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Apostila Civil III

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aos juros remuneratórios dos contratos de mútuo bancário as disposições do art. 591 c/c o art. 406 do CC/02;
d) É admitida a revisão das taxas de juros remuneratórios em situações excepcionais, desde que caracterizada a relação de consumo e que a abusividade (capaz de colocar o consumidor em desvantagem exagerada – art. 51, §1º, do CDC) fique cabalmente demonstrada, ante às peculiaridades do julgamento em concreto.
CONTRATOS NOMINADOS – VISÃO GERAL (continuação)
2.4  Depósito – voluntário e necessário
2.5  Empreitada
Procedimentos de ensino	
2.4. Depósito
 
1. Definição (CC, 627).
 
Art. 627. Pelo contrato de depósito recebe o depositário um objeto móvel, para guardar, até que o depositante o reclame.
 
Depósito é o contrato em que uma das partes, nomeada depositário, recebe da outra, denominada depositante, uma coisa móvel, para guardá-la, com a obrigação de restituí-la na ocasião ajustada ou quando lhe for reclamada. A sua principal finalidade é, portanto, a guarda de coisa alheia.
 
2. Características.
A principal característica do depósito é a sua finalidade, que, como foi dito, consiste na guarda de coisa alheia. É o que o distingue do comodato e de outros contratos similares, pois o comodatário recebe a coisa para seu uso. No depósito, todavia, não pode o depositário dela se servir sem licença expressa do depositante (CC, 640). Por outro lado, Se o depositário, devidamente autorizado, confiar a coisa em depósito a terceiro, será responsável se agiu com culpa na escolha deste (CC, 640, parágrafo único).
O segundo traço característico do depósito é a sua natureza real, pois há a necessidade da entrega da coisa para que o contrato se aperfeiçoe.
A natureza móvel da coisa dada em depósito é sua terceira característica. Contudo, nos dias de hoje, admite-se que o depósito recaia sobre bens imóveis, como no exemplo do depósito judicial que recaia sobre bens dessa espécie (contudo, a disciplina do depósito judicial encontra-se no Código de Processo Civil).
A obrigação de restituir é também da essência do contrato de depósito, implicando na suatemporariedade, pois o depositário recebe o bem para guardar, até que o depositante o reclame. Ainda que as partes tenham fixado prazo para a restituição, o depositante pode pedir a coisa mesmo antes do seu término, devendo o depositário entregá-la logo que se lhe exija, salvo algumas hipóteses previstas no art. 633 do Código Civil, pois se presume que o depósito regular é feito em benefício do depositante.
Por outro lado, o depósito caracteriza-se pela gratuidade, exceto se houver convenção em contrário, se resultante de atividade negocial ou se o depositário o praticar por profissão (CC, 628). Quando gratuito, o depósito é unilateral; caso oneroso, será bilateral.
 
3. Requisitos do depósito.
As partes devem ser capazes. O depositante deve ter capacidade para depositar, que no caso exige apenas a capacidade de administrar e não a de alienar, pois não há alienação do bem.
O depositante, no depósito regular, não precisa ser proprietário da coisa, bastando que tenha a posse direta da mesma, pois com o depósito, frise-se, não ocorre a transferência da propriedade do bem.
O depositário deve ser capaz, pois contrairá obrigações com o contrato. Caso venha a se tornar incapaz no curso do depósito, a pessoa que lhe assumir a administração dos bens deverá diligenciar imediatamente para restituir a coisa depositada e, não querendo ou não podendo o depositante recebê-la, recolhê-la-á ao Depósito Público ou promoverá nomeação de outro depositário (CC, 641), por constituir a incapacidade do depositário verdadeira causa de resolução do contrato.
 
