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GEOGRAFIA HISTÓRICA DE GUAPIMIRIM-RJ 1
Article · July 2018
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1 author:
Lucas Azeredo Rodrigues
Federal University of Santa Catarina
30 PUBLICATIONS   105 CITATIONS   
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All content following this page was uploaded by Lucas Azeredo Rodrigues on 08 September 2022.
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https://www.researchgate.net/institution/Federal-University-of-Santa-Catarina2?enrichId=rgreq-bcc815cd75bbffe07debfaa6ddeb6cb1-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzMyNjY3ODU1NjtBUzoxMTQzMTI4MTA4MzU3OTIyNEAxNjYyNjU3NzAyOTA0&el=1_x_6&_esc=publicationCoverPdf
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GEOGRAFIA HISTÓRICA DE GUAPIMIRIM-RJ1 
 
Lucas Azeredo Rodrigues2 
 
INTRODUÇÃO 
A história da colonização brasileira é, até certo ponto, contraditória. A 
história tradicional eurocêntrica irá nos informar que a América foi descoberta 
em 1492, e que o Brasil foi descoberto ao acaso, por um erro de navegação, 
em abril de 1500. Em 1494 foi firmado o Tratado de Tordesilhas, dividindo as 
terras da América entre a coroa portuguesa e espanhola. Ora, como iriam 
dividir as terras antes mesmo de serem descobertas? Com certeza, Portugal 
não iria aceitar um tratado em que ficasse apenas com apenas o mar... Porém, 
essa é apenas uma inquietação acerca do início da colonização brasileira, que 
foge ao objetivo deste trabalho. 
A cidade de Guapimirim, localizada na região metropolitana do Rio de 
Janeiro, passou por um intenso processo de formação territorial, isto porque, 
até chegar na atual composição, a cidade passou por diferentes 
transformações, desde a divisão das capitanias hereditárias, das freguesias, 
das sesmarias, das vilas, dos distritos, até se tornar município emancipado em 
1990. 
Para entender esse processo, este presente texto segue a metodologia 
científica desenvolvida por Milton Santos da formação socioespacial: 
Pode-se dizer que a Geografia se interessou mais pela forma 
das coisas do que pela sua formação. Seu domínio não era o 
das dinâmicas sociais que criam e transformam as formas, 
mas o das coisas já cristalizadas, imagem invertida que 
impede de apreender a realidades e não se faz intervir a 
 
1 Trabalho Final da Disciplina “Geografia Histórica Brasileira: dinâmica territorial e configuração 
regional” ministrada pelo Profº. Dr. Nazareno Campos (UFSC). 
2 Graduação em Geografia pela Universidade Federal da Fronteira Sul. Mestrando do 
Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Santa Catarina 
(PPGEO-UFSC). Membro do Laboratório de Circulação, Transportes e Logística – LABCIT e do 
Grupo de Estudos em Desenvolvimento Regional e Infraestruturas – GEDRI. E-mail: 
azeredo.lucas@posgrad.ufsc.br 
 
mailto:azeredo.lucas@posgrad.ufsc.br
 
História. Se a Geografia deseja interpretar o espaço humano 
como o fato histórico que ele é, somente a história da 
sociedade mundial, aliada à sociedade local, pode servir como 
transformação a serviço do homem. Pois a História não se 
escreve fora do espaço, e não há sociedade a-espacial. O 
espaço, ele mesmo, é social (SANTOS, 1977, p.81). 
 Aprofundando-se na discussão da Geografia Histórica, a fim de 
complementar a ideia de Milton Santos, corrobora-se com Moraes (2011): 
Entendemos a Geografia Histórica como caminho de 
reconstituições (em várias escalas) do processo de formação 
dos atuais territórios [...] Mesmo os estudos de maior detalhe 
(regionais ou locais) necessitam localizar seus objetos de 
análise nos conjuntos maiores que interferem em sua vida 
econômica e social (MORAES, 2011, p.74 e 75) 
 Temos, portanto, uma análise espaço-temporal, desde quando as 
populações indígenas habitavam a área do atual município, a chegada das 
frentes de colonização, os processos de doação de terra, a construção da 
ferrovia (da sua emergência ao seu apogeu), até a emancipação do município. 
A ideia é fomentar o diálogo acerca do processo de formação de Guapimirim, 
com uma análise geográfica, unindo informações que se encontram dispersas 
atualmente. 
Nesta perspectiva, este trabalho divide-se em três momentos históricos 
sobre Guapimirim: 1) “As origens: Nossa Senhora D’Ajuda de Aguapey-mirim” 
que tratará do início da colonização europeia no território, assim como as 
modificações territoriais que ocorreram durante o período colonial e imperial; 2) 
A estrada de Ferro Teresópolis, que marca o início do desenvolvimento 
econômico da cidade, que foi de suma importância para uma reestruturação 
urbana da cidade; 3) O processo de emancipação no final do século XX. 
Por mais que o arcabouço teórico esteja atrelado aos ideais de Milton 
Santos e na percepção de Geografia Histórica de Antônio Robert de Moraes, 
neste texto podemos contar com outras literaturas nacionais que visam esse 
diálogo, bem como pesquisas em órgãos públicos, o uso de materiais 
desenvolvidos por pessoas da região, como Roberto Féo (2012), José Inaldo 
Alonso (2000) e Vanderley Peres (2009). 
AS ORIGENS: NOSSA SENHORA D’AJUDA DE AGUAPEY-MIRIM 
Na região da baixada fluminense, junto ao entorno da baía de 
Guanabara, habitavam alguns grupos indígenas. Dentre eles, destacam-se 
 
