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CENTRO UNIVERSITÁRIO DO DISTRITO FEDERAL - UDF GRADUAÇÃO EM DIREITO TERCEIRIZAÇÃO TRABALHISTA BRASÍLIA – DF 2024 2 1.CONCEITO E DENOMINAÇÃO A Terceirização surge como estratégia na forma de administração de empresas, no contexto da Segunda Guerra Mundial, a partir da necessidade de produção de material bélico de forma primária. A sua natureza jurídica é contratual, sendo estabelecida pelo acordo entre a contratante, denominada tomadora, e de outra, a contratada, denominada prestadora, que prestará serviços especializados àquela, de forma contínua e em caráter de parceria. A relação será regida pelo Direito Civil, onde o Direito do Trabalho irá reger apenas às relações entre os empregados (pessoas físicas) e os empregadores (pessoas jurídicas). Entretanto, a relação contratual entre o contratante, pode a ele recair todos os encargos trabalhistas referentes aos empregados cedidos pela empresa prestadora de serviços, caso a terceirização seja ilícita. A Terceirização é uma versão em português para o termo em inglês “outsourcing”, que significa fonte externa, ou fornecimento vindo de fora. A ideia de “terceiro” no sistema de terceirização, é a de que o cliente vem em primeiro lugar e a empresa contratada para o repasse da atividade como terceira. A terceirização, ainda que siga os ritos das leis e normas sindicais, nos traz uma grande desburocratização. Aos empregados terceirizados lhes são garantidos todos os direitos trabalhistas, como salário, horas extras, 13º salário, férias, e aqueles estabelecidos por acordos e convenções coletivas, negociados pelos sindicais das suas respectivas categorias profissionais. Importante salientar, que as empresas contratantes, terão o papel de fiscalizar o cumprimento das obrigações trabalhistas e previdenciárias. Bezerra Leite retrata que os sindicatos das categorias profissionais se opõem ao processo de terceirização, e isto deriva da possibilidade de 3 desfalecimento de seus poderes, inclusive de barganha, salários e vantagens previstas em convenções coletivas e acordos coletivos, no qual todas essas razões têm como consequência a diminuição das fontes de receitas sindicais. Trataremos agora, o que diz respeito à doutrina de Carlos Henrique Bezerra Leite. Segundo o referido doutrinador “constitui neologismo oriundo do vocábulo “terceiro”, no sentido de intermediário, interveniente ou medianeiro”. Bezerra Leite também traz algumas denominações para este fenômeno da terceirização, tais como Subcontratação, horizontalização e contratos triangulares. Em relação ao conceito, as suas exemplificações de sua doutrina Terceirização, para nós, é um procedimento adotado por uma empresa que, no intuito de reduzir os seus custos, aumentar a sua lucratividade e, em consequência, sua competitividade no mercado, contrata outra empresa que, possuindo pessoal próprio, passará a prestar aqueles serviços que seriam realizados normalmente pelos seus empregadores. (Bezerra Leite, 2023, pág 542) Camilly Vieira de Souza Loiola Cavalcanti e Ana Luiza Prata E. 2. EVOLUÇÃO LEGAL DA TERCEIRIZAÇÃO TRABALHISTA E JURISPRUDENCIAL Nesta parte será apresentado a evolução legal e jurisprudencial da terceirização trabalhista. Que é algo de suma importância para a evolução da sociedade no âmbito trabalhista, devido a tentativa de melhorar a qualidade de trabalho para o empregado, visando sempre o apoio e proteção ao mesmo. Isso será notado no decorrer dos parágrafos, após a apresentação da evolução que as leis obtiveram no decorrer do período. 4 Pode-se dizer que o processo de evolução teve grande notoriedade a partir de 1980, quando o TST fixou a súmula 256, porém devido a suas fragilidades criou- se a súmula 331, a qual veio como resposta às críticas feitas a 256. A 331 trouxe consigo esclarecimentos sobre terceirização lícita e ilícita. Durante muitos anos, a terceirização era regida pela súmula 331 do TST (Tribunal Superior do Trabalho), porém acabou perdendo suas forças, isso porque as varas trabalhistas vinham recebendo muitos processos, em 2016 por exemplo chegou a receber 106 mil processos. Isso demonstra uma grande fragilidade. Em 2017, com o advento das leis 13.429 (terceirização) e 13.467 (Reforma Trabalhista), ficou estabelecido que a partir de então as empresas poderiam terceirizar qualquer atividade, mas para isso seria necessário a garantia de proteções aos trabalhadores. Garantias essas como, transporte, alimentação, treinamento, saúde, segurança, entre outros. Primeiramente a terceirização teve sua origem na revolução industrial a fim de harmonizar os conflitos entre empregados e empregadores visando maior qualidade na prestação do serviço. A respeito da terceirização, Delgado (2005, p. 430) menciona que se trata de um fenômeno pelo qual se dissocia a relação econômica de trabalho da relação justrabalhista que lhe seria correspondente. Por esse fenômeno insere-se o trabalhador no processo produtivo do tomador de serviços sem que se estendam a este os laços justrabalhistas, que se preservam fixados com uma atividade interveniente. No contexto da revolução industrial, em meados do século XVIII. As utilizações de máquinas como meio de produção acarretaram o desemprego de milhares de pessoas, pois reduziam drasticamente a necessidade de mão de obra, ao mesmo tempo em que realizavam a atividade de muitos obreiros sem necessidade de descanso ou de salário. O que levou as indústrias a contratarem os obreiros que ficaram 5 desempregados, não mais como empregados, mas sim para a prestação de serviços sem vínculo empregatício e em várias unidades. Dessa maneira, a ocorrência da Revolução Industrial e as posteriores transformações do mundo globalizado possibilitaram o surgimento da terceirização do trabalho, que antes era prestado pelos próprios empregados da empresa contratante, o que gerou uma profunda fragilização das relações entre empregado e empregador. No Brasil a terceirização surgiu por volta do século XX com o advento da indústria automobilística. As empresas realizavam toda a produção de peças e demais segmentos no mercado externo e vinham para o Brasil somente para fins de montagem do produto final. Com a falta de regulamentação do fenômeno da terceirização no direito brasileiro, essas empresas encontraram o mercado brasileiro totalmente favorável à sua exploração. O reconhecimento pelos tribunais trabalhistas veio em 1986, com a edição do enunciado 256 do TST, que guiou os julgados no sentido de permitir a terceirização apenas para os contratos temporários e de serviços de vigilância, como verdadeira exceção à regra, sob pena de ser caracterizada a relação de emprego entre empresa tomadora de serviços (contratante da empresa que fornece mão-de-obra) e trabalhadores.Com a edição da súmula 331, do C. TST, em 1993, tal situação foi flexibilizada, para abranger mais permissões à prática, fruto de uma revisão e ampliação do enunciado 256, permitiu que toda atividade-meio, e não só nos casos de trabalho temporário e vigilância, seria passível de terceirização. A súmula 331, do C. TST disciplinou, por décadas, o instituto da terceirização, até que, em 2017, com a entrada em vigor das leis 13.429/17 e 13.467/17, que alteraram a lei 6.019/74, a terceirização ganhou base legal específica, sendo permitida, de maneira expressa, a terceirização de forma ampla, ou seja, de qualquer atividade da contratante, incluída, desse modo, a terceirização da atividade-fim, o 6 que foi ratificado pelo STF quando do julgamento da tese de repercussão geral aprovada no RE 958.252 e da ADPF 324. Restou mantida aresponsabilidade subsidiária da empresa contratante, no caso de má contratação da empresa terceirizada que fornece a mão-de-obra, de modo que, nos termos da referida ADPF, é dever da contratante "verificar a idoneidade e a capacidade econômica da terceirizada". Ressalta-se ainda que para esse fim, conforme determinou o art. 4º-A da lei 6.019/74, a prestadora de serviços contratada deve possuir capacidade econômica compatível com a sua execução. A doutrina e a jurisprudência tinham papel fundamental na conceituação da terceirização, antes do advento das Leis nº 13.429, de 31 de março de 2017 e nº 13.467, 13 de julho de 2017. Pois no Brasil, não existia lei que conceituasse ou regulamentasse expressamente a terceirização. Desse modo, segundo Delgado (2008, p. 438), “o laconismo de regras legais em torno de tão relevante fenômeno sociojurídico conduziu a prática de intensa atividade interpretativa pela jurisprudência, em busca de assimilar a inovação socio trabalhista ao cenário normativo existente no país”. A realidade socioeconômica estava a demonstrar que era inflexível a adoção pelas empresas do sistema de delegar a terceiros ou a terceiras a execução de serviços complementares à sua atividade. Nesse meio-tempo, a suprema corte trabalhista brasileira, diante da excessiva ocupação pela Justiça do Trabalho com as lides decorrentes da “terceirização locação” de mão de obra e, ainda, ante a inexistência de norma reguladora desses contratos, aprovou o Enunciado que se tornou a jurisprudência nacional predominante na disciplina da matéria, a súmula 331 do TST. De início não foram todas as formas de terceirização admitidas. Por muito tempo a terceirização foi objeto de enormes controvérsias. Sem