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UAB – UNIVERSIDADE ABERTA DO BRASIL FUESPI – FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PIAUÍ NEAD - NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA LICENCIATURA PLENA EM LETRAS/ESPANHOL FUESPI 2011 PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO Raimundo Dutra de Araujo Araujo, Raimundo Dutra Psicologia da Educação / Raimundo Dutra de Araujo – Teresina: UAB/NEAD/FUESPI, 2011. 123p. ISBN: 978-85-61946-29-6 1.Psicologia da educação. 2. Aprendizagem escolar. 3. Processos psicológicos. I.Título. CDD: 370.15 A659p 53 FUESPI/NEAD Letras/Espanhol 2 As teorias p sicológicas e o desenvolvimento humano Até o século XIX, a Psicologia era considerada um ramo da Filosofia, já que seus temas eram tratados pelos filósofos. Foi somente a partir deste século, com os estudos de Wundt, Weber e Fechner, Tichener, Wiliam James e Torndike, através das escolas psicológicas, que os conhecimentos relativos a esse campo passaram a ser ligados à medicina, sendo produzidos em laboratório, com o uso de instrumentos de observação e medição, métodos de investigação das ciências naturais considerados critérios rigorosos para a construção do conhecimento e fundamentais para dar status de ciência a esta área. A cientificidade da Psicologia é garantida, pois, no final do século XIX a partir do surgimento das primeiras abordagens ou escolas Psicológicas: o funcionalismo, o estruturalismo e o associacionismo. Essas três escolas psicológicas foram substituídas no século XX por novas teorias que as ampliaram, ressignificaram-nas ou a elas se contrapuseram. Veremos a seguir as principais teorias da Psicologia do século XX, abordando seus conceitos básicos e as suas implicações na educação. É importante entender, inicialmente, algumas correntes de conhecimento que contribuem para a fundamentação da Psicologia. São elas: Empirismo e racionalismo. Na sequência, trataremos de outras correntes que também fazem parte do campo da ciência psicológica. 2.1 Empirismo Doutrina definida explicitamente, pela primeira vez, pelo filósofo inglês John Locke , no século XVII e que é a escola de Epistemologia (na filosofia ou Psicologia) . Locke argumentou que a mente seria, Imagem disponível em:http:// charlottehutson.files.wordpress.com/ 2009/08/locke.jpg 54 Psicologia da Educação originalmente, um "quadro em branco" (tábula rasa), sobre o qual é gravado o conhecimento. A base é a sensação. Ou seja, todas as pessoas, ao nascer, o fazem sem saber de absolutamente nada, sem impressão nenhuma, sem conhecimento algum. Todo o processo do conhecer, do saber e do agir é aprendido pela experiência, pela tentativa e erro. O Empirismo defende que as nossas teorias devem ser baseadas nas nossas observações do mundo, em vez da intuição ou fé. Defende a investigação empírica e o raciocínio dedutivo. O Empirismo diz que a origem das Ideias é o processo de abstração que se inicia com a percepção que temos das coisas através dos nossos sentidos. Daí diferencia-se o Empirismo: não preocupado com a coisa em si, nem tão pouco com a ideia que fazemos da coisa atribuída pela Razão, como ensina o Racionalismo; mas puramente como percebemos esta coisa, ou melhor dizendo, como esta coisa chega até nós através dos sentidos. Esta corrente nega uma identidade permanente, pois o conteúdo da nossa consciência varia de um momento para outro de tal forma que ao longo do tempo essa consciência teria, em momentos diferentes, um conteúdo diferente. A explicação está no fato de que a consciência, como sendo um conjunto de representações, dependeria das impressões que temos das coisas, mas sendo impressões estariam sujeitas a variações. O Empirismo, apesar de não possuir pensamento contraditório, entende a razão de forma diferente: ela é dependente da experiência sensível, logo não vê dualidade entre espírito e extensão (como no Racionalismo), de tal forma que ambos são extremidades de um mesmo objeto. Como experiência é o ponto de partida do conhecimento, não há necessidade de fazer hipóteses. Caracteriza-se, assim, o método indutivo que parte do particular (experiências) para a elaboração de princípios gerais. Historicamente, o Empirismo se opõe à escola conhecida como racionalismo, segundo a qual o homem nasceria com certas ideias inatas. Tais ideias iriam "aflorando" à consciência e constituiriam as verdades acerca 55 FUESPI/NEAD Letras/Espanhol do Universo. A partir dessas ideias, o homem poderia entender os fenômenos particulares apresentados pelos sentidos. O conhecimento da verdade, portanto, não dependeria dos sentidos físicos. O grande mérito do empirismo consiste em ter salientado a importância da experiência no conhecimento humano. Seus limites, entretanto, apontam que, na medida em que todos os conteúdos do conhecimento procedem da experiência, o conhecimento fica encerrado nos limites do mundo empírico (o que traz algumas consequências menos positivas). Rejeitando a razão como fonte do conhecimento, o empirismo não pode aspirar ao conhecimento universal e necessário e, por isso, não oferece qualquer espécie de segurança ou certeza, pois o conhecimento está sujeito à mobilidade das impressões sensoriais desencadeadas pelos objetos. Além disso, o conhecimento empírico, baseando-se em raciocínios indutivos, não nos dá rigor nem certezas, antes pelo contrário, este tipo de raciocínio possibilita o erro. Pela indução apenas podemos acreditar, pela experiência do passado, que determinados fenômenos que se foram repetindo, continuarão a repetir-se no futuro. 2.2 Racionalismo Racionalismo é a corrente central no pensamento liberal que se ocupa em procurar, estabelecer e propor caminhos para alcançar determinados fins. Tais fins são postulados em nome do interesse coletivo base do próprio liberalismo e que se torna assim, a base também do racionalismo. O racionalismo, por sua vez, fica à base do planejamento da organização econômica e espacial da reprodução social. Imagem disponível em:http:// www.usp.br/fau/docentes/depprojeto/ c_deak/CD/4verb/racio/1vitruviu1.jpg 56 Psicologia da Educação O postulado do interesse coletivo elimina os conflitos de interesses (de classe, entre uma classe e seus membros e até de simples grupos de interesse) existentes em uma sociedade, seja em nome do princípio de funcionamento do mercado, seja como princípio orientador da ação do Estado. Abre espaço para soluções racionais a ‘problemas’ econômicos (de alocação de recursos) ou urbanos (de infraestrutura, da habitação, ou do meio ambiente) com base em soluções técnicas e eficazes. Uma ideologia difere do mundo concreto não naquilo que afirma, senão no que cala – não nega, apenas escamoteia a existência conflitos na sociedade. Um ‘apelo à razão’ é um convite a esquecer a existência de conflitos sociais. Os racionalistas consideram que só é verdadeiro conhecimento aquele que for logicamente necessário e universalmente válido, isto é, o conhecimento matemático é o próprio modelo do conhecimento. Assim sendo, o racionalismo tem que admitir que há determinados tipos de conhecimento, em especial as noções matemáticas, que têm origem na razão. Não quer isso dizer que neguem a existência do conhecimento empírico - admitem-no. Consideram-no, porém, como simples opinião, desprovido de qualquer valor científico. O conhecimento, assim entendido, supõe a existência de ideias ou essências anteriores e independentes de toda a experiência. 