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Meningite Bacteriana Aguda Marcus Tulius Teixeira da Silva e Abelardo de Queiroz-Campos Araújo INTRODUÇÃO ASPECTOS GERAIS MENINGITE BACTERIANA AGUDA POR NEISSERIA MENINGITIDIS AVALIAÇÃO DIAGNÓSTICA COMPLICAÇÕES NEUROLÓGICAS E SISTÊMICAS TRATAMENTO PROGNÓSTICO CONCLUSÃO INTRODUÇÃO O termo meningite designa qualquer processo inflamatório das leptomeninges, seja de origem infecciosa ou não. Caracteriza-se por uma constelação de sinais e sintomas (síndrome meníngea) e pelo aumento do número de leucócitos (pleocitose) no líquido cefalorraquiano (liquor). As meningites bacterianas agudas (MBA) são aquelas causadas por agentes bacterianos, invasores de um compartimento estéril, o compartimento liquórico. Frequentemente, a inflamação atinge também o parênquima encefálico (meningoencefalite) e os ventrículos cerebrais (ventriculite). Uma gama de agentes bacterianos, incluindo Streptococcus pneumoniae, Neisseria meningitidis e Haemophilus influenzae (os principais agentes bacterianos associados às meningites), além do Mycobacterium tuberculosis, Streptococcus sp. (especialmente os do grupo B), Streptococcus agalactie, Listeria monocytogenes, Staphylococcus aureus, Pseudomonas aeruginosa, Klebsiella pneumoniae, Enterobacter sp., Salmonella sp. e Proteus sp., pode estar relacionada a quadros de MBA, tanto em crianças quanto em adultos. Este capítulo, no entanto, abordará com mais detalhes a meningite aguda causada pela N. Meningitidis, por ser o mais frequente agente etiológico de MBA no Brasil. MBA são comuns, com uma incidência anual de cerca de 1,2 milhão de ******ebook converter DEMO Watermarks******* casos/ano, estando, assim, entre as 10 causas mais frequentes de letalidade por agentes infecciosos e sendo causa habitual de sequelas entre os sobreviventes. ASPECTOS GERAIS A síndrome clínica associada às MBA resulta em pelo menos dois dos seguintes sinais e sintomas: cefaleia, febre, rigidez de nuca e náuseas e/ou vômitos. Reconhece-se hoje que tanto a rigidez de nuca quantos os clássicos sinais de Kernig e Brudzinski podem não estar presentes em pacientes com MBA, sobretudo em crianças muito pequenas, pacientes imunodeprimidos ou em indivíduos em coma (uma vez que se tratam de sinais antálgicos). Nos casos de MBA, a maioria dos pacientes apresenta febre elevada (> 38,5°C) e um, ou mais, dos seguintes sinais/sintomas: cefaleia, vômito, rigidez de nuca e alteração da consciência, o que denota acometimento encefálico. Como dito anteriormente, a rigidez de nuca nem sempre está presente nos casos de MBA, sobretudo em lactentes. Nestes casos, deve-se realizar o exame cuidadoso da fontanela anterior. Abaulamento e/ou aumento de tensão da fontanela, aliados à febre, irritabilidade, inapetência e vômitos, sugerem o diagnóstico. Em recém-nascidos, o diagnóstico é ainda mais difícil, pois os sinais e sintomas são dos mais diversos. A febre nem sempre está presente, observando-se por vezes hipotermia. Podem ser observados também recusa alimentar, cianose, convulsões, alternância entre apatia e irritabilidade, respiração irregular e icterícia. Independentemente de ter-se realizado o exame do liquor, frente a uma suspeita clínica de MBA, os pacientes devem ser submetidos a hemoculturas e ter a terapia antimicrobiana empírica, em conjunto à dexametasona, iniciada o quanto antes (Tabela 110.1). Importa comentar que a demora em iniciar a antibioticoterapia pode associar-se a um pior prognóstico. TABELA 110.1. Terapia antimicrobiana empírica baseada nas condições clínicas associadas e prováveis agentes etiológicos envolvidos Situação clínica Agente etiológico Antibiótico de escolha ******ebook converter DEMO Watermarks******* Crianças e adultos, MBA adquirida na comunidade S. penumoniae, N. meningitidis Cefalosporina de 3a ou 4a geração + vancomicina Otite, mastoidite, sinusite Streptococcus sp., Staphylococcus aureus, Haemophilus sp., enterobactéria, anaeróbio Gram-negativo Cefalosporina de 3a ou 4a geração + vancomicina + metronidazol Adultos > 50 anos e pessoas com doenças crônicas, gestantes S. penumoniae, bacilo Gram-negativo, N. meningitidis, Listeria monocytogenes, H. influenzae Cefalosporina de 3a ou 4a geração + vancomicina + ampicilina Endocardite Streptococcus bovis, S. aureus, Streptococcus viridans, enterococos, bactérias do grupo HACEK Cefalosporina de 3a ou 4a geração + vancomicina Imunodeprimidos S. pneumoniae, L. monocytogenes, H. influenza Cefalosporina de 3a ou 4a geração + vancomicina + ampicilina Pós-neurocirurgia Estafilococos, bacilo Gram-negativo Vancomicina + meropenem, ou vancomicina + ceftazidima Dispositivos intraventriculares Estafilococos, bacilo Gram-negativo, anaeróbios Vancomicina + meropenem + metronidazol ou vancomicina + ceftazidima + metronidazol MBA: meningite bacteriana aguda; Grupo HACEK: bacilos Gram-negativos de crescimento lento que estão presentes normalmente na flora oral e da nasofaringe, podendo infectar o coração. Fazem parte deste grupo Haemophilus sp., Aggregatibacter sp., Cardiobacterium hominis, Eikenella corrodens e Kingella kingae. As situações em que a punção lombar estaria contraindicada sem um exame de neuroimagem prévio seriam de alteração do nível de consciência, sinais neurológicos focais (excetuando-se paralisia de algum nervo craniano), papiledema, pacientes imunodeprimidos, crise convulsiva, infecção cutânea no sítio da punção, choque séptico, compressão medular, terapia anticoagulante ou grave coagulopatia. Mesmo nestes casos em que um exame de imagem se torna necessário, em hipótese alguma a terapia antimicrobiana e a dexametasona devem ser postergadas. Nestes casos, os pacientes devem ter amostra de sangue colhida para hemoculturas, devem receber dexametasona e a primeira dose do antibiótico escolhido de acordo com as condições coexistentes (Tabela 110.1), e posteriormente encaminhados para o exame de neuroimagem. Um algoritmo de abordagem a pacientes com suspeita de MBA encontra- se na Figura 110.1. De acordo com os dados do Ministério da Saúde, foram registrados, em 2016, no Brasil, 14.867 casos de meningite, sendo que, destes, 1.105 foram devido a N. meningitidis, 881 por S. pneumoniae e 100 casos por H. influenzae (Tabela 110.2). As maiores taxas de letalidade são encontradas ******ebook converter DEMO Watermarks******* nos casos de MBA por S. pneumoniae e N. meningitidis. Além de conhecermos os agentes mais comuns em nosso meio, é importante investigarmos condições predisponentes ou doenças associadas em um paciente com MBA, pois isto direcionará a terapia antimicrobiana empírica (Tabela 110.1). FIGURA 110.1 Algoritmo de abordagem a pacientes com suspeita de meningite bacteriana aguda (MBA). TABELA 110.2. Dados epidemiológicos sobre meningites no triênio 2014-2016 segundo o Ministério da Saúde 2014 No Casos/incidência: 100 hab/Taxa de letalidade 2015 No Casos/incidência: 100 hab/Taxa de letalidade 2016 No Casos/incidência: 100 hab/Taxa de letalidade Meningite meningocócica 1617 / 0,83 / 20,8 1304 / 0,67 / 21,4 1105 / 0,57 / 21,9 Meningite tuberculosa 409 / 0,21 / 17,6 346 / 0,18 / 16,7 306 /0,16 / 21,3 Meningite por Haemophillus 116 / 0,06 / 17,2 120 / 0,06 / 16,6 100 / 0,05 / 13 Meningite 953 / 0,49 / 29,3 938 / 0,48 / 28,8 881 / 0,45 / 29,4 ******ebook converter DEMO Watermarks******* pneumocócica Meningite viral 8521 / 4,39 / 1,1 7183 / 3,7 / 1,7 7102 / 3,66 / 1,7 Meningite por outras bactérias 2947 / 1,51 / 13,5 2825 / 1,45 / 14 2338 / 1,2 / 14,4 Meningite não especificada 2316 / 1,19 / 11,8 2485 / 1,82 / 10,6 2363 / 1,22 / 11,3 A MBA por Haemophilus influenzae, pequenos cocobacilos Gram- negativos, era frequente no passado, mas sua incidência diminuiu dramaticamente após a introdução da vacinação primária. Em 1999, foi introduzida no país a vacina contra o H. influenzae, responsável por várias doenças invasivas, como meningites e pneumonias, sobretudo em crianças. O H. influenzae era a segunda causa mais comum de meningite bacteriana no Brasil, sendo responsável por uma