Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.
details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

I 
il 
I 
il 
11' 
i 
j 
í 
Talita Camila Gonçalves Nunes 
A PRECARIZAÇÃO NO TELE TRABALHO 
escravidão tecnológica e impactos na saúde 
física e mental do trabalhador 
,~ .. ~ 
·.'-"-.- ~,,., .. , "V:.&~ ' ~'·. ""t' 
_/_;:-- ~\ 
{ J .. ' _z_ __ l JS. ~·, 
.\... & .... , . - __ ,... I ~v 
Belo Horizonte 
2018 
Todos os direitos reservados à Editora RTM. 
Proibida a reprodução total ou parcial, sem a autorização da Editora. 
As opiniões emitidas em artigos de Revistas, Si te e livros publicados pela 
Editora RTM (MARIO GOMES DA SILVA. ME) são de inteira responsabilidade de seus 
autores, e não refletem necessariamente, a posição da nossa editora e de seu editor responsável. 
N972p 
Nunes, Talita Camila Gonçalves 
A precarização no teletrabalho: escravidão 
tecnológica e impactos na saúde física e mental do traball1ador I 
Talita Camila Gonçalves Nunes.- Belo Horizonte: RTM, 2018. 
329 p. 
I. Teletrabalho 2. Saúde mental I. Título 
CDU(1976J 331.8 
ISBN: 978-85-9471-051-2 
Belo Horizonte - 2018 
Conselho Editorial: 
Amauri César Alves 
Editoração Eletrônica e Projeto Gráfico: 
Amanda Caroline 
Capa: Alexandre do Vale Brostel 
Editor Responsável: Mário Gomes da Silva 
Revisão: a autora 
Adriano Jannuzzi Moreira 
Andréa dç Campos Vasconcellos 
Antônio Alvares da Silva 
Antônio Fabrício de Matos Gonçalves 
Bruno Ferraz Hazan 
Carlos Henrique Bezerra Leite 
Cláudio Jannotti da Rocha 
n"'tora RTM. MARIO GOMES DA SU:"'A-ME Cleber Lucio de Almeida 
nw ,vj Daniela Muradas Reis 
Rua João Euflásio, 80 • Bairro Dom Bosco Ellen Mara Ferraz Hazan 
BH. MG. Brasil. Cep 30850-050 Gabriela Neves Delgado 
Jorge Luiz Souto Maior 
Te!: 31-3417-1628 Lívia Mendes Moreira Miraglia 
WhatsApp:(31)99647-1501(vivo) Lorena Vasconcelos Porto 
E-mail : rtmeducacional@yaboo.com.br Marcella Pagani 
Marcelo Fernando Borsio 
Site: www.editorartm.com.br Mareio Tulio Viana 
Loja Virtual: www.rtmeducacional.corn.br Maria Cecilia Máximo Teodoro 
Raimundo Cezar Britto 
Raimundo Simão de Mello 
Renato Cesar Cardoso 
Rômulo Soares Valentini 
Valdete Souto Severo 
Vitor Salino de Moura Eça 
' l 
r 
f 
r 
I 
I 
~ SUMÁRIO 
( 
- \ INTRODUÇAO ...................................................................................... . 
1. O HOMEM E O TEMPO DE TRABALHO: O CAMINHO ATÉ 
A TERCEIRA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL E A QUARTA IDADE DA 
21 
MÁQUINA NO MUNDO GLOBALIZADO ......................................... 25 
2. O TELETRABALHO ........................................................................... 41 
2.1 O Teletrabalho: origem, conceitos e natureza jurídica ................ 41 
2.1.1 O telégrafo óptico ........................................................... 41 
2.1.2 O telégrafo elétrico ......................................................... 44 
2.1.3 Conceitos de Teletrabalho ............................................. 45 
2.1.3.1 JackNilles .................................................................. 45 
2.1. 3.2 Conceitos na doutrina .................................................. 48 
2.2 Elementos caracterizadores do Teletrabalho ............................... 54 
2.2.1 Distância ........................................................................ 55 
2.2.2 Tecnologia ....................................................................... 56 
2.2.3 Organização .................................................................... 59 
2. 3 Modalidades ................................................................................ 61 
2.3.1 Teletrabalho em domicílio -home office ou home work .... 61 
2.3.2 Teletrabalho nômade ........................................................ 62 
2.3 .3 Telecentros ..................................................................... 63 
2.3.4 Telecottages .................................................................... 63 
2.3.5 Teletrabalho Transfronteiríço ......................................... 65 
2.3.6 Teletrabalho por meio de plataformas e aplicativos ........ 65 
2.4 Especificidades ........................................................................... 67 
2.4.1 Vantagens ....................................................................... 67 
2.4.1.1 Para o empregado ......................................................... 67 
2.4.1.2 Para o empregador/tomador de serviços ..................... 70 
2.4.2 Desvantagens ................................................................. 70 
2.4.2.1 Para o empregado ........................................................ 70 
2.4.2.2 Para o empregador/tomador de serviços ...................... 74 
2.5 O novel artigo 6° da CLT ............................................................. 77 
2.6 A Relação de emprego e o Teletrabalho ...................................... 81 
2.6.1 Pessoa Física ................................................................... 82 
2.6.2 Pessoalidade ................................................................... 83 
2.6.3 Onerosidade ................................................................... 85 
2.6.4 Não-eventualidade .......................................................... 87 
Talita Camila Gonçalves Nunes 
246 
I 
APRECARIZAÇÃO NO TELETRABALHO: escravidão tecnológica e impactos na saúde fisica e mental do trabalha or 
6. TELEASSÉDIO MORAL E ACIDENTE DE TELETRABALHO 
6.1 Conceito de assédio moral eletrônico ou teleassédio moral 
O ambiente virtual laboral possui algumas peculiaridades que o diferem 
do ambiente físico da sede empresarial. A viabilidade de permanecer conectado 
com o quadro de trabalhadores permite uma melhor comunicação acerca das ta­
refas a desempenhar, sobretudo o contato direto com os superiores hierárquicos. 
A equipe pode permanecer conectada via grupos de e-mail e outros apli­
cativos como, por exemplo, o WhatsApp, ou outros ligados ao sistema interno 
de cada empreendimento, de modo a possibilitar a interlocução instantânea e 
visível para todos os seus integrantes. 
À vista disso, os trabalhadores estão expostos a diálogos capazes de 
conduzir a consequências positivas ou negativas na vida pessoal e profissio­
nal. Com isso, não se pode deixar de observar que, igualmente, no ambiente 
virtual, a partir da comunicação telemática entre empregado e empregador e 
outros trabalhadores, é factível o assédio moral. 
O assédio moral tradicional, que assim é denominado nessa pesquisa 
para diferenciá-lo do assédio moral eletrônico ou teleassédio moral, é estuda­
do em diversos outros países, como por exemplo, na Suécia e Inglaterra (mob­
bing), EUA (bullying ou harassment), Espanha (psicoterror ou acuso moral), 
França (harcelement moral); Japão (ljime ). Contudo, o mobbing estaria mais 
relacionado à violência organizacional e o bullying à ofensa individual, sendo 
este termo mais amplo que aquele; já o assédio moral se refere a agressões 
mais sutis, e, por conseguinte, mais difíceis de caracterizar e provar. 550 
André Luiz Souza Aguiar assinala Marie-France Hirigoyen como auto­
ra de um dos primeiros trabalhos sobre assédio moral para além da esfera das 
relações de trabalho. Como psiquiatra, psicanalista e psicoterapeuta de famí­
lia, fez diversas pesquisas sobre a temática e ressaltou que o assédio moral 
"não se restringe a casos pontuais, e sim a um comportamento permanente, 
comum, destrutivo, distanciado daquele fato isolado - discussão ou atrito -
que ocasionalmente ocorre entre os indivíduos em uma organização"551 • 
550 HTRIGOYEN, Marie~France. Mal~estar no trabalho: redefinindo o assédio moral. Tradução 
Rejane Janowitzer. 8. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2015. p. 76-87. 
551 HIRIGOYEN, Marie·France. Mal~estar no trabalho: redefinindo o assédio moral. Tradução 
Rejane Janowitzer. 8. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2015. Apud AGUIAR, André Luiz Souza. 
Assédio .. "Joral: o direito à indenização pelos maus·tra.tos e humilhações sofridos no ambiente de 
247 
Talita Camila Gonçalves Nunes 
De acordo com Marie-France Hirigoyen o assédio é "um ato que só ad­
quiresignificado pela insistência". Já a escolha do moral significa estudar do 
fenômeno sob o ponto de vista da ética ou moral, ante os sentimentos de maltra­
to, desprezo, humilhação, rejeição sofridos pela vítima. Assim, a autora define: 
O assédio moral no trabalho é definido como qualquer conduta 
abusiva (gesto, palavra, comportamento, atitude ... ) que atente, 
por sua repetição ou sistematização, contra a diguidade ou in­
tegridade psíquica ou física de uma pessoa, ameaçando o seu 
emprego ou degradando o clima de trabalho. 552 
Vs'2balho. São Paulo: LTr, 2005. p. 20-21. . 
HlRIGOYEN, Mane-France. Mal-estar no trabalho: redefinmdo o assédio moraL Tradução 
Rejane Janowitzer. 8. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2015. p. 16-17. 
553 A autora assinala uma lista de atitudes hostis como método de assédio, divida em quatro categorias: 
deterioração proposital das condições de trabalho; isolamento e recusa de comunicação; atentado contra 
a dignidade e violência verbal, fisica ou sexual. 
554 HIRIGOYEN, Marie-France. Mal-estar no trabalho: redefinindo o assédio moral. Tradução 
Rejaoe Janowitzer. 8. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2015. p. 19-35. 
555 AGUIAR, André Luiz Souza. Assédio Moral: o direito à indenização pelos maus-tratos e 
humilhações sofridos no ambiente de trabalho. São Paulo: LTr, 2005. p. 23. 
248 
A PRECARIZAÇÃO NOTELETRABALHO: escravidão tecnológica e impactos na saúde fisica e mental do trabalhador 
relações desumanas e aéticas, marca as pela assimetria de poder, autoritaris­
mo e manipulações perversas contra trabalhador ou, cada vez mais, entre 
os próprios pares". Entre companhei s de trabalho os motivos são variados: 
pressão por produtividade, competiça interna; liderança que estimula con­
flitos; medo de perder a confiança patro ; vergonha de ser humilhado; inse­
gurança financeira, em caso de demissão e até silêncio voluntário e omissão 
para evitar retaliação por qualquer ato solidário.556 
É de se ver que o assédio moral se verifica seja por um superior hierár­
quico, seja por outros colegas de trabalho. Quando se trata de superior hierár­
quico, as humilhações podem advir em razão da própria posição em que ele se 
encontra; para impor suas vontades e demonstrar poder; por ser pressionado 
por outro superior quanto às metas de produtividade ou realização das tarefas 
de seus subordinados; por insegurança de algum subordinado vir a ocupar o 
seu cargo. Por outros funcionários, o referido assédio ocorre por questões de 
competitividade, primordialmente. 
Entretanto, é necessário que o assédio moral seja velado, premeditado, 
com repetição e ataque às características pessoais da vítima. Não são feitas, 
em regra, críticas objetivas, mas reclamações que ferem diretamente o íntimo 
do indivíduo. O trabalho é um pretexto para o ataque pessoal, e as pessoas 
mais isoladas, que não terão a solidariedade do grupo, são os alvos mais fá­
ceis para o assediador ultimar a destruição psicológica que ambiciona realizar 
consciente ou inconscientemente. 557 
Importa destacar igualmente a deturpação que sofre o termo assédio, que, 
consoante Marie-France Hirigoyen, ocorre no momento em que as pessoas se 
acomodam no papel de vítimas. Algumas não estão interessadas em uma solução 
para os seus males, mas uma vingança contra uma situação considerada injusta ou 
para evitar serem questionadas e assumirem culpas. Há inclusive uma proximida­
de entre a posição de vítima e a falsa alegação de assédio moral. Há sentimentos 
de perseguição (paranoicos ), pessoas perversas e afeitas à intriga, e enxergar o 
assédio em todos os momentos (pois muito têm interesse apenas em vantagens 
pecuniárias) gera uma tendência a se banalizar o instituto. 
556 BARRETO, Margarida Maria Silveira; HELOANI, José Roberto Montes. Da violência moral no 
trabalho à rota das doenças e morte por suicídio. In: VIZZACCARO-AMARAL. André Luís; MOTA, 
Daniel Pestana; ALVES, Giovanni (Orgs). Trabalho e Saúde: A precarização do trabalho e a saúde do 
trabalhador no Século XXI. São Paulo: LTr, 2011. p. 177. 
55? HIRlGOYEN, Marie-France. Mal·estar no trabalho: redefinindo o assédio moral. Tradução 
Rejane Janowitzer. 8. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2015. p. 51-55. 
249 
Ta li ta Camila Gonçalves Nunes 
Margarida Maria Silveira Barreto e José Roberto Montes Heloani des­
tacam ainda que "o sofrimento decorrente das violências morais constitui gri­
tos de advertência para que atuemos e pensemos em políticas preventivas que 
proporcionem um entorno ao trabalho digno e decente"558• 
Há ainda o psicoterror no trabalho, que segundo Lydia Guevara Rarnírez é 
o assédio no sentido de atormentar, intimidar e humilhar o indivíduo, com o fim 
de que este se preocupe, se torture e termine por abandonar o posto de trabalho."9 
E essa violência de ordem psicológica pode vir acompanhada de um desgaste de 
identidade: "é possível reconhecer, nas trajetórias humanas de vida e trabalho, 
muitas vezes, um outro consumo: aquele que corrói a identidade, ao atingir valo­
res e crenças, podendo inclusive ferir a dignidade e a esperança"560 • 
No campo das tecnologias, o assédio moral não é excluído, dado que é 
um comportamento humano, porém, entende-se que ele pode se dar de manei­
ra muito mais intensa, uma vez que os interlocutores não se fazem presentes 
fisicamente. Não se trata de elaborar um conceito que já existe, mas de apre­
sentar uma face do assédio moral, o teleassédio moral, que possui caracterís­
ticas distintas do tradicional, por realizar-se por vias telemáticas. 
A primeira aparição que se tem notícia do termo teleassédio moral encontra­
se na jurisprudência do Tribunal Regional do Trabalho da 18' Região. A 8' Vara do 
Trabalho de Goiânia, em 2013, tratou o caso concreto sob sua análise como nova 
modalidade de assédio moral ou outra forma de se praticar o assédio moral organi­
zacional. Definido como teleassédio moral ou assédio moral eletrônico: 
[ ... ] figura essa peculiar que é engendrada por meio de controles 
por sofwares de computador, se fiscalizando n~o somente a real­
ização das tarefas e da produtividade, mas toda e qualquer atitude 
durante o expediente do empregado, sua conduta, inclusive o tempo 
necessário para "respirar". É a tipica relação gratificação sanção. 
Ou seja, enquanto o empregado cumpre as metas é elogiado; a partir 
do momento que não as cumpre é repreendido [ ... ]561 
558 BARRETO, Margarida Maria Silveira.: HELOANl, José Robe110 Montes. Da violência moral no 
trabalho à rota das doenças e morte por suicídio. In: VIZZACCARO-AMARAL, André Luís; MOTA, 
Daniel Pestana; ALVES, Giovanni (Orgs). Trabalho e Saúde: A precarização do trabalho e a saúde do 
trabalhador no Século XXI. São Paulo: LTr, 2011. p. 177. 
559 RAMÍREZ, Lydia Guevara Una mirada ai mundo dei trabajo. Recopilación monográfi.ca de 
reflexiones sobre violencia laboral, condiciones y medi o ambiente en el trabajo. Universidad Autónoma 
del Estado de México, Campus Universitario Siglo XXl, Facultad de Derecho, s.f. p. 179. 
560 SELlGMANN-SILVA, Edith. Desgaste mental no trabalho dominado. Rio de janeiro: Editora 
UFRJ; Cortez Editora, 1994. p. 80. 
561 BRASIL. Tribunal Regional do Trabalho da 18' Região. Processo n. 10687·35.2013.5.18.8. 
250 
A PRECARIZAÇÃO NO TELETRABALHO: escravidlo tecn lógica e impactos na saúde fisica e mental do trabalhador 
Eliana Saad utiliza a expressão assédio ral virtual, analisando o comporta-
mento do assediador por intermédio das tecnologias de informação c comunicação: 
Transpondo os casos de assédio moral para o ambiente de tra­
balho virtual, referida situação de constrangimento injusto, hu­
milhações surgem, no momento em que o assediador que ocupa 
funç~o hierárquica superior transmite mensagens com palavras 
ofensivas, humilhantes, palavrões ou até mesmo, deliberada­
mente, isola o empregado que executa as tarefas realizadas e 
ao finalizar a tarefa informa toda a equipe, exceto o empregado 
escolhido para ser a "vítima", injustificadamente; outra hipó­
tese, o chefeescolhe certo empregado como alvo implacável de 
discriminação perante os demais colegas de trabalho, com ex­
posição de situação de ridículo ao encaminhar mensagens a todos 
os colaboradores. Portanto, existe similitude no contexto virtual 
das atitudes agressivas que caracterizam o assédio moral. 562 
Do mesmo modo que a organização laboral se adapta às novas tecno­
logias, o comportamento interage com os novos meios de se comunicar indi­
vidualmente ou em conjunto, seja de forma benéfica ou perversa, intencional 
ou inconscientemente. Essa transmissão de ideias e opiniões não pode ser 
deixada à margem no que concerne ao seu conteúdo ante os contemporâneos 
veículos de difusão do trabalho e de interação entre os trabalhadores. 
Assim, define-se como Teleassédio Moral a conduta dirigida ao traba­
lhador, de forma velada ou não, porém reiterada, na qual a vítima fica exposta 
a situação vexatória e humilhante relativa ao trabalho ou a sua pessoa, em 
mensagem por escrito, áudio ou visual, direcionada individualmente ou em 
grupo, por meio de correio eletrônico pessoal ou corporativo, aplicativos de 
mensagens instantâneas ou reuniões virtuais por teleconferência, configurada 
ou não a intencionalidade do agente. 
Sentença. 8". Vara do Trabalho. hliz Luiz Edllardo da Silva Paraguassu. 23/07/2013. Disponível 
em: <http ://sistemas. trt 18 .jus. br I consultasPortal/pages/Processuai s/DetalhaProcesso. seam ?p _num_ 
pje~34355&p__grau_pje='l&popup~O&cid~20916>. Acesso em: 15 out. 2016. Apud NUNES, Talita 
Camila Gonçalves. O acidente de teletrabalho e a fiscalização da tecnologia da telemática: aspectos 
e consequências do teleassédio moral e do teletrabalho escravo. ln: COLGNAGO, Lorena Rezende 
de Mello; CHAVES JUNIOR, José Eduardo de Resende; ESTRADA; Manuel Matin Pino (Coords.). 
Teletrabalho. São Paulo: LTr, 2017. p. 112. 
562 SAAD, Eliana. Assédio Moral Virtua·L Saad & Caste!lo Branco advogados- Portal da Cidadania, 
12 maio 201 I. Disponível em: <http://www.saadcastellobranco.com.brlportallindex.php/2011105/ 
assedio·moral-virtual/>. Acesso em: 16 out. 2016. Apud NUNES, Talita Camila Gonçalves. O acidente de 
teletrabalho e a fiscalização da tecnologia da telemática: aspectos e consequências do teleassédio moral e 
do teletrabalho escravo. In: COLGNAGO, Lorcna Rezende de Mello; CHAVES JUNIOR, José Eduardo 
de Resende; ESTRADA; Manuel Matin Pino (Coords.). Teletrabalho. São Paulo: LTr, 2017. p. 112. 
251 
Talita Camila Gonçalves Nunes 
Conquanto as doutrinas destaquem que o comportamento do assediadór 
seja dissimulado, velado, não se exclui do assédio as condutas que ganhem 
conhecimento de outros funcionários do ambiente laboral. Desde que a situ­
ação não se enquadre nas hipóteses de não assédio elencadas e seja reiterada, 
o conceito de teleassédio moral mantém a conduta velada e a exposta como 
suas hipóteses, uma vez que a mensagem pode chegar não apenas à vítima, 
mas igualmente a outros trabalhadores com acesso aos meios informáticos e 
telemáticos pelos quais a conduta foi difundida. 
Entende-se ainda que no teletrabalho as condutas típicas são muito mais 
incisivas, se comparadas ao assédio moral tradicional. O comportamento in­
dividual tem certo receio de um revide imediato por parte da vítima, essen­
cialtnente de ordem física, por defesa à ofensa que lhe foi dirigida. Pensar o 
meio de comunicação tecnológico como uma facilidade de manifestação do 
ódio e da opressão requer exame minucioso, em virtude da blindagem ofere­
cida pela ferramenta, porque à distância o indivíduo se sente mais confortável 
em assediar em qualquer nível de crueldade. 
Na mesma linha de raciocínio, o assédio moral realizado remotamente por 
um grupo de indivíduos, seja por superior hierárquico e/ou em nível horizontal -
pelos companheiros de trabalho - encontra um campo mais aberto para a prática 
da perseguição. Outros empregados, que na presença física da vítima ignorariam 
o assédio cometido por outrem, em contrapartida, sentem-se mais poderosos- por 
detrás dos correios eletrônicos e aplicativos - para ampliar/ reforçar/ agravar o 
comportamento nocivo de um ou mais colegas de trabalho. 
