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INTRODUÇÃO GERAL À FILOSOFIA AULA 4 Prof. Robson Stigar 2 CONVERSA INICIAL Nesta aula, vamos conhecer as áreas da filosofia que abordam questões que se referem à prática humana e a forma como essa afeta o mundo. Em especial, vamos abordar os objetos de investigação da ética, estética, filosofia política e filosofia da mente. TEMA 1 – SOBRE AS ÁREAS DA INVESTIGAÇÃO FILOSÓFICA LIGADAS AO MUNDO DA PRÁTICA Como vimos em aulas anteriores, a filosofia é uma área do conhecimento investigativa, que busca refletir sobre a realidade por meio de uma análise radical, rigorosa e sistemática. Dentre os objetos de análise da filosofia, encontram-se os elementos que se relacionam com a vida prática, ou seja, com a forma como os sujeitos significam, atribuem valor, se comportam e convivem socialmente. Tal abordagem da filosofia, entretanto, não pode ser compreendida sem a intrínseca correlação com as teorias que fundamentam a visão de mundo dos pensadores. Dessa forma, o estudo das áreas relacionadas ao mundo da prática pressupõe uma concepção acerca do ser humano, sua função e relação com o mundo. Essas áreas do conhecimento se desenvolvem a partir de um posicionamento não apenas teórico, mas que incluem em si a prática. A relação desses promove o desenvolvimento de uma compressão da realidade denominada de práxis. Segundo Japiassú e Marcondes (2006, p. 224): A palavra grega práxis é usada para designar uma relação dialética entre o homem e a natureza, na qual o homem, ao transformar a natureza, transforma-se a si mesmo. A filosofia da práxis se caracteriza por considerar como problemas centrais para o homem os problemas práticos da de sua existência concreta: toda vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que dirigem a teoria para o misticismo encontram sua solução na práxis humana e na compreensão dessa práxis. Dessa forma, a abordagem filosófica fundamentada na perspectiva da práxis deve ser compreendida como uma análise do contexto real, no qual os sujeitos desenvolvem suas relações de modo intencional, dirigidos a determinado objetivo. Como afirma Noronha (2005, p. 88), a práxis é “constituída de elementos subjetivos como a produção e a interpretação das percepções e 3 emoções, a educação dos sentidos [...] a estruturação de valores, as operações mentais e demais formas de respostas dadas à realidade”. Assim, a práxis e a filosofia relacionada ao mundo da prática se organizam a partir de algumas categorias, como: transformação do meio natural em que vive o homem (conquista e humanização da natureza, modificação, supressão e criação de objetos, transformação das condições naturais da vida humana); criação de distintas formas e instituições da vida humana – das interações, comunicação mútua e trabalho cooperativo e associativo. (Noronha, 2005, p. 89) Nessa aula, em especial, vamos compreender como essa abordagem nos ajuda a compreender a estruturação de valores e o comportamento humano, a atribuição do valor de belo e sua fruição, a forma de organização social e seus impactos na vida humana, além dos fenômenos psicológicos e dos estudos sobre a mente. TEMA 2 – ÉTICA A palavra ética vem do adjetivo grego ethiké, que indica a qualidade daquele que vive segundo a sabedoria prática, a partir da qual a pessoa estabelece seus valores, faz suas escolhas e pauta seus comportamentos. Sob essa ótica, a ética, enquanto disciplina filosófica, versa sobre o comportamento humano, seus fundamentos, de que forma ele deveria ser e sobre os impactos do ser humano na vida e na sociedade. A palavra ética também deriva do substantivo ethos, que pode ser escrito de duas formas em grego: ou que indicam duas realidades distintas, porém correlatas: • o termo se refere a um conjunto de normas e regras estruturadas por um grupo social que o ser humano precisa incluir em sua prática comportamental; e • o termo se refere à reflexão e a vivência coerente das normas e regras, estruturada pelo grupo social em que ele vive. A primeira grafia do termo ethos que indica o conjunto de normas e regras era utilizada na antiguidade para indicar moradia, ou seja, o espaço no qual o ser humano estabelece suas primeiras relações sociais e no qual aprende as primeiras noções de certo e errado, estruturando, assim, seu conjunto valorativo. 