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n p i
APROVADO
Roberto
Máquina de escrever
VENDA PROIBIDA
A PARTICIPAÇÃO ESSENCIAL
DOS PENTECOSTAIS
NO DEBATE NACIONAL
O ETHOS PENTECOSTAL
NA ESFERA PÚBLICA
Douglas Baptista
A participação na esfera pública de
cidadãos que professam sua fé
é cada vez maior, em especial de
pentecostais. Um direito que não
deve ser cerceado em nome de
visões equivocadas do que seja
Estado Laico.
Com sólida fundamentação ™
acadêmica, o autor apresenta,
à luz da Declaração de Fé das
Assembléias de Deus, a vitalidade
da doutrina teológica institucional
na formação do "ethos", isto
é, da identidade pentecostal e
demonstra sua influência positiva
na esfera pública.
TA M B É M
D IS P O N ÍV EL
N A V E R S Ã O
E -B O O KFormato: 14,5x22,5cm
Páginas: 288
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CARTA DA CPAD
RONALDO R. DE SOUZA
Diretor-executivo
da CPAD
Esse tema é
de grande
importância
porque os
dons foram
dados para
edificação do
Corpo de Cristo
e também tem
havido abusos
Os dons do
Espírito, sua
atualidade, uso e
importância
Nesta última edição de 2023 da revista Obreiro Aprovado,
nosso tema é Os dons espirituais e sua manifestação. Nosso
objetivo é tratar sobre a atualidade, a importância e
a operação dos dons do Espírito na vida da igreja. O
apóstolo Paulo, escrevendo aos crentes em Corinto, afirmou sobre
esse assunto: "Acerca dos dons espirituais, não quero, irmãos, que
sejais ignorantes (ICo 12.1). Urge, portanto, abordarmos esse as
sunto, que é de grande importância para a coletividade da igreja,
porque os dons foram dados para a edificação do Corpo de Cristo
(ICo 12.7,11; Ef 4.12)), e também porque, infelizmente, muitos são
os abusos que têm sido cometidos em alguns lugares em relação
a esse assunto.
Nesse propósito, temos nesta edição uma entrevista com o
pastor Álvaro Alén Sanches, líder da Igreja Evangélica Assembléia
de Deus em Uberlândia (MG) e da Convenção dos Ministros das
Assembléias de Deus no Triângulo Mineiro (Comadetrim), tratando
sobre esse importante assunto; e os artigos dos pastores Elinaldo
Renovato de Lima (RN), Jonas Mendes (MT), Esdras Bentho (RJ),
Marcos Tedesco (SC) e Abiezer Apolinário (RJ) abordando, respec
tivamente, os temas da atualidade dos dons, dos dons de elocução,
dos dons de revelação, dos dons de poder e dos dons ministeriais.
São artigos escritos por mestres que com certeza irão contribuir
para um melhor entendimento sobre os dons do Espírito e a sua
operacionalidade na vida da Igreja.
Aproveitamos este espaço para também louvar a Deus por
mais um ano que se encerra, em que tivemos o privilégio de mais
uma vez servi-lO com o que Ele, pela Sua graça, tem nos dado, e
desejar toda sorte de bênçãos da parte de Deus para o seu minis
tério, a sua família e a sua igreja neste final de ano. No mais, uma
boa leitura e até 2024!
RO
SUMARIO
OBH1RO
A P R O V A D O
AN O 47 - N° 103 - 4 o TRIMESTRE 2023
Presidente da Convenção Geral
José Wellington Costa Junior
Presidente do Conselho Administrativo
José Wellington Bezerra da Costa
Diretor-executivo
Ronaldo Rodrigues de Souza
Editor-Chefe
Silas Daniel
Editor
Eduardo Araújo
Gerente Financeiro
Josafá Franklin Santos Bomfim
Gerente de Produção e Arte
Jarbas Ram ires Silva
Gerente de Publicações
Alexandre Claudino Coelho
Gerente Comercial
Cícero da Silva
Chefe do Setor de Arte e Design
Wagner de Almeida
Projeto Gráfico
Fábio Longo
Diagramação e Capa
Leonardo Engel
Projeto Digital
Alan Valle
Ilustrações
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06. CARTA À LIDERANÇA PENTECOSTAL
A MENSAGEM QUE IMPACTA O CORAÇÃO DO PECADOR
O pastor José Wellington Costa Junior, presidente da Convenção Geral dos Minis
tros das Igrejas Evangélicas Assembléia de Deus no Brasil (CGADB), a partir do
texto de Jeremias, ressalta as diferenças de mensagem entre os falsos mensageiros
de Deus e os verdadeiros mensageiros de Deus.
ÉU»
>UI
ai-zUI
12. ARTIGO
OS DONS SÃO PARA HOJE
O pastor Elinaldo Renovato de Lima, líder da Assembléia de Deus em Parnami-
rim (RN) e comentarista de Lições Bíblicas da CPAD, fala da atualidade dos dons
espirituiais
20. ARTIGO
OS DONS DE ELOCUÇÃO
O pastor Jonas Mendes, professor de Teologia da faculdade teológica da Assem
bléia de Deus em Cuiabá (MT), trata sobre os dons de profecia, variedade de lín
guas e interpretação de línguas
27. RESENHA
O Fruto do Espírito - Antonio Gilberto
Teologia Sistemátia Pentecostal - Antonio Gilberto, Elienai Cabral, Esequias Soares,
Severino Pedro, Wagner Gaby, Claudionor de Andrade, Ciro Zibordi e Geremias
do Couto.
OS DONS DE REVELAÇÃO
O pastor e professor Esdras Bentho (RJ), da Faculdade das Assembléias de Deus
(Faecad), analisa os chamados dons de revelação, abordando a sua operacionali-
dade à luz do texto bíblico
38. ARTIGO
OS DONS DE PODER
O professor, teólogo, pedagogo e pastor Marcos Tedesco (SC) discorre sobre a
operação e o propósito dos chamados dons de poder
44. ARTIGO
OS DONS MINISTERIAIS
O pastor Abiezer Apolinário (RJ), presidente da Comissão Jurídica da Convenção
Geral dos Ministros das Igrejas Evangélicas Assembléia de Deus no Brasil (CGA
DB), fala das características dos dons ministeriais à luz do texto bíblico
Entrevista: o pastor Álvaro Alen Sanches, lider da Convenção de
Ministros das Assembléias de Deus no Triângulo Mineiro (COMA-
DETRIM) e da Assembléia de Deus Missão aos Povos (ADMP) fala
dos propósitos e da importância dos dons espirituais para a igre
ja hodierna
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MENSAGENS
Revista proporciona
base teológica para seus
leitores
O que torna um obreiro preparado para a
obra de Deus? O estudo sistemático das
Escrituras Sagradas a fim de preparar
membros de Cristo e enviá-los como pes
cadores de almas devidamente equipados
para não aceitar teorias críticas e destru
tivas capazes de minar a fé do ministro.
Esse é um dos objetivos que vejo neste pe
riódico para a vida de seus leitores.
Profa. Leonarda Barros,
Campina Grande (PB)
Periódico com
conteúdo fidedigno
A revista Obreiro Aprovado é o periódi
co mais sólido de nossa denominação no
Brasil. Nós sabemos que um dos pontos
mais difíceis da fé cristã é o equilíbrio,
e a supramencionadarevista tem esse
escopo. Em suas páginas, encontramos
erudição e piedade, teologia e vida. Ao
lermos seus conteúdos, recebemos "luz
na mente e fogo no coração".
Pr. Geovane Leite,
Barreiras (BA)
Profundidade em
temas espirituais
A leitura da revista Obreiro Aprova
do é indispensável para todo assem-
bleiano que deseja uma leitura mais
profunda sobre temas espirituais
sob a ótica de vários autores pente-
costais. Por esse motivo, a Obreiro
Aprovado faz parte de minha leitu
ra teológica, servindo também como
recurso para ministrações e aulas na
Escola Dominical, sempre com con
teúdo aprofundado sobre os temas
propostos.
Prof. Geisel de Paula,
Guarulhos (SP)
Fonte imprescindível
A revista Obreiro Aprovado não é uma revista,
mas, sim, um manual prático que traz um es
tudo para o dia a dia para aqueles que querem
viver na Palavra de Deus. É um manuel que é
fonte imprescindível para pastores, ministros do
evangelho, professores; enfim, todos aqueles que
vivem e ensinam a verdadeira Palavra de Deus.
Ev. Elias de Paula Ferreira,
P oços de Caldas (MG)
Quer também
mandar sua mensagem?
Então escreva para a revista Obreiro Aprovado. Pode
enviar sua mensagem para o email obreiro@cpad.com.
br ou, se preferir, enviar sua carta para o endereço
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CEP 21852-002.
Esperamos o seu contato!
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CARTA A LIDERANÇA PENTECOSTAL
PR. JOSÉ WELLINCTON
COSTA JUNIOR
Presidente da
Convenção Geral dos
Ministros das Igrejas
Evangélicas Assembléias
de Deus no Brasil
Reflita sempre na
palavra que nos
estimula a manter
a comunhão com
Deus intacta a
fim de evitar o
embaraço com
o pecado
A mensagem
que impacta
o coração
do pecador
Convido o prezado leitor a meditar comigo na mensagem
de Jeremias 29.11, em que o profeta foi um instrumento
nas mãos de Deus. Parece que a voz emitida de seus lábios
foi a do próprio Criador. A mensagem é esta: "Porque eu
bem sei os pensamentos que tenho a vosso respeito, diz o Senhor;
pensamentos de paz, e não de mal, para vos dar o fim que esperais".
Todos nós sabemos que Jeremias pertencia a uma linhagem sacer
dotal, mas foi por Deus escolhido para servir como profeta e ele
mesmo registrou essa realidade no primeiro capítulo de seu livro, nos
versículos 4 e 5: "Assim veio a mim a palavra do Senhor, dizendo:
Antes que te formasse no ventre te conheci, e antes que saísses
da madre, te santifiquei; às nações te dei por profeta". O Senhor
lhe disse que havia estabelecido um concerto com ele antes de
seu nascimento, porque Deus nos conhece antes mesmo de nossa
existência neste mundo. Antes mesmo de nosso nascimento, o Se
nhor colocou as Suas poderosas mãos na vida de cada um de nós!
As profecias de Jeremias manifestavam alguns propósitos,
sendo que um destes era exortar seus compatriotas a abandonar
a apostasia e a idolatria. O que é apostasia? É a renúncia de uma
fé professada antes, é ignorar aquela confiança outrora defendida
pelo indivíduo.
Na verdade, existem algumas situações em que o apóstata não
se considera distante de Deus, e esta é a pior situação enfrentada
por ele: o indivíduo imagina não estar afastado da presença divina,
defende as suas idéias erradas e afirma não precisar se justificar
a ninguém, mas "somente a Deus". Para completar, há outros
profetas que emitem mensagens do tipo "Fique como estás" e "E
tudo a mesma coisa".
O profeta Jeremias anunciava a seu povo uma mensagem fi
dedigna com o propósito de conscientizar as pessoas distantes do
Senhor, levando-as ao arrependimento e a refletir a sua condição
diante de Deus. A Bíblia Sagrada revela que "aquele que confessa e
deixa, alcança misericórdia, mas aquele que encobre transgressões,
não prosperará" (Pv 17.9). Reflita sempre na Palavra que estimula
o ser humano a manter a sua comunhão com Deus intacta a fim
de evitar o embaraço com o pecado.
OB RO
6
ENTREVISTA
Pastor
Álvaro
Alén
Sanches
A importância
e o propósito
dos dons
espirituais
para a vida
da Igreja
P ara falar sobre os dons
espirituais, nosso en
trevistado nesta edi
ção da revista Obrei
ro Aprovado é o pastor Álvaro
Alén Sanches, líder da Assem
bléia de Deus Missão aos Povos
(ADMP), em Uberlândia (MG), e
que exerce também, desde 1998,
a presidência da Convenção dos
Ministros das Assembléias de
Deus do Triângulo Mineiro (Co-
madetrim), além de ser 3o secre
tário da Convenção Geral dos
Ministros das Igrejas Evangéli
cas Assembléia de Deus no Brasil
(CGADB). Antes de exercer essas
funções, pastor Álvaro admi
nistrou várias congregações da
ADMP em Uberlândia e nas cida
des de Santa Helena e Itumbiara
(GO), onde exerceu a presidência.
Em 26 de dezembro de 1993, ele
assumiu a liderança da Assem
bléia de Deus em Uberlância,
sucedendo o pastor José Braga da
Silva. O pastor Álvaro credita ao
Senhor o sucesso de seu minis
tério no interior mineiro. Graças
ao seu esforço em disseminar a
Palavra de Deus no Triângulo
Mineiro, o ele adquiriu o respei- A
to e a credibilidade de seu corpo
ministerial, da membresia e dos
demais integrantes da comuni
dade, inclusive fortalecendo a
relação da igreja uberlandense
com as autoridades do estado e
município. Em sua gestão, pastor
Álvaro também tem dado ênfase
ao trabalho missionário. Nesta
entrevista, o líder assembleiano
fala dos dons esírituais e também
sobre a importância do batismo
no Espírito Santo.
Como o senhor define o
propósito e a importância dos
dons espirituais para a vida
da igreja?
Biblicamente falando, os dons
espirituais têm um duplo pro
pósito: a edificação da igreja e a
capacitação para que executemos
a tarefa específica que Nosso Se
nhor nos confiou em Sua obra.
Os dons são dádivas advindas do
Espírito Santo para que sejamos
úteis no serviço a Deus. Pedro
fala sobre isso em sua primeira
carta, no capítulo 4, versículo 10,
nos exortando a "administrarmos
nossos dons como bons despen-
seiros da multiforme graça de
Deus". Os dons não são dados
para promoção de pessoas. Logo,
uma igreja desprovida dos dons
espirituais não consegue atingir
a sua finalidade, que é a salvação
e a edificação de almas, e se com
porta como a igreja de Sardes:
tem fama de viva, mas está morta
(Ap 3.1). Sabemos, sem sombra de
dúvida, que precisamos lembrar
que os dons são vitalis para cada
crente. E preciso termos vestes
brancas, mas que também não fal
te o óleo do Espírito Santo sobre
a nossa cabeça (Ec 9.8).
A que fatores o senhor cre
dita a diminuição da mani
festação dos dons espirituais
em uma igreja?
Vivemos em um mundo onde
centenas de igrejas têm sido víti
mas de muitos males, mas diria
que os principais são o mundanis-
mo e o materialismo. Em relação a
isso, temos um mal que, de forma
sorrateira, está vindo para entrar
de vez nas igrejas. Falo da inteli
gência artificial. Hoje é só clicar
em uma tecla e a mensagem está
pronta. "Sendo assim, para que os
dons do Espírito Santo?", alguns
podem pensar. Na Europa, robôs
já são consultados em assuntos
eclesiásticos, missões, escatologia,
e com isso o Espírito Santo e Seus
dons ficam em segundo plano.
Quando uma igreja perde sua re
ferência de santidade, permitindo
que práticas estranhas ao evange
lho e à doutrina bíblica entrem em
sua membresia, vemos o fracasso
espiritual e consequentemente a
diminuição dos dons espirituais.
Igrejas que têm relativizado o
pecado, adotado a famigerada te
ologia liberal ou mesmo aceitado
práticas pecaminosas sob o argu
mento de serem "inclusivas" es
tão se esvaziando da presença do
Espírito Santo. Já o materialismo
tem afetado comunidades inteiras
cujo foco é o ganho terreno, uma
vida plena nas riquezas da Terra,
mesmo que para isso renunciem
à pregação do evangelho de Jesus
Cristo. Se uma instituição ama
o dinheiro e o poder, ela está se
adequando à realidade daqui e
ficando mais longe da expectativa
do Céu. A consequência natural
é a extinção dos dons concedidos
pelo EspíritoSanto.
Muitos teólogos pentecos-
tais frisam que não obstante
seja possível um crente ma
nifestar algum dom espiritual
Os dons não
são dados para
promoção de
pessoas. Uma
igreja desprovida
dos dons
espirituais não
consegue atingir
sua finalidade,
que é a salvação
e a edificação de
almas
sem ser batizado no Espírito
Santo, é fato que o batismo
no Espírito Santo é a grande
porta de entrada para os dons
espirituais, pois é através dele
que temos um acesso muito
maior aos dons do Espírito.
Logo, o senhor acredita que,
além dos fatores mais co
muns para a diminuição dos
dons espirituais em uma igre
ja, uma das possíveis causas
para essa diminuição - não a
única, mas uma das - possa
ser também a falta da busca
pelo batismo no Espírito San
to e do entendimento quanto
ao seu propósito para a vida
do crente?
Com certeza! É importante res
saltar que se nós, como membros
do Corpo de Cristo, também não
buscarmos os dons, eles natural
mente tendem a diminuir no seio
da igreja. Muitas denominações
deixaram de buscar o batismo no
Espírito Santo, profecias e outros
dons e vivem um esfriamento por
isso. O apóstolo Paulo deixou re
gistrado em 1 Coríntios 12 que os
crentes devem "buscar com zelo
os melhores dons". O Espírito San
to é uma pessoa rica em dádivas,
não só em relação aos dons, mais
a muitas e muitas outras coisas
necessárias para a igreja e o mi
nistério, porém a manifestação
de dons sem sermos batizados no
Espírito é impossível. O talento
pessoal pode ser útil no Reino de
Deus quando dinamizado pelo
Espírito. Em Êxodo 31.3 e 35.30,35,
vemos a demonstração de talentos
usados por Deus. Há obras mate
riais, mas dons são a manifestação
direta do Espírito Santo, e para
experimentar isso é preciso ser
batizado nEle. Hoje, presenciamos
grandes eventos, congressos, nos
quais se investe muito dinheiro e
não há uma busca pelo batismo no
Espírito Santo e nem conversão de
almas. É claramente uma inversão
da finalidade que temos como
igreja na Terra. Atos 2 nos revela
que os discípulos oraram por mui
tos dias reunidos no cenáculo até
que o Espírito de Deus veio sobre
eles. Precisamos aprender essa li
ção e mantermos incessantemente
a busca pelo batismo no Espírito
Santo em nosso meio. Os dons
são obra do Espírito Santo com
manifestação sobrenatural tendo
como finalidade o crescimento do
Corpo de Cristo.
