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QUALIDADE EM PROCESSO DE USINAGEM 1 Sumário INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 2 GESTÃO DA QUALIDADE ........................................................................................ 3 SISTEMAS DE GESTÃO DA QUALIDADE ISO 9001 ............................................... 4 PRODUTIVIDADE ...................................................................................................... 8 PERDA DE PRODUTIVIDADE EM USINAGEM .................................................... 10 CONCIÊNCIA AMBIENTAL .................................................................................... 18 IMPACTOS AMBIENTAIS EXTERNOS E INTERNOS CAUSADOS PELOS FLUIDOS DE CORTE ............................................................................................... 19 PROPOSTA PARA APLICAÇÃO DA METODOLOGIA P+L (PRODUÇÃO MAIS LIMPA) ...................................................................................................................... 22 ELABORAÇÃO DE UM BALANÇO AMBIENTAL, ECONÔMICO E TECNOLÓGICO DO PROCESSO PRODUTIVO ...................................................... 24 APLICAÇÃO DO P+L PARA O PROCESSO DE USINAGEM ................................ 26 IMPLANTAÇÃO DAS OPORTUNIDADES DE PRODUÇÃO MAIS LIMPA LEVANTADAS E PRIORIZADAS ............................................................................ 32 REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 34 2 INTRODUÇÃO As organizações empresariais, independentemente de sua área de atuação, estão enfrentando uma realidade dinâmica, sem fronteiras econômicas definidas, muito competitiva, com clientes cada vez mais exigentes e legislações locais crescentemente mais restritivas em relação à qualidade de produtos e serviços, meio ambiente e saúde do trabalhador. Esse cenário pressiona-as a se reestruturarem na direção da modernização técnica e gerencial (LAGROSEN; LAGROSEN, 2003; KILBOURNE, 2004; LAGROSEN, 2007; TONINI; CARVALHO; SPINOLA, 2008; OLIVEIRA; OLIVEIRA, 2008). Nesse contexto, a gestão da qualidade apresenta-se como uma interessante alternativa para dotar as empresas de mecanismos para controlar seus processos e melhorá-los continuamente de forma a atender e superar as expectativas do consumidor, promovendo, dessa forma, a melhoria organizacional e, por conseguinte, aumentando sua competitividade (GALDÁMEZ; CARPINETTI; GEROLAMO 2009; OLIVEIRA; MARTINS, 2008). Os sistemas de gestão da qualidade (SGQs) são um meio para a introdução e sistematização da filosofia e dos procedimentos da qualidade nas organizações. Seu enfoque é no desenvolvimento, implementação, padronização, manutenção e melhoria da qualidade de processos, produtos e serviços. A forma de SGQ mais comumente adotada pelas organizações é baseada na norma ISO 9001(GONZALEZ; MARTINS, 2007; DEPEXE; PALADINI, 2008). Já os programas e ferramentas da qualidade são os elementos que permitem operacionalizar efetivamente os preceitos da gestão da qualidade contidos nos sistemas de gestão da qualidade ISO 9001. Eles são os instrumentos utilizados para o desenvolvimento, medição, análise e melhoria da qualidade nas organizações. Assim, permitem a identificação e solução dos principais problemas organizacionais e, por este motivo, são importantes instrumentos de diferenciação organizacional (BAMFORD; GREATBANKS, 2005; ALSALEH, 2007). Contudo, a utilização tanto dos SGQs como dos programas e ferramentas enfrenta uma série de dificuldades em face das características do mercado brasileiro e de suas organizações: deficiências em relação à qualificação de mão de obra, baixo fôlego 3 financeiro de médias e pequenas empresas e ausência de programas públicos e/ou coletivos de fomento da competitividade empresarial (GRAEL; OLIVEIRA, 2010). Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE (INSTITUTO..., 2009a), o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil em 2007 foi de aproximadamente R$ 2,37 trilhões, sendo só o Estado de São Paulo responsável por cerca de R$ 802 bilhões. GESTÃO DA QUALIDADE Para Lakhal, Pasin e Limam (2006) e Battika (2003), o conceito de qualidade relaciona-se tanto a produtos como serviços e contempla elementos como satisfação do cliente, controle de processos, padronização, melhoria contínua, parcerias à jusante e à montante na cadeia com vistas a obter melhorias e benefícios conjuntos e racionalização de tempo e insumos. De forma geral, a gestão da qualidade melhora o desempenho organizacional e proporciona vantagem competitiva às organizações que a adotam. Segundo Juran e Gryna (1991), [...] para a maioria dos clientes, qualidade relaciona-se às características do produto que atendem suas necessidades. Além disso, qualidade quer dizer ausência de falhas, bem como um bom serviço ao cliente [...]. Uma definição abrangente para isso é “adequação ao uso”. A gestão da qualidade tem como objetivos a padronização de processos e, por meio de planejamento, controle e aprimoramento, a garantia da qualidade de produtos e serviços. Segundo Srdoc, Sluga e Bratko (2005), Lagrosen (2007), Lagrosen e Lagrosen (2003), as empresas necessitam adotar um sistema que priorize a qualidade em suas decisões para que seja possível alcançar e manter a qualidade de seus processos, produtos e serviços. Qualidade tem muitas definições, que podem variar de acordo com o contexto, e no caso do segmento empresarial pode ser denominada como a conformidade aos requisitos dos clientes, atendimento das necessidades dos stakeholders e prevenção e gerenciamento de não conformidades, incluindo as ações para suas correções (KANUNGO; 4 BHATNAGAR, 2002; AHMED; HASSAN, 2003; BATTIKHA, 2003; LAGROSEN; LAGROSEN, 2003; GARRATT, 2007; ZU, 2009). Os processos de melhoria contínua da qualidade são baseados no ciclo PDCA, ilustrado na Figura 1. Segundo Poksinska, Eklund e Dahlgaard (2006) e Lagrosen, Backstron e Lagrosen (2007), vários estudos demonstram que os SGQs proporcionam significativos benefícios às empresas. Contudo, os autores também relatam a existência de recorrentes dificuldades. Dentre os benefícios, os que mais se destacam são a melhoria nos processos, produtos e serviços, aumento da satisfação dos clientes, melhoria da imagem da empresa, abertura de novos mercados e maior vantagem competitiva diante da concorrência. Já em relação às dificuldades observam-se as seguintes: resistência à mudança, dificuldade no entendimento e aceitação de determinados preceitos da qualidade, falta de comprometimento da média gerência e baixo envolvimento da alta direção, incluindo aporte pequeno de capital para as atividades associadas à qualidade. SISTEMAS DE GESTÃO DA QUALIDADE ISO 9001 Segundo Churchman e Bertalanffy (1972 apud OLIVEIRA, 2005), os sistemas são constituídos de conjuntos de componentes que atuam juntos na execução do objeto global do todo. O enfoque sistêmico é um modo de pensar a respeito desses sistemas totais e seus componentes. A teoria geral dos sistemas dá ênfase à inter-relação e interdependência entre os componentes que formam um sistema, que é visto como uma totalidade integrada, sendo muito difícil estudar seus elementos isoladamente. A norma ISO 9001 é um sistema com objetivo