4 Aqui, encontramos um dos campos de reflexão da ética enquanto disciplina filosófica: a moral. Segundo Vaz (1999, p. 33), “tal compreensão relaciona-se com a moral, que do latim mores, é denominada como o conjunto dos costumes e normas que são engendrados socialmente e que regem a vida das pessoas que pertencem à sociedade que os criou”. A segunda grafia do termo ethos designa diretamente a práxis do ser humano frente ao mundo. A partir da reflexão autônoma sobre os valores do grupo social do qual pertence, a pessoa estrutura a sua ação e sua conduta. Entretanto, não podemos entender tal postura a partir da premissa do relativismo, pois o comportamento aqui indicado deve ser coerente e constante, não podem ser alterados conforme as ocasiões. Dessa forma, compreendemos que a ética, enquanto disciplina filosófica, tem como missão refletir os valores das diferentes sociedades e tempos históricos, buscando analisar quais são coerentes à visão de mundo do povo. Nesse contexto reflexivo, compreendemos que a moral se relaciona à norma ou regra que rege o comportamento, e que a ética é a reflexão sobre a aplicabilidade dessa. Como afirma Cortina e Martínez (2005, p. 25): As teorias éticas, diferentemente das morais concretas, não buscam de modo imediato responder a perguntas como: o que devemos fazer? ou de que modo deveria organizar-se uma boa sociedade? e sim a estas outras: por que existe a moral? quais motivos – se é que existem - justificam que continuemos a utilizar alguma concepção moral concreta para orientar nossas vidas? quais motivos – se é que existem – avalizam a escolha de uma determinada concepção moral diante de outras concepções? [...] Cada teoria ética oferece uma determinada visão do fenômeno da moralidade e o analisa a partir de uma perspectiva diferente. Durante a história, a reflexão da ética esteve diretamente relacionada às concepções e paradigmas filosóficos de cada tempo, as quais destacamos a seguir. Quadro 1 – concepções e paradigmas filosóficos em cada época Antiguidade A reflexão ética esteve baseada na de virtude, que “é uma qualidade positiva do indivíduo que faz com que esse aja de forma a fazer o bem para si e para os outros” (Japiassú; Marcondes, 2006, p. 278) Idade Média A reflexão ética relacionou-se profundamente com a visão teocêntrica. Dessa forma, os valores de bem e mal derivavam dos aspectos relacionados à fé. “De 5 acordo com essa perspectiva, os valores são transcendentes porque resulta, de doação divina, o que determina a identificação do sujeito moral ao ser temente a Deus” (Aranha; Martins, 2009, p. 252). Modernidade Com a transição do teocentrismo para o humanismo, e posteriormente para o antropocentrismo, a reflexão sobre a ética passa a ter um caráter secularizado. Este caráter valoriza demasiadamente a autonomia da razão, por meio da qual o sujeito faz suas escolhas éticas. Contemporaneidade Há uma potencialização da reflexão ética a partir das premissas seculares. Em especial, destacamos a importância das perspectivas genealógicas que buscaram compreender a estruturação de valores a partir da história ocidental, e também dos aspectos culturais. Nesse período, as reflexões éticas que consideram o ser humano como um ser histórico, e, enquanto tal, como impactado e impactante pela sociedade. Dessa forma, concepções materialistas e existencialistas versam sobre a ação humana. De outro, tendo em vista a necessidadede possibilitar a reflexão e interação entre os indivíduos dos diferentes grupos culturais e sociais, surge a ética do discurso, que visa possibilitar a elaboração de princípios comuns, para uma vivência harmônica na sociedade. Esses modelos teóricos estão diretamente relacionados aos aspectos epistemológicos que estudamos na aula anterior. Assim, cada um dos pensadores, a partir de suas teorias, mas seguindo os modelos teóricos do tempo, ou contribuindo para a mudança desses, elaboraram análises sobre o comportamento humano. Dentre essas destacamos a seguir. Quadro 2 – análises de autores sobre o comportamento humano. Platão (IV a.C.) Afirma que a sabedoria ou o vício identificam-se com a ignorância. Assim, a virtude está relacionada com o alcance do conhecimento