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ISSN 1983-053X
e-ISSN 2178-6224 
Filosofia e História da Biologia 
vol. 17, n° 1, 2022
Associação Brasileira de Filosofia e 
História da Biologia – ABFHiB 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Filosofia e História 
da Biologia 
 
Volume 17, número 1 
 
Jan.-Jun. 2022 
 
 
 
 
 
 
 
Associação Brasileira de Filosofia e 
História da Biologia – ABFHiB 
http://www.abfhib.org 
 
DIRETORIA DA ABFHiB (GESTÃO 2019-2021) 
Presidente: Ana Maria de Andrade Caldeira (UNESP-Bauru) 
Vice-Presidente: Maurício de Carvalho Ramos (USP) 
Secretaria: Frederico Felipe de Almeida Faria (UFSC) 
Tesoureira: Viviane Arruda do Carmo (GHTB/USP) 
Conselheiros: Aldo Mellender de Araújo (UFRGS) 
Lilian Al-Chueyr Pereira Martins (FFCLRP-USP) 
Maria Elice Brzezinski Prestes (USP) 
Nelio Marco Vincenzo Bizzo (USP e UNIFESP) 
 
A Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia 
(ABFHiB) foi fundada no dia 17 de agosto de 2006, durante o 
IV Encontro de Filosofia e História da Biologia, realizado na 
Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, SP. O 
objetivo da ABFHiB é promover e divulgar estudos sobre a 
filosofia e a história da biologia, bem como de suas interfaces 
epistêmicas, estabelecendo cooperação e comunicação entre 
todos os pesquisadores que a integram. 
 
 
 
 
 
 
 
 
Filosofia e História da Biologia
Editoras: Lilian Al-Chueyr Pereira Martins (FFCLRP-USP)
 Maria Elice Brzezinski Prestes (USP)
Conselho editorial: Aldo Mellender de Araújo (UFRGS), Ana Maria de 
Andrade Caldeira (UNESP), Charbel Niño El-Hani (UFBA), Douglas 
Allchin (UM-EUA), Garland E. Allen (Washington University in St. Louis,
USA), Gustavo Caponi (UFSC), Marisa Russo (UNIFESP), Marsha L.
Richmond (WSU-EUA), Maurício de Carvalho Ramos (USP), Nadir 
Ferrari (UFSC), Nelio Bizzo (USP), Pablo Lorenzano (UBA, Argentina),
Palmira Fontes da Costa (UNL, Portugal), Ricardo Waizbort (Instituto 
Oswaldo Cruz), Sander Gliboff (IU-EUA), Susana Gisela Lamas (UNLP,
Argentina).
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Filosofia e História 
da Biologia 
 
Volume 17, número 1 
 
Jan.-Jun. 2022 
 
 
 
 
 
 
 
 
ISSN 1983-053X 
e-ISSN 2178-6224 
 
 
Filosofia e História 
da Biologia 
 
V. 17, n. 1, jan.-jun. 2022 
 
Homepage: 
https://www.revistas.usp.br/fhb 
hhttps://www.abfhib.org/revista/ 
 
e-mail da revista: 
fil-hist-biol@usp.br 
fil-hist-biol@abfhib.org 
 
Filosofia e História da Biologia é uma 
Revista USP com a parceria da 
Associação Brasileira de Filosofia e 
História da Biologia (ABFHiB). 
Integra também as publicações do 
Centro Interunidades de História da 
Ciência (CHC) da Universidade de 
São Paulo. 
 
 
Copyright © 2022 Filosofia e 
História da Biologia 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Filosofia e História da Biologia é indexada por: 
Historical Abstracts - http://www.ebscohost.com/academic/historical-abstracts 
Isis Current Bibliography - https://isiscb.org/ 
Philosopher’s Index - http://philindex.org/ 
Latindex - https://www.latindex.org/latindex/ficha?folio=20081 
Redib - https://redib.org/Record/oai_revista6142-filosofia-e-hist%C3%B3ria-da-biologia 
LatinnRev - https://latinrev.flacso.org.ar/revistas/filosofia-e-historia-da-biologia 
Doaj - https://doaj.org/toc/2178-6224 
Diadorim - http://diadorim.ibict.br/handle/1/3011
 
 
 
 
 
 
 
Filosofia e História da Biologia. Vol. 17, número 1 (jan.-jun. 2022). São Paulo,
SP: Universidade de São Paulo/ABFHiB, 2022.
Semestral
x, 92 p.; 21 cm.
ISSN 1983-053X
1. Biologia – história. 2. História da biologia. 3. Biologia – filosofia. 4. Filosofia 
da biologia. I. Martins, Lilian Al-Chueyr Pereira. II. Prestes, Maria Elice 
Brzezinski. III. Filosofia e História da Biologia. IV. Associação Brasileira de 
Filosofia e História da Biologia, ABFHiB.
CDD 574.1 / 574.9
A publicação adota a licença Creative 
Commons Non Commercial - Share Alike 4.0 
International. Os manuscritos são de 
propriedade da revista Filosofia e História 
da Biologia. As informações e conceitos 
emitidos em artigos assinados são de 
absoluta responsabilidade de seus 
autores.
Editoras executivas:
Lilian Al-Chueyr Pereira Martins
Maria Elice Brzezinski Prestes
https://www.revistas.usp.br/fhb
http://www.abfhib.org/FHB/index.html
mailto:fil-hist-biol@usp.br
mailto:fil-hist-biol@abfhib.org
 
v 
 
Sumário 
 
Lilian Al-Chueyr Pereira Martins e 
Maria Elice Brzezinski Prestes 
“Editorial” 
 
vi 
Ísis Francisco Rolim Costa e Gildo Magalhães 
“Uma introdução à história da embriologia” 
“An introduction to the history of embryology” 
 
1 
Julian Cristian Gonçalves da Silva Junior 
“A ascensão da paleontologia no final do século XIX: 
algumas considerações por Thomas Henry Huxley” 
“The rise of paleontology in the late XIX century: some 
considerations by Thomas Henry Huxley” 
 
47 
Pedrita Fernanda Donda 
“As espécies sob a perspectiva de Louis Agassiz: 1857-
1874” 
“Species from Louis Agassiz’s perspective: 1857-1874 
 
 Pedro Leal de Souza e Lavínia Schwantes 
“Discussões em torno da história e filosofia da biologia 
aplicadas ao ensino de biologia” 
“Discussions around the History and Philosophy of 
Biology applied to Biology teaching” 
 
73 
 
 
 
 
 
93 
 
 
 
 
 Pietra Stefania Diwan 
“Cold Spring Harbor Laboratory e o Eugenics Record Office 
(1890-1939): genética e eugenia” 
“Cold Spring Harbor Laboratory and Eugenics Record Office 
(1890-1939): genetics and eugenics” 
 
115 
 
vi 
 
 
EDITORIAL 
 Lilian Al-Chueyr Pereira Martins 
Maria Elice de Brzezinski Prestes 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 O volume 17, número 1, de Filosofia e História da Biologia, um 
periódico do Centro Interunidade de História da Ciência e 
Tecnologia (CHC) e do Portal de Revistas USP, contém cinco 
artigos.
 Filosofia e História da Biologia, revista de acesso livre, com o apoio 
da Universidade de São Paulo, assume todos os custos pelo 
processamento e publicação dos artigos, sem qualquer custo para 
autores e leitores.
 Os temas presentes nos artigos que integram este fascículo 
dizem respeito à história da biologia, especificamente à história da 
embriologia numa abordagem long-durée; à história da paleontologia 
no século XIX; à história da evolução no século XIX e história da 
eugenia no século XX, além de um estudo bibliométrico.
 Isis Francisco Rolim Costa e Gildo Magalhães revisitam a 
história da embriologia e geração, desde a Antiguidade até o século 
XXI.
 Julian Cristian Gonçalves da Silva Junior apresenta uma 
tradução comentada de um dos ensaios de Thomas H. Huxley em 
que ele trata do desenvolvimento da paleontologia e o estado em 
que ela se encontrava no século XIX.
 Pedrita Fernanda Donda discute sobre a concepção de espécie 
do zoólogo suíço Louis R. Agassiz no período compreendido entre 
1857 e 1874, procurando detectar se houve alguma mudança em 
seu pensamento.
 Pedro Leal de Souza e Lavínia Schwantes fazem um 
mapeamento dos artigos publicados em História e Filosofia da Biologia 
no período compreendido entre 2006 e 2020, focando a atenção
 
vii 
 
nos artigos que tratam da interface história e filosofia da biologia e 
ensino de ciências. 
Pietra Stefania Diwan conta a história do Cold Spring Harbor 
Laboratory, no período compreendido entre 1910 a 1930, 
concentrando nas pesquisas eugênicas e seus desdobramentos. Os 
personagens centrais são Charles Benedict Davenport e Harry H. 
Laughlin. 
Agradecemos a todos aqueles que contribuíram direta ou 
indiretamente para a elaboração deste volume em todas as etapas 
de sua organização, incluindo autores de artigos e particularmente, 
àqueles que atuaram como árbitros pelos cuidadosos pareceres, 
contribuindo assim para a concretização dos objetivos da 
Associação Brasileira de Filosofiae História da Biologia (ABFHiB). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
viii 
 
 
 
 
 
 
Ilustração de Leonardo da Vinci (1452-1519) em estudos sobre o feto 
no útero. Disponível em: 
<https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/63/Leonardo
_da_Vinci_-_Studies_of_the_foetus_in_the_womb.jpg> 
 
 
 
 
 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 1 
Uma introdução à história da embriologia 
Ísis Francisco Rolim Costa * 
Gildo Magalhães # 
 
Resumo: Este trabalho apresenta um panorama do desenvolvimento do 
conceito de embrião desde a Antiguidade até o século XXI. A relevância em 
se discutir o que seria um embrião se acentua devido às preocupações e im-
plicações éticas, religiosas, culturais e sociais que permeiam os debates a isto 
relacionados, tais como aborto, fertilização in vitro, uso de células tronco e 
clonagem. Diante desse cenário, procurou-se discutir sobre como alguns filó-
sofos e pesquisadores consideraram as mudanças relacionadas ao entendi-
mento de embrião ao longo do tempo, um dos temas mais controversos den-
tro das ciências biológicas. 
Palavras-chave: História da embriologia. Embrião. Diferenciação. Mor-
fogênese. 
 
An introduction to the history of embryology 
 
Abstract: This work presents an overview of the concept of embryo devel-
opment from Antiquity to the 21st century. Such discussion's relevance con-
cerns the ethical, religious, cultural and social relations and implications that 
permeate the debates related to this, such as abortion, in vitro fertilization, use 
of stem cells, and cloning. Given this scenario, we sought to discuss how some 
philosophers and researchers considered the changes related to the under-
standing of the embryo over time, one of the most controversial topics within 
the biological sciences. 
Keywords: History of embryology. Embryo. Differentiation. Morphogenesis 
 
 
* Instituto de Biociências, Universidade de São Paulo. E-mail: isis.francisco.ro-
lim@gmail.com 
# Universidade de São Paulo. Departamento de História. E-mail: gildomsantos@usp.br 
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 2 
1 INTRODUCÃO 
 Os desenhos de um feto no interior do útero materno feitos por 
Leonardo da Vinci (1452-1519) são famosos e testemunham a curiosi-
dade humana por entender como se processa o desenvolvimento da 
vida. O que é um embrião? O que nós sabemos sobre ele? Perguntas 
como essas têm sido feitas e inquietado muitas pessoas, devido às pre-
ocupações e implicações – éticas, religiosas, culturais e sociais –, não 
apenas os biólogos do desenvolvimento, mas políticos, juristas e a po-
pulação como um todo, nas últimas décadas. São assuntos que propor-
cionam muita discussão sobre temas como aborto, fertilização in vitro, 
uso de células-tronco e clonagem. No entanto, o termo é raramente ou 
pouco claramente definido e sua terminologia tem apresentado dife-
renças ao longo do tempo, em diferentes contextos. 
Esta pesquisa1 tem por objetivo discutir o desenvolvimento histó-
rico do conceito de embrião. Tomamos como ponto de partida o artigo 
da bióloga Jane Maienschein (2007). 
No século XVIII, desde 1771 quando ocorreu o surgimento da pri-
meira edição da Enciclopédia Britânica, o termo “embrião” era visto como 
o estágio mais antigo e indiferenciado do desenvolvimento de um or-
ganismo individual. Com essa definição o estágio embrionário se dife-
renciava do estágio fetal, com o primeiro dando lugar ao segundo, à 
medida que a forma emergia gradualmente da matéria não-formada 
(Maienschein, 2007, p. 324). 
O Dicionário de Oxford apresenta uma descrição semelhante. No 
século XVII, “embrião” era considerado como "uma coisa em seu es-
tágio rudimentar ou um primeiro começo; um germe; algo que ainda 
está em ideia, em oposição ao que se tornou real de fato”. Definição 
que nos faz lembrar de um estágio não desenvolvido, de algo que está 
para ser, e que possivelmente veio do latim Embryon com uma sugestão 
de significar ‘‘inchaço para dentro’’ (Maienschein, 2007, p. 325). 
Mais recentemente, já no século XX, a embriologia passou a ser 
chamada “biologia do desenvolvimento” e a herança genética começou 
a aparecer para justificar algumas lacunas. Nesse cenário, na edição da 
 
1 Este artigo se baseia principalmente na pesquisa desenvolvida na Iniciação Científica 
da primeira autora. 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 3 
Britannica em 1961 Aute Richards2 (1885-1974), descreveu o “embrião” 
como o começo da ação biológica de fertilização, existente por meio 
do processo de divisão celular. O início desse processo de desenvolvi-
mento se daria a partir de células indiferenciadas e sem forma, que gra-
dualmente se tornariam tipos histológicos diferenciados (Maienschein, 
2007, p. 325). 
Segundo Richards, só após o término desse processo de mudança 
histológica é que o embrião estaria pronto para funcionar plenamente 
e tomar um lugar independente no mundo (Richards, 1931, apud 
Maienschein, 2007, p. 325). Contundo, nos perguntamos se, quando 
ele estivesse pronto, ele deixaria imediatamente de ser um embrião? 
Houve ao longo de séculos duas vertentes antagônicas que tentaram 
explicar o desenvolvimento embrionário. A epigênese, que defendia o 
surgimento gradual da forma, contra outra alternativa que era a pré-
formação, a qual dizia que a forma era presumida e já estava presente 
desde o início. Foram debates importantíssimos e sem dúvida sua lei-
tura continua despertando indagações pertinentes. (Maienschein, 2007, 
pp. 325-326). 
2 DA GERAÇÃO E CORRUPÇÃO 
A geração, como fenômeno biológico, foi alvo de discussões por 
longos períodos no tempo, estando presente até a atualidade. 
Aristóteles (384-322 a.C.) apresentou nas obras, Historia Animalium 
[“História dos Animais”], De Partibus Animalium [“Partes de Animais”] 
e De Generatione et Corruptione [“Da Geração e Corrupção”], suas hipó-
teses sobre a geração e hereditariedade (Singer, 1996, p.35). 
Aristóteles se interessava pela reprodução e fez uma cuidadosa in-
vestigação embriológica. A forma de reprodução foi um dos princi-
pais critérios adotados em sua classificação dos animais (Grant, 2009, 
p. 60). Uma das pesquisas embriológicas mais significativas de Aristó-
teles sobre a reprodução foi realizada com ovos de galinha fecundados, 
examinando-os dia após dia e observando o progresso dos embriões 
(Ibid., p. 53). 
Para Aristóteles, os primeiros sinais de desenvolvimento seriam 
perceptíveis ao terceiro dia, após a postura do ovo pela galinha, quando 
 
2 Biólogo norte-americano e editor da publicação Bios. 
 
 4 
o coração se tornava visível “como um ponto palpitante de sangue”. O 
coração seria a sede da inteligência para Aristóteles, o primeiro órgão 
a aparecer e o último a morrer. (Singer, 1996, p. 42). Ou seja, ele con-
siderava que os órgãos mais importantes apareceriam antes de outros. 
Aristóteles acreditava também que todos os corpos eram compos-
tos de matéria e forma, a primeira funcionando como princípio pas-
sivo, e que seria a substância de que alguma coisa é feita, e a segunda, 
como princípio ativo, ou seja, a essência. Tais considerações esten-
diam-se no que diz respeito à natureza da procriação (Aristóteles, [sec. 
IV. a. C], 2001). 
Neste caso, Aristóteles concluiu que a substância material do em-
brião era contribuição da fêmea, mas esta seria apenas um material pas-
sivo no qual cresce o embrião, moldável como um solo. O macho con-
tribuiria de forma essencial com o princípio da vida, dando a alma 
(psyché), sendo esta algo imaterial. A contribuição do macho seria a 
forma e o princípio vital, ou causa primeira, portanto, teoricamente não 
seria necessário passar algum material de geração para a fêmea. Mesmo 
que algo material acabasse passando, isto era apenas o que ele chamava 
de material acidental3 e não essencial (Aristóteles, [sec. IV. a. C], 2001). 
A respeito da natureza da vida, Aristóteles acreditava que a dife-
rença entre matéria vivae não viva não dependeria da constituição ma-
terial, e sim da presença ou ausência da alma, psyché, como já citado 
acima, que daria a forma ou existência real a todos os seres vivos4. 
Quanto ao princípio de organização da vida, ele distinguia três or-
dens ou tipos: a “vegetativa” ou “nutritiva”, pertencente a plantas, ani-
mais e aos humanos; a “reprodutiva” (animal ou sensitiva), associada 
aos animais, incluindo o ser humano; e a “alma racional ou intelectual”, 
exclusiva do homem. 
 
3 A crença no caráter acidental da contribuição material do macho foi comum entre 
muitos estudiosos até o século XIX, no entanto havia controvérsias. No livro Exerci-
tationes de generatione animalium [“Dissertações acerca da Geração dos Animais”] (1651) 
de William Harvey (1578-1657), as ideias com relação à natureza da fertilização são 
praticamente as mesmas de Aristóteles há dois mil anos antes (Singer, 1996, p. 43). 
4 Vale ressaltar que Aristóteles era um vitalista, isto é, acreditava que os organismos 
vivos eram fundamentalmente diferentes dos objetos inanimados por conterem algum 
elemento metafísico ou por serem governados por diferentes princípios, ou seja, como 
a “força vital”, que possuiria natureza não material ou energética. 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 5 
Já no que diz respeito à constituição da matéria, Aristóteles acredi-
tava que havia quatro qualidades primárias e fundamentalmente opos-
tas: quente e frio, úmido e seco, que se combinariam com os famosos 
quatro elementos (Figura1). 
Aristóteles diferia a geração e corrupção daquelas outras formas de 
mudança (ou de “geração não absoluta”), como o aumento e a dimi-
nuição, a alteração e a translação dos seres - como, por exemplo, o 
aumento de tamanho ou o simples crescimento de um animal ou 
planta. Diferentemente desses últimos processos, a geração absoluta só 
pode ser explicada se se supõe a existência de um substrato impercep-
tível e inseparável, como por exemplo, na geração de algo novo, que 
não existia antes. 
 
 
 
 
Fig. 1. Esquema das quatro qualidades e dos quatro elementos, com os qua-
tro humores. 
Fonte: SINGER, Charles. Uma breve história da anatomia e fisiologia desde os gre-
gos até Harvey. Campinas: Unicamp, 1996. p. 46. 
 
 
 6 
Aristóteles começou a refletir sobre a geração e corrupção (ou mo-
dificação) serem absolutas, ou não, e como esse processo aconteceria. 
Muitos acreditavam que as coisas se geravam e se corrompiam por as-
sociação e dissociação, e se alteravam quando modificavam suas pro-
priedades, ou a ordem e posição que assumissem. Alegavam que a ver-
dade se encontrava nos fenômenos observáveis e que estes eram con-
trários entre si, como um dia ensolarado e um de tempestade, além de 
poderem ser em número infinito, ou seja, indeterminado, como por 
exemplo, os grãos de areia. Então a geração e a corrupção não para-
riam? Já a geração absoluta seria o surgimento de algo novo, a geração 
e corrupção absolutas não se definiam por associação e dissociação, 
mas sim quando uma coisa se transformava em outra, em seu conjunto. 
No entanto, ambas, geração e corrupção, são as formas mais profundas 
de transformação que poderiam afetar os entes, ou seja, os seres. 
Aristóteles parecia não concordar com o fato de existir uma geração 
a partir do nada (uma geração absoluta), procurando, portanto, as suas 
causas. Será que há algo que se gere e se destrua no sentido absoluto? 
Nada se gera estritamente, a partir de si mesmo? Ou sempre se gera 
algo a partir de algo? – era o que se indagava Aristóteles. 
Aristóteles refletiu se as transformações são feitas por efeitos, ou 
não, e sobre como se formam os corpos vivos. Seria pela composição 
dos elementos contrários, por exemplo, uma média de quente e frio? 
Seriam os corpos compostos feitos dos corpos simples? Há reflexões 
sobre o princípio de criação da geração, o qual seria equivalente à com-
binação da matéria, como substância da geração. O princípio que daria 
a forma seria a combinação de alguns elementos, como o ar e terra, 
com suas qualidades, seco, frio, etc. 
Aristóteles apresentou em seguida uma outra visão, o princípio de 
ser (o ente, aquilo que existe) ou não ser, que é o princípio da geração 
segundo Platão5 (428-7 a.C.-348-7 a.C.). Este defendia que as ideias 
eram causas que geravam as coisas, por exemplo, existiria uma ideia de 
árvore, contida no mundo das ideias, a partir da qual a matéria no 
mundo sensível, do qual fazemos parte e ao qual temos total acesso, 
produziria sua própria geração, por meio do movimento dela própria a 
partir do mundo das ideias, onde há as árvores ideais. 
 
5 Filósofo e matemático, nascido e falecido na cidade de Atenas. 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 7 
Aristóteles não concordava com as ideias de Platão, para quem 
Deus criou o universo (uma única vez), a partir do que este chamava 
de “mundo das ideias”, fixo e imutável. Aristóteles acreditava que a 
geração é contínua, formando sua “escala da natureza”, existindo sem-
pre, mas não poderia permanecer da mesma forma (“evoluindo”, de 
certa forma). O movimento decorrente requereria um “motor”, talvez 
único e inalterado, mas deveria ser contínuo e causado por aquilo que 
se move ou pelo meio que se movimentaria. Por exemplo, uma flecha 
disparada se moveria a partir de si mesma ou porque estaria sendo im-
pulsionada pelo ar? 
Por fim, somos levados, por Aristóteles, a refletir a respeito de a 
geração ser antecedente ou consequente e sobre as suas causas, a pos-
sibilidade de ser cíclica, ou seja, as coisas seriam destruídas (corrompi-
das) para serem novamente geradas, ou não-cíclica. O mundo teria sido 
construído de tal modo que a geração existiria sempre, embora pudesse 
ser interrompida. Ele concluiu que a geração existe e ela seria explicada 
pela combinação dos elementos, juntamente, com a corrupção, que 
também existiria, sendo ambas complementares.6 
3 GERAÇÃO: ORGANISMOS, EMBRIÕES E CÉLULAS 
Na “teoria da epigênese”, cada embrião ou organismo seria gradu-
almente produzido a partir de uma “massa” indiferenciada inicial, 
como acreditava Aristóteles. No século XVII, uma visão mecanicista 
do mundo vivo ajudaria a apoiar os modelos pré-formacionistas, que 
pareciam mais adequados, pois estes dispensavam a “força vital” de-
fendida pela “teoria da epigênese” (Magner, 1994, p. 172). 
Na “teoria do preformismo” argumentava-se que um embrião ou 
uma miniatura individual pré-existente, e que estaria de alguma forma 
encapsulado, todo pronto, seja no “sêmen” da fêmea (como se deno-
minava a semente feminina) ou no sêmen do macho, começaria a se 
desenvolver a partir de estímulos apropriados, como por exemplo, o 
calor. 
 
6 A diferenciação a partir de algo ainda sem forma viria a ser considerada, posterior-
mente, a visão de “epigênese” de Aristóteles. 
 
 8 
A “filosofia mecanicista” era baseada, entre outros, nos trabalhos 
de Cláudio Galeno7 (129-216 d.C.) e de Isaac Newton8 (1643-1727), 
influenciando até o pensamento Iluminista, o qual enfatizava a mente 
racional e objetiva. 
Galeno realizou extensos estudos de anatomia e fisiologia através 
da dissecação de macacos e outros pequenos animais e, por analogia, 
aplicava ao ser humano todas as observações que fazia. Achava de fun-
damental importância o uso da observação direta, assim como Aristó-
teles (Stülp & Mansur, 2019, p. 166). 
Galeno conseguiu descrever a membrana fetal, os vasos sanguíneos 
do útero, os órgãos do feto, o forâmen oval, incluindo o modo como 
ele se fecha após o nascimento, tudo por meio da observação. Em seus 
escritos sobre o sêmen, ele se posicionou sobre a contribuição femi-
nina, que complementaria de alguma forma o surgimento do feto. 
Mesmo assim, o sexo masculino era considerado o possuidor de mais 
calor interno e com isso mantinha maior relevância na geração. À me-
dida que o feto se desenvolvia, o fígado, o cérebro e o coração apare-
ciam (Singer, 1996, pp.79-81).De Galeno até William Harvey9 (1578-1657) – ou seja, desde o sé-
culo II até o século XVII – essas ideias sobre geração sofreram poucas 
mudanças fundamentais. Harvey, como outros antes dele, fez experi-
mentos com ovos de galinha, mas também com óvulos de veado, ba-
seando seus estudos em Aristóteles e em Girolamo Fabrici10 (1533-
1619) (Magner, 1994, p. 174). 
Para Harvey, o embrião continuava sendo a combinação da matéria 
da fêmea com o princípio de formação de forma do macho. O embrião 
seria formado por um processo de precipitação no útero, imediata-
mente após a cópula. Com a gravidez, o sangue da mãe iria nutrir e 
proporcionar a matéria adicional para o crescimento do embrião (Sin-
ger, 1996). 
 
7 Nasceu em Pérgamo, na Ásia Menor (atualmente Bergama, na Turquia). 
8 Filósofo natural inglês, mais conhecido atualmente como físico e matemático. 
9 Médico e fisiólogo inglês, que descreveu os detalhes do sistema circulatório e a cir-
culação do sangue. 
10 Também conhecido como Hieronymus Fabricius, médico cirurgião, produziu dois 
tratados sobre embriologia: De formato foetu (1600) e De formatione ovi et pulli (1621), 
publicado postumamente. 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 9 
Pode-se também mencionar os estudos sobre a geração do médico 
italiano Francesco Redi11 (1626-1698), com seus experimentos sobre 
geração espontânea (na época, chamada geração “equívoca”). Redi tes-
tou vários tipos de substrato incluindo carne de animais e notou como 
diferentes tipos de mosca eram atraídos por essas substâncias, conclu-
indo que as larvas poderiam se desenvolver a partir de ovos deposita-
dos por moscas adultas e publicou os resultados em sua obra Esperienze 
intorno alla generazione degl’insetti [“Experimentos sobre a geração de in-
setos”] (1668)12 (Magner, 1994, p. 267). 
3.1 Alguns adeptos do preformismo 
 Marcello Malpighi13 (1628-1694) descreveu o desenvolvimento de 
embriões como um simples desdobramento de um organismo adulto 
já em miniatura. Fez observações do desenvolvimento do ovo de gali-
nha e considerava imprecisa a atividade de observação. O problema era 
quando o desenvolvimento parecia ser gradual, mas algumas partes po-
deriam estar presentes no ovo da galinha antes de começar o período 
de incubação (Wellner, 2010). 
Na mesma época, Jan Swammerdam14 (1637-1680), a partir de seus 
estudos apoiou a pré-formação, após ver borboletas dobradas em cri-
salides. Para Swammerdam, borboletas adultas estavam simplesmente 
mascaradas (pré-formadas) dentro das lagartas. (Wellner, 2010). 
Nicolas Malebranche15 (1638-1715) também considerava a ideia do 
emboîtement, caixas dentro de caixas, as quais seriam formadas por uma 
série infindável de embriões pré-existentes, um dentro do outro e ape-
nas um dos pais, macho ou fêmea, seria a fonte do indivíduo pré-for-
mado. O ovo seria o portador da geração para a formação dos novos 
organismos, sendo o papel do macho iniciar o desenvolvimento. 
 
11 Médico italiano. 
12 Para mais informações sobre as diferentes concepções de Francesco Redi ver, por 
exemplo, Prestes & Martins, 2018. 
13 Marcello Malpighi foi um médico anatomista italiano e realizou diversos 
experimentos com o apoio do microscópio. 
14 Jan Swammerdam foi um filósofo natural holandês e microscopista. 
15 Filósofo e padre francês. 
 
 10 
Mais tarde, as observações microscópicas16, trouxeram novas pers-
pectivas em relação aos estudos da reprodução. 
Anton van Leeuwenhoek17 (1632-1723), naturalista holandês, ob-
servou ao microscópio a substância espermática percebendo que ela 
continha corpos arredondados, com uma cauda alongada e também 
testou a mobilidade e a sobrevivência deles, que eram chamados na 
época de “animálculos” (Figura 2) (Magner, 1994, pp. 177-178). 
No entanto, Leeuwenhoek não acreditava que fosse possível ver 
um futuro ser adulto neles. Ele estudou o esperma de trinta animais 
diferentes e os ovários de vacas e carneiros para pesquisar o folículo de 
Graaf18 (Magner, 1994, p. 179). 
No final do século XVIII, Dalenpatius (pseudônimo de François 
de Plantade,1670-1741), astrônomo francês, cartógrafo e arqueólogo, 
fez desenhos do esperma como seres humanos minúsculos com braços 
e pernas, ao invés de “animálculos”. Em uma carta datada de 1699 para 
Nehemiah Grew (1641-1712), médico britânico, Leeuwenhoek comen-
tou sobre suas ideias sobre o esperma comparando-as às de Dalenpa-
tius, que criticou como absurdas (Figura 3). 
Leeuwenhoek também realizou pesquisas com ovos grandes, do ta-
manho de ervilhas, os quais teriam que passar pelos tubos de Falópio19. 
Estudou a reprodução em afídeos20, e percebeu que as fêmeas podiam 
se reproduzir sem copular. Esse fato ofereceu apoio para a teoria da 
pré-formação (ovista ou espermatista), ou seja, o indivíduo estaria pre-
formado dentro do óvulo da mãe ou dentro do espermatozoide do pai 
(Magner, 1994, p. 179). 
Pierre Louis Moreau de Maupertuis21 (1698-1759), em sua obra Vê-
nus Física (1745) considerou que partículas de ambos os progenitores 
 
16 Alguns defendem que o microscópio tenha sido concebido no final do século XVI 
por Hans Janssen e seu filho Zacharias, dois holandeses fabricantes de óculos. 
17 Ao final do século XVII, Anton van Leeuwenhoek identificou a levedura como um 
ser vivo. 
18 Reinier de Graaf (1641-1673), médico e fisiologista holandês, observou o 
desenvolvimento dos folículos em ovários de coelhas prenhas. 
19 Gabriele Falloppio (1523-1562), médico anatomista italiano, forneceu uma 
descrição detalhada dos “tubos de Falópio”, conhecidos também como tubos 
uterinos.Também fez diversas contribuições envolvendo a anatomia da cabeça. 
20 Pulgões de plantas. 
21 Filósofo, matemático e astrônomo francês 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 11 
contribuem para o fluido seminal, a partir do qual o embrião era for-
mado no ventre. Para Maupertuis, a atração das partículas estava rela-
cionada a forças da gravidade obscuras, mas não se sabia ao certo como 
essas partículas reconheciam o local adequado para se fixar e desenvol-
ver (Ramos, 2016, p. 137). 
 
 
Fig. 2: Desenhos de Leeuwenhoek em 1687: “animálculos” do esperma 
humano. Fonte: Disponível em: 
<https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/6b/Leeuwenhoek
%2C_Microscopic_observations_Wellcome_L0001349.jpg> 
 
 
Fig. 3: Gravura de três espermatozoides em uma carta de Leeuwenhoek 
para Nehemiah Grew. As duas primeiras imagens de espermatozoides mos-
tram um homúnculo (ideia de Dalenpatius). A terceira imagem representa o 
“animálculo” de Leeuwenhoek. 
Fonte: MAGNER, Lois. Problems in generation: Organisms, embryos, and 
cells. Pp: 142-186, in: MAGNER, Lois. A history of the life sciences. New York: 
Editora Dekker. 1994. p. 178. 
 