prescrição legal, o assunto era regido pela súmula 331 do TST 7 que tinha a finalidade de fazer uma distinção artificial entre atividades- meio e atividades fim. A primeira é considerada lícita, a segunda, fraudulenta. A referida distinção gerou dúvidas por não se saber exatamente a diferença entre esses conceitos crescentes, quanto ao que podia e o que não podia ser terceirizado pelas empresas, o que gerava um impacto negativo no seu desempenho e no trabalho em redes. Com o advento das leis 13.429 (terceirização) e 13.467 (reforma trabalhista) em 2017, foi possível esclarecer que as empresas podem terceirizar qualquer atividade, desde que garantam as devidas proteções aos trabalhadores envolvidos no processo. Com o aparecimento da reforma trabalhista promovida pela Lei 13.467, 13 de julho de 2017, passou-se a admitir expressamente a terceirização de forma ampla, ou seja, de quaisquer das atividades da tomadora, inclusive de sua atividade-fim. Logo, ficou superada a distinção entre atividades-fim e atividades-meio, anteriormente adotada pela jurisprudência no referido item III da comentada Súmula 331 do TST. Assim, desde 2017, a Lei do Trabalho Temporário (lei 6.019/74) é o instrumento que regula tanto o trabalho temporário quanto a terceirização. É notório a evolução da regulamentação sobre o tema, que ocorre de forma cada vez mais permissiva no que tange ao fenômeno da terceirização, sendo necessário que os empregadores se atualizem sobre as novas possibilidades, que podem lhes possibilitar uma melhor forma de execução de suas atividades, com manutenção de qualidade e redução de custos, bem como aplicando medidas de caráter preventivo, para a manutenção e inserção adequada do processo de terceirização, visando manter sua legalidade. Ao final, conclui-se que a terceirização não é um fenômeno novo, contudo, a pouco tempo passou a ter maiores regulamentações. Diante disso, para se ter uma melhor aplicação do bom direito, é preciso haver 8 uma análise rigorosa do caso concreto, visando priorizar sempre a dignidade da pessoa humana e os direitos básicos dos trabalhadores. 2. 1 ENTENDIMENTO JURISPRUDENCIAL RECURSO DE REVISTA INTERPOSTO PELA RECLAMADA. LEI 13.467 /2017. TERCEIRIZAÇÃO ILÍCITA. ARTIGO 25 DA LEI Nº 8.987 /95. ADPF Nº 324 E RE Nº 958.252 . DISTINGUISHING . VERIFICAÇÃO DA PRESENÇA DOS REQUISITOS DOS ARTS. 2.º E 3.º DA CLT . 1. O Supremo Tribunal Federal, no julgamento da ADPF 324 e do RE XXXXX , aprovou tese com repercussão geral no sentido de que: “É licita a terceirização ou qualquer outra forma de divisão do trabalho entre pessoas jurídicas distintas, independentemente do objeto social das empresas envolvidas, mantida a responsabilidade subsidiária da empresa contratante” ( RE XXXXX ). Portanto, de acordo com a Suprema Corte, é lícita a terceirização em todas as etapas do processo produtivo, sem distinção entre atividade-meio ou atividade- fim. 2. Todavia, admite-se a aplicação do distinguishing quanto à tese fixada pelo STF, quando, na análise do caso concreto, verificar-se a presença dos requisitos dos arts. 2º e 3º da CLT entre o empregado e a empresa tomadora dos serviços, situação que autoriza o reconhecimento do vínculo empregatício diretamente com esta, pois desfigurada a própria terceirização, utilizada apenas com o intuito de mascarar o vínculo empregatício do trabalhador. 3. Vale dizer, caso constatada fraude na aplicação da legislação trabalhista, não em decorrência do labor na atividade-fim da tomadora, mas pela constatação dos requisitos da relação de emprego, como no caso dos autos, em que comprovada a subordinação direta do trabalhador aos prepostos da ré, forçoso reconhecer a ilicitude da terceirização. Recurso de revista não conhecido. João Paulo Santos da Silva e Amanda Marques Nogueira Jara Vogado 9 3. EFEITOS JURÍDICOS Ao se falar em efeitos jurídicos na terceirização é importante ressaltar dois pontos, o vínculo com o tomador de serviços e a isonomia. Para entender melhor esses pontos, é preciso saber o que é terceirização lícita e terceirização ilícita. A terceirização lícita é dividida em quatro partes de acordo com Maurício Godinho Delgado (Ministro do Tribunal Superior do Trabalho), previstos na súmula 331 do TST: • Trabalho temporário: Segundo a legislação, o trabalho temporário é prestado por pessoa física, contratada por uma empresa de trabalho temporário, que a coloca à disposição de uma empresa tomadora de serviços ou cliente, para atender à necessidade de substituição transitória de pessoal permanente ou à demanda complementar de serviços. Instituído no Brasil pela Lei 6.019/1974, o trabalho temporário foi regulamentado pelo Decreto 10.060/2019, que alterou algumas regras, como o prazo do contrato, que era de três meses e passou a ser de 180 dias. O decreto também deixou claro que a necessidade contínua ou permanente ou a decorrente de abertura de filiais não é considerada demanda complementar. • Atividades de vigilância: É regida pela Lei 7.102/83, anteriormente a súmula 331 do TST, essa atividade era apenas para o setor bancário, porém a partir dessa súmula esse tipo de serviço passou a ser admissível também para outros segmentos do mercado de trabalho, inclusive pessoas naturais, que são regidos por normas específicas do setor. Existe uma diferença entre vigilante e vigia, o vigilante é submetido a regras próprias, já o vigia se submete a regras da categoria definida pela atividade exercida. • Atividades de conservação e limpeza: Essa atividade foi umas das pioneiras na terceirização por parte do mercado privado no país. Mesmo antes da súmula 331 do TST, essa prática já era vista. • Serviços especializados ligados a atividade-meio do tomador: Atividade-meio é aquela que não está intrinsecamente ligada à finalidade da empresa, mas que 10 é essencial para manutenção das operações. Ótimos exemplos típicos de atividades-meio incluem serviços de limpeza, conservação, manutenção, segurança e outros que não são diretamente ligados ao negócio principalda empresa. A terceirização ilícita: tirando as quatro hipóteses citadas acima, uma relação de prestação de serviços onde há existência de onerosidade, pessoalidade e subordinação de uma pessoa física com a outrem, estará configurado uma ilicitude. Além disso, a nova Lei trabalhista trouxe também a capacidade de economia compatível com a execução, ou seja, se uma determinada empresa não tiver essa capacidade, a terceirização acaba se tornando ilícita. Primeiramente, o vínculo com o tomador de serviços em uma atividade lícita, o empregado não tem o vínculo jurídico com o tomador de serviços e sim com a empresa terceirizada, onde terá todos seus vínculos trabalhistas ligados a ela, disposto na súmula 331, I do TST e na Lei n. 6.019/74 artigo 4º-A, parágrafo 2º. §2º Não se configura vínculo empregatício entre os trabalhadores, ou sócios das empresas prestadoras de serviços, qualquer que seja o seu ramo, e a empresa contratante. (Incluído pela Lei nº 13.429, de 2017) Ademais, a isonomia seria uma forma de equiparar os direitos trabalhistas de um terceirizado para um empregado que é diretamente contrato pelo tomador de serviços. Porém, esse tema gera muita discussão, pelo falo da Constituição Federal dizer no artigo 5º, caput que deve ter essa equiparação, mas a nova reforma da Lei trabalhista adotou pelo não acolhimento da isonomia, deixando a livre vontade das empresas se vão ou não aderir a equivalência. Está disposto no artigo 4-C, parágrafo 1º da Lei 6.019/74. § 1º Contratante e contratada poderão estabelecer, se assim entenderem, que os empregados da contratada farão jus a salário equivalente ao pago aos empregados da contratante, além de outros direitos não previstos neste artigo. (Incluído pela Lei nº 13.467, de 2017) Até a entrada em vigor da Lei 13.467/2017, era lícito terceirizar apenas as atividades-meio, e nunca as atividades-fim das empresas contratantes, conforme estabelecia o inciso III da Súmula 331 do Tribunal Superior do Trabalho, portanto, antes da Reforma Trabalhista e para que as empresas não terceirizassem a atividade principal ou preponderante (atividade-fim), era 11 importante que as mesmas observassem o parágrafo 2º do artigo 581 da CLT, que assim estabelece: “§ 2º Entende-se por atividade preponderante a que caracterizar a unidade de produto, operação ou objetivo final, para cuja obtenção todas as demais atividades convirjam, exclusivamente, em regime de conexão funcional.” Entende-se por atividade-fim da empresa aquela identificada no objeto social do contrato social, ou seja, aquela ligada diretamente ao produto final. As demais atividades intermediárias, que nada tem em comum com a atividade- fim, são consideradas como atividades-meio. Entretanto, a lei da Reforma Trabalhista (que vigora desde 11.11.2017) trouxe nova redação ao art. 4º-A da Lei 6.019/1974, estabelecendo que se considera prestação de serviços a terceiros a transferência feita pela contratante da execução de quaisquer de suas atividades, inclusive sua atividade principal (atividade-fim), à pessoa jurídica de direito privado prestadora de serviços que possua capacidade econômica compatível com a sua execução. “Art. 4º-A. Considera-se prestação de serviços a terceiros a transferência feita pela contratante da execução de quaisquer de suas atividades, inclusive