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See discussions, stats, and author profiles for this publication at: https://www.researchgate.net/publication/326678556 GEOGRAFIA HISTÓRICA DE GUAPIMIRIM-RJ 1 Article · July 2018 CITATIONS 0 READS 740 1 author: Lucas Azeredo Rodrigues Federal University of Santa Catarina 30 PUBLICATIONS 105 CITATIONS SEE PROFILE All content following this page was uploaded by Lucas Azeredo Rodrigues on 08 September 2022. 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A história tradicional eurocêntrica irá nos informar que a América foi descoberta em 1492, e que o Brasil foi descoberto ao acaso, por um erro de navegação, em abril de 1500. Em 1494 foi firmado o Tratado de Tordesilhas, dividindo as terras da América entre a coroa portuguesa e espanhola. Ora, como iriam dividir as terras antes mesmo de serem descobertas? Com certeza, Portugal não iria aceitar um tratado em que ficasse apenas com apenas o mar... Porém, essa é apenas uma inquietação acerca do início da colonização brasileira, que foge ao objetivo deste trabalho. A cidade de Guapimirim, localizada na região metropolitana do Rio de Janeiro, passou por um intenso processo de formação territorial, isto porque, até chegar na atual composição, a cidade passou por diferentes transformações, desde a divisão das capitanias hereditárias, das freguesias, das sesmarias, das vilas, dos distritos, até se tornar município emancipado em 1990. Para entender esse processo, este presente texto segue a metodologia científica desenvolvida por Milton Santos da formação socioespacial: Pode-se dizer que a Geografia se interessou mais pela forma das coisas do que pela sua formação. Seu domínio não era o das dinâmicas sociais que criam e transformam as formas, mas o das coisas já cristalizadas, imagem invertida que impede de apreender a realidades e não se faz intervir a 1 Trabalho Final da Disciplina “Geografia Histórica Brasileira: dinâmica territorial e configuração regional” ministrada pelo Profº. Dr. Nazareno Campos (UFSC). 2 Graduação em Geografia pela Universidade Federal da Fronteira Sul. Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Santa Catarina (PPGEO-UFSC). Membro do Laboratório de Circulação, Transportes e Logística – LABCIT e do Grupo de Estudos em Desenvolvimento Regional e Infraestruturas – GEDRI. E-mail: azeredo.lucas@posgrad.ufsc.br mailto:azeredo.lucas@posgrad.ufsc.br História. Se a Geografia deseja interpretar o espaço humano como o fato histórico que ele é, somente a história da sociedade mundial, aliada à sociedade local, pode servir como transformação a serviço do homem. Pois a História não se escreve fora do espaço, e não há sociedade a-espacial. O espaço, ele mesmo, é social (SANTOS, 1977, p.81). Aprofundando-se na discussão da Geografia Histórica, a fim de complementar a ideia de Milton Santos, corrobora-se com Moraes (2011): Entendemos a Geografia Histórica como caminho de reconstituições (em várias escalas) do processo de formação dos atuais territórios [...] Mesmo os estudos de maior detalhe (regionais ou locais) necessitam localizar seus objetos de análise nos conjuntos maiores que interferem em sua vida econômica e social (MORAES, 2011, p.74 e 75) Temos, portanto, uma análise espaço-temporal, desde quando as populações indígenas habitavam a área do atual município, a chegada das frentes de colonização, os processos de doação de terra, a construção da ferrovia (da sua emergência ao seu apogeu), até a emancipação do município. A ideia é fomentar o diálogo acerca do processo de formação de Guapimirim, com uma análise geográfica, unindo informações que se encontram dispersas atualmente. Nesta perspectiva, este trabalho divide-se em três momentos históricos sobre Guapimirim: 1) “As origens: Nossa Senhora D’Ajuda de Aguapey-mirim” que tratará do início da colonização europeia no território, assim como as modificações territoriais