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 12 
Vários estudiosos foram defensores da pré-formação ovista. No sé-
culo XVIII houve grandes discussões entre epigenistas e preformistas. 
Albrecht von Haller (1708-1777)22 e Casper Friedrich Wolff (1734-
1793) 23, por exemplo, fizeram extensas pesquisas sobre a natureza do 
desenvolvimento embriológico. 
Haller, por volta de 1740, era adepto do preformismo espermático. 
Depois de estudos realizados com animais cortados pela metade, como 
hidras, por exemplo, converteu-se à epigênese. Entretanto, Von Haller 
começou a questionar sobre o modo pelo qual um ser poderia pré-
existir e voltou a defender que as partes deveriam se formar gradual-
mente, a partir de um fluído desorganizado, aderindo novamente o pre-
formismo, mas na perspectiva ovista, a partir das evidências obtidas 
nos experimentos de Charles Bonnet24 (1720-1793), de partenogênese 
em afídeos (Magner, 1994, pp. 180-181). 
Para Haller, era necessário a intervenção de Deus e não o acaso no 
desenvolvimento embrionário. Ao estudar o desenvolvimento do ovo 
de galinha, convenceu-se de que o embrião podia ser encontrado no 
ovo, junto com tudo que fosse necessário para sua maturação, antes 
que o ovo saísseda galinha. A concepção ocorreria quando o sêmen 
masculino estimulasse o óvulo. 
Charles Bonnet estudou os afídeos e acreditou que as primeiras fê-
meas que existiram continham dentro de seus ovários a miniatura pre-
cursora de todos os futuros membros da espécie. Já o sêmen masculino 
seria essencial para iniciar o crescimento, e a mãe ofereceria a nutrição 
para o seu desenvolvimento. Como exemplo ilustrativo, Bonnet dizia 
que “germes”, podiam estar confinados nos órgãos reprodutivos em 
animais “superiores”, mas nos animais “inferiores” estariam espalha-
dos por todo o corpo, podendo desta forma explicar a regeneração das 
hidras que haviam seccionadas cortadas25 (Magner, 1994, p. 181). 
Quanto ao germe, Bonnet tinha dúvida se este era realmente algo 
particular do indivíduo ou simplesmente uma parte generalizada da es-
pécie. No entanto, acabou adotando a ideia de que o germe deveria 
 
22 Médico e fisiologista suíço. 
23 Naturalista alemão. 
24 Naturalista e filósofo suíço. 
25 A classificação em animais superiores e inferiores seguia a orientação da “escala da 
natureza” de Aristóteles. 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 13 
carregar a marca da espécie e não a do indivíduo, e sendo este o origi-
nal, o primeiro conteria todas as características da espécie, segundo 
Magner (1994). 
O destino particular de cada um seria determinado pelo resultado 
dos processos naturais mais os fatores presentes na gestação, como a 
saúde da mãe, o tamanho e a nutrição. Todo o desenvolvimento e o 
crescimento do germe ocorreriam por processos puramente mecâni-
cos, como por exemplo, o crescimento seria decorrente da alimenta-
ção. Para Bonnet, a teoria preformista era um grande triunfo da mente 
racional sobre a experiência observacional direta (Magner, 1994). 
Georges-Louis Leclerc, Conde de Buffon26 (1707-1788) era adepto 
da epigênese. Contudo, utilizava explicações mecanicistas, diferente-
mente de outros mecanicistas da época que, preferiam o preformismo 
(Magner, 1994, p. 181). 
Para Buffon, o embrião era formado por partículas orgânicas no 
sêmen masculino e no “sêmen” feminino, com ajuda de um molde in-
terno, que direcionava as partículas para os lugares adequados. Haller 
ficou perturbado com as implicações mecanicistas da teoria da epigê-
nese colocada por Buffon. 
Lazzaro Spallanzani27 (1729-1799) era um preformista ovista e 
adepto da filosofia experimental. Spallanzani era contra a geração es-
pontânea (Prestes & Martins, 2009) e também estudava os processos 
de regeneração, circulação e respiração. Realizou estudos de “animál-
culos” no sêmen de anfíbios, admitindo que o ovo era o ponto de ori-
gem. Este estudo foi muito importante, pois ele acreditava que havia 
sido descoberto um germe pré-formado do girino nos ovos da rã, antes 
mesmo da ocorrência da fertilização (Magner, 1994, p. 182). 
As investigações de Spallanzani sobre o desenvolvimento de ovos 
de pássaros, répteis e insetos trouxeram evidências favoráveis ao pre-
formismo. Sobre a fertilização e fecundação, muitos naturalistas afir-
mavam que a fecundação nunca ocorria fora do corpo da mãe e outros 
acreditavam que o ovo não tinha nada a ver com a fertilização, apenas 
nutria a vida para o germe, um novo ser que surgiria. Outros negavam 
 
26 Naturalista, matemático e escritor francês, 
27 Sacerdote católico e fisiologista italiano 
 
 14 
o papel do esperma e havia ainda quem atribuísse a este um poder in-
visível semelhante à gravidade ou à força magnética, sendo o esperma 
apenas um fluido ou entidade líquida. 
Spallanzani mostrou que a fertilização das rãs era externa e que não 
era causada por um fator misterioso. Seus experimentos com rãs mor-
tas mostravam que elas continuavam emitindo ovos que ao entrarem 
em contato com o sêmen, desenvolviam embriões. Já em relação aos 
ovos que eram dissecados dentro do corpo da fêmea, isso não ocorria. 
Em outro experimento, com rãs vivas, Spallanzani as cobriu com pa-
nos, como se fossem “vestidinhos”, e apesar deste obstáculo as rãs 
ainda tentavam copular. O mesmo foi feito com os machos, que foram 
cobertos com “calças” para saber se era o sêmen o causador da fecun-
dação. Os machos em contato com as fêmeas instintivamente iam co-
pular, mas o esperma não conseguia atravessar o tecido, logo, não havia 
reprodução. Spallanzani tinha um grupo de controle e percebeu que as 
calças apertadas tinham claramente removido um ingrediente-chave, 
com isso veio a descoberta de que o sêmen parecia ser um elemento 
necessário para ocorrer a fertilização (Prestes, 2003). 
Em conclusão, para Spallanzani o ovo continha um indivíduo pré-
formado e o sêmen seria o ativador do processo de desenvolvimento, 
no qual a mãe conteria o germe para a pré-existência. No entanto, se 
fosse desta forma, como explicar a semelhança dos filhos tanto com o 
pai como com a mãe? Tais questões ainda pareciam transcender a es-
fera do conhecimento humano naquela época (Magner, 1994, p. 184). 
3.2 A filosofia da Natureza 
Havia duas vertentes no século XVIII que debatiam constante-
mente esse assunto: de um lado a chamada “filosofia da natureza” e de 
outro a “filosofia mecanicista”. 
O movimento da filosofia da natureza surgiu entre os séculos 
XVIII e XIX na Alemanha, defendido por adeptos da filosofia de Go-
ttfried Leibniz28 (1646-1716) e Christian Wolff29. Eles alegavam a uni-
 
28 Um proeminente filósofo alemão e figura central na história da matemática. 
29 Casper Wolff (1734-1793), estudou medicina na Universidade de Halle na Alemanha 
e foi aluno de Christian Wolff (1679-1754), um dos filósofos alemães mais importantes 
 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 15 
dade da natureza, sendo esta, formada por forças que guiam seu desen-
volvimento, como a formação das pedras, dos planetas e dos seres vi-
vos. A unidade fundamental seria o que havia de comum na vida, tanto 
de plantas quanto de animais, e tal unidade era buscada pela Filosofia 
natural 30. 
Para esta filosofia o universo seria análogo a uma entidade viva, na 
qual o espírito, a vontade, ou Deus, estavam constantemente presentes, 
em um mundo misterioso. Wolff encontrou dificuldades para determi-
nar o verdadeiro mecanismo do desenvolvimento, que para ele ocor-
reria por epigênese (Magner, 1994, p. 185). 
Leibniz também fora professor de Christian Wolff, e para ele o uni-
verso estava constituído da melhor forma possível, noção que se adap-
tava bem à epigênese, pois esta admitia que os seres vivos têm capaci-
dade de por si sós se desenvolverem segundo um princípio vital, que 
poderia ser uma espécie de “força oculta”, a partir de dentro do próprio 
ser. 
Segundo Wolff, o embrião era formado por camadas sucessivas, 
como folhas e em cada uma delas se desenvolveria um órgão do corpo 
com sua nova estrutura. A geração seria a formação de um corpo a 
partir da criação de suas partes, e a essência da vida se manifestaria nas 
mudanças durante o desenvolvimento. Não era necessário, para ele, 
explicar como ocorreria essa adição de partes, pois bastava demonstrar 
que de fato isso acontecia a partir de um desencadeamento de passos 
sucessivos. 
Casper Wolff estava interessado no padrão de diferenciação, após 
iniciado o desenvolvimento e para isso estudou a metamorfose das 
plantas e o desenvolvimento dos ovos em animais. A formação ocorria 
a partir de uma massa indiferenciada de pequenos “saquinhos” ou ve-
sículas, que poderiam ter sido células ou pequenos glóbulos, mas que 
não eram versões em miniatura dos órgãos adultos. Essa conclusão re-
força como Casper Wolff era favorável à epigênese (Magner, 1994). 
 
do século XVIII. Em sua tese de doutorado, Theoria Generationis (1759), descreveu o 
“desenvolvimento embrionário em plantas e animais como um processo envolvendo 
camadas de células, refutando assim a teoria mais aceita na época, a da pré-formação” 
(Ruffenach, 2009). 
30 Para mais informações sobre a Filosofia Natural, consulte Magalhães(2015). 
 
 16 
O preformismo desencorajava a pesquisa do desenvolvimento do 
embrião. Por ser apenas o estudo de um indivíduo em miniatura, o 
conhecimento obtido seria o equivalente ao estudo do mesmo indiví-
duo já adulto. Por outro lado, os epigenistas acreditavam que o desen-
volvimento era sinônimo de mudança, junto com o crescimento (Mag-
ner, 1994). 
Johann Wolfgang von Goethe31 (1749-1832), também era simpati-
zante da Filosofia da Natureza, contra o preformismo e o mecanicismo 
newtoniano popularizado pela metáfora do relógio32 (Magner, 1994). 
Ernst Heinrich Haeckel33 (1834-1919) alegava que durante o desen-
volvimento os embriões progrediam através de estágios que eram vir-
tualmente idênticos às formas adultas de seus ancestrais. Para ele, na 
história embriológica, todas as espécies evoluiriam de um ancestral co-
mum. Haeckel retomou a “lei do paralelismo”, de Johann Friedrich 
Meckel (1781-1833), anatomista alemão, e afirmava que a ontogenia (a 
gênese de um indivíduo, como por exemplo, o ser humano) recapitu-
lava a filogenia (a gênese de sua linhagem evolutiva, como por exem-
plo, os vertebrados) (Magner, 1994, p. 212). 
Para Haeckel, a “filogenia seria a causa mecânica da ontogenia”. 
Atualmente essa noção é objeto de críticas, pois Haeckel teria confun-
dido a descrição do estágio do desenvolvimento do embrião individual 
de determinada espécie com as evidências da evolução de todas as es-
pécies, como se todas se desenvolvessem na mesma sequência evolu-
tiva. Sua “lei” da biogenética se tornou um núcleo da Filosofia Natural, 
em que o universo era visto como um grande ser vivo, no qual a ges-
tação da natureza estabelecia uma unidade fundamental e profunda en-
tre os seres orgânicos (Magner, 1994, p. 212). 
3.3 A filosofia mecanicista 
Os filósofos mecanicistas concebiam a natureza como uma má-
quina, que obedeceria às relações de causalidade necessárias, automáti-
cas e previsíveis, constituídas pelos movimentos e interações de corpos 
 
31 Estudioso de várias ciências, escritor e estadista alemão. 
32 De acordo com esta metáfora, o universo é um grande mecanismo pré-formado por 
Deus para funcionar automaticamente 
33 Biólogo, naturalista, filósofo, médico, professor e artista alemão 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 17 
materiais no espaço.34 A ideia de causalidade utilizada era linear, ou 
seja, o efeito seria proporcional à causa geradora, obedecendo as leis 
da mecânica, como por exemplo, uma determinada força exercida em 
um corpo seria proporcional à sua aceleração. 
Lorenz Oken35 (1779-1851) realizou estudos com animais mari-
nhos, buscando entender os arquétipos dos animais, ou seja, os planos 
básicos mais antigos da sua natureza, para compreender a estrutura e 
desenvolvimento do ser humano (Magner, 1994, p. 192). 
Ele acreditava existir uma espécie de “muco” primitivo que conteria 
vesículas esféricas e estas produziriam os organismos simples. Já os or-
ganismos complexos seriam um agregado de organismos simples. 
Tudo teria se originado a partir de uma “geleia” marinha primitiva. Isto 
parece uma aproximação do futuro protoplasma, ao qual Thomas H. 
Huxley36 (1825-1895) irá se referir como a base física da vida, dizendo 
que “toda a ação vital seria o resultado de forças moleculares do pro-
toplasma que o exibe” (Magner, 1994). 
Theodor Schwann (1810-1882), fisiologista alemão, deixou contri-
buições significativas para histologia, fisiologia, microbiologia e para a 
ampliação da teoria celular.37, Schwann entendia que havia uma uni-
dade fundamental dos princípios anatômicos e fisiológicos das plantas 
e animais e propunha uma nova estratégia para investigar a origem e 
desenvolvimento do embrião (Magner, 1994, p. 194). 
Havia, porém, a necessidade de um estudo unificador, alguma teoria 
para poder comparar animais e plantas. A constatação de Schwann foi 
importante para elucidar a relação do mundo animal com o vegetal, em 
relação à composição dos tecidos, buscando correlacionar o desenvol-
vimento do embrião a partir desses princípios básicos. 
 
34 Lembrando os robôs do filme Metrópolis, de Fritz Lang (1890-1976), cineasta austrí-
aco. 
35 Naturalista alemão cujo nome é relacionado à Naturphilosophie. 
36 Huxley foi defensor do agnosticismo (ele cunhou esta palavra). Defendeu com vigor 
o naturalismo evolucionário de Charles Darwin (1809-1882), enquanto seus esforços 
organizacionais, palestras públicas e escritos ajudaram a elevar o lugar da ciência na 
sociedade moderna. Vide mais informações em Leonard Huxley, 2004. 
37 Schwann observou a membrana que envolve as fibras nervosas e também a pepsina, 
ao estudar os processos de fermentação. A bainha de mielina é formada pelo enrola-
mento da membrana plasmática da “célula de Schwann” ao longo do axônio dos neu-
rônios no sistema nervoso periférico, isolando eletricamente os nervos e assim permi-
tindo a propagação rápida de potenciais de ação elétricos. 
 
 18 
Seus estudos da notocorda, da cartilagem e de outros tecidos ani-
mais, em 1839, confirmaram que estes eram originados por células aná-
logas às células das plantas, o que ocasionou o rompimento da barreira 
entre os dois reinos. A importância do núcleo começou a ser evidenci-
ada cada vez mais por vários cientistas, pois o núcleo das células da 
notocorda38 dos animais possuiria a mesma função do núcleo das plan-
tas. 
Alguns outros pesquisadores acreditavam que o início da vida ocor-
ria a partir de uma espécie de “blastema” (um agregado de células em-
brionárias) fluido, a partir do qual sólidos orgânicos se precipitariam. 
As primeiras estruturas a emergir desse blastema seriam as unidades 
elementares da vida, como as fibras e os glóbulos. 
A hipótese de Matthias Schleiden39 (1804-1881), era que existiria 
uma “livre formação de célula”, para explicar o crescimento celular, o 
qual seria análogo ao processo de cristalização inorgânica. 
Para ele as células se originariam de um citoblastema, que teria em 
sua constituição açúcares e muco, e formaria glomérulos, que acumu-
lariam grânulos análogos à cristalização.40 Um núcleo pequeno cresce-
ria pela acumulação de minúsculos grânulos a partir do citoblastema. 
À medida que as partículas do muco se agregavam, parte do fluido era 
transformado em uma substância relativamente insolúvel e formava o 
citoblasto em volta desse pequeno núcleo. Quando o citoblasto atingia 
seu tamanho total, a jovem célula começava a se desenvolver na forma 
de uma vesícula transparente e delicada, que gradualmente se expandia 
e finalmente formava uma célula completa dentro de uma parede celu-
lar rígida (Magner, 1994, p. 196). Schleiden facilitou a extensão de sua 
teoria celular do mundo vegetal para o mundo animal. 
 
 
 
 
 
 
 
38 A notocorda é o eixo de sustentação no embrião e, em alguns cordados inferiores,
também no adulto. Nos vertebrados superiores, o seu principal papel é o de induzir o
desenvolvimento do sistema nervoso no ectoderma.
39 Botânico alemão, cofundador da teoria celular,
40 Citoblastema seria um tipo de “líquido-mãe” intercelular, como publicou Schleiden 
em Grundzüge der wissenschaftlichen Botanik, em 1842. Seria o material fundamental da
qual se originariam todas as células. Disponível em: <http://www.cnpt.embrapa.
br/biblio/do/p_do44_4.htm>, Acesso em 15/03/2021.
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 19 
Rudolf Virchow41 (1821-1902) contribuiu para a teoria celular mo-
derna, pois acreditava que toda célula era produzida a partir de uma 
célula pré-existente. Descreveu a origem das células, desde a diferenci-
ação de um blastema sem forma, como se fosse um fluido exsudado 
dos vasos. Rejeitava a formação de células livres, as quais sugeriam uma 
geração espontânea. Acreditava que a vida se processava a partir da 
sucessão direta, dizendo: “omnis cellula e cellula” (toda célula vem de ou-
tra célula), como apresenta Magner (1994, p. 204). 
A célula passou a ser considerada a ligaçãofundamental na forma-
ção da hierarquia dos tecidos, órgãos, sistemas e do organismo como 
um todo. Virchow estudou as causas das epidemias e culpou a admi-
nistração do governo alemão por elas, pois muitas eram de origens so-
ciais mais humildes e com condições sanitárias inadequadas. Para ele 
as doenças eram vidas modificadas, a diferença estaria em seu compor-
tamento celular. 
Durante os últimos vinte e cinco anos do século XIX, a teoria ce-
lular começou a ser aperfeiçoada. As células formadas deveriam ser 
originadas a partir da divisão igualitária do núcleo e a divisão do núcleo 
precederia a divisão da célula. Edmund B. Wilson (1856-1939), geneti-
cista e zoólogo estadunidense, publicou artigos sobre embriologia e so-
bre o desenvolvimento da célula, ligados à herança cromossômica. 
O período do final do século XIX e início do século XX foi o mo-
mento da maturação da citologia e da embriologia celular. Foi quando 
houve a “redescoberta” em 1900 das Leis de Mendel42 (Magner, 1994, 
p. 204). 
Até essa época, os embriões eram vistos como organismos minús-
culos e complexos, que continham um conjunto de partes, como gló-
bulos, vesículas e fibras. Com a teoria celular estabelecida, os embriões 
passaram a ser analisados em termos de células e componentes celula-
res, tais como núcleo, citoplasma, membrana plasmática, etc. Vale a 
 
41 Médico alemão, importante patologista e adepto do mecanicismo. 
42 Gregor Mendel (1822-1884), monge agostiniano, naturalista, físico e meteorologista 
austríaco, a partir de estudos da hereditariedade, do aprimoramento dos microscópios 
e dos métodos de preparo e coloração, que possibilitaram a análise da estrutura celular 
com maiores detalhes (proporcionando as visualizações microscópicas das células 
transparentes). 
 
 20 
pena ressaltar que entre 1875 e 1895 foram importantíssimas as desco-
bertas das organelas, como o complexo de Golgi. Camillo Golgi (1843-
1926) foi um médico e histologista italiano, conhecido pelo descobri-
mento e descrição do complexo que possui o seu nome (localizado 
dentro do núcleo), as mitocôndrias e os cloroplastos. Walter Flemming 
(1843-1905), professor alemão de anatomia, que descreveu os cromos-
somos na década de 1870, também realizou estudos de divisão celular. 
Todos esses trabalhos foram relevantes para compreensões futuras no 
estudo dos embriões e do processo de formação da vida. 
No início do século XIX, Karl Ernst von Baer43 (1792-1876) foi um 
dos cientistas que retomaram a “teoria da epigênese” e realizou expe-
rimentos com óvulos de mamíferos, identificando-os como entidades 
opacas nos ovidutos. Estudou os folículos de Graaf em cachorros, 
quando viu uma bolinha amarela dentro do folículo que não se abria; 
também procurou descobrir qual seria a contribuição masculina no 
processo de desenvolvimento do ovo e como as características do pai 
passavam para o novo indivíduo, explica Magner (1994, pp. 208-209). 
A teoria mais contemporânea da germinação se inicia com Von 
Baer e Heinrich Christian Pander (1794-1865), naturalista russo. Pan-
der escreveu um tratado em que, estudando embriões de galinha, cha-
mava atenção para a conclusão de que órgãos semelhantes são desen-
volvidos a partir de camadas germinativas equivalentes, ou seja, que 
seria possível a comparação entre espécies diferentes. 
Em 1855 Robert Remak (1815-1865), embriologista, fisiologista e 
neurologista alemão, refinou o conceito de Pander e chamou as três 
camadas germinativas de ectoderme, mesoderme e endoderme. A ec-
toderme (pele de fora) daria origem à pele e ao sistema nervoso, a me-
soderme (pele intermediária) produziria os músculos, o esqueleto e o 
sistema excretor. A endoderme (pele de dentro) produziria a noto-
corda, o sistema digestivo e as glândulas associadas. Para von Baer, que 
descobriu a notocorda, esta seria uma estrutura de transição, que daria 
origem à espinha dorsal, também chamada de espinha vertebral, a qual 
é originada pela endoderme. 
 
 
43 Karl Ernst von Baer, médico e naturalista alemão, foi também membro da Academia 
Russa de Ciências. 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 21 
3.4 Algumas leis formuladas no século XIX 
A lei biogenética ou dos estágios correspondentes, formulada por 
Von Baer em 1866 se referia às semelhanças entre os estágios de de-
senvolvimento de diferentes espécies de animais. Já a lei do parale-
lismo, de Johann Friedrich Meckel44 (1781-1833), de 1821, tratava da 
recapitulação, na qual o desenvolvimento do embrião ocorreria por hi-
erarquia, desde a mais baixa até a mais alta (no sentido aristotélico de 
escala da natureza), por exemplo, do estágio de peixe, passando para o 
de réptil, depois para o de mamífero e por fim, chegando aos seres 
humanos. 
Von Baer discordava de Meckel em relação às origens do processo, 
pois para ele os embriões se tornavam progressivamente especializados 
durante o desenvolvimento, mesmo sendo difíceis de diferenciar nos 
primeiros estágios, ficando diferentes nos indivíduos adultos. 
Von Baer entendia que no primeiro estágio do embrião, os caracte-
res gerais apareceriam antes dos caracteres especializados. No segundo 
estágio os caracteres se desenvolveriam dos mais gerais, os quais já 
existiam, para os mais específicos; por exemplo, há protuberâncias que 
se tornam os membros locomotores, que depois se diferenciariam em 
mãos, asas ou nadadeiras. No terceiro estágio, o embrião de uma dada 
espécie continuamente divergiria do embrião de outras espécies, du-
rante o desenvolvimento. No quarto, os embriões de uma espécie su-
perior passariam por estágios que pareceriam com estágios de desen-
volvimento de espécie inferiores, segundo Magner (1994). 
Na biologia experimental, tanto Wilhelm Roux45 (1850-1924), 
quanto Hans Adolf Eduard Driesch46 (1867-1941), se questionaram 
como os fatores intrínsecos e extrínsecos poderiam governar os está-
gios do embrião (Magner, 1994, p. 213). 
Roux acreditava que o ovo fertilizado “recebia” substâncias repre-
sentando diferentes características do organismo e, à medida que ocor-
 
44 Johann F. Meckel, médico e anatomista alemão, trabalhou como professor de ana-
tomia, patologia e zoologia da Universidade de Halle. 
45 Zoólogo e embriologista experimental alemão 
46 Biólogo e filósofo alemão, que estudou com Haeckel e realizou pesquisas com ovos 
de ouriços do mar 
 
 22 
resse a divisão celular, elas se tornariam linearmente alinhadas nos cro-
mossomos posteriormente distribuídas de forma desigual às células fi-
lhas. A auto diferenciação é a capacidade do embrião de sofrer mais 
diferenciação, no que foi chamado de um desenvolvimento em “mo-
saico” de cada parte do embrião – como destaca Magner (1994). Roux 
em 1888 parecia ter confirmado suas teorias por um experimento que 
ele conduziu em ovos de sapo (Figura 4). Ele inseriu uma agulha quente 
em um dos dois blastômeros para matá-lo e então observou como o 
blastômero restante se desenvolveu, resultando num meio embrião 
(Magner, 1994, pp. 214-215). 
Hans Driesch era inicialmente defensor do mecanicismo. Depois se 
tornou adepto do vitalismo e foi um dos primeiros a seguir o protocolo 
de Roux sobre embriologia experimental. Entretanto, para Driesch o 
embrião se desenvolvia como um sistema equipotencial harmonioso, 
em que todas as células teriam o mesmo potencial de desenvolvimento, 
não havendo com isso predestinação celular. 
Em 1892, Hans Driesch realizou experimentos semelhantes de Wi-
lhelm Roux em embriões de ouriço-do-mar. Contudo, em vez Driesch 
matar um dos dois blastômeros, ele colocou muitos embriões em um 
tubo e os sacudiu para separar as células. O resultado da experiência 
(Figura 5) tem sido, em geral, pouco claro nos compêndios que a des-
crevem, não mostrando a diferença essencial com o experimento de 
Roux, inclusive como ocorre no texto que serviu de base para o pre-
sente artigo (Magner, 1994). Uma consulta ao texto original de Driesch 
mostra que este comentou que, ao contráriode Roux, seus experimen-
tos terminaram com embriões completamente formados, mas com a 
metade do tamanho (Driesch, [1908] 2010, pp. 58-62). 
O estágio de duas células continha toda a informação necessária 
para o desenvolvimento completo, o que falseava parcialmente o de-
senvolvimento em mosaico de Roux. A natureza epigenética do desen-
volvimento mostrava para Driesch que o destino de uma dada célula 
era resultado da posição relativa desta em relação ao todo (Magner, 
1994, p. 216). No sistema equipotencial harmonioso de Driesch cada 
parte tinha igual capacidade ou potencialidade de substituir qualquer 
outra parte. Isso o fazia pensar que qualquer célula poderia ir para qual-
quer lugar do corpo. A partir dos resultados de Driesch, cada vez mais 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 23 
houve experimentos com transplantes, isolamentos e cultura de teci-
dos, que foram importantíssimos para os desdobramentos futuros até 
os dias de hoje. 
 
 
 
Fig. 4: Experimento de ablação de Wilhelm Roux para testar a teoria dos 
determinantes de Weismann Fonte: Disponível em: 
<https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/b0/Ablation_exper
iment.jpg>. 
 
 
 
Fig. 5 Experimentos com ouriços-do mar. a1 e b1: gástrula normal e pluteu 
normal; a2 e b2: "meia" gástrula e "meio" pluteu, que deveriam resultar de 
um dos dois primeiros blastômeros quando isolados, de acordo com a teoria 
de Roux; a3 e b3: gástrula e pluteu menores, mas inteiros, que resultaram de 
fato. Fonte: DRIESCH, Hans. The science and philosophy of the organism. Lon-
don: Adam and Charles Black, 1908. p. 62. 
 
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 24 
Hans Spemann47 (1869-1941), fez experimentos com estruturas 
embriônicas de salamandras, para observar a diferenciação. Também 
realizou experimentos de transplantes e notou que o lado dorsal, cha-
mado por ele de lábio dorsal do embrião doador, poderia desenvolver 
um novo embrião. Este lado foi chamado por ele de “organizador”, 
porque seria indutor do desenvolvimento 
Spemann também utilizou enfoques bioquímicos no estudo do de-
senvolvimento e da diferenciação, com uma visão holística dos embri-
ões. A visão holística trata o organismo como um todo, como por 
exemplo, ao analisarmos um determinado órgão, como o coração, pro-
cura-se tratá-lo correlacionando-o com todos os outros órgãos. 
Com o passar dos anos, o enfoque mudou, a embriologia experi-
mental clássica virou embriologia do desenvolvimento, ligada à gené-
tica e à biologia molecular, considerando o desenvolvimento guiado 
pelas instruções mapeadas dos genes. 
4 EMBRIOLOGIA E O DISCURSO DA GENÉTICA 
Os genes são unidades físicas e funcionais fundamentais da herança 
e responsáveis pelos traços biológicos transmitidos hereditariamente. 
No entanto, como eles agem? 
Essa é uma das questões atuais que Evelyn F. Keller (1995) trata no 
capítulo “Language and science: genetics, embryology and the dis-
course of gene action”. 
O discurso da ação gênica poderia responder bem a essa indagação 
e a hereditariedade também, ou seja, a transmissão das potencialidades 
durante a reprodução, assim como o desenvolvimento dessas potenci-
alidades em traços adultos específicos posteriores. No entanto, como 
uma única célula germinativa seria capaz de reproduzir um corpo in-
teiro em detalhes? (Keller, 1995). 
A história da pesquisa genética teria começado com Gregor Mendel 
(1822-1884). Mendel realizou experiências com cruzamentos de ervi-
lhas em 1857, procurando compreender os padrões da hereditariedade 
nos cruzamentos que produziam híbridos. 
Seus experimentos foram revalorizados posteriormente, por volta 
 
47 Embriologista alemão 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 25 
de 1900, dentro do contexto dos estudos de embriologia, e reconduzi-
ram a um aumento no estudo da genética. Ainda mais tarde, os fatores 
mendelianos (os genes alelos) foram ligados às estruturas cromossômi-
cas do núcleo das células (Keller, 1995, p. 4). 
O botânico dinamarquês Wilhelm Johannsen (1857-1927), também 
fisiologista vegetal e geneticista, introduziu o termo “gene” no início 
do século XX para substituir termos mais antigos, tais como “fator”, 
“traço” e “caráter”. Estudos foram sendo feitos para tentar responder 
essa pergunta, junto com inúmeras outras que foram surgindo, pois 
onde há ciência sempre há oportunidade para aprimoramentos. Em 
1911, em “The genotype conception of heredity”, Johannsen também 
introduziu os termos “genótipo” e “fenótipo” (Justina et al., 2010, pp: 
56-57). 
Thomas Morgan48 (1866-1945) publicou The Mechanism of Mendelian 
Heredity (1915) com inúmeros experimentos de genética com drosófi-
las. 
A hereditariedade parecia ser assunto de interesse tanto da genética 
quanto da embriologia, e o gene as conectava. A primeira estaria ligada 
aos caracteres herdados por meio das gerações sucessivas, mas os ca-
racteres por sua vez podiam ser explicados sem referência ao modo 
como o gene afeta o processo de desenvolvimento. De acordo com o 
que Morgan escreveu em 1926, existiria uma confusão por não se se-
parar o fenômeno da hereditariedade, que trata da transmissão das uni-
dades hereditárias, do fenômeno do desenvolvimento embrionário que 
ocorreria quase exclusivamente por mudanças no citoplasma, isto é, 
fora do núcleo celular (Keller, 1995, pp. 4-5). 
Spemann e sua aluna Hilde Mangold (1898-1924), embriologista 
alemã, realizaram estudos de embriologia em 1924 procurando identi-
ficar o “organizador” suposto por Spemann. Royal A. Brink49 (1897-
1984) realizava experiências de cruzamentos, também fez estudos so-
bre a importância dos genes, percebendo que eles pareciam corpos es-
táveis que residiam no cromossomo. 
 
48 Zoólogo e geneticista estadunidense. 
49 Geneticista de plantas canadense. 
 
 26 
Já Hermann J. Muller50 (1890-1967), geneticista estadunidense, 
mostrou que os raios X aceleravam ou mesmo desencadeavam muta-
ções genéticas e afirmava que o gene tinha propriedades que ele cha-
mou de “autocatálise”, implicando autorreplicação. 
Muller priorizava a ontologia, que seria o processo de desenvolvi-
mento de cada indivíduo ao longo do tempo, afirmando que o gene era 
a base da vida. O processo se iniciaria com o gene, e o protoplasma 
(que seria o citoplasma) facilitaria que o ambiente desenvolvesse o 
gene. Nessa visão, o gene teria “as duas faces de Janus”51: seria ao 
mesmo tempo como o átomo é para a física (a unidade fundamental 
da matéria) e como a alma platônica é para a vida (aquilo que dá im-
pulso vital para a existência do ser vivo), ou seja, os genes possuem em 
sua constituição moléculas feitas de átomos, o que lhes dá as proprie-
dades físico-químicas, mas também são capazes de se replicar, o que 
lhes dá uma propriedade da vida (Keller 1995, p. 9). 
O que os genes fazem afinal? Não havia conhecimento suficiente 
sobre eles para responder naquela altura essa pergunta, por isso era 
possível lhes atribuir quaisquer propriedades, inclusive as miraculosas. 
O discurso da ação gênica fez com que os geneticistas pudessem con-
tinuar os trabalhos mesmo não conhecendo a natureza da ação do 
gene- aponta Keller (1995, p. 10). 
Ross Harrison52 (1870-1959), em suas pesquisas de embriologia 
propôs novos métodos de estudos de tecidos. Ele cultivou com su-
cesso neuroblastos de rã num meio com linfa, mostrando que as fibras 
nervosas se desenvolvem sem um apoio preexistente e que os tecidos 
podem crescer fora do corpo, publicando seus relatos em 1907. Harri-
son considerava que a teoria do gene seria um obstáculo para entender 
o desenvolvimento do embrião, pois os geneticistas acabavam diri-
gindo todas as atenções exclusivamente para o genoma, o que para ele 
não seria suficiente. 
 
50 Hermann J. Muller foi aluno de Thomas Morgan e agraciado com o Nobel de Fisi-
ologia/Medicina de 1946. 
51 Segundo a mitologia romana, Janus era o porteiro celestial, sendo representado com 
duas faces, simbolizando ao mesmotempo o término e o começo, o passado e o fu-
turo, o dualismo relativo de todas as coisas. Esta é uma interessante leitura para o 
mundo da ciência, quando buscamos o conhecimento do passado para interpretar pos-
sibilidades futuras. 
52 Biólogo e anatomista estadunidense. 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 27 
Sendo o conteúdo genético igual em todas as células de um orga-
nismo, como era possível entender a emergência das diferentes mani-
festações entre todas as células que compõem um organismo com-
plexo? As noções de genes não respondem satisfatoriamente por que 
há variações em um organismo já existente, nem como um organismo 
inteiro começa a ser formado. Harrison interpretava a atuação dos ge-
nes como se todos agissem da mesma forma. 
Alfred H. Sturtevant (1891-1970), geneticista estadunidense, deli-
neou o primeiro mapa genético de um cromossomo em 1913. Em 1932 
o problema da diferenciação estava em questão: como um ovo se dife-
rencia até formar um organismo complexo e multicelular? Para Sturte-
vant, havia uma correlação entre um gene e o caráter (as propriedades 
por ele produzidas), sendo essa uma ação direta, como uma reação em 
cadeia, isto é, um determinado gene transmitiria uma dada função ou 
uma característica especifica, diretamente (Keller,1995, p. 14). 
Richard Goldschmidt (1878-1958), geneticista alemão, procurou re-
lacionar genética, desenvolvimento e evolução. Estudou mariposas e 
também estava preocupado com a natureza da ação gênica. Para Gol-
dschmidt os genes controlam fatores importantes no desenvolvimento 
embrionário e, portanto, na evolução, e o desenvolvimento do embrião 
ocorreria como um sistema de reações coordenadas ao mesmo tempo. 
Pesquisou as propriedades dinâmicas do sistema embrionário e consi-
derava a ação de genes catalisadores e catalisados, ou seja, seriam tanto 
atores ativos, quanto substâncias reativas, as quais se ativariam com 
substratos apropriados (Keller, 1995, pp. 15-16). 
George Beadle53 (1903-1989) realizou pesquisas sobre genética e 
também sobre as mudanças ambientais que acabam provocando alte-
rações genéticas. Edward Tatum (1909-1975), microbiologista estadu-
nidense, conduziu pesquisas sobre mutações genéticas. Ambos realiza-
ram estudos com organismos unicelulares do gênero Neurospora54 e le-
vantaram a hipótese em 1940 de que a cada gene corresponderia uma 
enzima, isto é, cada gene catalisaria uma reação química específica, pro-
duzindo uma enzima correspondente. Essas ideias levaram a genética 
 
53 Biólogo e geneticista estadunidense, foi agraciado com o Nobel de Fisiologia/Me-
dicina de 1958 
54 Neurospora é um fungo muito utilizado como modelo na compreensão de aspectos 
fundamentais da biologia dos eucariontes. 
 
