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O uso de técnicas e recursos terapêuticos na terapia de casal comportamental

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O uso de técnicas e recursos terapêuticos na terapia de casal 
comportamental 
Por 
 ​Denise Lettieri 
Atender casais dentro da perspectiva da análise do comportamento é entender que 
cada díade é única e que irá se comportar conforme a equação da sua história atual 
mais as histórias passadas de relacionamento. Isso significa que vamos atuar no 
processo terapêutico buscando analisar a função dos comportamentos no contexto 
presente da vida do casal como resultantes da soma de experiências e padrões 
comportamentais aprendidos em relacionamentos anteriores, assim como, os 
modelados entre eles. Desse modo, é necessário que as idiossincrasias do casal 
sejam levadas em consideração, não restringindo o processo terapêutico apenas à 
aplicação de técnicas, mas que, somadas a todo o arcabouço teórico que sustenta o 
atendimento, as técnicas sejam usadas como alternativa para os mais diversos fins 
dentro da sessão. 
Del Prette e Garcia (2007) ressaltam que é importante tomar o cuidado de não se 
ater à técnica como sendo todo o processo terapêutico e sim uma parte dele. Ao se 
falar de técnicas, devemos pensar nelas como parte dos procedimentos utilizados na 
terapia de casal, com a finalidade de complementar a atuação do terapeuta, 
auxiliando desde a coleta de dados e identificação das demandas até as 
intervenções. 
É importante dizer que o terapeuta é o responsável por adquirir conhecimento teórico, 
por conquistar a empatia do casal e por tornar o ambiente favorável à exposição dos 
mesmos durante o processo psicoterapêutico. Este processo pode ser compreendido 
como sendo um conjunto de procedimentos que promovem mudanças graduais no 
repertório comportamental dos pares, que ao longo do curso da terapia, vão se 
modificando com as intervenções e com o auxílio dos recursos e técnicas empregados. 
https://www.comportese.com/author/denise-lettieri
Para Ferster, Culbertson e Boren, (1968/1972), a primeira tarefa do terapeuta deve ser 
definir o comportamento de forma objetiva e identificar as contingências que alteram a 
frequência do mesmo. Assim, essa também deve ser a tarefa do terapeuta de casal: 
identificar os problemas e demandas que levam às desavenças destrutivas, à 
comunicação insatisfatória e à baixa qualidade de interação entre o par. 
Para atender a essas finalidades, muitas técnicas foram desenvolvidas nas primeiras 
ondas da terapia comportamental, como, por exemplo, esvanecimento, 
dessensibilização sistemática, reforço diferencial para outros comportamentos (DRO), 
modelação, modelagem, entre outros. Já com o movimento da terceira onda da terapia 
comportamental podemos lançar mão de outras possibilidades. As terapias de terceira 
onda caracterizam-se por serem particularmente sensíveis ao contexto e às funções 
dos fenômenos psicológicos e não apenas a sua forma ou conteúdo. Os tratamentos 
tendem a buscar a construção de um repertório amplo, flexível e eficaz. 
As terapias de terceira geração mais relevantes neste cenário são a Psicoterapia 
Analítica Funcional (FAP, Kohlenberg & Tsai, 1991) e suas regras (estar atento a, 
evocar e reforçar os comportamentos clinicamente relevantes, observar seus efeitos 
nos clientes e fazer a análise), a Terapia de Aceitação e Compromisso (Hayes, Strosahl 
& Wilson, 2011) e sua proposta de técnicas de atenção plena (Mindfulness), a Terapia 
Comportamental Pragmática (Medeiros e Medeiros, 2012) e seu modelo de 
questionamento reflexivo e a Terapia Comportamental de Casal Integrativa 
desenvolvida por Jacobson e Christensen (1992, citado em Cordova e Jacobson, 1993) 
com uma mistura do foco tradicional na promoção de mudança como o foco mais 
recente na promoção de aceitação. 
Considerando todas as ondas da terapia comportamental e a finalidade para qual elas 
trabalham com o emprego de suas técnicas, em todas, as contingências operantes no 
comportamento do cliente são identificadas por meio da análise funcional. Meyer (2003) 
define a análise funcional como a identificação das relações entre os eventos 
ambientais e as ações do organismo, ou seja, devemos especificar a ocasião em que 
as respostas ocorrem, as próprias respostas e as consequências reforçadoras em 
vigor. 