dois, os Temiminós e os Tupinambá, vale destacar que eram tribos inimigas e 
atuaram no conflito da França Antártica na década de 1530 (Alonso, 2000). 
Ainda haviam mais divisões nesses grupos que eram distribuídos ao longo do 
território fluminense. Féo (2012) cita a presença dos Sacurus, Guarus, Puruz, 
Xumetos Aimorés, Coroados e Goitacazes acima da Serra dos Órgãos e na 
baixada fluminense, os Maracajás, Tamoios e Timbiras (esses dois últimos em 
Guapimirim). Parte dessa população foi escravizada pelos sesmeiros ou 
migraram para o interior. 
De acordo com Delgado (1990), a cidade do Rio de Janeiro foi 
descoberta pelos colonizadores em janeiro de 1504, quando acharam que a 
baía de Guanabara era a foz de um rio, batizado como Rio de Janeiro. Durante 
o período pré-colonial ainda havia o impasse do que seria da colônia, tendo em 
vista os conflitos que já existiam com os indígenas da região: 
A região da baixada, nos fundos da Baía de Guanabara e na 
base das vertentes da Serra dos Órgãos, era ocupada,até 
meados do séc. XVI, por índios Tamoios e Timbira (SANTOS, 
1957), e, provavelmente, por índios Maracajá (DRUMMOND, 
1997). Os sambaquis existentes em Magé são registros 
arqueológicos dessa presença histórica. Quando à parte alta 
da serra, registra-se a presença de índios Guarani e Quilombo 
da Serra, que abrigava escravos fugitivos das fazendas de 
cana de açúcar da baixada de Magé (IBAMA, 2007, p. 11). 
Como ressalta Pereira (1998), uma das grandes barreiras do processo 
de integração entre o litoral e o interior ,era a Serra do Mar, com escarpas 
cobertas de florestas densas (em sua maioria, o bioma da mata atlântica).A 
primeira expedição colonizadora na região, onde hoje se encontra a área 
territorial do município, foi possivelmente realizada em 1531, quando Martim 
Afonso de Souza ordenou expedições em direção ao rio Macacu, que no 
retorno, segundo as descrições, teria alcançando a Serra dos Órgãos (FÉO, 
2012). De acordo com o autor, Martim solicitou o povoamento do Brasil a D. 
João III, onde iniciou o processo de divisão do Brasil em 15 capitanias 
hereditárias entre 12 fidalgos. 
 
 
Figura 1 : Desenho de tropeiros e escravos na mata e aos fundos a Serra dos Órgãos. 
Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra15454/serra-dos-orgaos Acesso em: 
15 de junho de 2018 
Por conseguinte, para uma melhor administração e aproveitamento 
territorial, as capitanias foram distribuídas em sesmarias entre os nobres que 
tinham interesse em iniciar o processo de povoamento do Brasil. Ao longo da 
metade do século XVI foram vários processos de divisão de sesmarias, 
atendendo ao jogo político-econômico do período colonial. Poderia se 
desenvolver outro trabalho, reunindo apenas o processo de divisão das 
sesmarias no Rio de Janeiro, porém, para este focaremos naquelas que 
envolvem o território onde hoje se encontra a cidade de Guapimirim. 
Assim sendo, destaca-se um nome tradicional, sobretudo em Magé, do 
sesmeiro Simão da Mota, como “fundador da cidade”, porém vale ressaltar que 
Cristóvão de Barros foi de suma importância para o desenvolvimento da cidade 
(ALONSO, 1990). Mas, quem foi Cristóvão de Barros? O Governador Mem de 
Sá em 1567 doou à Barros uma sesmaria na área do entorno do rio Macuco, 
rio Guapiaçu e rio Magepe, autorizando-o a exploração de pau-brasil, em 
especial na região que era chamada de Magepe (primeiro nome de Magé), 
http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra15454/serra-dos-orgaos
 
