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Isabela G. Campos DOR TORÁCICA Introdução Dor torácica é aquela PERCEBIDA NA REGIÃO ANTERIOR DO TÓRAX, podendo ou não estar irradiada. Muitas vezes, pode ser percebida como uma sensação de desconforto. A dor torácica é uma manifestação sintomática relativamente frequente e complexa, uma vez que pode ser decorrente de CAUSAS CARDÍACAS e NÃO CARDÍACAS, múltiplos mecanismos fisiopatológicos, manifestando-se aguda ou cronicamente. A caracterização precisa da dor torácica é fundamental para embasar o diagnóstico diferencial. Entre essas características, são essenciais: início e duração do sintoma, bem como sua qualidade, localização, irradiação, intensidade, fatores desencadeantes, impacto na capacidade de trabalho, fatores de alívio, manifestações concomitantes e evolução do sintoma no tempo. Nesse contexto, é essencial caracterizar a dor de origem cardiovascular, pautando-se inicialmente em anamnese e exame físico direcionados, aliado ao eletrocardiograma (ECG) de 12 derivações. Esse exame deve ser feito em até 10 min da chegada do paciente ao atendimento médico e auxilia no diagnóstico diferencial entre síndromes coronarianas agudas (SCA), arritmias e outras patologias. Em geral pouco expressivo nas SCA, o exame físico pode ser muito útil na suspeita diagnóstica, por exemplo, de dissecção de aorta, pericardite e tamponamento cardíaco. Prevalência Estima-se que 60 a 75% das causas de dor torácica tenham etiologia NÃO associada ao aparelho cardiovascular; na maioria dos pacientes, a etiologia é musculoesquelética, esofágica, respiratória ou psicológica. A prevalência de síndrome coronariana aguda (SCA) corresponde a cerca de 12 a 15% desse total. As causas mais comuns em ordem, são: 1º MUCULOESQUELÉTICA; 2º GASTRINTESTINAL; 3º CARDÍACA; 4º PSIQUIÁTRICA; 5º PULMONAR. Tipos Dor torácica de ORIGEM CARDÍACA ISQUÊMICA OBS. o gesto de fechar a mão sobre o tórax em uma área grande e imprecisa é altamente sugestivo de dor de origem isquêmica (sinal de Levine). NÃO ISQUÊMICA → Compreende a: angina ESTÁVEL, angina INSTÁVEL e IAM (seja com supra ou sem supra). → Compreende a: dissecção aguda de aorta, doença cardíaca valvar, PERICARDITE. ANGINA ESTÁVEL (AE): refere-se ao desconforto no peito que ocorre de forma previsível e reprodutível em um determinado nível de esforço, com duração média de 1 a 5 minutos, é aliviada com repouso ou com nitratos e cujas características não se alteram no período de 2 meses. A angina estável é o quadro Dissecção aguda de aorta: Deve-se suspeitá-la em pacientes com dor torácica intensa, “lancinante” ou “rasgando”, súbita, de forte intensidade, frequentemente irradiada para o dorso, com diferenças de pressão arterial ou pulso entre os Isabela G. Campos clínico inicial da doença cardíaca isquêmica em 50% dos casos. Geralmente descrita como “peso”, “aperto”, “sufoco” ou “desconforto” torácico desencadeada ou agravada com atividade física ou estresse emocional. Além disso, a angina estável possui início mais brando e atinge seu pico máximo dentro de poucos minutos, atenuando-se a seguir. ANGINA INSTÁVEL: A dor da angina instável dura mais de 10 minutos, exceto se prontamente tratada. Costuma ser uma dor “em crescendo”, aumentando paulatinamente, por vezes acordando o paciente a noite. Não é necessário que haja um exercício propriamente dito: atividades normais da vida cotidiana podem desencadear angina, ou pode haver uma redução do limiar de exercício tolerado. A dor não melhora com repouso, e pode ser desencadeada durante o mesmo. SÍNDROME CORONARIANA AGUDA (angina instável e IAM): apresenta dor ou desconforto ou queimação ou sensação opressiva localizada na região precordial ou retroesternal, que pode ter irradiação para o ombro e/ou braço esquerdo, braço direito, pescoço ou mandíbula, acompanhada frequentemente de diaforese, náuseas, vômitos, ou dispneia. A dor pode durar alguns minutos (geralmente entre 10 e 20) e ceder, como nos casos de angina instável, ou mais de 30min, como nos casos de infarto agudo do miocárdio. O paciente pode também apresentar uma queixa atípica como mal estar, indigestão, fraqueza ou apenas sudorese, sem dor. Pacientes idosos e mulheres frequentemente manifestam