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ORIENTAÇÕES GERAIS | 177 Na página 266 da BNCC, o letramento matemático é definido como: [...] as competências e habilidades de raciocinar, representar, comunicar e argumentar matematica- mente, de modo a favorecer o estabelecimento de conjecturas, a formulação e a resolução de proble- mas em uma variedade de contextos, utilizando con- ceitos, procedimentos, fatos e ferramentas matemá- ticas. É também o letramento matemático que assegura aos alunos reconhecer que os conhecimen- tos matemáticos são fundamentais para a com- preensão e a atuação no mundo e perceber o caráter de jogo intelectual da Matemática, como aspecto que favorece o desenvolvimento do raciocínio lógico e crítico, estimula a investigação e pode ser prazeroso (fruição). BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2018. p. 266. De acordo ainda com nota de rodapé 45, na página 266 da BNCC, essa definição de letramento matemático está de acordo com o Programa Internacional de Avalia- ção de Estudantes (Pisa). Segundo a Matriz do Pisa 2012, o “letramento matemático é a capacidade individual de formular, empregar e interpretar a Matemática em uma va- riedade de contextos. Isso inclui raciocinar matema- ticamente e utilizar conceitos, procedimentos, fatos e ferramentas matemáticas para descrever, explicar e predizer fenômenos. Isso auxilia os indivíduos a reconhecer o papel que a Matemática exerce no mundo e para que cidadãos construtivos, engajados e reflexivos possam fazer julgamentos bem funda- mentados e tomar as decisões necessárias.”. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2018. p. 266. É importante ressaltar a relevância do Pisa como pro- grama de avaliação que produz indicadores que colabo- ram para o entendimento acerca de como está a educa- ção aplicada, qualitativamente, nos países que participam desse programa. Esse entendimento visa cooperar com a identificação de novas políticas públicas em função da melhora da qualidade da educação. Para tanto, a avaliação do Pisa procura verificar se os estudantes adquiriram habilidades e conhecimentos fundamentais para desempenharem o papel de cida- dãos diante das exigências da sociedade atual e avalia, também, como as escolas estão preparando os jovens nesse sentido. Quando a BNCC equipara a definição de letramento matemático com a do Pisa, vemos claramente que a Matemática tem um papel de formadora de cidadãos críticos, aptos a tomar decisões considerando justificati- vas que seguem um raciocínio. Percebe-se, dessa maneira, que, além do aspecto da argumentação e da comunicação que chancelam a Ma- temática como uma atividade humana nas Exatas, de mo- do análogo o letramento matemático também a carac- teriza como uma atividade humana por estar intrinsecamente ligada à produção de uma leitura infe- rencial de problemas. Isso porque uma inferência é fruto de uma observa- ção e manifesta-se concretamente como a conclusão de um raciocínio. As inferências que um estudante pro- duz para a compreensão do enunciado de um proble- ma matemático, por exemplo, não surgem dos conhe- cimentos explícitos no texto, mas nos prévios que ele já possui e o auxiliam na construção de sentido para as “lacunas” a serem preenchidas, que estão além do sen- tido explícito do texto. Ao desenvolver a alfabetização, a leitura e a escrita da língua materna nos estudantes, a ideia do letramento vai muito além na medida em que um sujeito letrado não somente sabe ler e escrever, mas também exerce e desen- volve práticas sociais nas quais utilizam a escrita. Assim, para que os estudantes produzam inferências que levem à compreensão e interpretação corretas dos textos lidos, é importante que eles tenham também o letramento ma- temático desenvolvido, atribuindo dinamismo à organi- zação de informações que favoreçam o processamento e a compreensão de um problema. Conhecer procedimentos de cálculos matemáticos é importante e necessário, mas o letramento matemá- tico vai muito além: os estudantes necessitam estar aptos a combinar esses elementos na resolução e ela- boração de problemas, e é essa a capacitação propos- ta na BNCC. Pavlo S/Shutterstock 161a198_V1_MATEMATICA_Dante_g21At_MPG.indd 177161a198_V1_MATEMATICA_Dante_g21At_MPG.indd 177 19/09/2020 12:5819/09/2020 12:58 178 Sendo assim, os estu- dantes do Ensino Médio continuarão resolvendo problemas, porém, além de encontrar a resposta corre- ta, precisam justificar essa resolução, explicar por que a fizeram de determinada maneira e demonstrar o ra- ciocínio para os colegas e para você. De acordo com a proposta da BNCC, já não será suficiente apenas