Nesta pesquisa foram traçadas, em rol exemplificativo, algumas carac­
terísticas peculiares ao teleassédio moral: 
252 
• Ausência de verdadeira autonomia do teletrabalhador: horãrio 
de trabalho (se flexível), local e ritmo de trabalho; 
• Privar o teletrabalhador do acesso aos instrumentos telemáticos 
e informáticos necessários à realização do trabalho; 
• Críticas injustas e exageradas; 
• Acréscimo permanente de novas tarefas e/ou tarefas superiores 
a sua competência ou incompatíveis com a sua saúde; 
• Não pennitir descansos e férias; impedir a promoção; 
• Enviar tarefas ou quaisquer e-rnails em períodos de descanso e 
de férias; 
• Isolamei1to do teletrabalhador nos grupos de correio eletrônico 
e aplicativos de mensagens instantâneas; 
• Envio de vídeos e/ou figuras e emojis de natureza depreciativa, 
injuriosa, violenta ou que ridicularizam o teletrabalhador sem a 
aceitação deste; 
A PRECARIZAÇÁO NO TELETRABALHO: escravidão tecnológica e impa tos na saúde fisica e mental do trabalhador 
• 
• 
• 
• 
• 
• 
• 
Exclusão de reuniões e vide conferências que exigem a pre­
sença do te letrabalhador; 
Difusão de rumores relativos origem, nacionalidade, vida 
privada, deficiência física, crença religiosa ou convicção políti­
ca; 
Ameaças por escrito, ãudio ou vídeo, de violência fisica; 
Invasão de dados do teletrabalhador - e-mails, mensagens em 
aplicativos e documentos em geral, de natureza pessoal ou lab­
oral; 
Envio de vírus ou qualquer procedimento que danifique instru­
mentos eletrônicos, programas de computador ou aplicativos 
móveis; 
Desrespeito à condição de saúde do teletrabalhador e o não for­
necimento de EPI's 
Não envio de profissionais para averiguar as condições de tra­
balho no domicílio ou local de trabalho, para fins de compro­
vação de acidente de trabalho ou de manutenção das ferramentas 
tecnológicas. 
Observe-se que qualquer outra conduta relacionada ao teletrabalho e que 
configure um assédio à pessoa do teletrabalhador será averiguada pelas auto­
ridades competentes, bem como analisada pelo julgador, a fim de coibir refe­
ridas práticas bem como indenizar a vítima em virtude do teleassédio moral. 
Mesmo ao compartilhar do entendimento de que o assédio0,4 moral 
não se aplica a todos os comportamentos que ferem a dignidade da pessoa que 
trabalha, sob pena de o conceito perder a credibilidade no mundo jurídico, 
entende-se que sua existência igualmente não pode ser ignorada. 
O assédio moral é realidade perversa na seara laboral e, ante suas par­
ticularidades, sofrerá mutações quanto ao seu modus operandi aliado às tec­
nologias que surgem a cada dia no cotidiano do teletrabalhador. O compor­
tamento tirano, inerente à natureza humana, não deixa de existir, apenas de 
adapta ao novo meio de transporte tecnológico no qual se permite manifestar. 
6.2 A prova do teleassédio moral 
Uma vez que o teleassédio moral ocorre por meios telemáticos, com mui­
to mais facilidade é possível a produção de provas de natureza documental, que 
estarão à disposição de qualquer das partes com acesso à tecnologia utilizada. 
O assédio moral será verificado por intermédio das mensagens envia­
das ao destinatário pelos seguintes veículos tecnológicos: e-mail particular ou 
corporativo; grupos de e-mail da empresa; grupos de WhatsApp ou qualquer 
253 
Talita Camila Gonçalves Nunes 
outro aplicativo similar; mensagens de texto SMS; via postagens no mural 
ou Messenger do Facebook ou qualquer rede social análoga; vídeo e áudios, 
escuta telefônica, pela comprovação de ferramentas danificadas e sem manu­
tenção ou fornecimento, entre outros. 
Oportuno salientar que no ordenamento jurídico brasileiro são inadmissí­
veis, no processo, as provas obtidas por meios ilícitos, nos termos do art. 5°, LVI 
da Constituição de 1988. Lélia Guimarães Carvalho Ribeiro, sob a ótica do usode aparelhos tecnológicos de monitoração do trabalhador, entende que a prova 
ilícita "só deve ser aceita se a atuação do agente for proveniente de atuação não 
abusiva, aproximando-o de um estado de legítima defesa, por não ter outros 
meios hábeis para chegar ao fim objetivado de demonstrar os fatos emjuízo""1• 
Contudo, a autora destaca que na seara laboral, em virtude da pessoali­
dade presente na relação empregatícia, tanto o empregador quanto o empre­
gado possuem inúmeras maneiras de obter provas de modo a violar direitos 
fundamentais, mormente o direito à intimidade, bem como o direito à imagem 
e ao sigilo das comunicações. Com isso, sendo o meio inevitável e com obser­
vância aos princípios da boa-fé e da proporcionalidade, o juiz poderá admitir 
a prova a fim de atingir a solução da lide. 564 
Todos os tipos de prova por meio tecnológico supracitados, caso sejam 
obtidos ilicitamente, violam a dignidade do trabalhador. Todavia, para a com­
provação do teleassédio moral contra o obreiro, se a prova for considerada ilí­
cita, porém inevitável, obtida sem abusividade e má-fé, será admissível para a 
apuração pelo julgador do caso concreto. 
6.3 Jurisprudência do caso "Ilha sem papel" no TRT da 3• Região 
A jurisprudência do Tribunal Regional do Trabalho da 3• Região revela 
caso de danos morais ocorrido por meios tecnológicos, no qual a reclamante 
pleiteou a respectiva indenização em virtude da situação humilhante e vexa­
tória à qual foi exposta. 
563 RIBEIRO, Lélia Guimarães Carvalho. A monitoração audiovisual e eletrônica no ambiente 
de trabalho e seu valor probante: um estudo sobre o limite do poder de controle do empregador na 
atividade laboral e o respeito à dignidade e intimidade do trabalhador. São Paulo: LTr, 2008. p. 98. 
564 RIBEIRO, Lélia Guimarães Carvalho. A monitoração audiovisual e eletrônica no ambiente 
de trabalho e seu valor probante: um estudo sobre o limite do poder de controle do empregador na 
atividade laboral e o respeito à dignidade e intimidade do trabalhador. São Paulo: LTr, 2008. p. 98-99. 
254 
( 
A PRECARIZAÇÃO NO TELETRABALHO: escravidão tecnológica e impactos na saúde fisica e mental do trabalhador 
A empresa reclamada Brasil Center Comunicações LTD A criou um dis­
positivo, por meio de programa de computador, denominado ilha sem papel, 
com a função de controlar diariamente a produtividade e o cumprimento de 
metas de cada empregado. O monitoramento, realizado por um supervisor, 
permitia que o dispositivo enviasse mensagens diárias para a tela de computa­
dor de seus empregados: elogios, quando as metas eram cumpridas, e ofensas 
- perdedores da ilha, burros, incompetentes - se não cumpridas. 565 
O depoimento testemunhal afirmou que os supervisores destinavam aos 
representantes palavras elogiosas ou de baixo calão e que a reclamante, quan­
do não cumpria as metas impostas diariamente, recebia as mensagens "a bur­
ra da ilha", "incompetente", "deste nível não dá nem pra gari", enviadas pelo 
supervisor. Ainda, salientou que não só a reclamante, mas outros empregados 
que não batiam as metas eram destinatários de mensagens do mesmo teor, e, 
apesar de não ter vistos as mensagens destinadas à reclamante pelo sistema, 
teve conhecimento destas nas reuniões de trabalho. Além disso, a reclamante 
recebia ameaças de dispensa, caso não cumprisse as metas. 566 
O acórdão da Décima Primeira Turma do TRT da 3" Região salientou 
que em vários julgados em face da mesma reclamada se negou provimento à 
pretensão de danos morais por entender que se tratava de mera estipulação e 
cobrança de metas de produtividade, que ocorrem principalmente em comér­
cio e setor bancário, que "não se revelam suficientes à caracterização do assé­
dio moral". Ainda destacou que "a condenação do empregador ao pagamento 
de indenização por dano à esfera moral do empregado exige a comprovação 
da prática de abusos, perseguições infundadas ou atitudes reiteradas voltadas 
a minar a integridade psicológica do obreiro" .567 
565 EMPRESA que utiliza ilha sem papel na cobrança de metas é condenada por assédio moral. Notícias 
do TRT3, 26 nov. 2012. Disponível em: <http://asl.trt3.jus.br/noticias/no_noticías.Exibe_Noticia?p_cod_ 
noticia=7915&p _ cod _are a _noticia==ACS&p _ cod _tipo _noticia= l>. Acesso em: 9 jun. 2017. 
566 BRASIL. Tribunal Regional do Trabalho da 3' Região. Processo n' 0001260-82.2011.5.03.0/43. 
5a Vara do Trabalho de Juiz de Fora. Juiz do trabalho substituto Márcio Roberto Tostes 
Franco. Data: 27/07/12. Disponível em: <http://as J.trt3.jus.br/consulta/detalheProcessol_ O. 
htm?conversationld~4624798>. Acesso em: 9 jun. 2017. 
567 EMENTA: DANO MORAL. COBRANÇAS EXCESSIVAS POR METAS. FORMA PELA 
QUAL SÃO REALIZADAS AS COBRANÇAS. DANO MORAL. CONFIGURAÇÃO. Demonstrada 
a efetiva ocorrência de tratamento humilhante à reclamante, pelas cobranças excessivas da empregadora 
em relação às metas estipuladas, condutas essas aptas à desestabilização emocional da empregada c ao 
enfraquecimento de sua integridade psicológica, bem como caracterizadoras do abuso no exercício do 
poder diretivo, transbordando para o campo da ilicitude, enseja a reparação à esfera moral da obreira, 
circunstâncias que restaram demonstradas na instrução probatória (BRASIL. Tribunal Regional do 
Trabalho da 3" Região. Recurso Ordinário n' O 1260-2011-143-03-00-3-RO. Rei. Desembargador Relator 
255 
Talita Camila Gonçalves Nunes 
Por entender que a cobrança por metas de produtividade e por vendas 
"é válida e integra o poder diretivo do empregador se realizada de forma 
harmoniosa com o princípio da dignidade da pessoa humana e sem ofensa à 
integridade psicológica do trabalhador", no caso em análise, restou provado 
o contrário. A situação vivenciada pela reclamante, vexatória e humilhante, 
ocorrida reiteradamente ao longo da jornada de trabalho e durante todo o pac­
to laboral, enquadrou-se na definição de assédio moral. As cobranças foram 
tidas como vexatórias, agressivas e excessivas, com desrespeito à integridade 
e à dignidade da reclamante, "sentimentos diretamente vinculados ao rebai­
xamento de sua autoestima". Já por outro lado a reclamada não comprovou 
na instrução processual que a cobrança por metas era "adequada, escorreita e 
que buscava motivar sua empregada"568
• 
O Recurso de Revista interposto pela reclamada teve o seu seguimento 
denegado, por não apresentar divergência jurisprudencial vàlida e específica e 
tampouco violação literal e direta de qualquer dispositivo de lei federal ou da 
Constituição da República (artigos 5°, inciso X, e 7°, inciso XXVIII), como 
exige o artigo 896, alíneas "a" e "c", da Consolidação das Leis do Trabalho. 
No que tange ao pedido de dano moral, a pretensão da reclamada demandava 
reexame de fatos e provas, circunstância que encontra óbice na jurisprudência 
da Súmula no 126 do TST, não verificada, desse modo, a ofensa aos artigos 186 
do CC/02 e artigo 5°, inciso X da CR/88. Além disso, destacou-se que a Tunna 
adentrou no cerne da prova e apenas a teve como desfavorável à recorrente. 509 
Jobel Amorim das Virgens Filho entende que em caso de teletrabalho 
ou no exemplo do programa ilha sem papel, um trabalhador ou até uma equi­
pe podem ser submetidos ao constrangimento eletrônico, "cuja repetição é 
evidentemente nociva à dignidade, causando assédio moral, mediante repe­
tição abusiva". Ainda, assinala que o assédio pode ser realizado por siste-
Heriberto de Castro. DJe: 23/10/12. Disponível em: <http://as!.trt3.jus.br/consulta/detalheProcesso 1_0. 
htm?conversationld=l624798>. Acesso em: 9 jun. 2017) 
568 BRASIL. Tribunal Regional do Trabalho da 3" Região. Processo n" 0001260-82.2011.5.03.0143. 
Y Vara do Trabalho de Juiz de Fora. Juiz do trabalho substituto Márcio Roberto Tostes 
Franco. Data: 27/07/12. Disponível em: <http://as l.trt3.jus.br/consulta/detalheProcessol_O. 
htm?conversationld=4624798>. Acesso em: 9 jun. 2017. 
569 BRASIL. Tribtmal Regional do Trabalho da 3a Região. Recurso Ordinário n° 01260-
2011-143-03-00-3.Turma Recursal de Juiz de Fora. Desembargador Marcus Moura 
Ferreira. 3!/01/13. Disponível em: <http://as!.trt3.jus.br/consulta/detalheProcesso I_ O. 
htmJ sessionid~ IE6C31B430 I OOASD I B DB04EC I CC !23E3. vm-jb5-prd-a?conversationld~4582632 
>.Acesso em: 9 jun. 2017. 
256 
APRECARIZAÇÃO NOTELETRABALHO: escravidllo tecnológica e impactos na saúde tísica e mental dD trabalhador 
ma de computador, mensagens SMS, rastreamento ilícito de computadores 
e e-mails, dirigido "de modo padronizado a uma coletividade de vítimas".570 
Um detalhe importante a se destacar é que, consoante depoimento na 
instrução processual, a reclamante, quando presente nas reuniões de traba­
lho, não era alvo das mesmas mensagens enviadas por dispositivo, exceto a 
designação de "incompetente". É de se ver que o dispositivo ilha sem papel 
era o canal pelo qual o supervisor se sentia mais à vontade para fazer uso de 
palavras de baixo calão como ofensas direcionadas à reclamante, com com­
portamento distinto na presença física. 
O caso em tela é só mn exemplo da possibilidade de assédio que pode 
sofrer o teletrabalhador por vias telemáticas, seja de modo individual ou na pre­
sença virtual de outros empregados da mesma empresa, por grupos de e-mai/ 
ou aplicativos. Fato é que o assédio moral por intennédio de ferramentas tec­
nológicas é capaz de ser executado com muito mais intensidade, exatamente 
pelo fato de se operar remotamente, e por essa razão é denominado teleassédio 
moral. E, pelo exposto, magistrados não terão muitas dificuldades em analisar 
a conduta ilícita, se os meios tecnológicos registrarem as mensagens destinadas 
à vítima, o que é uma vantagem em favor do teleassediado na era tecnológica. 
6.4 O acidente de teletrabalho e doenças ocupacionais telelaborais 
Não se pode perder de vista a possibilidade de ocorrência do acidente 
de trabalho no âmbito telelaboral - sob pena de sacrificar em demasia o te­
letrabalhador que sofre um infortúnio em virtude da execução do trabalho -, 
ainda que esse reconhecimento possa enfrentar dificuldades no momento da 
produção da prova. 
A Constituição de 1988, em seu art. 7°, inciso XXVIII, assegura ao traba­
lhador o seguro contra acidentes de trabalho, sob responsabilidade do empregador 
e sem a exclusão da indenização por este devida, caso incorra em dolo ou culpa. 571 
570 VIRGENS FILHO, Jobel Amorim das. Assédio moral eletrônico e teleassédio moral: um novo 
desafio para os operadores do direito do trabalho. Jus Navigandi, Teresina, ano 17, n. 3456, 17 ,d~z. 
2012. Disponível em: <http://jus.eom.br/artígos/23225> Acesso em: 18 out. 2016. ApudNUNES, lahta 
Camila Gonçalves. O acidente de teletrabalho e a fiscalização da tecnolog1a da telematlca: aspectos 
e consequências do teleassédio moral e do teletrabalho escravo. In: COLGNAGO~ Lo:ena Rezende 
de Mello; CHAVES JUNIOR, José Eduardo de Resende; ESTRADA; Manuel Matm Pmo (Coords.). 
Teletrabalha. São Paulo: LTr, 2017. p. 112. 
571 SOUZA, Fabiano Coelho de; AZEVEDO NETO, Platon Teixeira de (Orgs.). Consolidação das 
leis do trabalho. Constituição Federal. Legislação. 22. ed. São Paulo: Rideel, 2016. p. 15. 
257 
Talita Camila Gonçalves Nunes 
. Já a CLT, n~s termos do artigo 157, dispõe que é dever da empresa cum­
~nr e ~azer curnpnr as normas de segurança e medicina do trabalho, bem como 
mstrmr os empregados, mediante ordens de serviço, quanto às precauções a 
tomar no sentido de evitar acidentes do trabalho ou doenças ocupacionais. 
. Mantém-se, assim, o suporte normativo trabalhista que visa prevenir 
actdentes ou doenças ocupacionais, que não exclui de sua tutela o teletraba­
lho, uma vez que o disposto na lei abrange todas as formas de emprego. 
, . Com relação a dados estatísticos de acidente laboral, segundo Nota 
Tecmca do DIEESE de setembro de 2016572, as estimativas ainda não alcan­
çam a realidade, visto que não abrangem trabalhadores informais- aproxima­
damente 50% -, trabalhadores autônomos e trabalhadores públicos de regime 
estatutário. Há uma ação permanente para descaracterização de acidentes e 
doenças, bem como recusa de emissão de CAT por parte de empresas e orga­
nizações. Fato é que quanto maior o número de acidentes, maior é a contribui­
ção das empresas ao Seguro de Acidente do Trabalho (SAT), o que justifica a 
elevada tendência à subdeclaração e constante ação para mudança de regras 
nos indicadores de acidente: 
Essa subdeclaração atende a interesses econômicos e políticos 
facilmente identificáveis. De um lado, mascaram a crua reali­
dade do trabalho no interior das empresas e organizações im­
pedindo o melhor alcance das políticas públicas tanto na correta 
identificação dos problemas, quanto na ação para debelá-los. e 
de outro, contribuem para a redução- quando não isenção ple­
na - das penalidades financeiras e sanções administrativas às 
empresas e organizações com grandes e graves números de aci­
dentes e adoecimento pelo exercício do trabalho. 573 
O DIEESE atua exatamente como fonte reveladora do quadro de ocul­
tação da gravidade dos indicadores de saúde do trabalhador ante a precariza­
ção das informações.'" É também "revelador da dificuldade de se negociar 
572 
DEPARTAMENTO INTERSINDICAL DE ESTATÍSTICAS E ESTUDOS ECONÔMICOS. 
DIEESE. A saúde dos índices de saúde do trabalhador. Nota Técnica n° 162, set. 2016. Disponível em: 
<https:/ /www.dieese.org. br/notatecnica/20 16/notaTec 162Saude. pdt>. Acesso em: 6 maio 2017. 
573 
Segundo o DIEESE, as informações sobre acidentes de trabalho compõem o cálculo do Fator 
Acidentário de Prevenção (FAP), indicador que serve de base para o cálculo do Seguro de Acidente do 
Trabalho (SAT) 
574 
· . . "Os dados pode~ ser acessados no si te do Ministério, por meio de um sistema que pennite que 
o VISitante faça pesqutsa sobre o número de acidentes de trabalho por estabelecimento, de forma bem 
simples. Basta digitar o CNPJ do estabelecimento no campo de consulta e qualquer cidadão, empresa, 
organização ou entidade sindical terá acesso à frequência absoluta e relativa de acidentes de trabalho e 
258 
/ 
A PRECARIZAÇÃO NO TELETRABALHO: escravidão tecnológica e impactos na saúde fhica e mental do trabalhador 
cláusulas de proteção à saúde do trabalhador que, em geral, reiteram a legis­
lação e/ou são insuficientes para responder à complexidade das situações de 
trabalho nos vários setores produtivos". As informações sobre acidente de 
trabalho auxiliam na atuação sindical com a finalidade de melhora nas condi­
ções de trabalho e defesa da saúde laboral. 575 
Na primeira edição do Anuário da Saúde do Trabalhador 2015576, publicado 
em 2016 pelo DIEESE, foi demonstrado que no Brasil, entre 2003 e 2013, o núme­
ro de acidentes do trabalho liquidados cresceu 78,6%, com uma variação de 413 mil 
para 73 7 mil. Entre as consequências, o número de óbitos obteve um aumento de 
8,3%, sendo que a maioria dos acidentes resulta em incapacidade temporária, que, 
em 2013, foram consequência de 82,8% do total dos acidentes liquidados. 577 
Na classificação do Anuário sobre as dez doenças mais frequentes entre 
2003 e 2013, ocasionadas por acidente de trabalho, com e sem CAT registra­
da, destaca-se a dorsalgia- dor nas costas- com um registro total de 12.780 
acidentados em 2003 e 34.253 acidentados em 2013578 Observa-se que o au­
mento quase triplicou em um decênio, sendo esta doença uma das que tem 
maiores chances de atingir o teletrabalhador. 