do bem. “Alcançar o bem relaciona-se com a capacidade de compreender bem. Distinguindo a sociedade em três classes”, das quais apenas uma era destinada a atingir o nível mais alto de conhecimento: os filósofos. “A esses se 6 dava a capacidade de exercer as virtudes” (Aranha; Martins, 2009, p. 249). Aristóteles (IV a.C.) Fundamentado na percepção de que a essência das coisas se encontra nelas mesmas, e que tudo tente para um fim, Aristóteles analisou o que para o ser humano era o fim último. “Examinando todos os bens desejáveis, tais como os prazeres, a riqueza, a honra, a fama, observa que eles visam sempre a outra coisa e não são fruídos por si mesmos. Pergunta-se então, pelo sumo bem, aquele que em si mesmo é um fim, e não um meio para o que quer que seja. E o encontra no conceito da ‘boa vida’, de ‘vida feliz’”. Essa é encontrada por meio da vivência da virtude, que se constitui “a permanente disposição de caráter para querer o bem, o que supõe a coragem de assumir os valores escolhidos e enfrentar os obstáculos que dificultam a ação”. Para Aristóteles, a “vida moral não se resume só ao ato moral, mas é a repetição do agir moral. Em outras palavras, o agir virtuoso não é ocasional e fortuito, mas um hábito, fundado na capacidade de perseverar no bem” (Aranha; Martins, 2009, p. 250). Immanuel Kant (1724-1804) Em sua obra Crítica da Razão Prática, Kant versa sobre o tema do que pode ser feito, ou seja, quais os parâmetros para o agir moral. Kant parte do princípio que “tudo na natureza age segundo leis, apenas o ser humano age segundo princípios, o que exige dele a capacidade de escolha: portanto só ele tem vontade. E como para agir racionalmente precisa de princípios, a vontade é a razão prática, o instrumento para compreender o mundo dos costumes e orientar o indivíduo na sua ação”. Para isso, o autor salienta a necessidade da existência de um imperativo, um mandamento de origem racional a partir da qual o ser humano baseasse todas as suas ações. Para isso, elabora um imperativo categórico, que “visa a uma ação como necessária em si mesma, ou seja, uma ação boa em si, e não por ter como objetivo outra coisa”. Dessa forma estabelece como imperativo: “age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal” (Aranha; Martins, 2009, p. 253-254). 7 Friedrich Nietzsche (1844-1900) Como vimos em nossa segunda aula, Nietzsche realiza, a partir da Genealogia da Moral, uma transvaloração dos valores, mostrando que os conceitos de bem e mal, bom e ruim, foram construídos socialmente a partir de forças sociais ideológicas múltiplas. Para tanto, ele apresenta a necessidade de que a reflexão da moral considerasse esses aspectos, tornando-se dessa forma perspectivista. Não havendo, assim, valores absoltos, mas inseridos em um tempo, um espaço e um jogo de forças. Martin Heidegger (1889-1976) Pertencente a corrente fenomenológica, Heidegger busca analisar o ser humano inserido na história, um ‘ser-aí’, que não se constitui uma “consciência separada do mundo, mas está numa situação dada, toma conhecimento do mundo que ele próprio não criou e ao qual se acha submetido em um primeiro instante”. Esse mundo é a herança biológica, cultural e temporal. Sob esta ótica, e entendendo que a autonomia é o princípio da ação, Heidegger afirma que o comportamento humano deve ser autêntico, ou seja, deve projetar-se “no tempo, sempre em direção ao futuro. A existência é o lançar-se contínuo às possibilidades sempre renovadas” (Aranha; Martins, 2009, p. 259). Jürgen Habermas (1929) Afirma que no contexto da vivência ética, em um mundo secular e perspectiva, a ética deve pautar-se no diálogo em busca de consensos valorativos. Pauta-se na concepção de razão comunicativa, na qual a interrelação entre os sujeitos é mediada pelo discurso, de caráter processual. “É construída a partir da relação entre os sujeitos, como seres capazes de posicionarem-se criticamente diante das normas. No entanto, a validade das normas não deriva de uma razão abstrata e universal, nem depende da subjetividade narcísica de cada um, mas do consenso encontrado a partir do grupo, do conjunto dos indivíduos” (Aranha; Martins, 2009, p. 261). Podemos perceber que a ética, enquanto disciplina filosófica, possui pressupostos epistemológicos na análise das ações humanas. 