incidênciamédia anual em menores de 1 ano de 23,4 casos/100.000 hab. até 1999. Após a introdução da vacina, observou-se redução de mais de 90% no número de casos, incidência e número de óbitos por meningite por H. influenzae. A ocorrência de meningite por H. influenzae em adultos deve levantar a suspeita da coexistência de otite média, sinusite paranasal, fístula liquórica, pneumonia ou imunodeficiência. O S. pneumoniae é responsável por quase todos os casos de MBA não epidêmicas em todo o mundo. Possui mais de 90 sorotipos capsulares, imunologicamente distintos, que causam doença pneumocócica invasiva (meningite, pneumonia, sepse e artrite) e não invasiva (sinusite, otite média aguda, conjuntivite, bronquite e pneumonia). Em relação à meningite pneumocócica, existe um risco maior de adoecimento entre os idosos e os indivíduos portadores de quadros crônicos ou de doenças imunossupressoras (síndrome nefrótica, asplenia, insuficiência renal crônica, diabetes mellitus e infecção pelo HIV). A vacina pneumocócica diminuiu a incidência de pneumonia e otite média, mas não deve ser considerada uma “vacina” contra meningite. No entanto, alguns estudos de metanálise sugerem que a incidência de MBA causada por sorotipos de S. pneumoniae presentes nas vacinas sofreu uma leve queda, porém bem menos expressiva do que observada em relação à redução da incidência de ******ebook converter DEMO Watermarks******* pneumonia e doença invasiva. MENINGITE BACTERIANA AGUDA POR NEISSERIA MENINGITIDIS A N. meningitidis é um diplococo Gram-negativo aeróbio. A composição antigênica da cápsula polissacarídica permite a classificação do meningococo em 12 diferentes sorogrupos, sendo que os sorotipos A, B, C, Y, W e X são os principais responsáveis pela ocorrência da doença invasiva em humanos. No Brasil, os sorotipos que mais circulam são os B e C. O homem é o reservatório natural do meningococo, sendo a prevalência de portadores assintomáticos maior entre adolescentes e adultos jovens oriundos de estratos econômicos menos favorecidos. A transmissão se dá por via aérea, sendo o período de incubação variável de 2 a 10 dias. É importante comentar que o meningococo é eliminado da nasofaringe dos pacientes com MBA 24h após o início de terapia antimicrobiana adequada. No Brasil, o meningococo é a principal causa de meningite bacteriana, sendo esta endêmica, mas com possibilidade da ocorrência de surtos esporádicos. A taxa de incidência tem se mantido estável nos últimos anos, com média de 1,5 a 2 casos para cada 100.000 habitantes. A doença meningocócica endêmica (meningococcemia e meningite bacteriana) acomete indivíduos de todas as faixas etárias, mas aproximadamente 50% dos casos notificados ocorrem em crianças menores de cinco anos de idade, sobretudo em lactentes no primeiro ano de vida. Nos surtos e epidemias, observam-se mudanças nas faixas etárias afetadas, com aumento de casos entre adolescentes e adultos jovens. De acordo com dados do Ministério da Saúde, a letalidade da MBA por N. meningitidis gira em torno de 20% (Tabela 110.2). Nos casos mais graves de meningococcemia, a taxa de letalidade ultrapassa os 50%. A infecção invasiva pela N. meningitidis pode apresentar um amplo espectro clínico, que varia desde febre transitória e bacteremia oculta até formas fulminantes, com a morte do paciente em poucas horas após o início dos sintomas. A meningite e a meningococcemia são as formas ******ebook converter DEMO Watermarks******* clínicas mais frequentemente observadas, podendo ocorrer isoladamente ou associadas (doença meningocócica). A meningite, resultante da disseminação hematogênica da bactéria para o sistema nervoso central, ocorre em cerca de 50% dos pacientes diagnosticados e é semelhante a outras formas de MBA. As pessoas com maior risco de desenvolver MBA por N. menigitides são as crianças menores de cinco anos, os asplênicos, as pessoas com história de infecção respiratória recente, as pessoas que vivem em aglomerados (domicílio, quartéis, alojamentos), aquelas com