anteriormente foram de Pedro Martins Namorado e José Adorno, além de 
Simão da Mota. 
Barros criou o primeiro engenho de cana do Brasil movido a água, na 
atual localidade de Piedade (FÉO, 2012; ALONSO, 1990). Além da cana e do 
pau-brasil, outra atividade importante naquele momento era a pesca, sobretudo 
na baía de Guanabara, onde ocorria o encontro de águas doces e salgadas. 
Segundo Féo (2012), a coroa portuguesa concedeu até 110 sesmarias em 
1575 no entorno da baía. 
Em 1590 começa o processo de doação de terras no território de 
Guapimirim. Foi doada sesmaria nas proximidades do rio Guapimirim a monges 
bizantinos, que criaram várias fazendas. Para Féo (2012), a estabilidade social 
de uma área se dava pela presença religiosa, o que facilitaria a promoção de 
povoado à cidade. 
No século XVII o cenário do povoamento da região se torna mais 
robusto. Os donos de terra buscavam junto à coroa, intensificar a proteção da 
região, sobretudo no entorno da baía de Guanabara, que tinha todas as fozes 
dos rios já distribuídas em sesmarias (ALONSO, 1990). O autor ressalta ainda 
o desenvolvimento de infraestruturas nas redondezas da baía para atender a 
pesca baleeira. Alonso (1990) frisa que a exploração madeireira foi tão abusiva 
que, em certos momentos não havia madeira para a construção de navios. 
Além da cana, produzia-se mandioca, milho e banana, características 
que permanecem até hoje, como a “farinha de suruí”, muito popular, 
(ALONSO,1990), comercializada nos circuitos curtos da economia na região. 
Em 1639 existiam 98 fábricas de açúcar na região da baía, e os principais 
portos eram o Grande Magepe e o Velho da Piedade, de acordo com Féo 
(2012). 
Ao passo que se iniciou o povoamento da região, capelas e igrejas 
foram se instalando, e a partir destas, a intensificação dos aglomerados 
humanos (FÉO, 2012). De acordo com o autor, em 1646 os irmãos Gago 
fundaram a Capela Curada de Nossa Senhora D’Ajuda de Sernambetiba 
(Guapimirim). 
 
Até o meado do século XIX a Freguesia de Nossa Senhora da 
Piedade de Magepe fazia rumo com as freguesias de: 
Guapimirim, Piedade de Inhomirim, Santíssima Trindade, Vila 
de Santo Antônio de Sá de Cassarabú e Baía de Guanabara 
(FÉO, 2012, p.74 e 75). 
O final do século XVII e o início do século XVIII é marcado pelo 
descobrimento de ouro em Minas Gerais formatando uma nova configuração 
territorial (STRAFORINI, 2010). 
 A corrida do ouro deu origem à abertura de caminhos e à 
conquista das terras do Recôncavo da Baía de Guanabara do 
Rio de Janeiro, através das doações das sesmarias, da 
fundação das capelas, das irmandades, das roças, estalagens, 
casas de comércio, postos de fiscalização, aldeias, freguesias, 
vilas e igrejas no interior da capitania (FÉO, 2012, p. 78). 
Guapimirim “nasce” em 16743, com a fundação da capela de Nossa 
Senhora D’Ajuda, na localidade onde hoje é conhecida como Arraial D’Ajuda. A 
capela foi demolida em 1714, tendo em vista a criação da Capela da Barreira, 
matriz de Nossa Senhora da Conceição, em 1713 (FÉO, 2012; ALONSO, 
1990), que foi tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC) 
em 1989 e restaurada em 2011 pelo Instituto Chico Mendes de Conservação e 
Biodiversidade (ICMBIO). A capela permanece em atividade até os dias de 
hoje. 
O século XVIII é marcado pela abertura dos caminhos para Minas 
Gerais, onde colonizadores cruzaram a Serra do Mar em busca de metais 
preciosos. 
 A essência do território aurífero - constituído pelas áreas de 
extração aurífera, de produção de gêneros de abastecimentos 
e de circulação – foi o forjamento de uma alteridade territorial, 
ou seja, um território que não era produzido segundos as 
lógicas exclusivas do poder metropolitano: tão pouco dos 
interesses internos, mas da sobreposição contraditória e 
conflituosa dos mesmos. O sistema de circulação terrestre 
instalado nos territórios auríferos, foi, nesse sentido, mais que 
um meio de circulação de pessoas e mercadorias, mas antes 
de tudo, a bases material e normativa que tudo sustentação a 
uma nova configuração territorial (STRAFORINI, 2010, p.155). 
O principal canal de escoamento da produção aurífera era feito através 
do rio Paraíba do Sul, que nasce no Vale do Café (divisa do Rio de Janeiro e 
 
3 “A Freguesia de Guapimirim foi criada antes de 1674. Possuía 436 residências e 2904 
habitantes adultos. Até 1789 pertencia à de Santo Antônio de Sá” (ALONSO, 1990, p.54). 
 