que ocorreram durante o período colonial e imperial; 2) A estrada de Ferro Teresópolis, que marca o início do desenvolvimento econômico da cidade, que foi de suma importância para uma reestruturação urbana da cidade; 3) O processo de emancipação no final do século XX. Por mais que o arcabouço teórico esteja atrelado aos ideais de Milton Santos e na percepção de Geografia Histórica de Antônio Robert de Moraes, neste texto podemos contar com outras literaturas nacionais que visam esse diálogo, bem como pesquisas em órgãos públicos, o uso de materiais desenvolvidos por pessoas da região, como Roberto Féo (2012), José Inaldo Alonso (2000) e Vanderley Peres (2009). AS ORIGENS: NOSSA SENHORA D’AJUDA DE AGUAPEY-MIRIM Na região da baixada fluminense, junto ao entorno da baía de Guanabara, habitavam alguns grupos indígenas. Dentre eles, destacam-se dois, os Temiminós e os Tupinambá, vale destacar que eram tribos inimigas e atuaram no conflito da França Antártica na década de 1530 (Alonso, 2000). Ainda haviam mais divisões nesses grupos que eram distribuídos ao longo do território fluminense. Féo (2012) cita a presença dos Sacurus, Guarus, Puruz, Xumetos Aimorés, Coroados e Goitacazes acima da Serra dos Órgãos e na baixada fluminense, os Maracajás, Tamoios e Timbiras (esses dois últimos em Guapimirim). Parte dessa população foi escravizada pelos sesmeiros ou migraram para o interior. De acordo com Delgado (1990), a cidade do Rio de Janeiro foi descoberta pelos colonizadores em janeiro de 1504, quando acharam que a baía de Guanabara era a foz de um rio, batizado como Rio de Janeiro. Durante o período pré-colonial ainda havia o impasse do que seria da colônia, tendo em vista os conflitos que já existiam com os indígenas da região: A região da baixada, nos fundos da Baía de Guanabara e na base das vertentes da Serra dos Órgãos, era ocupada,até meados do séc. XVI, por índios Tamoios e Timbira (SANTOS, 1957), e, provavelmente, por índios Maracajá (DRUMMOND, 1997). Os sambaquis existentes em Magé são registros arqueológicos dessa presença histórica. Quando à parte alta da serra, registra-se a presença de índios Guarani e Quilombo da Serra, que abrigava escravos fugitivos das fazendas de cana de açúcar da baixada de Magé (IBAMA, 2007, p. 11). Como ressalta Pereira (1998), uma das grandes barreiras do processo de integração entre o litoral e o interior ,era a Serra do Mar, com escarpas cobertas de florestas densas (em sua maioria, o bioma da mata atlântica).A primeira expedição colonizadora na região, onde hoje se encontra a área territorial do município, foi possivelmente realizada em 1531, quando Martim Afonso de Souza ordenou expedições em direção ao rio Macacu, que no retorno, segundo as descrições, teria alcançando a Serra dos Órgãos (FÉO, 2012). De acordo com o autor, Martim solicitou o povoamento do Brasil a D. João III, onde iniciou o processo de divisão do Brasil em 15 capitanias hereditárias entre 12 fidalgos. Figura 1 : Desenho de tropeiros e escravos na mata e aos fundos a Serra dos Órgãos. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra15454/serra-dos-orgaos Acesso em: 15 de junho de 2018 Por conseguinte, para uma melhor administração e aproveitamento territorial, as capitanias foram distribuídas em sesmarias entre os nobres que tinham interesse em iniciar o processo de povoamento do Brasil. Ao longo da metade do século XVI foram vários processos de divisão de sesmarias, atendendo ao jogo político-econômico do período colonial. Poderia se desenvolver outro trabalho, reunindo apenas o processo de divisão das sesmarias no Rio de Janeiro, porém, para este focaremos naquelas que envolvem o território onde hoje se encontra a cidade de Guapimirim. Assim sendo, destaca-se um nome tradicional, sobretudo em Magé, do sesmeiro Simão da Mota, como “fundador da cidade”, porém vale ressaltar que Cristóvão de Barros foi de suma importância para o