Conforme a distribuição das pessoas de 18 anos ou mais que nas últimas sema­
nas deixaram de realizar quaisquer atividades habituais segundo o principal motivo 
em 2013, em 2° lugar o motivo principal é "dor nas costas, problema no pescoço ou 
na nuca", em números absolutos de 1.474. 674 milhões de pessoas registradas579 
aos beneficios que forrun gerados por esses acidentes." O endereço para pesquisa está disponível em: 
BRASIL. Ministério do Trabalho e Previdência Social. MTPS. Acidentalidade por CNPJ. Disponível 
em: <http://www.previdenciagov.br/a-previdencialsaude-e-seguranca-do-trabalhador/acidentalidade­por-cnpj!>. Acesso em: 17ju1. 2017. 
575 DEPARTAMENTO JNTERSJNDJCAL DE ESTATÍSTICAS E ESTUDOS ECONÔMICOS. 
DIEESR. A saúde dos índices de-saúde do trabalhador. Nota Técnica n° 162, set. 2016. Disponível em: 
<https://www.dieese.org.br/notatecnica/2016/notaTecl62Saude.pdf>. Acesso em: 6 maio 2017. p. 4. 
576 DEPARTAMENTO JNTERSJNDICAL DE ESTATÍSTICAS E ESTUDOS ECONÔMICOS. 
DlEESE. Anuário da saúde do trabalhador. 2016. Disponível em: <http://www.diecse.org.br/ 
anuario/2016/ Anuario_Saudc _ Trabalhador.pd:t>. Acesso em: 6 maio 2017. 
577 Acidentes de trabalho liquidados: Correspondem aos acidentes cujos processos fordlTI encerrados 
administrativamente pelo INSS, depois de completado o tratamento e indenizadas as seque las. p. 246. 
578 DEPARTAMENTO INTERSINDICAL DE ESTATÍSTICAS E ESTUDOS ECONÔMICOS. 
DIEESE. Anuário da saúde do trabalhador. 2016. Disponível em: <http://www.dieese.org.br/ 
anuario/2016/Anuario_Saude_Trabalhador.pdf.>. Acesso em: 6 maio 2017. p. 164-165. 
579 DEPARTAMENTO INTERSINDICAL DE ESTATÍSTICAS E ESTUDOS ECONÔMICOS. 
D1EESE. Anuário da saúde do trabalhador. 2016. Disponível em: <http://www.dieese.org.br/ 
anuario/2016/Anuario_Saude_Traba1hador.pdf.>. Acesso em: 6 maio 2017. p. 206. 
259 
Talita Camila Gonçalves Nunes 
O teletrabalho não aparece nos dados estatísticos oficiais, todavia, com 
o avançar tecnológico e o crescimento da atividade laboral nesse âmbito, ain­
da que parcialmente registrado, em um futuro próximo essas estimativas farão 
patte dos resultados das pesquisas nacionais relativas a acidente de trabalho. 
O conceito de acidente do trabalho, nos termos do art. 30 do Dec. n° 
3.048/99, conforme Sebastião Geraldo de Oliveira, é genérico: 
[ ... ] entende-se como acidente de qualquer natureza ou causa 
aquele de origem traumática e por exposição a agentes exógenos 
(físicos, químicos e biológicos), que acarrete lesão corporal ou 
perturbação funcional que cause a morte, a perda, ou a redução 
permanente ou temporália da capacidade 1aborativa.580 
Uma crítica se faz a este conceito por não assegurar qualquer pretensão a inde­
nizações em face do empregador, mas tão somente beneficios previdenciários.581 
A norma legal previdenciária disposta na Lei n° 8.213/91 não define o 
acidente em si, mas o indica como o ocorrido em decorrência de "exercício 
do trabalho a serviço da empresa ou pelo exercício do trabalho dos segura­
dos referidos no inciso VII do art. 11 desta lei, provocando lesão corporal ou 
perturbação funcional que cause a morte ou a perda ou redução permanente 
ou temporária, da capacidade para o trabalho" (art. 19). Nesse caso, entre a 
atividade do empregado e o acidente é necessária a existência do nexo cau­
sal, sendo expressa a exigência de evento que decorra do trabalho exercido a 
serviço da empresa.'" 
Com alicerce no referido conceito legal, Sebastião Geraldo de Oliveira 
identifica as características inerentes ao acidente do trabalho, quais sejam: 
evento danoso; decorrente do exercício de trabalho a serviço da empresa; que 
provoca lesão corporal ou perturbação funcional; que causa a morte ou a per­
da ou a redução, pern1anente ou temporária, da capacidade para o trabalho.583 
580 OLIVEIRA, Sebastião Geraldo de. indenizações por acidente de trabalho e doença ocupacional. 
5. ed. São Paulo: LTr, 2009. p. 42. 
581 OLIVEIRA, Sebastião Geraldo de. Indenizações por acidente de trabalho e doença ocupacional. 
5. ed. São Paulo: LTr, 2009. p. 42. 
582 OLIVEIRA, Sebastião Geraldo de. Indenizações por acidente de trabalho e doença ocupacional. 
5. ed. São Paulo: LTr, 2009. p. 44. 
583 OLIVEIRA, Sebastião Geraldo de. Indenizações por acidente de trabalho e doença ocupacional. 
5. ed. São Paulo: LTr, 2009. p. 43. 
260 
A PRECARJZAÇÃO NO TELETRABALHO: escravidão tecnológica e impactos na saúde tlsica e mental do trabalhador 
Com relação especificamente ao acidente do trabalho e origem dos 
transtornos mentais, o acidente poderá atuar de forma direta e indireta. As 
sequelas psiquiátricas de acidentes de trabalho se divide em duas categorias 
principais: a) distúrbios decorrentes diretamente das lesões orgânicas- trau­
matismo crânioencefálico, por exemplo, também constante na lista de trans­
tornos mentais da portaria MS N. 1.339/99; b) aquelas em que o trauma psí­
quico é produzido de modo a suscitar transtornos mentais no curto, médio ou 
longo prazo- reação aguda ao estresse e quadros dissociativos (curto prazo), 
episódios depressivos e transtorno de estresse pós-traumático, bem como es­
tados psíquicos marcados por vivências de estar sob ameaça e perseguição 
(médio prazo), quadros psicóticos não orgânicos (médio ou longo prazo). 584 
Ao teletrabalho, sem incerteza, o que se pretende não é somente a pos­
tulação de benefícios previdenciários, mas igualmente assegurar a indeniza­
ção em face do empregador, razão pela qual o conceito legal de acidente do 
trabalho é o mais apropriado para enquadrar todos os fatos típicos acidentá­
rios que se verificam no exercício do trabalho a distância.585 
O que há de mais concreto quanto à realização do trabalho remoto é a 
possibilidade de desencadear doenças no exercício dessa modalidade. E estas 
igualmente são consideradas acidente de trabalho na seara previdenciária. 
Sebastião Geraldo de Oliveira destaca que, "desde a primeira lei aci­
dentária de 1919, as doenças provocadas pelo trabalho do empregado são 
consideradas como acidente do trabalho"586
• Desse modo, são acidentes do 
trabalho a doença profissional - produzida e desencadeada pelo exercício 
do trabalho peculiar a determinada atividade (doença ocupacional, dispensa 
prova do nexo de causalidade) e a doença do trabalho - adquirida e desenca­
deada em função das condições especiais em que o trabalho é realizado (exige 
prova do nexo, via de regra, por perícia ou inspeção). Ambas constantes da 
relação elaborada pelo Ministério do Trabalho e Previdência Social (art. 20 da 
Lei 8213/91, incisos I e II).587 
584 SELIGMANN-SILVA, Edith. Trabalho e desgaste mental: o direito de ser dono de si mesmo. São 
Paulo: Cmiez, 2011. p. 310. 
585 s NUNE , Talita Camila Gonçalves. O acidente de teletrabalho e a fiscalização da tecnologia da 
telemática: aspectos e consequências do tcleassédio moral e do teletrabalho escravo. In: COLGNAGO, 
Lorena Rezende de Mello; CHAVES JUNIOR, José Eduardo de Resende; ESTRADA; Manuel Matin 
Pino (Coords.). Teletrabalho. São Paulo: LTr, 2017. p. 113. 
586 OLIVEIRA, Sebastião Geraldo de. indenizações por acidente de trabalho e doença ocupacional. 
5. ed. São Paulo: LTr, 2009. p. 45. 
587 BRASIL. Consolidação das Leis do Trabalho, Código de Processo Civil, Constituição Federal, 
261 
Talita Camila Gonçalves Nunes 
Oportuno assinalar os acidentes sofridos pelo segurado que se equipa­
ram a acidente de trabalho, ainda que fora do local e horário de trabalho: a) 
na execução de ordem ou realização de serviço sob a autoridade da empresa; 
b) na prestação espontânea de qualquer serviço à empresa para lhe evitar pre­
juízo ou proporcionar proveito; c) em viagem a serviço da empresa, inclusive 
para estudo quando financiada por esta dentro de seus planos para melhor 
capacitação da mão de obra, independentemente do meio de locomoção uti­
lizado, inclusive veículo de propriedade do segurado; e d) no percurso da 
residência para o local de trabalho ou deste para aquela, qualquer que seja o 
meio de locomoção, inclusive veículo de propriedade do segurado. Há ainda 
o parágrafo primeiro que dispõe que "nos períodos destinados a refeição ou 
descanso, ou por ocasião da satisfação de outras necessidades fisiológicas, no 
local de trabalho ou durante este, o empregado é considerado no exercício do 
trabalho" (mi. 21, inciso IV da Lei no 8.213/91).588 
Elencado expressamente o inciso IV do artigo 21 da Lei 8213/91, não 
significa que sua totalidade não se aplica ao teletrabalho. Fato é que essas 
circunstâncias necessitam ser adequadas ao trabalho remoto ou- na pior das 
hipóteses - é necessária uma exclusão expressa dequalquer das espécies de 
acidente e respectivas equiparações em regulamentação específica do trabalho 
a distância ou em alteração legislativa na própria norma previdenciária, que 
exclua a referida modalidade nos artigos ou incisos de acidente do trabalho. 
Mas polêmicas de toda ordem poderão surgir acerca do acidente de 
trabalho no teletrabalho. Pode-se questionar se será caracterizado acidente do 
trabalho o infortúnio ocorrido em casa no trajeto do escritório do teletraba­
lhador ao banheiro; se o mesmo ocorrerá se, durante a jornada telelaboral, o 
trabalhador cair da escada para atender o carteiro ou sofrer uma queimadura 
por estar preparando o café durante o intervalo de teletrabalho. 
Essas são hipóteses que ainda não possuem um entendimento majori­
tário na doutrina ou legislação específica que garanta a segurança jurídica do 
acidentado teletrabalhador. A princípio, entende-se que a legislação previden­
ciária se aplica integralmente ao teletrabalhador. Isso porque não é o fato de 
estar em casa ou em local diverso que justifica a exclusão da aplicação da lei 
de acidente de trabalho. Estando em casa ou na sede empresarial, o relevante 
Legislação trabalhista e Processual Trabalhista, Legislação Previdenciária. 14. ed. ver. ampl. e atual. 
São Paulo: Revista dos Tribunais- RT Mini Códigos, 2013. p. 1281. 
588 BRASIL. Conso/idaçlío das Leis do Trabalho, Código de Processo Civil, Constituiçiio Federal, 
Legislação trabalhista e Processual Trabalhista, Legislação Previdenciária. 14. ed. ver. ampl. e atual. 
São Paulo: Revista dos Tribunais- RT Mini Códigos, 2013. p. 1281-1282. 
262 
( 
A PRECARJZAÇÁO NOTELETRABALHO: escravidão tecnológica e impactos na saúde física e mental do trabalhador 
para averiguar o acidente permanece sendo a prova do evento dan?so e do 
nexo de causalidade existente entre a atividade do empregado e o actdente. 
Além disso, se a legislação protege o trabalhador no percurso da resi­
dência para o local de trabalho por equiparação à acidente d_o _tr~balho, por~ue 
não estaria o teletrabalhador protegido no percurso do escntono ao banhetro, 
ou do escritório até a porta de sua residência, durante a jom~?~ telel~~oral? 
E se 0 infortúnio ocorrer durante o intervalo de almoço, a let Ja prev~ tgu~l­
mente que no período destinado à refeição ou descm1so, ou por satisfaça~ 
das necessidades fisiológicas, no local ou durante o trabalho, o empregado e 
considerado no exercício do trabalho. 
Compreende-se, portanto, que qualquer exceção legislativa ou interpreta­
ção com 0 escopo de excluir o teletrabalhador das hipóteses já consohdadas no 
ordenamento jurídico acerca do acidente do trabalho, serão propostas com o fim 
único e exclusivo de precarizar o teletrabalho e desproteger o teletrabalhador. 
Denise Pires Fincato assevera que o maior problema está no trabalho em 
domicílio, porquanto será extremamente dificil distinguir um_ acid~?te laboral d: 
um doméstico. Com relação às enfermidades, autora exemphfica: q~em podera 
dizer ao certo se a lesão lombar do empregado se fez em função da ma postura na 
prestação do teletrabalho ou em decorrê~ c i~ ~e carregar tijo~os _na reforma que faz 
em sua residência?". E a origem da lesao e tmportante, pots e pelo teor d~ CAT 
que 
0 
telempregado será enquadrado no beneficio previdenciário a ser recebtdo. 
589 
Assim, segundo a autora, não se afasta a possibilidade de o?orrência de 
acidente do trabalho; 0 que ocorre é a dificuldade em provar o act~ente com.o 
laboral. Com base na doutrina espanhola, o lugar do trabalho estana presumi· 
do pelo domicílio ou telecentro, bastando ao e.mpre~ado ~azer prova ~o local 
e hora do acidente. Já nos contratos com horárto flextv~l, t_nverte-se o onus da 
prova para 0 teletrabalhador (assim como o fato_ constitutiVO no Brasil), co~ 
reserva ao beneficio da dúvida ao trabalhador actdentado. No teletrabalho no­
made, a autora denomina o acidente como "de missão", .no qual se ~tspensa 
prova do nexo por presunção legal na lei espanhola. No actd;nt~ de traJe~o, ~~~ 
sente presunção legal, é necessário provar que estava em transito a servtço. 
589 FINCATO Denise Pires. Acidente do trabalho e teletrabalho: novos desafios à ~ignidade do 
' d · &J t' p rtoAlegre v2 n 4 p 146-173 JUl.iset.2008. trabalhador. Revista Direitos Fun amentms us tça. o , · , · , · • 
~~~. . . d 
590 FINCATO Denise Pires. Acidente do trabalho e teletrabalho: novos desafios à ~1gmdade o 
' · & J · p rtoAlegre v 2 n 4 p 146-173.jul./sct. 2008. trabalhador. Revista Direitos Fundamentais ust1ça. o , · • · • · -
p. 158-160. 
263 
Talita Camila Gonçalves Nunes 
Quanto às doenças decorrentes de realização de teletrabalho inadequà­
do - por descumprimento de instruções, excesso de jornada, entre outros -, 
que acarrete lesões de ordem física e psíquica ao teletrabalhador, é indubitá­
vel que, na análise do caso concreto com o preenchimento de seus pressupos­
tos específicos, será identificado o acidente do trabalho. 
Nesse contexto, por apreender que o acidente do trabalho no âmbito do 
teletrabalho apresenta peculiaridades- que não representam fatores de exclu­
são, mas tão somente características distintas que necessitam ser adequadas à 
legislação vigente-, é possível conceituar o acidente de teletrabalho. 
Ampliando o conceito já elaborado pela autora em estudos e publi­
cações anteriores a essa obra, conceitua-se como acidente de teletrabalho o 
acidente ou doença adquirida no exercício ou em razão de qualquer evento 
danoso dentro e fora do local de teletrabalho, principalmente em virtude do 
excesso de fiscalização e de cobrança de metas por meio da tecnologia da 
telemática a serviço da empresa, acarretando a morte ou incapacidades de 
ordem fisica e psíquica, que impedem o teletrabalhador de exercer temporária 
ou permanentemente qualquer atividade anteriormente exercida. 
Autores como Manuel Martín Pino Estrada sustentam que o acidente de 
trabalho pode ocorrer no teletrabalho subordinado ou autônomo, visto que os 
teletrabalhadores estão sujeitos a riscos, e em virtude da existência de legislação 
que dispõe sobre o acidente do trabalho fora da empresa. Não obstante a legisla­
ção seja silente especificamente quanto ao teletrabalho, realizada uma interpre­
tação extensiva, é possível averiguar os acidentes de trabalho nessa modalidade 
"com extensão também para os mundos virtuais, redes sociais, convergência 
tecnológica, computação em nuvem ou cloud computing e até a robótica"591 • 
Importante mencionar que, no que se refere à proteção previdenciária 
nos casos de acidentes do trabalho e doenças profissionais, conforme Deni­
se Pires Fincato, esta deverá se dar sob nova ótica com relação às perícias 
médicas. Os peritos deverão "analisar a situação específica do teletrabalho 
para concluir pela natureza acidentária ou não da incapacidade do teletra­
balhador". A perícia não poderá ser feita como as perícias padronizadas dos 
591 ESTRADA, Manuel Martín Pino. Teletrabalho & Direito: o trabalho à distância e sua análise 
jurídica em face aos avanços tecnológicos. Curitiba: Juruá, 2014. p. 88. Apud NUNES, Talita 
Camila Gonçalves. O acidente de teletrabalho e a fiscalização da tecnologia da telemática: aspectos 
e consequências do teleassédio moral e do teletrabalho escravo. In: COLGNAGO, Lorena Rezende 
de Mello; CHAVES JUNIOR, José Eduardo de Resende; ESTRADA; Manuel Matin Pino (Coords.). 
Teletraba/ho. São Paulo: LTr, 2017. p. 114. 
264 
í 
A PRECARIZAÇÃO NO TELETRABALHO: escravidão tecnológica e impactos na saúde fisica e mental do trabalhador 
trabalhadores regulares e os peritos deverão estar aptos para "apurar diferen­
ças sutis entre o ambiente laboral e a residência do teletrabalhador e entre 
atividades profissionais e pessoais executadas no âmbito doméstico"."' 
Cabe ressaltar que, no teletrabalho, o risco de acidente e de doenças ocu­
pacionais poderá recair sobre o empregado, quando este agir de modo contrário 
às instmções e treinamentos - imprescindíveis - para a execução do labor.To­
davia, o empregador não se exime da responsabilidade quando incorre na falta 
de fornecimento das instmções básicas para a realização do trabalho. 
Nesse sentido, Lydia Guevara Ramírez593 ensina acerca da responsabi­
lidade social da empresa: 
Quando se trata de acidentes de origem profissional, se são 
por condições inseguras, a responsabilidade recai sobre o em­
presário, por não garanti-las, mas quando são por atos mseguros 
dos trabalhadores? Na maioria das vezes, os atos mseguros se 
originam por imperícia do executor do ato, e isso é devid~ .à 
falta de conhecimento dos riscos no trabalho. A responsabth­
dade então novamente recai sobre o empresário que não se es­
forçou por dotar os trabalhadores das instruções precisas sobre 
as condições de trabalho. 594 
A autora afirma que as novas teorias de capital e os novos modelo~ de 
gestão empresarial nos alertam para um "conceito de empresa como orga~t~a­
ção social em que se mescla o elemento humano integra_d? pelo pr~pnetarw, 
seus agentes e os trabalhadores". Essa seria a responsabthdade soctal.da em­
presa_ representação da visão humana-, em que v a: ores são ~omparttlhados 
e trabalhadores são vistos como colaboradores e nao subordmados, e todos 
são responsáveis.595 
592 FlNCATO, Denise Pires; MORAES, Sandro Glasenapp. Proteção previdenciária dotcletrabalhador 
no Brasil. Lex }vfagister. Artigo. Doutrina. Disponível em: <http://WW'I\'.lex.com.br/doutnna_26782063 _ 
PROTECAO_PREVIDENCIARlA_DO_TELETRABALHADOR_NO_BRASIL.aspx>. Acesso em: 
lOjun. 2017. p. 9. 
593 RAMÍREZ, Lydia Guevara. Una mirada al mundo ~e! trabajo. Rec~pilac!ón 1~onográ~ca ct; 
reftexiones sobre violencia laboral, condiciones y medi o ambtentc en el trabaJO. Umvers1dad Autonoma 
dei Estado de México, Campus Universitario Siglo XXI, Facultad de Derecho, s.f. P· 40. 
594 No original: ··cuando de accidentes de origen profesional se trata, si son porcondicion~s inseguras, 
la responsabilidad recae en el empresario por no garantizarlas, pero .l.~uándo s?n po~ ~ctos m~eguros de 
los trabajadores? La mayoría de Ias veces, los actos inseguros se ongm~n por tmpencJa ~:t ejecutor dei 
hecho v ésta se debe a falta de conocimientos de los riesgos cn el trabaJO. La rcsponsab!lt~ad ent~nces 
nueva~ente recae en el empresario que no se csforzó por dotar a los trabajadores de las mstrucctones 
precisas sobre las condiciones de trabajo." 
595 RAMÍREZ, Lydia Guevara. Una mirada ai mundo de! trabajo. Recopilación monográfica de 
265 
·,li 
i,'l 
",'l:'.i 
' ' 
1
'.'"'. ''[' '' 
1,1,',. 