 28 
do desenvolvimento embrionário a se interligar com a ação bioquímica 
dos genes (Keller, 1995). 
O físico austríaco Erwin Schrödinger (1887-1961) se dedicou aos 
estudos da física quântica, desenvolvendo uma mecânica ondulatória. 
Além disso, se interessou pelos fenômenos biológicos e publicou What 
is life? (1944). Ele considerava paradoxal que os organismos vivos esti-
vessem tão próximos de uma estrutura físico-química, mas ao mesmo 
tempo fossem capazes de organizar a energia, de tal forma que pare-
ciam ter uma entropia negativa, isto é, serem capazes de gerar mais 
energia do que consumiam. Adicionalmente, ele acreditava que a estru-
tura do cromossomo teria o poder de conter um “código”, capaz, me-
taforicamente falando, de envolver tanto o “planejamento do arqui-
teto” quanto a “arte do construtor” (o código conteria um projeto que 
ele mesmo seria capaz de executar (Keller, 1995, pp. 19-20). 
Em 1953, com a elucidação da estrutura do DNA por Watson e 
Crick (com contribuição de Rosalind Franklin e Maurice Wilkins)55, fi-
zeram-se estudos sobre as ligações de hidrogênio com as sequências de 
ácidos nucleicos, para entenderem como os genes se duplicam. Tal co-
nhecimento também permitiu entender como os genes produzem suas 
enzimas específicas, considerando que em uma molécula longa, como 
a do DNA, muitas permutações seriam possíveis de ocorrerem. Logo, 
a partir de uma determinada sequência, um código seria formado e nele 
estariam contidas as informações genéticas de um indivíduo. Estas por 
sua vez, seriam feitas pelo DNA, que formaria um RNA de fita simples, 
que em seguida, após sua atuação para a transcrição e tradução da in-
formação genética, produziria as respectivas proteínas (Keller, 1995, 
pp. 17-18). 
Com estas seriam “feitos” os organismos, cada sequência codificada 
individualmente contribuiria para a constituição total de cada ser, se-
 
55 A estrutura do DNA foi elucidada em 1953 pelo pesquisador norte americano James 
Watson (n. 1928) e pelo pesquisador inglês Francis Harry Compton Crick (1916 – 
2004) junto com a também pesquisadora e química britânica Rosalind Franklin (1920 
– 1958), que trabalhava com imagens de raio X de estruturas moleculares, e o fisiolo-
gista neozelandês Maurice Wilkins (1916-2004), que realizava estudos de difração de 
raios-X em DNA. 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 29 
gundo Watson e Crick. Segundo o que se acreditava, o programa codi-
ficado e os genes produziriam seus efeitos, ou seja, dariam as instruções 
para a síntese das proteínas. 
Nas palavras de Keller (1995): “A informação biológica contida nos 
genes não aumenta durante o desenvolvimento do indivíduo. Temos a 
mesma constituição genética quantitativa desde o início de nossas vi-
das, até o final delas”. Isso nos leva a querer entender como ocorre o 
processo de modificações e o desenvolvimento dos seres vivos. Nem 
os embriologistas e nem os biólogos moleculares saberiam explicar a 
causa da formação de enzimas pelos genes. 
Para Richard Lewontin56 (1929-2021), o DNA seria uma “molécula 
morta”, o que poderia soar como uma ironia, pois o processo suposto 
para explicar a vida viria de uma molécula sem vida e que não possuiria 
a capacidade de se reproduzir, apesar de ser formada por um maqui-
nismo celular complexo. A mesma contradição valeria conjuntamente 
para as enzimas, que seriam produzidas a partir do DNA. A sequência 
de nucleotídeos seria usada pela célula para determinar a sequência de 
aminoácidos que levaria à construção de uma proteína. Sem tal meca-
nismo celular intrincado e gerador de proteínas nada poderia ser feito 
para explicar nossa herança genética. Constatação que evidencia a im-
portância da estrutura celular. 
Como visto anteriormente, a aparente explicação do desenvolvi-
mento do embrião ficou restrita à genética. A ação gênica foi impor-
tante, mas não respondia tudo, deixando o processo do desenvolvi-
mento e da diferenciação celular sem respostas. Por exemplo, Sidney 
Brenner57 (1927-2019) comentou em 1984 que os princípios da orga-
nização do embrião não poderiam estar contidos no conhecimento dos 
mecanismos de controle genético. Eric Davidson (1937-2015), biólogo 
norte-americano do desenvolvimento, realizou estudos sobre o com-
plexo de transcrição, com a ativação dos genes e a dinâmica bioquímica 
dos complexos, os quais revelavam a interação proteína-proteína e pro-
teína-ácido nucleico. Concluiu a partir disso que os genes poderiam ser 
“espertos”, mas “o cérebro do gene esperto” não poderia estar nos 
próprios genes (Keller, 1995, pp. 27-28). 
 
56 Biólogo evolucionista estadunidense. 
57 Biólogo sul-africano. 
 
 30 
Henri Atlan58 e outros cientistas sugeriram uma metáfora alterna-
tiva para o DNA. Ele seria como os dados que são utilizados para uma 
rede de computação paralela, isto é, com vários processadores atuando 
ao mesmo tempo para realizar uma ação, e tais dados se corporifica-
riam na estrutura global geométrica e bioquímica da célula. Uma com-
paração possível a nosso ver seria considerar que o corpo de um ser 
vivo comporta vários órgãos atuando em paralelo e ao mesmo tempo 
tendo o seu “processador” interno em cada um desses órgãos. 
HermanFrederik Nijhout59, tem uma visão mais equilibrada sobre 
o assunto: para ele os genes seriam os fornecedores das necessidades 
materiais do desenvolvimento e agiriam como catalizadores, que de-
penderiam do contexto das mudanças celulares. Nijhout afirma que os 
genes seriam fontes passivas de materiais sobre os quais uma célula 
poderia trabalhar e seriam partes de um mecanismo evoluído que per-
mite aos organismos serem independentes de seu ambiente. Eles for-
neceriam desta forma um meio de sintetizar, de importar e estruturar 
as substâncias, não apenas os produtos gênicos, mas todas as substân-
cias necessárias para o metabolismo, crescimento e diferenciação do 
embrião. 
Os modelos dessas interações de genes e proteínas estimulam as 
intuições sobre os fenômenos de emergência, isto é, de surgimento no 
desenvolvimento embrionário, que no passado foram abafadas pela vi-
são unicamente genética. A partir dessa visão, o desenvolvimento do 
embrião estaria ligado à linguagem da ação gênica, e o papel da estru-
tura do citoplasma antes da fertilização seria importante para a concre-
tização do processo como um todo (Keller, 1995, p. 31). 
Oscar Schotté (1895-1988), embriologista suíço, ganhou reputação 
por seu trabalho no controle neurotrófico60 e morfogenético61 da rege-
neração de órgãos e relacionava a embriologia com a genética, mas sa-
bia que ambas tinham visões distintas das células. Para a embriologia o 
núcleo era pequeno, metaforicamente, e para os geneticistas era como 
se o núcleo “preenchesse virtualmente a célula inteira”. O “tamanho” 
 
58 Biofísico e filósofo francês. 
59 Biólogo evolutivo americano. 
60 Relativo ao processo de nutrição, metabolismo e crescimento das células nervosas. 
61 Processos morfogenéticos envolvem o crescimento de grupos celulares, sua mu-
dança de posição no conjunto do organismo e a diferenciação celular. 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 31 
era atribuído segundo a importância dada por eles, os americanos rea-
lizavam relativamente mais estudos para entender e saberem mais a 
respeito do núcleo, já os alemães voltavam-se para o citoplasma para 
compreender o processo do desenvolvimento (Keller, 1995, p. 36). 
No que diz respeito à assimetria dos gametas, os distintos tamanhos 
contrastariam a contribuição do macho e a da fêmea para a ocorrência 
do processo de fertilização. O gameta muito grande seria o feminino e 
este possui muito citoplasma em seu interior, ao contrário do esperma-
tozoide pequeno, que é quase puramente só núcleo. Então, o cito-
plasma seria sinônimo de ovo e o núcleo o correspondente para o es-
permatozoide (Keller, 1995, p. 39). 
Em relação a esse assunto, Keller (1995, pp. 39-40) lembra que The-
odor Boveri (1862-1915), biólogo alemão, realizou estudos referentes 
aos primeiros processos celulares que causam câncer e já reconhecia 
alguma função para o citoplasma. Quanto às possíveis distinções entre 
macho e fêmea, havia uma tendência de considerar, em relação à fun-
ção fertilizante, de que no macho haveria a presença de uma força mo-
triz. Já no que diz respeito ao gameta feminino, este seria passivo e 
facilitador para o processo de fertilização. Em termos da linguagem 
platônica poderíamos dizer que o ovo estaria relacionado ao corpo e o 
núcleo à alma, pois como vimos anteriormente, para os gregos a gera-
ção precisava da alma masculina para ser transmitida ao corpo femi-
nino, sendo esta a força motriz. Isto ecoa de certa maneira a antiga 
disputa entre o preformismo feminino e o masculino. 
5 O OVO É COMPUTÁVEL? 
Lewis Wolpert (2002) inicia seu capítulo “Desenvolvimento: o ovo 
é computável, ou podemos gerar tanto um anjo como um dinos-
sauro?”, questionando se o ovo é algo que possa ser calculado, isto é, 
que possa ser determinado previamente em todas as fases embrioná-
rias. Será que os genes controlam a fase embrionária? 
Como vimos anteriormente, os genes são responsáveis por contro-
lar proteínas, as quais ao serem produzidas controlariam o comporta-
mento celular e o desenvolvimento, carregando a informação genética 
de todas as células do embrião. 
 
 32 
A hipótese aqui analisada é de que a evolução altera o programa de 
desenvolvimento, ou seja, as estruturas seriam modificadas ou forma-
das a partir de genes que se alteram durante a evolução. Se compreen-
dêssemos como esse controle é feito poderíamos compreender a evo-
lução dos seres vivos, ou como diz o autor: “Quando soubermos isso, 
então poderemos considerar se é possível gerar um anjo ou um dinos-
sauro”. Logo, segundo Wolpert, se soubéssemos como os genes se al-
teram durante a evolução de uma cadeia de organismos, poderíamos 
entender como seriam os organismos resultantes, antes deles serem 
formados. 
Joseph Needham (1900-1995), embriologista, historiador de ciên-
cias, bioquímico e sinólogo inglês (1992) relata sua busca por substân-
cias que seriam indutoras ou por moléculas sinalizadoras do desenvol-
vimento. Atualmente a genética e a biologia molecular nos mostram 
que são poucos os casos possíveis em que podemos apontar com cer-
teza para moléculas de sinalização, como por exemplo, aquelas encon-
tradas nos olhos de insetos e “moléculas TGF - β”, que são fatores de 
transformação do crescimento. Estas últimas são moléculas responsá-
veis pela sinalização e regulação de uma série de processos biológicos 
em diversos organismos, como no desenvolvimento do intestino de 
insetos. 
Já os gradientes, ou seja, as variações, e as interações internas dos 
embriões haviam sido enfatizados no livro Os elementos da embriologia ex-
perimental, de 1934, de Gavin De Beer (1899-1972), embriologista e 
evolucionista britânico, conhecido por seu trabalho sobre heterocro-
mia, e de Julian Huxley (1887-1975), neto de Thomas Huxley, biólogo, 
filósofo, escritor, conhecido por suas contribuições para a populariza-
ção da ciência através de livros e conferências (Wolpert, 2002). 
A chave para o desenvolvimento com certeza encontra-se na célula, 
com suas divisões, que nos levam a pensar em todo o programa de 
desenvolvimento envolvido no processo. O comportamento da célula 
seria mais difícil de compreender do que o de um embrião, pois as 
interações são mais complexas. Essas interações entre células do em-
brião poderiam ser pensadas como sendo seletivas e não instrutivas, ou 
seja, as células selecionam um possível caminho entre algumas alterna-
tivas e não simplesmente seguem uma instrução determinada (Wolpert, 
2002). 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 33 
A complexidade do desenvolvimento reside no programa interno 
das células, mas como seria este? Ele seria homogêneo, sendo o mesmo 
para qualquer célula? E quais as pressões seletivas sofridas pelas célu-
las? – indagou Wolpert (2002). 
As proteínas determinam o comportamento celular e são controla-
das pelos genes, que indiretamente controlam por sua vez o próprio 
comportamento da célula, como assinalamos anteriormente. Os genes 
são importantes, mas são as proteínas que desempenham as funções 
vitais nas células. Durante o desenvolvimento do embrião ocorre o 
controle de quais proteínas serão produzidas e onde. Isso seria o ar-
ranjo das atividades dos genes que as codificam, mas quantos e quais 
genes estão envolvidos? Será que há sobreposição dos genes, nesse 
processo? – refletiu Wolpert (2002). 
Claro que não sabemos as respostas ainda, e é improvável que exista 
muita sobreposição entre os genes, pois isso resultaria em falta de fle-
xibilidade na evolução, isto é, um excesso de pleiotropia62, uma apa-
rente redundância, como disse Wolpert (2002). 
Há certa dificuldade de descobrirmos a verdadeira função dos genes 
e quais seriam seus princípios gerais. Sabemos que o estado de uma 
célula é determinado pelos genes ativados pelas proteínas presentes. 
Também há passos importantes nesse processo, como a degradação 
das proteínas e do RNAm (RNA mensageiro) e o controle da tradução 
da informação genética. 
Conhecemostambém, algumas estruturas integradoras chave, 
como a região cromossômica do “promotor” e do chamado “enhancer”. 
O promotor é formado por sequências de DNA específicas e impor-
tantes para o início da transcrição, ou seja, para a síntese do RNA. Os 
enhancers, ou “acentuadores”, são também sequências de DNA, só que 
neste caso eles aumentam a afinidade no processo de transcrição por 
um promotor específico. Também há as mutações e as recombinações 
gênicas que interferem na dinâmica celular (Wolpert, 2002). 
Um exemplo para compreender o desenvolvimento embrionário 
pelas divisões assimétricas seria o da mosca Drosophila, com seus eixos 
anteroposterior e dorsoventral (x e y, por exemplo), pois ambos são 
 
62 É quando um gene condiciona ou influencia mais de uma característica no indivíduo. 
about:blank
 
 34 
inicialmente independentes e específicos, produzidos por genes mater-
nos que fornecerão a informação posicional desses eixos antes da fer-
tilização. Após a fertilização, os gradientes ativam a cascata de genes 
zigóticos, isto é, uma sequência ordenada de genes, e o embrião é divi-
dido em um número de regiões definido pela combinação da atividade 
de diferentes genes em Drosophila, podendo ser maternos e paternos, 
(Wolpert, 2002). 
A organização espacial, mais a geração de diferenças, resultam no 
desenvolvimento inicial, em geral ambas precedem e especificam a 
morfogênese e a diferenciação celular. A morfogênese seria o resultado 
de forças celulares que alteram a forma e as relações entre as células. Já 
a diferenciação resulta na produção de moléculas, que caracterizam di-
ferentes tipos celulares. A mudança de forma dessas células conecta a 
ação gênica à ação mecânica. 
Mesmo obtendo algumas respostas de um lado, outras ainda ficam 
a dever, e as indagações só aumentam e vão ao mesmo ritmo das novas 
descobertas, como por exemplo: qual será a aparelhagem celular envol-
vida na mudança da forma? Como os movimentos são coordenados? 
Como os genes podem controlar forças celulares? Como diferentes ti-
pos celulares podem exercer funções tão diferentes, sendo que pos-
suem o mesmo conteúdo genético? Talvez a resposta para todas essas 
perguntas esteja nos mecanismos de expressão gênica, pois a partir de 
uma única célula fecundada, o zigoto, outras células diferentes, com 
funções específicas irão ser formadas. Como o conteúdo genético é o 
mesmo, o que poderia fazer a diferença seria a expressão dos genes 
diferentemente em cada tipo celular (Wolpert, 2002). 
O controle do padrão de expressão espacial do embrião depende 
das moléculas de adesão celular (ou CAM’s), que permitem a ligação 
entre as células.63 Os genes homeobox são conhecidos como responsá-
veis pelo controle do desenvolvimento embrionário. Eles fornecem as 
identidades posicionais às células e estas interpretam-nas de maneiras 
variadas. De modo semelhante atuam os genes hox, um subconjunto 
de genes homeobox, e que são um grupo de genes relacionados que es-
pecificam regiões do plano corporal de um embrião, por exemplo, ao 
longo do eixo cabeça-cauda dos animais (Wolpert, 2002). 
 
63 Moléculas de adesão celular (CAMs) são proteínas da membrana celular que permi-
tem interações entre duas células e de uma célula com a matriz extracelular. 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 35 
Após a análise de alguns sistemas de desenvolvimento foi percebido 
que as cascatas de ação gênica e as sinalizações intracelulares podem 
gerar um padrão, como o já citado desenvolvimento inicial da mosca, 
mais especificamente dos olhos da mosca. Já em vertebrados, não ha-
veria identificação de moléculas de sinalização, pois as informações so-
bre as bases moleculares e o controle gênico ainda permanecem des-
conhecidas. Há apenas um conhecimento precário da regulação de ta-
manho e forma. 
Agora, voltemos à indagação inicial, sobre a possibilidade de o ovo 
ser ou não computável, ou seja, é possível calcular suas características 
completas a partir do código genético? Mas, antes disso, precisamos 
indagar se o embrião pode ser considerado um sistema dinâmico, que 
sofre alterações até de forma imprevista, ou então se é uma máquina 
de estados finitos, ou seja, estágios estacionários e totalmente previsí-
veis. 
Complementando o argumento de Wolpert, verifica-se que na teo-
ria matemática do caos, desenvolvida mais recentemente a partir da 
década de 1980, diz-se que um sistema dinâmico (que mude tanto que 
pareça até ser caótico) pode ter “atratores”, o que ocorre quando a 
descrição matemática do fenômeno eventualmente se estabiliza em 
torno de um valor (o “atrator”), após um certo número de ciclos, de 
forma totalmente impossível de prever de antemão. Isto significa que 
quando se fazem modelos de sistemas naturais aparentemente caóticos, 
na verdade a natureza revela que esse “acaso” não existe, pois esses 
sistemas não seriam tão aleatórios assim. Por exemplo, na formação de 
um ciclone há alterações que parecem caóticas acontecendo, mas que 
se estabilizam com o tempo, podendo eliminar o acaso aparente. Este 
é um ponto controverso, na medida em que muitos pesquisadores ar-
gumentam que não existe nenhum finalismo na biologia. A dinâmica 
não linear dos “atratores” aplicar-se-ia também aos processos químicos 
do metabolismo fora de equilíbrio, em termos de flutuações e instabi-
lidades. Contudo, a nosso ver, se um sistema não fosse totalmente ale-
atório como o mencionado e fosse possível eliminar o acaso aparente, 
então a transformação desse mesmo sistema não poderia ser possível 
de prever, de certa forma? 
Por outro lado, uma máquina de estados finitos é como um com-
putador digital, com o qual se pode prever e calcular de antemão de 
 
 36 
uma forma determinista todo e qualquer resultado de suas operações. 
Voltando ao argumento do autor, ao ativarmos um gene produzirí-
amos uma nova proteína, e esta alteraria o comportamento da célula. 
Um exemplo interessante a favor dos sistemas dinâmicos seria a auto-
montagem de um bacteriófago inerente à sequência de aminoácidos de 
proteínas e que apresenta uma via obrigatória para interação entre elas; 
neste caso a automontagem é que levaria à diferenciação celular. A se-
quência de aminoácidos isoladamente considerados não pareceria ser 
suficiente para explicar o surgimento do bacteriófago, devido às inte-
rações não estarem codificadas nas sequências. Ou seja, só durante, ou 
após o próprio processo, é que se revela qual é o sentido que estava 
oculto na automontagem. 
Já o conceito de “autômato celular” seria um exemplo de que o 
embrião processa o seu desenvolvimento como se fosse uma máquina 
de estados finitos com mudanças discretas, a partir de “instruções” 
prévias e, portanto, passíveis de serem programadas. O desenvolvi-
mento se daria a partir do estado atual da célula mais os sinais que 
provêm das células vizinhas. Os estados são os genes que estão ativos, 
com suas interações que podem ser complexas. Existem milhares de 
diferentes estados definidos pelos diferentes padrões de ativação gê-
nica, segundo o autor. Neste caso a computação seria capaz de nos 
levar ao conhecimento detalhado da biologia celular. 
Em conclusão, neste caso computar o embrião seria estimar o es-
tado de todas as células que o constituem. Mas, qual seria o padrão de 
expressão espacial dessas células? Para isso serão necessárias mais com-
preensões da ação gênica, da bioquímica e da biofísica celular, tendo 
como premissa estabelecer bem as condições iniciais corretas do pro-
cesso. Será que a identificação das bandas cromossômicas de sequência 
seria suficiente para determinar o que um ovo se tornaria? (Wolpert, 
2002). O autor prefere o modelo da máquina de estados finitos, o re-
trato molecular de um gene, sem dúvida alguma, mostrar-nos-ia seu 
plano de desenvolvimento. 
6 O QUE É UM “EMBRIÃO” E O QUE NÓS SABEMOS? 
Com o passar dos tempos, os dicionários foram registrando dife-
rentes significados para responder ‘o que é um embrião’,desde o está-
gio primordial, o momento da fertilização, até onde ocorreria o começo 
do processo de mudança histológica. 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 37 
 
Jane Maienschein (2007) propõe seis estágios históricos relaciona-
dos à compreensão do embrião: “embrião hipotético”, “embrião fí-
sico”, “embrião biológico”, “embrião herdado”, “embrião humano vi-
sível” e “embrião construído”. 
O “embrião hipotético” abrange o período da Antiguidade até o 
século XVIII, em que o embrião permaneceu praticamente invisível 
para estudo e foi assunto para interpretações mais teóricas, desde Aris-
tóteles ao Iluminismo. Os debates ocorridos no século XVIII expuse-
ram as tradições de preformismo e epigênese que, como vimos, se 
mantiveram praticamente até agora, ainda que sofrendo transforma-
ções (Maienschein, 2007, p. 327). 
O período do “embrião físico” (século XIX ao início do século XX) 
foi marcado pelo estudo comparativo de embriões em espécies dife-
rentes para descrever os detalhes das alterações orgânicas embriológi-
cas que ocorriam. Foi o período em que ocorreram os aprimoramentos 
dos microscópicos, o que proporcionou um avanço prático nos estu-
dos (Maienschein, 2007, pp. 329-330). 
Entre 1920 e 1930, ocorreu a chamada “corrida do ouro” nos estu-
dos de causas e processos de diferenciação celular, marcando o período 
do embrião “biológico”. Este foi caracterizado com uma ênfase no 
“organizador” e nos processos e causas da diferenciação. O pesquisa-
dor Hans Spemann (1869-1941) considerou que o tecido da borda dor-
sal do blastóforo em anfíbios possuía a capacidade de “induzir” a dife-
renciação no embrião, servindo como um “organizador” para produzir 
a morfogênese (Figura 6) (Maienschein, 2007, p. 333; Moreira, 2014, p. 
247). 
Na década de 1950 iniciou o período do “embrião herdado”, devido 
à descoberta da estrutura do DNA. Algumas evidências corroboraram 
a ideia de que o desenvolvimento era dirigido por genes e que a infor-
mação e os determinantes para o desenvolvimento e diferenciação já 
estão presentes na fertilização. Foi um período marcado por experiên-
cias de clonagem de rãs e de transferências nucleares (Maienschein, 
2007, pp. 336-337). 
 
 
 
 
 38 
 
 
 
Fig. 6: Representações de possíveis estruturas organizadoras. Em a) experi-
mento, feito por Hilde Mangold e Hans Spemann em 1924, o qual revelou 
as propriedades do ‘organizador’. Quando retirado de um embrião de sala-
mandra pigmentado e enxertado em um hospedeiro não pigmentado, o or-
ganizador induziu a formação de um segundo embrião, derivado de células 
hospedeiras não pigmentadas, mostrando dessa forma aonde se localizava o 
indutor do desenvolvimento. Em b) Células tronco dotadas de propriedades 
semelhantes às do item acima (Martyn et al., 2018). O autor do artigo menci-
onado abaixo como fonte trata os discos circulares dessas células com as 
proteínas do fator de crescimento Wnt e Activina, para produzir células se-
melhantes ao que seriam os organizadores (registro em azul). Quando os dis-
cos são enxertados no tecido extra-embrionário, como mostra o item b) ao 
redor de um embrião de galinha, por exemplo, eles induziriam o tecido do 
hospedeiro a formar uma extensão do tecido neural – seria um teste padrão 
para revelar propriedades organizadoras. 
Fonte: POURQUIE, Olivier. “Human embryonic stem cells get orga-
nized”. Nature, 558: 35-36, 2018, p. 35. 
 
 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 39 
Somente a partir de 1978 começou o período do “embrião humano 
visível”, objeto de amplo interesse público, quando ocorreu o nasci-
mento do primeiro “bebê de proveta”64 (Maienschein, 2007, p. 338). A 
fertilização in vitro, que retirou os embriões do útero, e as fotografias 
publicadas por Lennart Nilsson (1922-2017) de fetos no interior da 
barriga da mãe, permitiram a visibilidade de um estágio do desenvolvi-
mento embrionário, juntamente com o uso de outras técnicas de ima-
gem, em um contexto de discussão de políticas sobre o aborto. 
Em 1997, Ian Wilmut anunciou o primeiro mamífero clonado (em 
1996), a ovelha Dolly, e começou o período do “embrião construído” 
(Maienschein, 2007, pp. 336-337). Este chegou juntamente com as pes-
quisas de recombinação genética e com células-tronco, que permitiram 
aos pesquisadores construir, desconstruir e reconstruir embriões. 
Devido aos temores e promessas envolvidos, o embrião acabou en-
tão se tornado um objeto público, além de biológico. Com isso sobre-
vieram as dúvidas e inquietações, pois as pessoas começaram a se per-
guntar o que seria normal e aceitável para embriões, preocupações até 
então ausentes dos textos que vínhamos examinando. 
Como vimos anteriormente, houve duas vertentes básicas que bus-
caram explicar o processo de desenvolvimento, por meio de observa-
ções e inúmeros experimentos. A primeira foi a aristotélica, a epigê-
nese. A outra vertente era a pré-formação, a qual dizia que a forma era 
presumida e já estava presente desde o início da existência. Essas dife-
rentes explicações renderam debates sobre o assunto, cujas raízes po-
demos ainda encontrar nos debates de hoje. 
O embrião seria um agrupamento, um aglomerado de células, que 
com o passar do tempo se tornaria uma “bola” organizada com três 
camadas (ectoderme, endoderme e mesoderme) que se tornariam par-
tes diferentes do organismo. Com esta constituição houve uma certa 
ideia de organização, que gerou questionamentos intrigantes no século 
XX. 
Hans Spemann na década de 1920 começou a refletir sobre o me-
canismo dessa organização, sobre o que causaria esse processo organi-
zador, como vimos atrás. Para ele as mudanças do “não-formado” para 
 
64 Foi no ano de 1978, que o embrião humano se tornou literalmente visível e objeto 
de grande interesse público. Foi o período do nascimento de Louise Brown, o primeiro 
“bebê de proveta”. 
 
 40 
o “formado” dentro do próprio embrião ocorreriam pela presença de 
um "organizador" e seria este que produziria a morfogênese. Após es-
tudos e experimentos, a conclusão foi clara: um embrião teria capaci-
dades internas para o desenvolvimento, e também dependeria de sinais 
e de fatores externos ao ovo e ao próprio embrião. Logo, se não hou-
vesse essas capacidades internas então não haveria um embrião. 
Os avanços tecnológicos, com a utilização de melhores microscó-
pios e de técnicas que possibilitaram a visualização de células e de seus 
processos de diferenciação. Os embriões humanos eram, porém, ainda 
invisíveis dentro das mulheres, o que fez com que seu desenvolvimento 
inicial permanecesse um mistério para a maioria das pessoas. Mais tarde 
a estrutura do DNA foi elucidada, o que deu espaço para a genética e 
a biologia molecular entrarem em cena, mostrando que a hereditarie-
dade forneceria a causa subjacente da modelagem dos processos de 
desenvolvimento. Como cada célula contém o mesmo DNA e os mes-
mos genes, e começa a se diferenciar e produzir a morfogênese ao 
longo do tempo, poderia ser que os genes e o DNA carregassem as 
informações necessárias para orientar o desenvolvimento. Os genes 
poderiam ser o “organizador” que Spemann tanto procurara. Outras 
regiões celulares, ou outras células ou outras substâncias também po-
deriam conter esse princípio de indução ou substâncias indutoras do 
desenvolvimento. 
Evidências reforçaram a ideia de que o desenvolvimento não é ape-
nas vagamente dirigido, mas, na verdade, causado pelos genes. Outros 
questionamentos foram sendo feitos e aprimorados em suas elucida-
ções, graças à tecnologia e às técnicas que não pararam de serem de-
senvolvidas e marcaram os estudos. Algumas delas foram históricas e 
já referidas para o estudo da ciência e da medicina, como o nascimento 
do primeiro bebê de proveta em 1978, as fotografias de fetos tiradas 
por Nilsson, que foram reportagem e capa da revista Life em 1969, e o 
nascimento da ovelha Dolly em 1996, por meio do uso da técnica de 
clonagem. 
Maienschein(2007) revela-nos que as pessoas começaram a se per-
guntar o que seria normal e moralmente aceitável para embriões. Antes 
do início do século XX, no que dizia respeito ao contexto e posiciona-
mento social, os embriões eram vistos como objetos materiais, sem 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 41 
questionamentos éticos sobre a adequação de coletá-los e estudá-los, a 
não ser apenas um possível valor médico e terapêutico. 
7 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES 
Esta pesquisa procurou oferecer um panorama sobre como foi en-
tendida a geração e a formação do embrião desde a Antiguidade até os 
dias atuais. A partir do exposto, é possível perceber a importância 
atemporal de Aristóteles para a filosofia e, igualmente, para a biologia 
em geral e para o presente trabalho, em particular, pois seus questiona-
mentos e suas percepções de ordem embriológica, sobre a fertilização 
e reprodução, nos levam ao cerne de muitos problemas atuais, de or-
dem biológica. Seus estudos sobre os seres vivos, estão relacionadas 
com a origem da vida65, com o desenvolvimento embrionário, com a 
indagação do que é um embrião. 
Durante alguns séculos, duas vertentes de estudo tentaram explicar 
como ocorreria a formação de um indivíduo adulto: a epigênese e o 
preformismo, resultando em controvérsias e visões de mundo distin-
tas. 
As pesquisas com tecidos, o aprimoramento dos microscópios, das 
técnicas de coloração e os estudos das células, das divisões celulares e 
das camadas germinativas contribuíram para o aprimoramento dos en-
tendimentos e das descobertas sobre a organização e a formação do 
embrião, possibilitando comparações entre espécies, juntamente com 
questionamentos concomitantes sobre a origem da vida. 
Havia cientistas que acreditavam que todos os genes agiam da 
mesma forma. Outros já acreditavam que cada gene corresponderia a 
uma enzima específica e a expressão de cada gene seria determinada 
pela interação dinâmica de proteínas reguladoras presentes na célula a 
qualquer tempo. O processo de desenvolvimento poderia se iniciar 
com o gene, e o citoplasma facilitaria que o ambiente desenvolvesse o 
gene, seria um tipo de “linguagem em ação”. 
Wolpert (2002) considera que se soubéssemos como os genes se 
alteram durante a evolução de uma cadeia de organismos, poderíamos 
entender como seriam os organismos resultantes, antes deles serem 
 
65 Para uma discussão sobre questões relacionadas à origem da vida ver Magalhães 
(2019). 
 
 42 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
formados. Para isso teríamos que entender quais são as substâncias in-
dutoras do desenvolvimento e como elas atuam no ambiente celular.
As células, a partir dessa sinalização, selecionariam um possível cami-
nho entre algumas alternativas. A partir disso, o desenvolvimento do 
embrião ocorreria mediante o controle de quais proteínas fossem pro-
duzidas e onde fossem produzidas. Mas, será que tal retrato molecular 
seria suficiente para estabelecer e nos revelar todo o desenvolvimento?
 As células poderiam escolher possíveis caminhos para seguir no 
processo da diferenciação, o que nos faz questionar a viabilidade de se 
prever todas essas alternativas. Será que conseguiríamos prever todo o 
desenvolvimento? Como preveríamos as interações e seus resultados?
Não haveria alguma influência externa no processo? (Wolpert, 2002).
 O surgimento do computador na segunda metade do século XX 
reconfigurou nossas maneiras de pensar e entender os corpos vivos.
Posteriormente, a biologia molecular, com técnicas de DNA recombi-
nante, redescobriu o organismo, mas tendo muita pouca semelhança 
com o que os antigos embriologistas entendiam.
 Muito foi feito e aprimorado, pelo que pudemos perceber, mas a 
resposta à questão “o que é um embrião? não foi respondida total-
mente. Pode parecer decepcionante, ou inúteis tais esforços. No en-
tanto, é importante rever as questões subjacentes em Maienschein 
(2007).
 É importante conhecer os caminhos que proporcionaram as discus-
sões que foram feitas, para tentarmos entender um pouco mais sobre 
o que é um embrião e esclarecer melhor algumas discussões sociais 
sobre o assunto, que se mantêm até hoje, inclusive em relação ao 
aborto.
AGRADECIMENTOS
 A primeira autora agradece ao Programa Unificado de Bolsas de 
Estudos (PUB/USP) e ao Instituto de Estudos Avançados (IEA/USP)
pela bolsa concedida.
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https://doi.org/10.11606/issn.2447-9020.intelligere.%0b2018.144362
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Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 45 
culações sobre o futuro da biologia. Trad. Laura Cardelini Barbosa de Oli-
veira. São Paulo: Editora da UNESP, 2002. 
WOLPERT, Lewis; TICKLE, Cheryll (eds). Principles of development. Ox-
ford University Press, 2011. 
 