sua atividade principal, à pessoa jurídica de direito privado prestadora de serviços que possua capacidade econômica compatível com a sua execução.” Outros efeitos é que as empresas contratantes de serviços terceirizados podem ser responsabilizadas subsidiariamente pelos direitos previdenciários e trabalhistas não pagos pela prestadora, em caso de demanda trabalhista. Isso ocorre independentemente de tais direitos estarem registrados pela empresa prestadora. Na prática, é observado frequentemente na Justiça do Trabalho diversas ações envolvendo praticamente todos os setores da economia (autarquias, empresas públicas, bancos, indústrias, empresas em geral, condomínios etc.). Essas empresas muitas vezes são condenadas a pagar novamente verbas que já haviam sido repassadas às empresas terceirizadas ao longo do contrato. No ano de 2022 o Tribunal Superior do Trabalho decidiu por maioria dos votos que empregados terceirizados não podem processar apenas uma das empresas contratantes caso recorram a Justiça Trabalhista em ação sobre 12 terceirização de atividade-fim. O objetivo foi uniformizar o cumprimento da decisão pela Justiça do Trabalho, em razão de demandas em que trabalhadores passaram a questionar possível fraude pela empresa tomadora, ou seja, o caso em que o trabalhador afirma ter vínculo de emprego com a empresa principal e não com a prestadora de serviços terceirizada, sua contratante direta. Os ministros decidiram que, caso o trabalhador queira entrar com processo alegando existência do vínculo, deve incluir como rés tanto a empresa prestadora de serviço como também a tomadora. E a decisão judicial valerá de maneira uniforme para ambas. O Supremo Tribunal Federal decidiu que a opção pela terceirização é um direito da empresa, que pode escolher o modelo mais conveniente de negócio em respeito ao princípio constitucional da livre iniciativa. E que a terceirização não leva à precarização nas relações de trabalho. Com a decisão do Supremo, os processos em andamento deveriam obedecer à nova regra da reforma trabalhista de 2017. Apenas os casos já encerrados, sem direito a recurso, não seriam alterados. A lei também permitiu a quarteirização da terceirização. Juristas divergem sobre a Lei 13.429/17, alguns afirmam sobre a precarização do serviço e outros sobre a geração de novos empregos, com a possibilidade da quarteirização teremos a fiscalização por empresas especializadas. Essa tendência pode ser constatada em definições mais atuais que dizem ser a quarteirização um termo criado para designar a delegação a um terceiro especialista da gestão da administração das relações com os demais terceiros. Ela acontece quando uma empresa contratada para prestar serviços terceirizados, contrata outra empresa para suprir alguma demanda no trabalho. A esfera jurídica é um exemplo de um ramo onde a quarteirização vem sendo empregada com excepcionais efeitos. Onde são desenvolvidas as tecnologias que atuam na gestão legal objetivando erradicação das falhas das empresas advindas da terceirização dos serviços jurídicos, tais como: a alienação do advogado em correlação às políticas corporativas e a falta da dimensão do risco 13 jurídico, o que deixando impossibilitado assim o maneio do passivo da empresa pelo gestor ou empresário. (SARATT, 2000) Outros efeitos jurídicos que a nova Lei de Terceirização ( Lei n° 13.429/2017) é a Responsabilidade subsidiária das empresas contratantes: As empresas contratantes de serviços terceirizados podem ser responsabilizadas subsidiariamente pelos direitos previdenciários e trabalhistas não pagos pela prestadora, em caso de demanda trabalhista, o que significa que, se a empresa terceirizada não cumprir suas obrigações, a contratante pode ser chamada a arcar com esses direitos. Proteção aos trabalhadores terceirizados: A lei assegura aos trabalhadores terceirizados igualdade de condições em relação a benefícios como alimentação, transporte, atendimento médico e treinamento adequado. Essa proteção visa garantir que os direitos dos empregados sejam preservados, independentemente de estarem vinculados à empresa contratante ou à prestadora de serviços. Limitação para evitar fraudes: A nova legislação impede que uma empresa demita um funcionário e o recontrate como terceirizado pela mesma empresa prestadora de serviços. Isso visa evitar que os empregadores utilizem a terceirização de forma indevida para burlar obrigações trabalhistas. Lunna Gabriela Silva Correa e Hugo SousaOliveira Matos 4. TERCEIRIZAÇÃO E RESPONSABILIDADE TRABALHISTA É observável que a prática da terceirização tem se tornado cada vez mais frequente em órgãos, empresas, lojas e outras entidades. As empresas que recorrem a serviços terceirizados devem assegurar que esses prestadores de serviços tenham condições laborais adequadas e que seus direitos contratuais sejam garantidos de acordo com a Lei Trabalhista. Isso implica garantir: Direitos trabalhistas (férias 14 remuneradas, 13º salário, entre outros); Jornada de trabalho definida em lei; Pagamento de salário respeitando o piso da categoria; Direitos fundamentais (liberdade sindical, proibição do trabalho infantil, entre outros); Condições de trabalho seguras e saudáveis. A ausência de transparência e comunicação adequada dificulta consideravelmente a supervisão para garantir a conformidade legal, e embora a terceirização possa proporcionar diversos benefícios, é imperativo que as empresas reconheçam que essa prática só pode ser realizada de maneira ética, mediante uma abordagem cautelosa e responsável. Vale ressaltar que no regime de terceirização, há a participação de três partes: a empresa, o empregado e a empresa tomadora de serviços (quem contratou), o que implica que não se trata de uma relação estritamente bilateral. Nesse contexto, o vínculo empregatício é estabelecido diretamente com a empresa prestadora de serviços, à qual a empresa delega uma parcela de suas atividades. Isso implica na transferência da execução de parte do processo de produção para a responsabilidade dessas entidades. 4. 1 RESPONSABILIDADE SUBSIDIÁRIA A responsabilidade subsidiária está prevista em lei e estabelece que o tomador de serviços pode ser responsabilizado subsidiariamente pelos débitos trabalhistas da empresa terceirizada. Na prática, isso significa que caso a terceirizada não cumpra suas obrigações trabalhistas, o tomador de serviços poderá ser acionado para assumir o pagamento das verbas trabalhistas devidas. Tal medida visa assegurar que os trabalhadores não sejam prejudicados mesmo que a terceirizada não cumpra com suas obrigações financeiras. Não obstante, embora a responsabilidade subsidiária não seja prevista em lei, seu entendimento tem como base 15 a Súmula 331 do Tribunal Superior do Trabalho (TST), que em seu Inciso IV estabelece o seguinte: O inadimplemento das obrigações trabalhistas, por parte do empregador, implica a responsabilidade subsidiária do tomador dos serviços quanto àquelas obrigações, desde que haja participado da relação processual e conste também do título executivo judicial. 4. 2 RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA No caso da responsabilidade solidária, tanto o tomador de serviços, quanto a empresa terceirizada são considerados responsáveis pelas obrigações trabalhistas. Ou seja, na eventualidade de um direito trabalhista não ser cumprido, o trabalhador pode acionar qualquer uma das partes. 4. 3 CONCLUSÃO A legislação trabalhista estabelece direitos que as empresas devem obrigatoriamente pagar aos trabalhadores, visando evitar abusos de poder e garantir segurança social e laboral. É fundamental que as empresas sigam as leis para evitar problemas legais e devem proteger os direitos dos funcionários. Lis Vitória Lapa dos Santos e Thayssa Hipólito Viana da Silva 5. ASPECTOS INTRODUTÓRIOS ACERCA DAS ENTIDADES ESTATAIS As estatais são as empresas pertencentes ao governo, criadas por meio de uma lei. Dessa maneira, elas são totais ou parcialmente controladas pelo governo federal, estadual ou municipal. Sendo que a sua criação se dá por meio da Lei das Estatais nº 13.303 de 2016, que dispõe sobre o estatuto jurídico da empresa pública, da sociedade de economia mista e de suas subsidiárias, no âmbito da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. 