específico de desenvolver princípios de gestão da qualidade nas organizações. As normas da família ISO 9000 são gerenciadas mundialmente pela International Organization for Standardization, organismo sem fins lucrativos fundado em 1947, sediado em Genebra, Suíça, cujo principal objetivo é o desenvolvimento de normas técnicas e o incentivo à 5 padronização visando facilitar as relações internacionaisnos campos científico, intelectual, econômico e tecnológico (ARUMUGAM; OOI; FONG, 2008; HEUVEL, 2005). No Brasil, ela é representada pelo Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial – INMETRO. A certificação é feita apenas com base na norma ISO 9001, sendo as duas outras para orientação. Para atingir a excelência organizacional, as mais recorrentes alternativas lançadas pelas organizações são o desenvolvimento e a implantação de sistemas de gestão da qualidade com base na norma ISO 9001 (ZENG; TIAN; SHI, 2005). Para que esse sistema promova o desempenho esperado, além das mudanças internas, é necessário que os stakeholders compartilhem de seus propósitos em relação à qualidade, apoiando, dentro do possível, a empreitada. São indispensáveis o comprometimento e a ativa participação da alta direção, conforme preconiza a própria norma, nos processos de desenvolvimento e implantação do sistema, uma vez que recursos (financeiros, humanos e de infraestrutura) deverão ser disponibilizados em intensidades e momentos bastante específicos (HEUVEL, 2005). Ainda segundo o autor, alguns princípios preconizados pela ISO 9001 são: • Foco no cliente; • Liderança; • Envolvimento de pessoas; 6 • Abordagem de processo; • Abordagem sistêmica; • Melhoria contínua; • Abordagem factual para as tomadas de decisão; e • Parceria com os fornecedores. A primeira versão da norma ISO 9001 é de 1987; após isso houve mais duas revisões, em 1994 e 2000 (ARUMUGAM; OOI; FONG, 2008). Em 2008 foi lançada uma emenda e não uma revisão completa. Nenhum requisito foi adicionado, mas alguns foram sutilmente melhorados. Algumas dessas pequenas mudanças foram feitas com o intuito de melhorar a interface com a ISO 14001:2004 – sistema de gestão ambiental (GALBINSKI, 2008; ASSOCIAÇÃO..., 2008). A macroestrutura da norma ISO 9001 é apresentada no Quadro 1. Um SGQ baseado na norma ISO 9001 traz diversos benefícios às organizações, dos quais se destacam: aumento da eficiência operacional, maior conformidade de produtos e serviços a partir da redução de falhas e diminuição da variabilidade nos processos, atendimento dos requisitos do cliente com aumento de sua satisfação, diminuição de custos com retrabalhos e perdas, aumento das vantagens competitivas e melhoria da imagem da empresa (GUPTA, 2000; ROMANO, 2000; OZGUR; MEEK; TOKER, 2002; LAGROSEN; LAGROSEN, 2003; Lagrosen, 2007; Claver; Tari, 2008; DICK; HERAS; CASADESÚS, 2008). A despeito de todas as críticas sobre causar engessamento de processos e aumento do número de documentos, o SGQ com base na norma ISO 9001 induz à melhoria contínua em projetos, processos, produtos e serviços nas empresas que o adotam. Verifica-se, quando bem implantado e gerenciado, a racionalização no uso de insumos, maior controle de processos com consequente redução do desperdício e conscientização maior da mão de obra em relação à importância do seu trabalho (Bhuyian; Baghel, 2005). 7 Para Thia et al. (2005), as ferramentas da qualidade têm sido desenvolvidas e aprimoradas para sustentar a aplicação e utilização da gestão da qualidade nas empresas; dessa forma, considera-se que elas são imprescindíveis para o SGQ obter o sucesso largamente anunciado na literatura científica. Os programas e ferramentas da qualidade mais comumente utilizados pelas empresas, segundo Khanna, Laroiya e Sharma (2010). Vale destacar que alguns deles, como benchmarking, brainstorming e fluxograma, são instrumentos utilizados também em diversas outras áreas da gestão além da qualidade. Segundo Braga (2000), os mercados de praticamente todos os segmentos econômicos no Brasil têm algumas características em comum. Entre elas, pode-se citar: competição acirrada, globalização de seus concorrentes e de sua cadeia de suprimentos, as margens de lucro pressionadas para baixo, os prazos de entrega cada vez menores demandados pelos clientes e a qualidade dos produtos e serviços, que são pré-requisitos fundamentais para a existência da empresa, portanto, não existe espaço no mercado para empresas que não têm qualidade e competitividade. Braga (2000) ainda afirma que a forma como se entende e reage-se às características deste mercado determina o posicionamento estratégico. Ele pode ser focado na prática de baixos preços, na qualidade dos produtos/serviços ou em diferenciais criados pela habilidade em algumas etapas dos processos produtivos. Em função da capacidade em melhorar o posicionamento estratégico e estabelecer vantagens competitivas sobre os concorrentes, pode-se prever qual será o futuro de cada empresa: desaparecer, sobreviver, crescer ou tornar-se a 8 líder interna ou externa em seu segmento de atuação. Toda empresa tem seus processos produtivos, burocráticos e físicos, que obedece a uma lógica, onde são consumidos recursos e estes são transformados através dos processos produtivos em produtos/serviços. A principal forma de avaliar o desempenho destes processos é mediante uma análise da relação entre o volume produzido e os recursos necessários a esta produção, chama-se esta relação de produtividade. PRODUTIVIDADE Conforme Ramo (1980), a produtividade é um índice em que se caracteriza a eficiência de determinada atividade como um processo produtivo, por exemplo. Logo, não existe um índice único para qualquer tipo de atividade. Para se medir produtividade, geralmente se usa uma relação que envolve pessoas, tempo, quantidade de produtos para serem fabricados na linha de produção e produtos prontos que saem da linha de produção, criando-se assim uma eficiência. De acordo com Ramo (1980), existem 4 formas de se obter bons índices de produtividade: 1) Através de inovações tecnológicas; 2) Aumento de investimentos internos em melhorias; 3) Realizando treinamentos, proporcionando melhor educação e motivação para os funcionários; 4) Diversificando os negócios da empresa. Ramo (1980) ainda destaca que a produtividade é um dos principais problemas a serem resolvidos pelo pessoal de manufatura, considerando fatores como versatilidade, dimensionamento de equipamentos e de pessoal. Para Harmon e Peterson (1997), as máquinas, bem como suas ferramentas e instrumentos, não deveriam ser complexos, mas sim projetados para facilitar a operação, manutenção e setup. 