 
Data de submissão: 16/02/2022 
Aprovado para publicação: 27/05/2022 
 
 
 
 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 47-71, 2022. 47 
A ascensão da paleontologia no final do século 
XIX: algumas considerações por Thomas Henry 
Huxley 
Julian Cristian Gonçalves da Silva Junior * 
 
Resumo: Além das pesquisas e aulas que ministrava em anatomia comparada, 
fisiologia, história natural e paleontologia, Thomas Henry Huxley (1825-1895) 
dedicou muito do seu tempo a dar palestras públicas. Estas, foram publicadas 
posteriormente como ensaios, contribuindo assim, para a difusão de suas 
ideias. Este artigo consiste em uma tradução de um desses ensaios “The rise 
and progress of paleontology” (O surgimento e a ascensão da paleontologia), 
em seu livro Collected essays: Science and the Hebrew em 1894. Neste trabalho 
Huxley apresentou à sua audiência um breve resumo sobre como a paleonto-
logia surgiu, suas escolas, suas perspectivas e como a paleontologia se encai-
xava no contexto científico geral de sua época. Ele utilizou uma linguagem 
compreensível e convincente. Esperamos que este trabalho possa contribuir 
para o conhecimento das ideias paleontológicas de Huxley. 
Palavras-chave: Tradução de fonte primária. História da Paleontologia. Tho-
mas Henry Huxley. 
The rise of paleontology in the late XIX century: some considerations 
by Thomas Henry Huxley 
Abstract: Besides his researches and classes on comparative anatomy, physi-
ology, natural history and palaeontology, Thomas Henry Huxley (1825-1895) 
spent a significant time on public lectures. Later, he published those lectures 
as essays which helped to enhance his thought. This paper translates the work 
“The rise and progress of palaeontology” by Thomas Huxley, published in his 
Collected Essays: Science and the Hebrew in 1894. Huxley dealt briefly with the 
 
* Universidade de São Paulo. Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão 
Preto. Estudante de Doutorado no Programa de Pós-Graduação em Biologia Compa-
rada, Laboratório de Paleontologia de Ribeirão Preto. E-mail: juliancristiangoncal-
ves@gmail.com 
mailto:juliancristiangoncalves@gmail.com
mailto:juliancristiangoncalves@gmail.com
 
 48 
beginnings of palaeontology, its different schools, its perspectives, and how it 
fitted the overall scientific context of his time. He used apprehensible and 
persuasive language. We hope that this work can contribute to the knowledge 
of Huxley’s palaeontological ideas. 
Keywords: Primary source translation. History of Paleontology. Thomas 
Henry Huxley. 
1 INTRODUCÃO 
Thomas Henry Huxley (1825-1895) (figura 1), naturalista britânico, 
é geralmente conhecido por sua incisiva defesa das ideias de Charles 
Darwin (1809-1882). Menos conhecida, talvez, seja sua aproximação 
com a paleontologia, embora suas contribuições para a área terem sido 
significativas (Switek, 2010, p. 252). 
Huxley nasceu em 4 de maio de 1825 em Ealing1. Frequentou por 
pouco tempo a escola primária e tinha facilidade em resolver proble-
mas mecânicos. Teve dois cunhados médicos, o que pode tê-lo levado 
a se interessar pela medicina. Iniciou aos 13 anos como ajudante de seu 
cunhado John Salt, em Londres. A educação cientifica inicial de Huxley 
consistiu em um treinamento como aprendiz no hospital Charing Cross. 
Em 1842, ele e seu irmão mais velho, James, se inscreveram para bolsas 
de estudos do hospital. (Foster, 1896, p. xlvi). Nessa época, seus inte-
resses eram variados, de literatura a ciências gerais, Huxley também 
adquiriu um bom conhecimento de francês e alemão. 
Cinco anos depois, ingressou na Marinha Inglesa e atuou como ci-
rurgião assistente no H.M.S Rattlesnake entre 1846-1850 (Lyons, 1999, 
p. 29). Nesse período, teve a oportunidade de coletar inúmeros espéci-
mes de animais marinhos, realizou dissecções e, gradualmente, acumu-
lou um grande portfólio de desenhos. 
Após seu retorno à Inglaterra em 1850, Huxley obteve uma licença 
do serviço da marinha para permanecer em Londres e trabalhar nos 
materiais que trouxera de volta do Rattlesnake (Williams, 1981, p. 590). 
Nessa época, o trabalho de Huxley era diversificado. Escreveu vá-
rios artigos anônimos para o Literary Gazette e outros periódicos, tradu-
ziu e editou diversas memórias científicas estrangeiras. Além disso, deu 
contribuições para Todd and Bowman’s Cyclopædia of Anatomy. Publicou 
 
1 Pequena vila rural, agora pertencente a Londres. 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 47-71, 2022. 49 
um grande número de memórias que tratam da anatomia microscópica 
e das relações dos invertebrados em dois periódicos: Quarterly Journal 
of Microscopical Science e Transactions of the Royal and Linnæan Societies. Deu 
uma série de palestras na Royal Institution of London, com o intuito de 
divulgar as pesquisas que estavam sendo desenvolvidas para a socie-
dade londrina (Chalmers-Mitchell, 1900, p. 49). 
Em 1854 Huxley assumiu a função de paleontólogo na British Geo-
logical Survey, que havia sido fundada em 1835, e de palestrante de His-
tória natural geral na Royal School of Mines (Foster, 1896, p. li), o que o 
marcou o início de sua carreira na área2 (Desmond, 2008, p. 430). 
 
 
Fig. 1. Thomas Henry Huxley 
Fonte: Disponível em: https://upload.wikimedia.org/wikipe-
dia/commons/b/b2/Huxley7.jpg 
 
2 Até ser nomeado na “Escola de Minas”, o trabalho de Huxley tinha sido quase intei-
ramente morfológico, lidando com os Invertebrados. 
https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/b2/Huxley7.jpg
https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/b2/Huxley7.jpg
 
 50 
 
Em seus primeiros trabalhos paleontológicos, Huxley discutiu so-
bre os peixes fósseis e anfíbios labirintodontes do Devoniano da In-
glaterra. Mais recentemente, no século XX, Wesley Wiliams comentou 
a respeito dessas contribuições de Huxley: 
Suas pesquisas sobre a morfologia desses tetrápodes basais o levaram 
a colocá-los na divisa entre peixes, anfíbios e répteis. Sua relação an-
cestral com todos os tetrápodes superiores é, desde então, bem reco-
nhecida. (Williams, 1981, p. 594) 
Leonard Huxley (1860-1933), escritor britânico e filho de Thomas 
Huxley, comentou quea partir de 18543, o trabalho administrativo e as 
pesquisas paleontológicas começaram a exigir muito mais tempo de 
Huxley do que talvez ele realmente gostaria. Em suas palavras: 
A Paleontologia e o trabalho administrativo começaram a exigir muito 
do tempo que ele [Huxley] teria dedicado de boa vontade à pesquisa 
propriamente zoológica. Suas palestras sobre História Natural, é claro, 
exigiram uma boa dose de investigação de primeira mão, e não apenas 
notas ocasionais em seus diários fragmentados, mas uma vasta massa 
de desenhos agora preservados em South Kensington atesta a quanti-
dade de trabalho que ele ainda conseguiu dedicar a estes assuntos [tra-
balhos sobre invertebrados]. [...] O Method of Paleontology4, publicado em 
1856, foi o primeiro de uma longa série de artigos que tratavam de 
criaturas fósseis, cuja descrição coube a ele como Naturalista para o 
Serviço Geológico. (Huxley, L. [1900] 2004, Chapter 1.10 - 1855-1858) 
Leonard Huxley ressaltou ainda que foi uma interessante ironia 
Huxley aceitar o posto de paleontólogo e palestrante de História natu-
ral. 
 
3 Entre suas nomeações no início da carreira, além de naturalista do Geological Survey 
estavam: conferencista no St. Thomas Hospital, professor de fisiologia na Royal Institution 
(1855) e inspetor em fisiologia e anatomia comparada na University of London (1856) 
(Nocks, 2007, p. 57). 
4 O “método de paleontologia” serviu como ensaio preliminar para todo o guia de 
alunos e foi reimpresso em 1869 pelo Smithsonian Institute of Washington com o título 
Principles and Methods of Paleontology. (Huxley, L. [1900] 2004, Chapter 1.10 - 1855-1858) 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 47-71, 2022. 51 
Em sua autobiografia, Huxley comentou sobre a resposta que deu 
a Sir Henry de la Beche5, o Diretor-Geral do Geological Survey, quando 
ele lhe ofereceu o posto de paleontólogo e que Huxley recusou num 
primeiro momento: 
Recusei o primeiro [de paleontólogo] categoricamente e aceitei o úl-
timo [de palestrante] apenas provisoriamente, dizendo a Sir Henry que 
não me importava com fósseis e que deveria desistir da História Natu-
ral assim que conseguisse obter uma posição na fisiologia. Mas ocupei 
o cargo por 31 anos e grande parte do meu trabalho tem sido paleon-
tológico. (Huxley, T in: Huxley, L. [1900] 2004, Chapter 1.10 - 1855-
1858) 
Conforme Michael Foster6 (1896, p. lvi), além da pesquisa científica, 
Huxley dedicou muito tempo e cuidado a palestras e discursos. Leo-
nard Huxley complementou: 
Mas deve ser lembrado que nada estava mais longe de sua mente do 
que o desejo de fundar uma escola de pensamento. Ele apenas se es-
forçou como erudito e estudante para esclarecer seus próprios pensa-
mentos e ajudar outros a clarear os deles, seja no mundo intelectual ou 
moral (Huxley, L. [1900] 2004, Preface/American edition) 
2 HUXLEY E A EVOLUÇÃO 
Mesmo após o Origin of species (1859) ser publicado7, as pesquisas de 
Huxley só abordariam a ideia de evolução das espécies alguns anos 
mais tarde. Segundo Brian Switek (2010), durante a década de 1860, 
 
5 Henry Thomas de la Beche (1796-1855) geólogo britânico, foi o primeiro diretor do 
British Geological Survey. 
6 Sir Michael Foster (1836-1907) foi um fisiologista britânico e aluno de Tomas Huxley. 
7 Huxley foi uma das poucas pessoas, além de Charles Lyell (1797-1875) e Joseph Dal-
ton Hooker (1817-1911), também amigos de Charles Darwin (1809-1882), a conhecer 
o argumento de Darwin antes que o Origin fosse publicado. Antes dessa época, Huxley 
havia manifestado uma posição totalmente agnóstica em relação à questão das espécies 
e, buscava inutilmente qualquer causa adequada que justificasse a transmutação 
(Huxley, L. [1900] 2004, Chapter 1.13 - 1859). Podemos mencionar ainda Herbert 
Spencer (1820-1903), Joseph Dalton Hooker (1817-1911), Alfred Russel Wallace 
(1823-1913) George John Romanes (1848-1894), dentre outros, como pertencentes do 
“círculo de amigos de Darwin” que também se envolviam em discussões públicas e 
defendiam ideias sobre os estudos de evolução (Martins, 2019, p. 120). 
 
 52 
Huxley estava preocupado em identificar os arquétipos que uniam as 
formas dos vertebrados, mas não abordou as formas de transição entre 
pássaros e répteis até ler Generelle Morphologie der Organismen (1866) de 
Ernst Haeckel (1834-1919). Foi quando Huxley “reuniu ampla evidên-
cia anatômica para ilustrar como os pássaros poderiam ter evoluído de 
algo semelhante a um dinossauro” (Switek, 2010, p. 255). 
De acordo com Mario Di Gregorio (1982), Huxley começou a im-
plementar a ideia de evolução apenas em 1868, sem abordar totalmente 
a noção de seleção natural. Nas palavras de Di Gregorio: 
Minha opinião é que depois de 1859, sob a influência de Darwin, 
Huxley foi persuadido do valor da evolução apenas como uma hipó-
tese de trabalho com respeito aos fenômenos da natureza orgânica; ele 
apoiou a teoria de Darwin publicamente como uma espécie de “pro-
grama” digno de consideração séria, mas ainda não pronto para uma 
ampla aplicação por causa da seleção natural, seu princípio básico. Ele 
integrou a evolução com seu trabalho científico somente depois de 
1868, quando encontrou a maneira de evitar referências à seleção na-
tural. Na verdade, quando ele finalmente aplicou a evolução ao estudo 
da vida animal, ela estava ganhando ampla aceitação nos círculos cien-
tíficos e era fortemente apoiada pela escola zoológica de Jena8, liderada 
por Ernst Haeckel e Carl Gegenbaur. (Di Gregorio, 1982, pp. 397-398) 
A obra de Haeckel (1866) fez Huxley mudar de vertente e iniciar a 
procura por ancestrais evidentes. 
Enquanto redigia “On the animals which are most nearly intermediate 
between birds and reptiles” (1868)9, Huxley escreveu a Haeckel em janeiro 
de 1868 (Di Gregorio 1982, p. 415) para comentar sobre seu artigo. 
Segundo Huxley: 
No trabalho científico, o principal assunto em que estou envolvido 
agora é uma revisão do Dinosauria - com um olho na Descendenz Theorie! 
A estrada dos Répteis aos Pássaros passa por Dinosauria aos Ratitae. 
O ‘filo’ dos pássaros era composto por Struthionidae, e asas surgiam 
 
8 De acordo com Di Gregorio, Huxley foi fortemente influenciado pela ciência alemã, 
especialmente pelos trabalhos de embriologia de Karl Ernst von Baer (1792-1876). 
Haeckel e Carl Gegenbaur (1826-1903) que também foram seguidores da tradição de 
von Baer (Di Gregorio, 1982, p. 398). 
9 Para conhecer essa obra, consulte “Thomas Henry Huxley e o parentesco entre di-
nossauros e aves” de Silva Junior & Martins (2021). 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 47-71, 2022. 53 
de membros anteriores rudimentares. (Huxley, T, 1868, in: Huxley, L. 
[1900] 2004, Chapter 1.22 - 1868). 
Huxley (1868) fez uma espécie de confissão à “verdade científica da 
evolução”. Em suas palavras: 
Aqueles que se apegam a doutrina da Evolução (e eu sou um deles), 
concebem que existem motivos para acreditar que o mundo, com tudo 
que está nele e sobre ele, não veio a existir na condição em que o ve-
mos agora, nem em nada que se aproxime dessa condição. (Huxley, 
1868, p. 66) 
Huxley mostrava um apreço especial por formas transitórias, nas 
quais via evidência direta dos processos de evolução (Huxley, 1868; 
Hall, 2002; Silva Junior & Martins, 2021). 
De certa forma, como comentou Leonard Huxley10 ([1900] 2004), 
houve grande benefício na troca de área de Huxley. Ele contribuiu com 
diversas pesquisas paleontológicas, além de proporcionar novos temas 
para as palestras que dava, resultantes de seu pensamento. 
Huxley contribuiu para as ciências naturais, ministrando palestras 
para a popularização do pensamento científico e preparando professo-
res nas ciências aplicadas. Ele colaborou de modo significativo para os 
estudos evolutivos e ocupou um lugar de destaque na comunidade ci-
entífica de Londres da década de 1850 até o final de sua vida. 
A tradução que segue é de um ensaio11 publicado em 1894 (figura 
2) onde Huxleytratou do início da paleontologia, seu progresso e como 
os fósseis foram vistos pela comunidade científica ao longo dos tem-
pos. Em suas palavras: 
Esta é a hipótese da evolução; e as descobertas paleontológicas da úl-
tima década estão tão completamente de acordo com as exigências 
dessa hipótese que, se ela não existisse, o paleontólogo teria de inventá-
la. (Huxley, 1894, p. 44) 
 
 
 
10 Para mais informações sobre as ideias de Thomas Huxley, leia os EBooks “A Vida e 
Cartas de Thomas Henry Huxley” do Projeto Gutenberg em: https://www.guten-
berg.org/ebooks/author/1694 
11 Discurso perante a Associação Britânica para o Avanço da Ciência em York em 
setembro de 1881. 
https://www.gutenberg.org/ebooks/author/1694
https://www.gutenberg.org/ebooks/author/1694
 
 54 
 
Fig. 2. Cap. 2 “The rise and progress of palaeontology” (Huxley, 1884). 
Fonte: <https://archive.org/details/sciencehe-
brew00huxliala/page/n5/mode/2up> 
 
Na tradução, procurou-se aproximar ao máximo do texto original, 
inclusive no que diz respeito à terminologia, tempos verbais e distri-
buição de parágrafos. Para facilitar a leitura, as páginas da obra original 
aparecem entre colchetes ao longo do texto. 
3 TRADUÇÃO: THE RISE AND PROGRESS OF 
PALAEONTOLOGY 
II 
A ASCENÇÃO E PROGRESSO DA PALEONTOLOGIA 
[1881] 
 
[24] ESSA aplicação das ciências da biologia e da geologia, que é 
comumente conhecida como paleontologia, teve sua origem na mente 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 47-71, 2022. 55 
da primeira pessoa que, tendo encontrado algo como uma concha, ou 
um osso, naturalmente encrustados em cascalho ou em uma rocha, se 
entregou a especulações sobre a natureza desta coisa que havia desen-
terrado – este fóssil – e sobre as causas que a levaram a tal situação. De 
forma rudimentar, uma vasta antiguidade pode ser atribuída com segu-
rança à paleontologia, visto que sabemos que, 500 anos antes da era 
cristã, as doutrinas filosóficas de Xenófanes12 foram influenciadas por 
suas observações sobre os restos fósseis expostos nas pedreiras de Si-
racusa. Daí em diante, não apenas os filósofos, mas os poetas, os his-
toriadores, os geógrafos da antiguidade ocasionalmente se referiram 
aos fósseis; e, após a retomada do conhecimento13, surgiram vivas con-
trovérsias a respeito de sua real natureza. 
[25] Porém, pouco mais de dois séculos se passaram desde que esse 
problema fundamental foi tratado exaustivamente pela primeira vez; 
foi apenas no século passado que o valor arqueológico dos fósseis – 
sua importância, quero dizer, como registros da história da Terra – fo-
ram totalmente reconhecidos; a primeira investigação adequada dos 
restos fósseis de qualquer grande grupo de animais vertebrados pode 
ser encontrada em “Recherches sur les Ossemens Fossiles”, de Cu-
vier14, finalizada em 1822; e, é tão moderna a paleontologia estratigrá-
fica; que seu fundador, William Smith15, viveu para receber o justo re-
conhecimento de seus serviços com a concessão da primeira Medalha 
Wollaston16 em 1831. 
 
12 Xenófanes (570-475 a.C.), filósofo grego, observou a presença de fósseis de peixes 
e conchas em localidades distantes da costa marinha, chegando à conclusão que tais 
locais em outras épocas estavam embaixo da água e um dia foram fundo de mares 
(Fairbanks, 1898, p. 69). 
13 Provavelmente aqui Huxley estava se referindo ao Renascimento. 
14 Georges Cuvier (1769-1832), naturalista francês, comparou fósseis aos animais vi-
ventes utilizando a anatomia comparada como um método para a pesquisa sobre os 
seres vivos. 
15 William Smith (1769-1839), geólogo britânico, elaborou um dos primeiros mapas 
geológicos da Grã-Bretanha. Smith realizou extensas análises estratigráficas utilizando 
índices paleontológicos. Observou que as rochas estavam dispostas em camadas e que 
os fósseis encontrados em cada uma delas eram bem diferentes (Torrens, 2001, p.72). 
16 Medalha Wollaston é um prêmio concedido pela Sociedade Geológica de Londres. 
 
 56 
Mas, embora a paleontologia seja uma especialidade científica rela-
tivamente jovem, a massa de materiais com que tem de lidar já é pro-
digiosa. Nos últimos cinquenta anos, o número de restos fósseis co-
nhecidos de animais invertebrados triplicou ou quadruplicou. O traba-
lho de interpretação de fósseis de vertebrados, cujas fundações foram 
tão solidamente estabelecidas por Cuvier, foi realizado, com maravi-
lhoso vigor e sucesso, por Agassiz17 na Suíça, por Von Meyer18 na Ale-
manha e, por último, mas não menos importante, por Owen19 neste 
país, enquanto, nos últimos anos, uma multidão de trabalhadores labu-
tou neste mesmo campo. Em diversos grupos do reino animal, o nú-
mero de formas fósseis conhecidas já é tão grande quanto o das espé-
cies existentes. Em alguns casos, é muito maior; e há ordens inteiras 
[26] de animais cuja existência nunca saberíamos, exceto pelas evidên-
cias fornecidas por restos fósseis. Com tudo isso, pode-se presumir 
seguramente que, no momento presente, não temos conhecimento de 
um dízimo dos fósseis que mais cedo ou mais tarde serão descobertos. 
Se pudermos julgar pela profusão produzida nos últimos anos pelas 
formações terciárias da América do Norte, parece não haver limite para 
a multidão de restos de mamíferos a serem esperados daquele conti-
nente; e a analogia nos leva a esperar riquezas semelhantes na Ásia Ori-
ental, contando que as formações terciárias daquela região sejam ex-
ploradas com cuidado similar. Mais uma vez, temos, por enquanto, 
quase tudo a aprender a respeito da população terrestre da época me-
sozoica20; e parece que as regiões ocidentais dos Estados Unidos esta-
vam prestes a se mostrar tão instrutivas com relação a esse ponto 
quanto o foram com relação à vida terciária. Meu amigo, Professor 
 
17 Jean Louis Rodolphe Agassiz (1807-1873), também conhecido como Louis Agassiz, 
foi um zoólogo e geólogo suíço. 
18 Christian Erich Hermann von Meyer (1801-1869), conhecido como Hermann von 
Meyer, foi um paleontólogo alemão. 
19 Richard Owen (1804-1892) foi um zoólogo e paleontólogo britânico. 
20 A Era Mesozoica durou entre 248 milhões a 65 milhões de anos atrás e foi dividida 
em três períodos: Triássico, Jurássico e Cretáceo. 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 47-71, 2022. 57 
Marsh21, me informa que, em dois anos, restos de mais de 160 indiví-
duos distintos de mamíferos, pertencentes a vinte espécies e nove gê-
neros foram encontrados em um espaço não maior que o chão de uma 
sala de bom tamanho; enquanto afloramentos da mesma idade produ-
ziram 300 répteis, variando em tamanho de comprimento de 60 a 80 
pés, até as dimensões de um coelho. 
A tarefa que me propus esta noite é tentar apresentar a vocês, o 
mais brevemente possível, um esboço das etapas sucessivas pelas quais 
nosso conhecimento [27] atual dos fatos da paleontologia e daquelas 
conclusões que são indiscutíveis, foram alcançados; e peço licença para 
lembrá-los, desde o início, que na tentativa de esboçar o progresso de 
um ramo do conhecimento para o qual contribuíram inúmeros traba-
lhos, meu compromisso é mais com generalizações do que com deta-
lhes. É meu objetivo marcar as épocas da paleontologia, não recontar 
todos os eventos de sua história. 
Aquilo que acabei de chamar de problema fundamental da paleon-
tologia, a questão que deve ser resolvida antes que qualquer outra possa 
ser discutida com proveito, é esta: Qual é a natureza dos fósseis? São 
eles, como o bom senso dos gregos antigos parece tê-los levado a pre-
sumirem sem hesitação, restos de animais e plantas? Ou são eles, como 
era geralmente presumido nos séculos XV, XVI e XVII, meras figuras 
de pedra, porções de matéria mineral que assumiram a forma de folhas, 
cascas e ossos, assim como aquelas porções de matéria mineral que 
chamamos de cristais assumem a forma de sólidos geométricos co-
muns? Ou, ainda, são, como outros pensavam, produtos dos germes 
dos animais e das sementes das plantas que se perderam, por assim 
dizer,nas entranhas da terra, e alcançaram apenas um desenvolvimento 
imperfeito e abortivo? É fácil zombar de nossos ancestrais por estarem 
dispostos a rejeitar a primeira [28] em favor de uma das duas últimas 
hipóteses; mas é muito mais enriquecedor tentar descobrir por que eles, 
que realmente não eram pessoas menos sensatas e nem sem menos 
alvura do que nossos excelentes ‘eus’ de hoje em dia, deveriam ter sido 
levados a nutrir pontos de vista que nos parecem absurdos. A crença 
 
21 Othniel Charles Marsh (1831-1899), foi um paleontólogo e professor norte-ameri-
cano. Marsh é reconhecido por seus antagônicos embates com outro paleontólogo 
americano, Edward Drink Cope (1840-1897), os quais ficaram conhecidos como ‘A 
guerra dos ossos’. Para mais informações sobre essa história, consulte REA, 2021. 
 
 58 
no que é erroneamente chamado de geração espontânea, ou seja, o de-
senvolvimento da matéria viva a partir da matéria mineral, à parte da 
ação da matéria viva preexistente, como uma ocorrência comum nos 
dias atuais – que ainda é sustentado por alguns de nós, foi universal-
mente aceito como uma verdade óbvia por eles. Eles poderiam apontar 
para as formas arborescentes assumidas pela geada e por diversos mi-
nerais metálicos como evidência da existência na natureza de uma 
“força plástica” competente para permitir que a matéria inorgânica as-
sumisse a forma de corpos organizados. Então, como todos aqueles 
que estão familiarizados com os fósseis sabem, eles apresentam inúme-
ras gradações, desde conchas e ossos que se assemelham exatamente 
aos objetos recentes, até massas de mera pedra que, por mais que repi-
tam com precisão a forma externa do corpo orgânico, nada mais têm 
em comum com ele; e, daí, até meros traços e fracas impressões na 
substância contínua da rocha. O que agora sabemos ser o resultado de 
mudanças químicas que ocorrem no curso da fossilização, pelas quais 
o mineral é substituído por uma substância orgânica, pode, na ausência 
de tal conhecimento, ser interpretado com justiça [29] como a expres-
são de um processo de desenvolvimento na direção oposta – do mine-
ral para o orgânico. Além disso, em uma época em que teria parecido 
o mais absurdo dos paradoxos sugerir que o nível geral do mar é cons-
tante, enquanto o da terra sólida flutua para cima e para baixo por mi-
lhares de pés em uma ondulação secular do solo, pode muito bem ter 
parecido muito menos arriscado conceber que os fósseis são brinque-
dos da natureza do que aceitar a alternativa necessária, que todas as 
regiões do interior e planaltos, em cujas rochas foram encontradas con-
chas marinhas, um dia foram cobertas pelo oceano. Não é tão surpre-
endente, portanto, como pode parecer à primeira vista, que embora 
homens como Leonardo da Vinci22 e Bernard Palissy23 tivessem apenas 
impressões sobre a natureza dos fósseis, a opinião da maioria de seus 
contemporâneos apontava fortemente para o outro lado; nem mesmo 
 
22 Para conhecer mais sobre os estudos com fósseis de Leonardo da Vinci (1452-1519), 
consulte A montanha de moluscos de Leonardo da Vinci (2003) de Stephen Jay Gould. Nesta 
coletânea, Gould comenta o trabalho de Leonardo da Vinci sobre fósseis marinhos 
encontrados em algumas rochas e observa que embora a conclusão de Da Vinci esti-
vesse correta, suas explicações se baseavam em crenças medievais. 
23 Bernard Palissy (1510-1589), foi um engenheiro e artesão francês. 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 47-71, 2022. 59 
esse erro se manteve muito depois de os fundamentos científicos da 
verdadeira interpretação dos fósseis terem sido declarados, de uma ma-
neira que nada deixou a desejar, na segunda metade do século XVII. 
Quem prestou esse bom serviço à paleontologia foi Nicolas Steno24, 
professor de anatomia em Florença, embora fosse dinamarquês de nas-
cimento. Os colecionadores de fósseis daquela época estavam familia-
rizados com certos elementos denominados “glossopetrae”25, e havia 
muita especulação quanto à sua natureza. Na primeira metade do sé-
culo XVII, Fabio Colonna26 tentou convencer seus colegas [30] da fa-
mosa Accademia dei Lincei27 de que os glossopetrae eram apenas dentes 
fósseis de tubarão, mas seus argumentos não impressionaram. Cin-
quenta anos depois, Steno reabriu a questão e, ao dissecar a cabeça de 
um tubarão e apontando a correspondência exata de seus dentes com 
o glossopetrae, não deixou nenhuma dúvida racional quanto à sua origem. 
Até agora, o trabalho de Steno foi um pouco mais longe do que o de 
Colonna, mas felizmente ocorreu a ele pensar em todo o assunto da 
interpretação de fósseis, e o resultado de suas meditações foi a publi-
cação, em 1669, em um pequeno tratado com o título muito curioso 
de “De Solido intra Solidum naturaliter contento”. O curso geral do 
argumento de Steno pode ser resumido em poucas palavras. Fósseis 
são corpos sólidos que, por algum processo natural, passaram a ser 
contidos em outros corpos sólidos, a saber, as rochas nas quais estão 
embutidos; e o problema fundamental da paleontologia, enunciado de 
maneira geral, é este: “Dado um corpo dotado de uma certa forma e 
produzido de acordo com as leis naturais, encontrar naquele próprio 
corpo a evidência do lugar e da maneira de sua produção.”28 A única 
maneira de resolver este problema é pela aplicação do axioma de que 
 
24 Nicolas Steno (1638-1686) observou que alguns dentes de tubarão eram semelhantes 
com certos materiais, encontrados incrustados dentro de formações rochosas, que seus 
contemporâneos chamavam de glossopetrae. 
25 Junção das palavras gregas “glóssa” (língua) + “petra” (rocha), uma possível alusão 
ao formato dos dentes de tubarões. 
26 Fabio Colonna (1567-1640) naturalista italiano. 
27 Instituição científica fundada em 1603 em Roma. Para conhecer mais sobre a histó-
ria da Accademia Nazionale dei Lincei, visite o site: <https://www.lincei.it/it/storia> 
28 De Solido intra Solidum, p. 5. — “Dato corpore certa figura prasdito et juxta leges 
naturae producto, in ipso corpore argumenta invenire locum et modum productions 
detegentia.” Nota de Thomas Huxley. 
https://www.lincei.it/it/storia
 
 60 
“efeitos semelhantes implicam causas semelhantes”, ou como Steno 
coloca, em [31] referência a este caso particular, que “corpos que são 
totalmente semelhantes foram produzidos da mesma maneira.”29 Con-
sequentemente, uma vez que os glossopetrae são totalmente semelhantes 
aos dentes dos tubarões, eles devem ter sido produzidos por peixes 
semelhantes aos tubarões; e, uma vez que muitas conchas fósseis cor-
respondem, nos mínimos detalhes de estrutura, às conchas de animais 
marinhos ou de água doce existentes, elas devem ter sido produzidas 
por animais semelhantes; e o mesmo raciocínio é aplicado por Steno 
aos ossos fósseis de animais vertebrados, sejam aquáticos ou terrestres. 
À objeção óbvia de que muitos fósseis não são totalmente semelhantes 
aos seus análogos vivos, diferindo em substância enquanto concordam 
na forma, ou sendo meros vazios ou impressões, cujas superfícies são 
figuradas da mesma forma que as de organismos animais ou vegetais, 
Steno responde apontando as mudanças que ocorrem nos restos orgâ-
nicos incrustados na terra, e como sua substância sólida pode ser dis-
solvida inteiramente, ou substituída por matéria mineral, até que nada 
reste do original, exceto um molde, uma impressão ou um mero traço 
de seus contornos. Os princípios de investigação assim expostos e ilus-
trados de forma excelente por Steno em 1669 são aqueles que, consci-
ente ou inconscientemente, têm guiado as pesquisas dos paleontólogos 
desde então. Mesmo aquela façanha da paleontologia que [32] impres-
sionou tão poderosamente a imaginação popular, a reconstrução de um 
animal extinto a partir de um dente ou osso, é baseada na aplicação 
imaginável mais simples da lógica de Steno. Uma breve consideração 
mostrará, de fato, que a conclusão de Steno de que os glossopetrae são 
dentes de tubarão implica a reconstrução de um animal apartir de seu 
dente. Equivale a afirmar que o animal do qual os glossopetrae são relíquia 
tinha a forma e a organização de um tubarão; que tinha um crânio, uma 
coluna vertebral e membros semelhantes aos que são característicos 
deste grupo de peixes; que seu coração, guelras e intestinos apresenta-
vam as peculiaridades que os de todos os tubarões apresentam; mais 
ainda, que quaisquer partes duras que seu tegumento contivesse fossem 
de um caráter totalmente diferente das escamas de peixes comuns. Es-
 
29 “Corpora sibi invicem omnino similia simili etiam modo proclucta sunt.” Nota de 
Thomas Huxley. 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 47-71, 2022. 61 
sas conclusões são tão certas quanto a razão indica. E são assim, sim-
plesmente porque uma experiência muito ampla justifica-nos acreditar 
que dentes dessa forma e estrutura particulares estão invariavelmente 
associados à organização peculiar dos tubarões e nunca são encontra-
dos em conexão com outros organismos. Por que isso acontece, não 
estamos em condições nem mesmo de imaginar; devemos tomar o fato 
como uma lei empírica da morfologia animal, cuja razão pode possi-
velmente ser encontrada um dia na história da evolução da tribo dos 
tubarões, mas para a qual é inútil buscar uma explicação em causas [33] 
fisiológicas comuns. Todos aqueles que estão familiarizados com a pa-
leontologia sabem que não é todo dente, nem todo chifre, que nos per-
mite julgar o caráter do animal a que pertence; e que é possível possuir 
muitos dentes, e até mesmo uma grande porção do esqueleto de um 
animal extinto, e ainda assim ser incapaz de reconstruir seu crânio ou 
seus membros. Somente quando o dente ou osso apresenta peculiari-
dades, que sabemos por experiência anterior serem características de 
um determinado grupo, podemos prever com segurança que o fóssil 
pertence a um animal do mesmo grupo. Qualquer pessoa que encon-
trar um molar de vaca pode estar perfeitamente certo de que pertence 
a um animal que tinha dois dedos completos em cada pata e ruminava; 
qualquer um que encontrar um molar de cavalo pode estar tão certo de 
que ele tinha um dedo completo em cada pé e não ruminou; mas se 
ruminantes e cavalos fossem animais extintos, dos quais nada além dos 
molares jamais tivessem sido descobertos, nenhuma quantidade de ra-
ciocínio fisiológico poderia ter nos permitido reconstruir qualquer um 
dos animais, muito menos adivinhar as grandes diferenças entre os 
dois. Cuvier, em Discours sur les Revolutions de la Surface du Globe30, estra-
nhamente credita a si mesmo, e desde então tem sido creditado por 
outros, a invenção de um novo método de pesquisa paleontológica. 
Mas se você voltar para Recherches sur les Ossemens Fossiles31 e observar 
Cuvier, não especulando, mas [34] trabalhando, você descobrirá que 
 
30 Publicado em 1826, Discours sur les Revolutions de la Surface du Globe, é tida como a 
principal obra de Cuvier, onde o mesmo aborda temas como catastrofismo, anatomia 
comparada e faz diversas discussões sobre o registro fóssil. Para mais informações, 
consulte Faria (2020). 
31 Publicado em 1812, Recherches sur les Ossemens Fossiles é um extenso tratado anatômico 
onde Cuvier descreve diversos animais. 
 