dispneia como queixa principal no infarto agudo do miocárdio, podendo não ter dor ou mesmo não valorizá-la o suficiente. ■Localização: desconforto, dor opressiva, queimação em região retroesternal ou mais lateral no precórdio ou epigástrica. ■Irradiação: braço esquerdo, ambos os membros superiores ou a mandíbula ■Tipo da dor: geralmente em aperto, mas pode ser em queimação ■Duração: desde minutos (10-20) até poucas horas ■Sintomas associados: diaforese, dispneia, náuseas, vômitos e sudorese aumentam a probabilidade de a dor ser de origem coronariana. membros. No exame físico podemos encontrar um sopro de regurgitação aórtica. O ECG geralmente é normal ou apresenta sinais de sobrecarga de câmaras esquerdas (decorrente de HAS de longa evolução). A radiografia de tórax pode apresentar alargamento do mediastino, mas uma radiografia normal não afasta o diagnóstico de SCA. PERICARDITE OU DERRAME PERICÁRDICO: Dor torácica retroesternal ou precordial súbita ou insidiosa, pleurítica, que frequentemente PIORA COM INSPIRAÇÃO OU DEGLUTIÇÃO e melhora com inclinação do tronco para a frente, podendo irradiar para pescoço e ombros. A causa mais frequente de pericardite é idiopática (40% dos casos). Porém, o paciente pode apresentar história prévia de gripe, febre baixa e mal-estar, pois a principal causa da pericardite é viral. No exame físico, pode haver atrito pericárdico. No ECG em fase aguda, ocorre supradesnivelamento de segmento ST difuso e infradesnivelamento de segmento PR. Pode cursar com derrame pericárdico e achados eletrocardiográficos clássicos de baixa amplitude e/ou alternância elétrica do complexo QRS. Cabe lembrar que o ecocardiograma não é um bom exame para a avaliação do pericárdio, na pericardite aguda, mas é bom para avaliar a presença de derrame pericárdico associado. Portanto, um ecocardiograma normal não exclui o diagnóstico. O tratamento inclui o uso de anti-inflamatórios e colchicina. Dor torácica de ORIGEM PULMONAR → Compreende a: Tromboembolismo pulmonar, hipertensão pulmonar, pneumotórax hipertensivo TROMBOEMBOLISMO PULMONAR: A dor torácica ocorre em 50% dos episódios de tromboembolismo pulmonar (TEP) e geralmente é uma dor pleurítica, ventilatório-dependente. PNEUMONIA E DERRAME PLEURAL: Em um quadro de pneumonia e no derrame pleural, a dor torácica tem características pleuríticas, sendo acompanhada por dispneia. Na pneumonia, o paciente geralmente apresenta tosse com expectoração amarelada e febre (pode Isabela G. Campos O principal sintoma clínico do tromboembolismo pulmonar é a dispneia súbita, que está presente na maioria dos casos. No exame físico, geralmente podem-se observar taquipneia e hipoxemia com ausculta pulmonar normal. Quanto à radiografia de tórax, o achado mais frequente é um pequeno derrame pleural unilateral e os mais específicos são uma imagem em cunha (significando infarto pulmonar) e o sinal da oligoemia (uma região menos penetrada que significa diminuição da perfusão sanguínea). estar ausente em idosos). No exame físico, podem ser auscultados estertores pulmonares localizados (pneumonia) e abolição do murmúrio vesicular na base do lado acometido (derrame pleural) e a radiografia de tórax revela o diagnóstico. Dor torácica de ORIGEM GASTRINTESTINAL → Compreende a: REFLUXO GASTROESOFÁGICO (principal causa desse grupo), espasmo esofágico, esofagite, úlcera péptica, colelitíase/colecistite, pancreatite, gastrite. REFLUXO GASTROESOFÁGICO: Pacientes podem apresentar desconforto torácico, geralmente em queimação (pirose), mas que às vezes é definido como uma sensação opressiva, localizada naregião retroesternal ou subesternal, podendo se irradiar para o pescoço, braços ou dorso, às vezes associada à regurgitação alimentar, e que pode melhorar com a posição ereta ou com o uso de antiácidos, mas também com nitratos, bloqueadores dos canais de cálcio ou repouso. Geralmente é desencadeada por ingestão volumosa de alimentos, bebidas cítricas ou álcool e piora na posição deitada e reclinada. Portanto, a dor torácica do refluxo gastresofágico é caracterizada como uma dor retroesternal em queimação que piora ao deitar em decúbito horizontal, melhora ao sentar e com antiácidos. O exame físico é normal. ÚLCERA PÉPTICA: A dor da úlcera