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AULA 4 EPIDEMIOLOGIA Profª Ivana Maria Saes Busato 2 INTRODUÇÃO Estudaremos a epidemiologia aplicada aos diferentes problemas de saúde, analisando certas condições de saúde com maior impacto mundial e aspectos conceituais importantes. TEMA 1 – DOENÇAS, AGRAVOS E EVENTOS EM SAÚDE A epidemiologia não trabalha apenas em estudar a ocorrência de doenças em populações; ela também observa, acompanha, estuda os agravos e eventos de interesse à saúde humana, por meio de sua metodologia. A Classificação Internacional de Doenças (CID) é a base para identificar tendências e estatísticas de saúde em todo o mundo e contém cerca de 55 mil códigos únicos para lesões, doenças e causas de morte. O documento fornece uma linguagem comum que permite aos profissionais de saúde compartilhar informações de saúde em nível global. A CID-11, que entrou em vigor em 1º de janeiro de 2022, trouxe avanços relacionados com os códigos relativos à resistência antimicrobiana, por exemplo, os quais estão mais alinhados ao sistema global de vigilância da resistência antimicrobiana (GLASS). Outro ponto de destaque estão relacionados aos CID, referentes aos dados sobre segurança na assistência à saúde, aspecto importante para vigilância epidemiológica de eventos desnecessários que podem prejudicar a saúde, que, identificados, podem ser reduzidos. Os agravos estão relacionados com alguma violência, conforme lemos no art. 2º, inciso I, da Portaria n. 204/2016 do Ministério da Saúde: qualquer dano à integridade física ou mental do indivíduo, provocado por circunstâncias nocivas, tais como acidentes, intoxicações por substâncias químicas, abuso de drogas ou lesões decorrentes de violências interpessoais, como agressões e maus tratos, e lesão autoprovocada. (Brasil, 2016) Nesse contexto, a epidemiologia estuda a ocorrência, busca causas e consequências dos agravos na busca de ações de promoção e prevenção, pois impactam na mortalidade, com capacidade de causar danos físicos, sociais e mentais às pessoas e às comunidades. Eventos estudados em epidemiologia são situações que tanto podem ser protetivas quanto situações que ameaçam a saúde pública em saúde ou situações protetivas como amamentação e atividade física regular. Porém também é 3 importante destacar o conceito de evento de saúde pública, que requer ações coordenadas da Política Nacional de Saúde nas três esferas de governo, nas instituições públicas e privadas, conforme visto nas ações para o combate à Covid-19. Conforme o art. 2º, inciso V, da Portaria n. 204/2016 do Ministério da Saúde, trata-se de situação que pode constituir potencial ameaça à saúde pública, como a ocorrência de surto ou epidemia, doença ou agravo de causa desconhecida, alteração no padrão clínico-epidemiológico das doenças conhecidas, considerando o potencial de disseminação, a magnitude, a gravidade, a severidade, a transcendência e a vulnerabilidade, bem como epizootias ou agravos decorrentes de desastres ou acidentes. (Brasil, 2016) TEMA 2 – EPIDEMIOLOGIA DAS DOENÇAS TRANSMISSÍVEIS Em geral, a epidemiologia prática se faz com a avaliação das condições de saúde por meio dos problemas de saúde (Almeida Filho; Barreto, 2012). Essa aplicabilidade da epidemiologia nos serviços é fundamental para identificar as tendências das doenças, para detectar os grupos mais afetados, investigar os mecanismos de transmissão envolvidos, perceber a introdução de novas doenças, caracterizar o comportamento das doenças e evidenciar suas alterações ao longo do tempo, indicar novas estratégias de controle e prevenção de doenças, além de realizar ações de promoção de saúde. A epidemiologia de doenças, eventos e agravos à saúde é ferramenta fundamental da vigilância em saúde, mais especificamente na vigilância epidemiológica. De acordo com o parágrafo 2º do art. 6º da Lei n. 8.080/1990, vigilância epidemiológica é um dos elementos da vigilância em saúde estabelecida num “conjunto de ações que proporcionam o conhecimento, a detecção ou prevenção de qualquer mudança nos fatores determinantes e condicionantes de