estudar conceitos; eles devem apreendê-los e usá-los como conhecimento aplicável em problemas da vida real, com base na produção de análi- ses críticas, criativas e propositivas. No livro Investigações matemáticas na sala de aula, de João Pedro da Ponte, Joana Brocardo e Hélia Oliveira (4. ed. Belo Ho- rizonte: Autêntica Editora, 2019. Coleção Tendências em Educa- ção matemática, 7), os autores apresentam desafios e benefícios das práticas de investigação em aulas de Matemática com base em informações coletadas em pesquisas que envolvem profes- sores e estudantes. As análises que surgem das reflexões dessas vivências compõem um rico material para quem deseja implan- tar investigações matemáticas nas aulas. MAIS SOBRE O ASSUNTO � Investigação científica O envolvimento dos estudantes no exercício da curio- sidade intelectual, bem como a utilização das ciências com criticidade e criatividade, é fundamental para a pro- dução de conhecimentos com base em processos de in- vestigação científica. A proposição de problemas e atividades que envol- vam o desenvolvimento dos diferentes tipos de raciocínio lógico-matemático (indução, dedução, abdução e racio- cínio por analogia), para analisar e explicar processos de investigação, sem dúvida colabora para um ambiente de ensino e de aprendizagem repleto de significados, no qual cada estudante sinta-se não somente inserido, mas tam- bém convidado a agir e a atuar como protagonista da própria aprendizagem. Nesse sentido, de acordo com as propostas feitas no Livro do Estudante desta coleção, é importante que os estudantes façam investigações de natureza matemática com cientificismo, respeitando o nível adequado a cada etapa de ensino, pois, desse modo, eles formalizam os conteúdos enquanto desenvolvem o raciocínio e a lógi- ca. Afinal, investigar cientificamente passa por formular perguntas, interpretar dados empregando o raciocínio e a lógica, para, logo em seguida, desenvolver hipóteses e fazer conjecturas. Se é certo que uma hipótese é um modo de propor- cionar uma resposta temporária a uma pergunta, tam- bém é certo que o que realmente importa não é que a hipótese esteja correta, mas sim que ela inicie um proces- so por meio do qual o estudante analise e discuta, com- pare, avalie, conclua, verifique, valide e demonstre. O raciocínio vai além do ato intelectual em si, trans- cende-o, estabelece vínculos, formando um processo, que exige demonstrações e provas das “verdades” que se está conhecendo ou investigando. Esse processo de conhecimento proporcionado pela investigação com base nesse aspecto científico privilegia novas maneiras de pensar e de o estudante se “envolver” com a Matemática em ambiente escolar. E por propor- cionar a cada um deles oportunidades de criar e de con- solidar conhecimento matemático, desenvolvendo a cria- tividade, é que as investigações matemáticas têm adquirido destaque. Para o desenvolvimento de atividades dessa natureza, são essenciais as ideias e pesquisas dos estudantes, bem como sua atuação, professor, como incentivador, que apoia e privilegia o desenvolvimento de atitudes questio- nadoras, a observação paraa análise de problemas, a for- mulação de hipóteses e a busca de explicações e argu- mentações, em que o desenvolvimento de ideias próprias tem papel de destaque. Para compreender os tipos de raciocínio por dedu- ção, indução e abdução, mencionados anteriormente, leia o texto a seguir. Dedução e indução são procedimentos racionais que nos levam de algo já conhecido a algo que ainda não é conhecido, isto é, permitem que adquiramos conhecimentos novos graças a conhecimentos já ad- quiridos. Por isso, costuma-se dizer que, no raciocínio, o pensamento segue cadeias de razões ou os nexos e co- nexões necessárias entre as ideias ou entre os fatos. [...] A dedução consiste em partir de uma verdade já conhecida e que funciona como um princípio geral ao qual se subordinam todos os casos que serão de- monstrados a partir dela. Na dedução demonstra-se que uma verdade já conhecida se aplica a todos os casos particulares iguais. Por isso também se diz que a dedução vai do geral ao particular ou do uni- versal ao individual. O ponto de partida de uma dedução é ou uma ideia verdadeira (ou definição) ou uma teoria verda- deira (um todo sistemático de definições e demons- trações verdadeiros). A finalidade do processo dedu- tivo é assegurar a inferência de conclusões novas e verdadeiras com base na definição do objeto ou na teoria já existente. Pavlo S/Shutterstock 161a198_V1_MATEMATICA_Dante_g21At_MPG.indd 178161a198_V1_MATEMATICA_Dante_g21At_MPG.indd 178 19/09/2020 12:5819/09/2020 12:58