9 A equipe de aumento de produtividade é responsável pelas mudanças físicas nos equipamentos, ferramentas e/ou métodos que simplifiquem as operações. Ohno (1997) ressalta que, em um período de alto crescimento, a produtividade pode ser aumentada mais facilmente do que em épocas de crise. Melhorá-la perante circunstâncias mais difíceis induzidas por baixas taxas de crescimento é o fator decisivo para o sucesso ou fracasso de uma empresa. Mesmo durante o alto crescimento, para evitar a geração do excesso de inventário através da superprodução, evitando arbitrariamente a compra de máquinas em massa, é preciso eliminar ao máximo desperdícios para ter o mínimo de máquinas para produzir a quantidade de peças necessárias. Ohno (1997) ainda diz que, para cada problema encontrado, deve-se ter uma medida de combate específica. Quando cai a venda de determinada peça para um cliente, conseqüentemente os custos sobem e estes normalmente não podem ser acrescentados ao valor da peça. Portanto, uma quantidade menor ainda de peças deve ser fabricada de modo barato e vendida com lucro. Em função deste fato, deve-se sempre continuar a estudar métodos de se aumentar a produtividade aumentando a eficiência a fim de reduzir custos. Ribeiro (1989) acrescenta que é importante enfatizar que a implantação de controles simples e eficazes deve constituir o início de qualquer programa de melhoria na produtividade. Mesmo antes das ações voltadas a atingiro objetivo, a simples implantação de um mecanismo de controle eficiente, por si só, já contribui para a eliminação de desperdícios. Mas somente por meio do estabelecimento de ações com base técnica pode ser feita a abordagem para a solução racional de qualquer problema. A conscientização é um fator primordial para a consistência de qualquer programa dessa natureza, medidas radicais têm efeitos temporários e muitas vezes pouco contribuem para o objetivo global. Ribeiro (1989) assinala ainda que a busca da produtividade, em qualquer época, sempre representou a solução mais viável para que empresas consigam gerar recursos necessários ao seu desenvolvimento. 10 Desta forma, todos os setores de uma empresa devem estar permanentemente preocupados em avaliar seu desempenho e determinar programas de aumento de eficiência. Os setores de produção e manufatura têm que buscar a produtividade e a otimização dos custos, de modo a manter a permanente competitividade do produto. Além disso, precisam ser extremamente flexíveis para atender aos pedidos no menor espaço de tempo possível. Nos tempos de crise, não interessa muito aquilo que pode ser produzido, e sim aquilo que o mercado consumidor deseja comprar. Os responsáveis pelos processos de fabricação devem entender e se adaptar a estes conceitos, de maneira a contribuir para o esforço global da empresa. Segundo Harmon e Peterson (1997), as operações de usinagem, como, aliás, todas as áreas da fábrica, representam uma oportunidade para a introdução de consideráveis melhorias. Tipicamente, porém, elas envolvem uma série de complexos problemas. Tanto os que operam diretamente as máquinas, como o pessoal indiretamente ligado a elas gastam um tempo relativamente exíguo mantendo-as em processamento, e um tempo exagerado em tarefas e movimentos que pouco valor adicionam ao produto manufaturado, ou simplesmente desperdiçam o tempo na ociosidade. Na sequência, serão apresentados os principais motivos de perda de produtividade, lembrando que este trabalho tem como foco principal aqueles relacionados a ferramentas e dispositivos de fixação e alimentação, como setup e gerenciamento de ferramentas. PERDA DE PRODUTIVIDADE EM USINAGEM Na concepção de Harmon e Peterson (1997), Schonberger (1988) e Plute (1998), os principais motivos de perda de produtividade na fábrica estão ligados principalmente a quatro procedimentos relacionados ao processo de usinagem: manutenção, organização das 11 linhas ou células de produção, troca de ferramentas (setup) e a falta de um gerenciamento de ferramentas adequado. A seguir será abordado como estes quatro itens afetam a produtividade na fábrica. Manutenção Harmon e Peterson (1997) afirmam que máquinas e equipamentos precisam de manutenção preventiva, e seria um contra-senso deixar de realizá-la onde necessária. No entanto, o único remédio seguro para peças velhas, gastas e falíveis é restaurá-las a um bom estado de funcionamento, ou então substituí-las. Segue-se que a manutenção preventiva, apesar de importante para uma melhor produtividade, não tem poder de cura sobre todas as paralisações de equipamentos. Os dois grandes objetivos de um projeto voltado à manutenção são, em primeiro lugar, minimizar a quantidade de tempo de paralisação de máquinas e equipamentos devido a quebras ou falhas mecânicas; minimizar o custo de manutenção dos equipamentos em boas condições operacionais (o que inclui reduzir o tempo e o custo dos reparos). Os objetivos dos projetos de melhoria da produtividade da manutenção devem ser tão agressivos quanto os de outras áreas. A implementação dos procedimentos de transferência dos operários para outras máquinas, no momento em que reparos se fazem necessários, já permite obter ganhos imediatos. Conforme Maynard (1972), quando os operadores são treinados e ouvidos, melhoram o desempenho na fábrica e sua motivação, trazendo benefícios à produtividade da empresa. Outra alternativa consiste em misturar temporariamente os operadores em outras equipes de trabalho, aumentando-se assim a produção. De acordo com Harmon e Peterson (1997), o ideal numa fábrica é treinar os operadores das máquinas na célula ou na área de montagem e auxiliar ou executar o próprio trabalho de reparação. A maioria das operações de reparo e manutenção envolve o desmonte parcial do equipamento, a substituição das peças componentes e a remontagem do equipamento. 12 Como o desmonte e remontagem são bastante rotineiros, a maioria do pessoal da fábrica deveria estar apta a executar tais tarefas. Uma razão primordial para o desperdício de tempo e movimentos pelo pessoal de manutenção consiste na armazenagem centralizada das peças defeituosas. Havendo disponibilidade, elas podem ser prontamente substituídas no equipamento. É comum, todavia, faltarem tais peças no estoque. Como resultado, o pessoal da manutenção costuma deixar os equipamentos total ou parcialmente desmontados, enquanto solicitam as peças necessárias. As máquinas permanecem assim ociosas enquanto desmontadas, até a obtenção das peças. Ao invés disso, cada sub-fábrica deveria possuir seu próprio estoque focalizado em peças sobressalentes para máquinas, bem como ter um depósito de materiais específico. O órgão de manutenção focalizado elimina o tempo normalmente perdido pelos técnicos no deslocamento para o local do reparo e de volta ao departamento de manutenção central para apanhar as ferramentas especiais. Depois que eles retornam ao local do reparo, podem precisar voltar várias vezes à área de manutenção central para apanhar peças necessárias. Tal deslocamento pode ser reduzido pelo uso de Kits de ferramentas portáteis projetados para as ferramentas rotineiramente transportadas de uma máquina para outra. As ferramentas guardadas nesses kits devem ser fáceis de carregar e de uso frequente. Para uma quantidade adequada de materiais para manutenção, é necessário um planejamento das necessidades de materiais, conforme Corrêa (2001) Segundo Corrêa (2001), o conceito de cálculo de necessidade de materiais é simples e conhecido há muito tempo. Baseia-se na idéia de que, se são conhecidos todos os componentes de determinado produto e os tempos de obtenção de cada um deles, pode-se, com base na visão de futuro das necessidades de disponibilidade do produto em questão, calcular os momentos e as quantidades que devem ser obtidas, de cada um dos componentes, para que não haja falta nem sobra de nenhum deles no suprimento das necessidades dadas pela produção do referido produto. 