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F il o s o fi a e H is tó ri a d a B io lo g ia 1 7 .1 ISSN 1983-053X e-ISSN 2178-6224 Filosofia e História da Biologia vol. 17, n° 1, 2022 Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia – ABFHiB Filosofia e História da Biologia Volume 17, número 1 Jan.-Jun. 2022 Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia – ABFHiB http://www.abfhib.org DIRETORIA DA ABFHiB (GESTÃO 2019-2021) Presidente: Ana Maria de Andrade Caldeira (UNESP-Bauru) Vice-Presidente: Maurício de Carvalho Ramos (USP) Secretaria: Frederico Felipe de Almeida Faria (UFSC) Tesoureira: Viviane Arruda do Carmo (GHTB/USP) Conselheiros: Aldo Mellender de Araújo (UFRGS) Lilian Al-Chueyr Pereira Martins (FFCLRP-USP) Maria Elice Brzezinski Prestes (USP) Nelio Marco Vincenzo Bizzo (USP e UNIFESP) A Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia (ABFHiB) foi fundada no dia 17 de agosto de 2006, durante o IV Encontro de Filosofia e História da Biologia, realizado na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, SP. O objetivo da ABFHiB é promover e divulgar estudos sobre a filosofia e a história da biologia, bem como de suas interfaces epistêmicas, estabelecendo cooperação e comunicação entre todos os pesquisadores que a integram. Filosofia e História da Biologia Editoras: Lilian Al-Chueyr Pereira Martins (FFCLRP-USP) Maria Elice Brzezinski Prestes (USP) Conselho editorial: Aldo Mellender de Araújo (UFRGS), Ana Maria de Andrade Caldeira (UNESP), Charbel Niño El-Hani (UFBA), Douglas Allchin (UM-EUA), Garland E. Allen (Washington University in St. Louis, USA), Gustavo Caponi (UFSC), Marisa Russo (UNIFESP), Marsha L. Richmond (WSU-EUA), Maurício de Carvalho Ramos (USP), Nadir Ferrari (UFSC), Nelio Bizzo (USP), Pablo Lorenzano (UBA, Argentina), Palmira Fontes da Costa (UNL, Portugal), Ricardo Waizbort (Instituto Oswaldo Cruz), Sander Gliboff (IU-EUA), Susana Gisela Lamas (UNLP, Argentina). Filosofia e História da Biologia Volume 17, número 1 Jan.-Jun. 2022 ISSN 1983-053X e-ISSN 2178-6224 Filosofia e História da Biologia V. 17, n. 1, jan.-jun. 2022 Homepage: https://www.revistas.usp.br/fhb hhttps://www.abfhib.org/revista/ e-mail da revista: fil-hist-biol@usp.br fil-hist-biol@abfhib.org Filosofia e História da Biologia é uma Revista USP com a parceria da Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia (ABFHiB). Integra também as publicações do Centro Interunidades de História da Ciência (CHC) da Universidade de São Paulo. Copyright © 2022 Filosofia e História da Biologia Filosofia e História da Biologia é indexada por: Historical Abstracts - http://www.ebscohost.com/academic/historical-abstracts Isis Current Bibliography - https://isiscb.org/ Philosopher’s Index - http://philindex.org/ Latindex - https://www.latindex.org/latindex/ficha?folio=20081 Redib - https://redib.org/Record/oai_revista6142-filosofia-e-hist%C3%B3ria-da-biologia LatinnRev - https://latinrev.flacso.org.ar/revistas/filosofia-e-historia-da-biologia Doaj - https://doaj.org/toc/2178-6224 Diadorim - http://diadorim.ibict.br/handle/1/3011 Filosofia e História da Biologia. Vol. 17, número 1 (jan.-jun. 2022). São Paulo, SP: Universidade de São Paulo/ABFHiB, 2022. Semestral x, 92 p.; 21 cm. ISSN 1983-053X 1. Biologia – história. 2. História da biologia. 3. Biologia – filosofia. 4. Filosofia da biologia. I. Martins, Lilian Al-Chueyr Pereira. II. Prestes, Maria Elice Brzezinski. III. Filosofia e História da Biologia. IV. Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia, ABFHiB. CDD 574.1 / 574.9 A publicação adota a licença Creative Commons Non Commercial - Share Alike 4.0 International. Os manuscritos são de propriedade da revista Filosofia e História da Biologia. As informações e conceitos emitidos em artigos assinados são de absoluta responsabilidade de seus autores. Editoras executivas: Lilian Al-Chueyr Pereira Martins Maria Elice Brzezinski Prestes https://www.revistas.usp.br/fhb http://www.abfhib.org/FHB/index.html mailto:fil-hist-biol@usp.br mailto:fil-hist-biol@abfhib.org v Sumário Lilian Al-Chueyr Pereira Martins e Maria Elice Brzezinski Prestes “Editorial” vi Ísis Francisco Rolim Costa e Gildo Magalhães “Uma introdução à história da embriologia” “An introduction to the history of embryology” 1 Julian Cristian Gonçalves da Silva Junior “A ascensão da paleontologia no final do século XIX: algumas considerações por Thomas Henry Huxley” “The rise of paleontology in the late XIX century: some considerations by Thomas Henry Huxley” 47 Pedrita Fernanda Donda “As espécies sob a perspectiva de Louis Agassiz: 1857- 1874” “Species from Louis Agassiz’s perspective: 1857-1874 Pedro Leal de Souza e Lavínia Schwantes “Discussões em torno da história e filosofia da biologia aplicadas ao ensino de biologia” “Discussions around the History and Philosophy of Biology applied to Biology teaching” 73 93 Pietra Stefania Diwan “Cold Spring Harbor Laboratory e o Eugenics Record Office (1890-1939): genética e eugenia” “Cold Spring Harbor Laboratory and Eugenics Record Office (1890-1939): genetics and eugenics” 115 vi EDITORIAL Lilian Al-Chueyr Pereira Martins Maria Elice de Brzezinski Prestes O volume 17, número 1, de Filosofia e História da Biologia, um periódico do Centro Interunidade de História da Ciência e Tecnologia (CHC) e do Portal de Revistas USP, contém cinco artigos. Filosofia e História da Biologia, revista de acesso livre, com o apoio da Universidade de São Paulo, assume todos os custos pelo processamento e publicação dos artigos, sem qualquer custo para autores e leitores. Os temas presentes nos artigos que integram este fascículo dizem respeito à história da biologia, especificamente à história da embriologia numa abordagem long-durée; à história da paleontologia no século XIX; à história da evolução no século XIX e história da eugenia no século XX, além de um estudo bibliométrico. Isis Francisco Rolim Costa e Gildo Magalhães revisitam a história da embriologia e geração, desde a Antiguidade até o século XXI. Julian Cristian Gonçalves da Silva Junior apresenta uma tradução comentada de um dos ensaios de Thomas H. Huxley em que ele trata do desenvolvimento da paleontologia e o estado em que ela se encontrava no século XIX. Pedrita Fernanda Donda discute sobre a concepção de espécie do zoólogo suíço Louis R. Agassiz no período compreendido entre 1857 e 1874, procurando detectar se houve alguma mudança em seu pensamento. Pedro Leal de Souza e Lavínia Schwantes fazem um mapeamento dos artigos publicados em História e Filosofia da Biologia no período compreendido entre 2006 e 2020, focando a atenção vii nos artigos que tratam da interface história e filosofia da biologia e ensino de ciências. Pietra Stefania Diwan conta a história do Cold Spring Harbor Laboratory, no período compreendido entre 1910 a 1930, concentrando nas pesquisas eugênicas e seus desdobramentos. Os personagens centrais são Charles Benedict Davenport e Harry H. Laughlin. Agradecemos a todos aqueles que contribuíram direta ou indiretamente para a elaboração deste volume em todas as etapas de sua organização, incluindo autores de artigos e particularmente, àqueles que atuaram como árbitros pelos cuidadosos pareceres, contribuindo assim para a concretização dos objetivos da Associação Brasileira de Filosofiae História da Biologia (ABFHiB). viii Ilustração de Leonardo da Vinci (1452-1519) em estudos sobre o feto no útero. Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/63/Leonardo _da_Vinci_-_Studies_of_the_foetus_in_the_womb.jpg> Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 1 Uma introdução à história da embriologia Ísis Francisco Rolim Costa * Gildo Magalhães # Resumo: Este trabalho apresenta um panorama do desenvolvimento do conceito de embrião desde a Antiguidade até o século XXI. A relevância em se discutir o que seria um embrião se acentua devido às preocupações e im- plicações éticas, religiosas, culturais e sociais que permeiam os debates a isto relacionados, tais como aborto, fertilização in vitro, uso de células tronco e clonagem. Diante desse cenário, procurou-se discutir sobre como alguns filó- sofos e pesquisadores consideraram as mudanças relacionadas ao entendi- mento de embrião ao longo do tempo, um dos temas mais controversos den- tro das ciências biológicas. Palavras-chave: História da embriologia. Embrião. Diferenciação. Mor- fogênese. An introduction to the history of embryology Abstract: This work presents an overview of the concept of embryo devel- opment from Antiquity to the 21st century. Such discussion's relevance con- cerns the ethical, religious, cultural and social relations and implications that permeate the debates related to this, such as abortion, in vitro fertilization, use of stem cells, and cloning. Given this scenario, we sought to discuss how some philosophers and researchers considered the changes related to the under- standing of the embryo over time, one of the most controversial topics within the biological sciences. Keywords: History of embryology. Embryo. Differentiation. Morphogenesis * Instituto de Biociências, Universidade de São Paulo. E-mail: isis.francisco.ro- lim@gmail.com # Universidade de São Paulo. Departamento de História. E-mail: gildomsantos@usp.br about:blank about:blank 2 1 INTRODUCÃO Os desenhos de um feto no interior do útero materno feitos por Leonardo da Vinci (1452-1519) são famosos e testemunham a curiosi- dade humana por entender como se processa o desenvolvimento da vida. O que é um embrião? O que nós sabemos sobre ele? Perguntas como essas têm sido feitas e inquietado muitas pessoas, devido às pre- ocupações e implicações – éticas, religiosas, culturais e sociais –, não apenas os biólogos do desenvolvimento, mas políticos, juristas e a po- pulação como um todo, nas últimas décadas. São assuntos que propor- cionam muita discussão sobre temas como aborto, fertilização in vitro, uso de células-tronco e clonagem. No entanto, o termo é raramente ou pouco claramente definido e sua terminologia tem apresentado dife- renças ao longo do tempo, em diferentes contextos. Esta pesquisa1 tem por objetivo discutir o desenvolvimento histó- rico do conceito de embrião. Tomamos como ponto de partida o artigo da bióloga Jane Maienschein (2007). No século XVIII, desde 1771 quando ocorreu o surgimento da pri- meira edição da Enciclopédia Britânica, o termo “embrião” era visto como o estágio mais antigo e indiferenciado do desenvolvimento de um or- ganismo individual. Com essa definição o estágio embrionário se dife- renciava do estágio fetal, com o primeiro dando lugar ao segundo, à medida que a forma emergia gradualmente da matéria não-formada (Maienschein, 2007, p. 324). O Dicionário de Oxford apresenta uma descrição semelhante. No século XVII, “embrião” era considerado como "uma coisa em seu es- tágio rudimentar ou um primeiro começo; um germe; algo que ainda está em ideia, em oposição ao que se tornou real de fato”. Definição que nos faz lembrar de um estágio não desenvolvido, de algo que está para ser, e que possivelmente veio do latim Embryon com uma sugestão de significar ‘‘inchaço para dentro’’ (Maienschein, 2007, p. 325). Mais recentemente, já no século XX, a embriologia passou a ser chamada “biologia do desenvolvimento” e a herança genética começou a aparecer para justificar algumas lacunas. Nesse cenário, na edição da 1 Este artigo se baseia principalmente na pesquisa desenvolvida na Iniciação Científica da primeira autora. Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 3 Britannica em 1961 Aute Richards2 (1885-1974), descreveu o “embrião” como o começo da ação biológica de fertilização, existente por meio do processo de divisão celular. O início desse processo de desenvolvi- mento se daria a partir de células indiferenciadas e sem forma, que gra- dualmente se tornariam tipos histológicos diferenciados (Maienschein, 2007, p. 325). Segundo Richards, só após o término desse processo de mudança histológica é que o embrião estaria pronto para funcionar plenamente e tomar um lugar independente no mundo (Richards, 1931, apud Maienschein, 2007, p. 325). Contundo, nos perguntamos se, quando ele estivesse pronto, ele deixaria imediatamente de ser um embrião? Houve ao longo de séculos duas vertentes antagônicas que tentaram explicar o desenvolvimento embrionário. A epigênese, que defendia o surgimento gradual da forma, contra outra alternativa que era a pré- formação, a qual dizia que a forma era presumida e já estava presente desde o início. Foram debates importantíssimos e sem dúvida sua lei- tura continua despertando indagações pertinentes. (Maienschein, 2007, pp. 325-326). 2 DA GERAÇÃO E CORRUPÇÃO A geração, como fenômeno biológico, foi alvo de discussões por longos períodos no tempo, estando presente até a atualidade. Aristóteles (384-322 a.C.) apresentou nas obras, Historia Animalium [“História dos Animais”], De Partibus Animalium [“Partes de Animais”] e De Generatione et Corruptione [“Da Geração e Corrupção”], suas hipó- teses sobre a geração e hereditariedade (Singer, 1996, p.35). Aristóteles se interessava pela reprodução e fez uma cuidadosa in- vestigação embriológica. A forma de reprodução foi um dos princi- pais critérios adotados em sua classificação dos animais (Grant, 2009, p. 60). Uma das pesquisas embriológicas mais significativas de Aristó- teles sobre a reprodução foi realizada com ovos de galinha fecundados, examinando-os dia após dia e observando o progresso dos embriões (Ibid., p. 53). Para Aristóteles, os primeiros sinais de desenvolvimento seriam perceptíveis ao terceiro dia, após a postura do ovo pela galinha, quando 2 Biólogo norte-americano e editor da publicação Bios. 4 o coração se tornava visível “como um ponto palpitante de sangue”. O coração seria a sede da inteligência para Aristóteles, o primeiro órgão a aparecer e o último a morrer. (Singer, 1996, p. 42). Ou seja, ele con- siderava que os órgãos mais importantes apareceriam antes de outros. Aristóteles acreditava também que todos os corpos eram compos- tos de matéria e forma, a primeira funcionando como princípio pas- sivo, e que seria a substância de que alguma coisa é feita, e a segunda, como princípio ativo, ou seja, a essência. Tais considerações esten- diam-se no que diz respeito à natureza da procriação (Aristóteles, [sec. IV. a. C], 2001). Neste caso, Aristóteles concluiu que a substância material do em- brião era contribuição da fêmea, mas esta seria apenas um material pas- sivo no qual cresce o embrião, moldável como um solo. O macho con- tribuiria de forma essencial com o princípio da vida, dando a alma (psyché), sendo esta algo imaterial. A contribuição do macho seria a forma e o princípio vital, ou causa primeira, portanto, teoricamente não seria necessário passar algum material de geração para a fêmea. Mesmo que algo material acabasse passando, isto era apenas o que ele chamava de material acidental3 e não essencial (Aristóteles, [sec. IV. a. C], 2001). A respeito da natureza da vida, Aristóteles acreditava que a dife- rença entre matéria vivae não viva não dependeria da constituição ma- terial, e sim da presença ou ausência da alma, psyché, como já citado acima, que daria a forma ou existência real a todos os seres vivos4. Quanto ao princípio de organização da vida, ele distinguia três or- dens ou tipos: a “vegetativa” ou “nutritiva”, pertencente a plantas, ani- mais e aos humanos; a “reprodutiva” (animal ou sensitiva), associada aos animais, incluindo o ser humano; e a “alma racional ou intelectual”, exclusiva do homem. 3 A crença no caráter acidental da contribuição material do macho foi comum entre muitos estudiosos até o século XIX, no entanto havia controvérsias. No livro Exerci- tationes de generatione animalium [“Dissertações acerca da Geração dos Animais”] (1651) de William Harvey (1578-1657), as ideias com relação à natureza da fertilização são praticamente as mesmas de Aristóteles há dois mil anos antes (Singer, 1996, p. 43). 4 Vale ressaltar que Aristóteles era um vitalista, isto é, acreditava que os organismos vivos eram fundamentalmente diferentes dos objetos inanimados por conterem algum elemento metafísico ou por serem governados por diferentes princípios, ou seja, como a “força vital”, que possuiria natureza não material ou energética. Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 5 Já no que diz respeito à constituição da matéria, Aristóteles acredi- tava que havia quatro qualidades primárias e fundamentalmente opos- tas: quente e frio, úmido e seco, que se combinariam com os famosos quatro elementos (Figura1). Aristóteles diferia a geração e corrupção daquelas outras formas de mudança (ou de “geração não absoluta”), como o aumento e a dimi- nuição, a alteração e a translação dos seres - como, por exemplo, o aumento de tamanho ou o simples crescimento de um animal ou planta. Diferentemente desses últimos processos, a geração absoluta só pode ser explicada se se supõe a existência de um substrato impercep- tível e inseparável, como por exemplo, na geração de algo novo, que não existia antes. Fig. 1. Esquema das quatro qualidades e dos quatro elementos, com os qua- tro humores. Fonte: SINGER, Charles. Uma breve história da anatomia e fisiologia desde os gre- gos até Harvey. Campinas: Unicamp, 1996. p. 46. 6 Aristóteles começou a refletir sobre a geração e corrupção (ou mo- dificação) serem absolutas, ou não, e como esse processo aconteceria. Muitos acreditavam que as coisas se geravam e se corrompiam por as- sociação e dissociação, e se alteravam quando modificavam suas pro- priedades, ou a ordem e posição que assumissem. Alegavam que a ver- dade se encontrava nos fenômenos observáveis e que estes eram con- trários entre si, como um dia ensolarado e um de tempestade, além de poderem ser em número infinito, ou seja, indeterminado, como por exemplo, os grãos de areia. Então a geração e a corrupção não para- riam? Já a geração absoluta seria o surgimento de algo novo, a geração e corrupção absolutas não se definiam por associação e dissociação, mas sim quando uma coisa se transformava em outra, em seu conjunto. No entanto, ambas, geração e corrupção, são as formas mais profundas de transformação que poderiam afetar os entes, ou seja, os seres. Aristóteles parecia não concordar com o fato de existir uma geração a partir do nada (uma geração absoluta), procurando, portanto, as suas causas. Será que há algo que se gere e se destrua no sentido absoluto? Nada se gera estritamente, a partir de si mesmo? Ou sempre se gera algo a partir de algo? – era o que se indagava Aristóteles. Aristóteles refletiu se as transformações são feitas por efeitos, ou não, e sobre como se formam os corpos vivos. Seria pela composição dos elementos contrários, por exemplo, uma média de quente e frio? Seriam os corpos compostos feitos dos corpos simples? Há reflexões sobre o princípio de criação da geração, o qual seria equivalente à com- binação da matéria, como substância da geração. O princípio que daria a forma seria a combinação de alguns elementos, como o ar e terra, com suas qualidades, seco, frio, etc. Aristóteles apresentou em seguida uma outra visão, o princípio de ser (o ente, aquilo que existe) ou não ser, que é o princípio da geração segundo Platão5 (428-7 a.C.-348-7 a.C.). Este defendia que as ideias eram causas que geravam as coisas, por exemplo, existiria uma ideia de árvore, contida no mundo das ideias, a partir da qual a matéria no mundo sensível, do qual fazemos parte e ao qual temos total acesso, produziria sua própria geração, por meio do movimento dela própria a partir do mundo das ideias, onde há as árvores ideais. 5 Filósofo e matemático, nascido e falecido na cidade de Atenas. Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 7 Aristóteles não concordava com as ideias de Platão, para quem Deus criou o universo (uma única vez), a partir do que este chamava de “mundo das ideias”, fixo e imutável. Aristóteles acreditava que a geração é contínua, formando sua “escala da natureza”, existindo sem- pre, mas não poderia permanecer da mesma forma (“evoluindo”, de certa forma). O movimento decorrente requereria um “motor”, talvez único e inalterado, mas deveria ser contínuo e causado por aquilo que se move ou pelo meio que se movimentaria. Por exemplo, uma flecha disparada se moveria a partir de si mesma ou porque estaria sendo im- pulsionada pelo ar? Por fim, somos levados, por Aristóteles, a refletir a respeito de a geração ser antecedente ou consequente e sobre as suas causas, a pos- sibilidade de ser cíclica, ou seja, as coisas seriam destruídas (corrompi- das) para serem novamente geradas, ou não-cíclica. O mundo teria sido construído de tal modo que a geração existiria sempre, embora pudesse ser interrompida. Ele concluiu que a geração existe e ela seria explicada pela combinação dos elementos, juntamente, com a corrupção, que também existiria, sendo ambas complementares.6 3 GERAÇÃO: ORGANISMOS, EMBRIÕES E CÉLULAS Na “teoria da epigênese”, cada embrião ou organismo seria gradu- almente produzido a partir de uma “massa” indiferenciada inicial, como acreditava Aristóteles. No século XVII, uma visão mecanicista do mundo vivo ajudaria a apoiar os modelos pré-formacionistas, que pareciam mais adequados, pois estes dispensavam a “força vital” de- fendida pela “teoria da epigênese” (Magner, 1994, p. 172). Na “teoria do preformismo” argumentava-se que um embrião ou uma miniatura individual pré-existente, e que estaria de alguma forma encapsulado, todo pronto, seja no “sêmen” da fêmea (como se deno- minava a semente feminina) ou no sêmen do macho, começaria a se desenvolver a partir de estímulos apropriados, como por exemplo, o calor. 6 A diferenciação a partir de algo ainda sem forma viria a ser considerada, posterior- mente, a visão de “epigênese” de Aristóteles. 8 A “filosofia mecanicista” era baseada, entre outros, nos trabalhos de Cláudio Galeno7 (129-216 d.C.) e de Isaac Newton8 (1643-1727), influenciando até o pensamento Iluminista, o qual enfatizava a mente racional e objetiva. Galeno realizou extensos estudos de anatomia e fisiologia através da dissecação de macacos e outros pequenos animais e, por analogia, aplicava ao ser humano todas as observações que fazia. Achava de fun- damental importância o uso da observação direta, assim como Aristó- teles (Stülp & Mansur, 2019, p. 166). Galeno conseguiu descrever a membrana fetal, os vasos sanguíneos do útero, os órgãos do feto, o forâmen oval, incluindo o modo como ele se fecha após o nascimento, tudo por meio da observação. Em seus escritos sobre o sêmen, ele se posicionou sobre a contribuição femi- nina, que complementaria de alguma forma o surgimento do feto. Mesmo assim, o sexo masculino era considerado o possuidor de mais calor interno e com isso mantinha maior relevância na geração. À me- dida que o feto se desenvolvia, o fígado, o cérebro e o coração apare- ciam (Singer, 1996, pp.79-81).De Galeno até William Harvey9 (1578-1657) – ou seja, desde o sé- culo II até o século XVII – essas ideias sobre geração sofreram poucas mudanças fundamentais. Harvey, como outros antes dele, fez experi- mentos com ovos de galinha, mas também com óvulos de veado, ba- seando seus estudos em Aristóteles e em Girolamo Fabrici10 (1533- 1619) (Magner, 1994, p. 174). Para Harvey, o embrião continuava sendo a combinação da matéria da fêmea com o princípio de formação de forma do macho. O embrião seria formado por um processo de precipitação no útero, imediata- mente após a cópula. Com a gravidez, o sangue da mãe iria nutrir e proporcionar a matéria adicional para o crescimento do embrião (Sin- ger, 1996). 7 Nasceu em Pérgamo, na Ásia Menor (atualmente Bergama, na Turquia). 8 Filósofo natural inglês, mais conhecido atualmente como físico e matemático. 9 Médico e fisiólogo inglês, que descreveu os detalhes do sistema circulatório e a cir- culação do sangue. 10 Também conhecido como Hieronymus Fabricius, médico cirurgião, produziu dois tratados sobre embriologia: De formato foetu (1600) e De formatione ovi et pulli (1621), publicado postumamente. Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 9 Pode-se também mencionar os estudos sobre a geração do médico italiano Francesco Redi11 (1626-1698), com seus experimentos sobre geração espontânea (na época, chamada geração “equívoca”). Redi tes- tou vários tipos de substrato incluindo carne de animais e notou como diferentes tipos de mosca eram atraídos por essas substâncias, conclu- indo que as larvas poderiam se desenvolver a partir de ovos deposita- dos por moscas adultas e publicou os resultados em sua obra Esperienze intorno alla generazione degl’insetti [“Experimentos sobre a geração de in- setos”] (1668)12 (Magner, 1994, p. 267). 3.1 Alguns adeptos do preformismo Marcello Malpighi13 (1628-1694) descreveu o desenvolvimento de embriões como um simples desdobramento de um organismo adulto já em miniatura. Fez observações do desenvolvimento do ovo de gali- nha e considerava imprecisa a atividade de observação. O problema era quando o desenvolvimento parecia ser gradual, mas algumas partes po- deriam estar presentes no ovo da galinha antes de começar o período de incubação (Wellner, 2010). Na mesma época, Jan Swammerdam14 (1637-1680), a partir de seus estudos apoiou a pré-formação, após ver borboletas dobradas em cri- salides. Para Swammerdam, borboletas adultas estavam simplesmente mascaradas (pré-formadas) dentro das lagartas. (Wellner, 2010). Nicolas Malebranche15 (1638-1715) também considerava a ideia do emboîtement, caixas dentro de caixas, as quais seriam formadas por uma série infindável de embriões pré-existentes, um dentro do outro e ape- nas um dos pais, macho ou fêmea, seria a fonte do indivíduo pré-for- mado. O ovo seria o portador da geração para a formação dos novos organismos, sendo o papel do macho iniciar o desenvolvimento. 11 Médico italiano. 12 Para mais informações sobre as diferentes concepções de Francesco Redi ver, por exemplo, Prestes & Martins, 2018. 13 Marcello Malpighi foi um médico anatomista italiano e realizou diversos experimentos com o apoio do microscópio. 14 Jan Swammerdam foi um filósofo natural holandês e microscopista. 15 Filósofo e padre francês. 10 Mais tarde, as observações microscópicas16, trouxeram novas pers- pectivas em relação aos estudos da reprodução. Anton van Leeuwenhoek17 (1632-1723), naturalista holandês, ob- servou ao microscópio a substância espermática percebendo que ela continha corpos arredondados, com uma cauda alongada e também testou a mobilidade e a sobrevivência deles, que eram chamados na época de “animálculos” (Figura 2) (Magner, 1994, pp. 177-178). No entanto, Leeuwenhoek não acreditava que fosse possível ver um futuro ser adulto neles. Ele estudou o esperma de trinta animais diferentes e os ovários de vacas e carneiros para pesquisar o folículo de Graaf18 (Magner, 1994, p. 179). No final do século XVIII, Dalenpatius (pseudônimo de François de Plantade,1670-1741), astrônomo francês, cartógrafo e arqueólogo, fez desenhos do esperma como seres humanos minúsculos com braços e pernas, ao invés de “animálculos”. Em uma carta datada de 1699 para Nehemiah Grew (1641-1712), médico britânico, Leeuwenhoek comen- tou sobre suas ideias sobre o esperma comparando-as às de Dalenpa- tius, que criticou como absurdas (Figura 3). Leeuwenhoek também realizou pesquisas com ovos grandes, do ta- manho de ervilhas, os quais teriam que passar pelos tubos de Falópio19. Estudou a reprodução em afídeos20, e percebeu que as fêmeas podiam se reproduzir sem copular. Esse fato ofereceu apoio para a teoria da pré-formação (ovista ou espermatista), ou seja, o indivíduo estaria pre- formado dentro do óvulo da mãe ou dentro do espermatozoide do pai (Magner, 1994, p. 179). Pierre Louis Moreau de Maupertuis21 (1698-1759), em sua obra Vê- nus Física (1745) considerou que partículas de ambos os progenitores 16 Alguns defendem que o microscópio tenha sido concebido no final do século XVI por Hans Janssen e seu filho Zacharias, dois holandeses fabricantes de óculos. 17 Ao final do século XVII, Anton van Leeuwenhoek identificou a levedura como um ser vivo. 18 Reinier de Graaf (1641-1673), médico e fisiologista holandês, observou o desenvolvimento dos folículos em ovários de coelhas prenhas. 19 Gabriele Falloppio (1523-1562), médico anatomista italiano, forneceu uma descrição detalhada dos “tubos de Falópio”, conhecidos também como tubos uterinos.Também fez diversas contribuições envolvendo a anatomia da cabeça. 20 Pulgões de plantas. 21 Filósofo, matemático e astrônomo francês Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 11 contribuem para o fluido seminal, a partir do qual o embrião era for- mado no ventre. Para Maupertuis, a atração das partículas estava rela- cionada a forças da gravidade obscuras, mas não se sabia ao certo como essas partículas reconheciam o local adequado para se fixar e desenvol- ver (Ramos, 2016, p. 137). Fig. 2: Desenhos de Leeuwenhoek em 1687: “animálculos” do esperma humano. Fonte: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/6b/Leeuwenhoek %2C_Microscopic_observations_Wellcome_L0001349.jpg> Fig. 3: Gravura de três espermatozoides em uma carta de Leeuwenhoek para Nehemiah Grew. As duas primeiras imagens de espermatozoides mos- tram um homúnculo (ideia de Dalenpatius). A terceira imagem representa o “animálculo” de Leeuwenhoek. Fonte: MAGNER, Lois. Problems in generation: Organisms, embryos, and cells. Pp: 142-186, in: MAGNER, Lois. A history of the life sciences. New York: Editora Dekker. 1994. p. 178. about:blank about:blank 12 Vários estudiosos foram defensores da pré-formação ovista. No sé- culo XVIII houve grandes discussões entre epigenistas e preformistas. Albrecht von Haller (1708-1777)22 e Casper Friedrich Wolff (1734- 1793) 23, por exemplo, fizeram extensas pesquisas sobre a natureza do desenvolvimento embriológico. Haller, por volta de 1740, era adepto do preformismo espermático. Depois de estudos realizados com animais cortados pela metade, como hidras, por exemplo, converteu-se à epigênese. Entretanto, Von Haller começou a questionar sobre o modo pelo qual um ser poderia pré- existir e voltou a defender que as partes deveriam se formar gradual- mente, a partir de um fluído desorganizado, aderindo novamente o pre- formismo, mas na perspectiva ovista, a partir das evidências obtidas nos experimentos de Charles Bonnet24 (1720-1793), de partenogênese em afídeos (Magner, 1994, pp. 180-181). Para Haller, era necessário a intervenção de Deus e não o acaso no desenvolvimento embrionário. Ao estudar o desenvolvimento do ovo de galinha, convenceu-se de que o embrião podia ser encontrado no ovo, junto com tudo que fosse necessário para sua maturação, antes que o ovo saísseda galinha. A concepção ocorreria quando o sêmen masculino estimulasse o óvulo. Charles Bonnet estudou os afídeos e acreditou que as primeiras fê- meas que existiram continham dentro de seus ovários a miniatura pre- cursora de todos os futuros membros da espécie. Já o sêmen masculino seria essencial para iniciar o crescimento, e a mãe ofereceria a nutrição para o seu desenvolvimento. Como exemplo ilustrativo, Bonnet dizia que “germes”, podiam estar confinados nos órgãos reprodutivos em animais “superiores”, mas nos animais “inferiores” estariam espalha- dos por todo o corpo, podendo desta forma explicar a regeneração das hidras que haviam seccionadas cortadas25 (Magner, 1994, p. 181). Quanto ao germe, Bonnet tinha dúvida se este era realmente algo particular do indivíduo ou simplesmente uma parte generalizada da es- pécie. No entanto, acabou adotando a ideia de que o germe deveria 22 Médico e fisiologista suíço. 23 Naturalista alemão. 24 Naturalista e filósofo suíço. 25 A classificação em animais superiores e inferiores seguia a orientação da “escala da natureza” de Aristóteles. Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 13 carregar a marca da espécie e não a do indivíduo, e sendo este o origi- nal, o primeiro conteria todas as características da espécie, segundo Magner (1994). O destino particular de cada um seria determinado pelo resultado dos processos naturais mais os fatores presentes na gestação, como a saúde da mãe, o tamanho e a nutrição. Todo o desenvolvimento e o crescimento do germe ocorreriam por processos puramente mecâni- cos, como por exemplo, o crescimento seria decorrente da alimenta- ção. Para Bonnet, a teoria preformista era um grande triunfo da mente racional sobre a experiência observacional direta (Magner, 1994). Georges-Louis Leclerc, Conde de Buffon26 (1707-1788) era adepto da epigênese. Contudo, utilizava explicações mecanicistas, diferente- mente de outros mecanicistas da época que, preferiam o preformismo (Magner, 1994, p. 181). Para Buffon, o embrião era formado por partículas orgânicas no sêmen masculino e no “sêmen” feminino, com ajuda de um molde in- terno, que direcionava as partículas para os lugares adequados. Haller ficou perturbado com as implicações mecanicistas da teoria da epigê- nese colocada por Buffon. Lazzaro Spallanzani27 (1729-1799) era um preformista ovista e adepto da filosofia experimental. Spallanzani era contra a geração es- pontânea (Prestes & Martins, 2009) e também estudava os processos de regeneração, circulação e respiração. Realizou estudos de “animál- culos” no sêmen de anfíbios, admitindo que o ovo era o ponto de ori- gem. Este estudo foi muito importante, pois ele acreditava que havia sido descoberto um germe pré-formado do girino nos ovos da rã, antes mesmo da ocorrência da fertilização (Magner, 1994, p. 182). As investigações de Spallanzani sobre o desenvolvimento de ovos de pássaros, répteis e insetos trouxeram evidências favoráveis ao pre- formismo. Sobre a fertilização e fecundação, muitos naturalistas afir- mavam que a fecundação nunca ocorria fora do corpo da mãe e outros acreditavam que o ovo não tinha nada a ver com a fertilização, apenas nutria a vida para o germe, um novo ser que surgiria. Outros negavam 26 Naturalista, matemático e escritor francês, 27 Sacerdote católico e fisiologista italiano 14 o papel do esperma e havia ainda quem atribuísse a este um poder in- visível semelhante à gravidade ou à força magnética, sendo o esperma apenas um fluido ou entidade líquida. Spallanzani mostrou que a fertilização das rãs era externa e que não era causada por um fator misterioso. Seus experimentos com rãs mor- tas mostravam que elas continuavam emitindo ovos que ao entrarem em contato com o sêmen, desenvolviam embriões. Já em relação aos ovos que eram dissecados dentro do corpo da fêmea, isso não ocorria. Em outro experimento, com rãs vivas, Spallanzani as cobriu com pa- nos, como se fossem “vestidinhos”, e apesar deste obstáculo as rãs ainda tentavam copular. O mesmo foi feito com os machos, que foram cobertos com “calças” para saber se era o sêmen o causador da fecun- dação. Os machos em contato com as fêmeas instintivamente iam co- pular, mas o esperma não conseguia atravessar o tecido, logo, não havia reprodução. Spallanzani tinha um grupo de controle e percebeu que as calças apertadas tinham claramente removido um ingrediente-chave, com isso veio a descoberta de que o sêmen parecia ser um elemento necessário para ocorrer a fertilização (Prestes, 2003). Em conclusão, para Spallanzani o ovo continha um indivíduo pré- formado e o sêmen seria o ativador do processo de desenvolvimento, no qual a mãe conteria o germe para a pré-existência. No entanto, se fosse desta forma, como explicar a semelhança dos filhos tanto com o pai como com a mãe? Tais questões ainda pareciam transcender a es- fera do conhecimento humano naquela época (Magner, 1994, p. 184). 