2.3 Behaviorismo O behaviorismo surgiu nos Estados Unidos, com os estudos de John Watson que buscava definir o fato psicológico de modo concreto, a partir da noção de comportamento (behavior), daí a denominação de teoria comportamentalista. Ao postular o comportamento como objeto da Psicologia em substituição à consciência, Watson dava a esta área a consistência necessária para que ela alcançasse status de ciência, uma vez que o comportamento se 57 FUESPI/NEAD Letras/Espanhol tratava de um objeto que poderia ser observado, mensurado e passível de experimentoslaboratoriais. Partindo das ideias de Pavlov de que os estímulos podiam ser condicionados pela ação do meio, Watson defendeu a tese de que animais e homens adquiriam novos comportamentos através do condicionamento e continuavam a se comportar enquanto os estímulos apropriados estivessem agindo. Assim, defendeu a objetividade científica e o estudo dos comportamentos observáveis que pudessem ser descritos por meio do mecanismo estímulo-resposta. Com este propósito, passou a estudar o homem naquilo que lhe é observável: o comportamento. A Psicologia Behaviorista surgiu com os estudos de Watson mas sua expansão se deu com Skinner, seu maior representante, que, apesar de se fundamentar em Watson no que se referia ao estudo científico do homem, criticou o reducionismo da relação estímulo-resposta, alegando não ser suficiente para explicar a complexidade desse objeto. Considerou o comportamento não como uma ação isolada, mas como resultado da interação entre organismo e meio ambiente, a qual engloba três aspectos: a ocasião na qual ocorreu a resposta, a própria resposta e as consequências reforçadoras. São as relações ou possibilidades estabelecidas nessa tríade que constituem, segundo Skinner, as contingências de reforço. Assim, Skinner se contrapõe à visão de homem como um ser passivo, um mero reagente a estímulos, defendida por Watson, definindo-o como um ser que interage com o mundo, que muda e é constantemente mudado pelo ambiente. Além disso, se contrapõe, também, ao behaviorismo de Watson Skinner . Imagem disponível em: http:// www.uni-konstanz.de/ag-moral/images/ skinner3.jpg 58 Psicologia da Educação porque não se limitou a estudar os fatos observáveis, mas apresentou explicações científicas sobre sentimentos e fenômenos mentais ancoradas nos princípios do reforço. Por essas diferenças, o Behaviorismo de Skinner passou a ser conhecido como “behaviorismo radical”. O Behaviorismo radical defendido por este teórico considera os acontecimentos privados como produtos da história genética e ambiental da pessoa. Todo comportamento (inclusive os considerados “processos de pensamento”) é produto das contingências de reforço e pode ser observado e controlado por meio da manipulação. O homem é, pois, um objeto que pode ser estudado e manipulado através da análise experimental do comportamento. Segundo Skinner, existem três tipos de comportamento: o comportamento reflexo, o comportamento condicionado e o comportamento operante. O primeiro é uma ação não-voluntária, não intencional, não aprendida porque inclui respostas que são produzidas por estímulos do ambiente e que o organismo responde automaticamente a eles. Ex: a contração da pupila na incidência de luz sobre o olho, a salivação quando vemos comida, entre outros. O comportamento condicionado ou ação reflexa condicionada (descrita por Pavlov e Watson) se refere a uma mera reação involuntária do indíviduo condicionada pelo estímulo ambiental resultante da substituição de um estímulo neutro por outro capaz de produzir respostas semelhantes ao estímulo original. É uma resposta a um estímulo puramente externo passível de condicionamento. Como exemplo temos a salivação de um cão ao ouvir o simples toque da campainha, em função de ter sido, em vários momentos, apresentado a ele um pedaço de carne associado ao toque de tal campainha. Nesse caso, o estímulo original (carne) foi substituído pelo estímulo neutro (campainha), gerando um comportamento condicionado. O comportamento operante é uma ação voluntária, resultante das consequências reforçadoras da ação do sujeito sobre o meio. É um hábito adquirido pela ação do indivíduo, ação esta que sugere uma modificação no ambiente para produzir consequências que agem (novamente) sobre os 59 FUESPI/NEAD Letras/Espanhol indivíduos, alterando a probabilidade de ocorrência ou a extinção futura do comportamento inicial. Esse tipo de comportamento, segundo Skinner, é complexo e predominante no homem. Ao explicar o comportamento operante como resultante da aprendizagem, Skinner (1972) terminou elaborando uma definição para esse processo, a qual trouxe implicações para a educação escolar. Segundo ele, a aprendizagem é mudança de comportamento produzida pelas contingências de reforço. Estas contingências, por sua vez, implicam no controle de estímulos para modelar determinados comportamentos. No âmbito escolar, as contingências de reforço constituem as relações entre a ocasião em que o comportamento do aprendente ocorre, o próprio comportamento deste e as consequências reforçadoras desse comportamento. Nessa ótica, a aprendizagem não depende exclusivamente do aprendente, da sua ação sobre o meio ou da sua estrutura mental, mas das contingências de reforço. Segundo o teórico, em condições adequadas, qualquer indivíduo é capaz de aprender. O aprender está relacionado às contingências de ensino. 