16 Em síntese, essas empresas têm como intuito a administração de recursos estratégicos do Brasil e a garantia de que a população terá acesso a eles. Além disso, elas devem contribuir para o alcance do bem-estar econômico. As empresas governamentais podem ser de dois tipos diferentes: empresas públicas ou sociedades de economia mista. As empresas públicas pertencem totalmente ao estado. Por outro lado, as empresas de economia mista têm participação do setor privado. Com o objetivo de melhorar a gestão e desempenho da empresa, pode ocorrer a privatização das estatais. Neste caso, elas deixam de ser empresas públicas e são vendidas por meio de leilão para o setor privado. Como exemplos de Entidades Estatais estão o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal. 5.1 PECULIARIDADES DAS ENTIDADES ESTATAIS As entidades estatais, representadas principalmente pelos governos e suas instituições, desempenham um papel fundamental na organização e funcionamento das sociedades modernas. São entidades complexas, dotadas de uma série de peculiaridades que as distinguem de outras formas de organização social e política. Compreender essas peculiaridades é essencial para uma análise aprofundada do papel do Estado na sociedade, sua relação com os cidadãos e outras entidades, bem como seu impacto nas dinâmicas políticas, econômicas e sociais. Neste trabalho, exploraremos algumas das características distintivas das entidades estatais, examinando sua natureza, funções e dinâmicas, a fim de lançar luz sobre sua importância e complexidade dentro do contexto contemporâneo. Nos termos do artigo 28 da Lei nº 13.303/16, que regula o estatuto jurídico das empresas públicas, sociedades de economia mista e suas subsidiárias, no âmbito da União, dos Estados, do DF e dos Municípios, que os contratos com terceiros destinados à prestação 17 de serviços às empresas estatais serão precedidos de licitação, ressalvadas as hipóteses previstas em seus arts. 29 e 30, as quais dispõem sobre dispensa de licitação e contratação direta respaldada em inviabilidade de competição. A terceirização consiste na possibilidade de transferir a terceiras algumas atividades de apoio, acessórias e instrumentais às atividades principais da empresa estatal, que são exclusivas de empregados públicos, conforme estabelecido no artigo 37, inciso II, da Constituição Federal. Esse dispositivo determina que o ingresso em cargo ou emprego público está condicionado à aprovação prévia em concurso público, salvo em casos de nomeação para cargo comissionado de livre nomeação e exoneração. É permitida a terceirização de atividades materiais acessórias, instrumentais ou complementares às atribuições que competem legalmente à empresa estatal, ou seja, atividades de apoio ao desempenho regular das atividades principais realizadas por empregados públicos aprovados em concurso público. Empresas públicas e sociedades de economia mista controladas pela União: O Artigo 4º do DECRETO Nº 9.507, DE 21 DE SETEMBRO DE 2018 referente às empresas públicas e sociedades de economia mista sob controle da União estabelece diretrizes importantes quanto à execução indireta de serviços por essas entidades. Segundo o dispositivo, serviços que demandem profissionais cujas atribuições sejam inerentes aos cargos de seus Planos de Cargos e Salários não poderão ser terceirizados, exceto em situações específicas que estejam alinhadas aos princípios administrativos da eficiência, economicidade e razoabilidade. Essas exceções incluem casos de caráter temporário do serviço, aumento temporário na demanda por serviços, atualização tecnológica ou especialização, quando resultarem em redução de custos ou forem menos prejudiciais ao 18 meio ambiente, bem como situações em que a empresa estatal não consegue competir de forma viável no mercado concorrencial. O texto também prevê que as exceções relacionadas aos serviços temporários podemestar ligadas às particularidades locais ou à necessidade de abrangência territorial mais ampla. Além disso, estipula que os funcionários da empresa contratada atuarão exclusivamente na execução dos serviços contratados, e não em outras atividades semelhantes às da empresa contratante. Uma ressalva importante é feita quanto à vedação da terceirização: ela não se aplica quando se tratar de cargos extintos ou em processo de extinção. Por fim, determina-se que o Conselho de Administração ou órgão equivalente das empresas públicas e sociedades de economia mista controladas pela União será responsável por estabelecer o conjunto de atividades que poderão ser terceirizadas, mediante contratação de serviços. Este artigo visa garantir a eficiência e a economicidade na gestão das empresas estatais, sem comprometer a qualidade e a eficácia dos serviços prestados. DECRETO Nº 9.507, DE 21 DE SETEMBRO DE 2018: Art. 4º Nas empresas públicas e nas sociedades de economia mista controladas pela União, não serão objeto de execução indireta os serviços que demandem a utilização, pela contratada, de profissionais com atribuições inerentes às dos cargos integrantes de seus Planos de Cargos e Salários, exceto se contrariar os princípios administrativos da eficiência, da economicidade e da razoabilidade, tais como na ocorrência de, ao menos, uma das seguintes hipóteses: I - caráter temporário do serviço; II - incremento temporário do volume de serviços; III - atualização de tecnologia ou especialização de serviço, quando for mais atual e segura, que reduzem o custo ou for menos prejudicial ao meio ambiente; ou IV - impossibilidade de competir no mercado concorrencial em que se insere. § 1º As situações de exceção a que se referem os incisos I e II do caput poderão estar relacionadas às especificidades da localidade ou à necessidade de maior abrangência territorial. § 2º Os empregados da contratada com atribuições semelhantes ou não com as atribuições da contratante atuarão somente no desenvolvimento dos serviços contratados. 19 § 3º Não se aplica a vedação do caput quando se tratar de cargo extinto ou em processo de extinção. § 4º O Conselho de Administração ou órgão equivalente das empresas públicas e das sociedades de economia mista controladas pela União estabelecerá o conjunto de atividades que serão passíveis de execução indireta, mediante contratação de serviços. No contexto das empresas estatais controladas pela União, a legislação é clara quanto à execução direta de atividades que correspondam às categorias funcionais previstas nos respectivos Planos de Cargos e Salários. Essas atividades não podem ser terceirizadas, a menos que se verifique que essa medida é necessária para a observância dos princípios administrativos da eficiência, economicidade e razoabilidade. É crucial destacar que uma interpretação que permita a terceirização indiscriminada nessas empresas seria uma violação direta da norma constitucional que estabelece a obrigatoriedade do concurso público para o ingresso em cargos públicos, exceto nos casos de cargos em comissão de livre nomeação. Todavia, é importante ressaltar que esse entendimento se aplica especificamente às empresas estatais vinculadas à União, não sendo automaticamente estendido aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios. Além disso, outras esferas de poder, como os Poderes Judiciário e Legislativo, não são diretamente afetadas por esse decreto, uma vez que são independentes e autônomos entre si. Um aspecto relevante a ser considerado é que o referido decreto não especifica quais serviços podem ser terceirizados, deixando uma certa margem para interpretação e aplicação prática. Isso abre novas possibilidades para o governo federal contratar pessoal terceirizado de acordo com as necessidades específicas de cada caso. Segundo as justificativas apresentadas pelo governo, essa nova regulamentação visa aprimorar o processo de terceirização, estabelecendo normas mais claras em relação à fiscalização das obrigações trabalhistas e previdenciárias das empresas terceirizadas. Além disso, a norma 20 busca proibir e combater práticas de nepotismo na contratação de empresas terceirizadas, promovendo uma maior transparência e responsabilidade na gestão dos recursos públicos. Sobre o assunto, Joel de Menezes Niebuhr leciona que: Unindo as pontas, chega-se a duas conclusões: a primeira é que a terceirização de atividades coincidentes com os cargos das estatais não viola a legalidade, porque os cargos das estatais não são criados por lei; a segunda é que não há proibição geral de terceirização de atividades-fim. Diante disso, sem violar qualquer norma jurídica, o caput do art. 4º do Decreto nº 9.507/2018 reconheceu competência discricionária às estatais para terceirizar atividades coincidentes com as atribuídas a seus cargos, tomando em conta os princípios da eficiência, da economicidade e da razoabilidade. (...) Ainda que se reconheça competência discricionária por parte das estatais, a terceirização não pode ser usada livremente, sob pena de violação à regra constitucional do concurso público. (NIEBUHR, 2019, p. 10). Eduarda Nogueira R. Camargo, Douglas G. Vieira e Maria Eduarda V. Brito 6. DIREITO COMPARADO O termo direito comparado refere-se tanto a uma disciplina científica quanto a um método de pesquisa. Como disciplina, envolve o estudo das diferenças e semelhanças entre sistemas jurídicos, incluindo legislações, jurisprudências e doutrinas. A importância do direito comparado cresceu devido à internacionalização e globalização. Na disciplina, os sistemas jurídicos são frequentemente agrupados em famílias de direitos. Como método de pesquisa, o direito comparado permite a comparação efetiva de elementos dos direitos 21 de diferentes jurisdições, com objetivos diversos, como identificar institutos semelhantes com finalidades distintas. 6. 1 ORIGEM O estudo comparativo do direito tem uma origem antiga, remontando a figuras como Licurgo em Esparta e Sólon em Atenas, que viajavam para conhecer institutos antes de criar suas leis. Os romanos, ao redigirem a Lei das XII Tábuas, foram influenciados por leis estrangeiras, especialmente gregas. Platão e Aristóteles também usaram comparações em suas obras. No século XVIII, Montesquieu, em “O Espírito das Leis”, retomou o método sistemático de adquirir conhecimento de outras legislações. O direito comparado moderno, segundo Gutteridge, tem origens indiretas, relacionadas a teorias evolucionistas, buscando equivalentes análogos no campo jurídico. As primeiras definições de suas funções ocorreram no primeiro Congresso Internacional de Direito Comparado em Paris, em 1900. 