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<p>1</p><p>FONOLOGIA E ESCRITA</p><p>Cristiane Carneiro Capristano</p><p>Introdução</p><p>Os professores que trabalham com o ensino de Língua Portuguesa,</p><p>independentemente da série, com frequência se deparam com a presença de</p><p>erros de ortografia nos textos de seus alunos. O texto apresentado a seguir</p><p>contém exemplos de erros ortográficos bastante comuns que podem ser</p><p>identificados em textos de crianças, de adolescentes e de adultos em</p><p>processo de ensino-aprendizagem:</p><p>Texto 011</p><p>1 Esse texto foi elaborado por um aluno que, à época da produção textual, frequentava a</p><p>quinta série do ensino fundamental de uma escola pública. Essa produção textual faz parte</p><p>do Banco de Dados de Escrita do Ensino Fundamental-II que resulta do Projeto de</p><p>Extensão Universitária Oficinas de Leitura, Interpretação e Produção Textual – PROEX-</p><p>UNESP – coordenado pelas Profas Dras Luciani Tenani e Sanderléia Longhin-Thomazi</p><p>(UNESP/São José do Rio Preto). Agradeço a Geovana Soncin por ter gentilmente fornecido</p><p>essa produção textual.</p><p>CAPRISTANO, C. C.. Fonologia e escrita. In: Juliano Desiderato Antonio; Sônia Benites. (Org.). Fonética e Fonologia. 21ed.Maringá: Eduem, 2011, v. , p. 63-86.</p><p>2</p><p>Erros de ortografia2 como os realçados nesse texto colocam em</p><p>evidência, dentre outros fatos, que os escreventes ainda não estão</p><p>plenamente envolvidos pela dinâmica da escrita convencional ou, ainda, que</p><p>não dominam certas regras da escrita convencional do português brasileiro</p><p>(doravante PB). Quando os professores trabalham com alunos cujos textos</p><p>apresentam erros como esses, precisam desenvolver estratégias e atividades</p><p>que auxiliem esses alunos a conhecerem e refletirem sobre o funcionamento</p><p>convencional da nossa escrita, para propiciar a esses alunos oportunidade de</p><p>escrever de acordo com o que é esperado pelas convenções escritas do PB.</p><p>O trabalho desses professores somente será eficaz caso eles próprios</p><p>conheçam, de forma efetiva, o funcionamento convencional da escrita do</p><p>PB, bem como o funcionamento da escrita de seus alunos, funcionamentos</p><p>esses que, em muitos aspectos, estão intimamente ligados a fatos do sistema</p><p>fonológico da língua.</p><p>Esse relacionamento íntimo entre escrita e fonologia fica</p><p>evidenciado quando se observam alguns traços que caracterizam escritas</p><p>como a do PB, por exemplo, a propriedade que essas escritas têm de</p><p>apreensão e de segmentação da “dimensão sonora e [das] unidades</p><p>significantes do enunciado oral” (CORRÊA, 2004, p.11-2). É, pois, parte da</p><p>dimensão simbólica dessas escritas a tentativa, ao mesmo tempo satisfatória</p><p>e imperfeita (CORRÊA, 2004, p.11-2), de representar certas unidades dos</p><p>enunciados orais. Dizer que é uma tentativa de representação e que essa</p><p>tentativa é satisfatória e, ao mesmo tempo, imperfeita é colocar em</p><p>perspectiva o fato de que escritas como a nossa, embora busquem</p><p>2 Em linhas bastante gerais, podemos afirmar que a ortografia constitui um conjunto de</p><p>normas que regulariza o modo como cada palavra da língua deve ser escrita. Pensada</p><p>relativamente à história de constituição dos sistemas de escrita, a ortografia é, também, uma</p><p>invenção relativamente recente. Segundo Cagliari (1994, 1995), seu estabelecimento</p><p>resultou de mudanças ocorridas nas práticas sócio-culturais de uso da escrita, como a</p><p>proliferação dos meios de comunicação de massa e o avanço da escolarização. Esses fatos</p><p>sócio-históricos impuseram a necessidade de uma forma unificada de escrever. Vale</p><p>destacar que, há trezentos anos, línguas como o francês e o espanhol não tinham ainda uma</p><p>ortografia. No caso da Língua Portuguesa, foi apenas no início do século XX que se</p><p>fixaram as normas ortográficas no Brasil e em Portugal. O leitor/aluno encontrará uma</p><p>vasta bibliografia sobre a história, o funcionamento e sobre o ensino-aprendizagem da</p><p>ortografia. Sem a pretensão de fazer uma listagem exaustiva, sugerimos a consulta aos</p><p>trabalhos de Cagliari (1994, 1995, 1999) e de Moraes (2000, 2005).