desenvolvimento da cidade (ALONSO, 1990). Mas, quem foi Cristóvão de Barros? O Governador Mem de Sá em 1567 doou à Barros uma sesmaria na área do entorno do rio Macuco, rio Guapiaçu e rio Magepe, autorizando-o a exploração de pau-brasil, em especial na região que era chamada de Magepe (primeiro nome de Magé), http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra15454/serra-dos-orgaos anteriormente foram de Pedro Martins Namorado e José Adorno, além de Simão da Mota. Barros criou o primeiro engenho de cana do Brasil movido a água, na atual localidade de Piedade (FÉO, 2012; ALONSO, 1990). Além da cana e do pau-brasil, outra atividade importante naquele momento era a pesca, sobretudo na baía de Guanabara, onde ocorria o encontro de águas doces e salgadas. Segundo Féo (2012), a coroa portuguesa concedeu até 110 sesmarias em 1575 no entorno da baía. Em 1590 começa o processo de doação de terras no território de Guapimirim. Foi doada sesmaria nas proximidades do rio Guapimirim a monges bizantinos, que criaram várias fazendas. Para Féo (2012), a estabilidade social de uma área se dava pela presença religiosa, o que facilitaria a promoção de povoado à cidade. No século XVII o cenário do povoamento da região se torna mais robusto. Os donos de terra buscavam junto à coroa, intensificar a proteção da região, sobretudo no entorno da baía de Guanabara, que tinha todas as fozes dos rios já distribuídas em sesmarias (ALONSO, 1990). O autor ressalta ainda o desenvolvimento de infraestruturas nas redondezas da baía para atender a pesca baleeira. Alonso (1990) frisa que a exploração madeireira foi tão abusiva que, em certos momentos não havia madeira para a construção de navios. Além da cana, produzia-se mandioca, milho e banana, características que permanecem até hoje, como a “farinha de suruí”, muito popular, (ALONSO,1990), comercializada nos circuitos curtos da economia na região. Em 1639 existiam 98 fábricas de açúcar na região da baía, e os principais portos eram o Grande Magepe e o Velho da Piedade, de acordo com Féo (2012). Ao passo que se iniciou o povoamento da região, capelas e igrejas foram se instalando, e a partir destas, a intensificação dos aglomerados humanos (FÉO, 2012). De acordo com o autor, em 1646 os irmãos Gago fundaram a Capela Curada de Nossa Senhora D’Ajuda de Sernambetiba (Guapimirim). Até o meado do século XIX a Freguesia de Nossa Senhora da Piedade de Magepe fazia rumo com as freguesias de: Guapimirim, Piedade de Inhomirim, Santíssima Trindade, Vila de Santo Antônio de Sá de Cassarabú e Baía de Guanabara (FÉO, 2012, p.74 e 75). O final do século XVII e o início do século XVIII é marcado pelo descobrimento de ouro em Minas Gerais formatando uma nova configuração territorial (STRAFORINI, 2010). A corrida do ouro deu origem à abertura de caminhos e à conquista das terras do Recôncavo da Baía de Guanabara do Rio de Janeiro, através das doações das sesmarias, da fundação das capelas, das irmandades, das roças, estalagens, casas de comércio, postos de fiscalização, aldeias, freguesias, vilas e igrejas no interior da capitania (FÉO, 2012, p. 78). Guapimirim “nasce” em 16743, com a fundação da capela de Nossa Senhora D’Ajuda, na localidade onde hoje é conhecida como Arraial D’Ajuda. A capela foi demolida em 1714, tendo em vista a criação da Capela da Barreira, matriz de Nossa Senhora da Conceição, em 1713 (FÉO, 2012; ALONSO, 1990), que foi tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC) em 1989 e restaurada em 2011 pelo Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (ICMBIO). A capela permanece em atividade até os dias de hoje. O século XVIII é marcado pela abertura dos caminhos para Minas Gerais, onde colonizadores cruzaram a Serra do Mar em busca de metais preciosos. A essência do território aurífero - constituído pelas áreas de extração aurífera, de produção de gêneros de abastecimentos e de circulação – foi o