Podemos tomar como exemplo o atendimento de um casal com queixas atreladas à 
vida financeira, em que o relato do marido é que sua esposa controla “todos os seus 
passos”. Já nos relatos apresentados na sessão pela esposa são feitas descrições 
onde ela assume o papel de provedora do lar e de um marido acomodado. Com o 
decorrer do processo, muitos relatos do marido deixam claro que houve um movimento 
de mudança dessa situação, porém, em nenhum deles a esposa apoiou. Ela sempre 
descrevia que “tal emprego” não estava à altura dele. Uma análise possível diante 
desse cenário é que ganhar mais que o marido pode ser funcional para ela, tendo em 
vista que, a partir desse arranjo de contingências, ela o controla e toma todas as 
decisões da vida do casal. 
Depois de realizada uma análise funcional apurada e confirmar essa hipótese, 
podemos lançar mão de alguns recursos terapêuticos para intervir. De modo geral, 
sabe-se que o objetivo da terapia é aumentar o contato com as contingências 
reforçadoras e minimizar o sofrimento do indivíduo (Vermes e cols, 2007). Assim, os 
recursos terapêuticos podem ajudar no aumento da sensibilidade às contingências em 
vigor e da descriminação de regras que sustentam boa parte das inadequações 
dispostas no relacionamento do par. 
A esposa, por exemplo, pode perceber que, apesar de um alto custo, assumir todas as 
despesas pode ser mantido por reforçamento negativo, já que ela se comporta assim 
para evitar que o marido a exponha a um monte de situações em que ela se sinta 
ameaçada. Ela pode identificar regras como “quem tem o dinheiro manda!” e acreditar 
que isso te traz ganhos (alívio, segurança) sem perceber que na verdade ela perde 
(sempre ansiosa, angustiada) pelas consequências produzidas. 
Outros recursos terapêuticos que ainda podemos citar são a operacionalização de 
conceitos, a formação de vínculo, a investigação de forma mais apurada da queixa, a 
evocação de comportamentos clinicamente relevantes, o treino de habilidades, a 
discriminação de estímulos, a dessenssibilização ao falar da queixa, o 
comprometimento com o processo de mudança, a diminuição da polarização entre o 
casal, entre tantos outros. 
Para ilustrar alguns desses recursos podemos citar o exercício do “como eu sou? e 
como ele me vê?” que tem a finalidade de diminuir as distorções entre os conceitos que 
o casal traz a respeito um do outro e de si mesmos. Podemos citar também a “caixa da 
beleza” onde o casal é orientado a trazer para a sessão e colocar em uma caixa 
disponibilizada pelo terapeuta, objetos que representem sentimentos, momentos 
significativos vividos juntos, recordações agradáveis, etc. Cada um é incentivado a falar 
e explicar o objeto escolhido. Outro recurso é o exercício do “amar é…”, onde o 
terapeuta pede que cada um escreva em um papel sua própriadefinição e depois, junto 
com o casal, pode pedir que eles expliquem de forma a operacionalizar esse conceito. 
Esse exercício em especial pode favorecer várias análises do terapeuta a respeito de 
algumas desavenças do casal. 
O próprio questionamento reflexivo proposto pela psicoterapia comportamental 
pragmática é outro exemplo de um recurso que construído pelo terapeuta durante a 
sessão, pode auxiliar o casal a desconstruir regras inadequadas e a formular suas 
próprias autorregras, diminuindo, significativamente seu nível de sofrimento. Um 
exemplo disso seria um casal que sofre forte pressão da família porque escolheram 
não ter filho. No atendimento desse casal, surgem regras ditas por suas famílias 
nucleares como, “para ser um casal completo só faltam os filhos”, “casar e constituir 
família é um objetivo de todo ser humano”. E o casal em função desses determinantes 
sofre, sentindo-se inadequados em sua escolha. O questionamento reflexivo envolve 
cadeias de perguntas abertas que funcionam como estímulos discriminativos verbais, 
os quais criam condições para que o cliente, ao final delas, formule autorregras 
analíticas e/ou modificadoras de comportamento (Medeiros e Medeiros, 2012). Desse 
modo, o casal pode aprender a validar a sua escolha e a experimentar reforçadores 
singulares advindos de seu modelo de relação. 