</p><p>3</p><p>representar unidades dos enunciados orais, não são materializações fieis e</p><p>exatas desses enunciados.</p><p>Considere-se, a título de exemplificação, uma palavra como porta.</p><p>Essa palavra pode ser pronunciada no PB de diferentes formas, a depender</p><p>da variedade sociolinguística do falante, como, por exemplo: [pX'ta],</p><p>[ph'ta], [pɾ'ta], [pɹ'ta]. Entretanto, existe apenas uma única forma</p><p>convencional de escrevê-la: porta. Isso indica que, na nossa escrita, os</p><p>grafemas não representam diretamente os sons da fala. Essa representação é</p><p>atravessada e condicionada por regras ortográficas, muitas das quais são</p><p>baseadas na organização do sistema fonológico da língua.</p><p>Preferimos utilizar a palavra “grafema”, como definida em Scliar-</p><p>Cabral (2003), em vez de “letra” por entendermos que esse conceito</p><p>responde mais adequadamente às relações que queremos colocar em</p><p>evidência neste capítulo. Para Scliar-Cabral (2003), o grafema corresponde</p><p>a uma ou duas letras que representam um fonema. Com essa definição, os</p><p>dígrafos (como ch, nh, qu etc.) correspondem a um grafema, ao mesmo</p><p>tempo em que a letra H, em palavras como hoje, não constitui um grafema,</p><p>já que não corresponde a nenhum fonema.</p><p>Várias evidências de que a relação entre grafemas e fonemas é</p><p>atravessada e condicionada por regras baseadas na organização do sistema</p><p>fonológico da língua são apresentadas por Scliar-Cabral (2003, p. 73). A</p><p>autora destaca, por exemplo, a representação ortográfica do arquifonema</p><p>/R/. Como já debatido em capítulos anteriores, a oposição entre o fonema</p><p>/R/ (R-forte) e o fonema /r/ (r-fraco), no PB, só ocorre em posição</p><p>intervocálica. Nos outros contextos, como em início de vocábulo (rato),</p><p>seguido de consoante na mesma sílaba (prato), seguido de consoante em</p><p>outra sílaba (Israel) e em todas as realizações do arquifonema /R/ em</p><p>posição pós-vocálica (porta e compor), não há oposição. A representação</p><p>gráfica, nesses casos, é sempre a mesma: usamos o grafema <R>. A</p><p>ortografia apenas registra a oposição significativa na língua: o /R/ (R-forte)</p><p>é registrado pelo grafema <RR> e o /r/ (r-fraco) é registrado pelo grafema</p><p>4</p><p><R> na posição intervocálica em que a oposição é distintiva – como em</p><p>carro X caro e carreta X careta.</p><p>O propósito deste capítulo é justamente o de desenvolver algumas</p><p>discussões que poderão servir como ponto de partida para que o leitor/aluno</p><p>reflita sobre possibilidades de relação entre fonologia e escrita tal como a</p><p>apresentada acima e, consequentemente, tenha oportunidade de pensar sobre</p><p>o efeito desse conhecimento teórico para o ensino de Língua Portuguesa. A</p><p>partir da análise de erros ortográficos, examinaremos, especialmente,</p><p>aspectos do funcionamento da escrita do PB que estão mais diretamente</p><p>relacionados ao que poderíamos chamar de dimensão “tecnológica” da</p><p>escrita, ou seja, focamo-nos em alguns traços que distinguem seu material</p><p>significante (o funcionamento de grafemas, por exemplo). Salientamos,</p><p>entretanto, que a escrita não se reduz a essa sua dimensão.