimentos. A eliminação de restrições deve ter prazo e responsáveis definidos para sua eliminação. Para facilitar sua análise, as restrições devem ser agrupadas em categorias, como por exemplo: contratos, projetos, equipamentos, mão de obra, entre outros (Figura 22). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 41 • Figura 22 – Restrições agrupadas O gerenciamento de médio prazo concretiza a característica de recursos puxados, relacionados à programação das tarefas. Ele também liga as metas definidas no plano de longo prazo à programação de atividades definidas no plano de curto. É fundamental para melhoria da eficácia da gestão de curto prazo. Podemos citar como outros objetivos do gerenciamento de médio prazo: • Estudar métodos detalhados para execução do trabalho; • Decompor o escopo em pacotes de trabalho gerenciáveis, também chamados de lotes de produção. Estes lotes devem permear todo o processo de gestão, ou seja, planejamento, execução, monitoramente e controle. É a unidade básica que utilizaremos para a gestão da produção. Manter poucos lotes de produção simultâneos facilita o dimensionamento e redução da equipe de suporte, bem como o custo de logística interna; • Gerar estoque de atividades sem restrição;. • Definir equilíbrio necessário entre carga de trabalho e capacidade produtiva de forma a atender os fluxos de trabalho estabelecidos; • Reduzira parcela de atividades que não agregam valor ao processo produtivo. É muito importante o envolvimento da equipe de segurança do trabalho nesta etapa, de forma a identificar requisitos que precisam ser atendidos (restrições). O planejamento da segurança tende a exigir um planejamento mais detalhado nos métodos de execução. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 42 • Para que este plano seja consistente, é importante a identificação das restrições associadas a cada atividade, afim de que sejam removidas e aumentem confiabilidade ao plano de curto prazo que o sucederá. Caso alguma restrição não tenha sido removida, o pacote de trabalho associado não deverá ser alocado para o plano de curto prazo. Cada atividade é influenciada por um grande número de restrições. É necessário eliminar as restrições das atividades cujas datas se aproximam. A análise das restrições deve ocorre nos três níveis de gerenciamento, uma vez que existem recursos com diferentes ciclos de aquisição (longo, médio e curto). Desta forma, recursos com longo ciclo de aquisição devem ser eliminados no plano de longo prazo enquanto que recursos com baixo ciclo de aquisição são gerenciados a partir do controle de estoque. Esta prática promove a identificação antecipada de problemas protegendo a produção da incerteza. A identificação de necessidade de materiais evita compras emergenciais e a paralização de serviços por falta de material. Os principais produtos desta fase são a lista das atividades que devem ser realizadas no próximo período, e a relação das restrições associadas a cada uma, incluindo os responsáveis e prazos para sua remoção. A quantidade de semanas contidas neste ciclo é determinada pelas características do empreendimento, da confiabilidade do planejamento e do lead time de recursos (mão de obra, projeto, materiais, subcontratados e equipamentos). 3.1.3 Curto prazo O gerenciamento de curto prazo busca proteger a produção através do combate à incerteza e garantia do fluxo contínuo das atividades, de forma a concluí-las conforme planejado. Trata-se do conceito de “produção protegida”. A produção protegida pode ser definida como a transformação do que deveria ser feito no que pode ser feito. A proteção é realizada através do pressuposto que nenhuma atividade deve iniciar sem que todos os recursos necessários estejam disponíveis. O trabalho só deve ser entregue para execução com elevado grau de certeza quanto a sua exequibilidade. (Figura 23). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 43 • Figura 23 – Remoção de restrições Neste nível de gerenciamento, os principais motivos da baixa aderência da produção ao planejado não são os processos produtivos e sim os gargalos de logística e da falta de recursos necessários. É preciso proteger a produção contra variações e fatos indesejáveis internos e externos, advindos de interações com diversos stakeholders (fornecedores, clientes, funcionários, empreiteiros, projetistas, comunidade, poder público, sindicatos, entre outros). As atividades programadas devem estar bem definidas, quantificadas, serem exequíveis, sequenciadas e com carga de trabalho adequada à capacidade das equipes e ter as causas de não atendimento às metas identificadas e sanadas. O gerenciamento de curto prazo trabalha com o ciclo de programação semanal com acompanhamento diário. Ciclos de controles menores permitem a identificação de problemas e oportunidades de melhoria de forma muito mais rápida. A programação semanal deve orientar diretamente a produção através do detalhamento das atividades, buscando a melhor utilização dos recursos já disponíveis. Deve-se rever toda alocação de recursos e sequencia executiva de forma a identificar possíveis interferências que poderão causar interrupções no fluxo. Nesta fase, pacotes de trabalho são atribuídos a cada equipe, buscando reduzir a ociosidade. Durante sua realização deve ser verificada novamente a ausência de restrições. A identificação e remoção de restrições têm sido largamente negligenciadas pelos gerentes de obra. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 44 • Também são programadas atividades reservas, para o caso de alguma eventualidade interromper o fluxo da produção (Figura 24). Neste caso, os recursos seriam deslocados para estas atividades, reduzindo o desperdício irrecuperável de recursos que inevitavelmente ocorreria. Figura 24 – Gestão de médio prazo x gestão de curto prazo As atividades programadas também devem ser classificadas por ordem de prioridade, de forma que as equipes saibam direcionar os recursos para as atividades mais críticas, caso ocorra alguma falta. A programação deve ter forte ênfase no engajamento de todos os profissionais envolvidos. O comprometimento deve ocorrer durante a reunião de programação semanal, quando os pacotes de trabalho são negociados, baseado no estado atual de execução da obra, nas datas definidas pelo plano de médio prazo e pela capacidade de execução das equipes. O ciclo de gestão de curto prazo utiliza a habilidade de gestão daqueles que estão no dia a dia do canteiro. Vários são os benefícios da realização destas reuniões com a equipe: • Mantém o comprometimento da equipe; • Desenvolve os empreiteiros informando-os o que se espera deles; • Permite gerenciar o relacionamento com os fornecedores e entre eles;. • Mantém o foco da atenção no que pode realmente ser feito; • Facilita o aprendizado da experiência. Duas regras são fundamentais para esta programação semanal: Se você prometeu, cumpra; Se não pode fazer, não prometa fazê-lo. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 45 • A programação semanal deve constituir o último nível de tomada de decisão. É importante evitar a tomada de decisão no canteiro, muitas vezes realizada pelos encarregados, sobre pressão do tempo, com pouca visão do todo e que na maioria das vezes soluciona um problema e cria diversos outros. É importante que as interferências que surgirem entre atividades sejam negociadas entre os responsáveis por cada uma das partes. Também é importante programar as atividades de descarga, transporte vertical e horizontal de material de forma a atender as atividades programadas. Uma vez iniciada uma atividade, não deve haver alterações na sua programação, pois a realização de setup gera grande desperdício de recursos. Trabalhos não programados também devem ser evitados a todo custo, pois consomem recursos preciosos e tempo, levando ao atraso e desvio do caminho crítico. Após a execução das atividades, semanalmente, deve ser avaliada a aderência da produção ao planejado (PPC% – percentual de programação cumprida). Esta avaliação permite a identificação e correção dos desvios de forma rápida, minimizando as consequências e os impactos nos objetivos do empreendimento. Também é importante avaliar os motivos que impediram a aderência plena da produção à programação e melhora-la semana após semana, aumentando assim a confiabilidade das programações futuras. Este processo também aumenta a habilidade de adaptação da equipe aos imprevistos e à realidade do canteiro. (Figura 25). Figura 25 – Fechamento do ciclo de gestão Do ponto de vista do planejador, um excesso de produtividade não previsto também pode ser um problema, uma vez que consome recursos que podem não estar disponíveis, como por exemplo, a capacidade de transporte vertical e horizontal, materiais, equipamentos, etc. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 46 • O gerenciamento de curto prazo demanda uma mudança de cultura, pois não se trata mais de apenas de cobrar produção da equipe e sim de definir em conjunto com a equipe a melhor sequencia executiva, o momento correto para disponibilizar insumos, a organização da equipe e os critérios de recebimento dos serviços. 3.1.4 Conclusão O Cubo de Gestão não tem um caráter dogmático, ao contrário, é situacional e contextual. O método se propõe a ser um meio e não um fim em si mesmo. Para se obter sucesso deve ser adaptado ao seu estilode gerenciamento, cultura, ambiente e ao empreendimento a que se destina. É preciso determinar quais processos devem ser implementados, e em que grau de profundidade, dependendo do tipo e complexidade do empreendimento. O método busca oferecer um modelo estruturado e organizado para se alcançar o sucesso em empreendimentos, em todas as ocasiões. Entretanto o mesmo não pode ser considerado uma obra acabada, e sim uma disciplina em evolução, estando sobre constante avaliação, e melhoria. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 47 • Segunda parte Nesta segunda parte abordaremos cada uma das perspectivas de gerenciamento e seus processos individualmente, entretanto, não existe uma sequência definida aqui apresentada, uma vez que as perspectivas acontecem em paralelo. Poderíamos iniciar por qualquer perspectiva. Iniciaremos pelo gerenciamento do trabalho pois, contém o processo de identificação dos stakeholders e coleta de requisitos, fundamental à elaboração dos demais processos e perspectivas. Depois abordaremos o gerenciamento técnico por que define e detalha o escopo do que será construído e a estratégia de ataque e finalmente abordaremos o gerenciamento da produção, que trata de materializar tudo o que foi planejado buscando maior eficiência e redução de desperdício. Esta segunda parte pode ser lida de duas formas: pode-se ler cada área de conhecimento conforme apresentado neste manual ou pode-se seguir a sequência dos processos, conforme apresentado no mapa de processos (Figura 18). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 48 • GERENCIAMENTO DE OBRAS • 49 • 4. Gestão do Trabalho O gerenciamento do trabalho diz respeito ao esforço e aos recursos necessários para se obter o produto. Normalmente busca responder às perguntas: O que deve ser feito? Por quem? Quando? Com que recursos? Com que custo? Com que qualidade (PRADO,2004; PMBOK,2009)? O gerenciamento do trabalho aborda a identificação dos stakeholders e o levantamento de suas expectativas, o levantamento dos requisitos (normativos, técnicos, legais e contratuais), a identificação das restrições e dos riscos, o detalhamento do escopo e de suas exclusões, o planejamento das aquisições, comunicações, recursos humanos, segurança do trabalho, entre outros. Neste capítulo discorreremos sobre os vários processos que compõe a gestão do trabalho. 4.1 Termo de abertura O termo de abertura formaliza sumariamente o início do empreendimento. Este Termo contém os principais objetivos do empreendimento, os requisitos que devem ser atendidos, os fatores críticos para seu sucesso, os principais desafios que serão encontrados, a identificação dos principais stakeholders, a formalização das premissas que deverão ser utilizadas no planejamento, as restrições que limitarão as escolhas da equipe, os principais riscos identificados, o escopo de alto nível, o cronograma macro, o custo alvo e a estratégia para chegar ao sucesso. O termo de abertura deve ser aprovado pelo patrocinador e pelos principais stakeholders do empreendimento (Figura 26). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 50 • Figura 26 – Termo de abertura do empreendimento. O principal documento de entrada para elaboração do Termo de Abertura do Empreendimento é o Business Case. O Business Case objetiva justificar a viabilidade para o investimento, baseado em estimativas de prazo, custo, riscos e benefícios associados. Este é composto por vários documentos, sendo os principais os seguintes: projeto legal; memorial de incorporação; documentos legais; condicionantes; documentos jurídicos, entre outros. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 51 • Termo de Abertura do Empreendimento � Estratégia � Objetivos e metas � Estrutura organizacional � Modelo de Governança INTEGRAÇÃO Elaboração do Termo de Abertura BUSINESS CASE � Memorial de Incorporação � Projetos legais � Condicionantes � Documentos legais � Brieing técnicos � Documentos jurídicos Figura 27 – Processo de definição da estratégia Dentre os vários temas que compõem o termo de abertura, detalharemos alguns que são fundamentais para o sucesso de um empreendimento: definição dos objetivos e metas; definição da estrutura e modelo de governança e a elaboração da estratégia certa. 4.1.1 Objetivos e metas Definir o que é sucesso em um empreendimento não é uma tarefe fácil. Os objetivos de prazo, custo e qualidade são essenciais, mas não são mais suficientes, pois refletem apenas o resultado de curto prazo, ou seja, a eficiência do empreendimento, não refletindo impactos de longo prazo. É preciso adotar uma visão multidimensional de desempenho, inserindo outras perspectivas de sucesso e decidir como o empreendimento será julgado no seu encerramento. O sucesso em um empreendimento depende muito do ponto de vista que está sendo analisado. Como cada stakeholder possui requisitos e expectativas diferentes, as avaliações podem variar muito. Por exemplo: um empreendimento que excedeu o custo previsto, mas que entregou o produto com qualidade acima do esperado pode levar a uma avaliação excelente por parte do cliente e negativa por parte do acionista da construtora. Alguns autores propõem que o sucesso de um empreendimento não seja avaliado somente na dimensão de eficiência (custo, prazo e qualidade), mas também nas dimensões de impacto para o cliente, impacto para a equipe, preparação para o futuro e impactos para a organização. Esta visão permite que o sucesso seja entendido de forma mais ampla. Cada objetivo tem os seus indicadores, também chamados de KPIs, acrônimo em inglês para Key Performance Indicators. Os indicadores, quando analisados de forma integrada, devem fornecer ao gestor um panorama sobre o desempenho do empreendimento. Cada indicador deve ajudar na tomada de decisão e nos trade-offs que o gerente terá de fazer. É preciso compreender também que os vários indicadores não estão isolados. Eles formam uma rede, se relacionando e reforçando mutuamente, sendo, portanto importante analisá-los de forma sistêmica e não só individual. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 52 • Cada indicador deve ser acompanhado de uma meta que definirá os critérios de sucesso ou fracasso. A relação de cada meta com seus respectivos objetivos do empreendimento deve ser evidente. As metas devem levar a empresa a querer ser melhor, a alcançar resultados excepcionais. Uma meta bem colocada move a empresa inteira para um objetivo comum, uma vez que a mesma alimenta um processo de ação e reação. É importante perceber o poder direcionador das metas. Sem metas, o empreendimento fica sem direção, pois para quem não sabe onde quer chegar, qualquer resultado serve. É um processo dinâmico e contínuo de aprendizagem e constantes revisões e melhorias. Como o ciclo de construção é longo, também é preciso definir metas intermediárias de forma a aumentar a motivação e comprometimento da equipe durante a caminhada, aumentando assim as chances de sucesso. Estas metas intermediárias podem ser marcos físico ou gerencial, etapas, entregas, etc. Embora possam vir a ocorrer conflitos entre duas ou mais metas, como no caso da restrição tripla, sempre que possível, estes devem ser evitados. Uma meta de redução de prazo invariavelmente poderá conflitar com uma meta de redução de custo. A implementação de um sistema de indicadores impacta toda a organização, por isso, a definição das metas deve seguir algumas recomendações básicas: serem específicas, mensuráveis, realistas, precisas, desafiadoras, possuírem prazo determinado, práticas, fazerem parte de um ciclo de monitoramento e controle, diretas (nada de cálculos complexos), objetivas, adequadas e confiáveis. O sistema de metas deve permitir atualização ágil, ser flexível e integrada com os sistemas de informação da empresa. Também é preciso atenção com a quantidade de metas estipuladas. A mesma não deve sobrecarregar a equipe com informações desnecessárias. Quem tem metas demais não tem nenhuma.As metas do empreendimento devem ser desdobradas a todos os níveis de gestão, ou seja, diretores, gerentes, engenheiros, técnicos, encarregados, todos devem possuir as suas metas. Entretanto, é preciso garantir que haja integridade das informações, ou seja, deve haver alinhamento entre as metas individuais e as metas do empreendimento. Se as meta das hierarquias inferiores forem batidas as dos níveis superiores também o serão. É preciso estabelecer uma estrutura lógica de causa-efeito de forma a evitar uma visão fragmentada e desalinhada entre os níveis (Figura 28). O sistema de metas deve também estar alinhado com o sistema de recompensa e reconhecimento de cada empregado, inclusive atrelado ao sistema de bonificação. Figura 28 – Desdobramento de metas GERENCIAMENTO DE OBRAS • 53 • Figura 29 – Desdobramento de metas para os vários níveis da organização A elaboração de painéis de indicadores (cockpits) facilita a analise, agrupando informações e permitindo ao gestor ter uma visão geral do desempenho do empreendimento. A utilização de planilhas eletrônicas facilita seu manuseio e a realização de análises complementares e a criação de indicadores visuais de desempenho, com cores, etc. (Figura 30). Figura 30 – Relatório de acompanhamento de meta GERENCIAMENTO DE OBRAS • 54 • Outra prática interessante é criar um ranking de desempenho entre equipes entre empreendimentos, promovendo assim uma competição saudável (Figura 31). Figura 31 – Ranking de desempenho de indicadores entre empreendimentos Figura 32 – Sistema de reconhecimento ao bom desempenho GERENCIAMENTO DE OBRAS • 55 • É considerada boa prática a apresentação dos resultados obtidos nas frentes de trabalho para que as pessoas tenham conhecimento dos impactos de suas ações. O resultado deve ser apresentado em formato simples, claro e objetivo. As decisões e controles devem ser exercidos o mais próximo possível da execução das tarefas, preferencialmente por aqueles que a executam. Figura 33 – Painel de indicadores nas frentes de trabalho A transparência na gestão gera um clima de confiança na relação da empresa com os colaboradores, a sociedade, os fornecedores, etc. A criação de painéis de indicadores em gestão à vista facilita o controle e dá transparência ao processo. Figura 34 – Painel de gestão a vista de objetivos e metas GERENCIAMENTO DE OBRAS • 56 • É preciso criar uma cultura de analisar os indicadores, buscando identificar os problemas que levaram ao cumprimento da meta, propondo ações para melhorar o desempenho, implementando-as e verificando sua eficácia. Normalmente é gasto mais energia na justificação dos números obtidos do em buscar soluções para prevenir e corrigir o problema. 4.1.2. Estrutura e Governança Governança é um conceito importante. Trata-se do processo pelo qual um empreendimento dirige e controla suas atividades e responde às expectativas e requisitos de seus stakeholders, ou seja, é a estrutura de gestão do empreendimento. A governança deve garantir à equipe do empreendimento uma estrutura de tomada de decisão adequada, definir os papeis, a autoridade, as responsabilidades e obrigações, os níveis de coordenação necessários, e os processos prioritários, de forma a permitir uma gestão eficaz. A governança é um elemento essencial de qualquer empreendimento, principalmente nos mais complexos e arriscados. É específica para cada empreendimento e não deve ser confundida com a governança da organização. A responsabilidade de manter uma boa governança em um empreendimento é normalmente atribuída ao seu patrocinador. Para que seja eficaz, a governança do empreendimento deve ser planejada antecipadamente. É preciso existir um equilíbrio entre objetivos e metas, e autoridade e responsabilidade. Autoridade é o poder para tomar decisões, de agir, de fazer acontecer. Toda autoridade traz consigo responsabilidades e obrigações, e a necessidade de prestação de contas a um nível superior. É necessário haver um equilíbrio entre a autoridade atribuída e as responsabilidades, sob pena de não poderem-se exigir resultados. É necessário ter a autoridade adequada sobre os recursos de forma que seja capaz de assumir a responsabilidade de entregar os resultados acordados (Figura 35). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 57 • Figura 35 - Relação entre autoridade, responsabilidade recursos e resultado. A estrutura pode ser centralizada ou descentralizada, ambas com vantagens e desvantagens. A estrutura centralizada possui a vantagem de permitir a visão global da empresa e o aumento da escala. Também facilita o controle e permite trabalhar com profissionais mais capacitados. Em contrapartida possui a desvantagem de estar longe da operação e demandar mais tempo, devido ao fluxo de informação. A estrutura descentralizada parte da premissa de que a autoridade para tomada de decisão deve estar o mais próximo possível da operação. Isto possibilita a redução nos prazos de decisão e aumento da motivação. Também proporciona decisões mais alinhadas com o momento, reduz a burocracia e desenvolve as pessoas. As desvantagens são a falta de uniformidade das decisões, o desperdício de recursos, a sobrecarga da equipe de campo e o aumento dos riscos. A governança também pode ser variável durante o ciclo de vida do empreendimento. Pode-se proporcionar maior autonomia ao gerente da obra no início do empreendimento, de forma a quebrar o mais rapidamente possível a inércia, mobilizar os primeiros recursos e instalar o canteiro. Após a mobilização, a autonomia pode ser reduzida e as decisões centralizadas permitirão ganho de escala e redução do risco. Na reta final do empreendimento, onde surgem pequenas demandas urgentes e imprevisíveis, a autonomia da obra pode ser restaurada de forma a permitir a reação o mais brevemente possível, evitando atrasos na sua conclusão. É necessário entender que em função dos desafios de cada empreendimento, muda-se a importância de cada processo. É necessário escolher os processos que agregam mais valor aos objetivos do empreendimento; Por exemplo, em um empreendimento cujo proprietário tem liberdade de alteração do projeto, o processo de controle de escopo é de fundamental importância, já em empreendimentos com sérios requisitos ambientais os processos de gestão ambiental são fundamentais. Em empreendimentos cujo prazo se apresenta como a principal restrição ou onde há grande imprevisibilidade, a velocidade na tomada de decisão é fundamental. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 58 • Neste caso é necessário repensar inclusive o modelo de governança da empresa, buscando levar para mais próximo da operação profissionais que tenham a autonomia necessária para tomar as decisões, no menor tempo possível. Também é importante que seja escolhido o nível adequado de sofisticação dos recursos de gerenciamento a serem aplicados em cada empreendimento. Não é a utilização de softwares e ferramentas sofisticadas que garantirá o nível de gestão do empreendimento, mas, sim, o uso eficiente das ferramentas e técnicas adequadas às reais necessidades da obra. A governança deve garantir que o gerenciamento ocorra por exceção, ou seja, que cada nível de gestão tenha autoridade compatível com suas responsabilidades e que só subam aos níveis superiores problemas que ultrapassem a autoridade e responsabilidade do nível inferior. Esta prática garante que cada nível faça o seu papel adequadamente de forma a obter o resultado esperado sem sobrecarregar as alçadas superiores com decisões do dia a dia (Figura 36). Em construção civil é muito comum ocorrer o micro gerenciamento por parte de diretores, gerentes e supervisores. Basta o empreendimento entrar em dificuldades que todos descem ao nível do canteiro para agir nas decisões do dia a dia buscando reverter seu resultado. Quando isto acontece, o empreendimento fica acéfalo, pois passam todos a pensar e agir no curto prazo se esquecendode seus verdadeiros papéis táticos e estratégicos. Os gestores de construção civil têm muita dificuldade de agir desta maneira. Normalmente, se sentem mais confortáveis estando a par dos detalhes e minúcias da operação. Figura 36 – Gerenciamento por exceção Qualquer que seja a estrutura adotada pelo empreendimento, esta deve ser aderente às necessidades do mesmo. A adequada estrutura organizacional deve atender à necessidade de flexibilidade além de refletir o poder necessário para tomada de decisão ao logo da estrutura. Diante da incerteza, a velocidade de resposta aumenta com a distribuição de autoridade às pessoas, contrariamente quando se segue procedimentos rígidos através de uma longa cadeia de decisão. É preciso equilibrar a segurança, a qualidade da decisão e a velocidade necessária. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 59 • 4.1.3. Estratégia Existe uma característica de singularidade em cada empreendimento de construção civil. Diferentes tipos de empreendimentos necessitam de diferentes abordagens gerenciais e diferentes técnicas de gestão. É necessário avaliar os desafios de cada empreendimento, e o ambiente em que o mesmo está inserido, de forma a criar uma estratégia eficaz. A estratégia correta pode significar a diferença entre o sucesso e o fracasso de um empreendimento. Uma estratégia clara facilita a priorização de atividades, recursos e a resolução de conflitos, definindo inclusive como a equipe reagirá às mudanças que certamente ocorrerão. Uma vez definida, a estratégia deve ser comunicada reiteradamente a todos os envolvidos e ser cuidadosamente monitorada, de forma a garantir que continue pertinente. A estratégia deve ser documentada e aprovada formalmente, no Termo de Abertura do Empreendimento. Um dos principais objetivos da estratégia é definir as diretrizes e premissas e restrições que orientarão a elaboração do planejamento do empreendimento. Diretrizes são orientações ou instruções que definem e regulam o caminho a seguir. São as linhas sobre as quais traçaremos o planejamento do empreendimento. Compõem as diretrizes: premissas, restrições, fatores críticos para o sucesso, riscos, etc. Parte do planejamento se baseia sobre premissas, que, por definição, são fatos ou condições que assumimos como verdade para efeito de planejamento (prazo de entrega de fornecedores, disponibilidade de recursos, capacidade da equipe, clima, produtividade etc), por não termos informações suficientes. Devemos buscar definir premissas que sejam o mais próximo possível da realidade, pois se mal definidas, podem jogar todo o planejamento e o resultado do empreendimento no lixo. Para toda premissa que assumimos, um risco é gerado e deverá ser gerenciado durante o empreendimento. Elas devem ser validadas periodicamente e, caso não se confirmem, os impactos devem ser avaliados e o planejamento refeito. Por exemplo: se assumimos como premissa que os fornecedores locais terão condições de atender a demanda do empreendimento, devemos durante o planejamento e execução do empreendimento confirmar que esta premissa é verdadeira, caso não o seja, teremos de mudar a estratégia e buscar fornecedores externos, podendo impactar custos, prazos de contratação, entre outros. Restrições são quaisquer fatores que limitem as opções do gestor. Neste caso, não existe a incerteza, ou seja, o empreendimento deve respeita-la. Existem restrições internas ou externas, como por exemplo, condicionantes ambientais, legislações municipais, como horários de carga e descarga, limitações de tráfego de veículos pesados, requisitos técnicos e de desempenho, requisitos normativos ou até mesmo os próprios objetivos do de prazo, custo, escopo e qualidade do empreendimento. Estas restrições devem ser consideradas no planejamento do empreendimento para que o mesmo seja realista e factível. Existem fatores que influenciam fortemente o desempenho do sistema e que fracassar em algum deles pode significar o fracasso do empreendimento como um todo: são os fatores críticos de sucesso. São algumas poucas áreas onde não podemos nos dar ao luxo de falhar. Como recurso são limitados, em caso de falta os mesmos serão priorizados para estes fatores. Os mesmos precisam ser acompanhados de monitorados durante todo o empreendimento, como metas. Um exemplo clássico de fatores críticos de sucesso são as datas marco. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 60 • A perda da data de abertura de um shopping implica a perda de janela comercial e multas contratuais que podem inviabilizar o empreendimento. Na elaboração da estratégia são analisados os vários cenários possíveis, a real capacidade da empresa de cumprir os objetivos do empreendimento, incluindo seus pontos fortes e fraquezas, a identificação das variáveis críticas para o atingimento do sucesso. Várias dimensões podem ser analisadas para a definição da estratégia mais adequada. Cada dimensão impacta o empreendimento de forma específica, isolada ou combinada com as demais. As mais frequentemente utilizadas são: 1. Nível de instabilidade ou incerteza do escopo (possibilidade de alterações): Empreendimentos com esta característica são altamente desafiadores do ponto de vista de prazo e custo. Quanto maior for esta instabilidade ou incerteza, maior será a necessidade de controle, de forma a evitar que o prazo e custo escapem do controle. Exemplos de premissas que provocam esta estabilidade são quando existe liberdade para que o cliente altere sua unidade, ou no caso se shoppings onde na medida em que o mix de lojistas vai se formando, novos stakeholders são adicionados e com eles novos requisitos. 2. Pressão por prazo: A pressão por prazo impacta o grau de autonomia que as equipes devem ter, a velocidade de tomada de decisão necessária e o envolvimento da alta administração no empreendimento. Quanto mais desafiador for o prazo do empreendimento, maior deve ser a velocidade de resposta para questões surgidas no dia a dia do canteiro. Desta forma, maior deve ser a autonomia da equipe da obra para que tome a ações corretivas o mais brevemente possível. A proximidade da alta administração também agiliza e melhora o processo de tomada de decisão. Exemplos comuns de empreendimentos com esta característica são estruturas industriais, onde os prazos curtos e a existência de datas específicas para lançamento de produtos tornam possíveis atrasos inaceitáveis. 3. Rigor das metas de custo: Empreendimentos com metas de custo muito ousadas e desafiadoras devem adotar processos formais de aprovação de aquisições que excedem ao orçamento previsto e também processos ágeis para reavaliação do escopo e adoção de possíveis revisões de especificações, afim de adequá-las ao custo previsto. 4. Complexidade: A complexidade é definida pelo grau de interdependência entre as atividades e quantidade de intervenientes. Afeta a estrutura do empreendimento, o nível de maturidade necessário para os profissionais e a formalidade necessária aos processos de gestão. Quanto maior a complexidade do empreendimento, mais formais devem ser os processos de gerenciamento do mesmo. 5. Grau de inovação: O grau de inovação reduz a confiabilidade das previsões e aumenta o tempo necessário para se fixar especificações do produto. 6. Incertezas quanto à tecnologia utilizada: A tecnologia utilizada impacta na experiência da equipe e do projeto. A adoção de tecnologia não dominada pela organização ou dominada por poucos fornecedores é um risco a ser considerado e gerenciado. 7. Porte (grande ou pequeno): Na medida em que os projetos crescem em tamanho, necessitam de melhor estrutura, melhor processo de gerenciamento e equipes mais experientes. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 61 • 8. Condições de suprimentos: Empreendimentos que demandam aquisições de produtos ou serviços de alta complexidade ou com grande impacto nos resultados do mesmo devem ser gerenciados com maior ênfase no processo de aquisições. Indisponibilidadesde recursos fundamentais também devem ser consideradas na estratégia. 9. Localização geográfica: Executar empreendimento em outras regiões também pode exigir mudança da estratégia. Devem ser analisadas a cultura local, os fornecedores disponíveis, a distância da sede, etc. 10. Nível de influências, participação e atrito com os stakeholders: Empreendimentos com influência, participação ou relação conflituosa com stakeholders demandam equipes maduras e com aptidão para gestão de conflitos. Exemplos comuns de empreendimentos com estas características são obras com participação direta de contratantes, com grandes impactos em comunidades e vizinhança ou com interesse direto de órgãos públicos e sociedade civil organizada. 11. Outros: Várias outras dimensões de análise podem ser realizadas, tais como a importância do empreendimento para o negócio, o modelo de contratação (administração ou preço fechado), condições técnicas, requisitos ambientais e legais, maturidade da equipe, maturidade dos projetistas, etc. As dimensões analisadas podem ser graduadas e representadas em um gráfico radar de forma a permitir um melhor entendimento e comparação entre empreendimentos e estratégias. 1900ral 1900ral 1900ral 1900ral Complexidade Pressão por prazo Inovação Rigor no custoTecnologia envolvimento de stakeholder interdenpedenc ia Análise de Dimensões Figura 37 – Gráfico radar de dimensões de análise da estratégia GERENCIAMENTO DE OBRAS • 62 • O “modus operandi” da construtora também deve ser considerado durante a elaboração da estratégia. Empresas que optam por utilizar mão de obra própria precisam ter muita atenção no controle da produtividade e conseguem se adaptar ajustando e remanejando recursos de forma mais simples e rápida afim de impedir grandes descontinuidades no cronograma. Já empresas que optam pela terceirização dos serviços têm maior controle de escopo e menor risco em relação à improdutividade, mas devem ser excelentes no processo de contratação e gestão de terceiros. É importante ressaltar a importância da utilização de métodos na formulação da estratégia, pois o pensamento estratégico raramente ocorre de maneira espontânea. Utilizar-se somente da experiência dos profissionais no desenvolvimento da estratégia de um empreendimento pode levar à contaminação da mesma por vieses pessoais, pré-conceitos, limitações técnicas, entre outras. 4.2 Gestão do Escopo O escopo pode ser definido como o que está e o que não está incluso no empreendimento, incluindo as premissas adotadas, e as restrições e requisitos existentes. A gestão do escopo pode parecer uma atividade simples, mas na construção civil quase nunca é uma tarefa fácil e, por vezes, é a grande responsável pelo seu sucesso ou fracasso. Parte desta dificuldade advém da alta complexidade dos empreendimentos atuais, com muitas interfaces, entre diferentes intervenientes (projetistas diversos, fornecedores, áreas da empresa, especialidades, órgãos e agências governamentais, etc.). Por mais incrível que possa parecer, apesar de sua importância, a gestão do escopo é, em grande parte, negligenciada, sendo que, na maioria das construtoras, nem sequer existem processos estruturados para coleta de requisitos, planejamento, verificação, entrega formal e controle do escopo. Quanto maior for a complexidade e a incerteza do escopo, maior será a dificuldade na sua gestão e mais importante a adoção de processos formais. Frequentemente a gestão do escopo torna-se uma fonte de atrito nos empreendimentos. Divergências de entendimento sobre o que será realizado e sobre a responsabilidade de cada uma das partes envolvidas são os principais motivos de atrito. Uma boa definição do escopo é a gênese de um bom planejamento, uma vez que, se o mesmo for elaborado sobre um escopo mal definido, fatalmente conduzirá o empreendimento ao fracasso. É importante lembrar que existe uma diferença entre o escopo na visão do cliente e o escopo do empreendimento. Para que o escopo do cliente seja entregue, muitas outras entregas têm de ser geradas, ou seja, o escopo do projeto é maior do que o escopo do cliente. No momento do planejamento inicial de um empreendimento, é normal que exista um alto grau de incerteza. Muitas vezes são utilizados projetos básicos, muito incipientes, ou até mesmo projetos similares, levando à adoção de premissas que precisarão ser validadas à medida que a engenharia detalhada é elaborada. Este alto grau de incerteza é o primeiro grande desafio da gestão de escopo. Às vezes é necessário inclusive desmembrar o planejamento deixando separados pacotes imprevisíveis para trata-los de forma específica. De forma geral, o escopo do empreendimento vai se tornando mais claro e detalhado na medida em que o empreendimento avança. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 63 • Para fazer frente às exigências de prazo cada vez mais desafiadoras, ou na busca por viabilidade econômica, construtoras tem recorrido à técnica chamada “engenharia simultânea”, conhecida também como “concurrent engineering”. Nesta técnica, os projetos são desenvolvidos paralelamente à execução do empreendimento, o que potencializa os riscos e dificulta em muito a gestão de seu escopo. A utilização da engenharia simultânea exige maturidade da empresa, dos processos e dos profissionais envolvidos, tanto da empresa contratante, como de seus projetistas e fornecedores. A engenharia simultânea reforça a importância da abordagem do planejamento por ondas sucessivas, uma vez que o escopo vai sendo detalhado no decorrer do projeto. Uma vez identificado, o escopo deve ser planejado, executado, monitorado, controlado e encerrado. A Figura 38 apresenta sumariamente o processo de gestão de escopo e sua relação com os demais processos de gestão do trabalho, do produto e da produção. ESCOPO Coletar os requisitos ESCOPO Definir o Escopo ESCOPO Criar EAP ESCOPO Verificar escopo ESCOPO Monitorar e controlar o escopo STAKEHOLDERS Identificar as partes interessadas Gestão do Trabalho ESTRATÉGIA Definir a estratégia BUSINESS CASE � Memorial de Incorporação � Projetos legais � Condicionantes � Documentos legais � Brieing técnicos � Documentos jurídicos TEMPO Definir as atividades PROJETOS Projetos Básicos PROJETOS Constructibilidade PROJETOS Plano de ataque PROJETOS Lay out de canteiro PROJETOS Logistica PROJETOS Projeto à Produção PROJETOS Projetos Executivos � Declaração do escopo� Matriz de rastreabilidade � EAP � Dicionáro da EAP � Solicitação de mudança de escopo Gestão Técnica � Declaração do escopo � Entregas aceitas COMUNICAÇÕES Relatório de desempenho INTEGRAÇÃO Realizar o controle integrado de mudanças � Medições de desempenho PLANO DE AÇÃO Controle integrado de ações INTEGRAÇÃO Elaborar o Plano de Gestão do Empreendimento INTEGRAÇÃO Encerrar o empreendimento PRODUCÃO Planejamento Executivo Gestão da Produção QUALIDADE Assistência Técnica Figura 38 – Processo de gestão do escopo de um empreendimento 4.2.1. Coleta de requisitos O processo de coletar requisitos objetiva definir e documentar as características que o produto e os serviços do empreendimento devem ter, afim de satisfazer as expectativas e necessidades de todos os stakeholders. Coletar requisitos está no cerne dos processos de planejamento e não é uma tarefa trivial. Os requisitos descrevem as características que o empreendimento deve ter e, quantificam e priorizam as expectativas e necessidades dos stakeholders. Estes requisitos serão utilizados em vários processos de planejamento, entre eles de custo, cronograma, qualidade, segurança, suprimentos, no desenvolvimento de projetos básicos e executivos, entre outros. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 64 • Os bons gerentes percebem o valor de investir tempo e recursos no entendimento das necessidades e expectativas dos stakeholders, principalmente dos patrocinadores, clientes, fornecedores,projetistas e órgãos públicos. Busca-se explicitar ao máximos as expectativas, convertendo-as em necessidades e posteriormente em requisitos. A não consideração de requisitos de um stakeholder pode resultar em uma produção eficiente de um empreendimento inadequado ou, a identificação de um requisito tardiamente pode inviabilizar completamente o empreendimento ou representar grandes custos e atrasos. O envolvimento dos stakeholders na identificação, aceite e controle do escopo, busca também obter o seu comprometimento com os objetivos planejados. A coleta de requisitos deve ser um processo formal, pois muitas vezes stakeholders tem memória curta. Precisam ser analisados e registrados em um nível de detalhes adequado para que sejam facilmente identificados e posteriormente gerenciados. Devem ser rastreáveis, investigáveis, consistentes, possuir identificador único, mensuráveis, testáveis, e aceitáveis para as principais partes interessadas. Seu entendimento é fundamental para o sucesso do empreendimento. Os requisitos devem possuir identificação de origem (patrocinador, legislação, cliente, etc.), e proprietário, ou seja, quem será responsável por sua gestão. Também precisam ser priorizados em função da sua importância para o resultado do empreendimento. Todas estas informações são registradas em uma Matriz de Rastreabilidade de Requisitos (Figura 39). Esta Matriz permite associar cada requisito ao stakeholder que a originou, de forma a permitir a obtenção do aceite e a negociação de possíveis mudanças necessárias. A coleta de requisitos inicia com a análise do “Termo de Abertura” e de toda a documentação que o compõe (business case, memorial de incorporação, briefings técnicos, projetos legais, condicionantes, documentos jurídicos). Invariavelmente envolverá a análise de outros documentos técnicos (sondagens, projetos, básicos, executivos e destinados à produção, normas, especificações técnicas, manuais de fornecedores, entre outros). É comum que no início do empreendimento, alguns elementos ainda não estejam totalmente especificados e detalhados, sendo assim a análise ocorrerá concomitantemente, de forma a identificar requisitos e influenciar em melhores escolhas para o empreendimento. É o principal ponto de integração entre a gestão do trabalho, a gestão técnica e a gestão da produção. A coleta de requisitos alimentará e será alimentado pelos processos de gestão técnica e gestão da produção. Entendendo que o Termo de Abertura reflete apenas os requisitos do patrocinador, logo em seguida se inicia a análise dos demais stakeholders, identificados anteriormente no processo de identificação de stakeholders (Ver capitulo188 0). A coleta de requisitos é um processo dinâmico que deve permanecer por todo o ciclo de vida do empreendimento. Eles serão progressivamente coletados na medida em que o empreendimento avança. Muitas vezes os requisitos dos diversos stakeholders são conflitantes e deverão ser negociados entre as partes. É preciso diminuir a probabilidade de ocorrência de divergências no entendimento do escopo durante sua execução. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 65 • Id Pacote de trabalho Requisito Descrição Origem Stakeholder Documento de referência Tipo Criticidade Status Prorpietário Observações 1 Legislação Expectativa Médio Atendido 2 Metas Premissa Alto Em execução 3 Expectativa Oportunidade Baixo Cancelado 4 Externo Restrição Não atendido 5 Padrões Marco 6 Legislação Requisito 7 8 9 10 11 12 MATRIZ DE RASTREABILIDADE DE REQUISITOS Figura 39 – Matriz de Rastreabilidade de Requisitos É preciso estar atento para que stakeholders não venham a ter expectativas ou necessidades irrealistas, que o empreendimento não irá atender. Neste caso, deve-se deixar claro o que faz e o que não faz parte dele, relacionando-os como fora do escopo. Somente farão parte do escopo do empreendimento aqueles requisitos que forem aceitos. O que não estiver no escopo não será planejado, programado, ou comunicado. Os requisitos podem ser classificados como funcionais; não funcionais; de qualidade; padrões da empresa; premissas, restrições; legais; normativos; segurança; meio ambiente, e de outras áreas da empresa como da área de suprimentos, etc. Os requisitos funcionais estão ligados ao desempenho do produto e serão desenvolvidos principalmente pela gestão técnica durante o desenvolvimento dos projetos, como por exemplo: requisitos de desempenho. No entanto, requisitos funcionais podem também surgir da gestão da produção, como por exemplo, a capacidade de carga provisória da parte da estrutura para suportar esforços provisórios durante a execução da obra. Requisitos não funcionais são aqueles que estão relacionados ao produto mas não o descrevem diretamente. Uma boa prática para identificação, comunicação, entendimento e validação de requisitos e premissas e, alinhamento das expectativas dos stakeholders, é a prototipagem. A construção de apartamentos protótipos com instalações, acabamentos, incluindo corredores e shafts, permite a identificação de interferências e a validação com projetistas, arquitetos, patrocinadores e até clientes dos requisitos do empreendimento. Também permite a identificação de erros evitando que se multipliquem para os diversos andares. A prototipagem pode ser utilizada também como padrão de referência para serviços com critérios de aprovação subjetivos como pintura, cerâmica, etc. Todas as observações, sugestões e considerações feitas pelas stakeholders na análise do apartamento protótipo são registradas em relatório específico e, são analisadas e respondidas: aceitas ou negadas (Figura 40). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 66 • EMPREENDIMENTO:VILLA D'ITÁ - OBRA 127 UNIDADE: TORRE A - RESIDENCIAL APTO 104 DATA: 20/01/14 Item Responsável Alternativas Disposição Status 1 XXXXXXX Melhor o acabamento da placa cimentícia com a porta de alumínio da varanda, deixando a placa embutida na porta. O acabamento entre a placa cimetnícia e a porta de varanda foi feito com a cantoneira de dry-wall. Concluído 2 XXXXXXX Tonalidade do rodapé. E melhoria no acabamento do rodapé com a porta, com encaxe de uma peça cortada em meia esquadria. O DIPRO validou o rodapé apresentado no apartameto protótipo. E acabamento em meia esquadria foi executado no rodapé. Concluído 3 Klybs Neblan Substituição do sifão rígido pelo sifão flexível. Foi a alteração na compra dos sifões de "rígido" para "flexível", que serão adotados comoo padrão nas cozinhas. Concluído PARTICIPANTES VALIDAÇÃO DE APARTAMENTO PROTÓTIPO ASSINATURAAREANOME Descrição / foto Figura 40 – Relatório de Apartamento Protótipo Uma vez identificados e aprovados os requisitos, é hora de explicitar detalhadamente o escopo e suas exclusões durante o processo de Definir Escopo. 4.2.2. Definir Escopo Para gerenciar o empreendimento de forma eficaz, o primeiro passo é uma definição apropriada do seu escopo. Não se pode gerenciar um empreendimento sem que suas fronteiras estejam adequadamente definidas. Se o escopo ficar impreciso, dará margem à interpretação e as mudanças poderão ser entendidas como parte do escopo. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 67 • Muitas vezes pouca atenção é dada à clareza do escopo. A falta de investimento de tempo para uma boa definição do escopo leva a um alto grau de indefinição e incerteza, provocando um grande número de mudanças durante a construção do empreendimento. O grande número de mudanças aumenta em muito o risco do empreendimento e é uma das principais causas de fracassos. Muita atenção precisa ser dada também com as definições óbvias ou implícitas, pois é justamente nelas que moram as imprecisões que dão margens às interpretações. A definição do escopo é uma descrição detalhada do produto e do empreendimento, ou seja, é tudo aquilo que o empreendimento entregará e o que não entregará ao seu final. Baseia-se nos requisitos aprovados durante oprocesso de coleta de requisitos e de toda documentação que compõem o termo de abertura e business Case. O escopo será formalizado em um documento chamado “Declaração do Escopo”. A Declaração do Escopo é composta pela descrição do escopo, critérios de aceitação, entregas do projeto, exclusões, restrições e premissas. Fornece um entendimento comum do escopo do empreendimento. As exclusões do escopo são quaisquer atividades que não estejam relacionadas às entregas do empreendimento. Deixar claro o que não pertence ao escopo ajuda a identificar diferenças de entendimento que possam existir entre os diversos stakeholders. O quanto antes estas diferenças forem identificadas, avaliadas, negociadas e aprovadas, menores os riscos de que venham a impactar negativamente no resultado do empreendimento. Também ajuda no gerenciamento das expectativas dos stakeholders. Critérios de aceitação são critérios que permitem verificar se as entregas foram aceitáveis e satisfatórias, com qualidade e adequadas ao uso. Critérios de aceitação subjetivos podem se tornar um grande risco, uma vez que o cliente pode ter outra visão ou pode até mesmo utilizar-se desta indefinição para não aceitação do produto ou protelação de obrigações contratuais. Podemos citar como exemplo de critérios subjetivos: concreto aparente, alvenaria aparente, acabamentos em geral, etc. Restrições – podem assumir diversas formas, entretanto, todas representam obstáculos à execução do empreendimento. Restrições podem ser tecnológicas, administrativas, gerenciais, físicas, contratuais, entre outras. Compreender quais são mais relevantes ajudará no planejamento e tomada de decisão durante a execução. O escopo do empreendimento vai além do escopo do produto. O escopo do empreendimento é formado pelo escopo do produto (funcional e técnico); do trabalho e da produção, sendo que todos se impactam mutuamente. (Figura 41). Durante o gerenciamento estes escopos devem ser integrados. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 68 • Figura 41 – Tipos de escopo O escopo funcional refere-se ás caraterísticas, desempenho e funções o produto. É normalmente voltado ao cliente final. O escopo técnico refere-se a especificações e requisitos legais a serem obedecidos pela execução. O escopo do trabalho refere-se ao trabalho que precisa ser realizado para entregar o produto, e o escopo da produção refere-se a como este trabalho será realizado. Constitui uma boa prática o envolvimento de fornecedores parceiros na validação de premissas e identificação de requisitos técnicos, do trabalho e da produção. Por se tratarem de especialistas, os mesmos possuem melhor visão sobre restrições, problemas que podem ocorrer, melhores práticas e técnicas a serem empregadas, entre outras. Para muitas empresas significa uma quebra de paradigma envolver um fornecedor tão prematuramente em um empreendimento. O escopo do produto anda de mãos dadas com o desenvolvimento de projetos (básicos, detalhados, e de produção). Envolve técnicas de engenharia de valor, plano de ataque e método construtivo adotado. Já o escopo da produção está ligado aos fluxos de produção definidos e à logística e projeto do canteiro. Ambos serão tratados mais adiante neste manual. Uma vez finalizada a Declaração do Escopo, iniciamos a elaboração da Estrutura Analítica de Projetos – EAP, que servirá de base para todo nosso planejamento. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 69 • 4.2.3. Criar EAP – Estrutura Analítica de projetos Criar a EAP é subdividir as principais entregas do empreendimento em componentes menores, mais compreensíveis, em um nível de detalhes adequado, tornando-os mais facilmente gerenciáveis. O nível mais baixo de uma EAP é chamado de pacote de trabalho. Esta subdivisão permite uma melhor definição de seus atributos e das atividades necessárias à sua produção. Facilita a alocação de recursos necessários à execução (mão-de-obra, equipamentos, materiais, projetos), bem como as estimativas de custo, prazo e demais critérios de monitoramento e controle. Torna mais clara a atribuição de responsabilidades e, principalmente, evita o descontrole do escopo. Sua aprovação garante o comprometimento e os recursos necessários a sua execução. A EAP explicita o escopo na visão dos principais stakeholders. Ela será a espinha dorsal da gestão do empreendimento. Integrar-se-á a todas as demais áreas de conhecimento. Será utilizada como entrada para todos os processos de planejamento do empreendimento que se seguirão. Também estabelece relações mais claras da tríade: escopo, custo e tempo, constituindo-se como um fator crítico de sucesso para o empreendimento. A EAP deve conter a totalidade do escopo. É preciso estar atento, pois a omissão de algum pacote de trabalho poderá assumir proporções enormes no futuro. Mesmo que partes do escopo sejam terceirizadas, estas devem fazer parte da EAP de forma a permitir seu monitoramento e controle. A exatidão da sua EAP dependerá da qualidade do seu levantamento de requisitos. É importante frisar. O que não estiver na EAP não faz parte do escopo do empreendimento! Se alguém da equipe estiver trabalhando em alguma atividade que não esteja relacionada à entrega de algum subproduto da EAP, não estará contribuindo para a conclusão do empreendimento. Nem sempre é possível a decomposição total da EAP logo no início do empreendimento, principalmente em função da falta de informações. Normalmente espera-se até que os subprodutos estejam mais bem definidos para que possam ser mais bem detalhados na EAP. Neste caso a decomposição ocorrerá em etapas, na medida em que maiores informações forem obtidas, onde cada nova etapa será o refinamento da etapa anterior – Ondas sucessivas. Na medida em que a EAP se aperfeiçoa, o planejador adquire maior confiança e assertividade na definição de prazos e duração. Também é perfeitamente aceitável a existência de níveis variáveis de detalhamento dentro de uma mesma EAP. A decomposição excessiva também é desaconselhada pois resultará num esforço improdutivo e consumo ineficiente de recursos. Decompor em demasia não traz benefício correspondente ao esforço demandado. O custo do controle não pode superar o benefício gerado. O ideal é que o nível detalhamento produza pacotes de trabalho com duração compatível com o ritmo (takt) adotado para gestão da produção. Também deve ser coerente com os ciclos de gestão de curto prazo adotado pela construtora. A EAP pode ser representada como listagem, tabela ou em árvore, sendo a última a representação gráfica e a mais eficiente na comunicação do escopo (Figura 42). Os subprodutos recebem numeração lógica, sequencial e a cada novo nível ganha um dígito a mais. Também não existe uma forma certa de estruturar uma EAP. Dois planejadores podem construir EAPs completamente diferentes para o mesmo empreendimento, dependendo da estrutura de gerenciamento que será adotada. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 70 • E estrutura da EAP deve representar a forma como a empresa irá gerenciar a execução de seu empreendimento. Cada pacote de trabalho representa um pedaço do empreendimento, podendo ser atribuído a ele um responsável, requisitos, recursos, custos, etc. Para agilizar o processo de criação de uma EAP a empresa pode adotar modelos aderentes à sua realidade para servirem com ponto de partida do desenvolvimento. Edificação 1. Fundação 2. Infraestrutura 3. Superestrutura 4. Vedação 5. Contrapiso 4.1 Alvenaria 4.2 Drywall 0. Gerenciamento 3.1 Térreo 3.2 1°pvto 3.n n°pvto Cx. Dágua 4.1.1 Térreo 4.1.2 1°pvto n°pvto Cx. Dágua ... ... 4.2.1 Térreo 4.2.2. 1°pvto n°pvto Cx. Dágua ... 5.1 Térreo 5.2 1°pvto n°pvto Cx. Dágua ... ... Figura 42 – Estrutura analítica de projetos (EAP) Os pacotes de trabalho serão nossas unidades de gestão, ou seja, será a unidade utilizada para planejar, monitorar e controlar o empreendimento. A ela serão associados prazo, custo, risco, qualidade,aquisições, comunicações, etc. Também será a partir dos pacotes de trabalho que definiremos atividades as serem executadas. A estruturação da EAP proporciona foco à gestão do empreendimento. Podemos resumir as principais características de uma EAP são: • Ferramenta orientada ao produto e suas entregas; • A soma dos subprodutos componentes deve ser equivalente ao subproduto que foi decomposto. É preciso garantir a consistência da EAP; • A soma dos custos dos elementos de cada nível é igual a 100% do nível superior; • Os subprodutos são organizados por decomposição não por ordem cronológica; GERENCIAMENTO DE OBRAS • 71 • • É um processo de planejamento separado da criação de redes e suas precedências; • Cada nível representa um refinamento do nível anterior; • Não chega ao detalhe de alocação de recursos; • O mesmo subproduto não pode estar em mais de um ramo; • O que não está na EAP não faz parte do empreendimento; • Não é necessário que a EAP seja simétrica, ou seja, que todos os produtos sejam decompostos até o mesmo nível; • Inclui o trabalho de gerenciamento; • Deve ser criada em conjunto com aqueles que executam o trabalho; • A melhor forma de criar é Top-Down; • Podem ser representadas de forma tabular ou estrutura de árvore. Uma imagem fala mais do que mil palavras. • É capaz de expressar em uma imagem todo o escopo do empreendimento; • Expresso em substantivos; Os principais benefícios obtidos com a utilização da EAP são: • Facilita a visão e comunicação de todo o escopo; • Organiza o pensamento e proporciona uma matriz de trabalho lógica e organizada; • Facilita a verificação e controle do escopo; • Facilita o planejamento e orçamentação; • Evita que uma atividade seja criadas em duplicidade; • Facilita a associação de responsabilidades; • Permite a identificação das principais fontes de risco e incertezas; GERENCIAMENTO DE OBRAS • 72 • • Delimita o escopo; • Permite entender o trabalho logo nos estágios iniciais do empreendimento; • Ajuda ao gerente a determinar e detalhar tudo o que deve ser concluído para entregar o empreendimento; • Reduz o número de solicitações de alteração de escopo; • Ajuda a dar foco à equipe. A fazer somente o trabalho necessário; • Ajuda a enxergar o relacionamento em várias entregas; • Reduz questões e disputas em relação ao escopo; • Induz ao pensamento sistêmico, ou seja, pensar no empreendimento como um todo, desde o início do planejamento; • Permite visualizar o impacto de um entrega nas demais; • Permite um nível de rastreabilidade durante todo o empreendimento; • Proporciona a capacidade de identificar o corrigir rumo o mais breve possível, uma vez que permite o monitoramento e controle de prazo, custo, recursos, qualidade, suprimentos a um nível de pacote de trabalho e entregas, Existe certa confusão entre a EAP e o cronograma. A EAP não é o que temos de fazer, é o que temos de entregar, por isto ela não deve conter recursos ou atividades. A EAP indica a entrega e não seu processo de produção. A EAP também não representa sequência executiva ou dependência entre trabalho. Um jeito fácil de diferenciar entregas de atividades é utilizar substantivos para as entregas e verbos para as atividades (Figura 43). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 73 • ESCOPO TEMPO Pacotes de Trabalho Tarefas O que fazer Como e quando fazer Substantivos Verbos X X X Figura 43 – Cronograma x EAP Uma vez elaborada a EAP com todos os pacotes de trabalhos que deverão ser executados, precisamos detalhar estes pacotes através do Dicionário da EAP. 4.2.4. Dicionário da EAP O dicionário da EAP é um documento complementar à EAP. Enquanto a EAP define o produto que será entregue pelo empreendimento, o dicionário detalha as especificações e critérios de aceitação em cada pacote de trabalho, aumentando a probabilidade de sucesso. A elaboração de um dicionário da EAP, com descrição clara e não ambígua é de grande importância para o sucesso do empreendimento. Ela permite o esclarecimento do escopo à equipe, fornecedores, patrocinadores, suprimentos e demais stakeholders. Normalmente o Dicionário da EAP contém – os requisitos funcionais priorizados (Critérios de priorização), os requisitos técnicos, os requisitos de qualidade, os critérios de aceitação, as premissas e restrições consideradas na criação dos requisitos. O dicionário da EAP é registrado em um formulário de forma a facilitar sua localização e acompanhamento (Figura 44). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 74 • Id da EAP Pacote de trabalho Descrição Proprietário Critério de aceitação DICIONÁRIO DA EAP Figura 44 – Dicionário da EAP Juntos, a declaração de escopo, a EAP e o dicionário da EAP formam a linha de base de escopo do empreendimento. A partir desta linha de base serão criados o cronograma, com as atividades necessárias, e serão definidos e alocados os recursos necessários à sua execução (mão de obra, equipamentos, fornecedores, materiais e projetos). A linha de base de escopo também será o referencial para o monitoramento e controle do avanço do empreendimento e para a avaliação de mudanças 4.2.5. Verificação do escopo Verificar o escopo é formalizar a aceitação das entregas concluídas no empreendimento. Objetiva garantir que o escopo planejado foi executado e entregue. A verificação do escopo é normalmente confundida com a verificação da qualidade. A verificação do escopo é verificar se o escopo foi realmente executado, já a verificação da qualidade avalia o atendimento a requisitos de qualidade e desempenho através de inspeções, ensaios e testes. Os critérios de aceitação devem ser priorizados para o caso de ocorrerem conflitos entre eles e haver necessidade de sacrificar algum. Uma técnica de priorização é utilizada é chamada e “MoSCoW”– Must have, Should have, Could have ou Won’t have – ou seja, Terá, Deve ter, poderia ter, não deve ter. Must e Should devem obrigatoriamente ser atendidos. Os critérios de aceitação somente podem ser alterados se aprovados pelo patrocinador do projeto e seus principais stakeholders. Em construção civil o escopo a ser verificado e entregue normalmente é bem extenso. Na maioria dos casos cada unidade possui um proprietário e a área comum pertence a todos. Esta característica demanda bastante cuidado na entrega do empreendimento. A entrega deve ser feita de forma parcial. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 75 • A entrega da área privativa é realizada diretamente a cada proprietário de unidade enquanto a entrega de áreas comuns deve ser realizada a representantes nomeados pelo condomínio. O processo de verificação também é fundamental para apoiar às futuras avaliações e decisões tomadas pela área de assistência técnica. A vistoria deve ser orientada por uma ficha de vistoria que, ao final deverá ser aprovada (Figura 45). Uma verificação bem detalhada e formalizada durante o processo de entrega define a real responsabilidade da construtora em casos de intervenções indevidas e exime a mesma de danos posteriores à entrega e vícios aparentes. Dar orientação ao cliente sobre como inspecionar sua unidade e, fornece as ferramentas necessárias para tal, dá credibilidade e transparência ao processo. SIM NÃO N/A* 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 Empreendimento: OBSERVAÇÕES (indicar local exato e motivo da reprovação) A/C de janela: abertura na fachada e ponto elétrico. A/C split: ponto de dreno, linha frigorígena, ponto elétrico Brilho/polimento, rejunte, fissuras, nivelamento e aspecto geral Fixação, abertura de porta e identificação dos circuitos TERMO DE VISTORIA - Apartamentos PROPRIETÁRIO Nome do Proprietário: Manchas, fissuras, destacamento, uniformidade, tonalidade e aspecto geral Unidade: Data da vistoria: Telefones de contato: Documento de Identificação (RG ou CPF): SALA / CIRCULAÇÃO ITEM ITENS A VERIFICAR Nº DO LACRE: Fissuras, furos, planicidade, integridade Uniformidade, manchas e aspecto geral Manchas, riscos,trincas, uniformidade, tonalidade, caimento e aspecto geral APROVAÇÃO ASSUNTO Parede (alvenaria / drywall) Pintura das paredes e tetos Piso Cerâmico / Porcelanato Rejuntamento Rodapé (madeira/poliestireno/pvc) Ar Condicionado Esquadrias de Alumínio – Caixilhos e Vidros Forro de Gesso Fechamento/abertura, manchas/riscos, funcionamento e estado dos acessórios/borrachas e aspecto geral Fixação, manchas, lascas, fissuras, tonalidade, limpeza e aspecto geral Manchas, fissuras e aspecto geral Porta de madeira (entrada) Soleira e peitoril de granito / mámore Quadro de Luz e Centro de Conectividade Acabamentos Elétricos, TV e Telefone Fechamento/abertura, manchas/lascas/riscos , funcionamento e estado das ferragens, fixação e aparência do marco e dos alizares, verniz e aspecto geral Ponto de luz no teto, acabamentos elétricos (tomadas e interruptores), existência dos pontos de de telefone, interfone e de antena de TV Figura 45 – Termo de vistoria de unidade privativa É muito importante que seja realizada também a entrega técnica do empreendimento aos responsáveis pela operação dos seus subsistemas (bombas, geradores, transformadores, elevadores, sistemas de detecção e combate a incêndio, pressurizadores, e demais equipamentos). Normalmente, estes treinamentos são realizados pelas próprias empresas responsáveis pela instalação ou fabricação dos equipamentos. Este treinamento de operação reduz a ocorrência de problemas causados por erros operacionais. Em alguns casos parte do escopo deve ser entregue às concessionárias ou outras empresas que farão a operação de instalações como, por exemplo, subestações de energia elétrica, ETE – Estação de Tratamento de Esgoto, instalações de combate a incêndio, entre outros. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 76 • O processo de entrega de unidade ao cliente é um importante ponto de contato com o cliente final e pode gerar indicadores valiosos para a melhoria contínua da construtora. A formalização do processo permite a extração de indicadores como % de unidades entregues em primeira vistoria, principais itens de reprovação, prazo médio para entrega de unidades, etc. É um excelente momento para realizar uma pesquisa de satisfação com o cliente. A entrega da unidade também é o ponto máximo de uma relação contratual longa. É o momento onde o cliente recebe uma unidade vendida muitos meses antes. Pode ser uma fonte de satisfação dos clientes, ou uma grande fonte de problemas para a construtora. Planejar cuidadosamente estas vistorias, pensando em criar um clima favorável é uma boa estratégia. Uma vez recebida sua unidade o cliente receberá também um manual do proprietário contendo todas as informações sobre seu imóvel e como fazer a manutenção necessária para preservar as características e desempenho da edificação. Uma boa prática observada é a entrega parcial do escopo internamente à própria empresa e até mesmo de fornecedor para cliente interno, à medida que são concluídos, por exemplo: entrega da fundação, entrega da estrutura, entrega das instalações, etc. Esta prática ajuda na identificação problemas permitindo sua correção antes de impactar o produto final. 4.2.6. Monitoramento e controle do escopo Os processos de monitoramento e controle acontecem concomitantemente com o processo de execução. O monitoramento constante permite a correção do rumo e a melhoria do resultado do empreendimento, entretanto, poucas empresas possuem processos definidos e estruturados de gestão de mudança e controle de escopo. Uma vez identificado algum desvio, ações corretivas e recuperadoras devem ser implementadas, sendo a responsabilidade para isto do gerente do empreendimento. O processo de controle de mudança do escopo é um dos processos mais importantes da gestão. Trata-se de um processo de autoproteção do empreendimento, uma vez que existe uma grande propensão a mudanças ao longo do seu desenvolvimento. Quanto mais inovador e único for o projeto, mais suscetível a mudanças será. As mudanças são mais frequentes quando o escopo foi pobremente descrito, quando a análise dos stakeholders foi superficial, ou quando os riscos não foram devidamente identificados. O processo de controle de mudança consiste em monitorar o avanço do escopo do empreendimento e controlar suas alterações. O principal objetivo é impedir que pessoas aumentem aleatoriamente o escopo, evitando trabalhos supérfluos ou extras (gold plate), protegendo-o assim da variabilidade. Um projeto deve entregar ao cliente exatamente o que ele contratou, nem mais, nem menos. A solicitação de alteração de escopo deve conter os principais impactos da mudança, de forma a embasar a tomada de decisão (Figura 46). Uma simples alteração de escopo é capaz de impactar todas as demais áreas de conhecimento. Uma mudança pode causar impactos no custo, no prazo, nos controles de qualidade, nas atividades predecessoras, na sequência executiva, em entregas já realizadas, pode conflitar com outros requisitos de outros stakeholders, na segurança do trabalho, nas competências necessárias à equipe do empreendimento, pode impactar o escopo de outras empresas já contratadas, enfim, pode gerar a necessidade de replanejamento completo do empreendimento. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 77 • Deve-se inclusive avaliar também os impactos de não se realizar a mudança.Toda vez que o escopo for mudado as estimativas de esforço, custo, duração podem não ser mais validas e terem de ser majorados para refletir o trabalho adicional. Mudanças de escopo devem ser identificadas, registradas, quantificadas, negociadas, aprovadas e liberadas para execução a tempo de não impactarem no prazo do empreendimento. No processo de controle do escopo é preciso definir quem pode solicitar, quem irá avaliar os impactos das mudanças, quais os níveis de aprovação e quem aprova em cada nível. Concordar com qualquer mudança no escopo sem a devida aprovação pode fatalmente levar o empreendimento ao fracasso. A formalização deste processo permite a realização de uma triagem, selecionando as mudanças que realmente são necessárias. Mudanças de escopo são uma das principais causas de falhas em empreendimentos. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 78 • Figura 46 – Formulário de solicitação de mudança de escopo GERENCIAMENTO DE OBRAS • 79 • Existem mudanças que realmente necessitam ser introduzidas no empreendimento, ou seja, existem razões válidas para que sejam incluídas. Um processo estruturado de aprovação permite que as informações apropriadas cheguem ao patrocinador para que decida se as mudanças devem ou não ser aprovadas, baseado no valor que será gerado e o impacto no empreendimento, principalmente em custo e duração (Figura 47). Um sistema de controle de mudanças deverá ser capaz de avaliar as solicitações, fornecer informações que suportarão a decisão de aceitar ou rejeitar a mudança. Submeter ao patrocinador aprovação das alterações de escopo faz com que ele tome as decisões e assuma a responsabilidade pelos impactos. Solicitação de mudança Análise dos impactos e benefícios da mudança Mudança aprovada? Arquivar solicitação Revisar planejamento Não Sim Figura 47 – Processo de aprovação de mudanças de escopo GERENCIAMENTO DE OBRAS • 80 • As alterações de escopo do produto podem originar de várias fontes, entre elas podemos citar: mudanças de legislação, de especificação, interferências não previstas, entre outras. A criticidade do processo de controle do escopo em um empreendimento é influenciada pela modalidade de contratação do mesmo. No caso de contratação por preço global, o escopo está congelado e deve existir grande disciplina para manter o escopo nos trilhos, evitando ou controlando toda e qualquer mudança de especificação que possa impactar os objetivos do projeto. O contrato por preço global é ideal quando se tem o muito escopo bem definido. No entanto, utilizar, erroneamente, um contratoa preço global em projetos com grandes indefinições, levará invariavelmente ao litígio. Já em contratos por preço unitário, o desafio é outro. A flexibilidade do modelo pode levar a variações expressivas de custo. Nos contratos de construção por administração, os riscos econômicos do construtor são reduzidos e existe grande flexibilidade para mudanças no escopo. Entretanto, os riscos ao contratante são maiores. Todas as análises, decisões a aprovações com os stakeholders são realizadas nas reuniões mensais, denominadas de comitê de gestão, que será melhor apresentado na capitulo 0 Gestão da Comunicação. 4.3 Gestão de Tempo A gestão do tempo não é só elaborar e gerenciar um cronograma. Fazer o uso eficiente do tempo em um empreendimento é a chave do seu sucesso. Quanto mais rápido um empreendimento for finalizado, mais rápido os recursos retornarão e estarão disponíveis para outros investimentos. O Tempo é o recurso mais precioso em um empreendimento. Embora o tempo, o custo, a qualidade e o escopo possuam uma relação fundamental, a gestão do tempo assume um dos principais aspectos da gestão. Problemas com a gestão do tempo são as principais causas de distorção nos custos, e consequente comprometimento da qualidade e escopo de um empreendimento. De todos os recursos administrados por um engenheiro de obra o tempo é o único que é irrecuperável, por isto sua gestão não deve nunca ser negligenciada. Como principal desafio à gestão do tempo podemos citar a indisposição dos engenheiros de obra em investir tempo no planejamento do empreendimento. Isto deve-se à crença de que se está gastando tempo produtivo precioso no planejamento, uma vez que o mesmo mudará no decorrer da obra. Esta crença leva a erros como o de antecipar o início do empreendimento, sem estar adequadamente planejado e sem que os recursos estejam todos disponíveis, com a expectativa que se ganhará tempo no final. Isto é um erro. Uma vez definido o escopo, através da linha de base do escopo (declaração do escopo, EAP, dicionário da EAP), os pacotes de trabalho devem ser decompostos em tarefas, atividades e marcos afim de compor o cronograma. As atividades são sequenciadas conforme plano de ataque elaborado e melhor sequencia executiva. Os recursos são estimados em função dos métodos construtivos adotados. A duração das atividades é estimada e organizada de forma a atingir ao ritmo definido para o empreendimento. Então o cronograma executivo é elaborado levando em consideração os riscos identificados, e todos os requisitos das áreas de conhecimentos relacionadas (Figura 48). O cronograma deve estar 100% aderente à estratégia formulada para o empreendimento. Um cronograma que não reflete a estratégia e a realidade do empreendimento é uma ferramenta completamente inútil. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 81 • Apesar de representarmos os processos de desenvolvimento do cronograma de forma linear, esta representação é apenas didática. Na prática, as etapas de definição de atividades, sequenciamento, estimativa de tempo e de recurso são realizadas concomitantemente, impactando-se reciprocamente. PROJETOS Plano de ataque ESCOPO Criar EAP TEMPO Definir as atividades TEMPO Sequenciar as atividades TEMPO Cronograma Executivo TEMPO Estimar os recursos das atividades TEMPO Programação Mensal de atividades TEMPO Programação Semanal de atividades TEMPO Controlar desempenho de Prazo lo ng o pr az o m éd io p ra zo cu rt o pr az o RISCO Planejar respostas a riscos RECURSOS HUMANOS Planejar equipe AQUISIÇÕES Planejar aquisições SAÚDE E SAÚDE E SEGURANÇA Plano de Segurança MEIO AMBIENTE Plano de gestão Ambiental QUALIDADE Planejar a qualidade STAKEHOLDERS Planejar partes interessadas Cronograma de suprimentos de longo prazo Programação de suprimentos de curto prazo SUPRIMENTOS Contratar fornecedores SUPRIMENTOS Comprar materiais SUPRIMENTOS Adquirir equipamentos TEMPO Estimar as durações das atividades PROJETOS Projetos Executivos TEMPO Cronogramas auxiliares PROJETOS Cronograma de Projetos Figura 48 – Processos de gestão de tempo Não abordaremos neste manual técnicas detalhadas de elaboração de cronogramas e orçamentos, bem como ferramentas computacionais específicas disponíveis para este fim, por entender que já existem inúmeras publicações que abordam o assunto de forma profunda e abrangente. Nos limitaremos analisar os aspectos de gestão relacionadas aos mesmos. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 82 • 4.3.1. Definir as atividades Definir as atividades que comporão um cronograma é uma tarefa árdua e que exige bastante conhecimento por parte do planejador. Todas atividades que consomem recursos (pessoas, equipamentos, materiais, projetos, fornecedores) e, consequentemente impactam no custo ou no prazo do empreendimento, devem ser inseridas no cronograma para que possam ser monitoradas e controladas. Um caso clássico de falha no planejamento é a segurança do trabalho. A execução de guarda corpos, bandejas, linha de vida, treinamentos, consomem grande quantidade de recursos e raramente são planejadas. Esta omissão cria pressões para que estas atividades não sejam executadas, uma vez que são descobertas em cima da hora e normalmente os recursos necessários não estão disponíveis, principalmente mão de obra e materiais, e sob o risco de atrasar o empreendimento, acabam sendo negligenciadas. As tarefas e atividades são definidas a partir dos pacotes de trabalho da EAP mas, para isto, é preciso conhecer os métodos construtivos e seus processos de execução. As atividades que não estejam direta ou indiretamente relacionadas a um pacote de trabalho não devem compor o cronograma, por que não fazem parte do escopo. Um erro comum na elaboração de um cronograma é iniciar a criar uma lista de atividades através da pergunta: o que tenho que fazer neste empreendimento?”. Apesar de parecer obvia, esta atitude gera cronogramas totalmente desorganizados. É muito importante a participação da equipe que executará o empreendimento na definição das atividades que comporão o cronograma, para que o mesmo reflita efetivamente o modus operandi da equipe e seja aderente às práticas executivas adotadas. Apesar de detalhado, o cronograma não deve ser poluído com um nível de detalhes desnecessário. Tarefas e atividades emergentes do dia a dia serão inseridas no ciclo de planejamento de curto prazo, durante as reuniões semanais de programação, juntamente com a equipe de campo e empreiteiros. 4.3.2. Estimativa de recursos e duração Uma vez definidas as atividades necessárias à execução do empreendimento, é necessário identificar quais recursos são necessários a execução de cada atividade e sua duração. É um passo muito importante no planejamento, uma vez que, erro de estimativas de recursos e duração é um dos grandes vilões de empreendimentos que fracassam. Por isto a importância da participação uma equipe multifuncional e daqueles que efetivamente executarão o empreendimento, inclusive fornecedores parceiros, de forma a analisar do ponto de vista prático e criar um comprometimento com os recursos e prazos definidos para cada atividade. A estimativa de recursos leva em consideração composições unitárias para cada atividade específica e a experiência do planejador e sua equipe. Estimativas de prazo levam em consideração produtividades históricas, condições de execução, e claro, a experiência do planejador e sua equipe. Estimativas muito otimistas podem representar um risco para o empreendimento, uma vez que não conterão os recursos necessários para a adequada execução do mesmo no custo, prazo e qualidade necessários. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 83 • É bom reforçar que, por definição, uma estimativa possui uma certa probabilidade de acerto e, esta probabilidade implica em risco. Quanto mais arrojada for a estimativa adotada, maior o risco de não atendimento.Da mesma forma, quanto mais conservadora for a estimativa adotada, maior a chance de que seja cumprida. Os recursos básicos para a execução de um empreendimento são: • Pessoas: Obtidas por contratação ou por terceirização, dependendo da estratégia; • Equipamentos: Obtidos através de compra, locação ou inseridos em contratos de terceirização; • Materiais: Que serão consumidos na execução dos serviços; • Projetos: Que detalharão o que será executado. As estimativas são elaboradas progressivamente, na medida em que os projetos são elaborados e detalhados, e as informações se tornam mais detalhadas e precisas, a precisão das estimativas aumenta também. A contratação de fornecedores contribui com a precisão de estimativas, uma vez que, tanto empreiteiros especializados, quanto fabricantes, possuem informações valiosas e precisas sobre a produtividade e consumo de seus produtos e serviços. A quantidade de recursos e prazos também alimentará o planejamento de logística e canteiro, sendo entrada para o dimensionamento das áreas de estocagem, áreas de vivência, sanitários, equipamentos de transporte vertical e horizontal, entre outros. 