Em alguns lugares, não
se pode dizer que não há a
manifestação dos dons do
Espírito, mas, por outro lado,
às vezes ocorrem muitos ex
cessos, ou seja, “meninices”
e até eventuais abusos. Fale
sobre a melhor forma de evi
tar esses problemas em uma
igreja sem deixar de manter
o cuidado para não apagar a
chama do Espírito.
A Bíblia claramente receita o
antídoto para não cairmos nessas A
o bS I ro
armadilhas e chama-se discerni
mento espiritual. Note que quan
do Paulo exorta a igreja de Corin-
to, ele deixa bem claro que a igreja
deveria buscar os dons espirituais,
mas não renunciar um culto or
deiro. A Assembléia de Deus foi
fundada em 1911 e tem um lastro
relevante como igreja pentecostal.
Conhecemos o que é o mover de
Deus e, justamente por isso, ana
lisamos todas essas "inovações" à
luz da Bíblia. Supostas "unções",
manifestações incomuns de lín
guas estranhas, cultos que mais
se assemelham a cerimônias de
religiões afro etc não encontram
base bíblica alguma e, portanto,
devem ser rejeitados. Como evitar
o contágio desse tipo de atitude
na igreja? Levando o rebanho de
Cristo a estudar a Bíblia, a me
ditar na Palavra de Deus. Nossa
bússola norteadora é a Escritura
Sagrada. Por ela nos protegemos
daqueles que querem distorcer a
obra e o mover do Espírito Santo.
Tenho visto que essa modalidade
mística, com apresentações mu
sicais com excesso de dança ou
com pregadores com gesticula-
ções espalhafatosas pregando nas
mídias, não faz parte das igrejas
ligadas à Convenção Geral das
Igrejas Evangélicas Assembléia de
Deus no Brasil (CGADB), porque
nossas lideranças se preocupam
com a ordem na liturgia, promo
vem seminários e valorizam a
Escola Dominical pensando na
geração de obreiros novos e, mais
ainda, na apresentação de pastores
idôneos, de homens que tenham o
dom de discernimento.
Como o senhor descreve o
dom de operação de maravi
lhas, mencionado por Paulo,
e a sua importância?
O dom de maravilhas é o mes
mo dom de milagres, ou seja, é
o presente de Deus que permite
que o servo do Senhor seja usado
na alteração das leis naturais, fa
zendo aquilo que, pela capacida
de humana, é impossível. Como
milagre, ele é aquilo que escapa
à ordem natural das coisas, que
quebra as leis da ciência. O dom
de maravilhas opera intervenções
sobrenaturais. Podemos citar tan
tos exemplos! Os milagres realiza
dos pelos apóstolos, os sinais que
Moisés realizou quando estava
no Egito e durante a peregrinação
pelo deserto, os milagres de Cris
to, como a ressurreição de mortos.
Tudo isso são manifestações do
dom de maravilhas.
Qual a distinção entre o
dom de palavra de sabedoria
e o dom de palavra de conhe
cimento? Cite exemplos bí
blicos da manifestação deles
para aclarar a distinção
A palavra de sabedoria é uma
transmissão do próprio Deus atra
vés do homem. Não está ligada à
quantidade de conhecimento teo
lógico ou técnico que uma pessoa
tem, mas à sua capacidade de rece
ber a sabedoria do Alto para tomar
decisões e trazer aconselhamento.
Um exemplo clássico que temos
na Bíblia é o caso de Salomão. No
evento em que ele julgava duas
mães que disputavam o filho de
uma delas, Salomão age imbuído
da sabedoria do próprio Deus. Já a
palavra de conhecimento é aquilo
que popularmente chamamos de
revelação. Quando Deus revela a
um de seus servos algo oculto ou
um evento futuro por meio de so
nhos, visões ou alguma revelação
especial, vemos o manifestar da
palavra de conhecimento.
Muitas pessoas confun
dem dons ministeriais com
cargos. Gostaria que o se
nhor fizesse essa distinção
e explicasse a finalidade de
cada um dos dons ministe
riais.
Os dons ministeriais se dife
renciam dos outros dons porque
esses não são dados a quem pede,
mas, sim, a quem Deus escolhe.
Não existe hierarquia entre es
ses dons e eles são dados para
o aperfeiçoamento dos santos.
A Bíblia cita quais são os dons
ministeriais: apóstolos, profetas,
evangelistas, pastores e doutores,
também chamados de mestres.
São atribuições vindas da parte
de Deus. Quando Paulo escreve
sobre esses dons em Efésios 4.11,
repare que ele diz que "Ele mes
mo deus uns para apóstolos (...)",
isto é, não foi algo que pedimos,
mas foi um ato discricionário
de Deus. Já cargos são atribui
ções que homens recebem para
executar atividades técnicas ou
de apoio na igreja, sem nenhum
vínculo ministerial e obedecem a
uma estrutura hierárquica. Pode
mos citar secretários, tesoureiros,
líderes de departamentos, regen
tes etc. Qualquer pessoa que te
nha as características necessárias
para o bom desempenho dessas
ordenanças pode ser indicada ao
cargo. Outra diferença é que os
dons ministeriais não deixam o
homem porque, sob certa pers
pectiva, o dom é o homem. A não
ser, claro, que ele caia em pecado,
afastando-se, assim, do propósito
de Deus para a sua vida. Já cargos
possuem um tempo de mandato
ou execução. B
TENHA O CONHECIMENTO
PERFEITO DA LÍNGUA
PORTUGUESA PARA
PREGAR E ENSINAR
COM EXCELÊNCIA
MANUAL DE
LÍNGUA PORTUGUESA
PARA OBREIROS CRISTÃOS
Em diversas passagens, a Bíblia ensina que o cristão
deve fazer qua lquer ta re fa com zelo e excelência.
Esta verdade não é menor ao fa larm os do estudo
e transm issão das Escrituras Sagradas.
Nesta obra, o pro fessor de Língua Portuguesa e
Literatura, Mareio Estevan, lhe levará a um mergulho
ao m undo das pa lavras. Fornecendo conceitos
básicos de g ra m á tica , a b ra n g e n d o fono log ia ,
m orfologia, sintaxe e semântica, além da citação
de diversos versículos, o Manual de Língua Portuguesa paraObreiros Cristãos abre um cam inho para uma m aior
com preensão da Palavra de Deus, e ajuda
na busca da excelência no estudo e transm issão
de e n s in a m e n to s bíb licos.
Formato: 14,5 x 22,5 cm / Páginas: 528
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Elinaldo Renovazo de L im a
Elinaldo Renovato de Lima é pastor,
líder da Assem blé ia de Deus em
P arnam irim (RN), com en ta ris ta de
Lições B íb licas de Escola D om in ica l
da CPAD, g raduado em Teologia e
m estre em Ciência da Religião
A manifestação
divina não tem
data de validade;
nenhuma
passagem bíblica
dá a entender
que os dons
espirituais foram
destinados
apenas à Igreja
do primeiro
século
Os Dons
sença
uando os discípu-
i los conviviam com
Cristo, tinham a se
gurança de Sua pre-
de Seu apoio direto
e de suas orações poderosas em
seu favor. No entanto, quando
perceberam que estavam pres
tes a ver Sua partida de volta aos
céus, ficaram um tanto atemori
zados. Mesmo depois de terem
feito o mais completo e perfeito
curso de evangelização e missões
aos pés do Mestre Jesus, eles se
sentiam inseguros para cumprir
o mandato de Cristo.
Mas, Jesus, ao se despedir dos
discípulos, antes de Sua ascensão,
lhes determinou que não saíssem
a pregar "em todas as nações"
antes do recebimento do indispen
sável poder do alto: "Eis que sobre
vós envio a promessa de meu Pai:
Ficai, porém, na cidade de Jerusa
lém, até que do alto sejais revestidos
de poder" (Lc 24.49). Ainda que es
tivessem inseguros, os discípulos
poderíam começar sua missão a
partir de Jerusalém. Jesus assegu
rou que eles seriam batizados com
o Espírito Santo: "E, estando com
eles, determinou-lhes que não se
ausentassem de Jerusalém, mas
que esperassem a promessa do Pai,
que (disse ele) de mim ouvistes.
Porque, na verdade, João batizou
com água, mas vós sereis batizados
com o Espírito Santo, não muito de
pois destes dias" (At 1.4-5 - grifo
acrescido).
Eles obedeceram a Jesus e se
reuniram no Cenáculo, onde fi
caram em orações e súplicas, jun
tamente com algumas mulheres
seguidoras de Cristo (At 1.13.14),
até que a "promessa do Pai" se
tornou realidade.
Antes do Pentecostes
O judaísmo e as seitas que pro
liferaram no período interbíblico,
durante cerca de quatrocentos
anos, levaram o povo de Israel a
um estado de letargia espiritual.
Os fariseus, os saduceus, os essê-
nios e outros grupos religiosos
daquela época tinham uma men
sagem vazia, às vezes radicalista,
cheia de hipocrisia e desfaçatez.
Além disso, grande parte dos líde
res desses grupos, com apoio dos
sacerdotes judeus, perseguiam a
Igreja nascente. Se esta não tivesse
poder e não experimentasse o avi-
vamento do Espírito Santo, jamais
teria sobrevivido.
Jesus trouxe um novo tempo
para o povo de Israel e para o
mundo. Infelizmente, a maioria
dos homens não compreendeu a
mensagem dEle. Nesse contexto,
Jesus determinou que os discí
pulos teriam que esperar "a pro
messa do Pai", prevista por Joel (J1
2.28,29), de um derramamento do
seu Espírito "sobre toda carne",
ou seja, sobre toda a humanidade.
Esse avivamento chegou no Dia
de Pentecostes, quando o Espíri
to Santo desceu sobre os que se
achavam no Cenáculo orando
a Deus, na expectativa do que
aconteceria à Igreja após a volta
de Jesus aos céus.
são para Hoje
A descida do
Espírito Santo
Se com a presença de Jesus os
discípulos já haviam experimenta
do as evidências do poder de Deus
em suas vidas, a ponto de verem
curas, milagres e prodígios, e os
demônios expulsos no Nome de
Jesus, depois do batismo com o
Espírito Santo, registrado em Atos
2, houve uma verdadeira revolução
espiritual no meio dos seguidores
de Jesus. Na ocasião, houve sinais
sobrenaturais de que o novo tempo
havia chegado: "Cumprindo-se o
dia de Pentecostes, estavam todos
reunidos no mesmo lugar; e, de
repente, veio do céu um som, como
de um vento veemente e impetu
oso, e encheu toda a casa em que
estavam assentados. E foram vistas
por eles línguas repartidas, como
que de fogo, as quais pousaram
sobre cada um deles. E todos foram
cheios do Espírito Santo e come
çaram a falar em outras línguas,
conforme o Espírito Santo lhes
concedia que falassem" (At 2.1-4).
Dali em diante, aquele movi
mento espiritual, de dimensão
jamais vista, deveria ser a marca
impactante dos que faziam a Igreja
de Jesus. No Novo Testamento,
não existe a palavra "avivamento",
mas vemos que, em todos os dias
da Igreja Primitiva, o que identifi
cava os cristãos era um viver fiel,
santo e dedicado a Deus, num cli
ma de avivamento espiritual cons
tante. Nos Atos dos Apóstolos, o
avivamento teve início, mas não
A 13
parou nos primeiros dias, como
entendem irmãos cessassionistas,
ligados principalmente a igrejas
reformadas. Pelo contrário, pros
seguiu na Igreja neotestamentária
e continua até os dias de hoje, no
meio dos crentes que aceitaram a
Cristo como seu Salvador e bus
cam uma vida de mais íntima
comunhão com Ele. Meditemos
nesse importante assunto do avi-
vamento na vida da Igreja.
Os dons do Espírito Santo
são para hoje
1. O engano dos cessassio
nistas - Cessacionistas creem e
afirmam que o batismo com o
Espírito Santo, com sinais eviden
tes de línguas estranhas aos que
o recebiam, bem como os outros
sinais manifestados a partir do
Dia de Pentecostes, foram “ape
nas para aqueles dias", para os
dias apostólicos; e seguindo seus
teólogos e intérpretes da Bíblia,
acrescentam ainda que o batismo
com o Espírito Santo é a própria
conversão. De acordo com a Bíblia,
tal afirmação não corresponde à
realidade dos fatos narrados no
Novo Testamento.
“Os que se encontravam no
Cenáculo, todos os dias, orando
e esperando 'a promessa do Pai',
não eram descrentes; muito pelo
contrário, eram salvos, fiéis seguido
res de Jesus. Participaram de seu
ministério durante cerca de três
anos e continuaram crendo, en
sinando seu evangelho, que eram
"boas novas" de poder, de unção
e evidências de que o fenômeno
do batismo com línguas estranhas
não era uma mensagem qualquer,
de natureza religiosa, filosófica ou
retórica e passageira. Era, na ver
dade, a mensagem de Deus para
os judeus, para a Igreja e para o
mundo. Assim, nós, pentecostais,
somos continuístas. Aceitamos
que o batismo com o Espírito
Santo, com evidência do falar em
línguas estranhas, e os dons espi
rituais, são para todos os tempos,
desde que a Igreja foi inaugurada
no Dia de Pentecostes" (LIMA,
2023, p 52).
2. O Batismo com o Espírito
Santo é para todos os salvos - Os
primeiros a receberem essa mani
festação sobrenatural do Espírito
Santo, com sinais evidentes, in
cluindo o falar em línguas estra-
14
REIOB RO
nhas (para eles, os que falavam),
foram os discípulos, que se reu
niam no Cenáculo. Antes dessa
experiência, eles foram levados até
Betânia, onde Jesus os abençoou
e voltou para o Céu (Lc 24.50,51);
em seguida, depois da ascensão
de Jesus, eles voltaram de Betânia
para Jerusalém, os onze discípulos
e também "as mulheres", os quais
foram para o Cenáculo, onde per-
severavam em oração, esperando
o cumprimento da "promessa do
Pai": "E, entrando, subiram ao ce
náculo, onde habitavam Pedro e
Tiago, João e André, Filipe e Tomé,
Bartolomeu e Mateus, Tiago, filho
de Alfeu, Simão, o Zelote, e Judas,
filho de Tiago. Todos estes perse-
veravam unanimemente em ora
ção e súplicas, com as mulheres,
e Maria, mãe de Jesus, e com seus
irmãos" (At 1.13,14).
Era grande a expectativa da
queles irmãos, discípulos de Jesus,
sobre o que aconteceria depois da
volta de Jesus aos céus, mas eles
se lembravam da promessa que o
Senhor lhes fizera, em suas últi
mas instruções, antes de ir para o
Calvário, quando lhes prometeu o
envio do Consolador. "E eu rogarei
ao Pai, e ele vos dará outro Con
solador, para que fique convosco
para sempre" (Jo 14.16). Essa pro
messa Ele repetiu nos momentospróximos à Sua ascensão: "E eis
que sobre vós envio a promessa
de meu Pai; ficai, porém, na cidade
de Jerusalém, até que do alto sejais
revestidos de poder" (Lc 24.49). Ela
foi reiterada em Atos 1.5, explici
tando que essa "promessa do Pai"
era o batismo com o Espírito Santo.
Com a descida do Espírito
Santo sobre os discípulos no Ce
náculo, em Jerusalém, em Atos 2,
houve grande alvoroço, pois era
comemorado o Dia de Pentecostes,
a segunda maior festa dos judeus,
depois da Páscoa. Então. Pedro
levantou-se e fez um discurso ex
plicando a todos o que significava
aquele movimento espiritual, ou
melhor, aquele avivamento espiri
tual, dizendo: "Mas isto é o que
foi dito pelo profeta Joel: E nos
últimos dias acontecerá, diz Deus,
que do meu Espírito derramarei
sobre toda a carne; e os vossos
filhos e as vossas filhas profetiza
rão, os vossos jovens terão visões,
e os vossos velhos sonharão so- Á
nhos; e também do meu Espírito
derramarei sobre os meus servos
e minhas servas, naqueles dias, e
profetizarão" (At 2.16-18).
As palavras de Pedro, em seu
discurso inflamado sobre o ba
tismo com o Espírito Santo, cau
saram grande avivamento entre
os que ali estavam, a ponto de,
compungidos, indagarem: "Que
faremos, varões irmãos?". Vejamos
a resposta de Pedro, de modo di
reto, incisivo e contundente, que
não deixa a menor dúvida sobre o
significado e o alcance do batismo
com o Espírito Santo, "a promessa
do Pai", "o dom do Espírito Santo":
"E disse-lhes Pedro: Arrependei-
-vos, e cada um de vós seja batiza
do em nome de Jesus Cristo para
perdão dos pecados, e recebereis
o dom do Espírito Santo. Porque a
promessa vos diz respeito a vós, a
vossos filhos e a todos os que estão
longe: a tantos quantos Deus, nos
so Senhor, chamar" (At 2.38,39).
Nesse trecho do discurso de
Pedro, ele deixou bem claro que o
batismo com o Espírito Santo, com
sinais evidentes do falar línguas,
não seria só para aqueles que se
encontravam no Cenáculo no Dia
de Pentecostes. Ele declarou com
toda a clareza que a promessa era
"para vós", os judeus a quem ele
se dirigia"; "a vossos filhos", ou
seja, aos descendentes dos judeus
convertidos; "e a todos os que es
tão longe" (os judeus convertidos
e dispersos); e o mais importan
te: "a tantos quanto Deus, nosso
Senhor, chamar". Ou seja, é para
todos os salvos.