6. 2 FUNÇÃO DOS COMPARATISTAS A função dos comparatistas é destacar o papel do direito comparado, capacitando juristas em suas especialidades. Eles preparam um ambiente para que outros possam aplicar o método comparativo em diversas funções, cientes dos perigos envolvidos e das regras de prudência a serem seguidas. Como estudar o direito comparado ? 22 O direito comparado requer a análise de pelo menos dois sistemas jurídicos, focando em aspectos como natureza, extensão e temporalidade do objeto de estudo. Esse método é essencial para aprofundar a compreensão da história e filosofia do direito, servindo como meio de comprovação da teoria geral do direito, além das fronteiras de sistemas específicos. Ao longo da história, o direito comparado ganhou importância, especialmente na positivação de legislação estrangeira, facilitando práticas legais e organização de ordens jurídicas pacíficas, como em uniões regionais. 6.3 OBJETO E A NATUREZA O autor Gutteridge discute o objeto da pesquisa comparada, destacando a importância da avaliação cuidadosa da natureza e extensãodo estudo. Ele argumenta que a quantidade de ordenamentos, institutos jurídicos ou ramos do direito não é fundamental, mas sim as dificuldades enfrentadas durante a investigação comparativa. Discordo dessa visão, enfatizando que é essencial determinar previamente o que será comparado, sendo necessário, no caso do direito comparado, ter pelo menos dois ordenamentos jurídicos. O objeto da pesquisa deve ser analisado quanto à sua natureza, extensão e aspecto temporal, podendo incluir ramos do direito, ordenamentos jurídicos, sistemas jurídicos ou institutos. O estudo do direito comparado enfrenta o desafio de determinar se é um método ou uma ciência, o que dificulta a definição clara do seu conceito. A falta 23 de precisão conceitual nas várias tentativas de delineá-lo reflete a dificuldade subjacente a essa questão. Alguns autores o vêem como ciência, enquanto outros o consideram um método. De acordo com Jean Rivero o direito comparado só se entende em relação ao método, que abrange no estudo paralelo de regras e institutos jurídicos com o intuito de deixá-las mais claras no momento do confronto. Martínez Paz define o método como um conjunto de procedimentos baseados em princípios para alcançar um resultado. Alguns autores, como Gutteridge, Jean Rivero, e Cretella Junior, concordam que o direito comparado é um método de estudo e não uma divisão específica do direito. Gutteridge argumenta que os obstáculos aos estudos jurídicos comparativos seriam superados se todos aceitassem que “direito comparado” se refere apenas a um método de estudo e investigação, não gerando novas regras aplicáveis às relações humanas, já que o direito é um conjunto de regras existentes. Martinez Paz destaca dois aspectos fundamentais na importância do direito comparado. Primeiramente, ele argumenta que o direito comparado prepara o jurista para um conhecimento completo do ordenamento jurídico positivo, superando as limitações que investigações exclusivas dentro de uma legislação nacional podem impor. Em segundo lugar, o autor enfatiza a imposição da conjuntura mundial de integração entre legislações, especialmente devido à experiência das relações entre sujeitos de diferentes nacionalidades. Ele 24 justifica essa necessidade ao mencionar cláusulas de reserva nas legislações, que impedem a aplicação de disposições estrangeiras contrárias aos objetivos nacionais, bem como a cláusula de reciprocidade, que permite incorporar a lei estrangeira em certos casos à legislação nacional. 6. 4 CONCLUSÃO A importância do direito comparado vai além de uma discussão doutrinária sobre ser um método ou ciência, sendo, em minha opinião, uma questão filosófica. Esta discussão, embora interessante, tem pouco impacto na relevância do direito comparado. Sua importância se manifesta na prática legislativa, influenciando a criação de normas jurídicas, e na hermenêutica, onde opera na interpretação das normas, contribuindo significativamente para a evolução do conceito de ordenamento jurídico, agora incluindo aspectos extraestatais. Gabriel Ferreira Macedo de Matos 7. EVOLUÇÃO LEGAL E A POSIÇÃO DO TRIBUNAL SUPERIOR DO TRABALHO A terceirização trabalhista é uma temática de grande relevância no direito do trabalho bem como em todo o ordenamento jurídico, vez que suscita os debates acerca dos direitos trabalhistas. Nesse contexto, a posição do Tribunal Superior do Trabalho atua como parâmetro legal para conduzir a prática trabalhista, posto isso, é necessário analisar os entendimentos precedentes deste tribunal. Anteriormente, o Tribunal Superior do Trabalho sustentava uma postura restritiva, considerando ilícita qualquer terceirização de mão de obra, salvo nas hipóteses de trabalho temporário e do serviço de vigilância, conforme estabelecido nas Súmulas 239, 256 e 257. 25 Súmula nº 256 do TST Salvo os casos de trabalho temporário e de serviço de vigilância, previstos nas Leis nºs 6.019, de 03.01.1974, e 7.102, de 20.06.1983, é ilegal a contratação de trabalhadores por empresa interposta, formando-se o vínculo empregatício diretamente com o tomador dos serviços. Por meio de provocação do Ministério Público do Trabalho (MPT), o entendimento jurisprudencial deste tribunal sofreu alterações substanciais. A Súmula 256 foi objeto de revisão com o propósito de ampliar as possibilidades de terceirização, culminando no cancelamento da mencionada súmula e na promulgação de uma nova. A Súmula 331 estabeleceu uma nova orientação, autorizando a terceirização de serviços enquadrados como atividade-meio da empresa tomadora, ou seja, atividades que não constituem sua finalidade principal, definida como aquela à qual convergem todas as demais atividades e, geralmente, aquela especificada em seu objeto social. Nota-se, que o TST tomou como visão o entendimento de que apenas seriam possíveis as terceirizações de serviços especializados, com o objetivo de evitar a prática de fraudes em relação aos contratos de serviços genéricos. CONTRATO DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS. LEGALIDADE (nova redação do item IV e inseridos os itens V e VI à redação, Res. 174/2011, DEJT divulgado em 27, 30 e 31.05.2011). I – A contratação de trabalhadores por empresa interposta é ilegal, formandose o vínculo diretamente com o tomador dos serviços, salvo no caso de trabalho temporário (Lei 6.019, de 03.01.1974). II – A contratação irregular de trabalhador, mediante empresa interposta, não gera vínculo de emprego com os órgãos da Administração Pública direta, indireta ou fundacional (art. 37, II, da CF/1988). III – Não forma vínculo de emprego com o tomador a contratação de serviços de vigilância (Lei 7.102, de 20.06.1983) e de conservação e limpeza, bem como a de serviços especializados ligados à atividade-meio do tomador, desde que inexistente a pessoalidade e a subordinação direta. IV – O inadimplemento das obrigações trabalhistas, por parte do empregador, implica a responsabilidade subsidiária do tomador dos serviços quanto àquelas obrigações, desde que haja participado da relação processual e conste também do título executivo judicial. V – Os entes integrantes da Administração Pública direta e indireta respondem subsidiariamente, nas mesmas condições do item IV, caso evidenciada a sua conduta culposa no cumprimento das obrigações da Lei 8.666, de 21.06.1993, especialmente na 26 fiscalização do cumprimento das obrigações contratuais e legais da prestadora de serviço como empregadora. A aludida responsabilidade não decorre de mero inadimplemento das obrigações trabalhistas assumidas pela empresa regularmente contratada. VI – A responsabilidade subsidiária do tomador de serviços abrange todas as verbas decorrentes da condenação referentes ao período da prestação laboral. A Reforma Trabalhista (Lei n° 13.467/17) e a Lei da Terceirização (Lei n° 14.429/17) introduziram alterações que passaram a autorizar a terceirização de toda e qualquer atividade, inclusive atividades-fim. Entretanto, antes do início de sua vigência, houve debates acerca da constitucionalidade da Súmula 331 do Tribunal Superior do Trabalho (TST), por meio da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) n° 324 e do Recurso Extraordinário (RE) n° 958.252. No julgamento da ADPF, concluiu-se pela inconstitucionalidade da Súmula 331, considerando que esta violava os princípios constitucionais da livre iniciativa e da liberdade contratual. Durante o referido julgamento, foi suscitado o tema de repercussão geral 725.Repercussão geral do Tema 725 do STF no RECURSO EXTRAORDINÁRIO (RE) 958.252 “É lícita a terceirização ou qualquer outra forma de divisão do trabalho entre pessoas jurídicas distintas, independentemente do objeto social das empresasenvolvidas, revelando-se inconstitucionais os incisos I, III, IV e VI da Súmula 331 do Tribunal Superior do Trabalho”. Após análise da evolução jurisprudencial, notadamente no âmbito do Tribunal Superior do Trabalho (TST), no tocante à terceirização, verifica-se o contínuo progresso da abordagem sobre o tema em consonância com o