Prévia do material em texto
67ANOS SC DF ES SP MG RS RJ PR RR RN MS AP GO AC CE MT BA PB TO PE SE PA MA AM RO PI AL BRASIL NEGROS (pretos e pardos) BRANCOS 68 69 70 71 72 73 74 75 76 77 78 79 80 81 82 83 Expectativa de vida ao nascer por raça/cor e unidade federativa do Brasil (2017) Galtung pesquisou formas para identificar e até mesmo medir a violência estrutural em uma sociedade, o que, a princípio, é mais difícil do que reco- nhecer a violência direta. A forma mais eficaz que o autor encontrou foi com- parar diferentes expectativas de vida entre setores da sociedade de acordo com a posição social. A expectativa de vida é um conceito estatístico que indica a média do tem- po de vida de determinada população e está relacionada com a qualidade de vida, já que fatores como educação, saúde, saneamento básico, por exemplo, influenciam-na diretamente. Aplicando o método de Galtung à realidade bra- sileira, poderíamos usar como exemplo um gráfico que expõe a expectativa de vida de pessoas negras e brancas em cada unidade da federação. 1. Compare a situação do estado onde você vive com a dos demais estados brasileiros. 2. Em qual estado brasileiro a discrepância entre os dados é maior? O que poderia explicar essa grande diferença? 3. Que conclusão podemos tirar a partir do gráfico de expectativa de vida, considerando a definição de Galtung sobre violência estrutural? Veja respostas e orientações no Manual do Professor. Interpretar NÃO ESCREVA NO LIVRO Fonte: elaborado com base em PNAD 2017 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Via Radar IDHM PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). F ó rm u la P ro d u ç õ e s /A rq u iv o d a e d it o ra 49 V5_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_046a083.indd 49V5_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_046a083.indd 49 9/24/20 9:13 AM9/24/20 9:13 AM Violência cultural A violência cultural se embasa em diferenças culturais, étnicas e de gênero e pode se manifestar através da arte, religião, ideologia, linguagens e ciência. Ela não está nas crenças e nos costumes em si, mas na forma como eles são utilizados para justificar ou legitimar formas de violência sem que pareça ser errado, ou seja, não necessariamente aparece como causadora direta ou indi- reta da violência, mas como legitimadora ou justificadora de atos violentos. Por isso, a violência cultural pode ser considerada a forma mais sutil, indire- ta e duradoura de agressões ao longo do tempo, e mudanças nesse campo po- dem ser extremamente lentas e difíceis de se notar. Nas palavras de Galtung: Por “violência cultural” nós queremos dizer aqueles aspectos da cul- tura, a esfera simbólica da nossa existência – exemplificada pela religião e a ideologia, a linguagem e a arte, a ciência empírica e formal (lógica, matemática) – que pode ser utilizada para justificar ou legitimar a violên- cia direta ou estrutural. […] A violência cultural faz com que a violência direta e estrutural apareça, ou mesmo seja sentida como, correta – ou ao menos não errada. Assim como a ciência política trata de dois problemas – o uso do poder e a legitimação do uso do poder – os estudos da violência são sobre dois problemas: o uso da violência e a legitimação desse uso. Para utilizar esse conceito é importante não incorrer no erro da genera- lização e reproduzir concepções preconceituosas, afirmando, por exemplo, que uma religião é violenta, como se a religião inteira fosse violenta. É aconselhável explicitar qual é o elemento violento em uma cultura, evi- tando assim reproduzir injustiças. Em vez de afirmar categoricamente que determinada cultura é violenta, é mais correto destacar que determinado as- pecto de determinada cultura é um exemplo de violência cultural. Muitas manifestações de violência envolvem mais de um tipo da classifi- cação de Galtung. Por isso mesmo, o autor aponta que a violência direta é a única visível aos olhos. Entretanto, ao analisarmos sua causa, veremos que há muitos fatores referentes às violências estrutural e cultural, o que pode ser simbolizado na imagem da página a seguir. GALTUNG, Johan. Cultural Violence. Journal of Peace Research, v. 27, 1o ago. 1990, p. 291 apud CONTI, Thomas V. Os conceitos de violência direta, estrutural e cultural. 31 maio 2016. Disponível em: http:// thomasvconti.com.br/2016/ os-conceitos-de-violencia- direta-estrutural-e-cultural/. Acesso em: 6 ago. 2020. Paz cultural Para se opor à violência cultural, Galtung utiliza o conceito de “paz cultural”, referindo-se a aspectos de uma cultura que justifiquem e legitimem ações para a promoção da paz. Por exemplo, elementos da cultura popular, obras de arte, símbolos nacionais como hinos, bandeiras, etc. podem ser usados para promover união e legitimar ações pacíficas. Contudo, os mesmos recursos podem ser usados para incitar violência, por isso é preciso tomar muito cuidado para não confundir a paz cultural com impor uma cultura sobre a outra, o que é em si um ato de violência cultural. Por exemplo, ainda que os portugueses, ao chegarem à América, afirmassem que queriam cristianizar os diferentes grupos indígenas, a imposição da cultura europeia a esses grupos foi um processo de violência cultural – com desdobramentos de violência direta e estrutural –, pois essa outra cultura lhes foi imposta independentemente da vontade desses grupos. Conceitos 50 V5_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_046a083.indd 50V5_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap2_046a083.indd 50 9/24/20 9:13 AM9/24/20 9:13 AM