péptica geralmente se localiza na região epigástrica ou no andar superior do abdômen mas às vezes pode ser referida na região subesternal ou retroesternal. Estas dores geralmente ocorrem após uma refeição, melhorando com o uso de antiácidos. Dessa maneira, a dor epigástrica é em queimação que piora com a alimentação. Na palpação abdominal geralmente encontramos dor na região epigástrica. Dor torácica de ORIGEM MUSCULO-ESQUELÉTICA → Compreende a: COSTOCONDRITE e doença do disco cervical. As dores musculares são mais insidiosas, com duração mais longa e pioram com a movimentação do tronco e/ou dos membros superiores e com a palpação do local, melhorando com o uso de analgésicos comuns e anti- inflamatórios. COSTOCONDRITE = A costocondrite se caracteriza por dores nas articulações costoesternais acompanhadas de sinais flogísticos, que se acentuam à palpação (sinal de Tietze). Também melhora com o emprego de analgésicos simples e anti-inflamatórios. Dor torácica de ORIGEM PSICOGÊNICA → Compreende a: SÍNDROME DO PÂNICO, depressão, ansiedade A dor psicogênica não tem substrato orgânico, sendo gerada por mecanismos psíquicos, tendendo a ser difusa e imprecisa. Geralmente os sinais de ansiedade são detectáveis e com frequência se observa utilização abusiva e inadequada de medicações analgésicas. Dor torácica de ORIGEM INFECCIOSA → Compreende a: HERPES ZOSTER, condição pós-COVID. Características importantes Dor pontual, bem localizada, súbita e de curtíssima duração não tem relação com doença coronariana. Dor que inclua a cicatriz umbilical e se irradie para baixo, ou dor facial acima da mandíbula (ou incluindo o couro cabeludo) não é de origem cardíaca. Isabela G. Campos De forma geral, a dor que irradia para região escapular e é precipitada por esforço aumenta a probabilidade de ser de origem cardíaca. Já a dor tipo pleurítica, posicional ou reprodutível ao toque é usualmente não cardíaca. Exames complementares Eletrocardiograma: → O ECG é o teste inicial mais importante. → Idealmente, DEVE SER REALIZADO EM ATÉ 10 MINUTOS da apresentação do paciente na triagem no serviço de emergência, para subsidiar o diagnóstico da presença de infarto agudo do miocárdio com supradesnível do segmento ST, e orientar a conduta, indicando os pacientes que se beneficiarão de terapias de reperfusão. Entretanto, muitos pacientes com SCA que chegam à sala de emergência possui um ECG normal. → ATENÇÃO: A realização do eletrocardiograma (ECG) está indicada em todos os pacientes em vigência de dor e/ou que apresentam sintomas sugestivos de angina. → Alterações de ECG como inversões de onda T, bloqueio de ramo esquerdo novo, infradesnível ou supradesnível de ST podem caracterizar a presença de SCA e definir o tratamento a ser instituído. → O ideal é que o ECG seja repetido no mínimo em 3, 6 e 9 h após a chegada do paciente ou imediatamente caso haja recorrência da dor. Essa forma de avaliação contínua aumenta de modo considerável a sensibilidade para detecção de SCA. → Mesmo em situações em que a dor torácica não seja de origem coronariana, o ECG pode ser útil ao auxiliar o diagnóstico. Além disso, em pacientes com pericardite, pode-se observar supradesnível difuso de ST com infradesnível do segmento PR. Ainda na suspeita de pericardite, quando ocorrer redução ampla de amplitude em todas as derivações e/ou alternância elétrica, o diagnóstico de tamponamento cardíaco deve ser prontamente descartado. Isabela G. Campos PERICARDITE Introdução/ anatomia O pericárdio é uma estrutura sacular com duas camadas – visceral e parietal, que envolvem o coração, e entre elas encontram-se normalmente cerca de 15 a 50 mL de um líquido seroso e claro. Esse líquido pericárdico age como lubrificante, diminuindo a fricção do coração durante o ciclo cardíaco. Além disso, o líquido pericárdico teria a função de reservatório de moduladores parácrinos como prostanoides, peptídeos natriuréticos e endotelinas, que podem regular os tônus simpático e coronário, a frequência cardíaca e a pressão arterial (PA), além do possível papel imunológico. O pericárdio visceral é uma monocamada de células da serosa que adere firmemente ao epicárdio, reflete sobre a origem dos grandes vasos e, juntamente com a camada parietal fibrosa