forjamento de uma alteridade territorial, ou seja, um território que não era produzido segundos as lógicas exclusivas do poder metropolitano: tão pouco dos interesses internos, mas da sobreposição contraditória e conflituosa dos mesmos. O sistema de circulação terrestre instalado nos territórios auríferos, foi, nesse sentido, mais que um meio de circulação de pessoas e mercadorias, mas antes de tudo, a bases material e normativa que tudo sustentação a uma nova configuração territorial (STRAFORINI, 2010, p.155). O principal canal de escoamento da produção aurífera era feito através do rio Paraíba do Sul, que nasce no Vale do Café (divisa do Rio de Janeiro e 3 “A Freguesia de Guapimirim foi criada antes de 1674. Possuía 436 residências e 2904 habitantes adultos. Até 1789 pertencia à de Santo Antônio de Sá” (ALONSO, 1990, p.54). São Paulo) e deságua no norte do estado fluminense, em Campos dos Goytacazes. É importante nos atentar à condição geográfica, já que para acessar o rio Paraíba do Sul, era necessário cruzar a Serra do mar. Nesta perspectiva, criaram-se caminhos até o rio para que pudessem fazer o transporte do ouro por terra, onde o rio não era navegável. Assim se deu o processo do tropeirismo na região sul do Brasil, e a partir desses caminhos foram surgindo conglomerados humanos, e deles iniciando-se um processo de povoamento desses trechos, com a criação de pousos e outras infraestruturas necessárias para aqueles que faziam o transporte do ouro. Mesmo que nesse período já houvesse contrabando4, a coroa começou a implementar barreiras tarifárias para fiscalização e arrecadação de impostos ao longo dos caminhos para as minas. Tanto que, nas redondezas da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, localizada na atual localidade da Barreira, ainda existemresquícios de uma construção com essa finalidade, o que inclusive, deu origem ao nome do bairro. Sobre o caminho percorrido para as minas, Féo cita: A “Estrada de Minas” vinha por embarcações à vela da cidade do Rio de Janeiro até o Porto de Piedade na Freguesia de Nossa Senhora da Piedade de Magepe, seguia para Frechal no pé da Serra dos Órgãos, alcançava o sovacão, além da Serra (Teresópolis), para os lados da Vila de Santo Antonio de Sá, daí demandando de canoas, Sebastiana, São José do Vale do Rio Preto e, finalmente, Sapucaia, onde penetrava no território mineiro de Além Paraíba, transpondo o rio paraíba através da ponte, ali existente (FÉO, 2012, p.99 e 100). Em 1730 é construída a Capela de Nossa Senhora de Sant’Anna, próximo ao rio Guapimirim, na localidade chamada de Bananal (Féo, 2012). Tanto a capela, quanto o bairro, permanecem até hoje. É importante retratar esse momento, pois, posteriormente quando formos tratar do crescimento da cidade, um dos aglomerados urbanos surgiu após a ascensão dessa localidade. Já em 1734 foi construída a Capela de São José da Boa Morte (Féo, 2012), a sentido do município de Cachoeiras de Macacu. Esta, ao contrário da de Sant’Anna, encontra-se em ruínas. 4 Exemplo: Santo do Pau Oco Em janeiro de 1755 é criada por alvará ,a Freguesia de Nossa Senhora D’ajuda de Guapimirim, possuindo 2904 habitantes, 463 casas, 4 engenhos, 10 engenhocas e 5 irmandades, segundo Féo (2012). As Irmandades ensinavam ofícios de ceramistas, pedreiros, carpinteiros, marceneiros e mestres de obras. Em 1789 Magé é elevada à categoria de Vila, e passa a ter 5 freguesias: Magé Centro, Suruí, Inhomirim, Guia de Pacopaíba e Guapimirim (além da Serra dos Órgãos), de acordo com Féo (2012). Adentrando no século XIX, temos um Brasil independente, com uma economia ainda em desenvolvimento, além da tentativa de povoamento do território nacional. Vale destacar que, em 1808 D. João chega ao Rio de Janeiro, fugindo das guerras napoleônicas na Europa. O legado do Período Joanino (1808-1821) trouxe uma série de transformações no território fluminense, sobretudo na capital, desde