I' 
',, 
i':: I, 
[; 
I 
', I 
' 
Talita Cam1la Gonçalves Nunes 
Com efeito, a análise do teletrabalho parte de um equilíbrio entre a's 
ações de trabalhadores e empregadores, pois esta modalidade exige a respon­
sabilidade daquele que emprega a força de trabalho e sua ampla disciplina 
e atenção. Não basta trabalhar fora da sede empresarial, é preciso trabalhar 
remotamente no fiel cumprimento de todas as instruções e estar apto a desen­
volver detenninadas tarefas com certificado oferecido em cursos e treinamen­
tos específicos para teletrabalhadores. 
Se a empresa cumpre regularmente as recomendações acerca de um 
teletrabalho saudável, com mais facilidade será produzida a prova referente 
ao acidente ou origem da doença ocupacional sofrida pelo teletrabalhador. A 
atenção deve ser conjunta, para que empregado e empregador possam mino­
rar ao máximo os riscos à saúde do teletrabalhador, atendendo às normas de 
higiene, saúde e segurança laborais. 
6.4.1 A Depressão 
Observar a depressão na era tecnológica é fator essencial ante a desvan­
tagem do isolamento social a que se submete o teletrabalhador. O indivíduo 
isolado está mais predisposto a apresentar sintomas de depressão e a questão 
não pode ser banalizada no contexto das relações de trabalho. 
Confonne Fernanda Moreira de Abreu, a depressão é assunto de re­
levãncia, sendo objeto de estudo a íntima ligação entre o trabalho e o real 
aumento da incidência de distúrbios depressivos na atualidade. Segundo a 
autora, a OMS já aponta a depressão como a quinta maior questão de saúde 
pública no mundo, atingindo mais de 3 50 milhões de pessoas. A previsão é de 
que em 2020 ocupe o segundo lugar no ranking das doenças que mais causam 
mortes, ficando atrás apenas das doenças cardíacas. 596 
A autora destaca que a depressão poderá ser endógena - surge inespe­
radamente em pessoas com predisposição orgânica; ou reativa- a ocorrência 
'se dá após situações traumáticas ou estressantes. Já os sintomas são: o iso­
lamento do convívio familiar, desinteresse pelas atividades normais, perda 
da autoestima; concentração diminuída, inquietação e hostilidade; perda de 
interesse pelo trabalho, alteração de apetite; diminuição do apetite sexual; 
cansaço; insônia, ideia de suicídio.597 
reflexiones sobre violencia laboral, condiciones y medi o ambiente en e! trabajo. Universidad Autónoma 
dei Estado de México, Campus Universitario Siglo XXI, Facultad de Derecho, s.f. p. 50-5\. 
596 ABREU, Fernanda Moreira de. Depressão como doença do trabalho e suas repercussões 
jurídicas. São Paulo: LTr, 2005. p. 48. 
597 ABREU, Fernanda Moreira de. Depressão como doença do trabalho e suas repercussões 
266 
APRECARIZAÇÃO NO TELETRABALHO: escravidão tecnológica e impactos na saúde fisica e mental do trabalhador 
Edith Seligmann-Silva pontua que a depressão é capaz de se manifes­
tar em quadros típicos, agudos ou crônicos. Os distúrbios mentais relaciona­
dos ao trabalho da lista brasileira abrangem apenas os episódios depressivos 
(CID-I O, código F32), porém, "o estudo detalhado revela que o nexo causal 
com o trabalho pode ser caracterizado em outras formas de depressão". Os 
quadros típicos depressivos são: "manifestações de desânimo, tristeza, auto­
desvalorização; os pensamentos mórbidos, as vivências de perda ou fracasso 
e mesmo ideias de total e irremediável ruína de si mesmo". Observa-se que a 
depressão associada ao trabalho não está nos quadros típicos, se revela mais 
sutil e sua principal marca está na postura de desânimo diante da vida e do 
futuro ("expresso com amargura ou revestido por conformismo fatalista"). 598 
Porém, segundo a autora a depressão oculta surge sob outras formas: 
"expressões somáticas de mal-estar ou doenças; acidentes de trabalho; alco­
olismo; absenteísmo". Notam-se também casos em que a aparente euforia! 
hiperatividade são reações à depressão. Há ainda erros de diagnóstico, em 
virtude de a ansiedade encobrir manifestações típicas de depressão 599 
Isabela Curvina menciona que no Anexo II do Decreto n° 3048/99 exis­
tem duzentas novas doenças do trabalho, entre as quais está incluída a de­
pressão. Embora na doutrina se encontrem divergências, a autora afirma que é 
possível, com base no Grupo V da CID-I O, equiparar a depressão ao acidente 
do trabalho, porquanto o grupo trata dos "transtornos mentais e do comporta­
mento relacionado ao trabalho". E essa configuração se daria sem a exigência 
do Anexo de que a depressão deve estar vinculada à exposição do trabalhador 
a determinadas substâncias químicas tóxicas, desde que verificado o nexo 
causal entre a depressão e as atividades laborais. 600 
A OMS destaca que a depressão é uma das condições prioritárias abran­
gidas pelo Programa de Ação de Interesse Mental da OMS - WHO s Mental 
Health Gap Action Programme (mhGAP) -, que tem o objetivo de auxiliar 
jurídicas. São Paulo: LTr, 2005. ApudNUNES, Talita Camila Gonçalves. O acidente de teletrabalho e a 
fiscalização da tecnologia da telemática: aspectos e consequências do teleassédio moral e do tcletrabalho 
escravo. In: COLGNAGO .. Lorena Rezende de Mello; CHAVES JUNIOR, José Eduardo de Resende; 
ESTRADA; Manuel Matin Pino (Coords.). Teletrubalho. São Paulo: LTr, 2017. p. 115. 
598 SELIGMANN-SlLVA, Edith. Trabalho e desgaste mental: o direito de ser dono de si mesmo. São 
Paulo: Cortez, 2011. p. 531-533. 
599 SELIGMANN-SlLVA, Edith. Trabalho e desgaste mental: o direito de ser dono de si mesmo. São 
Paulo:Cortcz, 2011. p. 533-534. 
60° CURVINA, Izabela. Depressão no ambiente laboral: a possibilidade de caracterização da 
depressão enquanto acidente de trabalho. Jusnavigandi, abr. 2012. Disponível em: <https:://jus.com.br/ 
artigos/21438/depressao-no-ambiente-laboral/3>. Acesso em: 22 maio 2017. 
267 
Talita Camila Gonçalves Nunes 
países a aumentar os serviços para pessoas com distúrbios mentais, neuroló­
gicos e que fazem uso de substâncias. 601 
Nesse contexto, os teletrabalhadores expostos a jornadas exaustivas e assé­
dio moral reiterado são vítimas de estresse e depressão. Um exemplo são os profis­
sionais da área de TI -tecnologia de informação -vítimas de estresse profissional, 
do qual a depressão é um sintoma. Segundo afirma a psicóloga Denise Quaresma, 
97% dos profissionais de TI da Irlanda consideram seu trabalho estressante.602 
A pressão por cumprimento de metas e até mesmo o descanso insu­
ficiente ainda que presente em ambiente doméstico, impedem o teletraba­
lhador de um convívio sadio com a família e com a sociedade, adquirindo 
sintomas depressivos que necessitam ser tratados. A depressão é acidente do 
trabalho e já foi inclusive pauta de discussão do Fórum Internacional de De­
senvolvimento do Teletrabalho. O estigma sobre a depressão precisa ser rom­
pido, para que mais pessoas procurem auxílio profissional ~a área da s~úde~ e 
igualmente para se tomar efetivo fator de medida prevent1va na orgamzaçao 
do trabalho em nível nacional e global. 
6.4.2 Saúde mental e física do teletrabalhador: as doenças do teletrabalho 
A mente saudável é o ponto de partida para que o indivíduo possa viver 
bem consigo, interagir em sociedade e realizar todas as atividades hum.anas 
ao seu alcance, entre elas o trabalho. Não há dúvidas de que um arnb1ente 
laboral desequilibrado ocasionará prejuízos à saúde mental do trab~l~ador, 
portanto, buscar esse equilíbrio é uma tarefa conjunta dos atores soc1ms en­
volvidos, com o auxílio de um estudo multidisciplinar. 
Para se estudar a Saúde Mental Relacionada ao Trabalho (SMRT), faz-se 
um trajeto multidisciplinar e interdisciplinar, no qual dois grupos de disc~plinas 
são considerados. O primeiro se refere a estudos nos processos mentats e/ou 
na dinâmica saúde/doença do ser humano submetido a diferentes condições de 
trabalho. Possui um subgrupo que engloba a Medicina do Trabalho, a Psicolo­
gia do Trabalho, a Psicopatologia do Trabalho, Toxicologia e Ergonomia. ~á o 
segundo subgrupo fundamenta o primeiro: Fisiologia e suas vertentes da Pstco-
601 WORLD HEALTH ORGAN!ZAT!ON. WHO. Depression. Fact sheet. Media center. 20!7. 
Disponível em: <http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs369/en/>. Acesso em: 12 maio 2017. 
602 PRESCOTT, Roberta. Alta cobrança gera estresse para profissionais de TI. Convergência 
Digital, 27 out. 2016. Disponível em: <http://www.convergenciadigital.com.br/cgi/cgilua.exe~sys/start. 
htm?UserActiveTemplate=site&infoid=43767&sid=46#.WUc76ZLyut8>. Acesso em: 12 mato 2017. 
268 
/ 
APRECARIZAÇÃO NO TELETRABALHO: escravidão tecnológica e impactos na saúde fisica e mental do trabalhador 
fisiologia e Neurofisiologia, Neuroendocrinologia e os novos estudos da Neu­
rologia Integrativa, e as de âmbito clinico, como a Neurologia, a Psiquiatria e 
a Psicossomática. A Psicanálise ocupa lugar especial nesse primeiro grupo.603 
No segundo grupo há disciplinas ligadas direta ou diretamente ao labor hu­
mano, sem indispensabilidade da saúde como objeto. Aqui estão presentes discipli­
nas que "estudam determinações sócio-históricas, políticas, econômicas e culturais 
que, a partir do âmbito macros social, se refletem nos processos e situações humanas 
de trabalho no interior das empresas". Na Filosofia estão fincadas as raízes dessas 
disciplinas, visto que foi a partir dela as "primeiras indagações e formulações es­
senciais sobre a natureza humana", bem como as reflexões que deram base à Ética 
e se estendem ao campo do trabalho e seus significados para o homem.604 
Observa-se que temas de SMRT abordados por filósofos contemporâ­
neos são essenciais nas metamorfoses que envolvem impactos humanos e, 
no campo macrossocial, os estudos de Economia Política, que "analisam sob 
uma perspectiva histórica as relações sociais de produção c as transformações 
técnicas e organizacionais do trabalho". Já no âmbito do Direito, em especial 
nos Direitos Humanos, "a questão da ética tem presença marcante na conexão 
com a dignidade humana", e este ramo cada vez mais aborda a questão da 
saúde e suas ramificações para os trabalhadores.605 
Os aspectos psicológicos do trabalho como objeto de estudo tiveram 
sua primeira publicação em Cambridge, na Inglaterra, no ano de 1913, com 
o livro Psychology and industrial efficiency, de autoria do psicólogo alemão 
Hugo Münsterberg.606 
No seguinte trecho, Münsterberg607 observava como o trabalho na in­
dústria afetava psicologicamente os trabalhadores: 
603 SELlGMANNMSILVA, Edith. Trabalho e desgaste mental: o direito de ser dono de si mesmo. São 
Paulo: Cortez, 20!!. p. 42. 
604 SELIGMANN-SILVA, Edith. Trabalho e desgaste mental: o direito de ser dono de si mesmo. São 
Paulo: Cortez, 20!!. p. 42. 
605 SELIGMANN-SlLVA, Edith. Trabalho e desgaste mental: o direito de ser dono de si mesmo. São 
Paulo: Cortez, 20!!. p. 42·43. 
606 SELlGMANN-SlLVA, Edith. Desgaste mental no trabalho dominado. Rio de janeiro: Editora 
UFRJ; Cortez Editora, !994. p. 46. 
"" MÜNSTERBERG, Hugo. Psychology and Industrial Efliciency. !9!3. In: GREEN, Christopher. 
C/asstcs in the History of Psychology. York University. Toronto. Ontárío. Disponível em: <http:// 
psychclassics.yorku.ca!Munster/Industriallchap16.htm>. Acesso em: 23 maio 2017. 
269 
'I 
·' ,, 
.1 ' 
Talita Camila Gonçalves Nunes 
Cada lâmpada exige cerca de 20 movimentos dos dedos. En­
quanto eu a observava, ela era çapaz de embalar 25 lâmpadas 
em 42 segundos, e só algumas vezes ela precisava de até 44 
segundos. Cada 25 lâmpadas encheu uma caixa, e o fechamento 
da caixa exigia um curto período de tempo. Ela evidentemente 
teve prazer em expressar-se plenamente sobre sua ocupação. Ela 
me assegurou que achou o trabalho realmente interessante, e que 
ela sentia uma tensão interior, pensando quantas caixas ela seria 
capaz de preencher antes da próxima pausa608 
Destaca Edith Seligma1m-Silva que "tarefas que exigem grande con­
centração de atenção, principalmente se marcadas por um acúmulo muito in­
tenso de responsabilidade, ocasionam forte tensão. Mesmo quando há previ­
são de pausas[ ... ] elas podem ser sentidas como insuficientes"609
• Apesar de a 
autora tratar de operadores de máquina (operadores de ponte rolante) no caso 
concreto, não se pode descartar a possibilidade de se chegar aos mesmos re­
sultados com um teletrabalhador que possui a mesma responsabilidade e que, 
ainda que faça pausas frequentes, estas não serão suficientes. 
A autora também cita o filósofo e psicólogo francês I ves Clot e a cor­
rente Clínica da Atividade, que desenvolve a "compreensão o envolvimento 
da subjetividade por certas situações de trabalho e da forma pela qual esse 
envolvimento contribui para a patogenia de transtornos psíquicos". Essa cor­
rente examina de forma crítica o paradigma da flexibilízação e o "impacto pa­
ralisante das situações de trabalho em que os indivíduos sofrem a injunção de 
se tomarem 'responsáveis' pelo alcance de metas impossíveis e pelo sucesso 
" 610 de suas empresas · 
Com relação ao cansaço, a autora salienta que a fadiga mental é indisso­
ciável da fadiga física e em razão disso adota-se tan1bém a expressão cansaço 
geral. Acumulada por longo período, denomina-se fadiga crônica ou fadiga 
patológica, que tem por consequência a ausência de sono, bem como os dis­
túrbios do sono, a irritabilidade, o desânimo, dores diversas e perda de apetite. 
60!! No original: "Each lamp demands about 20 finger movements. As longas I watched her, she was 
able to pack 25 lamps in 42 seconds, and only a few times did she need as manyas 44 seconds. Every 
25 lamps ftlled a box, and the closing o f the box required a short time for itself. She evidently took 
pleasure in expressing herselffully about her occupation. She assured me that she found the work really 
interesting, and that she constantly fclt an inner tension, thinking how many boxes she would be able 
to fi li before the next pause". 
609 SELIOMANN-SILVA, Edith. Desgaste mental no trabalho dominado. Rio de janeiro: Editora 
UFRJ; CortezEditora, 1994. p. 147. 
610 SELlGMANN-SILVA, Edith. Desgaste mental no trabalho dominado. Rio de janeiro: Editora 
UFRJ; Cortez Editora, 1994. p. 52-53. 
270 
APRECARIZAÇÃO NOTELETRABALHO: escravidão tecnológica e impactos na saúde física e mental do trabalhador 
Esse desgaste ocasiona danos orgânicos (dimensão corpórea) e, observados 
trabalhadores industriais não qualificados, em pesquisa de campo, constatou 
que "quanto maior o cansaço, menor a possibilidade de participação social e 
de lazer ativo significativo [ ... ] o cansaço se faz ponte importante para a in­
tensificação de uma sujeição que, muitas vezes, é a véspera da alienação" 611 . 
Edith Seligmann-Silva, acerca da saúde ocupacional e medicina do 
trabalho, pontua que "os riscos de doenças profissionais e de acidentes de 
trabalho marcam fortemente a subjetividade dos trabalhadores". O ambiente 
laboral agressor- ruído, calor, vibrações e substâncias neurotóxicas- igual­
mente ataca o psiquismo612• 
Nesse contexto é oportuno ressaltar que, no campo do teletrabalho, nem 
sempre o teletrabalhador, por realizar tarefas em domicílio ou outro local di­
verso da sede empresarial, estará em ambiente adequado para o trabalho. Per­
manecer em casa ou em espaço diverso, todavia cercado de ruído acima do 
limite tolerável por regulamento, ou em condições térmicas prejudiciais, pode 
culminar em abalo psíquico do trabalhador remoto. 
Observa-se que o sofrimento mental pode ainda verificar-se de várias 
maneiras. O poder se utiliza de técnicas como a desinformação, a utilização 
de sentimentos e estimulação de orgulho pelo trabalho bem feito. Esses são 
instrumentos de dominação, fortalecidos pela disciplina que assegura a "acei­
tação de exigências disciplinares". Garante que os corpos dóceis (de F ou­
cault) fiquem mais dóceis ainda613
• 
Sobre a saúde mental no trabalho, Manuel Carvalho da Silva afirma que 
as prestações de trabalho hoje marcadas por precariedades, mobilidades e fle­
xibilidades demandam ações para assegurar a saúde. Como exemplo ressalta 
que "a Carta de OTTAWA, de 1985, entre muitos outros alertas, refere-nos o 
peso de novas exigências mentais no trabalho que provocam stress, ou ritmos 
de trabalho que se tomam humanamente insustentáveis" 614
• 
611 SELIGMANN-SILVA, Edith. Desgaste mental no trabalho dominado. Rio de janeiro: Editora 
UFRJ; CortezEditora, 1994. p. 80. 
612 SELIGMANN-SILVA, Edith. Desgaste mental no trabalho dominado. Rio de janeiro: Editora 
UFRJ; Cortez Editora, 1994. p. 66. 
613 SELIGMANN-SILVA, Edith. Desgaste mental no trabalho dominado. Rio de janeiro: Editora 
UFRJ; Cortez Editora, 1994. p. 98. 
614 SILVA, Manuel Carvalho da. Trabalho, Globalização e Saúde do Trabalhador: Promoção da 
saúde e da qualidade de vida. In: VIZZACCARO-AMARAL, André Luis; MOTA, Daniel Pestana; 
ALVES, Giovanni (Orgs). Trabalho e Saúde: A precarização do trabalho e a saúde do trabalhador no 
Século XXI. São Paulo: LTr, 2011. p. 35. 
271 
Talita Camila Gonçalves Nunes 
Nesse contexto é importante mencionar que o teletrabalhador pode vir a 
ser aquele indivíduo que sofreu acidente de trabalho, ou que por algum outro 
motivo, por ordem de seu superior hierárquico, foi propositalmente isolado 
dos demais colegas de trabalho, sendo escalado para trabalhar na modalidade 
teletrabalho. Além de caracterizar evidente discriminação no trabalho, pode 
acarretar transtornos de ordem mental. O teletrabalhador saudável também 
poderá sofrer acidente laboral e igualmente ser discriminado. 
Edith Seligmann-Silva afirma que "o trabalhador acidentado, além de 
perder as próprias defesas psicológicas, perde também o pertencimento e apoio 
de seus companheiros [ ... ) passa a ser- de modo aberto e disfarçado- alvo de 
rejeição". Essa rejeição, em virtude de ser deliberada e sistemática, é configura­
da como assédio moral e tem sido observada em ambientes que surgem as LER/ 
DORT, desencadeando quadros depressivos e outros transtornos psíquicos 615
. 
A discriminação pode ocorrer inclusive caso se mencione a fadiga, uma 
vez que "sob pressões da ideologia de excelência, o cansaço se toma um ver­
dadeiro tabu". Queixas e mal-estar são silenciamentos impostos e contribuem 
para o aumento do presenteísmo616, que é capaz de comprometer a atenção e 
raciocínio e culminar em fator de risco para acidente de trabalho 617
• 
Na interface família-trabalho, a autora entende que há uma via de mão 
dupla, na qual de um lado a subjetividade desloca experiências familiares 
para o mundo do trabalho e, do outro, determinações emanadas do trabalho 
se transportam para a vida familiar. E esses caminhos se entrecruzam muitas 
vezes e se realimentam.618 Com relação ao ambiente doméstico: 
6!5 
À medida que o desgaste mental se instala, modificações de con­
duta, como o isolamento ou demonstrações de mau humor, po­
dem ser interpretadas como desinteresse e desamor pela família. 
O desconhecimento, por parte dos familiares, da relação entre 
tais mudanças e a situação laboral provoca, desse modo, equívo­
cos, e não raro, conflitos.619 
SELIGMANN-SILVA, Edith. Trabalho e desgaste mental: o direito de ser dono de si mesmo. São 
Paulo: Cortez, 2011. p. 309. 
616 Segundo a autora: "Presenteísmo significa que pessoas adoecidas estão trabalhando sem 
manifestar queixas e, em geral, sem procurar tratamento, ao mesmo tempo que seus quadros clínicos 
se agravam e cronificam, enquanto, inevitavelmente, o desgaste atinge também o seu desempenho''. 
617 SELIGMANN-SILVA, Edith. Trabalho e desgaste mental: o direito de ser dono de si mesmo. São 
Paulo: Cortez. 2011. p. 306. 