8 TEMA 3 – ESTÉTICA A palavra estética vem do grego aisthetikós, que se refere ao ato de perceber ou de sentir, indicando que essa disciplina filosófica se relaciona ao processo de fruição, ou seja, de uma percepção da realidade que impacta a pessoa, despertando nela sentimento de regozijo ou ainda de repulsa. O objeto de estudo da estética não se refere somente às percepções da pessoa, ou ainda à análise das realidades atribuindo às mesmas valores, mas à análise de como essas percepções podem ser estudadas e nelas encontradas uma lógica de organização. Apesar do estudo da estética estar presente desde a antiguidade, ela foi estruturada como disciplina filosófica no século XVIII pelo filósofo alemão Alexander Baumgarten. Esse filósofo concebia a estética como uma ciência com objeto e método próprio, pois ela relaciona a sensação, a percepção e o sentimento à análise racional. Dessa forma, para o autor, a estética dirige a faculdade do conhecimento para a sensibilidade humana. As duas categorias fundamentais por meio das quais a estética desenvolve suas análises são: • o belo, em que é “tudo aquilo que, como tal, suscita um prazer desinteressado (uma emoção estética) produzido pela contemplação e pela admiração de um objeto ou de um ser” (Japiassú; Marcondes, 2006, p. 28); e • o feio, em que, de forma objetiva, é compreendido como a realidade na qual há ausência do belo. Entretanto, considerando que a tal noção reside totalmente no campo da subjetividade, da experiência individual, o conceito de feio também é relacionado com os aspectos de representação. Uma obra humana que visa a imitação ou o retrato da realidade se considerada como feia à medida que distorce o que representa. Sob essa ótica, outra categoria da estética surge: o gosto. Esse não deve ser entendido apenas a partir de uma perspectiva subjetiva e intimista, mas sim como algo que é construído socialmente, e ao qual a pessoa adere, tendo em vista sua visão de mundo. Assim, não existe bom gosto, ou mal gosto, existem padrões de gosto. 9 No que se refere ao estudo da estética, enquanto disciplina filosófica, três autores se destacam. Quadro 3 – reflexões sobre a estética Immanuel Kant (1724- 1804) “Para Kant, a estética transcendental é a ciência de todos os princípios da sensibilidade a priori. Se a estética deve ser uma ciência, não pode ser uma ciência do belo, apenas uma crítica do gosto. Ela é uma teoria dos princípios da sensibilidade, teoria esta que se insere no conjunto da teoria do conhecimento [...] a estética intervém no projeto de uma crítica do juízo para definiro juízo do gosto pelo qual o sujeito pode distinguir o belo na natureza e no espírito: o juízo do gosto não é um juízo do conhecimento; por conseguinte, não é lógico, mas estético, seu princípio determinante só pode ser subjetivo” (Japiassú; Marcondes, 2006, p. 95). Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770- 1831) Desenvolve sua análise sobre a estética a partir da perspectiva da obra de arte. Para Hegel, “a arte não é outra coisa, senão o mais subjetivo desenvolvimento do espírito a partir do real; suas formas históricas representam, cada uma a seu modo, momentos desse desenvolvimento. Assim, a arte [...] é relacionada a determinada civilização”. Hegel compreende a arte inserida em um processo histórico de evolução, tornando-se cada vez mais aperfeiçoada, sendo a arte romântica o ápice “na qual o infinito da intuição dissolve a cada instante as formas fixas” (Japiassú; Marcondes, 2006, p. 95). Theodor Adorno (1903- 1969) Elaborou a teoria Industria Cultural e cultura de massa, na qual os bens culturais e artísticos, como também os padrões de gostos, são elaborados e estruturados a partir da lógica capitalista de consumo, tornando-os produtos de consumo e mercadorias. Para o autor, a arte “massificou-se para o consumo rápido no mercado da moda e nos meios de comunicação de massa, transformando- se em propaganda e publicidade”. Adorno afirma que “sob os efeitos da massificação da indústria e consumo culturais, as artes perdem três de suas 10 principais características: de expressivas, tornarem-se reprodutivas e repetitivas; de trabalho de criação, tornarem-se eventos de consumo; de experimentação do