13 Este trabalho se concentra em análises de ferramentas e dispositivos de usinagem, não se preocupando diretamente em analisar problemas relacionados à manutenção mecânica. Porém, nos gráficos de tempos de paradas de máquinas, a manutenção está demonstrada mas sem análises para diminuição desses tempos de paradas de máquina. Na seqüência, tem-se outro item importante na fábrica que também é responsável por algumas paradas inoportunas, no caso de não estar adequado com as necessidades principais de movimentação da empresa. Organização da Fábrica Segundo Harmon e Peterson (1997), ainda que outras áreas de melhoramento da usinagem possam conduzir a maiores economias, reduções de custos de pessoal de ao menos 30 a 50% podem ser atingidas. Para tal, é preciso reorganizar não apenas o fluxo de usinagem, mas também o desenho de cada operação mecânica. Projetos de aumento de produtividade envolvem o estudo de tempos e movimentos nas operações existentes e o projeto de novas operações para reduzir o desperdício. Isto muitas vezes implica decompor tarefas individuais grandes e complexas em várias menores e executadas por um grupo maior de pessoas. Subtipos de Organização de Fábrica Na opinião deSchonberger (1988), existem vários subtipos de organização de fábrica, o subtipo mais adequado depende da situação. Seis subtipos são descritos a seguir, juntamente com algumas ilustrações esquemáticas. a) Agrupado e Desordenado – A organização da fábrica agrupada e desordenada é o pior tipo e, infelizmente, o mais comum. Nos escritórios, assim como nas fábricas, isto ocorre em duas situações. Em primeiro lugar, talvez não haja fluxos padrões facilmente identificáveis para o produto em questão. Nos locais de produção, por exemplo, diferentes 14 trabalhos requerem diferentes máquinas e, por conseguinte, o serviço segue vários roteiros ou percursos pela fábrica. Em segundo lugar, onde os produtos são mais padronizados, como os produtos de consumo e materiais industriais, a organização da fábrica pode começar corretamente, mas, então, à medida que a fábrica cresce, acaba degenerando para a organização em agrupamento desordenado. b) Linhas de Fluxo Agrupadas - Neste segundo tipo, os grupos não estão desordenados, mas sim organizados, de uma certa maneira, em fluxos de produto. Metade dos agrupamentos encaixa-se numa linha de fluxo e a outra metade na outra. Alternativamente, as duas linhas poderiam fabricar exatamente o mesmo produto e competir pelos resultados, assim como se auxiliarem. O tipo b de organização de fábrica não é classe universal, mas certamente é melhor que o tipo a. O uso menos negativo para o tipo b é quando ele produz especialidades: ordens de fabricação especiais, opções de baixo uso ou peças para assistência técnica, trabalho com protótipos ou coisas do gênero. Esses produtos podem ser as sobras que ficam nos agrupamentos após os poucos produtos importantes serem retirados. Os itens pouco importantes vão para as fábricas organizadas da maneira c, d ou e conforme demonstrado na seqüência. O tipo b também é o destino de vários tipos de equipamentos automáticos, notadamente as máquinas unitárias. A máquina unitária é aquela que efetua vários tipos de operação e produz um produto complexo e inteiro. Como exemplo tem-se a máquina de controle numérico. Essa máquina absorve e elimina vários movimentos, atrasos, filas, quantidades em trânsito e ajustes. c) Celular – Tem-se visto maneiras que fazem a fábrica com uma organização em agrupamento operar bem, dadas suas limitações inerentes. A melhor solução de todas é encontrar uma maneira para acabar com os agrupamentos. Na fabricação, quando se quebram os grupos de processos, as partículas vão para as células ou linhas de fluxo dedicadas. Chama-se célula aquilo que fabrica uma família de produtos; chama-se linha o que fabrica apenas um produto.. Estações de montagem ou de máquinas diferentes são agrupadas em uma célula, e existe apenas uma estação de 15 trabalho para cada tipo (por exemplo, apenas uma furadeira), exceto quando mais de uma estação for necessária, por questões de balanceamento. Naturalmente, se a fábrica arcou com os custos de mover os recursos em células, estas devem ser arranjadas de acordo com o fluxo da família de produtos; uma cadeia em série é o resultado. Os produtos de uma família de produção são freqüentemente parecidos, mas não necessariamente. Mais importante, elas empregam os mesmos materiais, ferramentas, procedimentos de ajuste, técnicas de trabalho, tempos de ciclo e, especialmente, os roteiros ou fluxos de trabalho. Em outras palavras, os processos são um tanto quanto repetitivos, mesmo que os produtos da família sejam, de alguma maneira, diferentes. Conforme Harmon e Peterson (1997), no agrupamento celular, o número de operadores costuma ser 50 a 70% inferior ao número de máquinas. Além do mais, as máquinas se localizam próximas entre si, permitindo ao operador dar conta de várias a uma só vez com o mínimo de desperdício de tempo e movimentos. O conceito de célula de máquinas se aplica tanto às fábricas pequenas, de menores volumes, como às grandes, de maiores volumes. d) Estação ou Máquina Unitária – O quarto subtipo de organização de fluxo é o da estação de trabalho ou máquina unitária. Como na célula, a máquina ou estação unitária executa várias operações em série para a fabricação de um módulo completo do produto. Ao contrário das células, as operações são feitas em uma, ao invés de várias máquinas ou estações. Na verdade, este é um caso especial de organização celular. Esse tipo inclui as máquinas de controle numérico que podem fabricar um componente completo. Também inclui as transfer lines e as estações de montagem autônomas que podem montar um módulo inteiro do produto, como um motor. e) Linhas de Fluxo dedicadas – O quinto subtipo de linhas de fluxo é o da linha de fluxo dedicada. Ela é dedicada para um produto ou uma gama pequena de produtos. Como o tipo celular, a linha de fluxo completa é composta de estações de trabalho diferentes, dispostas de acordo com o fluxo do produto. Existe apenas uma estação de trabalho de cada tipo na linha de fluxo, exceto quando mais de 16 uma é necessária por questão de balanceamento. Por exemplo, se os testes demoram o dobro de tempo do que as outras operações, a estação de trabalho de testes deve possuir duas bancadas ao invés de uma. As linhas dedicadas são convenientes nas seguintes condições: 1. O produto é fabricado em grande volume ou com um contrato de longo prazo. Um fabricante de aviões pode ter um contrato de três anos com a Força Aérea para entregar um avião por mês. Esse tipo de estabilidade durante um período tão grande pode justificar os esforços para preparar uma linha de fluxo dedicada. 