3. A necessidade premente dos
dons nos dias atuais - Deus quer
"que, agora, pela igreja, a multifor-
me sabedoria de Deus seja conhe
cida dos principados e potestades
nos céus" (Ef 3.10). Esta é uma das
elevadíssimas missões da igreja
nos dias atuais, como em todos os
tempos: além de ser portadora da
mensagem de salvação na Terra,
deve ser portadora do conhecimen
to e da sabedoria divina até mesmo
perante os principados e potesta
des espirituais. Essa sabedoria é
tão profunda que Paulo teve de
exclamar de modo eloquente: "O
profundidade das riquezas, tanto
da sabedoria, como da ciência de
Deus! Quão insondáveis são os
seus juízos, e quão inescrutáveis,
os seus caminhos!" (Rm 11.13).
Diante de tão grande sabedo
ria, a ser conhecida na esfera celes
tial e na esfera dos homens, Deus
quis propiciar à igreja o acesso a
recursos espirituais, tanto para
conhecer a ciência de Deus quanto
para demonstrar o Seu poder no
meio dos homens. Se não fossem
os dons espirituais nos dias de
hoje, a Igreja seria apenas uma
instituição meramente humana,
uma "associação religiosa sem
fins econômicos", por exigência
legal. Assim, Deus capacitou a
igreja, como organismo espiritual
por excelência, com característi
cas e recursos que transcendem a
esfera humana. Diz Paulo, acerca
desses recursos e manifestações
espirituais: "Ora, há diversidade
de dons, mas o Espírito é o mesmo.
E há diversidade de ministérios,
mas o Senhor é o mesmo. E há
diversidade de operações, mas é
o mesmo Deus que opera tudo
em todos" (1 Co 12.4-6). "A 'multi-
forme sabedoria de Deus' nunca
poderia ser demonstrada através
de um só dom. A mente humana
jamais abarcaria a grandeza e a
profundidade do saber divino. As
sim, quis Deus que houvesse uma
diversidade de dons espirituais,
para que, de modo equilibrado, os
crentes pudessem compreender e
atuar na esfera da vida espiritual"
(LIMA, 2014, p. 25).
Dessa forma, Paulo registra
que há nove tipos de dons (não
nove dons). Numa igreja bem edi-
ficada, os dons são abundantes.
Há palavra de sabedoria, ciência
de Deus, existe a fé; há os dons de
curar, que são variados; há opera
ção de maravilhas; há profecia au
têntica e não "profetadas", porque
há "dom de discernir os espíritos";
e também há línguas e interpre
tação de línguas (cf. 1 Co 12.7-10).
Horton diz que "o Espírito
Santo quer honrar Jesus, não só
chamando-o de Senhor, mas dis
tribuindo uma 'diversidade' (di
ferentes tipos) de dons espirituais
(gr. charismata, dons da graça li
vremente dados; cf. charis, 'graça').
O único Espírito Santo é a fonte de
todos eles". Esse autor acrescenta
que os diversos ministérios ou
serviços (gr. diakoniõn) têm sua
fonte no "único Senhor Jesus e os
tipos de operações e atividades
(gr. energematõn) vêm do único
Deus, que opera efetivamente em
todos eles e em todos os crentes".
(HORTON, 2003, p. 112).
Os dons espirituais fazem
parte do mais poderoso arsenal à
disposição da Igreja nos dias de hoje
para cumprir sua missão, num
mundo dominado pela increduli
dade e pela oposição cerrada con
tra os seguidores de Jesus Cristo.
Na realidade, dons, ministérios e
operações (1 Co 12.4-6) formam
o arsenal espiritual que equipa
a igreja para o cumprimento de
sua missão ante as forças que se
opõem a ela. O que seria da igreja
se não houvesse esses recursos so
brenaturais? Certamente, já teria
desaparecido da face da terra há A
OB
17
REIRO
REFERÊNCIAS
NORTON, Stanley M. I e II Coríntios - os problemas da igreja esuas soluções. Rio de Janeiro, CPAD, 2003.
LIMA, Elinaldo Renovato de. Dons Espirituais e Ministeriais. Riode Janeiro, CPAD, 2014.
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Aviva a Tua Obra. Rio de Janeiro, CPAD 2023.
muito tempo. Mas, como Corpo
de Cristo, ela é indestrutível. Per
seguida, sofrida, ameaçada, mas
vitoriosa! Todos os impérios que
se levantaram contra ela já su
cumbiram. E os que ainda existem
também hão de ser aniquilados.
"As portas do inferno não preva
lecerão contra ela" (Mt 16.18).
Negar a atualidade dos dons
espirituais, como consequência
natural do batismo com o Espírito
Santo é negar a essência do poder
de Deus, prometido por Cristo à
Sua Igreja. Após prometer que
Seus seguidores seriam batiza
dos com o Espírito Santo pouco
tempo depois, Ele proclamou de
modo eloquente e claro: "Mas
recebereis a virtude do Espírito
Santo, que há de vir sobre vós; e
ser-me-eis testemunhas tanto em
Jerusalém como em toda a Judeia
e Samaria e até aos confins da
terra" (At 1.8). Não há um só ver
sículo no Novo Testamento que
indique ou sugira que os dons
espirituais foram "apenas para
os dias apostólicos". Já pedimos
a alguns cessassionistas que mos
trassem uma só referência bíblica
sobre essa afirmação equivocada
e nenhum deles nos apontou.
Apenas se baseiam nos "evange
lhos" segundo seus teólogos.
A palavra de Deus exorta:
"Assim, também vós, como de
sejais dons espirituais, procurai
sobejar neles, para a edificação da
igreja" (1 Co 14.12). É preciso que
os crentes desejam e procurem os
dons espirituais. A maioria não
busca. "Portanto, procurai com
zelo os melhores dons; e eu vos
mostrarei um caminho ainda mais
excelente" (1 Co 12.31). "Segui o
A
amor, e procurai com zelo os dons
espirituais, mas principalmente o
de profetizar" (1 Co 14.1).
A luz da Palavra de Deus, não
há dúvidas de que os dons espiri
tuais, demonstrados no Novo Tes
tamento, são para os dias de hoje.
A ausência de manifestação dos
dons espirituais em grande parte
das igrejas, inclusive em igrejas
pentecostais, é consequência do
comodismo que tem tomado conta
de muitos ministériospelo Brasil
afora. Pregações modernistas to
mam o lugar da mensagem cris-
tocêntrica, na unção do Espírito
Santo. Estamos observando que
muitas igrejas pentecostais estão
se "despentecostalizando". Que
Deus nos ajude a entender que
sem os dons espirituais nos dias
de hoje, igrejas se tornarão apenas
"museus do pentecostalismo". I
i y '
PENTECOSTAL SOBRE
ATOS DOS APÓSTOLOS
VOLUME 1
^ > x o
0 3 1
55»' ' a 2.47
VOLUME 1
COMENTÁRIO
EXEGÉTICO
ATOS
INTRODUÇÃO
e C A P S, 1.1 a 2.47
CRAIG s. KEENER
■K ^ ^ » ^ 1-238
Para os historiadores interessados no cristianismo
primitivo depois de Jesus, Atos é a única fonte
disponível. Fruto de uma pesquisa de mais de vinte
anos e sete de redação, o altamente respeitado
estudioso do Novo Testamento Craig S. Keener
escreveu um dos maiores e mais documentados
comentários de Atos já escrito.
Com forte ênfase no contexto social e histórico,
este trabalho coloca Atos sob a perspectiva do
primeiro século, com foco no que o texto bíblico
significava para seus primeiros leitores.
Neste primeiro volume de uma série de quatro, Keener
nos apresenta uma extensa e relevante introdução
bem como os comentários pormenorizados de
Atos 1.1 até 2.47.
Principais características;
• Leitura sócio-histórica, exegética e teológica de Atos;
• Comentários versículo por versículo;
• Se utiliza tanto de estudos mais atuais quanto de
materiais de fonte primária e secundária.
Sobre o autor:
Craig S. Keener, um dos maiores teólogos pente-
costais da atualidade, é Ph.D. pela Duke University
é F. M, e Professor de Estudos Bíblicos no Asbury
Theological Seminary.
0 * 0
www.cpad.com.br
0 ® i f
0800-021-7373
g ) (021) 2406-7373
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o § o o em
ersiste
Ler
CB4D
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Jonas Jun io r M endes é evange lis ta ,
m e m b ro do Conse lho de Educação
e C u ltu ra das A ssem blé ias de Deus
de Cuiabá e Região; g ra du ado em
Teologia, com pós-g raduação em
Teologia do Novo Testam ento;
licenc iado em F ilosofia e
P edagog ia com m es tra d o em
F ilosofia pela UFMT; e pro fessor de
Teologia na Faculdade FEICS e de
F ilosofia na Faculdade FASIPE.
Os dons de
elocução
comunicam os
sentimentos
divinos ao Seu
povo enquanto
este estiver
neste mundo
Jonas Jun io r M endes
Dons d
Q
uando lemos no ori
ginal grego o após
tolo Paulo dizendo,
na passagem de 1
.1, "acerca dos dons
espirituais", não aparece no texto
grego a expressão "dons". Sendo
assim, uma tradução possível
seria; "acerca dos espirituais".
O plural genitivo TrveupaxiKCÕv
(pneumatikon) pode ser neutro
ou masculino. Caso seja mas
culino, a discussão subsequente
de Paulo se concentra naqueles
que se consideram espirituais,
"os espirituais". Caso seja neu
tro, então a discussão do apósto
lo Paulo se concentra nas coisas
que dizem respeito ao Espírito,
como os dons (2018, p. 161). O
adjetivo 7iv£upaxixóç, tradicio
nalmente traduzido por "espi
ritual", refere-se à atividade/
presença do Espírito Santo. A
melhor tradução para o termo
talvez seja "as coisas do Espí
rito", que seria basicamente
"referência às manifestações
do Espírito, da perspectiva da
capacitação pelo Espírito; ao
mesmo tempo, apontaria para
aqueles que são assim capacita
dos" (2019, p. 719-728). Como a
expressão TtveupaiLKÓç (pneu-
matikós) indica "aquilo que per
tence ao espirito", ou até mesmo
"dons, coisas espirituais" (1995,
p. 316), conclui-se que não há
nenhum problema na tradução
"dons espirituais".
Propósito dos dons
Os dons são capacidades es
pirituais concedidas por Deus a
nós com o propósito de edificar
a igreja para a realização de sua
missão evangelizadora no mundo.
Os dons são "concedidos gratuita
mente, pela vontade soberana do
Espírito, com o fim de fortalecer
a igreja como organismo vivo"
(2011, p. 36). Eles são a manifestação
pública de Deus entre o Seu povo
(2016, p. 15). Os dons não tomam o
lugar da Bíblia na igreja (2020, p.
202), mas são importantes para a
mesma. Rejeitar os dons, é, de certo
modo, dar as costas a Deus.
Classificação dos
dons espirituais
"Os dons espirituais são vá
rios, e nenhuma lista deles no
Novo Testamento pretende ser
exaustiva (...)" (2017, p. 172). Ou
seja, as listas de dons apresenta
das são exemplificativas; sendo
assim, a classificação pauta-se
em propósitos didáticos. Os dons
apresentados por Paulo podem
ser classificados da seguinte
maneira:
a) Aqueles que concedem po
der para saber sobrenaturalmente:
palavra de sabedoria, palavra de
conhecimento e discernimento;
b) Aqueles que concedem po
der para agir sobrenaturalmente;
fé, milagres e curas;
OB
20
REIRO
c) Aqueles que concedem po
der para falar sobrenaturalmente:
profecia, línguas e interpretação
(2009, p. 320).
Ou podemos classificá-los
também como Dons de Revela
ção, Dons de Poder e Dons de
Elocução/Expressão, conforme
utilizado por Severino Pedro
(1996) e Elienai Cabral (2011). Os
dons de revelação expressam os
pensamentos de Deus e também
podem ser chamados de "dons de
sabedoria" ou de "inspiração". Os
dons de poder manifestam Sua
onipotência e grandeza. Os dons
de elocução/expressão comuni
cam os sentimentos do coração de
Deus (1996, p. 112).
Veremos a seguir os dons co
nhecidos como "Dons de Elocução".
Profecia
Profecia é uma expressão ver
bal, espontânea, inteligível, que
normalmente ocorre na assem
bléia dos crentes (2006, p. 1013).
Profecia não pode ser reduzida
à pregação, como alguns fazem.
Craig S. Keener mostra isso, ao
dizer que "no sentido bíblico, a
profecia comumente depende
de inspiração momentânea tanto
quanto o dom de línguas. Não é
apenas 'pregação'(...)" (2018, p. 116).
Severino Pedro destaca três aspec
tos da profecia: sua origem, valor
e finalidade (1996, p. 112). Veremos
brevemente esses três aspectos.
A
21
REIOB RO
1) Origem da profecia - Ao
tratar da profecia, o apóstolo Paulo
diz: "E falem dois ou três profe
tas, e os outros julguem. Mas, se
a outro, que estiver assentado, for
revelada alguma coisa, cale-se o
primeiro. (1 Co 14:29,30). Isso mos
tra que a origem da verdadeira
profecia é divina, pois é "revela
da". Wayne Grudem destaca que:
a) A revelação vem espontane
amente, pois acontecia enquanto
o primeiro profeta ainda falava.
Não se trata de um estudo ou um
sermão previamente preparado,
mas de algo inspirado pelo Espí
rito Santo de Deus.
b) A revelação vem a um in
divíduo específico, a alguém que
está sentado, e não à congregação
inteira.
c) A revelação (apokalypsis) é de
Deus, tem origem divina e não hu
mana, pois sempre que a palavra
"revelação" é usada no Novo Tes
tamento, ela se refere à atividade
de Deus, de Cristo ou do Espírito
Santo (2020, p. 93-94).
Fica, portanto, evidente que,
para Paulo, a origem da profecia
é divina e que todos podem ser
usados, mas cada um por sua vez,
respeitando o princípio da ordem
no culto. Paulo diz ainda que "os
espíritos dos profetas estão su
jeitos aos profetas" (ICo 14.32).
Segundo Gordon Fee, a expressão
"espírito dos profetas" significa
"o Espirito profético" pelo qual
cada um deles fala por meio do
seu espírito. Ou seja, a ideia é que
as falas estão sujeitas a quem fala
no que diz respeito ao momento
em que isso acontece, e o conteúdo
é entendido como o produto do
Espírito Divino que inspira tais
falas (2019, p. 880). Sendo assim,
o profeta escolhe quando e como
transmitir a mensagem que rece
beu, mas não é a fonte da mensa
gem, pois ela procede de Deus.
2) O valor da profecia - A pro
fecia é extremamente importante,
pois foi umas formas escolhidas
por Deus para se revelar a nós, e
também para falar conosco. Paulo
disse: "Procurai com zelo os dons
espirituais, mas principalmente
o de profetizar" (ICo 14.1). Paulo
também orientou a igreja de Tessa-
lônica a não "extinguir o Espírito",
a "não desprezar as profecias" e a
"examinar tudo" e "reter o bem"
(lTs 5.19-21). Sobre esta última
passagem paulina, Sam Stormsdestaca que a atividade do Espírito
de transmitir visão reveladora da
vontade de Deus é comparada por
Paulo a um fogo que não devemos
apagar com a água do ceticismo, da
religiosidade ou do medo. Mas, em
vez de apagar o Espírito Santo ou
desprezar as profecias, devemos
examinar tudo (2016, p. 129).
3) A finalidade da profecia -
Paulo destaca que a profecia tem
algumas finalidades: edificar,
exortar e consolar (ICo 14.3). A
profecia é maior que o dom de lín
guas, quando não há interpretação,
porque "o que profetiza edifica a
igreja" (ICo 14.4) e o que fala em
línguas sem interpretação edifica
a si próprio. Exatamente por isso,
o dom de profecia é superior. "E
eu quero que todos vós faleis em
línguas", diz Paulo, "mas muito
mais que profetizeis; porque o que
profetiza é maior do que o que fala
em línguas, a não ser que também
interprete para que a igreja receba
edificação" (ICo 14.5).
Dom de línguas
"E a outro a variedade de lín
guas" (1 Co 12.10). A "variedade de
línguas" se refere ao dom de falar
em línguas desconhecidas e nunca
AA
dantes aprendidas pelos locutores,
e é frequentemente chamado de
"glossolália" (2016, p. 1014). Antes de
vermos a posição de Paulo sobre o
dom de línguas, é bom termos em
mente alguns aspectos da posição
de Lucas sobre o assunto.
1) Línguas em Atos dos Após
tolos - Em Atos, "o falar em lín
guas é como um tipo especial de
discurso profético" (2019, p. 41).
Lucas mostra que a igreja é "a co
munidade de profetas dos últimos
dias", que foi batizada e empode-
rada pelo Espírito (2018, 115-142).
A delegação do Espirito Santo
de Jesus aos discípulos no Dia de
Pentecostes espelha a antiga dele
gação do Espírito Santo de Moisés
aos anciãos (At 2.15ss; Nm 11.25).
Além disso, do mesmo modo que
a profecia é o sinal por excelência
da delegação do Espírito no Antigo
Testamento, no Dia de Pentecostes,
são o falar em línguas e o profeti
zar (At 2.4,17) (2020,222). Em Atos,
as línguas são apresentadas como
evidência inicial do batismo no
Espírito Santo, pois dos quatro
relatos da descida do Espírito, três
explicitamente citam a glossolalia
como seu resultado imediato (At
2.4; 10.44-46; 19.6), e o outro insinua
isso fortemente (At 8.14-19). Elas re
presentam "falas proféticas emiti
das pelos mensageiros de Deus dos
tempos do fim". Na visão de Lucas,
todo membro da igreja é chamado
(Lc 24.45-49; At 1.4-8/ Is 49.6) a rece
ber poder (At 2.17-21; cf. 4.31) para
profetizar (2019, p. 42-59), ou seja,
todo crente pode manifestar esse
dom espiritual. Lucas apresenta o
falar em línguas (glossolalia) como
um sinal poderoso e edificante:
um sinal que nos lembra de nosso
chamado como profetas do tempo
do fim e que testemunha a majes
tade e o status glorificado de Jesus
(2019, p. 146).