e resistente, envolve o coração. O pericárdio visceral está intimamente ligado ao coração, à aorta, à artéria pulmonar e às veias cavas e permite a fixação do tecido adiposo ao miocárdio. O pericárdio parietal é constituído de colágenos tipos I e III e elastina, de espessura que varia de 1 a 2 mm, portanto mais resistente, e tem importante função de fixar o coração à cavidade torácica. O pericárdio é bem inervado, de modo que a inflamação pericárdica provoca dor intensa e desencadeia reflexos mediados pelo nervo vago. Obs. O pericárdio não é essencial para a função cardíaca, no entanto grande acúmulo de líquido pericárdico ou espessamento dessa membrana pode causar consequências clínicas significativas. Definição Pericardite é o PROCESSO INFLAMATÓRIO DO PERICÁRDIO e pode ser de causa primária ou secundária a diversas doenças sistêmicas. Se apresenta como doença primária ou secundária, aguda ou crônica, geralmente BENIGNA E AUTOLIMITADA, mas pode cursar com derrame e/ou constrição pericárdica. Formas As pericardites são classificadas conforme sua evolução e apresentação clínica: ▫ PERICARDITE AGUDA: é geralmente utilizado para o PRIMEIRO EPISÓDIO DA DOENÇA e; apresenta duração <4 a 6 semanas; ▫ PERICARDITE INCESSANTE: duração > 4 semanas, contínua, menos de 3 meses, sem remissão. ▫ PERICARDITE RECORRENTE: refere-se literalmente à recorrência após a remissão inicial; em 20 a 30% dos casos, considerada após 4 a 6 semanas ou mais do primeiro episódio de pericardite (sem sintomas nesse intervalo). ▫ PERICARDITE CRÔNICA (> 3 MESES): pericardite de curso prolongado, arbitrariamente definido como superior a 3 meses. Epidemio + comum em ADULTOS JOVENS (20-50 anos); + comum no sexo MASCULINO; Faz parte do grupo de causas de dor torácicas de origem CARDÍACA NÃO isquêmica. Representa 5% de todas as causas de dor torácica não isquêmica na sala de emergência. A causa mais comum de pericardite aguda é a IDIOPÁTICA. Quando não é de causa idiopática, pode ser decorrente de infecções virais em 85 a 90% dos casos. Etiologia As doenças do pericárdio podem ocorrer isoladamente ou como manifestação de doenças sistêmicas, incluindo alterações congênitas, infecciosas, inflamatórias, neoplásicas, iatrogênicas, metabólicas, hemodinâmicas etc. Na MAIORIA DOS PACIENTES a causa da pericardite aguda é IDIOPÁTICA. Isabela G. Campos ▫ A pericardite idiopática é a forma mais comum de apresentação da pericardite aguda, podendo chegar a 85% dos casos. Sabe-se que na grande maioria desses casos a etiologia é viral e, habitualmente, não se faz pesquisa viral de rotina na prática clínica devido à relação custo-benefício. ▫ A pericardite pode ser a primeira manifestação de uma doença sistêmica (em geral autoimune), neoplásica ou tuberculosa. No Brasil, certamente a etiologia tuberculosa é muito superior, principalmente em portadores deimunodeficiência. Em geral, as causas de pericardite aguda podem ser SUBDIVIDIDAS em INFECCIOSAS e NÃO INFECCIOSAS. As de origem não infecciosa incluem etiologias autoimunes (relacionadas à lesão do pericárdio, doença do tecido conectivo e formas autorreativas), neoplásicas, desordens metabólicas e pericardites traumáticas. Os agentes infecciosos capazes de causar pericardite incluem vírus, bactérias, fungos e parasitas (Tabela 1). Obs. Pacientes com infarto agudo do miocárdio (IAM) transmural frequentemente são acometidos por diferentes formas de pericardite. Em geral, entre o 3-7° dia de evolução, quase metade dos Isabela G. Campos pacientes apresentam inflamação do pericárdio subjacente à área infartada, podendo se traduzir por dor pleurítica ou surgimento de atrito pericárdico, mesmo em indivíduos assintomáticos. Entre 2 e 11 semanas após o infarto, pode ocorrer outra síndrome, caracterizada por febre, infiltrado pulmonar e dor pleurítica. Acredita-se que esta última seja resultado da liberação de mediadores autoimunes relacionados à necrose miocárdica. Trata-se da síndrome de Dressler, de curso habitualmente autolimitado. As duas formas são responsivas ao tratamento com ácido acetilsalicílico (AAS) ou ibuprofeno. Fatores de risco Sexo masculino; Idade entre 20 e 50 anos; Infarto agudo do miocárdio (IAM) transmural; Cirurgia cardíaca; Neoplasia; Infecções