2.4 Gestalt O termo “gestalt’ é um termo alemão de difícil tradução. O mais próximo em português seria forma ou configuração, mas não é utilizado, pois não corresponde ao seu real significado em Psicologia. A Gestalt teve seu surgimento na Europa e buscava compreender o homem em sua totalidade, como forma de negar a Imagem disponível em:http:// markket.files.wordpress.com/2009/12/ gestalt-3.jpg 60 Psicologia da Educação fragmentação das ações e processos humanos realizados pela Psicologia do século XIX, a Psicologia Behaviorista. Os estudos psicofísicos de Wertheimer, Köller e Koffka relacionavam a forma à sua percepção e foram a base dessa teoria psicológica. Eles iniciaram seus estudos pela percepção e sensação dos movimentos, buscando compreender os processos psicológicos envolvidos na ilusão de ótica, quando o estímulo físico é percebido pelo sujeito como uma forma diferente do que tem na realidade. A gestalt veio se contrapor ao princípio behaviorista de causa e efeito porque, segundo ela, entre os estímulos que o meio ambiente fornece e as respostas do sujeito encontra-se o processo de percepção. O que o individuo percebe e como percebe são dados importantes para a compreensão do comportamento humano. Assim, a partir da percepção, a gestalt encontrou a explicação para o comportamento humano, tornando-se o tema central dessa teoria. Segundo os gestaltistas, a maneira como percebemos determinado estimulo irá desencadear nosso comportamento. A ilusão de ótica surge quando não alcançamos a boa forma do objeto percebido em função da falta de equilíbrio, simetria, estabilidade e simplicidade nos elementos desse objeto, ocasionando um comportamento equivocado. Podemos dizer que o comportamento é determinado pela percepção do estímulo e, portanto, está submetido à lei da boa forma. A compreensão de determinado objeto exige, portanto, que ele seja apresentado em aspectos básicos que permitam a sua decodificação, ou seja, a percepção da boa forma. O conjunto de estímulos determinantes do comportamento é chamado, para a Gestalt, de meio ambiente. Existem dois tipos de meio ambiente: o geográfico e o Imagem disponível em:http:// www.nwlink.com/~donclark/ hrd/history/gestalt.gif 61 FUESPI/NEAD Letras/Espanhol comportamental. O primeiro corresponde ao meio físico em termos objetivos; já o segundo é resultante da interação do individuo com o meio físico e implica a interpretação desse meio através das forças que regem a percepção (equilíbrio, simetria, estabilidade e simplicidade). Para a gestalt, a Psicologia é a ciência que estuda o comportamento humano. Contudo, diferentemente do behaviorismo que estuda o comportamento através da relação estímulo-resposta, procurando isolar o estímulo que produz a resposta, a gestalt estuda o comportamento através da percepção. O estudo da percepção se dá em função dos gestaltistas considerarem que o comportamento, quando estudado isolado de um contexto mais amplo, pode perder seu significado. Para eles, o comportamento deve ser estudado nos seus aspectosmais globais, levando em consideração as condições que alteram a percepção do estímulo. A explicação de que qualquer padrão de estímulo tende a ser visto conforme as condições dadas permitem e de que a unidade se constitui pela integração de suas partes levou a gestalt a elaborar uma concepção de aprendizagem oposta à concepção behaviorista. Para o behaviorismo, a aprendizagem ocorre através da relação (associação) que estabelecemos dos objetos mais simples com os mais complexos. Já a gestalt vê a aprendizagem como resultante da relação estabelecida entre o todo e as partes, tendo o todo um papel fundamental na compreensão das partes. Os gestaltistas explicam que como nem sempre as situações vividas pelos indivíduos se apresentam de forma clara, permitindo a sua percepção imediata, surgem as dificuldades de aprendizagem. Essas situações dificultam o processo de aprendizagem porque não possibilitam uma clara definição da figura-fundo, impedindo a relação parte-todo. Contudo, às vezes ocorre de estarmos diante de uma figura ou objeto que não tem sentido algum para nós e, de repente, sem termos realizado nenhum esforço para isso, a relação parte- todo, figura-fundo é estabelecida e o objeto ou figura é elucidada. Nesse caso, houve o que a gestalt chama de insight, um entendimento interno súbito, uma 62 Psicologia da Educação compreensão imediata. A resolução de um quebra-cabeça é um exemplo de um insight. A concepção de aprendizagem da Gestalt traz para a educação escolar implicações significativas. Ao abordar a individualidade do sujeito e a sua forma peculiar de perceber e apreender o objeto de conhecimento valoriza o contato deste com o meio e o próprio objeto de conhecimento, identificando como ele integra a sua totalidade por meio da aprendizagem e postulando- o como um sujeito ativo nesse processo. Se o pensamento se processa em termos de todo, se as resoluções só são possíveis por meio da apreensão dessa totalidade e se esta apreensão da totalidade exige que o real seja apresentado de maneira que permita a percepção da boa-forma, no que tange à pratica docente, podemos inferir que para o aluno considerar a situação como um todo e, portanto, apreender determinado objeto, o professor deverá apresentar-lhe a situação como um todo, ou seja, de forma contextualizada e não fragmentada. Por fim, vale ressaltar as ideias de Kurt Lewin. Embora este teórico tenha trabalhado com os pioneiros da gestalt, seus estudos seguiram outro rumo, abandonando a preocupação com a percepção e se voltando para a fenomenologia. Fundamentado na teoria de campo, formulou o conceito espaço vital como a totalidade dos fatos que determinam o comportamento do indivíduo num certo momento. Para Lewin, o campo psicológico é o espaço dinâmico de vida, no qual inclui não apenas o indivíduo e o meio, mas também a totalidade dos fatos coexistentes e mutuamente interdependentes. Este campo, contudo, não deve ser visto como uma unidade física, mas fenomênica, visto que se constitui não apenas de fatos físicos, mas de fatos subjetivos como amizade, objetivos conscientes e inconscientes, sonhos, medos, entre outros. Assim, o campo psicológico que produz efeito sobre o comportamento humano deve ser representado tal como existe para o indivíduo em determinado momento e não como ele é em si. 63 FUESPI/NEAD Letras/Espanhol O campo fenomênico de Lewin é, pois, o meio comportamental da gestalt, ou seja, a maneira particular como o indivíduo interpreta uma dada situação. Contudo, Lewin não se referia apenas à percepção como um fenômeno psicofisiológico, mas também se referia a características de personalidade do indivíduo, a componentes emocionais ligados ao grupo e a própria situação vivida, bem como a situações passadas ligadas ao acontecimento, na forma em que são representadas no espaço de vida atual do indivíduo. No processo de apreensão da totalidade, portanto, os aspectos motivacionais e emocionais do indivíduo direcionarão a atenção, a percepção e a memória relevantes a sua aprendizagem. Dessa forma, diante da totalidade que compreende o ambiente social, físico e psicológico do contexto escolar, é o mundo interior do aluno, sua percepção e o significado que ele atribui que determinarão a figura e o fundo do fenômeno estudado. Em outras palavras, é o aluno que, de acordo com as suas necessidades e interesses, identificará e direcionará a sua percepção para aspectos específicos do que lhe é oferecido pelo professor e pela escola. Nesta perspectiva, o aluno é agente do seu conhecimento, visto que no seu processo de aprendizagem procura se ajustar às situações apresentadas, reestruturando e re-significando seu campo perceptual em busca da totalidade do objeto, a partir de suas necessidades e interesses. O processo de aprendizagem (e de ensino) não começa, pois, no conteúdo a ser estudado, mas nas possibilidades e necessidades dos alunos. Logo, ensinar implica criar situações que permitam, a este aluno, uma