618 SELIGMANN-SILVA, Edith. Trabalho e desgaste mental: o direito de ser dono de si mesmo. São 
Paulo: Cortez, 2011. p. 319. 
619 SELIGMANN-SILVA, Edith. Trabalho e desgaste mental: o direito de ser dono de si mesmo. São 
272 
/ 
A PRECARIZAÇÃO NOTELETRABALHO: escravidlo tecnológica e impactos na saúde física e mental do trabalhador 
Conquanto a reflexão da autora demonstre um efeito que rel~ciona qua~­
quer trabalhador com o próprio ambie?te doméstico, :e.s~alta-se_ aqm essa p_ossJ­
bilidade no espaço de teletrabalho, seJa este no domJCÜJo ou na.o. As avengua­
ções são adaptáveis às novas organizações de trabalho, nas qua1s o trabalhad~r 
enfrentará os mesmos conflitos, na proporção em que envolver os proble~.as h­
gados ao teletrabalho com a sua vida pessoal, especialmente com seus fam1hares. 
No campo prático, segundo o jornal Spiegel Online, na Alemanha a di_:>­
ponibilidade pem1anente no trabalho móvel foi aborda~a em uma declaraçao 
conjunta entre parceiros sociais e o governo, sobre saude mental no local ~e 
trabalho em setembro de 2013. O objetivo do acordo é "trabalhar colaboratJ­
vamente na prevenção de problemas de saúde mental relacionados ao trabalho 
e reintegração de trabalhadores afetados no local de traba~ho ao re.tornarem d~ 
licença de doença". Em 2013, o Ministério do Emprego mtroduzm uma pol~­
tica de intervenção mínima na qual gestores podem contata: em?regados fma 
do horário normal de trabalho apenas "em situações excepc10nms que ex1gem 
ação que não pode ser adiada até o início do próximo período de trabalho". 
Os trabalhadores também não podem ser prejudicados por desligarem seus 
celulares ou não lerem mensagens fora do horário normal de trabalho 
620 
• 
Além disso em 2014, no cenário de desenvolvimento de um novo regula­
mento anti-stress: a ministra alemã do trabalho, Andrea Nahles "expressou sua 
intenção de enfrentar o problema de dispon~bilidade permanenteyara o tr~ba­
lho". Para a ministrajá existem provas suficientes quanto aos .efe1~os negativos 
na saúde mental. De acordo com observação dos estu~os nacJOn~Js na Alema-
ha "o Inst1'tuto F e dera! Alemão de Segurança OcupaciOnal e Saude - BAuA­n , . 1 t , 6"1 
foi convidado para explorar a viabilidade de implementar ta1s regu amen os - · 
A dominação no trabalho "é aspecto nuclear na constit~ição ~o ~e~gas­
te, pois a dominação que ataca a dignidade e fere a autonom~a da m~IVld~a­
lidade é a mesma que produz rupturas no mundo mental ~ psJcossocJa!, atJ~-
gindo a estabilidade psicossomática". A exaustão produz1da pela exploraçao 
'nh , I' • " 622 "obscurece a consciência, abrindo cam1 o a a 1enaçao · 
Paulo: Cortez, 2011. p. 339. 
620 EUROFOUND· lNTERNATlONAL LABOUR OFFlCE. Working anytime. anywhere: The effects 
on the world of work·. Publications Office of the European Union, Luxembourg, and ~he lnternatlOnal 
Labour Office, Geneva. 2017. Disponível em: <https://www.eurofound.europa.eu/sttes/default/files/ 
ef_publication!field_ef_ document/efl658en.pdJ>. Acesso em: 29 abr. 2017 · P· 51. 
621 EUROFOUND; lNTERNATlONALLABOUROFFlCE. Workinganytime, anywhere: The effects 
00 
the world ofwork. Publications Office ofthe European Union, Luxembourg, and ~e lnternatlon~l 
Labour Office, Geneva. 2017. Disponível em: <https://www.eurofound.europa.eu/sJtes/default/fi\es/ 
ef_publication!field_ef_document!efl658en.pdJ>. Acesso em: 29 abr. 2017 · P· 51. . ,_ 
622 SELlGMANN-SILVA, Edith. Trabalho e desgaste mental: o direito de ser dono de s1mesmo. Sao 
273 
Talita Camila Gonçalves Nunes 
É nesse ponto que o teletrabalho deve ser conduzido como um meio tle 
labor onde a mobilidade e a flexibilidade não justifiquem a precariedade, que 
assume contornos não apenas relativos ao modo de trabalhar e ao ambiente, 
mas também à própria perda da identidade e subjetividade, atingidas pelo 
desgaste na saúde mental do trabalhador. 
O trabalho remoto, se for o futuro do trabalho na maioria das modalida­
des laborais - e ainda que presente em parte - necessita ser observado desde 
sua origem, para que a saúde mental e física seja sempre prioridade de salva­
guarda, em um mundo que avança em tecnologia sem perspectiva de retroce­
der quanto à inserção do indivíduo na organização tecnológica do trabalho. 
6.4.3 Ergonomia 
A Ergonomia, nesta pesquisa, encontra igualmente observação singular, 
em virtude de ter, no teletrabalho, especial atenção relacionada ao cotidiano 
do trabalhador junto às tecnologias de informação e comunicação e a preven­
ção contra doenças. 
Alain Wisner, citado por Edith Seligmarm-Silva, define que a Ergono­
mia é "o conjunto de conhecimentos científicos relacionados ao homem e 
necessários para a concepção de ferramentas, máquinas e dispositivos que 
possam ser utilizados com o máximo de conforto, segurança e eficácia" 623
• 
A Ergonomia se manteve muito tempo circunscrita à psicofisiologia e à 
neurofisiologia, passando por transformações, mormente nos países onde "corre­
lações de forças entre empregadores e assalariados favoreceram a efetiva partici­
pação destes últimos nas investigações ergonômicas e na proposição de soluções 
às inadequações constatadas". Surge, assim, a ergonomia situada: o trabalhador 
em sua atividade no contexto de uma situação de trabalho se torna o objeto de 
estudo, e valorizam-se também as habilidades de prudência.624 É uma percepção 
que considera também a dimensão social, a subjetividade e o significado do tra­
balho para quem o executa, tomando espaço cada vez mais relevante 625
• 
Paulo: Cortez, 2011. p. 23. 
623 WISNER, Alain. Por dentro do trabalho. São Paulo: FTD/Oboré, !987. Apud SEL!GMANN-SILVA, 
Edith. Trabalho e desgaste mental: o direito de ser dono de si mesmo. São Paulo: Cortez, 2011. p. 83. 
624 Conforme a autora, citando Christopher Dejours, as habilidades de prudência são analisadas como 
prática solidária dos coletivos e objetivam a proteção contra acidentes e exaustão. 
625 SELIGMANN-SlLVA, Edith. Trabalho e desgaste mental: o direito de ser dono de si mesmo. São 
Paulo: Cortez, 2011. p. 84-85. 
274 
/ 
A PRECARIZAÇÃO NO TELETRABALHO: escravidão tecnológica e impactos na saúde fisica e mental do trabalhador 
O conceito de carga de trabalho retomado e desenvolvido pela Ergonomia 
representa "o conjunto de esforços desenvolvido para atender às exigências das 
tarefas" e abrange esforços físicos e mentais. Os esforços mentais compreendem 
os cognitivos e os psicoafetivos- "mobilização de sentimento, controle emocio­
nal"- e estes constituem a carga psíquica. Nesse cenário "as análises do trabalho 
realizadas pelos ergonomistas objetivam compatibilizar as cargas de trabalho à 
condição humana". Sob o prisma ético, compatibilizar significa respeitar "carac­
terísticas e necessidades fisiológicas, psicológicas e sociais do trabalhador" 626. 
Na Suécia, foi incluída a visão social, bem como fonnulado um amplo 
quadro de fatores psicossociais. Já na Alemanha, há uma outra concepção de 
carga de trabalho, .utilizando-se o termo "carga vivenciada" para dar ênfase à 
"carga subjetivamente percebida" 627 • 
Frida Marina Fischer, citada por Edith Seligmarm-Silva, assinala que no 
Brasil pesquisadores que vêm adotando a metodologia desenvolvida por Il­
marinen estudaram ergonomicamente que há uma correlação entre condições 
laborais e o envelhecimento ocupacional com trabalhadores de enfermagem 
e em serviços forenses "nos quais foram examinadas, entre outros problemas 
de saúde, as manifestações de estresse" 628. 
Já na ergonomia contemporânea, é considerada a expansão da flexibili­
zação/desregulamentação, com precarização dos vínculos de trabalho em di­
versos países, incluindo o Brasil. Deve ser levado em conta na análise da ergo­
nomia "o peso que a ameaça da desproteção social assume na carga psíquica, 
contribuindo também para a maximização de esforços físicos e cognitivos" 629 • 
Nesse contexto, segundo Regina Heloisa Maciel, a Ergonomia proativa 
poderá atuar por meio de programas de prevenção contra fatores de risco de 
LERIDORT, por exemplo. Para tanto, profissionais ligados à compra de equi­
pamentos e organização do trabalho necessitam de conhecimentos básicos de 
Ergonomia, bem como dos riscos de LER! DORT e o seu controle 630 • 
626 
SELlGMANN-SlLVA, Edith. Trabalho e desgaste mental: o direito de ser dono de si mesmo. São 
Paulo: Cortez, 2011. p. 85. 
627 
SELIGMANN-SILVA, Edith. Trabalho e desgaste mental: o direito de ser dono de si mesmo. São 
Paulo: Cortez. 2011. p. 87. 
628 
FISCHER, F ri da Marina et a!. Unveiling factors that contribute to functional aging among health 
carc shift workers. Experimental aging Research. São Paulo, v. 28, n. I, p. 73-86,2002. p. 91-92. 
629 
FISCHER, Frida Marina et al. Unveiling factors that contribute to functional aging among health 
carc shift workers. Experimental aging Research. São Paulo, v. 28, n. 1, p. 73-86, 2002. p. 91-92. 
630 
MACIEL, Regina Heloisa. Prevenção daLER/DORT: o que a ergonomia pode oferecer. Cadernos 
de Saúde do Trabalhador. São Paulo: Kingraf, 2000. Disponível em: <https://www.cplp.org/Adminl 
275 
Talita Camila Gonçalves Nunes 
As lesões por esforços repetitivos (LER) ou distúrbios osteomusculares 
relacionados ao trabalho (DORT) podem ocasionar acidente de trabalho e es­
tão na Classificação Internacional de Doenças publicada pela OMS (CID-I O, 
código Z 57.9) e são definidos como um: 
[ ... ] conjunto de doenças que afetam músculos, tendões, nervos 
e vasos dos membros superiores (dedos, mãos, punhos, ante­
braços, braços, ombro, pescoço e coluna vertebral) e inferiores 
Goelho e tornozelo, principalmente) e que têm relação direta 
com as exigências das tarefas, ambientes físicos e com a organi­
zação do trabalho631 . 
Tatiana Regina Souza Silva Guadalupe menciona que as lesões ocasionadas 
pela LERIDORT podem estar "implicitamente relacionadas ao labor extraordiná­
rio, ao excesso de metas e prazos, à desconexão da atividade proveniente da invi­
sível linha que separa o trabalhoda residência trabalhador, à ausência de intervalos 
regulares para refeição e descanso". Segundo a autora, esses exemplos ocorrem 
especificamente com os altos empregados e trabalhadores em domicílio 632
• 
Sebastião Geraldo de Oliveira pontua que, na atualidade, a disciplina 
ergonomia é estudada nos cursos de arquitetura, engenharia, desenho indus­
trial, medicina do trabalho e engenharia de segurança do trabalho. No âmbito 
jurídico, a CLT dispõe sobre a ergonomia no título genérico "Da prevenção 
da fadiga", nos artigos 198 e 199 633 • 
Já a Portaria n° 3214/78, elaborada pelo MTE, dispõe sobre as Nor­
mas Regulamentadoras que regem o ambiente de trabalho no que se refere 
à segurança, higiene e medicina do trabalho. Essas normas são elaboradas 
e revisadas pelo governo, trabalhadores e empregadores, o que representa 
"avanço e grande passo na busca da melhoria das condições de trabalho e da 
democratização das relações laborais" 634
• 
Public/Download.aspx?file=Files%2FFiler%2FMIC_IT%2FFicheiros%2FBiblioteca%2FSaude_ 
Seg%2FPreveno_da_Ler-Dor.pdf>. Acesso em: 2 maio 2017. p. 23. 
631 BRASIL. Ministério do Trabalho e Previdência Social. A concessão de auxílio-doença relacionado a 
LERIDORT nos anos de 2006 a 2014. JG Boletim Quadrimestral sobre Beneficio por Incapacidade 2016. 
Brasília: Secretaria de Políticas de Previdência Social, 2016. Disponível em: <http://www.previdencia.gov. 
br/wp-contentluploads/2016/09/Boletim_l_2016_JI_ 05 _2016.pdt>. Acesso em: 17 jul. 2017. 
632 G.UADALUPE, Tatiana Regina Souza Silva O nexo técnico epidemiológico do teletrabalhador. 
São Paulo: Clube de autores. 2012. 
633 OLIVEIRA .. Sebastião Geraldo de. Proteção à saúde do trabalhador. 5. ed. São Paulo: Lrr. 201 O. 
p. 125-126. 
634 MELO, Raimundo Simão de. Direito ambiental do trabalho e a saúde do trabalhador; 
responsabilidades legais, dano materia~ dano moral, dano estético, indenização por perda de uma 
276 
A PRECARIZAÇÃO NO TELETRABALHO: t'.Scravidão tecnológica e impactos na saúde fisica em tal do trabalhador 
A Norma Regulamentadora 17 (NR 17- Ergonomia) estabelece "parâmetros 
para permitir a adaptação das condições de trabalho às características psicofisio­
lógicas dos trabalhadores, de modo a proporcionar um máximo de conforto, segu­
rança e desempenho eficiente" (17 .1 ). Inclui aspectos referentes a levantamento, 
transporte e descarga de materiais, ao mobiliário, aos equipamentos e às condições 
ambientais do posto de trabalho, bem como organização do trabalho (17.2) 635 • 
Desse modo, a implantação do teletrabalho em qualquer região do país 
deverá observar os limites impostos na NR 17, como por exemplo: ruído, 
iluminação, temperatura, umidade, adaptação para trabalhos em postura sen­
tada, assentos com requisitos mínimos, suporte para pés, mobilidade, etc. 
Já os equipamentos utilizados no processamento eletrônico de dados 
com terminais de vídeo devem observar o seguinte: 
a) condições de mobilidade suficientes para permitir o ajuste da tela 
do equipamento à iluminação do ambiente, protegendo-a contra re­
flexos, e proporcionar corretos ângulos de visibilidade ao trabalhador; 
b) o teclado deve ser independente e ter mobilidade, permitindo ao 
trabalhador ajustá-lo de acordo com as tarefas a serem executadas; 
c) a tela, o teclado e o suporte para documentos devem ser co­
locados de maneira que as distâncias olho-tela, olho-teclado e 
olho-documento sejam aproximadamente iguais; 
d) serem posicionados em superfícies de trabalho com altura 
ajustável. (17.4.) 
A NR 17, no que concerne à organização do trabalho (17.6.2), igual­
mente considera no mínimo as normas de produção, o modo operatório, a exi­
gência de tempo, a determinação do conteúdo de tempo, o ritmo de trabalho 
e o conteúdo das tarefas. 
A NR-6, que trata sobre equipamento de proteção individual, dispõe 
que "a empresa é obrigada a fornecer aos empregados, gratuitamente, EPI 
adequado ao risco, em perfeito estado de conservação e funcionamento [ ... )" 
6' 6 • Para o teletrabalhador, não será diferente: caso seja necessário o uso do 
EPI, o empregador deverá se responsabilizar pelo seu fornecimento. 
Segundo Joselma Oliveira Goulart, no estudo de caso sobre teletrabalho no 
SERPRO, após seis meses de acompanhamento e avaliação do projeto implanta-
responsabilidades legais, dano material, dano moral, dano estético, indenização por perda de uma 
chance, prescrição. 4. ed. São Paulo: LTr, 2010. p. 43-44. 
635 BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. NR 17- Ergonomia. Disponível em: <http://www. 
trt02.gov.br/geral/tribunal2/LEG!S/CLT/NRsiNR_17.html>. Acesso em: 5 jun. 2017. 
636 BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. NR 6- EPI. Disponível em: <http:i/www.trtsp.jus. 
br/geral/tribunal2/LEG1S/CLT/NRs/NR_6.html>. Acesso em: 5 jun. 2017. 
277 
Talita Camila Gonçalves Nunes 
do, a conclusão foi a de que os empregados devem ser capacitados para o "efic'az 
cumprimento de suas atividades teletrabalháveis", bem como deve ser realizada 
uma "avaliação da ergonomia na residência do empregado teletrabalhador" 637 . 
A autora também assevera que em caso de acidente de trabalho este deve 
ser comunicado imediatamente e as empresas podem inspecionar a casa do 
teletrabalhador para garantir um ambiente de trabalho seguro. Essa inspeção 
na área reservada do escritório doméstico pode ser realizada "antes do início 
dos trabalhos e em ocasiões aleatórias durante a vigência do projeto piloto e 
do programa". As vistorias são em horário comercial e em periodicidade de­
finida pela empresa, mediante comunicação com antecedência mínima de 72 
horas. O escritório deve estar livre de obstáculos perigosos e os equipamentos 
de acordo com as exigências ergométricas 638. 
A implantação do teletrabalho não escapa de todos os parâmetros que 
devem ser observados tanto pelas empresas como pelo Poder Judiciário, que 
já implantou em grande parte de seus tribunais a modalidade, com a devida 
regulamentação interna que compreende todas as exigências de ergonomia, 
incluindo pausas e petiodos de alongamento do teletrabalhador. 
No portal da transparência do Tribunal Regional do Trabalho da 3a Re­
gião, no campo pessoal, há o link Teletrabalho, atualizado em junho de 2017, 
que contém o número de todos os teletrabalhadores do Judiciário mineiro. 
Atualmente o número é de 58 teletrabalhadores, lotados nas diversas Varas e 
no Tribunal de Segunda Instância do estado.639 Em contato telefônico com o 
setor responsável pela ergonomia do Tribunal, foi informado que ainda não 
há dados estatísticos públicos em site oficial ou em estudos científicos, acerca 
da saúde dos teletrabalhadores, como, por exemplo, número de acidentados. 
Diante do exposto, percebe-se, mais uma vez, que a Lei da Reforma 
Trabalhista está muito aquém do que se almeja, ao tratar superficialmente do 
acidente de trabalho, das normas de saúde, higiene e segurança, bem como 
dos equipamentos dos teletrabalhadores. 
637 GOULART, Josehna Oliveira. 1·etetrabalho: alternativa de trabalho flexível. Brasília: SENAC, 
2009. p. 201. 
638 GOULART, Joselma Oliveira. Teletrabalho: alternativa de trabalho flexível. Brasília: SENAC, 
2009. p. 61. 
639 BRASIL. Tribunal Regional do Trabalho da 3a Região. Transparência. Pessoal. Teletrabalho. 
Servidores em regime de tele trabalho. Atualizado em: 08/06/17. Disponível em: <https://portal.trt3.jus. 
br/internet/transparencia!pessoallcopy _o f_ teletrabalho>. Acesso em: 15 j un. 2017. 
278 
A PRECARIZAÇÀO NO TELETRABAlHO: escravidão tecnológica e impactos na saúde fisica e mental do trabalhador 
A Ergonomia merece atenção, em especial no te! a alho, em virtude 
de os teletrabalhadores estarem expostos a esforço repetitivos junto ao te­
clado, por longos períodos assentados e visualiza do te;as. de computadores 
e outros dispositivos. Desprezados os parâmetros ergonomicos, os efeitos na 
saúde dos teletrabalhadores serão drásticos. 
Cada vez mais políticas preventivas devem ser elaboradas e divulgadas, 
além da fiscalização tripartite-governo, trabalhadores e empregadores- para 
que as normas regulamentares estejam sempre em consonância com os pre­
ceitos constitucionais de um ambiente de trabalho saudável. 
6.4.4 Karoshi e suicídio no trabalho 
o isolamento do teletrabalhador que, regra geral, não tem contato diário 
com a sede empresarial e os demais trabalhadores, às vezes tampouco com a 
família- ainda que o labor seja exercido no domicílio - chama atenção ante o 
crescente índice de mortes e suicídios em razão do excesso de trabalho. 
Estar só no ambiente de trabalho pode ocasionar uma consequên~ia 
além do comprometimento com a vida social do ser humano. Para Mar~arida 
Maria Silveira Barreto e José Roberto Montes Heloani, "isolado, o indivíduo 
desumaniza-se, pois a comunicação constitui uma necessidade bási:a, e o ser 
humano utiliza-se dela em todas as situações de sua vida para partilhar com 
'd 'dd"640 os demais suas experiências, constituindo e fortalecendo sua I entl a e · 
Caso não se tenha um olhar atento para o modo de execução das tarefas e ~s 
condições físicas e psicológicas do teletrabalhador ao longo ~o. petiod~ .e~ reg;­
me de trabalho remoto, será este trabalhador em um futuro prox1111o, seJa nao o e, 
a principal vítima de morte por excesso de trabalho ou suicídio em razão do labor. 
o tenno ou karoshi tem origem no Japão, no qual karo significa excesso 
de trabalho e shi, morte, é definido como a morte súbita por excesso de traba­
lho. No meio nn·al brasileiro denomina-se birôla 
641
. 