anteriores (ex: virais); Traumas. Fisiopatologia Após injúria dos folhetos pericárdicos, há produção de um exsudato que preenche o saco pericárdico. O quadro inflamatório do pericárdio pode levar ao acúmulo de líquido no espaço existente entre a membrana serosa e o coração, sendo essa presença de líquido anômala no pericárdio denominada derrame pericárdico. As consequências desse evento dependem principalmente da velocidade com a qual ocorre esse acúmulo de líquido, sendo que o grande acúmulo de coleção líquida pode comprimir o coração, em decorrência da pressão exercida pelo líquido do derrame, ocasionando um quadro mais grave denominado tamponamento cardíaco. A depender da quantidade e da velocidade de líquido produzido, teremos três principais cenários: 1. Pericardite aguda Assim como outras condições inflamatórias, a pericardite aguda frequentemente está associada ao AUMENTO DA PERMEABILIDADE CAPILAR. Os capilares que suprem o pericárdio seroso (visceral) tornam-se permeáveis, possibilitando que proteínas plasmáticas, incluindo o fibrinogênio, saiam dos capilares e entrem no espaço pericárdico. Isso resulta em um exsudato que varia em tipo e quantidade, de acordo com o agente causal. A pericardite aguda com frequência está associada a um exsudato fibrinoso (contendo fibrina), o qual cicatriza por resolução ou progride para deposição de tecido cicatricial e formação de aderências entre as camadas do pericárdio seroso. Uma inflamação leve a moderada, sem produção exagerada de líquido pericárdico, pode gerar um quadro típico de pericardite, que pode até mesmo ser autolimitado. O paciente apresenta-se com uma dor torácica ventilatório-dependente, em pontada, que melhora com a flexão do tronco, e que pode gerar a mesma irradiação do infarto (MSE, pescoço, costas) – devido à inervação semelhante do pericárdio e do miocárdio. Além da dor, pode haver presença de sintomas inespecíficos, tais como tosse seca, dispneia, fraqueza, febre, palpitações. Ao exame físico, temos um sinal clínico que chama a atenção para uma suspeita de pericardite, o chamado “atrito pericárdico”. Este corresponde ao ruído originado pela fricção entre os folhetos pericárdicos que, por estarem inflamados, originam um som parecido com o arranhar de um couro na ausculta cardíaca. Evolução do quadro 2. Derrame pericárdico Se esse líquido for produzido numa quantidade suficiente para gerar um acúmulo considerável em torno do coração, mas incapaz de ocasionar tamponamento cardíaco, teremos um DERRAME PERICÁRDICO, que pode estar associado ou não aos sintomas de pericardite aguda. Isabela G. Campos Nesse caso, pela presença de quantidades consideráveis de líquido pericárdico, há atenuação dos sons cardíacos, aumento da área de macicez cardíaca e alteração das dimensões e do formato da silhueta cardíaca. Também é possível auscultar o atrito pericárdico. Pequenos derrames pericárdicos podem não produzir sintomas, ou produzir achados clínicos anormais. Até mesmo um grande derrame que se desenvolve lentamente pode causar poucos ou nenhum sintoma, desde que o pericárdio consiga se distender e evitar a compressão do coração. Contudo, um acúmulo súbito de até mesmo 200 mℓ de líquido pode elevar a pressão intracardíaca a níveis que limitam seriamente o retorno venoso para o coração. O derrame pericárdico pode levar a uma condição denominada tamponamento cardíaco, no qual ocorre compressão do coração em consequência do acúmulo de líquido, pus ou sangue no saco pericárdico. 3. Tamponamento cardíaco Por fim, se houver uma produção exagerada de líquido pericárdico, capaz de gerar aumento substancial da pressão intrapericárdica, poderemos nos deparar com o tamponamento cardíaco. O tamponamento cardíaco resulta em aumento da pressão intracardíaca, limitação progressiva do enchimento diastólico ventricular, assim como reduções no volume sistólico e no débito cardíaco. Um acúmulo significativo de líquido no pericárdio resulta em aumento do estímulo adrenérgico, que leva à taquicardia e ao aumento da contratilidade cardíaca. Ocorre elevação da pressão venosa central (PVC), distensão das veias jugulares, queda da pressão arterial sistólica, estreitamento da pressão de pulso, abafamento das bulhas cardíacas e sinais