 62 
seu método não é nem mais nem menos que o de Steno. Se ele foi 
capaz de fazer sua famosa imofecia32 a partir da mandíbula que jazia 
sobre a superfície de um bloco de pedra para a pélvis do mesmo animal 
que estava escondido nele, não era porque ele, ou qualquer outra pes-
soa, sabia, ou sabe, por que uma mandíbula com um certo formato é, 
via de regra, frequentemente acompanhada pela presença de ossos de 
marsupiais, mas simplesmente porque a experiência tem mostrado que 
essas duas estruturas estão relacionadas. 
O estabelecimento da natureza dos fósseis levou imediatamente ao 
próximo avanço da paleontologia, ou seja: sua aplicação para decifrar 
a história da terra. Quando se admitiu que os fósseis são restos de ani-
mais e plantas, seguiu-se que, na medida em que se assemelhavam a 
animais e plantas terrestres ou de água doce, são evidências de sua exis-
tência na terra, ou em água doce; e, na medida em que se assemelhavam 
a organismos marinhos, são evidências de sua existência no mar na 
época em que eram partes de animais e plantas realmente vivos. Além 
disso, na ausência de evidência contrária, deve-se admitir que os orga-
nismos terrestres ou marinhos implicam na existência de terra ou mar 
no local em que foram encontrados enquanto ainda viviam. Na ver-
dade, tais conclusões foram aceitas por todos que acreditavam que os 
fósseis eram realmente [35] restos orgânicos, do tempo de Xenófanes 
em diante. Steno discute seu valor como evidência de alteração repetida 
das condições marinhas e terrestres no solo da Toscana de uma ma-
neira digna de um geólogo moderno. As especulações de De Maillet33 
no início do século XVIII giram em torno dos fósseis; e Buffon34 o 
acompanha de perto em suas duas notáveis obras, Theorie de la Terre e 
Epoques de la Nature35 com as quais ele iniciou e encerrou sua carreira 
de naturalista. 
As frases iniciais de Epoques de la Nature nos mostram quão plena-
mente Buffon reconheceu a analogia entre as pesquisas geológicas e 
 
32 No original imophecy. Do latim “imus” (intimo) + “prophetia” (advinhação). 
33 Benoît de Maillet (1656-1738) foi um diplomata francês no Egito. 
34 Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon (1707-1788) foi um naturalista francês. 
35 Ambas as obras foram publicadas dentro do compêndio Histoire naturelle, générale et 
particulière, publicado entre 1749 e 1804. Neste compêndio, Buffon procurou abordar 
sistematicamente todo o conhecimento existente nos campos de história natural, geo-
logia e antropologia. 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 47-71, 2022. 63 
arqueológicas: “Como na história civil, consultamos feitos, buscamos 
moedas ou deciframos inscrições antigas para determinar as épocas das 
revoluções humanas e fixar a data dos acontecimentos morais; então, 
na história natural, devemos pesquisar os arquivos do mundo, recupe-
rar antigos monumentos das entranhas da terra, coletar seus restos fra-
gmentados e reunir um corpo de evidências com todos os sinais de 
mudança física que possam permitir olhar para trás para as diferentes 
idades da natureza. É o nosso único modo de fixar alguns pontos na 
imensidão do espaço e de definir um certo número de marcos ao longo 
do caminho eterno do tempo.” 
Buffon enumera cinco classes desses monumentos da história pas-
sada da Terra, e todos eles são fatos da paleontologia. Em primeiro 
lugar, diz ele, as conchas e outras produções marinhas encontram-se 
[36] por toda a superfície e no interior da terra firme; e todas as rochas 
calcárias são feitas de seus restos. Em segundo lugar, muitas dessas 
conchas encontradas na Europa não podem ser encontradas nos mares 
adjacentes; e, até agora nas ardósias e outros depósitos profundos, há 
restos de peixes e de plantas das quais nenhuma espécie existe agora 
em nossas latitudes e que estão extintas ou existem apenas em climas 
mais setentrionais. Em terceiro lugar, na Sibéria e em outras regiões do 
norte da Europa e da Ásia, ossos e dentes de elefantes, rinocerontes e 
hipopótamos ocorrem em tal número que esses animais devem ter vi-
vido e se multiplicado nessas regiões, embora atualmente estejam con-
finados aos climas do sul. Os depósitos em que esses restos são encon-
trados são superficiais, enquanto aqueles que contêm conchas e outros 
restos marinhos são muito mais profundos. Em quarto lugar, presas e 
ossos de elefantes e hipopótamos são encontrados não apenas nas re-
giões do norte do velho mundo, mas também nas do novo mundo, 
embora, atualmente, nem elefantes nem hipopótamos ocorram na 
América. Em quinto lugar, no meio dos continentes, nas regiões mais 
remotas do mar, encontramos um número infinito de conchas, das 
quais a maior parte pertence a animais daqueles tipos que ainda existem 
nos mares do sul, masdos quais muitos outros não têm análogos vivos; 
de modo que essas espécies parecem perdidas, destruídas por alguma 
[37] causa desconhecida. É desnecessário indagar até que ponto essas 
afirmações são estritamente precisas; o suficiente para justificar as con-
 
 64 
clusões de Buffon de que a terra seca já esteve sob o mar; que a forma-
ção das rochas fossilíferas deve ter ocupado um lapso de tempo muito 
maior do que o tradicionalmente atribuído à idade da Terra; que restos 
fósseis indicam diferentes condições climáticas obtidas em épocas an-
teriores, e especialmente que as regiões polares já foram mais quentes; 
que muitas espécies de animais e plantas foram extintas; e essa mu-
dança geológica teve algo a ver com a distribuição geográfica. 
Mas essas proposições quase constituem uma estrutura da paleon-
tologia. Para completá-la, apenas uma adição foi necessária, e esta foi 
feita nos últimos anos do século XVIII, por William Smith, cujo traba-
lho se aproxima tanto de nossa época que muitos homens vivos pode-
riam tê-lo conhecido pessoalmente. Este modesto agrimensor, cujo ne-
gócio o levou a muitas partes da Inglaterra, lucrou com as condições 
peculiarmente favoráveis oferecidas pelo arranjo de nossos estratos se-
cundários para fazer um exame cuidadoso e comparação de seus con-
teúdos fósseis em diferentes pontos da grande área sobre a qual eles se 
estendem. O resultado de suas observações precisas e amplamente vas-
tas foi estabelecer a importante verdade de que cada estrato [38] con-
tém certos fósseis que lhe são peculiares; e que a ordem em que os 
estratos caracterizados por esses fósseis são sobrepostos uns aos ou-
tros é sempre a mesma. Essa generalização importante foi rapidamente 
verificada e estendida para todas as partes do mundo acessíveis aos 
geólogos; e agora repousam sobre uma massa tão imensa de observa-
ções que são uma das verdades mais bem estabelecidas da ciência na-
tural. Para o geólogo a descoberta foi de infinita importância, pois lhe 
permitiu identificar rochas com a mesma idade relativa, mas podendo 
suas continuidades serem interrompidas ou suas composições altera-
das. Mas para o biólogo tinha um significado ainda mais profundo, pois 
demonstrava que, ao longo do prodigioso tempo registrado pelas ro-
chas fossilíferas, a população viva da Terra havia sofrido mudanças 
contínuas, não apenas pela extinção de certo número de espécies que 
existiram inicialmente, mas pela geração contínua de novas espécies, e 
a não menos constante extinção das antigas. 
Assim, as grandes fronteiras da paleontologia, na medida em que 
são propriedade comum do geólogo e do biólogo, foram definidas no 
final do século passado. Ao acompanhar seu progresso subsequente, 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 47-71, 2022. 65 
devo me limitar à província da biologia e, de fato, à influência da pale-
ontologia sobre a morfologia zoológica. E eu aceito essa limitação, com 
mais boa vontade, como o não menos importante tópico da influência 
da geologia e da paleontologia na distribuição de Lias36 que foi tratada 
com luminosidade no discurso do Presidente da Seção Geográfica37. 
Estabelecida a sucessão das espécies de animais e plantas no tempo, 
a primeira pergunta que o zoólogo ou o botânico teve que fazer foi: 
qual é a relação dessas espécies sucessivas umas com as outras? E é 
curioso que o acontecimento mais importante da história da paleonto-
logia, que sucedeu imediatamente à generalização de William Smith, 
tenha sido uma descoberta que, se bem avaliada na época, teria ido 
longe no sentido de sugerir a resposta, que de fato demorou mais de 
meio século. Refiro-me à investigação de Cuvier sobre fósseis de ma-
míferos produzidos pelas pedreiras nas rochas terciárias mais antigas 
de Montmartre, que, entre os principais resultados, está trazer à luz 
dois gêneros extintos de quadrúpedes com cascos, o Anoplotherium e o 
Palaeotherium. Os ricos materiais à disposição de Cuvier permitiram que 
ele obtivesse um conhecimento completo da osteologia e da dentição 
destas duas formas e, consequentemente, comparar criticamente a sua 
estrutura com a de outros animais com cascos atualmente existentes. 
O efeito dessa comparação foi provar que o Anoplotherium38, embora 
apresentasse muitos pontos de semelhança com os porcos [40] por um 
lado e com os ruminantes por outro, diferia de ambos a tal ponto que 
[Cuvier] não conseguia encontrar lugar para ele em nenhum dos gru-
pos. Na verdade, ocupava, em alguns aspectos, uma posição interme-
diária, tendendo a transpor o intervalo entre esses dois grupos, que na 
fauna existente são tão distintos. Da mesma forma, o Palaeotherium39 
tendia a conectar formas tão diferentes como a anta, o rinoceronte e o 
cavalo. As investigações subsequentes trouxeram à luz uma variedade 
de fatos da mesma ordem, os mais curiosos e impressionantes dentre 
os quais estão aqueles que provam a existência, na época mesozoica, 
 
36 A época inicial do Jurássico. 
37 Sir J. D. Hooker. Nota de Thomas Huxley. 
38 Anoplotherium é um gênero extinto de mamífero da ordem Artiodátila, presente do 
Eoceno tardio ao Oligoceno inicial de diversas regiões da Europa. 
39 Palaeotherium é um gênero extinto de mamífero da ordem Perissodáctila, presente do 
Eoceno médio ao Oligoceno inicial de diversas regiões da Europa. 
 
 66 
de uma série de formas intermediárias entre pássaros e répteis – duas 
classes de animais vertebrados que no momento parecem estar mais 
amplamente separadas do que quaisquer outras40. No entanto, o inter-
valo entre eles é completamente preenchido, na fauna mesozoica, por 
pássaros com caracteres reptilianos, de um lado, e répteis com caracte-
res orníticos, do outro. Então, novamente, enquanto o grupo de peixes, 
denominado ganóides, é, no momento, tão distinto daquele dos dipnoi, 
ou peixes-lama, dos quais foram contados como ordens distintas, os 
estratos devonianos nos apresentam formas das quais é impossível di-
zer com certeza se são dipnoi ou se são ganóides. 
As longas e elaboradas pesquisas de Agassiz sobre peixes fósseis, 
publicadas entre 1833 e 1842, levaram-no a sugerir a existência de ou-
tro tipo de relação entre as formas de vida [41] antigas e modernas. Ele 
observou que os peixes mais antigos apresentam muitos caracteres que 
lembram as condições embrionárias dos peixes existentes; e que, não 
apenas entre os peixes, mas em vários grupos de invertebrados que têm 
uma longa história paleontológica, as formas mais recentes são mais 
modificadas, mais especializadas, do que as anteriores. O fato da den-
tição dos mamíferos carnívoros e ungulados terciários mais velhos es-
tar sempre completa, notado pelo professor Owen, ilustrou a mesma 
generalização. 
Outra observação não menos sugestiva foi feita pelo Sr. Darwin, 
cujas investigações durante a viagem do Beagle o levaram a observar o 
fato singular, de que, a fauna, que precede imediatamente a que atual-
mente existe em qualquer província geográfica de distribuição, apre-
senta as mesmas peculiaridades de suas sucessoras. Assim, na América 
do Sul e na Austrália, os fósseis terciários ou quaternários posteriores 
mostram que a fauna imediatamente anterior à de hoje foi, num caso, 
tanto caracterizada por edentados e, no outro, por marsupiais como é 
agora, embora as espécies mais antigas sejam muito diferentes das da 
fauna mais recente. 
Por mais que essas indicações possam apontar claramente em uma 
direção, a questão da relação exata das sucessivas formas de vida animal 
e vegetal só poderia ser resolvida satisfatoriamente de uma maneira; a 
saber, comparando, estágio por estágio, a série de formas apresentadas 
 
40 Para conhecer mais sobre as ideias de Huxley a respeito destas formas transitórias 
consulte: Silva Junior & Martins, 2021. 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 47-71, 2022. 67 
por um mesmo tipo ao longo [42] de um amplo espaço de tempo. Nos 
últimos anos, isso foi completamente feito no caso do cavalo, e menoscompletamente no caso dos outros tipos principais de ungulados e car-
nívoros; e todas essas investigações tendem a um resultado geral, a sa-
ber, que, em qualquer série, os membros sucessivos dessa série apre-
sentam uma especialização de estrutura gradualmente crescente. Isto é, 
se qualquer mamífero atualmente existente tem membros reduzidos ou 
dentição especialmente modificadas e cérebro complicado, seus prede-
cessores, com o tempo, mostram cada vez menos modificação dos 
dentes e redução nos membros e um cérebro menos desenvolvido. Os 
trabalhos de Gaudry41, Marsh e Cope fornecem ilustrações abundantes 
desta lei a partir da maravilhosa riqueza fóssil de Pikermi42 e da vasta 
série ininterrupta de rochas terciárias nos territórios da América do 
Norte. 
 
Vou agora resumir os resultados deste esboço da ascensão e do pro-
gresso da paleontologia. Todo o tecido da paleontologia é baseado em 
duas proposições: a primeira é que os fósseis são os restos de animais 
e plantas; e a segunda é que as rochas estratificadas em que são encon-
tradas são depósitos sedimentares; e cada uma dessas proposições é 
fundada no mesmo axioma, que efeitos semelhantes implicam causas 
semelhantes. Se houver alguma causa competente para produzir um 
caule fóssil, ou concha, ou osso, exceto um ser vivo, então a paleonto-
logia não tem fundamento; se a estratificação das rochas não é o efeito 
de causas que atualmente produzem a estratificação, não temos meios 
de julgar a duração do tempo passado ou a ordem em que as formas 
de vida se sucederam. Mas se essas duas proposições forem atendidas, 
não há como escapar, como me parece, de três conclusões muito im-
portantes. A primeira é que a matéria viva existe na Terra há muito 
tempo, certamente há milhões de anos. A segunda é que, durante esse 
 
41 Jean Albert Gaudry (1827-1908) foi um geólogo e paleontólogo francês. Em Ani-
maux fossiles et géologie de l'Attique (1862-67), descreveu e ilustrou com detalhes diversas 
espécies fósseis da fauna pikermiana. 
42 Pikermi é uma cidade localizada na Grécia. Possui um importante sítio paleontoló-
gico com mais de quarenta espécies de mamíferos oriundos do Mioceno (8 milhões de 
anos atrás) encontrados na região. 
 
 68 
lapso de tempo, as formas da matéria viva sofreram mudanças repeti-
das, cujo efeito foi que a população animal e vegetal, em qualquer pe-
ríodo da história da Terra, contém certas espécies que não existiam em 
algum período antecedente e outros que deixaram de existir em algum 
período subsequente. A terceira é que, no caso de muitos grupos de 
mamíferos e alguns de répteis, em que um tipo pode ser seguido por 
uma extensão considerável do tempo geológico, a série de diferentes 
formas pelas quais o tipo é representado, em intervalos sucessivos 
deste o tempo é exatamente como seria se tivessem sido produzidos 
pela modificação gradual das formas mais antigas da série. Esses são 
fatos da história da terra garantidos por evidências tão boas quanto 
quaisquer fatos da história civil. 
Até agora, mantive [de modo] cuidadosamente claro todas as hipó-
teses às quais os homens, em várias ocasiões, se esforçaram para ajustar 
aos fatos da paleontologia, ou [44] pelas quais eles se esforçaram para 
conectar tantos desses fatos com outros que lhes eram familiares. Não 
creio que seja um emprego lucrativo de nosso tempo discutir concep-
ções que, sem dúvida, tiveram sua justificativa e até mesmo seu uso, 
mas que agora são obviamente incompatíveis com as verdades com-
provadas da paleontologia. No momento, essas verdades deixam es-
paço para apenas duas hipóteses. A primeira é que, ao longo da história 
da Terra, inúmeras espécies de animais e plantas passaram a existir, 
independentemente umas das outras, inúmeras vezes. Isso, é claro, ou 
implica em uma geração espontânea em uma magnânima escala, e de 
animais como cavalos e elefantes, tem ocorrido, como um processo 
natural, durante todo o tempo registrado pelas rochas fossilíferas; ou 
necessita da crença em inúmeros atos de criação repetidos inúmeras 
vezes. A outra hipótese é que as espécies sucessivas de animais e plan-
tas surgiram, as últimas pela modificação gradual da anteriores. Esta é 
a hipótese da evolução; e as descobertas paleontológicas da última dé-
cada estão tão completamente de acordo com as exigências dessa hi-
pótese que, se ela não existisse, o paleontólogo teria de inventá-la. 
Sempre tive um certo horror de ousar limitar as possibilidades das 
coisas. Portanto, não me aventurarei a dizer que é impossível que as 
numerosas espécies de animais [45] e plantas possam ter sido produzi-
das, separadamente, por geração espontânea; nem que seja impossível 
que elas tenham sido originadas independentemente por uma sucessão 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 47-71, 2022. 69 
infinita de atos criativos milagrosos. Mas devo confessar que ambas as 
hipóteses me parecem tão incrivelmente improváveis, tão desprovidas 
de qualquer respaldo científico ou tradicional, que mesmo se não hou-
vesse outra evidência em seu favor, além da paleontologia, eu deveria 
me sentir compelido a adotar a hipótese de evolução. Felizmente, o 
futuro da paleontologia independe de todas as considerações hipotéti-
cas. Daqui a cinquenta anos, quem se comprometer a registrar o pro-
gresso da paleontologia notará o tempo presente como a época em que 
a lei da sucessão das formas dos animais superiores foi determinada 
pela observação dos fatos paleontológicos. Ele apontará que, assim 
como Steno e Cuvier foram capacitados, a partir de seu conhecimento 
das leis empíricas da coexistência das partes dos animais, para concluir 
a partir de uma parte para um todo, também o conhecimento da lei de 
sucessão das formas empoderou seus sucessores para concluir, de um 
ou dois termos de tal sucessão, para toda a série; e, assim, adivinhar a 
existência de formas de vida, das quais, talvez, nenhum vestígio perma-
neça, em épocas de distanciamento inconcebível no passado. 
AGRADECIMENTOS 
O autor agradece o apoio da FAPESP (Processo 18/21094-7) e tam-
bém à Tatiane Barbosa Martins pelas contribuições na elaboração deste 
trabalho. 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
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Data de submissão: 16/11/2021 
Aprovado para publicação: 23/04/2022 
 
https://doi.org/10.11606/issn.2447-9020.intelligere.2021.185719
https://doi.org/10.1144/SP343.15
https://doi.org/10.1144/GSL.SP.2001.190.01.06
 
 
 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 73-91, 2022. 73 
As espécies sob a perspectiva de Louis Agassiz: 
1857-1874 
 Pedrita Fernanda Donda * 
 
Resumo: O zoólogo suíço o Jean Louis Rodolphe Agassiz (1807-1873) criti-
cou duramente a proposta de Charles Darwin logo após a publicação do Origin 
of species (1859). O objetivo deste artigo é discutir sobre a visão de Agassiz em 
relação às espécies no período compreendido entre 1857 e 1874, procurando 
detectar se houve mudanças. Esta pesquisa levou à conclusão de que no perí-
odo considerado, Agassiz manteve sua posição fixista e criacionista e fez as 
mesmas críticas à proposta de Darwin. Estas diziam respeito principalmente 
à seleção natural, concepção de espécie e falta de evidências do gradualismo. 
Assim, não houve mudanças em sua posição. 
Palavras-chave: História da evolução. Louis R. Agassiz. Charles Darwin; Se-
leção natural. 
 
Species from Louis Agassiz’s perspective: 1857-1874 
 
Abstract: The Swiss zoologist Jean Louis Rodolphe Agassiz (1807-1873) 
harshly criticized Charles Darwin’s proposal shortly after the publication of 
the Origin of species (1859). This paper aims to discuss Agassiz’s view of species 
between 1857 and 1874, trying to detect any change. This research concluded 
that Agassiz maintained his fixist and creationist position in the period con-
sidered and made the same criticisms of Darwin’s proposal. His critics were 
concerned mainly with natural selection, the species conception, and the lack 
of evidence for gradualism. So, there were no changes in his position. 
Keywords: History of evolution. Louis R. Agassiz. Charles R. Darwin; Na-
tural selection. 
 
 
 
* Laboratório de História e Teoria da Biologia (LHTB/USP). Email: pedrita-
donda@gmail.com 
mailto:pedritadonda@gmail.com
mailto:pedritadonda@gmail.com
 
 74 
1 INTRODUÇÃO 
Desde sua infância Jean Louis Rodolphe Agassiz (1807-1873), mais 
conhecido como Louis Agassiz, se interessou por animais, especial-
mente peixes. Porém sua educação formal teve início em 1817, quando 
ele tinha dez anos, e foi concluída em 1832, aos vinte e cinco (Corman, 
1973, p. 182). Estudou em Lausanne, Zurich, Heidelberg e München. 
Em sua primeira publicação, Agassiz descreveu peixes brasileiros 
que tinham sido levados para a Europa por dois naturalistas viajantes, 
Karl Friedrich Phillip von Martius (1794-1868) e Johann Baptist von 
Spix (1781-1826). 
Em Paris estudou com Cuvier e Alexander von Humboldt (1769-
1859). Aos vinte e cinco anos, quando já havia se graduado em Medi-
cina e em Filosofia, identificou 500 espécies e 50 gêneros de peixes 
extintos e publicou um trabalho sobre peixes fósseis que, além do 
texto, apresentava desenhos (Kucera, 1930, p. 49). Entre 1833 e 1843 
descreveu em detalhes mais de 1700 espécies de peixes fósseis, identi-
ficando sua localização estratigráfica e suas relações taxonômicas (Lu-
rie, 1959, p. 80). 
Com Lorenz Oken (1779-1851), Agassiz estudou os princípios da 
classificação. Sob a orientação de Friedrich Wilhelm Joseph Schelling 
(1775-1854), suas concepções religiosas tornaram-se menos dogmáti-
cas. Porém, ele manteve a crença em Deus, e a convicção de que a 
diversidade de formas de animais poderia ser explicada como produto 
do pensamento divino (Warren, 1934, p. 385). Posteriormente viajou a 
Paris, considerada o centro da pesquisa biológica. Lá teve a oportuni-
dade de estudar com Cuvier, já reconhecido nos círculos governamen-
tais e respeitado como zoólogo (Romer, 1949, p. 48). Cuvier contribuiu 
com o material que havia coletado (peixes fósseis) para uma monogra-
fia de Agassiz que posteriormente foi incorporada em sua obra Recher-
ches sur les poissons fossiles (“Investigações sobre os peixes fósseis”) (War-
ren, 1934, p. 387). 
 Em 1836, Agassiz estudou as geleiras nos Alpes. Dois anos depois, 
publicou a obra Études sur les glaciers (“Estudos sobre as geleiras”) Entre 
1837 e 1847 propôs uma teoria de glaciação que admitia que vastas 
áreas da Europa e América inicialmente haviam sido cobertas por uma 
camada de gelo, da qual as atuais geleiras são remanescentes. As more-
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 73-91, 2022. 75 
nas e rochas polidas atualmente encontradas são indícios desse pro-
cesso. Desenvolveu também estudos embriológicos e zoológicos em 
animais marinhos, contribuindo para a zoologia de invertebrados (Lu-
rie, 1959, p. 90), tendo sido aluno de Karl Ernst von Baer (1792-1876). 
 De acordo com Peter Bowler, para Agassiz, o significado da pro-
gressão dos fósseis de peixes até os mamíferos só seria percebido se 
essa progressão fosse comparada com o desenvolvimento embrionário 
(Bowler, 1989, p. 127). 
Agassiz visitou o Lowell Institute em Boston em 1846 onde ministrou 
conferências que foram muito bem recebidas. Foi convidado a ocupar 
a cadeira de História Natural na Lawrence Scientific School, em Cambridge, 
MA. Esse convite representou o início de sua relação com a Universi-
dade de Harvard. Recebeu os prêmios Cuvier e da Legião de Honra, 
tendo sido convidado para voltar para a França e ocupar um posto de 
distinção, mas optou por permanecer na América. Participou de várias 
expedições científicas, como por exemplo,no Lago Superior, nos Es-
tados Unidos. Em uma expedição ao Brasil coletou 1442 espécies de 
peixes. 
Além de seu trabalho em Harvard, Agassiz fez viagens e investiga-
ções. Durante o verão de 1848, com um grupo de estudantes, ele ex-
plorou a região do Lago Superior. O relato publicado subsequente-
mente da jornada foi uma contribuição importante para a geologia 
americana. Além disso, Boston lhe ofereceu a oportunidade de estudar 
zoologia marinha. Ele passou muitos dias navegando na Baía de Mas-
sachusetts no Coastal Survey Steamer, “Bibb”, que foi colocado à sua dis-
posição (Warren, 1934, p. 392). 
Em novembro de 1859, Charles Robert Darwin (1809-1882) enviou 
a Louis Agassiz (1807-1873) um exemplar do Origin of species, apesar de 
saber que seus pontos de vista eram diferentes. Nessa época, Agassiz 
era professor de zoologia e geologia na Universidade de Harvard e co-
lega de Asa Gray (1810-1888) que lecionava botânica (Donda, 2020, p. 
26). 
O objetivo deste artigo1 é discutir sobre a visão de Agassiz em rela-
ção às espécies no período compreendido entre 1857 e 1874, procu-
rando detectar se houve mudanças. 
 
1 Este artigo se baseou principalmente na tese de Doutorado da autora (Donda, 2020). 
 
 76 
 
 
 
 
Fig. 1. Louis Agassiz 
Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Jean_Louis_Agas-
siz_1870.jpg> 
 
2 AGASSIZ E A ZOOLOGIA 
Na segunda metade do século XIX se admitia a existência de três 
reinos na natureza: animal, vegetal e mineral. Por outro lado, a ideia de 
progresso estava muito presente, inclusive na ciência (Nisbet, 1980) e 
Agassiz a considerou seriamente em relação aos estudos zoológicos. 
Ele desejava que os naturalistas norte-americanos ocupassem um papel 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 73-91, 2022. 77 
de destaque na área e que suas obras fossem lidas não apenas por es-
pecialistas, mas também por pescadores, fazendeiros e estudantes 
(Donda, 2020, p. 26). 
Para Agassiz, era muito importante que as espécies fossem descritas 
e nomeadas de modo correto. Em suas palavras: 
Com referência ao futuro progresso da Zoologia neste século é dese-
jável particularmente [...] que os investigadores não dirijam seus esfor-
ços somente a descrever meramente o que é novo, mas é desejável que 
todas as nossas espécies possam ser descritas e nomeadas correta-
mente. Este trabalho está somente nos passos iniciais em direção aos 
estudos mais profundos e filosóficos. Quanto antes a atenção estiver 
voltada para o modo de vida dos animais, sua distribuição geográfica, 
afinidades naturais, estrutura interna, desenvolvimento embrionário e 
o estudo dos restos fósseis, mais rápido as investigações dos naturalis-
tas americanos irão contribuir para o avanço da ciência e eles adquiri-
rão uma posição independente entre os homens da ciência (Agassiz, 
1857, p. ix) 
Ao tratar da classificação, Agassiz utilizou espécimes encontradas 
em diversos museus como o Smithsonian e o Museu da Academia de 
Ciências Naturais da Filadélfia, dentre outros. Ele estudou os jacarés e 
as tartarugas (Agassiz, 1857, p. xi). 
Ele considerava que os estudos embriológicos, como aqueles que 
desenvolvera em quelônios, eram essenciais para a classificação, pois 
possibilitavam comparar de modo preciso os diferentes estágios de de-
senvolvimento dos animais jovens de qualquer grupo e as característi-
cas permanentes dos adultos de outros tipos2 (Agassiz, 1857, pp. 3; 5). 
Além disso, podiam trazer esclarecimentos sobre as afinidades existen-
tes entre os animais. Contudo, os estudos embriológicos levaram-no a 
crer que o desenvolvimento dos animais não dependia de causas exter-
nas. (ibid., 1857, pp. 85-87). 
 
 
2 Por “tipo” (type), Agassiz entendia as principais divisões do reino animal. Mais tarde, 
se referiu ao “ramo do reino animal”, porque o termo tipo (type) era empregado em 
diferentes situações e geralmente, para designar qualquer grupo de qualquer tipo (kind). 
Como a utilização do termo tipo (type) era muito frequente nos trabalhos de sistemática, 
zoologia, anatomia comparada, Agassiz acabou optando por utilizar o termo “ramos” 
(branches) (Donda, 2019, p. 27). 
 
 78 
 
 
Fig. 2. Variedades de quelônios 
Fonte: Agassiz, Louis. Contributions to the natural history of the United States. 
Parte II. Boston: Little, Brown and Company. London: Trübner & Co, 1857. 
Reproduzida em: Donda, 2020, p. 28. 
 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 73-91, 2022. 79 
 
 
Fig. 3. O desenvolvimento da tartaruga. 
Fonte: Agassiz, Louis. Contributions to the natural history of the United States. 
Parte II. Boston: Little, Brown and Company. London: Trübner & Co, 1857. 
Reproduzido em: Donda, 2020, p. 32. 
 
 
 
 80 
Em relação às espécies, ele concordava com Carl von Linné (1707-
1778) e George Cuvier (1769-1832)3 que admitiam que elas eram fixas. 
Agassiz assim se expressou: 
A questão que estamos examinando agora envolve somente a fixidez 
ou a mutabilidade das espécies durante uma época, uma era ou um 
período na história do nosso globo. Não há argumento em favor da 
mutabilidade. Pelo contrário, mesmo as investigações modernas ape-
nas confirmam os resultados obtidos por Cuvier,4 e sua visão de que 
as espécies são fixas (Agassiz, 1857, p. 53) 
3 AS RELAÇÕES ENTRE AS ESPÉCIES E O MEIO 
Em suas investigações, Agassiz encontrou evidências que indica-
vam que os mesmos tipos eram encontrados nas mais variadas circuns-
tâncias, o que era um forte argumento contra a hipótese de que os 
agentes físicos tivessem influência sobre as características dos seres vi-
vos (Agassiz, 1857, p. 35). Ele comentou: 
Não há diferenças estruturais entre os arenques do Ártico, da zona 
temperada, dos trópicos ou das regiões antárticas. Também não há di-
ferenças entre as raposas e lobos que habitam as regiões mais distantes 
do globo (Agassiz, 1857, pp.16-17) 
Ele acreditava que as espécies foram introduzidas ao mesmo tempo 
em diferentes locais do globo terrestre. Além disso, negava que hou-
vesse ocorrido migração e dispersão de sementes. Em suas palavras: 
Os detalhes da distribuição geográfica dos animais, mostram de fato, 
demasiada discriminação para admitir por um único momento que isso 
poderia ser o resultado de um acidente, isto é, o resultado de migrações 
 
3 Ele considerava um grande passo no progresso da ciência ter sido assegurado que as 
espécies tinham características físicas, que não mudavam no decorrer do tempo e que 
esse aspecto tinha adquirido maior importância após ter sido estabelecido por Cuvier 
(Agassiz, 1857, p. 51). 
4 A partir de seus estudos de anatomia comparada, Cuvier admitiu a existência de qua-
tro grupos no reino animal: Vertebrata, Mollusca, Articulata e Radiata. Cada um deles 
representava os padrões básicos da organização animal e estava subdividido em classes, 
ordens, gêneros e famílias. O meio podia levar à produção de variedades, mas as espé-
cies eram fixas (Bowler, 1989, p. 114). 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 73-91, 2022. 81 
acidentais de animais ou a dispersão acidental de sementes de plantas. 
(Agassiz, 1857, p. 40). 
Na visão de Agassiz as influências externas, ou causas físicas, não 
poderiam afetar as principais características dos indivíduos como seu 
plano de estrutura, por exemplo. Afetariam somente as partes do corpo 
que estivessem em contato direto com o mundo externo tais como as 
camadas externas da pele, a cor e espessura do pelo, a cor do cabelo, 
as penas e escamas (Agassiz, 1857, p. 17). Um crescimento mais rápido 
ou lento poderia também ser influenciado até certo ponto pelas esta-
ções em anos diferentes, do mesmo modo que a fecundidade e a dura-
ção da vida. Mas ele considerava que nada disso podia modificar as 
características essenciais dos animais (Agassiz, 1857, p. 33). Ele comen-
tou: 
Em outras palavras, em todos esses animais e plantas, há um lado de 
sua organização relacionado diretamente aos elementos [que estão pre-
sentes]onde vivem, e outro que não possui essa conexão. É justamente 
esta parte da estrutura dos animais e das plantas, que não tem relação 
direta com as condições a que eles estão submetidos na natureza, e que 
constitui o essencial, seu próprio caráter. Isso prova, acima de qualquer 
possível objeção, que os elementos que estão presentes no local em 
que os animais e plantas vivem (eu quero dizer, incluindo tudo o que 
é comumente chamado de agentes físicos, causas físicas, etc.) não po-
dem de modo nenhum serem considerados como causa de sua exis-
tência. (Agassiz, 1857, pág. 33) 
Na citação acima, Agassiz expressou sua discordância em relação às 
concepções evolutivas de naturalistas, como Jean Baptiste Pierre An-
toine de Monet, Chevalier de Lamarck (1744-1829) e Robert Chambers 
(1802-1871), que ofereciam não apenas uma explicação física para a 
origem da vida, mas que consideravam que o meio ambiente poderia 
provocar modificações nos órgãos ou partes do corpo dos seres vivos 
(Martins, 2008b; Hueda & Martins, 2014). 
É importante lembrar que para poder entender a complexidade e as 
interações existentes entre as partes internas que tornavam possíveis as 
funções vitais, Cuvier priorizava o estudo da estrutura interna de cada 
animal. Ele atribuía grande importância à correlação entre as partes, 
isto é, às relações necessárias que deveriam existir entre os órgãos ou 
 
 82 
partes para que o organismo como um todo se tornasse viável. A so-
brevivência, a seu ver, dependia da relação entre as partes do animal e 
o meio. Somente se o anatomista tivesse conhecimento dos diferentes 
tipos de animais, poderia antecipar as relações necessárias para criar 
uma estrutura viável (Bowler, 1989, pp. 112-113). 
De acordo com Agassiz tinha sido “verificado” que as espécies 
apresentavam caracteres fixos: 
 A verificação de que as espécies têm caracteres fixos e que não mudam 
no decorrer do tempo foi um grande passo para o progresso da ciência. 
Mas esse fato, o qual devemos a Cuvier, tem adquirido grande impor-
tância desde que foi estabelecido. Mesmo as mudanças mais extraor-
dinárias no modo de existência e nas condições sob as quais os animais 
se encontram, não têm mais influência sobre seus caracteres essenciais 
do que os lapsos do tempo. (Agassiz, 1857, p. 51) 
No trecho acima é possível perceber qual era a concepção de ciência 
de Agassiz. Ele utilizava vários termos relacionados ao empirismo e 
positivismo como, por exemplo, “verificar”, que significa avaliar o grau 
de verdade. Além disso, ele tinha a ideia de que a ciência está sujeita a 
progresso, conforme comentamos no início da seção 2 deste artigo. 
Além de defender a fixidez das espécies, Agassiz considerava que 
elas tinham sido criadas por Criador inteligente e sua classificação per-
mitia que os humanos entendessem o pensamento desse Criador 
(Agassiz, 1857, p. 8). 
De acordo com Edward Lurie, o esquema de criação era para Agas-
siz tão verdadeiro em tempos passados quanto no presente e as quatro 
divisões (gêneros, famílias, ordens e classes) estiveram presentes nas 
formações geológicas iniciais (Lurie, 1959, p. 94). 
Agassiz assim se expressou: 
Os gêneros é verdade, permanecem por longos períodos; famílias, or-
dens e classes podem ter até existido durante todos os períodos em 
que os animais existiram; mas seja qual for a duração de sua existência, 
essas divisões sempre tiveram a mesma relação umas com as outras e 
com seus respectivos ramos. Sempre foram representadas no nosso 
globo da mesma maneira, por uma sucessão de indivíduos sempre re-
novados e de curta duração. (Agassiz, 1857, p. 22) 
Ele negava que houvesse agentes ou leis que fossem responsáveis 
pela origem dos organismos. Ele assim se expressou: 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 73-91, 2022. 83 
Não existem agentes nem leis na natureza que sejam conhecidos pelos 
físicos, cuja influência e ação, possam ter originado esses seres. Pelo 
contrário, a verdadeira natureza desses seres e as relações entre eles e 
com o mundo em que vivem pode ser inferida apenas pela ação ime-
diata de um Ser pensante [...] e a maneira pela qual eles se originaram 
permanece um mistério até o presente. (Agassiz, 1857, pp. 13-14) 
No trecho acima reproduzido, está implícita a discordância de 
Agassiz com Lamarck e Chambers ou mais tarde Darwin, que admi-
tiam a existência de leis naturais. 
Agassiz considerava a intervenção direta do Criador na natureza. 
Assim, ao contrário de Erasmus Darwin ou Lamarck (Martins, 2007 a; 
Martins, 2007b; Donda, 2015) não era deísta, mas teísta, criacionista. 
Nas palavras de Agassiz: “Todos esses seres não existem em conse-
quência da ação contínua de causas físicas, mas seu aparecimento su-
cessivo se deu devido à intervenção imediata do Criador” (Agassiz, 
1857, p. 135). Como “prova” disso, ele apresentou o argumento que se 
segue: 
Os produtos do que comumente se chama de causas físicas são os 
mesmos em todos os lugares, (sobre toda a superfície do globo terres-
tre) e sempre foram os mesmos (durante todos os períodos geológi-
cos); enquanto os seres organizados são diferentes em todos os lugares 
e em todas as eras. Entre essas duas séries de fenômenos não pode 
haver uma conexão causal ou genética. (Agassiz, 1857, p. 135) 
Conforme Peter Bowler, o homem era a meta do plano divino e 
Agassiz (Bowler, 1992, p. 48). 
Ao estudar o registro fóssil, Agassiz se deparou com dificuldades 
em estabelecer relações entre os restos de animais e plantas nas dife-
rentes formações geológicas. A paleontologia era uma ciência muito 
jovem e era necessário muita paciência e trabalho nesses estudos (Agas-
siz, 1857, pp. 93; 94). Porém, havia um ponto que não podia ser ques-
tionado: a existência em cada grande era de um agrupamento de ani-
mais e plantas que diferiam em cada período (Agassiz, 1857, p. 96). A 
seu ver, isso não poderia ser explicado por causas físicas, mas pela in-
tervenção de um Criador (Agassiz, 1857, 106). 
 