3.2 A filosofia da Natureza Havia duas vertentes no século XVIII que debatiam constante- mente esse assunto: de um lado a chamada “filosofia da natureza” e de outro a “filosofia mecanicista”. O movimento da filosofia da natureza surgiu entre os séculos XVIII e XIX na Alemanha, defendido por adeptos da filosofia de Go- ttfried Leibniz28 (1646-1716) e Christian Wolff29. Eles alegavam a uni- 28 Um proeminente filósofo alemão e figura central na história da matemática. 29 Casper Wolff (1734-1793), estudou medicina na Universidade de Halle na Alemanha e foi aluno de Christian Wolff (1679-1754), um dos filósofos alemães mais importantes Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 15 dade da natureza, sendo esta, formada por forças que guiam seu desen- volvimento, como a formação das pedras, dos planetas e dos seres vi- vos. A unidade fundamental seria o que havia de comum na vida, tanto de plantas quanto de animais, e tal unidade era buscada pela Filosofia natural 30. Para esta filosofia o universo seria análogo a uma entidade viva, na qual o espírito, a vontade, ou Deus, estavam constantemente presentes, em um mundo misterioso. Wolff encontrou dificuldades para determi- nar o verdadeiro mecanismo do desenvolvimento, que para ele ocor- reria por epigênese (Magner, 1994, p. 185). Leibniz também fora professor de Christian Wolff, e para ele o uni- verso estava constituído da melhor forma possível, noção que se adap- tava bem à epigênese, pois esta admitia que os seres vivos têm capaci- dade de por si sós se desenvolverem segundo um princípio vital, que poderia ser uma espécie de “força oculta”, a partir de dentro do próprio ser. Segundo Wolff, o embrião era formado por camadas sucessivas, como folhas e em cada uma delas se desenvolveria um órgão do corpo com sua nova estrutura. A geração seria a formação de um corpo a partir da criação de suas partes, e a essência da vida se manifestaria nas mudanças durante o desenvolvimento. Não era necessário, para ele, explicar como ocorreria essa adição de partes, pois bastava demonstrar que de fato isso acontecia a partir de um desencadeamento de passos sucessivos. Casper Wolff estava interessado no padrão de diferenciação, após iniciado o desenvolvimento e para isso estudou a metamorfose das plantas e o desenvolvimento dos ovos em animais. A formação ocorria a partir de uma massa indiferenciada de pequenos “saquinhos” ou ve- sículas, que poderiam ter sido células ou pequenos glóbulos, mas que não eram versões em miniatura dos órgãos adultos. Essa conclusão re- força como Casper Wolff era favorável à epigênese (Magner, 1994). do século XVIII. Em sua tese de doutorado, Theoria Generationis (1759), descreveu o “desenvolvimento embrionário em plantas e animais como um processo envolvendo camadas de células, refutando assim a teoria mais aceita na época, a da pré-formação” (Ruffenach, 2009). 30 Para mais informações sobre a Filosofia Natural, consulte Magalhães(2015). 16 O preformismo desencorajava a pesquisa do desenvolvimento do embrião. Por ser apenas o estudo de um indivíduo em miniatura, o conhecimento obtido seria o equivalente ao estudo do mesmo indiví- duo já adulto. Por outro lado, os epigenistas acreditavam que o desen- volvimento era sinônimo de mudança, junto com o crescimento (Mag- ner, 1994). Johann Wolfgang von Goethe31 (1749-1832), também era simpati- zante da Filosofia da Natureza, contra o preformismo e o mecanicismo newtoniano popularizado pela metáfora do relógio32 (Magner, 1994). Ernst Heinrich Haeckel33 (1834-1919) alegava que durante o desen- volvimento os embriões progrediam através de estágios que eram vir- tualmente idênticos às formas adultas de seus ancestrais. Para ele, na história embriológica, todas as espécies evoluiriam de um ancestral co- mum. Haeckel retomou a “lei do paralelismo”, de Johann Friedrich Meckel (1781-1833), anatomista alemão, e afirmava que a ontogenia (a gênese de um indivíduo, como por exemplo, o ser humano) recapitu- lava a filogenia (a gênese de sua linhagem evolutiva, como por exem- plo, os vertebrados) (Magner, 1994, p. 212). Para Haeckel, a “filogenia seria a causa mecânica da ontogenia”. Atualmente essa noção é objeto de críticas, pois Haeckel teria confun- dido a descrição do estágio do desenvolvimento do embrião individual de determinada espécie com as evidências da evolução de todas as es- pécies, como se todas se desenvolvessem na mesma sequência evolu- tiva. Sua “lei” da biogenética se tornou um núcleo da Filosofia Natural, em que o universo era visto como um grande ser vivo, no qual a ges- tação da natureza estabelecia uma unidade fundamental e profunda en- tre os seres orgânicos (Magner, 1994, p. 212). 3.3 A filosofia mecanicista Os filósofos mecanicistas concebiam a natureza como uma má- quina, que obedeceria às relações de causalidade necessárias, automáti- cas e previsíveis, constituídas pelos movimentos e interações de corpos 31 Estudioso de várias ciências, escritor e estadista alemão. 32 De acordo com esta metáfora, o universo é um grande mecanismo pré-formado por Deus para funcionar automaticamente 33 Biólogo, naturalista, filósofo, médico, professor e artista alemão Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 17 materiais no espaço.34 A ideia de causalidade utilizada era linear, ou seja, o efeito seria proporcional à causa geradora, obedecendo as leis da mecânica, como por exemplo, uma determinada força exercida em um corpo seria proporcional à sua aceleração. Lorenz Oken35 (1779-1851) realizou estudos com animais mari- nhos, buscando entender os arquétipos dos animais, ou seja, os planos básicos mais antigos da sua natureza, para compreender a estrutura e desenvolvimento do ser humano (Magner, 1994, p. 192). Ele acreditava existir uma espécie de “muco” primitivo que conteria vesículas esféricas e estas produziriam os organismos simples. Já os or- ganismos complexos seriam um agregado de organismos simples. Tudo teria se originado a partir de uma “geleia” marinha primitiva. Isto parece uma aproximação do futuro protoplasma, ao qual Thomas H. Huxley36 (1825-1895) irá se referir como a base física da vida, dizendo que “toda a ação vital seria o resultado de forças moleculares do pro- toplasma que o exibe” (Magner, 1994). Theodor Schwann (1810-1882), fisiologista alemão, deixou contri- buições significativas para histologia, fisiologia, microbiologia e para a ampliação da teoria celular.37, Schwann entendia que havia uma uni- dade fundamental dos princípios anatômicos e fisiológicos das plantas e animais e propunha uma nova estratégia para investigar a origem e desenvolvimento do embrião (Magner, 1994, p. 194). Havia, porém, a necessidade de um estudo unificador, alguma teoria para poder comparar animais e plantas. A constatação de Schwann foi importante para elucidar a relação do mundo animal com o vegetal, em relação à composição dos tecidos, buscando correlacionar o desenvol- vimento do embrião a partir desses princípios básicos. 34 Lembrando os robôs do filme Metrópolis, de Fritz Lang (1890-1976), cineasta austrí- aco. 35 Naturalista alemão cujo nome é relacionado à Naturphilosophie. 36 Huxley foi defensor do agnosticismo (ele cunhou esta palavra). Defendeu com vigor o naturalismo evolucionário de Charles Darwin (1809-1882), enquanto seus esforços organizacionais, palestras públicas e escritos ajudaram a elevar o lugar da ciência na sociedade moderna. Vide mais informações em Leonard Huxley, 2004. 37 Schwann observou a membrana que envolve as fibras nervosas e também a pepsina, ao estudar os processos de fermentação. A bainha de mielina é formada pelo enrola- mento da membrana plasmática da “célula de Schwann” ao longo do axônio dos neu- rônios no sistema nervoso periférico, isolando eletricamente os nervos e assim permi- tindo a propagação rápida de potenciais de ação elétricos. 18 Seus estudos da notocorda, da cartilagem e de outros tecidos ani- mais, em 1839, confirmaram que estes eram originados por células aná- logas às células das plantas, o que ocasionou o rompimento da barreira entre os dois reinos. A importância do núcleo começou a ser evidenci- ada cada vez mais por vários cientistas, pois o núcleo das células da notocorda38 dos animais possuiria a mesma função do núcleo das plan- tas. Alguns outros pesquisadores acreditavam que o início da vida ocor- ria a partir de uma espécie de “blastema” (um agregado de células em- brionárias) fluido, a partir do qual sólidos orgânicos se precipitariam. As primeiras estruturas a emergir desse blastema seriam as unidades elementares da vida, como as fibras e os glóbulos. A hipótese de Matthias Schleiden39 (1804-1881), era que existiria uma “livre formação de célula”, para explicar o crescimento celular, o qual seria análogo ao processo de cristalização inorgânica. Para ele as células se originariam de um citoblastema, que teria em sua constituição açúcares e muco, e formaria glomérulos, que acumu- lariam grânulos análogos à cristalização.40 Um núcleo pequeno cresce- ria pela acumulação de minúsculos grânulos a partir do citoblastema. À medida que as partículas do muco se agregavam, parte do fluido era transformado em uma substância relativamente insolúvel e formava o citoblasto em volta desse pequeno núcleo. Quando o citoblasto atingia seu tamanho total, a jovem célula começava a se desenvolver na forma de uma vesícula transparente e delicada, que gradualmente se expandia e finalmente formava uma célula completa dentro de uma parede celu- lar rígida (Magner, 1994, p. 196). Schleiden facilitou a extensão de sua teoria celular do mundo vegetal para o mundo animal. 38 A notocorda é o eixo de sustentação no embrião e, em alguns cordados inferiores, também no adulto. Nos vertebrados superiores, o seu principal papel é o de induzir o desenvolvimento do sistema nervoso no ectoderma. 39 Botânico alemão, cofundador da teoria celular, 40 Citoblastema seria um tipo de “líquido-mãe” intercelular, como publicou Schleiden em Grundzüge der wissenschaftlichen Botanik, em 1842. Seria o material fundamental da qual se originariam todas as células. Disponível em: <http://www.cnpt.embrapa. br/biblio/do/p_do44_4.htm>, Acesso em 15/03/2021. Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 19 Rudolf Virchow41 (1821-1902) contribuiu para a teoria celular mo- derna, pois acreditava que toda célula era produzida a partir de uma célula pré-existente. Descreveu a origem das células, desde a diferenci- ação de um blastema sem forma, como se fosse um fluido exsudado dos vasos. Rejeitava a formação de células livres, as quais sugeriam uma geração espontânea. Acreditava que a vida se processava a partir da sucessão direta, dizendo: “omnis cellula e cellula” (toda célula vem de ou- tra célula), como apresenta Magner (1994, p. 204). A célula passou a ser considerada a ligaçãofundamental na forma- ção da hierarquia dos tecidos, órgãos, sistemas e do organismo como um todo. Virchow estudou as causas das epidemias e culpou a admi- nistração do governo alemão por elas, pois muitas eram de origens so- ciais mais humildes e com condições sanitárias inadequadas. Para ele as doenças eram vidas modificadas, a diferença estaria em seu compor- tamento celular. Durante os últimos vinte e cinco anos do século XIX, a teoria ce- lular começou a ser aperfeiçoada. As células formadas deveriam ser originadas a partir da divisão igualitária do núcleo e a divisão do núcleo precederia a divisão da célula. Edmund B. Wilson (1856-1939), geneti- cista e zoólogo estadunidense, publicou artigos sobre embriologia e so- bre o desenvolvimento da célula, ligados à herança cromossômica. O período do final do século XIX e início do século XX foi o mo- mento da maturação da citologia e da embriologia celular. Foi quando houve a “redescoberta” em 1900 das Leis de Mendel42 (Magner, 1994, p. 204). Até essa época, os embriões eram vistos como organismos minús- culos e complexos, que continham um conjunto de partes, como gló- bulos, vesículas e fibras. Com a teoria celular estabelecida, os embriões passaram a ser analisados em termos de células e componentes celula- res, tais como núcleo, citoplasma, membrana plasmática, etc. Vale a 41 Médico alemão, importante patologista e adepto do mecanicismo. 42 Gregor Mendel (1822-1884), monge agostiniano, naturalista, físico e meteorologista austríaco, a partir de estudos da hereditariedade, do aprimoramento dos microscópios e dos métodos de preparo e coloração, que possibilitaram a análise da estrutura celular com maiores detalhes (proporcionando as visualizações microscópicas das células transparentes). 20 pena ressaltar que entre 1875 e 1895 foram importantíssimas as desco- bertas das organelas, como o complexo de Golgi. Camillo Golgi (1843- 1926) foi um médico e histologista italiano, conhecido pelo descobri- mento e descrição do complexo que possui o seu nome (localizado dentro do núcleo), as mitocôndrias e os cloroplastos. Walter Flemming (1843-1905), professor alemão de anatomia, que descreveu os cromos- somos na década de 1870, também realizou estudos de divisão celular. Todos esses trabalhos foram relevantes para compreensões futuras no estudo dos embriões e do processo de formação da vida. No início do século XIX, Karl Ernst von Baer43 (1792-1876) foi um dos cientistas que retomaram a “teoria da epigênese” e realizou expe- rimentos com óvulos de mamíferos, identificando-os como entidades opacas nos ovidutos. Estudou os folículos de Graaf em cachorros, quando viu uma bolinha amarela dentro do folículo que não se abria; também procurou descobrir qual seria a contribuição masculina no processo de desenvolvimento do ovo e como as características do pai passavam para o novo indivíduo, explica Magner (1994, pp. 208-209). A teoria mais contemporânea da germinação se inicia com Von Baer e Heinrich Christian Pander (1794-1865), naturalista russo. Pan- der escreveu um tratado em que, estudando embriões de galinha, cha- mava atenção para a conclusão de que órgãos semelhantes são desen- volvidos a partir de camadas germinativas equivalentes, ou seja, que seria possível a comparação entre espécies diferentes. Em 1855 Robert Remak (1815-1865), embriologista, fisiologista e neurologista alemão, refinou o conceito de Pander e chamou as três camadas germinativas de ectoderme, mesoderme e endoderme. A ec- toderme (pele de fora) daria origem à pele e ao sistema nervoso, a me- soderme (pele intermediária) produziria os músculos, o esqueleto e o sistema excretor. A endoderme (pele de dentro) produziria a noto- corda, o sistema digestivo e as glândulas associadas. Para von Baer, que descobriu a notocorda, esta seria uma estrutura de transição, que daria origem à espinha dorsal, também chamada de espinha vertebral, a qual é originada pela endoderme. 43 Karl Ernst von Baer, médico e naturalista alemão, foi também membro da Academia Russa de Ciências. Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 21 3.4 Algumas leis formuladas no século XIX A lei biogenética ou dos estágios correspondentes, formulada por Von Baer em 1866 se referia às semelhanças entre os estágios de de- senvolvimento de diferentes espécies de animais. Já a lei do parale- lismo, de Johann Friedrich Meckel44 (1781-1833), de 1821, tratava da recapitulação, na qual o desenvolvimento do embrião ocorreria por hi- erarquia, desde a mais baixa até a mais alta (no sentido aristotélico de escala da natureza), por exemplo, do estágio de peixe, passando para o de réptil, depois para o de mamífero e por fim, chegando aos seres humanos. Von Baer discordava de Meckel em relação às origens do processo, pois para ele os embriões se tornavam progressivamente especializados durante o desenvolvimento, mesmo sendo difíceis de diferenciar nos primeiros estágios, ficando diferentes nos indivíduos adultos. Von Baer entendia que no primeiro estágio do embrião, os caracte- res gerais apareceriam antes dos caracteres especializados. No segundo estágio os caracteres se desenvolveriam dos mais gerais, os quais já existiam, para os mais específicos; por exemplo, há protuberâncias que se tornam os membros locomotores, que depois se diferenciariam em mãos, asas ou nadadeiras. No terceiro estágio, o embrião de uma dada espécie continuamente divergiria do embrião de outras espécies, du- rante o desenvolvimento. No quarto, os embriões de uma espécie su- perior passariam por estágios que pareceriam com estágios de desen- volvimento de espécie inferiores, segundo Magner (1994). Na biologia experimental, tanto Wilhelm Roux45 (1850-1924), quanto Hans Adolf Eduard Driesch46 (1867-1941), se questionaram como os fatores intrínsecos e extrínsecos poderiam governar os está- gios do embrião (Magner, 1994, p. 213). Roux acreditava que o ovo fertilizado “recebia” substâncias repre- sentando diferentes características do organismo e, à medida que ocor- 44 Johann F. Meckel, médico e anatomista alemão, trabalhou como professor de ana- tomia, patologia e zoologia da Universidade de Halle. 45 Zoólogo e embriologista experimental alemão 46 Biólogo e filósofo alemão, que estudou com Haeckel e realizou pesquisas com ovos de ouriços do mar 22 resse a divisão celular, elas se tornariam linearmente alinhadas nos cro- mossomos posteriormente distribuídas de forma desigual às células fi- lhas. A auto diferenciação é a capacidade do embrião de sofrer mais diferenciação, no que foi chamado de um desenvolvimento em “mo- saico” de cada parte do embrião – como destaca Magner (1994). Roux em 1888 parecia ter confirmado suas teorias por um experimento que ele conduziu em ovos de sapo (Figura 4). Ele inseriu uma agulha quente em um dos dois blastômeros para matá-lo e então observou como o blastômero restante se desenvolveu, resultando num meio embrião (Magner, 1994, pp. 214-215). Hans Driesch era inicialmente defensor do mecanicismo. Depois se tornou adepto do vitalismo e foi um dos primeiros a seguir o protocolo de Roux sobre embriologia experimental. Entretanto, para Driesch o embrião se desenvolvia como um sistema equipotencial harmonioso, em que todas as células teriam o mesmo potencial de desenvolvimento, não havendo com isso predestinação celular. Em 1892, Hans Driesch realizou experimentos semelhantes de Wi- lhelm Roux em embriões de ouriço-do-mar. Contudo, em vez Driesch matar um dos dois blastômeros, ele colocou muitos embriões em um tubo e os sacudiu para separar as células. O resultado da experiência (Figura 5) tem sido, em geral, pouco claro nos compêndios que a des- crevem, não mostrando a diferença essencial com o experimento de Roux, inclusive como ocorre no texto que serviu de base para o pre- sente artigo (Magner, 1994). Uma consulta ao texto original de Driesch mostra que este comentou que, ao contráriode Roux, seus experimen- tos terminaram com embriões completamente formados, mas com a metade do tamanho (Driesch, [1908] 2010, pp. 58-62). O estágio de duas células continha toda a informação necessária para o desenvolvimento completo, o que falseava parcialmente o de- senvolvimento em mosaico de Roux. A natureza epigenética do desen- volvimento mostrava para Driesch que o destino de uma dada célula era resultado da posição relativa desta em relação ao todo (Magner, 1994, p. 216). No sistema equipotencial harmonioso de Driesch cada parte tinha igual capacidade ou potencialidade de substituir qualquer outra parte. Isso o fazia pensar que qualquer célula poderia ir para qual- quer lugar do corpo. A partir dos resultados de Driesch, cada vez mais Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 23 houve experimentos com transplantes, isolamentos e cultura de teci- dos, que foram importantíssimos para os desdobramentos futuros até os dias de hoje. Fig. 4: Experimento de ablação de Wilhelm Roux para testar a teoria dos determinantes de Weismann Fonte: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/b0/Ablation_exper iment.jpg>. Fig. 5 Experimentos com ouriços-do mar. a1 e b1: gástrula normal e pluteu normal; a2 e b2: "meia" gástrula e "meio" pluteu, que deveriam resultar de um dos dois primeiros blastômeros quando isolados, de acordo com a teoria de Roux; a3 e b3: gástrula e pluteu menores, mas inteiros, que resultaram de fato. Fonte: DRIESCH, Hans. The science and philosophy of the organism. Lon- don: Adam and Charles Black, 1908. p. 62. about:blank about:blank 24 Hans Spemann47 (1869-1941), fez experimentos com estruturas embriônicas de salamandras, para observar a diferenciação. Também realizou experimentos de transplantes e notou que o lado dorsal, cha- mado por ele de lábio dorsal do embrião doador, poderia desenvolver um novo embrião. Este lado foi chamado por ele de “organizador”, porque seria indutor do desenvolvimento Spemann também utilizou enfoques bioquímicos no estudo do de- senvolvimento e da diferenciação, com uma visão holística dos embri- ões. A visão holística trata o organismo como um todo, como por exemplo, ao analisarmos um determinado órgão, como o coração, pro- cura-se tratá-lo correlacionando-o com todos os outros órgãos. Com o passar dos anos, o enfoque mudou, a embriologia experi- mental clássica virou embriologia do desenvolvimento, ligada à gené- tica e à biologia molecular, considerando o desenvolvimento guiado pelas instruções mapeadas dos genes. 4 EMBRIOLOGIA E O DISCURSO DA GENÉTICA Os genes são unidades físicas e funcionais fundamentais da herança e responsáveis pelos traços biológicos transmitidos hereditariamente. No entanto, como eles agem? Essa é uma das questões atuais que Evelyn F. Keller (1995) trata no capítulo “Language and science: genetics, embryology and the dis- course of gene action”. O discurso da ação gênica poderia responder bem a essa indagação e a hereditariedade também, ou seja, a transmissão das potencialidades durante a reprodução, assim como o desenvolvimento dessas potenci- alidades em traços adultos específicos posteriores. No entanto, como uma única célula germinativa seria capaz de reproduzir um corpo in- teiro em detalhes? (Keller, 1995). A história da pesquisa genética teria começado com Gregor Mendel (1822-1884). Mendel realizou experiências com cruzamentos de ervi- lhas em 1857, procurando compreender os padrões da hereditariedade nos cruzamentos que produziam híbridos. Seus experimentos foram revalorizados posteriormente, por volta 47 Embriologista alemão Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 25 de 1900, dentro do contexto dos estudos de embriologia, e reconduzi- ram a um aumento no estudo da genética. Ainda mais tarde, os fatores mendelianos (os genes alelos) foram ligados às estruturas cromossômi- cas do núcleo das células (Keller, 1995, p. 4). O botânico dinamarquês Wilhelm Johannsen (1857-1927), também fisiologista vegetal e geneticista, introduziu o termo “gene” no início do século XX para substituir termos mais antigos, tais como “fator”, “traço” e “caráter”. Estudos foram sendo feitos para tentar responder essa pergunta, junto com inúmeras outras que foram surgindo, pois onde há ciência sempre há oportunidade para aprimoramentos. Em 1911, em “The genotype conception of heredity”, Johannsen também introduziu os termos “genótipo” e “fenótipo” (Justina et al., 2010, pp: 56-57). Thomas Morgan48 (1866-1945) publicou The Mechanism of Mendelian Heredity (1915) com inúmeros experimentos de genética com drosófi- las. A hereditariedade parecia ser assunto de interesse tanto da genética quanto da embriologia, e o gene as conectava. A primeira estaria ligada aos caracteres herdados por meio das gerações sucessivas, mas os ca- racteres por sua vez podiam ser explicados sem referência ao modo como o gene afeta o processo de desenvolvimento. De acordo com o que Morgan escreveu em 1926, existiria uma confusão por não se se- parar o fenômeno da hereditariedade, que trata da transmissão das uni- dades hereditárias, do fenômeno do desenvolvimento embrionário que ocorreria quase exclusivamente por mudanças no citoplasma, isto é, fora do núcleo celular (Keller, 1995, pp. 4-5). Spemann e sua aluna Hilde Mangold (1898-1924), embriologista alemã, realizaram estudos de embriologia em 1924 procurando identi- ficar o “organizador” suposto por Spemann. Royal A. Brink49 (1897- 1984) realizava experiências de cruzamentos, também fez estudos so- bre a importância dos genes, percebendo que eles pareciam corpos es- táveis que residiam no cromossomo. 48 Zoólogo e geneticista estadunidense. 49 Geneticista de plantas canadense. 26 Já Hermann J. Muller50 (1890-1967), geneticista estadunidense, mostrou que os raios X aceleravam ou mesmo desencadeavam muta- ções genéticas e afirmava que o gene tinha propriedades que ele cha- mou de “autocatálise”, implicando autorreplicação. Muller priorizava a ontologia, que seria o processo de desenvolvi- mento de cada indivíduo ao longo do tempo, afirmando que o gene era a base da vida. O processo se iniciaria com o gene, e o protoplasma (que seria o citoplasma) facilitaria que o ambiente desenvolvesse o gene. Nessa visão, o gene teria “as duas faces de Janus”51: seria ao mesmo tempo como o átomo é para a física (a unidade fundamental da matéria) e como a alma platônica é para a vida (aquilo que dá im- pulso vital para a existência do ser vivo), ou seja, os genes possuem em sua constituição moléculas feitas de átomos, o que lhes dá as proprie- dades físico-químicas, mas também são capazes de se replicar, o que lhes dá uma propriedade da vida (Keller 1995, p. 9). O que os genes fazem afinal? Não havia conhecimento suficiente sobre eles para responder naquela altura essa pergunta, por isso era possível lhes atribuir quaisquer propriedades, inclusive as miraculosas. O discurso da ação gênica fez com que os geneticistas pudessem con- tinuar os trabalhos mesmo não conhecendo a natureza da ação do gene- aponta Keller (1995, p. 10). Ross Harrison52 (1870-1959), em suas pesquisas de embriologia propôs novos métodos de estudos de tecidos. Ele cultivou com su- cesso neuroblastos de rã num meio com linfa, mostrando que as fibras nervosas se desenvolvem sem um apoio preexistente e que os tecidos podem crescer fora do corpo, publicando seus relatos em 1907. Harri- son considerava que a teoria do gene seria um obstáculo para entender o desenvolvimento do embrião, pois os geneticistas acabavam diri- gindo todas as atenções exclusivamente para o genoma, o que para ele não seria suficiente. 50 Hermann J. Muller foi aluno de Thomas Morgan e agraciado com o Nobel de Fisi- ologia/Medicina de 1946. 51 Segundo a mitologia romana, Janus era o porteiro celestial, sendo representado com duas faces, simbolizando ao mesmotempo o término e o começo, o passado e o fu- turo, o dualismo relativo de todas as coisas. Esta é uma interessante leitura para o mundo da ciência, quando buscamos o conhecimento do passado para interpretar pos- sibilidades futuras. 52 Biólogo e anatomista estadunidense. Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 27 Sendo o conteúdo genético igual em todas as células de um orga- nismo, como era possível entender a emergência das diferentes mani- festações entre todas as células que compõem um organismo com- plexo? As noções de genes não respondem satisfatoriamente por que há variações em um organismo já existente, nem como um organismo inteiro começa a ser formado. Harrison interpretava a atuação dos ge- nes como se todos agissem da mesma forma. Alfred H. Sturtevant (1891-1970), geneticista estadunidense, deli- neou o primeiro mapa genético de um cromossomo em 1913. Em 1932 o problema da diferenciação estava em questão: como um ovo se dife- rencia até formar um organismo complexo e multicelular? Para Sturte- vant, havia uma correlação entre um gene e o caráter (as propriedades por ele produzidas), sendo essa uma ação direta, como uma reação em cadeia, isto é, um determinado gene transmitiria uma dada função ou uma característica especifica, diretamente (Keller,1995, p. 14). Richard Goldschmidt (1878-1958), geneticista alemão, procurou re- lacionar genética, desenvolvimento e evolução. Estudou mariposas e também estava preocupado com a natureza da ação gênica. Para Gol- dschmidt os genes controlam fatores importantes no desenvolvimento embrionário e, portanto, na evolução, e o desenvolvimento do embrião ocorreria como um sistema de reações coordenadas ao mesmo tempo. Pesquisou as propriedades dinâmicas do sistema embrionário e consi- derava a ação de genes catalisadores e catalisados, ou seja, seriam tanto atores ativos, quanto substâncias reativas, as quais se ativariam com substratos apropriados (Keller, 1995, pp. 15-16). George Beadle53 (1903-1989) realizou pesquisas sobre genética e também sobre as mudanças ambientais que acabam provocando alte- rações genéticas. Edward Tatum (1909-1975), microbiologista estadu- nidense, conduziu pesquisas sobre mutações genéticas. Ambos realiza- ram estudos com organismos unicelulares do gênero Neurospora54 e le- vantaram a hipótese em 1940 de que a cada gene corresponderia uma enzima, isto é, cada gene catalisaria uma reação química específica, pro- duzindo uma enzima correspondente. Essas ideias levaram a genética 53 Biólogo e geneticista estadunidense, foi agraciado com o Nobel de Fisiologia/Me- dicina de 1958 54 Neurospora é um fungo muito utilizado como modelo na compreensão de aspectos fundamentais da biologia dos eucariontes. 28 do desenvolvimento embrionário a se interligar com a ação bioquímica dos genes (Keller, 1995). O físico austríaco Erwin Schrödinger (1887-1961) se dedicou aos estudos da física quântica, desenvolvendo uma mecânica ondulatória. Além disso, se interessou pelos fenômenos biológicos e publicou What is life? (1944). Ele considerava paradoxal que os organismos vivos esti- vessem tão próximos de uma estrutura físico-química, mas ao mesmo tempo fossem capazes de organizar a energia, de tal forma que pare- ciam ter uma entropia negativa, isto é, serem capazes de gerar mais energia do que consumiam. Adicionalmente, ele acreditava que a estru- tura do cromossomo teria o poder de conter um “código”, capaz, me- taforicamente falando, de envolver tanto o “planejamento do arqui- teto” quanto a “arte do construtor” (o código conteria um projeto que ele mesmo seria capaz de executar (Keller, 1995, pp. 19-20). Em 1953, com a elucidação da estrutura do DNA por Watson e Crick (com contribuição de Rosalind Franklin e Maurice Wilkins)55, fi- zeram-se estudos sobre as ligações de hidrogênio com as sequências de ácidos nucleicos, para entenderem como os genes se duplicam. Tal co- nhecimento também permitiu entender como os genes produzem suas enzimas específicas, considerando que em uma molécula longa, como a do DNA, muitas permutações seriam possíveis de ocorrerem. Logo, a partir de uma determinada sequência, um código seria formado e nele estariam contidas as informações genéticas de um indivíduo. Estas por sua vez, seriam feitas pelo DNA, que formaria um RNA de fita simples, que em seguida, após sua atuação para a transcrição e tradução da in- formação genética, produziria as respectivas proteínas (Keller, 1995, pp. 17-18). Com estas seriam “feitos” os organismos, cada sequência codificada individualmente contribuiria para a constituição total de cada ser, se- 55 A estrutura do DNA foi elucidada em 1953 pelo pesquisador norte americano James Watson (n. 1928) e pelo pesquisador inglês Francis Harry Compton Crick (1916 – 2004) junto com a também pesquisadora e química britânica Rosalind Franklin (1920 – 1958), que trabalhava com imagens de raio X de estruturas moleculares, e o fisiolo- gista neozelandês Maurice Wilkins (1916-2004), que realizava estudos de difração de raios-X em DNA. Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 29 gundo Watson e Crick. Segundo o que se acreditava, o programa codi- ficado e os genes produziriam seus efeitos, ou seja, dariam as instruções para a síntese das proteínas. Nas palavras de Keller (1995): “A informação biológica contida nos genes não aumenta durante o desenvolvimento do indivíduo. Temos a mesma constituição genética quantitativa desde o início de nossas vi- das, até o final delas”. Isso nos leva a querer entender como ocorre o processo de modificações e o desenvolvimento dos seres vivos. Nem os embriologistas e nem os biólogos moleculares saberiam explicar a causa da formação de enzimas pelos genes. Para Richard Lewontin56 (1929-2021), o DNA seria uma “molécula morta”, o que poderia soar como uma ironia, pois o processo suposto para explicar a vida viria de uma molécula sem vida e que não possuiria a capacidade de se reproduzir, apesar de ser formada por um maqui- nismo celular complexo. A mesma contradição valeria conjuntamente para as enzimas, que seriam produzidas a partir do DNA. A sequência de nucleotídeos seria usada pela célula para determinar a sequência de aminoácidos que levaria à construção de uma proteína. Sem tal meca- nismo celular intrincado e gerador de proteínas nada poderia ser feito para explicar nossa herança genética. Constatação que evidencia a im- portância da estrutura celular. Como visto anteriormente, a aparente explicação do desenvolvi- mento do embrião ficou restrita à genética. A ação gênica foi impor- tante, mas não respondia tudo, deixando o processo do desenvolvi- mento e da diferenciação celular sem respostas. Por exemplo, Sidney Brenner57 (1927-2019) comentou em 1984 que os princípios da orga- nização do embrião não poderiam estar contidos no conhecimento dos mecanismos de controle genético. Eric Davidson (1937-2015), biólogo norte-americano do desenvolvimento, realizou estudos sobre o com- plexo de transcrição, com a ativação dos genes e a dinâmica bioquímica dos complexos, os quais revelavam a interação proteína-proteína e pro- teína-ácido nucleico. Concluiu a partir disso que os genes poderiam ser “espertos”, mas “o cérebro do gene esperto” não poderia estar nos próprios genes (Keller, 1995, pp. 27-28). 56 Biólogo evolucionista estadunidense. 57 Biólogo sul-africano. 30 Henri Atlan58 e outros cientistas sugeriram uma metáfora alterna- tiva para o DNA. Ele seria como os dados que são utilizados para uma rede de computação paralela, isto é, com vários processadores atuando ao mesmo tempo para realizar uma ação, e tais dados se corporifica- riam na estrutura global geométrica e bioquímica da célula. Uma com- paração possível a nosso ver seria considerar que o corpo de um ser vivo comporta vários órgãos atuando em paralelo e ao mesmo tempo tendo o seu “processador” interno em cada um desses órgãos. HermanFrederik Nijhout59, tem uma visão mais equilibrada sobre o assunto: para ele os genes seriam os fornecedores das necessidades materiais do desenvolvimento e agiriam como catalizadores, que de- penderiam do contexto das mudanças celulares. Nijhout afirma que os genes seriam fontes passivas de materiais sobre os quais uma célula poderia trabalhar e seriam partes de um mecanismo evoluído que per- mite aos organismos serem independentes de seu ambiente. Eles for- neceriam desta forma um meio de sintetizar, de importar e estruturar as substâncias, não apenas os produtos gênicos, mas todas as substân- cias necessárias para o metabolismo, crescimento e diferenciação do embrião. Os modelos dessas interações de genes e proteínas estimulam as intuições sobre os fenômenos de emergência, isto é, de surgimento no desenvolvimento embrionário, que no passado foram abafadas pela vi- são unicamente genética. A partir dessa visão, o desenvolvimento do embrião estaria ligado à linguagem da ação gênica, e o papel da estru- tura do citoplasma antes da fertilização seria importante para a concre- tização do processo como um todo (Keller, 1995, p. 31). Oscar Schotté (1895-1988), embriologista suíço, ganhou reputação por seu trabalho no controle neurotrófico60 e morfogenético61 da rege- neração de órgãos e relacionava a embriologia com a genética, mas sa- bia que ambas tinham visões distintas das células. Para a embriologia o núcleo era pequeno, metaforicamente, e para os geneticistas era como se o núcleo “preenchesse virtualmente a célula inteira”. O “tamanho” 58 Biofísico e filósofo francês. 59 Biólogo evolutivo americano. 60 Relativo ao processo de nutrição, metabolismo e crescimento das células nervosas. 61 Processos morfogenéticos envolvem o crescimento de grupos celulares, sua mu- dança de posição no conjunto do organismo e a diferenciação celular. Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 31 era atribuído segundo a importância dada por eles, os americanos rea- lizavam relativamente mais estudos para entender e saberem mais a respeito do núcleo, já os alemães voltavam-se para o citoplasma para compreender o processo do desenvolvimento (Keller, 1995, p. 36). No que diz respeito à assimetria dos gametas, os distintos tamanhos contrastariam a contribuição do macho e a da fêmea para a ocorrência do processo de fertilização. O gameta muito grande seria o feminino e este possui muito citoplasma em seu interior, ao contrário do esperma- tozoide pequeno, que é quase puramente só núcleo. Então, o cito- plasma seria sinônimo de ovo e o núcleo o correspondente para o es- permatozoide (Keller, 1995, p. 39). Em relação a esse assunto, Keller (1995, pp. 39-40) lembra que The- odor Boveri (1862-1915), biólogo alemão, realizou estudos referentes aos primeiros processos celulares que causam câncer e já reconhecia alguma função para o citoplasma. Quanto às possíveis distinções entre macho e fêmea, havia uma tendência de considerar, em relação à fun- ção fertilizante, de que no macho haveria a presença de uma força mo- triz. Já no que diz respeito ao gameta feminino, este seria passivo e facilitador para o processo de fertilização. Em termos da linguagem platônica poderíamos dizer que o ovo estaria relacionado ao corpo e o núcleo à alma, pois como vimos anteriormente, para os gregos a gera- ção precisava da alma masculina para ser transmitida ao corpo femi- nino, sendo esta a força motriz. Isto ecoa de certa maneira a antiga disputa entre o preformismo feminino e o masculino. 5 O OVO É COMPUTÁVEL? Lewis Wolpert (2002) inicia seu capítulo “Desenvolvimento: o ovo é computável, ou podemos gerar tanto um anjo como um dinos- sauro?”, questionando se o ovo é algo que possa ser calculado, isto é, que possa ser determinado previamente em todas as fases embrioná- rias. Será que os genes controlam a fase embrionária? Como vimos anteriormente, os genes são responsáveis por contro- lar proteínas, as quais ao serem produzidas controlariam o comporta- mento celular e o desenvolvimento, carregando a informação genética de todas as células do embrião. 32 A hipótese aqui analisada é de que a evolução altera o programa de desenvolvimento, ou seja, as estruturas seriam modificadas ou forma- das a partir de genes que se alteram durante a evolução. Se compreen- dêssemos como esse controle é feito poderíamos compreender a evo- lução dos seres vivos, ou como diz o autor: “Quando soubermos isso, então poderemos considerar se é possível gerar um anjo ou um dinos- sauro”. Logo, segundo Wolpert, se soubéssemos como os genes se al- teram durante a evolução de uma cadeia de organismos, poderíamos entender como seriam os organismos resultantes, antes deles serem formados. Joseph Needham (1900-1995), embriologista, historiador de ciên- cias, bioquímico e sinólogo inglês (1992) relata sua busca por substân- cias que seriam indutoras ou por moléculas sinalizadoras do desenvol- vimento. Atualmente a genética e a biologia molecular nos mostram que são poucos os casos possíveis em que podemos apontar com cer- teza para moléculas de sinalização, como por exemplo, aquelas encon- tradas nos olhos de insetos e “moléculas TGF - β”, que são fatores de transformação do crescimento. Estas últimas são moléculas responsá- veis pela sinalização e regulação de uma série de processos biológicos em diversos organismos, como no desenvolvimento do intestino de insetos. Já os gradientes, ou seja, as variações, e as interações internas dos embriões haviam sido enfatizados no livro Os elementos da embriologia ex- perimental, de 1934, de Gavin De Beer (1899-1972), embriologista e evolucionista britânico, conhecido por seu trabalho sobre heterocro- mia, e de Julian Huxley (1887-1975), neto de Thomas Huxley, biólogo, filósofo, escritor, conhecido por suas contribuições para a populariza- ção da ciência através de livros e conferências (Wolpert, 2002). A chave para o desenvolvimento com certeza encontra-se na célula, com suas divisões, que nos levam a pensar em todo o programa de desenvolvimento envolvido no processo. O comportamento da célula seria mais difícil de compreender do que o de um embrião, pois as interações são mais complexas. Essas interações entre células do em- brião poderiam ser pensadas como sendo seletivas e não instrutivas, ou seja, as células selecionam um possível caminho entre algumas alterna- tivas e não simplesmente seguem uma instrução determinada (Wolpert, 2002). Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 33 A complexidade do desenvolvimento reside no programa interno das células, mas como seria este? Ele seria homogêneo, sendo o mesmo para qualquer célula? E quais as pressões seletivas sofridas pelas célu- las? – indagou Wolpert (2002). As proteínas determinam o comportamento celular e são controla- das pelos genes, que indiretamente controlam por sua vez o próprio comportamento da célula, como assinalamos anteriormente. Os genes são importantes, mas são as proteínas que desempenham as funções vitais nas células. Durante o desenvolvimento do embrião ocorre o controle de quais proteínas serão produzidas e onde. Isso seria o ar- ranjo das atividades dos genes que as codificam, mas quantos e quais genes estão envolvidos? Será que há sobreposição dos genes, nesse processo? – refletiu Wolpert (2002). Claro que não sabemos as respostas ainda, e é improvável que exista muita sobreposição entre os genes, pois isso resultaria em falta de fle- xibilidade na evolução, isto é, um excesso de pleiotropia62, uma apa- rente redundância, como disse Wolpert (2002). Há certa dificuldade de descobrirmos a verdadeira função dos genes e quais seriam seus princípios gerais. Sabemos que o estado de uma célula é determinado pelos genes ativados pelas proteínas presentes. Também há passos importantes nesse processo, como a degradação das proteínas e do RNAm (RNA mensageiro) e o controle da tradução da informação genética. Conhecemostambém, algumas estruturas integradoras chave, como a região cromossômica do “promotor” e do chamado “enhancer”. O promotor é formado por sequências de DNA específicas e impor- tantes para o início da transcrição, ou seja, para a síntese do RNA. Os enhancers, ou “acentuadores”, são também sequências de DNA, só que neste caso eles aumentam a afinidade no processo de transcrição por um promotor específico. Também há as mutações e as recombinações gênicas que interferem na dinâmica celular (Wolpert, 2002). Um exemplo para compreender o desenvolvimento embrionário pelas divisões assimétricas seria o da mosca Drosophila, com seus eixos anteroposterior e dorsoventral (x e y, por exemplo), pois ambos são 62 É quando um gene condiciona ou influencia mais de uma característica no indivíduo. about:blank 34 inicialmente independentes e específicos, produzidos por genes mater- nos que fornecerão a informação posicional desses eixos antes da fer- tilização. Após a fertilização, os gradientes ativam a cascata de genes zigóticos, isto é, uma sequência ordenada de genes, e o embrião é divi- dido em um número de regiões definido pela combinação da atividade de diferentes genes em Drosophila, podendo ser maternos e paternos, (Wolpert, 2002). A organização espacial, mais a geração de diferenças, resultam no desenvolvimento inicial, em geral ambas precedem e especificam a morfogênese e a diferenciação celular. A morfogênese seria o resultado de forças celulares que alteram a forma e as relações entre as células. Já a diferenciação resulta na produção de moléculas, que caracterizam di- ferentes tipos celulares. A mudança de forma dessas células conecta a ação gênica à ação mecânica. Mesmo obtendo algumas respostas de um lado, outras ainda ficam a dever, e as indagações só aumentam e vão ao mesmo ritmo das novas descobertas, como por exemplo: qual será a aparelhagem celular envol- vida na mudança da forma? Como os movimentos são coordenados? Como os genes podem controlar forças celulares? Como diferentes ti- pos celulares podem exercer funções tão diferentes, sendo que pos- suem o mesmo conteúdo genético? Talvez a resposta para todas essas perguntas esteja nos mecanismos de expressão gênica, pois a partir de uma única célula fecundada, o zigoto, outras células diferentes, com funções específicas irão ser formadas. Como o conteúdo genético é o mesmo, o que poderia fazer a diferença seria a expressão dos genes diferentemente em cada tipo celular (Wolpert, 2002). O controle do padrão de expressão espacial do embrião depende das moléculas de adesão celular (ou CAM’s), que permitem a ligação entre as células.63 Os genes homeobox são conhecidos como responsá- veis pelo controle do desenvolvimento embrionário. Eles fornecem as identidades posicionais às células e estas interpretam-nas de maneiras variadas. De modo semelhante atuam os genes hox, um subconjunto de genes homeobox, e que são um grupo de genes relacionados que es- pecificam regiões do plano corporal de um embrião, por exemplo, ao longo do eixo cabeça-cauda dos animais (Wolpert, 2002). 63 Moléculas de adesão celular (CAMs) são proteínas da membrana celular que permi- tem interações entre duas células e de uma célula com a matriz extracelular. Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 35 Após a análise de alguns sistemas de desenvolvimento foi percebido que as cascatas de ação gênica e as sinalizações intracelulares podem gerar um padrão, como o já citado desenvolvimento inicial da mosca, mais especificamente dos olhos da mosca. Já em vertebrados, não ha- veria identificação de moléculas de sinalização, pois as informações so- bre as bases moleculares e o controle gênico ainda permanecem des- conhecidas. Há apenas um conhecimento precário da regulação de ta- manho e forma. Agora, voltemos à indagação inicial, sobre a possibilidade de o ovo ser ou não computável, ou seja, é possível calcular suas características completas a partir do código genético? Mas, antes disso, precisamos indagar se o embrião pode ser considerado um sistema dinâmico, que sofre alterações até de forma imprevista, ou então se é uma máquina de estados finitos, ou seja, estágios estacionários e totalmente previsí- veis. Complementando o argumento de Wolpert, verifica-se que na teo- ria matemática do caos, desenvolvida mais recentemente a partir da década de 1980, diz-se que um sistema dinâmico (que mude tanto que pareça até ser caótico) pode ter “atratores”, o que ocorre quando a descrição matemática do fenômeno eventualmente se estabiliza em torno de um valor (o “atrator”), após um certo número de ciclos, de forma totalmente impossível de prever de antemão. Isto significa que quando se fazem modelos de sistemas naturais aparentemente caóticos, na verdade a natureza revela que esse “acaso” não existe, pois esses sistemas não seriam tão aleatórios assim. Por exemplo, na formação de um ciclone há alterações que parecem caóticas acontecendo, mas que se estabilizam com o tempo, podendo eliminar o acaso aparente. Este é um ponto controverso, na medida em que muitos pesquisadores ar- gumentam que não existe nenhum finalismo na biologia. A dinâmica não linear dos “atratores” aplicar-se-ia também aos processos químicos do metabolismo fora de equilíbrio, em termos de flutuações e instabi- lidades. Contudo, a nosso ver, se um sistema não fosse totalmente ale- atório como o mencionado e fosse possível eliminar o acaso aparente, então a transformação desse mesmo sistema não poderia ser possível de prever, de certa forma? Por outro lado, uma máquina de estados finitos é como um com- putador digital, com o qual se pode prever e calcular de antemão de 36 uma forma determinista todo e qualquer resultado de suas operações. Voltando ao argumento do autor, ao ativarmos um gene produzirí- amos uma nova proteína, e esta alteraria o comportamento da célula. Um exemplo interessante a favor dos sistemas dinâmicos seria a auto- montagem de um bacteriófago inerente à sequência de aminoácidos de proteínas e que apresenta uma via obrigatória para interação entre elas; neste caso a automontagem é que levaria à diferenciação celular. A se- quência de aminoácidos isoladamente considerados não pareceria ser suficiente para explicar o surgimento do bacteriófago, devido às inte- rações não estarem codificadas nas sequências. Ou seja, só durante, ou após o próprio processo, é que se revela qual é o sentido que estava oculto na automontagem. Já o conceito de “autômato celular” seria um exemplo de que o embrião processa o seu desenvolvimento como se fosse uma máquina de estados finitos com mudanças discretas, a partir de “instruções” prévias e, portanto, passíveis de serem programadas. O desenvolvi- mento se daria a partir do estado atual da célula mais os sinais que provêm das células vizinhas. Os estados são os genes que estão ativos, com suas interações que podem ser complexas. Existem milhares de diferentes estados definidos pelos diferentes padrões de ativação gê- nica, segundo o autor. Neste caso a computação seria capaz de nos levar ao conhecimento detalhado da biologia celular. Em conclusão, neste caso computar o embrião seria estimar o es- tado de todas as células que o constituem. Mas, qual seria o padrão de expressão espacial dessas células? Para isso serão necessárias mais com- preensões da ação gênica, da bioquímica e da biofísica celular, tendo como premissa estabelecer bem as condições iniciais corretas do pro- cesso. Será que a identificação das bandas cromossômicas de sequência seria suficiente para determinar o que um ovo se tornaria? (Wolpert, 2002). O autor prefere o modelo da máquina de estados finitos, o re- trato molecular de um gene, sem dúvida alguma, mostrar-nos-ia seu plano de desenvolvimento. 6 O QUE É UM “EMBRIÃO” E O QUE NÓS SABEMOS? Com o passar dos tempos, os dicionários foram registrando dife- rentes significados para responder ‘o que é um embrião’,desde o está- gio primordial, o momento da fertilização, até onde ocorreria o começo do processo de mudança histológica. Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 37 Jane Maienschein (2007) propõe seis estágios históricos relaciona- dos à compreensão do embrião: “embrião hipotético”, “embrião fí- sico”, “embrião biológico”, “embrião herdado”, “embrião humano vi- sível” e “embrião construído”. O “embrião hipotético” abrange o período da Antiguidade até o século XVIII, em que o embrião permaneceu praticamente invisível para estudo e foi assunto para interpretações mais teóricas, desde Aris- tóteles ao Iluminismo. Os debates ocorridos no século XVIII expuse- ram as tradições de preformismo e epigênese que, como vimos, se mantiveram praticamente até agora, ainda que sofrendo transforma- ções (Maienschein, 2007, p. 327). O período do “embrião físico” (século XIX ao início do século XX) foi marcado pelo estudo comparativo de embriões em espécies dife- rentes para descrever os detalhes das alterações orgânicas embriológi- cas que ocorriam. Foi o período em que ocorreram os aprimoramentos dos microscópicos, o que proporcionou um avanço prático nos estu- dos (Maienschein, 2007, pp. 329-330). Entre 1920 e 1930, ocorreu a chamada “corrida do ouro” nos estu- dos de causas e processos de diferenciação celular, marcando o período do embrião “biológico”. Este foi caracterizado com uma ênfase no “organizador” e nos processos e causas da diferenciação. O pesquisa- dor Hans Spemann (1869-1941) considerou que o tecido da borda dor- sal do blastóforo em anfíbios possuía a capacidade de “induzir” a dife- renciação no embrião, servindo como um “organizador” para produzir a morfogênese (Figura 6) (Maienschein, 2007, p. 333; Moreira, 2014, p. 247). Na década de 1950 iniciou o período do “embrião herdado”, devido à descoberta da estrutura do DNA. Algumas evidências corroboraram a ideia de que o desenvolvimento era dirigido por genes e que a infor- mação e os determinantes para o desenvolvimento e diferenciação já estão presentes na fertilização. Foi um período marcado por experiên- cias de clonagem de rãs e de transferências nucleares (Maienschein, 2007, pp. 336-337). 38 Fig. 6: Representações de possíveis estruturas organizadoras. Em a) experi- mento, feito por Hilde Mangold e Hans Spemann em 1924, o qual revelou as propriedades do ‘organizador’. Quando retirado de um embrião de sala- mandra pigmentado e enxertado em um hospedeiro não pigmentado, o or- ganizador induziu a formação de um segundo embrião, derivado de células hospedeiras não pigmentadas, mostrando dessa forma aonde se localizava o indutor do desenvolvimento. Em b) Células tronco dotadas de propriedades semelhantes às do item acima (Martyn et al., 2018). O autor do artigo menci- onado abaixo como fonte trata os discos circulares dessas células com as proteínas do fator de crescimento Wnt e Activina, para produzir células se- melhantes ao que seriam os organizadores (registro em azul). Quando os dis- cos são enxertados no tecido extra-embrionário, como mostra o item b) ao redor de um embrião de galinha, por exemplo, eles induziriam o tecido do hospedeiro a formar uma extensão do tecido neural – seria um teste padrão para revelar propriedades organizadoras. Fonte: POURQUIE, Olivier. “Human embryonic stem cells get orga- nized”. Nature, 558: 35-36, 2018, p. 35. Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 39 Somente a partir de 1978 começou o período do “embrião humano visível”, objeto de amplo interesse público, quando ocorreu o nasci- mento do primeiro “bebê de proveta”64 (Maienschein, 2007, p. 338). A fertilização in vitro, que retirou os embriões do útero, e as fotografias publicadas por Lennart Nilsson (1922-2017) de fetos no interior da barriga da mãe, permitiram a visibilidade de um estágio do desenvolvi- mento embrionário, juntamente com o uso de outras técnicas de ima- gem, em um contexto de discussão de políticas sobre o aborto. Em 1997, Ian Wilmut anunciou o primeiro mamífero clonado (em 1996), a ovelha Dolly, e começou o período do “embrião construído” (Maienschein, 2007, pp. 336-337). Este chegou juntamente com as pes- quisas de recombinação genética e com células-tronco, que permitiram aos pesquisadores construir, desconstruir e reconstruir embriões. Devido aos temores e promessas envolvidos, o embrião acabou en- tão se tornado um objeto público, além de biológico. Com isso sobre- vieram as dúvidas e inquietações, pois as pessoas começaram a se per- guntar o que seria normal e aceitável para embriões, preocupações até então ausentes dos textos que vínhamos examinando. Como vimos anteriormente, houve duas vertentes básicas que bus- caram explicar o processo de desenvolvimento, por meio de observa- ções e inúmeros experimentos. A primeira foi a aristotélica, a epigê- nese. A outra vertente era a pré-formação, a qual dizia que a forma era presumida e já estava presente desde o início da existência. Essas dife- rentes explicações renderam debates sobre o assunto, cujas raízes po- demos ainda encontrar nos debates de hoje. O embrião seria um agrupamento, um aglomerado de células, que com o passar do tempo se tornaria uma “bola” organizada com três camadas (ectoderme, endoderme e mesoderme) que se tornariam par- tes diferentes do organismo. Com esta constituição houve uma certa ideia de organização, que gerou questionamentos intrigantes no século XX. Hans Spemann na década de 1920 começou a refletir sobre o me- canismo dessa organização, sobre o que causaria esse processo organi- zador, como vimos atrás. Para ele as mudanças do “não-formado” para 64 Foi no ano de 1978, que o embrião humano se tornou literalmente visível e objeto de grande interesse público. Foi o período do nascimento de Louise Brown, o primeiro “bebê de proveta”. 40 o “formado” dentro do próprio embrião ocorreriam pela presença de um "organizador" e seria este que produziria a morfogênese. Após es- tudos e experimentos, a conclusão foi clara: um embrião teria capaci- dades internas para o desenvolvimento, e também dependeria de sinais e de fatores externos ao ovo e ao próprio embrião. Logo, se não hou- vesse essas capacidades internas então não haveria um embrião. Os avanços tecnológicos, com a utilização de melhores microscó- pios e de técnicas que possibilitaram a visualização de células e de seus processos de diferenciação. Os embriões humanos eram, porém, ainda invisíveis dentro das mulheres, o que fez com que seu desenvolvimento inicial permanecesse um mistério para a maioria das pessoas. Mais tarde a estrutura do DNA foi elucidada, o que deu espaço para a genética e a biologia molecular entrarem em cena, mostrando que a hereditarie- dade forneceria a causa subjacente da modelagem dos processos de desenvolvimento. Como cada célula contém o mesmo DNA e os mes- mos genes, e começa a se diferenciar e produzir a morfogênese ao longo do tempo, poderia ser que os genes e o DNA carregassem as informações necessárias para orientar o desenvolvimento. Os genes poderiam ser o “organizador” que Spemann tanto procurara. Outras regiões celulares, ou outras células ou outras substâncias também po- deriam conter esse princípio de indução ou substâncias indutoras do desenvolvimento. Evidências reforçaram a ideia de que o desenvolvimento não é ape- nas vagamente dirigido, mas, na verdade, causado pelos genes. Outros questionamentos foram sendo feitos e aprimorados em suas elucida- ções, graças à tecnologia e às técnicas que não pararam de serem de- senvolvidas e marcaram os estudos. Algumas delas foram históricas e já referidas para o estudo da ciência e da medicina, como o nascimento do primeiro bebê de proveta em 1978, as fotografias de fetos tiradas por Nilsson, que foram reportagem e capa da revista Life em 1969, e o nascimento da ovelha Dolly em 1996, por meio do uso da técnica de clonagem. Maienschein(2007) revela-nos que as pessoas começaram a se per- guntar o que seria normal e moralmente aceitável para embriões. Antes do início do século XX, no que dizia respeito ao contexto e posiciona- mento social, os embriões eram vistos como objetos materiais, sem Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 41 questionamentos éticos sobre a adequação de coletá-los e estudá-los, a não ser apenas um possível valor médico e terapêutico. 7 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Esta pesquisa procurou oferecer um panorama sobre como foi en- tendida a geração e a formação do embrião desde a Antiguidade até os dias atuais. A partir do exposto, é possível perceber a importância atemporal de Aristóteles para a filosofia e, igualmente, para a biologia em geral e para o presente trabalho, em particular, pois seus questiona- mentos e suas percepções de ordem embriológica, sobre a fertilização e reprodução, nos levam ao cerne de muitos problemas atuais, de or- dem biológica. Seus estudos sobre os seres vivos, estão relacionadas com a origem da vida65, com o desenvolvimento embrionário, com a indagação do que é um embrião. Durante alguns séculos, duas vertentes de estudo tentaram explicar como ocorreria a formação de um indivíduo adulto: a epigênese e o preformismo, resultando em controvérsias e visões de mundo distin- tas. As pesquisas com tecidos, o aprimoramento dos microscópios, das técnicas de coloração e os estudos das células, das divisões celulares e das camadas germinativas contribuíram para o aprimoramento dos en- tendimentos e das descobertas sobre a organização e a formação do embrião, possibilitando comparações entre espécies, juntamente com questionamentos concomitantes sobre a origem da vida. Havia cientistas que acreditavam que todos os genes agiam da mesma forma. Outros já acreditavam que cada gene corresponderia a uma enzima específica e a expressão de cada gene seria determinada pela interação dinâmica de proteínas reguladoras presentes na célula a qualquer tempo. O processo de desenvolvimento poderia se iniciar com o gene, e o citoplasma facilitaria que o ambiente desenvolvesse o gene, seria um tipo de “linguagem em ação”. Wolpert (2002) considera que se soubéssemos como os genes se alteram durante a evolução de uma cadeia de organismos, poderíamos entender como seriam os organismos resultantes, antes deles serem 65 Para uma discussão sobre questões relacionadas à origem da vida ver Magalhães (2019). 42 formados. Para isso teríamos que entender quais são as substâncias in- dutoras do desenvolvimento e como elas atuam no ambiente celular. As células, a partir dessa sinalização, selecionariam um possível cami- nho entre algumas alternativas. A partir disso, o desenvolvimento do embrião ocorreria mediante o controle de quais proteínas fossem pro- duzidas e onde fossem produzidas. Mas, será que tal retrato molecular seria suficiente para estabelecer e nos revelar todo o desenvolvimento? As células poderiam escolher possíveis caminhos para seguir no processo da diferenciação, o que nos faz questionar a viabilidade de se prever todas essas alternativas. Será que conseguiríamos prever todo o desenvolvimento? Como preveríamos as interações e seus resultados? Não haveria alguma influência externa no processo? (Wolpert, 2002). O surgimento do computador na segunda metade do século XX reconfigurou nossas maneiras de pensar e entender os corpos vivos. Posteriormente, a biologia molecular, com técnicas de DNA recombi- nante, redescobriu o organismo, mas tendo muita pouca semelhança com o que os antigos embriologistas entendiam. Muito foi feito e aprimorado, pelo que pudemos perceber, mas a resposta à questão “o que é um embrião? não foi respondida total- mente. Pode parecer decepcionante, ou inúteis tais esforços. No en- tanto, é importante rever as questões subjacentes em Maienschein (2007). É importante conhecer os caminhos que proporcionaram as discus- sões que foram feitas, para tentarmos entender um pouco mais sobre o que é um embrião e esclarecer melhor algumas discussões sociais sobre o assunto, que se mantêm até hoje, inclusive em relação ao aborto. AGRADECIMENTOS A primeira autora agradece ao Programa Unificado de Bolsas de Estudos (PUB/USP) e ao Instituto de Estudos Avançados (IEA/USP) pela bolsa concedida. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARISTÓTELES. [sec. IV a. C.]. Da geração e da corrupção. Trad. Renata Maria Pereira Cordeiro. Paulo: Landy Editora, 2001. Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 1-45, 2022. 43 por Wilhelm Ludwing Johannsen . Filosofia e História da Biologia, 5 (1): 55-71, 2010. Disponível em: <https://www.abfhib.org/ Press, 2007. Published online by Cambridge University Press: 28 April 2008. DOI: <https://doi.org/10.1017/CCOL978052 1851282.017> MARTYN, I.; KANNO, T. Y.; RUZO, A.; SIGGIA, E. D; BRIVANLOU, A. H. Self-organization of a human organizer by combined Wnt and Nodal signalling. Nature, 558 (7708):132-135, 2018. MOREIRA, Catarina. Desenvolvimento Embrionário dos Animais. Revista de Ciência Elementar, 2 (4): 247, 2014. 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Estas, foram publicadas posteriormente como ensaios, contribuindo assim, para a difusão de suas ideias. Este artigo consiste em uma tradução de um desses ensaios “The rise and progress of paleontology” (O surgimento e a ascensão da paleontologia), em seu livro Collected essays: Science and the Hebrew em 1894. Neste trabalho Huxley apresentou à sua audiência um breve resumo sobre como a paleonto- logia surgiu, suas escolas, suas perspectivas e como a paleontologia se encai- xava no contexto científico geral de sua época. Ele utilizou uma linguagem compreensível e convincente. Esperamos que este trabalho possa contribuir para o conhecimento das ideias paleontológicas de Huxley. Palavras-chave: Tradução de fonte primária. História da Paleontologia. Tho- mas Henry Huxley. The rise of paleontology in the late XIX century: some considerations by Thomas Henry Huxley Abstract: Besides his researches and classes on comparative anatomy, physi- ology, natural history and palaeontology, Thomas Henry Huxley (1825-1895) spent a significant time on public lectures. Later, he published those lectures as essays which helped to enhance his thought. This paper translates the work “The rise and progress of palaeontology” by Thomas Huxley, published in his Collected Essays: Science and the Hebrew in 1894. Huxley dealt briefly with the * Universidade de São Paulo. Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto. Estudante de Doutorado no Programa de Pós-Graduação em Biologia Compa- rada, Laboratório de Paleontologia de Ribeirão Preto. E-mail: juliancristiangoncal- ves@gmail.com mailto:juliancristiangoncalves@gmail.com mailto:juliancristiangoncalves@gmail.com 48 beginnings of palaeontology, its different schools, its perspectives, and how it fitted the overall scientific context of his time. He used apprehensible and persuasive language. We hope that this work can contribute to the knowledge of Huxley’s palaeontological ideas. Keywords: Primary source translation. History of Paleontology. Thomas Henry Huxley. 1 INTRODUCÃO Thomas Henry Huxley (1825-1895) (figura 1), naturalista britânico, é geralmente conhecido por sua incisiva defesa das ideias de Charles Darwin (1809-1882). Menos conhecida, talvez, seja sua aproximação com a paleontologia, embora suas contribuições para a área terem sido significativas (Switek, 2010, p. 252). Huxley nasceu em 4 de maio de 1825 em Ealing1. Frequentou por pouco tempo a escola primária e tinha facilidade em resolver proble- mas mecânicos. Teve dois cunhados médicos, o que pode tê-lo levado a se interessar pela medicina. Iniciou aos 13 anos como ajudante de seu cunhado John Salt, em Londres. A educação cientifica inicial de Huxley consistiu em um treinamento como aprendiz no hospital Charing Cross. Em 1842, ele e seu irmão mais velho, James, se inscreveram para bolsas de estudos do hospital. (Foster, 1896, p. xlvi). Nessa época, seus inte- resses eram variados, de literatura a ciências gerais, Huxley também adquiriu um bom conhecimento de francês e alemão. Cinco anos depois, ingressou na Marinha Inglesa e atuou como ci- rurgião assistente no H.M.S Rattlesnake entre 1846-1850 (Lyons, 1999, p. 29). Nesse período, teve a oportunidade de coletar inúmeros espéci- mes de animais marinhos, realizou dissecções e, gradualmente, acumu- lou um grande portfólio de desenhos. Após seu retorno à Inglaterra em 1850, Huxley obteve uma licença do serviço da marinha para permanecer em Londres e trabalhar nos materiais que trouxera de volta do Rattlesnake (Williams, 1981, p. 590). Nessa época, o trabalho de Huxley era diversificado. Escreveu vá- rios artigos anônimos para o Literary Gazette e outros periódicos, tradu- ziu e editou diversas memórias científicas estrangeiras. Além disso, deu contribuições para Todd and Bowman’s Cyclopædia of Anatomy. Publicou 1 Pequena vila rural, agora pertencente a Londres. Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 47-71, 2022. 49 um grande número de memórias que tratam da anatomia microscópica e das relações dos invertebrados em dois periódicos: Quarterly Journal of Microscopical Science e Transactions of the Royal and Linnæan Societies. Deu uma série de palestras na Royal Institution of London, com o intuito de divulgar as pesquisas que estavam sendo desenvolvidas para a socie- dade londrina (Chalmers-Mitchell, 1900, p. 49). Em 1854 Huxley assumiu a função de paleontólogo na British Geo- logical Survey, que havia sido fundada em 1835, e de palestrante de His- tória natural geral na Royal School of Mines (Foster, 1896, p. li), o que o marcou o início de sua carreira na área2 (Desmond, 2008, p. 430). Fig. 1. Thomas Henry Huxley Fonte: Disponível em: https://upload.wikimedia.org/wikipe- dia/commons/b/b2/Huxley7.jpg 2 Até ser nomeado na “Escola de Minas”, o trabalho de Huxley tinha sido quase intei- ramente morfológico, lidando com os Invertebrados. https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/b2/Huxley7.jpg https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/b2/Huxley7.jpg 50 Em seus primeiros trabalhos paleontológicos, Huxley discutiu so- bre os peixes fósseis e anfíbios labirintodontes do Devoniano da In- glaterra. Mais recentemente, no século XX, Wesley Wiliams comentou a respeito dessas contribuições de Huxley: Suas pesquisas sobre a morfologia desses tetrápodes basais o levaram a colocá-los na divisa entre peixes, anfíbios e répteis. Sua relação an- cestral com todos os tetrápodes superiores é, desde então, bem reco- nhecida. (Williams, 1981, p. 594) Leonard Huxley (1860-1933), escritor britânico e filho de Thomas Huxley, comentou quea partir de 18543, o trabalho administrativo e as pesquisas paleontológicas começaram a exigir muito mais tempo de Huxley do que talvez ele realmente gostaria. Em suas palavras: A Paleontologia e o trabalho administrativo começaram a exigir muito do tempo que ele [Huxley] teria dedicado de boa vontade à pesquisa propriamente zoológica. Suas palestras sobre História Natural, é claro, exigiram uma boa dose de investigação de primeira mão, e não apenas notas ocasionais em seus diários fragmentados, mas uma vasta massa de desenhos agora preservados em South Kensington atesta a quanti- dade de trabalho que ele ainda conseguiu dedicar a estes assuntos [tra- balhos sobre invertebrados]. [...] O Method of Paleontology4, publicado em 1856, foi o primeiro de uma longa série de artigos que tratavam de criaturas fósseis, cuja descrição coube a ele como Naturalista para o Serviço Geológico. (Huxley, L. [1900] 2004, Chapter 1.10 - 1855-1858) Leonard Huxley ressaltou ainda que foi uma interessante ironia Huxley aceitar o posto de paleontólogo e palestrante de História natu- ral. 3 Entre suas nomeações no início da carreira, além de naturalista do Geological Survey estavam: conferencista no St. Thomas Hospital, professor de fisiologia na Royal Institution (1855) e inspetor em fisiologia e anatomia comparada na University of London (1856) (Nocks, 2007, p. 57). 4 O “método de paleontologia” serviu como ensaio preliminar para todo o guia de alunos e foi reimpresso em 1869 pelo Smithsonian Institute of Washington com o título Principles and Methods of Paleontology. (Huxley, L. [1900] 2004, Chapter 1.10 - 1855-1858) Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 47-71, 2022. 51 Em sua autobiografia, Huxley comentou sobre a resposta que deu a Sir Henry de la Beche5, o Diretor-Geral do Geological Survey, quando ele lhe ofereceu o posto de paleontólogo e que Huxley recusou num primeiro momento: Recusei o primeiro [de paleontólogo] categoricamente e aceitei o úl- timo [de palestrante] apenas provisoriamente, dizendo a Sir Henry que não me importava com fósseis e que deveria desistir da História Natu- ral assim que conseguisse obter uma posição na fisiologia. Mas ocupei o cargo por 31 anos e grande parte do meu trabalho tem sido paleon- tológico. (Huxley, T in: Huxley, L. [1900] 2004, Chapter 1.10 - 1855- 1858) Conforme Michael Foster6 (1896, p. lvi), além da pesquisa científica, Huxley dedicou muito tempo e cuidado a palestras e discursos. Leo- nard Huxley complementou: Mas deve ser lembrado que nada estava mais longe de sua mente do que o desejo de fundar uma escola de pensamento. Ele apenas se es- forçou como erudito e estudante para esclarecer seus próprios pensa- mentos e ajudar outros a clarear os deles, seja no mundo intelectual ou moral (Huxley, L. [1900] 2004, Preface/American edition) 2 HUXLEY E A EVOLUÇÃO Mesmo após o Origin of species (1859) ser publicado7, as pesquisas de Huxley só abordariam a ideia de evolução das espécies alguns anos mais tarde. Segundo Brian Switek (2010), durante a década de 1860, 5 Henry Thomas de la Beche (1796-1855) geólogo britânico, foi o primeiro diretor do British Geological Survey. 6 Sir Michael Foster (1836-1907) foi um fisiologista britânico e aluno de Tomas Huxley. 7 Huxley foi uma das poucas pessoas, além de Charles Lyell (1797-1875) e Joseph Dal- ton Hooker (1817-1911), também amigos de Charles Darwin (1809-1882), a conhecer o argumento de Darwin antes que o Origin fosse publicado. Antes dessa época, Huxley havia manifestado uma posição totalmente agnóstica em relação à questão das espécies e, buscava inutilmente qualquer causa adequada que justificasse a transmutação (Huxley, L. [1900] 2004, Chapter 1.13 - 1859). Podemos mencionar ainda Herbert Spencer (1820-1903), Joseph Dalton Hooker (1817-1911), Alfred Russel Wallace (1823-1913) George John Romanes (1848-1894), dentre outros, como pertencentes do “círculo de amigos de Darwin” que também se envolviam em discussões públicas e defendiam ideias sobre os estudos de evolução (Martins, 2019, p. 120). 52 Huxley estava preocupado em identificar os arquétipos que uniam as formas dos vertebrados, mas não abordou as formas de transição entre pássaros e répteis até ler Generelle Morphologie der Organismen (1866) de Ernst Haeckel (1834-1919). Foi quando Huxley “reuniu ampla evidên- cia anatômica para ilustrar como os pássaros poderiam ter evoluído de algo semelhante a um dinossauro” (Switek, 2010, p. 255). De acordo com Mario Di Gregorio (1982), Huxley começou a im- plementar a ideia de evolução apenas em 1868, sem abordar totalmente a noção de seleção natural. Nas palavras de Di Gregorio: Minha opinião é que depois de 1859, sob a influência de Darwin, Huxley foi persuadido do valor da evolução apenas como uma hipó- tese de trabalho com respeito aos fenômenos da natureza orgânica; ele apoiou a teoria de Darwin publicamente como uma espécie de “pro- grama” digno de consideração séria, mas ainda não pronto para uma ampla aplicação por causa da seleção natural, seu princípio básico. Ele integrou a evolução com seu trabalho científico somente depois de 1868, quando encontrou a maneira de evitar referências à seleção na- tural. Na verdade, quando ele finalmente aplicou a evolução ao estudo da vida animal, ela estava ganhando ampla aceitação nos círculos cien- tíficos e era fortemente apoiada pela escola zoológica de Jena8, liderada por Ernst Haeckel e Carl Gegenbaur. (Di Gregorio, 1982, pp. 397-398) A obra de Haeckel (1866) fez Huxley mudar de vertente e iniciar a procura por ancestrais evidentes. Enquanto redigia “On the animals which are most nearly intermediate between birds and reptiles” (1868)9, Huxley escreveu a Haeckel em janeiro de 1868 (Di Gregorio 1982, p. 415) para comentar sobre seu artigo. Segundo Huxley: No trabalho científico, o principal assunto em que estou envolvido agora é uma revisão do Dinosauria - com um olho na Descendenz Theorie! A estrada dos Répteis aos Pássaros passa por Dinosauria aos Ratitae. O ‘filo’ dos pássaros era composto por Struthionidae, e asas surgiam 8 De acordo com Di Gregorio, Huxley foi fortemente influenciado pela ciência alemã, especialmente pelos trabalhos de embriologia de Karl Ernst von Baer (1792-1876). Haeckel e Carl Gegenbaur (1826-1903) que também foram seguidores da tradição de von Baer (Di Gregorio, 1982, p. 398). 9 Para conhecer essa obra, consulte “Thomas Henry Huxley e o parentesco entre di- nossauros e aves” de Silva Junior & Martins (2021). Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 47-71, 2022. 53 de membros anteriores rudimentares. (Huxley, T, 1868, in: Huxley, L. [1900] 2004, Chapter 1.22 - 1868). Huxley (1868) fez uma espécie de confissão à “verdade científica da evolução”. Em suas palavras: Aqueles que se apegam a doutrina da Evolução (e eu sou um deles), concebem que existem motivos para acreditar que o mundo, com tudo que está nele e sobre ele, não veio a existir na condição em que o ve- mos agora, nem em nada que se aproxime dessa condição. (Huxley, 1868, p. 66) Huxley mostrava um apreço especial por formas transitórias, nas quais via evidência direta dos processos de evolução (Huxley, 1868; Hall, 2002; Silva Junior & Martins, 2021). De certa forma, como comentou Leonard Huxley10 ([1900] 2004), houve grande benefício na troca de área de Huxley. Ele contribuiu com diversas pesquisas paleontológicas, além de proporcionar novos temas para as palestras que dava, resultantes de seu pensamento. Huxley contribuiu para as ciências naturais, ministrando palestras para a popularização do pensamento científico e preparando professo- res nas ciências aplicadas. Ele colaborou de modo significativo para os estudos evolutivos e ocupou um lugar de destaque na comunidade ci- entífica de Londres da década de 1850 até o final de sua vida. A tradução que segue é de um ensaio11 publicado em 1894 (figura 2) onde Huxleytratou do início da paleontologia, seu progresso e como os fósseis foram vistos pela comunidade científica ao longo dos tem- pos. Em suas palavras: Esta é a hipótese da evolução; e as descobertas paleontológicas da úl- tima década estão tão completamente de acordo com as exigências dessa hipótese que, se ela não existisse, o paleontólogo teria de inventá- la. (Huxley, 1894, p. 44) 10 Para mais informações sobre as ideias de Thomas Huxley, leia os EBooks “A Vida e Cartas de Thomas Henry Huxley” do Projeto Gutenberg em: https://www.guten- berg.org/ebooks/author/1694 11 Discurso perante a Associação Britânica para o Avanço da Ciência em York em setembro de 1881. https://www.gutenberg.org/ebooks/author/1694 https://www.gutenberg.org/ebooks/author/1694 54 Fig. 2. Cap. 2 “The rise and progress of palaeontology” (Huxley, 1884). Fonte: <https://archive.org/details/sciencehe- brew00huxliala/page/n5/mode/2up> Na tradução, procurou-se aproximar ao máximo do texto original, inclusive no que diz respeito à terminologia, tempos verbais e distri- buição de parágrafos. Para facilitar a leitura, as páginas da obra original aparecem entre colchetes ao longo do texto. 3 TRADUÇÃO: THE RISE AND PROGRESS OF PALAEONTOLOGY II A ASCENÇÃO E PROGRESSO DA PALEONTOLOGIA [1881] [24] ESSA aplicação das ciências da biologia e da geologia, que é comumente conhecida como paleontologia, teve sua origem na mente Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 47-71, 2022. 55 da primeira pessoa que, tendo encontrado algo como uma concha, ou um osso, naturalmente encrustados em cascalho ou em uma rocha, se entregou a especulações sobre a natureza desta coisa que havia desen- terrado – este fóssil – e sobre as causas que a levaram a tal situação. De forma rudimentar, uma vasta antiguidade pode ser atribuída com segu- rança à paleontologia, visto que sabemos que, 500 anos antes da era cristã, as doutrinas filosóficas de Xenófanes12 foram influenciadas por suas observações sobre os restos fósseis expostos nas pedreiras de Si- racusa. Daí em diante, não apenas os filósofos, mas os poetas, os his- toriadores, os geógrafos da antiguidade ocasionalmente se referiram aos fósseis; e, após a retomada do conhecimento13, surgiram vivas con- trovérsias a respeito de sua real natureza. [25] Porém, pouco mais de dois séculos se passaram desde que esse problema fundamental foi tratado exaustivamente pela primeira vez; foi apenas no século passado que o valor arqueológico dos fósseis – sua importância, quero dizer, como registros da história da Terra – fo- ram totalmente reconhecidos; a primeira investigação adequada dos restos fósseis de qualquer grande grupo de animais vertebrados pode ser encontrada em “Recherches sur les Ossemens Fossiles”, de Cu- vier14, finalizada em 1822; e, é tão moderna a paleontologia estratigrá- fica; que seu fundador, William Smith15, viveu para receber o justo re- conhecimento de seus serviços com a concessão da primeira Medalha Wollaston16 em 1831. 12 Xenófanes (570-475 a.C.), filósofo grego, observou a presença de fósseis de peixes e conchas em localidades distantes da costa marinha, chegando à conclusão que tais locais em outras épocas estavam embaixo da água e um dia foram fundo de mares (Fairbanks, 1898, p. 69). 13 Provavelmente aqui Huxley estava se referindo ao Renascimento. 14 Georges Cuvier (1769-1832), naturalista francês, comparou fósseis aos animais vi- ventes utilizando a anatomia comparada como um método para a pesquisa sobre os seres vivos. 15 William Smith (1769-1839), geólogo britânico, elaborou um dos primeiros mapas geológicos da Grã-Bretanha. Smith realizou extensas análises estratigráficas utilizando índices paleontológicos. Observou que as rochas estavam dispostas em camadas e que os fósseis encontrados em cada uma delas eram bem diferentes (Torrens, 2001, p.72). 16 Medalha Wollaston é um prêmio concedido pela Sociedade Geológica de Londres. 56 Mas, embora a paleontologia seja uma especialidade científica rela- tivamente jovem, a massa de materiais com que tem de lidar já é pro- digiosa. Nos últimos cinquenta anos, o número de restos fósseis co- nhecidos de animais invertebrados triplicou ou quadruplicou. O traba- lho de interpretação de fósseis de vertebrados, cujas fundações foram tão solidamente estabelecidas por Cuvier, foi realizado, com maravi- lhoso vigor e sucesso, por Agassiz17 na Suíça, por Von Meyer18 na Ale- manha e, por último, mas não menos importante, por Owen19 neste país, enquanto, nos últimos anos, uma multidão de trabalhadores labu- tou neste mesmo campo. Em diversos grupos do reino animal, o nú- mero de formas fósseis conhecidas já é tão grande quanto o das espé- cies existentes. Em alguns casos, é muito maior; e há ordens inteiras [26] de animais cuja existência nunca saberíamos, exceto pelas evidên- cias fornecidas por restos fósseis. Com tudo isso, pode-se presumir seguramente que, no momento presente, não temos conhecimento de um dízimo dos fósseis que mais cedo ou mais tarde serão descobertos. Se pudermos julgar pela profusão produzida nos últimos anos pelas formações terciárias da América do Norte, parece não haver limite para a multidão de restos de mamíferos a serem esperados daquele conti- nente; e a analogia nos leva a esperar riquezas semelhantes na Ásia Ori- ental, contando que as formações terciárias daquela região sejam ex- ploradas com cuidado similar. Mais uma vez, temos, por enquanto, quase tudo a aprender a respeito da população terrestre da época me- sozoica20; e parece que as regiões ocidentais dos Estados Unidos esta- vam prestes a se mostrar tão instrutivas com relação a esse ponto quanto o foram com relação à vida terciária. Meu amigo, Professor 17 Jean Louis Rodolphe Agassiz (1807-1873), também conhecido como Louis Agassiz, foi um zoólogo e geólogo suíço. 18 Christian Erich Hermann von Meyer (1801-1869), conhecido como Hermann von Meyer, foi um paleontólogo alemão. 19 Richard Owen (1804-1892) foi um zoólogo e paleontólogo britânico. 20 A Era Mesozoica durou entre 248 milhões a 65 milhões de anos atrás e foi dividida em três períodos: Triássico, Jurássico e Cretáceo. Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 47-71, 2022. 57 Marsh21, me informa que, em dois anos, restos de mais de 160 indiví- duos distintos de mamíferos, pertencentes a vinte espécies e nove gê- neros foram encontrados em um espaço não maior que o chão de uma sala de bom tamanho; enquanto afloramentos da mesma idade produ- ziram 300 répteis, variando em tamanho de comprimento de 60 a 80 pés, até as dimensões de um coelho. A tarefa que me propus esta noite é tentar apresentar a vocês, o mais brevemente possível, um esboço das etapas sucessivas pelas quais nosso conhecimento [27] atual dos fatos da paleontologia e daquelas conclusões que são indiscutíveis, foram alcançados; e peço licença para lembrá-los, desde o início, que na tentativa de esboçar o progresso de um ramo do conhecimento para o qual contribuíram inúmeros traba- lhos, meu compromisso é mais com generalizações do que com deta- lhes. É meu objetivo marcar as épocas da paleontologia, não recontar todos os eventos de sua história. Aquilo que acabei de chamar de problema fundamental da paleon- tologia, a questão que deve ser resolvida antes que qualquer outra possa ser discutida com proveito, é esta: Qual é a natureza dos fósseis? São eles, como o bom senso dos gregos antigos parece tê-los levado a pre- sumirem sem hesitação, restos de animais e plantas? Ou são eles, como era geralmente presumido nos séculos XV, XVI e XVII, meras figuras de pedra, porções de matéria mineral que assumiram a forma de folhas, cascas e ossos, assim como aquelas porções de matéria mineral que chamamos de cristais assumem a forma de sólidos geométricos co- muns? Ou, ainda, são, como outros pensavam, produtos dos germes dos animais e das sementes das plantas que se perderam, por assim dizer,nas entranhas da terra, e alcançaram apenas um desenvolvimento imperfeito e abortivo? É fácil zombar de nossos ancestrais por estarem dispostos a rejeitar a primeira [28] em favor de uma das duas últimas hipóteses; mas é muito mais enriquecedor tentar descobrir por que eles, que realmente não eram pessoas menos sensatas e nem sem menos alvura do que nossos excelentes ‘eus’ de hoje em dia, deveriam ter sido levados a nutrir pontos de vista que nos parecem absurdos. A crença 21 Othniel Charles Marsh (1831-1899), foi um paleontólogo e professor norte-ameri- cano. Marsh é reconhecido por seus antagônicos embates com outro paleontólogo americano, Edward Drink Cope (1840-1897), os quais ficaram conhecidos como ‘A guerra dos ossos’. Para mais informações sobre essa história, consulte REA, 2021. 58 no que é erroneamente chamado de geração espontânea, ou seja, o de- senvolvimento da matéria viva a partir da matéria mineral, à parte da ação da matéria viva preexistente, como uma ocorrência comum nos dias atuais – que ainda é sustentado por alguns de nós, foi universal- mente aceito como uma verdade óbvia por eles. Eles poderiam apontar para as formas arborescentes assumidas pela geada e por diversos mi- nerais metálicos como evidência da existência na natureza de uma “força plástica” competente para permitir que a matéria inorgânica as- sumisse a forma de corpos organizados. Então, como todos aqueles que estão familiarizados com os fósseis sabem, eles apresentam inúme- ras gradações, desde conchas e ossos que se assemelham exatamente aos objetos recentes, até massas de mera pedra que, por mais que repi- tam com precisão a forma externa do corpo orgânico, nada mais têm em comum com ele; e, daí, até meros traços e fracas impressões na substância contínua da rocha. O que agora sabemos ser o resultado de mudanças químicas que ocorrem no curso da fossilização, pelas quais o mineral é substituído por uma substância orgânica, pode, na ausência de tal conhecimento, ser interpretado com justiça [29] como a expres- são de um processo de desenvolvimento na direção oposta – do mine- ral para o orgânico. Além disso, em uma época em que teria parecido o mais absurdo dos paradoxos sugerir que o nível geral do mar é cons- tante, enquanto o da terra sólida flutua para cima e para baixo por mi- lhares de pés em uma ondulação secular do solo, pode muito bem ter parecido muito menos arriscado conceber que os fósseis são brinque- dos da natureza do que aceitar a alternativa necessária, que todas as regiões do interior e planaltos, em cujas rochas foram encontradas con- chas marinhas, um dia foram cobertas pelo oceano. Não é tão surpre- endente, portanto, como pode parecer à primeira vista, que embora homens como Leonardo da Vinci22 e Bernard Palissy23 tivessem apenas impressões sobre a natureza dos fósseis, a opinião da maioria de seus contemporâneos apontava fortemente para o outro lado; nem mesmo 22 Para conhecer mais sobre os estudos com fósseis de Leonardo da Vinci (1452-1519), consulte A montanha de moluscos de Leonardo da Vinci (2003) de Stephen Jay Gould. Nesta coletânea, Gould comenta o trabalho de Leonardo da Vinci sobre fósseis marinhos encontrados em algumas rochas e observa que embora a conclusão de Da Vinci esti- vesse correta, suas explicações se baseavam em crenças medievais. 23 Bernard Palissy (1510-1589), foi um engenheiro e artesão francês. Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 47-71, 2022. 59 esse erro se manteve muito depois de os fundamentos científicos da verdadeira interpretação dos fósseis terem sido declarados, de uma ma- neira que nada deixou a desejar, na segunda metade do século XVII. Quem prestou esse bom serviço à paleontologia foi Nicolas Steno24, professor de anatomia em Florença, embora fosse dinamarquês de nas- cimento. Os colecionadores de fósseis daquela época estavam familia- rizados com certos elementos denominados “glossopetrae”25, e havia muita especulação quanto à sua natureza. Na primeira metade do sé- culo XVII, Fabio Colonna26 tentou convencer seus colegas [30] da fa- mosa Accademia dei Lincei27 de que os glossopetrae eram apenas dentes fósseis de tubarão, mas seus argumentos não impressionaram. Cin- quenta anos depois, Steno reabriu a questão e, ao dissecar a cabeça de um tubarão e apontando a correspondência exata de seus dentes com o glossopetrae, não deixou nenhuma dúvida racional quanto à sua origem. Até agora, o trabalho de Steno foi um pouco mais longe do que o de Colonna, mas felizmente ocorreu a ele pensar em todo o assunto da interpretação de fósseis, e o resultado de suas meditações foi a publi- cação, em 1669, em um pequeno tratado com o título muito curioso de “De Solido intra Solidum naturaliter contento”. O curso geral do argumento de Steno pode ser resumido em poucas palavras. Fósseis são corpos sólidos que, por algum processo natural, passaram a ser contidos em outros corpos sólidos, a saber, as rochas nas quais estão embutidos; e o problema fundamental da paleontologia, enunciado de maneira geral, é este: “Dado um corpo dotado de uma certa forma e produzido de acordo com as leis naturais, encontrar naquele próprio corpo a evidência do lugar e da maneira de sua produção.”28 A única maneira de resolver este problema é pela aplicação do axioma de que 24 Nicolas Steno (1638-1686) observou que alguns dentes de tubarão eram semelhantes com certos materiais, encontrados incrustados dentro de formações rochosas, que seus contemporâneos chamavam de glossopetrae. 25 Junção das palavras gregas “glóssa” (língua) + “petra” (rocha), uma possível alusão ao formato dos dentes de tubarões. 26 Fabio Colonna (1567-1640) naturalista italiano. 27 Instituição científica fundada em 1603 em Roma. Para conhecer mais sobre a histó- ria da Accademia Nazionale dei Lincei, visite o site: <https://www.lincei.it/it/storia> 28 De Solido intra Solidum, p. 5. — “Dato corpore certa figura prasdito et juxta leges naturae producto, in ipso corpore argumenta invenire locum et modum productions detegentia.” Nota de Thomas Huxley. https://www.lincei.it/it/storia 60 “efeitos semelhantes implicam causas semelhantes”, ou como Steno coloca, em [31] referência a este caso particular, que “corpos que são totalmente semelhantes foram produzidos da mesma maneira.”29 Con- sequentemente, uma vez que os glossopetrae são totalmente semelhantes aos dentes dos tubarões, eles devem ter sido produzidos por peixes semelhantes aos tubarões; e, uma vez que muitas conchas fósseis cor- respondem, nos mínimos detalhes de estrutura, às conchas de animais marinhos ou de água doce existentes, elas devem ter sido produzidas por animais semelhantes; e o mesmo raciocínio é aplicado por Steno aos ossos fósseis de animais vertebrados, sejam aquáticos ou terrestres. À objeção óbvia de que muitos fósseis não são totalmente semelhantes aos seus análogos vivos, diferindo em substância enquanto concordam na forma, ou sendo meros vazios ou impressões, cujas superfícies são figuradas da mesma forma que as de organismos animais ou vegetais, Steno responde apontando as mudanças que ocorrem nos restos orgâ- nicos incrustados na terra, e como sua substância sólida pode ser dis- solvida inteiramente, ou substituída por matéria mineral, até que nada reste do original, exceto um molde, uma impressão ou um mero traço de seus contornos. Os princípios de investigação assim expostos e ilus- trados de forma excelente por Steno em 1669 são aqueles que, consci- ente ou inconscientemente, têm guiado as pesquisas dos paleontólogos desde então. Mesmo aquela façanha da paleontologia que [32] impres- sionou tão poderosamente a imaginação popular, a reconstrução de um animal extinto a partir de um dente ou osso, é baseada na aplicação imaginável mais simples da lógica de Steno. Uma breve consideração mostrará, de fato, que a conclusão de Steno de que os glossopetrae são dentes de tubarão implica a reconstrução de um animal apartir de seu dente. Equivale a afirmar que o animal do qual os glossopetrae são relíquia tinha a forma e a organização de um tubarão; que tinha um crânio, uma coluna vertebral e membros semelhantes aos que são característicos deste grupo de peixes; que seu coração, guelras e intestinos apresenta- vam as peculiaridades que os de todos os tubarões apresentam; mais ainda, que quaisquer partes duras que seu tegumento contivesse fossem de um caráter totalmente diferente das escamas de peixes comuns. Es- 29 “Corpora sibi invicem omnino similia simili etiam modo proclucta sunt.” Nota de Thomas Huxley. Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 47-71, 2022. 61 sas conclusões são tão certas quanto a razão indica. E são assim, sim- plesmente porque uma experiência muito ampla justifica-nos acreditar que dentes dessa forma e estrutura particulares estão invariavelmente associados à organização peculiar dos tubarões e nunca são encontra- dos em conexão com outros organismos. Por que isso acontece, não estamos em condições nem mesmo de imaginar; devemos tomar o fato como uma lei empírica da morfologia animal, cuja razão pode possi- velmente ser encontrada um dia na história da evolução da tribo dos tubarões, mas para a qual é inútil buscar uma explicação em causas [33] fisiológicas comuns. Todos aqueles que estão familiarizados com a pa- leontologia sabem que não é todo dente, nem todo chifre, que nos per- mite julgar o caráter do animal a que pertence; e que é possível possuir muitos dentes, e até mesmo uma grande porção do esqueleto de um animal extinto, e ainda assim ser incapaz de reconstruir seu crânio ou seus membros. Somente quando o dente ou osso apresenta peculiari- dades, que sabemos por experiência anterior serem características de um determinado grupo, podemos prever com segurança que o fóssil pertence a um animal do mesmo grupo. Qualquer pessoa que encon- trar um molar de vaca pode estar perfeitamente certo de que pertence a um animal que tinha dois dedos completos em cada pata e ruminava; qualquer um que encontrar um molar de cavalo pode estar tão certo de que ele tinha um dedo completo em cada pé e não ruminou; mas se ruminantes e cavalos fossem animais extintos, dos quais nada além dos molares jamais tivessem sido descobertos, nenhuma quantidade de ra- ciocínio fisiológico poderia ter nos permitido reconstruir qualquer um dos animais, muito menos adivinhar as grandes diferenças entre os dois. Cuvier, em Discours sur les Revolutions de la Surface du Globe30, estra- nhamente credita a si mesmo, e desde então tem sido creditado por outros, a invenção de um novo método de pesquisa paleontológica. Mas se você voltar para Recherches sur les Ossemens Fossiles31 e observar Cuvier, não especulando, mas [34] trabalhando, você descobrirá que 30 Publicado em 1826, Discours sur les Revolutions de la Surface du Globe, é tida como a principal obra de Cuvier, onde o mesmo aborda temas como catastrofismo, anatomia comparada e faz diversas discussões sobre o registro fóssil. Para mais informações, consulte Faria (2020). 31 Publicado em 1812, Recherches sur les Ossemens Fossiles é um extenso tratado anatômico onde Cuvier descreve diversos animais. 62 seu método não é nem mais nem menos que o de Steno. Se ele foi capaz de fazer sua famosa imofecia32 a partir da mandíbula que jazia sobre a superfície de um bloco de pedra para a pélvis do mesmo animal que estava escondido nele, não era porque ele, ou qualquer outra pes- soa, sabia, ou sabe, por que uma mandíbula com um certo formato é, via de regra, frequentemente acompanhada pela presença de ossos de marsupiais, mas simplesmente porque a experiência tem mostrado que essas duas estruturas estão relacionadas. O estabelecimento da natureza dos fósseis levou imediatamente ao próximo avanço da paleontologia, ou seja: sua aplicação para decifrar a história da terra. Quando se admitiu que os fósseis são restos de ani- mais e plantas, seguiu-se que, na medida em que se assemelhavam a animais e plantas terrestres ou de água doce, são evidências de sua exis- tência na terra, ou em água doce; e, na medida em que se assemelhavam a organismos marinhos, são evidências de sua existência no mar na época em que eram partes de animais e plantas realmente vivos. Além disso, na ausência de evidência contrária, deve-se admitir que os orga- nismos terrestres ou marinhos implicam na existência de terra ou mar no local em que foram encontrados enquanto ainda viviam. Na ver- dade, tais conclusões foram aceitas por todos que acreditavam que os fósseis eram realmente [35] restos orgânicos, do tempo de Xenófanes em diante. Steno discute seu valor como evidência de alteração repetida das condições marinhas e terrestres no solo da Toscana de uma ma- neira digna de um geólogo moderno. As especulações de De Maillet33 no início do século XVIII giram em torno dos fósseis; e Buffon34 o acompanha de perto em suas duas notáveis obras, Theorie de la Terre e Epoques de la Nature35 com as quais ele iniciou e encerrou sua carreira de naturalista. As frases iniciais de Epoques de la Nature nos mostram quão plena- mente Buffon reconheceu a analogia entre as pesquisas geológicas e 32 No original imophecy. Do latim “imus” (intimo) + “prophetia” (advinhação). 33 Benoît de Maillet (1656-1738) foi um diplomata francês no Egito. 34 Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon (1707-1788) foi um naturalista francês. 35 Ambas as obras foram publicadas dentro do compêndio Histoire naturelle, générale et particulière, publicado entre 1749 e 1804. Neste compêndio, Buffon procurou abordar sistematicamente todo o conhecimento existente nos campos de história natural, geo- logia e antropologia. Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 47-71, 2022. 63 arqueológicas: “Como na história civil, consultamos feitos, buscamos moedas ou deciframos inscrições antigas para determinar as épocas das revoluções humanas e fixar a data dos acontecimentos morais; então, na história natural, devemos pesquisar os arquivos do mundo, recupe- rar antigos monumentos das entranhas da terra, coletar seus restos fra- gmentados e reunir um corpo de evidências com todos os sinais de mudança física que possam permitir olhar para trás para as diferentes idades da natureza. É o nosso único modo de fixar alguns pontos na imensidão do espaço e de definir um certo número de marcos ao longo do caminho eterno do tempo.” Buffon enumera cinco classes desses monumentos da história pas- sada da Terra, e todos eles são fatos da paleontologia. Em primeiro lugar, diz ele, as conchas e outras produções marinhas encontram-se [36] por toda a superfície e no interior da terra firme; e todas as rochas calcárias são feitas de seus restos. Em segundo lugar, muitas dessas conchas encontradas na Europa não podem ser encontradas nos mares adjacentes; e, até agora nas ardósias e outros depósitos profundos, há restos de peixes e de plantas das quais nenhuma espécie existe agora em nossas latitudes e que estão extintas ou existem apenas em climas mais setentrionais. Em terceiro lugar, na Sibéria e em outras regiões do norte da Europa e da Ásia, ossos e dentes de elefantes, rinocerontes e hipopótamos ocorrem em tal número que esses animais devem ter vi- vido e se multiplicado nessas regiões, embora atualmente estejam con- finados aos climas do sul. Os depósitos em que esses restos são encon- trados são superficiais, enquanto aqueles que contêm conchas e outros restos marinhos são muito mais profundos. Em quarto lugar, presas e ossos de elefantes e hipopótamos são encontrados não apenas nas re- giões do norte do velho mundo, mas também nas do novo mundo, embora, atualmente, nem elefantes nem hipopótamos ocorram na América. Em quinto lugar, no meio dos continentes, nas regiões mais remotas do mar, encontramos um número infinito de conchas, das quais a maior parte pertence a animais daqueles tipos que ainda existem nos mares do sul, masdos quais muitos outros não têm análogos vivos; de modo que essas espécies parecem perdidas, destruídas por alguma [37] causa desconhecida. É desnecessário indagar até que ponto essas afirmações são estritamente precisas; o suficiente para justificar as con- 64 clusões de Buffon de que a terra seca já esteve sob o mar; que a forma- ção das rochas fossilíferas deve ter ocupado um lapso de tempo muito maior do que o tradicionalmente atribuído à idade da Terra; que restos fósseis indicam diferentes condições climáticas obtidas em épocas an- teriores, e especialmente que as regiões polares já foram mais quentes; que muitas espécies de animais e plantas foram extintas; e essa mu- dança geológica teve algo a ver com a distribuição geográfica. Mas essas proposições quase constituem uma estrutura da paleon- tologia. Para completá-la, apenas uma adição foi necessária, e esta foi feita nos últimos anos do século XVIII, por William Smith, cujo traba- lho se aproxima tanto de nossa época que muitos homens vivos pode- riam tê-lo conhecido pessoalmente. Este modesto agrimensor, cujo ne- gócio o levou a muitas partes da Inglaterra, lucrou com as condições peculiarmente favoráveis oferecidas pelo arranjo de nossos estratos se- cundários para fazer um exame cuidadoso e comparação de seus con- teúdos fósseis em diferentes pontos da grande área sobre a qual eles se estendem. O resultado de suas observações precisas e amplamente vas- tas foi estabelecer a importante verdade de que cada estrato [38] con- tém certos fósseis que lhe são peculiares; e que a ordem em que os estratos caracterizados por esses fósseis são sobrepostos uns aos ou- tros é sempre a mesma. Essa generalização importante foi rapidamente verificada e estendida para todas as partes do mundo acessíveis aos geólogos; e agora repousam sobre uma massa tão imensa de observa- ções que são uma das verdades mais bem estabelecidas da ciência na- tural. Para o geólogo a descoberta foi de infinita importância, pois lhe permitiu identificar rochas com a mesma idade relativa, mas podendo suas continuidades serem interrompidas ou suas composições altera- das. Mas para o biólogo tinha um significado ainda mais profundo, pois demonstrava que, ao longo do prodigioso tempo registrado pelas ro- chas fossilíferas, a população viva da Terra havia sofrido mudanças contínuas, não apenas pela extinção de certo número de espécies que existiram inicialmente, mas pela geração contínua de novas espécies, e a não menos constante extinção das antigas. Assim, as grandes fronteiras da paleontologia, na medida em que são propriedade comum do geólogo e do biólogo, foram definidas no final do século passado. Ao acompanhar seu progresso subsequente, Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 47-71, 2022. 