aprendizagem repleta de sentido por meio de vivências e experiências. Fonte: http://www.cres.org/star/ RubinGestalt.gif 64 Psicologia da Educação A compreensão de que o comportamento deve ser visto em sua totalidade levou Lewin a formular o conceito de grupo. Segundo ele, todos os momentos de vida do indivíduo ocorrem no interior dos grupos. A característica definidora do grupo é a interdependência de seus membros e não a soma desses. Nesse sentido, a mudança de um membro de um grupo pode alterar completamente a dinâmica deste. Essa ideia nos leva a considerar que a as relações estabelecidas, no contexto escolar, entre alunos e professores e entre alunos e alunos interferem no processo de ensino e aprendizagem e na dinâmica escolar como um todo. Outra característica do grupo definida por Lewin foi o clima social, no qual uma liderança (seja autocrática, democrática ou não) determinará o desempenho do grupo. A definição dessa característica levou-o a criar o conceito de campo social, formado pelo grupo e seu ambiente, e a realizar estudos e pesquisas acerca da dinâmica grupal. Os estudos de Lewin trouxeram muitas contribuições à Psicologia e à educação, de tal modo que é considerado, ainda hoje, como um dos mais importantes psicólogos, sendo suas ideias embasadoras de muitas teorias e técnicas de trabalho com os grupos na atualidade, tanto no campo da Psicologia clínica, como no campo da Psicologia social e educacional. É importante destacar, ainda, que a Gestalt, enquanto base psicofisiológica, praticamente desapareceu. Contudo, a fenomenologia que a fundamentou avançou por caminhos diferentes, buscando, como diz Bock (1999), a compreensão do ser no mundo de forma totalitária e sendo aplicada ao campo da Psicologia Existencialista, da Gestalt terapia, da educação holística, da Psicopedagogia, entre outros. Na Psicologia, muitas teorias tentam explicar o desenvolvimento humano. Algumas, entretanto, por suas significativas contribuições ao campo educacional, tornam-se centro das discussões e configuram-se imprescindíveis no estudo de Psicologia da Educação. A questão central da disciplina é compreender a dimensão subjetiva da educação tendo como eixo teórico tais 65 FUESPI/NEAD Letras/Espanhol teorias (Carvalho, 2009). Vale a pena ressaltar que há teorizações diferenciadas a serem analisadas. A seguir, abordaremos um pouco das teorias que ganharam mais relevância nos cursos de formação de professores no Brasil. 2.5 A Epistemologia Genética de Piaget Jean Piaget nasceu em Neuchâtel, em 9 de agosto de 1896, na Suíça. Sua formação inicial foi em Biologia e, posteriormente, tornou-se psicólogo do desenvolvimento. Estudou na Universidade de Neuchâtel e doutorou-se em Ciências Naturais em 1918. Piaget preocupou-se em elaborar uma teoria do conhecimento, em quais processos mentais ajudam uma criança a resolver um problema. A Epistemologia Genética foi elaborada pelo autor em tela no início do século XX.Refere-se a uma teoria que explica a gênese e a evolução do conhecimento e das estruturas cognitivas, ou seja, a inteligência. Piaget buscou criar uma ciência que desse sustentação experimental aos seus interesses investigativos: saber como os conhecimentos se originam e evoluem. Para isso, tomou como referência as premissas de que as ações do indivíduo obedecem a uma organização lógica (conhecimento) e de que a formação desse conhecimento dependeria da adaptação do organismo ao meio. Assim, recorreu a Psicologia como forma de estabelecer conexão entre a Filosofia e a Biologia. Neste contexto, elaborou a Psicologia Genética. Os conceitos da Biologia, Filosofia e Psicologia foram articulados de forma que teorias e métodos investigativos próprios fossem elaborados. A ideia era a superação do dualismo existente entre as posições inatistas e empiristas da época, a partir da apresentação de uma visão interacionista (construtivista) do conhecimento. Imagem disponível em: http:// www.sk.com.br/sk-piage.html 66 Psicologia da Educação Para Piaget, a criança, ao interagir com o meio, constrói não só conhecimentos, mas também estruturas cognitivas (inteligência). Assim elaborou, simultaneamente, uma teoria epistemológica do conhecimento e uma teoria do desenvolvimento da inteligência: a Epistemologia Genética. Segundo essa teoria, o homem não nasce com ideias prontas nem com inteligência, mas as constrói a partir de um processo adaptativo, no qual age sobre os objetos, coordena e reorganiza suas ações, criando e recriando suas estruturas cognitivas. Tal processo de adaptação é concebido como a busca, pelo indivíduo, de estados de equilíbrio diante dos desafios e das situações novas vivenciadas por ele no meio em que vive. A adaptação acontece a partir de dois processos simultâneos: a assimilação e a acomodação . O primeiro se refere à incorporação pelo indivíduo dos objetos do meio mediante estruturas cognitivas já formadas; o segundo se refere à reorganização ou modificação das estruturas cognitivas já formadas, em vistas à resolução de um novo problema ou situação. Os processos descritos acima são complementares e propiciam ao indivíduo o alcance do estado de adaptação intelectual, isto é, de equilíbrio cognitivo em suas trocas com o meio. Esse equilíbrio acontece quando o indivíduo consegue adaptar seu pensamento a uma situação particular conflituosa. Assim, ao vivenciar situações novas, o indivíduo se depara com desafios e conflitos cognitivos, rompendo seu estado de equilíbrio. Em resumo, o processo de construção do conhecimento e o desenvolvimento da inteligência são resultantes da adaptação do indivíduo ao meio, sendo que o primeiro ocorre durante toda a vida do indivíduo, enquanto o desenvolvimento da inteligência se constitui num processo finito que tende para um forma final, que é o pensamento formal. Para Piaget, o desenvolvimento da inteligência é visto como um processo de construção de estruturas cognitivas (mentais) resultantes da interação indivíduo-meio. Estas estruturas são formas de organização da 67 FUESPI/NEAD Letras/Espanhol atividade mental. Sua origem se dá nos reflexos inatos que vão se aperfeiçoando e solidificando até atingir um equilíbrio superior. Há, no entanto, fatores determinantes desse desenvolvimento: maturação biológica, transmissão social, experiência com os objetos e equilibração. A maturação biológica está relacionada com as estruturas genéticas (sensoriais e neurológicas) do sistema nervoso que vão amadurecendo no processo de interação do indivíduo com o meio e que são condições para a gênese das estruturas cognitivas. A transmissão social refere-se à transmissão da variedade de situações, comportamentos, atitudes e conhecimentos que precisam ser aprendidos pela criança para que ela possa se adaptar ao meio social. Ela se dá mediante a interação com as pessoas. As experiências da criança com os objetos são resultantes de sua ação sobre esses objetos e constituem condições para o desenvolvimento da