11/
1 Ê m ]
2) Línguas em Paulo - Paulo,
diferentemente de Lucas, está tra
tando de um problema específico
na igreja de Corínto. Ao que tudo
indica, alguns dos coríntios pare
cem ter visto as línguas como uma
expressão de um nível superior de
espiritualidade. Assim, valoriza
vam as línguas acima de outros
dons e, no contexto das reuniões
institucionais, seu elitismo espi
ritual frequentemente encontrava
expressão em explosões ininteligí
veis que interrompiam as reuniões
e não edificavam a igreja (2019, p.
147). Paulo mostra que as línguas
são importantes, pois o próprio
Paulo falava em línguas mais do
que todos (ICo 14.18) e desejava que
todos falassem em línguas (ICo
14.5). Mas, no contexto do culto
público, onde o objetivo é a edifi
cação do corpo, ele diz: "Todavia
eu antes quero falar na igreja cinco
palavras na minha própria inte
ligência, para que possa também
instruir os outros, do que dez mil
palavras em língua desconhecida"
(ICo 14:18,19). Paulo mostra que
"no culto, nem todos são chama
dos para fazer uma verbalização
pública em línguas" (2011, p. 81),
quando diz: "Falam todos diversas
línguas?" (1 Co 12.30). Ele não está
proibindo o uso das línguas, pois
ele mesmo disse: "Eu quero que
todos vós faleis em línguas" (1 Co
14:5). E "não proibais falar línguas"
(ICo 14:39); e até disse que no culto
"tem língua, tem interpretação"
(1 Co 14.26). Portanto, Paulo não
estava restringindo todo o uso
das línguas, mas apenas um uso
equivocado das línguas no culto
público. Paulo não exclui o falar
em línguas em um nível pessoal
e discreto no culto ("...fale consigo
mesmo e com Deus", ICo 14.28),
além de se referir à função autoedi-
ficadora do falar em línguas. Pode
haver línguas no culto, desde que
não interfiram na ordem do culto,
a não ser que haja interpretação.
Como podemos ver pelo con
texto de 1 Coríntios 14, Paulo não
está falando sobre o papel do dom
de línguas no geral, mas apenas
do seu uso sem interpretação na
assembléia pública (2016, p. 159).
Silas Daniel destaca que "o pro
pósito de Paulo nesses versícu
los é tratar da ordem no uso das
línguas no culto público e não da
proibição de se falar em línguas
no culto público" (2020, p. 289).
Obviamente Paulo não está pro
pondo a abolição das línguas na
reunião, mas apenas mostrando
que deve haver um predomínio
do discurso inteligível para a edi
ficação de todos na assembléia. A
preocupação de Paulo não é "com
o falar em línguas em si no culto,
mas com o espaço exagerado que
as línguas estavam ganhando na
adoração pública, perturbando a
ordem do culto e tomando o lu
gar das mensagens inteligíveis:
cântico, pregação e orações (1 Co
14.6-11,16,19)" (2020, p. 289). Fica
evidente que as línguas, assim
como a profecia, estão disponíveis
a todos da comunidade dos cren
tes, todos podem falar em línguas, A
e até devem buscar isso (2011, p.
81), mas de forma a resguardar o
princípio da ordem no culto.
Concluindo, Paulo mostra que
as línguas são importantes e aju
dam na edificação pessoal. Ele não
permite a proibição das línguas,
e deseja que todos falem em lín
guas, mas também deseja que no
culto público haja interpretação
para que todos sejam edificados.
Paulo mostra que o "dom de lín
guas" está disponível a todos,
assim como Lucas, mas, diferen
temente de Lucas, não aborda a
questão da evidência inicial, pois
não era o seu propósito.
3) Oração em línguas - A ora
ção em línguas é uma graça espe
cial ao crente manifestada através
do Espírito Santo, que ensina o nos
so espírito interior a orar a Deus,
independentemente do intelecto.
"Não é o Espirito Santo que ora. É
o espirito do crente que ora impe
lido pelo Espírito Santo e fala em
mistérios com Deus" (2011, p. 26).
Paulo reconhece o valor da oração
em línguas, mas também destacou
que enquanto orava em línguas
o seu espírito era edificado, mas
o entendimento ficava sem fruto.
"Então, que farei?". Paulo respon
de: "Orarei com o espírito [ou seja,
orarei em línguas], mas também
orarei com o entendimento", ou
seja, as duas coisas. Paulo não abriu
mão da experiência de orar em
línguas, mas buscou o equilíbrio
para que o entendimento não ficas
se sem fruto. "Claramente, Paulo
acreditava que uma experiência
espiritual além do alcance da sua
mente ainda era profundamente
proveitosa. Paulo acreditava não
ser absolutamente necessária uma
experiência ser racionalmente
cognitiva para ser espiritualmente
benéfica e glorificar a Deus" (2016,
p. 154).
Interpretação de línguas
A interpretação de línguas
se faz necessário, pois o objetivo
da reunião não é apenas louvar
e orar, mas também instruir, en
corajar e edificar os membros do
Corpo. Portanto, tudo que aconte
ce no âmbito do culto público pre
cisa ser inteligível. Paulo insiste
na interpretação de línguas, para
que todos possam compreender
e sejam edificados (2016, p. 156).
Quando Paulo diz: "se não houver
intérprete, esteja calado na igreja"
(1 Co 14:28), Paulo não está dizen
do "se não houver interpretes não
pode haver línguas na igreja em
hipótese alguma", ou seja, Paulo
não está afirmando que só pode
ter línguas no culto se houver in
terpretação.O que ele diz, segun
do Silas Daniel (2020, p. 290), é que
se "uma pessoa fala em línguas na
congregação de forma a chamar
a atenção para si, proferindo lín
guas ressonantemente, como uma
intervenção na ordem do culto",
então tem de haver interpretação.
Se alguém fala em línguas discre
tamente, "em momentos de louvor
e adoração congregacionais, sem
perturbar a ordem do culto", e
"sem chamar a atenção para si"
então não se faz necessário o uso
de intérpretes. Fica evidente que
Paulo não pretende restringir o
uso das línguas no culto público,
mas direcionar o seu uso de forma
correta para que não haja abusos.
Sobre a interpretação de línguas,
"Paulo não considera a possibilidade
de alguém com um conhecimento
adquirido da língua falada estar
presente e ser capaz de interpretá-
-la. Pelo contrário, ele insiste que só
se pode interpretar essas línguas se
alguém tem um dom especial do
Espírito para fazê-lo" (2019, p. 167). A
interpretação de línguas é uma ca
pacitação divina para que possamos
entender, de maneira sobrenatural,
aquilo que está sendo dito. I
B IB LIO G RAFIA:
ARRINGTON, L. French; STRONSTAD, Roger. Comentário bíblico pentecostal: Novo testamento. - Rio de Janeiro: CPAD, 2006.
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VANG, Preben. ICoríntios.Tradução de Susana Klassen. - São Paulo: Vida Nova, 2018.
RO
OBRAS PARA O
ENRIQUECIMENTO DA
SUA VIDA MINISTERIAL
§Antonio
Gilberto
i‘ k a , .l.
m, O Fruto
d° Espírito
f m m
A Plenitude de Cristo
na Vida do Crente
?
O Fruto do Espírito
O caráter cristão é desenvolvido à medida que o Espírito Santo
produz seu fruto no crente. O fruto do Espírito, descrito em
Gálatas 5.22, é resultado da presença e da ação do Espírito
Santo na vida do crente. Este livro é um estudo sobre o caráter
cristão baseado em Gálatas 5 e textos bíblicos relacionados.
Ele enfatiza o desenvolvimento de qualidades cristãs e sua
manifestação nos nos relacionamentos e no serviço do cris
tão. Aliando em sua escrita o esmero e a clareza didática que
o consagram como um dos mais conhecidos e respeitados
teólogos pentecostais brasileiros, o pastor Antonio Gilberto
lança luz sobre as palavras do apóstolo Paulo em Gálatas 5.22:
"Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade,
benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio pró
prio". Este livro irá ajudá-lo a entender o desenvolvimento de
um caráter semelhante a Cristo e a descobrir como cultivar
o desenvolvimento do fruto espiritual em sua vida diária,
levando-o a alcançar a plenitude de Cristo.
Teologia Sistemática Pentecostal
Teologia Sistemática Pentecostal
Depois de lançar no Brasil a Bíblia de Estudo Pentecostal (1995),
a Teologia Sistemática - Uma Perspectiva Pentecostal (1996),
Doutrinas Bíblicas - Uma Perspectiva Pentecostal (1996) e o Co-
mentário Bíblico Pentecostal do Novo Testamento (2003), dentre
outros títulos do tipo, a CPAD lançou em sequência, em 2008,
a Teologia Sistemática Pentecostal, escrita por oito teólogos
destacados das Assembléias de Deus no Brasil: os pastores
Antonio Gilberto, Elienai Cabral, Esequias Soares, Severino
Pedro da Silva, Wagner Tadeu dos Santos Gaby, Ciro Sanches
Zibordi, Claudionor de Andrade e Geremias do Couto. Trata-
-se de uma ótima fonte de aprendizado e conhecimento. Sem
dúvida, é uma obra que não pode faltar na estante do pastor,
professor, superintendente de Escola Dominical e palestran
tes pentecostais em nosso país. Ainda mais que as doutrinas
da Bíblia Sagrada devem estar constantemente na pauta do
estudante bíblico a fim de reciclar seus conhecimentos e for
talecer a sua fé na pessoa de Jesus Cristo e na Sua doutrina.
25
Esdras Costa B entho
Esdras Costa B en tho é pastor,
pedagogo, m estre e d o u to r em
Teologia pela PUC-RJ; coo rdenador
da G raduação em Teologia da
Faculdade das A ssem blé ias de
Deus (Faecad); con ferencis ta e
au to r das obras H erm enêutica
Fácil e D esco m p iica d a (CPAD) e
Introdução ao Estudo do Antigo
Testam ento (CPAD).
Os dons de
revelação
manifestam a
sabedoria e a
mensagem de
Deus a fim de
manter a saúde
espiritual da
Igreja de Cristo
Nas décadas de 30 e 40
do século 18, o pro
fessor da Universi
dade de Yale e prega
dor puritano Jonathan Edwards
(1703-1758) preocupou-se com a
legitimidade das experiências re
ligiosas durante o período de avi-
vamento espiritual de seu tempo.
Embora o psicólogo da religião
W. James mais tarde não concor
dasse com algumas proposições
de Edwards, próprias de um te
ólogo puritano que distingue o
"convertido" como uma espécie
de homem diferente, cita critica
mente a obra de Edwards, Tratado
das Afeições Religiosas, mostrando
o pensamento arguto do autor.
Edwards afirm ara que "na
medida em que as influências do
verdadeiro Espírito abundavam,
também as falsificações se disse
minavam", e, por isso, procura ins
truir a comunidade para a correta
distinção entre o verdadeiro e o
falso testemunho da revelação do
Espírito. Edwards afirmava que a
variedade da experiência religiosa
não é critério suficiente para negar
a experiência, uma vez que Deus
não limita sua ação apenas ao
que é revelado na Escritura, pois
age de maneira diversa e nova.
Ele ensinou que uma ação divina
nunca deve ser julgada por sua
reação emocional ou física, e que
a popularidade da manifestação
também não afiança sua origem
divina.
Edwards considerava a Bíblia
o fundamento para discernir os
testemunhos verdadeiros dos fal
sos, principalmente a partir dos
escritos joaninos (ljo 4). O cristão é
alertado nas Escrituras, pelo Espí
rito, da existência de "imitações"
e "falsificações" da experiência e
carisma do Espírito. E, para isso,
a Escritura instrui o crente com
critérios eficazes para discernir o
testemunho, a manifestação caris
mática ou a experiência de êxtase
de suas falsificações e idealizações
mentais.
Segundo Edwards, com base
em 1 João 4, os critérios para
discernir racionalmente os teste
munhos de experiência religiosa
são: (1) O fato de a ação e o teste
munho produzirem efeitos que
engrandeçam a estima das pes
soas por Jesus (ljo 4,2-3); (2) Se o
espírito e o testemunho agirem
contra os interesses do reino de
Satanás (ljo 4.4-5); (3) O espírito e
o testemunho geram nos homens
uma profunda consideração pelas
Escrituras (ljo 4.6);(4) O espírito
e o testemunho revelam caracte
rísticas da ação do Espírito Santo
em oposição às ações e à natureza
do espírito do erro (ljo 4.6); (5) Se
o espírito que está em ação opera
como "espírito de amor" a Deus e
aos homens (ljo 4.7).
Edwards também apresentou
as dimensões práticas e positivas
de uma revelação espiritual na
experiência religiosa. Por sua ex-
tensão, cito apenas duas: amor à
Palavra de Deus e consciência de
pecado e salvação. Por fim, afirma:
"As regras das Escrituras servem
para distinguirmos entre as in
fluências comuns do Espírito de
Deus, como as que são salvíficas,
e a influência de outras causas".
Por fim, solicita aos que afirmam
algum tipo de experiência profun
da: "Humildade, desconfiança de
si mesmo e uma total dependência
de nosso Senhor Jesus Cristo serão
nossa melhor defesa".
Classificação dos
carismas de revelação
No pentecostalismo clássico,
são chamados de "dons de re
velação" três dons específicos:
palavra de sabedoria, palavra
da ciência (ICo 12.8) e discernir
os espíritos (ICo 12.10). Todavia,
a classificação desses três como
"revelação" não representa uma
unidade na teologia pentecostal.
Eurico Bergstén classifica-os como
"dons da sabedoria de Deus", mas,
ao comentá-los, segue a ordem do
texto bíblico; inclusive, a classifica
ção usada por Bergstén é uma das
mais adequadas ao texto bíblico:
dons que manifestam o poder de
Deus; dons que manifestam a sa
bedoria de Deus e dons que mani
festam a mensagem de Deus.
David Lim, embora reconheça
a existência da tríplice classifica
ção (revelação, poder e expressão),
classifica os dois primeiros como
Á
OB01RO
"dons de ensino" e o terceiro como
"dons do ministério". Lim segue
a ordem dos carismas no texto
bíblico, enquanto os pentecostais
brasileiros costumam organizar
pelas funções.
Todavia, em 1 Corínitos 12.10,
o d iscern im ento de esp írito
(òiaKQÍüEiç Ttveupáxajv) aparece
entre os dons de locução, que são
profecia, variedade de línguas
e interpretação de línguas. Pelo
que se depreende de 1 Coríntios
14, a maneira como os três dons
de comunicação se manifestavam
na comunidade distorcia o pro
pósito didático da liturgia (ICo
14.5,12,19,26). Paulo, então, introduz
o discernimento de espírito entre
esses carismas como advertência
ao profeta e glossolalo de que o
Espírito habilitou alguns para dis
cernir suas falas. Pelo menos, por
quatro vezes, os termos "julgar"
(biaKQÍvco) e "provar" (ôoiapaCca)
são mencionados juntamente com
os dons de locução (ICo 14.26, 29;
lTs 5.19-21; ljo 4.1). Essa relação
significa que uma das proprieda
des do discernimento de espírito é
distinguir a glossolalia e a profecia
do ânimo (espírito) do próprio pro
feta e do espírito do anticristo (ljo
4.1-6), da profecia revelada pelo
Espírito (ICo 14.30,32).
Por outro lado, é possível, en
tretanto, que a classificação desses
três carismas como "revelação"
seja uma ilação do vocábulo de 1
Corínitos 14.6 (àTXOKaÀúipei), uma
vez que esses dons habilitam o
crente para conhecer (sabedoria,
conhecimento e discernimento),
falar (profecia, línguas e interpre
tação de línguas) e agir (fé, curas,
milagres) sobrenaturalmente (ICo
12.8-10). Contudo, é importante si
nalizar que a profecia é chamada
de revelação (ICo 14.24-25,30), e
o hermeneuta de línguas, aquele
que as interpreta, só interpreta-as
mediante uma revelação do Espí
rito (ICo 12.10-11). De modo geral,
todos os dons revelam (ICo 14.6)
a ação do Espírito na assembléia,
mas a teologia pentecostal atribui
o título de "dons de revelação" a
três carismas específicos.
Palavra de Sabedoria
(ICo 12.8)
A palavra de sabedoria (Aóyoç
CTOcjHaç) é uma habilidade sobre
natural que o Espírito Santo con
cede a determinados cristãos para
declarar uma sabedoria em circuns
tâncias específicas. Geralmente,
distinguem-se os substantivos
lógos (Àóyoç), isto é, "razão", "ciên-
28
OB RO
cia", "estudo"; eipon (eiTcov), "falar",
"dizer"; ou ainda rhema (pqpa),
"aquilo que é falado". Contudo, o
sentido de Aóyoç aqui não quer
dizer tratado, ciência ou estudo
meditado e profundo, mas "um
falar", "fala", "pronunciamento",
"uma declaração", como ocor
re em Mateus 8.8 e 1 Coríntios
14.9. Palavra de sabedoria é um
pronunciamento espontâneo de
sabedoria do Espírito com a finali
dade de anunciar uma mensagem
ou conselho de sabedoria, como
traduzem a NLH ("mensagem de
sabedoria") e a NVT ("conselhos
sábios"). Palavra de sabedoria
pode inserir-se em outras duas ca
tegorias: carisma de comunicação
e carisma pedagógico.
A palavra de sabedoria é um
conselho do Espírito. Na Primeira
Aliança, o Espírito é chamado de
o "Espírito de sabedoria", que re
pousaria sobre o Messias (Is 11.2).