saúde individual ou coletiva, com a finalidade de recomendar e adotar as medidas de prevenção e controle das doenças ou agravos” (Brasil, 1990). As doenças que impactam na morbidade e mortalidade ou que prejudicam o desenvolvimento humano nas comunidades compõem as práticas de atuação contínua da epidemiologia. O presente tema foi organizado em doenças transmissíveis e doenças negligenciadas. As doenças transmissíveis foram a principal causa de mortalidade no Brasil nas décadas de 30 a 50, e tiveram seu declínio com medidas preventivas e de promoção da saúde, a melhoria sanitária, o acesso aos serviços de saneamento básico, as 4 vacinas, os antibióticos, e a ampliação do acesso aos serviços de saúde. (Brasil, 2010, p. 17) Segundo consenso do Mercosul (2005) no Glossário de Terminologia de Vigilância Epidemiológica, doença transmissível é qualquer doença causada por um agente infeccioso, ou por seus produtos tóxicos, ou pelos produtos tóxicos de outros agentes biológicos, produzida pela transmissão desse agente ou seus produtos, desde uma pessoa ou animal infectado, ou de um reservatório a um hospedeiro suscetível. Segundo o documento Doenças infecciosas e parasitárias: guia de bolso, a situação epidemiológica das doenças transmissíveis mostra grandes modificações observadas na morbimortalidade, provocando a transição epidemiológica brasileira. Nesse contexto, há doenças transmissíveis com tendência declinante, representam as doenças que possuem instrumentos eficazes de controle e prevenção, destaca-se a erradicação da poliomielite (1989), da varíola (1973) a interrupção transmissão contínua do sarampo desde 2005, mais com ocorrências esporádicas ainda acontecem em pontos específicos. As doenças transmissíveis com quadro epidemiológico persistente, como meningites, hepatites, leptospirose e outras. Exigem fortalecimento das medidas de prevenção e controle, de ações intersetoriais que possam impactar nos determinantes externos ao setor saúde. (Brasil, 2010) 2.1 Conceito de doenças negligenciadas As doenças negligenciadas são denominações propostas pela Organização Mundial da Saúde – OMS e a Organização Médicos Sem Fronteiras para dar destaque para algumas enfermidades, geralmente doenças transmissíveis, que apresentam maior ocorrência nos países subdesenvolvidos e em desenvolvimento, e que são negligenciadas, nas medidas de controle e prevenção, essas doenças têm forte impacto no desenvolvimento social, político e econômico. (Garcia et al., 2011, p. 7) A Organização Pan-Americana da Saúde trabalha tendo em vista as doenças negligenciadas buscando a interrupção da transmissão ou eliminação até 2022. As principais delas são: tracoma, doença de Chagas, raiva humana transmitida por cães, hanseníase, teníase humana e infecções por cisticercose, filariose linfática, oncocercose (conhecida como cegueira dos rios) e esquistossomose. 5 As seguintes doenças terão como foco a prevenção, o controle e a redução da incidência: equinococose, fasciolíase, peste humana, leishmaniose (cutânea e visceral) e helmintos transmitidos pelo solo (vermes intestinais). O relatório da OMS (2017), Integrating Neglected Tropical Diseases in Global Health and Development, apresenta os “resultados favoráveis nos programas de controle de doenças negligenciadas realizada com forte apoio político, as generosas doações de medicamentos e as melhorias nas condições de vida”. As doenças negligenciadas têm como características comuns a endemicidade elevada nas áreas rurais e urbanas com piores condições socioeconômicas em países em desenvolvimento, e não apenas ocorrem com mais frequência em regiões empobrecidas, como tambémsão condições que promovem e mantêm as condições de pobreza. Muitas das doenças negligenciadas apresentam características de falta de investimento em pesquisa de novos fármacos ou vacinas. Essas doenças podem prejudicar o crescimento infantil e o desenvolvimento intelectual, bem como a produtividade do trabalho, podem afetar o desenvolvimento econômico e causar incapacidades crônicas de longa duração, prejudicam o desenvolvimento humano nas comunidades