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CONVERSA DE CONVERSA DE
CIENTISTAS
Quando o ser humano aprendeu a falar? A invenção da linguagem falada é um dos temas mais controvertidos 
no mundo científico. Há, basicamente, duas correntes. A primeira, defendida pelo linguista canadense Steven 
Pinker (1954-), postula que a fala é inata à espécie humana e evoluiu ao longo do processo de hominização, 
adaptando-se às necessidades de sobrevivência coletiva. A segunda, sustentada pelo psicólogo estadunidense 
Michael Tomasello (1950-), concebe que a linguagem humana não é inata, mas adquirida a partir da cognição 
animal. Seja como for, o desenvolvimento da linguagem é um fenômeno ligado à inteligência, que, por 
sua vez, deriva do tamanho da massa encefálica. E é a espécie humana que possui esse requisito para o 
desenvolvimento da fala em grau muito superior ao das demais espécies. 
A inteligência humana é a base da consciência e da memória. O cientista Carl Sagan (1934-1996), no 
livro Os dragões do Éden, publicado em 1977, sustenta a ideia de que uma das primeiras consequências da 
capacidade humana de prever fatos com base na observação do meio deve ter sido a consciência da morte. 
Não por acaso, as cerimônias fúnebres estão entre as mais antigas da humanidade. Há indícios de que eram 
praticadas desde o tempo do neandertal.
Michael Corballis (1936-), no livro Da mão para a boca, de 2003, afirma que a primeira linguagem humana 
foi a gestual, e não a vocal.
	■ Com base no texto acima e nas informações do capítulo, discutam em grupo:
a) Qual posição parece mais convincente: a que postula a origem inata da lin-
guagem humana ou a que sustenta que ela tenha sido adquirida?
b) Que tipo de característica do neandertal permite supor o desenvolvimento 
de alguma linguagem vocal entre os hominídeos?
D O M ê N I O D O F O G O
O domínio do fogo, derivado da relação cérebro-inteligência, é um atributo 
exclusivo dos seres humanos, mesmo antes do Homo sapiens. Permitiu aos 
hominídeos iluminar cavernas e assar carnes, 
dois fatores importantes para comprovar o caráter 
evolucionário, ou revolucionário, da humanidade 
de produzir o fogo.
Presume-se que o fogo tenha sido descoberto 
com base na observação dos efeitos causados pela 
queda de raios em árvores. Por isso, os incêndios nas 
florestas foram valiosos para a humanidade. Supõe-
-se que o neandertal já era capaz de produzir fogo 
friccionando pedras ou gravetos. Queimando palha 
com as faíscas, nossos antepassados puderam ter 
abrigos iluminados e aquecidos, armaram fogueiras 
e utilizaram tochas para espantar feras perigosas.
Prometeu, de Peter Paul Rubens, c. 1611-1612 (óleo sobre tela 
de 242,6 cm 3 209,5 cm). Segundo o mito grego, Prometeu 
roubou de Zeus, o maior entre os deuses da Grécia antiga, 
o segredo do fogo para dar aos seres humanos. Por isso, foi 
condenado a ficar acorrentado no cume de uma montanha, 
onde diariamente uma águia comia seu fígado, que se 
regenerava durante a noite. Isso teria durado muitas eras.
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Cena do filme A guerra do 
fogo. Direção de Jean-Jacques 
Annaud, de 1981.
A descoberta do fogo foi de tal maneira decisiva para a huma-
nidade que a dramaturgia ateniense, na Antiguidade clássica, 
produziu uma peça tratando do assunto: Prometeu acorrentado.
A peça grega, escrita milhares de anos depois que o neander-
tal descobriu o fogo, ilustra o significado dele para a humanida-
de. Um segredo divino, uma habilidade que os homens não po-
deriam alcançar por si mesmos, sob pena de castigos atrozes. 
Mas trata-se de um mito: no fundo é um elogio ao homem, que 
desafiou os deuses, sacrificando-se pelo bem da humanidade.