</p><p>Este capítulo está organizado da seguinte maneira: primeiramente,</p><p>será feita uma reflexão sobre algumas relações entre fonologia e escrita</p><p>vistas a partir do que se pode chamar de dimensão segmental da língua,</p><p>momento no qual são examinadas relações que se podem estabelecer entre</p><p>fonemas e grafemas. Feita essa reflexão, procurar-se-á mostrar que os</p><p>vínculos entre escrita e fonologia não se restringem à dimensão segmental</p><p>da língua. Serão apresentadas algumas noções a respeito da organização</p><p>prosódica da língua/linguagem e como essa pode determinar ou influenciar</p><p>sua dimensão gráfica. O capítulo será finalizado com algumas indicações de</p><p>que, embora muitas características da nossa escrita estejam ancoradas em</p><p>características do nosso sistema fonológico, não é apenas a informação</p><p>fonológica que define</p><p>as regularidades da nossa escrita.</p><p>Convém ressaltar, por fim, que as considerações que serão feitas ao</p><p>longo do capítulo pressupõem, principalmente, discussões feitas em</p><p>capítulos anteriores a propósito das características e da organização do</p><p>sistema fonético-fonológico do PB.</p><p>5</p><p>As relações entre grafemas e fonemas: biunivocidade</p><p>Uma relação possível entre fonologia e escrita é aquela que se</p><p>desenha quando observamos vínculos entre grafemas e fonemas. No PB,</p><p>quando se observam esses vínculos, encontra-se um tipo de relação que</p><p>Lemle (2010) nomeia como biunívoca. As relações biunívocas ocorrem</p><p>quando um fonema tem apenas uma representação gráfica e uma</p><p>representação gráfica corresponde a apenas um fonema. É o caso da relação</p><p>entre o grafema <B> e o fonema /b/. Independentemente das posições</p><p>ocupadas por esse fonema na palavra – em início (belo), no meio (cabelo),</p><p>ou no final de palavra (Caribe) –, ou na sílaba – em sílabas simples, do tipo</p><p>CV, como bato ou em sílabas complexas, CCV, como bravo – ele sempre</p><p>será representado pelo grafema <B>. E mais: na nossa escrita, o grafema</p><p><B> jamais representa outro segmento que não seja o fonema /b/3.</p><p>Esse tipo de relação ocorre com outros segmentos consonantais. No</p><p>quadro abaixo, são apresentados mais alguns exemplos:</p><p>FONEMA GRAFEMA EXEMPLOS</p><p>/p/ ‘p’ pelo, tapete, preto</p><p>/f/ ’f’ feliz, afeto, fraco</p><p>/v/ ‘v’ vaca, cavalo, lavrador</p><p>/t/ ‘t’ taco, cato, trevo</p><p>/d/ ‘d’ dor, medo, catedral</p><p>Conforme já se viu em capítulos anteriores, em algumas variedades</p><p>sociolinguísticas do PB, as oclusivas /t/ e /d/ são realizadas foneticamente</p><p>como africadas ([ʧ] e [ʤ], respectivamente), quando seguidas de [i] e suas</p><p>3 É necessário notar que, na nossa escrita, em alguns casos, como nas palavras subterrâneo,</p><p>objeto, abdome (ou abdômen), o grafema <B> representa não apenas o fonema, mas a</p><p>sílaba [bi]. Esse fenômeno ocorre também com outros grafemas, como o grafema <P> (em</p><p>aptidão, optativo, apnéia), <T> (em rítmico, atmosfera), <D> (advocacia, administração),</p><p><F> (em oftalmologista, aftosa), <C> (em cacto, tecnologia), <G> (agnóstico, enigma),</p><p><M> (mnemônico, amnésia). Cf., no capítulo 2, o tópico que trata dos padrões silábicos do</p><p>português.</p><p>6</p><p>variantes, como em típico, ética, bate e dízimo, adiar, balde, por meio de</p><p>processo de palatalização. Em ambos os casos, vêem-se realizações</p><p>fonéticas distintas representadas na ortografia por um único símbolo gráfico</p><p>(<T>, no primeiro caso, <D>, no segundo) que coincide com a realização do</p><p>fonema no sistema fonológico.