O termo hokhmãh não se refere
aqui às habilidades técnicas (Êx
28.3) ou à capacidade estratégica
de governança (Gn 41.33-40), mas
ao Messias como manifestação da
sabedoria de Deus (Mt 13.54; Mc
6.2; ICo 1.24,30; Cl 2.3).
A palavra da sabedoria não é a
sabedoria como dom geral (Tg 1.5)
ou sabedoria humana (ICo 2.4),
mas uma centelha da sabedoria
de Deus manifestada em situações
que a exigem. Ela se manifesta em
várias situações distintas, mas na
Escritura apresenta-se: na defesa
do Evangelho (At 6.10;Lc 21.14-15),
em conselhos administrativos em
tempo de crise (At 7.10), no dis
cernimento da graça de Deus por
meio de conselhos que designam
e promovem o plano salvífico (At
15), na compreensão dos mistérios
de Deus por meio do Espírito (Rm
11.33;lCo 2.10-16), na exposição do
Evangelho (ICo 2.4-9) e no teste
munho afiançado pelo Espírito
(At 9.26-27). É uma palavra de
sabedoria não premeditada, mas
espontânea, cuja fonte é o Espíri-
AA
to de Cristo (Lc 21.14-21). E assim,
é um dom imprescindível para o
curso de ação da igreja pentecostal
contemporânea.
Palavra da Ciência
{ICo 12.8)
A palavra da ciência (Aóyoç
yvcócrEcoç) é uma habilidade que
o Espírito concede a determina
dos cristãos para conhecer além
da capacidade humana. O termo
gnõsis (yvcÒCTLç) se refere ao "ato de
entender" e daí o sentido de "co
nhecimento" ou "ciência". O modo
subjetivo no v.8, designa aquilo
que se conhece e, no caso do ca
risma, um conhecimento melhor e
mais profundo (ICo 14.6; 2Co 11.6;
14.26). A razão pela qual se nomi-
na "palavra da ciência", no qual
logos designa uma "declaração" ou
"fala", talvez esteja relacionada ao
fato de que um cristão iletrado re
ceba tanto a revelação da "ciência"
quanto a habilidade para declarar
(Aóyoç) correta e adequadamente A
o "conhecimento". Algumas ve
zes, Paulo se referiu à sua inapti-
dão retórica em comparação aos
gramáticos (2Co 10.10;11.6; ICo 2.1).
Contudo, a palavra da sabedoria
e da ciência eram as habilidades
que o Espírito lhe concedia para
desempenhar com eficácia o mi
nistério da pregação e do ensino
(ICo 2.13; 2Co 11.6).
O sentido de gnõsis ou "ciên
cia" (ARC) não se refere à ciência
como conjunto de conhecimento
sistematizado obtido pela obser
vação e pesquisa, mas à revelação
imediata do conhecimento da ver
dade divina. Enquanto a palavra
de sabedoria é um conselho prático,
a palavra do conhecimento é a ex
pressão da verdade dos mistérios
divinos. Em Isaías 11.2, o Espírito
do Senhor é chamado de "Espí
rito de conhecimento". O termo
hebraico daath (conhecimento) é
usado para descrever o dom do
conhecimento técnico (Ex 31.3;
35.31), o conhecimento de Deus
obtido pela experiência (Nm 24.16;
Is 53.11) e a percepção e discerni
mento que provém da fidelidade
na Palavra de Deus (SI 119.66).
O Espírito é aquele que revela
os mistérios de Deus (ICo 2.10),
pois somente Ele conhece-o (ICo
2.12). Deste modo, a palavra da
ciência é uma ação do Espírito
Santo sobre o crente que o habi
lita e ensina a falar os mistérios
do Evangelho (2Co 2.14). Sua ex
pressão mais contundente é na
comunicação de uma revelação
da Escritura e dos mistérios da
salvação (At 10.42-44), daí a razão
pela qual ocarisma é paralelo ao
ministério do apóstolo, do mestre
e do evangelista. Trata-se assim de
uma declaração de ciência divina
não obtida pelo estudo meditado
e profundo, mas como revelação
do Espírito para circunstâncias e
necessidades específicas.
Discernir os espíritos
(ICo 12.10)
O dom de discernir os espíri
tos (ôuxKQLCTeiç Ttveupáxtóv) é uma
habilidade sobrenatural que o
Espírito concede a determinados
membros do corpo de Cristo para
discernir a origem espiritual de
certa ação, ensino, profecia, línguas
e até mesmo motivações. Embora
a ARC e a NAA empreguem a ex
pressão no singular, "discernir os
espíritos", e muitos comentaristas
o bEUro
prefiram o singular, a frase, no ori
ginal, está no plural, o que indica
que se trata de um carisma que se
manifesta de muitos modos. Duas
lições depreendem-se da frase no
plural. A primeira é a de que há
variedade de formas em que o Es
pírito manifesta o discernimento.
A segunda lição refere-se ao fato
de se tratar de “espíritos" - vários
espíritos são julgados e discernidos
por meio desse carisma.
No contexto de 1 Coríntios
12.10, é uma aptidão espiritual para
julgar a inspiração das profecias e
das línguas pneumáticas (lTs 5.20-
21). Nesse aspecto, quando a fonte
da profecia ou das variedades de
línguas não é o próprio Espírito
Santo, então sua origem pode ser
humana ou demoníaca. O homem
é capaz de imitar esses dois caris
mas locutórios, passando como
profeta e glossolalo verdadeiros até
que o discernimento dos espíritos
tira-lhe a máscara da hipocrisia e
da fraude. São obreiros fraudulen
tos que se transfiguram em profe
tas e glossolalos verdadeiros (2Co
11.13). Da parte de Satanás e dos
demônios, não se pode ignorar os
seus ardis (2Co 2.10-11). O Diabo é
capaz de se transfigurar em anjo de
luz e seus demônios, em ministros
da justiça (2Co 11.14-15). Por isso,
são imitadores fraudulentos dos
carismas.
O Espírito Santo concedeu o
discernimento de espíritos à Igreja
para que ela não seja ludibriada
por qualquer profeta ou glossolalo
que fala em seu próprio nome ou
é usado pelos espíritos. Lembro-
-me de que, em certa ocasião, com
relutância aceitei o convite de
um pastor para ministrar numa
vigília após o culto. Apesar de
mais de 8 horas de viagem e da
pregação, com relutância aceitei o
convite. Ao chegar, recebi da parte
do Espírito o discernimento das
línguas de um glossolalo. Disse
ao dirigente que aquelas línguas,
sonoras e belas, não eram do Es
pírito. A pessoa que estava nos
fundos da igreja, que não pode-
ria ouvir o que disse em segredo
ao pastor, deu um grito, correu e
tentou se jogar do segundo andar.
Repreendi o espírito imundo e a
pessoa foi liberta. Ao dizer-lha
o ocorrido, espantou-se e depois
falou a situação de sua vida es
piritual, que incluía participação
noutras tradições religiosas.
O discernimento de espírito
é espontâneo, direto, objetivo e
prático. E uma revelação especial
que o Espírito Santo concede ao
crente para que os falsos profe
tas e glossolalos não enganem a
Igreja. A profecia e a variedade de
línguas são os dons mais imitados
pelos falsos profetas e demônios
nos dias atuais.
O dom de discernimento de
espíritos manifesta-se: no discer
nimento entre verdade e mentira,
quando há propósitos ocultos mas
carados sobre a aparência de pieda
de (At 5.1-11), no discernimento de A
BIBLIOGRAFIA
BERGSTÉN, E. Introdução a Teologia Sistemática. Rio de Janeiro: CPAD, 1993.
EDWARDS, J. Afeições Religiosas. São Paulo: Vida Nova, 2018.
HORTON, S. M. (ed.) Teologia Sistemática: perspectiva pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 1998.
forças demoníacas e mágicas que
se passam como ação do Espírito
e dão lucro aos seus possuintes
(At 8.9-24; 13.8-11; 16.16-19); no
discernimento de todo e qualquer
dom, inclusive profecia e varieda
de de línguas, que se passa como
manifestação do Espírito, quando
na verdade é do espírito humano
ou demoníaco (ICo 12.10); no dis
cernimento das motivações mais
profundas e ocultas daqueles que
usam seus talentos naturais como
se fossem dons do ministério de
Cristo (Fp 1.15-21); no discerni
mento de enfermidades causadas
por perturbação m aligna (Mt
12.22; Mc 9.25); no discernimento
de heresias que se mesclam à ver
dade do Evangelho, destituindo
sagazmente a natureza do Evan
gelho de Cristo (G11.16-9; Cl 2); no
discernimento de falsos ministros,
pregadores, ensinadores e profetas
que se transfiguram como bons
ministros (2Co 11.13; ljo 7-10); e no
discernimento de operações demo
níacas que se passam por ações do
Espírito (2Co 11.14-15).
É necessário resaltar que o
dom de discernimento de espí
ritos não é uma habilidade para
identificar as faltas alheias e
expô-las com propósitos escusos
e muito menos se trata de leitura
de pensamento. E um dom que
procede da bondade de Deus para
que a noiva de Cristo não seja
enganada pela operação do erro.
Conclusão
Os dons de revelação são ne
cessários e indispensáveis à Igreja
hodierna. A comunidade cristã deve
buscá-los em oração assim como
anseia pela profecia, línguas e varie
dades de línguas. Uma igreja pente
costal madura é a que apresenta uma
diversidade de dons, ministérios e
operações (ICo 12,4-7). I
AS ORIGENS TEOLÓGICAS
DO PENTECOSTALISMO
ASSEMBLEIANO
Um Resgate Histórico da
Soteriologia e Pneumatologia do Inicio do
£ I M o v i m e n t o P e n t e c o s t a l
A
>í ■------- -
Nesta importante obra, o pastor e escritor
José Gonçalves faz um resgate histórico das
pneumatologias e soteriologias americana,
britânica e escandinava do início do movimento
pentecostal. Ao pesquisar essas teologias
carismáticas, Gonçalves revela as raízes
teológicas das Assembléias de Deus no Brasil.
Divido em duas partes, onde a primeira trata
da pneumatologia pentecostal e a segunda
aborda a teologia soteriológica, o livro conta
ainda com diversos apêndices, inclusive confissões
de fé de várias denominações, desde o séc.
X V II até os dias de hoje.
Formato: 14,5 x 22,5 cm / Páginas: 544
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Marcos A nderson Tedesco é pastor
auxiliar na Assem blé ia de Deus em
Jo inv ille (SC), m estre em Educação,
especia lista em A n tig o Testam ento,
pedagogo, h is to riador e teó logo;
professor na Faculdade Teológica
R efid im , coo rdenador pedagóg ico
do Colég io Evangélico Pastor
M anoel G erm ano de M iranda em
Joinville ; escrito r e pa lestrante;
com en ta ris ta de Lições Bíblicas da
Escola D om in ica l da CPAD para
Jovens.
Os dons de
poder estimulam
as pessoas a se
interessarem,
cada vez mais,
acerca do
movimento
divino na
existência
humana
M arcos Anderson Tedesco
Dons
Durante os anos em
que Jesus desenvol
veu seu ministério
terreno, algo se fez
constante e marcante na vida de
todos: milagres. Por onde o Fi
lho de Deus passava, milagres
aconteciam, tocando o coração e
a mente de todos que os presen
ciavam. Esses eventos instiga
vam o povo a desejar conhecer
mais acerca do que estava acon
tecendo naqueles dias. A cada
vida que era alcançada por um
milagre, um grupo de pessoas
se reunia curioso em busca de
melhor compreensão acerca do
acontecia. Os quatro evangelhos
são repletos desses episódios; a
transformação de água em vinho
(Jo 2.1-11); o acalmar da tempesta
de (Mc 4.37-41); as multiplicações
de pães (Lc 9.12-17 e Mt 15.32-38);
o andar por sobre as águas (Jo
6.19-21); a ressurreição da filha de
Jairo (Mt 9.18-25), do filho da viú
va de Naim (Lc 7.11-15) e de Láza
ro (Jo 11.1-44); a cura de leprosos
(Mt 8.1-4, Mc 1.40-42, Lc 5.12-13); a
cura da mulher do fluxo de san
gue (Lc 8.43-48); a libertação de
endemoniados (Mt 8.24-34; Mt
9.32-33; Lc 11.14); a cura de cegos
(Mt 9.27-31, Mc 8.22-26); e mui
tos outros. Essa pequena lista já
nos permite uma perfeita noção
do quanto esses episódiosforam
importantes no avanço da men
sagem de salvação, trazendo aos
olhares das pessoas uma nítida
A
percepção de que estavam pre
senciando algo totalmente trans
formador e sobrenatural.
Na sequência, ao longo do
texto neotestamentário, também
é notável a presença de milagres
apontando para a ocorrência dos
dons de poder. Em Atos, encontra
mos diversas referências: cura de
coxos (At 3.1-6, 14.8-10); restaura
ção da visão de Saulo (At 9.17-18);
ressureição de Dorcas (At 9.36-41)
etc. Podemos entender os dons de
poder como capacitações especiais
em situações onde há a necessida
de de uma ação sobrenatural do
Espírito Santo na vida dos crentes.
Mediante os dons de poder, po
demos ver a manifestação divina
na vida dos crentes de forma im
pressionante sobre o mundo físico.
Essa ação não é para a glória hu
mana, mas, sim, para que o nome
de Deus seja glorificado através
das vidas que protagonizam os
episódios milagrosos.
A Bíblia Sagrada nos revela
que "...há diversidade de dons,
mas o Espírito é o mesmo. [...] e a
outro, pelo mesmo Espírito, a fé;
e a outro pelo mesmo Espírito, os
dons de curar; e a outro, a opera
ção de maravilhas; [...] Mas um só
e o mesmo Espírito opera todas
essas coisas, repartindo particu
larmente a cada um como quer"
(ICo 12.4,9-11). Diante dessa mag
nífica verdade, vamos conhecer
um pouco melhor acerca dos dons
que manifestam o poder de Deus:
de poder
o dom da fé, os dons de curar e o
dom de operação de maravilhas.
O dom da fé
Em Hebreus, lemos que "a fé
é o firme fundamento das coisas
que se esperam e a prova das coi
sas que se não veem" (Hb 11.1). A
fé implica uma postura de absolu
ta confiança no - e dependência do
- Senhor, levando-nos a uma vida
onde todas as nossas concepções e
ações estarão sendo direcionadas
por Deus.
A fé como dom (ICo 12.9)
distingue-se da fé salvífica (Rm
10.17, Ef 2.8), da fé observada como
fruto do Espírito (G1 5.22), da fé
apontada no corpo das doutrinas
bíblicas (G1 1.23) e da fé como
aspecto da vida cristã (2Co 13.5).
É uma fé especial usada em um
momento específico (At 3.4-7).
O dom da fé pode ser percebido
como uma capacidade concedida
ao cristão pelo Espírito Santo para
que realize ações que vão além da
esfera natural, com o objetivo de
edificação da Igreja.
O dom da fé é envolto por
uma forte convicção no poder e
na misericórdia divinos com a
finalidade de, em um momento
específico e em uma determ i
nada causa, possibilitar algo so
brenatural em um processo com
características bem particulares.
Exemplos desse dom podem ser
observados em determ inadas
Á
curas de enfermidades, em reso
luções maravilhosas de situações
naturais e emergenciais, em am
paro e suporte em momentos de
grande perseguição, dentre tantas
outras possibilidades. É uma das
formas do Espírito Santo amparar
o cristão em momentos especí
ficos. De forma muito nítida, é a
fé que sustentou os que sofreram
perseguições e enfrentaram gran
des desafios, permanecendo fieis
até o fim, confiando em Deus de
forma notável, conforme narrado
em Hebreus 11.
O dom da fé deve ser enten
dido como algo que ajudará toda
a Igreja, mas que também pode
ser considerado um dom especial
para uma necessidade em parti
cular. Pode ser visto como a "fé
que move montanhas" trazendo
m anifestações extraordinárias
do poder de Deus (Mt 17.20), mas
também pode se apresentar como
um "cuidado confortante" para
com um crente que passa por um
momento difícil. No memorável
livro Heróis da Fé, Orlando Boyer
relata alguns desses testemunhos
onde o dom de fé foi colocado em
ação. Um exemplo impressionante
é o de George Müller, "o apóstolo
da fé" (1805-1898): certa vez, após
uma noite de oração pedindo ao
Senhor mantimentos para os orfa
natos que estavam sem provisões,
ao amanhecer, chegaram as doa
ções que alimentaram 2 mil órfãos
por um mês!
Os dons de curar
Os dons de curar são mani
festações sobrenaturais do Espí
rito Santo à disposição da Igreja
para que a humanidade perceba
em Deus o poder de curar os en
fermos e sarar as feridas dos que
sofrem. Mencionado no plural, "os
dons de curar" fazem referência
à concessão segundo a vontade
divina, no tempo certo e quando
se faz necessária a ação milagrosa.
Segundo o pastor e teólogo An-
tonio Gilberto, os "dons de curas"
são operados de diversas formas
diferentes: através da Palavra,
através de outro dom, através de
uma palavra de ordem, um olhar,
o impor as mãos, entre outras pos
sibilidades. São manifestações de
poder para a cura de doenças do
corpo, da alma e do espírito, para
crentes e descrentes.
Cada cura necessita de um
dom distinto, especial. Esse dom
não é dado especificamente ao
que ministra, mas por meio dela
para a que está enferma. E Deus
quem cura o doente e não a pes
soa que ora impondo as mãos. E
OB
36
REI
em nome de Jesus que o milagre
acontece, a Ele seja dada a glória
(At 4.30). Ao lermos os evange
lhos, podemos perceber como
o amor de Jesus pelas almas se
manifestava de forma belíssima
nos relatos de cura. O milagre
tão almejado pelo enfermo era
uma das formas usadas por Jesus
para, primeiramente, tocar-lhes o
coração demonstrando o seu cui
dado e piedade e, posteriormente,
abrir-lhes os olhos em uma prévia
aplicação prática da nova vida que
lhes era anunciada. A cura, mais
do que um fim em si mesma, era
um convite a uma nova vida.