 
 
 84 
4 A VISÃO DE AGASSIZ APÓS A PUBLICAÇÃO DO 
ORIGIN OF SPECIES 
No ano que se seguiu à publicação da primeira edição do Origin of 
species foi publicada uma resenha crítica de autoria de Agassiz (1860). 
Nesta ele enfatizou que as ideias contidas no Origin estavam em com-
pleto desacordo com sua visão sobre as espécies: 
Darwin, em seu recente trabalho sobre a "Origem das Espécies", tam-
bém fez muito para abalar a crença na existência real das espécies, mas 
as visões que ele defende estão totalmente em desacordo com as que 
procurei estabelecer (Agassiz, 1860, p. 142) 
 Acrescentou que os argumentos apresentados por Darwin não ti-
nham sido convincentes e nem fizeram com que ele modificasse a sua 
visão (Agassiz, 1860, p. 144). 
Dentre outros aspectos, tanto na resenha como em publicações 
subsequentes, Agassiz criticou as concepções de Darwin sobre espécie 
e variedade; a descendência comum, o gradualismo, a seleção natural, 
bem como a analogia entre seleção natural e seleção artificial. 
 Agassiz atribuiu a Darwin a negação da existência de espécies na 
natureza: “Se as espécies não existem como sustentam os defensores 
da teoria da transmutação, como elas podem variar?” (Agassiz, 1860, 
p. 143). 
Provavelmente devido às dificuldades apontadas por Darwin e ou-
tros naturalistas como Lamarck, por exemplo, em definir espécie e va-
riedade, Agassiz e o filósofo da ciência contemporâneo Elliot Sobber 
interpretaram sua posição como não aceitando objetivamente a exis-
tência de espécies. No entanto, Darwin aceitava a existência de espé-
cies. Caso contrário, não escreveria uma obra tratando de sua origem 
(Martins, 2008a, p. 326). 
Darwin comentou a esse respeito e também em relação às críticas 
feitas por Agassiz à analogia que ele fazia entre a seleção natural e a 
seleção artificial fazia (Darwin, 1859, cap. 10) em uma carta dirigida ao 
botânico norte-americano Asa Gray: 
Fiquei surpreso por Agassiz não ter conseguido escrever alguma coisa 
melhor. Que falácia:- “se as espécies não existem, como elas podem 
variar?” Como se alguém duvidasse de sua existência temporária. Quão 
friamente ele assume que existe alguma distinção clara entre diferenças 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 73-91, 2022. 85 
individuais & variedades. Não é de se espantar que um homem que 
considera formas idênticas encontradas em dois países diferentes 
como espécies extintas, não possa perceber a variação na natureza e 
que não considere razoável supor que variedades selecionadas pelo ho-
mem pela sua fantasia se assemelhem a variedades naturais das espé-
cies. [...] (Carta de Darwin para Asa Gray, 11/08/1860. Darwin Cor-
respondence Project. Letter no. 2896) 
Agassiz se opôs à ideia de que as espécies atualmente existentes 
descendessem de um ancestral comum. A seu ver, os ramos do reino 
animal se relacionavam a diferentes planos de organização, desde o iní-
cio (Agassiz, 1860, p. 143). 
 Adicionalmente, o naturalista suíço, com base no registro geoló-
gico, negou o gradualismo do processo evolutivo admitido por Dar-
win, ou seja, que cada espécie tivesse se originado a partir do acúmulo 
de pequenas modificações sobre as quais age a seleção natural. Em suas 
palavras: 
Se a teoria da transmutação fosse verdadeira, o registro geológico de-
veria exibir uma sucessão ininterrupta de tipos se combinando gradu-
almente entre si. O fato é que em todos os tempos geológicos cada 
período é caracterizado por tipos específicos definidos, pertencentes a 
gêneros definidos, e estes a famílias definidas, referíveis a ordens defi-
nidas, constituindo classes definidas e ramificações definidas, constru-
ídas sobre planos definidos. Até que se mostre que os fatos da natureza 
foram confundidos por aqueles que os coletaram, e que eles têm um 
significado diferente do que geralmente lhes é atribuído, considerarei 
a teoria da transmutação como um erro científico, falso em seus fatos, 
não científico em seu método e travesso em sua tendência. (Agassiz, 
1860, p. 154) 
Percebemos algumas interpretações equivocadas da proposta de 
Darwin na resenha de Agassiz tais como, relacionar o surgimento das 
primeiras espécies à geração espontânea (Agassiz, 1860, p.149). Parece 
que ele não tinha conhecimento de que Darwin não tratou da origem 
dos primeiros seres vivos e não fez qualquer menção à geração espon-
tânea no Origin of species. 
Agassiz também se confundiu em relação as visões de Benoît de 
Maillet em Telliamed, uma obra de ficção (Martins, 2001) com as pro-
postas de Chambers, Lamarck e Darwin. Além disso, atribuiu a Darwin 
a ideia de que as plantas e animais deveriam necessariamente sofrer 
 
 86 
uma melhoria em consequência da luta pela vida que leva a preservação 
dos mais aptos. Em nenhum momento Darwin mencionou que a sele-
ção natural levava ao melhoramento de animais ou plantas em relação 
à sua complexidade, mas apenas à sobrevivência do mais adaptado, não 
necessariamente o mais complexo em termos orgânicos. 
Após a publicação da sexta edição do Origin of species de Darwin 
(1872), Agassiz (1873) criticou a apropriação do termo “evolução” para 
se referir à transmutação das espécies. A seu ver, este termo pertencia 
aos embriologistas e aos zoólogos de um modo geral. Ou seja, o termo 
deveria ser empregado com a conotação que tinha durante o século 
XIX, como na época em que viveu Lamarck (Martins, 2007a, p. 13), 
por exemplo, significando o desenvolvimento do indivíduo desde o 
ovo até a fase adulta. Em suas palavras: 
Esses sucessivos estágios de desenvolvimento constituem a evolução 
como entendida pelos embriologistas, e dentro desses limites todos os 
naturalistas que conhecem alguma coisa de zoologia podem ser consi-
derados evolucionistas (Agassiz, 1874, p 92) 
Agassiz alertou sobre os perigos da utilização dos termos “evolu-
ção” e “evolucionista” do modo que vinha ocorrendo recentemente. 
Ele acreditava que isso poderia levar ao esquecimento do único pro-
cesso do tipo que tinha sido demonstrado: o desenvolvimento dos ani-
mais (Agassiz, 1874, p. 92), no sentido embriológico. 
O naturalista suíço criticou as teorias que proliferavam na época. 
Embora não tenha deixado explícito, estava se referindo às teorias que 
envolviam a transmutação das espécies. Ao mesmo tempo, valorizava 
as contribuições de Cuvier e sua visão sobre os quatro planos de orga-
nização que, a seu ver, as outras teorias estavam deixando de lado. 
Contudo, em um certo momento Agassiz amenizou o tom, apesar de 
ter se referido à “doutrina” e não à “teoria” de Darwin, como se pode 
perceber no trecho abaixo reproduzido: 
Mas Darwin colocou o assunto sob diferentes bases em relação a seus 
antecessores e trouxe para discussão uma grande quantidade de infor-
mações bem organizadas, argumentos convincentes, e uma apresenta-
ção com charme cativante. Sua doutrina tem um forte apelo ao 
mundo científico porque ela não se apoiou inicialmente em bases me-
tafísicas, mas na observação. Certamente deveria ser dito que ele tratou 
o assunto de acordo com os melhores métodos científicos se ele não 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 73-91, 2022. 87 
tivesse ultrapassado, com frequência, os limites do verdadeiro conhe-
cimento e permitido que a imaginação fornecesse ligações que a ciência 
não fornece. (Agassiz, 1874, p. 94, ênfase nossa) 
 Como é sabido, Darwin atribuía grande importância à herança das 
modificações leves a que estavam sujeitas as espécies ao longo do 
tempo, ou em tempo mais curto, pela seleção artificial. Assim, para 
Darwin, não era possível haver evolução sem que essas modificações 
fossem herdadas. Também é conhecido que Darwin aceitava a herança 
de caracteres adquiridos pelo uso e desuso ou mesmo, em alguns casos, 
a herança direta de mutilações. Em relação à herança de um modo ge-
ral, e particularmente, à herança de caracteres adquiridos, Agassiz assim 
se expressou: 
Ninguém pode negar que a herança é um fator poderoso para a manu-
tenção das raças e o melhoramento de espécies e variedades. Mas 
nunca se soube que qualidades adquiridas, mesmo se mantidas através 
de sucessivas gerações, levassem à produção de novas espécies. O es-
tilo atrativo de Darwin é ainda mais sedutor ao se referir a esse assunto. 
Suas frases concisas e de efeito têm o peso de aforismos e se passam 
correntemente por princípios quando são apenas asserções infunda-
das. O mesmo se aplica à sobrevivência do mais apto (Agassiz, 1874, 
p. 98). 
Ao finalizar, Agassiz se referiu à relutância dos darwinistas em re-
conhecer a existência de um poder intelectual que interferia na diversi-
dade encontrada na natureza: 
E se fosse verdade? Os que se opõe aos atos repetidos de criação sem-
pre consideram que nenhum progresso pode ocorrer no conheci-
mento sem repetidos atos de pensamento? E o que são pensamentos, 
senão atos específicos da mente? Por que, então, seria não-científico 
inferir que os fatos da natureza são o resultado de um processo seme-
lhante, já que não existem evidências de outra causa? O mundo surgiu 
de uma maneira ou de outra. Como se originou é a grande questão, e 
a teoria de Darwin, como todas as outras tentativas para explicar a ori-
gem da vida, é até agora apenas conjectural. Creio que ele nem sequer 
fez a melhor conjectura possível no estado atual do nosso conheci-
mento (Agassiz, 1874, p. 101). 
 
 
 88 
Nessa passagem, Agassiz cometeu um equívoco, pois Darwin em 
suas obras, incluindo o Origin of species, não tratou da origem da vida. 
5 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES 
Esta pesquisa mostrou que antes da publicação do Origin of species, 
Agassiz era fixista. Além disso, era criacionista, pois atribuía a criação 
das espécies ao mesmo tempo em diferentes locais do globo a um Cri-
ador inteligente. Portanto, não aceitava que a origem dos seres vivos 
tivesse ocorrido a partir da ação de forças físicas ou leis naturais. Adi-
cionalmente, a ação do meio sobre as espécies tinha um caráter secun-
dário. As evidências encontradasem seus estudos embriológicos e pa-
leontológicos e os estudos anatômicos de Cuvier contribuíram para o 
seu posicionamento em relação as espécies. 
Ele foi um embriologista e empregava o termo “evolução” no sen-
tido que era adotado até então pelos naturalistas, especialmente aqueles 
que se dedicavam à embriologia, como sendo o que entendemos atual-
mente por ontogênese. 
Considerando o que foi mencionado no primeiro parágrafo desta 
seção, era de se esperar que Agassiz tivesse restrições à proposta de 
Darwin e isso de fato ocorreu. Suas críticas à proposta de Darwin di-
ziam respeito principalmente à seleção natural, à concepção de espécie, 
à falta de evidências do gradualismo no registro geológico e à apropri-
ação do termo “evolução”. Ele não concordou com a analogia feita por 
Darwin entre o trabalho do criador de animais e plantas (seleção artifi-
cial) e o trabalho da seleção natural na natureza. Ele criticou também 
outros elementos importantes da teoria de Darwin como por exemplo, 
a luta pela existência, a sobrevivência do mais apto ou a seleção natural. 
Também não aceitava um dos meios de modificação das espécies pro-
postos por Darwin: a herança e caracteres adquiridos 
Em muitos momentos Agassiz considerou a proposta de Darwin 
como uma conjectura, comparando-a às propostas de representantes 
da Naturphilosophie, consideradas especulativas na época em que preva-
leciam as concepções empiristas. Chegou mesmo a comparar a ideia de 
Darwin à visão apresentada em uma obra de ficção publicada de forma 
anônima, o Telliamed, mais tarde atribuída a Benoît de Maillet, que foi 
cônsul francês no Egito. 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 73-91, 2022. 89 
 Podemos afirmar que no período estudado, não houve mudanças 
na posição de Agassiz em relação às espécies. Ele continuou sendo fi-
xista e criacionista. Mesmo o longo argumento de Darwin presente no 
Origin (Regner, 1995, Cap. 7, pp. 310-314) não o convenceu da trans-
mutação das espécies. 
AGRADECIMENTOS 
Agradeço à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível 
Superior (CAPES) pelo apoio recebido que viabilizou a realização desta 
pesquisa. 
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2021. 
 
 
Data de submissão: 20/12/2021 
Aprovado para publicação: 22/04/2022 
 
 
 
 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n.1, p. 93-113, 2022. 93 
Discussões em torno da história e filosofia da bio-
logia aplicadas ao ensino de biologia 
 Pedro Leal de Souza * 
Lavínia Schwantes# 
 
Resumo: A história e a filosofia da biologia buscam compreender, principal-
mente, como a biologia emergiu, se desenvolveu e estabeleceu. Sendo assim, 
estudos de história e filosofia da biologia oferecem diversas possibilidades 
para o ensino de biologia, no sentido de promover uma abordagem que bus-
que contextualizar e aproximar a ciência biológica dos estudantes. Tendo isso 
em mente, buscamos neste trabalho, mapear a produção da revista Filosofia e 
História da Biologia, dedicada à história, filosofia da biologia e suas interfaces. 
Nesse sentido, analisamos um total de 262 artigos publicados no período entre 
2006 e 2020, que correspondem a todas as publicações presentes na revista 
até a finalização desta pesquisa. Como resultado, encontramos: a) estudos que 
abordam a construção de conceitos específicos da Biologia; b) o desenvolvi-
mento histórico e filosófico das subáreas da Biologia como, por exemplo, 
Evolução e Genética; c) a contribuição de autores específicos para estas áreas; 
d) e além dos artigos que tratam particularmente do ensino de biologia. Con-
cluímos que, apesar de a maior parte das pesquisas não possuir como tema 
principal a educação, elas podem fornecer subsídios teóricos tal como diversas 
estratégias para a prática docente, como contextualizar a ciência biológica, 
aproximá-la dos estudantes e desenvolver um ensino de biologia menos frag-
mentado.Palavras-chave: História e Filosofia da Biologia. Educação científica. Estudo 
bibliométrico. 
 
 
* Universidade Federal do Rio Grande. Licenciado em Ciências Biológicas. E-mail: 
lealpedro30@gmail.com 
 # Universidade Federal do Rio Grande. Instituto de Educação. E-mail: lavini-
asch@gmail.com 
 
 94 
Title Discussions around the History and Philosophy of Biology ap-
plied to Biology teaching 
 
Abstract: The history and philosophy of biology seek to understand, mainly, 
how biology emerged, established and developed. Thus, history and philoso-
phy studies offer several possibilities for teaching biology, promoting an ap-
proach that seeks to contextualize and bring biological science closer to stu-
dents. This work tries to map the production of the journal Philosophy and His-
tory of Biology, mainly devoted to the history, philosophy of biology and their 
interfaces. It analyzed 262 articles published between 2006 and 2020, corre-
sponding to all publications present in the journal until the end of this period. 
As a result, we found: a) studies that approach the construction of specific 
concepts of biology; b) the historical and philosophical development of the 
subareas of Biology, such as Evolution and Genetics; c) the contribution of 
specific authors to these areas; d) and beyond the articles that deal mainly with 
the teaching of biology. Despite most articles do not have Science Education 
as their primary aim, they offer subsidies for teaching practice, contextualizing 
biological science, and making it less fragmented and more accessible to the 
students. 
Keywords: History and Philosophy of Biology. Science Education. Biblio-
metric study. 
1 INTRODUÇÃO 
Atualmente, temos um campo de estudos bem desenvolvido no que 
se refere à história e filosofia da ciência. As pesquisas nessa área bus-
cam, principalmente, investigar de que forma emergiu e se estabeleceu 
a ciência que encontramos atualmente. A partir disso, pretendemos en-
tender quais foram os objetivos e qual o papel da ciência no contexto 
histórico, em contraste com o seu papel e os seus objetivos na contem-
poraneidade. Neste sentido, a história e filosofia da ciência nos ajudam 
a entender de que forma as Ciências se insere no cotidiano, como gera 
tecnologia e se relaciona com as atividades humanas (Pessoa Jr., 1996). 
Com a revolução científica, que se iniciou por meados do século 
XVII e se estendeu até o fim do século XVIII, a ciência moderna 
emerge e se estabelece baseada principalmente em seus métodos em-
píricos. Nesse período, o que se entendia por conhecimento transfor-
mou-se radicalmente, e os pensadores da época foram levados a rever 
como se considerava a produção do conhecimento. Nesse momento, 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n.1, p. 93-113, 2022. 95 
passou-se a desenvolver a ciência. Tanto as questões epistemológicas 
quanto as metodológicas, que se desenvolveram na época, contribuí-
ram para o processo de formação da Ciência contemporânea que te-
mos hoje (Marcondes, 2016). 
Neste sentido, segundo Ernst Mayr (2005), de acordo com a tese 
clássica de Kuhn, a ciência progride por meio dessas revoluções cien-
tíficas. Isso pela razão de que a partir do momento em que se estabe-
leceu a ciência moderna, as revoluções científicas ocorrem de maneira 
ocasional, e são separadas por longos períodos de “ciência normal”. 
Cada uma das áreas da ciência, tem seus “paradigmas”, que represen-
tam um sistema complexo de crenças, valores, interpretações de 
mundo e teorias tomadas como aceitas em determinado contexto his-
tórico. No curso de uma revolução científica, a Ciência acaba por ado-
tar paradigmas inteiramente novos, que irão determinar o período sub-
sequente de Ciência normal. (Kuhn, 1975; Mayr, 2005, p.106). 
A partir disso, reflete-se que os paradigmas se alternam em cada 
uma das áreas da ciência. Por essa razão, é preciso estudar cada uma 
das ciências em períodos específicos. Como exemplo disso, há os pa-
radigmas que norteiam os estudos biológicos. 
Nessa perspectiva, ainda de acordo com Mayr (2005, p.106), os es-
tudos de Kuhn, podem auxiliar a reconhecer os paradigmas referentes 
a cada um dos períodos e a cada uma das subáreas. E, além disso, eles 
serão uma das formas de investigar as mudanças na maneira de se pro-
duzir o conhecimento. Cabe ressaltar que os estudos de Kuhn não fo-
ram os únicos que tentaram entender a estrutura de funcionamento da 
ciência. Sendo assim, eles nos apresentam algumas alternativas para 
tentar entender a forma pela qual o conhecimento ou a ciência, de uma 
forma geral, chegaram ao ponto que se encontra hoje. 
Por consequência, esses estudos dentro da história e filosofia da 
ciência também exerceram influência no que se refere ao ensino. As-
sim, quando se pretende formar um professor de ciências ciente da 
construção do conhecimento que ensinamos hoje em sala de aula, é 
importante contextualizá-lo a partir da história e filosofia da ciência. 
De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) para 
o Ensino Médio, é nesta etapa da escolaridade em que se procura de-
senvolver uma maior criticidade dos estudantes, por isso, a história e 
filosofia da ciência podem contribuir para o entendimento de que o 
 
 96 
contexto político, econômico e social influencia “a formulação, o su-
cesso ou o fracasso das diferentes teorias científicas” (Brasil, 1999). 
Além disso, os PCNs ainda mencionam a importância dessa temática 
para a formação docente, visto que: 
Estudos na História e Filosofia das Ciências são um desafio para o 
professor, uma vez que raramente sua formação inicial contemplou 
estes campos de conhecimentos dedicados à natureza da Ciência” 
(Brasil, 1998). 
Para Mayr (2005), a biologia é uma ciência bona finde, ou seja, ela 
possui características das áreas do conhecimento reconhecidas como 
“ciência”, por isso, é justo que se tente desenvolver um ramo da filo-
sofia da ciência dedicado à biologia (Mayr, 2005). 
Nesta perspectiva, uma das principais discussões que encontramos 
na área da História e Filosofia da Biologia refere-se à autonomia da 
Biologia em relação às demais Ciências (Mayr, 2005). 
A incorporação da história e da filosofia tanto no ensino de ciências 
quanto na formação de professores, potencializa principalmente uma 
abordagem que busca o contexto em que o conhecimento científico 
está ou esteve inserido (Matthews, 1995). 
Dentre essas pesquisas, também encontramos estudos em história 
e filosofia da biologia que buscam, por exemplo, analisar a contribuição 
de determinados autores para a área que se deseja analisar. Dentre es-
ses, estão incluídos os estudos que analisam os impactos dos trabalhos 
de Darwin nos estudos sobre evolução, ou dos trabalhos de Mendel 
sobre os estudos de genética, ambos autores considerados representa-
tivos em suas áreas. 
 Para além desses, temos aqueles trabalhos que buscam investigar 
autores que não tiveram tanto reconhecimento ao longo da história, ou 
que acabaram por serem, de certa forma, "esquecidos", como por 
exemplo, Rosalind Franklin no episódio envolvendo a estrutura do 
DNA. Diversos trabalhos em História e Filosofia da Biologia buscam in-
vestigar essas pesquisas que não alcançaram tanto reconhecimento ou 
até mesmo os motivos desse “esquecimento”. 
Outros estudos buscam a história e a filosofia envolvida no desen-
volvimento de conceitos específicos. Dentro da área da Biologia, en-
contramos discussões sobre os conceitos de “vida” ou de “função” por 
exemplo, que tiveram seu entendimento alterado diversas vezes ao 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n.1, p. 93-113, 2022. 97 
longo do tempo. Dependendo do contexto histórico, social ou cultural, 
a forma com que se entendem esses e outros conceitos pode ser alte-
rada. Por isso, os trabalhos buscam compreender os diferentes olhares 
para conceitos que hoje para nós, parecem ser fixos e já bem delimita-
dos. 
Destacamos que a incorporação da história e filosofia da biologia 
noensino, em nenhum momento, busca substituir os conteúdos bio-
lógicos por conteúdos puramente históricos ou filosóficos. Apesar des-
tes terem também a sua importância, a utilização da história e filosofia 
da biologia contribuem para que os conteúdos relacionados à biologia 
sejam abordados de uma outra forma, dando-lhes mais contexto e sig-
nificado para os estudantes. 
Ao entender essa circunstância, os estudantes conseguem compre-
ender como a biologia se alterou através do tempo e como ela foi afe-
tada pelo contexto social, cultural, econômico etc. É importante desta-
car que com inclusão da história e filosofia da biologia no ensino de 
biologia, não se pretende que os alunos sejam capazes de resolver as 
controvérsias entre o “evolucionismo” e o “fixismo” ou submetê-los a 
um ensino mecânico, em que eles sejam capazes de “recitar n razões 
pelas quais as conclusões de Darwin alteraram os paradigmas da biolo-
gia”. Pelo contrário, espera-se que eles entendam as questões que estão 
em jogo. Não que apenas decorem os resultados finais ou os estudos 
que “deram certo”. Esperamos que eles considerem o fato de que há 
perguntas a serem feitas e, que comecem a refletir não somente sobre 
as respostas, mas sobre quais respostas foram tomadas como válidas e 
que tipo de evidências poderiam sustentar essas respostas no contexto 
em que os estudos estão inseridos (Matthews, 1995). 
É importante também destacar que quando se pretende trabalhar 
com a história e filosofia da ciência em sala de aula, não se pode sim-
plesmente apresentar uma “história dos resultados” ou a “história dos 
vencedores”. Por esse viés, estaríamos passando para os nossos estu-
dantes a ideia de que a Ciência já está pronta e que não há como mo-
dificá-la, ou de que os estudos científicos sempre irão chegar ao lugar 
certo, sempre irão descobrir alguma coisa. 
Ao inserir a história e filosofia da biologia em nosso trabalho peda-
gógico, pretendemos trabalhar a biologia para além desse entendi-
mento. Pretendemos mostrar como a ciência se processa, como ela 
 
 98 
chegou ao patamar de hoje. As conclusões e teorias que estudamos em 
aula, não tornam a ciência algo já terminado. Assim como se chegaram 
às conclusões que forneceram subsídios para a elaboração das teorias 
que estudamos hoje, e que são válidas atualmente, podemos chegar a 
outras conclusões capazes de alterar o nosso entendimento sobre de-
terminadas áreas. 
Fora isso, apesar da biologia possuir certas características únicas, 
que não são encontradas em outras ciências, ela também possui as ca-
racterísticas que compartilha com as demais áreas. Por isso acreditamos 
que as potencialidades que a história e filosofia da ciência proporcio-
nam para o ensino de ciências, a história e filosofia da biologia podem 
também proporcionar para o ensino de biologia. 
Muito tem se discutido sobre como o ensino de ciências vem se 
desenvolvendo afastado da história e filosofia da ciência. Estudos 
como o de Silva & Delizoicov (2008) enfatizam a necessidade de uma 
alfabetização científica, de modo a problematizar a ciência, aproximá-
la dos interesses da comunidade e dar mais significado e contexto aos 
conteúdos científicos. Além disso, quando inseridas na graduação, po-
dem auxiliar na compreensão da estrutura das ciências bem como do 
espaço que elas ocupam e seus objetivos, contribuindo à formação de 
um professor menos técnico e mais crítico (Matthews, 1995; Silva & 
Delizoicov, 2008). 
Destacamos aqui que não estamos buscando colocar a história e 
filosofia da ciência como provendo todas as respostas para as proble-
máticas do ensino de ciências. Para Matthews (1995), apesar da história 
e filosofia da ciência não serem capazes de oferecer todas as respostas, 
podem apresentar algumas delas: humanizar as ciências e aproximá-la 
dos interesses da comunidade, tornar as aulas de ciência mais desafia-
doras e reflexivas permitindo o desenvolvimento de um pensamento 
mais crítico e até mesmo contribuir para a compreensão da estrutura 
das ciências bem como do espaço que ocupam. 
Tendo isso em mente, buscamos aqui também trazer essas discus-
sões para o campo da biologia. Um ensino de Biologia pautado apenas 
nos resultados ou conceitos finais pode acabar, ao nosso olhar, tor-
nando-o fragmentado, com conceitos desconexos dificultando o 
aprendizado dos estudantes, justamente, pois acaba por deixar de lado 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n.1, p. 93-113, 2022. 99 
o contexto em que esses resultados estão inseridos, tal como, o signi-
ficado daquelas conclusões para a sociedade. O ensino de forma me-
cânica e não histórico da matéria, pode fazer com que os alunos entrem 
no “mar de falta de significação” que se diz ter inundado as salas de 
aula de Ciências (Matthews, 1995), em que conceitos biológicos são 
trabalhados de forma fragmentada e descontextualizada. Por isso, acre-
ditamos que a história e filosofia da biologia possam oferecer alterna-
tivas ao ensino tradicional, pautado na transmissão, reprodução de in-
formações e conceitos, promovendo um ensino menos fragmentado 
juntamente com uma visão integrada e contextualizada dos processos 
que constituem a biologia. 
Assim, com este trabalho visamos investigar as produções que vêm 
sendo feitas no Brasil relacionadas à história e filosofia da biologia com 
enfoque no ensino de biologia. Para tal, iremos recuperar na bibliogra-
fia quais os aspectos vêm sendo destacados nesta área, buscando prin-
cipalmente as possibilidades que esta pode trazer para o ensino de bi-
ologia. A partir da análise dos artigos publicados no periódico Filosofia 
e História da Biologia, tentaremos buscar alternativas para levar para den-
tro da sala de aula. 
2 MATERIAIS E MÉTODOS 
Para este trabalho, realizamos uma pesquisa que busca compreen-
der certa parte do atual estado do conhecimento e das produções rela-
cionadas à história e filosofia da biologia no Brasil. Segundo Norma 
Sandra de Almeida Ferreira (2002), as pesquisas em “estado da arte” 
ou “estado do conhecimento” consistem em uma revisão da literatura 
visando mapear e discutir “uma certa produção acadêmica em diferen-
tes campos do conhecimento, tentando responder que aspectos e di-
mensões vêm sendo destacados e privilegiados em diferentes épocas e 
lugares” (Ferreira, 2002, p.258). 
A pesquisa tem também um enfoque bibliométrico. A metodologia 
envolve principalmente, métodos estatísticos e matemáticos para ma-
pear a produção científica de forma quantitativa. Ela permite que o 
pesquisador quantifique os trabalhos que estão sendo desenvolvidos 
em determinada área. Este mapeamento das produções pode direcio-
nar para novos caminhos, investimentos e produções da área científica. 
Assim como nos permitir ter uma visão geral da produção científica e 
 
 100 
acadêmica; do mesmo modo que analisar o conhecimento do que já foi 
produzido sobre determinado tema. 
Dessa forma, realizamos um levantamento das produções no 
campo da história e filosofia da biologia no portal de periódicos da 
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior 
(CAPES) e no portal SciELO, visando um panorama das produções 
na área. A partir das nossas buscas, encontramos a revista Filosofia e 
História da Biologia, uma das revistas que faz parte do portal de revistas 
da USP e que possui como tema central a história e filosofia da biolo-
gia. 
 Nas pesquisas no portal da CAPES e no portal SciELO, encontra-
mos, somando os resultados dos dois portais, um total de 28 artigos, 
utilizando como palavra-chave “história e filosofia da biologia”. Já na 
revista, encontramos um total de 262 artigos publicados em 27 edições, 
sendo que desses artigos 208 estavam em português. 
Desde 2006, o periódico Filosofia e História da Biologia publica artigos 
resultantes de pesquisas originais referentes a filosofia e/ou história da 
Biologia e temas correlatos, apresentando um expressivo acervo. 
Sendo assim, neste trabalho, mapeamos a produção acadêmica da 
revista referenteao período de 2006 a 2020. A partir desse mapea-
mento, buscamos também analisar os artigos publicados na mesma, 
destacando as relações e possibilidades que estes trabalhos possam tra-
zer para o ensino de biologia. 
A análise foi feita tanto de forma quantitativa, quanto qualitativa. 
Quantitativamente, conseguimos ter um panorama da quantidade de 
produções que temos na área concentradas na revista. Já o olhar quali-
tativo, nos permitiu observar quais abordagens e aspectos vêm sendo 
mais trabalhados em história e filosofia da biologia. Essa análise foi 
feita a partir de três elementos dos artigos: pela leitura dos títulos, dos 
resumos e das palavras-chave dos trabalhos. Dessa forma, num pri-
meiro momento, dividimos os artigos quanto aos temas trabalhados. 
Isto é, ao analisarmos os trabalhos, não tínhamos categorias a priori, e 
os agrupamos a partir de nossa leitura inicial. 
Ancoramos nossa justificativa nas orientações da Associação Brasi-
leira de Normas Técnicas (ABNT), na qual a construção dos títulos 
deve se dar com o uso de palavras, expressões ou frases que sejam 
condizentes com o assunto ou o conteúdo do trabalho (ABNT, 2002). 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n.1, p. 93-113, 2022. 101 
Os resumos e palavras-chave, por sua vez, nos permitem uma noção 
inicial sobre o conteúdo das produções com a identificação de temáti-
cas, problemáticas, nível de escolarização privilegiado nos estudos aca-
dêmicos, modalidades de pesquisa etc. 
Observamos que essa orientação da ABNT, por vezes, não era se-
guida nos artigos, uma vez que a revista tem normas próprias. Assim, 
com essa primeira leitura, os separamos em temáticas representadas 
ora pelos elementos já citados, ora por palavras que correspondiam ao 
que o artigo em questão discutia. Por vezes, essas palavras coincidiam 
com as palavras-chave já elencadas pelos autores e, em outras ocasiões, 
nós inferimos a temática de acordo com o que era abordado no re-
sumo. 
Como forma de exemplificar essa primeira organização por temá-
tica, citamos o artigo intitulado “As concepções iniciais de Thomas 
Hunt Morgan acerca da evolução e hereditariedade” (Brito e Martins, 
2006), que foi categorizado nas temáticas de “Autor específico” e 
“Evolução”, já que ele analisa especificamente as ideias iniciais de Tho-
mas Hunt Morgan sobre evolução e hereditariedade. Por isso, ele en-
trou nas categorias de “Área específica”, devido à área da Evolução e 
de “Autor específico”, devido à pesquisa em torno do autor Thomas 
Hunt Morgan. 
 Já o artigo “Aspectos históricos e filosóficos do conceito de vida: 
contribuições para o ensino de Biologia” (Caldeira et al., 2008), foi clas-
sificado na categoria de “Ensino de Biologia” pois ele busca as contri-
buições do estudo do conceito de “vida” no Ensino de Biologia. Ele 
também foi classificado na categoria de “Conceito específico”, pois 
possui foco, especificamente, no conceito de vida, em que apresenta 
uma breve revisão histórica do conceito em questão. Dessa maneira, 
fomos classificando cada um dos artigos publicados na revista quanto 
aos seus principais temas. 
3 RESULTADOS QUANTITATIVOS 
Abaixo, apresentamos os resultados obtidos após a nossa análise da 
revista. No total, foram analisadas 27 edições, totalizando 208 artigos. 
No quadro I, apresentamos os resultados da tabulação dos artigos. Es-
tão representados os números de artigos correspondentes a cada uma 
 
 102 
das categorias. No gráfico I, apresentamos os resultados em porcenta-
gens representadas no gráfico, para uma melhor visualização. 
 