 
São Paulo) e deságua no norte do estado fluminense, em Campos dos 
Goytacazes. É importante nos atentar à condição geográfica, já que para 
acessar o rio Paraíba do Sul, era necessário cruzar a Serra do mar. Nesta 
perspectiva, criaram-se caminhos até o rio para que pudessem fazer o 
transporte do ouro por terra, onde o rio não era navegável. Assim se deu o 
processo do tropeirismo na região sul do Brasil, e a partir desses caminhos 
foram surgindo conglomerados humanos, e deles iniciando-se um processo de 
povoamento desses trechos, com a criação de pousos e outras infraestruturas 
necessárias para aqueles que faziam o transporte do ouro. 
Mesmo que nesse período já houvesse contrabando4, a coroa começou 
a implementar barreiras tarifárias para fiscalização e arrecadação de impostos 
ao longo dos caminhos para as minas. Tanto que, nas redondezas da Igreja de 
Nossa Senhora da Conceição, localizada na atual localidade da Barreira, ainda 
existemresquícios de uma construção com essa finalidade, o que inclusive, 
deu origem ao nome do bairro. Sobre o caminho percorrido para as minas, Féo 
cita: 
 A “Estrada de Minas” vinha por embarcações à vela 
da cidade do Rio de Janeiro até o Porto de Piedade na 
Freguesia de Nossa Senhora da Piedade de Magepe, 
seguia para Frechal no pé da Serra dos Órgãos, 
alcançava o sovacão, além da Serra (Teresópolis), 
para os lados da Vila de Santo Antonio de Sá, daí 
demandando de canoas, Sebastiana, São José do Vale 
do Rio Preto e, finalmente, Sapucaia, onde penetrava 
no território mineiro de Além Paraíba, transpondo o rio 
paraíba através da ponte, ali existente (FÉO, 2012, 
p.99 e 100). 
Em 1730 é construída a Capela de Nossa Senhora de Sant’Anna, 
próximo ao rio Guapimirim, na localidade chamada de Bananal (Féo, 2012). 
Tanto a capela, quanto o bairro, permanecem até hoje. É importante retratar 
esse momento, pois, posteriormente quando formos tratar do crescimento da 
cidade, um dos aglomerados urbanos surgiu após a ascensão dessa 
localidade. Já em 1734 foi construída a Capela de São José da Boa Morte 
(Féo, 2012), a sentido do município de Cachoeiras de Macacu. Esta, ao 
contrário da de Sant’Anna, encontra-se em ruínas. 
 
4 Exemplo: Santo do Pau Oco 
 
Em janeiro de 1755 é criada por alvará ,a Freguesia de Nossa Senhora 
D’ajuda de Guapimirim, possuindo 2904 habitantes, 463 casas, 4 engenhos, 10 
engenhocas e 5 irmandades, segundo Féo (2012). As Irmandades ensinavam 
ofícios de ceramistas, pedreiros, carpinteiros, marceneiros e mestres de obras. 
Em 1789 Magé é elevada à categoria de Vila, e passa a ter 5 freguesias: Magé 
Centro, Suruí, Inhomirim, Guia de Pacopaíba e Guapimirim (além da Serra dos 
Órgãos), de acordo com Féo (2012). 
Adentrando no século XIX, temos um Brasil independente, com uma 
economia ainda em desenvolvimento, além da tentativa de povoamento do 
território nacional. Vale destacar que, em 1808 D. João chega ao Rio de 
Janeiro, fugindo das guerras napoleônicas na Europa. O legado do Período 
Joanino (1808-1821) trouxe uma série de transformações no território 
fluminense, sobretudo na capital, desde a elevação da Colônia a Reino Unido 
de Brasil, Portugal e Algarvez, a reestruturação urbana da cidade, 
investimentos em ensino e pesquisa até a criação de estruturas financeiras e 
administrativas (FONTES, 1998). 
Féo (2012) ressalta que durante meados de 1816 a região da Serra dos 
Órgãos passou a receber imigrantes suíços, franceses e ingleses, fruto das 
negociações entre a Inglaterra e o Brasil. Em 1820 a Freguesia de Nossa 
Senhora D’Ajuda de Guapimirim , da Vila de Magé possuía em média 2904 
habitantes, com 4 engenhos, 1 aguardente e algumas olarias, baseando-se nos 
cultivos de cana, mandioca, arroz, milho, legumes, café, lenha e fabricação de 
carvão, que eram escoados pelos portos de Magé (FÉO, 2012). 
Nesse período destacou-se o Decreto-Lei Imperial que visava a criação 
das Câmaras municipais em cidades e vilas do império (FÉO, 2012). Até então, 
boa parte dos assuntos tratados nas vilas, freguesias e sesmarias, eram 
resolvidos com o poder clérigo local, exceto nos casos de extrema importância 
que eram redirecionados para a capital. 
Em dezembro de 1832 foi aprovada por Lei Provincial nº1828 em que 
caberia às Câmaras Municipais fazer a divisão das freguesias, surgindo assim 
a figura do “Coronel” (FÉO, 2012): 
 