a elevação da Colônia a Reino Unido de Brasil, Portugal e Algarvez, a reestruturação urbana da cidade, investimentos em ensino e pesquisa até a criação de estruturas financeiras e administrativas (FONTES, 1998). Féo (2012) ressalta que durante meados de 1816 a região da Serra dos Órgãos passou a receber imigrantes suíços, franceses e ingleses, fruto das negociações entre a Inglaterra e o Brasil. Em 1820 a Freguesia de Nossa Senhora D’Ajuda de Guapimirim , da Vila de Magé possuía em média 2904 habitantes, com 4 engenhos, 1 aguardente e algumas olarias, baseando-se nos cultivos de cana, mandioca, arroz, milho, legumes, café, lenha e fabricação de carvão, que eram escoados pelos portos de Magé (FÉO, 2012). Nesse período destacou-se o Decreto-Lei Imperial que visava a criação das Câmaras municipais em cidades e vilas do império (FÉO, 2012). Até então, boa parte dos assuntos tratados nas vilas, freguesias e sesmarias, eram resolvidos com o poder clérigo local, exceto nos casos de extrema importância que eram redirecionados para a capital. Em dezembro de 1832 foi aprovada por Lei Provincial nº1828 em que caberia às Câmaras Municipais fazer a divisão das freguesias, surgindo assim a figura do “Coronel” (FÉO, 2012): Existiam na Freguesia de Nossa Senhora D’Ajuda de Guapimirim da Vila de Magé os seguintes fazendeiros: Francisco Maciel Gago QUintanilha e José Maciel Gago Quintanilha (Caray), Joaquim Pereira da Costa (Engenho), José Antonio Alves de Azevedo (Bananal), José da Costa Varella, (Cambucá, era vereador na Vila de Magé), Coronel Polycarpo José Álvares de Azevedo, (Bananal, era Juiz de Paz da Freguesia) (FÉO, 2012, p. 262). O autor ainda explicita que, de acordo com o Visconde de Taunay, o inglês George March foi o responsável pela introdução do turismo e hotelaria na região da Serra dos Órgãos, e que depois de seu falecimento, suas terras foram vendidas para imigrantes. Nesse período, é importante citar um grande marco da história nacional: a ferrovia. Tudo começou quando Irineu Evangelista de Souza (o Barão de Mauá) recebeu a concessão para explorar a Linha Imperial de Navegação e Estrada de Ferro Petrópolis (FÉO, 2012). Para o autor, um dos motivos da construção da Estrada de Ferro, era de fugir da precariedade dos portos da capital, devido a questões de salubridade em que se encontravam. A Linha Imperial fazia a ligação marítima do Porto Pharoux (Atual Praça XV) ao Porto de Mauá (Vila Estrela - atual distrito de Magé), e depois pela ferrovia, até a atual localidade de Raiz da Serra, onde seguiria através de veículos de tração animal ou até escravos (liteiras). A partir dessa época, com a Inauguração do Segundo Trecho da Estrada de Ferro D. Pedro II, entre o Porto de Mauá e a Serra de Petrópolis, o início da construção da Estrada União Indústria (Petrópolis-Juiz de Fora), e a proibição do tráfico de escravos, a Freguesia Nossa Senhora D’Ajuda de Guapimirim e a Vila de Magé começam a sofrer uma grande decadência econômica, até o advento da Estrada de Ferro Piedade-Magé- Guapimirim-Teresópolis em 1896. (FÉO, 2012, p. 299) Porém, o fluxo de pessoas pela região crescia. Em 1865: Pela Lei Provincial nº 1.309 de 29 de dezembro, é transferida a sede da Freguesia de Nossa Senhora de Guapimirim da Cidade de Magé, do Outeiro dos Gramaximis para o Arraial de Bananal (Parada Modelo), passando a servir provisoriamente a matriz, a capela de Sant’Anna, devido ao movimento do número de tropeiros e viajantes em direção à Serra dos Órgãos (FÉO, 2012, p.316). Essa mudança de sede da freguesia vai direcionar o eixo de povoamento da cidade para a atual área povoada (região do atual bairro de Parada Modelo). Segundo Féo (2012), diariamente passavam em média 1.000 animais cargueiros no pedágio da Barreira, seguindo para o Porto de Piedade. ESTRADA DE FERRO TERESÓPOLIS No ano de 1890 é criada a Estrada de Ferro Teresópolis (EFT) com o objetivo de construir