histórico de tabagismo e as oriundas de camadas socioeconômicas menos favorecidas. Em cerca de 60% dos casos de MBA por meningococo pode-se observar a presença de lesões cutâneas petequiais. Em 15 a 20% dos pacientes com doença meningocócica, identificam-se formas de evolução muito rápidas, geralmente fulminantes, devidas somente à septicemia meningocócica, sem meningite muitas vezes, e que se manifestam por sinais clínicos de choque e coagulação intravascular disseminada, caracterizando a síndrome de Waterhouse-Friderichsen. Em até 20% das crianças com MBA por meningococo pode ocorrer crise convulsiva ou sinais neurológicos focais. A terapia antimicrobiana deve ser instituída o mais precocemente possível, de preferência logo após a punção lombar e a coleta de sangue para hemocultura e junto com dexametasona, na dose de 0,15 mg/kg de 6/6h por 2 a 4 dias. O tratamento antibiótico é feito geralmente com ceftriaxone (em crianças na dose de 100 mg/kg/dia IV de 12/12h por 5 a 7 dias; em adultos, 2g IV de 12/12h por 7 dias). Deve-se indicar quimioprofilaxia para todos os contactantes próximos do paciente com MBA por N. meningitidis o mais precocemente possível. Definem-se como contactantes próximos os moradores do mesmo domicílio, indivíduos que compartilham o mesmo dormitório (em alojamentos, quartéis, entre outros), comunicantes de creches e escolas, pessoas diretamente expostas às secreções do paciente e profissionais da área de saúde que atenderam o paciente e que realizaram procedimentos invasivos (intubação orotraqueal, passagem de cateter nasogástrico) sem a utilização de equipamento de proteção individual adequado. A ******ebook converter DEMO Watermarks******* quimioprofilaxia também está indicada para o paciente no momento da alta ou na internação, no mesmo esquema preconizado para os contatos próximos, exceto se o tratamento da doença foi realizado com ceftriaxona. O antibiótico de escolha para a quimioprofilaxia é a rifampicina (idade < 1 mês: 5 mg/kg/dose de 12/12h por 2 dias; crianças ≥ 1 mês e adultos: 10 mg/kg/dose (máximo de 600 mg) de 12/12h por 2 dias). A rifampicina deve ser administrada simultaneamente a todos os contactantes próximos, preferencialmente até 48 horas da exposição à fonte de infecção (doente). Outros esquemas alternativos incluem a ceftriaxona (< 12 anos, 125 mg IM, dose única; ≥ 12 anos, 250 mg IM, dose única) e o ciprofloxacino (> 18 anos, 500 mg uso oral, dose única). Gestantes podem fazer uso da rifampicina, pois não há evidências de que a mesma possa apresentar efeitos teratogênicos. A vacinação é a forma mais eficaz na prevenção da doença, e as vacinas contra o meningococo são específicas para os sorotipos. São utilizadas tanto na rotina para imunização quanto no controle de surtos. A vacina conjugada contra o meningococo do sorogrupo C está disponível no Calendário Básico de Vacinação da Criança do Programa Nacional de Imunização (PNI/MS). A imunização primária consiste de duas doses, aos três e cinco meses de vida, e o reforço entre 12 e 15 meses de idade. Também é oferecida nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE), sendo recomendada nas seguintes situações: asplenia anatômica ou funcional e doenças relacionadas, imunodeficiências congênitas da imunidade humoral, pessoas menores de 13 anos com HIV/AIDS, implante de cóclea e doenças de depósito (doença de Tay- Sachs, doença de Gaucher e doença de Fabry). A vacinação de bloqueio está indicada nas situações em que haja a caracterização de um surto de doença meningocócica, para o qual seja conhecido o sorogrupo responsável por meio de confirmação laboratorial específica (cultura e/ou PCR) e haja vacina eficaz disponível. A vacinação somente será utilizada a partir de decisão conjunta das três esferas de gestão. A estratégia de vacinação (campanha indiscriminada ou discriminada) será definida considerando a análise epidemiológica, as ******ebook converter DEMO Watermarks******* características da população e a área geográfica deocorrência dos