Existiam na Freguesia de Nossa Senhora D’Ajuda de 
Guapimirim da Vila de Magé os seguintes fazendeiros: 
Francisco Maciel Gago QUintanilha e José Maciel Gago 
Quintanilha (Caray), Joaquim Pereira da Costa (Engenho), 
José Antonio Alves de Azevedo (Bananal), José da Costa 
Varella, (Cambucá, era vereador na Vila de Magé), Coronel 
Polycarpo José Álvares de Azevedo, (Bananal, era Juiz de Paz 
da Freguesia) (FÉO, 2012, p. 262). 
O autor ainda explicita que, de acordo com o Visconde de Taunay, o 
inglês George March foi o responsável pela introdução do turismo e hotelaria 
na região da Serra dos Órgãos, e que depois de seu falecimento, suas terras 
foram vendidas para imigrantes. 
Nesse período, é importante citar um grande marco da história nacional: 
a ferrovia. Tudo começou quando Irineu Evangelista de Souza (o Barão de 
Mauá) recebeu a concessão para explorar a Linha Imperial de Navegação e 
Estrada de Ferro Petrópolis (FÉO, 2012). Para o autor, um dos motivos da 
construção da Estrada de Ferro, era de fugir da precariedade dos portos da 
capital, devido a questões de salubridade em que se encontravam. 
A Linha Imperial fazia a ligação marítima do Porto Pharoux (Atual Praça 
XV) ao Porto de Mauá (Vila Estrela - atual distrito de Magé), e depois pela 
ferrovia, até a atual localidade de Raiz da Serra, onde seguiria através de 
veículos de tração animal ou até escravos (liteiras). 
A partir dessa época, com a Inauguração do Segundo Trecho 
da Estrada de Ferro D. Pedro II, entre o Porto de Mauá e a 
Serra de Petrópolis, o início da construção da Estrada União 
Indústria (Petrópolis-Juiz de Fora), e a proibição do tráfico de 
escravos, a Freguesia Nossa Senhora D’Ajuda de Guapimirim 
e a Vila de Magé começam a sofrer uma grande decadência 
econômica, até o advento da Estrada de Ferro Piedade-Magé-
Guapimirim-Teresópolis em 1896. (FÉO, 2012, p. 299) 
 Porém, o fluxo de pessoas pela região crescia. Em 1865: 
Pela Lei Provincial nº 1.309 de 29 de dezembro, é transferida a 
sede da Freguesia de Nossa Senhora de Guapimirim da 
Cidade de Magé, do Outeiro dos Gramaximis para o Arraial de 
Bananal (Parada Modelo), passando a servir provisoriamente a 
matriz, a capela de Sant’Anna, devido ao movimento do 
número de tropeiros e viajantes em direção à Serra dos 
Órgãos (FÉO, 2012, p.316). 
Essa mudança de sede da freguesia vai direcionar o eixo de 
povoamento da cidade para a atual área povoada (região do atual bairro de 
 