de choque circulatório. Aqui a bomba cardíaca possui uma restrição importante, originando a tríade clínica característica, denominada “tríade de Beck”: hipofonese de bulha cardíaca à ausculta, turgência venosa jugular patológica e hipotensão arterial. ATENÇÃO: Essas 2 patologias correspondem as COMPLICAÇÕES da PERICARDITE AGUDA. QUADRO CLÍNICO A apresentação clínica da pericardite vai depender da gravidade e da evolução da inflamação pericárdica, que é a base no entendimento da fisiopatologia do quadro. Na maioria dos pacientes, o quadro clínico é antecedido por sinais e SINTOMAS DE INFECÇÃO VIRAL, com febre e mialgia, e do trato gastrintestinal. Obs. As manifestações da pericardite ocorrem 1 a 3 semanas após um quadro de infecção viral. Surge em seguida DOR TORÁCICA, com característica de dor pleurítica, contínua ou em pontada, de início súbito, localizada na face anterior do tórax, de forte intensidade que piora com a inspiração profunda com irradiação para o pescoço e membros superiores. A dor pode piorar em decúbito dorsal e melhorar ao sentar. DOR TORÁCICA é o SINTOMA MAIS FREQUENTE nas pericardites agudas (> 95% dos casos); Geralmente é de início súbito, retroesternal, piora à inspiração profunda e tosse (dor do tipo pleurítica). A dor normalmente é precedida de pródromos infecciosos, como febre e mal-estar. A dor é VENTILATÓRIO-DEPENDENTE podendo ser retroesternal, precordial ou epigástrica; piora em decúbito dorsal, e melhora quando está em pé ou em posição reclinada para a frente. Outros locais de irradiação são ombros, braços e mandíbula, particularmente para a região do músculo trapézio. Isso se deve à irritação do nervo frênico (que atravessa o pericárdio) e é altamente específico para pericardite. Exame físico ATRITO PERICÁRDICO Sinal PATOGNOMÔNICO Altamente específico para pericardite aguda; Mais audível na borda esternal esquerda; OBS. varia com o paciente inclinado para a frente e repousando sobre os cotovelos e joelhos. É o achado clássico da pericardite aguda, no entanto está presente somente em cerca de um terço dos casos. Isabela G. Campos É decorrente da fricção dos pericárdios visceral e parietal. Trata-se de umrangido de alta frequência, mais audível ao final da expiração. Som parecido com o arranhar de um couro na ausculta cardíaca. Diagnóstico O diagnóstico de pericardite aguda é realizado na presença de pelo menos dois dos seguintes critérios diagnósticos: Diagnóstico complementar A. EXAMES LABORATORIAIS O hemograma pode revelar leucocitose com predomínio de linfócitos. Pacientes com pericardite aguda geralmente apresentam evidências de inflamação sistêmica, incluindo LEUCOCITOSE, ELEVADA VELOCIDADE DE HEMOSSEDIMENTAÇÃO (VHS) E NÍVEL ELEVADO DE PROTEÍNA C REATIVA (PCR). Obs. A elevação da velocidade de hemossedimentação e da proteína C-reativa é achado comum na pericardite, embora não seja sensível ou específico. B. ELETROCARDIOGRAMA Os pacientes com pericardite aguda frequentemente exibem alterações eletrocardiográficas compatíveis com inflamação do tecido epicárdico. No início do curso da pericardite aguda, o ECG exibe tipicamente supradesnivelamento do segmento ST difuso associado à infradesnivelamento do segmento PR. > O supradesnivelamento do segmento ST geralmente ocorre em todas as derivações, exceto aVR. As alterações eletrocardiográficas (difusas) podem ser caracterizadas em estágios de evolução de acordo com o tempo de apresentação: Estágio I (primeiras horas a dias): caracteriza-se por supradesnivelamento côncavo difuso do segmento ST e por infradesnivelamento do segmento PR (Figura 1). Estágio II (primeira semana): retorno dos segmentos ST e PR aos padrões normais. Estágio III (após normalização do segmento ST): ocorre inversão difusa da onda T (Figura 2). Isabela G. Campos Estágio IV: retorno da onda T ao padrão normal. C. ECOCARDIOGRAMA A ecocardiografia pode demonstrar pequeno derrame pericárdico na pericardite aguda, mas um ECOCARDIOGRAMA NORMAL NÃO DESCARTA O DIAGNÓSTICO DE PERICARDITE AGUDA. Um ecocardiograma é fundamental, entretanto, excluindo o diagnóstico de tamponamento cardíaco. Trata-se de um exame indicado como parte da avaliação diagnóstica de rotina. Quando ocorre acometimento concomitante do