novo, tornarem-se consagração do consagrado pela moda e pelo consumo” Assim, pode-se afirmar que “a indústria cultural vendo cultura, não a recria” (Chauí, 1999, p. 329-330). Sob essa ótica, a estética não pode ser concebida apenas como uma disciplina filosófica ligada à apreciação e análise do belo, mas como crítica da forma como a beleza e a arte são utilizadas pela sociedade como forma de manipulação. TEMA 4 – FILOSOFIA POLÍTICA A filosofia política é a disciplina filosófica que buscar compreender, analisar e teorizar acerca do fenômeno político. Entretanto, tal intento não pode ser dissociado dos fenômenos sociais aos quais a política faz parte. Assim, a filosofia política constituiu-se, até o século XIX, com o surgimento da sociologia, a área do conhecimento que versava sobre os aspectos de organização, constituição e convivência social. Porém, para justificar essa concepção de filosofia política, é necessário retomarmos o conceito de política. Esse termo tem sua origem no grego politeia, que indica aquilo que é realizado na cidade, que no grego polis é concebida como o espaço de organização social no qual a pessoa tem sua participação nas decisões relacionadas à vida pública. Sob essa ótica é que a política pode ser compreendida como a arte de compatibilizar interesses individuais em busca do bem comum. Isso difere da postura de compatibilizar interesses de apenas um grupo de indivíduos, ação essa que Aranha e Martins (2009, p. 267) consideram como “politicagem, falsa política em que predominam os interesses particulares sobre os coletivos”. Esse conceito de política, originário na Grécia, vai recebendo outros contornos ao longo da história. A partir da modernidade, a compreensão da política passa a estar diretamente relacionado com o conceito de poder. Entendido como a capacidade de fazer algo, no contexto das relações humanas, o poder é o que dá ao sujeito a legitimidade para realizar ações e para tomar decisões. No contexto da organização social, essas decisões têm impactos não 11 apenas na vida das pessoas, mas em todo o ambiente que as cerca. Segundo Bobbio (2007), existem três formas pelas quais o poder se manifesta: econômico, ideológico e político, sendo esse último o mais eficaz: O poder político é [...] o sumo poder, isto é o poder cuja posse distingue em toda sociedade o grupo dominante. De fato, o poder coativo [que coage] é aquele de que todo o grupo social necessita para defender- se de ataques externos ou para impedir a própria desagregação interna (p. 83). Compreendendo esses aspectos, vamos conhecer as principais teorias filosóficas, desenvolvidas ao longo da história, que versam sobre a política. Quadro 4 – teorias sobre a política Platão (IV a.C.) Defende uma organização social aristocrática, na qual os governantes possuíam uma natureza superior, voltada para a racionalidade e para o desenvolvimento da justiça. Aristóteles (IV a.C.) Compreende o ser humano como um animal político, ou seja, como aquele que naturalmente tende ao processo de inter-relação. Entendendo que a política é a continuidade da ação ética, o autor defende que a democracia é o melhor tipo de governo, pois nele todos os cidadãos realizavam sua natureza. Nicolau Maquiavel (1469-1527) Compreende que a política tem como principal objetivo a manutenção do poder do Estado, seja ele de qual natureza for. Destaca também que existe uma discrepância entre o ideal e o real na prática política. Em seu livro, O Príncipe, destaca que a função do governante é regular as lutas e tensões de poder no contexto do Estado, fazendo com que esse possa desenvolver-se e consolidar-se. Thomas Hobbes (1588- 1679) A partir de uma visão negativa da natureza humana, afirma que a organização social deve ser de caráter absolutista, no qual o Estado é superior aos seus membros, podendo, assim, regular as suas ações e estabelecer leis que regulem a vida dos sujeitos. Karl Marx (1818-1883) Pontua que a sociedade tal qual está organizada fomenta a desigualdade entre os sujeitos, relegando a alguns o poder não apenas de decisão, mas o poder econômico, por meio do qual os demais são subjugados. Da mesma forma, afirma que essa 12 condição faz parte de um movimento da história, que, por meio de um desdobramento dialético, ocorre