Parada Modelo). Segundo Féo (2012), diariamente passavam em média 1.000 
animais cargueiros no pedágio da Barreira, seguindo para o Porto de Piedade. 
ESTRADA DE FERRO TERESÓPOLIS 
 No ano de 1890 é criada a Estrada de Ferro Teresópolis (EFT) com o 
objetivo de construir uma linha ferroviária entre o Porto de Piedade até a 
Freguesia de Santo Antônio do Paquequer , Teresópolis (PERES, 2009; FÉO, 
2012). Aqui vale frisar a importância de José Augusto Vieira na construção da 
EFT e a inserção do desenvolvimento econômico para a região, já que, 
veremos mais à frente que cidades emergiram a partir da implantação do 
sistema ferroviário. Em 1894, a capital mudou-se para Petrópolis devido ao 
crescimento que a Revolta Armada assolou o recôncavo da baía, o que 
desvalorizou, em parte, a construção da EFT (PERES, 2009). 
O primeiro trecho da ferrovia já existia desde 1884, ligando o Porto de 
Piedade ao centro de Magé. O “segundo trecho” ligando Magé, Raiz da Serra 
(nome inicial da estação ferroviária) ao atual centro de Guapimirim, foi 
inaugurado por Vieira, em novembro de 1896 (Féo, 2012). Segundo Peres 
(2009), o trecho entre Piedade e Guapimirim eram de quase 22 km. 
 
Figura 2: Porto de Piedade. Disponpivel em : http://mageturismo.blogspot.com Acesso em 15 
de junho de 2018 
http://mageturismo.blogspot.com/
 
Em 1900, com trecho férreo construído, Vieira5 decide investir na ligação 
marítima entre o Cais Pharoux e Piedade, fazendo uma obra no píer para a 
atracação de embarcações e um canal de aproximadamente 1 km (PERES, 
2009). Em 1904, de acordo com Féo (2012), iniciam as operações marítimas 
do tráfego a vapor “Teresópolis”, entre o Rio de Janeiro e Magé; neste ano foi 
inaugurado o 3º trecho da EFT, que ligava a estação de Raiz da Serra até a 
Barreira; o 4º trecho foi inaugurado em 1906 ligando a Barreira até a localidade 
de Miudinho; o 5º trecho entre o Miudinho e o Garrafão foi inaugurado em 7 de 
setembro de 1908 com atrasos devidoa entrega da ponte metálica oriunda da 
Europa; por fim, o 6º trecho chega a estação do Alto no dia 19 de setembro de 
1908. 
 
Figura 3: Descida da locomotiva da EFT na altura do Soberbo. Disponível em: 
http://www.camaradeguapimirim.rj.gov.br Acesso em 15 de junho de 2018 
 
5 Vieira era conhecido por vencer seus objetivos de construção, desafiando a engenharia. 
Exemplo além da Obra no píer, é a própria chegada da ferrovia no soberbo, parte em que foi 
aberta sob o afloramento de granito, onde que hoje a BR-116. 
http://www.camaradeguapimirim.rj.gov.br/registros-hist%C3%B3ricos-0
 
Nesta mesma data, foi lançado o “Vapor Presidente”, o barco mais veloz 
da baía de Guanabara, ligando a Praça XV ao Porto de Piedade. Segundo Féo 
(2012), a antiga estrada (antes da ferrovia) continuou sendo usada, porém, as 
liteiras deixaram de ser usadas. 
Em 1916 foi rescindido o contrato e assinado a encampação da Estrada 
de Ferro Therezopolis (PERES, 2009). Para o governo (que detinha o controle 
da EFT), o início da década de 1920 visou reestrutura o modelo da EFT. Neste 
sentido, fechou um acordo com a Leopoldina Railway, permitindo que os trens 
da EFT pudessem trafegar entre Magé e Praia Formosa6 em 1923, percurso 
que levava aproximadamente 2 horas e 48 minutos7 (PERES, 2009). 
“EFT refém da Leopoldina”, essa é a frase que Peres (2009) destaca, 
quando cita as imposições que a companhia fez ao assumir o trecho. Segundo 
o autor, além do preço abusivo dos fretes (a maior parte do abastecimento de 
Guapimirim e Teresópolis eram com base em encomendas da capital8), 
também foi encerrado a utilização do Porto de Piedade9, gerando um abandono 
do local. A população local até tentou fazer um movimento de reutilizar o porto, 
porém, não obteve resultado: 
A Therezopolis paga pilotos, chefes de trem e mais umas 
tantas cousas, comente para passar pelos fidalgos trilhos 
dessa pobre D. Leopoldina. Esta coitada, gasta uma fortuna - e 
é só o que ella deve gastar para compensar o trafego mutuo - 
gasta, quem sabe uns dois ou tres contos por anno para a 
conserva da linha ferrea desde Mauá até Magé. [...] E no 
emtanto, essa veneral matrona, nos trata tão mal! … atraza os 
nossos trens, obriga-nos a esperar pela passagem de 
vagabundos trens de carga, faz-nos uma infinidade de 
picardias, despreza-nos ao extremo, e dodavia nós a 
respeitamos com cordura e com deferencia. Nós imploramos, 
nós ajoelhamos deante das suas prepotencias, e ella… sem 
dó nem piedade… indica-nos o Porto de Piedade (PERES, 
2009, p. 125). 
 