</p><p>Ao contrário do que se poderia supor, o fato de a representação</p><p>gráfica de fonemas tais como os apresentados no quadro acima ser</p><p>biunívoca – tanto do ponto de vista de sua codificação (produção escrita)</p><p>quanto do ponto de vista de sua decodificação (leitura) – não é condição</p><p>suficiente para que inexistam problemas ortográficos relacionados à</p><p>utilização desses grafemas. É sempre possível encontrar escreventes que</p><p>utilizam esses grafemas de forma não prevista pelas convenções. É</p><p>apresentado, a seguir, um trecho de um texto produzido por uma criança da</p><p>primeira série do ensino fundamental de uma escola da rede pública</p><p>municipal de São José do Rio Preto (SP)4 que contém exemplos de erros</p><p>ortográficos relacionados aos grafemas que estamos examinado. O texto</p><p>constitui um diálogo, numa situação de conflito, entre um gato, um rato e</p><p>um cachorro:</p><p>Texto 025</p><p>4 Exemplo retirado e adaptado do trabalho de CAPRISTANO, C. C. Aspectos de</p><p>segmentação na escrita infantil. São Paulo: Martins Fontes, 2007.</p><p>5 Leitura possível (as // indicam mudança de linha): — Vou dormir. — Eu também.// —</p><p>Aaaaaaaaaaaaaaah! Oi cachorro.// — Grrrrrrrrrrrrrrrr. — Calma cachorrinho...// — Grrrr.</p><p>— Socorro, socorro...// — Aaah! — Socorro... — Ei! É a voz //do gato. Vou lá ver o// que</p><p>está acontecendo...// — Socorro... — Espera gato...// vai deitar... — Você salvou// a minha</p><p>vida. E eles viveu muito feliz.//Fim.</p><p>7</p><p>As palavras que foram sublinhadas nesse texto contêm oscilações</p><p>entre o uso dos grafemas <F> e <V>: ora o aluno escreve de forma</p><p>adequada às convenções escritas, como em vou, viveu, ver, vita (vida), ora</p><p>não, como em afois (a voz), fai (vai), veliz (feliz). As palavras circuladas,</p><p>por sua vez, contêm oscilações entre os grafemas <T> e <D>: ora o aluno</p><p>escreve de forma adequada às convenções escritas, como em gato, teitar</p><p>(deitar), dormir, ta bei (também), ora não, como em teitar (deitar), vita</p><p>(vida), acomdoceido (acontecendo) etc.</p><p>Na nossa escrita, os grafemas <F> e <V> representam elementos</p><p>consonantais que têm em comum uma série de traços6 – esses segmentos</p><p>consonantais teriam em comum traços como <-soante; -silábico;</p><p>+consonantal; -coronal; +anterior; +contínuo>. O único traço que diferencia</p><p>esses fonemas é o traço de sonoridade: enquanto /f/ é [- sonoro], /v/ é [+</p><p>sonoro]. No PB, /f/ e /v/ se aproximam também quanto a sua distribuição,</p><p>uma vez que eles podem ocorrer apenas na posição inicial de sílabas simples</p><p>ou complexas ([fa]ca, [fɾa]co, [va]ca, li[vɾ]). Analogamente, na nossa</p><p>escrita, os grafemas <T> e <D> representam elementos consonantais que</p><p>têm em comum uma série de traços <-soante; -silábico; +consonantal;</p><p>+coronal; +anterior; -contínuo>. O único traço que diferencia esses fonemas</p><p>homorgânicos (cf. capítulos anteriores) é o traço de sonoridade: enquanto /t/</p><p>é [- sonoro], /d/ é [+ sonoro]. No PB, /T/ e /D/ se aproximam também</p><p>quanto a sua distribuição, uma vez que eles podem ocorrer apenas na</p><p>posição inicial de sílabas simples ou complexas ([ta]co, [tɾo]ca, [da]ta,</p><p>qua[dɾ]). Além disso, os fonemas /t/ e /d/, no PB, estão sujeitos, conforme</p><p>afirmamos acima, a processo de africação e palatalização, já que podem ser</p><p>6 Segundo Hernandorena (2001), os traços têm uma feição fonética e uma feição</p><p>fonológica. Quando se trata de sua feição fonológica “(...) os traços são marcadores</p><p>classificatórios abstratos, que identificam itens lexicais da língua. Nesse nível os traços</p><p>captam os contrastes fonológicos da língua. Por terem função classificatória, distintiva, os</p><p>traços são binários no modelo de Chomsky e Halle, isto é, cada traço é definido por dois</p><p>pontos na escala física, representando um a presença, o outro, a ausência da propriedade.