Como cristãos, os exemplos
deixados pelo Mestre nos ins
piram a buscarmos os dons de
curas para abençoarmos as vidas
com o alívio de seus sofrimentos
físicos bem como da alma e do
espírito. Enfim, essa busca deve
rá também ser uma expressão do
quanto estamos dispostos a viver
inspirados nos exemplos deixados
por Jesus Cristo. Os dons de curar
são necessários em um tempo de
crescente incredulidade, onde a
medicina tem avançado e a ciên
cia, de forma pretensiosa, insinua
ter resposta cartesiana para os
mais diversos fenômenos. Esses
avanços contem porâneos não
podem responder às perguntas
mais essenciais do ser humano
nem saciar as necessidades mais
básicas de sua existência.
Observemos também que nem
todos os enfermos foram curados.
Dois casos interessantes no Novo
Testamento são os de Timóteo
(lTm 5.23) e Trófimo (2Tm 4.20)
que são alvos da preocupação e
menção do apóstolo Paulo. Há
casos onde a enfermidade conti
nua presente na vida do cristão
em um exercício de compreensão
da vontade soberana do Senhor.
Esse fenômeno também mar
cou a história de Gunnar Vingren,
um dos pioneiros da Assembléia
de Deus no Brasil. Embora tenha
sido usado de forma intensa pelo
Senhor orando pelos enfermos e
presenciando inúmeras curas di
vinas, o pioneiro sofreu por anos
de uma insistente enfermidade
que lhe causava fraquezas, dores
e febres. As orações de Gunnar pe
dindo a cura de sua doença eram
constantes, mas o milagre não
acontecia. No entanto, o pioneiro
jamais sentiu-se desamparado.
Segundo seu filho Ivar, "até o fim
ele cria que Deus ia fazer a obra e
curá-lo. Mas os caminhos de Deus
eram diferentes. O servo fiel havia
terminado a sua obra terrena". A
vontade do Senhor é soberana.
Amém!
Operação de maravilhas
Operação de m aravilhas é
um dom que altera a ordem na
tural, tornando o impossível em
possível e o improvável em real.
São ações que vão muito além da
capacidade humana, encontrando
apenas no poder de Deus a expli
cação para as suas ocorrências.
A expressão "operação de ma- A
OB
37
REIRO
ravilhas" indica o plural "obras
poderosas", apontando para uma
ampla variedade de milagres na
forma de sinais poderosos e ex
traordinários (At 5.12-15; 19.11-12).
A operação de maravilhas era
uma constante no ministério ter
reno de Jesus. Desde o acalmar da
tempestade, à ordem severa a uma
figueira, à libertação de endemo-
niados e à ressureição de mortos,
o Mestre teve uma trajetória mar
cada por eventos extraordinários
que provocaram nas pessoas uma
impressão favorável ao avanço das
boasnovas de salvação: afinal, para
Deus nada é impossível (Lc 1.37).
As multiplicações de pães e
peixes são exemplos desse dom
(Mt 14.15-21; 15.32-38). Nos dois
eventos, m ilhares de pessoas
foram saciadas como fruto do
milagre sobre aquelas poucas uni
dades de alimento. A operação de
maravilhas permitiu que aquelas
pessoas vissem na prática o poder
de Deus sendo derramado sobre
elas em um ato abençoador. Algo
aparentemente cotidiano, como a
alimentação, foi amplificado pela
graça e pela compaixão divinas.
Não só o corpo físico foi nutrido,
mas também houve uma imer
são na aplicação prática do que o
Mestre havia ensinado no período
que antecedeu o milagre. A fé foi
colocada em ação, o Deus que ama
alimentou e saciou a fome, milha
res de olhares contemplaram o
cuidado divino sobre as suas vidas.
O dom de operação de mara
vilhas pode ser entendido como
a operação de milagres extraordi
nários e surpreendentes para, con
forme Antonio Gilberto, despertar
e converter descrentes, céticos,
oponentes e crentes enfraquecidos
(At 8.6-13; 19.11; Js 10.12-14). O que
era improvável torna-se uma rea
lidade impressionante que passa
a despertar a atenção de todos. No
livro de Atos, encontramos uma
Igreja que viveu amplamente a
manifestação do dom de operação
de maravilhas, apontando para
uma história que continua a ser
escrita até os dias atuais.
Os dias atuais são fortemente
marcados pelo ceticismo, con-
sumismo, individualismo, nar-
cisismo, perseguição religiosa e
fragilidade dos valores humanos.
Alguns apontam esse tempo como
a "era da desesperança", levando
ao descrédito quanto a um futuro
melhor. Cada vez mais a ansie
dade e a depressão, entre tantos
outros transtornos e sentimentos,
vão ganhando espaço em vidas
que perdem o encanto pela ca
minhada.
Diante dessa realidade, nós
precisamos de um fortalecimento
de Deus para anunciar o evan
gelho de forma firme, ousada e
decisiva. O desafio é grande e a
busca pelos dons deve ser uma
constante na vida dos crentes, em
uma ação voltada para o anúncio
da salvação e a promoção do Reino
de Deus.
Distorções no uso dos dons
A manifestação desses dons
em nossa caminhada deve ser
envolvida em uma grande depen
dência da vontade divina e em
um profundo desejo de levar as
bênçãos de Deus à vida das pes
soas. As curas e as operações de
maravilhas devem fazer parte de
uma ação movida pelo amor pelas
almas e pela intencionalidade de
anunciar o evangelho.
O Espírito Santo distribui os
dons a cada crente, porém não
para benefício do próprio indi
víduo ou interesses particulares.
Conforme Stanley Horton, o dom
é dado por meio de cada um para
A
o bem comum (ICo 12.7), ou seja,
para o bem do corpo local como
um todo. Dessa forma, os dons
contribuem para a Igreja atual
assim como também contribuíram
nos tempos do livro de Atos.
No entanto, observamos dis
torções no uso dos dons de curar
e de operação de maravilhas. Mui
tos usam expressões como "de
terminar" e "decretar" a cura dos
enfermos baseando suas falas em
uma pretensa autoridade sobre
Deus e não na fé. Mas, quem é o
homem para que determine algo
a Deus? O cristão não tem auto
ridade para impor algo a Deus,
mas, sim, deve sempre viver sob
a dependência da vontade divina.
Nossas orações devem ser fru
tos de uma atitude movida por
amor às almas e ao desejo de que
a bênção do Senhor alcance cada
vida. Como cristãos, devemos
orar buscando a cura dos enfer
mos (Tg 5.14-15), impondo-lhes as
mãos para que sejam curados (Mc
16.18) cientes da nossa dependên
cia da soberana vontade de Deus
(ljo 5.14).
Também é preciso um cui
dado para não cairmos na ar
madilha da glamourização do
homem que se nutre da fama
em volta da aplicação do dom.
No caso dos dons de cura, mui
tos buscam uma autopromoção,
como se tivessem em si o poder
sobrenatural, um engano. Os
dons são manifestações do poder
do Espírito Santo que operam de
formas diversas para a cura das
enfermidades, ou seja, é conce
dida por Deus à pessoa que irá
ministrá-la (At 4.30).
Considerações finais
Os dons de poder, assim como
os demais, são distribuídos pelo
Espírito Santo em Sua soberania
(ICo 12.11-18). Os cristãos podem
almejar e pedir os dons (ICo 12.31;
14.39), porém é o Espírito quem os
dá segundo a Sua vontade, a fim
de que a Igreja possa cumprir o
seu papel e anunciar a salvação,
cumprindo a Grande Comissão
(Mt 28.19-20). Fiquemos com as
palavras de Paulo em sua Carta
aos Coríntios: "A minha palavra e
a minha pregação não consistiram
em palavras persuasivas de sabe
doria humana, mas em demons
tração do Espírito e do poder, para
que a vossa fé não se apoiasse em
sabedoria dos homens, mas no po
der de Deus" (ICo 2.4-5). Os dons
espirituais são imprescindíveis
tanto à Igreja como a cada mem
bro em particular. E importante
que os busquemos com zelo e
disciplina para vivermos os pro
pósitos de Deus em nossas vidas.
Quando somos usados pelo
Espírito Santo através dos dons,
podemos compreender com clare
za que cada crente no Senhor tem
algo a contribuir em sua Igreja.
Lawrence Richards afirma que
nossas vidas precisam estar dis
postas a serem usadas por Deus
para o bem dos demais. Ao vi
vermos essa realidade, o Espírito
operará através de nós e os outros
serão abençoados. Amém. H
REFERÊNCIAS
BOYER, Orlando. Heróis da Fá: vinte homens extraordinários que incendiaram o mundo. Rio de Janeiro: CPAD, 1996.
GILBERTO, Antonio. Bíblia com comentários de Antonio Gilberto. Rio de Janeiro: CPAD, 2021.
GILBERTO, Antonio (Ed.). Teologia Sistemática Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2008.
H0RT0N, Stanley. I e II Coríntios: os problemas da Igreja e suas soluções. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.
SOARES, Esequias (Org.). Declaração de Fé das Assembléias de Deus. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.
RICHARDS, Lawrence. Comentário Histórico-Cultural do Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.
VINGREN, Ivar. 0 diário do pioneiro Gunnar Vingren. Rio de Janeiro: CPAD, 1991.
o bEUro
A biezer A po liná rio da Silva
Abiezer A po liná rio da Silva é
pastor, advogado e p res idente da
Com issão Jurídica da Convenção
Geral dos M in istros das Igrejas
Evangélicas Assem blé ia de Deus no
Brasil (CGADB).
Os dons
ministeriais
habilitam o
crente a servir
em ministérios
específicos
Os Don
Disse o apóstolo Paulo
aos irmãos de Corin-
to: "Irmãos, não que
ro que vocês estejam
desinformados a respeito dos
dons espirituais" (1Co12.1, NAA).
Ou: "Agora, irmãos, quanto à sua
pergunta sobre os dons espiri
tuais, não quero que continuem
confusos" (NVT). Ou: "Irmãos,
quanto aos dons espirituais, não
quero que vocês sejam ignoran
tes" (NVI). Ora, a "ignorância"
combatida pelo apóstolo acerca
dos "dons espirituais" na igreja
de Cristo se acentua terrivelmen
te quando muitos obreiros não
sabem distinguir os chamados
"dons ministeriais" dos "dons
espirituais", sendo estabelecida
verdadeira confusão que causa
graves prejuízos espirituais à
edificação do Corpo de Cristo,
Sua Igreja.
Etimologicamente falando, no
contexto bíblico, "dom" ministe
rial ou espiritual é um "presente
oferecido", uma "dádiva", uma
"graça que se recebe". No caso
da igreja, o apóstolo revela que
"quando ele [Cristo] subiu às
alturas [...] concedeu dons aos
homens" (Ef 4.8), deixando su
bentendida a razão da concessão
dos dons espirituais e ministe
riais aos humanos que fazem a
obra do Reino de Deus: sem a
capacitação do Espírito de Deus,
é impossível a realização de Sua
obra na Terra. Afinal, "ninguém
A
pode dizer: 'Jesus é Senhor', a não
ser pelo Espírito Santo" (ICo 12.3,
NVI). Essa verdade é amparada,
por exemplo, pelo que é dito acer
ca da construção do Tabernáculo,
cujo modelo Deus deu a Moisés
com a seguinte recomendação:
"Diga a todos os homens capa
zes, aos quais dei habilidade, que
façam vestes para a consagração
de Arão, para que me sirva como
sacerdote" (Êx 28.3, NVI). "Eu es
colhí a Bezalel, filho de Uri, filhode Hur, da tribo de Judá, e o enchi
do Espírito de Deus, dando-lhes
destreza, habilidade e plena ca
pacidade artística para desenhar
e executar trabalhos em ouro,
prata e bronze..." (Êx 31.2-4, NVI).
Outro exemplo: na organização
do louvor no culto a Deus pro
movido por Davi, os cantores e
instrumentistas tinham que ter
capacidade técnica para utilizar
os instrumentos e vozes conjun
tamente com a profecia ("...para o
ministério de profetizar ao som de
harpas, liras e címbalos. [...] que,
por sua vez, profetizavam sob a su
pervisão do rei. [...] que profetizava
ao som da harpa para agradecer
e louvar ao Senhor" (lCr 25.1-3,
NVI). Portanto, em síntese, em
razão da impossibilidade espiri
tual dos humanos realizarem a
obra de Deus sem a capacitação
divina, Ele lhes dá Seus "dons"
espirituais e ministeriais, que são
instrumentos para edificação e
solidificação da Igreja.
Ministeriais
O ministro e os dons
ministeriais
De início, convém rememorar
o significado de "m inistro" no
contexto bíblico. Segundo os es
tudiosos, na língua original das
escrituras gregas cristãs, a palavra
"ministro" era diákonos. Embora
haja diversas idéias sobre a origem
desta palavra, o significado é bem
conhecido. Basicamente, significa
"servo". Nos Evangelhos, diáko
nos e palavras relacionadas muitas
vezes são usadas com referência
aos que serviam os recostados
para uma refeição. Com tal visão,
todas as vezes que nos avaliamos
como m inistros do evangelho,
devemos estar convencidos de que
somos apenas servos daqueles que
Deus colocou sob nossos cuidados
espirituais (lPe 4.10,11).
O próprio Cristo ensinou a
todos que fazem a obra de Deus
a se distanciar do pensamento de
grandeza e de excelência: "Mas
vocês não serão chamados 'mes
tre', porque um só é Mestre de vo
cês, e todos vocês são irmãos" (Mt
23.8, NAA). E acrescentou: "Tal
como o Filho do Homem, que não
veio para ser servido, mas para
servir e dar a sua vida em resgate
por muitos" (Mt 20.28, NAA). Por
tanto, ser ministro do evangelho
é ser servo. Nessa perspectiva, o
apóstolo Paulo disse aos irmãos de
Corinto, comparando suas ativida
des apostólicas com as de outros
apóstolos, que era mais ministro
A
OB
41
REIRO
(servo) de Cristo que eles. Veja em
2 Coríntios 11.23-30 que situações
ele apontou como sendo aquelas
nas quais ele se destacava mais.
Estabeleceu o Senhor por Sua
infinita sabedoria que Seu Reino
estabelecido entre os seres hu
manos fosse operacionalizado
por estes seres frágeis, cheios de
defeitos e sujeitos às tentações e
quedas como a ocorrida no Éden.
Interessante é o salmista afirmar:
"Pois ele conhece a nossa estru
tura e sabe que somos pó" (SI
103.14, NAA). Por sua onipotência,
Deus poderia ter entregado essas
tarefas a seres celestiais, dotados
de características absolutamente
diferentes dos humanos, algumas
das quais os tornam superiores.
Porém, o Senhor entregou-nos as
Suas santas tarefas, as quais não
podem ser executadas apenas pelo
nosso querer e vontade, pois pre
cisamos ser por Ele capacitados
(ICo 15.10).
Assim sendo, ser "ministro de
Cristo" não resulta de escolha pes
soal de qualquer interessado em
fazer a obra de Deus nem mesmo
por qualquer dos salvos por Jesus,
pois é Deus quem escolhe, voca
ciona e capacita através de Seus
dons ministeriais, resultantes da
onisciência divina. Não é o esco
lhido que se escolhe e se capacita
para o exercício do ministério. Foi
o que o Senhor disse a respeito de
Paulo (At 9.15,16).
A sobrenaturalidade da vo
cação ou a chamada do humano
para a obra divina é algo que vem
do coração de Deus, sem qualquer
participação do vocacionado,
independente da sua opinião ou
escolha como, por exemplo, nos
casos de Jeremias e Paulo. Em
Jeremias 1.5 e Gálatas 1.15,16,
descobrimos que a vocação mi
nisterial obedece a dois momentos
espirituais distintos: 1) o momento
da escolha ("Antes de formá-lo no
ventre materno... antes de você
nascer"; e 2) o momento da reve
lação ("quando Deus... achou por
bem revelar seu Filho em mim").
O maravilhoso, porém, foi o após
tolo dizer que sua escolha e sua
capacitação para o exercício do
ministério apostólico decorriam
unicamente "pela sua graça". Ou
seja, eu não me escolhi, não me
capacitei, não me disponibilizei,
porém foi a insondável graça
de Deus que realizou tudo isso
na minha vida; e ele acrescenta
que a ação da graça divina em
seu ministério fez-lhe superar
em trabalho outros obreiros (ICo
15.9,10). Como afirma Paulo, "onde
abundou o pecado, superabundou
a graça" (Rm 5.20). Pela graça de
Deus somos salvos (Ef 2.8) e pela
graça de Deus fazemos a Sua obra,
tendo a graça como parâmetro es
piritual ("Mas pela graça de Deus
sou o que sou", ICo 15.10) e de
suficiência espiritual ("A minha
graça te basta", 2Co 12.9).
Segundo os estudiosos, outra
palavra grega para ministros ou
servos é U7i£Q£xr|ç (huperetes), que
significa "auxiliar, alguém que
presta serviços a outra pessoa;
ministro, ajudante, assistente, sú
dito, servo ou remador inferior, de
terceira categoria". Em 1 Coríntios
9.19-23, Paulo se expressou acer
ca do seu ministério conforme o
significado aqui transcrito dessa
palavra. Ele disse também que
"assim, pois, importa que os ho
mens nos considerem como minis
tros de Cristo e despenseiros dos
mistérios de Deus" (ICo 4.1, ARA);
ou: "Portanto, devemos ser consi
derados simples servos de Cristo,
encarregados de explicar os mis
térios de Deus" (NVT). Aqui está
a essência da necessidade dos
ministros de Cristo terem que
abundar nos dons ministeriais,
pois as ovelhas por eles assistidas
esperam com muita razão que o
despenseiro tire da sua despensa
os "mistérios de Deus".