65 devo me limitar à província da biologia e, de fato, à influência da pale- ontologia sobre a morfologia zoológica. E eu aceito essa limitação, com mais boa vontade, como o não menos importante tópico da influência da geologia e da paleontologia na distribuição de Lias36 que foi tratada com luminosidade no discurso do Presidente da Seção Geográfica37. Estabelecida a sucessão das espécies de animais e plantas no tempo, a primeira pergunta que o zoólogo ou o botânico teve que fazer foi: qual é a relação dessas espécies sucessivas umas com as outras? E é curioso que o acontecimento mais importante da história da paleonto- logia, que sucedeu imediatamente à generalização de William Smith, tenha sido uma descoberta que, se bem avaliada na época, teria ido longe no sentido de sugerir a resposta, que de fato demorou mais de meio século. Refiro-me à investigação de Cuvier sobre fósseis de ma- míferos produzidos pelas pedreiras nas rochas terciárias mais antigas de Montmartre, que, entre os principais resultados, está trazer à luz dois gêneros extintos de quadrúpedes com cascos, o Anoplotherium e o Palaeotherium. Os ricos materiais à disposição de Cuvier permitiram que ele obtivesse um conhecimento completo da osteologia e da dentição destas duas formas e, consequentemente, comparar criticamente a sua estrutura com a de outros animais com cascos atualmente existentes. O efeito dessa comparação foi provar que o Anoplotherium38, embora apresentasse muitos pontos de semelhança com os porcos [40] por um lado e com os ruminantes por outro, diferia de ambos a tal ponto que [Cuvier] não conseguia encontrar lugar para ele em nenhum dos gru- pos. Na verdade, ocupava, em alguns aspectos, uma posição interme- diária, tendendo a transpor o intervalo entre esses dois grupos, que na fauna existente são tão distintos. Da mesma forma, o Palaeotherium39 tendia a conectar formas tão diferentes como a anta, o rinoceronte e o cavalo. As investigações subsequentes trouxeram à luz uma variedade de fatos da mesma ordem, os mais curiosos e impressionantes dentre os quais estão aqueles que provam a existência, na época mesozoica, 36 A época inicial do Jurássico. 37 Sir J. D. Hooker. Nota de Thomas Huxley. 38 Anoplotherium é um gênero extinto de mamífero da ordem Artiodátila, presente do Eoceno tardio ao Oligoceno inicial de diversas regiões da Europa. 39 Palaeotherium é um gênero extinto de mamífero da ordem Perissodáctila, presente do Eoceno médio ao Oligoceno inicial de diversas regiões da Europa. 66 de uma série de formas intermediárias entre pássaros e répteis – duas classes de animais vertebrados que no momento parecem estar mais amplamente separadas do que quaisquer outras40. No entanto, o inter- valo entre eles é completamente preenchido, na fauna mesozoica, por pássaros com caracteres reptilianos, de um lado, e répteis com caracte- res orníticos, do outro. Então, novamente, enquanto o grupo de peixes, denominado ganóides, é, no momento, tão distinto daquele dos dipnoi, ou peixes-lama, dos quais foram contados como ordens distintas, os estratos devonianos nos apresentam formas das quais é impossível di- zer com certeza se são dipnoi ou se são ganóides. As longas e elaboradas pesquisas de Agassiz sobre peixes fósseis, publicadas entre 1833 e 1842, levaram-no a sugerir a existência de ou- tro tipo de relação entre as formas de vida [41] antigas e modernas. Ele observou que os peixes mais antigos apresentam muitos caracteres que lembram as condições embrionárias dos peixes existentes; e que, não apenas entre os peixes, mas em vários grupos de invertebrados que têm uma longa história paleontológica, as formas mais recentes são mais modificadas, mais especializadas, do que as anteriores. O fato da den- tição dos mamíferos carnívoros e ungulados terciários mais velhos es- tar sempre completa, notado pelo professor Owen, ilustrou a mesma generalização. Outra observação não menos sugestiva foi feita pelo Sr. Darwin, cujas investigações durante a viagem do Beagle o levaram a observar o fato singular, de que, a fauna, que precede imediatamente a que atual- mente existe em qualquer província geográfica de distribuição, apre- senta as mesmas peculiaridades de suas sucessoras. Assim, na América do Sul e na Austrália, os fósseis terciários ou quaternários posteriores mostram que a fauna imediatamente anterior à de hoje foi, num caso, tanto caracterizada por edentados e, no outro, por marsupiais como é agora, embora as espécies mais antigas sejam muito diferentes das da fauna mais recente. Por mais que essas indicações possam apontar claramente em uma direção, a questão da relação exata das sucessivas formas de vida animal e vegetal só poderia ser resolvida satisfatoriamente de uma maneira; a saber, comparando, estágio por estágio, a série de formas apresentadas 40 Para conhecer mais sobre as ideias de Huxley a respeito destas formas transitórias consulte: Silva Junior & Martins, 2021. Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 47-71, 2022. 67 por um mesmo tipo ao longo [42] de um amplo espaço de tempo. Nos últimos anos, isso foi completamente feito no caso do cavalo, e menoscompletamente no caso dos outros tipos principais de ungulados e car- nívoros; e todas essas investigações tendem a um resultado geral, a sa- ber, que, em qualquer série, os membros sucessivos dessa série apre- sentam uma especialização de estrutura gradualmente crescente. Isto é, se qualquer mamífero atualmente existente tem membros reduzidos ou dentição especialmente modificadas e cérebro complicado, seus prede- cessores, com o tempo, mostram cada vez menos modificação dos dentes e redução nos membros e um cérebro menos desenvolvido. Os trabalhos de Gaudry41, Marsh e Cope fornecem ilustrações abundantes desta lei a partir da maravilhosa riqueza fóssil de Pikermi42 e da vasta série ininterrupta de rochas terciárias nos territórios da América do Norte. Vou agora resumir os resultados deste esboço da ascensão e do pro- gresso da paleontologia. Todo o tecido da paleontologia é baseado em duas proposições: a primeira é que os fósseis são os restos de animais e plantas; e a segunda é que as rochas estratificadas em que são encon- tradas são depósitos sedimentares; e cada uma dessas proposições é fundada no mesmo axioma, que efeitos semelhantes implicam causas semelhantes. Se houver alguma causa competente para produzir um caule fóssil, ou concha, ou osso, exceto um ser vivo, então a paleonto- logia não tem fundamento; se a estratificação das rochas não é o efeito de causas que atualmente produzem a estratificação, não temos meios de julgar a duração do tempo passado ou a ordem em que as formas de vida se sucederam. Mas se essas duas proposições forem atendidas, não há como escapar, como me parece, de três conclusões muito im- portantes. A primeira é que a matéria viva existe na Terra há muito tempo, certamente há milhões de anos. A segunda é que, durante esse 41 Jean Albert Gaudry (1827-1908) foi um geólogo e paleontólogo francês. Em Ani- maux fossiles et géologie de l'Attique (1862-67), descreveu e ilustrou com detalhes diversas espécies fósseis da fauna pikermiana. 42 Pikermi é uma cidade localizada na Grécia. Possui um importante sítio paleontoló- gico com mais de quarenta espécies de mamíferos oriundos do Mioceno (8 milhões de anos atrás) encontrados na região. 68 lapso de tempo, as formas da matéria viva sofreram mudanças repeti- das, cujo efeito foi que a população animal e vegetal, em qualquer pe- ríodo da história da Terra, contém certas espécies que não existiam em algum período antecedente e outros que deixaram de existir em algum período subsequente. A terceira é que, no caso de muitos grupos de mamíferos e alguns de répteis, em que um tipo pode ser seguido por uma extensão considerável do tempo geológico, a série de diferentes formas pelas quais o tipo é representado, em intervalos sucessivos deste o tempo é exatamente como seria se tivessem sido produzidos pela modificação gradual das formas mais antigas da série. Esses são fatos da história da terra garantidos por evidências tão boas quanto quaisquer fatos da história civil. Até agora, mantive [de modo] cuidadosamente claro todas as hipó- teses às quais os homens, em várias ocasiões, se esforçaram para ajustar aos fatos da paleontologia, ou [44] pelas quais eles se esforçaram para conectar tantos desses fatos com outros que lhes eram familiares. Não creio que seja um emprego lucrativo de nosso tempo discutir concep- ções que, sem dúvida, tiveram sua justificativa e até mesmo seu uso, mas que agora são obviamente incompatíveis com as verdades com- provadas da paleontologia. No momento, essas verdades deixam es- paço para apenas duas hipóteses. A primeira é que, ao longo da história da Terra, inúmeras espécies de animais e plantas passaram a existir, independentemente umas das outras, inúmeras vezes. Isso, é claro, ou implica em uma geração espontânea em uma magnânima escala, e de animais como cavalos e elefantes, tem ocorrido, como um processo natural, durante todo o tempo registrado pelas rochas fossilíferas; ou necessita da crença em inúmeros atos de criação repetidos inúmeras vezes. A outra hipótese é que as espécies sucessivas de animais e plan- tas surgiram, as últimas pela modificação gradual da anteriores. Esta é a hipótese da evolução; e as descobertas paleontológicas da última dé- cada estão tão completamente de acordo com as exigências dessa hi- pótese que, se ela não existisse, o paleontólogo teria de inventá-la. Sempre tive um certo horror de ousar limitar as possibilidades das coisas. Portanto, não me aventurarei a dizer que é impossível que as numerosas espécies de animais [45] e plantas possam ter sido produzi- das, separadamente, por geração espontânea; nem que seja impossível que elas tenham sido originadas independentemente por uma sucessão Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 47-71, 2022. 69 infinita de atos criativos milagrosos. Mas devo confessar que ambas as hipóteses me parecem tão incrivelmente improváveis, tão desprovidas de qualquer respaldo científico ou tradicional, que mesmo se não hou- vesse outra evidência em seu favor, além da paleontologia, eu deveria me sentir compelido a adotar a hipótese de evolução. Felizmente, o futuro da paleontologia independe de todas as considerações hipotéti- cas. Daqui a cinquenta anos, quem se comprometer a registrar o pro- gresso da paleontologia notará o tempo presente como a época em que a lei da sucessão das formas dos animais superiores foi determinada pela observação dos fatos paleontológicos. Ele apontará que, assim como Steno e Cuvier foram capacitados, a partir de seu conhecimento das leis empíricas da coexistência das partes dos animais, para concluir a partir de uma parte para um todo, também o conhecimento da lei de sucessão das formas empoderou seus sucessores para concluir, de um ou dois termos de tal sucessão, para toda a série; e, assim, adivinhar a existência de formas de vida, das quais, talvez, nenhum vestígio perma- neça, em épocas de distanciamento inconcebível no passado. AGRADECIMENTOS O autor agradece o apoio da FAPESP (Processo 18/21094-7) e tam- bém à Tatiane Barbosa Martins pelas contribuições na elaboração deste trabalho. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CHALMERS MITCHELL, Peter. Thomas Henry Huxley: a sketch of his life and work. New York: G.P. Putnam’s Sons, 1900. DESMOND, Adrian. Huxley, Thomas Henry. Pp. 429-434, in: KOERTGE, Noretta (ed). New dictionary of scientific biography. Vol. 3, Detroit: Charles Scribner’s Sons, 2008. DI GREGORIO, Mario A. 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O objetivo deste artigo é discutir sobre a visão de Agassiz em relação às espécies no período compreendido entre 1857 e 1874, procurando detectar se houve mudanças. Esta pesquisa levou à conclusão de que no perí- odo considerado, Agassiz manteve sua posição fixista e criacionista e fez as mesmas críticas à proposta de Darwin. Estas diziam respeito principalmente à seleção natural, concepção de espécie e falta de evidências do gradualismo. Assim, não houve mudanças em sua posição. Palavras-chave: História da evolução. Louis R. Agassiz. Charles Darwin; Se- leção natural. Species from Louis Agassiz’s perspective: 1857-1874 Abstract: The Swiss zoologist Jean Louis Rodolphe Agassiz (1807-1873) harshly criticized Charles Darwin’s proposal shortly after the publication of the Origin of species (1859). This paper aims to discuss Agassiz’s view of species between 1857 and 1874, trying to detect any change. This research concluded that Agassiz maintained his fixist and creationist position in the period con- sidered and made the same criticisms of Darwin’s proposal. His critics were concerned mainly with natural selection, the species conception, and the lack of evidence for gradualism. So, there were no changes in his position. Keywords: History of evolution. Louis R. Agassiz. Charles R. Darwin; Na- tural selection. * Laboratório de História e Teoria da Biologia (LHTB/USP). Email: pedrita- donda@gmail.com mailto:pedritadonda@gmail.com mailto:pedritadonda@gmail.com 74 1 INTRODUÇÃO Desde sua infância Jean Louis Rodolphe Agassiz (1807-1873), mais conhecido como Louis Agassiz, se interessou por animais, especial- mente peixes. Porém sua educação formal teve início em 1817, quando ele tinha dez anos, e foi concluída em 1832, aos vinte e cinco (Corman, 1973, p. 182). Estudou em Lausanne, Zurich, Heidelberg e München. Em sua primeira publicação, Agassiz descreveu peixes brasileiros que tinham sido levados para a Europa por dois naturalistas viajantes, Karl Friedrich Phillip von Martius (1794-1868) e Johann Baptist von Spix (1781-1826). Em Paris estudou com Cuvier e Alexander von Humboldt (1769- 1859). Aos vinte e cinco anos, quando já havia se graduado em Medi- cina e em Filosofia, identificou 500 espécies e 50 gêneros de peixes extintos e publicou um trabalho sobre peixes fósseis que, além do texto, apresentava desenhos (Kucera, 1930, p. 49). Entre 1833 e 1843 descreveu em detalhes mais de 1700 espécies de peixes fósseis, identi- ficando sua localização estratigráfica e suas relações taxonômicas (Lu- rie, 1959, p. 80). Com Lorenz Oken (1779-1851), Agassiz estudou os princípios da classificação. Sob a orientação de Friedrich Wilhelm Joseph Schelling (1775-1854), suas concepções religiosas tornaram-se menos dogmáti- cas. Porém, ele manteve a crença em Deus, e a convicção de que a diversidade de formas de animais poderia ser explicada como produto do pensamento divino (Warren, 1934, p. 385). Posteriormente viajou a Paris, considerada o centro da pesquisa biológica. Lá teve a oportuni- dade de estudar com Cuvier, já reconhecido nos círculos governamen- tais e respeitado como zoólogo (Romer, 1949, p. 48). Cuvier contribuiu com o material que havia coletado (peixes fósseis) para uma monogra- fia de Agassiz que posteriormente foi incorporada em sua obra Recher- ches sur les poissons fossiles (“Investigações sobre os peixes fósseis”) (War- ren, 1934, p. 387). Em 1836, Agassiz estudou as geleiras nos Alpes. Dois anos depois, publicou a obra Études sur les glaciers (“Estudos sobre as geleiras”) Entre 1837 e 1847 propôs uma teoria de glaciação que admitia que vastas áreas da Europa e América inicialmente haviam sido cobertas por uma camada de gelo, da qual as atuais geleiras são remanescentes. As more- Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 73-91, 2022. 75 nas e rochas polidas atualmente encontradas são indícios desse pro- cesso. Desenvolveu também estudos embriológicos e zoológicos em animais marinhos, contribuindo para a zoologia de invertebrados (Lu- rie, 1959, p. 90), tendo sido aluno de Karl Ernst von Baer (1792-1876). De acordo com Peter Bowler, para Agassiz, o significado da pro- gressão dos fósseis de peixes até os mamíferos só seria percebido se essa progressão fosse comparada com o desenvolvimento embrionário (Bowler, 1989, p. 127). Agassiz visitou o Lowell Institute em Boston em 1846 onde ministrou conferências que foram muito bem recebidas. Foi convidado a ocupar a cadeira de História Natural na Lawrence Scientific School, em Cambridge, MA. Esse convite representou o início de sua relação com a Universi- dade de Harvard. Recebeu os prêmios Cuvier e da Legião de Honra, tendo sido convidado para voltar para a França e ocupar um posto de distinção, mas optou por permanecer na América. Participou de várias expedições científicas, como por exemplo,no Lago Superior, nos Es- tados Unidos. Em uma expedição ao Brasil coletou 1442 espécies de peixes. Além de seu trabalho em Harvard, Agassiz fez viagens e investiga- ções. Durante o verão de 1848, com um grupo de estudantes, ele ex- plorou a região do Lago Superior. O relato publicado subsequente- mente da jornada foi uma contribuição importante para a geologia americana. Além disso, Boston lhe ofereceu a oportunidade de estudar zoologia marinha. Ele passou muitos dias navegando na Baía de Mas- sachusetts no Coastal Survey Steamer, “Bibb”, que foi colocado à sua dis- posição (Warren, 1934, p. 392). Em novembro de 1859, Charles Robert Darwin (1809-1882) enviou a Louis Agassiz (1807-1873) um exemplar do Origin of species, apesar de saber que seus pontos de vista eram diferentes. Nessa época, Agassiz era professor de zoologia e geologia na Universidade de Harvard e co- lega de Asa Gray (1810-1888) que lecionava botânica (Donda, 2020, p. 26). O objetivo deste artigo1 é discutir sobre a visão de Agassiz em rela- ção às espécies no período compreendido entre 1857 e 1874, procu- rando detectar se houve mudanças. 1 Este artigo se baseou principalmente na tese de Doutorado da autora (Donda, 2020). 76 Fig. 1. Louis Agassiz Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Jean_Louis_Agas- siz_1870.jpg> 2 AGASSIZ E A ZOOLOGIA Na segunda metade do século XIX se admitia a existência de três reinos na natureza: animal, vegetal e mineral. Por outro lado, a ideia de progresso estava muito presente, inclusive na ciência (Nisbet, 1980) e Agassiz a considerou seriamente em relação aos estudos zoológicos. Ele desejava que os naturalistas norte-americanos ocupassem um papel Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 73-91, 2022. 77 de destaque na área e que suas obras fossem lidas não apenas por es- pecialistas, mas também por pescadores, fazendeiros e estudantes (Donda, 2020, p. 26). Para Agassiz, era muito importante que as espécies fossem descritas e nomeadas de modo correto. Em suas palavras: Com referência ao futuro progresso da Zoologia neste século é dese- jável particularmente [...] que os investigadores não dirijam seus esfor- ços somente a descrever meramente o que é novo, mas é desejável que todas as nossas espécies possam ser descritas e nomeadas correta- mente. Este trabalho está somente nos passos iniciais em direção aos estudos mais profundos e filosóficos. Quanto antes a atenção estiver voltada para o modo de vida dos animais, sua distribuição geográfica, afinidades naturais, estrutura interna, desenvolvimento embrionário e o estudo dos restos fósseis, mais rápido as investigações dos naturalis- tas americanos irão contribuir para o avanço da ciência e eles adquiri- rão uma posição independente entre os homens da ciência (Agassiz, 1857, p. ix) Ao tratar da classificação, Agassiz utilizou espécimes encontradas em diversos museus como o Smithsonian e o Museu da Academia de Ciências Naturais da Filadélfia, dentre outros. Ele estudou os jacarés e as tartarugas (Agassiz, 1857, p. xi). Ele considerava que os estudos embriológicos, como aqueles que desenvolvera em quelônios, eram essenciais para a classificação, pois possibilitavam comparar de modo preciso os diferentes estágios de de- senvolvimento dos animais jovens de qualquer grupo e as característi- cas permanentes dos adultos de outros tipos2 (Agassiz, 1857, pp. 3; 5). Além disso, podiam trazer esclarecimentos sobre as afinidades existen- tes entre os animais. Contudo, os estudos embriológicos levaram-no a crer que o desenvolvimento dos animais não dependia de causas exter- nas. (ibid., 1857, pp. 85-87). 2 Por “tipo” (type), Agassiz entendia as principais divisões do reino animal. Mais tarde, se referiu ao “ramo do reino animal”, porque o termo tipo (type) era empregado em diferentes situações e geralmente, para designar qualquer grupo de qualquer tipo (kind). Como a utilização do termo tipo (type) era muito frequente nos trabalhos de sistemática, zoologia, anatomia comparada, Agassiz acabou optando por utilizar o termo “ramos” (branches) (Donda, 2019, p. 27). 78 Fig. 2. Variedades de quelônios Fonte: Agassiz, Louis. Contributions to the natural history of the United States. Parte II. Boston: Little, Brown and Company. London: Trübner & Co, 1857. Reproduzida em: Donda, 2020, p. 28. Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 73-91, 2022. 79 Fig. 3. O desenvolvimento da tartaruga. Fonte: Agassiz, Louis. Contributions to the natural history of the United States. Parte II. Boston: Little, Brown and Company. London: Trübner & Co, 1857. Reproduzido em: Donda, 2020, p. 32. 80 Em relação às espécies, ele concordava com Carl von Linné (1707- 1778) e George Cuvier (1769-1832)3 que admitiam que elas eram fixas. Agassiz assim se expressou: A questão que estamos examinando agora envolve somente a fixidez ou a mutabilidade das espécies durante uma época, uma era ou um período na história do nosso globo. Não há argumento em favor da mutabilidade. Pelo contrário, mesmo as investigações modernas ape- nas confirmam os resultados obtidos por Cuvier,4 e sua visão de que as espécies são fixas (Agassiz, 1857, p. 53) 3 AS RELAÇÕES ENTRE AS ESPÉCIES E O MEIO Em suas investigações, Agassiz encontrou evidências que indica- vam que os mesmos tipos eram encontrados nas mais variadas circuns- tâncias, o que era um forte argumento contra a hipótese de que os agentes físicos tivessem influência sobre as características dos seres vi- vos (Agassiz, 1857, p. 35). Ele comentou: Não há diferenças estruturais entre os arenques do Ártico, da zona temperada, dos trópicos ou das regiões antárticas. Também não há di- ferenças entre as raposas e lobos que habitam as regiões mais distantes do globo (Agassiz, 1857, pp.16-17) Ele acreditava que as espécies foram introduzidas ao mesmo tempo em diferentes locais do globo terrestre. Além disso, negava que hou- vesse ocorrido migração e dispersão de sementes. Em suas palavras: Os detalhes da distribuição geográfica dos animais, mostram de fato, demasiada discriminação para admitir por um único momento que isso poderia ser o resultado de um acidente, isto é, o resultado de migrações 3 Ele considerava um grande passo no progresso da ciência ter sido assegurado que as espécies tinham características físicas, que não mudavam no decorrer do tempo e que esse aspecto tinha adquirido maior importância após ter sido estabelecido por Cuvier (Agassiz, 1857, p. 51). 4 A partir de seus estudos de anatomia comparada, Cuvier admitiu a existência de qua- tro grupos no reino animal: Vertebrata, Mollusca, Articulata e Radiata. Cada um deles representava os padrões básicos da organização animal e estava subdividido em classes, ordens, gêneros e famílias. O meio podia levar à produção de variedades, mas as espé- cies eram fixas (Bowler, 1989, p. 114). Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 73-91, 2022. 81 acidentais de animais ou a dispersão acidental de sementes de plantas. (Agassiz, 1857, p. 40). Na visão de Agassiz as influências externas, ou causas físicas, não poderiam afetar as principais características dos indivíduos como seu plano de estrutura, por exemplo. Afetariam somente as partes do corpo que estivessem em contato direto com o mundo externo tais como as camadas externas da pele, a cor e espessura do pelo, a cor do cabelo, as penas e escamas (Agassiz, 1857, p. 17). Um crescimento mais rápido ou lento poderia também ser influenciado até certo ponto pelas esta- ções em anos diferentes, do mesmo modo que a fecundidade e a dura- ção da vida. Mas ele considerava que nada disso podia modificar as características essenciais dos animais (Agassiz, 1857, p. 33). Ele comen- tou: Em outras palavras, em todos esses animais e plantas, há um lado de sua organização relacionado diretamente aos elementos [que estão pre- sentes]onde vivem, e outro que não possui essa conexão. É justamente esta parte da estrutura dos animais e das plantas, que não tem relação direta com as condições a que eles estão submetidos na natureza, e que constitui o essencial, seu próprio caráter. Isso prova, acima de qualquer possível objeção, que os elementos que estão presentes no local em que os animais e plantas vivem (eu quero dizer, incluindo tudo o que é comumente chamado de agentes físicos, causas físicas, etc.) não po- dem de modo nenhum serem considerados como causa de sua exis- tência. (Agassiz, 1857, pág. 33) Na citação acima, Agassiz expressou sua discordância em relação às concepções evolutivas de naturalistas, como Jean Baptiste Pierre An- toine de Monet, Chevalier de Lamarck (1744-1829) e Robert Chambers (1802-1871), que ofereciam não apenas uma explicação física para a origem da vida, mas que consideravam que o meio ambiente poderia provocar modificações nos órgãos ou partes do corpo dos seres vivos (Martins, 2008b; Hueda & Martins, 2014). É importante lembrar que para poder entender a complexidade e as interações existentes entre as partes internas que tornavam possíveis as funções vitais, Cuvier priorizava o estudo da estrutura interna de cada animal. Ele atribuía grande importância à correlação entre as partes, isto é, às relações necessárias que deveriam existir entre os órgãos ou 82 partes para que o organismo como um todo se tornasse viável. A so- brevivência, a seu ver, dependia da relação entre as partes do animal e o meio. Somente se o anatomista tivesse conhecimento dos diferentes tipos de animais, poderia antecipar as relações necessárias para criar uma estrutura viável (Bowler, 1989, pp. 112-113). De acordo com Agassiz tinha sido “verificado” que as espécies apresentavam caracteres fixos: A verificação de que as espécies têm caracteres fixos e que não mudam no decorrer do tempo foi um grande passo para o progresso da ciência. Mas esse fato, o qual devemos a Cuvier, tem adquirido grande impor- tância desde que foi estabelecido. Mesmo as mudanças mais extraor- dinárias no modo de existência e nas condições sob as quais os animais se encontram, não têm mais influência sobre seus caracteres essenciais do que os lapsos do tempo. (Agassiz, 1857, p. 51) No trecho acima é possível perceber qual era a concepção de ciência de Agassiz. Ele utilizava vários termos relacionados ao empirismo e positivismo como, por exemplo, “verificar”, que significa avaliar o grau de verdade. Além disso, ele tinha a ideia de que a ciência está sujeita a progresso, conforme comentamos no início da seção 2 deste artigo. Além de defender a fixidez das espécies, Agassiz considerava que elas tinham sido criadas por Criador inteligente e sua classificação per- mitia que os humanos entendessem o pensamento desse Criador (Agassiz, 1857, p. 8). De acordo com Edward Lurie, o esquema de criação era para Agas- siz tão verdadeiro em tempos passados quanto no presente e as quatro divisões (gêneros, famílias, ordens e classes) estiveram presentes nas formações geológicas iniciais (Lurie, 1959, p. 94). Agassiz assim se expressou: Os gêneros é verdade, permanecem por longos períodos; famílias, or- dens e classes podem ter até existido durante todos os períodos em que os animais existiram; mas seja qual for a duração de sua existência, essas divisões sempre tiveram a mesma relação umas com as outras e com seus respectivos ramos. Sempre foram representadas no nosso globo da mesma maneira, por uma sucessão de indivíduos sempre re- novados e de curta duração. (Agassiz, 1857, p. 22) Ele negava que houvesse agentes ou leis que fossem responsáveis pela origem dos organismos. Ele assim se expressou: Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 73-91, 2022. 83 Não existem agentes nem leis na natureza que sejam conhecidos pelos físicos, cuja influência e ação, possam ter originado esses seres. Pelo contrário, a verdadeira natureza desses seres e as relações entre eles e com o mundo em que vivem pode ser inferida apenas pela ação ime- diata de um Ser pensante [...] e a maneira pela qual eles se originaram permanece um mistério até o presente. (Agassiz, 1857, pp. 13-14) No trecho acima reproduzido, está implícita a discordância de Agassiz com Lamarck e Chambers ou mais tarde Darwin, que admi- tiam a existência de leis naturais. Agassiz considerava a intervenção direta do Criador na natureza. Assim, ao contrário de Erasmus Darwin ou Lamarck (Martins, 2007 a; Martins, 2007b; Donda, 2015) não era deísta, mas teísta, criacionista. Nas palavras de Agassiz: “Todos esses seres não existem em conse- quência da ação contínua de causas físicas, mas seu aparecimento su- cessivo se deu devido à intervenção imediata do Criador” (Agassiz, 1857, p. 135). Como “prova” disso, ele apresentou o argumento que se segue: Os produtos do que comumente se chama de causas físicas são os mesmos em todos os lugares, (sobre toda a superfície do globo terres- tre) e sempre foram os mesmos (durante todos os períodos geológi- cos); enquanto os seres organizados são diferentes em todos os lugares e em todas as eras. Entre essas duas séries de fenômenos não pode haver uma conexão causal ou genética. (Agassiz, 1857, p. 135) Conforme Peter Bowler, o homem era a meta do plano divino e Agassiz (Bowler, 1992, p. 48). Ao estudar o registro fóssil, Agassiz se deparou com dificuldades em estabelecer relações entre os restos de animais e plantas nas dife- rentes formações geológicas. A paleontologia era uma ciência muito jovem e era necessário muita paciência e trabalho nesses estudos (Agas- siz, 1857, pp. 93; 94). Porém, havia um ponto que não podia ser ques- tionado: a existência em cada grande era de um agrupamento de ani- mais e plantas que diferiam em cada período (Agassiz, 1857, p. 96). A seu ver, isso não poderia ser explicado por causas físicas, mas pela in- tervenção de um Criador (Agassiz, 1857, 106). 84 4 A VISÃO DE AGASSIZ APÓS A PUBLICAÇÃO DO ORIGIN OF SPECIES No ano que se seguiu à publicação da primeira edição do Origin of species foi publicada uma resenha crítica de autoria de Agassiz (1860). Nesta ele enfatizou que as ideias contidas no Origin estavam em com- pleto desacordo com sua visão sobre as espécies: Darwin, em seu recente trabalho sobre a "Origem das Espécies", tam- bém fez muito para abalar a crença na existência real das espécies, mas as visões que ele defende estão totalmente em desacordo com as que procurei estabelecer (Agassiz, 1860, p. 142) Acrescentou que os argumentos apresentados por Darwin não ti- nham sido convincentes e nem fizeram com que ele modificasse a sua visão (Agassiz, 1860, p. 144). Dentre outros aspectos, tanto na resenha como em publicações subsequentes, Agassiz criticou as concepções de Darwin sobre espécie e variedade; a descendência comum, o gradualismo, a seleção natural, bem como a analogia entre seleção natural e seleção artificial. Agassiz atribuiu a Darwin a negação da existência de espécies na natureza: “Se as espécies não existem como sustentam os defensores da teoria da transmutação, como elas podem variar?” (Agassiz, 1860, p. 143). Provavelmente devido às dificuldades apontadas por Darwin e ou- tros naturalistas como Lamarck, por exemplo, em definir espécie e va- riedade, Agassiz e o filósofo da ciência contemporâneo Elliot Sobber interpretaram sua posição como não aceitando objetivamente a exis- tência de espécies. No entanto, Darwin aceitava a existência de espé- cies. Caso contrário, não escreveria uma obra tratando de sua origem (Martins, 2008a, p. 326). Darwin comentou a esse respeito e também em relação às críticas feitas por Agassiz à analogia que ele fazia entre a seleção natural e a seleção artificial fazia (Darwin, 1859, cap. 10) em uma carta dirigida ao botânico norte-americano Asa Gray: Fiquei surpreso por Agassiz não ter conseguido escrever alguma coisa melhor. Que falácia:- “se as espécies não existem, como elas podem variar?” Como se alguém duvidasse de sua existência temporária. Quão friamente ele assume que existe alguma distinção clara entre diferenças Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 73-91, 2022. 