inteligência, visto que este só ocorre a partir da ação do sujeito sobre o mundo. Tais experiências podem ser de dois tipos: as experiências físicas (ação da criança sobre os objetos, como pegar , bater, jogar, etc... ) e as experiências lógico-matemáticas (ações sobre os objetos que as propiciam refletir sobre essas ações). A equilibração consiste no processo de auto-regulação, inerente ao indivíduo, que lhe permite superar as situações desafiadoras e ultrapassar de um estágio inferior de equilíbrio para um estágio superior, constituindo o próprio desenvolvimento da inteligência. Tal desenvolvimento ocorre por meio de estágios ou períodos que se caracterizam pelo surgimento de estruturas cognitivas originais. Segundo Piaget, os estágios que compreendem o processo de desenvolvimento cognitivo são quatro e se apresentam numa ordem sucessiva fixa e universal, muito embora as idades que demarcam cada um deles possam variar conforme as características individuais, a experiência com os objetos e a interação social vivenciadas pelos sujeitos. 68 Psicologia da Educação O primeiro estágio do desenvolvimento da inteligência é o sensório- motor e estende do nascimento até os dois anos de idade. Recebe este nome porque toda a atividade intelectual da criança é de natureza sensória e motora, estando a inteligência inteiramente associada ao plano da experiência imediata, da presença física dos objetos. É uma inteligência prática, não verbalizada, não interiorizada e se refere à manipulação dos objetos. Os esquemas que predominam, neste estágio, são esquemas de ação (sugar, chupar, agarrar, pegar, olhar, morder, empurrar, entre outros.). O segundo estágio é o pré-operatório que vai, aproximadamente, dos dois aos seis anos de idade. Se caracteriza primordialmente pela transformação (interiorização) dos esquemas de ação em esquemas representativos ou simbólicos. Estes esquemas capacitam a criança a diferenciar um significante (imagem, palavra o símbolo) do significado (objeto ausente). O principal progresso deste período é o aparecimento da função representativa (simbólica) que consiste na capacidade de representar objetos e eventos ausentes através de símbolos e signos diferenciados. Ela propicia as condições para aquisição da linguagem, acarretando modificações profundas nos aspectos intelectual, social e afetivo. Um outro fato que merece destaque é a aquisição da linguagem. A partir disso, a criança é capaz de sistematizar de forma verbal suas ações passadas e antecipar ações futuras pela mesma forma. Nesta etapa, surgem a imitação, o jogo simbólico (a brincadeira do faz-de-conta) e o desenho, que reforçam mais ainda a passagem da representação em ato para a representação em pensamento, ajudando a criança a se adaptar a um mundo físico e social ainda desconhecido.Vale ressaltar que o pensamento que predomina neste estágio é o egocêntrico e o intuitivo. Imagem disponível em: http:// img.youtube.com/vi/k0bpfDuMfzA/ 0.jpg 69 FUESPI/NEAD Letras/Espanhol O próximo estágio, o das operações concretas , tem início por volta dos sete anos, estendendo-se até os onze ou doze anos de idade. Tem como principal característica o aparecimento de operações como comparar, agrupar, classificar, estabelecer relações entre os elementos da realidade, coordenar pontos de vista diferentes e organizar elementos de um modo lógico. O grande diferencial nesta fase é a reversibilidade operatória, que consiste no desenvolvimento das noções de classificação, seriação, número, conservação e velocidade, e da capacidade de descentração, ou seja, se colocar no lugar do outro. O último estágio, das operações formais inicia na adolescência. Nesta fase, as estruturas cognitivas atingem seu nível mais elevado de desenvolvimento e dão lugar a uma abstração total do pensamento. Torna o adolescente capaz de pensar logicamente, de formular hipóteses e buscar soluções sem depender da observaçãoda realidade. Além disso, o jovem torna- se capaz de pensar por meio de proposições separadas da percepção concreta. Neste estágio, as operações formais se formam sobre hipóteses e não sobre os objetos, como no estágio anterior e representam a passagem do nível real para o possível, por meio do pensamento combinatório. Aqui se dá a aquisição da forma final de equilíbrio, já que construiu as estruturas cognitivas necessárias para se adaptar ao meio. O seu desenvolvimento intelectual dar-se-á em ampliar seus conhecimentos qualitativamente e quantitativamente, tomando como base as estruturas cognitivas já construídas. Os estudos de Piaget acerca da inteligência e do conhecimento tiveram uma grandiosa repercussão, servindo de referência para diversas áreas, como a Filosofia, a Psicologia e a Educação. A preocupação com as questões educacionais, bem como as implicações de seus postulados no contexto educativo fizeram de Piaget um dos maiores representantes do pensamento pedagógico em muitos países, em especial no Brasil, com contribuições inigualáveis para a reflexão sobre o papel da escola, do aluno e do professor no processo de aprendizagem. 70 Psicologia da Educação Entre as contribuições do pensamento piagetiano na educação escolar, destacamos: • A aprendizagem passa a ser vista como construção (e não retenção) de conhecimento; • O aluno passa a ser sujeito, e não objeto, do seu conhecimento, assumindo uma postura de ser ativo e experimentador de soluções para os desafios propostos; • O professor deve propor estratégias desafiadoras para o aluno buscar por si só as soluções; • A utilização de métodos de ensino ativos, entre eles a ludicidade ganha destaque; • A escola passa a ter a tarefa de propor situações desafiadoras para o aluno; • A interação entre professor-aluno e aluno-aluno na sala de aulan deve ser favorecida; • O ensino deve ser de acordo com o nível de desenvolvimento cognitivo do aluno; • Os erros dos alunos passa a ser vistos com uma certa lógica e como etapas do processo de aprendizagem; Para concluir, é importante destacar que as implicações da teoria piagetiana para o contexto da sala de aula são amplas e não se esgotam nas citadas acima. 