6 Também conhecida como Estação Barão de Mauá ou Estação Leopoldina, localizada nas 
proximidades da região portuária do Rio janeiro e da Rodoviária Novo Rio, na av. Francisco 
Bicalho. Cabe lembrar de que nessa estação também se destinava o trem oriundo de 
Petrópolis (Raiz da Serra/ Vila Inhomirim). 
7 Atualmente, de ônibus (direto) esse percurso leva 2h e 20 minutos em condições de trânsito 
normais (linha Teresópolis x Rio de Janeiro - Rodoviária Novo Rio). 
8 Segundo relatos de antigos moradores de Guapimirim, muitos comerciantes encomendavam 
a (nome de quem ia buscar as encomendas) no trem que ia sentido Teresópolis - Rio de 
Janeiro de manhã (geralmente 7h), retornando no final da tarde. 
9 A mesma ação serve para o Porto de Mauá, quando o Ramal da Vila Inhomirim começou a ter 
ligação direta com o Rio de Janeiro. 
 
O trecho acima trata-se de uma reportagem publicada no Jornal “O 
Therezopolis”, e citada na obra de Peres (2009). É notório o descontentamento 
da população, perante as ações da Leopoldina, dirigindo-se num tom de revolta 
e ironia, já que 50% da renda líquida da EFT ficava para a Companhia 
Leopoldina Railway. 
 
Figura 3: Estação de Guapy em 1922. Disponível em: http://visiteguapimirim.com.br Acesso 
em 15 de Junho de 2018 
 Em 1924 a Leopoldina iniciou uma série de investimentos na estrada, 
desde a troca de trilhos e dormentes, até novas locomotivas e vagões (PERES, 
2009). O resultado veio posteriormente, conforme cita Peres: 
O investimento na estrada provocou um surto de 
desenvolvimento na cidade. Foram transportados 111.049 
passageiros em 1925 contra 101. 201 em 1924 e 92.674 em 
1923. O transporte de bagagem e encomendas subiu, de 768 
toneladas, em 1924, a 3.202, em 1925; o de mercadorias 
passou, de 9.593 toneladas, em 1924, a cerca de 10.000, em 
1925 (PERES, 2009, p. 134) 
 Com o aumento do fluxo de passageiros, também cresceu a quantidade 
de viagens, e consecutivamente a ocorrência de acidentes, inclusive com 
vítimas fatais (FÉO, 2012; PERES, 2009). Segundo em Peres (2009), muitos 
desses fatos estavam relacionados a falta de manutenção das locomotivas, 
bem como de trilhos e dormentes. 
 A EFT é incorporada à Central do Brasil por decreto em novembro de 
1931 (Féo, 2012). Dessa época até 1947, a ferrovia levava o desenvolvimento 
http://visiteguapimirim.com.br/
 
às cidades atendidas, porém, neste momento já se discutia a construção de 
uma estrada de rodagem ligando Teresópolis ao Rio de Janeiro. Segundo Féo 
(2012), a Lei nº 489 sancionada em 18/11/1947 destinando a verba para a 
construção da rodovia10. 
 Em 1950, Guapimirim (3º distrito de Magé) possuía 7.026 habitantes e 
Magé 35.671 (Féo, 2012). Em 1957 o trecho Guapimirim - Teresópolis foi 
suspenso para obras da rodovia, e os usuários do serviço tinham que usar a 
estrada Teresópolis - Petrópolis, para prosseguir viagem até o Rio de Janeiro 
(PERES, 2009). 
 Vale destacar a criação da Rede Ferroviária Federal - RFFSA em março 
de 1957, que passou a ter controle de vários trechos ferroviários no Brasil, 
inclusive trens urbanos. Neste ano iniciou o desmonte dos trilhos no trecho 
entre Teresópolis e Guapimirim, ficando assim, esta última como ponto final da 
antiga EFT. Em 1959 o Presidente Juscelino Kubistchek inaugura a ligação 
direta Teresópolis-Guapimirim- Magé-Rio de Janeiro11 (trecho da BR-116). 
EMANCIPAÇÃO 
A ferrovia era de grande importância para Guapimirim. De acordo com 
Féo (2012), em 1960 a luz elétrica chegou na cidade, sendo abastecida pelo 
gerador da rede ferroviária. Nesse período foi instaurado a Ditadura Militar que 
perdurou entre 1964-1985. No próprio ano do golpe militar, os trechos 
Petrópolis - Três Rios e Petrópolis - Raiz da Serra (Vila Inhomirim) foram 
desativados segundo Féo (2012). 
Durante esse momento começaram a chegar na cidade novas indústrias 
e imigrantes, mas principalmente famílias que adquiriram sítios para passar 
final de semana.Cerca de 70% do território de Guapimirim abrange área de 
preservação ambiental, o que a diferencia das demais localidades. 
Em 1979 iniciou-se o processo de emancipação de Guapimirim, quando 
Dr. Roberto José Pereira Pinto (Deputado Estadual por Teresópolis) 
 