pela luta de classes. A filosofia política, não colaborou apenas para a reflexão e análise da organização social, mas também para sua legitimação, como no caso da filosofia de Thomas Hobbes, e sua modificação, como no caso da filosofia marxiana. TEMA 5 – FILOSOFIA DA MENTE A filosofia da mente é uma disciplina filosófica relativamente recente, data da primeira metade do século XX, mais especificamente a década de 1940. Nesse período, os estudos sobre o cérebro humano, principalmente seu funcionamento (neurofisiologia), trouxeram descobertas que permitiram compreender questões relacionadas ao comportamento humano, valores e até crenças. Tais questões reavivaram uma preocupação muito antiga: a mente humana. O que distingue a mente de outros objetos que estão no universo? Qual a natureza do pensamento? Será o pensamento algo imortal e eterno? Serão mente e cérebro uma só e mesma coisa? Será distinção entre espírito e matéria apenas uma ilusão produzida pela nossa linguagem ou pela nossa cultura? (Teixeira, 1994, p. 12) É necessário destacar que a preocupações com a natureza, as funções e as possibilidades da mente são uma constante em toda a história da filosofia. Vejamos no quadro a seguir. Quadro 5 – questões-chave na história da filosofia Platão (séc. IV a.C.) Concebia que o ser humano era composto por duas realidades dicotômicas: alma e corpo, sendo a primeira uma realidade superior, capaz de conhecer a verdade. Isso somente era possível pois a alma continha em si, de forma inata, o acesso à verdade. “A alma, imortal, sentiria o contato direto e íntimo com as realidades anteriores ao nascimento, mas a condição pós-natal do aprisionamento corporal faria alma esquecer a verdadeira situação. A meta da filosofia seria libertar a alma dessa condição ilusória na qual ela é enganada pela finita imitação e encobrimentodo eterno. A tarde do filósofo seria resgatar as ideias transcendentes, trazer de volta 13 um conhecimento das verdadeiras causas e origens de todas as coisas” (Tarnas, 2000, p. 57). Agostinho (354-430) Realizou uma adaptação da teoria platônica de alma para a fé cristã. Afirmava que a alma humana era a única realidade que permitia o conhecimento de Deus, a verdade suprema. “Afirmou também a absoluta dependência da alma em relação a Deus, sem o qual ela não poderia existir, muito menos dispor da capacidade de obter conhecimento ou chegar à realização” (Tarnas, 2000, p. 165). Assim, a crença era uma condição fundamental para a alma ascender à verdade. René Descartes (1596- 1650) Sua compreensão sobre a alma humana pressupunha-se na necessidade de afirmar a existência de uma verdade que pudesse ser abstraída pela razão. Tendo um posicionamento dualista (no qual mente e corpo são realidades distintas), Descartes afirmava que “a alma é entendida como espírito da consciência humana, distintamente pensante. Os sentidos inclinam-se ao fluxo e ao erro, a imaginação é presa de fantástica distorção, as emoções são insignificantes para a compreensão racional segura” (Tarnas, 2000, p. 301). Por esse motivo, o autor afirmava que o único conhecimento seguro é o proveniente da racionalidade pura. Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716) Tinha um posicionamento dualista. “Acreditava na existência de uma harmonia preestabelecida no universo. Mente e corpo não precisariam ter nenhum tipo de ligação, pois, de acordo com a harmonia preestabelecida, tudo o que se passa na esfera do mental encontra um correspondente na esfera do mundo físico. O físico e o mental não precisam ter nenhuma ligação entre si, eles apenas "caminham juntos" como se no início do universo um Deus tivesse programado o mundo ao modo de duas séries que correm simultânea e harmoniosamente” (Teixeira, 1994, p. 12) Sigmund Freud (1856- 1939) Como neurologista, perguntava-se não apenas sobre a fisiologia do cérebro humano, mas a forma como a consciência se manifestava e como ela poderia ser compreendida. Sua teoria “trouxe à luz as profundezas arqueológicas da psique; revelou a 14 inteligibilidade de sonhos, fantasias e sintomas psicopatológicos; iluminou a etiologia sexual da neurose [...] desvendou a pertinência psicológica da mitologia e do simbolismo; identificou os componentes psíquicos estruturais do ego [...] mostrou os mecanismos de resistência , repressão, e projeção, além de uma série de outras percepções que deixaram em aberto o caráter e a dinâmica interna da mente” (Tarnas, 2000, p. 352). Analisando essa trajetória da reflexão sobre a mente, podemos questionar: o que faz com que essa abordagem filosófica que surge na década de 1940 seja diferente da realizada em toda a história da filosofia? Nesse período, os estudos sobre a neurofisiologia se tornaram mais intensos, percebeu-se que a mente, e o seu influxo de possibilidades, era um campo mais amplo do que a análise filosófica tinha considerado até então. Nas décadas de 1950 e 1960, um dos temas centrais da análise da filosofia da mente começa a ser estruturado: a identidade entre mente-cérebro. Essa teoria, de caráter materialista, afirma que os estados mentais são idênticos aos estados cerebrais e que, dessa forma, concepções, comportamentos, valores e crenças estão todas relacionadas às estruturas e funcionamento do cérebro, manifestando-se na atuação da consciência. É importante destacarmos que, no contexto de todas as análises desenvolvidas pela filosofia da mente, encontra-se também o desenvolvimento de uma nova área do conhecimento, que é a psicologia. Essa, em seu início, esteve muito ligada à medicina, principalmente à psiquiatria, e buscava entender os comportamentos considerados anormais. Para tanto, diversos cientistas e pensadores desenvolveram diferentes teorias de explicação da psiqué humana. Se formos, didaticamente, classificar essas teorias, poderíamos dividi-las em: Quadro 6 – teorias sobre a psiqué humana Tendência positivista Compreende que a psicologia “imita claramente a fisiologia [...] não estuda os processos mais complexos do pensamento, por considerá-los inacessíveis ao controle experimental. Volta-se para a observação da percepção sensorial, [...] estabelecendo as relações entre os fenômenos psíquicos e seus substratos orgânicos, 15 sobretudo cerebral” (Aranha; Martins, 2009, p. 389) Tendência hermenêutica Compreende que a psicologia não tem como objeto de estudo fatos objetivos, “pois não percebemos o mundo como um dado bruto, desprovido de significados. Ao contrário, o que percebemos é um mundo para mim, daí a importância do sentido, da rede de significações que envolvem os objetos percebidos: a consciência é doadora de sentidos” (Aranha; Martins, 2009, p. 389). Dessa forma, podemos afirmar que a filosofia da mente é uma das disciplinas da filosofia que estabelece relações intrínsecas tanto com a neurofisiologia quanto com a psicologia, buscando, assim, compreender a mente humana. NA PRÁTICA Como vimos nesta aula, a filosofia possui várias disciplinas que versam sobre o comportamento humano: como ele age, sente, se organiza politicamente e estabelece sua conexão com a realidade. Escolha uma das disciplinas que estudamos nessa aula e busque analisar um fato concreto de sua vida, verificando como a filosofia pode atuar na vida cotidiana. FINALIZANDO Nesta aula, estudamos as disciplinas da filosofia que versam sobre o comportamento humano. A ética se constitui como a disciplina que nos ajuda a refletir os valores morais e, a partir dessa reflexão, desenvolver ações e ter comportamentos que buscam ser coerentes com a realidade. A estética nos ajuda a compreender como as sensações frente à beleza presente na realidade pode ser analisada e compreendida. A filosofia política nos ajuda a compreender a forma como as relações sociais ocorrem, principalmente no âmbito da governança da sociedade. E, por fim, a filosofia da mente nos ajuda a compreender como se dá a relação do ser humano com o meio e como ele se constitui como ser racional. 16 REFERÊNCIAS ARANHA, M L A; MARTINS, M. H. P. Filosofando: introdução à Filosofia. São Paulo: Moderna, 2009. BOBBIO, N. Estado, governo, sociedade: para uma teoria geral da política. São Paulo: Paz e Terra, 2007. JAPIASSÚ, H; MARCONDES, D. Dicionário Básico de Filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. NORONHA, O M. Práxis e Educação. In: Revista HISTEDBR, Campinas, n. 20, p. 86 - 93, dez. 2005. TEIXEIRA, J F. O que é filosofia da mente? São Paulo: Brasiliense, 1994. VAZ, Henrique de Lima. Escritos de Filosofia II: ética e cultura. São Paulo: Loyola, 1988.