2. Existe mais de uma linha que produza esse produto, ou que seja capaz de produzilo. A necessidade de possuir flexibilidade de se ajustar quando algo de errado acontece em uma linha é a razão, e é preciso mencioná-la várias vezes. Uma outra razão deve-se aos benefícios de se ter uma linha competindo com outras – para saber de qual se pode obter o melhor índice de melhoramentos. Combinada – as empresas que estão no rumo de uma fabricação classe universal podem ter um período de transição longo para mudar a organização pobre de suas fábricas (agrupamentos) para a ideal (linhas de fluxo). Uma combinação de fluxo e agrupamento do tipo combinado é comum durante esse período. Para fazer as mudanças de linhas agrupadas para linhas de fluxo, é preciso tomar as seguintes providências: Primeira mudança - produtos dominantes. Deve-se selecionar alguns produtos dominantes, tirá-los do agrupamento e colocá-los em uma linha de fluxo; Prosseguindo com a reorganização. Na fase 2, é necessário repetir o procedimento da primeira retirando os produtos mais dominantes dos agrupamentos junto com algum equipamento. Outras linhas de fluxo são criadas juntamente com suas equipes. Duas linhas são melhores que uma, pois permitem que o programa de fabricação das peças seja cumprido no caso de algo acontecer com alguma máquina, permitem também a promoção de uma competição entre elas e a introdução de equipamentos mais flexíveis. Na seqüência, é apresentado um dos principais motivos de estudo do presente trabalho, que é a preparação de 17 máquinas, visto que esta sim é inteiramente voltada a troca de ferramentas na máquina. Preparação de Máquinas (setup) Harmon e Peterson (1997) afirmam que, apesar de existir um número ilimitado de técnicas que contribuem para a produtividade superior, um pequeno número delas merece atenção especial: (1) Organização em sub-fábricas pequenas e focalizadas; (2) Melhoria da utilização do espaço; e (3) Redução do tempo, custos e complexidade do setup. Das três, a redução do setup é a mais fácil, barata e rápida das melhorias que os fabricantes podem fazer. A redução dos custos de setup de máquina é importante por três razões: 1. Quando o custo de setup de máquina é alto,os lotes produzidos também são grandes, e o investimento resultante em estoques, elevado. Agora, se o custo de conversão é insignificante, torna-se possível produzir diariamente a quantidade estritamente necessária naquele dia, com a virtual eliminação do investimento em estoques decorrente de grandes lotes. 2. Com técnicas mais rápidas e simples de troca de ferramentas, eliminam-se as possibilidades de erros na regulagem de ferramentas e instrumentos. 3. Técnicas de conversões rápidas podem ser usadas para tornar disponível uma capacidade adicional da máquina. Pouquíssimas fábricas estão livres dos custos de troca de ferramenta nas máquinas, quase todas têm a possibilidade de reduzir tais custos, e também os concomitantes investimentos em estoques que penalizam a empresa. Existem 3 tipos de operação de setup: mainline, offline e desnecessário. Operações de setup offline ou setup externo são aqueles que poderiam ser realizados antes de se parar a máquina, a fim de convertê-la para a usinagem da próxima peça: por exemplo, trazer as matérias-primas, ferramentas e peças necessárias. Operações de setup mainline ou em linha principal são executadas enquanto a máquina está parada entre a produção do item anterior e a do próximo. No entanto, existem instalações que executam operações de setup offline enquanto a máquina ainda está operando. Nestes casos, tais elementos 18 preparatórios são classificados como fora de linha, sendo também conduzidos como operações offline, Portanto, faz mais sentido medir a redução do setup em termos de decréscimo dos minutos ou horas de trabalhos para analisar a economia na maior utilização da máquina e a possibilidade de evitar a compra de um novo equipamento. CONCIÊNCIA AMBIENTAL Um maior interesse pela consciência ambiental da indústria de manufatura tem sido observado devido a aumento da poluição, desenvolvimento de legislações preventivas e crescimento da demanda de produtos e processos de produção "verde". Até recentemente, os esforços industriais para aliviar os impactos ambientais de seus produtos e processos estavam focados em duas áreas: desenvolvimento de um processo de reciclagem, especialmente para metais e plásticos, e substituições de produtos químicos nos processos de manufatura, tornando-os processos denominados "processos limpos". Um dos processos mais utilizados na manufatura em geral é a usinagem. O uso de fluidos de corte neste processo é comum, devido à melhora nas condições tribológicas. O emprego de fluido de corte aumenta a vida da ferramenta, minimiza a geração de calor durante o processo, auxilia na remoção dos cavacos e geralmente melhora a eficiência do sistema produtivo. Em contrapartida, devido à multiplicidade de efeitos negativos gerados pela utilização dos fluidos de corte, tais como danos ao meio ambiente e agressão à saúde do operador, especial atenção está sendo voltada à seleção eficiente de tais fluidos de corte, por garantir menores impactos ao meio ambiente. As restrições resultantes da legislação não conduzem apenas às limitações e dificuldades com processos de manufatura e a um acréscimo de custo indesejável a elas associado, mas também força a desenvolver tecnologias 19 novas e alternativas. Isto representa um novo desafio tecnológico aos cientistas e engenheiros e aumenta a importância da manufatura ecológica como um fator competitivo. A consideração de questões ambientais na manufatura exige a realização de uma análise do processo total, no qual todos os insumos de entrada e saída sejam analisados e os efeitos exatos de energia e ambiente de cada parâmetro sejam avaliados de maneira quantitativa. Sokovic&Mijanovic (2001) exemplificaram este procedimento para o processo de usinagem. Ferramenta, peça de trabalho, materiais processados e energia são as variáveis de entrada. Do outro lado, após o processamento, tem-se um produto que demonstra as características requeridas em termos de qualidade, eficiência econômica e reciclabilidade. Ainda, têm-se os materiais residuais e as emissões, os quais são partes indesejadas do processo. Estes são caracterizados com relação ao tipo, quantidade e estado físico. Este artigo tem como objetivo avaliar os impactos ambientais decorrentes do uso dos fluidos de corte nos processos de usinagem e, com o auxílio da ferramenta de gestão ambiental chamada "Produção mais Limpa", definir uma proposta de redução dos resíduos gerados neste processo, através de mudanças no produto e processo. IMPACTOS AMBIENTAIS EXTERNOS E INTERNOS CAUSADOS PELOS FLUIDOS DE CORTE A utilização de fluidos de corte no processo de usinagem faz da indústria metal-mecânica uma potencial agressora do meio ambiente. São vários os problemas decorrentes desta utilização, que vão desde a geração de efeitos nocivos ao ambiente de trabalho até a agressão do meio ambiente. Ao avaliar os impactos gerados pela utilização dos fluidos de corte, devemos considerar dois principais efeitos: efeitos nocivos à atmosfera (interna e externa) e degradação do solo e recursos hídricos, como está demonstrado na Figura 1. https://www.scielo.br/scielo.php?pid=s0103-65132007000100009&script=sci_arttext#fig1 20 Os fluidos de corte podem ser dispostos depois de seu uso pela própria companhia ou por uma empresa especializada em disposição de resíduos. Dependendo da qualidade e modo de disposição do resíduo, o resultado será poluição do solo, águas e ar. Deve ser considerado que os fluidos de corte mudam sua composição durante a usinagem, ocasionando também uma mudança nos riscos oferecidos ao meio ambiente. Podem ser formadas ainda substâncias secundárias, produtos de reações originados durante o processo, corpos estranhos e microorganismos que são agregados ao fluido de corte. Não são apenas os problemas de disposição que despertam interesse, mas as perdas de fluidos de corte podem também ser muito prejudiciais e custosas. Elas ocorrem no sistema de manufatura pela vaporização na usinagem, na saída de cavacos e peças da máquina, nos componentes da máquina, tais como dispositivos de fixação e manuseio, no vácuo, nos sistemas de pressurização do ar e na formação de gotas e vazamentos. 