A descoberta do fogo foi essencial no processo de homini-
zação. Uma ação completamente humana. Mas tal descoberta 
esteve longe de ser o início de um processo linear. Assim como 
a própria hominização e a criação de diversas tecnologias, o do-
mínio do fogo foi multifocal: uma descoberta que se fez e se 
perdeu, durante milhares de anos, entre grupos dispersos, sem 
qualquer comunicação entre si. Pode ter sido difundida por grupos de neandertais, que 
já migravam, ou surgido espontaneamente, por experiência empírica de comunidades 
isoladas. De todo modo, foi um marco na formação da humanidade.
E V O L U C I O N I S M O, D E S V I O S 
I D E O L Ó G I C O S V E R S U S VA L O R C I E N T Í F I C O
O evolucionismo é uma corrente do pensamento científico tão polêmica hoje 
quanto foi no passado. No século XIX, assim como no século atual, o paradigma 
religioso foi, e é, o grande adversário dos evolucionistas, acusados de ateísmo por 
explicarem a origem do mundo e da humanidade com base na ciência. 
Porém, no século XX, questões sobre a teoria evolucionista envolveram política e 
ideologia. Desde o fim do século XIX, o evolucionismo inspirou filosofias empenha-
das em hierarquizar a humanidade segundo critérios raciais, que colocam os bran-
cos ocidentais no topo de uma civilização ideal e os nativos de outros continentes, 
como povos bárbaros e selvagens, próximos do “homem primitivo”. 
Inspirou, ainda, políticas de perseguição e extermínio de populações. O grande 
alvo das ideias e políticas de inspiração evolucionista – que podemos caracterizar 
como um darwinismo social – foi a mestiçagem, tanto racial como cultural, em que 
o conceito de raça prevalece sobre o de cultura.
A partir da segunda metade do século XX, sobretudo após a derrota do nazismo 
na Segunda Guerra Mundial, o evolucionismo foi posto em xeque exatamente por 
ter incentivado a desqualificação e a perseguição de povos considerados inferiores. 
Em 1948, ao se aprovarem “o respeito universal e a observância dos direitos hu-
manos e liberdades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo, língua 
ou religião”, na Declaração Universal dos Direitos do Homem da ONU, também as 
Ciências Humanas de tipo evolucionista foram questionadas.
Um desdobramento dessa declaração ética, no campo das Ciências Humanas, 
foi a difusão da Antropologia cultural em suas várias versões, que concebe a hu-
manidade considerando as diferenças (culturais) em vez das hierarquias (raciais).
Associar o evolucionismo exclusivamente à etnologia racialista ou ao darwinismo 
social é, porém, um equívoco. O evolucionismo, quando surgiu, desafiou frontal-
mente o paradigma religioso que predominava havia séculos no mundo ocidental. 
Estimulou reflexões interdisciplinares, pesquisas etnológicas de diversas culturas, 
registros de grande valor antropológico que, mais tarde, favoreceriam o conheci-
mento antropológico das diferenças culturais.
O racialismo derivado do evolucionismo pode ser considerado um desvio de 
rota do potencial científico da obra de Darwin e de seus seguidores, provocado 
por razões históricas: o combate à democracia e o surgimento de ditaduras na 
Europa, além da competição entre as potências imperialistas pelo domínio de 
colônias na África e na Ásia. 
Este assunto será trabalhado no Capítulo 2.
A guerra do fogo
Direção de 
Jean-Jacques 
Annaud. França, 
1981. Duração: 
101 min.
O filme conta a história 
de um grupo de 
hominídeos que deixou 
apagar o fogo da aldeia 
e não sabia mais como 
reacendê-lo. Três 
deles saem à procura 
de uma solução e 
fazem contato com 
outros grupos, alguns 
mais avançados no 
domínio da natureza. 
O filme pretendeu 
levantar hipóteses 
sobre a formação da 
linguagem, mostrando 
vários aspectos da vida 
desses ancestrais, 
sobretudo a luta pela 
sobrevivência.
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racialismo
modelo adotado por 
diversas Ciências 
Humanas, entre o 
século XIX e meados 
do século XX, no qual 
as sociedades eram 
pensadas com base em 
sua composição racial.
Twentieth Century Fox/Photofest/Easypix Brasil
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