miocárdio, pode revelar alterações de função e contratilidade cardíacas. Possibilita a avaliação de comorbidades, como doença isquêmica cardíaca, derrame pleural, dissecção de aorta e pericardite constritiva. Permite avaliar características do pericárdio como a presença de espessamento (maior que 3 mm) ou aumento de ecogenicidade, que pode ser relacionada a fibrose ou depósito de cálcio. O derrame pode ser classificado como leve (espaço livre de eco na diástole menor que 10 mm), moderado (10 a 20 mm) e grande (maior que 20 mm). D. RADIOGRAFIA DE TÓRAX O aumento da silhueta cardíaca na radiografia de tórax pode indicar a presença de DP e colaborar com a suspeita de pericardite. Entretanto, apenas derrames com volume acima de 200 mL são geralmente identificados pela radiografia. Obs. Para pericardite aguda não tem tanta evidencia. E. PERICARDIOCENTESE A pericardiocentese é um procedimento invasivo que NÃO ESTÁ INDICADO EM CASOS DE PERICARDITE AGUDA NÃO COMPLICADA OU EM PEQUENOS DERRAMES. Na presença de derrames pericárdicos grandes ela está indicada com propósito diagnóstico e também para alívio, impedindo a evolução súbita para tamponamento cardíaco, situação em que é medida salvadora. A avaliação do líquido pericárdico, alicerçada na suspeita etiológica, deve incluir análise citológica, cultura, pesquisa de células neoplásicas, pesquisa viral por PCR e dosagem de adenosina deaminase. É indicada na presença de: Tamponamento cardíaco. Suspeita de pericardite purulenta. Tuberculosa ou neoplásica. Derrame pericárdico grande ou sintomático refratário ao tratamento clínico. F. BIÓPSIA Isabela G. Campos A biópsia pericárdica está indicada em quadros persistentes sem diagnóstico definido ou em grandes derrames recidivantes Biópsia pericárdica pode ser considerada nas seguintes situações: Piora clínica persistente sem um diagnóstico etiológico definido apesar do tratamento instituído. Pacientes com derrame pericárdico recorrente Diagnóstico diferencial •Doença arterial coronariana (DAC) •Dissecção aórtica aguda •Tromboembolismo pulmonar •Costocondrite •Pneumotórax •Herpes-zóster (antes das lesões cutâneas) •Infecções pulmonares •Afecções abdominais (refluxo gastresofágico, pancreatite, colecistite aguda). Tratamento A pericardite aguda IDIOPÁTICA OU VIRAL tem curso autolimitado na maioria dos casos e responde ao tratamento com AINH que atua reduzindo inflamação e promovendo analgesia. → A droga de escolha é o IBUPROFENO por causa de efeitos colaterais raros e impacto favorável no fluxo sanguíneo coronariano. A dose recomendada é de 400 a 800 mg a cada 6 ou 8 horas por 14 dias, seguido de esquema regressivo de 600 mg/semana por 3 semanas. → O AAS pode ser utilizado na dose de 500 a 750 mg a cada 6 ou 8 horas por 7 a 10 dias e então regredido 500 mg/semana por 3 semanas. No caso de infarto do miocárdio, a administração de AAS é a escolha por não interferir no processo de cicatrização do miocárdio. Também é preferida caso exista indicação de antiagregação plaquetária concomitante por qualquer causa. Em geral o esquema inicial de tratamento com AINH deve ser mantido em dose plena por cerca de 1 a 2 semanas ou até a remissão completa dos sintomas. A retirada gradual dos medicamentos após este período tenta evitar o subsequente risco de recorrência. A utilização da proteína C- reativa sérica é útil para guiar essa redução e posterior interrupção do tratamento. Os AINH podem acarretar no risco de toxicidade gastrointestinal, especialmente em indivíduos com úlcera péptica prévia, idosos e uso concomitante de AAS, corticosteroide ou anticoagulante. A profilaxia inclui o uso de protetor gástrico do tipo inibidor de bomba de prótons tais como omeprazol ou pantoprazol. A COLCHICINA atua na redução da dor e na prevenção de recorrência → Deve ser associada ao AINH na dose de 0,5 mg 2 vezes ao dia em pacientes com 70 kg ou mais, e 1 vez ao dia para aqueles com até 70 kg. A duração do tratamento é de 3 meses na pericardite aguda e de 6 meses na recorrente. O esquema regressivo não é obrigatório, no entanto, pode ser considerada a redução para 0,5 mg/dia (70 kg ou mais) ou 0,5 mg em dias alternados (até 70 kg) nas últimas semanas de tratamento. → A dose de colchicina deve ser reduzida