2.6 A abordagem histórico-cultural de V igot ski Lev Seminovitch Vigotski (1896/1934) nasceu na Bielo-Rússia em 5 de novembro de 1896. Formou- se em literatura e direito na Universidade de Moscou e, posteriormente, estudou medicina. Pesquisou sobre Imagem disponível em:http:// www.neaad.ufes.br/subsite/ Psicologia/fotos/VIGOTSKI.jpg 71 FUESPI/NEAD Letras/Espanhol literatura, Psicologia, deficiência física e mental e educação, mas dedicou-se à pedagogia e à Psicologia. Foi professor do ginásio e se questionava de que forma o homem cria cultura. Buscou a resposta na Psicologia e acabou por elaborar uma teoria do desenvolvimento intelectual, sustentando que todo conhecimento é construído socialmente, no âmbito das relações humanas. Sua teoria tem por base o desenvolvimento do indivíduo como consequência de um processo sócio-histórico . Dá ênfase ao papel da linguagem e da aprendizagem nesse desenvolvimento. Assim, a teoria é considerada histórico-social. Morreu de tuberculose em 1934, aos 38 anos. No Brasil, sua obra só começou a ser divulgada, de fato, nos anos 80, ao mesmo tempo em que a linha educacional construtivista se expandia. Embora não tenha elaborado uma pedagogia, Vigotski deixou ideias sugestivas para a educação. As concepções de Vigotski sobre o funcionamento do cérebro sinalizam este órgão como a base biológica. Suas peculiaridades definem limites e possibilidades para o desenvolvimento humano. Tais concepções fundamentam sua ideia de que a criança nasce dotada apenas de funções psicológicas elementares. Com o aprendizado cultural e, principalmente, com a aquisição da linguagem, parte dessas funções básicas transforma-se em funções psicológicas superiores - a consciência, o planejamento e a deliberação são exemplos delas. Estas funções psicológicas superiores são construídas ao longo da história social do homem, em sua relação com o mundo e referem-se a processos voluntários, ações conscientes, mecanismos intencionais. Vigotski defendeu que o próprio desenvolvimento da inteligência é produto da convivência cultural do homem. Enquanto sujeito do conhecimento, o homem não tem acesso direto aos objetos, mas um acesso mediado . A mediação, aliás, é um conceito fundamental nesta teoria. Diz respeito ao 72 Psicologia da Educação A cultura fornece ao indivíduo um repertório de sistemas simbólicos de representação da realidade. Um universo de significações que permite construir a interpretação do mundo real. A linguagem se constitui em um sistema simbólico dos grupos humanos e representa um salto qualitativo na evolução da espécie. É a linguagem que fornece conceitos, formas de organização do real, a mediação entre sujeitos e o objeto do conhecimento. A linguagem, na perspectiva sócio-histórica, é fundamental por ser o principal instrumento de intermediação do conhecimento entre os seres humanos. Além disso, ela tem relação direta com o próprio desenvolvimento psicológico. O processo de internalização é primordial para o desenvolvimento do funcionamento psicológico humano. Envolve uma atividade externa que deve ser modificada para tornar-se uma atividade interna, ou seja, é interpessoal e se torna intrapessoal. O sujeito não é apenas ativo, mas interativo, porque forma conhecimentos e se constitui a partir de relações intra e interpessoais. É nesta troca com os outros sujeitos e consigo próprio que se vão internalizando conhecimentos, papéis e funções sociais. Para o teórico, o desenvolvimento cultural da criança aparece segundo a lei da dupla formação: todas as funções aparecem duas vezes - primeiro entre as pessoas (interpsicológica, nível social) e ,posteriomente, no interior da criança (intrapsicológica, nível individual). Assim, os processos psíquicos ocorrem por assimilações de ações exteriores, interiorizações desenvolvidas através da linguagem interna que possibilita formar abstrações. processo de intervenção de um elemento intermediário em uma relação, que deixa se ser direta e passa a ser mediada por um elemento interposto. Esse elemento constitui ferramenta auxiliar da atividade humana, seja a técnica, seja a psicológica. (IBIAPINA e CARVALHO, 2009, p. 167-168) Imagem disponível em: http:// textosdaoficina.files.wordpress.com/ 2009/10/iclinguagemoral.jpg 73 FUESPI/NEAD Letras/Espanhol O que nos faz pensar que esse processo de aprendizagem se desenvolve do concreto (segundo as variáveis externas) a abstrata (as ações mentais), com diferentes formas de manifestações, tanto intelectual, verbal e de diversos graus de generalizações e assimilações. Segundo Vigotski, existem pelo menos dois níveis de desenvolvimento: o desenvolvimento real, determinado por aquilo que a criança é capaz de fazer por si própria, pois já tem um conhecimento consolidado, e o desenvolvimento potencial, quando a criança realiza tarefas mais complexas, com a ajuda de um adulto ou por resultado da interação com iguais. A evolução intelectual é caracterizada por saltos qualitativos de um nível de conhecimento para outro. A esse processo ele chamou de ZONA DE DESENVOLVIMENTO PROXIMAL, que seria a distância entre o nível de desenvolvimento real e o nível de desenvolvimento potencial. A aprendizagem interage com o desenvolvimento, produzindo disponibilidade nas zonas de desenvolvimento proximal - nas quais as interações sociais são centrais - estando então, ambos os processos, aprendizagem e desenvolvimento, interrelacionados. Carvalho e Ibiapina (2009) destacam a importância dessas ideias para a educação, argumentando que mostram a necessidade de a escola e os professores conceber os alunos como seres potencialmente capazes de aprender e de se desenvolver, à medida que interagem com os sistemas simbólicos existentes no seumeio, com os outros e consigo mesmo e, ainda, a necessidade de planejarem atividades que promovam a apropriação dos sistemas simbólicos da cultura na qual os alunos estão inseridos. A intervenção do professor no aprendizado e desenvolvimento dos alunos deve ser organizada com base na mobilização dos conhecimentos prévios que estes possuem acerca do conteúdo a ser ensinado e no conhecimento, por parte deste profissional, acerca de como ocorre o processo de internalização e quais as atividades favorecedoras deste processo. 74 Psicologia da Educação Sobre o assunto, Carvalho e Ibiapina (2009) elencam algumas condições necessárias e suficientes para que o ensino promova aprendizagem e faça o aluno avançar para a nova zona de desenvolvimento psíquico: • A utilização de ajuda, com a colaboração entre pares com diferentes níveis de experiências; • O emprego de instrumentos psicológicos como a linguagem que no âmbito escolar é o instrumento que fornece a base para a formação de conceitos científicos; • O conhecimento das funções e dos processos que motivam e favorecem o aprendizado, bem como a qualidade dos procedimentos e recursos didáticos que são utilizados para organizar o ensino e aprendizagem. Finalmente, é importante ressaltar a impossibilidade de destacar as inúmeras contribuições que a abordagem histórico-cultural tem trazido para a educação. Apresentam-se aqui algumas considerações referentes ao seu modo de entender as relações entre desenvolvimento e aprendizagem e que, de acordo com Carvalho e Ibiapina (2009), podem constituir uma das saídas possíveis para a superação de alguns desafios postos pelo processo de escolarização. 2.7 A teoria p sicanalítica de Sigmund Freud Sigmund Freud nasceu em 1856 na pequena cidade de Freiberg, na Morávia (atualmente é a República Checa). Seu pai, Jacob, era um modesto comerciante e sua mãe, Amália, era a terceira esposa de Jacob. Freud nasceu de uma família judaica e foi o primogênito de sete irmãos. Desde criança, Freud era brilhante nos estudos e primeiro da classe. Devido ao seu ótimo desempenho acadêmico, Freud teve o privilégio de ter um quarto só para si, onde pôde estudar tranquilo. Em 1873, aos 17 anos, ingressou na faculdade de Medicina da Universidade de Viena. Nos anos de faculdade trabalhou em um laboratório de neurofisiologia, até sua formatura, em 1881. 