85 individuais & variedades. Não é de se espantar que um homem que considera formas idênticas encontradas em dois países diferentes como espécies extintas, não possa perceber a variação na natureza e que não considere razoável supor que variedades selecionadas pelo ho- mem pela sua fantasia se assemelhem a variedades naturais das espé- cies. [...] (Carta de Darwin para Asa Gray, 11/08/1860. Darwin Cor- respondence Project. Letter no. 2896) Agassiz se opôs à ideia de que as espécies atualmente existentes descendessem de um ancestral comum. A seu ver, os ramos do reino animal se relacionavam a diferentes planos de organização, desde o iní- cio (Agassiz, 1860, p. 143). Adicionalmente, o naturalista suíço, com base no registro geoló- gico, negou o gradualismo do processo evolutivo admitido por Dar- win, ou seja, que cada espécie tivesse se originado a partir do acúmulo de pequenas modificações sobre as quais age a seleção natural. Em suas palavras: Se a teoria da transmutação fosse verdadeira, o registro geológico de- veria exibir uma sucessão ininterrupta de tipos se combinando gradu- almente entre si. O fato é que em todos os tempos geológicos cada período é caracterizado por tipos específicos definidos, pertencentes a gêneros definidos, e estes a famílias definidas, referíveis a ordens defi- nidas, constituindo classes definidas e ramificações definidas, constru- ídas sobre planos definidos. Até que se mostre que os fatos da natureza foram confundidos por aqueles que os coletaram, e que eles têm um significado diferente do que geralmente lhes é atribuído, considerarei a teoria da transmutação como um erro científico, falso em seus fatos, não científico em seu método e travesso em sua tendência. (Agassiz, 1860, p. 154) Percebemos algumas interpretações equivocadas da proposta de Darwin na resenha de Agassiz tais como, relacionar o surgimento das primeiras espécies à geração espontânea (Agassiz, 1860, p.149). Parece que ele não tinha conhecimento de que Darwin não tratou da origem dos primeiros seres vivos e não fez qualquer menção à geração espon- tânea no Origin of species. Agassiz também se confundiu em relação as visões de Benoît de Maillet em Telliamed, uma obra de ficção (Martins, 2001) com as pro- postas de Chambers, Lamarck e Darwin. Além disso, atribuiu a Darwin a ideia de que as plantas e animais deveriam necessariamente sofrer 86 uma melhoria em consequência da luta pela vida que leva a preservação dos mais aptos. Em nenhum momento Darwin mencionou que a sele- ção natural levava ao melhoramento de animais ou plantas em relação à sua complexidade, mas apenas à sobrevivência do mais adaptado, não necessariamente o mais complexo em termos orgânicos. Após a publicação da sexta edição do Origin of species de Darwin (1872), Agassiz (1873) criticou a apropriação do termo “evolução” para se referir à transmutação das espécies. A seu ver, este termo pertencia aos embriologistas e aos zoólogos de um modo geral. Ou seja, o termo deveria ser empregado com a conotação que tinha durante o século XIX, como na época em que viveu Lamarck (Martins, 2007a, p. 13), por exemplo, significando o desenvolvimento do indivíduo desde o ovo até a fase adulta. Em suas palavras: Esses sucessivos estágios de desenvolvimento constituem a evolução como entendida pelos embriologistas, e dentro desses limites todos os naturalistas que conhecem alguma coisa de zoologia podem ser consi- derados evolucionistas (Agassiz, 1874, p 92) Agassiz alertou sobre os perigos da utilização dos termos “evolu- ção” e “evolucionista” do modo que vinha ocorrendo recentemente. Ele acreditava que isso poderia levar ao esquecimento do único pro- cesso do tipo que tinha sido demonstrado: o desenvolvimento dos ani- mais (Agassiz, 1874, p. 92), no sentido embriológico. O naturalista suíço criticou as teorias que proliferavam na época. Embora não tenha deixado explícito, estava se referindo às teorias que envolviam a transmutação das espécies. Ao mesmo tempo, valorizava as contribuições de Cuvier e sua visão sobre os quatro planos de orga- nização que, a seu ver, as outras teorias estavam deixando de lado. Contudo, em um certo momento Agassiz amenizou o tom, apesar de ter se referido à “doutrina” e não à “teoria” de Darwin, como se pode perceber no trecho abaixo reproduzido: Mas Darwin colocou o assunto sob diferentes bases em relação a seus antecessores e trouxe para discussão uma grande quantidade de infor- mações bem organizadas, argumentos convincentes, e uma apresenta- ção com charme cativante. Sua doutrina tem um forte apelo ao mundo científico porque ela não se apoiou inicialmente em bases me- tafísicas, mas na observação. Certamente deveria ser dito que ele tratou o assunto de acordo com os melhores métodos científicos se ele não Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 73-91, 2022. 87 tivesse ultrapassado, com frequência, os limites do verdadeiro conhe- cimento e permitido que a imaginação fornecesse ligações que a ciência não fornece. (Agassiz, 1874, p. 94, ênfase nossa) Como é sabido, Darwin atribuía grande importância à herança das modificações leves a que estavam sujeitas as espécies ao longo do tempo, ou em tempo mais curto, pela seleção artificial. Assim, para Darwin, não era possível haver evolução sem que essas modificações fossem herdadas. Também é conhecido que Darwin aceitava a herança de caracteres adquiridos pelo uso e desuso ou mesmo, em alguns casos, a herança direta de mutilações. Em relação à herança de um modo ge- ral, e particularmente, à herança de caracteres adquiridos, Agassiz assim se expressou: Ninguém pode negar que a herança é um fator poderoso para a manu- tenção das raças e o melhoramento de espécies e variedades. Mas nunca se soube que qualidades adquiridas, mesmo se mantidas através de sucessivas gerações, levassem à produção de novas espécies. O es- tilo atrativo de Darwin é ainda mais sedutor ao se referir a esse assunto. Suas frases concisas e de efeito têm o peso de aforismos e se passam correntemente por princípios quando são apenas asserções infunda- das. O mesmo se aplica à sobrevivência do mais apto (Agassiz, 1874, p. 98). Ao finalizar, Agassiz se referiu à relutância dos darwinistas em re- conhecer a existência de um poder intelectual que interferia na diversi- dade encontrada na natureza: E se fosse verdade? Os que se opõe aos atos repetidos de criação sem- pre consideram que nenhum progresso pode ocorrer no conheci- mento sem repetidos atos de pensamento? E o que são pensamentos, senão atos específicos da mente? Por que, então, seria não-científico inferir que os fatos da natureza são o resultado de um processo seme- lhante, já que não existem evidências de outra causa? O mundo surgiu de uma maneira ou de outra. Como se originou é a grande questão, e a teoria de Darwin, como todas as outras tentativas para explicar a ori- gem da vida, é até agora apenas conjectural. Creio que ele nem sequer fez a melhor conjectura possível no estado atual do nosso conheci- mento (Agassiz, 1874, p. 101). 88 Nessa passagem, Agassiz cometeu um equívoco, pois Darwin em suas obras, incluindo o Origin of species, não tratou da origem da vida. 5 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Esta pesquisa mostrou que antes da publicação do Origin of species, Agassiz era fixista. Além disso, era criacionista, pois atribuía a criação das espécies ao mesmo tempo em diferentes locais do globo a um Cri- ador inteligente. Portanto, não aceitava que a origem dos seres vivos tivesse ocorrido a partir da ação de forças físicas ou leis naturais. Adi- cionalmente, a ação do meio sobre as espécies tinha um caráter secun- dário. As evidências encontradasem seus estudos embriológicos e pa- leontológicos e os estudos anatômicos de Cuvier contribuíram para o seu posicionamento em relação as espécies. Ele foi um embriologista e empregava o termo “evolução” no sen- tido que era adotado até então pelos naturalistas, especialmente aqueles que se dedicavam à embriologia, como sendo o que entendemos atual- mente por ontogênese. Considerando o que foi mencionado no primeiro parágrafo desta seção, era de se esperar que Agassiz tivesse restrições à proposta de Darwin e isso de fato ocorreu. Suas críticas à proposta de Darwin di- ziam respeito principalmente à seleção natural, à concepção de espécie, à falta de evidências do gradualismo no registro geológico e à apropri- ação do termo “evolução”. Ele não concordou com a analogia feita por Darwin entre o trabalho do criador de animais e plantas (seleção artifi- cial) e o trabalho da seleção natural na natureza. Ele criticou também outros elementos importantes da teoria de Darwin como por exemplo, a luta pela existência, a sobrevivência do mais apto ou a seleção natural. Também não aceitava um dos meios de modificação das espécies pro- postos por Darwin: a herança e caracteres adquiridos Em muitos momentos Agassiz considerou a proposta de Darwin como uma conjectura, comparando-a às propostas de representantes da Naturphilosophie, consideradas especulativas na época em que preva- leciam as concepções empiristas. Chegou mesmo a comparar a ideia de Darwin à visão apresentada em uma obra de ficção publicada de forma anônima, o Telliamed, mais tarde atribuída a Benoît de Maillet, que foi cônsul francês no Egito. Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 73-91, 2022. 89 Podemos afirmar que no período estudado, não houve mudanças na posição de Agassiz em relação às espécies. Ele continuou sendo fi- xista e criacionista. Mesmo o longo argumento de Darwin presente no Origin (Regner, 1995, Cap. 7, pp. 310-314) não o convenceu da trans- mutação das espécies. AGRADECIMENTOS Agradeço à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pelo apoio recebido que viabilizou a realização desta pesquisa. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGASSIZ, Louis. An essay on classification. Contribution to the natural history of the United States. 4 vols. London: Brown, Green, Longmans & Roberts and Trübner & Co., 1857. AGASSIZ, Louis. Review of Origin of species. American Journal of Science, 30: 154, 1860. AGASSIZ, Louis. Evolution and the permanence of the type. Atlantic Monthly, 33: 92- 101, 1874. BOWLER, Peter. Evolution. The history of an idea. Revised edition. Berke- ley: University of California Press, 1989. BOWLER, Peter. Evolution. The history of an idea. Revised edition 1989. Berkeley: University of California Press, 1992. DONDA, Pedrita Fernanda. Erasmus Darwin e os seres vivos: concepções de ‘evolução’ e herança. Dissertação. (Mestrado em Ciências). Ribeirão Preto, 2015. 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Tendo isso em mente, buscamos neste trabalho, mapear a produção da revista Filosofia e História da Biologia, dedicada à história, filosofia da biologia e suas interfaces. Nesse sentido, analisamos um total de 262 artigos publicados no período entre 2006 e 2020, que correspondem a todas as publicações presentes na revista até a finalização desta pesquisa. Como resultado, encontramos: a) estudos que abordam a construção de conceitos específicos da Biologia; b) o desenvolvi- mento histórico e filosófico das subáreas da Biologia como, por exemplo, Evolução e Genética; c) a contribuição de autores específicos para estas áreas; d) e além dos artigos que tratam particularmente do ensino de biologia. Con- cluímos que, apesar de a maior parte das pesquisas não possuir como tema principal a educação, elas podem fornecer subsídios teóricos tal como diversas estratégias para a prática docente, como contextualizar a ciência biológica, aproximá-la dos estudantes e desenvolver um ensino de biologia menos frag- mentado.Palavras-chave: História e Filosofia da Biologia. Educação científica. Estudo bibliométrico. * Universidade Federal do Rio Grande. Licenciado em Ciências Biológicas. E-mail: lealpedro30@gmail.com # Universidade Federal do Rio Grande. Instituto de Educação. E-mail: lavini- asch@gmail.com 94 Title Discussions around the History and Philosophy of Biology ap- plied to Biology teaching Abstract: The history and philosophy of biology seek to understand, mainly, how biology emerged, established and developed. Thus, history and philoso- phy studies offer several possibilities for teaching biology, promoting an ap- proach that seeks to contextualize and bring biological science closer to stu- dents. This work tries to map the production of the journal Philosophy and His- tory of Biology, mainly devoted to the history, philosophy of biology and their interfaces. It analyzed 262 articles published between 2006 and 2020, corre- sponding to all publications present in the journal until the end of this period. As a result, we found: a) studies that approach the construction of specific concepts of biology; b) the historical and philosophical development of the subareas of Biology, such as Evolution and Genetics; c) the contribution of specific authors to these areas; d) and beyond the articles that deal mainly with the teaching of biology. Despite most articles do not have Science Education as their primary aim, they offer subsidies for teaching practice, contextualizing biological science, and making it less fragmented and more accessible to the students. Keywords: History and Philosophy of Biology. Science Education. Biblio- metric study. 1 INTRODUÇÃO Atualmente, temos um campo de estudos bem desenvolvido no que se refere à história e filosofia da ciência. As pesquisas nessa área bus- cam, principalmente, investigar de que forma emergiu e se estabeleceu a ciência que encontramos atualmente. A partir disso, pretendemos en- tender quais foram os objetivos e qual o papel da ciência no contexto histórico, em contraste com o seu papel e os seus objetivos na contem- poraneidade. Neste sentido, a história e filosofia da ciência nos ajudam a entender de que forma as Ciências se insere no cotidiano, como gera tecnologia e se relaciona com as atividades humanas (Pessoa Jr., 1996). Com a revolução científica, que se iniciou por meados do século XVII e se estendeu até o fim do século XVIII, a ciência moderna emerge e se estabelece baseada principalmente em seus métodos em- píricos. Nesse período, o que se entendia por conhecimento transfor- mou-se radicalmente, e os pensadores da época foram levados a rever como se considerava a produção do conhecimento. Nesse momento, Filosofia e História da Biologia, v. 17, n.1, p. 93-113, 2022. 95 passou-se a desenvolver a ciência. Tanto as questões epistemológicas quanto as metodológicas, que se desenvolveram na época, contribuí- ram para o processo de formação da Ciência contemporânea que te- mos hoje (Marcondes, 2016). Neste sentido, segundo Ernst Mayr (2005), de acordo com a tese clássica de Kuhn, a ciência progride por meio dessas revoluções cien- tíficas. Isso pela razão de que a partir do momento em que se estabe- leceu a ciência moderna, as revoluções científicas ocorrem de maneira ocasional, e são separadas por longos períodos de “ciência normal”. Cada uma das áreas da ciência, tem seus “paradigmas”, que represen- tam um sistema complexo de crenças, valores, interpretações de mundo e teorias tomadas como aceitas em determinado contexto his- tórico. No curso de uma revolução científica, a Ciência acaba por ado- tar paradigmas inteiramente novos, que irão determinar o período sub- sequente de Ciência normal. (Kuhn, 1975; Mayr, 2005, p.106). A partir disso, reflete-se que os paradigmas se alternam em cada uma das áreas da ciência. Por essa razão, é preciso estudar cada uma das ciências em períodos específicos. Como exemplo disso, há os pa- radigmas que norteiam os estudos biológicos. Nessa perspectiva, ainda de acordo com Mayr (2005, p.106), os es- tudos de Kuhn, podem auxiliar a reconhecer os paradigmas referentes a cada um dos períodos e a cada uma das subáreas. E, além disso, eles serão uma das formas de investigar as mudanças na maneira de se pro- duzir o conhecimento. Cabe ressaltar que os estudos de Kuhn não fo- ram os únicos que tentaram entender a estrutura de funcionamento da ciência. Sendo assim, eles nos apresentam algumas alternativas para tentar entender a forma pela qual o conhecimento ou a ciência, de uma forma geral, chegaram ao ponto que se encontra hoje. Por consequência, esses estudos dentro da história e filosofia da ciência também exerceram influência no que se refere ao ensino. As- sim, quando se pretende formar um professor de ciências ciente da construção do conhecimento que ensinamos hoje em sala de aula, é importante contextualizá-lo a partir da história e filosofia da ciência. De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) para o Ensino Médio, é nesta etapa da escolaridade em que se procura de- senvolver uma maior criticidade dos estudantes, por isso, a história e filosofia da ciência podem contribuir para o entendimento de que o 96 contexto político, econômico e social influencia “a formulação, o su- cesso ou o fracasso das diferentes teorias científicas” (Brasil, 1999). Além disso, os PCNs ainda mencionam a importância dessa temática para a formação docente, visto que: Estudos na História e Filosofia das Ciências são um desafio para o professor, uma vez que raramente sua formação inicial contemplou estes campos de conhecimentos dedicados à natureza da Ciência” (Brasil, 1998). Para Mayr (2005), a biologia é uma ciência bona finde, ou seja, ela possui características das áreas do conhecimento reconhecidas como “ciência”, por isso, é justo que se tente desenvolver um ramo da filo- sofia da ciência dedicado à biologia (Mayr, 2005). Nesta perspectiva, uma das principais discussões que encontramos na área da História e Filosofia da Biologia refere-se à autonomia da Biologia em relação às demais Ciências (Mayr, 2005). A incorporação da história e da filosofia tanto no ensino de ciências quanto na formação de professores, potencializa principalmente uma abordagem que busca o contexto em que o conhecimento científico está ou esteve inserido (Matthews, 1995). Dentre essas pesquisas, também encontramos estudos em história e filosofia da biologia que buscam, por exemplo, analisar a contribuição de determinados autores para a área que se deseja analisar. Dentre es- ses, estão incluídos os estudos que analisam os impactos dos trabalhos de Darwin nos estudos sobre evolução, ou dos trabalhos de Mendel sobre os estudos de genética, ambos autores considerados representa- tivos em suas áreas. Para além desses, temos aqueles trabalhos que buscam investigar autores que não tiveram tanto reconhecimento ao longo da história, ou que acabaram por serem, de certa forma, "esquecidos", como por exemplo, Rosalind Franklin no episódio envolvendo a estrutura do DNA. Diversos trabalhos em História e Filosofia da Biologia buscam in- vestigar essas pesquisas que não alcançaram tanto reconhecimento ou até mesmo os motivos desse “esquecimento”. Outros estudos buscam a história e a filosofia envolvida no desen- volvimento de conceitos específicos. Dentro da área da Biologia, en- contramos discussões sobre os conceitos de “vida” ou de “função” por exemplo, que tiveram seu entendimento alterado diversas vezes ao Filosofia e História da Biologia, v. 17, n.1, p. 93-113, 2022. 97 longo do tempo. Dependendo do contexto histórico, social ou cultural, a forma com que se entendem esses e outros conceitos pode ser alte- rada. Por isso, os trabalhos buscam compreender os diferentes olhares para conceitos que hoje para nós, parecem ser fixos e já bem delimita- dos. Destacamos que a incorporação da história e filosofia da biologia noensino, em nenhum momento, busca substituir os conteúdos bio- lógicos por conteúdos puramente históricos ou filosóficos. Apesar des- tes terem também a sua importância, a utilização da história e filosofia da biologia contribuem para que os conteúdos relacionados à biologia sejam abordados de uma outra forma, dando-lhes mais contexto e sig- nificado para os estudantes. Ao entender essa circunstância, os estudantes conseguem compre- ender como a biologia se alterou através do tempo e como ela foi afe- tada pelo contexto social, cultural, econômico etc. É importante desta- car que com inclusão da história e filosofia da biologia no ensino de biologia, não se pretende que os alunos sejam capazes de resolver as controvérsias entre o “evolucionismo” e o “fixismo” ou submetê-los a um ensino mecânico, em que eles sejam capazes de “recitar n razões pelas quais as conclusões de Darwin alteraram os paradigmas da biolo- gia”. Pelo contrário, espera-se que eles entendam as questões que estão em jogo. Não que apenas decorem os resultados finais ou os estudos que “deram certo”. Esperamos que eles considerem o fato de que há perguntas a serem feitas e, que comecem a refletir não somente sobre as respostas, mas sobre quais respostas foram tomadas como válidas e que tipo de evidências poderiam sustentar essas respostas no contexto em que os estudos estão inseridos (Matthews, 1995). É importante também destacar que quando se pretende trabalhar com a história e filosofia da ciência em sala de aula, não se pode sim- plesmente apresentar uma “história dos resultados” ou a “história dos vencedores”. Por esse viés, estaríamos passando para os nossos estu- dantes a ideia de que a Ciência já está pronta e que não há como mo- dificá-la, ou de que os estudos científicos sempre irão chegar ao lugar certo, sempre irão descobrir alguma coisa. Ao inserir a história e filosofia da biologia em nosso trabalho peda- gógico, pretendemos trabalhar a biologia para além desse entendi- mento. Pretendemos mostrar como a ciência se processa, como ela 98 chegou ao patamar de hoje. As conclusões e teorias que estudamos em aula, não tornam a ciência algo já terminado. Assim como se chegaram às conclusões que forneceram subsídios para a elaboração das teorias que estudamos hoje, e que são válidas atualmente, podemos chegar a outras conclusões capazes de alterar o nosso entendimento sobre de- terminadas áreas. Fora isso, apesar da biologia possuir certas características únicas, que não são encontradas em outras ciências, ela também possui as ca- racterísticas que compartilha com as demais áreas. Por isso acreditamos que as potencialidades que a história e filosofia da ciência proporcio- nam para o ensino de ciências, a história e filosofia da biologia podem também proporcionar para o ensino de biologia. Muito tem se discutido sobre como o ensino de ciências vem se desenvolvendo afastado da história e filosofia da ciência. Estudos como o de Silva & Delizoicov (2008) enfatizam a necessidade de uma alfabetização científica, de modo a problematizar a ciência, aproximá- la dos interesses da comunidade e dar mais significado e contexto aos conteúdos científicos. Além disso, quando inseridas na graduação, po- dem auxiliar na compreensão da estrutura das ciências bem como do espaço que elas ocupam e seus objetivos, contribuindo à formação de um professor menos técnico e mais crítico (Matthews, 1995; Silva & Delizoicov, 2008). Destacamos aqui que não estamos buscando colocar a história e filosofia da ciência como provendo todas as respostas para as proble- máticas do ensino de ciências. Para Matthews (1995), apesar da história e filosofia da ciência não serem capazes de oferecer todas as respostas, podem apresentar algumas delas: humanizar as ciências e aproximá-la dos interesses da comunidade, tornar as aulas de ciência mais desafia- doras e reflexivas permitindo o desenvolvimento de um pensamento mais crítico e até mesmo contribuir para a compreensão da estrutura das ciências bem como do espaço que ocupam. Tendo isso em mente, buscamos aqui também trazer essas discus- sões para o campo da biologia. Um ensino de Biologia pautado apenas nos resultados ou conceitos finais pode acabar, ao nosso olhar, tor- nando-o fragmentado, com conceitos desconexos dificultando o aprendizado dos estudantes, justamente, pois acaba por deixar de lado Filosofia e História da Biologia, v. 17, n.1, p. 93-113, 2022. 99 o contexto em que esses resultados estão inseridos, tal como, o signi- ficado daquelas conclusões para a sociedade. O ensino de forma me- cânica e não histórico da matéria, pode fazer com que os alunos entrem no “mar de falta de significação” que se diz ter inundado as salas de aula de Ciências (Matthews, 1995), em que conceitos biológicos são trabalhados de forma fragmentada e descontextualizada. Por isso, acre- ditamos que a história e filosofia da biologia possam oferecer alterna- tivas ao ensino tradicional, pautado na transmissão, reprodução de in- formações e conceitos, promovendo um ensino menos fragmentado juntamente com uma visão integrada e contextualizada dos processos que constituem a biologia. Assim, com este trabalho visamos investigar as produções que vêm sendo feitas no Brasil relacionadas à história e filosofia da biologia com enfoque no ensino de biologia. Para tal, iremos recuperar na bibliogra- fia quais os aspectos vêm sendo destacados nesta área, buscando prin- cipalmente as possibilidades que esta pode trazer para o ensino de bi- ologia. A partir da análise dos artigos publicados no periódico Filosofia e História da Biologia, tentaremos buscar alternativas para levar para den- tro da sala de aula. 2 MATERIAIS E MÉTODOS Para este trabalho, realizamos uma pesquisa que busca compreen- der certa parte do atual estado do conhecimento e das produções rela- cionadas à história e filosofia da biologia no Brasil. Segundo Norma Sandra de Almeida Ferreira (2002), as pesquisas em “estado da arte” ou “estado do conhecimento” consistem em uma revisão da literatura visando mapear e discutir “uma certa produção acadêmica em diferen- tes campos do conhecimento, tentando responder que aspectos e di- mensões vêm sendo destacados e privilegiados em diferentes épocas e lugares” (Ferreira, 2002, p.258). A pesquisa tem também um enfoque bibliométrico. A metodologia envolve principalmente, métodos estatísticos e matemáticos para ma- pear a produção científica de forma quantitativa. Ela permite que o pesquisador quantifique os trabalhos que estão sendo desenvolvidos em determinada área. Este mapeamento das produções pode direcio- nar para novos caminhos, investimentos e produções da área científica. Assim como nos permitir ter uma visão geral da produção científica e 100 acadêmica; do mesmo modo que analisar o conhecimento do que já foi produzido sobre determinado tema. Dessa forma, realizamos um levantamento das produções no campo da história e filosofia da biologia no portal de periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e no portal SciELO, visando um panorama das produções na área. A partir das nossas buscas, encontramos a revista Filosofia e História da Biologia, uma das revistas que faz parte do portal de revistas da USP e que possui como tema central a história e filosofia da biolo- gia. Nas pesquisas no portal da CAPES e no portal SciELO, encontra- mos, somando os resultados dos dois portais, um total de 28 artigos, utilizando como palavra-chave “história e filosofia da biologia”. Já na revista, encontramos um total de 262 artigos publicados em 27 edições, sendo que desses artigos 208 estavam em português. Desde 2006, o periódico Filosofia e História da Biologia publica artigos resultantes de pesquisas originais referentes a filosofia e/ou história da Biologia e temas correlatos, apresentando um expressivo acervo. Sendo assim, neste trabalho, mapeamos a produção acadêmica da revista referenteao período de 2006 a 2020. A partir desse mapea- mento, buscamos também analisar os artigos publicados na mesma, destacando as relações e possibilidades que estes trabalhos possam tra- zer para o ensino de biologia. A análise foi feita tanto de forma quantitativa, quanto qualitativa. Quantitativamente, conseguimos ter um panorama da quantidade de produções que temos na área concentradas na revista. Já o olhar quali- tativo, nos permitiu observar quais abordagens e aspectos vêm sendo mais trabalhados em história e filosofia da biologia. Essa análise foi feita a partir de três elementos dos artigos: pela leitura dos títulos, dos resumos e das palavras-chave dos trabalhos. Dessa forma, num pri- meiro momento, dividimos os artigos quanto aos temas trabalhados. Isto é, ao analisarmos os trabalhos, não tínhamos categorias a priori, e os agrupamos a partir de nossa leitura inicial. Ancoramos nossa justificativa nas orientações da Associação Brasi- leira de Normas Técnicas (ABNT), na qual a construção dos títulos deve se dar com o uso de palavras, expressões ou frases que sejam condizentes com o assunto ou o conteúdo do trabalho (ABNT, 2002). Filosofia e História da Biologia, v. 17, n.1, p. 93-113, 2022. 101 Os resumos e palavras-chave, por sua vez, nos permitem uma noção inicial sobre o conteúdo das produções com a identificação de temáti- cas, problemáticas, nível de escolarização privilegiado nos estudos aca- dêmicos, modalidades de pesquisa etc. Observamos que essa orientação da ABNT, por vezes, não era se- guida nos artigos, uma vez que a revista tem normas próprias. Assim, com essa primeira leitura, os separamos em temáticas representadas ora pelos elementos já citados, ora por palavras que correspondiam ao que o artigo em questão discutia. Por vezes, essas palavras coincidiam com as palavras-chave já elencadas pelos autores e, em outras ocasiões, nós inferimos a temática de acordo com o que era abordado no re- sumo. Como forma de exemplificar essa primeira organização por temá- tica, citamos o artigo intitulado “As concepções iniciais de Thomas Hunt Morgan acerca da evolução e hereditariedade” (Brito e Martins, 2006), que foi categorizado nas temáticas de “Autor específico” e “Evolução”, já que ele analisa especificamente as ideias iniciais de Tho- mas Hunt Morgan sobre evolução e hereditariedade. Por isso, ele en- trou nas categorias de “Área específica”, devido à área da Evolução e de “Autor específico”, devido à pesquisa em torno do autor Thomas Hunt Morgan. Já o artigo “Aspectos históricos e filosóficos do conceito de vida: contribuições para o ensino de Biologia” (Caldeira et al., 2008), foi clas- sificado na categoria de “Ensino de Biologia” pois ele busca as contri- buições do estudo do conceito de “vida” no Ensino de Biologia. Ele também foi classificado na categoria de “Conceito específico”, pois possui foco, especificamente, no conceito de vida, em que apresenta uma breve revisão histórica do conceito em questão. Dessa maneira, fomos classificando cada um dos artigos publicados na revista quanto aos seus principais temas. 3 RESULTADOS QUANTITATIVOS Abaixo, apresentamos os resultados obtidos após a nossa análise da revista. No total, foram analisadas 27 edições, totalizando 208 artigos. No quadro I, apresentamos os resultados da tabulação dos artigos. Es- tão representados os números de artigos correspondentes a cada uma 102 das categorias. No gráfico I, apresentamos os resultados em porcenta- gens representadas no gráfico, para uma melhor visualização. TABULAÇÃO DOS ARTIGOS POR PALAVRA CHAVE 1 Área específica (Evolução, Genética, Ecologia, Zoologia...) 165 2 Autor específico 128 3 Tema específico (Teologia, eugenia, alimenta- ção...) 42 4 Ensino de Biologia/Formação de professores e pesquisadores 34 5 Conceito específico 18 6 Coleção Científica 15 7 Revisão bibliográfica 5 Quadro I: No quadro estão representados o número de artigos encontrados em cada uma das categorias Gráfico I: No gráfico, representamos as porcentagens correspondentes aos artigos encontrados em cada uma das categorias 41% 32% 10% 8% 4% 4% 1% GRÁFICO DE PORCENTAGENS DAS CATEGORIAS Área específica Autor específico Tema específico Ensino/Formação Conceito específico Filosofia e História da Biologia, v. 17, n.1, p. 93-113, 2022. 103 Pode-se notar que no total, temos um número maior nas categorias do que o número de artigos que foram analisados. Isso aconteceu, pela razão de que alguns artigos receberam mais de uma palavra-chave e foram classificados em mais de uma categoria. A saber: o artigo já ci- tado “As concepções iniciais de Thomas Hunt Morgan acerca da evo- lução e hereditariedade” (Brito & Martins, 2006) entrou nas categorias de “Área específica”, no caso a Evolução e “Autor específico”, no caso Thomas Hunt Morgan. 