</p><p>Tomando-se, como exemplo, a ‘sonoridade’, tem-se a representação no nível fonológico de</p><p>apenas dois valores: [+sonoro] e [-sonoro] (...)” (HERNANDORENA, 2001, p. 17-18,</p><p>grifo do autor).</p><p>8</p><p>realizados respectivamente como [ʧ] e [ʤ]). Assim, tanto /f/ e /v/ quanto /t/</p><p>e /d/ podem ser associados por sua distribuição no sistema fonológico da</p><p>língua e por compartilharem a maioria de suas características fonológicas,</p><p>diferenciando-se por apenas uma: o traço de sonoridade.</p><p>Provavelmente, é a proximidade entre /f/ e /v/, por um lado, e a</p><p>proximidade entre /t/ e /d/, por outro, que leva o produtor do texto acima a</p><p>oscilar na tarefa de registrar graficamente palavras que contêm esses</p><p>fonemas ou, mais especificamente, é essa proximidade que o leva a usar</p><p>grafemas que representam fonemas desvozeados (<F> e <T>) no lugar que</p><p>convencionalmente se esperaria grafemas que representam fonemas sonoros</p><p>ou vozeados (<V> e <D>) e vice-versa7. A sobreposição e/ou apagamento</p><p>de grafemas nas palavras muto X mudo (muito) e saufo X sauvo (salvou),</p><p>também destacadas acima, podem ser pensados como registros ainda mais</p><p>evidentes do conflito da criança na escolha entre esses diferentes elementos</p><p>em concorrência, que estão em relação associativa.</p><p>A relação entre grafemas e fonemas: previsibilidade versus</p><p>imprevisibilidade.</p><p>Ao lado das relações entre grafemas e fonemas nomeadas como</p><p>biunívocas, encontramos relações chamadas</p><p>por Lemle (2010) de múltiplas.</p><p>Essas relações múltitplas podem ser totalmente imprevisíveis ou</p><p>determinadas por informações contextuais.</p><p>Para refletir sobre as relações de natureza imprevisível, apresenta-se,</p><p>logo a seguir, um diálogo entre uma professora e um aluno de educação</p><p>7 Cagliari (1999, p. 363) aventa a possibilidade de ocorrer um processo de desvozeamento</p><p>das consoantes vozeadas, nos casos em que o escrevente usa grafemas que representam</p><p>fonemas desvozeados (<F> e <T>) no lugar que convencionalmente se esperaria grafemas</p><p>que representam fonemas sonoros ou vozeados (<V> e <D>). Para ele, os escreventes, no</p><p>momento de elaboração de seus enunciados escritos, podem ter sussurrado as palavras que</p><p>contêm fonemas sonoros, processo que levaria esses fonemas a serem produzidos sem</p><p>vozeamento.</p><p>9</p><p>infantil, diálogo que tem como tema a grafia do fonema /z/. O exemplo foi</p><p>recolhido de Chacon (2006a, p. 257):</p><p>Texto 03</p><p>Ao escrever a palavra “televisão”, um aluno (A) pergunta:</p><p>A: Professora, como escreve o “são”?</p><p>A professora o questiona:</p><p>P: Como você acha?</p><p>Nova pergunta:</p><p>A: É o “z” e o “ão”?</p><p>A professora responde:</p><p>P: Tem som de “z”, mas se escreve com “s”.</p><p>Ele reflete (em voz alta):</p><p>A: O “s” e o “ão”...</p><p>Nesse diálogo, a dúvida da criança incide sobre a seleção de um</p><p>grafema para representar o fonema /z/ em posição intervocálica. Em casos</p><p>como esse, os grafemas <S> e <Z> (apontados pelas crianças) e o grafema</p><p><X> estão em competição e, portanto, todos podem ocorrer, como</p><p>exemplificam as palavras mesada, mezanino, desabafar, dezembro, exame,</p><p>exausto etc. Segundo Chacon (2006a), não existem informações contextuais</p><p>(fonológico-ortográficas ou morfológico-ortográficas) que favoreçam a</p><p>escolha entre um desses grafemas: é, pois, um caso de relação</p><p>grafema/fonema imprevisível. É importante salientar que, para os</p><p>escreventes, essa impresivibilidade pode constituir um problema apenas do</p><p>ponto de vista da sua codificação, mas não do ponto de vista da sua</p><p>decodificação. Chacon (2006a) afirma que, no processo de decodificação,</p><p>uma das tarefas do processo de leitura, é relativamente fácil para os</p><p>escreventes entenderem que em palavras como casa e televisão o grafema</p><p><S> “tem som de /z/”.