casos. Após a vacinação, são necessários de 7 a 10 dias para a obtenção de títulos protetores de anticorpos. Portanto, casos ocorridos em pessoas vacinadas no período de até 10 dias após a vacinação não devem ser considerados falhas da vacinação. AVALIAÇÃO DIAGNÓSTICA Devem fazer parte da avaliação inicial de pacientes com MBA o hemograma completo, hemoculturas, dosagem da proteína C reativa e da procalcitonina sérica (quando disponível) e uma tomografia computadorizada do crânio. A proteína C reativa tem um alto valor preditivo negativo para o diagnóstico de MBA e a procalcitonina sérica é útil na diferenciação entre MBA e meningite viral quando a coloração de Gram no liquor é negativa; níveis elevados de procalcitonina sérica ocorrem em infecções bacterianas graves. A análise do liquor deve ser a mais ampla possível. As anormalidades clássicas encontradas em casos de MBA são aumento da pressão de abertura, pleocitose com predomínio de polimorfonucleares, hipoglicorraquia (sempre obter glicose sérica simultaneamente) e hiperproteinorraquia (Tabela 110.3). A coloração pelo Gram pode ser positiva em 60% a 90% dos casos, na dependência do número de bactérias presentes e da habilidade do profissional. Uma relação normal entre a glicose liquórica e a glicose sérica é de 0,6. Uma relação < 0,4 é sugestiva de MBA, mas não exclusiva; outras condições que podem cursar com hipoglicorraquia incluem meningite fúngica, meningite tuberculosa e meningite carcinomatosa. A cultura do liquor é crítica para a identificação do agente e para o teste de sensibilidade antimicrobiana. TABELA 110.3. Valores de referência para o liquor e principais diferenças entre meningite bacteriana aguda e meningite viral Parâmetro Crianças e adultos < 1 ano MBA Meningite viral Pressão de abertura (mmH20) 50-180 100 > 180 < 180 Celularidade (mm3) ≤ 5 ≤ 8 1.000-5.000 100-1.000 % Polimorfonucleares 0 60 ≥ 80% Incomum ******ebook converter DEMO Watermarks******* Proteína (mg/dL) ≤ 45 20-170 100-500 50-100 Glicose (mg/dL) 45-80 34-119 ≤ 40 Normal Relação glicose LCR:soro 0,6 0,81 < 0,4 < 0,6 Gram – – 60-90% – Cultura – – 70-85% – Em casos onde um diagnóstico alternativo pode ser uma realidade, deve- se proceder à reação em cadeia da polimerase (PCR) para enterovírus (principais agentes das meningites virais) e PCR para HSV-1 e HSV-2 (principais agentes virais para encefalites virais; alguns pacientes com MBA grave podem se apresentar sonolentos, e em algumas situações, como imunodepressão, a interpretação liquórica pode ser difícil). A dosagem do lactato liquórico é inespecífica e recomendada apenas nos casos de meningite pós-operatória. Um lactato > 4mmol/L é indicativo de MBA. COMPLICAÇÕES NEUROLÓGICAS E SISTÊMICAS As complicações neurológicas mais comuns das MBA são edema cerebral, hidrocefalia, crise convulsiva, doença cerebrovascular arterial e venosa, mielite, paralisia de nervos cranianos e surdez. Complicações cerebrovasculares podem se apresentar como déficit focal, crise convulsiva ou diminuição do nível de consciência. A presença de choque séptico é um sinal de mau prognóstico e pode se manifestar por hipotensão, taquicardia, taquipneia, temperatura > 38° ou < 36°, sonolência e oligúria. Hiponatremia pode ser encontrada em até 1/3 dos pacientes no momento do diagnóstico de MBA, provavelmente no contexto de uma síndrome de secreção inapropriada do hormônio antidiurético. Em outro extremo, alguns pacientes podem se apresentar com hipernatremia, geralmente em associação à crise convulsiva e um sinal de mau prognóstico, segundo alguns autores. TRATAMENTO Junto à primeira dose do antibiótico ou até mesmo antes, deve-se iniciar dexametasona (0,15 mg/kg de 6/6h por 2 a 4 dias) em pacientes com ******ebook converter DEMO Watermarks******* suspeita de MBA por S. pneumoniae, N. meningitidis e H. influenzae. O uso do corticoide precoce está associado a uma redução significativa de sequelas e morte por MBA não só em crianças, mas também em adultos, sendo o benefício mais observado