pela metade em idosos com mais de 70 anos. Em pacientes com insuficiência renal, a dose de colchicina deve ser ajustada pelo clearance de creatinina: 30 a 60 mL/min – 0,5 mg/dia; 10 a 30 mL/min – 0,5 mg a cada 2 ou 3 dias; menos Isabela G. Campos de 10 mL/min – evitar uso crônico. A colchicina deve ser evitada na disfunção hepatobiliar grave e em pacientes com doença hepática. Os corticosteroides devem, portanto, ser considerados apenas naqueles pacientes com pericardites recorrentes não respondedores aos AINH e colchicina, ou como tratamento de uma doença inflamatória sistêmica específica, ou ainda em pacientes anticoagulados com dificuldade em utilizar AINH. A dose usual da prednisona é de 0,25 a 0,50 mg/kg/dia; após resolução da dor e normalização da PCR, inicia-se redução lenta e gradual (2,5 mg a cada 2 semanas). Recomenda-se a associação com colchicina na dose já mencionada. Em casos recorrentes, o controle pode ser atingido associando-se AINH, colchicina e corticosteroide em baixa dose (0,25 mg/kg/dia seguido de esquema regressivo). Complicações Derrame pericárdico, tamponamento cardíaco e pericardite constritiva. AVALIAÇÃO CLÍNICA DAS COMPLICAÇÕES DERRAME PERICÁRDICO → TAMPONAMENTO CARDÍACO PERICARDITE CONSTRITIVA O SINAL MAIS CLÁSSICO da presença desse consiste no ABAFAMENTO DAS BULHAS CARDÍACAS, dada a presença profusa de líquido na cavidade intrapericárdica, o qual se torna um obstáculo para a propagaçãodas ondas sonoras das bulhas. Pode-se identificar o chamado SINAL DE EWART, que consiste na macicez à percussão, sons de respiração brônquica e aumento da ressonância do som quando auscultado abaixo do ângulo da escápula esquerda. Pacientes com esse quadro podem apresentar dor incaracterística e até mesmo ausente, bem como fraqueza muscular e oligúria. Nesse caso, não se observa atrito pericárdico, mas em vez disso, dada a dificuldade de enchimento ventricular, o acometimento do volume de ejeção do ventrículo direito pode levar à hepatomegalia dolorosa, estase jugular que se acentua quando de uma inspiração profunda, ascite e, como consequência da diminuição do volume de ejeção do ventrículo esquerdo, baixo débito cardíaco que cursa com hipotensão. A evolução de um quadro de derrame pericárdico para um de TAMPONAMENTO traz consigo a chamada: TRÍADE DE BECK, caracterizada pela presença de: BULHAS ABAFADAS = decorrentes do próprio derrame; ESTASE JUGULAR = oriunda do aumento pressórico no interior das câmaras cardíacas pela compressão do líquido intrapericárdico) e; HIPOTENSÃO ARTERIAL = resultando em choque cardiogênico, na qual se observa a chamada pressão arterial pinçada, que consiste na aproximação das pressões arteriais sistólica e diastólica. Pacientes nesse estado apresentarão sintomas decorrentes da queda do débito cardíaco, como fadiga, sudorese, dispneia, taquipneia e taquicardia, podendo rapidamente evoluir para choque cardiogênico. A pericardite constritiva, consiste em uma GRAVE EVOLUÇÃO DE PERICARDITES DE REPETIÇÃO, conduzindo a um estado de calcificação pericárdica. Indivíduos com tal patologia podem apresentar sinais de congestão direita, como estase jugular, hepatoesplenomegalia, ascite, edema de membros inferiores, além de mal-estar, fadiga e tolerância diminuída a esforços maiores. Quando auscultamos esses pacientes, é possível ouvir o knock pericárdico, som esse que tem o seu início na diástole (cerca de 60 a 200 mseg após a segunda bulha), dada a perda de complacência ventricular, a qual ocorre por essa estar sendo limitado por uma membrana calcificada. Assim, ocorre turbilhonamento do fluxo sanguíneo quando do enchimento do ventrículo, gerando um som semelhante a B3. Outro sinal que pode estar presente é o Sinal de Kussmaul, que ocorre mediante à inspiração profunda, o que promove aumento da estase jugular pelo aumento do retorno venoso para um coração cujo volume das câmaras já está restrito pela baixa complacência do pericárdio. Logo, aumenta-se o retorno venoso para uma câmara já cheia, de modo a evidenciar de forma mais contundente a estase jugular. Pulso paradoxal é a queda da pressão arterial sistólica maior que 10mmHg durante a inspiração, que decorre de uma redução da complacência ventricular esquerda. Isabela G. Campos