uma linha ferroviária entre o Porto de Piedade até a Freguesia de Santo Antônio do Paquequer , Teresópolis (PERES, 2009; FÉO, 2012). Aqui vale frisar a importância de José Augusto Vieira na construção da EFT e a inserção do desenvolvimento econômico para a região, já que, veremos mais à frente que cidades emergiram a partir da implantação do sistema ferroviário. Em 1894, a capital mudou-se para Petrópolis devido ao crescimento que a Revolta Armada assolou o recôncavo da baía, o que desvalorizou, em parte, a construção da EFT (PERES, 2009). O primeiro trecho da ferrovia já existia desde 1884, ligando o Porto de Piedade ao centro de Magé. O “segundo trecho” ligando Magé, Raiz da Serra (nome inicial da estação ferroviária) ao atual centro de Guapimirim, foi inaugurado por Vieira, em novembro de 1896 (Féo, 2012). Segundo Peres (2009), o trecho entre Piedade e Guapimirim eram de quase 22 km. Figura 2: Porto de Piedade. Disponpivel em : http://mageturismo.blogspot.com Acesso em 15 de junho de 2018 http://mageturismo.blogspot.com/ Em 1900, com trecho férreo construído, Vieira5 decide investir na ligação marítima entre o Cais Pharoux e Piedade, fazendo uma obra no píer para a atracação de embarcações e um canal de aproximadamente 1 km (PERES, 2009). Em 1904, de acordo com Féo (2012), iniciam as operações marítimas do tráfego a vapor “Teresópolis”, entre o Rio de Janeiro e Magé; neste ano foi inaugurado o 3º trecho da EFT, que ligava a estação de Raiz da Serra até a Barreira; o 4º trecho foi inaugurado em 1906 ligando a Barreira até a localidade de Miudinho; o 5º trecho entre o Miudinho e o Garrafão foi inaugurado em 7 de setembro de 1908 com atrasos devidoa entrega da ponte metálica oriunda da Europa; por fim, o 6º trecho chega a estação do Alto no dia 19 de setembro de 1908. Figura 3: Descida da locomotiva da EFT na altura do Soberbo. Disponível em: http://www.camaradeguapimirim.rj.gov.br Acesso em 15 de junho de 2018 5 Vieira era conhecido por vencer seus objetivos de construção, desafiando a engenharia. Exemplo além da Obra no píer, é a própria chegada da ferrovia no soberbo, parte em que foi aberta sob o afloramento de granito, onde que hoje a BR-116. http://www.camaradeguapimirim.rj.gov.br/registros-hist%C3%B3ricos-0 Nesta mesma data, foi lançado o “Vapor Presidente”, o barco mais veloz da baía de Guanabara, ligando a Praça XV ao Porto de Piedade. Segundo Féo (2012), a antiga estrada (antes da ferrovia) continuou sendo usada, porém, as liteiras deixaram de ser usadas. Em 1916 foi rescindido o contrato e assinado a encampação da Estrada de Ferro Therezopolis (PERES, 2009). Para o governo (que detinha o controle da EFT), o início da década de 1920 visou reestrutura o modelo da EFT. Neste sentido, fechou um acordo com a Leopoldina Railway, permitindo que os trens da EFT pudessem trafegar entre Magé e Praia Formosa6 em 1923, percurso que levava aproximadamente 2 horas e 48 minutos7 (PERES, 2009). “EFT refém da Leopoldina”, essa é a frase que Peres (2009) destaca, quando cita as imposições que a companhia fez ao assumir o trecho. Segundo o autor, além do preço abusivo dos fretes (a maior parte do abastecimento de Guapimirim e Teresópolis eram com base em encomendas da capital8), também foi encerrado a utilização do Porto de Piedade9, gerando um abandono do local. A população local até tentou fazer um movimento de reutilizar o porto, porém, não obteve resultado: A Therezopolis paga pilotos, chefes de trem e mais umas tantas cousas, comente para passar pelos fidalgos trilhos dessa pobre D. Leopoldina. Esta coitada, gasta uma fortuna - e é só o que ella deve gastar para compensar o trafego mutuo - gasta, quem sabe uns dois ou tres contos por anno para a conserva da linha ferrea desde Mauá até Magé. [...] E no emtanto, essa veneral matrona, nos trata tão mal! … atraza os nossos trens, obriga-nos a esperar pela passagem de vagabundos trens de carga, faz-nos uma infinidade de picardias, despreza-nos ao extremo, e dodavia nós a respeitamos com cordura e com deferencia. Nós imploramos, nós ajoelhamos deante das suas prepotencias, e ella… sem dó nem piedade… indica-nos o Porto de Piedade (PERES, 2009, p. 125). 