nos pacientes com meningite pneumocócica. O tratamento com antibiótico deve ser instituído assim que possível, e o mesmo não impede a coleta de material para o diagnóstico etiológico, seja liquor, sangue ou outros espécimes clínicos, mas recomenda-se que a coleta das amostras seja feita, preferencialmente, antes de iniciar o tratamento ou o mais próximo possível desse momento. O tratamento precoce e adequado dos casos reduz significativamente a letalidade da doença e é importante para o prognóstico satisfatório. De maneira geral, o tratamento antibacteriano é feito de maneira empírica (Tabela 110.1), pois o agente etiológico é desconhecido; toma-se como base o conhecimento dos agentes bacterianos prevalentes na comunidade e nas diversas condições associadas, assim como seu perfil de suscetibilidade antimicrobiana, nas diversas faixas etárias. A duração do tratamento antibiótico em pacientes com meningite bacteriana varia de acordo com o agente isolado e deve ser individualizada de acordo com a resposta clínica. Aproximadamente 30% dos isolados de H. influenzae sorotipo b (Hib) produzem beta-lactamases e, portanto, são resistentes à ampicilina. Estas cepas produtoras de betalactamase permanecem, no entanto, sensíveis às cefalosporinas de terceira geração. Apesar de existirem diferenças geográficas marcantes na frequência de resistência do pneumococo às penicilinas, as taxas vêm aumentando progressivamente. Estudos realizados em nosso meio demonstram que a incidência de isolados em amostras de liquor não suscetíveis à penicilina atingiu valores acima de 30%. Estes mesmos estudos demonstram que a resistência do pneumococo às cefalosporinas de terceira geração ainda é baixa. Nos casos de meningite por pneumococos resistentes à penicilina e cefalosporinas, deve-se utilizar a associação de vancomicina com uma cefalosporina de terceira geração (cefotaxima ou ceftriaxona). A ******ebook converter DEMO Watermarks******* rifampicina deverá ser associada ao esquema quando houver piora clínica após 24 a 48 horas de terapia com vancomicina e cefalosporina de terceira geração, falha na esterilização liquórica ou identificação de pneumococo com concentração inibitória mínima ≥ 4μg/mL para cefotaxima ou ceftriaxona. A vancomicina, em função de sua baixa penetração liquórica, não deve ser utilizada como agente isolado no tratamento de meningite bacteriana. PROGNÓSTICO As características associadas a um pior prognóstico incluem idade avançada, rebaixamento do nível de consciência logo na apresentação da doença, taquicardia, pleocitose menor que 1.000 cels/mm3 e plaquetopenia. As sequelas são mais prováveis entre os casos de meningite pneumocócica, sobretudo auditivas. Outras sequelas incluem empiema subdural, hidrocefalia, distúrbios cognitivos e crise convulsiva. CONCLUSÃO As MBA ainda são causas importantes de morbi-mortalidade em nosso meio. Embora a imunização em massa tenha reduzido a incidência da MBA por H. influenzae, um número expressivo de casos de MBA por N. meningitidis e S. pneumoniae ainda ocorre em nosso meio. O rápido reconhecimento destes casos aliado ao tratamento precoce com antimicrobiano empírico e o uso de corticoide estão associados à redução da mortalidade e da morbidade desta grave enfermidade. REFERÊNCIAS Bartt R. Acute bacterial and viral meningitis. Continuum (Minneap Minn). 2012 Dec;18(6 Infectious Disease):1255-70. Brouwer MC, McIntyre P, Prasad K, van de Beek D. Corticosteroids for acute bacterial meningitis. Cochrane Database Syst Rev. 2015 Sep 12;(9):CD004405. Brouwer MC, van de Beek D. Management of bacterial central nervous system infections. Handb Clin Neurol. 2017;140:349-364. Cho TA, Venna N. Management of acute, recurrent, and chronic meningitides in adults. Neurol Clin. 2010 Nov;28(4):1061-88. http://portalarquivos.saude.gov.br/images/pdf/2016/julho/29/2016-015---DM.pdf. http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/o-ministerio/principal/leia-mais-o ministerio/659- ******ebook converterDEMO Watermarks*******