TABULAÇÃO DOS ARTIGOS POR PALAVRA CHAVE 
1 Área específica (Evolução, Genética, Ecologia, 
Zoologia...) 
165 
2 Autor específico 128 
3 Tema específico (Teologia, eugenia, alimenta-
ção...) 
42 
4 Ensino de Biologia/Formação de professores e 
pesquisadores 
34 
5 Conceito específico 18 
6 Coleção Científica 15 
7 Revisão bibliográfica 5 
 
Quadro I: No quadro estão representados o número de artigos encontrados 
em cada uma das categorias 
 
 
 
Gráfico I: No gráfico, representamos as porcentagens correspondentes aos 
artigos encontrados em cada uma das categorias 
 
41%
32%
10%
8%
4%
4% 1%
GRÁFICO DE PORCENTAGENS DAS CATEGORIAS
Área específica
Autor específico
Tema específico
Ensino/Formação
Conceito específico
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n.1, p. 93-113, 2022. 103 
Pode-se notar que no total, temos um número maior nas categorias 
do que o número de artigos que foram analisados. Isso aconteceu, pela 
razão de que alguns artigos receberam mais de uma palavra-chave e 
foram classificados em mais de uma categoria. A saber: o artigo já ci-
tado “As concepções iniciais de Thomas Hunt Morgan acerca da evo-
lução e hereditariedade” (Brito & Martins, 2006) entrou nas categorias 
de “Área específica”, no caso a Evolução e “Autor específico”, no caso 
Thomas Hunt Morgan. 
4 DISCUSSÃO 
4.1 Dados quantitativos 
Em um primeiro momento, numa breve análise quantitativa, pode-
mos observar o grande número de artigos classificados na categoria de 
“Área específica”. Nesta categoria, incluímos os artigos que abordam 
as temáticas relacionadas às áreas específicas da Biologia, como Evo-
lução, Genética, Ecologia, Biologia celular, Biologia Molecular e outras. 
Em sua maioria, esses trabalhos recuperam contribuições para a histó-
ria, a filosofia e o desenvolvimento dessas áreas. Elas já são bem deter-
minadas dentro da Biologia, possuindo campos de pesquisa bem deli-
mitados, inclusive, contempladas em disciplinas específicas dentro dos 
cursos de graduação. Por outro lado, temos a categoria “Temas espe-
cíficos”, que apesar de terem relação com as ciências biológicas, não 
possuem tanto peso quanto as áreas que citamos anteriormente. Den-
tre esses temas, temos por exemplo, a teologia, a eugenia, a alimentação 
e o método científico. 
Também chama a atenção o número de artigos que classificamos 
na categoria de “Autor específico”. Isso pode ter relação com o fato 
de que os trabalhos que abordam autores específicos aparecem relaci-
onados com diversas áreas da Biologia, mesclando os dados das cate-
gorias de “Área específica”, “Conceito específico” ou “Tema especí-
fico”. Nisso, temos trabalhos que analisam as contribuições de autores 
para estudos em evolução, genética, ecologia etc. 
4.2 Dados qualitativos 
Na análise qualitativa do mapeamento, iremos discutir as três pri-
meiras categorias que mais apareceram. Por sua vez, em um segundo 
 
 104 
momento, iremos analisar aqueles artigos que podem trazer contribui-
ções para o ensino, ou seja, os artigos que estão nas categorias de “Con-
ceito específico”, “Ensino de Biologia/Formação de professores e pes-
quisadores” e “Coleção científica”. Estes estudos podem trazer poten-
cialidades para o Ensino de Biologia de uma maneira geral, podendo 
se aplicar ao ensino de Evolução, Genética, Ecologia ou qualquer uma 
das áreas da Biologia. 
Ao partir para o primeiro momento da análise, discutiremos sobre 
as categorias mais frequentes: Área específica, Autor específico e Tema 
específico. Como dito anteriormente, nestas categorias estão classifica-
dos aqueles artigos que buscam contribuir para determinadas áreas ou 
temas relacionados com a biologia ou que abordam a contribuição do 
trabalho de um autor em especial para o assunto em questão. Aqui 
encontramos artigos que analisam capítulos de livros, obras na íntegra 
ou uma coletânea de artigos publicados em ‘determinada época (fontes 
primárias), além de fontes secundárias. A título de exemplo citamos: 
“Charles Darwin, Alfred Russel Wallace e a seleção natural: um estudo 
comparativo” (Carmo & Martins, 2006), “Vladimir A. Kostitzin, teó-
rico, ignorado pelos arquitetos da síntese evolutiva” (Araújo, 2007), 
“As contribuições de Theodosius Dobzhansky para o desenvolvi-
mento da genética no Brasil (1943-1960): um estudo bibliométrico” 
(Sião, 2007), “A concepção de raça humana em Raimundo Nina Ro-
drigues” (Neves, 2008) ou “A longevidadesegundo a concepção de 
vida de Francis Bacon” (Zaterka, 2010). 
Contudo, na maior parte dos exemplos dados, é levado em conta o 
contexto da época, considerando teorias alternativas, outras contribui-
ções etc. Assim, não se enquadram na concepção de sujeito fundante 
de Foucault (1999). 
Temos também artigos dispostos justamente a trabalhar com as 
contribuições científicas que foram “esquecidas” ou que não tiveram 
tanto impacto na época. Como no caso do artigo já citado, Vladimir A. 
Kostitzin, teórico, ignorado pelos arquitetos da síntese evolutiva” (Ara-
újo, 2007) ou “Herbert Huntington Smith: um naturalista injustiçado?” 
(Fernandes et al., 2011). 
Os trabalhos que enfocam nessa perspectiva nos ajudam a ter a no-
ção de que, diversos nomes que também atuam na elaboração dos es-
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n.1, p. 93-113, 2022. 105 
tudos, teorias ou conceitos, muitas vezes, não recebem o reconheci-
mento esperado e acabam por serem encobertos pelos sujeitos fundan-
tes. De qualquer forma, a ciência é uma produção humana, então, 
mesmo nos afastando da perspectiva de sujeito fundante, temos apon-
tado alguns nomes que são responsáveis por desenvolver os paradig-
mas em questão. 
Como já destacamos, é evidente que não podemos designar os mé-
ritos do trabalho a apenas um dos nomes envolvidos. Seria interessante 
trabalharmos com os diversos sujeitos envolvidos na temática em ques-
tão e, até, se possível, trabalharmos com todos os nomes envolvidos 
nas elaborações dos estudos, não apenas com um deles, reforçando a 
concepção de ciência como um trabalho coletivo e não de sujeitos ilu-
minados. 
Neste sentido, entendemos que os artigos vinculados à categoria de 
“Autor específico” podem fornecer boas alternativas para a inclusão 
da história e filosofia da biologia nas salas de aula. Eles mostram que a 
ciência é uma produção humana, uma produção cultural que vem 
sendo construída dia após dia por diversos sujeitos atuando em con-
junto. Alguns personagens receberam, ao longo da história, um reco-
nhecimento maior, sendo associados, muitas vezes, ao título de “pai da 
evolução” no caso de Darwin ou “pai da genética” no caso de Mendel. 
Nesses casos, os artigos presentes na revista oferecem recursos para 
que possamos apresentar outros personagens que desenvolveram seus 
trabalhos igualmente importantes para o desenvolvimento da área, mas 
que muitas acabam apagados ao longo da história. 
Além disso, nessa categoria também encontramos os artigos que 
buscam investigar os contextos históricos ou sociais em que os pesqui-
sadores estavam incluídos durante o desenvolvimento de suas contri-
buições para a biologia. Esses artigos podem nos ajudar a mostrar para 
os estudantes, que o papel dos pesquisadores não está associado exclu-
sivamente a sua capacidade cognitiva ou racional. O desenvolvimento 
ou a aceitação dos estudos depende de diversos fatores, tais como re-
cursos financeiros, questões culturais das sociedades em que tais estu-
dos vêm sendo desenvolvidos e etc. 
A ciência e os pesquisadores estão incluídos em nossa sociedade e 
estão suscetíveis a receber influências relacionadas ao contexto em que 
se encontram. Para isso, citamos como exemplo o artigo “O ensino de 
 
 106 
genética no nível médio: a importância da contextualização histórica 
dos experimentos de Mendel para o raciocínio sobre os mecanismos 
da hereditariedade” (Brandão & Ferreira, 2009), que tem como obje-
tivo contextualizar o período histórico e o ambiente acadêmico no qual 
Mendel desenvolveu e conduziu seus experimentos. 
A partir dessa discussão sobre a possibilidade de inserção do con-
texto na produção científica, partimos para o segundo conjunto de ca-
tegorias, que nos indicam contribuição mais direta para o ensino de 
biologia. São artigos que classificamos na categoria “ensino de biolo-
gia”, juntamente com a “formação de professores e pesquisadores” que 
discutiremos mais adiante. Dentre eles, temos os estudos que analisam 
livros didáticos ou que analisam ou oferecem propostas metodológicas 
para a inserção da história e filosofia da biologia, no ensino da matéria. 
Citamos como exemplo “O modelo de DNA e a Biologia Molecular: 
inserção histórica para o Ensino de Biologia” (Andrade & Caldeira, 
2009), que busca apresentar em um texto para alunos do Ensino Mé-
dio, o processo de construção do modelo de DNA, além dos principais 
trabalhos que contribuíram para que Watson e Crick elaborassem o seu 
modelo de DNA ou o artigo “Ciência e epistemologia em sala de aula: 
Uma perspectiva histórica para a teoria de Lamarck” (Cardoso, Forato 
& Rodrigues, 2019), que tem como objetivo a inserção da história das 
Ciências na escola durante o desenvolvimento de uma proposta didá-
tica relacionada com a evolução biológica segundo a concepção de La-
marck. 
Além destes, também destacamos os trabalhos que adotam uma 
abordagem integrada do Ensino de Biologia. Dentre as áreas normal-
mente escolhidas para formarem um eixo que transcende todos os con-
teúdos a serem trabalhados dentro do Ensino de Biologia, temos a 
Ecologia e a Evolução como no caso de “A evolução como tema cen-
tral e unificador no ensino de Biologia: questões históricas e filosófi-
cas” (Araújo, 2019), que tem como objetivo apresentar a teoria evolu-
tiva como tema unificador para o Ensino de Biologia em oposição ao 
ensino isolado dos conteúdos biológicos. 
Aliado a isso, podemos incluir os artigos classificados na categoria 
de “Conceito específico”. Esses trabalhos irão entender como deter-
minados conceitos biológicos se desenvolveram e se modificaram ao 
longo da história até atingirem o ponto em que se encontram hoje, ou 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n.1, p. 93-113, 2022. 107 
como certos conceitos são entendidos atualmente. Como exemplo 
disso temos: “Recorrência da ideia de progresso na história do conceito 
de evolução biológica e nas concepções de professores de Biologia: 
interfaces entre produção científica e contexto sócio-cultural” (Borto-
lozzi, Caldeira & Meglhioratti, 2006) ou “Análise do conceito de fun-
ção a partir da interpretação histórica” (Chediak, 2006). 
 Dependendo do contexto em que estão inseridos, os próprios con-
ceitos que estudamos hoje, que nos parecem fixos e bem delimitados, 
nem sempre tiveram o mesmo significado. Assim, esses artigos nos 
oferecem alternativas para apresentar aos estudantes como o conheci-
mento científico é alterado constantemente de acordo com os diferen-
tes contextos históricos. 
É importante destacarmos também que temos como um dos aspec-
tos principais da ciência, o seu processo de produção, não apenas os 
resultados finais. Segundo Machado (2006), os conceitos fazem parte 
desses resultados dos estudos, importantes para a Ciência, mas eles não 
resumem todo o trabalho científico. Em trabalhos epistemológicos 
como o de Canguilhem, que buscam analisar o desenvolvimento da 
ciência, o privilégio dado ao conceito acaba por constituir uma história 
do conceito, e não uma história da Ciência (Machado, 2006). 
 Ao levarmos a história e filosofia da biologia para a sala de aula, é 
importante nos afastarmos dessa concepção histórica que foca princi-
palmente nos produtos finais, assim como sugerimos nos afastarmos 
da ideia dos grandes sujeitos fundantes. Precisamos trabalhar, princi-
palmente, com os processos pelos quais os pesquisadores chegaram a 
tais conclusões, caso estejamos a fim de aproximar a ciência dos nossos 
estudantes com o objetivo de mostrar como o conhecimento que es-
tudamos foi e ainda é produzido. 
Para além dos conceitos ou autores, temos os estudos que abordam 
as coleções científicas e museus, enquadrados na categoria “Coleções 
científicas”, como o artigo “Giovanni Michelotti e sua contribuição às 
primeiras coleções científicas do Museu Nacional” (Fernandes & Pane, 
2007). A partir de um breve resgate histórico, constatamos que a bio-
logia se estabeleceu como a ciência que nomeia, descreve e classifica as 
formasde vida. É ela que se preocupa com a observação, descrição e 
ordenação das formas de vida, privilegiando o que há de visível na na-
tureza (Machado, 2006). Por isso, os gabinetes se enquadram como 
 
 108 
um componente importante na produção científica da história natural, 
pois eram lá que se concentravam os espécimes que seriam estudados. 
Eles se encontram em artigos da revista como em “O primeiro Gabi-
nete de História Natural do Brasil (“Casa dos Pássaros”) e a contribui-
ção de Francisco Xavier Cardoso Caldeira (Absolon, Figueiredo & 
Gallo, 2018). 
Hoje, os antigos Gabinetes de Curiosidade que se estabeleceram 
principalmente por conta do colecionismo difundido no século XVI, 
foram substituídos pelos museus de História Natural, que podem for-
necer diversas possibilidades para a educação e popularização da Ciên-
cia. Através das exposições é possível conhecer conceitos, conteúdos, 
procedimentos, valores, concepções e políticas científicas. (Marandino, 
2009). Além disso, os Museus e os gabinetes demonstram parte dos 
diferentes entendimentos de Ciência que foram adotados ao longo do 
tempo. Foi, juntamente com Lineu e o estabelecimento da História 
Natural, trazendo novos objetivos para os estudos biológicos relacio-
nados à classificação e em relação à organização, que a partir do século 
XVIII, os naturalistas começaram a organizar suas coleções, delimi-
tando uma nova forma de pensar a produção dos estudos biológicos 
(Marandino, 2009). 
Sendo assim, trabalhando com as concepções atuais de ciência, os 
museus podem oferecer diversas alternativas para o Ensino de Ciências 
e para a aproximação da ciência tanto dos estudantes, quanto da soci-
edade. Da mesma forma, os artigos encontrados na revista que anali-
sam os acervos de museus ou coleções científicas, podem fornecer sub-
sídios interessantes para o ensino de biologia: eles possibilitam traba-
lhar esse desenvolvimento histórico da biologia, passando pelos gabi-
netes e a história natural. Ou também, de acordo com Marandino 
(2009), as exposições podem configurar-se em ricas estratégias para o 
desenvolvimento de atividades educativas no ensino de Ciências. Atra-
vés delas, conseguimos realizar comparações entre seres e ambientes, 
estudar comportamentos e relações, além de expor diversas informa-
ções sobre o caráter teórico e procedimental das ciências naturais como 
a coleta e conservação dos exemplares (Marandino, 2009). 
Por fim, podemos citar os artigos enquadrados na categoria de “En-
sino de Biologia/Formação de professores e pesquisadores”, que abor-
dam diretamente a formação como os intitulados de “A compreensão 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n.1, p. 93-113, 2022. 109 
de sistemas biológicos a partir de uma abordagem hierárquica: contri-
buições para a formação de pesquisadores” (Caldeira et al., 2008) ou 
“História e filosofia da biologia como ferramenta no Ensino de Evo-
lução na formação inicial de professores de Biologia” (Araújo et al., 
2010). Dentre eles, estão os artigos que abordam a inserção da história 
e filosofia da biologia na formação dos profissionais da área da biolo-
gia, seja na área da pesquisa ou na área da Educação. Como o foco 
deste trabalho é o ensino de biologia, será nessa perspectiva que iremos 
centrar as nossas análises. 
É importante abordarmos essas perspectivas desde a formação dos 
professores, se estamos visando a inserção de novas estratégias ou pos-
sibilidades para o ensino de biologia, como no caso deste trabalho, cujo 
foco é a inserção da história e filosofia da biologia. Estudos que bus-
cam as concepções dos licenciandos ou dos professores que atuam for-
mando futuros professores nos auxiliam nesse ponto como em estudo 
feito anteriormente pelos autores deste mesmo trabalho (Souza, Silva 
& Schwantes, 2021). Para promover um ensino de biologia integrado 
na Educação básica, precisamos começar por um ensino aplicar essas 
estratégias ainda na graduação, seja contextualizando os conteúdos tra-
balhados nas disciplinas da graduação, conectando esses conteúdos 
com a realidade dos futuros professores, discutindo a relevância de um 
conhecimento básico sobre filosofia da ciência ou aproximando os es-
tudos biológicos da própria sociedade em que vivemos. 
Por isso, consideramos que discussões como esta, que estamos de-
senvolvendo neste estudo, seriam interessantes para ser ampliadas tam-
bém nos cursos de licenciatura. É importante formarmos professores 
cientes dos mecanismos que agem na Ciência que estão transmitindo, 
em nosso caso específico, ciente do desenvolvimento histórico e filo-
sófico da Biologia. 
Dessa forma, acreditamos que conseguiremos possibilitar um en-
sino que busque contextualizar os conceitos e teorias que fazem parte 
da Biologia, deixando para trás a forma mais fragmentada de ensino 
que separa a Biologia em áreas que parecem não se conectarem entre 
si. Conseguimos visualizar o desenvolvimento da Biologia e como cada 
uma das áreas se originou, como elas se conversam, afinal, todas elas 
possuem o mesmo objeto de estudo: a vida, tomando a História da 
Biologia, como eixo central. 
 
 110 
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS 
Discussões como as que tecemos aqui, por mais que, muitas vezes, 
pareçam teóricas, servem de base para que consigamos repensar a 
nossa forma de ensino. Conforme apresentamos, os artigos que foca-
lizam em autores ou conceitos, por exemplo, fornecem um referencial 
teórico riquíssimo para o desenvolvimento de uma aula de Biologia por 
um viés mais histórico ou filosófico, além das possibilidades apresen-
tadas pelos artigos que abordam coleções e museus ou os outros que 
acabamos por não citar em nossa pesquisa. Destacamos que em ne-
nhum momento buscamos ditar a forma correta de se ensinar biologia, 
muito pelo contrário, estamos apresentando discussões e estratégias 
que podem acrescentar e expandir o arsenal utilizado nas mais diversas 
práticas pedagógicas. 
É evidente que não iremos levar para dentro das salas de aula os 
artigos na íntegra, não é o tipo de linguagem que normalmente utiliza-
ríamos em nossas aulas. Porém, eles são capazes de fornecer referen-
ciais e subsídios para o exercício da prática pedagógica principalmente, 
no que se refere à inclusão da História e Filosofia da Biologia, essencial 
para nossa formação como professores/as. 
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6023: Informação e documentação: Referências. Rio de Janeiro, 
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Data de submissão: 25/11/2021 
Aprovado para publicação: 28/04/2022 
 
 
 
 
 
 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 115-139, 2022. 115 
Cold Spring Harbor Laboratory e o Eugenics Re-
cord Office (1890-1939): genética e eugenia 
 Pietra Stefania Diwan* 
 
Resumo: Durante o século XIX, a biologia se consolidou como disciplina 
dedicada ao estudo dos seres vivos e dos processos e sistemas a eles relacio-
nados. Após a retomada dos trabalhos de Gregor Mendel (1822-1884) no iní-
cio dos anos 1900, nas décadas que se seguiram foi se expandido o escopo da 
pesquisa biológica para compreender as leis da hereditariedade, inicialmente 
em vegetais para animais e mais tarde em humanos, não somente relacionada 
à cor dos olhos, mas também características do comportamento, inteligência 
e algumas doenças. Este artigo procura contar a história do funcionamento 
do Cold Spring Harbor Laboratory entre 1890 e 1939, abordando como as pes-
quisas eugênicas desenvolvidas por Charles Benedict Davenport (1866-1944) 
e por Harry Hamilton Laughlin (1880-1943) ganharam centralidade entre 1910 
e 1930, tendo sido compreendidas por eles como, genética aplicada aos hu-
manos. A pesquisa desenvolvida mostra que, a partir do final dos anos 1920, 
as ideias eugênicas de Davenport e Laughlin foram desacreditadas por outros 
cientistas e perderam o financiamento concedido por agências como a Car-
negie Institution de Washington. Por fim, caíram no ostracismo após a Segunda 
Guerra Mundial e a revelação dos crimes cometidos pelos nazistas. 
Palavras-chave: Eugenia. Genética. Charles B. Davenport. Harry H. Laugh-
lin. Cold Spring Harbor Laboratory. 
 
Cold Spring Harbor Laboratory and Eugenics Record Office 
(1890-1939): genetics and eugenics 
 
Abstract: During the 20th century, biology consolidated itself as a discipline 
dedicated to studying living beings’ processes and systems. After the “redis-
covery” of Mendel’s work at the beginning of the 1900s, in the following 
decades, biological research expanded to understand the laws of heredity, 
 
* Universidade Estadual de Maringá. Pós-doutoranda no Programa de Pós Graduação 
em Psicologia. E-mail: pietrasd@gmail.com 
 
 116 
firstly in plants, animals and after in humans, related to not only eye colour 
but also behaviour and intelligence, besides some diseases. This article aims 
to tell the story of a prestigious private research centre, Cold Spring Harbor 
Laboratory and the Eugenics Record Office between 1890 and 1939. It discusses 
how the eugenic research led by Charles B. Davenport (1866-1944) and by 
Harry H. Laughlin (1880-1943) assumed a central role between 1910 and 1930, 
understood by them as genetics applied to humans. The research shows that 
after the end of the 1920s, Davenport and Laughlin’s eugenic ideas developed 
in Eugenics Record Office were put aside by other scientists who believed that 
their methods and results were unscientific. In addition, their research lost 
financial support from the Carnegie Institution of Washington. Finally, they met 
ostracism after the Second World War and the revelation of the crimes 
committed by the Nazis. 
Keywords:Eugenics. Genetics. Charles Davenport. Harry H. Laughlin. Cold 
Spring Harbor Laboratory. 
1 UMA HISTORIOGRAFIA EM CONSTRUÇÃO 
O campo de estudo da história da eugenia no Brasil completou re-
centemente três décadas desde o trabalho de Nancy Stepan que jogou 
a luz inicial sobre a forma como a eugenia se configurou na América 
Latina, ampliando as possibilidades de pesquisa sobre o tema para além 
das experiências anglo-saxãs, nórdicas ou germânica. Naquele mo-
mento tratava-se de adentrar na “inexplorada área da atividade humana 
e pressão política e descobrir linguagens esquecidas da ciência” 
(Stephan, 1991, p. 9). Desde então, mais pesquisas foram desenvolvi-
das no Brasil (Marques, 1994; Reis, 1994; Mota, 2003; Boarini, 2003; 
Diwan, 2003; Habib, 2003; Souza, 2006, 2011; Santos, 2008, dentre 
outras) ampliando o entendimento sobre o campo e suas manifestações 
em todo o território nacional. No entanto, entende-se que há uma 
longa trajetória a ser percorrida em relação à pesquisa que tem sido 
desenvolvida no exterior. No que tange a historiografia da eugenia em 
âmbito internacional além dos clássicos trabalhos que abordam a his-
tória da biologia e suas conexões com o pensamento eugênico (Gould, 
1981; Lewotin et.al, 1984; Kevles, [1985] 1999; Adams, 1990; Paul, 
1984) deve-se considerar que o aprofundamento das pesquisas a partir 
dos anos 2000 propiciaram recortes de pesquisa cada vez mais inter-
disciplinares (Kline, 2001; Schoen, 2005; Stern, 2005; Turda, 2010; 
Bashford, Levine, 2010; Weindling, 2015, 2018; Lombardo, 2019, 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 115-139, 2022. 117 
2022) e que revelam similitudes em experiências que aparentemente 
pareciam distintas, e colocam em questão de um sistema analítico de 
categorias como “eugenia alemã” ou “eugenia latina”, na qual o traba-
lho de Nancy Stepan (1991) pode ser incluído. Ao contrário de simpli-
ficar ou generalizar tais experiências históricas, pode-se afirmar que 
quanto mais pesquisas sobre experiências locais são concluídas, se 
constrói uma rede de conexões multifacetadas e complexas sobre a 
forma como os apoiadores da eugenia construíram suas narrativas e 
responderam as demandas particulares de cada localidade que ultrapas-
sam os limites impostos por categorias fixas. Dessa forma, no Brasil 
propõe-se uma ampliação dos estudos da eugenia notando possíveis 
semelhanças com experiências como a dos Estados Unidos, cuja in-
fluência no Brasil é muitas vezes negada em detrimento de uma suposta 
radicalização voltada à Alemanha (Wegner, 2011) ou a influência do 
neolamarckismo no movimento eugênico brasileiro (Souza, 2012, 
2016). Desta forma, este artigo pretende elucidar um momento impor-
tante da formação da eugenia estadunidense, em particular, a criação 
do laboratório de Cold Spring Harbor, chamado à época (em 1904) Car-
negie Station for Experimental Evolution, e do Eugenics Record Office (1910-
1939). Durante cerca de três décadas as premissas da eugenia, e do es-
tudo da hereditariedade foram predominantes nas pesquisas da insti-
tuição, tendo se diversificado após 1940, com destaque para a pesquisa 
na área da genética. 
O Cold Spring Harbor Laboratory ainda é um laboratório de prestígio, 
está em funcionamento no mesmo local e, recebe financiamentos pú-
blico e privado. Este artigo abordará o período de atuação do Eugenics 
Record Office1. 
Nesta pesquisa foram consultados os relatórios anuais e correspon-
dência do Cold Spring Harbor Laboratory nos arquivos físicos da institui-
ção, a Carnegie Library, desde 2018 parte do The Center for Humanities & 
History of Modern Biology. Também foram consultados os Davenport Papers 
e a Eugenics Record Office Collection na American Philosophical Society (Fila-
délfia) em 2017. O conteúdo destas coleções já foi pesquisado por ou-
tros autores (Carlson, 2001; Kline, 2001; Stern, 2005; Schoen, 2005; 
Black, 2007; Comfort, 2012; Witikovski, 2016). 
 
1 A trajetória posterior da instituição, principalmente após 1945, foi discutida 
em Diwan, 2020. 
 
 118 
A consulta do Harry H. Laughlin Papers na Truman State University foi 
realizada virtualmente. No Brasil, a bibliografia sobre a história da eu-
genia com foco nos Estados Unidos escrita originalmente em língua 
portuguesa é ainda escassa, com destaque para o minucioso trabalho 
de Rodrigo Andrade Cruz (2012, 2013, 2016) sobre a controversa ali-
ança entre a eugenia e genética, um centro de pesquisa pioneiro, mas 
de viés eugênico 
Nas primeiras décadas do século XX, todos os anos, durante o ve-
rão, nos meses de junho e julho, estudantes de enfermagem e de ser-
viço social da cidade de New York interessados em se aperfeiçoar pro-
fissionalmente recebiam treinamento no Eugenics Record Office. Eles 
aprendiam sobre o preenchimento de formulários com informações 
biométricas e traços biológicos e genealógicos de famílias americanas.2. 
Os formulários e os cartões eram guardados num imenso arquivo-co-
fre, numa sala climatizada totalmente à prova de fogo. Entre os anos 
de 1912 e 1924, 750 mil cartões foram preenchidos (Comfort, 2012, 
p.40). Em 1938, quando o Eugenics Record Office encerrou extraoficial-
mente suas atividades, o conjunto possuía cerca de 1,5 milhão de car-
tões. O método de coleta de informações de Family traits (Traços de 
família) foi desenvolvido por Charles Benedict Davenport (1866-
1944), criador e diretor do Eugenics Record Office. A metodologia de tra-
balho foi compilada por Davenport (1911). O livro serviu de guia para 
aqueles que trabalhavam nesse campo, pois trazia as normativas das 
descrições das diversas variáveis de traços físicos e comportamentais 
humanos, supostamente herdados. Após coletados, os dados eram ana-
lisados pelos estudantes da disciplina Eugenia do laboratório de Cold 
Spring Harbor sob a perspectiva da genética mendeliana. O entusiasmo 
pela prática é mostrado na composição do obstetra e geneticista E. 
Carleton MacDowell (1887-1973) para inspirar o trabalho de campo: 
Somos eu-gen-istas tão alegres / E não temos tempo para brincar / 
Sérios nós temos que ser / Trabalhando para a posteridade [...] / Ins-
pecionamos com poder e foco, / Os habitats dos loucos. / Estatísticos 
 
2 Para compor o acervo de Biologia experimental humana do Cold Spring Harbor Labo-
ratory, parte do Carnegie Institution of Washington, as informações eram registradas de di-
versas maneiras: um cartão 7 cm x 12 cm; diversos questionários, e tabelas impressas 
que deviam ser adequadamente preenchidos em cada residência por onde o/a profis-
sional passasse 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 115-139, 2022. 119 
também somos nós, / Na casa de Carnegie, / Se, para o futuro, você 
listar o bem, / Você deve ser um eu-gen-ista. (E. Carleton MacDowell, 
Witkowski, 2016, p. 39) 
As origens do laboratório privado com reputação internacional 
conquistada pelo Cold Spring Harbor Laboratory remontam ao interesse 
inicial pela pesquisa da vida marinha e animal. Em 1890, foi criado na 
baía Long Island (New York) um curso de verão com atividades práti-
cas, inspirado pelas escolas europeias de zoologia e botânica, para aten-
der à demanda do Brooklin Institute of Arts and Sciences. O Biological Labo-
ratory (Laboratório Biológico) foi criado para atender estudantes uni-
versitários e professores, num programa de oito semanas de imersão 
em atividades pesquisa no habitat marinho (Witkowski, 2016, p. 4). 
Sem recursos e de maneira bastante precária operava dentro do casebre 
da The Fish hatchery (A Incubadora de peixes), mas, com o tempo, o 
espaço se tornou pequeno, dado o interesse de estudantes e profissio-
nais em busca de mais qualificação. Em três anos, o curso já atraía cerca 
de uma centena de pessoas por temporada, e uma nova sede foi cons-
truída do outro lado da rua. Iniciou-se então a criação da pequena “ci-
dade de pesquisa” cujos “objetivos da corporação devem incentivar, da 
maneira mais ampla e liberal, a investigação, a pesquisa e a descoberta, 
ea aplicação do conhecimento para a melhoria da humanidade” como 
descreve o documento dos Artigos de Incorporação do Carnegie Insti-
tution of Washington durante o registro oficial de doação do Eugenics Re-
cord Office (Carnegie, 1918, v. 17, p. 4). 
Foi pela recomendação do segundo diretor da instituição, o bacte-
riologista Herbert Conn (1859-1917), que Charles Benedict Davenport 
(1866-1944), assumiu inicialmente a direção do programa de verão do 
Laboratório Biológico. Davenport mudou-se com a esposa, Gertrude 
Crotty Davenport (1866-1946) para trabalhar e residir dentro das ins-
talações de Cold Spring Harbor, e tornou-se o diretor e administrador do 
Laboratório Biológico e, futuramente, de todo o complexo de labora-
tórios. Davenport aposentou-se compulsoriamente do Cold Spring Har-
bor Laboratory aos 65 anos, em 1934. 
Toda a produção de Davenport como pesquisador da Biologia es-
teve entrelaçada aos debates para entender a hereditariedade sob o viés 
da genética e da eugenia. É importante destacar que a biologia evolutiva 
com foco na herança foi um dos focos predominantes no Cold Spring 
 