pobres e desprivilegiadas nas quais elas são mais prevalentes. O estigma social, o preconceito, a marginalização, a pobreza extrema das populações atingidas e a baixa mortalidade são fatores que contribuem para a negligência com doenças. Na era da ciência e da tecnologia, enquanto muito se discute sobre os direitos humanos e as causas e consequências das iniquidades em saúde, as populações pobres não têm acesso ao tratamento adequado contra as doenças negligenciadas, que continuam endêmicas em seus países, sem investimentos necessários para o efetivo controle e prevenção. TEMA 3 – EPIDEMIOLOGIA DAS DOENÇAS EMERGENTES E REEMERGENTES As doenças emergentes e reemergentes impulsionam o estudo epidemiológico mundial, no trabalho em cooperação, conduzido pela Organização Mundial da Saúde, com as grandes diferenças epidemiológicas entre os países, a grande imigração internacional, as transações de produtos e a mobilidade entre as pessoas. 6 Esses fatores propiciam o ressurgimento das doenças reemergentes (cólera, dengue), e o risco de expansão de doenças emergentes (aids, H1N1, ebola, Covid-19) levou a epidemiologia a buscar seu desenvolvimento tentando superar esses novos desafios. As doenças emergentes, conforme apontado por Busato (2016, p. 113- 114), são enfermidades transmissíveis causadas por bactérias ou vírus nunca descritos ou por novas formas infectantes geradas a partir de mutações em um microrganismo já conhecido, ou causada por um agente que já parasitava animais e depois começou a infectar também o homem. Além disso, uma enfermidade pode ser considerada emergente quando passa a ter “novas distribuições, como uma doença que só atingia as crianças e começa a acometer também os idosos ou uma doença, antes restrita a um único país, que se espalha por todo o mundo” (Busato, 2016, p. 114). Mas existem enfermidades que aparecem, são controladas e, passado um tempo, voltam a ameaçar a população, chamadas de doenças reemergentes, que são conhecidas de longa data e, de repente, têm sua incidência aumentada por causa de uma série de fatores, como urbanização desordenada, degradação do meio ambiente e desigualdade social, entre outros. A epidemiologia torna-se estratégia primordial no acompanhamento das doenças emergentes e reermergentes, de modo a evitar, reduzir ou eliminar a disseminação na população. A vigilância epidemiológica dessas doenças exige contribuição internacional, para permitir permeabilidade, organização e metodologia, realizadas na detecção precoce, prevenção, análise das principais características epidemiológicas e resposta coordenada. Essas etapas são fundamentais para prevenir a propagação nacional/internacional das doenças emergentes e reemergentes. 3.1 Pandemia da Covid-19 e os riscos de pandemias no futuro A pandemia da Covid-19 chegou ao Brasil no ano de 2020 trazendo consigo a necessidade de implementação de novas estratégias, adaptações e adequações ao cenário da saúde, tanto no ramo assistencial quanto na área da gestão, o que ocorreu desde a declaração da Organização Mundial da Saúde (OMS) de estado de pandemia devido ao novo coronavírus (Sars-CoV-2) em 11 de março de 2020. O número de pessoas acometidas pela infecção chegou a 7 proporções históricas, no mundo, atingindo todos os países e todas as comunidades. A história natural da doença Covid-19 é analisada pelos epidemiologistas, e sua letalidade ainda é estudada porque sofre influência de várias características, presença de comorbidades, acesso a serviços de saúde, pessoas parcialmente vacinadas, totalmente vacinadas (duas ou três) doses, vulnerabilidade social, entre outros. O desenvolvimento das vacinas para a Covid-19 mostrou que é possível a ciência trazer resultados rápidos pra as doenças emergentes, porém cabe ressaltar os problemas com a divulgação de fake news sobre o desenvolvimento e eficiência das vacinas provocando hesitação vacinal em vários países. O termo hesitação vacinal, conforme Sato (2018), é definido “como o atraso em aceitar ou a recusa das vacinas recomendadas, apesar de sua disponibilidade nos serviços de saúde”. O movimento