A expressão tem registro no primeiro caso de morte por excesso de 
trabalho ocorrido em 1969, com um trabalhador de 29 anos que faleceu por 
640 BARRETO, Margarida Maria Silveira; HELOANI, José Roberto Montes. Da viol~nci~ .moral _no 
trabalho à rota das doenças e morte por suicídio. In: VIZZACCARO-AMARAL, Andre LUIS, MOlA, 
Daniel Pestana; ALVES, Giovanni (Orgs). Trabalho e Saúde: A precarização do trabalho e a saude do 
trabalhador no Século XXI. São Paulo: LTr, 2011. p. 174. 
641 FRANCO, Tânia. Karoshi: 0 trabalho entre a vida e a morte. Cadern~ CRH, Salvado~, n. 
37, p. 141-161, jul./dez. 2002. Disponível em: <https://portalseer.utba.br/mdex php/erhlarttcle/ 
view/18605/11979>. Acesso em: 17 jul. 2017. 
279 
Talita Camila Gonçalves Nunes 
i~ farto,. à ép?ca e~ pregado da maior empresa japonesa do ramo de distribui­
ça.o .de JOrnais. A l~teratura sociomédica descreve o karoshi como "um quadro 
ch~1co extr~~o (hg~d~ ao estresse ocupacional) com morte súbita por pato­
logia coronana 1squem1ca ou cérebro vascular" '". 
Em 1988 cria-se o Conselho Nacional de Defesa para vítimas de Ka­
:oshi no Japão e em 1990 o livro Karoshi foi publicado em inglês e o termo foi 
~ncorporado à língua inglesa. Segundo a doutrina, a estrutura das corporações 
Japonesas tem por base a estrutura piramidal feudal incorporada do kaisha643 
no ~ual ·:val~res fi.mda~entais como trabalhar intensamente e a lealdade, pe~ 
cuhares as Vilas feudais baseadas na agricultura são ainda prevalecentes no 
kwsha .moderno. Lealdade, disciplina e trabalho árduo são preceitos morais 
confuc1anos adotados pelos japoneses 644 • 
Camilla yolpato afirma que o que leva ao limite extremo não são apenas 
fatores cultW:aJ~ e, a partir da crítica ao .Japanese Production Management 
(JPM), espec~ahstas observaram que as diretrizes empresariais japonesas não 
se preocupam apenas com a qualidade total no desenvolvimento e produção 
do produto, mas tem o seu diferencial na "redução do custo de trabalho via 
corte de resíduos, isto é, tudo o que não é absolutamente imprescindível na 
produção". Como exemplo de resíduos, tem-se: "pausa para o xixi, coffee bre­
ak, _:empo de almoço, férias, feriado, deslocamento do funcionário pelas insta­
laçoes etc. Parar a produção noturna, então, o pior dos prejuízos". Não foi de 
graça que o Japão pós-guerra se sobressaiu: foi às custas de wna racionaliza­
ção produtiva, com corte de custos e intensificação dos preceitos tayloristas 6". 
Gustavo Carvalho Chehab destaca que, não obstante a origem e a des­
crição do karoshi tenham ligação com o toyotismo, o excesso de trabalho 
Igualmente está presente em outros meios de produção. Desde o início da 
642 
. C~IRO, Líbia Martins. Morte por excesso de trabalho (Karoshi). Revista do Tribunal 
Regional do 1raba/ho da 3: Região. Belo Horizonte, v. 46, n. 76, p.131-141,jul/de~.: 2007. Disponível em: 
~~ttp://WWVY·:dhnet.org.br/drreitos/sip/asia/carreiro_mortejapao_karochi.pdf> Acesso em: 5 jun. 2017. 
. O. kmsha .era a estrutura, no Japão antigo, da produção eficiente do arroz, que demandava 
contnbu1ç~ soem! e a cooperação de grupo. As vilas competiam simultaneamente entre si por ordem 
?o samw:~1 .leal ~ara provar sua lealdade ao daymo, um subordinado ao shogun, que agia como um 
1ntennedmno do m1perador. 
644 
CAETANO, Dorgival; COELHO, Angela E. L.; 9UIMARÃES, Liliana Andolpho Magalhães; 
Karosh1. morte po; sobrecarga de trabalho. ln: GUlMARAES, LilianaAndolpho Magalhães; GRUB!TS, 
Soma. (Orgs). Saude mental e trabalho. vol.lll. São Paulo: Casa do Psicólogo 2004. 
~ . . 
< . VO~PAT~ .. Cam1lla. Saiba ~que é o karoshi: a arte de morrer trabalhando. Disponível em: 
~ttp .I /pstcol ogmitapema.com. br/ sat ba-o-q ue-e-o-karos hi -a-arte-de-morrer -trabalhando/> Acesso em: 
5 .JUn. 2017. 
280 
APRECARIZAÇÃO NOTELETRABALHO: escravidão tecnológica e impactos na saúde :fisica e mental do trabalhador 
Revolução Industrial, como método doentio e selvagem de exaurimento da 
força do trabalhador, a sobrejornada é antiga e bas nte conhecida. Não é um 
mal isolado, mas inerente a toda forma de org zação de trabalho baseada 
na sobrecarrega de trabalho além da capacidade sica de alguém, isto é, de se 
exigir serviço superior às forças do trabalhador' 
Katsuo Nishiyama e Jeffrey Johnson, ci dos por Gustavo Carvalho 
Chehab, identificaram que as principais causas m ·dicas de morte associadas 
ao karoshi são "os ataques cardíacos (18,4%), acidentes vasculares cerebrais 
(17,2%), trombose ou infarto cerebral (6,8%), infarto agudo do miocárdio 
(9,8%), insuficiência cardíaca (18,7%) e outras causas (29,1%)". Os autores 
ainda pontuam que o Ministério do Trabalho, Saúde e Bem-Estar japonês esti­
ma, para fins de pagamento de indenização, de 20 a 60 mortes por ano e que a 
razão desses óbitos está na estrutura do modelo japonês de produção e gestão647
• 
Líbia Martins Carreiro salienta que nos casos de morte súbita há dificul­
dade de se produzir a prova, ante a ausência de um critério fixo, a exemplo do 
existente no governo japonês. É necessário comprovar o nexo causal entre o 
evento danoso e as condições de trabalho, bem como a culpa do empregador 
(art. 186 do CC/02) para caracterizar a responsabilidade civil. Já a jurispru­
dência, em alguns casos, não exige o requisito culpa, adotando, em caso de 
acidente de trabalho, a teoria do risco (art. 927, parágrafo único, CC/02), em 
que a responsabilidade do empregador se consuma pelo critério objetivo 648
• 
Um fator útil na identificação do nexo causal, segundo Gustavo Carvalho 
Chehab é a idade da vítima (média de 61,76 anos de idade, em pesquisa sobre 
casos de morte súbita no interior de São Paulo entre 1993 e 2002) 649
• Têm-se 
646 CHEHAB, Gustavo Carvalho. Karoshi: a morte súbita por excesso de trabalho. Revista do 
Tribunal Superior do Trabalho, v. 79, n. 3, p. 153-l80,juVset 20!3. Disponivel em: <https:l/juslaboris. 
tst.jus.br!bitstreamlhandle/ 1939/50030/008 _chehab.pdf?sequence~l &isAllowed~y>. Acesso em: 5 
jun. 2017. 
647 NISHIYAMA, Katsuo; JOHNSON, Jcffrey V. Karoshi - Death frmn ovenvork: occupational 
health consequences ofthc Japanese production management. Sixth Draft for International Journal of 
Health Services, 4 de fev. 1997. Disponivel em: <http://journals.sagepub.comldoi/abs/10.2190/IJPC-
679V-D YNT-HJ 60? ur l_ ver~Z3 9. 8 8-200 3 &r f r_ i d=ori %3 Arid %3 A c r o ssref. org& rfr _ dat~c r_ 
pub%3Dpubmed&>. Acesso em: 20 fev. 2017. Apud CHEHAB, Gustavo Carvalho. Karoshi: a morte 
súbita por excesso detrabalho. Revista do Tribunal Superior do Trabalho, v. 79, n. 3, p. 153-180, 
jul/set 2013. Disponível em: <https://juslaboris.tst.jus. brlbitstreamihandle/l939/50030/008 _ chehab. 
pdf?sequence~l&isAllowedry>. Acesso em: 5 jun. 2017. p. 154-!58. 
648 CARRElRO, Líbia Martins. Morte por excesso de trabalho (Karoshi). Revista do Tribunal 
Regional do Trabalho da 3. Região. Belo Horizonte, v. 46, n. 76, p.\31-141, juVdez 2007. Disponivel 
em: <http://www.dhnet.org.br/direitos/sip/asia/carreiro_morte_iapao_karochi.pdf> Acesso em: 5 jun. 
t~17. p. 139. 
No estudo realizado por Luciana M. dos Reis, José Antônio Cordeiro e Patrícia M. Cury, de 
281 
Talita Camila Gonçalves Nunes 
como fortes indícios do karoshi os "frequentes afastamentos médicos ao serviç"o 
por cansaço, estresse, fadiga e mal-estar (por exemplo: CID 10: F43, R46.6, R53 
e Z73.3), conjugados com a intensidade do trabalho". Ainda, o autor afirma que 
"o karoshi não é morte no trabalho, mas morte pelo trabalho", ante a intensidade 
do labor, capaz de gerar um colapso fatal, não importando o local do óbito, mas o 
trabalho (aspecto quantitativo) como causa única ou concausa do óbito 650 • 
Observa-se ainda que o suicídio no trabalho não se inclui no conceito de 
morte súbita, sendo apenas "uma reação, uma resposta psicológica do traba­
lhador ao sofrimento laboral vivido". O suicídio em virtude do trabalho pode 
ter ou não relação com o excesso de trabalho, denominando-se karqjisatsu no 
caso de suicídio por excesso de trabalho. Conquanto tenha a mesma conse­
quência jurídica do karoshi, o karojisatsu- associado à síndrome de burnout 
grave- terá origem na exaustão psicológica extrema e não fisiológica 651
• 
Edith Seligmarm-Silva assinala que o burnout é um termo inglês que 
corresponde à "queima até o final" e no português tem a tradução de "estar 
acabado", presente na CID-10 (considerada designação pejorativa pela auto­
ra). Também é a denominação de um quadro clínico chamado Síndrome do 
Esgotamento Profissional (código Z73-0 na classificação oficial). A manifes­
tação central é uma "exaustão que eclode de modo aparentemente brusco, sob 
forma de uma crise"; há uma segunda manifestação que é "uma aguda reação 
emocional negativa, de rejeição" e a terceira manifestação que é a "dificulda­
de de concentração e queda do desempenho" 652
• 
2.056 casos de mortes súbitas no interior de São Paulo de 1993 a 2002, verificou·se que a média de 
idade das vítimas era de 61,76 anos, sendo 65,62 para homens e 59,45 para mulheres. Relacionando 
idade e causa mortis, esses pesquisadores encontraram as seguintes médias etárias: 52,1 anos e 68,12 
anos para acidentes vasculares cerebrais hemorrágico e isquêmico, respectivamente; 62,82 anos para 
infarto agudo do miocárdio; e 63,05 anos para insuficiência cardíaca crônica. ln: REIS, Luciana Martins 
dos; CORDEIRO, José AntOnio; CURY, Patrícia Maluf. Análise da prevalência de morte súbita e os 
filtores de riscos associados: estudo em 2.056 pacientes submetidos a necropsia. Jornal Brasileiro de 
Patologia e Medicina Laboratorial, Rio de Janeiro, SBPC/ML, v. 42, n. 4, p. 299-303, jul./ ago. 2006. 
Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/jbpmllv42n4/a12v42n4.pdf>. Acesso em: 17 jul. 2017. p. 
299. Apud CHEHAB, Gustavo Carvalho. Karoshi: a morte súbita por excesso de trabalho. Revista do 
Tribunal Superior do Trabalho, v. 79, n. 3, p. 153·180, juVset 2013. Disponível em: <https://juslaboris. 
tst.jus.br/bitstream/hand1e/1939/50030/008_chehab.pdf?sequence~1&isAllowedry>. Acesso em: 5 
jtm. 2017. p. 162. 
65° CHEHAB, Gustavo Carvalho. Karoshi: a morte súbita por excesso de trabalho. Revista do 
Tritnmal Superior do Trabalho, v. 79, n. 3, p. 153·180, jul/set 2013. Disponível em: <https://juslaboris. 
tst.jus.br/bitso·eam/handle/1939/50030/008 _ chehab. pdf?sequence~ 1 &isAllowed~y>. Acesso em: 5 
jun. 2017. p. 161-163. 
651 CHEHAB, Gustavo Carvalho. Karoshi: a morte súbita por excesso de trabalho. Revista do 
Tribunal Superior do Trabalho, v. 79, n. 3, p. 153-180, jul/set 2013. Disponível em: <https://juslaboris. 
tst.jus.br/bitstreamlhandle/1939/50030/008_chehab.pdf?sequence~l&isAllowed~y>. Acesso em: 5 
jun. 2017. p. 163. 
652 SELIGMANN·SlLVA, Edith. Trabalho e desgaste mental: o direito de ser dono de si mesmo. São 
Paulo: Cortez, 2011. p. 523-525. 
282 
A PRECARJZAÇÁO NOTELETRABALHO: escravidão tecnoló ca e impactos na saúde fisica e mental do trabalhador 
A autora assevera que, com relação a Karojisatsu, no Japão "é corrente 
o reconhecimento jurídico de suicídios associados a situações de trabalho que 
sejam caracterizadas por sobrecarga continuada, prolongamento das jorna­
das concomitante a ausência de folgas e exiguidade das horas destinadas ao 
sono". No Brasil, pouco se divulga o suicídio em algumas categorias de traba­
lhadores, mas há estudos específicos com registros de suicídios relacionados 
ao trabalho, bem como de tentativas não consumadas 653
• 
Nos dados do Observatório da Saúde Global da OMS, houve uma estimativa 
de 788.000 mortes por suicídio em todo o mundo em 2015 654
• Todavia é difícil es­
timar estatisticamente os casos de suicídio relacionados ao trabalho, o que deixa a 
questão permanecer na invisibilidade, apenas somando-se aos números de suicídio 
por fatores diversos e sendo objeto de estudos em vários campos do saber. 
Maria Elizabeth Antunes Lima assevera que diversos estudos já foram 
feitos acerca da generalização de medidas que visam o aumento da qualidade 
e da produtividade, com consequências no aumento de Lesões por Esforços 
Repetitivos (LER), que lidera por vários anos as estatísti?as de d?enças ocu­
pacionais. Além disso, a autora cita os transtornos mentais, a fad1g~ nerv.osa, 
a síndrome do pânico e os quadros depressivos. Não se perde de v1sta a1~da 
"o aumento dos acidentes de trabalho, sobretudo, entre trabalhadores tercem­
zados além dos quadros de alcoolismo, de ansiedade e do importante índice 
, . fi' '"655 
de suicídio que vêm atingindo certas categonas pro sswnats . 
Observa-se na doutrina que não é de imediato, regra geral, que un1 tra­
balhador decide tirar a própria vida. Antes disso, há o que Margarida Maria 
Silveira Barreto e José Roberto Montes Heloani denominam de estratégias 
de sobrevivência do trabalhador, para suportar o sofrimento, para impedir a 
própria exclusão do trabalho ou não se cu1pabilizar pelo fracasso. :ara.t~to, 
"as idas a médicos são evitadas e o absenteísmo só ocorre quando mev!tavel, 
d '1' . , 656 o que os faz suportar a or em SI enc10 . 
653 SELlOMANN·SlLVA, Edith. Trabalho e desgaste mental: o direito de ser dono de si mesmo. São 
Paulo: Cortez, 2011. p. 548-549. 
654 WORLD HEALIH ORGANlZATION. WHO. Global Health Observatory. Suicide ratcs (per 
100.000 population) 2015. Disponível em: <http://www.who.int/gho/mental_health/suicide_rates/enl>. 
Acesso em: 12 maio 2017. 
655 LIMA MariaElizabethAntunes. Trabalho e saúde mental no contexto contemporâneo ~e trabalho: 
possibi\idad~s e limites de ação. In: VlZZACCARO-AMARAL, André Luís; MOTA, Dante! Pestana; 
ALVES, Giovanni (Orgs). Trabalho e Saúde: A precarização do trabalho e a saude do trabalhador no 
Século XXI. São Paulo: LTr, 2011. p. 166. 
656 BARRETO, Margarida Maria Silveira; HELOANI, José Roberto Montes. Da violência moral no 
283 
Talita Camila Gonçalves Nunes 
Mais que isso, o sofrimento é composto pela dificuldade de se fazér 
prova do adoecimento, na qual os trabalhadores "percorrem uma via-crúcis, 
de médico em médico, esperando ter a sua doença reconhecida como produto 
do trabalho, o que raramente acontece". O retomo ao trabalho também não é 
festejado, pois há o sentimento de desprestígio e humilhação quando designa­
dos para tarefas menos complexas e não qualificadas. Para os autores, "se o 
trabalho é patogênico, o adoecido do trabalho vive uma loucura imposta pela 
negação social de sua capacidade e identidade enquanto força de trabalho" 657
• 
As doenças e o sofrimento, consoante Margarida Maria Silveira Barreto 
e José RobertoMontes Heloani devem ser tidos como relevantes na arquitetura 
organizacional ou, caso não sejam, detectar as raízes da violência desde a po­
lítica estratégica até a produção e organização do trabalho. Assim, "elaborado 
este diagnóstico organizacional, são necessárias medidas que eliminem o risco 
não visível que está contido nestas dimensões e que se explícita como fatores 
psicossociais". E não basta apenas a adoção de programas de qualidade de vida 
e bem-estar, se o labor exige "metas inalcançáveis e avaliações individuais sub­
jetivas e perversas" que tomam o ambiente de trabalho insuportável 658
• 
Para Luci Praun, com resultado da forma de gestão laboral, o suicídio: 
[ ... ] é a expressão radicalizada da deteriorização de trabalho sob a 
vigência da gestão flexível. Ele, e todo o sofrimento que o cerca, en­
contra espaço para se desenvolver na medida em que o trabalhador 
se vê diante de uma organização do trabalho voltada para o controle 
acentuado de sua atividade, em que as margens para a autonomia 
e o improviso tenham sido gradativamente eliminadas. Uma orga­
nização do trabalho que oscila o tempo todo entre o discurso de 
valorização e o controle físico e mental extremados 659
. 
trabalho à rota das doenças e morte por suicidio. In: V!ZZACCARO-AMARAL, Andró Luis; MOlA, 
Daniel Pestana; ALVES, Giovanni (Orgs). Trabalho e Saúde: A precarização do trabalho e a saúde do 
trabalhador no Século XXI. São Paulo: LTr, 2011. p. 175. 
657 BARRETO, Margarida Maria Silveira; HELOANl, José Roberto Montes. Da violência moral no 
trabalho à rota das doenças e morte por suicídio. In: VIZZACCARO-AMARAL, André Luis; MOTA, 
Daniel Pestana; ALVES, Giovanni (Orgs). Trabalho e Saúde: A precarização do trabalho e a saúde do 
trabalhador no Século XXI. São Paulo: LTr, 2011. p. 175-176. 
658 BARRETO, Margarida Maria Silveira; HELOÀNI, José Roberto Montes. Da violência moral no 
trabalho à rota das doenças e morte por suicídio. In: VIZZACCARO-AMARAL. André Luis; MOTA. 
Daniel Pestana; ALVES, Giovanni (Orgs). Trabalho e Saúde: A precarização do trabalho e a saúde do 
trabalhador no Século XXI. São Paulo: LTr, 2011. p. 183. 
659 PRAUN, Luci. Reestruturação produtiva, saúde e degradação do trabalho. Campinas: Papel 
Social, 2016. p. 145. 
284 
A PRECARIZAÇÃO NO TELETRABALHO: escravidão tecnológica e impa na saúde fisica e mental do trabalhador 
Jean-François Chanlat, citado por E 'th Seligmann-Silva, afirma que 
o esgotamento profissional é uma "síndr e de esgotamento físico e emo­
cional, compreendendo o desenvolvime to de imagens negativas sobre si 
mesmo, de atitudes desfavoráveis em relação ao trabalho e de uma perda de 
interesse em relação aos clientes" 660
• 
Para Christophe de Dejours, o suicídio é um fenômeno que atinge todos 
os países ocidentais, e há um significado quando os indivíduos se suicidam 
no local de trabalho: 
É uma mensagem extremamente brutal, a pior do que se possa 
imaginar- mas não é uma chantagem, porque essas pessoas não 
ganham nada com o seu suicídio. É dirigida à comunidade de 
trabalho, aos colegas, ao chefe, aos subaltemos, à empresa. Toda 
a questão reside em descodificar essa mensagem 661
. 