4 DISCUSSÃO 4.1 Dados quantitativos Em um primeiro momento, numa breve análise quantitativa, pode- mos observar o grande número de artigos classificados na categoria de “Área específica”. Nesta categoria, incluímos os artigos que abordam as temáticas relacionadas às áreas específicas da Biologia, como Evo- lução, Genética, Ecologia, Biologia celular, Biologia Molecular e outras. Em sua maioria, esses trabalhos recuperam contribuições para a histó- ria, a filosofia e o desenvolvimento dessas áreas. Elas já são bem deter- minadas dentro da Biologia, possuindo campos de pesquisa bem deli- mitados, inclusive, contempladas em disciplinas específicas dentro dos cursos de graduação. Por outro lado, temos a categoria “Temas espe- cíficos”, que apesar de terem relação com as ciências biológicas, não possuem tanto peso quanto as áreas que citamos anteriormente. Den- tre esses temas, temos por exemplo, a teologia, a eugenia, a alimentação e o método científico. Também chama a atenção o número de artigos que classificamos na categoria de “Autor específico”. Isso pode ter relação com o fato de que os trabalhos que abordam autores específicos aparecem relaci- onados com diversas áreas da Biologia, mesclando os dados das cate- gorias de “Área específica”, “Conceito específico” ou “Tema especí- fico”. Nisso, temos trabalhos que analisam as contribuições de autores para estudos em evolução, genética, ecologia etc. 4.2 Dados qualitativos Na análise qualitativa do mapeamento, iremos discutir as três pri- meiras categorias que mais apareceram. Por sua vez, em um segundo 104 momento, iremos analisar aqueles artigos que podem trazer contribui- ções para o ensino, ou seja, os artigos que estão nas categorias de “Con- ceito específico”, “Ensino de Biologia/Formação de professores e pes- quisadores” e “Coleção científica”. Estes estudos podem trazer poten- cialidades para o Ensino de Biologia de uma maneira geral, podendo se aplicar ao ensino de Evolução, Genética, Ecologia ou qualquer uma das áreas da Biologia. Ao partir para o primeiro momento da análise, discutiremos sobre as categorias mais frequentes: Área específica, Autor específico e Tema específico. Como dito anteriormente, nestas categorias estão classifica- dos aqueles artigos que buscam contribuir para determinadas áreas ou temas relacionados com a biologia ou que abordam a contribuição do trabalho de um autor em especial para o assunto em questão. Aqui encontramos artigos que analisam capítulos de livros, obras na íntegra ou uma coletânea de artigos publicados em ‘determinada época (fontes primárias), além de fontes secundárias. A título de exemplo citamos: “Charles Darwin, Alfred Russel Wallace e a seleção natural: um estudo comparativo” (Carmo & Martins, 2006), “Vladimir A. Kostitzin, teó- rico, ignorado pelos arquitetos da síntese evolutiva” (Araújo, 2007), “As contribuições de Theodosius Dobzhansky para o desenvolvi- mento da genética no Brasil (1943-1960): um estudo bibliométrico” (Sião, 2007), “A concepção de raça humana em Raimundo Nina Ro- drigues” (Neves, 2008) ou “A longevidadesegundo a concepção de vida de Francis Bacon” (Zaterka, 2010). Contudo, na maior parte dos exemplos dados, é levado em conta o contexto da época, considerando teorias alternativas, outras contribui- ções etc. Assim, não se enquadram na concepção de sujeito fundante de Foucault (1999). Temos também artigos dispostos justamente a trabalhar com as contribuições científicas que foram “esquecidas” ou que não tiveram tanto impacto na época. Como no caso do artigo já citado, Vladimir A. Kostitzin, teórico, ignorado pelos arquitetos da síntese evolutiva” (Ara- újo, 2007) ou “Herbert Huntington Smith: um naturalista injustiçado?” (Fernandes et al., 2011). Os trabalhos que enfocam nessa perspectiva nos ajudam a ter a no- ção de que, diversos nomes que também atuam na elaboração dos es- Filosofia e História da Biologia, v. 17, n.1, p. 93-113, 2022. 105 tudos, teorias ou conceitos, muitas vezes, não recebem o reconheci- mento esperado e acabam por serem encobertos pelos sujeitos fundan- tes. De qualquer forma, a ciência é uma produção humana, então, mesmo nos afastando da perspectiva de sujeito fundante, temos apon- tado alguns nomes que são responsáveis por desenvolver os paradig- mas em questão. Como já destacamos, é evidente que não podemos designar os mé- ritos do trabalho a apenas um dos nomes envolvidos. Seria interessante trabalharmos com os diversos sujeitos envolvidos na temática em ques- tão e, até, se possível, trabalharmos com todos os nomes envolvidos nas elaborações dos estudos, não apenas com um deles, reforçando a concepção de ciência como um trabalho coletivo e não de sujeitos ilu- minados. Neste sentido, entendemos que os artigos vinculados à categoria de “Autor específico” podem fornecer boas alternativas para a inclusão da história e filosofia da biologia nas salas de aula. Eles mostram que a ciência é uma produção humana, uma produção cultural que vem sendo construída dia após dia por diversos sujeitos atuando em con- junto. Alguns personagens receberam, ao longo da história, um reco- nhecimento maior, sendo associados, muitas vezes, ao título de “pai da evolução” no caso de Darwin ou “pai da genética” no caso de Mendel. Nesses casos, os artigos presentes na revista oferecem recursos para que possamos apresentar outros personagens que desenvolveram seus trabalhos igualmente importantes para o desenvolvimento da área, mas que muitas acabam apagados ao longo da história. Além disso, nessa categoria também encontramos os artigos que buscam investigar os contextos históricos ou sociais em que os pesqui- sadores estavam incluídos durante o desenvolvimento de suas contri- buições para a biologia. Esses artigos podem nos ajudar a mostrar para os estudantes, que o papel dos pesquisadores não está associado exclu- sivamente a sua capacidade cognitiva ou racional. O desenvolvimento ou a aceitação dos estudos depende de diversos fatores, tais como re- cursos financeiros, questões culturais das sociedades em que tais estu- dos vêm sendo desenvolvidos e etc. A ciência e os pesquisadores estão incluídos em nossa sociedade e estão suscetíveis a receber influências relacionadas ao contexto em que se encontram. Para isso, citamos como exemplo o artigo “O ensino de 106 genética no nível médio: a importância da contextualização histórica dos experimentos de Mendel para o raciocínio sobre os mecanismos da hereditariedade” (Brandão & Ferreira, 2009), que tem como obje- tivo contextualizar o período histórico e o ambiente acadêmico no qual Mendel desenvolveu e conduziu seus experimentos. A partir dessa discussão sobre a possibilidade de inserção do con- texto na produção científica, partimos para o segundo conjunto de ca- tegorias, que nos indicam contribuição mais direta para o ensino de biologia. São artigos que classificamos na categoria “ensino de biolo- gia”, juntamente com a “formação de professores e pesquisadores” que discutiremos mais adiante. Dentre eles, temos os estudos que analisam livros didáticos ou que analisam ou oferecem propostas metodológicas para a inserção da história e filosofia da biologia, no ensino da matéria. Citamos como exemplo “O modelo de DNA e a Biologia Molecular: inserção histórica para o Ensino de Biologia” (Andrade & Caldeira, 2009), que busca apresentar em um texto para alunos do Ensino Mé- dio, o processo de construção do modelo de DNA, além dos principais trabalhos que contribuíram para que Watson e Crick elaborassem o seu modelo de DNA ou o artigo “Ciência e epistemologia em sala de aula: Uma perspectiva histórica para a teoria de Lamarck” (Cardoso, Forato & Rodrigues, 2019), que tem como objetivo a inserção da história das Ciências na escola durante o desenvolvimento de uma proposta didá- tica relacionada com a evolução biológica segundo a concepção de La- marck. Além destes, também destacamos os trabalhos que adotam uma abordagem integrada do Ensino de Biologia. Dentre as áreas normal- mente escolhidas para formarem um eixo que transcende todos os con- teúdos a serem trabalhados dentro do Ensino de Biologia, temos a Ecologia e a Evolução como no caso de “A evolução como tema cen- tral e unificador no ensino de Biologia: questões históricas e filosófi- cas” (Araújo, 2019), que tem como objetivo apresentar a teoria evolu- tiva como tema unificador para o Ensino de Biologia em oposição ao ensino isolado dos conteúdos biológicos. Aliado a isso, podemos incluir os artigos classificados na categoria de “Conceito específico”. Esses trabalhos irão entender como deter- minados conceitos biológicos se desenvolveram e se modificaram ao longo da história até atingirem o ponto em que se encontram hoje, ou Filosofia e História da Biologia, v. 17, n.1, p. 93-113, 2022. 107 como certos conceitos são entendidos atualmente. Como exemplo disso temos: “Recorrência da ideia de progresso na história do conceito de evolução biológica e nas concepções de professores de Biologia: interfaces entre produção científica e contexto sócio-cultural” (Borto- lozzi, Caldeira & Meglhioratti, 2006) ou “Análise do conceito de fun- ção a partir da interpretação histórica” (Chediak, 2006). Dependendo do contexto em que estão inseridos, os próprios con- ceitos que estudamos hoje, que nos parecem fixos e bem delimitados, nem sempre tiveram o mesmo significado. Assim, esses artigos nos oferecem alternativas para apresentar aos estudantes como o conheci- mento científico é alterado constantemente de acordo com os diferen- tes contextos históricos. É importante destacarmos também que temos como um dos aspec- tos principais da ciência, o seu processo de produção, não apenas os resultados finais. Segundo Machado (2006), os conceitos fazem parte desses resultados dos estudos, importantes para a Ciência, mas eles não resumem todo o trabalho científico. Em trabalhos epistemológicos como o de Canguilhem, que buscam analisar o desenvolvimento da ciência, o privilégio dado ao conceito acaba por constituir uma história do conceito, e não uma história da Ciência (Machado, 2006). Ao levarmos a história e filosofia da biologia para a sala de aula, é importante nos afastarmos dessa concepção histórica que foca princi- palmente nos produtos finais, assim como sugerimos nos afastarmos da ideia dos grandes sujeitos fundantes. Precisamos trabalhar, princi- palmente, com os processos pelos quais os pesquisadores chegaram a tais conclusões, caso estejamos a fim de aproximar a ciência dos nossos estudantes com o objetivo de mostrar como o conhecimento que es- tudamos foi e ainda é produzido. Para além dos conceitos ou autores, temos os estudos que abordam as coleções científicas e museus, enquadrados na categoria “Coleções científicas”, como o artigo “Giovanni Michelotti e sua contribuição às primeiras coleções científicas do Museu Nacional” (Fernandes & Pane, 2007). A partir de um breve resgate histórico, constatamos que a bio- logia se estabeleceu como a ciência que nomeia, descreve e classifica as formasde vida. É ela que se preocupa com a observação, descrição e ordenação das formas de vida, privilegiando o que há de visível na na- tureza (Machado, 2006). Por isso, os gabinetes se enquadram como 108 um componente importante na produção científica da história natural, pois eram lá que se concentravam os espécimes que seriam estudados. Eles se encontram em artigos da revista como em “O primeiro Gabi- nete de História Natural do Brasil (“Casa dos Pássaros”) e a contribui- ção de Francisco Xavier Cardoso Caldeira (Absolon, Figueiredo & Gallo, 2018). Hoje, os antigos Gabinetes de Curiosidade que se estabeleceram principalmente por conta do colecionismo difundido no século XVI, foram substituídos pelos museus de História Natural, que podem for- necer diversas possibilidades para a educação e popularização da Ciên- cia. Através das exposições é possível conhecer conceitos, conteúdos, procedimentos, valores, concepções e políticas científicas. (Marandino, 2009). Além disso, os Museus e os gabinetes demonstram parte dos diferentes entendimentos de Ciência que foram adotados ao longo do tempo. Foi, juntamente com Lineu e o estabelecimento da História Natural, trazendo novos objetivos para os estudos biológicos relacio- nados à classificação e em relação à organização, que a partir do século XVIII, os naturalistas começaram a organizar suas coleções, delimi- tando uma nova forma de pensar a produção dos estudos biológicos (Marandino, 2009). Sendo assim, trabalhando com as concepções atuais de ciência, os museus podem oferecer diversas alternativas para o Ensino de Ciências e para a aproximação da ciência tanto dos estudantes, quanto da soci- edade. Da mesma forma, os artigos encontrados na revista que anali- sam os acervos de museus ou coleções científicas, podem fornecer sub- sídios interessantes para o ensino de biologia: eles possibilitam traba- lhar esse desenvolvimento histórico da biologia, passando pelos gabi- netes e a história natural. Ou também, de acordo com Marandino (2009), as exposições podem configurar-se em ricas estratégias para o desenvolvimento de atividades educativas no ensino de Ciências. Atra- vés delas, conseguimos realizar comparações entre seres e ambientes, estudar comportamentos e relações, além de expor diversas informa- ções sobre o caráter teórico e procedimental das ciências naturais como a coleta e conservação dos exemplares (Marandino, 2009). Por fim, podemos citar os artigos enquadrados na categoria de “En- sino de Biologia/Formação de professores e pesquisadores”, que abor- dam diretamente a formação como os intitulados de “A compreensão Filosofia e História da Biologia, v. 17, n.1, p. 93-113, 2022. 109 de sistemas biológicos a partir de uma abordagem hierárquica: contri- buições para a formação de pesquisadores” (Caldeira et al., 2008) ou “História e filosofia da biologia como ferramenta no Ensino de Evo- lução na formação inicial de professores de Biologia” (Araújo et al., 2010). Dentre eles, estão os artigos que abordam a inserção da história e filosofia da biologia na formação dos profissionais da área da biolo- gia, seja na área da pesquisa ou na área da Educação. Como o foco deste trabalho é o ensino de biologia, será nessa perspectiva que iremos centrar as nossas análises. É importante abordarmos essas perspectivas desde a formação dos professores, se estamos visando a inserção de novas estratégias ou pos- sibilidades para o ensino de biologia, como no caso deste trabalho, cujo foco é a inserção da história e filosofia da biologia. Estudos que bus- cam as concepções dos licenciandos ou dos professores que atuam for- mando futuros professores nos auxiliam nesse ponto como em estudo feito anteriormente pelos autores deste mesmo trabalho (Souza, Silva & Schwantes, 2021). Para promover um ensino de biologia integrado na Educação básica, precisamos começar por um ensino aplicar essas estratégias ainda na graduação, seja contextualizando os conteúdos tra- balhados nas disciplinas da graduação, conectando esses conteúdos com a realidade dos futuros professores, discutindo a relevância de um conhecimento básico sobre filosofia da ciência ou aproximando os es- tudos biológicos da própria sociedade em que vivemos. Por isso, consideramos que discussões como esta, que estamos de- senvolvendo neste estudo, seriam interessantes para ser ampliadas tam- bém nos cursos de licenciatura. É importante formarmos professores cientes dos mecanismos que agem na Ciência que estão transmitindo, em nosso caso específico, ciente do desenvolvimento histórico e filo- sófico da Biologia. Dessa forma, acreditamos que conseguiremos possibilitar um en- sino que busque contextualizar os conceitos e teorias que fazem parte da Biologia, deixando para trás a forma mais fragmentada de ensino que separa a Biologia em áreas que parecem não se conectarem entre si. Conseguimos visualizar o desenvolvimento da Biologia e como cada uma das áreas se originou, como elas se conversam, afinal, todas elas possuem o mesmo objeto de estudo: a vida, tomando a História da Biologia, como eixo central. 110 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Discussões como as que tecemos aqui, por mais que, muitas vezes, pareçam teóricas, servem de base para que consigamos repensar a nossa forma de ensino. Conforme apresentamos, os artigos que foca- lizam em autores ou conceitos, por exemplo, fornecem um referencial teórico riquíssimo para o desenvolvimento de uma aula de Biologia por um viés mais histórico ou filosófico, além das possibilidades apresen- tadas pelos artigos que abordam coleções e museus ou os outros que acabamos por não citar em nossa pesquisa. Destacamos que em ne- nhum momento buscamos ditar a forma correta de se ensinar biologia, muito pelo contrário, estamos apresentando discussões e estratégias que podem acrescentar e expandir o arsenal utilizado nas mais diversas práticas pedagógicas. É evidente que não iremos levar para dentro das salas de aula os artigos na íntegra, não é o tipo de linguagem que normalmente utiliza- ríamos em nossas aulas. Porém, eles são capazes de fornecer referen- ciais e subsídios para o exercício da prática pedagógica principalmente, no que se refere à inclusão da História e Filosofia da Biologia, essencial para nossa formação como professores/as. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6023: Informação e documentação: Referências. Rio de Janeiro, 2002. ABSOLON, Bruno Araujo; FIGUEIREDO, Francisco José; GALLO, Valéria. O primeiro Gabinete de História Natural do Brasil (“Casa dos Pássaros”) e a contribuição de Francisco Xavier Cardoso Cal- deira. 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Após a retomada dos trabalhos de Gregor Mendel (1822-1884) no iní- cio dos anos 1900, nas décadas que se seguiram foi se expandido o escopo da pesquisa biológica para compreender as leis da hereditariedade, inicialmente em vegetais para animais e mais tarde em humanos, não somente relacionada à cor dos olhos, mas também características do comportamento, inteligência e algumas doenças. Este artigo procura contar a história do funcionamento do Cold Spring Harbor Laboratory entre 1890 e 1939, abordando como as pes- quisas eugênicas desenvolvidas por Charles Benedict Davenport (1866-1944) e por Harry Hamilton Laughlin (1880-1943) ganharam centralidade entre 1910 e 1930, tendo sido compreendidas por eles como, genética aplicada aos hu- manos. A pesquisa desenvolvida mostra que, a partir do final dos anos 1920, as ideias eugênicas de Davenport e Laughlin foram desacreditadas por outros cientistas e perderam o financiamento concedido por agências como a Car- negie Institution de Washington. Por fim, caíram no ostracismo após a Segunda Guerra Mundial e a revelação dos crimes cometidos pelos nazistas. Palavras-chave: Eugenia. Genética. Charles B. Davenport. Harry H. Laugh- lin. Cold Spring Harbor Laboratory. Cold Spring Harbor Laboratory and Eugenics Record Office (1890-1939): genetics and eugenics Abstract: During the 20th century, biology consolidated itself as a discipline dedicated to studying living beings’ processes and systems. After the “redis- covery” of Mendel’s work at the beginning of the 1900s, in the following decades, biological research expanded to understand the laws of heredity, * Universidade Estadual de Maringá. Pós-doutoranda no Programa de Pós Graduação em Psicologia. E-mail: pietrasd@gmail.com 116 firstly in plants, animals and after in humans, related to not only eye colour but also behaviour and intelligence, besides some diseases. This article aims to tell the story of a prestigious private research centre, Cold Spring Harbor Laboratory and the Eugenics Record Office between 1890 and 1939. It discusses how the eugenic research led by Charles B. Davenport (1866-1944) and by Harry H. Laughlin (1880-1943) assumed a central role between 1910 and 1930, understood by them as genetics applied to humans. The research shows that after the end of the 1920s, Davenport and Laughlin’s eugenic ideas developed in Eugenics Record Office were put aside by other scientists who believed that their methods and results were unscientific. In addition, their research lost financial support from the Carnegie Institution of Washington. Finally, they met ostracism after the Second World War and the revelation of the crimes committed by the Nazis. Keywords:Eugenics. Genetics. Charles Davenport. Harry H. Laughlin. Cold Spring Harbor Laboratory. 1 UMA HISTORIOGRAFIA EM CONSTRUÇÃO O campo de estudo da história da eugenia no Brasil completou re- centemente três décadas desde o trabalho de Nancy Stepan que jogou a luz inicial sobre a forma como a eugenia se configurou na América Latina, ampliando as possibilidades de pesquisa sobre o tema para além das experiências anglo-saxãs, nórdicas ou germânica. Naquele mo- mento tratava-se de adentrar na “inexplorada área da atividade humana e pressão política e descobrir linguagens esquecidas da ciência” (Stephan, 1991, p. 9). Desde então, mais pesquisas foram desenvolvi- das no Brasil (Marques, 1994; Reis, 1994; Mota, 2003; Boarini, 2003; Diwan, 2003; Habib, 2003; Souza, 2006, 2011; Santos, 2008, dentre outras) ampliando o entendimento sobre o campo e suas manifestações em todo o território nacional. No entanto, entende-se que há uma longa trajetória a ser percorrida em relação à pesquisa que tem sido desenvolvida no exterior. No que tange a historiografia da eugenia em âmbito internacional além dos clássicos trabalhos que abordam a his- tória da biologia e suas conexões com o pensamento eugênico (Gould, 1981; Lewotin et.al, 1984; Kevles, [1985] 1999; Adams, 1990; Paul, 1984) deve-se considerar que o aprofundamento das pesquisas a partir dos anos 2000 propiciaram recortes de pesquisa cada vez mais inter- disciplinares (Kline, 2001; Schoen, 2005; Stern, 2005; Turda, 2010; Bashford, Levine, 2010; Weindling, 2015, 2018; Lombardo, 2019, Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 115-139, 2022. 117 2022) e que revelam similitudes em experiências que aparentemente pareciam distintas, e colocam em questão de um sistema analítico de categorias como “eugenia alemã” ou “eugenia latina”, na qual o traba- lho de Nancy Stepan (1991) pode ser incluído. Ao contrário de simpli- ficar ou generalizar tais experiências históricas, pode-se afirmar que quanto mais pesquisas sobre experiências locais são concluídas, se constrói uma rede de conexões multifacetadas e complexas sobre a forma como os apoiadores da eugenia construíram suas narrativas e responderam as demandas particulares de cada localidade que ultrapas- sam os limites impostos por categorias fixas. Dessa forma, no Brasil propõe-se uma ampliação dos estudos da eugenia notando possíveis semelhanças com experiências como a dos Estados Unidos, cuja in- fluência no Brasil é muitas vezes negada em detrimento de uma suposta radicalização voltada à Alemanha (Wegner, 2011) ou a influência do neolamarckismo no movimento eugênico brasileiro (Souza, 2012, 2016). Desta forma, este artigo pretende elucidar um momento impor- tante da formação da eugenia estadunidense, em particular, a criação do laboratório de Cold Spring Harbor, chamado à época (em 1904) Car- negie Station for Experimental Evolution, e do Eugenics Record Office (1910- 1939). Durante cerca de três décadas as premissas da eugenia, e do es- tudo da hereditariedade foram predominantes nas pesquisas da insti- tuição, tendo se diversificado após 1940, com destaque para a pesquisa na área da genética. O Cold Spring Harbor Laboratory ainda é um laboratório de prestígio, está em funcionamento no mesmo local e, recebe financiamentos pú- blico e privado. Este artigo abordará o período de atuação do Eugenics Record Office1. Nesta pesquisa foram consultados os relatórios anuais e correspon- dência do Cold Spring Harbor Laboratory nos arquivos físicos da institui- ção, a Carnegie Library, desde 2018 parte do The Center for Humanities & History of Modern Biology. Também foram consultados os Davenport Papers e a Eugenics Record Office Collection na American Philosophical Society (Fila- délfia) em 2017. O conteúdo destas coleções já foi pesquisado por ou- tros autores (Carlson, 2001; Kline, 2001; Stern, 2005; Schoen, 2005; Black, 2007; Comfort, 2012; Witikovski, 2016). 1 A trajetória posterior da instituição, principalmente após 1945, foi discutida em Diwan, 2020. 118 A consulta do Harry H. Laughlin Papers na Truman State University foi realizada virtualmente. No Brasil, a bibliografia sobre a história da eu- genia com foco nos Estados Unidos escrita originalmente em língua portuguesa é ainda escassa, com destaque para o minucioso trabalho de Rodrigo Andrade Cruz (2012, 2013, 2016) sobre a controversa ali- ança entre a eugenia e genética, um centro de pesquisa pioneiro, mas de viés eugênico Nas primeiras décadas do século XX, todos os anos, durante o ve- rão, nos meses de junho e julho, estudantes de enfermagem e de ser- viço social da cidade de New York interessados em se aperfeiçoar pro- fissionalmente recebiam treinamento no Eugenics Record Office. Eles aprendiam sobre o preenchimento de formulários com informações biométricas e traços biológicos e genealógicos de famílias americanas.2. Os formulários e os cartões eram guardados num imenso arquivo-co- fre, numa sala climatizada totalmente à prova de fogo. Entre os anos de 1912 e 1924, 750 mil cartões foram preenchidos (Comfort, 2012, p.40). Em 1938, quando o Eugenics Record Office encerrou extraoficial- mente suas atividades, o conjunto possuía cerca de 1,5 milhão de car- tões. O método de coleta de informações de Family traits (Traços de família) foi desenvolvido por Charles Benedict Davenport (1866- 1944), criador e diretor do Eugenics Record Office. A metodologia de tra- balho foi compilada por Davenport (1911). O livro serviu de guia para aqueles que trabalhavam nesse campo, pois trazia as normativas das descrições das diversas variáveis de traços físicos e comportamentais humanos, supostamente herdados. Após coletados, os dados eram ana- lisados pelos estudantes da disciplina Eugenia do laboratório de Cold Spring Harbor sob a perspectiva da genética mendeliana. O entusiasmo pela prática é mostrado na composição do obstetra e geneticista E. Carleton MacDowell (1887-1973) para inspirar o trabalho de campo: Somos eu-gen-istas tão alegres / E não temos tempo para brincar / Sérios nós temos que ser / Trabalhando para a posteridade [...] / Ins- pecionamos com poder e foco, / Os habitats dos loucos. / Estatísticos 2 Para compor o acervo de Biologia experimental humana do Cold Spring Harbor Labo- ratory, parte do Carnegie Institution of Washington, as informações eram registradas de di- versas maneiras: um cartão 7 cm x 12 cm; diversos questionários, e tabelas impressas que deviam ser adequadamente preenchidos em cada residência por onde o/a profis- sional passasse Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 115-139, 2022. 119 também somos nós, / Na casa de Carnegie, / Se, para o futuro, você listar o bem, / Você deve ser um eu-gen-ista. (E. Carleton MacDowell, Witkowski, 2016, p. 39) As origens do laboratório privado com reputação internacional conquistada pelo Cold Spring Harbor Laboratory remontam ao interesse inicial pela pesquisa da vida marinha e animal. Em 1890, foi criado na baía Long Island (New York) um curso de verão com atividades práti- cas, inspirado pelas escolas europeias de zoologia e botânica, para aten- der à demanda do Brooklin Institute of Arts and Sciences. O Biological Labo- ratory (Laboratório Biológico) foi criado para atender estudantes uni- versitários e professores, num programa de oito semanas de imersão em atividades pesquisa no habitat marinho (Witkowski, 2016, p. 4). Sem recursos e de maneira bastante precária operava dentro do casebre da The Fish hatchery (A Incubadora de peixes), mas, com o tempo, o espaço se tornou pequeno, dado o interesse de estudantes e profissio- nais em busca de mais qualificação. Em três anos, o curso já atraía cerca de uma centena de pessoas por temporada, e uma nova sede foi cons- truída do outro lado da rua. Iniciou-se então a criação da pequena “ci- dade de pesquisa” cujos “objetivos da corporação devem incentivar, da maneira mais ampla e liberal, a investigação, a pesquisa e a descoberta, ea aplicação do conhecimento para a melhoria da humanidade” como descreve o documento dos Artigos de Incorporação do Carnegie Insti- tution of Washington durante o registro oficial de doação do Eugenics Re- cord Office (Carnegie, 1918, v. 17, p. 4). Foi pela recomendação do segundo diretor da instituição, o bacte- riologista Herbert Conn (1859-1917), que Charles Benedict Davenport (1866-1944), assumiu inicialmente a direção do programa de verão do Laboratório Biológico. Davenport mudou-se com a esposa, Gertrude Crotty Davenport (1866-1946) para trabalhar e residir dentro das ins- talações de Cold Spring Harbor, e tornou-se o diretor e administrador do Laboratório Biológico e, futuramente, de todo o complexo de labora- tórios. Davenport aposentou-se compulsoriamente do Cold Spring Har- bor Laboratory aos 65 anos, em 1934. Toda a produção de Davenport como pesquisador da Biologia es- teve entrelaçada aos debates para entender a hereditariedade sob o viés da genética e da eugenia. É importante destacar que a biologia evolutiva com foco na herança foi um dos focos predominantes no Cold Spring 120 Harbor Laboratory sob a direção de Davenport, um dos geneticistas mendelianos nos Estados Unidos (Comfort, 2012, p. 38). Cada vez mais dedicado à biologia quantitativa, Davenport desenvolveu suas pesquisas iniciais no Departamento de Zoologia da Universidade de Chicago, e começou a pensar na formação de um outro centro de es- tudos na mesma linha em Long Island. Com a doação de 22 milhões feita pelo comitê administrativo lide- rado pelo magnata do aço Andrew Carnegie (1835-1919), a partir de 1902 formaram-se diversas instituições de pesquisa, dentre as quais o Laboratório de pesquisa biológica em Long Island. A Carnegie Institution of Washington se estabeleceu neste mesmo ano e somente se desvincu- laria do Cold Spring Harbor Laboratory na década de 1960 (Witikowski, 2016, p. 15). Davenport insistiu durante dois anos na criação da Station for Experimental Evolution no mesmo espaço do Biological Laboratory. Ele se ofereceu para dirigir ambas as instituições. Viajou à Londres em 1902 para conhecer Francis Galton (1822-1911) e Karl Pearson (1857- 1936), no Galton Laboratory. Alguns meses depois Galton escreveu para Davenport: Dá-me um grande prazer ouvir que há uma chance de estabelecer uma Estação Experimental na América para o estudo da evolução. A ques- tão de como mostrar a forma pela qual tal Estação será gerenciada para assegurar a abundância de resultados valiosos não é de forma alguma nova para mim. (Carta de Galton para Davenport, APS, 1902) Galton manifestou preocupação e estava consciente das dificulda- des em manter operante, de forma permanente, um centro de pesquisa dedicado aos estudos da genética e eugenia, ressaltando seu alto custo financeiro. Ele sugeriu que essa estação deveria ter um diretor residente e uma “abundância de dinheiro, cérebros, esforço honesto, e muito planejamento preliminar” (Carta de Galton para Davenport, 1902, APS). Galton enfatizou que tinha considerado essa possibilidade anos anteriores, mas foi demovido pelas dificuldades descritas. A correspon- dência acima mencionada sugere os esforços feitos por Davenport em relação ao desenvolvimento da eugenia nos Estados Unidos. Além de aceitar as sugestões de Galton, ele dedicou três décadas construindo parcerias e angariando investimentos privados para o Carnegie Institution, em especial para o Eugenics Record Office. Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 115-139, 2022. 121 2 O INVESTIMENTO PRIVADO NA CIÊNCIA Desde o início, o laboratório de Cold Spring Harbor atraiu muita aten- ção tanto da comunidade científica como da empresarial dos estados de New York e Filadélfia. A generosa doação de Carnegie foi surpre- endente para a época já que a Station for Experimental Evolution recebeu cerca de um milhão de dólares. No discurso de abertura do Station for Experimental Evolution, o botânico holandês, Hugo de Vries (1848-1935) elogiou o estudo da evolução proposto por aquela instituição como sendo uma torre de farol, um novo marco para a área, A Estação para a Evolução Experimental é um farol que ilumina os áridos problemas da origem das espécies. [A origem das espécies] está envolta por uma escuridão cada vez mais densa, pois existe pouco co- nhecimento prévio sobre o assunto. Os cuidados do farol foram en- tregues às mãos do Sr. Davenport e sua equipe, assim como muitos detalhes de seus assuntos internos. Assim, ele não pode falhar em exe- cutar suas missões produzindo os resultados que se espera dele e muito mais. (Carnegie, 1918, v. 17, p. 10-12) A Station for Experimental Evolution cumpriu a função de orientar a pesquisa na área da biologia e hereditariedade junto ao Biological Labo- ratory, ocupando um terreno de 10 acres alugado da Wawepex Society. Naquele local, foi mais tarde construída a sede, o Carnegie Building (atu- almente a Carnegie Library, sede do arquivo histórico do Cold Spring Har- bor Laboratory que veio a ser ocupada por pesquisadores da Universi- dade de Chicago trazidos por Davenport. Davenport teve como foco de investigação: 1. Pesquisas sobre herança e variabilidade de plantas; 2. Pesquisas so- bre herança e variabilidade de insetos; 3. Pesquisas sobre herança e variabilidade de outros invertebrados; 4. Pesquisas sobre vertebrados aquáticos; 5. Estudos sobre herança em animais domésticos; 6. Pesqui- sas sobre as bases citológicas da hereditariedade; 7. Cooperação com outros pesquisadores; 8. Trabalho com departamentos subsidiários; 9. Cuidado e desenvolvimento do centro (Carnegie, 1905, vol.4, p. 88). Davenport agora contava com um laboratório e uma equipe. Sua pesquisa pessoal dirigiu-se à biometria, à análise estatística com base no programa de pesquisa mendeliano. O Station for Experimental Evolu- 122 tion dedicava-se à análise de cruzamentos de aves, gatos, ovelhas, ca- bras, diversos tipos de insetos, ratos, porcos-da-índia e diversas espé- cies de plantas. Davenport e sua esposa Gertrude publicaram juntos em coautoria artigos acadêmicos sobre herança de cor de olhos, tipo de cabelos em humanos (Davenport, G. & Davenport, C., 1909; Da- venport, G. & Davenport, C., 1910). A produção naquele período ini- cial foi tão intensa que a Station for Experimental Evolution mudou de nome para Departament for Experimental Evolution, em 1906. Com a popularidade que as premissas eugênicas adquiriram nos Es- tados Unidos, o Cold Spring Harbor Laboratory, também obteve grande reputação na época que pode ser explicada por, pelo menos, quatro aspectos 1) representava o saber científico, signo da modernidade e do progresso; 2) estabeleceu-se num momento em que migrações e imi- grações se intensificaram no país e seu impacto; 3) procurou explicar a composição do povo norte-americano, usando as teses formadoras do estado-nação baseados na necessidade de ter competitividade inter- nacional, e da relação entre povo e identidade; 4) finalmente a eugenia trouxe credibilidade para a comunidade científica e por esta razão inte- lectuais tanto nos Estados Unidos como na Europa se esforçaram para consolidar a eugenia como campo de pesquisa plausível (English, 2004, p. 3). A ansiedade social causada pelo momento sócio-político fomentou, nos Estados Unidos, uma corrente reformista, conhecida como The Progressive Era, representada pela classe dirigente, de origem anglo-saxã, emergente economicamente e de religião protestante (White Anglo-Sa- xon Protestan). Diante da intensa corrente imigratória e da migração das populações rurais para os centros urbanos - tanto branca a como afro- americana - a necessidade de normatização e controle dos processos sociais (escola, voto feminino, sanitarismo, moralização) tornaram-se preocupação dos reformadores que trabalharam ativamente entre o fi- nal da Guerra Civil Americana (1861-1865) e a Grande Depressão (1929). O pensamento eugênico, elaboradopor Francis Galton, foi um dos meios adotados para ajustar essa sociedade em rápida transforma- ção (English, 2004, p. 14). Desde pelo menos 1866, o Western Health Reform Institute em Battle Creek (Michigan) adotou o puritanismo físico e o melhoramento da raça, defendidos pelo médico nutricionista John Harvey Kellogg (1852- Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 115-139, 2022. 