antivacina é tão antigo quanto a própria vacinação. No Reino Unido, já havia caricaturas da vacina de varíola desde os anos de 1800. A obrigatoriedade da vacinação causou resistência de indivíduos que a consideravam uma invasão da liberdade sobre o próprio corpo. Nos Estados Unidos, brigas judiciais contra a vacinação obrigatória não eram raras nos anos 1920. (Dubé; Vivion; Macdonald, 2015). Um dos primeiros casos de hesitação vacinal no Brasil aconteceu com a Revolta da Vacina, em 1904, na cidade do Rio de Janeiro, um movimento popular contra a vacinação obrigatória no país implementada por Oswaldo Cruz. A palavra hesitação tem como um de seus significados “ato ou efeito de hesitar, estar ou ficar indeciso, ter dúvidas” (Ferreira, 2010). Ferreira et al. (2019) apontam que a popularização do uso de dispositivos móveis para capturar e compartilhar todos os tipos de eventos que estão testemunhando, e ainda a abundância de versões manipuladas desses dados é propagada pelos mesmos canais, das quais devem ser compelidas com agregação de soluções forenses significativas e o design e desenvolvimento de novos métodos para analisar interações entre fontes heterogêneas, visando a prevenção e a investigação de crimes, além de combater a proliferação de notícias falsas. Stefan Ujvari, em seu livro Pandemias: a humanidade em risco, aponta algumas preocupações mundiais favoráveis à ocorrência de novas pandemias no 8 futuro. Em sua análise, alguns vetores de doenças, como o Aedes Aegypt, e sua capacidade de ser vetor de diversas doenças, é sempre uma preocupação. Os vírus como SARs, os coronavírus, e suas mutações, as bactérias super- resistentes, mutações no vírus da aids, além de outros microrganismos ainda desconhecidos que podem se tornar emergentes com o avanço das populações em áreas desabitadas, outro fator apontado pelo autor está no manejo de criações e cruzamento de doenças entre homens e as diferentes espécies. O autor ainda aponta a globalização das rotas comerciais, o deslocamento de imigrações, guerras, a mobilidade rápida de pessoas no mundo, como outros fatores que colocam a humanidade em risco. A junção dessas circunstâncias produz as oportunidades perfeitas para a produção de uma nova pandemia (Ujvari, 2020). 3.2 Regulamento Internacional O Regulamento Sanitário Internacional (RSI) é o marco legal aprovado pelos países na 58ª Assembleia Mundial da Saúde que estabelece os procedimentos para proteção contra a disseminação internacional de doenças (Brasil, 2009). A primeira versão do Regulamento foi instituída em 1951, sendo revisado em 1969, sofrendo alterações até a publicação de 2005. O propósito e a abrangência do Regulamento são “prevenir, proteger, controlar e dar uma resposta de saúde pública contra a propagação internacional de doenças, de maneiras proporcionais e restritas aos riscos para a saúde pública, e que evitem interferências desnecessárias com o tráfego e o comércio internacionais” (Brasil, 2009). Esse regulamento determina as ações de definições, propósito e abrangência, princípios e autoridades responsáveis, informação e resposta em saúde pública, recomendações, pontos de entrada e as medidas de saúde pública: O RSI tem como finalidadeaumentar a segurança sanitária mundial com a mínima interferência nas viagens e comércio internacional. Ao adotar o RSI, a comunidade internacional concordou trabalhar em conjunto para cumprir estes desafios. Juridicamente obrigatório em qualquer Estado Membro da Organização Mundial da Saúde – OMS. (Busato, 2016, p. 174) 9 TEMA 4 – EPIDEMIOLOGIA DAS DOENÇAS CRÔNICAS NÃO TRANSMISSÍVEIS As doenças crônicas não transmissíveis representam a maior carga de Morbimortalidade no Brasil. Em 2011, o Ministério da Saúde lançou seu plano de ações estratégicas para o enfrentamento das doenças crônicas não transmissíveis, enfatizando ações populacionais para controlar doenças cardiovasculares, diabetes, câncer e doença respiratória crônica, predominantemente pelo controle do fumo, inatividade física, alimentação inadequada e uso prejudicial de álcool. O Ministério da Saúde em Brasil (2011) aponta