desenvolvimento do ordenamento jurídico. Além disso, o direito laboral se adapta às novas realidades e relações de trabalho visando assegurar as condições laborais mais favoráveis. Amanda Nunes Marques e Ana Paula Sales de Oliveira 27 8. TERCEIRIZAÇÃO PELA LEI N° 6.019/74 8.1 FUNDAMENTO LEGAL E CONTEXTO HISTÓRICO A Lei n. 6.019/74, que regulamenta o trabalho temporário no Brasil, foi promulgada em um contexto de crescente industrialização e demanda por mão de obra flexível. Durante a ditadura militar, o país passava por transformações econômicas significativas, com a expansão do setor industrial e a necessidade de adaptar as relações de trabalho a essa nova realidade. O fundamento legal da lei está ancorado no artigo 170 da Constituição Federal, que estabelece as bases da ordem econômica, incluindo a valorização do trabalho humano e a livre iniciativa. Nesse sentido, a legislação trabalhista temporária foi concebida como uma forma de facilitar a contratação de trabalhadores para atender às demandas sazonais das empresas, garantindo flexibilidade e agilidade na gestão de recursos humanos. O momento histórico em que a Lei n. 6.019/74 foi publicada coincide com um período de intensas transformações sociais e econômicas no Brasil, marcado pela modernização da indústria e pelo crescimento do mercado de trabalho urbano. A legislação visava, portanto, fornecer um arcabouço jurídico para regulamentar o trabalho temporário e garantir direitos mínimos aos trabalhadores nesse contexto de mudança e expansão econômica. 8.2 CONCEITUAÇÃO A Lei nº 6.019/74 trata da temática voltada ao trabalho temporário no cenário das empresas urbanas. Dessa forma, cabe ressaltar sobre a conceituação desse contexto. De acordo com o art 2º, da Lei nº 6.019/74, o trabalho temporário é aquele utilizado com o objetivo de substituir uma determinada pessoa de forma temporária ou para complementar a necessidade presente em um serviço da empresa. Essa função prestada deve ser realizada por uma pessoa física, assim como determina a lei. Portanto, vale salientar que a substituição 28 realizada não pode ocorrer em situações de greve, devendo ter uma determinação legal para a sua execução. 8.3 COMPOSIÇÃO DA RELAÇÃO DE TRABALHO TEMPORÁRIO Em conformidade com o entendimento da autora Adriana Calvo, tem- se a premissa de que o trabalho temporário está pautado em uma forma trilateral, ao qual temos presença indispensável do trabalhador temporário, empresa contratante da mão de obra e o cliente, aquele que vai receber o serviço prestado. Nesse sentido, percebe-se que o contrato ocorre entre duas empresas, sendo a empresa de trabalho temporário a pessoa jurídica, assim como prescreve o art 4º da Lei nº 6.019/74. Diante desse cenário, no momento da realização do contrato escrito, temos a presença da empresa prestadora do serviço que vai cumprir o papel de contratação, remuneração e direcionamento. Sendo determinado durante esse processo que não haverá vínculo empregatício justamente por ser um trabalho realizado de maneira provisória. Dessa forma, tem-se o entendimento jurisprudencial sobre este vínculo: ARE 875868 AgR COFINS – PIS – BASE DE CÁLCULO – LOCAÇÃO DE MÃO DE OBRA – REGIME DE TRABALHO TEMPORÁRIO. No regime de trabalho temporário das empresas urbanas, estabelecido por meio da Lei nº 6.019, de 1974, o vínculo do trabalhador temporário é com a empresa de locação de mão de obra, que recebe o preço ajustado com a contratante dos serviços. Sobre o valor devem incidir a Cofins e a contribuição ao PIS – Recursos Extraordinários nº 357.950-9/RS, nº 390.840-5/MG, nº 358.273-9/RS e nº 346.0804- 6/PR, de minha relatoria. ( grifo nosso) 8.4 REQUISITOS GERAIS Quando abordamos sobre uma empresa prestadora de serviços, temos em mente que esta deve seguir as regras previstas em lei para a sua composição. Dessa maneira, o art 4º-B, da Lei nº 6.019/74, prevê os requisitos principais. O primeiro ponto importante é a inscrição da empresa no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ), já que esta 29 é determinada como uma pessoa jurídica, assim como foi abordado anteriormente. Além disso, a empresa deve fazer o registro na junta comercial, pois assim será determinada as suas atividades. Por fim, o capital da empresa deve ser compatível com o número de empregados, uma vez que é necessário ter condições de realizar o pagamento mensal de seus prestadores de serviço. Em segundo plano, quando tratamos dos empregados, estamos abordando sobre os seus direitos básicos dentro de uma empresa, já que estes estão fornecendo a sua mão de obra em busca de uma remuneração e de um tratamento adequado. Nesse sentido, na Lei nº 6.019/74 temos alguns requisitos, como, por exemplo, atender condições no quesito da alimentação, transporte, atendimento médico, treinamento capacitivo e condições sanitárias. Além disso, é de extrema importância abordar que é da responsabilidade do contratante resguardar os seus empregados em condições de segurança e higiene quando os serviços forem prestados na localidade da empresa, devendo prezar pela saúde do prestador. Portanto, cabe à empresa vigiar as questões básicas. 8.5 DA CONTRATAÇÃO A Lei nº 6.019 prevê as partes que um contrato de uma empresa prestadora de serviços deve conter. Primeiramente, é importante salientar sobre a qualificação das partes, determinar quem estará presente no trabalho prestado. Logo em seguida, temos a necessidade de especificar o trabalho ao qual será prestado, sendo vedado a determinação de outra modalidade ao empregado. Ademais, temos o prazo que esse trabalho será prestado e o valor que será recebido pelo prestador de serviços. Entretanto, existem algumas especificações, uma vez que, caso o empregado tenha sido contrato na determinada empresa e tenha sido demitido, este não pode prestar serviço na mesma localidade, desde que passe o período de dezoito meses que serão contados a partir do dia em que o empregado teve a sua demissão efetivada. 30 Além disso, esse contrato deve ser feito na forma escrita e deve ficar a disposição da autoridade responsável por fiscalizar, pois esta terá acesso a todas as informações, desde as partes presentes no contrato, até o motivo justificativo sobre a demanda necessitada. Por fim, assim como determina a lei, esse contrato tem um prazo limite, ou seja, não pode ultrapassar o prazo de 180 dias, sendo esses dias contados de forma consecutiva ou não, porém pode ser prorrogado por mais 90 dias. 8.6 A TERCEIRIZAÇÃO E O TRABALHO TEMPORÁRIO Na terceirização, temos a presença da subordinação do trabalho em relação a empresa que o terceirizou. Enquanto isso, no trabalho temporário temos um cenário diferente, uma vez que a empresa empregadora do trabalho temporário vai transferir a subordinação a outra empresa que será a prestadora do serviço, ou seja, ela vai monitorar as atividades realizadas. Portanto, percebe-se que o trabalho temporário é denominado como uma forma de contratação, sendo utilizada em empresas que necessitam de trabalho de forma provisória sem vínculo empregatício. 8.7 CONTRATO DE TRABALHO TEMPORÁRIO A legislação que rege todas as particularidades da presente modalidade trabalhista, dispõe que, todos os contratos celebrados durante a contratação serão obrigatoriamente escritos, e que ficarão à disposição da autoridade responsável por fiscalizar as atividades trabalhistastemporárias. Para além disso, o dispositivo também assegura que todos os direitos do trabalhador temporário estejam dispostos no contrato. O regulamento dispõe ainda que é nula, toda e qualquer cláusula de reserva que vise obstar a contratação do empregado pela empresa tomadora ou cliente, ao fim do prazo estipulado pela empresa de trabalho temporário. Cumpre salientar que inexiste nulidade na 31 contratação do trabalhador temporário pela empresa de trabalho temporário, desde que cumpridas as exigências legais. Vejamos: CONTRATO TEMPORÁRIO. UNICIDADE CONTRATUAL. A prova dos autos demonstra a regularidade na contratação nos termos da Lei n. 6.019/74, com a redação dada pela Lei n. 13.429/17, restando afastada a nulidade, bem como os pedidos de reconhecimento da unicidade contratual e sucessão de empregadores. TRT da 2ª Região; Processo: 1000194-50.2021.5.02.0362; Data: 12-07-2022; Órgão Julgador: 11ª Turma - Cadeira 1 - 11ª Turma; Relator(a): ADRIANA PRADO LIMA 8.8 DIREITOS DO TRABALHADOR TEMPORÁRIO O artigo 12, da Lei nº 6.019/74 assegura os direitos do trabalhador temporário. Sendo eles: A) Remuneração equivalente àquela percebida pelos empregados da mesma categoria da empresa tomadora ou cliente, ou o recebimento do salário mínimo regional; B) Jornada de oito horas diárias, permitido a realização de horas extras, desde que não excedentes a duas horas diárias e remuneradas com o devido acréscimo de 20%; C) Férias proporcionais; D) Repouso semanal remunerado; E) Adicional por trabalho noturno; F) Indenização nos casos de dispensa sem justa causa, ou término normal do contrato, correspondente a 1/12 do pagamento recebido; G) Seguro contra acidentes de trabalho; H) Proteção Previdenciária. A legislação específica garante o devido registro na Carteira de Trabalho e Previdência Social como trabalhador temporário, não obstante, a empresa tomadora ou cliente, deverá se comprometer a comunicar todo acidente de trabalho que ocorrer com o trabalhador temporário que estiver à sua disposição, nas dependências do local onde presta o trabalho ou até mesmo na sede da empresa de trabalho temporário. Como visto acima, existem diversos direitos que devem ser observados pelas empresas durante a prestação de serviço do trabalhador temporário, no que tange às condições trabalhistas. O entendimento jurisprudencial acerca do tema é pacífico, vejamos: 32 INÉPCIA DA INICIAL - INOCORRÊNCIA - OS DOCUMENTOS JUNTADOS AOS AUTOS SÃO SUFICIENTES PARA O DESLINDE DO FEITO AÇÃO DE REGRESSO - CONTRATO DE PRESTAÇÃO DE MÃO DE OBRA TEMPORÁRIA - ACIDENTE DE TRABALHO DE FUNCIONÁRIO DA PRESTADORA DE SERVIÇOS - CONDENAÇÃO DE AMBAS AS PARTES NA ESFERA TRABALHISTA -CONTRATO QUE PREVÊ EXPRESSAMENTE A RESPONSABILIDADE DA TOMADORA PELAS OBRIGAÇÕES DE NORMAS DE SEGURANÇA - LAUDO PERICIAL QUE CONCLUI PELA INOBSERVÂNCIA DAS NORMAS DE SEGURANÇA RESPONSABILIDADE DA TOMADORA CONFIGURADA - DEVER DE RESTITUIR O VALOR DISPENDIDO, OBSERVADO OS VALORES COMPROVADAMENTE PAGOS NOS AUTOS - APLICAÇÃO DE CORREÇÃO MONETÁRIA DESDE O EFETIVO DESEMBOLSO E JUROS DE MORA DA CITAÇÃO - SENTENÇA PROCEDENTE - DADO PARCIAL PROVIMENTO AO RECURSO. AREsp n. 1.670.487, Ministro João Otávio de Noronha, DJe de 20/04/2020. 