75 FUESPI/NEAD Letras/Espanhol Em 1886, Freud casou-se com Martha Bernays. Tiveram seis filhos. A mais nova, Ana, confidente, enfermeira, secretária, discípula e do pai, também se tornou psicanalista. Freud trabalhou durante seis meses em Paris com o neurologista francês Jean-Martin Charcot, com quem observou o uso da hipnose no tratamento da histeria e despertou seu interesse para os distúrbios mentais. Nos anos seguintes, tornou-se especialista em doenças nervosas e fundamentou a teoria psicanalítica da mente. Na tentativa de entender melhor seus pacientes, Freud iniciou um difícil processo de auto-análise. Trabalhou com introspecção e interpretação de seus próprios sonhos. Em 1896, Freud utilizou pela primeira vez o termo psicanálise. Freud acreditava que a histeria era uma forma de manifestação da neurose, em que emoções reprimidas levariam aos sintomas da histeria. Tais sintomas poderiam desaparecer se o paciente conseguisse expressar as emoções reprimidas que lhe impediam de lidar com uma vida normal. Com isso, Freud trabalhou no desenvolvimento de estratégias que atingissem essas emoções reprimidas. Freud desenvolveu a livre associação; uma técnica psicanalítica onde o paciente fala tudo que lhe vem à mente e, ao falar, surgem sentimentos e memórias reprimidas. A livre associação é considerada uma das formas de se penetrar no inconsciente, podendo assim trabalhar pela terapia em cima dessas experiências e entender a causa da neurose. O autor acreditava, ainda, que outra forma de penetrar no inconsciente seria através dos sonhos, os quais, segundo ele, eram uma manifestação de nossos desejos. Outra manifestação de desejos reprimidos surge através de Fonte:http://2.bp.blogspot.com/_VOwi9EbaIFw/ RxxDxHWDJqI/AAAAAAAAAPw/58UIggcRHak/S740/ Freud+1931.jpg 76 Psicologia da Educação lapsos de língua e esquecimentos. Nos procedimentos mentais ele não admitia a existência de meros acidentes: o pensamento aparentemente mais sem sentido, o lapso mais casual, o sonho mais fantástico possuem um significado que pode servir para desvendar os segredos da mente. Enquanto teoria, a Psicanálise caracteriza-se por um conjunto de conhecimentos sistematizados sobre o funcionamento da vida psíquica. Ao elaborar tal teoria, Freud explicara que a vida mental se estrutura a partir de três sistemas: o consciente, o pré-consciente e o inconsciente. O consciente é o sistema que abarca os conteúdos que se tem acesso livremente. O pré-consciente refere-se ao sistema em que permanece aqueles conteúdos (fatos, lembranças, ideias) que não estão na consciência, mas que podem ser disponibilizados desde que a pessoa faça um pequeno esforço. O inconsciente é um sistema que engloba os conteúdos reprimidos, que não são acessíveis à consciência pela ação de censuras internas. Posteriormente, o teórico reorganizou sua teoria, descrevendo que a estrutura e o funcionamento psíquico se dá a partir da dinâmica estabelecida entre três sistemas da personalidade: id, ego e superego. O id é o reservatório de energia psíquica, onde localizam os instintos, desejos, fantasias e as vontades reprimidas. É regido pelo princípio do prazer, não existindo proibições e sentimentos de culpa. Esse sistema deseja satisfação imediata para seus desejos e não tolera frustração. É irracional, alógico e impulsivo, não conhecendo nem a moral nem a ética. O ego é o sistema que estabelece o equilíbrio entre as exigências do id, da realidade e as regras do superego. É regido pelo princípio da realidade e tem a finalidade de buscar a satisfação dos desejos e necessidades considerando as condições objetivas da realidade, ou seja, conciliar as exigências do id com as proibições do superego, exercendo controle sobre o id de modo a conseguir realizá-los de forma realista. É responsável pela conduta consciente do indivíduo. Já o superego se origina a partir da internalização das proibições, dos limites, dos valores e normas e o seu conteúdo refere-se às 77 FUESPI/NEAD Letras/Espanhol exigências sociais e culturais. Entra sempre em conflito com o id. Esses conflitos são mediados pelo ego, que tenta adequá-los à realidade. Freud pontua, ainda, que a satisfação dos desejos, instintos e necessidades representam para o indivíduo a felicidade. Em contrapartida, a não-satisfação desses sentimentos, em função do mundo externo, traz frustração, dor e sofrimento. Nesse caso, o indivíduo deforma ou suprime a realidade como forma de evitar, de se defender do desprazer e da angústia. Esse tipo de defesa contra o sofrimento foi denominado pelo teórico como mecanismo de defesa. O teórico fez referência, em seus estudos, a vários mecanismos de defesa, que são dispositivos mentais protetores, postos em funcionamento pelo ego, inconscientemente, ou seja, independente da vontade do indivíduo, que atuam na redução da angústia e sofrimento. Eles são inconscientes, ou seja, ocorrem independentemente da vontade do indivíduo quando este se encontra em momentos de conflitos e sofrimentos psíquicos. A seguir,a definição dos principais mecanismos de defesa. Repressão – atua impedindo que sentimentos, lembranças, ideias ou desejos inaceitáveis sejam conscientes para o indivíduo. É considerado o principal mecanismo de defesa, dando origem a todos os outros mecanismos. Negação – implica em negar situações, sensações, pensamentos e lembranças dolorosas, alterando a realidade, fantasiando-a, negando-a. Neste caso, o indivíduo não vê ou não ouve o que ocorre. Racionalização – refere-se a uma explicação (argumentação) intelectualmente convincente e aceitável parauma atitude, ação, ideia ou sentimento que, na verdade, é inaceitável e causadora de angústia para o indivíduo. Projeção – o indivíduo localiza (projeta) no mundo externo (outra pessoa) algo de si que considera indesejável. Regressão – trata-se de um retorno do indivíduo a etapas de desenvolvimento anteriores, evitando o confronto com o momento atual e, consequentemente, reduzindo sua angústia. 