21 O vazamento do fluido é um fator crítico que contribui para a perda e, em alguns casos, para as influências negativas nos sistemas hidráulicos da máquina. Na utilização de fluidos de corte, peças molhadas e sujas, assim como cavacos e partículas, saem do sistema da máquina e entram no sistema de limpeza e secagem. Segundo Byrne (1996), cerca de 30% do consumo total anual de fluido de corte é perdido através da remoção do sistema pelos meios mencionados acima, o que torna evidente a necessidade de se encontrar métodos eficazes para combater tais perdas. O manuseio incorreto dos fluidos de corte pode gerar resultados desagradáveis que vão desde problemas no processo de fabricação e ataques à saúde dos operadores até o descarte prematuro deste produto. Para garantir um menor impacto dos fluidos de corte à saúde dos operadores e à qualidade do meio ambiente, gerentes e operadores devem estar cientes de todos os cuidados que são indispensáveis na sua aplicação, usando das medidas de precaução fornecidas pelo fabricante e órgãos ambientais, evitando assim a ocorrência de resultados desagradáveis. A aplicação dos fluidos de corte nos processos de usinagem gera vapores, sobretudo, no contato do refrigerante com superfícies quentes e em movimento da peça trabalhada, da ferramenta, ou do cavaco, comprometendo o ar do local de trabalho. A pressão e o aquecimento do fluido de corte também exercem influência no grau de evaporação. Este comprometimento do ar, em decorrência do uso de aerossóis e dos vapores de agentes refrigerantes, varia em função, por exemplo, das propriedadesfísico-químicas do fluido de corte, da velocidade de rotação das peças que estão sendo trabalhadas e do aquecimento das superfícies. Acredita-se que há substanciais evidências de aumento do risco de câncer, em diferentes órgãos do corpo humano, associado com a utilização dos fluidos de corte. O tipo e quantidade dos constituintes químicos dos fluidos podem variar para as diferentes classes, alguns destes componentes são considerados carcinogênicos, como por exemplo a N-nitroamina. 22 Dentre os diversos tipos de fluidos de corte o que tem se revelado mais agressivo à saúde do operador é o óleo integral. O solúvel é o menos agressivo. Porém, através dos poucos estudos realizados sobre os efeitos dos fluidos à saúde do operador, é prematuro concluir que todos os membros da classe dos óleos solúveis estão livres de ter algum risco carcinogênico, pois deve-se considerar que o óleo solúvel contém muitos ingredientes encontrados nos óleos integrais, mas em diferentes concentrações. PROPOSTA PARA APLICAÇÃO DA METODOLOGIA P+L (PRODUÇÃO MAIS LIMPA) O conceito de Produção mais Limpa foi criado pela UNEP (United Nations Environmental Program) em 1988. Segundo a UNEP, a Produção mais Limpa é a aplicação contínua de uma estratégia ambiental preventiva e integrada, aplicada a processos, produtos e serviços. Incorpora o uso mais eficiente dos recursos naturais e, conseqüentemente, minimiza a geração de resíduos e poluição, bem como os riscos à saúde humana. Para os processos a P+L inclui a conversão de matérias-primas e energia, eliminado o uso de materiais tóxicos e reduzindo a quantidade de toxicidade de todas as possíveis emissões e resíduos. Para produtos, a P+L inclui a redução dos efeitos negativos do produto ao longo de seu ciclo de vida, desde a extração das matérias-primas até a disposição final do produto. As técnicas de produção mais limpa consistem em eliminar todo e qualquer desperdício, pois o desperdício é tudo aquilo que não agrega valor ao produto ou serviço. Segundo Romm (1996), a reciclagem dos resíduos gerados por processos industriais é louvável, porém se torna bem mais econômico e correto evitar ou minimizar a sua geração. A prevenção à poluição, ou a sua eliminação acaba induzindo os trabalhadores e gerentes a pensarem em melhorias sistemáticas dos processos, 23 passando a não se preocupar em administrar e operacionalizar os resíduos ou a poluição gerada. Segundo Andrés (2001), para que se atinjam os objetivos de minimização do consumo de recursos e da poluição é necessário que se trabalhem as três fases do ciclo de vida do produto: a manufatura, o seu uso e o seu descarte final. Assim, é melhor eliminar o poluente do que tentar recuperá-lo. Para a produção mais limpa, talvez o mais importante sejam as habilidades básicas e o conhecimento tácito das empresas. São aspectos invisíveis baseados no learning-by-doing vistos como difíceis de reproduzir, pautados na experiência acumulada das pessoas e seu refinamento com a prática, enfatizados na teoria dos recursos internos (MELLO, 2002). A Tabela 1 mostra alguns dos possíveis resultados (tangíveis e intangíveis) que as empresas que implementam a P+L podem obter. Diante desta necessidade, o presente trabalho propõe a abordagem da adequação ambiental associada ao fluido de corte que se inspira na metodologia de produção mais limpa. Nessa metodologia é feito o controle dos fluxos de matéria e energia de modo que o uso eficiente destes recursos naturais seja fator de redução dos efeitos nocivos ao ambiente. Tecnologias ambientais convencionais trabalham principalmente no tratamento de resíduos e emissões gerados em um processo produtivo. São as chamadas técnicas de fim-de-tubo. A Produção mais Limpa pretende integrar os objetivos ambientais aos processos de produção, a fim de reduzir os resíduos e as emissões em termos de quantidade e periculosidade. A Figura 2 mostra as várias estratégias utilizadas visando a Produção mais Limpa e a minimização de resíduos. A prioridade da Produção mais Limpa está no topo (à esquerda) do fluxograma: evitar a geração de resíduos e emissões (nível 1). Os resíduos que não podem ser evitados devem, preferencialmente, ser reintegrados ao processo de produção da empresa (nível 2). Na sua impossibilidade, medidas de reciclagem fora da empresa podem ser utilizadas (nível 3). 