</p><p>Vejamos outro tipo de relação imprevisível a partir dos exemplos</p><p>circulados no texto a seguir, produzido por um aluno da segunda série do</p><p>ensino fundamental:</p><p>10</p><p>Texto 048,9</p><p>Nesse texto, todos os erros ortográficos circulados derivam da</p><p>impossibilidade de prever, a partir de informações contextuais (fonológico-</p><p>ortográficas ou morfológico-ortográficas), qual grafema deve ser utilizado.</p><p>O caso da palavra sosinha é idêntico ao caso da palavra televisão examinado</p><p>acima. Por sua vez, o que permite ao escrevente grafar as palavras</p><p>apaixonado e bruxinha como apaichonado e bruchinha é o fato de o</p><p>fonema /ʃ/, em início de vocábulo ou em posição intervocálica oral ou</p><p>nasalizada, poder ser escrito com os grafemas <CH> ou <X>, como</p><p>exemplificam as palavras chaleira, xadrez, chão, chegar, xerife, chinelo,</p><p>xícara, chocolate, baixo, caxumba, chuva etc.</p><p>O diálogo abaixo, recolhido de Chacon (2006a, p. 255-256), também</p><p>exemplifica a relação que estamos examinando:</p><p>8 Essa produção textual (assim como outras que serão apresentadas ao longo deste capítulo)</p><p>faz parte de um Banco de Dados de escrita infantil organizado pelo Grupo de Pesquisa</p><p>Estudos sobre a linguagem (CNPq), coordenado pelo Prof.Dr. Lourenço Chacon Jurado</p><p>Filho. Leitura possível (as // indicam mudança de linha; os trechos entre colchetes duplos</p><p>indicam suposições que fizemos para atribuir sentido ao texto): O elefante apaixonado//</p><p>Tinha uma bruxinha que estava// sozinha quando ela ouviu //um barulho de pés de</p><p>elefante// ela ouviu um ruído de elefante//quando apareceu uma tromba e// uma cabeça de</p><p>um elefante ela falou//o que você [[quer]] de mim? Ele deu beijo// nela. Ele ficou</p><p>envergonhado//.</p><p>9 Texto recolhido do Banco de Dados mencionado na nota 8. Leitura possível (as //</p><p>indicam mudança de linha; os trechos entre colchetes duplos indicam suposições que</p><p>fizemos para atribuir sentido ao texto): O elefante apaixonado// Tinha uma bruxinha que</p><p>estava// sozinha quando ela ouviu //um barulho de pés de elefante// ela ouviu um ruído de</p><p>elefante//quando apareceu uma tromba e// uma cabeça de um elefante ela falou//o que você</p><p>[[quer]] de mim? Ele deu beijo// nela. Ele ficou envergonhado//.</p><p>11</p><p>Texto 05</p><p>Um aluno (A1) foi escrever a palavra “laranja” na lousa, sem conseguir. A</p><p>professora pede, então, auxílio à classe. Depois de escrever “laran”,</p><p>perguntou:</p><p>P: Classe, como eu escrevo “ja”?</p><p>Um outro aluno (A2) respondeu:</p><p>A2: É o “g” e o “a”.</p><p>A professora escreveu tal como A2 sugeriu. Ao ver na lousa a escrita</p><p>sugerida por A2, imediatamente A1 disse:</p><p>A1: Isso é o “ga”.</p><p>Percebendo o erro, vários alunos (AC) disseram em coro:</p><p>AC: É o “j” e o “a”.