que a carga das doenças crônicas não transmissíveis – DCNT está aumentando globalmente e sua gravidade foi reconhecida pela Organização Mundial da Saúde – OMS e pela Organização das Nações Unidas – ONU. As DCNT eram responsáveis por 63% das mortes no mundo em 2008, segundo estimativas da Organização Mundial de Saúde. As quatro DCNT de maior impacto mundial são: doenças cardiovasculares, diabetes, câncer e doenças respiratórias crônicas (Brasil, 2011). Essas doenças têm em comum quatro fatores de risco modificáveis: tabagismo, consumo nocivo de álcool, inatividade física e alimentação não saudável. As doenças crônicas, como a hipertensão arterial e a diabetes mellitus, são responsáveis pelas transições, demográfica, nutricional e epidemiológica ocorridas nas últimas décadas. Estima-se que anualmente as DCNT sejam responsáveis por 71% da mortalidade no mundo, o que representa 41 milhões de óbitos (WHO, 2019) O Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis no Brasil, 2011-2022, lançado em 2011, objetivou “promover o desenvolvimento e a implantação de políticas públicas efetivas, integradas, sustentáveis e baseadas em evidências para a prevenção e o controle das DCNT e seus fatores de risco, incluindo o fortalecimento dos serviços de saúde” (Brasil, 2011). As estratégias e ações propostas pelo Plano estão estruturadas em três eixos: vigilância, informação, avaliação e monitoramento; promoção da saúde; e cuidado integral. As doenças não transmissíveis impactam na qualidade de vida das pessoas e carregam os serviços de saúde, contudo podem ser trabalhadas com medidas de promoção da saúde coletivas e individuais, que têm menor impacto financeiro. 10 Silva et al. (2021), em seus estudos, objetivaram monitorar as tendências e as projeções das metas de fatores de risco e proteção para o enfrentamento das doenças crônicas não transmissíveis nas capitais brasileiras e concluíram que não foi possível alcançar as metas e projeções para deter a obesidade e reduzir o uso de álcool, por isso propõem reforçar as ações de promoção e de incentivo a hábitos de vida saudável, avançar nas medidas regulatórias e na sustentabilidade das ações, programas e políticas para o enfrentamento das DCNT no Brasil. TEMA 5 – REGULAMENTAÇÃO BRASILEIRA PARA PESQUISAS Os aspectos éticos relacionados às pesquisas devem ser considerados sob quatro diferentes perspectivas: o envolvimento de seres humanos, o uso de animais, a relação com outros pesquisadores e a relação com a sociedade. Pesquisas com seres humanos implicam responsabilidades dos pesquisadores em relação às pessoas que são objeto de estudo e devem ser relevantes cientificamente, ter responsabilidade social e ser moralmente justificadas. As pesquisas com animais devem prever sempre tratamento humanitário, evitando dor e sofrimento. Nesses projetos, deve-se buscar o máximo de informação com o mínimo de animais, calculando-se adequadamente o número da amostra a ser utilizada. Desde o término da Segunda Guerra Mundial, são discutidos os dados de pesquisas buscando eticidade e confiança nas informações e achados encontrados em pesquisas com seres humanos. Na década de 70, a bioética deu direções claras para o respeito à dignidade humana dos sujeitos de pesquisa com seus princípios, agências regulatórias e Comitês de éticas. Na mesma década 1970, discutia-se dentro da comunidade científica quais meios e modos de divulgação da produção científica, em especial com a necessidade de compartilhamento dos dados da pesquisa. A bioética surgiu no início dos anos 1970, nos Estados Unidos, a partir de uma publicação do cancerologista Van Rensselaer Potter, em 1971, cujo livro Bioética: ponte para o futuro, propiciou a divulgação da bioética. Rapidamente foi reconhecida internacionalmente, alcançando a Europa e, em seguida, o restante do mundo. A bioética tem suas raízes baseadas em quatro princípios: autonomia, beneficência, não maleficência e justiça. 