4.3.3. Sequenciar atividades Uma vez definidas as atividades e suas respectivas durações e recursos, é preciso montar a sequência executiva, cronológica, de maneira racional, exequível e eficiente. É preciso ligar as atividades, ou seja criar dependência entre elas. A esta dependência chamamos de rede de precedência. A sequência lógica do trabalho dentro de uma obra corresponde à maneira de construir da construtora. Trata- se de uma complexa interação entre equipamentos, materiais, pessoas, informações, de forma a seguir as boas práticas e garantir o desempenho através do tempo. Respeitando-se as sequencias tecnológicas, existe uma certa flexibilidade que pode variar em função das restrições, como custo, prazo e risco. É preciso definir o que deve ser feito primeiro e o que pode ser feito em paralelo. Qualquer que seja a rede de precedência adotada, esta deve ser coerente com o plano de ataque elaborado para a obra. O uso de diferentes tecnologias racionalizadas aumenta as possiblidades. Podemos classificar as dependências entre atividades em dois tipos. As obrigatórias e não- obrigatórias. As dependências obrigatórias são aquelas que sua inversão seria impossível, ou seja, sua não observância pode levar o empreendimento ao fracasso. Por exemplo, antes da elevação da alvenaria é preciso que a estrutura na qual se apoiará esteja executada. As dependências não obrigatórias são aquelas definidas pela experiência do planejador, e que sua inversão ou quebra pode significar uma oportunidade redução de prazo e novos riscos a se gerenciar. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 84 • Por exemplo a execução da pintura das paredes e a instalação de piso laminado. Algumas precedências incomuns podem ser adotadas afim de obter maior produtividades e/ou melhor qualidade do produto. Entretanto, é preciso estar atento na criação de dependência entre atividades, uma vez que esta relação aumenta riscos de atrasos. Muitas construtoras definem um fluxo padrão executivo padronizando a elaboração do cronograma. Este fluxo padrão define a melhor sequência a partir das relações de precedências obrigatórias definidas pela boa prática e as difunde por todos seus empreendimentos. As atividades podem ser ligadas de quatro maneiras: Término-início – quando uma atividade inicia após o término de sua predecessora; Início-início – quando duas tarefas são executadas em paralelo; Término-termino – quando as atividades devem terminar conjuntamente; Início-término quando uma atividade só termina após o início da sua sucessora. 4.3.4. Elaborar o cronograma executivo Em teoria, uma vez listadas as atividades, definida a sequência executiva e a duração de cada uma, teríamos nosso cronograma pronto. Entretanto, na realidade, existem restrições que precisam ser tratadas. O cronograma deve centralizar e acomodar todas as atividades provenientes de todas as áreas de conhecimento, sejam eles físicas ou gerenciais, sob pena de se não atingir os objetivos do empreendimento. Dele saem todas as ações que devem ser implementadas. Sem um bom planejamento, as demandas que surgirem serão decididas no campo, sem a visão do todo. Para criar um bom cronograma é fundamental primeiro entender o escopo do empreendimento. Cronogramas devem ser um plano realista de trabalho. Devem ser elaborados com base nos pacotes de trabalho definidos na EAP, garantindo que todo o trabalho definido na EAP seja incluído no cronograma e que nenhum escopo não definido na EAP seja incluído. O detalhamento excessivo deve ser evitado pois, pode ser tão prejudicial quanto a falta de detalhamento. Este exige grande esforço gerencial fazendo com que cronograma deixe de ser atualizado e seja logo em seguida abandonado, ou o cronograma correrá atrás do empreendimento ao invés de servir como seu direcionador. Cronogramas que não auxiliam na execução tendem a ser ignorados pelo pessoal da produção. O cronograma é elaborado reunindo as atividades necessárias, com a sequência executiva, com as durações e precedências, inserindo os marcos e nivelando os recursos de forma a obter um cronograma coerente e factível. Identifica-se neste caso o caminho crítico da obra. O gráfico de Gantt é considerado a representação mais eficiente para este momento do planejamento. Reza a boa técnica que os empreendimentos devem ser planejados baseado em condições normais de produção, ou seja, sem considerar esforços adicionais de horas extras, turnos estendidos ou dobrados, etc. Estes são recursos que, se necessários, devem ser tomados para recuperação de atrasos ou quando for imperativo por condições contratuais ou técnicas. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 85 • É importante chamar a atenção de que a simples disponibilidade de recursos não é suficiente para acelerar a execução de uma atividade, ou seja, o fato de dobrar a equipe não fara que seu tempo execução caia pela metade. Existe um limite. Quando aumentamos a equipe a duração tende inicialmente a diminuir, mas este processo não continua indefinidamente. Partir de um determinado ponto o aumento da equipe agrega custo sem agregar velocidade à execução, chegando ao ponto de aumentar a duração das atividades por consequência de problemas de coordenação e comunicação e por existirem atividades indivisíveis (Figura 49). Figura 49 – Tamanho da equipe x duração da tarefa. Normalmente é necessário reduzir o prazo ideal de execução do empreendimento e para isto existem duas técnicas clássicas para isto: a compressão (crashing) e o paralelismo (fast tracking). Destas técnicas o paralelismo tem menor impacto no custo. Em geral quando precisamos alterar prazos em um empreendimento o impacto no custo é inevitável. É muito comum ver empreendimentos sacrificando as metas de custo para recuperar prazos. A compressão por paralelismo hoje é quase uma abordagem obrigatória. Sobrepor fases que normalmente seriam realizadas em sequência implica em assumir riscos. Esta técnica propõe a realização em paralelo de atividades que normalmente seriam executadas em sequência. Em vez de uma dependência do tipo término- início, utiliza-se uma dependência início-início. Devido ao seu impacto em toda a gestão do empreendimento, esta técnica não deve ser simplificada e restringida apenas ao gerenciamento do tempo. Para que se obtenha sucesso é preciso coordenar ações em todas as outras áreas. Entretanto, o paralelismo não pode ser tratado como uma panaceia! Deve ser uma decisão madura e com benefícios comprovados, de que a sua aplicação superará os custos e riscos envolvidos. O paralelismo traz a possibilidade, não a garantia de redução de prazo. Já a técnica de compressão consiste em aumentar o esforço de modo a reduzir sua duração. Este esforço pode ser obtido através de horas extras, aumento da equipe, aumentoda quantidade de equipamentos. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 86 • Entretanto, apesar de acelerar a atividade esta técnica normalmente aumenta o custo da atividade e reduz sua produtividade, ou seja o aumento da produtividade não é proporcional ao aumento de recursos. Outra consideração importante a este tipo de técnica é que quantos mais utilizamos, menos ela é eficaz. O cronograma pode ser elaborado pela técnica CPM, onde para cada atividade realizamos, existe uma estimativa de duração. Neste pressupõe-se que as estimativas são razoavelmente precisas e que sempre será possível uma compressão por aumento de recursos aplicados. Neste método, encontramos um caminho crítico, onde a folga é zero e qualquer atraso ocorrido impactará no prazo do empreendimento inteiro. Neste conceito, uma aplicação de mais recursos às atividades do caminho crítico fará com que o mesmo volte à previsão original. Entretanto, na prática isto não é sempre verdade, ou seja, mesmo com o aumento das equipes e de horas extras, não conseguimos impedir que os empreendimentos se atrasem. É comum situações onde, por falta de recursos ou outra restrição qualquer, a execução de uma atividade seja prolongada, sem que isto represente um requisito técnico. Por exemplo: por ter somente um bate estaca, ou pela impossibilidade de movimentar ao mesmo tempo mais de um equipamento no terreno, submetermos o cronograma ao prazo necessário para execução com um único equipamento. Como falado anteriormente, uma estimativa de duração, por mais confiável que seja, está associada a uma determinada chance de sucesso e uma chance de fracasso. À medida que damos mais prazo para execução de uma atividade, aumentamos sua chance de sucesso. Desta forma podemos fazer estimativas otimistas, realistas e pessimistas (Figura 50). Figura 50 – Probabilidade de sucesso x estimativa de prazo adotada. A técnica de PERT é uma técnica que reconhece esta natureza estatística das estimativas. Atividades criativas tendem a ter variações muito maiores do que atividades operacionais. É uma técnica muito mais sofisticada e aderente a projetos de construção civil do que o CPM. Entretanto, sua aplicação em todo o empreendimento torna-se muito complexo e oneroso, além de exigir grande esforço no caso da necessidade de replanejamento. Sendo assim, sugerimos a utilização desta técnica, associada a diagramas de precedência, a partir do planejamento de médio prazo, uma vez que os cronogramas são particularmente frágeis no que diz respeito à precedência, sequencia executiva lógica, física e sequencia de alocação de recurso, de forma a fortalecer a identificação de possíveis restrições a serem removidas, evitando que o serviço seja paralisado desnecessariamente (Figura 51). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 87 • INÍCIO DE OBRA – MANHATAN TÉRMINOINÍCIO MOBILIZAÇÃO CONTAINERS 15/9/13 30/9/13 TÉRMINOINÍCIO PROJETO INSTALAÇÃO 22/07/2013 TÉRMINOINÍCIO LAUDO VIZINHANÇA 23/07/2013 07/08/2013 TÉRMINOINÍCIO DEMOLIÇÃO 15/07/2013 TÉRMINOINÍCIO LICENÇAS TÉRMINOINÍCIO LIGAÇÃO ELETRICIDADE TÉRMINOINÍCIO LIGAÇÃO ÁGUA TÉRMINOINÍCIO LIGAÇÃO ESGOTO TÉRMINOINÍCIO INSTALAÇÃO DOS CONTAINERS 07/08/2013 14/08/13 TÉRMINOINÍCIO LEVANTAMENTO TOPOGRÁFICO 25/10/2013 28/10/2013 TÉRMINOINÍCIO LOCAÇÃO 20/10/13 25/10/13 TÉRMINOINÍCIO GABARITO 28/10/2013 30/10/2013 TÉRMINOINÍCIO CONFERÊNCIA LOCAÇÃO 20/10/13 30/10/13 TÉRMINOINÍCIO EXECUÇÃO TAPUME 01/11/2013 30/11/2013 TÉRMINOINÍCIO LOCAÇÃO DOS BLOCOS TÉRMINOINÍCIO SEGURO DE RISCO TÉRMINOINÍCIO ELABORAÇÃO DE COORD. POLAR 22/07/2013 TÉRMINOINÍCIO APR DEMOLIÇÃO 22/07/2013 TÉRMINOINÍCIO TREINAMENTO DOS ENVOLVIDOS 01/11/2013 01/11/2013 TÉRMINOINÍCIO APR FUNDAÇÃO 25/08/13 20/10/13 TÉRMINOINÍCIO SOLO GRAMPEADO15/07/2013 TÉRMINOINÍCIO COMUNICADO INÍCIO DRT 01/08/2013 TÉRMINOINÍCIO PCMSO 01/08/2013 TÉRMINOINÍCIO PCMAT TÉRMINOINÍCIO CONTRATAÇÃO APOIO FUNDAÇÃO 20/09/2013 TÉRMINOINÍCIO PROJETO DE LOCAÇÃO 01/10/2013 TÉRMINOINÍCIO PROJETO DE FUNDAÇÃO 20/08/13 20/10/13 TÉRMINOINÍCIO ESCAVAÇÃO 20/08/2013 20/08/13 TÉRMINOINÍCIO APR ESCAVAÇÃO 20/08/13 20/08/13 TÉRMINOINÍCIO TREINAMENTO DOS ENVOLVIDOS 01/9/13 15/9/13 TÉRMINOINÍCIO PROJETO LOGISTICA 20/08/13 20/08/13 TÉRMINOINÍCIO APR SOLO GRAMPEADO 25/08/13 25/08/13 TÉRMINOINÍCIO TREINAMENTO DOS ENVOLVIDOS 20/10/13 30/10/13 TÉRMINOINÍCIO EXECUÇÃO PROT. COLETIVAS 01/08/13 01/08/13 TÉRMINOINÍCIO PROJETO DE ESCAVAÇÃO 01/08/2013 01/08/2013 TÉRMINOINÍCIO PROJETO DE SOLO GRAMPEADO Figura 51 – Diagrama de precedência. Durante o desenvolvimento do processo de elaboração do cronograma, realiza-se uma análise buscando identificar e eliminar a superalocação e a ociosidade dos recursos, com o objetivo de maximizar sua utilização, garantir a disponibilidade quando necessário e evitar o desperdício. Chamamos este processo de “Nivelamento de Recursos”. Entretanto é preciso cuidado. A experiência demonstra que focar somente na eficiência dos recursos aumenta a duração do empreendimento, aumentando também seus custos. Muitas vezes este nivelamento é complexo, demorado e até mesmo impossível. O nivelamento de recurso é uma técnica que reconhece que nem sempre haverá recursos ilimitados e, desta forma, precisamos adequar nosso cronograma a esta restrição. O mesmo é realizado através de tentativa e erro, buscando impactar o mínimo possível o cronograma, buscando obter um razoável nivelamento. Busca-se priorizar os recursos nas atividades constantes do caminho crítico, atrasando as atividades não críticas, utilizando as respectivas folgas (Figura 52). A maioria dos softwares de planejamento possui ferramentas que auxiliam neste nivelamento. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 88 • Figura 52 – Nivelamento de recursos O cronograma geral, também chamado de plano mestre ou de linha de base do empreendimento será o referencial para toda verificação e controle durante a execução do empreendimento. Será utilizado para comparação com o executado, buscando identificar atrasos e desvios de custo. A linha de base terá como horizonte todo o empreendimento, com marcos (milestones) e os principais pacotes de trabalho e fases. É composto, além do cronograma de atividades, por cronogramas auxiliares como de suprimentos, de projetos, de marcos, de contratações de mão de obra, entre outros. Todos cronogramas auxiliares estão ligados às atividades da linha de base e levam em consideração os “lead times” necessário para cada recurso. A mesma só poderá ser alterada com a autorização do patrocinador do empreendimento como reposta a um replanejamento. O cronograma de suprimentos (Figura 53) busca o material certo, disponível na hora certa, no local certo no exato momento de sua utilização. Para isto temos de integrar o processo de programação de recursos, com o de suprimentos e de logística. Se qualquer recurso chegar tarde haverá desperdício dos demais recursos e, se chegar cedo demais, um estoque se formará, ocupando espaço de canteiro, gestão e capital, que por definição, também são desperdício. Veremos no capítulo 0 Gestão logística. Figura 53 – Exemplo de cronograma de suprimentos. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 89 • O cronograma de projetos (Figura 54) busca associar cada projeto, não só ao início das atividades planejadas, mas também leva em consideração o tempo para que os mesmos sejam analisados, as contratações preparadas e realizadas e os recursos mobilizados. A falta de tempo para analisar e maturar as estratégias de execução podem causar retrabalhos, planos de ataque mal elaborados, contratações incompletas, entre outros problemas. Figura 54 – Exemplo de cronograma de projetos. O cronograma de marcos (Figura 55) apresenta apenas datas importantes do empreendimento. São atividades de duração zero mas fundamentais para o seu sucesso. Por exemplo, a entrega do fosso do elevador concluído à empresa que o montará, ou a desmontagem da gruapara conclusão das fachadas, representam datas muito importantes que não podem ser perdidas sob o risco de comprometer o cronograma do empreendimento, mesmo que não representem significativo avanço físico. Outra fonte de marcos são requisitos de stakeholders como por exemplo a data para liberação da entrada de lojistas, vistorias de corpo de bombeiros, prefeitura, cumprimento de condicionantes ambientais, etc. É também um cronograma adequado à alta administração da empresa. Figura 55 – Exemplo de cronograma de marcos. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 90 • Por seu caráter linear e repetitivo, empreendimentos prediais podem utilizar uma técnica de planejamento chamada de “linhas de balanço” ou “diagrama de tempo-caminho”. Esta técnica permite a análise a nível estratégico do cronograma, permitindo acompanhar, sem detalhamento, o plano de ataque, identificar os conflitos e gargalos de produção e acompanhar o progresso das atividades. Também permite identificar o impacto da quebra de precedências, falta de recurso e permite simular o impacto no cronograma de atrasos ou baixa produtividade em qualquer um dos pacotes de trabalho. Esta técnica se mostra ideal para planejamento e acompanhamento por sua praticidade, facilidade de interpretação e comunicação das informações. É uma ferramenta complementar de planejamento. Nesta ferramenta, o cronograma é representado por retas em um diagrama cartesiano, onde a abscissa representa o tempo e a ordenada as unidades produzidas, normalmente pavimentos. A inclinação da reta define o ritmo de avanço da atividade (Figura 56). Cada linha representa um grupo de atividades. Para tornar sua representação clara e limpa, normalmente, representamos apenas as atividades da corrente crítica, considerando as demais atividades como atividades secundárias. Ao contrário do cronograma de barra que fixa a duração da atividade, a linha de balanço representa a produtividade ou ritmo de cada pacote de trabalho. Seu formato resumido e simples é ideal para utilização em reuniões ou para comunicação à equipe de status atual de metas do empreendimento. Figura 56 – Técnica de linhas de balanço Esta técnica permite inferir graficamente o impacto de múltiplas estratégias para redução de prazo, impacto de atrasos etc. Existem serviços que podem ser realizados de forma ascendentes (de baixo para cima) ou descendentes (de cima para baixo). A linha de balanço ajuda a cadenciar a obra e ajudam a visualizar e antecipar as interferências e realizar ajustes. O fluxo deve ser prioridade na obra. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 91 • Figura 57 – Exemplos de estratégias para redução de prazo simuladas em linhas de balanço. Como estratégias de redução de prazo podemos reduzir o ciclo por pavimentos (Figura 57b), ou seja executar cada pavimento em menos tempo. Além do uso da técnica de compressão através do aumento de recursos, podemos também liminar precedências ou agrupar tarefas em um mesmo ciclo de produção. Também podemos reduzir o prazo reduzindo o intervalo entre cada pacote de trabalho (Figura 57c). Esta estratégia demanda maior coordenação e previsibilidade do fluxo. Quanto maior a maturidade e a previsibilidade, menores podem ser os pacotes de trabalho e menor o espaçamento entre eles. Podemos chegar a fracionar até o pavimento de forma a trabalhar com mais de um ciclo por pavimento, desde de que respeitadas as precedências. Outra forma de reduzir prazo é eliminando pacotes de trabalho do cronograma (Figura 57d). Esta ação é baseada fundamentalmente nas tecnologia e métodos construtivos adotados. Tecnologias como fachadas pré-moldas em concreto, esquadrias unitizadas, banheiro pronto, piso elevado, entre outras, permite a redução do número de pacotes de trabalho a ser realizado dentro do canteiro e consequentemente o prazo da obra. O planejamento através do uso de linhas de balanço permite cadenciar a produção num ritmo constante, nem demasiado rápido, nem demasiado lento. Sempre constante e previsível, ou seja, cada unidade de produção possui o mesmo tempo básico de duração de forma proporcionar sincronismo. A este ritmo constante dá-se o nome de “takt”. Busca-se com isto garantir as precedências obrigatórias e evitar conflitos ou improdutividade entre as atividades. Se a atividade for executada em ritmo mais rápido que a sua sucessora, haverá conflito. (Figura 58a). Esta técnica também permite identificar práticas de planejamento que não são salutares para o empreendimento. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 92 • Por exemplo, a inversão do fluxo de ascendente para descendente, cria uma folga no cronograma e um estoque de serviços acabados, que por definição é desperdício de prazo e de custo (Figura 58 c,d). Cada pacote de trabalho cria um estoque de produto semiacabado para o próximo pacote de trabalho. Quando os ciclos são diferentes este estoque pode ser maior ou menor. Figura 58 – Exemplo de análises possíveis em linhas de balanço. O uso da linha de balanço deixa evidente que ganhos pontuais de produtividade não representam necessariamente ganhos de prazo para o empreendimento (Figura 59). Ao atingir maior produtividade, o serviço de alvenaria não só não representa ganho para a obra, como pode gerar problemas de interferência com sua atividade predecessora, estrutura, como gerar conflitos por recurso uma vez que demandará elevador cremalheira para abastecimento de material. Figura 59 – Exemplo de melhoria de produtividade sem impacto no prazo total do empreendimento. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 93 • A linha de balanço também permite o acompanhamento do previsto x realizado com relativa facilidade permitindo identificar conflitos e impactos de atrasos ou adiantamento de atividades com facilidade (Figura 60), inclusive inferir o prazo final extrapolando o ritmo das últimas semanas. É possível perceber pela técnica o impacto que estratégias de aproveitamento de recursos pode causar ao empreendimento (Figura 61). Também permite analisar o impacto de estratégias de recuperação com o simples traçado de retas sobre o gráfico. Figura 60 – exemplos de atrasos representados em linhas de balanço. Figura 61 – reaproveitamento de recursos representado em linha de balanço (relação término-início). O balanceamento dos ritmos nem sempre é fácil. Serviços muito rápidos devem ser agrupados de forma a criar uma “família” e se aproximar do ciclo ideal. Serviços muito longos devem ter suas equipes reforçadas e utilizar de métodos que aumentem sua produtividade. Deve-se respeitar a declividade ideal de cada atividade, buscando o ritmo que permita a realização no melhor custo e qualidade adequada. Um cronograma balanceado, com retas paralelas, produz normalmente um prazo menor, entretanto deve-se ter atenção ao dimensionamento das equipes ótimas. Uma “família” de produção é um conjunto de atividades que podem ser executadas no mesmo ciclo, respeitando-se as precedências obrigatórias, sem que haja interferência ou interrupção de umas nas outras. Para isto, cria-se uma célula de produção, composta basicamente por uma equipe multifuncional, e por equipamentos e materiais necessários, de forma a executar os serviços em um fluxo contínuo. Esta célula de produção pode executar mais de uma tarefa, possuindo maior flexibilidade e reduzindo o tempo de transferência. Equipes multifuncionais e polivalentes, onde cada membro possui várias habilidades, aumenta a flexibilidade, a versatilidade e a capacidade reorganização, sendo menos vulnerável a ausência de membros da equipe. Ao se alocar mais de uma tarefa por ciclo é importante estar atento à logística de abastecimento e ao conflito por espaço que pode ocorrer, além a dificuldade de coordenação. Gerenciar por famílias e por pacotes de trabalho simplifica a gestão e o acompanhamento do empreendimento. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 94 • Uma boa prática é estabelecer ciclos curtos de realização e teste, de forma a possibilitara identificação e correção de desvios o mais rapidamente possível. Também deve-se buscar manter poucos pacotes de trabalho simultâneos, facilitando, desta forma, a gestão em campo e reduzindo o tamanho das equipes de apoio, gerencial, e o custo da logística. Também há uma diminuição de atividades que não agregam valor e uma melhoria no controle da qualidade e da segurança do trabalho. Apesar de a reta presumir que haverá um ritmo constante durante a obra, não podemos negar a existência, na prática, de uma curva de aprendizagem, onde ocorre uma melhoria de produtividade com o passar do tempo. Esta característica pode ser inserida no cronograma, conforme exemplificado na Figura 62. Figura 62 – Curva de aprendizagem representado em linhas de balanço. Figura 63 – Exemplo de linha de balanço. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 95 • 4.3.4.1. Corrente Crítica No mundo real verificamos que muitas vezes existem gargalos na execução dos empreendimentos, em outras palavras, restrições, que acabam por governar nosso cronograma. Neste caso, uma restrição é qualquer fator que impeça a sistema de atingir seu desempenho máximo. Todo sistema possui pelo menos uma restrição. Pode-se fazer uma analogia a uma corrente, onde o desempenho da mesma é igual ao desempenho de seu elo mais fraco, neste caso, uma restrição do sistema. Em um empreendimento, a principal restrição seria a sequência mais longa de atividades dependentes que definirá a duração do mesmo. A este chamamos caminho crítico. É preciso estar atento pois nem todas as restrições são físicas. Podem também ser gerenciais e até culturais. O Método da Corrente Crítica, ou CCPM (Critical Chain Project Management), defende que o planejamento deve ser feito levando em conta não só a sequência, mas também a disponibilidade de recursos. Este método foi criado por GOLDRATT que observou que os planejadores tinham a tendência de fazer estimativas conservadoras e, apesar disto as atividades frequentemente atrasavam, desperdiçando sistematicamente margens de segurança. Entre várias, observou como principais causas a Síndrome do Estudante, a Lei de Parkinson e a Migração de Atrasos. A Síndrome do Estudante afirma que, quanto mais segurança é adicionada a uma estimativa (conservadora), mais as pessoas deixarão para última hora sua execução. A analogia é a seguinte: não importa quanto tempo os alunos tenham para estudar, eles sempre estudarão na véspera da prova. Já a Lei de Parkinson afirma que o trabalho se expande até preencher todo o tempo disponível, mesmo que não seja necessário. O prazo em excesso também aumenta a tendência de utilizar tempo em tarefas não produtivas como embelezamento, aumentando o escopo e elevando o nível de qualidade exigido. A Migração de Atrasos acontece quando os atrasos invariavelmente migram para as atividades sucessoras mas, as antecipações não, ou seja, se uma tarefa atrasa e termina depois do prazo, a tarefa seguinte sofrerá atraso, entretanto, se esta mesma tarefa for concluída antes do prazo, a tarefa seguinte iniciará na data planejada, ou seja, não será antecipada e a folga obtida será desperdiçada. Este fato faz com que os empreendimentos revelem uma tendência permanente de atraso. Percebemos assim que os atrasos se propagam inevitavelmente a tarefa seguinte e que qualquer adiantamento dificilmente ajudará o empreendimento como um todo. Este fato faz com que qualquer segurança de prazo alocado em tarefas individuais se perca. Este também ocorre no caso de atividades em paralelo onde várias se antecipam e apenas uma não. O Método da Corrente Crítica consiste em identificar o caminho crítico e, com base na disponibilidade de recursos, determinar o cronograma limitado por recursos, frequentemente com um caminho crítico alterado. O método então propõe a redução agressiva, porém factível, dos prazos de execução das atividades, retirando toda margem de segurança individual e inserindo pulmões de proteção dos prazos no final da sequência de atividades (Figura 64). A segurança individual de cada atividade, multiplicada por todas as atividades do cronograma, leva inevitavelmente ao aumento desnecessário de prazo no mesmo. O foco muda do controle individual de cada atividade para o monitoramento do consumo do pulmão. A busca é para ajustar todo o sistema, focando na melhoria de capacidade das restrições das atividades do caminho crítico e não buscar otimizar cada parte individualmente. As pessoas competentes também tendem a ser mais produtivas e trabalhar com mais foco sob pressão moderada de prazo. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 96 • Figura 64 – Método da Corrente Crítica Podemos também descrever a implantação da corrente crítica de uma outra forma: uma vez construído o cronograma da forma tradicional, retira-se as proteções individuais das atividades, faz-se o nivelamento dos recursos e identifica-se a corrente crítica, eliminando possíveis superalocação de recursos. Insere-se pulmões de tempo nos ramos não críticos e na corrente crítica, de forma a protege-la de atrasos através da gestão dos pulmões. Ou seja, pulmões explícitos com planos mais agressivos. Os pulmões são construídos através da retirada da estimativa de duração das atividades. Existem dois tipos de pulmões principais: pulmão de convergência, inserido nos ramos de convergência de atividades não críticas e críticas, e pulmão final inserido no caminho crítico. É preciso ser criterioso nas estimativas de forma a balancear as proteções. Quando alguém fornece uma estimativa de tempo para executar uma atividade, inevitavelmente adiciona margem de segurança, de forma que, seja confortável, evitando que seja cobrado posteriormente pelo não cumprimento. Uma das causas desta característica é que os próprios executores das tarefas tendem a omitir as reduções de prazo com medo de que venham a ser exigida como meta em um próximo empreendimento, reduzindo sua chance de sucesso. Seria inocência esperar que executores apresentariam prazos com baixa probabilidade de sucesso sabendo que seriam pressionados a cumpri-las durante a execução do empreendimento. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 97 • Diante das incertezas da construção civil, é de se esperar que em um planejamento de durações comprimidas, a probabilidade de impactos é relativamente alta. O papel do pulmão é justamente acomodar estas variações, sendo consumido em parte durante o andamento do empreendimento (Figura 65). Mais do que se preocupar com o atraso de uma atividade, deve-se preocupar com a manutenção do pulmão, fazendo com que o gerente possa se concentrar nos recursos e no andamento das tarefas essenciais. Figura 65 - Gerenciamento de pulmão Enquanto o consumo do pulmão estiver no verde, nenhuma ação é necessária. Caso esteja no azul, deve ser feita uma análise de causa-efeito para identificar as causas fundamentais do problema e, um plano de ação deve ser montado para recuperação do pulmão perdido. Pode ser alocação de hora extra, novos recursos, aumento de prioridades, fast tracking, etc. Se atingir o vermelho, o plano de ação deve ser intensificado e o planejamento reavaliado. O Método da Corrente Crítica consiste em uma técnica gerenciar com recursos limitados. Nele, deve-se buscar continuamente a identificação dos gargalos e sua eliminação, ou seja, identificar e resolver conflitos de recursos críticos (restrições). Também deve-se buscar a sincronização das prioridades com foco no fluxo, ou seja, a alocação dos recursos com base na prioridade de cada tarefa. Outro tipo de pulmão possível de se trabalhar é com o pulmão de recursos, de forma a assegurar sua disponibilidade para a corrente crítica, garantindo que os mesmos estejam sempre disponíveis para as tarefas, na data necessária. Isto impediria que atividades da corrente crítica fossem paralisadas pela falta de algum recurso. Este poderia ser formado por recursos físicos, gerenciais, materiais em processo ou atividadepredecessoras. Vale lembrar que pulmão de recursos em demasia mascara as ineficiências do processo e representa aumento de custo financeiro para o empreendimento. Por isto deve ser utilizado com moderação. Além da falta de recurso, vários outros desperdícios são causados por problemas gerenciais, como: a pulverização de recursos, esperas por recursos, inspeções, equipamentos, solução de problemas, falta de sincronia, multitarefas entre outros. Apesar de pouco visíveis, estas causas geram grandes perdas aos empreendimentos. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 98 • Figura 66 – Desperdício gerencial de tempo. Dentre os problemas citados acima, a multitarefa ocasionada pela elevada quantidade de trabalho em execução é uma das mais importantes (Figura 67). Tudo é urgente! Os recursos não sabem quais tarefas são prioritárias. Gestores não sabem quando e onde intervir. A ausência de prioridade entre atividades pressiona os recursos a realizarem multitarefas. Ao invés de ajudar, causam atrasos e impedem a conclusão dos serviços. Prioridades confusas omitem os verdadeiros problemas até que sejam tarde demais. A multitarefa impacta na taxa de entrega e provoca o compartilhamento de recursos, que por sua vez, gera desperdício de recursos e improdutividade (Figura 67). Figura 67 – Organização multitarefa x sequencial GERENCIAMENTO DE OBRAS • 99 • 4.3.4.2. Engenharia Simultânea (concurrent engineering) A engenharia simultânea é a utilização dos conceitos de caminho crítico, paralelismo e alocação de recursos. É um processo que trabalha simultaneamente os processos de desenvolvimento, planejamento e execução de um empreendimento, com foco principal de redução de prazo. Esta estratégia aumenta consideravelmente os riscos devido à grande indefinição de escopo e riscos de interferências com a execução. A engenharia simultânea traz vários benefícios como a redução de tempo, redução de retrabalho, redução de custos, aumento de qualidade, aumento da integração, redução do tempo de tomada de decisão. Entretanto gerenciar um empreendimento utilizando esta técnica é mais complexo do que a abordagem tradicional e exige uma equipe mais qualificada e maior maturidade dos membros da equipe e nos processos de gestão da empresa. Por envolver equipes multidisciplinares, é necessária a criação de uma rede de comunicação eficiente entre os membros da equipe. O envolvimento de equipes da produção no desenvolvimento do produto e projeto normalmente reduz a possibilidade de necessidades de revisão após a conclusão do projeto, reduzindo consequentemente o retrabalho. A engenharia simultânea também traz alguns problemas. O tempo de desenvolvimento reduzido prejudica o amadurecimento de decisões, uma vez que cada tarefa fornece informações que são úteis na execução de outras tarefas subsequentes. O desenvolvimento em paralelo pode exigir a revisão de soluções já desenvolvidas, gerando fontes de conflitos. Por esta razão, é importante que o gestor tenha as qualidades de solucionador de conflitos, integrador e coordenador. Também o excesso de atividades em paralelo também pode causar um colapso na camada de decisão. 4.3.5. Planejamento médio prazo Apesar de essencial, o cronograma geral de um empreendimento não se mostra como uma ferramenta eficiente de comunicação com as equipes de produção. É realmente impraticável manusear cronogramas enormes, com milhares de linhas, e com atividades que serão executadas somente daqui a um ano, ou mais. Este normalmente é manuseado somente pela equipe de planejamento. O planejamento de médio prazo consiste em extrair, mensalmente, do cronograma geral, aquelas atividades previstas para os próximos 2 ou 3 meses, de forma a dar foco à equipe e permitir a mobilização dos recursos necessários e a remoção das restrições à sua execução. Trata-se de uma ferramenta de comunicação da área de planejamento com a área de produção. Inicia normalmente em uma reunião entre as áreas de planejamento e produção, onde são avaliados o cumprimento do planejamento do mês anterior, o replanejamento de tarefas não executadas e a análise das tarefas a serem executadas nos próximos períodos. Consiste num segundo nível de detalhamento do planejamento, onde a análise tornará mais forte a programação da produção, reduzindo a possibilidade de que imprevistos venham a impactar a execução. Durante o planejamento são analisados aspectos como a segurança do trabalho (proteções coletivas, análises de risco, treinamentos específicos); a qualidade (realização de testes preliminares, ensaios de validação, criação de procedimentos específicos, treinamento de mão de obra); o meio ambiente (preparação da logística de resíduos, treinamento de mão de obra, obtenção de certificados, licenças, avaliação de fornecedores); GERENCIAMENTO DE OBRAS • 100 • a contratação de fornecedores (preparação dos processos, avaliação dos fornecedores, contração, planejamento da mobilização); a aquisição da materiais; a contratação de recursos humanos, o planejamento logístico, entre outros. A análise de restrições neste momento é fundamental para estabilizar o fluxo de produção, uma vez que permite o registro de atividades técnicas ou gerenciais necessárias à execução da atividade com por exemplo: detalhamento de projetos, disponibilidade de acesso, recursos, testes, licenças, ou seja, qualquer restrição que concorra com a execução da atividade. Estas restrições não são atividades predecessoras, uma vez que estas já estão inserida no próprio cronograma. Busca-se com isto, reduzir a quantidade de incertezas que impactarão a produção, uma vez que, a ocorrência de muitos incêndios a apagar, acaba por sobrecarregar a camada de gestão com muitas decisões urgentes a serem tomadas. A ferramenta que permite uma fácil operação dos planejamentos de médio e curto prazo são as planilhas eletrônicas (Figura 68). São fáceis de operar, adicionar cálculos complementares, todo computador possui, todo engenheiro sabe utilizar, permite a associação de controles, gráficos, aplicação de filtros, customização de obra por obra. Normalmente o período escolhido é exportado diretamente do software de planejamento para a planilha e depois trabalhado. Figura 68 – Exemplo de planejamento de médio prazo. 4.3.6. Programação de curto prazo Depois de garantido os recursos necessários ao cumprimento do planejamento e a remoção de restrição que impediriam sua realização, é necessário programar a execução das tarefas. A programação de curto prazo, também chamada de Programação Semanal de Serviço – PSS é realizada em ciclos semanais, e é caracterizada pela atribuição de recursos físicos à atividade programadas no plano de médio prazo. É a programação realizada a nível operacional, feita pelos engenheiros da obra, conjuntamente com os mestres, técnicos, encarregados e empreiteiros. Esta deve fornecer diretrizes claras e imediatas para a próxima semana, ou seja, deve ser o último nível de tomada de decisão. É a agenda da obra (Figura 69). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 101 • Engenheiro Data do planejamento: 28/12/2012 Empreiteiro Início: Se g Te r Q ua Q ui Se x Sa b Se g Te r Q ua Q ui Se x Sa b 05 06 07 08 09 10 12 13 14 15 16 17 P R P R P R P R P R P R P R P R P R P R P R P R Semana 8 Semana 9EmpreiteiroId Programação Semanal - Last Planner OBRA Concluída Falta de material resposabilidade da contratada Atrasada Falta e mão de obra ou aixa produtividade 2 1 4 3 Cancelada Falta de definição ou projeto No Prazo Falta de material responsabilidade da construtora 6 5 8 7 11 9 10 Total PPC (%) PPC = soma 100%/total de itens Atividade % Executado Status Restrições / Riscos Observação / Problemas Motivo do não atingimento Outros 05/12/2011 Programação próxima semana Atividades reserva Duração (dias)FimInício Condições climáticas Serviços anteriores não realizados Figura69 – Exemplo de planilha de programação semanal No PSS devem ser inseridos aqueles pacotes de trabalho com melhores condições de execução, aumentando a probabilidade de que realmente sejam cumpridos e consequentemente a confiabilidade e a estabilidade da produção. A programação de curto prazo e também o local para inserir atividades não previstas no cronograma mas, essências à execução da obra, como inspeção de um equipamento, devolução de uma forma, liberação de uma área ou acesso, etc. (Figura 70). Deve-se buscar que as atividades inseridas na programação tenham início e fim dentro do período de programação, de forma a facilitar seu controle e análise. Figura 70 – Programação semanal As equipes devem conhecer, entender, discutir e se comprometer com a programação para o próximo período. Normalmente, as equipes recebem a programação da semana seguinte no final da semana anterior. A programação semanal possibilita melhor administração dos recursos e promove uma melhor comunicação do engenheiro da obra e a equipes de produção. Caso ocorram conflito de interesse entre as equipes da obra, deve ser feita uma negociação no sentido de resolver a questão, mas sempre buscando proteger a corrente crítica do empreendimento. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 102 • Normalmente não existe aquisição de recursos no curto prazo, somente a programação de entrega de recursos previamente contratados, como por exemplo, entrega de argamassa, blocos, etc. Da programação semanal saem também programações auxiliares como a programação de mão de obra (Figura 71), programação logística (Figura 72), de recebimento de recursos (Figura 73). Figura 71 – Programação de mão de obra de custo prazo. Figura 72 – Programação Logística de curto prazo. Figura 73 – Programação de recursos de curto prazo. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 103 • Uma vez programadas e comunicadas a todos, é a hora da execução das tarefas. A partir deste momento, conflitos e interferências devem ser gerenciadas pela equipe de frente. A realização de reuniões diárias, de não mais de 15 minutos, de pé, são uma oportunidade de resumir diariamente o progresso obtido, e as dificuldades encontradas. É também uma oportunidade para o gerente da obra sentir a temperatura do empreendimento e agir para manter a moral da equipe e o empreendimento na linha. Na execução da programação da semana seguinte, é apurado o cumprimento da semana anterior e discutidos os motivos do não atingimento da programação. Esta prática reforça o espirito de equipe e ajuda na tomada de decisões acertadas e assertivas pelo grupo. A identificação dos motivos pelos quais as tarefas não foram executadas permite implementar ações corretivas num curto espeço de tempo. Através dela, também conseguimos analisar o processo a atuar nos pontos de melhoria. Parte do aprendizado obtido consiste em conhecer profundamente a causa raiz das causas de atraso na produção. Utilizar técnicas como 5W2H, diagrama de causa e efeito ajudam o time a entender o que é necessário fazer para melhorar. Muita podem ser as causas do não cumprimento da programação: Figura 74 – Principais motivos do não atingimento da produção programada. Depois de vários ciclos de programação e controle é possível avaliar as principais causas de não atingimento (Figura 75); Normalmente poderemos verificar que 20% das causas serão responsáveis por 80% dos atrasos (princípio de Pareto (80/20)), direcionando assim a tomada mais eficiente de ações corretivas. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 104 • Figura 75 – Avaliação das principais causas do não cumprimento da programação. No fechamento da programação da semana anterior, extraímos a proporção do trabalho prometido entregue no prazo, ou %PPC (Figura 76). A medição do %PPC possibilita ao engenheiro identificar desvios entre as programações e o realizado. PPC’s muito baixos podem representar um otimismo excessivo do programador, grande incidência de imprevistos ou produtividades muito apertadas, já %PPC’s muito altos podem representar programações muito fáceis, com provável improdutividade. A programação deve ser uma forma de incentivar as equipes a buscarem produtividades elevadas e se superarem. Um PPC na faixa de 75 a 85% são excelentes resultados para metas desafiadoras. A variabilidade da produtividade diminui na medida em que o %PPC aumenta. O %PPC permite que o engenheiro focalize sua atenção sobre o que pode ser prevenido através de melhorias no planejamento e intervenções na produção. Figura 76 – Cálculo do %PPC semanal. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 105 • O %PPC também pode ser utilizado como indicador de desempenho das equipes. Podemos acompanhar o desempenho semanalmente, verificando sua evolução (Figura 77), podemos comparar equipes de forma a conhecer as melhores equipes (Figura 78), entre outros indicadores. Figura 77 – Cockpits de desempenho de %PPC semana a semana. Figura 78 – Comparação de desempenho de %PPC por encarregado. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 106 • 4.3.7. Controlar desempenho de prazo Controlar o desempenho de prazo é fundamental para o sucesso do empreendimento. Este processo consiste no monitoramento do progresso das atividades e no gerenciamento das mudanças ocorridas na linha de base do cronograma. O principal benefício é a identificação de desvios em relação ao planejado e a implantação de ações corretivas e preventivas. É notória a falta de habilidade dos programadores e engenheiros de identificar e corrigir problemas. Além do mais, existe uma tendência natural de transferir a responsabilidade pelos atrasos de cronogramas para outros. Busca-se determinar a situação atual do cronograma, comparando o trabalho entregue em relação ao tempo transcorrido; Identificar a necessidade de replanejamento para correção de rumo no empreendimento; Acomodar as mudanças ocorridas, através de replanejamento, de forma a não impactar o prazo do empreendimento e, em últimos casos, solicitar a aprovação para alteração da linha de base junto ao patrocinador. O replanejamento visa combater as incertezas no processo construtivo. Várias são as estratégias para se recuperar o prazo de um empreendimento: Dividir atividades para várias frentes de serviço, mudar relações entre atividades, retirando precedências e executando paralelamente, transferir tempo interno para tempo externo através da industrialização, eliminar atividades desnecessárias, aumento de horas extras, melhoria da produtividade através da mecanização, premiação baseado no cumprimento de metas, foco dos recursos internos e externos nas atividades críticas, ou seja, concentrar o esforço de forma a aliviar a corrente crítica. É muito importante que as causas do não atendimento ao cronograma seja analisadas em profundidade para que medidas corretas sejam tomadas, tanto para corrigir o desempenho, quanto para recuperar o atraso já incorrido. Pré-estabelecer o critério de avaliação do progresso será utilizado evita conflito com os stakeholders. Antecipar o início do empreendimento, sem estar adequadamente planejado e sem que os recursos estejam todos disponíveis, com a expectativa que ganhará tempo no final é um erro. Bem começado é meio caminho andado. Todas as análises, decisões a aprovações no processo de controle de desempenho de prazo são realizadas em reuniões mensais, denominadas de comitê de gestão, que será melhor apresentado no capitulo 4.10 Gestão da Comunicação. 4.4 Gestão do custo Gerenciar os custos de um empreendimento é vital para seu sucesso, pois trata-se de uma das restrições mais críticas em construção civil, podendo inclusive tornar inviável a realização do mesmo. A variável custo está presente em todas as fases de construção e é um elemento fundamental para o planejamento e controle da produção. Também é importante lembrar que a necessidade de caixa do empreendimento é derivada da linha de base de custo e deve excedê-la. GERENCIAMENTO DEOBRAS • 107 • A gestão dos custos de um empreendimento envolve os processos de orçamentação e monitoramento e controle dos custos realizados, de forma a garantir que o mesmo seja concluído dentro do orçamento previsto. Estes processos interagem entre si e com os de várias outras áreas de conhecimento (Figura 79). Figura 79 – Processos de gestão de custo. Existe uma estreita relação entre os processos de gerenciamento de custo e de suprimentos. Ambas se alimentam e reforçam mutualmente. É nesta relação com as demais áreas de conhecimento como projetos, RH, produção que são tomadas decisões como comprar ou alugar? Fazer ou subcontratar? O gerenciamento de custo também tem grande relação com o gerenciamento de riscos. Para cada risco que se busca eliminar, reduzir sua probabilidade ou impacto, existirá uma estimativa custo para as ações necessárias. Em um empreendimento, o prazo e seu custo também estão intrinsecamente ligados. Podemos dizer que o custo responde a qualquer alteração realizada em seu prazo. Ou seja, alterar prazo é alterar custo e vice-versa. Se acelerarmos o projeto teremos maiores custos com horas extras, mobilização de equipamentos adicionais, entre outros. Por outro lado, quando um empreendimento atrasa, temos maiores custos fixos, de manutenção do canteiro, etc. Os estouros de orçamento não são exclusivamente decorrentes da má gestão de custos. Na maioria das vezes são decorrentes de outros problemas como atraso de obra, mudanças de escopo, baixo desempenho da produção, erro nas estimativas, retrabalho, aumento de preços do mercado, concretização de riscos, entre outros. Sendo assim, por mais que se planeje e controle os custos ele será sempre consequência da boa ou má gestão. Por isto a gestão de custo deve estar integrada com as demais áreas de forma a direcionar as ações necessárias para correção de rumo. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 108 • É importante salientar que a capacidade de influenciar os custos é maior nos estágios de desenvolvimento do empreendimento e vai reduzindo com a evolução do mesmo. Por isto, é fundamental sua participação nos estágios iniciais de projetos, especificação, definição do escopo. Não abordaremos neste manual em técnicas de orçamentação, uma vez que, existem muitas publicações no mercado que o fazem com bastante profundidade. Nos limitaremos a demostrar a importância de sua gestão para o bom resultado do empreendimento. 4.4.1. Orçamento Executivo A base de um gerenciamento de custos eficaz é um orçamento adequadamente detalhado, consistente e confiável. Não existe processo decisório tão incerto e tão importante para o resultado do empreendimento como o de orçamentação. Este processo está profundamente relacionado aos processos de engenharia e evolui no decorrer do empreendimento, na medida em que novas informações são adicionadas. Nos estágios iniciais do empreendimento, ainda na etapa de business case, utilizam estimativas análogas de outros empreendimentos ou indicadores como CUB e INCC. Durante o desenvolvimento de engenharia básica, estimativas de custo mais detalhadas são executadas com consultas a fornecedores e tomada de preço. Uma vez elaborados os projetos executivos, estimativas mais precisas são realizadas, de forma a compor o orçado final e consequentemente sua linha de base de custo. Uma estimativa é a melhor previsão baseada nas informações disponíveis no momento de sua realização, considerando, inclusive, premissas e riscos identificados. Podemos afirmar que uma estimativa é uma avaliação quantitativa de custos prováveis, dos recursos necessários, para executar uma atividade. Esta não deve ser nem o menor, nem o maior valor e sim o valor mais realista, não devendo ser definida em função do maior nível hierárquico. Devemos utilizar a maior quantidade de informações possíveis: orçamentos de fornecedores, informações históricas de outros empreendimentos, pareceres de especialistas, composições de preços unitários, publicações especializadas, entre outros. As estimativas de custo são prognósticos baseados nas informações conhecidas no momento de sua realização, por isto, compensações de custos e riscos devem ser consideradas. As estimativas dependem muito da experiência e expertise da equipe de orçamento e são altamente sensíveis a estratégia de execução das atividades. Para realização das estimativas os fatores como a qualificação e experiência dos profissionais são fundamentais. Uma vivência mais abrangente que situações reais de canteiros pelo profissional trará maior precisão às estimativas realizadas. O nível de exatidão de uma estimativa é muito importante. As estimativas coletam informações de muitas fontes, algumas mais completa e confiáveis, outras incompletas e superficiais. Na medida em que o empreendimento avança e, novas informações são coletadas e compreendidas, as mesmas devem ser refinadas (ondas sucessivas), de forma a manter sua adequação à realidade. Contribui para a exatidão das estimativas a qualidade das descrições técnicas realizadas no dicionário da EAP. É importante frisar que as estimativas devem contemplar riscos e compensações de custo, devem ser realizadas utilizando base de dados atualizadas e confiáveis e, quando baseadas em orçamentos de fornecedores, devem ser amparadas por propostas comerciais, de forma a, propiciar um compromisso do fornecedor. Também é preciso ter foco, a fim de explorar bem os itens mais importantes, uma vez que, apenas 20% dos serviços representam 80% dos custos totais. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 109 • O processo de orçamentação deve seguir a estrutura dos pacotes de trabalho da EAP, adicionando-se as estimativas de custo em cada elemento, partindo dos níveis mais baixos para os mais altos (bottom-up), de forma a permitir análises segmentadas. Neste caso, passa a se chamar Estrutura Analítica de Custos – EAC. Os diversos níveis são codificados, permitindo rápida alocação e identificação dos custos apurados. Normalmente os softwares de orçamento já trazem este tipo de estruturação (Figura 80). 1. R$49,00 1.2 R$22,00 1.2.2 R$14,00 1.2.1 R$ 8,00 1.2.2.2 R$ 5,00 1.2.2.1 R$ 9,00 1.2.1.2 R$ 5,00 1.2.1.1 R$ 3,00 1.1 R$27,00 1.1.2 R$15,00 1.1.1 R$12,00 1.1.2.2 R$ 7,00 1.1.2.1 R$ 8,00 1.1.1.2 R$ 7,00 1.1.1.1 R$ 5,00 Estrutura Analítica de Custos Figura 80 – Exemplo de estrutura analítica de custos. O processo de orçamentação tem uma estreita relação com os processos de desenvolvimento de projetos. Técnicas como a Engenharia de Valor, análises de construtibilidade, seleção de tecnologias construtivas, padrões, especificações técnicas e de desempenho, simplificação e modelagem de processos direcionam as estimativas que serão realizadas. No caso da adoção da engenharia simultânea, é provável que no momento das estimativas, não estejam disponíveis projetos executivos com nível de detalhes adequados. Neste caso, o nível de precisão do mesmo será reduzido e deve ser considerado como um risco para o empreendimento. O processo de detalhamento e orçamentação deve ser mantido durante a execução do empreendimento, na medida que novas informações surjam. Uma vez aprovado o orçamento e sua EAC, estes se transformam na linha de base de custos do empreendimento, devendo conter os custos de todo o trabalho previsto para o empreendimento. A linha de base de custo não muda durante a execução do empreendimento, a não ser que existam mudanças aprovadas formalmente pelo patrocinador do empreendimento. A linha de base é fundamental para a gestão de custo pois é através dela que o desempenho é medido e, caso esteja se desviando do planejado, ações contingenciais poderão ser tomadas. Quando a linha de base de custo é distribuída em uma base temporal, a mesma se transforma no chamado cronograma físico-financeiro sendo representado por uma curva S, dando ao gerente condições de monitorar o custo e o prazo conjuntamente. GERENCIAMENTO DEOBRAS • 110 • É salutar que os orçamentos contenham reservas para contingências, a fim de, amortecer eventuais imprevistos, não incluídas na linha de base de custos. Esta reserva, ou pulmão, é de exclusiva responsabilidade do patrocinador do empreendimento e somente com seu consentimento pode ser utilizada. Esta também não é considerada para calcular medidas de valor agregado. A escolha da relação ideal entre o custo e prazo é um trade-off que o planejador deverá fazer, de acordo com a estratégia escolhida. É importante levar em consideração nesta escolha os riscos envolvidos e multas contratuais, podem alterar sensivelmente a decisão tomada. A Figura 81 representa os custos diretos, indiretos e custos totais de um empreendimento em relação ao prazo de obra. Conceitualmente admitimos que a duração normal representa o menor custo direto e que a duração acelerada o menor tempo possível de execução e o maior custo direto. Entendemos como menor tempo possível como aquele que não adiantaria alocar mais recursos pois é inviável tecnicamente reduzir ainda mais seu prazo de execução. Entendemos como custo marginal o custo necessário para acelerar uma atividade. No gráfico, a duração ótima para um empreendimento é o ponto mínimo da curva de custo total – D0. Figura 81 – Relação entre custo total e prazo. Os custos indiretos são aqueles que não variam, independentemente das quantidades produzidas. São eles: despesas com mobilização, operação do canteiro, energia, água, segurança e portaria, equipe técnica e administrativa, logística. São comumente alocados no empreendimento como um todo. Normalmente é maior no início do empreendimento por causa da mobilização, aproximando posteriormente de uma linearidade. O custo indireto é proporcional ao prazo do empreendimento. Custos diretos são aqueles associados a execução de uma atividade (mão de obra, material e equipamentos envolvidos diretamente na execução). É calculado através de composições de custo e varia em função da quantidade produzida. Os custos diretos tendem a aumentar na medida em que o prazo é reduzido. Cada atividade possui seu próprio custo de aceleração. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 111 • Uma vez concluído o processo de orçamento e aprovada a linha de base de custo, o foco do gerente do empreendimento deve se voltar para o monitoramento e controle de custos. 4.4.2. Monitoramento e controle de custos Pequenas variações de custos durante o empreendimento são normais, entretanto, quando são significativas é necessário agir rapidamente para retorná-lo ao caminho correto, principalmente verificando alterações de prazo e escopo que possam ter ocorrido. O processo de monitoramento de custos confronta o planejado e o executado, de forma a apontar o progresso do empreendimento, identificar os desvios e permitir um replanejamento para recondução do mesmo à linha de base. Este deve ser executado em períodos regulares de forma a acompanhar a evolução do empreendimento. Apesar de ser uma área de conhecimento fim, é possível influenciar os fatores que provocam seu resultado. No caso de variações relevantes, análises aprofundadas devem ser realizadas para se determinar a causa raiz da variação e permitir um adequado tratamento. O processo de alocação dos custos nos seus respectivos centros de custos é fundamental para a boa análise e gestão de custos. A postura deve ser proativa e não reativa, de forma a influenciar os fatores que provocam os desvios, identificando riscos e alterações que provocarão estes desvios. É muito importante a realimentação do orçamento de forma a construir uma base de conhecimento da companhia e para que possa ser transferida para outros empreendimentos. O processo de controle de custo está focado em blindar a ocorrência de mudanças na linha de base de custos. É preciso controlar as causas de mudanças que impactam no custo; Documentar as mudanças ocorridas; Gerenciar as mudanças aprovadas; manter os custos dentro do valor orçado; comunicar as mudanças aos stakeholders; prevenir a ocorrência de mudanças não aprovadas. Gerenciar mudanças em custos é fundamental para o sucesso do empreendimento permite que o orçamento não seja excedido. O seu objetivo é prevenir a inclusão de custos não autorizados e errados na linha de base. Se o escopo for modificado, é preciso garantir que o item permanece dentro dos limites aceitáveis de orçamento ou que modificações de custo deverão ser aprovadas pelo patrocinador e inseridas no orçamento. O processo de gestão de riscos possui uma estreita relação com o processo de controle de custos. O monitoramento e controle de riscos ativos, com respostas preventivas e/ou corretivas apropriadas reduzem a possibilidade de estouros de orçamento. Todas as análises, decisões a aprovações com os stakeholders são realizadas nas reuniões mensais, denominadas de comitê de gestão, que será melhor apresentado na capitulo 0 Gestão da Comunicação. Uma das técnicas mais eficazes para o monitoramento, não só do custo, mas também do prazo e do escopo de um empreendimento, é o gerenciamento do valor agregado que apresentaremos a seguir. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 112 • 4.4.3. Gerenciamento do valor agregado - GVA O gerenciamento do valor agregado - GVA tem como foco a relação entre os custos reais incorridos, o que se previa gastar e a produção realizada, ambos dentro do cronograma físico do empreendimento, ou seja, o desempenho obtido comparado com o gasto para obtê-lo. O GVA capacita os gestores a identificar problemas antecipadamente e fazer os ajustes necessários para manter o empreendimento no prazo e no custo planejado. Este permite ao gerente ter uma clara noção da atual situação do empreendimento e fazer análises de tendência. Funciona como um alerta, mostrando se o empreendimento está consumindo mais dinheiro na realização das tarefas ou se está gastando mais rápido porque o empreendimento está adiantado. Permite identificar possíveis problemas mais cedo para que os ajustes necessários possam ser feitos para mantê-lo próximo ao planejado. Baseia-se na premissa de que o desempenho do passado pode ser projetado para obter indicadores do futuro. Este método integra escopo, cronograma e custo do empreendimento. O ponto de partida para seu desenvolvimento é o cronograma e o orçamento baseados na EAP. Seu subproduto é uma curva S que representa a linha de base de desempenho do empreendimento (Figura 82). Figura 82 – Linha de base de desempenho. O tripé de comparação é formado pelo custo ou valor previsto – VP, o custo realizado - CR e o valor agregado - VA. O valor previsto – VP é custo que deveria ter incorrido no período de medição, ou seja, é o custo orçado do trabalho planejado. O valor agregado – VA é o custo orçado para o trabalho realizado, ou seja, é quanto deveria ter custado, segundo o orçamento, o que foi executado. O custo real – CR é o custo real do trabalho realizado, ou seja, quanto realmente custou o que foi realizado. Não se relaciona com o que foi planejado e sim com a realidade da obra (Figura 83). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 113 • Figura 83 – Gerenciamento do Valor Agregado - GVA Com estes três valores podemos calcular alguns indicadores muito úteis para analisar o desempenho do empreendimento. Os mais usualmente utilizados são a variação de custo (VC), a variação de prazo (VPr), o índice de desempenho de custo (IDC) e o índice de desempenho de prazo (IDP) (Figura 84). Figura 84 – Indicadores de desempenho através do GVA. Os são obtidos com a divisão do valor agregado pelo custo realizado ou pelo valor planejado, respectivamente. Se os valores dos indicadores de custo e de prazo (IDC e IDP) forem superior a 1,0 significa que o desempenho superou positivamente o planejado (Figura 85). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 114 • Figura 85 – Avaliação de desempenho pelo IDC e IDP. É importante definir os limites de variação aceitáveis e a partirde que ponto serão tomadas ações corretivas. É importante identificar quais atividades estão impactando os indicadores, pois, grandes atrasos em atividades fora do caminho critico podem não impactar o prazo final do empreendimento enquanto pequenos atrasos no caminho crítico comprometem o cumprimento das metas. Figura 86 – Exemplo da aplicação do gerenciamento de valor agregado. Com a utilização desta técnica, cada grupo de custo torna-se um ponto de controle e, quanto mais baixo for o nível, mais profundas podem ser as análises e conclusões sobre desempenho. Normalmente o nível de detalhamento não atinge o nível de pacotes de trabalho. Fica em algum nível de detalhamento um pouco superior. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 115 • O critério de medição utilizado para apuração do VA deve ser o mesmo utilizado para o VP, Podendo também variar em função do tipo de pacote de trabalho. Para pacotes de trabalho curtos podemos utilizar medições de 0% ou 100%. Para pacotes de trabalho um pouco mais longos, podemos utilizar variações como 50%/50% - Início/ término. Podemos utilizar também percentual de progresso ou nível de esforço para pacotes mais complexos. Duas dimensões da análise que contribuem para maior rigor de análise do GVA são elas a frequência de análises e a granularidade ou profundidade de análise dos dados. A profundidade está relacionada ao nível de detalhamento utilizado como unidade de gestão, ou seja, pacote de trabalho. E a frequência é o intervalo de tempo no qual o desempenho é medido, analisado e ações tomadas. Quanto maior o risco e o nível de incerteza do empreendimento, maior deve ser a granularidade e menor a frequência de análise. Como principais vantagens do método podemos destacar o fato de ser um sistema unificado e confiável que integra prazo, custo e escopo e a simplificação das informações para acompanhamento da alta gerência da empresa. Entretanto, para que o empreendimento seja controlado com esta técnica é necessário que tenha sido planejado de forma adequada. Tanto o escopo, o cronograma e o orçamento devem estar na mesma unidade básica, ou seja, associados à EAP. Processos de controles mais elaborados e estruturados como o GVA também necessitam de mais disciplina, de investimentos na gestão e em recursos de informação. Por isto, a maioria dos empreendimentos opta por mecanismos mais simples e tradicionais, apesar de limitados. A implantação deste método requer mudança cultural e nos processos de planejamento e controle. Esta ferramenta só pode ser aplicada com eficácia em empreendimentos cujo escopo esteja claramente definido, detalhado adequadamente, de forma a permitir que os custos e prazos de cada pacote de trabalho sejam alocados corretamente. Facilitando o processo de medição dos valores reais e agregados. Excesso de alterações de escopo fragilizam a confiabilidade do método, fazendo com que a linha de base esteja sempre defasada. Apesar de sua grande utilidade, o método de GVA também possui limitações. O mesmo não visualiza o caminho crítico. Despesas fixas, não associadas diretamente a um pacote de trabalho contaminam o índice de desempenho de prazo - IDP. Gerentes podem manipular a sequência do trabalho de forma a aumentar o valor agregado mas prejudicando a boa técnica e melhor sequencia executiva. Estas limitações podem ser minimizadas retirando-se os custos indiretos do cálculo do GVA. Apesar de existirem maneiras para se projetar os custos finais e prazo final do empreendimento através desta técnica (GVA), em função da complexidade dos orçamentos e cronogramas da construção civil, entendemos que não apresentam qualidade satisfatória. O melhor mesmo é reavaliar cronograma, as precedências e o caminho crítico e os custos necessários à concussão do mesmo. 4.5 Gestão de Suprimentos Os processos de gestão de suprimentos são os motores que colocam um empreendimento em movimento. Por isso, precisamos buscar um patamar mais elevado de eficiência e eficácia nos processos de compras e contratações. Através desta área circula quase a totalidade dos recursos financeiros aplicados à etapa de construção do empreendimento. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 116 • Um dos erros recorrentes na construção civil é a ênfase excessiva dada ao controle exclusivo de prazo e custos, relegando a segundo plano a alocação de recursos. Sem uma alocação de eficaz recurso, não há cumprimento de prazo, custo, ou qualidade. Os processos de suprimentos também não são estáticos ou pontuais, ao contrário, são processos dinâmicos que se desenrolam ao longo de todo o ciclo de vida do empreendimento. A área de suprimentos deve ser vista como um centro de lucro, e não como um centro de custo, como usualmente acontece. Esta deve buscar primeiro a agregação de valor, e não somente a redução de custo. Nesta visão, o preço deixa de ser o objetivo maior e custo total e o valor agregado passam a compor a equação. Não há como negar que toda compra ou contratação envolve riscos. Vários podem ser os riscos: de não entregar o produto no prazo, de não atingir a produtividade esperada, com a qualidade do material, com a qualidade dos serviços, do não cumprimentos de suas obrigações trabalhistas, fornecedores com problemas financeiros, de interrupção no fornecimento, entre outros. Experiências passadas com um fornecedor também não livra as contratações de riscos. Os riscos devem ser considerados na decisão, avaliando também os possíveis impactos nos objetivos do empreendimento. Uma compra ou contratação mal sucedida pode levar o empreendimento ao fracasso. Decisões de compra ou contratações realizadas com base na intuição, sem análise das informações disponíveis, ou a manutenção de fornecedores por comodidade ou amizade são grandes riscos ao sucesso do processo. A definição de padrões para a área de suprimentos busca reduzir riscos, evitar falhas, melhorar a comunicação e aprimorar o resultado. Etapas incompletas neste processo podem significar custos e perda de prazo mais adiante. Para profissionais treinados o esforço de seguir o processo não é demasiado. Os principais processos são: planejar suprimentos, contratar fornecedores e comprar materiais, monitorar e controlar contratos, encerrar contratos, ou seja, basicamente o PDCA associado à uma boa comunicação (Figura 87). Mas atenção. É preciso ter cuidado, as vezes, os processos de aquisição podem ser tão complexos que tornam-se uma restrição. O processo de suprimentos tem como principais entradas a descrição de escopo, o cronograma, o orçamento e os projetos executivos. Também contribuem com informações todas as demais áreas de conhecimento, uma vez que possuem requisitos e demandam recursos para a operação. Desta forma, busca-se descrever com a maior clareza possível a compra ou contratação que deve ser realizada. O segredo de uma boa contratação está na comunicação precisa. A área de suprimentos tem interfaces com vários processos, sendo que uma dos mais importantes para o resultado do empreendimento é com o desenvolvimento dos projetos. Nesta relação, a área de suprimentos tem como contribuir, e muito, para a adoção de melhores soluções para o empreendimento. Esta contribuição se dá através do desenvolvimento de alternativas de fornecimento, indicação novos materiais, seleção dos melhores fornecedores, busca de informações do mercado, busca de atualizações tecnológicas, promoção do equilíbrio entre qualidade e valor, parceria com fornecedores especialistas que contribuam com as soluções, e acompanhamento das tendências do mercado. A área de suprimentos também contribui avaliando as opções apresentadas pelos projetistas, tendo em vista que muitas vezes os mesmos não avaliam os impactos econômicos de suas escolhas no projeto. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 117 • Figura 87 – Processo de gerenciamento de suprimentos. 4.5.1. Planejar suprimentos O planejamento dos recursos de um empreendimento podeimpactar diretamente o cumprimento de seus prazos, por isto é um processo de grande importância para seu resultado final. O processo de planejamento de suprimentos inclui identificar, quantificar e planejar todos os recursos necessários à execução de cada atividade, sejam eles equipamentos, materiais ou serviços, bem como a melhor forma de realizar a sua aquisição. O processo também inclui decisões como: centralizar ou descentralizar, fazer ou comprar, formar parcerias ou contratos pontuais, o tipo de contrato mais indicado em cada caso, e a possibilidade de transferir risco a terceiros. Os ciclos de suprimentos estão associados aos ciclos de planejamento, ou seja, o planejamento das compras e contratações está associado ao cronograma do empreendimento e suas atividades. Estão inseridos no planejamento de suprimentos o tempo necessário para cada etapa do processo, também chamado de lead time, que são: elaboração de requisição, envio da coleta, elaboração de proposta pelo fornecedor, equalização das propostas e negociação, contratação ou compra, prazo de produção, prazo de entrega, prazo de mobilização e integração da empresa para o caso de serviço. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 118 • Este lead time pode variar de material para material e de serviço para serviço dependendo da disponibilidade no mercado, característica de produção, quantidade de fornecedores, exclusividade, localização do empreendimento, disponibilidade em estoque, compra direta ou de distribuidor, entre outros. Esta definição deve ser realizada com base na experiência de cada construtora. Existem recursos que devem ser adquiridos a partir do planejamento de longo prazo, uma vez que seu lead time de aquisição são muito longos e a repetitividade de compra é pequena, como por exemplo elevadores, cerâmicas, etc. Outros devem ser adquiridos a partir do planejamento de médio prazo, uma vez que seu ciclo de aquisição é inferior a trinta dias e possuem uma média frequência de aquisição. E finalmente existem recursos que são adquiridos a partir da programação de curto prazo ou do controle de estoque, caracterizados pela alta repetitividade e pequeno ciclo de aquisição. Estes últimos devem ser mínimos e a exceção do processo. Uma vez identificados os recursos necessários, a primeira decisão a ser tomada no processo de planejamento é qual estratégia deverá ser adotada para o processo de compra ou contratação: centralizada, realizada no escritório da construtora, unificando os processos de todos os canteiros, ou descentralizadas, onde cada obra realiza sua contratação no próprio canteiro. Ambas com vantagens e desvantagens. A centralização tem a vantagem de trabalhar com profissionais mais qualificados, experientes, contar com histórico maior de negociações, e trabalhar com grandes lotes, o que propicia melhores negociações e condições de fornecimento. Como desvantagem tem o fato de estar mais longe da operação e possuir ciclos mais longos e que contribui para a morosidade do processo. A descentralização possui a vantagem de ter maior velocidade de resposta e de o profissional estar sentido a pressão e o clima do canteiro. Isto propicia maior senso de urgência e contratações mais alinhadas com o momento. Como desvantagens podemos citar o fato de que negociações menores, sob pressão de prazo, resultam em preços mais elevados. Soma-se a este o fato da maior possibilidade de preferências pessoais, maior dificuldade de controle do escopo e maior informalidade. Também é possível a adoção de uma estratégia mista, onde durante as etapas de mobilização e desmobilização, onde são constantes a ocorrência de pequenas compras e contratações, sempre com urgência, se utilizar a descentralização e, durante o empreendimento, na contratação dos grandes pacotes, onde se realmente consegue obter ganhos significativos de custo, utilizar a estratégia de centralização. A segunda decisão durante o planejamento dos suprimentos do empreendimento é se determinado produto ou serviço será executado ou contratado. A decisão de fazer ou comprar (make or buy) deve ir além da simples análise de custos, devendo considerar questões estratégicas e problemas administrativos que surgem e podem tirar o foco da empresa e afetar os resultados. Devem ser analisadas questões técnicas, econômicas, riscos, ganhos de eficiência, qualidade, prazo de execução, domínio da tecnologia, ganho de escala, entre outros. A análise de fazer ou comprar é influenciada por restrições de mão de obra, qualidade, riscos, capacidade técnica do fornecedor, especialização, custo, orçamento, capital de giro, entre outros. As decisões de fazer ou comprar devem documentadas com breve justificativa para as decisões. Também deve ser analisado do ponto de vista estratégico, ou seja, deve-se analisar a competência relativa da construtora no mercado, bem como a importância para o resultado do negócio. Se a empresa faz melhor do que o mercado e isto a diferencia, gerando vantagem competitiva, deve ser realizado internamente. Por outro lado, se o fornecedor possui melhor produtividade, qualidade e expertise no assunto, trazendo melhores práticas e tecnologia atualizada, a atividade deve ser terceirizada (Figura 88). Quanto mais importante para o resultado for atividade, mais importante a realização de parcerias com o fornecedor para desenvolvimento mútuo de competências. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 119 • Figura 88 – Análise de importância x competência para a decisão de fazer ou comprar. A decisão de fazer implica em maior alavancagem operacional, pois exige investimento de capital em ativos, elevando os custos fixos ao invés de custos variáveis. Isto faz com que a construtora assuma os riscos e custos da flutuação da demanda, ou seja, se a demanda cair os custos unitários sobem. Também reduz a flexibilidade de modificação de fornecedores no caso de problemas com prazo de atendimento, qualidade custos etc. A opção por fazer apresenta maiores barreiras a saída ou mudança de tecnologia, em função da especialização de ativos e exclui a empresa de ter acesso a novas tecnologias de fornecedores. A opção pela verticalização demanda maior esforço de coordenação e reduz a flexibilidade operacional, por outro lado pode reduzir custos e melhorar a integração com a rede. A decisão de terceirizar ao invés de fazê-lo internamente visa maior eficiência e melhores resultados, ou seja, tornar a construtora mais competitiva. Também permite à empresa se concentrar nas atividades mais importantes para o sucesso do empreendimento. Terceirizar significa transferir para terceiros atividades que eles realizam de forma mais eficiente, eficaz e com maior qualidade e menor custo. Entretanto, existe uma tendência em pensar que sai sempre mais barato fazer internamente. Isto não necessariamente é verdade. Por se tratar de um sistema, é muito complexo identificar todos os impactos de uma decisão. Muitos custos e riscos escondidos podem ser evitados com a terceirização. Por isto, na análise econômica, é importante estar atento se todos os custos indiretos envolvidos com coordenação, leis trabalhistas, tamanho da equipe, riscos, investimentos, trabalhos de apoio, custos fixos com canteiro, entre outros, foram considerados. Sem a inclusão destes, a análise se torna míope e conduzirá a uma decisão errada. O importante é manter a coerência e a objetividade no processo. Os principais objetivos da terceirização são: * Reduzir custo; * Transformar custo fixo em variável tornando a empresa menos vulnerável a variações de demanda; * Aproveitar o ganho de escala da empresa terceirizada; * Obter maior racionalização; * Disponibilizar recursos para outros investimentos; GERENCIAMENTO DE OBRAS • 120 • * Gerar economia de investimentos em infraestrutura, treinamento, equipamentos; * Reduzir níveis hierárquicos, funções e pessoal próprio, tornando a empresa mais enxuta; * Melhorar a qualidade;* Possibilitar a transferência de tecnologia e atualização tecnológica; * Levar a melhorias e inovações nos processos; * Manter o foco nas competências essenciais e nas atividades de maior retorno. Apesar de todos os benefícios, a terceirização não pode ser encarada como uma panaceia, ou seja, não pode ser vista como a solução para todos os males. Alguns problemas podem ocorrer como atrasos na entrega, risco de má qualidade ou problemas de comunicação. Também existem os riscos de se criar uma dependência do fornecedor, de ocorrer uma redução da diferenciação, e de possíveis dificuldades em se estabelecer parcerias. Para que a terceirização dê melhores resultados é necessário promover ações para aumento de confiança e parceria com o fornecedor contratado. Outra análise a ser realizada é a opção de locação ao invés da compra, no caso de equipamentos. Deve-se avaliar se existe uma demanda permanente pelo equipamento. Neste caso, a opção de comprar pode ser mais vantajosa, entretanto devem também ser considerados a obsolescência, manutenção, capital imobilizado, depreciação, custos operacionais, vida útil, seguros, entre outros. A terceira decisão a ser tomada no processo de planejamento de suprimentos é com relação ao tipo de relação a ser estabelecido com cada fornecedor. Esta decisão varia em função da importância do serviço/produto para o empreendimento. O tipo de relação pode variar de relações estreitas de longo prazo, chamadas de parcerias, a relações apenas de compra sem compromissos futuros, chamadas de relação comercial. Existem várias formas de parceria em vários graus de integração e profundidade. A confiança mútua é um dos requisitos essenciais para a parceria e é condição sine qua non para relações de longo prazo. A parceria entre empresas está relacionada com atitudes como confiança, expectativa de longo prazo, compartilhamento de sucesso, aprendizado em conjunto, coordenação conjunta de atividades, solucionamento conjunto de problemas, transparência de informações e poucos relacionamentos. A criação de uma sinergia com os fornecedores pode potencializar ganhos de produtividade reduzir os riscos em cenários imprevisíveis e turbulentos. Deve existir uma relação de reciprocidade, ou seja, benefícios mútuos e sacrifícios mútuos. Parceria significa abrir mão de um pouco de liberdade de ação para um benefício de longo prazo. Também é preciso garantir que o fornecedor tenha lucro e permaneça forte financeiramente e, isto, exige uma mudança cultural. Manter um relacionamento apenas comercial, onde cada transação torna-se uma decisão separada, mantém a competição entre fornecedores alternativos, promovendo constante esforço para fornecer o melhor preço. Também permite a flexibilidade de mudar o número e o tipo de fornecedores de forma rápida e barata. Entretanto, não estabelece um nível de confiança suficiente, com baixa lealdade, transformando a relação em frágil e não sinérgica e, cada novo processo consome recursos e tempo para elaboração de concorrência, análise, negociação e fechamento. Os relacionamentos comerciais são adequados para resultados de curto prazo. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 121 • Apesar de benéfica, a relação de parceria não deve ser buscada para todos os fornecedores, somente para os mais relevantes, que representam boa parte do custo do empreendimento. Os relacionamentos comerciais podem minimizar o preço, enquanto as parcerias minimizam os custos de transação. Outra decisão importante a ser tomada durante o processo de planejamento das aquisições é sobre o tipo de contrato mais indicado para cada caso. Vários são os tipos de contratos possíveis, mas os mais usualmente utilizados são os de preço fechado, os de preços unitários e os de administração (Figura 89). Os contratos a preço fechado são aqueles cujo tanto o escopo, quanto os preços, são fixos. Os contratos de preços unitários são aqueles cujo o preço unitário é fixo mas o escopo é aberto, ou seja, o serviço executado deve ser apropriado para se chegar ao valor total do contrato. Já os contratos por administração são aqueles que nem o escopo, nem os preços unitários são fixos, ou seja, o serviço é executado e seus custos reembolsados com uma remuneração ao fornecedor. Também se enquadra nesta categoria os contratos de mão de obra por hora trabalhada. Figura 89 – Tipos de contratos e seus riscos Cada tipo de contrato representa certo grau de incerteza e riscos para o empreendimento. Contratos a preço fechado são normalmente mais seguros para o contratante, mas precisam de maior confiabilidade das informações e melhor preparação. Estes devem ser utilizados quando o escopo está muito bem definido, tanto em quantidade, quanto em especificações, caso contrário pode ser desastroso para ambos. Este tipo de contrato transfere todo o risco para o contratado. Já os contratos a preço unitário aceitam menor maturidade das informações, permitindo que o processo de contratação avance com informações parciais, mas envolve maiores riscos de escopo, exigindo maturidade no gerenciamento do mesmo. Já o contrato por administração deve ser utilizado somente em casos onde o escopo é incerto uma vez que transfere todos os riscos para o contratante. Um problema com este contrato que é muito difícil de auditar a veracidade dos custos após a sua execução, ou seja, não há como provar quantas horas efetivamente foram gastas em cada atividade. Outro problema com este tipo de contrato é o fato de trazer pouco incentivo para que o contratado trabalhe de forma eficiente e produtiva, uma vez que o mesmo ganha com a improdutividade. Um grande desafio para o processo de suprimentos o a seleção adequada daqueles que farão parte do quadro de fornecedores da empresa. É preciso estabelecer uma rede de fornecedores competentes e alinhados com a estratégia da empresa, pois estes são fundamentais para a entrega de resultados. Colocar um fornecedor ruim para dentro do empreendimento é comprometer todo o seu resultado. No entanto, a avaliação de fornecedores nem sempre é uma decisão evidente. Vários são os requisitos a serem avaliados, mas, as análises mais sensatas devem avaliar no mínimo: a capacidade técnica, a capacidade de entrega, a capacidade financeira, a capacidade gerencial e a regularidade legal. Outros fatores também podem ser utilizados como qualidade, entrega, desempenho histórico, capacidade produtiva, preço, capacidade técnica, assistência técnica, localização geográfica, segurança do trabalhado, atendimento a requisitos e condicionantes ambientais, entre outros. A importância de cada um destes requisitos varia de empreendimento para empreendimento. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 122 • Para orientar a avaliação o ideal é utilizar um formulário com os itens a serem avaliados, como avaliar e aos critérios para atribuir uma nota a cada avaliação (Figura 90). Depois estas informações são condensadas em um mapa de fornecedores, por especialidade, onde será possível atribuir peso a cada item e criar um ranking classificando os melhores (Figura 91). Figura 90 – Exemplo de ficha para avaliação de fornecedores. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 123 • Figura 91 – Exemplo de ranking de fornecedores. 4.5.2. Contratar fornecedores O processo de contratação inicia com a especificação do que deve ser contratado. Uma especificação clara, correta e completa é um dos fatores de sucesso mais importantes para uma boa contratação. É preciso evitar especificações ambíguas, obsoletas, ou incompletas. A ideia de antecipar projetos incompletos para o processo de contratação de forma a “ganhar tempo”, na grande maioria das vezes causa mais problemas do que ajuda. Especificações detalhadas do escopo contratado reduzem potenciais reinvindicações futuras. Também não se deve restringir excessivamente as especificações de forma a limitar muito a concorrência. Inserir no escopo de contratação o fornecimento dos materiais a seremutilizados, reduz os riscos para construtora em relação ao consumo, gestão do material no canteiro e desperdício. Entretanto, para que funcione adequadamente, os materiais devem estar devidamente especificados, inclusive quando a marcas homologadas. Uma boa prática adotada por algumas construtoras é a criação de requisições padrão com os principais requisitos de contratação dos principais serviços. Esta estratégia padroniza as contratações e agiliza em muito o processo de preparação da contratação. No processo de contratação, é necessário enviar um conjunto de documentos com todas as informações necessárias à correta precificação pelo fornecedor. Fazem parte deste conjunto: o projeto, a descrição detalhada dos serviços, os procedimentos operacionais da empresa, as fichas de verificação que serão utilizados, projetos complementares, regras de integração, pagamento, medição, entre outros. Grande parte do sucesso da contratação está ligado à clara e objetiva comunicação. Elaborar planilhas estruturadas de forma a propiciar respostas correta e rápida parte dos fornecedores, facilitam o trabalho de organização do mapa de coleta e análise das informações. Recebida as propostas dos proponentes, é iniciada a etapa de análise e esclarecimento de dúvidas. Trata- se de uma negociação técnica onde busca-se esclarecer as considerações utilizadas, métodos e materiais considerados, e até o entendimento correto por parte do empreiteiro do escopo a ser executado. Durante este processo, é importante primar pela equivalência das respostas ou seja, que todos os fornecedores orcem o mesmo escopo. Perguntas realizadas por um dos fornecedores, bem como a resposta fornecida devem ser copiadas a todos os demais fornecedores de forma a evitar informações privilegiadas. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 124 • Também é interessante obter feedback sobre as especificações gerais do trabalho, permitindo, ou até mesmo fomentando, que os fornecedores apresentem sugestões e/ou opções para reduzir custos, prazos e até mesmo melhorar a produtividade e qualidade dos serviços solicitados. O ideal mesmo é que fornecedores parceiros sejam envolvidos ainda durante a elaboração dos projetos executivos de forma a contribuir com as melhores escolhas. Uma vez equalizadas tecnicamente, as propostas de preço são inseridas em um quadro de coleta, e é iniciada a etapa de negociação comercial. Esta deve ser realizada buscando as melhores condições. É preciso contratar, não com base nos preços diretos e sim nos custos totais de produção. Um preço menor pode significar custo maiores devido a custo de qualidade, garantia de entrega, tempo de resposta, lotes de reposição, obsolescência tecnológica, prazo de execução, entre outros. É importante focar na contratação por desempenho, ou seja, avaliar preço de forma associada a produtividade, expertise, qualidade, otimização dos demais processos, etc. Propostas muito abaixo dos demais deverá apresentar justificativas de com conseguirá realizar o trabalho, uma vez que tendem a oferecer maior risco. Deve-se buscar sempre uma relação ganha-ganha com o fornecedor, onde ambas as partes se beneficiem. A clareza de informações e as condições definidas são fundamentais para o sucesso desta relação. Dividir a responsabilidade pelo fechamento do processo e escolha do fornecedor com a equipe da obra pode evitar erros e omissões, assegurar avaliações mais justas e criar um comprometimento para que a contratação dê certo. Vários fatores influenciam uma boa negociação, entre os principais estão o tempo, a qualidade das informações e a relação interpessoal. É preciso explorar o tempo e manter a pressão até o final da negociação. Normalmente as decisões mais importantes e a maior parte das concessões são realizadas no final da negociação. Devido à demora natural para a assinatura formal de um contrato, é comum a adoção de emissão de uma carta de intensões, comunicando que as negociações foram concluídas e que já existe entre os envolvidos o propósito de dar andamento ao negócio. Isto permite que os esforços de mobilização e início dos serviços seja iniciada, enquanto corre a formalização contratual, ganhando tempo preciosos no início do empreendimento. Entretanto, esta carta de intensões é limitada em prazo e a princípio não permite a liberação de nenhum valor em termo de adiantamento ou medição. A realização de uma reunião de início de contrato, também chamada de kick off meeting, ou reunião de ponta pé inicial, envolvendo as equipes da construtora e do empreiteiro é muito salutar, principalmente quando a contratação é feita de forma centralizada e não teve a participação direta da equipe da obra. Nesta reunião são repassados o que está dentro e o que está fora do escopo, os requisitos de qualidade, de segurança do trabalho, o cronograma a ser cumprido, as regras do canteiro. Também são detalhadas as estratégias de ataque, a produtividade e equipe necessária, critérios de recebimento e medição dos serviços, entre outros. No caso de ocorrerem divergências estas devem ser acordadas na reunião, desde que não altere o preço contratado, caso contrário, o processo deve retornar à área de suprimentos para renegociação e fechamento, inclusive com outro fornecedor. A melhor hora para um fornecedor desistir dos serviços é esta, antes de entrar no canteiro, pois o impacto é bem menor. Esta reunião deve gerar uma ata, que deve ser assinada e se transformar em parte integrante do contrato. A utilização de um formulário com os itens a serem abordados na ata, acelera o processo pois permite a preparação prévia do documento e, evita que algum ponto relevante seja esquecido (Figura 92). É preciso ter atenção à qualidade do contrato. Um contrato bem elaborado é fundamental para a futura gestão do empreiteiro. Os pleitos e litígios nascem normalmente de cláusulas ou requisitos ambíguos ou em conflitos entre documentos contratuais. Um ponto importante para reduzir o risco da contratação é a associação dos pagamentos ao avanço físico e a marcos contratuais. O contrato também deve conter diretrizes claras para o caso desempenho insuficiente e para o reajuste de preço. Este deve estar vinculado tanto à data, quanto ao desempenho, ou seja, em caso de atrasos injustificados, os reajustes ficam limitados ao escopo originalmente estabelecido no contrato. Apesar de polêmico, esta é uma premissa correta e justa. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 125 • Uma vez contratados, os fornecedores devem ser integrados ao novo empreendimento. Devem conhecer os procedimentos de segurança, as rotinas do canteiro, os profissionais devem ser treinados para sua aderência às práticas corporativas. Atenção também deve ser dada também à mobilização. A data de início do serviço é para efetivamente se iniciar a trabalhar e não para iniciar a mobilização. Esta deve ocorrer antes. Figura 92 – Exemplo de reunião de início de serviço. 4.5.3. Comprar materiais O processo de compra de materiais tem como objetivo fazer com que o material certo, na qualidade especificada, esteja no local certo, na hora certa, na quantidade certa, no custo adequado. É um dos principais fatores que influenciam a qualidade da obra e a gestão dos materiais. Neste processo, para atingir desempenhos superiores, é preciso olhar não somente para o fornecedor do material. É preciso focar na gestão da cadeia de fornecimento. A gestão de uma cadeia de fornecimento é basicamente uma gestão de relacionamentos, sendo a área de suprimentos a responsável por sua manutenção. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 126 • Maximizar a cadeia de suprimentos permite potencializar sinergias entre as partes da rede, melhorando sua eficiência. Uma cadeia de fornecimento eficiente mantém estoques baixos, processamento rápido e reduz o capital de giro capturado pelo estoque. Quanto mais coesa, ágil e magra for a cadeia de fornecimento, maiores os benefícios para o resultado doempreendimento. É importante caminhar a montante na cadeia de fornecimento buscando otimização e produtividade junto aos fornecedores. Podemos dividir a cadeia de fornecimento em gestão de compra e gestão logística. Os aspectos logísticos serão tratados adiante no capítulo 0. Figura 93 – Gestão da cadeia de fornecimento. Normalmente a estratégia e o foco da área de compra se dá em função da chamada curva ABC, que classifica os materiais em função da sua contribuição relativa para o custo do empreendimento. Está é uma classificação importante, mas não é a única que deve ser levada em consideração. Podemos classificar os produtos que devem ser adquiridos em função da sua importância para a produção, ou seja, se sua falta paralisa o empreendimento; em função da sua disponibilidade, aumentando os riscos em relação à, pontualidade ou sazonalidade; quanto à sua complexidade de compra, necessitando de consultoria, estudos aprofundados, visitas técnicas e certificados e ensaios; em relação à frequência de demanda pela obra, ou seja quantas vezes cada produto é solicitado; entre várias outras (Figura 94). Criticidade Estratégicos Pouco Críticos Críticos Fatores Exemplos •Fornecedor exclusivo de insumo importante para o empreendimento •Insumo essencial ao processo produtivo •Alto volume de compras (impacto financeiro) •Possibilidade de alto impacto em SMS •Baixo volume de compras •Baixo impacto em SMS •Aquisição eventual •Inserts •Equipamentos definidos pelo cliente •Cimento •Aço •Agregados •Estrutura metálica •Material de consumo •Serviços de consultoria Figura 94 – Exemplo de classificação suprimentos. O processo de compras deve possuir diretrizes e padrões que orientem suas atividades. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 127 • No processo de compras de materiais, o principal fator de sucesso é a especificação do produto a ser adquirido. Precisa ter a máxima clareza, evitar considerações que restrinjam desnecessariamente a concorrência e conter procedimentos relativos à sua inspeção e os limites de tolerância. Com o advento da norma de desempenho, tornou-se imperiosa a especificação de produtos pelo desempenho requerido e não mais por marca ou característica estéticas. É o que chamamos de compra “engenheirada”, ou seja, baseada em critérios técnicos e normativos de desempenho. Este tipo de compra permite uma comparação mais objetiva entre diferentes fornecedores de materiais similares. Também aumenta a possibilidade de melhores negociações. Melhora a eficácia deste processo a criação de um processo de homologação prévia de materiais, onde amostras e laudos laboratoriais são enviados previamente para que sejam testados aprovados pela engenharia, ou seja homologados. A homologação é o atestado de que o material atende aos requisitos técnicos e normativos de qualidade. Atenção especial deve ser dada aos materiais com relação direta à qualidade final do empreendimento. Estes normalmente fazem parte de uma relação de materiais controlados. Materiais homologados. Estratégias como o agrupamento de compras, buscando grandes negociações ou a formação de parcerias, pode aumentar o poder de negociação e barganha do comprador e levar melhores preços. Mas é preciso bom senso. Variáveis tempo de negociação, prazo de entrega, condições de entrega são tão importantes quanto preço e não devem ser sacrificados em função apenas de preços mais baixos. O comprador precisa estar atento também à qualidade da contratação. Aspectos como a insegurança quanto a capacidade de entrega do fornecedor, risco quanto a continuidade do fornecimento, atendimento a requisitos legais e ambientais devem ser considerados na decisão de compra. Inspeções para conhecer as instalações ou para acompanhar a fabricação de do produto comprado melhoram a avalição e reduzem riscos no processo. Um aspecto relevante em relação a suprimentos são os estoques. Podemos definir estoque como um acúmulo de recursos como materiais ou produtos semiacabados. Estoques devem ser evitados por vários motivos, entre eles porque: consomem dinheiro na forma de capital de giro, que poderia estar disponível para outros fins; escodem problemas gerenciais, pois desconectam as atividades das suas predecessoras, evitando que sejam identificados; podem tornar-se obsoletos ou vencidos; podem ser danificados ou deteriorados; pode haver dificuldade de localização; exigem espaço e instalações pois aumentam a necessidade de áreas de estocagem; envolvem custos administrativos e de mão de obra para sua gestão e segurança patrimonial, uma vez que podem ser roubados; podem exigir condições especiais, por serem perigosos; entre outros. Estoques devem existir somente quando os benefícios superarem as desvantagens. Por exemplo quando surgirem oportunidades de ganhos significativos na aquisição, ou no frete, ou quando pode se valorizar, ou para reduzir o risco de flutuações cambiais. Estoques devem ser um pulmão contra flutuações inesperadas, ou seja devem ser um seguro contra as incertezas. De preferência que esteja nos seus fornecedores. Estoque acorrem porque existe um descompasso entre a entrada e a saída de materiais. É como uma caixa d’água. Se a taxa de entrada é maior do que a de saída, ocorrerá o acumulo em seu interior. Isto pode ocorrer por condições de compra como lote mínimo ou tamanho de embalagens. Pode ocorrer por insegurança ou risco no fornecimento, como fornecedores instáveis ou muito distantes. Também pode ocorrer por problemas gerenciais, ou seja, erros de levantamento ou solicitação. As informações podem muitas vezes substituir os estoques, uma vez que amenizam as incertezas da demanda, ajudando a rever as demandas futuras. A criação de um relacionamento estável, cooperativo e duradouro com os fornecedores, permite a simplificação das relações com a construtora e, abre espaço para a redução de custos, estoques, inspeções e não conformidades. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 128 • 4.5.4. Monitoramento e controle dos contratos Gerenciar os contratos é fundamental para o sucesso da relação com os fornecedores. Deve-se zelar pelo cumprimento de todas as obrigações contratuais, interagindo com as áreas envolvidas, aprovar os eventos contratuais, arquivar toda a documentação técnica, comercial e financeira, acompanhar o desempenho do serviço e os pagamentos realizados. Durante a execução dos serviços, é normal que surjam situações, tanto da parte da construtora, quanto da parte do fornecedor, que impliquem em alterações contratuais envolvendo custo, prazo, especificações, entre outros. No entanto, é importante negociar e adequar o contrato no momento em que se identificar os desvios de curso, de forma a não deixar estas discussões para o final, pois esta prática invariavelmente conduzirá para litígio entre as partes. Assim, a parte formal e legal nunca deve ser deixada de lado durante a gestão do contrato, por mais burocráticas que possa parecer. Notificações, advertências e multas contratuais devem ser rigorosamente formais desde de o início do contrato. Mudanças não autorizadas no escopo, devem sempre ser evitadas e prevenidas. Uma estratégia para reduzir os riscos na gestão do contrato é garantir que o avanço financeiro esteja rigorosamente proporcional ao progresso físico, de forma a não expor a construtora a riscos desnecessários. Uma boa prática para simplificar este processo é a realização de medições por pacotes de trabalho e não por unidade, ou seja, o contrato é medido por exemplo, por pavimento e não por m2. Esta prática traz transparência e controle para o processo, entretanto, deve ser acordada e preparada durante a contratação. Outro ponto importante é garantir a terminalidade dos serviços de forma a não criar a necessidade de retorno e de retrabalhos. O reajustamento de contrato é sempre uma questão polêmica. Os contratos não devem nunca ser reajustados de forma automática. Estes devem ser analisados, o desempenhodo fornecedor deve ser comparado com o desempenho contratado e o reajuste justo deve ser formalizado com memória de cálculo e aprovado. É injusto que pacotes de trabalho que deveriam estar concluídos e não estão, por única responsabilidade do fornecedor, tenham seus preços reajustados. Seria uma forma de premiar o mal desempenho. Tendo em vista que existe uma interdependência inevitável entre o empreiteiro e a construtora, é necessário o estabelecimento de relações adequadas e de modo criterioso. Empresas líderes devem trabalhar para desenvolver seus fornecedores. O acompanhamento técnico dos contratos é imprescindível e indelegável. Basicamente, o contratante recebe os serviços que merece. É preciso que durante todo o contrato a construtora deixe claro quais são as suas expectativas e exija o desempenho adequado, contribuindo desta forma com desenvolvimento de seus fornecedores. Esta atitude promove melhorias nos produtos e processos e torna os fornecedores mais competentes e confiáveis, de forma que atendam às necessidades da construtora adequadamente. Ajudar a um fornecedor a fazer melhorias no seu processo e produto pode levar a uma maior lealdade e comprometimento a longo prazo. Atenção especial deve ser dada à documentação legal que comprovem a regularidade fiscal, trabalhista e previdenciária do fornecedor. A apresentação e análise desta documentação deve preceder a liberação de medições e pagamentos, sob pena de que a construtora assuma um enorme passivo, em função da sua responsabilidade solidária. Este representa um dos maiores riscos na gestão contratual atualmente. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 129 • Todas as análises, decisões a aprovações do processo de monitoramento e controle de suprimentos são realizadas nas reuniões mensais, denominadas de comitê de gestão, que será melhor apresentado na capitulo 0 Gestão da Comunicação. 4.5.5. Encerrar contratos Todo contrato deve ser formalmente encerrado. Encerrar um contrato significa verificar se todos os trabalhos foram realizados; se as entregas satisfazem os critérios de qualidade, se todas as obrigações contratuais foram cumpridas como emissões de ART, testes e laudos, certificados de garantia, comissionamento, entre outros; se todas as obrigações fiscais, trabalhistas e previdenciárias foram cumpridas; e solucionar todos os pleitos e discussões que possam existir. Uma vez comprovada sua conclusão, deve ser assinado um termo de encerramento contratual dando fim às obrigações assumidas no documento principal. Após vencida a carência para liberação das retenções contratuais, é uma boa prática criar um processo formal para esta liberação. Neste processo, áreas com a assistência técnica, o departamento jurídico e a área de suprimentos avaliam se existem pendência deste fornecedor, em empreendimentos diversos, de forma a facilitar a cobrança de ações e valores devidos. 4.6. Gestão da Qualidade A qualidade de um empreendimento não é mais uma fonte de competitividade como no passado, e sim uma condição para existir. A gestão da qualidade deve ser vista com o um fator crítico para o sucesso do empreendimento, uma vez que, aborda aspectos, tanto do produto, quanto da gestão do trabalho. A qualidade do produto está relacionada à qualidade percebida pelo cliente, representada por seu desempenho, confiabilidade, conformidade, durabilidade, estética, enfim, suas características intrínsecas. Já a qualidade do trabalho está associada aos processos necessários para garantir que os requisitos serão atendidos, e com isto, a qualidade planejada. A construção civil não é uma ciência exata e, por isto, é preciso planejar, garantir, controlar e encerrar a qualidade (Figura 95). O planejamento está associado à identificação dos padrões de qualidade relevantes e a determinação de como atingi-los. A garantia da qualidade analisa se os padrões e procedimentos, definidos como necessários para o atingimento da qualidade, estão sendo cumpridos. Já o controle da qualidade verifica se os requisitos foram atingidos. Os tradicionais sistemas de gestão da qualidade, como a ISO9001, complementam a gestão do trabalho com procedimentos, padrões, diretrizes, etc. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 130 • Figura 95 – Processo de gestão da qualidade. É fácil perceber que o planejamento da qualidade está associado à prevenção de defeitos, enquanto a garantia está associada à correção dos processos para que o defeito não ocorra e o controle da qualidade está associado à validação ou correção do defeito, de forma que, não impacte a qualidade final do produto, ou seja, retrabalho. Em outras palavras podemos dizer que prevenção significar manter os erros fora do processo, já controlar significa evitar que os erros cheguem ao cliente. A prevenção deve ser peça central do nosso sistema de gestão. O foco no planejamento busca a prevalência da prevenção sobre a inspeção. Para isto a qualidade deve ser preferencialmente planejada e garantida, ao invés de verificada, ou seja, planejamento e execução com qualidade garantida ao invés de verificar se o produto final ficou conforme. Os custos da qualidade estão associados aos custos de prevenção (cumprimento de requisitos), aos custos de avaliação (examinar o produto e verificar se os requisitos estão sendo atendidos, inspeções e testes) e aos custos das falhas. É mais barato e eficiente prevenir problemas do que investir recursos para corrigi-los. O custo de prevenção é geralmente muito menor do que o custo de correção, quando estes são encontrados, ou em inspeções, ou durante o uso, pelo cliente. Investimentos na qualidade dos projetos tem impacto direto nos custos de qualidade de um empreendimento, entretanto, é preciso buscar o equilíbrio entre o custo e o benefício (Figura 96). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 131 • Figura 96 – Custos de prevenção x custos de falhas A qualidade do empreendimento será avaliada pela conformidade ao que foi definido no escopo. Para isto devemos combinar especificação e adequação ao uso pretendido. Entre os principais desafios enfrentados na gestão da qualidade em empreendimentos de construção civil está a cultura, que só valoriza o custo de construção, não levando em consideração os custos de manutenção e operação. Quando avaliamos o custo da qualidade de todo o ciclo de vida de um empreendimento, ou seja, da concepção ao uso e manutenção, podemos ter outra perspectiva. A atenção com a qualidade deve começar na concepção do produto, permeando pela elaboração dos projetos, definição dos métodos e sistemas construtivos, aquisição, execução, entrega e posterior manutenção. Decisões tomadas na concepção ou no desenvolvimento do projeto podem influenciar custos operacionais e de manutenção. 4.6.1. Planejamento da Qualidade O planejamento da qualidade busca identificar todos requisitos que devem ser atendidos, como serão atendidos, e quem será o responsável da equipe, inclusive pelo processo de melhoria contínua. Este processo pode resultar em importantes ajustes no produto e no projeto. A qualidade impacta e é impactada pelo trio de restrições – escopo, prazo e custo. Atender a prazo e custo sem atender a qualidade pode não significar nada. A descrição do escopo deve evidenciar quais serão os objetivos de qualidade do empreendimento, descrevendo necessidades explicitas e implícitas, em termos de requisitos aceitos pelos stakeholders. Nesta fase devemos ter o foco nas características do que será entregue. A partir da definição do escopo, o planejamento da qualidade define as metas, nas dimensões do produto e do gerenciamento do empreendimento. A descrição incompleta do produto pode levar a descrição inadequada das suas funcionalidades. O grau de rigor utilizado na definição dos requisitos refletirá diretamente na estrutura de custo e cronograma definidos. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 132 • Falar de qualidade é falar de atendimento a requisitose adequação ao uso. O cumprimento de requisitos está associado ao aumento da satisfação dos clientes, redução de custos, melhoria de produtividade, e redução de retrabalho. A norma de desempenho, NBR 15575 – Desempenho de Edificações Habitacionais, transformou requisitos subjetivos em objetivos, mensuráveis e com limites de desempenho bem definidos. Esta norma busca nivelar requisitos como conforto, estabilidade, vida útil adequada, segurança estrutural e contra incêndios. O uso de ferramentas como benchmarking, prototipagem, fluxogramas ajudam na identificação dos requisitos que devem ser atendidos e na avaliação do desempenho projetado. Os requisitos de desempenho expressam qualitativamente critérios de desempenho, ou seja, os atributos que a edificação deve atingir para que atenda aos requisitos do usuário, ou seja, um patamar mínimo que deve ser obrigatoriamente atendido pelos diferentes sistemas construtivos da edificação. O projetista passa especificar o desempenho desejado e não somente o processo construtivos, abrindo o leque de oportunidades para diversas possibilidade inovadoras. Uma contribuição desta norma é o de estabelecer parâmetros objetivos e quantitativos para medição do desempenho dos sistemas construtivos e do comportamento em uso da edificação, acabando com a subjetividade nesta avaliação. Estabelece também condições técnicas de desempenho para sistemas estruturais, pisos, vedações verticais internas e externas, cobertura e hidrossanitários. Outra contribuição é a definição de responsabilidades para cada participante do processo: o projetista é responsável por especificar corretamente, a construtora por executar conforme projetado, o fornecedor de materiais de atender ao desempenho prometido e o usuário de realizar as manutenções preventivas e utilizar para a finalidade a que foi construído o edifício. O cliente deve receber um produto com as especificações que contratou, sem vantagens extras, isto porque a prática de entregar desempenho maior ou funcionalidades não previstas no escopo rouba resultado do empreendimento, uma vez que consome recursos não previstos e não aumenta o valor do empreendimento. 4.6.2. Realizar a garantia da qualidade A garantia da qualidade é realizada através dos processos necessários para assegurar que os padrões estabelecidos estão sendo cumpridos: inspeções, auditorias, análises de não conformidades, analise de processos, etc. Normalmente são processos constantes dos sistemas de gestão da qualidade das empresas. 4.6.3. Controlar a Qualidade O controle da qualidade está relacionado à qualidade intrínseca do produto a ser entregue ao cliente, atendendo aos requisitos técnicos do empreendimento, em toda sua vida útil. É importante que sejam definidos critérios de aceitação para cada pacote de trabalho, de forma a ter sua conclusão verificada e sua qualidade atestada. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 133 • O ideal é que tal inspeção seja realizada em cada fase de construção, pela equipe de campo, através de FVS - Ficha de verificação de Serviço – (Figura 97), podendo ser realizado juntamente com a execução ou após sua conclusão. Esta inspeção deve ser uma etapa predecessora à realização da medição dos serviços. As FVS também devem ser realizadas por escopo e organizadas na nossa unidade básica de gestão, o pacote de trabalho. Uma prática usual é: quem inicia um trabalho confere o que foi realizado anteriormente. Uma função importantíssima da etapa de controle é recomendar mudanças e ações corretivas ou preventivas. Figura 97 – Ficha de verificação de serviço - FVS 4.6.4. Encerrar a Qualidade Encerrar a qualidade é preparar todos os registros que comprovam que todos as verificações necessárias para avaliar a qualidade do produto foram realizadas e aprovadas e disponibilizar toda a documentação necessária para apoiar as manutenções preventivas e corretivas durante a vida útil da edificação. O principal produto deste processo é o chamado “Databook”. O “Databook” é uma pasta de dados com todos os documentos e registros que comprovam a qualidade do empreendimento. É um dossiê da construção, uma coleção de documentos que conta a história do empreendimento, do início ao fim, evidenciando tudo o que for importante para o cliente e para a assistência técnica. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 134 • Não existem normas que orientem a elaboração do Databook, ou seja, cada empresa adota critérios próprios e especifica as regras para elaboração, conteúdo, registros e os certificados que farão parte do mesmo. O Databook deve ser elaborado durante todo o período de construção do empreendimento de forma a facilitar sua conclusão no final da obra. Normalmente, o Databook é separado por seções, montado em pasta de capa, em meio impresso ou eletrônico. Podem conter no Databook: Notas fiscais de equipamentos e materiais que necessitem de assistência técnica autorizada, contenham prazo de garantia, ou precisam de comprovação de origem e fabricação; certificados de garantia; certificados de ensaios que comprovem o atendimento do desempenho especificado no projeto; testes e ensaios que comprovem a qualidade do serviço executado (aderência da argamassa, resistência do concreto, resistência do guarda corpo, etc); ART’s de projeto e de execução, mapas de rastreabilidade de aplicação de materiais (Figura 98); projetos e esquemas complementares; manuais de manutenção dos equipamentos; projetos legais aprovados, projetos em as-built, entre outros. Figura 98 – Mapa de rastreabilidade. 4.7 Gestão de recursos humanos Os empreendimentos de construção civil são, essencialmente, realizados através das pessoas, sendo estas responsáveis em grande parte pelo seu sucesso ou fracasso. Gerenciá-las é uma das tarefas mais complexas e subjetivas na busca por melhores resultados, uma vez que as pessoas têm pensamentos, valores e experiências bastante diversificadas uma das outras. A interação entre elas é capaz de gerar sinergia, fazendo com que consigam fazer juntas aquilo que não conseguiriam sozinhas. O primeiro passo é desenvolver um plano de gerenciamento do pessoal, contendo os papéis, as responsabilidades e as habilidades necessárias a cada um da equipe, bem como as relações hierárquicas entre eles. O segundo passo é mobilizar a equipe necessária para cumprir as atividades do empreendimento. O terceiro passo é desenvolver a equipe, buscando a melhoria de competências e a consequente melhoria do desempenho do empreendimento. E, por fim, gerenciar a equipe, acompanhando o desempenho dos seus membros, fornecendo feedback, resolvendo problemas e gerenciando mudanças de forma a otimizar seu desempenho (Figura 99). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 135 • Figura 99 – Processo de gestão de recursos humanos. 4.7.1. Planejar recursos humanos O planejamento de recursos humanos busca definir os papéis e responsabilidades da equipe, definir a estrutura hierárquica e a autoridade de cada nível, identificar as competências necessárias (conhecimento, habilidade e atitude), definir políticas de reconhecimento e recompensa, criar um plano de treinamento, estabelecer estratégias de mobilização e desmobilização, entre outros. Para cada definição devem ser levados em consideração os impactos no custo do empreendimento, no cronograma, nos riscos associados, na qualidade desejada, entre outras áreas de conhecimento. O plano normalmente envolve também um histograma de mão de obra. A designação de papeis, responsabilidades e relação hierárquica é de grande importância no planejamento da equipe. Todos devem saber com clareza suas obrigações e sua autoridade. Estes podem ser documentados de várias formas, entre elas: organograma, matriz de responsabilidade e descrição de cargos (Figura 100). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 136 • MATRIZ DE RESPONSABILIDADE So lic ita çã o de m at er ia is La nç am en to d e fu nc io ná rio s e ho ra s (apr op ria çã o de fu nc io ná rio s) Co nt ro le d e es to qu e Re la tó rio s di ve rs os Co nt ro le d e ac es so d e fu nc io ná rio s Do cu m en ta çã o do s fu nc io ná rio s Do cu m en ta çã o da e m pr es a te rc ei riz ad a Re ce bi m en to d e m ed iç õe s e do cu m en ta çõ es pa ra p ag am en to In te gr id ad e do s un ifo rm es u til iz ad os p el os fu nc io ná rio s Ze la r p el a m an ut en çã o e bo m fu nc io na m en to do re ló gi o de p on to Pr ee nc he r e c on tro la r f ic ha s e en tre ga d e EP I´s En tre ga d e co nt ra c he qu e AM Ps re al iz ad as p el a ob ra Ac es so d e fu nc io ná rio s pr óp rio s à ob ra Ab se nt eí sm o Ad ve rtê nc ia e s us pe ns ão De m is sã o FULANO ASSIST. ADM. E E E E E E E E E E E P E E CICRANO APONTARIFE E E E E BELTRANO ADMINISTRATIVO S S S S E EXECUTA A APROVA P PARTICIPA S SOLICITA Realizar controle de mão de obra própria FUNÇÃONOME Abastecer sistema (RM) Realizar controle de mão de obra terceirizada GERENTE ORGANOGRAMA Figura 100 – Definição de papéis, responsabilidade e relação hierárquica. Uma matriz de responsabilidade deve ser fruto do relacionamento da EAP (estrutura analítica de projeto) do empreendimento com seu organograma, atribuindo a cada pacote de trabalho apenas um responsável, ou seja, o organograma deve ser elaborado em função dos pacotes de trabalho e não o contrário. Uma falha na definição dos papéis e responsabilidades levará a uma avalição equivocada de quais competências são necessárias, resultando em profissionais inaptos para as funções que exercem, aumentando a probabilidade de erros. Os papéis podem ser: executor, consultor, inspetor, treinador, aprovador, entre outros. Busca-se com isto garantir que não haja atividades com duplicidade, sobreposição ou falta de responsáveis e que toda a equipe tenha um entendimento claro de seu papel e sua responsabilidade no resultado do empreendimento. É comum que construtoras busquem reduzir a complexidade da gestão através da centralização, buscando trazer ao máximo as tomadas de decisão para os níveis de diretoria, deixando para a equipe de obra apenas a responsabilidade pela execução. Entretanto, esta estratégia só é possível em pequenas empresas, e em ambientes estáveis. É imperiosa a necessidade de se descentralizar, não apenas o trabalho, mas também as decisões. É importante que a autoridade de cada um seja suficiente para possa responder com rapidez aos desafios que surgem. A descentralização das decisões requer processos, planejamento e controle. Esta mudança de estilo gerencial exige maturidade da organização e grande esforço. A tomada de decisão compartilhada tende a aumentar a motivação e comprometimento de toda a equipe. Atenção também é requerida na medição e acompanhamento do desempenho, estabelecendo com clareza os objetivos, as metas e os critérios de medição dos resultados. É preciso deixar claro que a equipe será avaliada e reconhecida por seu desempenho, de forma a alinhar os objetivos dos colaboradores com os objetivos do empreendimento e seus stakeholders. Este assunto foi abordado também no capítulo 4.1.2. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 137 • Sempre que houverem mudanças no empreendimento, tais como mudanças de escopo, prazo, metodologia construtivas, etc., deve-se reavaliar o planejamento de recursos humanos de forma a verificar se as competências necessárias e a estrutura ainda são aderentes. 4.7.2. Mobilizar recursos humanos Não basta colocar pessoas para dentro da obra, é preciso colocar aquelas com as competências necessárias ao cumprimento do planejamento proposto. O processo de mobilização de recursos humanos busca identificar e trazer as pessoas que possuam as habilidades, conhecimento e atitudes necessárias ao sucesso do empreendimento. Um erro comum é buscar compensar a baixa produtividade com mais mão de obra, independentemente de sua qualificação. A formação de uma equipe inclui a discussão de visão, valores, expectativas e normas, segundo a qual a equipe irá trabalhar. Dentre os profissionais que compõem a equipe de um empreendimento, o gerente é o principal responsável pelo seu sucesso. Sendo assim, daremos especial atenção à sua definição. A real atividade de um gerente de obra é administrar uma organização temporária, tão complexa e desafiadora quanto qualquer outra empresa. Trata-se de um mini CEO que combina aspectos operacionais, flexibilidade, estabilidade, estratégia e liderança. O gerente deve assegurar as condições para que a equipe desempenhe suas funções e atinja seus objetivos. Existem alguns critérios que erroneamente levam a empresa a selecionar o profissional errado para gerenciar um empreendimento, dentre eles o tempo de trabalho, a disponibilidade ou somente experiência técnica. Os gerentes devem ser capazes de suportar o peso das responsabilidades e desempenhar diferentes papéis, em diferentes situações. É preciso que o gerente evolua e amadureça não só nas competências técnicas, mas também na sua capacidade de liderar e conduzir a equipe, na formação de uma cultura adequada, nos processos de gerenciamento do produto, do trabalho e da produção (Figura 101). Figura 101 – Evolução do gerente de obra. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 138 • As competências de um gerente de obra podem ser distribuídas em: * Conhecimento - domínio dos conceitos, práticas, procedimentos, técnicas; * Habilidades - aplicação do conhecimento com eficácia e eficiências; * Atitudes - predisposição para ação incluindo motivação, energia intuição e dedicação. A especialidade do gerente deve ser a de resolver problemas. Sua aptidão técnica é o alicerce de sua atuação, mas suas habilidades de relacionamento são fundamentais para seu desempenho. Ele exerce um papel tanto gerencial, quanto técnico, sendo suas habilidades interpessoais tão relevantes quanto seus conhecimentos técnicos. Dentre as habilidades interpessoais mais requeridas de um gerente de obra podemos citar a pró- atividade, a gestão de conflitos, a capacidade de integrar, a comunicação e a liderança. O proativo pode ser definido como a pessoa com ousadia e motivação independente do ambiente que o circunda, assumindo a responsabilidade por si mesmo, tomando sempre a iniciativa e assumindo suas responsabilidades. Não se acomoda facilmente, buscando sempre novas oportunidades. Percebe facilmente problemas e antecipa- se para enfrentá-los, mesmo seguindo padrões coorporativos, encontra maneiras para inovar. Persevera no planejamento traçado, não desistindo facilmente. A habilidade de gerenciar conflitos envolve negociação e influência, buscando se chegar a um acordo e influenciar seus interlocutores. O gerente deve ser em sua essência um integrador. Ele deve ser capaz de integrar e conciliar todos os interesses e expectativas conflitantes que possam surgir entre os diversos stakeholders, de forma aumentar as chances de sucesso do empreendimento. O gerente do empreendimento deve ser um exímio comunicador e, através de um processo claro, aberto e transparente, deve incentivar à troca de ideias e opiniões entre todos os membros da equipe. A habilidade de comunicação do gerente, seja oral, seja escrita, assegura que as informações serão explicitas, claras e completas, de modo que todos possam entender. O estilo de liderança pode ser um fator crítico de sucesso para o empreendimento. Para cada tipo de empreendimento existem diferentes tipos de gerentes, com capacidade para diferentes níveis de complexidade. A competência do gerente influencia diretamente no sucesso ou fracasso de um empreendimento. Obras com grandes interferências com comunidade, órgãos públicos necessitam com gerentes mais conciliadores e com boas habilidades em negociação e gerenciamento de conflitos.Obras cujo prazo é determinante e desafiador precisa de gerentes pragmáticos e focados. Obras com novas tecnologias para a empresa precisam e gerentes analíticos, criativos e comprometidos; Os gerentes devem desenvolver a habilidade de identificar, construir, manter, motivar, liderar e inspirar suas equipes de forma a obter um desempenho diferenciado que o permita atingir os objetivos do empreendimento. A motivação deve ser constante, o ambiente deve ser adequado e desafiante. O feedback fornecido e apoio necessário, reconhecendo e recompensando o bom desempenho. Uma equipe de alto desempenho demanda comunicação franca e eficaz, com confiança entre os membros da equipe, com os conflitos construtivamente administrados, e com estimulo à solução de problemas e tomadas de decisão compartilhadas. Todas as pessoas melhorando o sistema: expondo os problemas e resolvendo-os rapidamente. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 139 • Devido sua importância, o tema gerente do empreendimento é alvo de estudo constante. Um dos estudos mais difundidos é o olho de competências proposto pelo IPMA que representa a integração de todos os elementos do gerenciamento do empreendimento, como visto pelos olhos do gerente, quando analisando uma situação específica (Figura 102). Figura 102 – Olho de competência IPMA. 4.7.3. Desenvolver recursos humanos Desenvolver a equipe do empreendimento é o processo que busca a melhoria de competências da equipe, de forma a aprimorar o resultado do empreendimento. O foco deve ser mantido nas pessoas e na dinâmica das suas interações, criando um ambiente favorável ao seu desenvolvimento, ao invés de focar apenas requisitos e processos. Educar passa a ser a meta do processo de capacitação, ao invés de ensinar. É preciso comparar o nível de proficiência do profissional com o nível requerido para a função, identificando as lacunas e preparando um plano de desenvolvimento. É preciso ter foco na melhoria da aptidão dos profissionais. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 140 • 4.7.4. Gerenciar recursos humanos Gerenciar pessoas é gerenciar conflitos e, o ambiente da construção civil, é um terreno fértil para sua proliferação, de todos os tipos. Gerenciar os conflitos garantindo que a equipe continue a obter resultados deve ser o objetivo do gerente. O conflito nada mais é que discordância entre indivíduos, podendo ser de vários níveis, desde de um leve atrito a um confronto direto. Onde existe interação entre pessoas, há potencial de conflito. Pessoas com diversos níveis de tipos de formação, tomando decisões a buscando objetivos conjuntamente, sob pressão de prazo, custo e qualidade, raramente não provoca conflitos. É portanto, absolutamente normal que os conflitos ocorram e é por isto que o gerente deve estar preparado para lidar com eles. Embora inevitável, o conflito não pode assumir um papel destrutivo na equipe. É responsabilidade do gerente identificar, avaliar, e administrar, de forma positiva, os conflitos e seus efeitos sobre os objetivos do empreendimento. Gerenciar conflitos exige escutar, colocar-se no lugar do outro, respeitar a individualidade de cada um. São potenciais fontes de conflitos as prioridades, procedimentos internos, opiniões técnicas, custos, agendas, conflitos pessoais em geral, papéis ambíguos, autoridade e responsabilidades mal definidos, sobrepostos ou insuficientes, conflitos de objetivos, problemas de comunicação, precedências, comportamentos reativos, entre muitos outros. O nível de conflito interno também pode variar em função do estágio e do nível de pressão do empreendimento. Obras próximas da data de conclusão ou sob forte pressão de custo e prazo tendem a ter maior quantidade e intensidade de conflitos. Para se obter resultados excepcionais, devemos buscar gerenciar os conflitos, não eliminá-los. Conflitos são úteis para melhorar o desempenho da equipe. Muita harmonia e tranquilidade pode tornar o empreendimento apático e estagnado, sem muita criatividade. Um certo nível de conflito é necessário para manter o ambiente com autocritica, criativo e inovador. Uma consequência direta do conflito é o estresse, que é a percepção de uma ameaça que excita, alerta e ativa o organismo. Cada profissional possui uma tolerância ao estresse. O excesso dele leva à falta de cooperação mútua e conflitos com conotação pessoal e hostilidades, além de inibir a comunicação de informações relevantes. No entanto, em níveis adequados, o estresse melhora o desempenho da equipe e, por isto, é preciso aprender a estimula-lo, de forma construtiva e em níveis adequados. 4.8 Gestão do Stakeholders Podemos definir stakeholder como um indivíduo, grupo ou organização que pode afetar, ser afetado ou sentir- se afetado por uma decisão, atividade ou resultado do empreendimento. Gerenciar stakeholders é um fator crítico de sucesso para qualquer empreendimento. Não é raro encontrar empreendimentos de construção civil embargados, paralisados ou com seus objetivos comprometidos por um stakeholder que não foi devidamente identificado, avaliado e gerenciado. Podemos citar como exemplo um empreendimento que adota um processo construtivo que impacta a operação de alguma empresa vizinha e por este motivo tem seu empreendimento paralisado até que o método construtivo adequado seja encontrado. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 141 • As empresas precisam entender que o fato de serem proprietárias de um terreno, não as permite fazer nele um empreendimento, sem levar em consideração os impactos em toda comunidade ao redor e nos demais envolvidos na sua construção. É preciso ouvir a todos e definir ações para atender aos seus interesses legítimos. Observa-se hoje um aumento do poder relativo dos stakeholders de uma forma geral e, em especial, da sociedade organizada, que nos leva a negociar todo o tempo, sob o risco de termos nossos empreendimentos paralisados ou seus objetivos impactados negativamente. A internet e as redes sociais aumentaram muito a capacidade de mobilização e associação de stakeholders, exigindo das empresas um grande esforço para gerenciar os possíveis impactos ao empreendimento e até mesmo à sua marca. A única estratégia possível é a gestão proativa destes stakeholders. O processo de gestão de stakeholders busca identificar todas as pessoas, grupo ou organizações que podem impactar ou ser impactados pelo empreendimento, analisar suas expectativas e impactos no empreendimento e desenvolver estratégias adequadas para controlar ou influenciar seus impactos no resultado do empreendimento. Precisamos entender que stakeholder são pessoas ou grupos, com sentimentos, percepções, desejo e poder de influência. Alguns o apoiarão, enquanto outros se oporão. Alguns serão beneficiados, e outros perderão. Uns verão oportunidades onde outros verão ameaças. E outros ainda serão neutros, mas podem ser influenciados. Alguns serão a favor de mudanças e outros contrários. Mesmo que suas percepções estejam erradas, eles devem ser consultados. Lidar com expectativas de stakeholders é fundamental para o sucesso do empreendimento, uma vez que, sucesso pode significar coisas diferentes para cada um deles. Conhecer seus stakeholders é fundamental para definição da estratégia. Criar uma cultura de gerenciamento dos stakeholders é um potencial gerador de diferencial competitivo para a organização. Não importa em que etapa do desenvolvimento ou construção o empreendimento se encontra, a preocupação deverá ser sempre atender a expectativa de seus stakeholders. A gestão de stakeholders é realizada através da identificação de pessoas, ou organizações que podem impactar ou ser impactadas pelo empreendimento, analisando e documentando todos seus requisitos, interesses, influência, importância e expectativas, desenvolvendo estratégias apropriadas para garantir que serão atendidos e que o projeto não será impactado negativamente, abordando as questões na medida em aparecem,atendendo suas necessidades e expectativas, ajustando as estratégias na medida em que o projeto avança. Devemos identifica- los sistematicamente pois novos stakeholders e requisitos surgem em cada nova fase do empreendimento. Devemos comunicarmos com eles, de forma a mantê-los informados e gerenciar sua influência nos resultados do empreendimento. É necessário um processo contínuo de análise e ação (Figura 103). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 142 • STAKEHOLDERS Identificar as partes interessadas STAKEHOLDERS Planejar partes interessadas STAKEHOLDERS Gerenciar as partes interessadas ESCOPO Coletar os requisitos RISCO Identificar os riscos QUALIDADE Planejar a qualidade SUPRIMENTOS Planejar suprimentos SAÚDE E SAÚDE E SEGURANÇA Plano de Segurança MEIO AMBIENTE Plano de gestão Ambiental Figura 103 – Processos de gestão de stakeholders 4.8.1. Identificar Stakeholders Primeiro devemos identificar quem são os stakeholders, agrupando-os por semelhança. É fundamental que os stakeholders sejam identificados logo no início do empreendimento. Quanto mais cedo, melhor. Devemos procurar stakeholders tanto internamente na empresa, quanto externamente. Podemos citar como por exemplos de stakeholders: funcionários, fornecedores, acionistas, usuários, projetistas, clientes, concorrentes, sindicatos, contratados e subcontratados, competidores, instituições financeiras, investidores, órgãos governamentais, comunidade local, associações, entre outros (Figura 104). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 143 • Figura 104 – Tipos de stakeholders. Os stakeholders identificados devem ser registrados e organizados em grupos para que sejam posteriormente avaliados. Normalmente são utilizadas planilhas para este registro (Figura 105). Figura 105 – Planilha de registro de stakeholders. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 144 • 4.8.2. Planejar a gestão dos stakeholders Uma vez identificados os stakeholders, é preciso identificar da sua influência e em relação ao empreendimento, ou seja, identificar qual seu potencial de afetar o sucesso do empreendimento nos campos comercial, social, financeiro, político e jurídico. Então será possível definir a melhor estratégia para obter seu engajamento, definindo quais informações cada ele necessita, qual a frequência de comunicação é adequada, qual o meio e quem será o comunicador mais indicado para obter sua confiança e respeito. O principal benefício deste processo é permitir que o gerente dê o direcionamento apropriado para cada stakeholder. O interesse é a medida do quanto o stakeholder se mostra efetivamente comprometido com os objetivos do empreendimento. Já a influência é a medida do quanto o stakeholder pode interferir efetivamente no andamento do empreendimento. Também é importante entender que alguns stakeholders tem a capacidade de mobilizar outros, é o caso de sindicatos, que podem mobilizar funcionários, órgãos governamentais e a comunidade em geral, potencializando seu impacto sobre o empreendimento. Alguns stakeholders também podem se associar em torno de interesses comuns, obtendo legitimidade ou poder com esta união. Precisamos avaliar todos os stakeholder e, principalmente os que estão contra o empreendimento. Negligenciar os stakeholders negativos pode aumentar a chances de sermos surpreendidos por algum requisito. É preciso envolver os stakeholders certos nas etapas e momentos apropriados, para se obter o melhor resultado. Cada stakeholder têm o melhor momento para contribuir. Figura 106 – Influência de stakeholders x custo de mudanças. O poder de influência dos stakeholders é maior no início do empreendimento e decresce na medida em que o empreendimento avança. Da mesma forma, os custos de qualquer mudança necessária são menores no início do empreendimento, aumentando na medida em que o empreendimento se aproxima do seu final (Figura 106). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 145 • Um requisito identificado tardiamente, como um requisito legal por exemplo, pode causar grandes transtornos e até mesmo inviabilizar um empreendimento. Somente os stakeholders podem definir o que é valor para eles. Os stakeholders devem ser classificados de forma que a equipe se concentre naqueles que são mais importantes para o resultado do empreendimento. Podemos classifica-los de várias formas diferentes. Uma das mais usuais é classifica-los em função do seu interesse sobre o empreendimento e seu poder de impactar os resultados, negativa ou positivamente (Figura 107). Em função de sua classificação, os stakeholders poderão ser envolvidos nas decisões do empreendimento, poderão ser monitorados de perto pela equipe do empreendimento, poderão ser comunicados periodicamente ou simplesmente não acompanhados. Manter Satisfeito Gerenciamento defensivo Monitorar (esforço mínimo) Manter informado PO DE R INTERESSE Alto Alto Baixo Baixo Figura 107 – Matriz de poder x interesse. Uma vez definidos quais stakeholders serão gerenciados, devemos buscar entender e registrar seus anseios, interesses, requisitos, premissas, restrições e expectativas com o empreendimento (Figura 108). É preciso entender o que o sucesso do empreendimento significa para eles, avaliar seus interesses no projeto, documentar suas necessidades, desejos e expectativas e planejar respostas que ampliem sua cooperação para o sucesso do empreendimento. É preciso registrar tudo, pois as pessoas não são consistentes e, mudam sua opinião e seu apoio. Precisamos identificar o mais cedo possível as necessidades e requisitos dos stakeholders de forma que seu atendimento seja o menos oneroso possível para o empreendimento. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 146 • Figura 108 – Exemplo de formulário de análise de stakeholder. É comum que ocorram conflitos entre os interesses e requisitos dos stakeholders, tendendo a se multiplicar na medida em que se aumenta o número de stakeholders. É preciso que a equipe do projeto busque balancear os interesses e negociar concessões. Não sendo possível atender a interesses conflitantes, a equipe deve deixar bem claro quais requisitos serão atendidos, quais não serão. Todos os requisitos que serão atendidos devem ser registrados na matriz de rastreabilidade de requisitos abordada no capítulo 4.2.1 – Coleta de requisitos, para que sejam considerados no planejamento. Uma vez identificados os requisitos, podemos definir a estratégia mais eficaz para cada um. Podem ser estratégias individualizadas ou diretrizes para o empreendimento como um todo que atenderão a vários stakeholders. Precisamos entender como provavelmente reagirão ou responderão às diversas situações de forma a buscar influenciá-los para aumentar seu apoio ou mitigar os impactos negativos. As melhores estratégias são as que buscam aproximar os stakeholders, promovendo um relacionamento construtivo e algumas vezes até mesmo compensando impactos negativos inevitáveis. Um bom exemplo é a criação de benfeitorias, espaços de convivência, e até mesmo serviços que melhorem as condições do entorno do empreendimento, compensando a comunidade próxima dos inevitáveis inconvenientes como poeira, ruído e trânsito. Ações como estas criam uma boa vontade que facilita as futuras negociações com a comunidade (Figura 109). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 147 • Figura 109 – Exemplos de estratégias de relacionamento com stakeholders. Definida a estratégia é preciso definir os papeis e responsabilidade dos membros da equipe que acompanhará cada stakeholder, avaliando as respectivas habilidades necessárias. 4.8.3. Gerenciar Stakeholders Uma vez definida a estratégia a ser adotada para cada stakeholder e seus respectivos responsáveis, é hora de implantá-la. Gerenciar stakeholders significa mais do que melhorar a comunicação, envolve criar relacionamentos com eles, com o objetivo de atender suas necessidades e requisitos, esclarecendo e solucionando suas questões, buscando aumentar o apoio, reduzindosua resistência, gerenciando suas expectativas através da negociação e comunicação, sempre buscando preservar os objetivos do empreendimento. É importante promover interações frequentes pois trata-se de uma relação dinâmica uma vez que, na medida em que o empreendimento avança, os stakeholders, seu nível de envolvimento, interesse, importância também mudam. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 148 • 4.9 Gestão do Risco O planejamento para o sucesso também envolve a preparação para as possibilidades de fracasso. Precisamos avaliar o que pode dar errado durante todo o ciclo de vida do empreendimento e incluir em nosso planejamento ações para evitar que ocorra. Fazemos isto através do gerenciamento de riscos. Gerenciar riscos é identificar, avaliar e controlar os riscos com o objetivo de aumentar as chances de sucesso. Um risco pode ser definido como um evento ou condição incerta, futura, que, se ocorrer, poderá ter um efeito positivo ou negativo sobre um ou mais objetivos do projeto. Suas causas podem ser múltiplas (requisitos, premissas, restrições, etc.), impactando em um ou em vários objetivos ao mesmo tempo (custo, prazo, qualidade, escopo, etc.). O risco só importa para o empreendimento se impactar seus objetivos, caso contrário deve ser descartado. O gerenciamento de risco deve ser um dos principais focos de atenção de gerentes sêniores buscando elimina-los, transferi-los ou mitiga-los. O gerenciamento de riscos é um conceito relativamente novo na construção civil. É um processo que estimula a arte de pensar e agir preventivamente. Sua introdução contribui muito para aumentar as chances de sucesso dos empreendimentos. Trata-se da sistematização e formalização da chamada pró-atividade, que tanto buscamos em nossos gestores. Sua maior contribuição é a redução do gerenciamento por crise, mais conhecido como “apagação de incêndio”, tão comum nos canteiros de obra. Outras contribuições são a maior estabilidade e previsibilidade no planejamento e a redução de perdas. O gerenciamento de riscos pode ser considerado um fator crítico de sucesso para um empreendimento, uma vez que chama a atenção para as incertezas que realmente importam, estimula a comunicação preventiva com os stakeholders e foca a atenção da equipe no resultado final. O esforço sistemático de olhar para fora e identificar riscos e oportunidades, torna-se um divisor de águas entre o desempenho comum e o diferencial competitivo duradouro. Todo empreendimento, por definição, envolve necessariamente certo grau de risco. Sempre que olharmos para o futuro teremos que lidar com incertezas. O risco está associado a eventos probabilísticos e não determinísticos, ou seja, todo risco tem uma probabilidade de ocorrência, que não é zero, se não, não existiria, e não é 100% se não, seria certeza e não risco. Nos estágios iniciais de um empreendimento o nível de exposição ao risco é máximo mas as informações dos riscos do empreendimento são mínimas. Quanto antes os riscos forem identificados, mais realistas serão os planos e expectativas de resultados e menores serão os custos envolvidos. Apesar de relacionados, risco e incerteza não são a mesma coisa. Incerteza é o desconhecido e risco é o que pode dar errado. Assim riscos podem ser provenientes de complexidade, prazo, escassez de recursos, competência, entre outros e permitem sua identificação, análise e planejamento de respostas. Já as incertezas se materializam provocando mudanças no planejamento. A incerteza não está no presente nem no passado, está no futuro. A premissa é controlar as incertezas do empreendimento durante toda sua execução. De uma forma geral, nunca paramos de forma concreta para pensar sobre as incertezas. Entre as variáveis mais importantes que influenciam o nível de incerteza podemos citar a adequada definição do escopo, a familiaridade com as tecnologias utilizadas, o conhecimento da região, fornecedores e vizinhança, entre outros (Figura 110). Quanto maior o nível de incerteza, mais robustas devem ser as abordagens e técnicas de gerenciamento de risco utilizadas. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 149 • Figura 110 – Escala de incerteza A gestão de riscos deve se iniciar bem cedo na gestão do empreendimento, de preferência na sua fase de concepção, quando o apetite por correr riscos é levado em consideração na hora de aceitar as oportunidades, mediante análise de viabilidade técnica, viabilidade econômica e dos riscos atrelados a cada alternativa. Em seguida, durante o desenvolvimento dos projetos, uma massa crítica de dados e riscos é reunida, analisada, priorizada e respondida preventiva ou reativamente. As respostas adotadas geram necessidade de recursos ou prazos adicionais, que serão incorporados na linha de base de desempenho. O gerenciamento de riscos é um processo coletivo, uma vez que risco é uma questão de percepção e está fortemente influenciado por paradigmas, preconceitos, formação, experiência, ou seja, pessoas diferentes tomam diferentes decisões com base nas mesmas informações. Quanto melhores forem as informações, melhores serão as decisões, por isto, devem ser envolvidos tanto a equipe do empreendimento, quanto os principais stakeholders. Fatores como complexidade, mudanças, premissas, restrições, dependências, unicidade introduzem riscos no empreendimento exigindo uma abordagem estruturada para seu gerenciamento. As principais áreas de conhecimento nas quais devemos avaliar os impactos de um risco e consequentemente a tolerância dos stakeholders são: custo, prazo, suprimentos, satisfação do cliente, qualidade, recursos humanos, segurança do trabalho e escopo. Tolerância a riscos são normalmente expressadas em restrições. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 150 • RISCO Identificar os riscos RISCO Realizar análise qualitativa de riscos RISCO Planejar respostas a riscos RISCO Monitorar e controlar riscos QUALIDADE Planejar a qualidade SUPRIMENTOS Planejar suprimentos RECURSOS HUMANOS Planejar a equipe CUSTO Orçamento Executivo TEMPO Cronograma Executivo SAÚDE E SAÚDE E SEGURANÇA Planejar a saúde e segurança MEIO AMBIENTE Plano de gestão Ambiental TEMPO Estimar os recursos das atividades STAKEHOLDERS Planejar partes interessadas PROJETOS Plano de ataque PROJETOS Projeto à Produção PROJETOS Projetos Executivos ESCOPO Criar EAP Figura 111 – Processos de gestão de riscos. O gerenciamento dos riscos tem como objetivo maximizar os eventos positivos e minimizar os impactos negativos. Para isto são previstos processos de planejamento, identificação, análise, planejamento de respostas, monitoramento e controle dos riscos do empreendimento (Figura 111). Estes processos interagem entre si e com outras áreas de conhecimento e na prática eles até se sobrepõem. 4.9.1. Identificar riscos O processo de gerenciamento de riscos inicia com a identificação de quais são os riscos existentes, uma vez que somente riscos conhecidos podem ser adequadamente tratados. Os riscos podem estar relacionados ao produto, à equipe, ao trabalho do projeto, aos fornecedores, fatores externos, à tecnologia utilizada, novos mercados, novas tecnologias, novos processos, metas de desempenho pouco realistas, entre outros. Cada item do escopo, cada atividade do cronograma, cada empreiteiro e cada funcionário é uma fonte potencial de riscos. Contribui para identificação dos riscos a experiência dos profissionais, a maturidade e cultura da organização, a muldisciplinaridade da equipe, entre outros. Um bom ponto de partida é utilizar uma lista de riscos possíveis, ordenados e caracterizados, de forma a fomentar a imaginação dos participantes (Figura 112Figura 112 – Tipos de riscos.). É bom deixar claro que identificar riscos não é um método de adivinhação, e sim um exercício de análise. O uso de categorias melhora o processo de identificação de risco, facilita a busca por informações históricas e estabelece uma linguagemcom os envolvidos. A utilização de listas de riscos tem a vantagem de dar um senso rápido do nível do risco, permitir uma identificação rápida, ajuda na conversa geral sobre riscos, entretanto não dá detalhes suficientes do risco, suas causas e efeitos, é dá uma falsa sensação de segurança de que todos os riscos foram descobertos. As listas são elementos instigadores da reflexão para a identificação de riscos. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 151 • Figura 112 – Tipos de riscos. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 152 • Trata-se de um processo interativo, passando por constantes renovações, onde fornecedores, projetistas, consultores, e especialistas são excelentes fontes para ajudar na identificação de riscos, principalmente pela quantidade e variedade de empreendimentos que participam. Este processo pode ocorrer em qualquer momento no ciclo de vida do empreendimento. A utilização de técnicas como o brainstorm também contribui para um bom levantamento. Os riscos podem ser identificados em vários outros processos na gestão do empreendimento, como por exemplo, durante a elaboração dos projetos, na execução de protótipos e na análise de construtibilidade, que será abordada no capitulo 5.1., na coleta de requisitos e definição do escopo, durante a estimativa de recurso e duração, durante o planejamento dos stakeholder e do suprimentos, entre outros. É bom lembrar que uma fonte intrínseca de risco são as premissas, devido ao seu caráter inexato, inconsistente ou incompleto, uma vez que são coisas tidas como verdadeiras, durante o planejamento do empreendimento. Por isto é essencial revisar e verificar periodicamente se ainda continuam válidas no decorrer do empreendimento. O simples fato de se identificar e mapear os riscos já promove a geração de valiosas informações para o planejamento. A ocorrência de falhas ou omissões na identificação e análises dos riscos pode levar à elaboração de um planejamento irrealista e consequentemente a uma execução deficiente. A identificação de riscos deve garantir que todos os riscos estejam no formato causa-risco-efeito afim de facilitar a proposição das ações. É bom lembrar que atuamos na causa e não no efeito 4.9.2. Realizar análise dos riscos Uma vez identificados, os riscos devem ser analisados em relação à sua probabilidade de ocorrências e ao impacto potencial nos objetivos do empreendimento, tendo em vista que recursos são limitados e não a como tratar todos com o mesmo grau de atenção. É preciso priorizar e identificar as piores ameaças e as melhores oportunidades (Figura 113). É importante estar atento, pois este impacto pode mudar no decorrer do empreendimento. A pergunta a responder é: Quais riscos necessitam de tratamento imediatamente e quais riscos não trataremos por absoluta falta de recursos? Principais riscos a ser gerenciados Riscos de gerencia mento Riscos técnicos Riscos comerci ais Critérios de seleção e priorização Figura 113 – Priorização de riscos. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 153 • As análises podem ser quantitativas ou qualitativas. No caso da análise pelo método quantitativo, utiliza as metodologias complexas para atribuir valores e probabilidades estatísticas aos riscos. Apesar de sua maior precisão e confiabilidade, a análise quantitativa não é aderente à realidade dos canteiros de obra ou de seu modelo de gestão, onde o senso de urgência e a pressão imperam. O método quantitativo pode sim, ser utilizado com bastante eficácia durante o processo de business case, avaliando a sensibilidade da viabilidade em função das incertezas e variações de mercado. Esta análise de sensibilidade consiste em variar um elemento, mantendo os demais fixos, de forma a, determinar seu efeito nos objetivos do empreendimento. Por exemplo, varia-se a velocidade de venda, mantendo fixos os custos, o prazo de execução, o preço de venda e o custo de capital de forma a verificar como se comporta taxa de retorno. É uma maneira de quantificar e priorizar o potencial de cada risco. Já na análise qualitativa, os riscos são avaliados através de escalas subjetivas de probabilidade e impacto (Figura 114). 3 2 9 9 6 66 6 3 33 4 4 2 2 2 1 1P ro ba bi lid ad e P robabilidade Impacto Negativo Impacto Positivo 1 1 11 2 2 2 2 33 3 3 Figura 114 – Matriz espelho Probabilidade-Impacto para Ameaças e Oportunidade – Fonte: Dinsmore 2009. A análise de probabilidade de ocorrência de cada risco procura definir as chances do mesmo se materializar e impactar o empreendimento. Normalmente, são classificados em baixa, média e alta probabilidade de ocorrência. De outra forma, a análise dos impactos potenciais sobre os objetivos do empreendimento, varia de objetivo para objetivo. Normalmente os impactos estão associados aos objetivos de custo, prazo, segurança do trabalho, qualidade e escopo, ou uma combinação de vários. Para facilitar a avaliação qualitativa dos impactos, definem- se premissas para cada objetivo do empreendimento (Figura 115). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 154 • Figura 115 – Exemplo de premissas de avaliação qualitativa de riscos. Os riscos identificados, sua classificação, sua descrição, sua avaliação qualitativa de impactos nos objetivos do empreendimento, sua probabilidade de ocorrência e seu status são registrados em uma matriz específica, para facilitar o processo de planejamento e gestão dos mesmos (Figura 116). Figura 116 – Matriz de análise de riscos. Os riscos podem ainda interagir entre si de forma inesperada e causar efeitos múltiplos. Frequentemente é difícil identificar a relação ou dependência entre riscos, que possam potencializar seus efeitos. O fato é que estes interagem, tornando uns mais prováveis e potencializando os impactos de outros. Sendo assim, apesar de serem identificados individualmente, também precisamos analisar seu efeito combinado. Outros fatores que também podem ser considerados na análise dos riscos é sua urgência, ou seja, proximidade de ocorrência, e sua gerenciabilidade, ou seja, se é possível ou não gerencia-lo. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 155 • Apesar de todo o esforço para identificação antecipada dos riscos, alguns ocorrerão de forma inesperada durante a evolução do empreendimento. Neste caso, somente reservas de contingência podem proteger os empreendimentos, pois não há como trata-los. É bom ressaltar que cada empresa ou cada gestor tem um “apetite para riscos”, em outras palavras, uma tolerância a riscos, ou ainda, aceita um nível de exposição a riscos. Esta característica faz toda a diferença na avaliação em que riscos agir fortemente. Os stakeholders estão dispostos a correr risco porque esperam que os benefícios podem superar as possíveis perdas, caso contrário, ele será evitado. As respostas aos riscos refletem o equilíbrio da organização entre assumi-los e evitá-los. O sucesso será obtido através de uma escolha consciente afim de identificar ativamente e buscar o gerenciamento eficaz dos riscos durante todo o projeto. 4.9.3. Planejar respostas aos riscos O planejamento de respostas aos riscos envolve definir como, quando e com que frequência agir, bem como os responsáveis pela ação. A resposta deve ser adequada a cada risco e consensada com todos envolvidos mas, de responsabilidade de um único profissional. Muitas vezes é necessário escolher a melhor resposta entre várias opções. As estratégias para atuar sobre os riscos são variadas: Podemos prevenir ou explorar um risco: neste caso o objetivo é eliminar o risco no caso de riscos negativos ou fazer com que ele realmente aconteça no caso de riscos positivos, atuando em suas causas. A prevenção acontece antes do risco ocorrer e tem como alvo alterar o planejamento para eliminar sua causa raiz. É uma estratégia mais efetiva nos estágios iniciais de um empreendimento, no entanto, o uso demasiado desta estratégia, leva o empreendimento a uma posição muito conservadora, fazendo com que a construtora eviteutilizar novas tecnologias, explore outras praças, etc. Significa tentar levar o risco a zero. Podemos transferir ou compartilhar um risco: neste caso o ônus é transferido para outro, juntamente com a responsabilidade por sua gestão. Sendo positivo, a possível recompensa é transferida em troca de assumir sua gestão. Na prática, a transferência não elimina o risco, apenas o transfere de responsabilidade. Sua probabilidade continua a mesma, bem como seus impactos potenciais, somente não impactarão os objetivos do empreendimento. Um exemplo claro é a contratação de um seguro. No caso do sinistro ocorrer, a seguradora arcará com os custos financeiros ocorridos, não impactando o empreendimento. Outra forma de transferência ou compartilhamento de riscos é a subcontratação. Neste caso o risco de improdutividade, entre outros, é compartilhado com a empresa contratada, conforme abordado no capítulo (4.5). Podemos mitigar ou melhorar um risco: Neste caso, o objetivo é reduzir seu impacto ou a probabilidade de ocorrência de um risco negativo e, analogamente para os riscos positivos, aumentar a probabilidade de ocorrência ou seus benefícios potenciais. Estratégias usuais de mitigação de riscos, também associadas à gestão técnica do empreendimento é a realização de ensaios tecnológicos. E, finalmente, podemos simplesmente aceitar, assumindo que nada será feito a respeito, ou por que nada é possível, ou porque as consequências são aceitáveis, devido à sua baixa probabilidade e impactos. Podemos entretanto, preparar um plano de contingenciamento, de forma a combater as consequências, caso o risco venha a ocorrer. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 156 • As ações de contingenciamento são planejadas agora, mas só serão executadas no momento em que o risco ocorrer, ou seja, será tratado de forma reativa. Um exemplo de contingenciamento é a disponibilização de equipamentos reserva para o caso de defeitos. É preciso tomar cuidado com a chamada “paralisia da análise”, onde se analisa muito e age pouco. É fundamental que, uma vez escolhida a estratégia, as ações sejam tomadas, caso contrário nada muda. As ações devem compor o planejamento executivo do empreendimento e os planos de ação. É em sua implantação que a gestão de risco faz realmente a diferença no desempenho do empreendimento. É preciso comunicar a todos os envolvidos quais os riscos e ações estão sendo tomadas. Também precisamos ter a consciência de que jamais conseguiremos eliminar todos os riscos de um empreendimento, por isto precisamos focar na gestão dos riscos de alta criticidade, de forma a não tornar sua gestão muito pesada e onerosa, roubando recursos do empreendimento sem proporcionar ganho efetivos. 4.9.4. Monitorar e controlar os riscos Os riscos surgem em vários momentos ou mudam no decorrer do projeto sendo necessário monitorá-los. Os riscos devem ser continuamente identificados e revisados periodicamente. Sempre que um evento arriscado se aproxima é hora de reavaliar o planejamento. Uma prática salutar é inserir sua análise em reuniões mensais, denominadas de comitê de gestão, que será melhor apresentado no capitulo 4.10 Gestão da Comunicação. 4.10 Gestão da Comunicação Podemos dizer que a construção civil é um processo social, onde a troca de informações, ou seja, a comunicação, é capaz de promover a compreensão mútua e levar a resultados extraordinários. Sendo assim, os processos de comunicação não podem ser relegados ao acaso ou ao improviso. O processo de comunicação é o principal recurso utilizado para gerenciar o relacionamento com os stakeholders, tanto internos, quanto externos. Os gestores precisam interagir com públicos variados e, a comunicação, é um processo e uma habilidade que precisam ser desenvolvidos através da prática e do aprimoramento contínuo. Para se comunicar é preciso cuidados especiais como: definir exatamente que tipo de informação deve ser enviada a cada stakeholder, utilizar um estilo claro, evitar uso de termos técnicos em excesso, realizar a preparação antecipadamente, não omitir com distorções ou falsas interpretações, considerar a influência de estruturas de poder e aspectos políticos, entre outros. Em muitos casos, os conflitos surgem não pelo problema em si, mas por falhas na comunicação. Também é bom deixar claro que comunicação é diferente de poluição, ou seja, gerar informações em excesso causa mais dano do que benefício. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 157 • Muitas são as barreiras que interferem e prejudicam o processo de comunicação, dificultando seu correto entendimento, tais como: a distribuição geográfica, expressões técnicas, despreparo, falta de conhecimento sobre o assunto, sobrecarga de informações, tecnologia não dominada, excesso de regras, procedimentos e cultura organizacional. Comportamentos hostis, ansiedade, desinteresse, omissão intencional, falta de atenção, preconceito também são barreiras. É preciso estar atento para o fato de que públicos diferentes possuem linguajares diferentes. A efetividade da comunicação também está associada à cultura da organização. É preciso encorajar as pessoas a trazerem as informações corretas, mesmo que elas sejam ruins, caso contrário, os gestores somente tomarão conhecimento dos problemas quando mais nada podem fazer. Deve-se criar uma cultura onde os profissionais que detectam problemas, ou reconhecem padrões de fracasso e os levam ao conhecimento dos superiores são reconhecidos e não repreendidos. Os processos de gestão da comunicação devem permitir a geração, coleta, distribuição, armazenamento, recuperação e disposição da informação, na forma e no prazo apropriado, sendo vital para o sucesso do empreendimento. A comunicação deve ser planejada, gerenciada e controlada (Figura 117). Atenção deve ser dada também a informações históricas relevantes e lições aprendidas de outros empreendimentos, viabilizando o aprendizado com o passado. O processo deve ser organizado e disciplinado, de forma a gerar informações relevantes, corretas, exatas, completas, no momento certo e a disposição das pessoas certas. Os sistemas de gestão da qualidade costumam estruturar muito bem estes processos. COMUNICAÇÕES Planejar a comunicação COMUNICAÇÕES Lições aprendidas COMUNICAÇÕES Controlar as comunicações COMUNICAÇÕES Gerenciar as comunicações STAKEHOLDERS Identificar as partes interessadas STAKEHOLDERS Gerenciar as partes interessadas INTEGRAÇÃO Realizar o controle integ. de mudanças Figura 117 – Processos de gestão da comunicação. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 158 • 4.10.1. Planejar a comunicação O processo de planejamento da comunicação identifica as necessidades de informações dos principais stakeholders e determina o nível de detalhe com que a mesma será levada até ele, com que frequência, o formato e quem serão os responsáveis por sua geração e envio, bem como seu controle e sua segurança. Quando se trata de informação sobre o desempenho do empreendimento, esta deve ser construída para atender aos vários públicos interessados no empreendimento e tomadores de decisão, em níveis variados de detalhamento adequado a cada nível de tomada de decisão, conforme apresentado no capítulo 4.1.12.4. Obter a informação certa no momento certo é fundamental para se tomar decisões acertadas. Vários podem ser os canais de comunicação como: quadros de gestão a vista, e-mails, relatórios escritos, repositórios de documentos compartilhado, ambientes colaborativos, workflows para tratativa de questões e muitos outros. O quadro de gestão a vista é uma das ferramentas mais eficientes para incentivar a participação de todos. São adequados para a comunicação de indicadores de desempenho; para externar os problemas da operação, permitindo que sejam tratados; e para garantir que os tomadores de decisão tenham acesso imediato às informações. A divulgação e visualização da informação aumenta a transparência do processo de gestão,melhorando a qualidade das decisões e a habilidade para descobrir e corrigir problemas antes estes afetem a produção. Os relatórios escritos são mais indicados para a comunicação formal com stakeholders externos e alta administração da empresa. Os ambientes colaborativos são excelentes ferramentas para proporcionar comunicação adequada entre os diversos projetistas, durante o desenvolvimento dos projetos. Workflows são excelentes ferramentas para organizar solicitações de mudança e solicitações de esclarecimento aos projetistas, permitindo registrar os pareceres e acompanhar seu tempo de atendimento. Entretanto, apesar de toda a disponibilidade de tecnologia, o canal mais eficiente para a adequada comunicação na etapa de construção de um empreendimento de construção civil continua a ser a boa e velha reunião. Reuniões bem realizadas permitem a identificação de problemas potenciais, facilitam a tomada de decisão, melhoram o trabalho em equipe, a cooperação e colaboração. Estas têm a vantagem de integrar as pessoas e permitir a emissão de opiniões, a apresentação de ideias, a troca experiências fundamentais para a evolução do empreendimento e da construtora. Também permitem respostas rápidas, a busca do consenso e a resolução dos conflitos que possam surgir. Para realizar reuniões eficazes é preciso definir regras e diretrizes, quem são os participantes, qual a pauta, frequência, curta duração, e seus propósitos. Reunião sem pauta e cronograma é apenas um evento social. Os tipos de reunião mais usuais em empreendimentos são: * Reunião de kick-off, também chamada de pontapé inicial – tem como objetivo comunicar a todos o início de um empreendimento. É realizada uma única vez e envolve todas as áreas. * Reuniões de acompanhamento – são reuniões para avaliar o andamento dos serviços e das ações planejadas, status dos principais marcos, apresentação de fatos relevantes, incidências problemáticas, mudanças de escopo e riscos. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 159 • Podem ser realizadas nos ciclos de curto, médio e longo prazo. Algumas empresas criam práticas específicas para tornar as reuniões mais rápidas e objetivas, como realiza-las com as pessoas de pé. * Reuniões de encerramento e lições aprendidas – são reuniões para comunicar a conclusão de um empreendimento e garantir o aprendizado contínuo da organização. A criação de um calendário para o empreendimento, definindo as rotinas de reuniões e análises é fundamental para garantir que os ciclos de gestão se fechem. As reuniões de produção precisam ocorrer antes das reuniões gerenciais e estas antes das táticas (Figura 118 – Exemplo de calendário de reuniões.). Figura 118 – Exemplo de calendário de reuniões. No modelo de gestão proposto, o ciclo de curto prazo de gestão é suportado pelas reuniões de PSS, ou programação semanal de serviço, conforme descrito no capítulo 3.1.3. Nestas reuniões são analisados o desempenho da última semana, as metas de produção para a próxima semana e as ações que devem ser tomadas para correção de rumo. O foco principal é utilizar da melhor forma os recursos disponíveis no canteiro para cumprir as tarefas programadas. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 160 • As reuniões de acompanhamento em nível tático, descrito no capítulo 3.1.2, são chamadas de reunião do comitê de gestão. O período de foco das análises é de 90 dias, com o foco prioritário em colocar recursos e remover restrições. Nestas reuniões todas as áreas de conhecimento são repassadas, o desempenho avaliado e ações tomadas de forma a potencializar os resultados do empreendimento. As análises são orientadas ao desempenho, recursos e ambiente do empreendimento (Figura 119). O desempenho é analisado em relação ao prazo, custo, escopo e qualidade, entre outros. São avaliadas também as metas de desempenho para o próximo período e as estratégias para se recuperar desvios que porventura possam ter ocorrido. Uma vez definidas as metas, são avaliados os recursos necessários para o atingimento das metas lançadas, ou seja, temos mão de obra, projetos, equipamentos, fornecedores contratados e materiais para cumprir as metas? Em seguida é analisado o ambiente do empreendimento, onde são avaliados os riscos existentes, seu comportamento e tratativas, o relacionamento e ocorrência com stakeholders, o desempenho em segurança do trabalho, meio ambiente e os processos de gestão. Figura 119 – Perspectivas de análise do comitê de gestão. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 161 • As informações analisadas e as conclusões obtidas são registradas em uma ata específica, para que fiquem registradas e sirvam de histórico do empreendimento (Figura 120 e Figura 121). Esta ata também tem o papel de ser uma grande lista de verificação, estruturando e orientando a análise e a tomada de decisão. Todas as ações são inseridas em um plano de ação de forma a serem acompanhadas e monitoradas de forma a garantir sua implementação. Figura 120 – Estrutura da ata de comitê de gestão. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 162 • Figura 121 – Exemplo parcial da ata de comitê de gestão. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 163 • A periodicidade das reuniões de comitê é mensal, sendo o fórum é composto pelos responsáveis pelo planejamento e controle de custos e prazos, responsável pela segurança do trabalho, gestores do empreendimento em vários níveis como GGO, GO, técnicos, coordenador de projetos, responsável por suprimentos. Outros profissionais podem ser acionados para participar, dependendo das necessidades e da pauta, como projetistas, fornecedores ou outras áreas da empresa como recursos humanos, qualidade, meio ambiente, etc. A cultura e a indisciplina são importantes resistências comumente encontradas para implantação deste tipo de reunião. Via de regra, nossos gestores não têm muita paciência para analisar números e discutir antecipadamente problemas que por ventura possam ocorrer. A análise otimista ou simplista também impera neste tipo de reunião. A efetividade destas reuniões, com análises profundas e tomada de decisão aumenta a velocidade na tomada de decisão e reduz o tempo perdido por indefinições. As equipes também têm a tendência de esconder ou ignorar seus problemas fazendo com que os mesmos se tornem surpresa para a alta administração. Todos os desvios identificados que impactaram os objetivos do empreendimento devem ser registrados, descrevendo os fatos ocorridos que geraram o desvio, os impactos sofridos em cada objetivo e as ações tomadas para reverter o impacto e trazer o empreendimento de volta ao objetivo (Figura 122). A ações devem ser inseridas no plano de ação do empreendimento. Este registro é de grande valor para a melhoria contínua do sistema de gestão e para se analisar no final do empreendimento os resultados obtidos e lições aprendidas. Figura 122 – Registro de desvios. 4.10,2. Gerenciar a comunicação O processo de gerenciar a comunicação é a implantação dos canais de comunicação definidos no planejamento. Seu maior benefício é possibilitar o fluxo de informações eficiente e eficaz entre os stakeholders. 4.10.3. Controlar a comunicação Este processo objetiva monitorar e controlar a comunicação durante todo o ciclo de vida do empreendimento, afim de assegurar que as necessidades de informação das partes interessadas estão sendo atendidas, e que as necessidades de ajustes ou intervenção estão sendo identificadas. Havendo necessidade de maiores informações, relatórios adicionais devem ser desenvolvidos, de maneira que a informação contida possa ser utilizada na tomada de decisão. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 164 • As informações geradas devem ser confiáveis, objetivas e claras de forma a permitir uma visão clara do desempenho do empreendimento e dos problemas existentes, permitindo a correção de rumo. O progresso do empreendimento precisa ser informado para que seja controlado. Dentre os principais relatórios de progresso, o mais completoé a análise de valor agregado, apresentada no capitulo 4.4.3, pois relaciona custo, prazo e trabalho, substituindo a análise fragmentada e individuais das três variáveis por uma análise mais ampla e completa. Outro papel importante do controle da comunicação é o de garantir que todos os acordos sejam formalmente documentados. Apesar de canais informais serem ágeis e flexíveis, informações importantes, que impactam nos objetivos do empreendimento, devem ser formais. As atas devem conter as decisões tomadas e as ações acordadas. As notificações a fornecedores devem ser formais e documentadas, entre outros. 4.10.4. Lições aprendidas Toda empresa precisa aprender em cada etapa do trabalho executado e utilizar este conhecimento para geração de vantagem competitiva. A prova de que não aprendemos com nossos erros é que cometemos os mesmos erros, seguidamente, em vários empreendimentos. O processo de registro de lições aprendidas é importantíssimo para a melhoria contínua da organização mas, infelizmente, muitos consideram-no uma perda de tempo. Podemos definir lições aprendidas como o conhecimento gerado pela experiência do empreendimento, positiva ou negativa, sendo significante para a melhoria dos resultados futuros, ou em outras palavras, como o conhecimento adquirido a partir do sucesso ou fracasso da organização, com o objetivo de melhorar o desempenho futuro. Uma lição aprendida nasce de um desvio em relação ao planejamento. Pode ser uma premissa equivocada, uma ação de resposta a risco ineficientes, uma estratégia errada, um plano de ataque ou tecnologia ineficaz, etc. As lições aprendidas devem ser registradas durante todo o ciclo de vida do empreendimento, na medida em que as análises são realizadas e os desvios identificados. É importante a realização de uma reunião de lições aprendidas, no final do empreendimento, com a participação de todos os envolvidos, em todo o ciclo de vida do empreendimento, para discussão das lições aprendidas registradas e a identificação de outras mais. Desta reunião são propostas ações para que os erros não voltem a ocorrer. As ações tomadas podem ser revisão de projetos, a criação de novos padrões executivos, a adoção de novas tecnologias ou retorno a tecnologias menos inovadoras, entre outros. As informações são registradas em uma planilha específica, devendo ser úteis, relevantes, registradas de forma prática e compreensíveis por todos os envolvidos (Figura 123). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 165 • Figura 123 – Planilha de registro de lições aprendidas. 4.11 Gestão de Saúde e Segurança A segurança do trabalho sempre foi uma questão mal compreendida no contexto da construção civil. A predominância de uma visão legalista e conflituosa faz com que a segurança do trabalho seja tratada à parte do sistema de gestão da empresa, num segundo plano, de menor importância. A ruptura que existe entre os atos de projetar, planejar e produzir, e a execução da segurança, dá às suas iniciativas um caráter marginal, com ações paralelas e isoladas da produção, tornando-as inócuas e gerando conflitos e desperdício dentro do canteiro. A segurança do trabalho deve ser vista como parte integrante do negócio e, indissociável do processo produtivo, ou seja, não existe produção se não houver condições de segurança para sua execução. O sistema de gestão da segurança deve ser todo amarrado ao sistema produtivo e compatível com o negócio. Utilizar- se das mesmas ferramentas, procedimentos e programas voltados para a execução evita a duplicidade de procedimentos e documentos e torna-a indissociável dos processos. É preciso acabar com a falácia de que acidentes são fruto do acaso. Ao contrário, estes não ocorrem por acaso e não são inevitáveis, sendo plenamente passíveis de prevenção. Outro equívoco é colocar os trabalhadores no centro das atenções da gestão da segurança, uma vez que eles não detêm o poder sobre os recursos, nem para intervir nas condições de trabalho. A crença na tese de que a maioria dos acidentes é causada pelo comportamento inadequado dos trabalhadores, por impudência ou negligência em relação às normas de segurança, dissociado das condições e do meio ambiente de trabalho é equivocada, tendenciosa e injusta e expõe a fragilidade dos atuais sistemas de controle. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 166 • O treinamento e conscientização dos trabalhadores são indiscutivelmente importantes e benéficos, entretanto, produzirão muito pouco resultado se não forem sustentados por processos consistentes de planejamento, monitoramento e controle. Para implantar um sistema eficaz é preciso adotar tolerância zero com condições e com atos inseguros, uma vez que é comprovada a relação entre o número de quase acidentes com acidentes graves (Frankbird). O modelo de gestão em segurança não deve apenas atender à legislação, mas deve ser capaz de criar uma cultura de segurança efetiva, com aumento de produtividade e melhoria na qualidade dos processos. Tratar a questão da segurança do trabalho com ações independentes e não como um sistema, o que realmente é, é completamente ineficaz. Várias normas buscam estruturar um modelo de gestão de segurança do trabalho eficaz, entre as mais conhecidas estão a BS8800 e a OHSAS 18001. De uma forma geral, os modelos propostos são estruturados em: levantamento da situação inicial, planejamento, implementação e operação, verificação e ação corretiva e melhoria contínua (Figura 124). Figura 124 – Ciclo de gestão na segurança do trabalho. Entretanto, para se atingir um adequado desempenho em segurança do trabalho é necessário ir além de implantar um bom sistema de sistema de gestão. É preciso mudar a cultura atual onde a segurança é vista como apenas como um mal necessário, com o objetivo de atender minimamente a legislação, tratando os colaboradores como simples recursos e atribuindo a eles toda a culpa pelos acidentes ocorridos. É preciso acabar com a visão de que segurança não agrega valor ao negócio. Ainda existe muita resistência dos profissionais ligados à produção quanto a implantação de medidas de controle, até mesmo quando estas não têm qualquer impacto sobre a produção. A estratégia mais eficiente de implantação do gerenciamento da segurança é através do desencadeamento de ações de cima para baixo, sinalizando a todos que segurança é inegociável. Neste caso, deixa de ser um ato de vontade individual ou de escolha de cada colaborador. Os gestores são os responsáveis por sua efetiva implantação, promovendo as ações de planejamento, disponibilizando os recursos necessários, monitorando os resultados e buscando a assessoria do SESMT para as questões que excedam sua competência técnica. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 167 • Os gestores devem ter em suas atribuições fundamentais a responsabilidade pelas condições de segurança no canteiro. Estes devem também ser cobrados, avaliados e bonificados segundo seu desempenho neste quesito. A gestão da segurança do trabalho também deve compor as demais atribuições daqueles que desenvolvem e executam o trabalho. Se assim não for, a segurança continuará sendo tratada de forma secundária. Ainda nos dias de hoje é comum na construção civil que uma atividade seja planejada, seus recursos adquiridos, os fornecedores contratados, os recursos disponibilizados e a atividade programada, sem que em nenhum momento a segurança da operação seja discutida. Desta forma, quando a atividade for iniciada, provavelmente existirão inúmeras situações de risco, não havendo outra opção a não ser paralisar a mesma. Neste caso, a implantação das medidas de controle conflitará com a execução da atividade, pressionando para que as adequadas medidas de controle dos riscos sejam negligenciadas e a atividade transcorra normalmente. Estes conflitos invariavelmente implicam em atraso na produção, retrabalho, soluções mal desenvolvidas ou parciais, maiores custos, entre outras. Incorporar-seao processo produtivo apresenta-se como o maior desafio da gestão da segurança. Não podemos aceitar a alegação de falta de tempo para se priorizar a produção em detrimento da segurança. O acidente é evitável a partir do ato de se trabalhar da forma correta, ou seja, com a segurança intrinsecamente envolvida. Uma vez que a atividade é concebida de forma correta, a atividade de fazer segurança está intrínseca à sua execução e não algo a parte. Quando a decisões sobre saúde e segurança são deixadas para serem tomadas no canteiro, de forma improvisada, as consequências são desperdícios, atraso e insegurança, com paralisação de frentes de trabalho, falta de visão sistêmica, improdutividade e conflitos. Isto aumenta mais ainda a resistência das equipes de campo às ações da segurança do trabalho. Isto não precisa ser assim. A segurança do trabalho pode ser efetivamente implementada sem prejudicar a produtividade, a qualidade, o prazo e o custo final das atividades. Para isto, basta que seja planejada, programada, executada e monitorada juntamente com as demais áreas de planejamento e produção (Figura 125). SAÚDE E SAÚDE E SEGURANÇA Planejar a saúde e segurança SAÚDE E SEGURANÇA Realizar a gestaõ de saúde e segurança SAÚDE E SEGURANÇA Monitorar e Controlar ESCOPO Coletar os requisitos RISCO Identificar os riscos QUALIDADE Planejar a qualidade SUPRIMENTOS Planejar suprimentos TEMPO Definir as atividades RECURSOS HUMANOS Planejar a equipe CUSTO Orçamento Executivo Figura 125 – Processo de gestão de saúde e segurança. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 168 • A segurança do trabalho começa a ser implementada no desenvolvimento dos projetos, onde se podem analisar as opções construtivas também em função dos riscos que oferecem aos trabalhadores. Uma vez escolhido o sistema construtivo deve-se adotar a sequência executiva e o plano de ataque que apresentem os menores riscos. Durante o detalhamento do projeto é preciso prever pontos de ancoragem e fixação das proteções coletivas necessárias à sua execução e posterior manutenção da edificação. Estes devem estar dimensionados para as cargas que serão submetidas e devem compor o PCMAT. As proteções coletivas devem ser dimensionadas para as cargas e esforços que serão submetidas e devem possuir memória de cálculo, projeto e ARTs específicas. Também devem ser especificados materiais e acabamentos evitando a utilização de matérias primas insalubres e perigosas. Os materiais devem ser adquiridos, recebidos, armazenados, distribuídos, utilizados e descartados de forma a não oferecer risco à saúde dos trabalhadores. Os EPI devem ser especificados, adquiridos, distribuídos, fiscalizados e descartados de forma a controlar os riscos residuais e atender as condições mínimas definidas pela legislação. Os locais de trabalho e as atividades devem ter seus riscos identificados, avaliados, controlados de forma que estejam em níveis aceitáveis; as áreas devem ser sinalizadas adequadamente. Os funcionários devem ser informados dos riscos a que serão submetidos, das medidas de controle necessárias e de suas obrigações. Também é preciso garantir que possuam condições de saúde compatível com a atividade que exercerão e, que estão treinados e capacitados para sua execução. Os equipamentos e ferramentas devem ser inspecionados de forma a garantir que estejam imperfeitas condições de uso e não oferecem riscos aos seus operadores. A segurança do trabalho tem interface e impacta todas as disciplinas de um empreendimento (Figura 126). Figura 126 – Impactos da segurança do trabalho nas demais áreas de conhecimento. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 169 • Qualquer acidente ocorrido, com ou sem vítimas, traz consigo prejuízos financeiros, improdutividade, perda de tempo, retrabalho, multas e indenizações. Podemos chamá-los de custos da não segurança. Infelizmente, os custos da falta de segurança são difíceis de serem corretamente apropriados, pois estão dissolvidos nos custos de produção, contrariamente aos custos da segurança que são facilmente apropriados, como EPI’s, proteções coletivas, treinamentos, etc. Este fato dificulta a tomada de decisão e maiores investimentos na segurança. Os acidentes do trabalho não possuem uma única causa. São, via de regra, fruto da combinação várias causas. Precisamos entender que um acidente é resultado de falhas na concepção, execução e gestão dos serviços, sendo necessário avaliar todo o processo produtivo para identificar as verdadeiras causas, e saná-las. Executar uma atividade sem segurança é executá-la de forma irregular ou não conforme. Podemos afirmar que a insegurança é fruto de uma atividade mal planejada ou mal executada. A capacitação dos profissionais especializados em segurança também é um desafio para inserção de uma nova cultura. Normalmente, estes estão acostumados a uma posição passiva, apontando os problemas e não participando da solução dos mesmos. Eles terão assumir uma posição mais ativa, participando da construção das soluções que permitirão que as atividades sejam executadas com produtividade, economia, qualidade e segurança. A postura muda de centralizador do conhecimento para divulgador de conhecimento, de proibidor a facilitador, de focado no comportamento a focado nos processos produtivos, de um conhecedor de riscos a um conhecedor de processos. Não nos aprofundaremos neste manual, em legislações e requisitos normativos para segurança do trabalho em canteiros de obra, por entender que já existem inúmeras publicações que abordam o assunto de forma profunda e abrangente. Limitamo-nos a analisar aos aspectos de gestão. 4.11.1. Planejar a saúde e segurança Todo sistema de gestão parte do princípio do pleno conhecimento daquilo que se deseja gerenciar. A atenção deve estar direcionada aos processos produtivos e aos sistemas construtivos, de onde se originam os riscos. O objetivo de um sistema de gestão em segurança do trabalho não deve ser o de fazer segurança a qualquer preço. Apesar de parecer o caminho mais fácil, prejudica o resultado do negócio e aumenta a resistência a sua implantação. O objetivo deve ser o de desenvolver conjuntamente com os projetistas, planejadores e gestores formas para se garantir a segurança de todos, com o menor custo, maior qualidade e sem prejudicar o prazo do empreendimento. Normalmente, o planejamento da segurança é deficiente e necessita de estratégias que explorem melhor a interface entre a produção e a segurança do trabalho. Planejar a segurança do trabalho consiste basicamente em identificar os perigos existentes nos processos construtivos e no ambiente de trabalho, avaliar a gravidade e probabilidade de ocorrência, decidir se é tolerável e preparar um plano de ação com medidas de controle dos riscos, levando-os a níveis aceitáveis e planos contingenciais (Figura 127). Neste caso, tolerável quer dizer que o risco foi reduzido ao nível mais baixo e que é razoavelmente praticável. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 170 • Origem Identificação dos perigos Avaliação do risco Risco é Tolerável? Definição de medidas de controle Implantação das medidas de controle Monitoramento e controle As medidas foram eficazes? Não Sim Sim Fim P D C ANão Figura 127 – Gestão de riscos na segurança do trabalho. Mas antes de partirmos para o controle dos riscos, devemos buscar sua eliminação, intervindo na concepção dos sistemas construtivos e nos processos produtivos. É preciso buscar soluções inteligentes de engenharia de forma a não expor desnecessariamente os profissionais que executarão cada atividade. É importante deixar claro que os principais responsáveis pela identificação dos riscos e desenvolvimento das soluções são a equipe de engenharia e a de produção, uma vez que são elas que detêm o conhecimento dos processos que serão executados. O papel do profissional de segurança deve ser o de apoiar com conhecimento técnico e comferramentas a análise e a tomada de decisão. Perigo pode ser definido como sendo uma fonte potencial para provocar acidentes. Estes podem ser mecânicos, elétricos, produtos químicos, comportamento, entre outros. É comum entre as empresas a realização de um inventário dos perigos existentes e já conhecidos das atividades rotineiras, contemplando também a avaliação dos riscos envolvidos: GERENCIAMENTO DE OBRAS • 171 • 1. Queda de altura 2. Queda de mesmo nível 3. Queda de ferramentas, materiais de altura 4. Atropelamento 5. Incêndio 6. Choque, etc. Entretanto, é preciso ter cuidado com esta prática, uma vez que, por mais que uma atividade tenha seus riscos conhecidos, é preciso avaliar também o contexto de sua execução, por exemplo: a atividade de execução de fôrma possui seus riscos conhecidos, entretanto, executar a forma de uma estrutura de 20 pavimentos, não possui os mesmos riscos do que executar fôrma de fundações, concomitantemente com o trânsito de máquinas pesadas ao redor. A análise da gravidade, ou impacto, leva em consideração as partes do corpo que podem ser afetadas, a natureza do dano, o número potencial de vítimas, etc. Já a probabilidade leva em consideração o número de pessoas expostas, a frequência, a duração da exposição ao perigo e a possibilidades de ocorrência de atos inseguros (Figura 128). Figura 128 – Probabilidade x impacto na segurança. Desta forma, risco é definido com a combinação entre a probabilidade de ocorrência e as consequências caso o evento perigoso venha a ocorrer. Avaliações mal feitas, fundamentadas na crença de que não passam de burocracia, não contribuirão para a melhoria da segurança e ainda desperdiçarão recursos valiosos, inclusive o tempo. O processo de avaliação não tem um fim em si mesmo, este deve fundamentar a tomada de decisão, sobre quais medidas de controle devem ser implantadas. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 172 • Estas avalições devem ser realizadas por profissionais competentes, comprometidos com a segurança, com experiência prática no canteiro e, preferencialmente por um grupo ligado ao processo: quem a executará, quem a planejou, quem a projetou, quem conhece as metodologias de análise, etc. Cada um contribuindo com a sua visão e com a parte do processo que lhe cabe. É preciso questionar a necessidade, efetividade e praticidade dos controles propostos. As vezes o apoio de especialistas se faz necessário. Um risco das avaliações é a complacência de quem as realiza. Pessoas muito próximas do processo produtivo podem não mais enxergar os perigos, ou passem a considera-los normais pois acostuma com a sua presença. Muitos acidentes graves ocorrem em situações absolutamente familiares. Também pode acontecer de se implantar medidas de controle excessivamente zelosas, desproporcionais ao risco existente. Estas também são prejudiciais pois conflitam com a necessidade de realizar o trabalho, geram improdutividade, aumentam a resistência a sua implantação e afetam a credibilidade do sistema. Para registro e análise dos riscos de segurança do trabalho, podemos utilizar a mesma matriz utilizada no capítulo 4.9 – Gestão de risco, Figura 116, com algumas adequações. É preciso implantar um gerenciamento de riscos proativo, sistemático e formal, de forma a identificar, avaliar e controlar os riscos presentes e futuros. O adequado reconhecimento dos riscos é uma questão de percepção. Por isto, é importante envolver na análise a equipe de engenharia, fornecedores, projetistas, pois possuem elevado conhecimento técnico sobre os processos que serão executados. Também é necessário treinamento, experiência e ferramentas adequadas. A participação do trabalhador na identificação dos perigos e discussão das medidas de controle é decisiva para a definição de ações efetivas e eficazes. O trabalhador pode não saber as causas fundamentais do problema da segurança, mas é quem sofre os efeitos de sua falta. Envolvê-lo garante maior comprometimento na implantação. Não sendo possível eliminar o risco, devemos buscar controles para mitigar a gravidade dos danos ou a probabilidade de ocorrência. Podemos controlar o meio, através de proteções coletivas, isolamento, proteções e mecanismos nos equipamentos ou podemos controlar as pessoas com proteções coletivas, treinamento e conscientização. Os equipamentos de proteção individual somente devem ser adotados como medidas de controle ao risco quando todas as demais soluções não forem possíveis. Estes são recursos limitados, pois não resolvem o problema em sua origem, criam desconforto ao trabalhador, prejudicam seu desempenho e produtividade, representam um custo contínuo e elevado e demanda esforços de treinamento, ou seja, representam um “mal necessário” ou um dispositivo legal obrigatório. Também possui a desvantagem de poder ser mal utilizados ou negligenciados. Por tudo isto, convencionou-se uma hierarquia para a tratativa de riscos: 1. Eliminação; 2. Proteções coletivas; 3. Treinamento; 4. Comunicação visual; 5. EPI. Tão importante como condições seguras de trabalho é o comportamento do trabalhador. Os atos inseguros são potenciais causadores de acidentes, como por exemplo: a negligência no uso de EPI, a permanência em locais proibidos, o descumprimento de padrões executivos, entre outros. Já as condições inseguras são condições do próprio local de trabalho como falta de iluminação, buracos no piso, pontas de vergalhão sem proteção, máquinas em mal estado de conservação, ferramentas improvisadas, entre outras. Ambos devem ser combatidos. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 173 • Uma ferramenta eficaz, utilizada no ciclo de planejamento de médio prazo, principalmente na análise contextual dos riscos, no treinamento, conscientização e divulgação das medidas de controle é a chamada APR, ou análise preliminar de riscos. É rápida, simples, não necessita de estrutura, especialistas ou recursos sofisticados. É focada na execução e envolve os próprios executores na identificação e definição das medidas de controle. Os riscos identificados são associados a cada pacote de trabalho, bem como as medidas de mitigação, controle, os recursos e os treinamentos necessários. Todo trabalhador que for participar da tarefa deve ser treinado na sua APR, de forma a garantir que conhece os riscos envolvidos na atividade e as medidas de controle que devem ser implantadas (Figura 129). Figura 129 – APR – análise preliminar de riscos. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 174 • O planejamento da segurança do trabalho deve também elaborar um plano de emergência, caso as medidas de controle não sejam suficientes para evitar a ocorrência de um acidente. Neste caso, devemos garantir o regaste no tempo e em condições ideais para se reduzir a possibilidade de sequelas ou risco de morte. Devemos mapear as possibilidades de atendimento mais próximas do empreendimento, conhecer sua capacidade e especialidades, identificar a distância, facilidade de acesso e tempo necessário para o transporte, garantir condições ideais de socorro e transporte e consolidar as ações de atendimento em plano (Figura 130). Manter Gerente de SMS informado CAT Gerente de SMS Comunicação inicial Técnico de Segurança Ocorrência de acidente e incidente Gerente da obra Existe Vítima? CPT ou SPT? Aguarda atendimento e parecer médico Investigação de Acidente Necessário Investigar? Sim sim sim Fim não Acionar ambulância SAMU 192 Imediato 24 horas 7 dias Emissão da CAT Fechamento da investigação Não Não Diretor de ObrasGerente Geral da obra Comunicação secundária Comunicação secundária Necessita ambulância? Sim Arquiva no dossiê do empregado Realização de Primeiros socorros Figura 130 – Fluxograma de atendimento a emergências. 4.11.2. Realizar a gestão da Saúde e Segurança Uma vez definidas as medidas de controle necessárias à execução de uma atividade com segurança, é preciso garantir que sejam implementadas.É preciso garantir que uma atividade só será iniciada se todos os recursos estiverem disponíveis, inclusive os necessários à implantação das medidas de segurança como: proteções coletivas, EPIs, projetos de instalações, treinamento de mão de obra, APR, etc. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 175 • Uma das ferramentas mais utilizadas para esta garantia são as inspeções. As inspeções são ferramentas muito poderosas na condução de um sistema de segurança efetivo e eficaz. Permitem-no obter um retrato qualitativo e quantitativo da implantação das medidas de controle. Realizar inspeções é vistoriar em busca de anomalias capazes de alterar, impedir ou prejudicar seus resultados. Vários são os tipos de inspeções possíveis: de rotina, especiais, na mobilização de novos equipamentos, na liberação de novas instalações, aleatórias, realizadas por gestores, técnicos de segurança ou operários. Podem ser em equipamentos, instalações, ferramentas, métodos e processos de trabalho, ambientes, entre outros. As inspeções devem ser documentadas e seu conteúdo cuidadosamente estudado e transformado em melhoria de processos e de controles (Figura 131). Utiliza-se para realizar as inspeções listas de verificação. Estas permitem a padronização das inspeções e evitam que algum item importante seja esquecido (Figura 132). Figura 131 – Relatórios periódicos de segurança. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 176 • Figura 132 – Lista de verificação de segurança do trabalho. A utilização de lacres numerados e coloridos onde cada cor representa a inspeção de um respectivo mês, ou placas para inspeção e liberação de equipamentos como betoneira e andaimes, permitem o controle visual e facilitam a melhor gestão das inspeções(Figura 133 e Figura 134). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 177 • Figura 133 – Inspeções de máquinas e equipamentos Figura 134 – Tabela de cores do mês. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 178 • Também é preciso garantir que todo trabalhador que acesse o canteiro esteja em condições de saúde e devidamente capacitado para executar suas atividades e que somente execute estas. Para isto, é fundamental ter o controle de acesso ao canteiro. O uso de crachás de identificação, com tarjas magnéticas e adesivos diferenciados para cada habilitação permite realizar este controle (Figura 135). Figura 135 – Controle de acesso ao canteiro. Envolver todos os trabalhadores na garantia da segurança do canteiro é fundamental e um diferencial para a obtenção de melhores resultados. Campanhas permanentes de identificação de condições inseguras, com reconhecimento e premiação das melhores contribuições criam uma verdadeira revolução no canteiro. Incentivam cada trabalhador a ser um constante identificador de riscos, ampliando exponencialmente a capacidade de identificação e correção de desvios (Figura 136 e Figura 137). Figura 136 – Programas de participação dos colaboradores na segurança. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 179 • Figura 137 – Programas de reconhecimento à participação do trabalhador na identificação de perigos. Em casos especiais normativos ou para atividades não planejadas e não usuais dentro do canteiro, deve-se utilizar permissões de trabalhos provisórios, também chamada de PTP. Estas permissões de trabalho permitem um planejamento de curto prazo com a identificação de riscos específicos e a devida definição de medidas de controle, treinamento e compromisso de implantação. Deve ser utilizado apenas para atividades pontuais e de curtíssima duração (Figura 138). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 180 • Figura 138 – Permissão para trabalhos provisórios. 4.11.3. Monitorar e controlar a Saúde e Segurança Um dos grandes desafios da segurança do trabalho é controlar as mudanças que afetam sua gestão. Mudanças de pessoal, de produtos, de processos, de procedimentos de trabalho, de projetos, de legislação e, principalmente do ambiente de trabalho, afetam as condições de riscos e podem exigir novas medidas de controle. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 181 • O canteiro muda diariamente. Os riscos mudam de lugar, de intensidade e de tipo em poucas horas. Por exemplo, durante a execução dos blocos de fundação de uma edificação existem riscos de soterramento e queda de nível que devem ser controlados, na medida em que a estrutura começa a subir, os riscos passam a ser de queda em altura, e queda de materiais. Onde antes havia um buraco, pode existir um obstáculo e onde não havia nenhum risco pode surgir um. As mudanças devem ter seus impactos avaliados e as medidas necessárias de controle dos novos riscos implantados. Também é preciso monitorar o comportamento dos trabalhadores, de forma a coibir atos inseguros que venham a causar acidentes. Atos inseguros podem ocorrer por desconhecimento dos perigos, por subestimação dos riscos, por desconfiar da utilidade das medidas de controle, ou simplesmente intencionalmente ou por indisciplina. Dos atos inseguros, a recusa de uso do EPI é a mais comum, sendo esta de ordem cultural ou por indisciplina, precisa de ações enérgicas como advertência, suspensão e dispensa por justa causa. É preciso deixar claro que a segurança é inegociável, seja quem for. Uma das ferramentas mais importante para o desenvolvimento e melhoria contínua dos sistemas de gestão de segurança do trabalho são as investigações de acidentes ou incidentes ocorridos. É o processo equivalente a uma ação corretiva do sistema de gestão da qualidade. As investigações devem ser efetivas, levantando dados, estabelecendo nexo entre causa e feito, facilitando a proposição de medidas de controle para evitar a repetição do acidente. Existe uma forte tendência de associar as causas às pessoas, responsabilizando as vítimas, acusando- as de negligentes ou imprudentes. Os métodos de investigação podem ser os mais variados. Importa menos o método do que a afetividade das análises. Deve-se evitar que se torne mera formalidade técnica e legal pois, investigações superficiais ou de fachada impedem a correta definição dos problemas e consequentemente sua eliminação através de medidas de controle adequadas. É preciso todo o tempo acompanhar a eficiência das medidas de controle implantadas, verificando se estão produzindo os resultados desejados. O monitoramento reativo da segurança do trabalho através de indicadores de desempenho como o SPT – Acidentes sem perda de tempo, CPT – acidentes com perda de tempo, taxa de gravidade tem como objetivo retroalimentar o planejamento da segurança de forma a evitar a reincidência dos acidentes (Figura 139). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 182 • Figura 139 – indicadores reativos de desempenho de segurança do trabalho. 