 120 
Harbor Laboratory sob a direção de Davenport, um dos geneticistas 
mendelianos nos Estados Unidos (Comfort, 2012, p. 38). Cada vez 
mais dedicado à biologia quantitativa, Davenport desenvolveu suas 
pesquisas iniciais no Departamento de Zoologia da Universidade de 
Chicago, e começou a pensar na formação de um outro centro de es-
tudos na mesma linha em Long Island. 
Com a doação de 22 milhões feita pelo comitê administrativo lide-
rado pelo magnata do aço Andrew Carnegie (1835-1919), a partir de 
1902 formaram-se diversas instituições de pesquisa, dentre as quais o 
Laboratório de pesquisa biológica em Long Island. A Carnegie Institution 
of Washington se estabeleceu neste mesmo ano e somente se desvincu-
laria do Cold Spring Harbor Laboratory na década de 1960 (Witikowski, 
2016, p. 15). Davenport insistiu durante dois anos na criação da Station 
for Experimental Evolution no mesmo espaço do Biological Laboratory. Ele 
se ofereceu para dirigir ambas as instituições. Viajou à Londres em 
1902 para conhecer Francis Galton (1822-1911) e Karl Pearson (1857-
1936), no Galton Laboratory. Alguns meses depois Galton escreveu para 
Davenport: 
Dá-me um grande prazer ouvir que há uma chance de estabelecer uma 
Estação Experimental na América para o estudo da evolução. A ques-
tão de como mostrar a forma pela qual tal Estação será gerenciada para 
assegurar a abundância de resultados valiosos não é de forma alguma 
nova para mim. (Carta de Galton para Davenport, APS, 1902) 
Galton manifestou preocupação e estava consciente das dificulda-
des em manter operante, de forma permanente, um centro de pesquisa 
dedicado aos estudos da genética e eugenia, ressaltando seu alto custo 
financeiro. Ele sugeriu que essa estação deveria ter um diretor residente 
e uma “abundância de dinheiro, cérebros, esforço honesto, e muito 
planejamento preliminar” (Carta de Galton para Davenport, 1902, 
APS). Galton enfatizou que tinha considerado essa possibilidade anos 
anteriores, mas foi demovido pelas dificuldades descritas. A correspon-
dência acima mencionada sugere os esforços feitos por Davenport em 
relação ao desenvolvimento da eugenia nos Estados Unidos. Além de 
aceitar as sugestões de Galton, ele dedicou três décadas construindo 
parcerias e angariando investimentos privados para o Carnegie Institution, 
em especial para o Eugenics Record Office. 
 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 115-139, 2022. 121 
2 O INVESTIMENTO PRIVADO NA CIÊNCIA 
Desde o início, o laboratório de Cold Spring Harbor atraiu muita aten-
ção tanto da comunidade científica como da empresarial dos estados 
de New York e Filadélfia. A generosa doação de Carnegie foi surpre-
endente para a época já que a Station for Experimental Evolution recebeu 
cerca de um milhão de dólares. No discurso de abertura do Station for 
Experimental Evolution, o botânico holandês, Hugo de Vries (1848-1935) 
elogiou o estudo da evolução proposto por aquela instituição como 
sendo uma torre de farol, um novo marco para a área, 
A Estação para a Evolução Experimental é um farol que ilumina os 
áridos problemas da origem das espécies. [A origem das espécies] está 
envolta por uma escuridão cada vez mais densa, pois existe pouco co-
nhecimento prévio sobre o assunto. Os cuidados do farol foram en-
tregues às mãos do Sr. Davenport e sua equipe, assim como muitos 
detalhes de seus assuntos internos. Assim, ele não pode falhar em exe-
cutar suas missões produzindo os resultados que se espera dele e muito 
mais. (Carnegie, 1918, v. 17, p. 10-12) 
A Station for Experimental Evolution cumpriu a função de orientar a 
pesquisa na área da biologia e hereditariedade junto ao Biological Labo-
ratory, ocupando um terreno de 10 acres alugado da Wawepex Society. 
Naquele local, foi mais tarde construída a sede, o Carnegie Building (atu-
almente a Carnegie Library, sede do arquivo histórico do Cold Spring Har-
bor Laboratory que veio a ser ocupada por pesquisadores da Universi-
dade de Chicago trazidos por Davenport. Davenport teve como foco 
de investigação: 
1. Pesquisas sobre herança e variabilidade de plantas; 2. Pesquisas so-
bre herança e variabilidade de insetos; 3. Pesquisas sobre herança e 
variabilidade de outros invertebrados; 4. Pesquisas sobre vertebrados 
aquáticos; 5. Estudos sobre herança em animais domésticos; 6. Pesqui-
sas sobre as bases citológicas da hereditariedade; 7. Cooperação com 
outros pesquisadores; 8. Trabalho com departamentos subsidiários; 9. 
Cuidado e desenvolvimento do centro (Carnegie, 1905, vol.4, p. 88). 
Davenport agora contava com um laboratório e uma equipe. Sua 
pesquisa pessoal dirigiu-se à biometria, à análise estatística com base 
no programa de pesquisa mendeliano. O Station for Experimental Evolu-
 
 122 
tion dedicava-se à análise de cruzamentos de aves, gatos, ovelhas, ca-
bras, diversos tipos de insetos, ratos, porcos-da-índia e diversas espé-
cies de plantas. Davenport e sua esposa Gertrude publicaram juntos 
em coautoria artigos acadêmicos sobre herança de cor de olhos, tipo 
de cabelos em humanos (Davenport, G. & Davenport, C., 1909; Da-
venport, G. & Davenport, C., 1910). A produção naquele período ini-
cial foi tão intensa que a Station for Experimental Evolution mudou de 
nome para Departament for Experimental Evolution, em 1906. 
Com a popularidade que as premissas eugênicas adquiriram nos Es-
tados Unidos, o Cold Spring Harbor Laboratory, também obteve grande 
reputação na época que pode ser explicada por, pelo menos, quatro 
aspectos 1) representava o saber científico, signo da modernidade e do 
progresso; 2) estabeleceu-se num momento em que migrações e imi-
grações se intensificaram no país e seu impacto; 3) procurou explicar 
a composição do povo norte-americano, usando as teses formadoras 
do estado-nação baseados na necessidade de ter competitividade inter-
nacional, e da relação entre povo e identidade; 4) finalmente a eugenia 
trouxe credibilidade para a comunidade científica e por esta razão inte-
lectuais tanto nos Estados Unidos como na Europa se esforçaram para 
consolidar a eugenia como campo de pesquisa plausível (English, 2004, 
p. 3). 
A ansiedade social causada pelo momento sócio-político fomentou, 
nos Estados Unidos, uma corrente reformista, conhecida como The 
Progressive Era, representada pela classe dirigente, de origem anglo-saxã, 
emergente economicamente e de religião protestante (White Anglo-Sa-
xon Protestan). Diante da intensa corrente imigratória e da migração das 
populações rurais para os centros urbanos - tanto branca a como afro-
americana - a necessidade de normatização e controle dos processos 
sociais (escola, voto feminino, sanitarismo, moralização) tornaram-se 
preocupação dos reformadores que trabalharam ativamente entre o fi-
nal da Guerra Civil Americana (1861-1865) e a Grande Depressão 
(1929). O pensamento eugênico, elaboradopor Francis Galton, foi um 
dos meios adotados para ajustar essa sociedade em rápida transforma-
ção (English, 2004, p. 14). 
Desde pelo menos 1866, o Western Health Reform Institute em Battle 
Creek (Michigan) adotou o puritanismo físico e o melhoramento da 
raça, defendidos pelo médico nutricionista John Harvey Kellogg (1852-
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 115-139, 2022. 123 
1943). Em 1903, a American Breeders Association (Associação Americana 
de Criadores) defendia o melhoramento de plantas e animais através 
do uso da genética mendeliana, tendo como presidente Alexander 
Graham Bell (1847-1922)3 Em 1906, Graham Bell sob recomendação 
de Davenport criou um Comitê de Eugenia na American Breeders Asso-
ciation para pesquisar de que forma ocorre a herança de características 
em humanos. Foi formada uma organização nacional para pesquisar a 
eugenia. Subcomitês foram criados para examinar aspectos hereditários 
específicos nas áreas de criminalidade, pobreza, loucura e inteligência. 
Bell acreditava que a “raça” poderia ser melhorada, não somente pre-
servada (Graham Bell, 1912). 
Davenport sugeriu a formação de um instituto de eugenia em Cold 
Spring Harbor. Encontrou na figura da viúva de Edward H. Harriman 
(1848-1909) Marry Williamson, conhecida como Sra. E. H. Harriman, 
a patrocinadora ideal. Movida pelo interesse pelo estudo da evolução 
humana de seu recém-falecido marido, Mary doou em 1910, e durante 
os oito anos posteriores, o suficiente para comprar uma fazenda de 
oitenta acres e construir as instalações de um novo centro de pesquisa. 
Então o Eugenics Record Office foi oficialmente adquirido pela Carnegie 
Institution de Washington em 1918. Os artigos da corporação apresenta-
ram as funções e metas a que o Eugenics Record Office se dedicaria: 
a) conduzir, doar e auxiliar a investigação em qualquer departamento 
de ciência, literatura ou arte e, para esse fim, cooperar com governos, 
universidades, faculdades, escolas técnicas, sociedades instruídas e in-
divíduos; b) nomear comitês de especialistas para direcionar linhas es-
peciais de pesquisa; [...] f) em geral, realizar e executar todas as coisas 
necessárias para promover os objetos da instituição, com plenos po-
deres, no entanto, aos curadores a seguir designados e seus represen-
tantes de tempos em tempos, para modificar as condições e os regula-
mentos sob os quais o trabalho será realizado, de modo a garantir a 
aplicação dos fundos da maneira mais adequada às condições da época, 
desde que os objetos da corporação estejam sempre entre os anteriores 
ou semelhantes. (Official Record, 1940, p.5) 
 
3 Inventor, amigo do imperador brasileiro D. Pedro II (1825-1891), e defensor dos 
princípios eugênicos. 
 
 
 124 
O fragmento acima faz parte de um conjunto de documentos reu-
nidos no arquivo oficial do Cold Spring Harbor, produzido no ano de 
1940. Trata-se de documentos oficiais compilados que atestam as ori-
gens da instituição e o processo de aquisição do terreno em que o la-
boratório foi construído e formação do Eugenics Record Office, assim 
como do apoio recebido da Carnegie Institute of Washington. Neste con-
junto estão também os documentos que oficializaram a futura dissolu-
ção do Eugenics Record Office. De acordo com este documento, o nome 
do Eugenics Recod Office foi mudado para Genetics Record Office em 1o de 
julho de 1939, e encerrou suas atividades oficiais seis meses depois, em 
1o de janeiro de 1940. A documentação, que está fora deste conjunto 
de documentos oficiais indica que esta transição não foi tão fluida e 
organizada. (Official Record, 1940, p.1) 
3 O REGISTRO DE FAMÍLIAS PELO EUGENICS 
RECORD OFFICE 
Com o estabelecimento do Eugenics Record Office em 1910 nasceu um 
terceiro departamento dentro do Cold Spring Harbor. Davenport dirigiu 
os três simultaneamente. Dada a sobrecarga de trabalho, convidou para 
trabalhar como supervisor do Eugenics Record Office, Harry H. Laughlin 
(1880-1943), ex-aluno do curso de verão do Biological Laboratory, tam-
bém adepto do mendelismo. Com a atuação de ambos, o Eugenics Record 
Office dedicou-se à pesquisa sobre a hereditariedade humana e à pro-
moção da eugenia na Costa Leste dos Estados Unidos. Emitia relató-
rios e análises não somente para todo o país, como também para o 
mundo. 
O presidente da Carnegie Institution of Washington à época, Robert 
Simpson Woodward (1849-1924) celebrou a consolidação do Cold 
Spring Harbor como centro de pesquisa durante a cerimônia oficial da 
doação do terreno pela Sra. Harriman, em 1918. O momento era de 
otimismo e encanto com o que Woodward chamou de “doutrina da 
evolução”, que no campo da biologia criaria as ferramentas necessárias 
para proporcionar o “progresso da raça”: 
Os fundamentos que culminaram neste trabalho resultaram de nada 
menos que vinte séculos de esforços interrompidos e desorganizados 
feitos pelos devotos de anatomia, patologia, botânica, geologia e, mais 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 115-139, 2022. 125 
recentemente, fisiologia, zoologia e paleontologia; mas coube a Dar-
win, Wallace, Spencer e seus coadjuvantes descobrirem e estabelece-
rem os princípios que unificam todas essas ciências [...] na generaliza-
ção chamada doutrina da evolução. O termo biologia foi popularizado 
por Spencer em 1865. No breve intervalo que transcorreu desde então, 
a demonstração do conhecimento biológico cresceu com espantosa 
rapidez para agregar, o que constitui um dos avanços mais importantes 
em relação ao progresso de nossa raça. (Official Record, 1940, pp. 18-
19 
Woodward reconheceu a importância de pesquisas em diversos 
campos e o papel de Darwin, Spencer e Wallace nesse processo. Em 
1918, o Eugenics Record Office era um departamento ativo. Reuniu, ao 
longo dos anos, grande quantidade de registros e relatórios que propu-
seram políticas públicas, metodologias de medição, pesquisa e regras 
de normatizações e conduta. 
A lista de objetivos do Eugenics Record Office era ampla e ousada. Ca-
talogar informação, construir uma base de dados das famílias america-
nas4, treinar especialistas e realizar trabalho de campo, estabelecer uma 
rede de relações, realizar e publicar os resultados de pesquisas. Tudo 
em nome da eugenia. Não é exagerado dizer que o Eugenics Record Office 
cumpriu todas as suas propostas e foi além, sob a liderança de Daven-
port e Laughlin, uma vez que foi capaz de fazer interlocução com os 
principais pesquisadores da época nos Estados Unidos como na comu-
nidade internacional, dando um caráter transnacional ao pensamento 
 
4 A ideia de catalogar os traços de famílias caiu em descrédito, mas não desapareceu 
com o tempo. Os Estados Unidos atualmente possuem inúmeros sistemas de recolhi-
mentos de dados, especialmente na área médica, capazes de identificar, por exemplo, 
dentro de uma determinada região do país, quantas pessoas têm diabetes ou mesmo 
quantas crianças precisam tomar vitaminas. Esses sistemas médicos – que convergem 
informações sobre resultados exames, visitas médicas e vacinas – são protegidos por 
leis de privacidade, mas há indícios de uso desses dados pela indústria farmacêutica. 
Um modo mais recente de coletar esses dados é a partir dos kits para testes de DNA, 
como 23andMe e Ancestry, para confirmar e conhecer a ancestralidade ou propensão a 
doenças. Esses kits podem ser comprados na farmácia e custam cerca de cinquenta 
dólares (o equivalente à cinquenta reais); e enviando pelo correio uma amostra de sa-
liva, o interessado passa a fazer parte voluntariamente do banco de dados da compa-
nhia de análise de DNA. Advogados e especialistas em bioética têm questionado tais 
práticas contemporâneas e suas implicações para a privacidade sobre as informações 
genéticas. Ver: Tanner, Adam. our bodies, our data: How companies make billions selling our 
medical records. Boston: Beac on Press, 2016. 
 
 126 
eugênico, além de projetar a instituição internacionalmente atraindo in-
vestimentoscada vez mais vultosos nas décadas subsequentes (Diwan, 
2020). 
Davenport pode ser considerado um discípulo de Galton nos Es-
tados Unidos, pois utilizou a eugenia como estratégia de reforma social 
legitimada pela recém inaugurada ciência da hereditariedade, de orga-
nizar uma estratégia de implantação de um campo novo de saber dando 
a este um caráter científico, e se articular com outras instituições dentro 
e fora do país. De acordo com Carlson, Davenport5 foi o diretor mais 
bem credenciado academicamente para dar suporte e promover a ins-
tituição e o trabalho de seus associados à frente do Cold Spring Harbor 
Laboratory (Carlson, 2001, pp. 197-346). 
Na medida em que o trabalho de registros e catalogação de famílias 
pelo Eugenics Record Office tomou notoriedade em todo o país, solicita-
ções de fichas por escolas e prefeituras se somaram às recomendações 
de médicos em diferentes estados e a aprovação de legislação para es-
terilização compulsória e pessoas encarceradas ou institucionalizadas. 
O descrédito gradativo de Davenport não diminuiu sua importância 
para o movimento eugenista dos Estados Unidos nem desacelerou o 
uso de medidas de contenção dos indivíduos considerados disgênicos, 
fosse através da esterilização, da restrição da imigração ou de medidas 
consideradas “profiláticas” tal como os exames pré-nupciais ou dos 
discursos moralizadores (Kline, 2001). 
No entanto, foi o assistente direto de Davenport e supervisor das 
operações do Eugenics Record Office, Harry H. Laughlin, que ficou no 
topo da lista dos eugenistas mais fervorosos dos Estados Unidos pelo 
teor radical de suas propostas. Laughlin escreveu panfletos, aconselhou 
oficiais, deu palestras públicas advogando a eugenia. Com produção 
contínua e engajada tinha por objetivo central propor uma lei modelo 
de esterilização que estivesse de acordo com o sistema judicial e fosse 
 
5 Davenport escreveu muitos trabalhos relacionados à hereditariedade tanto em ani-
mais quanto em humanos. Por exemplo, Eugenics: The science of human improvement by better 
breeding (1910), Heredity in relation to eugenics (1911), Army antropology: based on observations 
made on draft recruits, 1917-1918 (1921) e The body-build: Its development and inheritance 
(1924). Levou tempo para o trabalho de Davenport cair em descrédito. Pelo contrário, 
foi bastante popular pelo menos até meados dos anos de 1930. 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 115-139, 2022. 127 
adaptável a diferentes estados, já que o sistema judicial estadounidense 
permite tais variantes. 
Um dos relatórios mais importantes (Laughlin, 1914) provocou os 
primeiros problemas de relacionamento com a Carnegie Institution de 
Washington por associar o nome da instituição às leis de esterilização 
compulsória. Sob crítica, Laughlin seguiu na defesa da constitucionali-
dade da lei de esterilização como professor e como expert indicado para 
opinar em diferentes processos jurídicos (Carlson, 2001, p. 243). Ou-
tras contribuições chanceladas pelo Eugenics Record Office propuseram 
outras práticas de controle social (Eugenics Record Office, Carnegie Library). 
Por volta de 1922, Laughlin foi designado conselheiro, Expert Eu-
genics Agent (Agente Especializado em Eugenia), pelo Comitê de Imi-
gração e Naturalização do Congresso. Ele contribuiu de forma decisiva 
na aprovação dois anos depois do Johnson-Reed Immigration Restriction Act 
(1924), lei federal que impactou duramente a política de imigração no 
país e uma das possíveis medidas de eugenia negativa6. A lei voltou 
atrás na legislação de 1890 determinando que a cota para a entrada de 
novos imigrantes seria equivalente a 2% dos imigrantes advindos de 
todos os países do Leste e Sul Europeu, e praticamente fechou as por-
tas para os imigrantes advindos da Ásia (Stern, 2016, p. 16). Para 
Laughlin, a proporção de “insanos e desajustados” nesses países era 
muito superior. A lei baniu também quaisquer imigrações vindas do 
Leste Asiático e Índia. Na época, o deputado federal Albert Johnson 
(1869-1957), conservador pelo estado da Pensilvânia, declarou que a 
lei de imigração de 1924 foi a segunda Declaração de Independência 
dos Estados Unidos (Hillier, 1945). Os esforços dos reformadores es-
tavam surtindo resultados efetivos. 
O Johnson-Reed Act e Racial Integrity Act, adotados no estado da Vir-
gínia, criaram as condições para uma política segregacionista que obri-
gava a identificação racial de cada indivíduo como white ou colored nas 
 
6 A eugenia negativa destacou-se pelos programas de prevenção de nascimentos de 
crianças de pais que possuem uma hereditariedade considerada “inapta” ou “disgê-
nica”, de forma coercitiva ou não. Enquanto a eugenia negativa tratava de legalizar a 
esterilização compulsória ou restringir a imigração, a eugenia positiva encorajava o ca-
samento e procriação entre os “aptos” ganhando espaço nos consultórios médicos, na 
literatura, na imprensa e na cultura da época (Allen, 2001). É importante ressaltar que 
considero que os métodos de eugenia negativa e positiva caminhavam juntos e não 
devem ser considerados isoladamente. 
 
 128 
certidões de casamento e nascimento7. Tanto o Racial Integrity Act 
quanto o Sterilization Act foram revogados pela Suprema Corte somente 
em 1967, com a vitória do caso Loving v. Virginia que baniu quaisquer 
leis que proibissem o casamento interracial. (Cohen, 2016, p. 3) 
Outra porta de entrada para a radicalização das práticas de eugenia 
negativa com o suporte de Cold Spring Harbor Laboratory e seus dirigen-
tes foi a decisão que encerrou a disputa Buck versus Bell na Suprema 
Corte. Por 8 votos a 1, concedeu ao estado de Virgínia o direito de 
aplicar o Virginia Sterilization Act (1929), permitindo a esterilização 
compulsória de Carrie Buck (1906-1983), interna do Virgina State Colony 
for Epileptics and Feebleminded. A esterilização de Carrie havia sido reco-
mendada por Albert Sidney Priddy8 e posteriormente, por James Bell. 
O argumento central era que ela, então com 18 anos, incompetente 
mentalmente para cuidar da filha – resultado de um estupro por parte 
de um primo, dentro da casa onde vivia com os pais adotivos – e que 
dada a sua “promiscuidade”, não poderia correr o risco de continuar 
gerando filhos com o mesmo problema mental que ela. Sua mãe bio-
lógica, Emma Buck, foi abandonada pelo marido, e acusada de imora-
lidade, prostituição e de ter sífilis. Ela vivia dentro do mesmo sanatório 
de Carrie. 
Como Cohen (2016) relatou, não havia nenhuma evidência em todo 
o processo de que Carrie Buck), ou mesmo sua mãe, tivessem qualquer 
tipo de doença física ou mental que justificasse a decisão. Carrie era 
mulher, branca, pobre, e mãe de uma menina, Vivian. É importante 
lembrar que a Lei de esterilização da Virgínia que estava sendo dispu-
tada como válida para aplicação compulsória no caso de Carrie foi es-
truturada por Laughlin e Davenport no Cold Spring Harbor. A sentença 
do juiz Oliver W. Holmes (1841-1935) determinou: 
[...]. É melhor para todo o mundo que em vez de esperar para executar 
filhos degenerados pelo crime, ou deixá-los passar fome por sua imbe-
cilidade, a sociedade possa impedir que aqueles que são manifesta-
mente inaptos deem continuidade à sua espécie. O princípio que sus-
tenta a vacinação compulsória é amplo o suficiente para cobrir o corte 
 
7 Esta categoria incluía afrodescendentes e populações nativas. 
8 Médico falecido durante o processo. 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 115-139, 2022. 129 
das trompas de Falópio... Três gerações de imbecis são suficientes. 
(Buck vs. Bell, 1927) 
Com o resultado, o caminho se abriu para que outros estados apro-
vassem leis eugênicas ou legitimassem leis locais que previam a “este-
rilização dos débeis mentais” (feebleminded9). No início do século XX a 
vinculação do termo feeblemindedness10 ao ‘suicídio da raça’ abriu espaço 
para que o psicólogo Henry Goddard (1866-1957) associasse o termo 
à herança da inteligência(Kline, 2001, p. 20). 
É importante ressaltar que a decisão do juiz Oliver Holmes permi-
tiu a aplicação da prática de esterilização eugênica compulsória em es-
cala federal. Em 1907, o estado de Indiana implementou a esterilização 
como medida de eugenia negativa, e a partir de então, pelo menos ou-
tros quinze estados o fizeram dentro de instituições estaduais para en-
carcerados ou pessoas com epilepsia, “insanos e idiotas” (Kevles, 1999, 
p. 100) A partir de 1927, cerca de trinta estados implantariam leis com-
pulsórias de esterilização que afetariam cerca de setenta mil pessoas em 
todo o país até os anos de 1970. (Cohen, 2016, p. 45). Anos depois, em 
1933 o modelo de lei escrito por Laughlin serviria de guia legislativo 
para a elaboração das leis de esterilização na Alemanha, conhecidas 
como Gesetz zur Verhütung erbkranken Nachwuchses. A relação entre os 
programas de eugenia alemão e estadounidense pode ser mais bem ilus-
trado pela participação de Davenport no comitê editorial de dois influ-
entes periódicos de higiene racial Zeitschrift für Rassenkunde und ihrer Na-
chbargebiete e the Zeitschrift für menschliche Vererbungs- und Konstitutionslehre 
(Farber, 2008). 
O médico e diretor do hospital estadual de Staunton (Virgínia), Jo-
seph DeJarnette (1866-1957) revelou sua frustração com a lentidão na 
implantação das leis de esterilização nos Estados Unidos e elogiou as 
práticas alemãs, implantadas desde 1933, e inspiradas no modelo esta-
dounidense (Weindling, 2018, p. 7). DeJarnette testemunhou diante da 
 
9 Kline (2001) descreveu como o termo feebleminded era usado desde 1850s quando as 
instituições de reclusão (asilos e manicômios) surgiram. 
10 Goddard considerava três graus de debilidade mental (feeblemindedness): os 
idiotas cuja idade mental estava entre um e dois anos; os imbecis, com idade 
mental entre três e sete anos e os morons, com idade mental entre oito e doze 
anos de idade. (Kevles, [1985], 1999, p. 78) 
 
 
 130 
Suprema Corte no caso de Carrie Buck, e defendeu a implementação 
da esterilização compulsória como medida de eugenia negativa até sua 
morte (1957). Ele escreveu em 1938: 
A Alemanha em seis anos esterilizou cerca de 80.000 de seus ‘inaptos’, 
enquanto os Estados Unidos – com aproximadamente o dobro da po-
pulação – esterilizaram apenas 27.869 nos últimos 20 anos... O fato de 
haver 12.000.000 de defeituosos nos EUA deve despertar nossos me-
lhores esforços para levar esse procedimento ao máximo... Os alemães 
estão nos vencendo no nosso próprio jogo. (DeJarnette, 1934) 
4 UM PROJETO NA ENCRUZILHADA 
O processo de declínio da reputação do Eugenics Record Office teve 
início quando a Carnegie Institution de Washington passou a acompanhar 
de perto a produção de Davenport e Laughlin, e do impacto do traba-
lho de ambos na esfera pública. 
 John Campbell Merriam (1869-1945), diretor da Carnegie Institution, 
designou, em 1929, um comitê para avaliar a atuação do Eugenics Record 
Office. O periódico Eugenical News foi duramente criticado por publicar 
análises qualitativas. Além disso, o comitê discordava da atuação de 
Laughlin nas políticas federais em relação à imigração e leis de esterili-
zação compulsória. Contudo, Laughlin continuou atuando junto ao Co-
mitê de Imigração e Davenport liderou a organização do Third International 
Eugenics Congress (Terceiro Congresso Internacional de Eugenia) (1932), 
ainda como diretor da instituição. Durante o evento foi realizada uma 
visita pública ao Departamento de Genética do Cold Spring Harbor La-
boratory. No evento, com repercussão internacional, sessenta e cinco 
artigos científicos foram publicados e 267 apresentações de pesquisa 
realizadas. O local do evento foi o mesmo do Segundo Congresso Interna-
cional de Eugenia (1921), o Museu de História Natural de New York, cujo 
curador era Madison Grant (1856-1937). Grant (1916) defendeu a su-
premacia biológica dos povos oriundos da região do norte da Europa 
na obra considerada a “bíblia” de Hitler (Spiro, 2009). 
Provavelmente pressionado pela Carnegie Institution, em 1934, com 
65 anos, Davenport teve que se afastar de todas as suas atividades no 
Cold Spring Harbor, à pedido da Carnegie Instittution de Washington. 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 115-139, 2022. 131 
Albert Francis Blakeslee (1874-1954) foi indicado para atuar como 
diretor interino, e após ser nomeado diretor em 1936, permaneceu na 
posição até 1941 até ser substituído por Milislav Demerec (1895-1966) 
que ficaria à frente do Cold Spring Harbor Laboratory até 1960. O comitê 
formado por John Merriam que analisou os trabalhos do Eugenics Record 
Office concluiu que o acervo não servia para o estudo genético, era sub-
jetivo e desprovido de metodologia adequada. O comitê sugeriu a res-
trição da atuação de Laughlin de maneira implícita: 
O Comitê é de opinião que o Eugenics Record Office deveria dedicar toda 
a sua energia à pesquisa pura, isenta de todas as formas de propaganda 
e do patrocínio de programas de reforma social ou melhoria de raça, 
como esterilização, controle de natalidade, inculcação de consciência 
racial ou nacional, restrição de imigração, etc. (LP, Report, 1935) 
O relatório recomendou ainda o desvinculamento da publicação 
Eugenical News da Carnegie Institution de Washington e a interrupção de to-
das as atividades do Eugenics Record Office. Contudo, Laughlin con-
tinuou trabalhando em Cold Spring Harbor até o final de 1938. 
Na véspera de sua saída da presidência da instituição, Merriam es-
creveu uma carta pedindo a renúncia de Laughlin. Ele utilizou como 
argumento as condições da saúde de Laughlin. 
Vannevar Bush (1890-1974), substituto de Merriam na Carnegie Ins-
titution de Washington, reforçou o pedido de resignação de Laughlin, 
mas garantiu seu salário até o final do ano de 1939 (Carta de Bush para 
Laughlin, 1939, APS). Como uma de suas primeiras medidas, Bush mu-
dou o nome do Eugenics Record Office para Genetics Record Office e cortou 
80% da verba do departamento. Laughlin tentou emplacar um orça-
mento para o Genetics Record Office para o ano de 1940 (APS, Proposed 
Budget, 1940), sem sucesso. Com nova recusa de Bush, Laughlin re-
tornou ao estado do Missouri, onde nasceu, e levou com ele toda a sua 
produção, o equivalente a um vagão de trem. A coleção de Laughlin 
está na Truman State University (Harry H. Laughlin Papers: Kirksville, 
Missouri), na cidade onde ele faleceu por razão de um derrame durante 
a Segunda Guerra Mundial, em 1943. 
Em correspondência a Blakeslee, Laughlin confessou com melan-
colia: “Muitas vezes penso em meus amigos do Cold Spring Harbor e 
me pergunto quais são os planos para o futuro do Eugenics Record 
Office” (Laughlin para Blakeslee, 1940, APS). 
 
 132 
Laughlin viveu o suficiente para ver a exacerbação da eugenia ne-
gativa nos campos de extermínio nazista. (Bruinius, 2006, p. 219; Wit-
kowski, 2016, p. 45). Em 1 de janeiro de 1940, as atividades do Eugenics 
Record Office foram encerradas definitivamente. O acervo foi doado para 
o Dight Institute da Universidade de Minnesota em 1948 (Carta de Mid-
dlebrook para Bush, 1948, CSHL,) 
De acordo com o relatório anual do Biological Laboratory, quando 
parte da Long Island Biological Association estava em funcionamento nas 
instalações do Cold Spring Harbor, Davenport faleceu após desenvolver 
uma “pneumonia atípica” (CSHL, AR, 1943, p. 5) em 18 de fevereiro 
de 1944, na cidade de Huntington, algumas quadras de distância do 
Cold Spring Harbor Laboratory: 
O Dr. Davenport tinha o dom particular de fazer planos para vários 
projetos e transmitir seu entusiasmo aos outros. Por meio de sua filha, 
que estudava no Laboratório, ele conheceu o Sr. e a Sra. E. H. 
Harriman, mostrou-lhes o trabalho em Cold Spring Harbor e despertou 
o interesse deles. Quatro anos depois, em 1910, após a morte do Sr. 
Harriman, a Sra. Harriman comprou um terreno, ergueu um prédio e 
estabeleceu e mais tarde dotou um laboratório para o estudoda 
hereditariedade humana, conhecido como Eugenics Record Office, do qual 
o Dr. Davenport se tornou diretor. Isso aumentou o grupo científico 
em Cold Spring Harbor. Em 1918, o Eugenics Record Office foi assumido 
pela Carnegie Institution e se uniu com a Station for Experimental Evolution 
para formar o Departamento de Genética, sob o comando do Dr. 
Davenport. (CSHL, AR, 1943, p. 6-7) 
Em outro documento oficial da instituição, Milislav Demerec 
(1895-1966) homenageou o fundador e diretor do Cold Spring Harbor 
Laboratory e criador do Eugenics Record Office. No entanto, nessa home-
nagem póstuma, a palavra eugenia não foi mencionada. Contudo, Da-
venport foi lembrado como um pioneiro nos estudos nas fases iniciais 
da genética: 
É prova da coragem de Davenport e da visão dos conselheiros, que o 
programa do laboratório recém-criado lidava com problemas que eram 
então novos. [...] Ele deu uma importante contribuição para o início 
da genética, não só pelo seu próprio trabalho e o deste Departamento 
[de Genética], mas também pelo interesse pela genética que ele ajudou 
a estimular através da Carnegie Institution. Isso resultou em apoio 
financeiro substancial para pesquisa, que veio em um momento crítico 
 
Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 115-139, 2022. 133 
e trouxe retornos impressionantes. Muitos dos geneticistas pioneiros 
americanos foram auxiliados por doações da Instituição. (CSHL, Ye-
arbook 43, 1944, p. 103) 
A documentação produzida no processo de desativação do Eugenics 
Record Office mostra o esforço da instituição, através de seus diretores 
para dissociar o conjunto institucional do embaraçoso passado do 
pensamento eugênico. Essa tarefa não foi fácil, mas no início da década 
de 1950, a se dedicou intensamente à pesquisa básica voltada para os 
interesses do governo dos Estados Unidos atento aos impactos da 
Guerra Fria. 
O Cold Spring Harbor Laboratory, assim como a Carnegie Institution pas-
saram a ser financiados predominantemente por recursos públicos, 
apoiados pelo ex-ministro da Defesa, Vannevar Bush dada sua atuação 
à frente do National Defense Research Comittee. Mesmo assim, o Cold Spring 
Harbor Laboratory não deixou de envolver-se em outras investigações 
polêmicas como os efeitos do ácido lisérgico de Harold A. Abramson 
(1899-1980) em pessoas saudáveis e adictas, parte do projeto secreto 
MK-Ultra (Diwan, 2020, p.130). Atualmente, o Cold Spring Harbor La-
boratory administra fundos recebidos por doações privadas e fundos de 
pesquisa públicos. Os bens da instituição consistem em pouco mais de 
um bilhão de dólares. A instituição dedica-se ao desenvolvimento de 
pesquisas sobre o câncer, neurociência, genômica, biologia quantitativa 
e biologia de plantas (CSHL, AR, 2020, p.32). 
AGRADECIMENTOS 
Agradeço a leitura criteriosa dos pareceristas deste artigo e por suas 
contribuições indispensáveis que enriqueceram o texto final. Também 
agradeço ter sido agraciada pelo Research travel grant do Cold Spring Har-
bor Laboratory (2017), sua diretora executiva Mila Pollock e, à arquivista 
Clare Clark e equipe, que atenderam com paciência as minhas solicita-
ções. Finalmente, agradeço o apoio financeiro da CAPES e CNPq du-
rante a pesquisa de doutorado na PUC-SP entre os anos de 2016-2020. 
Declaro que não há nenhum conflito de interesse neste artigo. 
 
 
 
 
 134 
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Data de submissão: 17/11/2021 
Aprovado para publicação: 15/05/2022 
 
 
 
 
 
 
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