11 O princípio da autonomia visa reconhecer o direito de cada qual em decidir acerca da utilização de determinado procedimento ou tratamento médico, livre de gerência ou pressão externa, levando em conta seus valores mais íntimos. O princípio da beneficência é aquele em que qualquer intervenção deve ser direcionada sempre em benefício do seu paciente. O princípio da justiça consiste em promover, dentro do possível, igualitário acesso dos cidadãos aos serviços públicos de saúde de boa qualidade. Por fim, o princípio da não maleficência assegura que sejam minorados ou evitados danos físicos aos sujeitos da pesquisa ou pacientes. Em 2005, na sede da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura – Unesco, foram realizadas reuniões para finalização da Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos. A Declaração trata das questões éticas relacionadas à medicina, às Ciências da vida e às tecnologias associadas quando aplicadas aos seres humanos, levando em conta suas dimensões sociais, legais e ambientais (Unesco, 2020). O teor da Declaração muda profundamente agenda da bioética do século XXI, democratizando-a e tornando-a mais aplicada e comprometida com as populações vulneráveis, as mais necessitadas. Os Estados-membros da Organização das Nações Unidas usam as deliberações da Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos para orientar para dar suporte nas decisões ou práticas de indivíduos, grupos, comunidades, instituições e empresas públicas e privadas. 5.1 Sistemas regulatórios Piolli (2016, p. 45) aponta que houve melhoria nos processos de gestão de ensaios clínicos com a recente implantação do sistema internacional de registro de ensaios clínicos, as mudanças nas regras regulatórias. No Brasil, há diferentes organizações a função de fiscalizar e regular os ensaios clínicos, sendo as principais a Anvisa e o Sistema CEP/Conep. Em 1988, o Conselho Nacional de Saúde elaborou a primeira regulamentação de pesquisas em saúde, a Resolução n. 1/1988 do Conselho Nacional de Saúde (CNS). A Resolução CNS n. 1/1988 foi atualizada em 1996 na Resolução CNS n.196/1996, tornando-se um marco na bioética brasileira. Essa resolução determinou as Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisa 12 Envolvendo Seres Humanos, e instituiu a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa – Conep, instaurando o Sistema CEP/Conep. O Conep é vinculado ao Conselho Nacional de Saúde e tem a responsabilidade de coordenação dos Comitês de Ética em Pesquisa no Brasil. Em 2012, com a Resolução n. 466, de dezembro de 2012 (Brasil, 2012), que atualizou essas Diretrizes alinhando-as aos documentos internacionais, em especial à Declaração de Helsinque, adotada em 1964, e suas diversas versões, até 2000; o Pacto Internacional sobre os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, de 1966; o Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos, de 1966; aDeclaração Universal sobre o Genoma Humano e os Direitos Humanos, de 1997; a Declaração Internacional sobre os Dados Genéticos Humanos, de 2003; e a Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos, de 2004 (CNS, 2012). Conforme Resolução n. 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde pesquisa, é “processo formal e sistemático que visa à produção, ao avanço do conhecimento e/ou à obtenção de respostas para problemas mediante emprego de método científico” (CNS, 2012). No Sistema CEP/CONEO, há os Comitês de Ética em Pesquisa – CEP, que possuem funções de avaliar protocolos de pesquisa envolvendo seres humanos, emitindo parecer devidamente justificado, além de desempenhar papel consultivo e educativo em questões de ética. Os CEP vieram para resguardar a integridade e que os direitos dos voluntários participantes sejam garantidos, acompanhar o desenvolvimento da pesquisa e receber denúncias de abusos ou notificação de fatos adversos que possam alterar o curso normal do estudo. As pesquisas clínicas devem ser registradas na base de dados de registro de pesquisas clínicas International Clinical Trials Registration Plataform / World Health Organization (ICTRP/WHO)/Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos (ReBEC) ou outras reconhecidas pelo International Commite of Medical Journals Editors (ICMJE). No Brasil, esse registro pode ser feito no Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos (ReBEC), uma plataforma virtual de acesso livre para registro de estudos experimentais e não experimentais realizados em seres humanos. Esses estudos compõem a rede da Plataforma Internacional de Registro de Ensaios Clínicos da Organização Mundial da Saúde. Os registros no ReBEC integrarão automaticamente a rede da OMS de registros de pesquisas, atendendo às exigências de revistas científicas e órgãos reguladores (Brasil, 2012, p. 39). 