24 A prática do uso da Produção mais Limpa leva ao desenvolvimento e implantação de Tecnologias Limpas nos processos produtivos. Para introduzirmos técnicas de Produção mais Limpa em um processo produtivo, podem ser utilizadas várias estratégias, tendo em vista metas ambientais, econômicas e tecnológicas. A seguir serão detalhadas algumas destas estratégias aplicadas aos fluidos de usinagem. ELABORAÇÃO DE UM BALANÇO AMBIENTAL, ECONÔMICO E TECNOLÓGICO DO PROCESSO PRODUTIVO Considerando uma empresa do setor metal-mecânico que represente a maioria das empresas que utilizam fluidos de corte, Figura 3, observa-se o alto consumo de matérias-primas e recursos naturais. Após o processamento, tem-se, além do produto, emissões atmosféricas, resíduos sólidos misturados com fluidos de corte e efluentes líquidos. https://www.scielo.br/scielo.php?pid=s0103-65132007000100009&script=sci_arttext#fig3 25 O balanço ambiental documenta o material e a energia que entram e saem do processo, avaliando quais os impactos provenientes desta atividade ao ambiente, tanto no uso de recursos naturais, muitas vezes feito de forma irracional, como na geração e emissão de resíduos sólidos, líquidos ou gasosos. Um pré-requisito para a identificação de resíduos e emissões indesejáveis é conhecer o processo tão amplamente quanto possível. Em muitos casos faltam dados importantes com relação à condição e ao comportamento do processo. O balanço do processo documenta entrada e saída de energia e materiais. Fazendo o balanço no processo de usinagem, pode-se exercer um controle sobre os materiais e sobre a energia. A partir destas informações, pode-se estabelecer um controle de parâmetros de cada operação o que possibilita a escolha da estratégia mais adequada à empresa para a redução de resíduos e de seus efeitos. Depois de realizado o balanço de material é necessário fazer uma análise crítica das informações obtidas, enfocando: 26 • Quantidades e toxicidade dos resíduos gerados e das matérias- primas consumidas; • Regulamentos legais que deviam ser cumpridos para utilização e disposição dos materiais e resíduos; e • Custos envolvidos: os de compra, os de tratamento e os relativos a possíveis punições do órgão ambiental. APLICAÇÃO DO P+L PARA O PROCESSO DE USINAGEM Após avaliar as causas da geração de cada resíduo identificado passa-se a refletir sobre possíveis oportunidades de mudança, ou seja, opções P+L para deixar de gerar os resíduos. Serão abordadas possibilidades de redução de resíduos na fonte e reciclagem interna dos resíduos. Redução na Fonte Seguindo o diagrama da Figura 2, primeiro analisa-se a possibilidade de redução na fonte, avaliando a viabilidade de modificação no processo e no produto: a. Modificação no produto – um exemplo de alteração no produto é a otimização no projeto da peça, se trabalhar com peça com dimensões mais próximas à da peça acabada ter-se-á no final do processo uma menor quantidade de cavacos. b. Modificação no processo – nesta etapa existem três possibilidades: Housekeeping, substituição de matérias-primas e modificação da tecnologia. Housekeeping Os efeitos adversos que decorrem da utilização de fluidos de corte são vários, entretanto, associados a cada um deles estão os procedimentos de manuseio. São procedimentos, na maioria das vezes, muito simples, mas que têm grande valor preventivo, podendo evitar a grande maioriados problemas 27 ambientais enfrentados no cotidiano. Alguns dos principais procedimentos são apresentados a seguir: a) Procedimentos preventivos na seleção dos fluidos de corte: Entre os procedimentos preventivos mais importantes estão o estabelecimento de uma gestão integrada entre a empresa e o fornecedor de fluido de corte na busca pelo melhoramento contínuo de seu gerenciamento. Neste sentido, a empresa, ao selecionar os seus fornecedores, deve seguir alguns princípios: Evitar fornecedores que não ofereçam garantias de procedência, assistência e composição dos fluidos de corte; Evitar fornecedores que não ofereçam suporte de informações ao programa de manejo ambiental da empresa. b) Procedimentos durante a utilização: Desenvolver procedimentos que promovam hábitos de higiene no trabalho; Treinar corretamente os operadores para evitar qualquer hábito que provoque contaminação; Estabelecer procedimentos aos equipamentos para que o conjunto esteja adequado aos requisitos da operação; Observar a direção e a concentração do jato do fluido para que sua função seja mais eficiente. c) Procedimento durante a recuperação: Avaliar a eficiência dos processos de reciclagem dos fluidos; Planejar operações que controlem a concentração dos fluidos, mantendo-as dentro das porcentagens recomendadas pelo fabricante; Monitorar a concentração de biocidas e o pH do fluido em operação; Seguir as recomendações do fabricante; 28 Observar a qualidade e a quantidade de água utilizada para a diluição do concentrado; Misturar sempre a água sobre o concentrado, evitando, assim, a mistura invertida; Agitar corretamente a mistura no momento da diluição do concentrado; d) Procedimentos durante o tratamento e disposição final: Registrar a quantidade de fluidos que entra e sai do processo; Registrar as substâncias nocivas do fluido e seus resíduos. Substituição de matérias-primas Podem-se substituir fluidos de óleo mineral por fluidos que sejam feitos com óleo vegetal. Possuem algumas vantagens como: maior facilidade de degradação, ou seja, pode-se aplicar tratamento biológico e químico nos resíduos. Possuem maior lubricidade do que os outros fluidos solúveis, melhorando a qualidade final da peça. Não agridem a saúde do operador. Estes fluidos são geralmente chamados de "amigos do ambiente". Os seguintes pontos devem ser observados na consideração da questão de fluidos de corte para uma produção mais limpa: • Os constituintes do fluido de corte não podem ter efeitos negativos sobre a saúde do funcionário de produção ou sobre o meio ambiente e devem ser isentos de cloro/parafina, formaldeído, nitretos, metais pesados e outras substâncias nocivas; • Durante o seu uso, os fluidos de corte não podem produzir contaminantes. Alves (2005) desenvolveu um fluido de corte à base de óleo de mamona, o qual não tinha em sua formulação nenhum constituinte agressor ao meio ambiente e à saúde do operador. Além de ser biodegradável este produto ofereceu bons resultados quando utilizado no processo de retificação, semelhantes aos obtidos quando se utiliza óleo mineral. 29 Além de substituir os fluidos de corte tradicionais, podem-se utilizar ferramentas com materiais que permitam usinar a seco. Materiais para ferramentas adequados a altas temperaturas e, portanto, a altas velocidades de corte, permitem a usinagem com forças de corte menores. Uma ferramenta como o CBN permite reduzir o atrito na interface ferramenta/peça, como também a aplicação de geometrias complexas de ferramentas, gerando forças de usinagem reduzidas e superfícies de peças de alta qualidade, com baixa rugosidade. Caso se utilizem ferramentas com recobrimento de TiN e TiAlN no torneamento a seco tem-se um aumento da vida da ferramenta em 300%, muito superior aos valores obtidos no torneamento com fluido de corte (DÖRR, 1999). Modificação da tecnologia A tecnologia mais utilizada para refrigeração durante a usinagem é de inundação, ou seja, uma grande quantidade de fluido de corte é lançada continuamente na região de corte, exigindo o consumo de um grande volume de fluido de corte. Atualmente existem tecnologias que minimizam ou mesmo eliminam o uso destes fluidos, como por exemplo: • Mínima Quantidade de Lubrificante (MQL): Uma técnica muito estudada nos dias atuais é o corte com mínima quantidade de lubrificante (MQL), onde uma quantidade mínima de óleo (geralmente < 80 ml/h) é pulverizada em um fluxo de ar comprimido. Em alguns casos, esta quantidade pode ser ultrapassada, dependendo do volume de cavaco e do processo de usinagem. Esta mínima quantidade de óleo é suficiente para reduzir o atrito da ferramenta e ainda evitar aderências de materiais (DÖRR; SAHM, 2000). Porém, está técnica possui vantagens e desvantagens em relação à usinagem com fluido abundante, as vantagens são: redução do volume de descarte, produção de peças e cavacos mais limpos, redução de custos de processamento, limpeza e acondicionamento. 