A racionalização do trabalho, ligada de maneira estreita à forma como 
ele se dá, segundo Margarida Maria Silveira Barreto c Selma Boghi Venco, 
atua de modo permanente "na dominação do capital sob o trabalho, respaldan­
do-se em novas tecnologias voltadas para o aperfeiçoamento do controle dos 
movimentos e da produtividade dos trabalhadores". Em um contexto socioe­
conômico neoliberal, resultam em desemprego e precarização do trabalho 662
• 
Nessa realidade, a empresa intitulada moderna impõe metas sempre va­
riáveis, com intensificação do trabalho e "ausência de formação específica 
para uma nova organização do trabalho e ou para a utilização de novas tec­
nologias". Como consequência, com a utilização frequente da "micropolítica 
das humilhações cotidianas e sistemáticas como instrumento de controle da 
biopolítica", atos de violência laboral, estímulo à competitividade e a instala­
ção da indiferença desencadeiam as distintas e novas patologias responsáveis 
pelo crescimento de suicídios no e do trabalho, "mostrando a nova estética da 
violência em um mundo do trabalho globalizado" 663
• 
660 SELIGMANN-SILVA, Edith. Desgaste mental no trabalho dominado. Rio de janeiro: Editora 
UFRJ; Cortez Editora, 1994. p. 76. 
661 DEJOURS, Christophe. "Um suicidio no trabalho é uma mensagem brutal". Entrevista concedida 
a Ana Gerschen(eld, OI jan. 2010. Disponível em: <http://correntes.blogs.sapo.pt/583528.htrnl>. 
Acesso em: li jun. 2017. 
662 BARRETO, Margarida Maria Silveira; VENCO, Selma Borghi. O sentido social do suicídio no 
trabalho. Revista Espaço Acadêmico, n° 108, mai/2010. Disponível em: <http://wv.w.assediomoral. 
org!lMG/pdf/Selma _ Venco _e _Margarida_ Barreto_._ O_ sentido _social_do _suicidio _no_ trabalho _1_. 
pd!>. Acesso em: 11 jun. 2017. p. 5-6. 
663 BARRETO, Margarida Maria Silveira; VENCO, Selma Borghi. O sentido social do suicidio no 
285 
Talita Camila Gonçalves Nunes 
O suicídio no trabalho advém da ligação direta com a diminuição dos 
postos de trabalho, reestruturação produtiva, exigências de metas e precariza­
ção no trabalho. No Brasil ocotTem cerca de 25 suicídios por dia, e parte des­
tes é ligada ao trabalho "apesar do silêncio que impera na elucidação de suas 
causas" e pela responsabilidade ser direcionada aos sujeitos. Tais mortes "nos 
revelam uma nova estética da violência globalizada, na qual a semiótica do 
corpo do suicida sinaliza pistas e contém histórias que não foram reveladas" 664
• 
O teletrabalho é nova forma de organização do trabalho na qual o tra­
balhador se isola dos demais, e, além da ausência do convívio social em 
diversos casos, o trabalhador se compromete com metas de produtividade 
extenuantes que, por conseguinte, acarretam danos gravosos à sua saúde. A 
probabilidade de karoshi ou suicídio, nesses casos, é muito maior, porquanto 
o trabalhador vive momentos de estresse e tensão, desânimo, depressão sem 
qualquer acompanhamento médico ou psicológico para superar esse estado 
de desalento e desesperança. 
Quando se trata do silêncio que envolve os casos de suicídio e suas 
motivações, destacam-se os suicídios no âmbito do Poder Judiciário, em es­
pecial os ocorridos com servidores do TRT da 2" Região. Não raro os próprios 
servidores do Tribunal relatam eventos de assédio moral, pressão por metas 
de produtividade e adoecimentos. 
Nesse contexto, diretores do SINTRAJUD-SP, no mesmo dia em que 
ocorrido o suicídio de uma servidora no ano de 2014, reuniram-se com a 
presidência do Tribunal para definir, em conjunto, medidas de emergência re­
lacionadas à saúde dos trabalhadores 665
• Muitos servidores são trabalhadores 
que, ao serem aprovados no concurso público, abandonam seus lares e, por 
conta da estabilidade, se submetem aos abusos cometidos por superiores hie­
rárquicos e pelo excesso de tarefas. A servidora homenageada, natural do Rio 
Grande do Norte, é mais uma concursada que abandonou o estado de origem 
para uma vida nova e o resultado foi a supressão da própria vida. No período 
de um mês, outros dois servidores também faleceram em virtude de suicídio. 
trabalho. Revista Espaço Acadêmico, n° 108, mai/2010. Disponível em: <http://www.assediomoral. 
org/lMG/pdf/Selma_ Venco_e_Margarida_Barreto_~ _O_sentido_social do suicídio no trabalho 1 . 
pdt>. Acesso em: 11 jun. 2017. p. 7. - - - - - -
664 BARRETO, Margarida Maria Silveira; HELOANI, José Roberto Montes. Da violência moral no 
trabalho à rota das doenças e morte por suicídio. In: VIZZACCARO-AMARAL, André Luis; MOTA, 
Daniel Pestana; ALVES, Giovanni (Orgs). Trabalho e Saúde: A precarização do trabalho e a saúde do 
trabalhador no Século XXI. São Paulo: LTr, 2011. p. 182. 
665 SlNTRAJUD~SP. Ato pela vida pede uniiio dos servidores. Disponível em: <https://sintrajud~ 
sp.jusbrasil.com. br/noticias/ 145419526/ato·pela~vida·pede·uniao~dos~servidorcs>.Acesso em: 5 jun. 
2017. 
286 
A PRECARJZAÇÃO NO TELETRABALHO: escravid!l.o tecnológica e impactos na saúde fisica e mental do trabalhador 
Ainda que o caso da servidora tenha utras origens, o SINTRAJUD-SP 
não ignora a realidade do tribunal: assé · moral, opressão, uso de remédios 
controlados e atendimento psiquiátrico, doecimentos e afastamentos de ser­
vidores é uma constante que deve ser bservada de perto. O suicídio pode 
igualmente ter causa no labor excessivo dos servidores dos tribunais e medi­
das preventivas devem ser tomadas para ue nenhum caso de suicídio esteja 
diretamente ligado ao trabalho, hipótese que não pode ser descartada diante 
do dia a dia extenuante de tribunais como o TRT da 2" Região, em que o ex­
cesso de trabalho é fato notório de conhecimento dos servidores, dos magis­
trados, dos advogados e da sociedade. 
Esses mesmos servidores vindos dos quatro cantos do país para compor 
o corpo de trabalhadores dos tribunais são os novos teletrabalhadores. Quan­
do não é possível teletrabalhar no estado ou cidade de origem, eles sofrem a 
agonia de permanecer em longa espera/busca por uma remoção por permuta. 
Além da distância dos familiares e amigos, no regime de teletrabalho em esta­
do diverso, permanecem distante dos colegas de trabalho e, diante da jornada 
excessiva- pois no trabalho remoto a produtividade exigida é mais elevada- e 
ausência de convívio social, estão mais vulneráveis às doenças e ao suicídio. 
Ainda que não existam dados empíricos exaustivos acerca da ligação 
do teletrabalho com casos de suicídio no labor em geral e no âmbito dos tri­
bunais, o escopo desta pesquisa é o de priorizar medidas preventivas contra 
o suicídio para esta nova modalidade e evitar que esse número, que já é alar­
mante no país, não tenha um crescimento desenfreado. 
No âmbito do teletrabalho deve ser periódica a verificação do estado de 
saúde do trabalhador, seja no que tange ao excesso de jornada, a fim de não 
acarretar danos físicos que culminem na morte súbita- karoshi -,bem como 
analisar a saúde psicológica do teletrabalhador, com o escopo de identificar 
medo, insegurança, insatisfação e a depressão em diversos níveis, aptos a 
facilitar uma tentativa de suicídio ou oportunizá-lo. 
Haverá casos em que o teletrabalhador terá outras companhias, seja da 
família ou amigos com quem convive, seja no trabalho em domicílio, itinerante 
ou teles serviço. Ainda assim, deverà haver uma supervisão acerca de sua saúde 
física e mental. Isso porque, ainda que cercado de pessoas, isso não significa 
que o teletrabalhador, próximo de entes queridos, esteja no pleno gozo do con­
vívio social que estimula todo ser humano a viver com alegria e satisfação. 
287 
Talita Camila Gonçalves Nunes 
Há teletrabalhadores que, mesmo habitando um lar repleto de familiares, 
se encontram completamente isolados do convívio, em razão do acúmulo de ta­
refas a desempenhar, permanecendo trancados em seus quartos ou escritórios, 
totalmente privados de qualquer contato. Todo o acompanhan1ento deve serre­
alizado com o objetivo de fiscalizar se o teletrabalhador mantém um equilíbrio 
entre o tempo de trabalho e de lazer e convivência com seus pares. 
Com mais razão deverá ser supervisionado o teletrabalhador que vive 
sozinho e labora isolado, circunstância em que as chances de adoecimento 
são, em tese .• maiores. Exames periódicos e visitas à sede empresarial (a de­
pender do tipo de teletrabalho) são medidas preventivas de cunho obrigatório 
para que o trabalhador esteja cercado de todo o acompanhamento médico e 
psicológico necessário, a fim de evitar o adoecimento que resulte no fim súbi­
to ou extennínio da própria vida. 
6.5 A proteção à saúde: medidas de higiene, saúde e segurança do 
teletrabalhador 
Ao teletrabalhador é possível assegurar uma vida saudável se garanti­
dos o direito ao descanso e ao lazer constitucionalmente previstos no ordena­
mento jurídico brasileiro. Entretanto, o indivíduo que labora está predisposto 
a sofrer algum infortúnio caso não sejam tomadas medidas de higiene, saúde 
e segurança no decurso do contrato de trabalho. 
A Constituição de 1988 dispõe sobre a saúde no capítulo Il, dedicado 
aos direitos sociais, em seu art. 6°: "São direitos sociais a educação, a saúde, 
a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a 
previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos 
desamparados, na forma desta Constituição". Já no art. 7": "São direitos dos 
trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua 
condição social: XXII - redução dos riscos inerentes ao trabalho, por meio 
de normas de saúde, higiene e segurança; XXIII -adicional de remuneração 
para as atividades penosas, insalubres ou perigosas, na forma da lei". 
O referido bem jurídico, bem como o meio ambiente, considerado o 
ambiente de trabalho, também são tutelados nos seguintes artigos: 
288 
Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do tra­
balho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos 
existência digna, conforme os ditames da justiça social, obser­
vados os seguintes princípios: VI: defesa do meio ambiente, in-
A PRECARIZAÇÃO NOTELETRABALHO: escravidão tecnoló ica e impactos na saúde fisica e mental do trabalhador 
clusive mediante tratam to diferenciado confonne o impacto 
ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de elabo­
ração e prestação: 
[ ... ] 
Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente 
equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia 
qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade 
o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras 
gerações. 
No âmbito infraconstitucional, a CLT, no capítulo V, dispõe sobre se­
gurança e medicina do trabalho em dispositivos que atribuem competência 
às Delegacias Regionais do Trabalho, às empresas e aos empregados, no que 
tange à proteção do meio ambiente de trabalho (arts. 156 a 20~). A Lei no 
6938/ 81 -Lei de Política Nacional o Meio Ambiente- recepctonada pela 
CF/88, também trata do meio ambiente, no qual deve ser compreendido o 
meio ambiente de trabalho 666
• 
Na jurisprudência nacional, oportuno destacar a Súmula n° 736 do Su­
premo Tribunal Federal, segundo a qual "compete à justiça do trabalho jul­
gar as ações que tenham como causa de pedir o descumprimento de normas 
trabalhistas relativas à segurança, higiene e saúde dos trabalhadores" 
667
• A 
tendência da Justiça do Trabalho é ampliar-se. E resta evidente que esta com­
petência não se consubstancia apenas em processar e julgar conflitos que, so­
lucionados, garantem tão somente o patrimônio pecuniário do traba~ha~or- o 
que antes era muito questionado nos tribunais -, excluída a competencta para 
a tutela de outros bens jurídicos. 
o que se observa, atualmente, é que a saúde é bem jurídico de alto re­
levo e a proteção de medidas de higiene, saúde e segurança pela Justiça do 
Trabalho nada mais é do que um efetivo avanço em favor do trabalhador. E 
não é demais reiterar que essa proteção se estende à relação de trabalho, e não 
apenas à relação de emprego. 
Na esfera internacional, a saúde é tutelada nos seguintes dispositivos: 
art. 25 da Declaração Universal de Direitos Humanos; arts. 7o e 12 do Pacto 
Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais; arts. 7o e 1 O 
666 MELO Raimundo Simão de. Direito ambiental do trabalho e a saúde do trabalhador: 
responsabilid~des legais, dano material, dano moral, dano estético, indenização por perda de uma 
chance, prescrição. 4. ed São Paulo: LTr, 2010. p. 40-43. 
667 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Súmula n° 736. Disponível em: .<http://www.stf.jus.br/ 
portal/jurisprudencialmenuSumarioSumulas.asp?sumula=2243> Acesso em: 5 JUL 2017 · 
289 
Ta li ta Camila Gonçalves Nunes 
do Protocolo Adicional à Convenção Americana sobre Direitos Humanos em · 
Matéria de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (Protocolo de San Sal­
vador); e art,17 da Declaração Sociolaboral do MercosuL Na OIT, a proteção 
à saúde està elencada na Declaração Referente aos Fins e Objetivos da OIT, 
além das diversas Convenções que se relacionam com a saúde e segurança no 
trabalho: 12, 16, 19, 42, 45, 81, 113, 115, 136, 139, 148, 152, 155, 159, 161, 
162, 164, 167, 170 e 176. A preservação da saúde e segurança também integra 
o compromisso da OIT de primar pelo Trabalho Decente 668• 
Para Raimundo Simão de Melo, a definição mais abrangente de meio am­
biente de trabalho e que abarca a todo o cidadão- e não apenas o empregado- é: 
[ ... ] o local onde as pessoas desempenham suas atividades lab­
orais, sejam remuneradas ou não, cujo equiHbrio está baseado 
na salubridade do meio ambiente e na ausência de agentes que 
comprometam a incolumidade fisico-psíquica dos trabalhadores, 
independentemente da condição que ostentem (homens ou mul­
heres, maiores ou menores de idade, celetistas, servidores públi­
cos, autônomos etc.) 669 
O autor menciona que esse ambiente não é só o espaço estrito de traba­
lho, mas o local, bem como "os instrumentos, o modo de execução das tarefas 
e a maneira como o trabalhador é tratado pelo empregador ou tomador de 
serviço e pelos próprios colegas de trabalho". Assim, manter um ambiente de 
trabalho adequado e seguro é um direito fundamental do trabalhador e o seu 
desrespeito uma agressão à sociedade 610 • 
Manuel Carvalho da Silva destaca que há uma evolução contínua nos 
objetivos da promoção da saúde no trabalho, e como proposta assevera que o 
trabalhador deve promover a sua saúde, sendo este um dever dentro e fora do 
local de trabalho. Assim, assinala que "existem meios técnicos e científicos 
necessários e a riqueza produzida pelo trabalho é suficiente para, entre outros 
direitos do trabalho, assegurar o direito à saúde, e o trabalhador deve estar 
668 MASSl, Alfredo. Teletrabalho- Análise sob a ótica da saúde e da segurança do trabalhador. ln: 
COLGNAGO, Lorena Rezende de Mello; CHAVES JUNIOR, José Eduardo de Resende, ESTRADA; 
Manuel Matin Pino (Coords.). Teletrabalho. São Paulo: LTr, 2017. p. 95. 
669 MELO, Raimundo Simão de. Direito ambiental do trabalho e a saríde do trabalhador: 
responsabilidades legais, dano material, dano moral, dano estético, indenização por perda de uma 
chance, prescrição. 4. ed. São Paulo: LTr. 2010. p. 30-31. 
610 MELO, Raimundo Simão de. Direito ambiental do trabalho e a saúde do trabalhador: 
responsabilidades legais, dano material, dano moral, dano estético, indenização por perda de uma 
chance, prescrição. 4. ed. São Paulo: LTr, 2010. p. 31. 
290 
- ' A PRECARIZAÇAO NO TELETRABALHO: escravidlio tecnol · gica e impactos na saúde fisica e mental do trabalhador 
consciente do seu direito/responsabilida e nesta importante área". O empre­
gador e o Estado, igualmente, devem agir com princípios éticos com o escopo 
de valorizar e promover a saúde e a segur ça no trabalho 671 • 
Para uma efetiva proteção à saúde, é necessário conhecer a situação de 
trabalho em que se encontra o trabalhador. A expressão situação de trabalho, 
adotada por especialistas de diversas áreas, significa: 
[ ... ]o conjunto complexo que inclui as condições físicas. quími­
cas e biológicas do ambiente de trabalho; os aspectos técnicos; 
a organização prescrita e a organização real das atividades de 
trabalho, bem como a gestão das mesmas; a caracterização dos 
canais fonnais de comunicação e das relações interpessoais 672 . 
Observa-se, segundo Daniel Pestana Mota, que as transformações no 
mundo do trabalho nem de longe foram acompanhadas pela "preocupação 
com novas formas de adoecimento daqueles que vivem do (e pelo) trabalho". 
A Justiça do Trabalho sequer está aparelhada para tutelar as demandas sobre 
a saúde do trabalhador, ainda que passados anos de publicação da EC. n° 45 a 
qual determinou a sua competência. Contudo, esse aparelhamento da justiça 
laboral deve se dar de maneira não só material, mas também ideológica (ju­
ízes e a Justiça do Trabalho), para que o Direito do Trabalho não negue sua 
própria razão de ser 673
• 
As novas fonnas de trabalho (ou a sua ausência) desencadeiam doenças 
de novo tipo: "inovações tecnológicas, novas técnicas gerenciais e organiza­
cionais, cobranças por metas e produtividade, polifuncionalidade, envolvi­
mento sem precedentes dos trabalhadores (os modernos "colaboradores") à 
lógica empresarial [ .. .]". Une-se a isso uma multidão de excluídos, além da 
modificação do perfil de antigas doenças ligadas ao trabalho, de forma direta 
ou indireta 674
• 
671 SILVA, Manuel Carvalho da. Trabalho, GlobaHzação e Saúde do Trabalhador: Promoção da 
saúde e da qualidade de vida. In: VIZZACCARO-AMARAL. André Luís; MOTA. Daniel Pestana; 
ALVES, Gíovanní (Orgs). Trabalho e Saúde: A precarização do trabalho e a saúde do trabalhador no 
Século XXI. São Paulo: LTr. 2011. p. 35. · 
672 SELlGMANN-SlLVA, Edith. Trabalho e desgaste mental: o direito de ser dono de si mesmo. São 
Paulo: Cortez, 201 I. p. 255. 
673 MOTA, Daniel Pestana. Direito, Trabalho e Saúde: uma equação possível? In: VIZZACCARO­
AMARAL. André Luís; MOTA, Daniel Pestana; ALVES. Giovanni (Orgs). Trabalho e Saúde: A 
precarização do trabalho e a saúde do trabalhador no Século XX!. São Paulo: L:l"r, 2011. p. l 96. 
674 MOlA, Daniel Pestana. Direito, Trabalho e Saúde: uma equação possível? In: VIZZACCARO­
AMARAL, André Luís; M01A, Daniel Pestana; ALVES, Giovanni (Orgs). Trabalho e Saúde: A 
291 
l 
! 
Talita Camila Gonçalves Nunes 
Nesse contexto, questiona-se se estará a Justiça do Trabalho, no âmbito 
de sua competência, preparada para a chegada do teletrabalho e a modificação 
de doenças relacionadas direta ou indiretamente ao trabalho remoto. As novas 
tecnologias crescem e se modificam em uma velocidade que implica impac­
tos no direito laboral e na tutela da saúde dos trabalhadores. 
Segundo o DIEESE, quanto à visão parcial e limitada das condições de 
saúde do trabalhador: 
O principal aspecto negligenciado é o reconhecimento de que as 
questões relacionadas à saúde do trabalhador são determinadas 
mais pela dinãmica da gestão e da organização do trabalho em 
certo ambiente, como a extensão e intensidade da jornada de tra­
balho, as escolhas tecnológicas, a pressão por metas e resultados, 
entre outros e, menos pela inadequação do ambiente do trabalho 
e da inobservância dos trabalhadores ao trabalho prescrito 675 . 
Todavia, a legislação constitucional que acolheu a saúde como sua tu­
telada ainda permite os riscos no trabalho, que são reduzidos pela aplicação 
de nonnas de saúde, higiene e segurança. É o que Sidnei Machado, citado por 
Daniel Pestana Mota, denomina de monetização dos riscos, ou seja, a norma 
constitucional se adequa à lógica econômica do capitalismo, por apenas per­
seguir a redução dos riscos, mas não a sua eliminação 6
76
• 
Há dificuldades no que tange a uma legislação ultrapassada ante a evo­
lução das relações capital-trabalho, além da "própria atuação do Judiciário 
Trabalhista, apático diante dos casos cada vez mais complexos que lhe são 
atribuídos". Quanto às mudanças legislativas no país, poucas inovações fo­
ram sentidas, como a instituição do nexo técnico epidemiológico- que iden­
tifica doenças ocupacionais em razão de atividades econômicas empresariais 
específicas-, bem como a estatística de afastamentos previdenciários ocupa­
cionais desencadeados em setor patronal detenninado 677 . 
precarização do trabalho e a saúde do trabalhador no Século XXI. São Paulo: Ltr, 20I1. p. 197. 