Distinção bíblica entre dons
ministeriais e espirituais
Todos os salvos têm a respon
sabilidade de anunciar as novas
do evangelho, cumprindo a Gran
de Comissão dada por Jesus ao
se despedir dos Seus discípulos
quando ascendeu aos céus (Mc
16.15; lPe 2.9). Todavia, o próprio
Cristo escolheu, dentre Seus discí
pulos, apenas doze para apóstolos.
Os doze tinham que desempenhar
tarefas específicas as quais exigi
ram capacitação e qualificações
também específicas (Mt 10.1).
Na visão do apóstolo Paulo, a
Igreja é um corpo composto de
muitos membros, os quais pre
cisam interagir entre si para que
haja harmonia e integração para
a saúde corporal (ICo 12.2). Den
tro dessa visão, todos possuem
funções específicas, o que exige
obrigatoriam ente capacitação
individual para o desempenho
eficaz de suas atividades no cor
po (ICo 12.15-21). Assim sendo, é
bastante nítida a distinção entre
os dons ministeriais e os espiritu
ais, pois estes não são concedidos
pelo Espírito acompanhados de
ministérios. Por exemplo: o após
tolo Paulo diz que "pelo Espírito,
a um é dada [...] a outro, profecia"
(ICo 12.8,10, NVI), acrescentando,
porém, que "ele designou alguns
para apóstolos, outros para pro
fetas, outros para evangelistas, e
outros para pastores e mestres"
(Ef 4.11, NVI). Nestes textos, resta
clara a visão da ação do Espírito
na igreja ao usar alguém para
transmitir uma palavra profética
ocasionalmente (dom espiritual)
enquanto outros são designados
para o ministério de profeta, como
aconteceu na igreja em Antioquia
(At 13.1). Ou seja, tanto o profeta
quanto o mestre, por exemplo, são
ministérios individuais concedi
dos por Cristo à igreja "com o fim
de preparar os santos para a obra
do ministério, para que o corpo
de Cristo seja edificado, até que
todos alcancemos a unidade da
fé e do conhecimento do Filho de
Deus, e cheguemos à maturidade,
atingindo a medida da plenitude
de Cristo" (Ef 4.12,13, NVI).
Entretanto, a ignorância de
muitos em relação aos dons mi
nisteriais e espirituais estabelece
o pensamento de que só é profe
cia se a palavra pronunciada for
preditiva, reveladora de algum
evento futuro e desconhecido.
Nesse caso, a m anifestação é
sempre do dom espiritual de
profecia. Contudo, a palavraprofética proferida através do
ministério de profeta, que tem
a utilidade de edificar, consolar
e exortar a igreja (ICo 14.3), tem
uma distinção bastante clara. Ve
jamos: "A notícia a respeito deles
chegou aos ouvidos da igreja que
estava em Jerusalém; e enviaram
Barnabé até Antioquia. Quando
ele chegou e viu a graça de Deus,
ficou muito alegre. E exortava
todos a que, com firmeza de cora
ção, permanecessem no Senhor"
(At 11.22,23, NAA); e "naqueles
dias, alguns profetas foram de
Jerusalém para Antioquia. E,
apresentando-se um deles, cha
mado Ágabo, dava a entender,
pelo Espírito, que haveria uma
grande fome em todo o mundo.
Essa fome veio nos dias do im
perador Cláudio" (vv. 27,28). Ou
seja, Barnabé, pelo ministério de
profeta, “exortava todos a que,
com firmeza de coração, perma
necessem no Senhor", enquanto
irmão Ágabo "dava a entender,
pelo Espírito, que haveria uma
grande fome em todo o mundo".
Essa edificação, exortação e con
solação provêm da Palavra de
Deus, que é a fonte autêntica da
profecia (At 15.32; ICo 14.37).
Por outro lado, o dom espiri
tual de profecia na igreja, por não
utilizar a Palavra eterna de Deus
como base, está sujeito a sofrer
influência humana na predição
proferida, pelo que está sujeito
à aferição espiritual pelos que
ouvem a mensagem profética, o
que o torna vulnerável e obriga os
ouvintes a serem cautelosos quan
to à mensagem ouvida por não
ser rara a confusão: "Tratando-se
de profetas, falem apenas dois
ou três, e os outros julguem" (ICo
14.29, NAA). Veja também 1 João
4.1. A advertência do Senhor pelo
profeta Ezequiel é atualíssima:
"Filho do homem, profetize contra
os profetas de Israel. A esses que
profetizam o que lhes vem do co
ração, diga que ouçam a palavra
do Senhor. Assim diz o Senhor
Deus: Ai dos profetas insensatos,
que seguem o seu próprio espírito
sem nada terem visto!'" (Ez 13.2,3,
NAA).
Paulo deu testemunho de que
seu discípulo Timóteo era "minis
tro de Deus no evangelho de Cris
to, para fortalecer e animá-los na
fé" (lTs 3.2, NAA). Ou seja, ele pos
suía dons ministeriais específicos
pelos quais a igreja era fortalecida
e animada na fé, como ocorreu
com Barnabé em Antioquia, que
"exortava todos a que, com firme
za de coração, permanecessem no
Senhor". Como está fazendo falta
à igreja atual ministros com tal
dom ministerial!
Os dons ministeriais
Os dons ministeriais são tam
bém denominados "dons de ser
viço" e "dons de liderança" ("para
o desempenho do seu serviço", Ef
4.12, NAA), os quais obrigatoria
mente trazem consigo um minis
tério a ser exercido na e em favor
da igreja pelo escolhido e dado a
ela pelo Senhor. Paulo indica que
eles resultam da obra redentora
de Cristo, incluindo Sua humi
lhação e exaltação acima de todas
as coisas criadas (Ef 4.10). A lista
clássica dos dons ministeriais é
a registrada por Paulo em Efé-
sios, na qual menciona apóstolos,
profetas, evangelistas, pastores e
mestres (Ef 4.11), complementada
pelo contido na sua Carta aos Ro
manos, na qual diz que "temos
diferentes dons, de acordo com a
graça que nos foi dada. Se alguém
tem o dom de profetizar, use-o na
proporção da sua fé. Se o seu dom
é servir, sirva; se é ensinar, ensine;
se é dar ânimo, que assim faça; se
é contribuir, que contribua gene
rosamente; se é exercer liderança,
que a exerça com zelo; se é mos
trar misericórdia, que o faça com
alegria" (Rml2.6-8. NAA).
Há uma grande informação
do apóstolo quanto aos dons mi
nisteriais, quando diz que Cristo
"concedeu uns para...". Ou seja, ele
se refere diretamente às pessoas
escolhidas e não aos dons ou à ca
pacidade outorgados a cada uma
delas. Tal entendimento é apoia
do em suas outras manifestações
acerca do tema (Cl 4.17; lTm 4.14;
2Tm 1.6). Então, Cristo dá a Seu
escolhido o dom ministerial e o dá
como Sua dádiva à Igreja.
Com tal consciência, o minis
tro tem que honrar a vocação ce
lestial a si outorgada e tudo fazer
para que o exercício de seu minis
tério na igreja resulte em glorifi- A
cação a Cristo, nunca servindo de
exaltação a si mesmo (Rm 11.13).
O ministro precisa ter profunda
consciência quanto ao ministério
que recebeu de Cristo, o qual, se
exercido com glória, esta será toda
do titular do ministério, Cristo.
Não é sem razão que Paulo sempre
demonstrou saber suas vocações
ministeriais (2Tm 1.11,12).
Paulo não fala em "apostolado,
profecia, evangelismo, pastorado
e ensino", mas fala em "apóstolos,
profetas, evangelistas, pastores e
mestres". E antes disso, ele escre
veu que Cristo "concedeu dons
aos homens" (Ef 4.8). Aqui vale
lembrar que a palavra dom signi
fica "dádiva" ou "doação". Logo,
o ensino paulino deixa bem claro
que os ministros portadores dos
dons, eles próprios, as suas pes
soas físicas, são e devem sempre
ser dádivas de Cristo à Sua Igreja.
Tendo sido Cristo exaltado após
ressurreto, dá pessoas especial
mente chamadas e vocacionadas
para os ministérios de apóstolo,
pastor, profeta, evangelista e mes
tre, com um santo propósito na
concessão desses ministérios (Ef
4.12,13). Portanto, os dons minis
teriais não são dados para atender
a desejos e anelos ou ao próprio
interesse pessoal de quem os re
cebe, mas são dados por Cristo no
interesse da Igreja, para edificação
do Corpo de Cristo.
Os demais membros da igreja
que não foram escolhidos para
funções ministeriais não deixam
de contribuir para o crescimento
e edificação do Corpo de Cristo,
pois o Espírito Santo também os
qualifica pelos dons espirituais
(ICo 12.4-7). Para melhor com
preensão, o apóstolo usa a figura
do corpo, o qual não é formado
apenas por um membro, mas por
vários, com todos interagindo
harmoniosamente (ICo 12.8). Para
solucionar um problema na Igreja
Primitiva, tal entendimento foi
posto em prática antes mesmo do
ensino paulino (At 6.2-4).
E importante ressaltar que, no
mesmo ensino sobre os dons espi
rituais em 1 Coríntios, o apóstolo
Paulo, ao tratar sobre a distinção
entre dons ministeriais e espiri
tuais, indica a existência de uma
certa graduação entre eles que, se
corretamente observada, elimina
OB
44
REIRO
qualquer risco de disputa pesso
al no exercício, pois o princípio
é bastante claro: "Mas um só e o
mesmo Espírito realiza todas es
sas coisas, distribuindo-as a cada
um, individualmente, conforme
ele quer" (ICo 12.11, NAA). Disse o
apóstolo: "A uns Deus estabeleceu
na igreja, primeiramente, apósto
los; em segundo lugar, profetas;
em terceiro lugar, mestres; depois,
operadores de milagres; depois,
os que têm dons de curar, ou de
ajudar, ou de administrar, ou de
falar em variedade de línguas.
Será que são todos apóstolos?
Será que são todos profetas? Será
que são todos mestres? São todos
operadores de milagres? Todos
têm dons de curar? Todos falam
em línguas? Todos têm o dom de
interpretar essas línguas?" (ICo
12.28-30, NAA).
“Ele mesmo deu uns para...”
Em Efésios, Paulo aponta a
existência de cinco ministérios,
embora alguns estudiosos falem
de quatro, por entender que pas
tores e mestres constituem um
único. Veremos os cinco, por ser
mais seguro.
1) Apóstolo - A palavra "após
tolo" significa "aquele que é envia
do", "mensageiro", "embaixador"
ou "missionário". Na Bíblia, essa
palavra é aplicada a Jesus, como
enviado do Pai; aos doze discí
pulos, como enviados pelo Filho,
que eram consideradas como
"apóstolos de Jesus"; a Paulo, Bar-
nabé e a outros, como enviados
pelo Espírito Santo, através da
igreja, os quais eram tidos como
representantes de igrejas locais
e designados como "apóstolos da
Igreja". Embora seja um termo
eminentemente neotestamentário,
no Antigo Testamento encontra
mos alguns paralelos, através dos
profetas usados por Deus para
missões equivalentes, como, por
exemplo, o que foi enviado por
Deus para profetizar ao rei Jero-
boão (lRs 13.1,2).
a) Jesus como "ap óstolo"
enviado pelo Pai - Falando de
si mesmo, assim se manifestou
Jesus: "Então como vocês dizemque aquele que o Pai santificou
e enviou ao mundo está blasfe
mando, só porque declarei que
sou Filho de Deus?" (Jo 10.36,
NAA). Hebreus qualifica Cristo
como "apóstolo e sumo sacerdo
te da nossa confissão" (Hb 3.1;
c/c Jo 8.29). Como "apóstolo" do
Pai, Jesus tornou-se padrão para
os demais, ao "aniquilar-se" ao
ponto de se submeter irrestrita
mente à vontade dAquele que O
enviou, tendo como única meta
não apenas cumprir, mas fazer, o
que envolve a renúncia de direitos
pessoais inalienáveis e persona
líssimos, como, por exemplo, não
comer embora estivesse faminto
(Jo 4.31-34). Ele afirmou: "Porque
eu desci do céu, não para fazer
a minha própria vontade, mas a
vontade daquele que me enviou"
(Jo 6.38, NAA).
Portanto, a submissão de Jesus
à vontade do Pai não era simples
empenho para desincumbir-se de
uma tarefa que lhe fora imposta,
mas o interesse supremo e o de
sejo ardente de promover a gló
ria dAquele que O comissionou
e vocacionou (Jo 7.18). Aos que
duvidavam da autoridade de Seu
apostolado divino, disse Ele: "Mas
eu tenho maior testemunho que o
de João; porque as obras que o Pai
me confiou para que eu as reali
zasse, essas que eu faço testemu
nham a meu respeito de que o Pai
me enviou. O Pai, que me enviou,
esse mesmo é que tem dado teste
munho de mim" (Jo 5.36,37, NAA).
b) Os doze escolhidos e envia
dos por Jesus - Com a consciência
de que o apostolado que recebeu
teria começo, meio e fim, logo no
início Jesus escolheu, dentre os
Seus discípulos, doze homens, a
quem instruiu, treinou e prepa
rou para continuarem a implan
tação da Sua Igreja na Terra e a
consolidarem, cumprindo a meta
estabelecida pelo Pai. "E Jesus lhes
disse outra vez: Que a paz esteja
com vocês! Assim como o Pai me
enviou, eu também envio vocês"
(Jo 20.21, NAA). Ele havia con
cluído com sucesso as exclusivas
tarefas do Seu apostolado terreno,
as quais não poderiam ser execu
tadas por alguém que não fosse
Ele. Todavia, anunciar Sua mor
te e ressurreição e os resultados
espirituais delas decorrentes, a
serem usufruídos pelos que vies
sem a crer na Sua Palavra, seria
tarefa daqueles por Ele escolhidos
pelo padrão estabelecido pelo Pai:
"Assim como o Pai me enviou, eu
também envio vocês".
Os critérios de seleção de Seus
apóstolos seguiram os mesmos
que o Pai empregou ao escolhê-lO,
como registra Marcos: "Depois,
Jesus subiu ao monte e chamou
os que ele quis, e vieram para
junto dele. Então designou doze,
aos quais chamou de apóstolos,
para estarem com ele e para os
enviar a pregar e a exercer a au
toridade de expulsar demônios"
(Mc 3.13-15). Nas expressões (1)
"chamou os que ele quis" e (2)
"vieram para junto dele (...) para
estarem com ele" estão todos os
requisitos indispensáveis para
alguém ser chamado apóstolo de
Jesus. Quanto ao primeiro, veja
como Paulo se identificava: "Pau
lo, servo de Cristo Jesus, chamado
para ser apóstolo, separado para
o evangelho de Deus" (Rm 1.1, A
45
OBH1RO
NAA); "chamado pela vontade de
Deus para ser apóstolo de Cristo
Jesus." (ICo 1.1, NAA); "apóstolo
de Cristo Jesus pela vontade de
Deus" (2Co 1.1, NAA); "apóstolo,
não da parte de pessoas, nem por
meio de homem algum, mas por
Jesus Cristo e por Deus Pai, que
o ressuscitou dos mortos" (G11.1,
NAA). Em relação ao segundo re
quisito, a convivência com Cristo
na fase de treinamento serviu de
reconhecimento da escolha deles
ao apostolado (At 4.13).
Na lista de dons ministeriais,
a maioria dos intérpretes acredita
que Paulo aplica a palavra "após
tolos" em seu sentido mais estrito.
Isso quer dizer que ele parece ter
em mente os apóstolos que foram
os equivalentes neotestamentário
dos profetas; ou seja, os apósto
los de Jesus que serviram como
agentes da revelação de Deus e
produziram a Escritura do Novo
Testamento. A Bíblia diz que es
ses apóstolos foram escolhidos
por Jesus para lançarem os fun
damentos da Igreja: "...edificados
sobre o fundamento dos apósto
los e profetas, sendo ele mesmo,
Cristo Jesus, a pedra angular" (Ef
2.20, NAA). Isso explica por que
os apóstolos são mencionados em
primeiro lugar na lista dos dons
ministeriais. Sem dúvida, ocupa
ram um ministério fundamental
e singular.
c) Apóstolos enviados pelo
Espírito através da igreja - A
cidade dos primeiros missioná
rios era Antioquia da Síria (At
13.1). O evangelho chegou a ela
como resultado da perseguição
desencadeada contra a Igreja em
Jerusalém após a morte de Estevão
(At 11.19-21). Quando o colegiado
apostólico em Jerusalém tomou
conhecim ento do alvissareiro
acontecimento, enviou Barnabé a
Antioquia (At 11.22). Incontinenti,
"Barnabé foi a Tarso procurar Sau-
lo. Quando o encontrou, levou-o
para Antioquia. Ali permanece
ram com a igreja um ano inteiro,
ensinando a muitas pessoas. Foi
em Antioquia que os discípulos
foram chamados de cristãos pela
primeira vez. Durante esse tem
po, alguns profetas viajaram de
Jerusalém a Antioquia" (At 11.25-
27, NVT).
O Espírito Santo mudou o
centro espiritual do mundo, de
Jerusalém para Antioquia da Sí
ria, pois a obra que Ele estava por
fazer não poderia ser impedida
por questões particulares e hu
manas que ainda questionavam
salvação versus circuncisão ver
sus graça de Deus. É quando, em
uma reunião de oração naquela
igreja, aconteceu o imprevisível:
"Certo dia, enquanto adoravam
o Senhor e jejuavam, o Espírito
Santo disse: Separem Barnabé e
Saulo para realizarem o trabalho
para o qual os chamei" (At. 13.2,
NVT). Sem consultar nem pedir
autorização à igreja-mãe em Je
rusalém, "depois de mais jejuns
e orações, impuseram as mãos
sobre eles e os enviaram em sua
missão. Enviados pelo Espírito
Santo, eles desceram ao porto de
Selêucia, de onde navegaram para
a ilha de Chipre" (At 13.3,4. NVT).