8.9 RESCISÃO CONTRATUAL A legislação específica que rege o trabalho temporário estabelece em seu texto legal, a possibilidade da chamada “rescisão contratual por justa causa”. O dispositivo aqui analisado considera como justa causa, as hipóteses elencadas nos artigos 482 e 483 da Consolidação das Leis de Trabalho. Como por exemplo, atos de improbidade, embriaguez habitual ou em serviço ou até mesmo violação de segredo da empresa. Em virtude do estabelecido anteriormente (item 9.1), a rescisão contratual por justa causa poderá ocorrer em decorrência do comportamento do trabalhador temporário no âmbito das relações com a empresa de trabalho temporário, ou com a própria empresa cliente para a qual ele estiver à disposição. Diante do tema, vejamos o entendimento jurisprudencial: Contrato de Trabalho Temporário. Rescisão antecipada. O contrato de trabalho da autora, por estar regido pela Lei 6.019/74, tem regras específicas, sobretudo quando se trata de rescisão contratual, cujo direito às verbas resilitórias vem disciplinado em seu artigo 12, alínea "f", ou seja, "indenização por dispensa sem justa causa ou término normal do contrato, correspondente a 1/12 (um doze avos) do pagamento recebido". [...] TRT da 2ª Região; Processo: 1002214-30.2016.5.02.0381; Data: 19-09-2017; 33 Órgão Julgador: 11ª Turma - Cadeira 1 - 11ª Turma; Relator(a): ADRIANA PRADO LIMA 8.9.1 OBRIGAÇÕES E VEDAÇÕES LEGAIS As empresas de trabalho temporário são obrigadas a fornecerem às empresas tomadoras ou clientes, desde que a seu pedido, o comprovante de regularidade com o Instituto Nacional de Previdência Social. Ademais, a Fiscalização Trabalhista poderá exigir da empresa tomadora ou cliente, a apresentação do contrato firmado entre àquela e a empresa de trabalho temporário, e não obstante, também poderá vistoriar o contrato realizado entre a última e o trabalhador temporário. A legislação estipula duas proibições que devem ser observadas pelas empresas de prestação de serviço temporário, sendo elas: A) Vedação à contratação de estrangeiros com visto provisório; B) Vedação à cobrança e recebimento de qualquer importância econômica por parte do trabalhador temporário, ainda que a título de mediação. Como leciona o Professor Fagner Sandes, a primeira vedação citada anteriormente caracteriza um exemplo de trabalho proibido, ou seja, o objeto da prestação de serviço é lícito, mas por opção legislativa, tal prática é vedada no que tange sua aplicação. Em síntese, tais medidas desempenham o papel precípuo de garantir a devida segurança jurídica para todos os integrantes dessa relação trilateral. Evitando desse modo, a ocorrência de dissídios desnecessários entre as empresas e os trabalhadores temporários. 8.9.2 RESPONSABILIDADE DA EMPRESA TOMADORA OU CLIENTE Inicialmente cumpre ressaltar que existem duas formas distintas de responsabilidade. A primeira é a chamada responsabilidade solidária, e a segunda responsabilidade subsidiária. A responsabilidade solidária encontrase explicitamente estabelecida pelo legislador no artigo 16 da Lei n 6.019/74, e dispõe que em caso de falência da empresa de trabalho temporário, a empresa tomadora será responsável pelo recolhimento das contribuições previdenciárias, pela remuneração e pelas indenizações previstas em lei, no que se refere ao período em que o trabalhador esteve a sua disposição. 34 Já na responsabilidade subsidiária, a empresa tomadora responderá subsidiariamente pelas obrigações trabalhistas dos terceirizados referentes ao período em que ocorrer a prestação de serviços. Nesse caso, é necessário que se cumpra a ordem de exigência do pagamento, ou seja, a empresa tomadora será subsidiariamente responsável apenas nos casos em que a empresa de trabalho temporário se mantiver inadimplente frente às obrigações trabalhistas devidas aos funcionários. O Tribunal Superior do Trabalho, por meio da súmula 331, estabelece ditames acerca do tema. Vejamos: IV - O inadimplemento das obrigações trabalhistas, por parte do empregador, implica a responsabilidade subsidiária do tomador dos serviços quanto àquelas obrigações, desde que haja participado da relação processual e conste também do título executivo judicial. [...] VI – A responsabilidade subsidiária do tomador de serviços abrange todas as verbas decorrentes da condenação referentes ao período da prestação laboral. O entendimento jurisprudencial diante da aplicabilidade da responsabilidade subsidiária das empresas tomadoras de serviço é notavelmente pacificado.Vejamos: "I - AGRAVO EM AGRAVO DE INSTRUMENTO EM RECURSO DE REVISTA - LEI Nº 13.467/2017 - RESPONSABILIDADE SUBSIDIÁRIA. TERCEIRIZAÇÃO DE SERVIÇOS. ENTE PÚBLICO. AUSÊNCIA DE PROVA DE FISCALIZAÇÃO. TEMA 246 DO EMENTÁRIO DE REPERCUSSÃO GERAL. TRANSCENDÊNCIA POLÍTICA RECONHECIDA. Constatada contrariedade à Súmula 331, V, do TST, impõe-se o provimento do agravo para determinar o processamento do agravo de instrumento. Agravo provido." [...] (RR-1001387-72.2020.5.02.0221, 8ª Turma, Relator Ministro Sergio Pinto Martins, DEJT 19/02/2024). 8.9.3 DO JUÍZO COMPETENTE E DAS EXCEÇÕES LEGISLATIVAS Em consonância com o artigo 19 da presente legislação analisada, o juízo competente para resolver os litígios entre as empresas de serviço temporário e de seus trabalhadores é da Justiça do Trabalho. 35 Visando garantir que o disposto até o momento fosse observado eficientemente no que tange às relações trabalhistas temporárias, verificou-se necessária a estipulação de uma sanção pecuniária, a fim de garantir o cumprimento efetivo dos preceitos legais definidos na norma. Ademais, foi estabelecido que a fiscalização, a autuação e o processo de imposição de multas seriam regidos pelo Título VII da norma geral que regula as leis trabalhistas (CLT). Por fim, a Lei nº 6.019/74 evidencia que as normas dispostas em seu texto não se aplicam a duas empresas. Sendo elas, as empresas de transporte de valores e as empresas de vigilância, as quais deverão permanecer reguladas por legislação especial, e subsidiariamente pela CLT. Alice M. da Silva, Rayssa L. Nóbrega e Marcello Luís Castellani 9. TERCEIRIZAÇÃO NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA A Terceirização trata-se da transferência de serviços para terceiros, que enseja na formação de uma relação triangular entre a empresa contratante, a empresa contratada e o empregado. Sendo que o vínculo empregatício se faz entre a empresa prestadora do serviço e o trabalhador, e não diretamente com a contratante. Essa forma de execução dos serviços não é recente, como demonstra sua origem na Lei nº 6.019/74. No entanto, durante muitos anos não houve uma regulamentação mais específica e abrangente para as peculiaridades desse serviço. Tornando-se uma demanda recorrente, que precisou ser levada ao Tribunal Superior do Trabalho (TST) para que fosse pacificado o entendimento, por meio de Súmulas sobre o tema. Esse modo de prestação de serviço, teve um aumento crescente tanto no setor privado como na Administração Pública. Isso se deve a necessidade de tornar o serviço mais eficiente e especializado ao mesmo tempo que reduz gastos. Por outro lado, a atividade terceirizada também apresenta desvantagens, principalmente quando 36 aplicada na realidade do serviço público, impactando principalmente na estabilidade dos serviços prestados à população. Além disso, as limitações impostas pelo decreto nº 9.507/18 à execução da terceirização, se torna uma dificuldade na transferência de atividades do Estado para o setor privado. Ao ser incorporado à Administração Pública, a terceirização traz também encargos decorrentes da substituição do servidor público por terceiro contratado. Nesse caso o tomador de serviços (Estado), assumirá o papel de empregador, sendo-lhe transferidas responsabilidades, caso a empresa prestadora de serviços não tenha como honrar com os pagamentos de débitos trabalhistas. A globalização aliada ao avanço tecnológico no mundo atual passou a exigir do setor produtivo um serviço de melhor qualidade, especificidade, aperfeiçoamento, mas que ao mesmo tempo tenha custos reduzidos. Para