615 DEPARTAMENTO INTERSIND!CAL DE ESTATÍSTICAS E ESTUDOS ECONÔMICOS. 
DIEESE. A saúde dos índices de saúde do trabalhador. Nota Técnica no 162, set. 2016. Disponível em: 
<https://www.dieese.org.br/notatecnica/2016/notaTeci62Saude.pdf>. Acesso em: 6 maio 2017. p. 2. 
676 MACHADO, Sidnei. O direito à proteção ao meio ambiente de trabalho no Brasil. São Paulo: 
LTr, 2001. p. I02. ApudMOTA, Daniel Pestana. Direito, Trabalho c Saúde: uma equação possível? In: 
V!ZZACCARO-AMARAL. André Luís;MOTA, Daniel Pestana; ALVES, Giovanni (Orgs). Trabalho 
e Saúde: A precarização do trabalho e a saúde do trabalhador no Século XXI. São Paulo: Ltr, 2011. p. 
197. 
677 MOTA, Daniel Pestana. Direito, Trabalho e Saúde: uma equação possível? In: VIZZACCARO­
AMARAL. André Luís; MOTA, Daniel Pestana; ALVES, Giovanni (Orgs). Trabalho e Saúde: A 
292 
A PRECARIZAÇÃO NOTELETRABALHO: escravidão tecnológica e impactos na saúde física e mental do trabalhador 
Quanto à atuação do jurista e do Di to do Trabalho, Daniel Pestana 
Mota salienta: 
Referido avanço, no entanto, tem sido barrado pelo conser­
vadorismo jurisdi ional, aliado a uma crescente lógica da mod­
emizaç~o da jus!I a, que tem no judiciário trabalhista efeitos 
devastadores. O Direito, e mais precisamente, o Direito do 
Trabalho, têm dado sua colaboração nesse processo de hiper­
monopolização do capital assimilando as práticas de gest~o e 
organização verificadas no novo modelo de reprodução capital­
ista. Os que hoje julgam são cobrados pelo tempo de duração 
do processo; desprezam-se a complexidade e as particularidades 
que as demandas envolvendo as relações de trabalho e suas con­
sequências à saúde dos trabalhadores proporcionam, a demandar 
análise cuidadosa e providências cada vez mais radicais.678 
Sobre a monetização dos riscos, Edith Seligmann-Silvajá afirmava que 
"os indivíduos e suas ações passam a ser valorizados como entidades contá­
beis e como que reduzidos a valores de troca [ ... ] Essa abstração monetariza 
os próprios trabalhadores, o seu tempo e as suas ações". A autora entende 
que essa análise pode ser estendida à questão da saúde e integridade física e 
mental do trabalhador que: 
( ... ] impregnado pela ação do aparelho ideológico da empresa, 
é levado a aceitar que as condições de insalubridade, os riscos 
de vida (periculosidade) e a própria penosidade do trabalho se­
jam pagos em dinheiro, ao invés de exigir a transformação das 
condições de trabalho. A monetarização do risco, desse modo, 
irá se articular aos mecanismos psicológicos e psicossociais de 
negação do ~róprio risco, favorecendo ainda mais o êxito da 
dom inação 6 9
. 
O teletrabalhador é igualmente fisgado por essa lógica, na qual se sub­
mete à organização do trabalho engendrada no acúmulo de tarefas, na reali­
zação de jornadas extenuantes a qualquer tempo e hora, sob a justificativa de 
que o tempo de labor será compensado pelo valor correspondente (quando 
pago). A questão é refletir se essa captura subjetiva do teletrabalhador, im­
pactando na sua saúde, é passível de monetarização, ou se é imprescindível 
precarização do trabalho e a saúde do trabalhador no Século XXI. São Paulo: Ltr. 2011. p. ! 97-198. 
678 MOTA, Daniel Pestana. Direito, Trabalho e Saúde: uma equação possível? In: VIZZACCARO­
AMARAL, André Luís; MOTA, Daniel Pestana; ALVES, Gíovanni (Orgs). Trabalho e Saúde: A 
precarização do trabalho e a saúde do trabalhador no Século XXI. São Paulo: Ltr, 201!. p. ! 98. 
679 SEL!GMANN-SILVA, Edith. Desgaste mental no trabalho dominado. Rio de janeiro; Editora 
UFRJ; Cortez Editora, !994. p. 102. 
293 
Talíta Camila Gonçalves Nunes 
a mudança significativa nas condições em que o trabalho permeado pelos· 
avanços tecnológicos se instala na contemporaneidade. 
Vera Lúcia Navarro e Valquíria Padilha destacam que o desemprego 
é fator que obriga os indivíduos, desesperados pela ausência de dinheiro e 
reconhecimento social, a se submeterem a filas aviltantes para concorrerem 
a uma vaga de emprego formal, ainda que este seja alienado e estranhado. 
Nesse contexto, "tragicamente, até mesmo o trabalho que pode comprometer 
a saúde física e psíquica passa a ser objeto de desejo"680 . 
É nesse sentido que trabalhadores desempregados, munidos apenas de 
um computador, enfrentarão qualquer tipo de teletrabalho, ainda que esse seja 
precário e comprometa a própria saúde. Todavia, não basta ter a posse de ins­
trumentos telemáticos e informáticos; o ambiente laboral deve estar estrutu­
rado de acordo com normas de saúde, higiene e segurança e o telempregador 
deve respeitar os limites de labor pactuados. 
Alfredo Massi menciona o estudo contido na Enciclopédia de Saúde 
e Segurança Ocupacional da OIT, que, acerca do teletrabalho, aponta, além 
dos riscos presentes em ambientes laborais convencionais, outros fatores de 
perigo adicionais: 
Em relação à qualidade do ar interior, o estudo aponta que a 
maioria das casas não está equipada com sistema de ventilação 
mecânica, sendo que as trocas de ar dependem de ventilação nat­
ural. Chama à atenção para o fato de que, se a ventilação natural 
da casa não é suficiente para eliminar as fontes de poluentes do ar 
interior no ambiente de trabalho domiciliar, são necessários siste­
mas de ventilação suplementar. Os poluentes do ar interior no 
ambiente domiciliar pode incluir a exposição: a) ao gás natural 
ou ao monóxido de carbono, a partir de sistemas de aquecimento 
ineficientes ou fogões com vazamentos; b) a vapores e a gases de 
fotocopiadoras, impressoras ou outras máquinas de escritório; c) 
a produtos químicos, a gases ou a poeiras resultantes de refonna 
ou construção na casa do trabalhador; d) aos fluidos de outras 
atividades, caso o trabalhador esteja alojado em mn edificio mul­
tiuso (por exemplo, prédio que, além das unidades habitacionais, 
também é utilizado para fins comerciais, comportando atividades 
de salão de beleza ou de restaurante jilst food. 
A pesquisa observa que a estrutura de fiação elétrica dos 
domicílios não é projetada para suportar as necessidades dos 
680 NAVARRO, Vera Lucia; PADILHA, Valquiria. Dilemas do trabalho no capitalismo 
contemporâneo. Psicol. Soe., Porto Alegre, v. 19, n. spe, p. 14-20,2007. Disponivel em: <http://www. 
scielo. br/scielo.php?script~sci_ arnext&pid~SO I 02-71822007000400004&1ng=oen&nrm~iso>. Acesso 
em: 15 mar. 2017. 
294 
APRECARIZAÇÃO NO TELETRABALHO: escravidão tecnológica e impactos na saúde tisica e mental do trabalhador 
equipamentos normalmente utilizados no teletrabalho, criando 
risco de incêndio. E, existente tal risco, pode ocorrer de os locais 
em que habitam os teletrabalhadores não possuírem estrutura 
adequada para o c de incêndio, como planos de evacuação 
inadequados ou rtas bloqueadas.681 
O referido estudo comprova ue, em matéria de saúde, higiene e segu­
rança, considerando locais como o omicílio do teletrabalhador, uma série de 
adaptações são necessárias para que o ambiente de trabalho se torne um es­
paço adequado para a execução do teletrabalho. Medidas essas que implicam 
a modificação da própria estrutura domiciliar do empregado, caso as adapta­
ções resultem na reforma da construção civil, por exemplo. 
Com relação às medidas preventivas de proteção da saúde do teletra­
balhador, Denise Pires Fincato destaca que a primeira delas é a boa escolha 
do telempregado, com a avaliação de habilidades e deficiências, em especial 
se o trabalhador é suscetível ao trabalho massivo em computador, com longo 
período em mesma posição. Além disso, deve-se observar a capacidade de 
auto-organização, já que o trabalho em domicílio, por exemplo, está sujei­
to a fatores de distração, bem como a questão do isolamento laboraL Essas 
medidas em matéria de saúde, higiene e segurança do trabalho devem ser 
adotadas pelo empregador antes mesmo da pactuação do contrato de trabalho 
em qualquer caso, mas com mais razão no teletrabalho, em que a fragilidade 
se mostra evidente 682• 
A autora pontua que não é recomendável a contratação puramente eletrô­
nica e que tanto profissionais da área médica - e sua subdivisão psiquiátrica! 
psicológica - quanto de serviço social (uma equipe multidisciplinar) devem 
participar da seleção do teletrabalhador no sentido de averiguar as condições 
pessoais do candidato. O telempregador, sendo responsável pelo ambiente la­
boral, também o será pelos riscos da atividade, devendo "fornecer equipamen­
tos de proteção adequados e zelar sua efetiva e correta utilização". Além disso, 
a responsabilidadese limita ao possível controle do telempregador, quando 
livre e desembaraçado, utilizando-se da ponderabilidade em cada caso 683
• 
681 MASSI, Alfredo. Teletrabalho- Análise sob a ótica da saúde e da segurança do trabalhador. In: 
COLGNAGO, Lorena Rezende de Mello; CHAVES JUNIOR, José Eduardo de Resende, ESTRADA; 
Manuel Matin Pino (Coords.). Teletrabalha. São Paulo: LTr, 2017. p. 100. 
682 FlNCATO, Denise Pires. Acidente do trabalho e teletrabalho: novos desafios à dignidade do 
trabalhador. Revista Direitos Fundamentais & Justiça. Porto Alegre, v.2, n. 4, p. 146-173, jul./set. 2008. 
p. 152. 
683 FINCATO, Denise Pires. Acidente do trabalho c teletrabalho: novos desafios à dignidade do 
295 
Talita Camila Gonçalves Nunes 
Denise Pires Fincato atenta também para: previsão de reserva de tele­
trabalhadores para a composição da CIPA em empresas com grande número 
de trabalhadores à distância; certificação de que o teletrabalhador possui for­
mação, com medidas educativas obrigatórias e não singelamente distribuir 
cartilhas; vigilância do teletrabalhador; responsabilidade do explorador local 
do telecentro (solidária, se mais de uma empresa, com fulcro no art. 2°, §2' 
CLT); condições de iluminação, térmica e ruído 684 . 
Confonne Alfredo Massi, outras medidas de saúde aplicáveis ao tele­
trabalhador devem ser observadas pela empresa: Programa Médico de Saúde 
Ocupacional (arts. 168 e 169, CLT e NR-7); nonnas pertinentes à edificações, 
iluminação e conforto térmico (arts. 170/178 da CLT e NR-8); medidas para 
prevenir ou neutralizar a exposição dos teletrabalhadores à agentes insalubres 
ou perigosos (arts. 189/197 da CLT e NRs 15 e 16); elaborar e implementar 
o Programa de Prevenção de Riscos Ambientais - PPRA (NR-9) e elaborar 
e manter atualizado o Perfil Profissiográfico Previdenciário- PPP (arts. 68, 
§§8° a 10 do Decreto n° 3.048/99 e 58, §4° da Lei n° 8.213/91). A empresa, no 
caso de infrações em matéria de segurança e saúde no trabalho, se sujeita às 
sanções administrativas (art. 201 da CLT) 685 
Nesse contexto, a flexibilidade, discurso marcante em defesa do teletra­
balho, é criticada- sem, por óbvio, partir em defesa da "adesão de uma rigi­
dez que leve ao engessamento" 686 
- e analisada por Edith Seligmann-Silva 
como impactante na saúde do trabalhador: 
A saúde sofre os impactos decorrentes da desregulamentação e 
da flexibilização do trabalho. A flexibilidade que se estabeleceu 
no mundo do trabalho como novo "princípio básico" também 
habita a sociedade contemporânea "onde o que era sólido se des­
manchou no ar", inclusive os valores básicos que presidiam a 
vida cotidiana, o funcionamento da família e de todas as institu­
ições. O enaltecimento da flexibilidade foi tão intenso, que mui­
tos chegaram a confundir o novo paradigma com a ilusão fase i-
trabalhador. Revista Direitos Fundamentais & Justiça. Porto Alegre, v.2, n. 4, p. 146-173,jul./set. 2008. 
p. \53-\54. 
684 FINCATO, Denise Pires. Acidente do trabalho e teletrabalho: novos desafios à dignidade do 
trabalhador. Revista Direitos Fundamentais 4: Justiça. Porto Alegre, v.2, n. 4, p. 146-173,jul./set. 2008. 
p. 154-\57. 
685 MAS SI, Alfredo. Teletrabalho- Análise sob a ótica da saúde e da segurança do trabalhador. In: 
COLGNAGO, Lorena Rezende de Mello; CHAVES JUNIOR, José Eduardo de Resende, ESTRADA; 
Manuel Matin Pino (Coords.). Tele trabalho. São Paulo: LTr, 20\7. p. 97. 
686 SELIGMANN-SILVA, Edith. Trabalho e desgaste mental: o direito de ser dono de si mesmo. São 
Paulo: Cortez, 2011. p. 478. 
296 
A PRECARIZAÇÀO NOTELETRABALHO: escravidlo tecnológica e impactos na saúde ftsica e mental do trabalhador 
nante de uma liberdade total que sempre foi almejada. Portanto, 
em nível mais profundo, a flexibilidade tornou-se um princípio 
que assumiu um caráter ideológico e impositivo, que não podia 
ser questionado nas estruturas onde "manda quem pode e quem 
não pode obedece", para não perder o emprego [ ... ] a injunção 
da rapidez no desempenho sempre esteve associada à maximi­
zação da produtivi de- o que se acentuou ainda mais no con­
texto contempor eo -, desconsiderando os tempos necessários 
ao trabalho m tal cognitivo e afetivo.687 
Ajomada extraordinária, um consequência da nova organização flexível 
do trabalho, é um dos principais lementos que degradam a saúde do traba­
lhador. Sebastião Geraldo de Oliveira relembra que na história do Direito do 
Trabalho se tem notícias das jornadas extenuantes de até 16 horas de trabalho. 
A primeira Convenção da OIT, de 1919, impôs o limite de 8 horas diárias de 
labor, que só poderia ser ultrapassado em caso de "acidente ou grave perigo de 
acidente, no caso de trabalhos urgentes ou no caso de força maior, mas somente 
no período indispensável para evitar uma grave perturbação no funcionamento 
' O 'I d t'fi ta • 688 normal da empresa' . Brast , contu o, nunca ra 1 cou es convençao . 
Aguardar que a Convenção no I da OIT sobre duração do trabalho seja 
ratificada não consiste em garantia de cumprimento. Já temos inúmeros exem­
plos de descumprimentos de comandos constitucionais e infraconstitucionais 
referentes à duração da jornada, sendo o pedido de horas extras também uma 
habitualidade nas petições inicias trabalhistas. Um mandamento normativo a 
mais pouco ou quase nada mudaria essa realidade, se permanecem as formas 
de trabalho precarizado. 
E, como afirma Pierre Bourdieu, "a precariedade está por toda parte", 
afeta a qualquer homem e mulher expostos aos seus efeitos, tornando o futuro 
incerto ou um mínimo de esperança neste para se revoltar "sobretudo cole­
tivamente, contra o presente, mesmo o mais intolerável". Atua diretamente 
sobre os quais ela afeta e indiretamente aos outros, pelo temor. Utiliza es­
tratégias de precarização, "como a introdução da famosa 'flexibilidade' [ ... ] 
inspirada tanto por razões econômicas quanto políticas" 689
. 
68? SELIGMANN-SJLVA, Edith. Trabalho e desgaste mental: o direito de ser dono de si mesmo. São 
Paulo: Cortez, 201\. p. 472. 
688 OLIVEIRA, Sebastião Geraldo de. Proteção à saúde do trabalhador. 5. ed. São Paulo: LTr, 20\0. 
p. 153. 
689 BOURDIEU, Pierre. Contrafogos: táticas para enfrentar a invasão ncoliberal. Trad. Lucy 
Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora. 1998. p. 72. 
297 
Talita Camila Gonçalves Nunes 
O teletrabalho precarizado deve ser uma preocupação de todos. A socieda-· 
de não pode ficar inerte e tampouco pensar que a tecnologia será a salvação para 
todos os males, inclusive para os males decorrentes das novas formas de traba­
lho. José Ortega y Gasset afirma que, "quando acreditamos não preocupar-nos 
em nossa vida, em cada instante dela a deixamos flutuar à deriva como uma boi a 
sem amarras, que vai e vem empurrada pelas correntes sociais" 690
• 
E, com a chegada do teletrabalho, a saúde permanece comprometida 
com dinâmicas de produtividade, excesso de trabalho e controle, que podem 
resultar em sobrejomada reiterada e consequente adoecimento do teletraba­
lhador. A aplicação de sanções administrativas previstas no diploma celetista 
e até mesmo a sanção penal são insuficientes. Não faltam leis e regulamentos, 
mas com certeza falta atitude. 
O teletrabalhador igualmente não fica desprotegido, na ausência de uma 
regulamentação específica. Esta deve servir para melhorar ainda mais a condição 
do trabalhador remoto e o ambiente no qual o teletrabalho se opera. Regulamen­
tar para comprometer a saúde, higiene e segurança é inaceitável, é atentar contra 
a própria Carta Constitucional de 1988 que acolheu esses direitos. 
Embora exista tímida e deficiente regulamentação do teletrabalho na 
Reforma Trabalhista- recentemente aprovada e sancionada-, permanecem a 
legislação constitucional, infraconstitucional e as diversas normas regulamen­
tares que tratam da proteção á saúde do trabalhador. Com elas, o teletrabalho 
não ficará à margem da salvaguarda indispensável para que o teletrabalhador 
esteja apto a bem exercer suas atividades e, ainda, desfrutar do descansoe do 
lazer essenciais para uma vida sadia em sociedade. 
690 ORTEGA Y GASSE"I; José. O que éfdosofia? Trad. Luís Washington Vita. Rio de Janeiro: Livro 
Ibero-americano, 1961. p. 264. 
298 
APRECARIZAÇÃO NO TELETRABALRO: escravidão tecnológica e impactos na saúde thica e mental do trabalhador 
CONCLUSÕES 
O atual estado em que se encontra o teletrabalho, objetivo principal desta 
pesquisa, foi analisado, com ênfase na jornada exaustiva por meio das tecnolo­
gias de comunicação e infonnação- TIC's, partindo de uma análise do surgi­
mento das tecnologias e do teletrabalho no mundo globalizado dentro das revo­
luções tecnológicas. Em seguida, fez-se " a análise da origem e dos diversos 
conceitos, para se chegar ao debate precarização do teletrabalho: jornada 
exaustiva, teletrabalho escravo, tele sédio moral e acidente de teletrabalho. 
Analisou-se o teletrabalho c mo hipótese de contrato de emprego, por 
meio da doutrina laboral e da legi !ação vigente, em especial a nova reda­
ção do artigo 6° e respectivo parágrafo único da CLT, que equipara os meios 
telemáticos e informáticos como meios de comando e controle para fins de 
subordinação jurídica. Na ausência dos pressupostos essenciais para a confi­
guração da relação empregatícia, o teletrabalho assume outras fmmas, como, 
por exemplo, a do teletrabalhador autônomo. 
Com relação às vantagens do teletrabalho, não restaram dúvidas de que 
esta modalidade pode propiciar maior conforto e segurança, maior tempo 
destinado ao lazer e convívio familiar, bem como inclusão de trabalhadores 
com necessidades especiais no mercado de trabalho. Entretanto, desvanta­
gens igualmente foram verificadas, com excesso de trabalho, transferência 
das despesas com aquisição e manutenção das tecnologias a cargo empre­
gado, uso indiscriminado de aparelhos tecnológicos, pressão por metas de 
produtividade, possibilidade de adquirir doenças, entre outras. 
Observa-se que, no âmbito coletivo, o ciberproletrariado tem a capa­
cidade de se mobilizar por intermédio das greves virtuais - ou cibergreves 
-de maneira eficaz. Paralisa-se o trabalho e, ao mesmo tempo, faz-se ampla 
divulgação da greve, por meio da própria rede. Resta aos teletrabalhadores se 
conscientizarem acerca desta potente arma, e não se isolarem em seus escri­
tórios domésticos e em suas ferramentas móveis, a fim de fortalecer os sindi­
catos, seja no plano físico, ou no plano virtual, como no caso do Second Life. 
Nestes, os teletrabalhadores se apresentam como avatares, e podem realizar 
reuniões e paralisações contra medidas abusivas patronais. 
Ao analisar as novas tecnologias que permitem a fiscalização do teletra­
balhador, é salutar a imposição de um limite ao poder diretivo do empregador, 
visto que o controle se opera em locais como o domicílio do obreiro. A intimi­
dade e a vida privada podem ser efetivamente violadas e cabe ao empregador 
299

Mais conteúdos dessa disciplina