6 Também conhecida como Estação Barão de Mauá ou Estação Leopoldina, localizada nas proximidades da região portuária do Rio janeiro e da Rodoviária Novo Rio, na av. Francisco Bicalho. Cabe lembrar de que nessa estação também se destinava o trem oriundo de Petrópolis (Raiz da Serra/ Vila Inhomirim). 7 Atualmente, de ônibus (direto) esse percurso leva 2h e 20 minutos em condições de trânsito normais (linha Teresópolis x Rio de Janeiro - Rodoviária Novo Rio). 8 Segundo relatos de antigos moradores de Guapimirim, muitos comerciantes encomendavam a (nome de quem ia buscar as encomendas) no trem que ia sentido Teresópolis - Rio de Janeiro de manhã (geralmente 7h), retornando no final da tarde. 9 A mesma ação serve para o Porto de Mauá, quando o Ramal da Vila Inhomirim começou a ter ligação direta com o Rio de Janeiro. O trecho acima trata-se de uma reportagem publicada no Jornal “O Therezopolis”, e citada na obra de Peres (2009). É notório o descontentamento da população, perante as ações da Leopoldina, dirigindo-se num tom de revolta e ironia, já que 50% da renda líquida da EFT ficava para a Companhia Leopoldina Railway. Figura 3: Estação de Guapy em 1922. Disponível em: http://visiteguapimirim.com.br Acesso em 15 de Junho de 2018 Em 1924 a Leopoldina iniciou uma série de investimentos na estrada, desde a troca de trilhos e dormentes, até novas locomotivas e vagões (PERES, 2009). O resultado veio posteriormente, conforme cita Peres: O investimento na estrada provocou um surto de desenvolvimento na cidade. Foram transportados 111.049 passageiros em 1925 contra 101. 201 em 1924 e 92.674 em 1923. O transporte de bagagem e encomendas subiu, de 768 toneladas, em 1924, a 3.202, em 1925; o de mercadorias passou, de 9.593 toneladas, em 1924, a cerca de 10.000, em 1925 (PERES, 2009, p. 134) Com o aumento do fluxo de passageiros, também cresceu a quantidade de viagens, e consecutivamente a ocorrência de acidentes, inclusive com vítimas fatais (FÉO, 2012; PERES, 2009). Segundo em Peres (2009), muitos desses fatos estavam relacionados a falta de manutenção das locomotivas, bem como de trilhos e dormentes. A EFT é incorporada à Central do Brasil por decreto em novembro de 1931 (Féo, 2012). Dessa época até 1947, a ferrovia levava o desenvolvimento http://visiteguapimirim.com.br/ às cidades atendidas, porém, neste momento já se discutia a construção de uma estrada de rodagem ligando Teresópolis ao Rio de Janeiro. Segundo Féo (2012), a Lei nº 489 sancionada em 18/11/1947 destinando a verba para a construção da rodovia10. Em 1950, Guapimirim (3º distrito de Magé) possuía 7.026 habitantes e Magé 35.671 (Féo, 2012). Em 1957 o trecho Guapimirim - Teresópolis foi suspenso para obras da rodovia, e os usuários do serviço tinham que usar a estrada Teresópolis - Petrópolis, para prosseguir viagem até o Rio de Janeiro (PERES, 2009). Vale destacar a criação da Rede Ferroviária Federal - RFFSA em março de 1957, que passou a ter controle de vários trechos ferroviários no Brasil, inclusive trens urbanos. Neste ano iniciou o desmonte dos trilhos no trecho entre Teresópolis e Guapimirim, ficando assim, esta última como ponto final da antiga EFT. Em 1959 o Presidente Juscelino Kubistchek inaugura a ligação direta Teresópolis-Guapimirim- Magé-Rio de Janeiro11 (trecho da BR-116). EMANCIPAÇÃO A ferrovia era de grande importância para Guapimirim. De acordo com Féo (2012), em 1960 a luz elétrica chegou na cidade, sendo abastecida pelo gerador da rede ferroviária. Nesse período foi instaurado a Ditadura Militar que perdurou entre 1964-1985. No próprio ano do golpe militar, os trechos Petrópolis - Três Rios e Petrópolis - Raiz