4. Espécies de depósito.
4.1 Depósito voluntário.
O depósito voluntário é aquele realizado espontaneamente pelo depositante, isto é, por sua livre decisão, sem a ocorrência de causa externa que o obrigue a tanto. Pelo depósito voluntário, o depositante escolhe o depositário e celebra com ele o contrato de depósito.
O depósito voluntário pode subdividir-se em regular ou irregular em razão da natureza do bem confiado à guarda do depositário.
Denomina-se regular o depósito de coisa individuada, não consumível, infungível, que deverá ser restituída em espécie findo o contrato.
Depósito irregular é o que recai sobre coisa fungível, assumindo o depositário a obrigação de restituir outra coisa do mesmo gênero, qualidade e quantidade, como na hipótese do depósito bancário. Ao depósito irregular são aplicadas as regras do mútuo (CC, 645).
Nos termos do artigo 646 do Código Civil, o depósito voluntário provar-se-á por escrito. Assim, embora seja o depósito contrato consensual, é necessário, para provar-se, um começo de prova escrita, que pode ser suprida, p.ex., por recibos ou tíquetes de entrega da coisa, ou ainda documentos equivalentes.
O depósito voluntário pode ser gratuito ou oneroso.
 
4.2. Depósito necessário.
Depósito necessário é aquele no qual o depositante, por imposição legal ou premido por circunstâncias imperiosas, realiza com pessoa não escolhida livremente. São as hipóteses do art. 647 do Código Civil. Essas circunstâncias impõem não só a realização do depósito, como a designação do depositário. Nos termos do art. 649 do Código Civil, é também considerado depósito necessário o depósito das bagagens dos viajantes ou hóspedes nas hospedarias onde estiverem.
Pode-se afirmar, assim, existirem três hipóteses de depósito necessário: o depósito legal, o depósito miserável e o depósito do hospedeiro ou hoteleiro.
 
 
4.2.1. Depósito legal (CC, 647, I).
É o que decorre do desempenho de obrigação imposta por lei, como nas seguintes hipóteses, enumeradas por Washington de Barros Monteiro: a) aquele que é obrigado a fazer o descobridor da coisa perdida (CC, 1.233); b) o que deve ser feito pelo administrador dos bens do depositário que tenha se tornado incapaz (CC, 641).
Nos termos do art. 648 do CC/2002, o depósito legal reger-se-á pela disposição da respectiva lei, e, no silêncio ou deficiência dela, pelas concernentes ao depósito voluntário.
 
4.2.2. Depósito miserável (CC, 647, II).
É o que se realiza em situações de calamidades, sendo que o Código Civil enumera exemplificativamente as hipóteses de cabimento. A premente necessidade de salvar seus bens o impele a deixá-los com a primeira pessoa que aceite guardá-los.
O depositário se dispõe a prestar um serviço ao depositante necessitado, e, por isso, o depósito necessário não se presume gratuito (CC, 651).
Nos termos da parte final do parágrafo único do art. 648 do Código Civil, tanto o depósito legal quanto o miserável podem ser provados por quaisquer meios de prova, inclusive a testemunhal.
 
4.2.3. Depósito do hospedeiro e hoteleiro.
É também denominado depósito necessário por assimilação, que se equipara ao depósito lega, conforme prescreve o art. 649 do CC/2002, tendo por objeto as bagagens dos viajantes ou hóspedes.
Nos termos do art. 649, parágrafo único, os hospedeiros responderão como depositários, assim como pelos furtos e roubos que perpetrarem as pessoas empregadas ou admitidas nos seus estabelecimentos. Cessa, porém, tal responsabilidade, se provarem que os fatos prejudiciais aos viajantes ou hóspedes não podiam ter sido evitados, como nas hipóteses de culpa do hóspede, que esqueceu a porta do quarto aberta, ou de roubo à mão armada.
A obrigação legal dos hoteleiros restringe-se aos bens que, habitualmente, costumam levar consigo os que viajam, como roupas e objetos de uso pessoal, não alcançando quantias vultosas ou jóias, exceto se o hóspede fizer depósito voluntário junto à administração do hotel (a maioria dos hotéis oferece cofres para o depósito de objetos valiosos).
 
5. Obrigações das partes.
5.1. Obrigações do depositante.
No depósito gratuito, o contrato aperfeiçoa-se com a entrega da coisa, após a qual só o depositário terá obrigações. Nesse caso é unilateral. Por conseguinte, eventuais