13 Fazer pesquisa, em especial pesquisas clínicas, compreende avalizar qualidade, portanto todas as ações planejadas e sistemáticas que são estabelecidas para garantir que o ensaio seja realizado em conformidade e que produza dados fidedignos, e sejam documentados (registrados) e relatados, conforme as Boas Práticas Clínicas e as exigências regulatórias aplicáveis (ICH, 2016). A RDC n. 205/2017 aponta algumas exigências que devem constar no momento de submissão de dossiê de desenvolvimento clínico de medicamento (DDCM), e dossiê específico de ensaio clínico, a comprovação de certificação de boas práticas de fabricação (Brasil, 2017a). A Instrução Normativa n. 20/2017 dispõe sobre procedimentos de inspeção em Boas Práticas Clínicas para ensaios clínicos com medicamentos, destacando o art. 1º, quando indica que “harmonizar, orientar e verificar o cumprimento das Boas Práticas Clínicas nos ensaios clínicos com medicamentos”, conforme RDC n. 09/2015, para o cumprimento das normas da vigilância sanitária, assegurando “padrão unificado de eficácia e segurança sanitárias, considerados os indivíduos e a coletividade, observados os princípios bioéticos da autonomia, não-maleficência, beneficência e justiça” (Brasil, 2017b). 5.2 Movimento da Ciência Aberta Ciência da Informação é a democratização das informações geradas pela ciência. Nesse aspecto, surge o movimento de Ciência Aberta. Silva e Silveira (2019) indicam que ciência aberta é um movimento que incentiva a transparência da pesquisa científica desde a concepção da investigação até o uso de softwares abertos. O movimento da Ciência Aberta também busca o conhecimento das metodologias e gestão de dados científicos, desde sua elaboração, para que, com seu compartilhamento, possam ser replicáveis, sendo acessíveis e com um menor custo (Silva; Silveira, 2019). A Ciência Aberta ainda propõe a colaboração de não cientistas na pesquisa, ampliando a participação social por meio de um conjunto de elementos que dispõem de novos recursos para a formalização da comunicação científica (Silva; Silveira, 2019). Nos moldes do que acontece no Brasil com o Sistema CEP/Conep, há obrigatoriedade da participação de usuários do Sistema Único de Saúde nos Comitês de Ética em Pesquisa, conforme indicados pelo Conselhos de Saúde. 14 Os autores Estevão, Arns e Strauhs (2019) afirmam que a ciência aberta tem constituído uma nova abordagem para o processo de geração de conhecimento científico, com base na forma colaborativa que a produção científica tem sido criada e comunicada. Porém os autores destacam que há implicações no compartilhamento de dados abertos e no estabelecimento de uma cultura de ciência aberta (Estevão; Arns; Strauhs, 2019). A Política Brasileira de Dados Abertos é uma das ações do Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão (MP) para transformar digitalmente o governo brasileiro, sendo a publicação de dados abertos prevista no Decreto n. 8.777, de maio de 2016, que institui a Política de Dados Abertos do Poder Executivo federal (Brasil, 2016). Silva e Silveira (2019) ainda apontam que as ações da Política de Dados Abertos, tem ainda o plano para Ciência Aberta, em desenvolvimento por representação de entidades brasileiras. 15 REFERÊNCIAS ALMEIDA FILHO, N.; BARRETO, M. L. Epidemiologia & Saúde: fundamentos, métodos, aplicações. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2012. BRASIL. Decreto n. 8.777, de 11 de maio de 2016. Institui a Política de Dados Abertos do Poder Executivo Federal. 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