atender essas demandas a Terceirização foi uma grande aliada, já que essa forma de prestação de serviço presume a execução ou transferência de serviços ou mão de obra por uma empresa especializada a fim de otimizar o trabalho. Nesse sentido, Dora Maria de Oliveira Ramos, citando Ciro Pereira da Silva, conceitua o instituto: [...] transferência de atividades para fornecedores especializados, detentores de tecnologia própria e moderna, que tenham esta atividade terceirizada como sua atividade-fim, liberando a tomadora para concentrar seus esforços gerenciais em seu negócio principal, preservando e evoluindo em qualidade e produtividade, reduzindo custos e garantindo competitividade. (RAMOS, 2001, p.50) Logo, confirma-se o fato de que a terceirização encontrou inicialmente ampla compatibilidade com a nova necessidade de produção do setor econômico atual, por realizar a execução principalmente de atividades- meio das empresas contratantes, para que estas concentrem seus esforços na atividade principal, fazendo com que o processo produtivo seja eficiente e elimine custos. Os resultados foram tão satisfatórios para o setor privado, que se iniciou uma expansão da terceirização no Brasil para a máquina pública. A Administração, assim como o setor privado introduziu essa 37 forma de serviço inicialmente na delegação de “atividades-meio que são aquelas referentes ao suporte ou apoio necessário para desempenho de atividades-fim” (MEIRELLES, 2000, p.135), que no caso da administração seria o exercício do serviço público como função administrativa desempenhada pelo Estado. De acordo com Maria Sylvia Zanella Di Pietro (2004, p.99), serviço público é toda atividade disciplinada em lei que é desempenhada pelo Poder Público, e que tenham como referência os princípios constitucionais dispostos no artigo 37 da Constituição Federal de 1988: “Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência” Dentre estes princípios, o que mais deve ser observado no desempenhar da atividade terceirizada exercida no âmbito da Administração Pública seria o Princípio da Eficiência. Referido princípio impõe que todo órgão público atue e se estruture de forma a atingir o exercício pleno da função administrativa que seria alcançar a melhor gestão aos recursos públicos e a qualidade do serviço público prestado à população (DI PIETRO, 2004, p. 101). Assim, em primeiro momento a terceirização começou a ser introduzida pela Administração Pública de forma lícita. Confirmando tal argumento, José dos Santos Carvalho Filho, entende que: [...] é inteiramente legítimo que o Estado delegue a terceiros algumas de suas atividades-meio, contratando diretamente com a sociedade empresária, à qual os empregados pertencem. É o caso dos serviços de conservação e limpeza e de vigilância. Aqui, trata- se de terceirização lícita. No entanto, a Administração precisou delimitar a delegação da atividade terceirizada, visto que a Constituição Federal impõe limites de gastos com despesas de pessoal, as contratações de serviços terceirizados. Além disso, o Decreto Federal nº 9.507 de 2018, tratou sobre a execução indireta e quais serviços públicos não serão objetos desta prestação de serviço, na administração direta, autárquica e fundacional. 38 Nesses termos, o artigo 3º do Decreto supramencionado é expresso em dispor que não serão objeto de execução indireta, os serviços: I - que envolvam a tomada de decisão ou posicionamento institucional nas áreas de planejamento, coordenação, supervisão e controle; II - que sejam considerados estratégicos para o órgão ou a entidade, cuja terceirização possa colocar em risco o controle de processos e de conhecimentos e tecnologias; III - que estejam relacionados ao poder de polícia, de regulação, de outorga de serviços públicos e de aplicação de sanção; e IV - que sejam inerentes às categorias funcionais abrangidas pelo plano de cargos do órgão ou da entidade, exceto disposição legal em contrário ou quandose tratar de cargo extinto, total ou parcialmente, no âmbito do quadro geral de pessoal. § 1º Os serviços auxiliares, instrumentais ou acessórios de que tratam os incisos do caput poderão ser executados de forma indireta, vedada a transferência de responsabilidade para a realização de atos administrativos ou a tomada de decisão para o contratado. Em sentido contrário, o parágrafo 1º do artigo 3º do referido decreto dispõe que serviços auxiliares, instrumentais ou acessórios podem ser executados indiretamente, ou seja, são objetos de terceirização. No entanto, ele exime a responsabilização por parte da Administração nos casos de atos administrativos e decisões, que envolvam práticas decisórias relacionadas ao Poder de polícia, já que este não pode ser objeto de terceirização. Nesse viés, é fulcral pontuar a respeito da responsabilização pela administração público em casos de inadimplemento das obrigações trabalhistas da empresa contratada para com seus trabalhadores/funcionários. Desse modo, é importante destacar a súmula nº 331 do Tribunal Superior do Trabalho (TST) em especial nos seus incisos IV e V, ademais temos: IV - O inadimplemento das obrigações trabalhistas, por parte do empregador, implica a responsabilidade subsidiária do tomador dos serviços quanto àquelas obrigações, desde que haja participado da relação processual e conste também do título executivo judicial; V - Os entes integrantes da Administração Pública direta e indireta respondem subsidiariamente, nas mesmas condições do item IV, caso evidenciada 39 a sua conduta culposa no cumprimento das obrigações da Lei n.º 8.666, de 21.06.1993, especialmente na fiscalização do cumprimento das obrigações contratuais e legais da prestadora de serviço como empregadora. A aludida responsabilidade não decorre de mero inadimplemento das obrigações trabalhistas assumidas pela empresa regularmente contratada. Assim fica evidente que a responsabilização da administração não é automática e sim subsidiária e que somente ocorrerá, além da inadimplência do contrato direto, em casos de “culpa in vigilando”, que se refere à ausência de fiscalização do cumprimento das obrigações trabalhistas, bem como a “culpa in eligende”, que se trata da escolha malfeita da empresa prestadora de serviços, dentre outras possibilidades, através de irregular procedimento licitatório. Outro fato importante a esse respeito está relacionado com quem deve demonstrar o ônus da prova, a administração pública ou o reclamante. A esse respeito, chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF) o Recurso Extraordinário 760.931 de 26/04/2017, que dentro das suas razões de decidir trouxe uma mudança importante, de maneira implícita, afirmando que o ônus de comprovar a culpa in vigilando não é da administração pública e sim do reclamante. Porém, em um julgada da SDI (Subseção Especializadas em Dissídios Individuais) no final do ano de 2019 o TST afirmou que cabe ao órgão público tomador dos serviços demonstrar que fiscalizou de forma adequada o contrato, para que não seja responsabilizado, ou seja, o ônus da prova é do poder público. Nessa perspectiva, tem-se uma clara contradição entre o STF e o TST acerca de quem deve comprovar o ônus da prova. O fato é que atualmente esse tema, de número 1118, está afetado para repercussão geral no Supremo Tribunal Federal. Assim, conclui-se, que a administração pública responde subsidiariamente pelos débitos trabalhistas em caso de terceirização de serviço, desde que demonstrado a falha na fiscalização, ou seja, essa responsabilização não é automática. Em relação ao ônus da 40 prova, tem-se um julgamento muito claro da SDI que afirma que o ônus da prova é do poder público, o STF por sua vez deverá revisitar o tema no bojo do tema de repercussão geral 1118. Beatriz Dantas Gonzaga e Marcos Antônio de Moura Carvalho 41 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVES, Amauri Cesar. Trabalho intermitente e os desafios da Conceituação jurídica. Revista Síntese: trabalhista e Previdenciária. São Paulo, v. 29, n. 346, p. 9-39, abr. 2018. CALVO, A. Manual de Direito do Trabalho. 5. ed. [s.l.] Saraiva, 2020. COUTINHO, A. L. C. Direito Comparado e Globalização. Disponível em https://periodicos.ufpb.br/index.php/primafacie/article/view/4419. Acesso em: 2 mar. 2024. CRETELLA JUNIOR, José. Direito administrativo comparado. Rio de Janeiro: Forense, 1990. DELGADO, Maurício Godinho. Curso de Direito do Trabalho. 7ª ed. São Paulo: LTr, 2008. DELGADO, Mauricio Godinho. Curso de direito do trabalho: obra revista e atualizada conforme a lei da reforma trabalhista e inovações normativas e jurisprudenciais posteriores . 18. Ed. São Paulo : LTr, 2019. DUTRA, Rafael. Conceito e definições de terceirização trabalhista. 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Vogado -30000271 Hugo Sousa Oliveira Matos - 30129681 Amanda Nunes Marques - 30226635 João Paulo Santos Da Silva -30101913 Ana Luiza Prata - 30447283 Lis Vitória Lapa Dos Santos - 30367883 Ana Paula Sales De Oliveira - 29854920 Lunna Gabriela Silva Côrrea - 29972973 Beatriz Dantas Gonzaga - 30013216 Marcelo Luís C. De Siqueira - 26631017 Camilly Vieira De S. L. Cavalcanti - 29806275 Marcos Antonio De M. Carvalho - 32114338 Douglas Vieira -30373891 Rayssa Lariucci Da Nóbrega - 30073987 Eduarda Camargo - 30013984 Thayssa Hipólito V. Da Silva - 30449243