78 Psicologia da Educação Sublimação – canalização da inclinação sexual que não pode ser realizada em atividades socialmente construtivas. Deslocamento – trata-se do deslocamento de um impulso, normalmente agressivo, de um objeto ou pessoa considerado ameaçador para outro que não é. Formação reativa – refere-se à adoção, por parte do indivíduo, de uma postura oposta ao seu desejo. Identificação – surge em função do sentimento de inferioridade que induz o indivíduo a internalizar características de outra pessoa que é socialmente valorizada. É considerado natural no processo de desenvolvimento, contudo, poderá levar o indivíduo a perder a sua identidade. O uso desses mecanismos de defesa não é, em si, patológico, mas a utilização abusiva tende a empobrecer a personalidade do indivíduo, uma vez que distorce a realidade, impedindo que ele lide com o sofrimento, tente superá-lo e, consequentemente, cresça psicologicamente. Freud partiu do pressuposto de que a função sexual apareceria, no homem, logo após o nascimento e não somente na puberdade. A sexualidade, vista sob esta perspectiva, se constitui num processo longo, que engloba várias fases ou períodos. Seria a teoria psicossexual de desenvolvimento humano. Pela teoria citada, a energia afetiva voltada para a obtenção do prazer (libido) sofre progressivas organizações ao longo do tempo, apoiando-se em diferentes zonas erógenas do corpo. Cada organização caracteriza uma fase ou período do desenvolvimento psíquico do indivíduo. Assim, aponta as seguintes fases do desenvolvimento psicossexual: Fase oral – tem início no nascimento e vai até os dois anos de idade. Nesta fase, a libido se organiza na boca, tendo em vista que é através do sugar, do mamar que a criança estabelece o primeiro vínculo afetivo (prazeroso), o qual será a base para futuras relações que ela irá estabelecer com as outras pessoas. Através da boca, ela passa a conhecer os objetos do 79 FUESPI/NEAD Letras/Espanhol mundo, daí a criança levar a boca tudo que vê. Neste período reina o id, muito embora o ego já comece a se desenvolver. Fase anal – nesta fase, que inicia aos dois anos estendendo até o terceiro ano de vida, a energia libidinal se desloca para o ânus, nádega e esfíncteres. A criança já tem um certo controle do aspecto psicomotor: começa a engatinhar e andar e são treinadas a controlar suas esfíncteres. É um momento de conquistas, pois desenvolve a fala, o que representa para ela, um novo modo de se apropriar do mundo e o momento em que desenvolve a fantasia de que produz seus primeiros produtos. A obtenção do prazer se dá na eliminação das fezes e urina (considerados, por ela, como produções suas) ou na sua retenção. Fase fálica – a organização da libido se dá nos órgãos genitais e se inicia por volta do terceiro ou quarto ano de vida. Nesta fase, tem-se o desenvolvimento da curiosidade em relação ao sexo, sendo corriqueiras as perguntas sobre gravidez, namoro, diferenças entre os sexos, a manipulação dos órgãos genitais e as brincadeiras com crianças de outro sexo. A forma com os pais lidam com a sexualidade da criança nesta fase levam ao desenvolvimento de certas atitudes e sentimentos por parte da criança, como a vergonha, o sentimento de culpa, entre outros. Período de latência – este período ocorre entre cinco e dez anos e é marcado pela diminuição das atividades sexuais e pelo interesse na escola e nos amigos. Nesta fase, os aspectos morais, sociais e cognitivos adquirem maior evidência e por não haver uma reorganização da libido. Freud não o considerou um estágio propriamente dito. É um momento em que o ego passa a exercer maior controle sobre a personalidade. Fase genital – ocorre na adolescência, quando o processo maturacional provoca mudanças profundas tanto corporais como intelectuais. O instinto sexual volta a se manifestar com intensidade e a libido não mais se direciona para uma zona específica do corpo do indivíduo, mas para um objeto externo – o outro. O adolescente está, pois, pronto para a reprodução e para 80 Psicologia da Educação vivenciar o prazer sem culpa e sem neuroses, caso seu desenvolvimento nas outras fases tenha sido tranquilo. As ideias freudianas aqui destacadas trazem contribuições para os diferentes campos de conhecimento e atuação humanos. A partir da teoria psicanalítica, Freud explicou o funcionamento do psiquismo humano, as causas aparentes e latentes de certos comportamentos humanos, bem como a origem de muitos problemas e patologias mentais, apresentando concepções sobre a cultura, a sociedade, a religião, a política e a educação familiar e escolar. No que tange à educação escolar, defendeu que a Psicanálise seria um subsídio importante na compreensão da ação educativa. O papel da escola seria oferecer condições necessárias para que os alunos pudessem canalizar seus instintos para fins culturais e intelectuais. É importante destacar que, embora a representação social da Psicanálise tenha sido, durante muito tempo, negativa e estereotipada na nossa sociedade, seus aportes teóricos originaram inúmeras abordagens como a Psicologia Analítica de Jung e de Reich, a de Klein e a de Lacan e trouxeram contribuições inegáveis. Em relação à instituição escolar, tem sido um importante instrumento, teórico e metodologicamente, para a elucidação e resolução das questões educativas, principalmente no que concerne à dimensão subjetiva evocada através de desejos inconscientes presentes nos sujeitos envolvidos tanto em situações de ensino como de aprendizagem. Fonte:http://3.bp.blogspot.com/_PVbqH6DjSNI/ SBMNMrgPo4I/AAAAAAAAAG8/D53q85mkIJY/ s320/Sem+t%C3%ADtulo.JPG 81 FUESPI/NEAD Letras/Espanhol GLOSSÁRIO ASSOCIACIONISMO – sistema em que todos os movimentos psíquicos são explicados por associações. ESTRUTURALISMO – tendência comum às ciências humanas que visa definir os fatos humanos em função de um conjunto organizado e a identificá-los com os modelos matemáticos. FUNCIONALISMO - ramo da Antropologia e das Ciências Sociais que procura explicar aspectos da sociedade em termos de funções realizadas por instituições e suas consequências para sociedade como um todo SAIBA MAIS! Quadro comparativo entre as ideias de Piaget e Vigotski. LEITURA COMPLEMENTAR http://www.nce.ufrj.br/ginape/publicacoes/trabalhos/renatomaterial/ teorias.htm http://www.robertexto.com/archivo5/aprendizagem.htm 82 Psicologia da Educação ATIVIDADE COMPLEMENTAR Chat: Discuta as contribuições da Epistemologia Genética e Perspectiva histórico-cultural para a Educação. PARA APRENDER MAIS Assista aos filmes “Jean Piaget” (documentário apresentado pelo professor Yves de La Taille); “Freud além da alma” (1962) e L.S. Vygotsky (2006). RESUMO Nesta unidade destacou-se as principais correntes teóricas da Psicologia e suas contribuições para a Educação. Buscou-se responder à indagação sobre como o sujeito constrói o conhecimentos nas perspectivas apresentadas. ATIVIDADES DE APRENDIZAGEM 1. Ilustre uma situação na qual você possa demonstrar os três tipos de comportamento apresentados na teoria behaviorista. 2. Destaque os pontos em que a Gestalt se contrapôs à teoria behaviorista. 3. Explique e exemplifique os conceitos de assimilação, acomodação e equilibração destacados na teoria piagetiana. 4. Explique sua compreensão sobre o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal, apresentado por Vigotski. 5. Explique os conceitos de inconsciente, consciente e pré-consciente em Freud. PARA FINALIZAR Mais uma etapa chega ao fim! Você já é capaz de destacaras principais teorias do desenvolvimento humano e suas contribuições para a aprendizagem. Agora é com você! Releia o texto e elabore um fichamento. Organize suas ideias e mãos à obra!