Por último, podemos mencionar o uso de metáforas nessa proposta de atendimento. 
Skinner discutiu sobre metáfora em seu livro Comportamento Verbal, referindo-se às 
extensões do tato. Ele explica que uma pessoa pode responder a um estímulo com 
base em certas propriedades comuns a outros estímulos (Skinner, 1978). Dessa forma, 
a utilização de metáforas além de terem grandes chances de serem reforçadoras para 
o casal, pode contribuir significativamente para o sucesso da relação terapêutica e a 
adesão ao tratamento, além de ter uma série de outros benefícios, como aumentar a 
sensibilidade para arranjos de contingências em vigor na vida do casal e contribuir para 
evocar comportamentos relevantes, o principal foco da FAP. 
Procurei aqui trazer alternativas com o intuito de auxiliar o psicólogo a ampliar seu 
repertório de atuação e a produzir o entendimento de que cada recurso pode ser usado 
de diversas formas, devendo o terapeuta criar a partir de cada um deles. Desta 
maneira, espera-se que o conteúdo discutido possa contribuir para o enriquecimento 
acadêmico e profissional dos interessados no tema por se tratar de um assunto de 
grande importância na prática clínica com casais. 
É valido ressaltar que essas ferramentas são estratégias produtivas desde que sejam 
empregadas em um contexto terapêutico e que sejam decorrentes de uma análise 
funcional elaborada por um psicólogo habilidoso. 
Referências: 
Cordova, J. V., & Jacobson, N. S. (1993). Crise de Casais. Em D. H. Barlow (Org), 
Manual Clínico dos transtornos psicológicos (pp. 535-567). 2º Ed. Porto Alegre: Artmed. 
Del Prette, G., & Garcia, R. M. (2007). Técnicas Comportamentais: Possibilidades e 
vantagens no atendimento em ambiente extraconsultório. Em D. R. Zamignani, R. 
Kovac, & J. S. Vermes (Orgs.), A Clínica de Portas Abertas (pp. 183-200). Santo André: 
ESETec. 
Ferster, C. B., Culbertson, S. & Boren, M. C. P. (1968/1972). Princípios do 
Comportamento (M. I. R. e Silva, Trad.). São Paulo: Hucitec. 
Hayes, S.C., Strosahl, K.D., & Wilson, K.G. (2011). Acceptance and commitment 
therapy: The process and practice of mindful change (2nd ed.). New York, NY: The 
Guilford Press. 
Kohlenberg, R.J. & Tsai, M. (1991). Functional analytic psychotherapy: A guide for 
creating intense and curative therapeutic relationships. New York: Plenum. 
Medeiros, C. A. & Medeiros, N. N. F. A. (2012). Psicoterapia Comportamental 
Pragmática: uma terapia comportamental menos diretiva. Em C. V. B. B. Pessoa, C. E. 
Costa & M. F. Benvenuti (Orgs.), Comportamento em Foco. v. 01. (pp. 417-436). São 
Paulo: Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental – ABPMC. 
Meyer, S. (2003). Análise Funcional do Comportamento. Em C. E. Costa, J. C. Luzia, & 
H. H. N. Sant’Anna (Orgs.), Primeiros Passos em Análise do Comportamento e 
Cognição (pp.75-91). Santo André: ESETec. 
Skinner, B. F. (1978). O comportamento verbal. (M. da P. Villalobos, Trad.). São Paulo: 
Cultriz. 
Vermes, J. S., Zamignani, D. R., & Kovac, R. (2007). A relação terapêutica no 
atendimento clínico em ambiente extraconsultório. Em D. R. Zamignani, R. Kovac, & J. 
S. Vermes (Orgs.), A Clínica de portas abertas (pp. 201-228). Santo André: ESETec. 
https://www.comportese.com/2014/11/o-uso-de-tecnicas-e-recursos-terapeuticos-na-terapia-
de-casal-comportamental

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