4.12 Gestão do meio ambiente O caminho para um desenvolvimento sustentável passa inevitavelmente por uma revisão em nossos empreendimentos. O conceito de sustentabilidade busca integrar os aspectos econômicos, sociais e ambientais, com o objetivo de preservá-los, segundo os limites do planeta. Trata-se de atender às necessidades da geração atual sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atender às suas próprias necessidades. Incorporar práticas de sustentabilidade na construção é um caminho sem volta, e demandará mudanças significativas na forma de conceber, projetar, gerir e construir nossos empreendimentos. A preocupação com a sustentabilidade deve estar presente durante todo o ciclo de vida do empreendimento, incluindo sua desconstrução ou requalificação, quando se encerrar sua vida útil. Podemos citar como princípios de uma construção sustentável: • Aproveitamento de conduções naturais locais; • Utilização mínima do terreno possível; • Análise e redução do impacto no entorno; • Qualidade ambiental interna e externa; GERENCIAMENTO DE OBRAS • 183 • • Gestão sustentável do canteiro; • Adaptar-se às necessidades atuais e futuras dos usuários; • Utilização de matérias primas adequadas; • Redução do consumo energético; • Redução doconsumo de recursos naturais; • Redução do consumo de água; • Redução, reutilização, reciclagem e disposição correta dos resíduos sólidos; • Introdução da inovação, com o objetivo de alinhar ganhos sociais, econômicos e ambientais; • Conscientização e educação dos envolvidos; • Eliminação da informalidade e ilegalidade; • Busca contínua pela redução do desperdício, aumento da durabilidade e aumento da produtividade. Entre os principais sistemas de avaliação de sustentabilidade e certificação voluntária adotados no Brasil estão o LEED - Leadership in Energy and Environmental Design, representado no Brasil pelo GBC e o AQUA – Alta Qualidade Ambiental, coordenado pela Fundação Vanzolini, este com os seguintes aspectos ligados à construção: Sítio e construção • Categoria n°1: Relação do edifício com seu entorno; • Categoria n°2: Escolha integrada de produtos, sistemas e processos construtivos; • Categoria n°3: Canteiro de obra com baixo impacto ambiental; Gestão • Categoria n°4: Gestão da energia; • Categoria n°5: Gestão da água; • Categoria n°6: Gestão dos resíduos de uso e operação do edifício; • Categoria n°7: Manutenção – permanência do desempenho ambiental; Conforto • Categoria n°8: Conforto higrotérmico; • Categoria n°9: Conforto acústico; • Categoria n°10: Conforto visual; • Categoria n°11: Conforto olfativo; GERENCIAMENTO DE OBRAS • 184 • Saúde • Categoria n°12: Qualidade sanitária dos ambientes; • Categoria n°13: Qualidade sanitária do ar; • Categoria n°14: Qualidade sanitária da água. Destas categorias, quase todas estão intrinsecamente ligadas à qualidade da concepção e desenvolvimento dos projetos, ambas abordadas com maior profundidade no capítulo 5 – Gestão técnica. Referem-se ao desempenho em uso da edificação e visam o atendimento dos requisitos e expectativas dos stakeholders. A única exceção é a categoria n°3 – Canteiro de obras com baixo impacto ambiental, que está associada à qualidade da gestão ambiental implantada no canteiro de obras, mais especificamente à redução de seus impactos ambientais como o consumo de recursos naturais e a geração de resíduos, efluentes e emissões. Qualidade da concepção A qualidade da concepção de um empreendimento, do ponto de vista da sustentabilidade, é percebida pelo atendimento das necessidades dos usuários, de forma economicamente viável, reduzindo ao máximo os impactos ambientais. Deve-se buscar garantir o conforto dos usuários através do alinhamento das variáveis do clima (radiação solar, vento dominante, umidade temperatura), da arquitetura (forma, função, materiais e acabamentos) e das necessidades humanas. Busca-se a utilização da melhor ventilação natural, a otimização da iluminação natural de forma a melhorar o conforto visual, o melhor uso de insolação, a redução do consumo de energia, entre outros. É preciso integrar a edificação com seu entorno, buscando reduzir ao máximo os impactos negativos da construção. Para isto, é preciso levar em considerações os requisitos e expectativas de todos os stakeholders, identificados durante do processo de planejamento dos stakeholders, descrito no capítulo 4.8, incluindo funcionários, fornecedores, subcontratados, projetistas, vizinhos, etc. Também é preciso analisar o terreno, avaliar as condições da vizinhança como: nível de ruído, circulação de veículos, dificuldade de estacionamento, hábitos dos vizinhos, presença de riscos como redes elétricas, contaminação do terreno, fornecedores locais de materiais e serviços, etc. A escolha dos métodos construtivos também tem impacto direto na sustentabilidade de um empreendimento. A utilização, por exemplo, do sistema drywall em paredes internas, apresenta adequado desempenho acústico e térmico, reduz a geração de resíduos, a utilização de água, o consumo energia, além de permitir que o edifício seja futuramente modificado ou adaptado com maior facilidade, para atender necessidades dos moradores. Gestão da água Durante a concepção deve-se estar atento à disponibilidade hídrica da área e buscar a eficiência do uso através do uso racional, redução do desperdício, reciclagem e reuso, durante sua vida útil, principalmente na fase de operação. O aproveitamento de água de chuva é realizado através da captação, transporte, tratamento, armazenamento e uso adequado. Propicia a redução do consumo, redução de custo, controle do excesso de escoamento superficial e enchentes urbanas. É preciso dimensionar de acordo com o consumo, a necessidade de reserva e o regime de chuvas da região. É necessário instalação de sistema de recalque ou pressurização, utilização de reservatórios separados e torneiras específicas, além de filtros e separadores de sólido. Exigem manutenção contínua para atendimento e manutenção dos requisitos mínimos. Os pontos de consumo devem ser sinalizados como água não potável para evitar o consumo inadequado. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 185 • O reuso é realizado através da coleta, tratamento, armazenamento e distribuição. Este possibilita a reutilização por diversas vezes dos efluentes de chuveiros, lavatórios, tanques e máquinas de lavar roupa, também chamados de águas cinza. Podem ser utilizados na limpeza, refrigeração, etc. O projeto dos sistemas hidráulicos também contribui com a sustentabilidade através da otimização do traçado das tubulações, da setorização do consumo, com vazão e pressão apropriados aos diversos pontos de consumo, da especificação de sistemas com baixo custo de manutenção e alta durabilidade, da utilização dispositivos economizadores (restritores de vazão, bacias sanitárias de volume reduzido, arejadores), utilização de sistemas que propiciem facilidade para detecção de vazamentos, entre outras. A medição individualizada também torna justa a cobrança e contribui para a redução do consumo e desperdício e, facilita a identificação de vazamentos. Gestão do uso de energia A redução do consumo de energia pode ser obtida com a utilização de equipamentos economizadores de energia, utilização de aparelhos de baixo consumo como lâmpadas, ar condicionado, reatores, aquecedores solares, sensores de presença e automação. Também é importante prezar pela qualidade, eficiência (redução de perdas) e segurança das instalações elétricas. Para isto deve-se: • Utilizar materiais certificados; • Obedecer a métodos de instalação segundo NBR 5410 - Instalações Elétricas de Baixa Tensão; • Utilizar dispositivos DR que detectam correntes de fuga e protegem contra choques e falhas; • Dimensionar corretamente os condutores de forma a reduzir perdas; • Executar corretamente conexões de forma a não provocar perdas e incêndios; • Primar por quadros testados e industrializados; • Não improvisar ou alterar projetos; • Testar todas as instalações; • Priorizar a iluminação natural; • Especificar luminárias setorizadas e mais eficientes; • Utilizar lâmpadas de baixo consumo e alta durabilidade; • Utilizar pisos e paredes claras; • Utilizar células foto elétricas. Acessibilidade Um empreendimento sustentável deve atender aos requisitos de acessibilidade cujos princípios universais são: • Uso igualitário; • Flexibilidade de uso; • Uso simples e intuitivo; GERENCIAMENTO DE OBRAS • 186 • • Informações facilmente perceptíveis; • Tolerância ao erro; • Baixo esforço físico; • Tamanho e espaço adequado ao uso pelos deficientes. Entre os principais aspectos relacionados à acessibilidade no empreendimento estão as calçadas, sinalização tátil, mobiliário urbano, acessos e circulação, portas, rampas, escadas, guarda-corpos, elevador, plataforma vertical, banheiros, ambientação, áreas de esporte e lazer. No Brasil, o requisitos de acessibilidade estão descritos na norma NBR 9050 – Acessibilidade a edificações, mobiliários espaços e equipamentos urbanos. Gestão de materiais e redução de resíduos A construção civil é reconhecidamente uma grande consumidora de recursos naturais e energéticose uma grande geradora de resíduos. Por isto, precisa controlar e buscar a redução de consumo de matérias primas e a geração de resíduos. Uma gestão eficaz de resíduos começa ainda na fase de projeto, uma vez que, uma correta especificação de materiais reduz o consumo, o desperdício, a quantidade de resíduos gerados e seus impactos ambientais. Devemos respeitar a modularidade do material para evitar quebras e desperdício e buscar sempre a construção seca. Podemos dizer que materiais e resíduos devem sempre ser analisados conjuntamente. Sempre que possível devemos especificar materiais e sistemas construtivos de baixo impacto ambiental, que não gerem resíduos perigosos, buscando sempre reduzir custos de destinação, quantidade de resíduo gerado, redução do consumo de recursos naturais e energia, passíveis de serem reutilizados sem necessidade de transformação e possibilidade de reciclagem e, reintrodução no ciclo produtivo. É preciso escolher materiais ambientalmente corretos, de origem certificada e com baixas emissões de CO2. Devemos evitar os que emitam compostos orgânicos voláteis, materiais contendo amianto, utilizar materiais locais, reutilizáveis, recicláveis ou reciclados e de fácil manutenção. As madeiras devem ser certificadas e de reflorestamento, as tintas devem ser à base de água e com baixo VOC (componentes orgânicos voláteis, da sigla em inglês). O cimento deve utilizar resíduos em sua composição como a escória (CPIII) e realizar coprocessamento. Materiais naturais devem ser substituídos por produtos de fácil e rápida instalação e reparo. Gestão do meio ambiente A gestão do meio ambiente tem interface com a gestão técnica, com a gestão da produção e com quase todas as demais áreas de conhecimento da gestão do trabalho (Figura 140). É preciso conceber, projetar, gerir e construir para um bom desempenho ambiental, tanto na fase de construção, quanto na fase de operação. As decisões devem ser tomadas avaliando os impactos em diversas áreas. Decidir baseado somente nos custos de construção, não considerando custos de operação, manutenção e desconstrução dificultam a implantação de uma cultura de sustentabilidade no setor. Tudo isto culminará em benefícios ambientais, sociais econômico, conforme o conceito mais amplo de sustentabilidade. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 187 • MEIO AMBIENTE Planejar o meio ambiente MEIO AMBIENTE Realizar a gestão do meio ambiente MEIO AMBIENTE Monitorar e controlar o meio ambiente SAÚDE E SAÚDE E SEGURANÇA Planejar a saúde e segurança ESCOPO Coletar os requisitos RISCO Identificar os riscos QUALIDADE Planejar a qualidade SUPRIMENTOS Planejar suprimentos RECURSOS HUMANOS Planejar a equipe CUSTO Orçamento Executivo PROJETOS Projetos Básicos PROJETOS Complementares LOGISTICA Programação logística LOGISTICA Executar Logística STAKEHOLDERS Gerenciar as partes interessadas TEMPO Cronograma Executivo PROJETOS Projetos Executivos STAKEHOLDERS Planejar partes interessadas RISCO Planejar respostas a riscos PRODUCÃO Programação e controle da produção COMUNICAÇÕES Gerenciar as comunicações SUPRIMENTOS Contratar fornecedores SUPRIMENTOS Comprar materiais COMUNICAÇÕES Planejar a comunicação Figura 140 – Processos de gestão do meio ambiente. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 188 • 4.12.1. Planejar meio ambiente A gestão ambiental de um empreendimento de construção civil é mais do que uma obrigação legal, é uma responsabilidade socioambiental da construtora. É preciso mudar o paradigma e assumir uma gestão ambiental responsável e adotar uma postura proativa deixando de apenas mitigar impactos e passando a identificar oportunidades de melhoria de desempenho e redução de custos. Uma edificação sempre causa impactos ambientais, seja durante sua construção, seja durante a sua operação, tanto pelos recursos consumidos, quanto pelos resíduos, emissões e efluentes gerados. Tal qual a segurança do trabalho, é preciso que a gestão ambiental seja vista como parte integrante do negócio e, indissociável do processo produtivo, ou seja, não existe produção se não houver respeito ao meio ambiente durante a execução. O sistema de gestão do meio ambiente deve ser todo amarrado ao sistema produtivo e compatível com o negócio. Muitas vezes é difícil diferenciar a atuação da segurança do trabalho e do meio ambiente. Neste caso, um critério que pode ser utilizado para distinção é que a segurança do trabalho aborda os aspectos que afetem as pessoas dentro do ambiente da empresa, enquanto o meio ambiente aborda os aspectos que afetam os recursos naturais, dentro e fora da empresa e a comunidade ao redor. Uma boa gestão ambiental contribui para redução de custo, organização, controle da produção e redução do desperdício. Também contribui para redução de passivos ambientais, multas, paralizações, ações judiciais, acidentes ambientais, embargos e danos à imagem da construtora. Dentre os frameworks de gestão ambiental existentes, o mais difundido é a norma ISO14001. Aspectos e impactos O primeiro passo para se fazer a gestão ambiental de um empreendimento é identificar os aspectos ambientais, tanto que os estejam sob seu controle, quanto os externamente aos quais possamos influenciar, em especial de terceirizados. Não apenas dos processos operacionais, mas de todas as atividades impactantes, como, por exemplo, limpeza, transporte, etc. Podemos definir um impacto ambiental como uma modificação causada ao meio ambiente, ou seja, um desequilíbrio e, um aspecto ambiental como o fator que provocou este desequilíbrio. Também podemos dizer que o aspecto é a causa e o impacto é o efeito. O levantamento dos aspectos e impactos ambientais é a espinha dorsal da gestão ambiental, uma vez que, é a partir dele que se definem os controles operacionais, plano de emergência, treinamentos, metas, etc. Para cada aspecto deve-se se identificar os impactos associados, atuais ou futuros, reais ou potenciais. Para cada impacto é preciso identificar os requisitos legais que devem ser atendidos (Figura 141). Muitos já estão contidos em documentos como Relatório de Controle Ambiental (RCA), Estudo de Impacto Ambiental (EIA), Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) e Estudo de impacto de Vizinhança (EIV), analisados durante o processo de coleta de requisitos no processo de Gestão de escopo do capitulo 4.2.1. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 189 • Figura 141 – Exemplo de planilha de aspectos e impactos. Uma vez identificados os impactos, é preciso classifica-los, de forma a direcionar os esforços e recursos disponíveis para os mais relevantes. O processo é similar ao utilizado na gestão da segurança do trabalho (Figura 142). Deve- se avaliar a significância, ou seja, quanto o impacto é significativo, tanto do ponto de vistas dos stakeholders, quanto dos requisitos legais aplicáveis. Para os impactos mais significativos, deve-se elaborar um plano de ação específico e, para os impactos menos significativos deve-se trata-los nos procedimentos de rotina. Dialogar com a comunidade sobre os possíveis impactos ambientais e integrar stakeholders no processo de tomada de decisão, apesar de aparentemente arriscado, pode provocar profundas mudanças positivas na gestão. Figura 142 – Exemplo de critério de avaliação de impactos. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 190 • Resíduos sólidos É impossível falar de gestão ambiental sem falar em gerenciamento de resíduos, uma vez que, qualquer que seja a sua composição, um resíduo constitui uma forma de degradação ambiental e um risco à saúde. O foco da gestão de resíduos deve ser, nesta ordem: reduzir, reutilizar ou reciclar, não sendo possível, deve-se garantir sua disposição adequada, não importando sua classificação. O gerenciamento de resíduo requer sua identificação, classificação, coleta, triagem, estocagem provisória e destinação final, havendo variação em função da classificação do resíduo.Em alguns casos esta classificação é determinada pela legislação ambiental. No caso de resíduos sólidos da construção civil a resolução CONAMA 307 estabelece as diretrizes, critérios e procedimentos. Esta classifica em quatro tipo: classes A, B, C e D. Em casos específicos utiliza-se como referência técnica a norma ABNT NBR 10.004. A escolha da disposição final dos resíduos é livre, desde que atenda aos requisitos legais. A destinação correta deve levar em consideração a natureza do resíduo, a técnica utilizada, o custo da disposição e a legalidade junto ao órgão ambiental. Responsabilidade do Gerador Um conceito muito importante adotado no direito ambiental é o princípio da Responsabilidade Contínua do Gerador, onde a responsabilidade do gerador do resíduo não cessa após a sua destinação, continuando o mesmo responsável por eventuais danos ambientais. A responsabilidade só cessa com a decomposição ou extinção total do resíduo, que em muitos casos pode durar muitos anos. Podemos dizer que durante a cadeia de destinação final de um resíduo, que vai desde o armazenamento temporário na obra, seu transporte, tratamento, e disposição final, a construtora é corresponsável por todas as atividades de seus terceiros, ou seja, a responsabilidade é solidária entre todos os agentes causadores de um dano ambiental, sendo em um primeiro momento, irrelevante o nível de participação de cada um, sendo todos responsáveis pela reparação ou indenização que porventura possa ser determinada. É importante frisar que a responsabilidade independe de culpa, ou seja, mesmo que não haja a intensão de causar o dano, seja por omissão, imprudência, negligencia ou imperícia, basta a comprovação de relação de causalidade entre o dano e a ação do causador. Por isto é muito importante uma rigorosa avaliação dos fornecedores, uma vez que quem contrata é corresponsável com os danos ambientais causados, inclusive com aqueles que farão o transporte e destinação final, devendo a construtora monitorar todo o trajeto e garantir a correta disposição final. É preciso se preocupar inclusive com resíduos destinados à reciclagem e doações. É necessário visitar as instalações dos fornecedores previa e periodicamente, verificar a regularidade ambiental, acompanhar o cumprimento de requisitos legais, exigir anotação de responsabilidade técnica, monitorar a validade de licenças e outros documentos. É preciso verificar se os fornecedores contratados para destinação final são licenciados, se o fornecedor de areia tem licença de extração, se a madeira comprada é de origem legal, se os veículos utilizados no transporte dos resíduos atendem à legislação ambiental, se os produtos perigosos são transportados atendendo a todos os requisitos legais, etc. O ideal é que esteja no contrato do fornecedor a obrigatoriedade de atender aos requisitos legais cabíveis e sua respectiva comprovação. Efluentes líquidos Os efluentes líquidos podem ser definidos como poluente na forma líquida, por estar dissolvido, em suspensão ou emulsionado. Estes precisam ser devidamente tratados antes de serem destinados em corpos d’água ou rede pluvial. Como principais exemplos estão óleos e graxas provenientes de lavagem de equipamentos, fluidos de perfuração em estaca raiz, esgoto sanitário dos canteiros, águas contaminadas por lama betonítica ou polímero sintético durante processos de execução de paredes diafragma, carreamento de finos pela chuva em áreas escavadas, etc. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 191 • É importante dar atenção e realizar uma adequada rede de drenagem no canteiro, com canaletas direcionando o fluxo, permitindo seu correto tratamento e controle, impedindo erosões, contaminações, etc. Muitas vezes é necessária instalação de caixas separadoras de óleo, tanques de decantação, filtros, etc. 4.12.2. Realizar a gestão do meio ambiente Uma vez analisados os impactos e definidos os mais relevantes, é preciso definir as medidas de controle que serão adotadas para sua mitigação, também chamadas de controle operacional. O controle operacional pressupõe o gerenciamento de resíduos, de efluentes líquidos, de emissões atmosféricas, outros aspectos significativos (ruído, odor, vibração) e, a otimização do uso de recursos naturais e energia. Como controles operacionais podemos citar, como exemplo, a instalação de aspersores para reduzir a emissão de material particulado durante os processos de escavação e execução de fundações, a instalação de telhas translúcidas para reduzir o consumo de energia elétrica e melhoria da salubridade das instalações provisórias e a implantação de coleta seletiva no canteiro para proporcionar a reciclagem de resíduos. Também é possível a implantação de uma horta para melhoria da qualidade de vida no canteiro (Figura 143). Figura 143 – Exemplo de medidas de controle operacional. Uma medida de controle operacional que visa a redução de impacto no entorno do empreendimento é a instalação de sistemas de lava rodas onde, todo veículo que deixa o canteiro, tem seus pneus lavados para evitar que sujem as vias públicas. Este sistema pode trabalhar com captação de água de chuva e sistema fechado de reuso (Figura 144). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 192 • Figura 144 – Lava rodas. Oportunidades para gestão ambiental responsável estão em todos os processos e em todos os espaços de um canteiro de obra. Podemos implantar sistemas de utilização de água de chuva ou até mesmo captar e utilizar água proveniente da condensação de equipamentos de ar condicionado (Figura 145). Figura 145 – Aproveitamento de água de chuva e de água de condensação do ar condicionado. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 193 • Também é possível a implantação de medidas de controle que reúnam a reutilização de resíduos e ações sociais de geração de renda para comunidades carentes. É o caso da criação fabricação de produtos, utilizando como matéria prima resíduos de obra, para atender demandas já existentes na empresa como brindes, malotes, bags, etc. (Figura 146). Figura 146 – Produtos produzidos a partir de resíduos de obra. Preparação para emergências É preciso estar sempre pronto para emergências. Isto pressupõe identificar possíveis situações emergenciais previamente, definir as formas de mitigar seus impactos, prover os recursos necessários e manter a equipe capacitada para agir quando necessário. Podemos citar como exemplos de ações preventivas para emergências a utilização de bacias de contenção em todas as situações onde existe o risco de ocorrência de vazamentos de produtos químicos, ou a disponibilização de kit de mitigação de vazamento de óleo, próximo à operação de equipamentos móveis, como o caso de escavadeiras. Este kit contém serragem para absorção do vazamento, ferramentas para coleta do resíduo, sacos plásticos e tambores apropriados para seu armazenamento e sinalização para o isolamento da área (Figura 147). Figura 147 – Bacia de contenção e kit de emergência ambiental. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 194 • 4.12.3. Monitorar e controlar o meio ambiente Monitorar um processo significa acompanhar sua evolução. Já controlar um processo significa mantê-lo dentro de limites preestabelecidos. No caso da gestão ambiental, precisamos fazer ambos. A construtora deve estabelecer metas ambientais e indicadores de desempenho de forma a orientar a gestão e demonstrar a melhoria contínua. Estes indicadores podem ser referentes ao consumo de recursos naturais, a geração de resíduos ou consumo de energia. É preciso realizar o controle e inventário de todos os resíduos gerados, suas características, sua quantidade, transporte, destinação e, os respectivos responsáveis e sua regularidade junto aos órgãos ambientais. Além de atender a requisitos legais, tal prática é necessária para se realizar um adequado gerenciamento dos resíduos (Figura 148). Devemos também monitorar o consumo de recursos naturais de forma a direcionar as ações e esforçospara a redução de sua utilização. Podemos monitorar o consumo de energia elétrica, consumo de água, seja de abastecimento público, reuso, captação do subsolo ou de chuva, consumo de combustível, consumo de areia, brita, madeira, etc. (Figura 149). Figura 148 – Exemplo de painel de gestão do uso de recursos naturais. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 195 • Figura 149 – Exemplo de painel de indicadores de gestão de resíduos. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 196 • 4.13 Gestão da integração Um gerenciamento eficaz de um empreendimento requer elevado grau de integração e controle de suas interfaces. O cerne do modelo de gestão proposto é a integração entre todos os processos, de todas as fases de desenvolvimento, entre as diversas especialidades e entre os diversos stakeholders envolvidos. Buscamos a integração para executá-lo de uma forma mais eficiente e eficaz e obtermos melhores resultados. Por definição, integrar significa “constituir um todo pela adição ou combinação de partes”. Os processos de integração em um empreendimento zelam pela coerência do todo, facilitando a combinação de processos que de forma isolada não produziriam o resultado esperado. Funcionam como uma espinha dorsal que conduz o empreendimento do seu termo de abertura ao seu termo de encerramento. O gerenciamento da integração consiste em resolver os conflitos que surgirão, buscando melhores soluções para o empreendimento como todo. Inclui os processos e as atividades necessárias para identificar, definir, combinar, unificar e coordenar os vários processos e atividades de gerenciamento do empreendimento. Dentre os mais relevantes para o empreendimento podemos citar: o gerenciamento da execução, o controle integrado de mudanças e o encerramento do empreendimento. 4.13.1. Gerenciar a execução Uma vez planejado o empreendimento, é preciso executá-lo. O empreendimento é colocado em movimento através da identificação das atividades de serão executadas, com a aquisição de recursos, a disponibilização de projetos e mão de obra, as análises técnicas, de segurança e de meio ambiente, de forma a cumprir ao que foi planejado (Figura 150). Esta é realizada através dos ciclos de gestão de médio e longo prazo. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 197 • Figura 150 – Fluxo de gestão da execução. A integração de todas as ações, tomadas nas várias esferas de decisão e análise, também é fundamental para um bom desempenho. Esta integração se concretiza com a utilização de um único plano de ação para o empreendimento, onde todas as ações tomadas, sejam de que stakeholder forem, sejam de que especialidade ou área de conhecimento forem, são registradas e gerenciadas (Figura 151). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 198 • Figura 151 – Modelo de centralização de plano de ação. O plano de ação centralizado permite o fácil acompanhamento se as ações estão sendo realmente executadas e qual seu status. Também permite que uma área saiba que ações estão sendo tomadas por outras áreas a respeito do empreendimento, permite aos superiores acompanhar as dificuldades que estão sendo encontradas e oferecer o apoio necessário, ou seja, dá transparência à gestão (Figura 152). A centralização do plano de ação não significa que as decisões podem ser tomadas individualmente, sem levar em consideração os impactos na demais áreas, ou que não se deve envolver os demais stakeholders nas decisões. O plano de ação centralizado busca facilitar o acompanhamento das ações e criar sinergia entre as diversas equipes, permitindo que todos participem da gestão. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 199 • Figura 152- Exemplo de plano de ação centralizado 4.13.2. Realizar o controle integrado de mudanças As mudanças são inevitáveis no ambiente de um empreendimento, mas isto não quer dizer que são ruins. O que pode as tornar ruins são a falta de planejamento e o seu mal gerenciamento. As mudanças podem ocorrer por várias razões: por solicitação de um dos stakeholders, por problemas ocorridos interna ou externamente ao empreendimento, entre outros. As mudanças podem ser necessárias ou requeridas, entretanto, nem toda solicitação deve ser aceita ou implementada. Quando um stakeholder solicita uma mudança, intencional ou não, esta pode impactar os objetivos do empreendimento, e, por isto, deve antes ser analisada e aprovada. O gerenciamento de mudanças consiste em receber as solicitações de mudança ou identificar a necessidade dela, promover sua análise de impacto nas demais áreas de conhecimento e nos objetivos do empreendimento, e submetê-la à aprovação, com o respectivo replanejamento, caso seja aprovada ou arquivamento, caso seja reprovada (Figura 153). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 200 • Solicitação de mudança Análise dos impactos e benefícios da mudança Mudança aprovada? Arquivar solicitação Revisar planejamento Não Sim Figura 153 – Fluxo de aprovação de mudanças GERENCIAMENTO DE OBRAS • 201 • Figura 154 – Exemplo de análise de solicitação de mudança. É preciso determinar prioridades, avaliar o impacto das mudanças nos objetivos do empreendimento. Esta análise deve abranger os impactos nos stakeholders, nos objetivos do empreendimento e nas demais áreas de conhecimento como custo, prazo, escopo, riscos, qualidade, benefícios esperados. É preciso balancear os ganhos esperados com a mudança com os impactos que as mesmas causarão. A proposta de mudança pode ser aprovada ou rejeitada, ou adiada. Uma vez aprovada, deve ser implementada através do planejamento do empreendimento (Figura 154). GERENCIAMENTO DE OBRAS • 202 • Todas as mudanças aprovadas durante o empreendimento devem ser registradas em uma planilha que permita no seu encerramento rastrear as mudanças ocorridas, suas justificativas e seus principais impactos, de forma a avaliar corretamente os motivos o que levaram a atingir este resultado final. Figura 155 – Planilha de controle integrado de mudanças. 4.13.3. Encerrar o empreendimento O processo de encerramento de um empreendimento é a busca pela finalização ordenada dele e de seus processos. O empreendimento é encerrado quando seu resultado foi entregue. É preciso garantir que o produto e todas as suas funcionalidades foram entregues e recebidos, e que todos os contratos foram cumpridos e encerrados. Vários são os processos para se garantir o correto encerramento de um empreendimento. Podemos citar os seguintes: • Entregar formalmente o empreendimento, ou seja, entregar as unidades privativas, a área comum, realizar as entregas técnicas de sistemas, entregar a documentação legal como manual de uso e operação, certificados de garantia, manuais, projetos, as built, etc. • Comunicar formalmente aos principais stakeholders que o empreendimento foi encerrado e que seus objetivos foram atingidos. • Encerrar todos os contratos com fornecedores, ou seja, todos os contratados devem ter seus produtos recebidos e ter seus termos de encerramento e garantia assinados. Caso existam divergências ou pleitos, estes devem ser resolvidos antes do seu encerramento formal. Se um empreendimento não encerrou todos os contratos, então ele não foi concluído. Uma auditoria de suprimentos é uma boa prática para encerramento do empreendimento. Comunicar aos fornecedores de materiais que o empreendimento está encerrado ajuda a evitar que compras indevidas possam ser realizadas. • Realizar o encerramento legal do empreendimento como por exemplo comunicar ao ministério do trabalho a conclusão de obra, extinguir a CIPA, transferências das titularidades de contratos com concessionárias, elevadores, etc. • Transferência ou desmobilização da equipe; • Desmobilização de equipamentos e materiais remanescentes; Uma boa prática para o encerramento do empreendimento é a realização de uma reunião de encerramento, juntamente com a reunião de lições aprendidas. Esta reunião permite a realização de uma análise crítica de seu desempenho,em todas as áreas de conhecimento e sob todos os aspectos de desempenho, de forma a utilizar estas informações em outros empreendimentos. Seu principal objetivo é explicitar conhecimento tácito e organizar o conhecimento formal de forma a permitir o registro e aprendizado da organização. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 203 • GERENCIAMENTO DE OBRAS • 204 • 5. Gestão Técnica O sucesso de um empreendimento está associado não só à qualidade técnica de seus projetos, e sim ao seu desenvolvimento de forma integrada à gestão do trabalho e gestão da produção. É justamente durante a fase de desenvolvimento dos projetos que surgem as maiores oportunidades para se melhorar o resultado final do empreendimento e onde as decisões tem maior potencial de geração de valor e redução de custos. A gestão técnica trata dos processos que organizam o desenvolvimento dos projetos. As principais fases são projetos básicos, projetos executivos, projetos a produção, projetos complementares, monitoramento e controle e as built (Figura 156). Nesta etapa também são analisadas questões como a construtibilidade das soluções adotadas, a compatibilização entre as especialidades e o melhor plano de ataque para o empreendimento. A melhoria contínua da gestão técnica é garantida pelos processos de pós-ocupação, onde o feedback da área de assistência técnica, das vistorias preventivas e das pesquisas pós-ocupação, realimentam os processos de desenvolvimento. PROJETOS Monitorar e controlar os Projetos PROJETOS As Built PROJETOS Projetos Básicos PROJETOS Constructibilidade PROJETOS Plano de ataque PROJETOS Complementares PROJETOS Compatibilização PROJETOS Projeto à Produção PROJETOS Projetos Executivos INTEGRAÇÃO Realizar o controle integ. de mudanças LOGISTICA Programação logística LOGISTICA Executar Logística INTEGRAÇÃO Orientar e gerenciar a execução INTEGRAÇÃO Encerrar o empreendimento ESCOPO Definir o Escopo RISCO Planejar respostas a riscos AQUISIÇÕES Planejar aquisições SAÚDE E SAÚDE E SEGURANÇA Plano de Segurança QUALIDADE Planejar a qualidade STAKEHOLDERS Planejar partes interessadas CUSTO Orçamento Executivo TEMPO Cronograma Executivo PÓS- OCUPAÇÃO Assistência Técnica PÓS-OCUPAÇÃO Pesquisa de pós- ocupação COMUNICAÇÕES Lições aprendidas INTEGRAÇÃO Definir Termo de Abertura PÓS-OCUPAÇÃO PÓS-OCUPAÇÃO Assistência Técnica PÓS-OCUPAÇÃO Plano de Vistoria PÓS-OCUPAÇÃO Pesquisa de pós- ocupação Figura 156 - Processos de gestão técnica. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 205 • A complexidade dos projetos e a evolução tecnológica têm levado a uma crescente especialização e consequente fracionamento por especialidades. Esta por sua vez, leva ao aumento do número de intervenientes, cada qual com o seu foco e, muitas vezes, com objetivos diferentes, tornando a atividade de projetar uma atividade multidisciplinar e interdisciplinar. Desta forma, cada projetista fica com um pacote cada vez menor e as responsabilidades ficam divididas, causando dependência e interferência mútua. O aumento do número de intervenientes gera um fluxo maior de comunicação, que por sua vez, exige integração e compatibilização, demandando um esforço maior de coordenação. Coordenação de projetos A coordenação de projetos pode der definida como a gestão dos processos de desenvolvimento dos projetos, buscando integrar sinergicamente as necessidades, conhecimento e técnicas dos intervenientes, resolvendo os conflitos e buscando as metas de custo, prazo e qualidade do empreendimento. Isto envolve domínio do fluxo de informações, poder de decisão, gestão de conflitos e foco nos objetivos. Deve-se buscar sempre o aumento da eficiência e eficácia do processo, especialmente com relação ao produto, sistemas e tecnologias adotadas. Falhas neste processo podem causar grandes transtornos e retrabalhos. As atividades do coordenador envolvem a identificação das interfaces técnicas, a definição das diretrizes de projeto, a garantia de compatibilização entre as diversas especialidades e os processos produtivos, a garantia de um adequado fluxo de informação entre os projetistas e demais envolvidos, o controle das revisões de projeto, a adequada apresentação dos projetos à equipe de produção, entre outros. Para que haja uma coordenação eficiente e para que as barreiras impostas pela estrutura dividida do trabalho simultâneo e conjunto sejam vencidas, a utilização de portais e sistemas colaborativos de comunicação via web são fundamentais. É preciso que cada projetista tenha acesso às informações produzidas por todos os demais. Uma prática, cada vez mais utilizada, que desafia os atuais modelos de gestão e coordenação é a engenharia simultânea, abordada no capítulo 4.3.4.2. Nesta técnica, os projetos são desenvolvidos paralelamente à execução do empreendimento, o que potencializa os riscos e dificulta em muito a gestão de escopo. A utilização da engenharia simultânea exige maturidade da empresa, dos processos e dos profissionais envolvidos e reforça a importância da abordagem do planejamento por ondas sucessivas, uma vez que o escopo vai sendo detalhado durante o desenvolvimento dos projetos. Qualidade dos projetos Os bons projetos devem ter como objetivo atender aos requisitos e expectativas dos clientes, da construtora, da incorporadora, dos projetistas, da comunidade e dos demais stakeholders, buscando sempre conciliar as divergências que surgirem. Também deve ser claro nas informações, não possuir ambiguidades e não deixar dúvidas de interpretação. A qualidade dos projetos está associada à qualidade do seu processo de criação, das soluções adotadas, do dimensionamento e do detalhamento realizado, sendo uma resultante da interação entre vários especialistas, com várias visões e focos diferentes, buscando um objetivo comum. Quanto melhores forem os projetos, menos decisões serão tomadas no canteiro, sob condições adversas e sem visão sistêmica. Um dos principais objetivos de um projeto é o de transmitir informações e, para que isto ocorra de forma eficiente, é preciso estar atento também a detalhes como: escalas e tamanhos de projetos compatíveis aos locais de uso, padronização da simbologia, distribuição de informações compatíveis com as sequencias executivas e momento de uso de cada planta, entre outros. GERENCIAMENTO DE OBRAS • 206 • Os projetos precisam também se aproximar das reais necessidades da obra. O distanciamento entre a atividade de projetar e a atividade de construir tem gerado projetos distantes da realidade, custosos, que não atendem aos requisitos de desempenho e algumas vezes impossíveis de serem executados. Envolver a equipe que será responsável pela execução do empreendimento nas definições de projeto, melhora a qualidade das escolhas realizadas e cria um sentimento de corresponsabilidade, tornando-os mais abertos às soluções de engenharia adotadas. De todos os objetivos de um projeto, um dos mais importantes é a qualidade do edifício a ser construído. A qualidade de uma edificação está diretamente relacionada ao seu desempenho. Os requisitos de desempenho expressam qualitativamente os atributos que a edificação deve atingir, para que atenda aos requisitos do usuário. É preciso buscar sistematicamente a redução das patologias, entendendo patologia como um problema manifestado na edificação em função de falhas de projeto, construção, materiais, uso ou manutenção que não decorram do envelhecimento natural. Dentre as características de qualidade de uma edificação podemos citar como os principais sua manutenabilidade, sua vida útil e seu desempenho em uso. Manutenabilidade A manutenabilidade é definida pelo grau de facilidade com que a edificação pode ser mantida no nível de desempenho requerido, sob condições especificadas, quando a manutenção é executada conforme predeterminado. O projeto também deve ser pensado de forma a facilitar o acesso, a fixação