10 Segundo o autor, o Presidente Marechal Eurico Gaspar Dutra possuía uma casa de veraneio 
no bairro da Prata. 
11 Em 1951 a Estrada havia sido adicionada no Plano de Defesa Nacional; em 1954 entra no 
congresso a discussão da Rio-Bahia (BR-116) de passar pela região 
 
encaminhou um abaixo assinado à Assembléia, solicitando a criação do 
Município de Guapimirim (FÉO, 2012). A luta local perdurou, até que em 1990, 
foi realizado um plebiscito na localidade, referente a emancipação. 
Foram alguns governos e (des)governos de 1992 até hoje. A cidade não 
comportou o rápido crescimento populacional, e a ferrovia entrou em uma 
queda sem fim, mesmo que seja um reflexo em todo Brasil, oriundo de políticas 
de desenvolvimento adotado em escala nacional. 
CONSIDERAÇÕES FINAIS 
A maior parte das terras onde hoje se encontra o município de 
Guapimirim, pertenciam à Freguesia de Nossa Senhora do Candelário da 
Cidade do Rio de Janeiro até 1697 (uma pequena parte, nas proximidades do 
rio Guapimirim,pertencia à Freguesia de Santo Antonio de Cassarabú de 
Macuco). A partir desta data, passaram a fazer parte da Vila de Santo Antonio 
de Sá, até que em 1755 tornou-se a Freguesia de Nossa Senhora D’Ajuda de 
Guapimirim, e em 1789, começou a pertencer a Vila de Magé, onde se tornou 
distrito e emancipou-se em 1990. 
Guapimirim iniciou sua história onde hoje é chamado de Arraial D’Ajuda 
com a construção de uma igreja. Subsequentemente, iniciam-se as expedições 
pela região, e com a descoberta de ouro em Minas Gerais, as localidades de 
Bananal e Barreira passam a ser áreas importantes no crescimento da cidade. 
Na Barreira, onde se instaurou o primeiro pedágio do Brasil, a cobrança de 
imposto do ouro oriundo das minas, assim como na localidade de Bananal, 
onde serviam de apoio aos viajantes. Com a chegada da ferrovia, o foco de 
atenção do município começou a se direcionar para o atual centro da cidade, 
que era local de troca de locomotivas para a subida da serra pelas 
cremalheiras12. 
É notado e apreciado, o quanto Féo (2012) e Peres (2009) ressaltam a 
importância de José Augusto Vieira para o desenvolvimento da região. Como 
ressalta Vasconcelos (1947), Vieira foi responsável por trazer investimentos em 
massa para a região, sobretudo a Teresópolis. Porém, destacam que a 
 
12 Locomotivas com trilhos em forma de coroa para a subida e descida de trechos com 
declividades. 
 
população local “ignora a memória”, em sua maioria, sobre a importância dessa 
pessoa. Sobre Magé, o entroncamento de dois ramais (Teresópolis e Porto das 
Caixas/Itaboraí), fez com que a cidade emergisse rapidamente, porém, vale 
destacar o papel de Cristóvão de Barros no povoamento inicial da cidade. 
Este trabalho objetivou fazer uma análise das transformações espaciais 
que a cidade de Guapimirim teve desde a chegada dos colonizadores, 
passando pelo caminho das tropas, a ferrovia, até chegar ao movimento de 
emancipação. Unindo as poucas bibliografias acerca do tema, pode-se traçar 
uma ideia inicial de uma formação socioespacial parecida com muitas cidades 
de pequeno e grande porte no Brasil que se originaram a partir estalagens para 
tropeiros nos arredores das ferrovias. 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
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Ed. do Autor – Niterói, 2000. 172p. 
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Janeiro - Secretaria Municipal de Cultura, Departamento Geral de 
Documentação e Informação Cultural, 1990. 
FÉO, Roberto. Raízes de Magé e Guapimirim: outras histórias e outras 
coisas, 1500-2012 / Roberto Féo. – Teresópolis, RJ: ZEM, 2012. 624p. 
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