123 1943). Em 1903, a American Breeders Association (Associação Americana de Criadores) defendia o melhoramento de plantas e animais através do uso da genética mendeliana, tendo como presidente Alexander Graham Bell (1847-1922)3 Em 1906, Graham Bell sob recomendação de Davenport criou um Comitê de Eugenia na American Breeders Asso- ciation para pesquisar de que forma ocorre a herança de características em humanos. Foi formada uma organização nacional para pesquisar a eugenia. Subcomitês foram criados para examinar aspectos hereditários específicos nas áreas de criminalidade, pobreza, loucura e inteligência. Bell acreditava que a “raça” poderia ser melhorada, não somente pre- servada (Graham Bell, 1912). Davenport sugeriu a formação de um instituto de eugenia em Cold Spring Harbor. Encontrou na figura da viúva de Edward H. Harriman (1848-1909) Marry Williamson, conhecida como Sra. E. H. Harriman, a patrocinadora ideal. Movida pelo interesse pelo estudo da evolução humana de seu recém-falecido marido, Mary doou em 1910, e durante os oito anos posteriores, o suficiente para comprar uma fazenda de oitenta acres e construir as instalações de um novo centro de pesquisa. Então o Eugenics Record Office foi oficialmente adquirido pela Carnegie Institution de Washington em 1918. Os artigos da corporação apresenta- ram as funções e metas a que o Eugenics Record Office se dedicaria: a) conduzir, doar e auxiliar a investigação em qualquer departamento de ciência, literatura ou arte e, para esse fim, cooperar com governos, universidades, faculdades, escolas técnicas, sociedades instruídas e in- divíduos; b) nomear comitês de especialistas para direcionar linhas es- peciais de pesquisa; [...] f) em geral, realizar e executar todas as coisas necessárias para promover os objetos da instituição, com plenos po- deres, no entanto, aos curadores a seguir designados e seus represen- tantes de tempos em tempos, para modificar as condições e os regula- mentos sob os quais o trabalho será realizado, de modo a garantir a aplicação dos fundos da maneira mais adequada às condições da época, desde que os objetos da corporação estejam sempre entre os anteriores ou semelhantes. (Official Record, 1940, p.5) 3 Inventor, amigo do imperador brasileiro D. Pedro II (1825-1891), e defensor dos princípios eugênicos. 124 O fragmento acima faz parte de um conjunto de documentos reu- nidos no arquivo oficial do Cold Spring Harbor, produzido no ano de 1940. Trata-se de documentos oficiais compilados que atestam as ori- gens da instituição e o processo de aquisição do terreno em que o la- boratório foi construído e formação do Eugenics Record Office, assim como do apoio recebido da Carnegie Institute of Washington. Neste con- junto estão também os documentos que oficializaram a futura dissolu- ção do Eugenics Record Office. De acordo com este documento, o nome do Eugenics Recod Office foi mudado para Genetics Record Office em 1o de julho de 1939, e encerrou suas atividades oficiais seis meses depois, em 1o de janeiro de 1940. A documentação, que está fora deste conjunto de documentos oficiais indica que esta transição não foi tão fluida e organizada. (Official Record, 1940, p.1) 3 O REGISTRO DE FAMÍLIAS PELO EUGENICS RECORD OFFICE Com o estabelecimento do Eugenics Record Office em 1910 nasceu um terceiro departamento dentro do Cold Spring Harbor. Davenport dirigiu os três simultaneamente. Dada a sobrecarga de trabalho, convidou para trabalhar como supervisor do Eugenics Record Office, Harry H. Laughlin (1880-1943), ex-aluno do curso de verão do Biological Laboratory, tam- bém adepto do mendelismo. Com a atuação de ambos, o Eugenics Record Office dedicou-se à pesquisa sobre a hereditariedade humana e à pro- moção da eugenia na Costa Leste dos Estados Unidos. Emitia relató- rios e análises não somente para todo o país, como também para o mundo. O presidente da Carnegie Institution of Washington à época, Robert Simpson Woodward (1849-1924) celebrou a consolidação do Cold Spring Harbor como centro de pesquisa durante a cerimônia oficial da doação do terreno pela Sra. Harriman, em 1918. O momento era de otimismo e encanto com o que Woodward chamou de “doutrina da evolução”, que no campo da biologia criaria as ferramentas necessárias para proporcionar o “progresso da raça”: Os fundamentos que culminaram neste trabalho resultaram de nada menos que vinte séculos de esforços interrompidos e desorganizados feitos pelos devotos de anatomia, patologia, botânica, geologia e, mais Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 115-139, 2022. 125 recentemente, fisiologia, zoologia e paleontologia; mas coube a Dar- win, Wallace, Spencer e seus coadjuvantes descobrirem e estabelece- rem os princípios que unificam todas essas ciências [...] na generaliza- ção chamada doutrina da evolução. O termo biologia foi popularizado por Spencer em 1865. No breve intervalo que transcorreu desde então, a demonstração do conhecimento biológico cresceu com espantosa rapidez para agregar, o que constitui um dos avanços mais importantes em relação ao progresso de nossa raça. (Official Record, 1940, pp. 18- 19 Woodward reconheceu a importância de pesquisas em diversos campos e o papel de Darwin, Spencer e Wallace nesse processo. Em 1918, o Eugenics Record Office era um departamento ativo. Reuniu, ao longo dos anos, grande quantidade de registros e relatórios que propu- seram políticas públicas, metodologias de medição, pesquisa e regras de normatizações e conduta. A lista de objetivos do Eugenics Record Office era ampla e ousada. Ca- talogar informação, construir uma base de dados das famílias america- nas4, treinar especialistas e realizar trabalho de campo, estabelecer uma rede de relações, realizar e publicar os resultados de pesquisas. Tudo em nome da eugenia. Não é exagerado dizer que o Eugenics Record Office cumpriu todas as suas propostas e foi além, sob a liderança de Daven- port e Laughlin, uma vez que foi capaz de fazer interlocução com os principais pesquisadores da época nos Estados Unidos como na comu- nidade internacional, dando um caráter transnacional ao pensamento 4 A ideia de catalogar os traços de famílias caiu em descrédito, mas não desapareceu com o tempo. Os Estados Unidos atualmente possuem inúmeros sistemas de recolhi- mentos de dados, especialmente na área médica, capazes de identificar, por exemplo, dentro de uma determinada região do país, quantas pessoas têm diabetes ou mesmo quantas crianças precisam tomar vitaminas. Esses sistemas médicos – que convergem informações sobre resultados exames, visitas médicas e vacinas – são protegidos por leis de privacidade, mas há indícios de uso desses dados pela indústria farmacêutica. Um modo mais recente de coletar esses dados é a partir dos kits para testes de DNA, como 23andMe e Ancestry, para confirmar e conhecer a ancestralidade ou propensão a doenças. Esses kits podem ser comprados na farmácia e custam cerca de cinquenta dólares (o equivalente à cinquenta reais); e enviando pelo correio uma amostra de sa- liva, o interessado passa a fazer parte voluntariamente do banco de dados da compa- nhia de análise de DNA. Advogados e especialistas em bioética têm questionado tais práticas contemporâneas e suas implicações para a privacidade sobre as informações genéticas. Ver: Tanner, Adam. our bodies, our data: How companies make billions selling our medical records. Boston: Beac on Press, 2016. 126 eugênico, além de projetar a instituição internacionalmente atraindo in- vestimentoscada vez mais vultosos nas décadas subsequentes (Diwan, 2020). Davenport pode ser considerado um discípulo de Galton nos Es- tados Unidos, pois utilizou a eugenia como estratégia de reforma social legitimada pela recém inaugurada ciência da hereditariedade, de orga- nizar uma estratégia de implantação de um campo novo de saber dando a este um caráter científico, e se articular com outras instituições dentro e fora do país. De acordo com Carlson, Davenport5 foi o diretor mais bem credenciado academicamente para dar suporte e promover a ins- tituição e o trabalho de seus associados à frente do Cold Spring Harbor Laboratory (Carlson, 2001, pp. 197-346). Na medida em que o trabalho de registros e catalogação de famílias pelo Eugenics Record Office tomou notoriedade em todo o país, solicita- ções de fichas por escolas e prefeituras se somaram às recomendações de médicos em diferentes estados e a aprovação de legislação para es- terilização compulsória e pessoas encarceradas ou institucionalizadas. O descrédito gradativo de Davenport não diminuiu sua importância para o movimento eugenista dos Estados Unidos nem desacelerou o uso de medidas de contenção dos indivíduos considerados disgênicos, fosse através da esterilização, da restrição da imigração ou de medidas consideradas “profiláticas” tal como os exames pré-nupciais ou dos discursos moralizadores (Kline, 2001). No entanto, foi o assistente direto de Davenport e supervisor das operações do Eugenics Record Office, Harry H. Laughlin, que ficou no topo da lista dos eugenistas mais fervorosos dos Estados Unidos pelo teor radical de suas propostas. Laughlin escreveu panfletos, aconselhou oficiais, deu palestras públicas advogando a eugenia. Com produção contínua e engajada tinha por objetivo central propor uma lei modelo de esterilização que estivesse de acordo com o sistema judicial e fosse 5 Davenport escreveu muitos trabalhos relacionados à hereditariedade tanto em ani- mais quanto em humanos. Por exemplo, Eugenics: The science of human improvement by better breeding (1910), Heredity in relation to eugenics (1911), Army antropology: based on observations made on draft recruits, 1917-1918 (1921) e The body-build: Its development and inheritance (1924). Levou tempo para o trabalho de Davenport cair em descrédito. Pelo contrário, foi bastante popular pelo menos até meados dos anos de 1930. Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 115-139, 2022. 127 adaptável a diferentes estados, já que o sistema judicial estadounidense permite tais variantes. Um dos relatórios mais importantes (Laughlin, 1914) provocou os primeiros problemas de relacionamento com a Carnegie Institution de Washington por associar o nome da instituição às leis de esterilização compulsória. Sob crítica, Laughlin seguiu na defesa da constitucionali- dade da lei de esterilização como professor e como expert indicado para opinar em diferentes processos jurídicos (Carlson, 2001, p. 243). Ou- tras contribuições chanceladas pelo Eugenics Record Office propuseram outras práticas de controle social (Eugenics Record Office, Carnegie Library). Por volta de 1922, Laughlin foi designado conselheiro, Expert Eu- genics Agent (Agente Especializado em Eugenia), pelo Comitê de Imi- gração e Naturalização do Congresso. Ele contribuiu de forma decisiva na aprovação dois anos depois do Johnson-Reed Immigration Restriction Act (1924), lei federal que impactou duramente a política de imigração no país e uma das possíveis medidas de eugenia negativa6. A lei voltou atrás na legislação de 1890 determinando que a cota para a entrada de novos imigrantes seria equivalente a 2% dos imigrantes advindos de todos os países do Leste e Sul Europeu, e praticamente fechou as por- tas para os imigrantes advindos da Ásia (Stern, 2016, p. 16). Para Laughlin, a proporção de “insanos e desajustados” nesses países era muito superior. A lei baniu também quaisquer imigrações vindas do Leste Asiático e Índia. Na época, o deputado federal Albert Johnson (1869-1957), conservador pelo estado da Pensilvânia, declarou que a lei de imigração de 1924 foi a segunda Declaração de Independência dos Estados Unidos (Hillier, 1945). Os esforços dos reformadores es- tavam surtindo resultados efetivos. O Johnson-Reed Act e Racial Integrity Act, adotados no estado da Vir- gínia, criaram as condições para uma política segregacionista que obri- gava a identificação racial de cada indivíduo como white ou colored nas 6 A eugenia negativa destacou-se pelos programas de prevenção de nascimentos de crianças de pais que possuem uma hereditariedade considerada “inapta” ou “disgê- nica”, de forma coercitiva ou não. Enquanto a eugenia negativa tratava de legalizar a esterilização compulsória ou restringir a imigração, a eugenia positiva encorajava o ca- samento e procriação entre os “aptos” ganhando espaço nos consultórios médicos, na literatura, na imprensa e na cultura da época (Allen, 2001). É importante ressaltar que considero que os métodos de eugenia negativa e positiva caminhavam juntos e não devem ser considerados isoladamente. 128 certidões de casamento e nascimento7. Tanto o Racial Integrity Act quanto o Sterilization Act foram revogados pela Suprema Corte somente em 1967, com a vitória do caso Loving v. Virginia que baniu quaisquer leis que proibissem o casamento interracial. (Cohen, 2016, p. 3) Outra porta de entrada para a radicalização das práticas de eugenia negativa com o suporte de Cold Spring Harbor Laboratory e seus dirigen- tes foi a decisão que encerrou a disputa Buck versus Bell na Suprema Corte. Por 8 votos a 1, concedeu ao estado de Virgínia o direito de aplicar o Virginia Sterilization Act (1929), permitindo a esterilização compulsória de Carrie Buck (1906-1983), interna do Virgina State Colony for Epileptics and Feebleminded. A esterilização de Carrie havia sido reco- mendada por Albert Sidney Priddy8 e posteriormente, por James Bell. O argumento central era que ela, então com 18 anos, incompetente mentalmente para cuidar da filha – resultado de um estupro por parte de um primo, dentro da casa onde vivia com os pais adotivos – e que dada a sua “promiscuidade”, não poderia correr o risco de continuar gerando filhos com o mesmo problema mental que ela. Sua mãe bio- lógica, Emma Buck, foi abandonada pelo marido, e acusada de imora- lidade, prostituição e de ter sífilis. Ela vivia dentro do mesmo sanatório de Carrie. Como Cohen (2016) relatou, não havia nenhuma evidência em todo o processo de que Carrie Buck), ou mesmo sua mãe, tivessem qualquer tipo de doença física ou mental que justificasse a decisão. Carrie era mulher, branca, pobre, e mãe de uma menina, Vivian. É importante lembrar que a Lei de esterilização da Virgínia que estava sendo dispu- tada como válida para aplicação compulsória no caso de Carrie foi es- truturada por Laughlin e Davenport no Cold Spring Harbor. A sentença do juiz Oliver W. Holmes (1841-1935) determinou: [...]. É melhor para todo o mundo que em vez de esperar para executar filhos degenerados pelo crime, ou deixá-los passar fome por sua imbe- cilidade, a sociedade possa impedir que aqueles que são manifesta- mente inaptos deem continuidade à sua espécie. O princípio que sus- tenta a vacinação compulsória é amplo o suficiente para cobrir o corte 7 Esta categoria incluía afrodescendentes e populações nativas. 8 Médico falecido durante o processo. Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 115-139, 2022. 129 das trompas de Falópio... Três gerações de imbecis são suficientes. (Buck vs. Bell, 1927) Com o resultado, o caminho se abriu para que outros estados apro- vassem leis eugênicas ou legitimassem leis locais que previam a “este- rilização dos débeis mentais” (feebleminded9). No início do século XX a vinculação do termo feeblemindedness10 ao ‘suicídio da raça’ abriu espaço para que o psicólogo Henry Goddard (1866-1957) associasse o termo à herança da inteligência(Kline, 2001, p. 20). É importante ressaltar que a decisão do juiz Oliver Holmes permi- tiu a aplicação da prática de esterilização eugênica compulsória em es- cala federal. Em 1907, o estado de Indiana implementou a esterilização como medida de eugenia negativa, e a partir de então, pelo menos ou- tros quinze estados o fizeram dentro de instituições estaduais para en- carcerados ou pessoas com epilepsia, “insanos e idiotas” (Kevles, 1999, p. 100) A partir de 1927, cerca de trinta estados implantariam leis com- pulsórias de esterilização que afetariam cerca de setenta mil pessoas em todo o país até os anos de 1970. (Cohen, 2016, p. 45). Anos depois, em 1933 o modelo de lei escrito por Laughlin serviria de guia legislativo para a elaboração das leis de esterilização na Alemanha, conhecidas como Gesetz zur Verhütung erbkranken Nachwuchses. A relação entre os programas de eugenia alemão e estadounidense pode ser mais bem ilus- trado pela participação de Davenport no comitê editorial de dois influ- entes periódicos de higiene racial Zeitschrift für Rassenkunde und ihrer Na- chbargebiete e the Zeitschrift für menschliche Vererbungs- und Konstitutionslehre (Farber, 2008). O médico e diretor do hospital estadual de Staunton (Virgínia), Jo- seph DeJarnette (1866-1957) revelou sua frustração com a lentidão na implantação das leis de esterilização nos Estados Unidos e elogiou as práticas alemãs, implantadas desde 1933, e inspiradas no modelo esta- dounidense (Weindling, 2018, p. 7). DeJarnette testemunhou diante da 9 Kline (2001) descreveu como o termo feebleminded era usado desde 1850s quando as instituições de reclusão (asilos e manicômios) surgiram. 10 Goddard considerava três graus de debilidade mental (feeblemindedness): os idiotas cuja idade mental estava entre um e dois anos; os imbecis, com idade mental entre três e sete anos e os morons, com idade mental entre oito e doze anos de idade. (Kevles, [1985], 1999, p. 78) 130 Suprema Corte no caso de Carrie Buck, e defendeu a implementação da esterilização compulsória como medida de eugenia negativa até sua morte (1957). Ele escreveu em 1938: A Alemanha em seis anos esterilizou cerca de 80.000 de seus ‘inaptos’, enquanto os Estados Unidos – com aproximadamente o dobro da po- pulação – esterilizaram apenas 27.869 nos últimos 20 anos... O fato de haver 12.000.000 de defeituosos nos EUA deve despertar nossos me- lhores esforços para levar esse procedimento ao máximo... Os alemães estão nos vencendo no nosso próprio jogo. (DeJarnette, 1934) 4 UM PROJETO NA ENCRUZILHADA O processo de declínio da reputação do Eugenics Record Office teve início quando a Carnegie Institution de Washington passou a acompanhar de perto a produção de Davenport e Laughlin, e do impacto do traba- lho de ambos na esfera pública. John Campbell Merriam (1869-1945), diretor da Carnegie Institution, designou, em 1929, um comitê para avaliar a atuação do Eugenics Record Office. O periódico Eugenical News foi duramente criticado por publicar análises qualitativas. Além disso, o comitê discordava da atuação de Laughlin nas políticas federais em relação à imigração e leis de esterili- zação compulsória. Contudo, Laughlin continuou atuando junto ao Co- mitê de Imigração e Davenport liderou a organização do Third International Eugenics Congress (Terceiro Congresso Internacional de Eugenia) (1932), ainda como diretor da instituição. Durante o evento foi realizada uma visita pública ao Departamento de Genética do Cold Spring Harbor La- boratory. No evento, com repercussão internacional, sessenta e cinco artigos científicos foram publicados e 267 apresentações de pesquisa realizadas. O local do evento foi o mesmo do Segundo Congresso Interna- cional de Eugenia (1921), o Museu de História Natural de New York, cujo curador era Madison Grant (1856-1937). Grant (1916) defendeu a su- premacia biológica dos povos oriundos da região do norte da Europa na obra considerada a “bíblia” de Hitler (Spiro, 2009). Provavelmente pressionado pela Carnegie Institution, em 1934, com 65 anos, Davenport teve que se afastar de todas as suas atividades no Cold Spring Harbor, à pedido da Carnegie Instittution de Washington. Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 115-139, 2022. 131 Albert Francis Blakeslee (1874-1954) foi indicado para atuar como diretor interino, e após ser nomeado diretor em 1936, permaneceu na posição até 1941 até ser substituído por Milislav Demerec (1895-1966) que ficaria à frente do Cold Spring Harbor Laboratory até 1960. O comitê formado por John Merriam que analisou os trabalhos do Eugenics Record Office concluiu que o acervo não servia para o estudo genético, era sub- jetivo e desprovido de metodologia adequada. O comitê sugeriu a res- trição da atuação de Laughlin de maneira implícita: O Comitê é de opinião que o Eugenics Record Office deveria dedicar toda a sua energia à pesquisa pura, isenta de todas as formas de propaganda e do patrocínio de programas de reforma social ou melhoria de raça, como esterilização, controle de natalidade, inculcação de consciência racial ou nacional, restrição de imigração, etc. (LP, Report, 1935) O relatório recomendou ainda o desvinculamento da publicação Eugenical News da Carnegie Institution de Washington e a interrupção de to- das as atividades do Eugenics Record Office. Contudo, Laughlin con- tinuou trabalhando em Cold Spring Harbor até o final de 1938. Na véspera de sua saída da presidência da instituição, Merriam es- creveu uma carta pedindo a renúncia de Laughlin. Ele utilizou como argumento as condições da saúde de Laughlin. Vannevar Bush (1890-1974), substituto de Merriam na Carnegie Ins- titution de Washington, reforçou o pedido de resignação de Laughlin, mas garantiu seu salário até o final do ano de 1939 (Carta de Bush para Laughlin, 1939, APS). Como uma de suas primeiras medidas, Bush mu- dou o nome do Eugenics Record Office para Genetics Record Office e cortou 80% da verba do departamento. Laughlin tentou emplacar um orça- mento para o Genetics Record Office para o ano de 1940 (APS, Proposed Budget, 1940), sem sucesso. Com nova recusa de Bush, Laughlin re- tornou ao estado do Missouri, onde nasceu, e levou com ele toda a sua produção, o equivalente a um vagão de trem. A coleção de Laughlin está na Truman State University (Harry H. Laughlin Papers: Kirksville, Missouri), na cidade onde ele faleceu por razão de um derrame durante a Segunda Guerra Mundial, em 1943. Em correspondência a Blakeslee, Laughlin confessou com melan- colia: “Muitas vezes penso em meus amigos do Cold Spring Harbor e me pergunto quais são os planos para o futuro do Eugenics Record Office” (Laughlin para Blakeslee, 1940, APS). 132 Laughlin viveu o suficiente para ver a exacerbação da eugenia ne- gativa nos campos de extermínio nazista. (Bruinius, 2006, p. 219; Wit- kowski, 2016, p. 45). Em 1 de janeiro de 1940, as atividades do Eugenics Record Office foram encerradas definitivamente. O acervo foi doado para o Dight Institute da Universidade de Minnesota em 1948 (Carta de Mid- dlebrook para Bush, 1948, CSHL,) De acordo com o relatório anual do Biological Laboratory, quando parte da Long Island Biological Association estava em funcionamento nas instalações do Cold Spring Harbor, Davenport faleceu após desenvolver uma “pneumonia atípica” (CSHL, AR, 1943, p. 5) em 18 de fevereiro de 1944, na cidade de Huntington, algumas quadras de distância do Cold Spring Harbor Laboratory: O Dr. Davenport tinha o dom particular de fazer planos para vários projetos e transmitir seu entusiasmo aos outros. Por meio de sua filha, que estudava no Laboratório, ele conheceu o Sr. e a Sra. E. H. Harriman, mostrou-lhes o trabalho em Cold Spring Harbor e despertou o interesse deles. Quatro anos depois, em 1910, após a morte do Sr. Harriman, a Sra. Harriman comprou um terreno, ergueu um prédio e estabeleceu e mais tarde dotou um laboratório para o estudoda hereditariedade humana, conhecido como Eugenics Record Office, do qual o Dr. Davenport se tornou diretor. Isso aumentou o grupo científico em Cold Spring Harbor. Em 1918, o Eugenics Record Office foi assumido pela Carnegie Institution e se uniu com a Station for Experimental Evolution para formar o Departamento de Genética, sob o comando do Dr. Davenport. (CSHL, AR, 1943, p. 6-7) Em outro documento oficial da instituição, Milislav Demerec (1895-1966) homenageou o fundador e diretor do Cold Spring Harbor Laboratory e criador do Eugenics Record Office. No entanto, nessa home- nagem póstuma, a palavra eugenia não foi mencionada. Contudo, Da- venport foi lembrado como um pioneiro nos estudos nas fases iniciais da genética: É prova da coragem de Davenport e da visão dos conselheiros, que o programa do laboratório recém-criado lidava com problemas que eram então novos. [...] Ele deu uma importante contribuição para o início da genética, não só pelo seu próprio trabalho e o deste Departamento [de Genética], mas também pelo interesse pela genética que ele ajudou a estimular através da Carnegie Institution. Isso resultou em apoio financeiro substancial para pesquisa, que veio em um momento crítico Filosofia e História da Biologia, v. 17, n. 1, p. 115-139, 2022. 133 e trouxe retornos impressionantes. Muitos dos geneticistas pioneiros americanos foram auxiliados por doações da Instituição. (CSHL, Ye- arbook 43, 1944, p. 103) A documentação produzida no processo de desativação do Eugenics Record Office mostra o esforço da instituição, através de seus diretores para dissociar o conjunto institucional do embaraçoso passado do pensamento eugênico. Essa tarefa não foi fácil, mas no início da década de 1950, a se dedicou intensamente à pesquisa básica voltada para os interesses do governo dos Estados Unidos atento aos impactos da Guerra Fria. O Cold Spring Harbor Laboratory, assim como a Carnegie Institution pas- saram a ser financiados predominantemente por recursos públicos, apoiados pelo ex-ministro da Defesa, Vannevar Bush dada sua atuação à frente do National Defense Research Comittee. Mesmo assim, o Cold Spring Harbor Laboratory não deixou de envolver-se em outras investigações polêmicas como os efeitos do ácido lisérgico de Harold A. Abramson (1899-1980) em pessoas saudáveis e adictas, parte do projeto secreto MK-Ultra (Diwan, 2020, p.130). Atualmente, o Cold Spring Harbor La- boratory administra fundos recebidos por doações privadas e fundos de pesquisa públicos. Os bens da instituição consistem em pouco mais de um bilhão de dólares. A instituição dedica-se ao desenvolvimento de pesquisas sobre o câncer, neurociência, genômica, biologia quantitativa e biologia de plantas (CSHL, AR, 2020, p.32). AGRADECIMENTOS Agradeço a leitura criteriosa dos pareceristas deste artigo e por suas contribuições indispensáveis que enriqueceram o texto final. Também agradeço ter sido agraciada pelo Research travel grant do Cold Spring Har- bor Laboratory (2017), sua diretora executiva Mila Pollock e, à arquivista Clare Clark e equipe, que atenderam com paciência as minhas solicita- ções. Finalmente, agradeço o apoio financeiro da CAPES e CNPq du- rante a pesquisa de doutorado na PUC-SP entre os anos de 2016-2020. Declaro que não há nenhum conflito de interesse neste artigo. 134 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ADAMS, Mark. The wellborn science: Eugenics in Germany, France, Bra- zil, and Russia. London: Oxford University Press, 1990. AMERICAN PHILOSOPHICAL SOCIETY. Carta de Francis Gal- ton para Charles Davenport. Davenport Papers. (APS). Philadel- phia. 1902. AMERICAN PHILOSOPHICAL SOCIETY. Davenport Papers Col- lection (Mss.B.D27); Eugenics Record Office Records (Mss.Ms.Coll.77) ALLEN, Garland E. 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Data de submissão: 17/11/2021 Aprovado para publicação: 15/05/2022 Normas para publicação O periódico Filosofia e História da Biologia se destina à publi- cação de artigos resultantes de pesquisas originais referentes à filoso- fia e/ou história da biologia e temas correlatos, bem como sobre o uso de história e filosofia da biologia na educação científica. Publica também resenhas de obras recentes, sobre esses temas. Somente textos inéditos (e que não estejam sendo submetidos para publicação em outro local) poderão ser submetidos para publicação em Filosofia e História da Biologia. Ao submeter o manuscrito, os autoresassumem a responsabilidade de o trabalho não ter sido previa- mente publicado e nem estar sendo analisado por outra revista. Os artigos devem resultar de uma pesquisa original e devem re- presentar uma contribuição efetiva para a área. Todos os trabalhos submetidos serão enviados para análise de dois árbitros. Em caso de divergência entre os pareceres, o trabalho será analisado por um ter- ceiro árbitro. A análise dos originais levará em conta: (1) pertinência temática do artigo; (2) obediência às normas aqui apresentadas; (3) originalidade e profundidade da pesquisa; (4) a redação do trabalho. Os trabalhos submetidos podem ser aceitos, rejeitados, ou aceitos condicionalmente. Os autores têm direito a recorrer da decisão, quando discordarem da mesma, e nesse caso será consultado um novo membro da Comissão Editorial, que emitirá um parecer final. São aceitos para publicação em Filosofia e História da Biolo- gia artigos em português, espanhol ou inglês. Os artigos submetidos devem conter um resumo no idioma original e um abstract em inglês. Os artigos em inglês devem vir acompanhados de um resumo em português, além do abstract. Os resumos e abstracts devem ter cerca de 200 palavras. Devem também ser indicadas cerca de cinco pala- vras-chave (e keywords) que identifiquem o trabalho. As palavras- chave, separadas por ponto e com iniciais maiúsculas devem especifi- car a temática do artigo e as subáreas amplas em que ele se enquadra, além de personalidades centrais do artigo (por exemplo: Filosofia da Genética. Charles Darwin.). Todos os agradecimentos devem ser inseridos no final do texto, em uma seção denominada “Agradecimentos”. Agradecimentos pes- soais devem preceder os agradecimentos a instituições ou agências. Não devem ser inseridas notas de rodapé com agradecimentos. Agra- decimentos a auxílios ou bolsas, assim como agradecimentos à cola- boração de colegas, bem como menção à origem de um artigo (por exemplo: teses) devem ser indicados nesta seção. No caso de artigos em coautoria no qual as contribuições dos diferentes autores foram diferenciadas, isso também deve ser mencionado na mesma seção. Os artigos devem ter um máximo de 6.000 palavras (incluindo as no- tas de rodapé) e devem ser copiados ou digitados diretamente dentro do arquivo Word modelo da ABFHiB, disponível em https://www.revistas.usp.br/fhb/about/submissions. As resenhas críticas devem ter um máximo de 2.000 palavras. Excep- cionalmente, os Editores poderão aceitar trabalhos que ultrapassem esses limites. As ilustrações devem ser fornecidas sob a forma de arquivos de al- ta resolução, com imagens nítidas e adequadas para reprodução. De- vem ser acompanhadas de legenda e com indicação de sua fonte. Os autores devem fornecer apenas imagens cuja reprodução seja permi- tida (por exemplo, que sejam de domínio público). Na versão impressa do periódico, todas as ilustrações serão publi- cadas em preto e branco (e tons de cinza) e todas as imagens colori- das que forem enviadas serão convertidas. Na versão eletrônica, po- dem ser incluídas ilustrações coloridas, que também devem ser de alta resolução. Estudos envolvendo seres humanos ou animais deverão ter a aprovação do Conselho de Ética da instituição em que o estudo foi feito. Deve ser informado o número de protocolo correspondente. Conflito de interesses: quando existe alguma relação entre os auto- res e qualquer entidade pública ou privada de que pode derivar algum conflito de interesse, essa possibilidade deve ser comunicada e será informada no final do artigo. As referências bibliográficas devem aparecer em lista colocada ao final do artigo, em ordem alfabética e cronológica. Devem seguir as normas da revista e devem ser completas – contendo, por exemplo, https://www.revistas.usp.br/fhb/about/submissions as páginas inicial e final de artigos e capítulos de livros, nomes dos tradutores de obras, cidade e editora de publicação de livros, etc. Os nomes dos autores devem ser fornecidos por extenso e não com o uso de iniciais. Os títulos de periódicos devem ser fornecidos por extenso e não abreviados. O modelo fornecido pela ABFHiB apre- senta mais informações sobre o modo de apresentar as referências bibliográficas e de mencioná-las no corpo do texto. Consulte também edições recentes da revista, para ver exemplos de referências biblio- gráficas. A submissão dos manuscritos deverá ser realizada através do sistema de submissão eletrônica na página da revista: https://www.revistas.usp.br/fhb Os autores que não seguirem rigorosamente o modelo utilizado por Filosofia e História da Biologia serão solicitados a adequarem seus originais às normas da revista e a completarem as informações incompletas, quando for o caso. Isso pode resultar em atraso na pu- blicação do artigo. A submissão de um trabalho para publicação em Filosofia e His- tória da Biologia implica na cessão do direito de publicação à Associação Brasileira de Filosofia e História da Biolo- gia (ABFHiB). 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