da Serra (Vila Inhomirim) foram desativados segundo Féo (2012). Durante esse momento começaram a chegar na cidade novas indústrias e imigrantes, mas principalmente famílias que adquiriram sítios para passar final de semana.Cerca de 70% do território de Guapimirim abrange área de preservação ambiental, o que a diferencia das demais localidades. Em 1979 iniciou-se o processo de emancipação de Guapimirim, quando Dr. Roberto José Pereira Pinto (Deputado Estadual por Teresópolis) 10 Segundo o autor, o Presidente Marechal Eurico Gaspar Dutra possuía uma casa de veraneio no bairro da Prata. 11 Em 1951 a Estrada havia sido adicionada no Plano de Defesa Nacional; em 1954 entra no congresso a discussão da Rio-Bahia (BR-116) de passar pela região encaminhou um abaixo assinado à Assembléia, solicitando a criação do Município de Guapimirim (FÉO, 2012). A luta local perdurou, até que em 1990, foi realizado um plebiscito na localidade, referente a emancipação. Foram alguns governos e (des)governos de 1992 até hoje. A cidade não comportou o rápido crescimento populacional, e a ferrovia entrou em uma queda sem fim, mesmo que seja um reflexo em todo Brasil, oriundo de políticas de desenvolvimento adotado em escala nacional. CONSIDERAÇÕES FINAIS A maior parte das terras onde hoje se encontra o município de Guapimirim, pertenciam à Freguesia de Nossa Senhora do Candelário da Cidade do Rio de Janeiro até 1697 (uma pequena parte, nas proximidades do rio Guapimirim,pertencia à Freguesia de Santo Antonio de Cassarabú de Macuco). A partir desta data, passaram a fazer parte da Vila de Santo Antonio de Sá, até que em 1755 tornou-se a Freguesia de Nossa Senhora D’Ajuda de Guapimirim, e em 1789, começou a pertencer a Vila de Magé, onde se tornou distrito e emancipou-se em 1990. Guapimirim iniciou sua história onde hoje é chamado de Arraial D’Ajuda com a construção de uma igreja. Subsequentemente, iniciam-se as expedições pela região, e com a descoberta de ouro em Minas Gerais, as localidades de Bananal e Barreira passam a ser áreas importantes no crescimento da cidade. Na Barreira, onde se instaurou o primeiro pedágio do Brasil, a cobrança de imposto do ouro oriundo das minas, assim como na localidade de Bananal, onde serviam de apoio aos viajantes. Com a chegada da ferrovia, o foco de atenção do município começou a se direcionar para o atual centro da cidade, que era local de troca de locomotivas para a subida da serra pelas cremalheiras12. É notado e apreciado, o quanto Féo (2012) e Peres (2009) ressaltam a importância de José Augusto Vieira para o desenvolvimento da região. Como ressalta Vasconcelos (1947), Vieira foi responsável por trazer investimentos em massa para a região, sobretudo a Teresópolis. Porém, destacam que a 12 Locomotivas com trilhos em forma de coroa para a subida e descida de trechos com declividades. população local “ignora a memória”, em sua maioria, sobre a importância dessa pessoa. Sobre Magé, o entroncamento de dois ramais (Teresópolis e Porto das Caixas/Itaboraí), fez com que a cidade emergisse rapidamente, porém, vale destacar o papel de Cristóvão de Barros no povoamento inicial da cidade. Este trabalho objetivou fazer uma análise das transformações espaciais que a cidade de Guapimirim teve desde a chegada dos colonizadores, passando pelo caminho das tropas, a ferrovia, até chegar ao movimento de emancipação. Unindo as poucas bibliografias acerca do tema, pode-se traçar uma ideia inicial de uma formação socioespacial parecida com muitas cidades de pequeno e grande porte no Brasil que se originaram a partir estalagens para tropeiros nos arredores das ferrovias. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALONSO, José Inaldo. Notas para a história de Magé / José Inaldo Alonso. Ed. do Autor – Niterói, 2000. 172p. DELGADO, Carlos de Carvalho. História da cidade do Rio de Janeiro. 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