A partir de então, passou a existir
o grupo dos apóstolos "enviados
pelo Espírito Santo", através da
igreja, com Barnabé e Saulo sendo
conhecidos como "apóstolos" (At
14.3,4,13).
Havia também outros servos
de Deus que foram tidos como
apóstolos, embora não tivessem
ligação com o colegiado formado
pelos doze originais, como, por
exemplo, Adrônico e Júnia (Rm
16.7), e "Tiago, irmão do Senhor"
M
(G11.19). O credenciamento para o
apostolado dos aqui mencionados
se dava pelas obras realizadas por
eles, as quais se assemelhavam às
realizadas por Jesus como após
tolo. O próprio Paulo, que está
incluído no grupo dos "enviados
pelo Espírito Santo", falou que
as manifestações e operações do
Espírito no seu ministério creden
ciavam seu apostolado (2Co 12.12).
2) Profetas - A Igreja Primitiva
reconhecia a existência do minis
tério de profeta, distinto do dom
de profecia, como vemos em Atos
11.27 e 13.1. O Espírito também
usava-os pelo dom de profecia (At
11.28; At 21.11). Conforme já expos
to, o dom ministerial de profeta
tem como escopo a realização de
um trabalho sistemático, em con
junto com a operação dos demais
dons ministeriais, que produz a
consolidação e edificação da igreja
(Ef 4.12), enquanto que, pelo dom
de profecia, o Espírito costuma
predizer, revelar ou mostrar algo
ainda por acontecer e desconhe
cido dos destinatários do anúncio
profético. Atos 11.28 e 21.11 confir
mam o aqui afirmado. No segun
do exemplo (At 21.11), que registra
o mensageiro prevendo a prisão
de Paulo caso insistisse em viajar
a Jerusalém na ocasião, é dito que
o evangelista Filipe "tinha quatro
filhas solteiras que profetizavam"
(At 21.9. NVT), o que não impediu
que o Espírito usasse Agabo.
O m inistério de profeta no
Antigo Testamento tinha peculia
ridades que o fazem semelhante
ao do Novo Testamento, como
acontecia quando o profeta Jere
mias ditava a mensagem e Baru-
que a redigia (Jr 45), ou quando
fazia grandes deslocamentos para
entregar mensagens de Deus até
outros povos, reis e autoridades,
convocando ao arrependimento
e à conversão a Deus. Também
temos profetas consolando, forta
lecendo e aconselhando a igreja,
como Judas e Silas(At 15.32).
3) Evangelistas - Etimologica-
mente falando, "evangelizador" é
aquele que evangeliza, que difun
de ou ensina o evangelho. É uma
atividade a ser desempenhada
por todos os salvos, cumprindo
a determinação geral de Jesus
Cristo (Mc 16.15). Não obstante,
o apóstolo Paulo informa que,
dentre todos os evangelizadores,
o Senhor escolhe alguns para lhes
outorgar o ministério de "evange
lista", com o qual contribuem para
o Corpo de Cristo (Ef 4.12). O vo
cábulo "evangelista" é encontrado
na Bíblia apenas em três situações
específicas e distintas: Atos 21.8,
em referência a Filipe; Efésios 4.11,
na lista dos dons ministeriais; e
2 Timóteo 4.5, em referência a
Timóteo. A curiosidade quanto
esse ministério é que o evangelista
Filipe fora escolhido pela igreja
em Jerusalém para diácono (At
6.5), porém, tendo sido disperso e
chegado em Samaria, foi revelada
sua verdadeira vocação ministe
rial, que era de evangelista (At 8.5),
confirmada pela ação do Espírito
na vida dele (At 8.26,27).
A força motriz e impulsiona-
dora do ministério do evangelista
é uma ardente paixão pelas almas
e um desejo profundo de ganhá-
-las para Cristo, como, aliás, tes
temunhou o próprio Paulo acerca
de sua visão de "evangelista" ou
"pregador" (ICo 1.17; 9.16). Portan
to, o ministério de "evangelista"
é uma verdadeira dádiva divina
à Igreja, pois através dele o Reino
de Deus se expande, almas são
alcançadas e os céus povoados,
sendo Jesus Cristo o modelo e
padrão a ser observado por todos
os que detém consigo a vocação
ministerial de evangelista, sendo
Paulo também um exemplo a ser
imitado.
A Bíblia diz que, em um dia de
sábado, como de costume, Jesus foi
à sinagoga para o culto semanal.
Lá estando, "levantou-se para ler.
Então lhe deram o livro do profeta
Isaías. E, abrindo o livro, achou o
lugar onde está escrito" (Lc 4.16,17,
OB01RO
NAA). O texto por Ele lido era
uma mensagem proferida pelo
profeta Isaías, a qual, segundo Sua
interpretação, falava exatamente
acerca de Seu ministério de evan
gelista que estava sendo iniciado
naquele momento. Então, absolu
tamente consciente, proclamou:
"Hoje se cumpriu a Escritura que
vocês acabam de ouvir" (Lc 4.21,
NAA). De igual forma, Paulo sem
pre manifestou certeza de que ha
via sido escolhido para o labor de
pregar o evangelho, independente
de reconhecimento humano, re
muneração ou recompensas finan
ceiras, ao ponto de considerar uma
glória ministerial não receber da
igreja de Corinto qualquer valor
para sua manutenção (ICo 9.18), o
que lhe serviu de testemunho aos
obreiros de Efeso, quando deles se
despediu (At 20.33).
Para os evangelistas Cristo
e Paulo, o valor de uma alma é
único. Aliás, o Senhor determinou
a Moisés que o valor recolhido
de cada pessoa para o Taberná-
culo fosse um só, independente
das condições financeiras dos
cultuantes (Êx 30.13-15). Na pa
rábola da ovelha perdida, Jesus
demonstra o valor único de uma
alma (Lc 15.4,5), e O encontramos
tanto saciando a fome de mais de
5 mil homens quanto pregando
a uma única mulher samaritana,
ou ainda parando a caminhada da
multidão que lhe seguia para dia
logar pessoalmente com Zaqueu.
Paulo, no exercício do ministério
de evangelista que possuía (lTm
1.11; ICo 1.17), pregava à multidão
(At 14.11) ou a uma única alma
(At 13.7).
A coragem é uma marca distin
tiva do ministério do evangelista.
O apóstolo Paulo concita com o
evangelista Timóteo para ele "avi
var a chama do dom que Deus lhe
deu quando impus minhas mãos
sobre você" (2Tm 1.6, NVT). É
imaginável que o jovem estivesse
sofrendo amargamente com a no
tícia da prisão de seu mentor e sua
possível morte. Ao apóstolo não
restou alternativa senão a de en
corajar Timóteo (2Tm 1.7,8; 4.5). Ele
disse Ele lembrou-lhe que o tema
central do evangelho pregado por
ambos era "que Jesus Cristo, des
cendente do rei Davi, ressuscitou
dos mortos", e, porque Cristo res
suscitou, morrer pela pregação da
Palavra era de menor importância.
Portanto, a marca maior do dom
m inisterial de evangelista é a
cosnciência e a coragem plena de
enfrentar os desafios intrínsecos
ao cumprimento do dom conce
dido a esse chamado.
4) Pastores - De todas as fun
ções eclesiásticas da Igreja do Se
nhor, a de pastor é a mais conhe
cida e, infelizmente, cobiçada. Os
que a cobiçam geralmente levam
em consideração alguns aspectos
materiais e circunstâncias que cer
cam a função, sem, contudo, aten
tar para o ensino bíblico acerca do
tema, que aponta para a existência
de regras divinas disciplinadoras
do pastorado, dentre as quais a
principal: é Deus quem dá pastor
às Suas ovelhas, segundo Suas
regras, prescrições e critérios que
não levam em conta os desejos, as
aspirações e as características do
por Ele escolhido (Ef 4.11; Jr 3.15).
Em toda a Bíblia, de Gênesis a
Apocalipse, o conjunto das pes
soas que servem a Deus é figu-
rativamente tratado como sendo
e pertencendo ao seu rebanho,
cuja visão tem um significativo
valor espiritual (Nm 27.15-17). O
salmista afirma que "foi ele quem
nos fez, e dele somos; somos o seu
povo e rebanho do seu pastoreio"
(SI 100.3, NAA). Em outras pas
o bEü r o
sagens bíblicas, no Antigo Tes
tamento e muito mais no Novo
Testamento, há um vastíssimo
emprego da ovelha, suas caracte
rísticas, limitações e hábitos como
figura de linguagem utilizada
para o povo de Deus (SI 44.11; Is
53.6.7; Ez 34.6,11; Mt 10.6,16; 26.31).
Então, é impossível alguém ser
ovelha de Cristo fora de Seu reba
nho e viver sem pastor, por ser este
indispensável à guarda, proteção
e orientação do rebanho, tendo o
próprio Deus assim estabelecido.
Jesus declarou acerca de si mesmo:
"Eu sou o bom pastor", dando em
seguida a razão de assim se qua
lificar: "O bom pastor dá a vida
pelas ovelhas" (Jo 10.11). Com tal
afirmação, nenhum outro humano
poderá usurpar para si a quali
ficação de "bom pastor", já que
ninguém morre fisicamente como
Ele morreu para salvar um peca
dor, pelo que todos atuais pastores
nada mais são que condutores das
ovelhas de Jesus.
Interessante destacar o grau de
interação entre o "Bom Pastor" e
Suas ovelhas, qualidade ímpar
inalcançada pelos pastores hu
manos, materializado pelo íntimo
conhecimento nutrido pelo rela
cionamento pessoal íntimo entre
Ele e a ovelha: "As ovelhas ou
vem a sua voz, ele chama as suas
próprias ovelhas pelo nome e as
conduz para fora" (Jo 10.3, NAA).
Independente da quantidade de
las, são chamadas individualmen
te "pelo nome". Considerando os
atuais tamanhos dos rebanhos das
ovelhas do Senhor entregues aos
cuidados dos pastores humanos,
é evidente a impossibilidade deles
conhecerem nominalmente cada
uma delas. Entretanto, o "Bom
Pastor" as conhece nom inal e
individualmente, por Seu poder
infinito, que lhe dá a capacidade
única de também dar nome a cada
uma das incontáveis estrelas (SI
147.4). Por tudo que realiza e faz
em favor de Suas ovelhas, Cristo
recebeu do apóstolo Pedro o título
de "Supremo Pastor" aquele que
é superior a todos os demais pas
tores e aferirá a conduta de todos
os demais, conferindo prêmio aos
que forem aprovados (lPe 5.4).
O único pastor completo, que
não recebe qualquer reparo no de
sempenho do pastorado, é Jesus,
o "Bom Pastor". Todos os demais,
por Ele escolhidos para desempe
nhar tão honrada e elevada posi
ção de cuidador das ovelhas por
Ele compradas por Seu próprio
sangue, carecem de capacitação e
preparo espiritual, sem os quais é
impossível agradá-lO. A começar
pela escolha. Ninguém se escolhe
ou é escolhido pelo desejo pessoal,
pois é Ele, exclusivamente Ele, que
escolhe a quem quer, independen
te até da manifestação de vontade
do escolhido (Mc 3.13). Creio que
se Jesus convocasse os apóstolos
e submetesse a eles a restituição
do apóstolo Pedro ao ministério
apostólico, certamente que muitos
votariam contrários à readmissão.
Entretanto, como a escolha de al
guém para a santa atividade de
pastor nãodepende da opinião e
concordância de quem quer que
seja, inclusive das ovelhas que
serão pastoreadas pelo escolhido,
simplesmente falou com Pedro e
o restaurou ao pastoreio de Suas
ovelhas (Jo 21.15).
A confirmação do apóstolo Pe
dro somente se deu após todo um
duríssimo processo de preparo,
que incluiu a sua disponibilização
pessoal à ação diabólica podero
sa, pela qual torna compreensível
ouvir Pedro negar que conhecia
Cristo (Jo 18.25-27), embora Je
sus o tenha advertido acerca da
ação do Diabo para lhe destruir
(Lc 22.31,32). Pela experiência
sofrida, Pedro, reabilitado, pode
recomendar acerca do exercício
do ministério pastoral: "Aos pres
bíteros que há entre vocês, eu,
presbítero como eles, testemunha
dos sofrimentos de Cristo e, ainda,
coparticipante da glória que há de
ser revelada, peço que pastoreiem
o rebanho de Deus que há entre
vocês, não por obrigação, mas es
pontaneamente, como Deus quer;
não por ganância, mas de boa
vontade; não como dominadores
dos que lhes foram confiados, mas
sendo exemplos para o rebanho"
(lPe 5.1-3, NAA).
De todos os requisitos espiri
tuais a serem preenchidos pelo
escolhido de Cristo para portar
um dom ministerial, um é des
tacado por Pedro no texto acima
transcrito: "sendo exemplos para o
rebanho". Sim, porque as ovelhas
observam atentamente o com
portamento daquele que as guia
e conduz. Neste quesito, Paulo foi
abundante no ensino, ao dizer às
ovelhas sob seus cuidados: "Mas
esmurro o meu corpo e o redu
zo à escravidão, para que, tendo
pregado a outros, não venha eu
mesmo a ser desqualificado" (ICo
9.27). A situação é ainda agravada
pela recomendação das ovelhas a
imitarem seus pastores (Hb 13.7).
5) Mestres - Embora um gran
de grupo de estudiosos da Bíblia
entenda que o dom ministerial de
mestre é operado com o de pastor,
o que se fosse verdade seria mara
vilhoso, na realidade são distintos,
possuindo cada um deles suas
próprias características, ao ponto
de em três referências bíblicas
aparecerem isolados (Rm 12.7; ICo
12.28; Ef 4.11). Logo, convém reco
nhecer a existência do ministério
de mestre.
É inquestionável que nas Sa
gradas Escrituras há temas eiva
dos em mistérios; aliás, o próprio
Pedro disse que "nelas há certas
coisas difíceis de entender", cuja
compreensão não é facilmente
alcançada. Quando Filipe per
guntou ao eunuco se ele estava
entendendo o que estava lendo
nas Escrituras, sua resposta foi
bem objetiva: "Como poderei en
tender, se ninguém me explicar?"
(At 8.30,31, NAA). Exatamente
por conta das "coisas difíceis de
entender" é que o Espírito Santo
disponibiliza à Igreja o dom de
"mestre". Nos dias de Jesus, ha
via o "mestre", "rabi" ou "doutor
da lei", profundo conhecedor da
Lei e responsável pela explicação
e interpretação das Escrituras de
então, como Nicodemos (Jo 3.10) e
Gamaliel (At 5.34).
Escrevendo a Timóteo, Paulo
entendeu que o dom de ensinar na
igreja tem fundamental importân
cia no desenvolvimento do Reino
de Deus (2Tm 2.2). Ele também en
tendia que o evangelho de Cristo
era figurativamente uma grande
semeadura, na qual "um planta
e outro rega", donde pregar aos
perdidos a mensagem divina é a
plantação, enquanto que o ensino
é o ato de regar, até porque o que é
plantado, se não for regado, morre.
Por outro lado, o Senhor deu à Sua
Igreja duas tarefas distintas, a sa
ber: a de pregar o evangelho a toda
a criatura e a de fazer discípulos, a
qual é cumprida quando é ensina
da a Palavra ao convertido; ou seja,
é plantar e regar. Como ensinador,
Paulo era incansável e não perdia
nenhuma oportunidade, como, por
exemplo, em Trôade, onde "alargou
a prática até à meia-noite"; e depois
que resolveu o acidente com Êutico,
"ainda lhes falou largamente até à
alvorada" (At 20.7,11). Á
Na igreja de Antioquia, se so
bressaiam os dons ministeriais
de "profetas e doutores" (At 13.1),
ambos convivendo pacificamente
e contribuindo para o desenvol
vimento do Reino de Deus, sem
invasão nem disputas humanas.
Neste aspecto, Pedro dá um exem
plo lindo e profundo ao reconhecer
que Paulo possuía uma capacidade
de ministrar certos temas bíblicos
que ele, com toda sua experiência
de ter convivido pessoalmente
com Cristo, não possuía, sem que
se sentisse, com isso, inferiorizado
(2Pe 3.15,16). Outro santo exemplo a
considerar sobre a atuação do dom
de ensinar na igreja é a atuação
ministerial de Apoio (At 18.24,25).
Embora fosse ele "varão eloquente
e poderoso nas Escrituras", não era
detentor de todo conhecimento das
Escrituras, pois conhecia "somente
o batismo de João". Recorde-se que
sua capacidade de expor a Pala
vra era tamanha que, na igreja de
Corinto, foi formado o grupo de
Apoio (ICo 3.4). Porém, apesar de
todo seu profundo conhecimento
e capacidade de expor a Palavra,
era humilde, pois aceitou ser ins
truído "mais pontualmente" so
bre o "caminho de Deus" por um
casal, Priscila e Aquila (At 18.26).
Paulo chegou a pedir-lhe que fosse
ministrar em Corinto, o que não
aceitou (ICo 16.12).
Se em muitos lugares há hoje
a ausência de bons ensinadores, é
porque uma exigência bíblica bá
sica aplicável ao dom de ensinar
na igreja não tem sido atendida
atualmente: "Se é ensinar, haja
dedicação ao ensino" (Rm 12.7).
Como "examinar as escrituras"
é uma atividade enfadonha e
cansativa, muitos ministros que
acessam os púlpitos das igrejas
não ensinam o povo de Deus
como convém à sã doutrina, ha
vendo muitos "analfabetos" espi
rituais nas igrejas, contrariando
a recomendação bíblica (Os 6.3).
Lembremos: "O meu povo foi
destruído porque lhe faltou o co
nhecimento" (Os 4.6). De quem é
a culpa e a responsabilidade pela
tragédia da falta de conhecimento
de Deus por grande parte do Seu
povo? Com certeza, do Espírito
Santo não é, pois Ele disponibi
liza para a Sua Igreja o dom de
ensinar. H
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