30 Contudo, possuem desvantagens. Duas delas são a névoa e a fumaça de óleo geradas durante o uso da mínima quantidade de lubrificante na usinagem que podem ser considerados subprodutos indesejáveis, pois contribuem para aumentar o índice de poluentes em suspensão do ar e tornam-se fatores de preocupação. Assim, embora o uso de quantidade mínima de fluido não exija preocupação com o descarte e reciclagem do óleo e do cavaco é necessário que se tenha um bom sistema de exaustão na máquina. Também com a utilização da MQL pode-se ter, em alguns processos, um maior desgaste da ferramenta. (MACHADO et al., 2000). Uma comparação de custos das usinagens por inundação e a MQL foi feita com relação a custos dos investimentos, dos custos fixos e proporcionais anuais na BMW da Alemanha. A confrontação dos custos totais de investimento na linha transfer, inclusive do equipamento para limpeza de cavacos, comprovou vantagens financeiras de 22% na usinagem com a tecnologia MQL (DÖRR, 1999). • Usinagem a seco: eliminação total dos fluidos de corte no processo. Só viável quando o tempo de usinagem, o tempo de vida da ferramenta e a qualidade superficial da peça for pelo menos semelhante à conseguida com a usinagem usando-se fluidos de corte tradicionais. As vantagens desta tecnologia são o atendimento aos requisitos ecológicos, redução de custos (eliminação do fluido) e aumento da produtividade (devido ao incremento nos parâmetros de usinagem). Porém, existem algumas desvantagens, tais como problemas provocados pelas poeiras produzidas pela operação a seco (associadas à usinagem de ferros fundidos), maior solicitação térmica da peça, provocando um efeito negativo na qualidade final da peça e necessidade de ferramentas especiais. 31 A usinagem a seco necessita de novas soluções no sistema ferramenta–máquina–peça–processo. No caso de ferramentas, os revestimentos desempenham um papel importante, juntamente com outros materiais e geometrias. Por outro lado, como a distribuição de calor é afetada, deve-se pensar em uma concepção mais adequada para a máquina-ferramenta. A máquina para trabalhar com usinagem a seco deve ter um sistema eficiente de transporte dos cavacos. Também deve-se considerar os parâmetros de usinagem, os quais devem ser escolhidos de maneira a obter tempos de corte não muito mais elevados comparativamente à usinagem com fluidos. Filho et al. (2001), com base nos resultados de experimentos realizados pelos os autores, concluíram que a condição de corte a seco apresentou o melhor desempenho no torneamento do aço ABNT endurecido. Este fato está relacionado com a maior vida da ferramenta de PCBN do que na condição de refrigeração abundante. Reciclagem Interna Esgotadas as alternativas de reduzir osresíduos na fonte, analisam-se as possibilidades de reciclagem interna. Para a usinagem o mais indicado seria a recuperação e reciclagem do fluido de corte utilizado, podendo o mesmo retornar ao processo. Na Figura 4 é mostrado um sistema de reciclagem por tratamento intermitente, capaz de remover os contaminantes (óleo, sujeira, bactéria) e reajustar com a freqüência necessária a concentração do fluido antes do seu retorno à máquina individual. https://www.scielo.br/scielo.php?pid=s0103-65132007000100009&script=sci_arttext#fig4 32 Por último, é verificada a possibilidade de agregar valores aos resíduos gerados, neste caso poderia comercializar os cavacos limpos com outras empresas ou sucateiros. Os fluidos de corte poderiam ser comercializados para uma empresa que faça o re-refino do mesmo. IMPLANTAÇÃO DAS OPORTUNIDADES DE PRODUÇÃO MAIS LIMPA LEVANTADAS E PRIORIZADAS Depois de analisada a viabilidade das oportunidades levantadas, é necessário que a equipe responsável pelo processo de implementação de P+L na empresa, liste as oportunidades por ordem de prioridades. Depois de determinadas quais são prioritárias, é feita a implantação. A Tabela 2 mostra as barreiras e os benefícios de cada alternativa proposta. A Tabela 2, ordena as opções por ordem de prioridade, sendo a primeira o housekeeping, pois pode ser implantada em curto prazo e tem baixo custo, também não altera o processo e traz benefícios econômicos e ambientais. A segunda opção o MQL gera um grande ganho ambiental, mas necessita de mudanças na máquina envolvendo um custo de implantação. As alternativas são de longo prazo devido ao grande investimento em máquinas e desenvolvimento de produto. 33 A consciência ambiental, que cresce consideravelmente a cada ano, aumento dos problemas de descarte e a legislação mais severa obrigam que mais indústrias se aprofundem nas questões de compatibilidade ambiental das suas produções. Com as crescentes cobranças civis e legislativas acerca da relação indústria e meio ambiente, não se permite às empresas continuarem com as velhas tecnologias de fim-de-tubo, ou seja, apenas tratar ou reciclar os resíduos e as emissões gerados, deve-se tentar reduzi-los ou eliminá-los. Uma tecnologia que alcance este resultado é a implementação do conceito de produção mais limpa. A aplicação da metodologia de implantação de Produção mais Limpa aos processos produtivos permitirá a obtenção de soluções que contribuam mais para a solução definitiva dos problemas ambientais, já que a prioridade da metodologia está baseada na identificação de opções de não geração dos resíduos produzidos nestes processos produtivos. No caso dos processos de usinagem, podem-se avaliar várias oportunidades de aplicação de P+L, realizando algumas modificações no produto, mas especialmente no processo. Vários procedimentos podem ser adotados no Housekeeping, também pode ser realizada uma substituição de matérias-primas e tecnologias que permitam reduzir ou eliminar resíduos como, por exemplo, fluidos usados e cavacos. Além disso, é necessário agregar valores aos resíduos gerados, através de uma reciclagem fora do processo. O meio ambiente agradece. 34 REFERÊNCIAS ALVES, S. M. Adequação Ambiental do processo de retificação através de um novo conceito de fluido de corte. Tese (doutorado), 199 f., Departamento de Engenharia Mecânica, EESC/USP, São Carlos. 2005. ALVES, S. M.; OLIVEIRA, J. F. G. Novos fluidos de corte adequados ao desempenho mecânico da retificadora e ao meio ambiente. Revista Máquinas e Metais. São Paulo, p. 28-43, janeiro, 2006. ANDRÉS, L. F. A gestão ambiental em indústrias do Vale do Taquari: Vantagem com o uso das técnicas de Produção mais Limpa. Dissertação (mestrado), 86 f. Departamento de Administração, UFRGS, Porto Alegre, 2001. BYRNE, G. 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