</p><p>Segundo Chacon (2006a), no diálogo acima, a dúvida das crianças</p><p>está, dentre outros fatos, relacionada à correspondência entre um fonema</p><p>específico // e duas possibilidades ortográficas de seu registro em nossa</p><p>escrita: os grafemas <G> e <J>. Na nossa escrita, tanto o grafema <G></p><p>quanto o grafema <J> podem representar o fonema // quando aparecem</p><p>antes de vogais não-posteriores, orais ou nasalizadas, ou seja, antes de /i/,</p><p>/e/, /Ɛ/, /ĩ/, /ẽ/, como exemplificam as palavras ginástica, canjica, geladeira,</p><p>jenipapo, acarajé, gélido, gincana, jinsém, gente, pajem (cf. SCLIAR-</p><p>CABRAL, 2003, p. 162-3). Também nesse caso não existem informações</p><p>contextuais que permitam a escolha por um ou outro grafema.</p><p>É importante ressaltar, entretanto, que o diálogo acima também</p><p>coloca em evidência outra possibilidade de relação entre grafemas e</p><p>fonemas. Como destaca Chacon (2006a), na observação de A1 e, sobretudo,</p><p>na resposta de vários alunos (AC) da sala, é possível constatar indícios de</p><p>“(...) alguma forma de conhecimento, por parte desses alunos, de que os</p><p>valores fonológicos que podem ser atribuídos aos grafemas dependem, em</p><p>alguns casos, do contexto em que os grafemas ocorrem” (CHACON, 2006a,</p><p>p. 256). Segundo o autor, a resposta de vários alunos pode estar relacionada</p><p>ao valor que um grafema pode assumir a depender do contexto escrito em</p><p>que aparece (SCLIAR-CABRAL, 2003): o grafema <G>, diante dos</p><p>12</p><p>grafemas <A>, <O>, <U>, não corresponde ao fonema //, mas, sim, ao</p><p>fonema /g/, como exemplificam as palavras gato, gorila e guloso. E não só.</p><p>Existem outros contextos em que esse grafema deve ser lido como uma</p><p>realização do fonema /g/, como, por exemplo, antes dos grafemas <L> e</p><p><R>, nos encontros consonantais (grato, glória)10.</p><p>Assim, ao lado das relações múltiplas imprevisíveis, existem relações</p><p>múltiplas que podem ser previstas, uma vez que dependem do contexto em</p><p>que o fonema ou o grafema ocorre. Ou seja, são casos em que um fonema</p><p>pode ser representado por mais de um grafema e a decisão entre um ou outro</p><p>grafema é regulada por informações contextuais, ou, ainda, casos em que</p><p>um grafema pode representar diferentes fonemas e a descoberta de qual</p><p>fonema está sendo representado é regulada também por informações</p><p>contextuais. Vejamos outro texto com exemplos em que esse tipo de relação</p><p>previsível ocorre:</p><p>Texto 0611</p><p>Nesse texto, produzido por um aluno da primeira série do ensino</p><p>fundamental, os erros ortográficos circulados – cuadu (quando), qou (com) e</p><p>mediqu (médico) – derivam de possibilidades de representação do fonema</p><p>/k/. Esse fonema pode ser representado pelos grafemas <C> e <QU>, como</p><p>exemplificam as palavras casa, correr, Curitiba, quero, aquilo. A decisão</p><p>10 Para maiores informações sobre os contextos em que o grafema <G> constitui uma</p><p>realização</p><p>do fonema /g/, verificar Scliar-Cabral (2003, p. 91).</p><p>11 Texto recolhido do Banco de Dados mencionado na nota 8. Leitura possível (as //</p><p>indicam mudança de linha; os trechos entre dois colchetes indicam suposições que fizemos</p><p>para atribuir sentido ao texto): Dia 5 de abril de 2001// Nome// Que a gente deve fazer</p><p>quando a gente [es]tá com dor// de ouvido. Dor de ouvido? Tem que levar no médico.</p><p>13</p><p>por um ou outro grafema estará condicionada ao contexto fonológico.</p><p>Segundo Scliar-Cabral (2003), essa consoante será escrita com o grafema</p><p><C> nos seguintes casos: (a) no início de sílaba antes de /l/ ou /r/, em</p><p>sílabas complexas como em claro, clérigo, clemência, clima, clonar, cloro,</p><p>clube e cravo, creche, credencial, criança, croata, crosta, cruzeiro; e (b)</p><p>antes de vogal posterior, oral ou nasalizada, que não possua o traço [+ alta],</p><p>ou seja, antes de /o/, //, /a/ /õ/, /ã/, como em coisa, cola, casa, compra, cão.</p><p>Por sua vez, a consoante /k/ será escrita com QU antes de vogais não-</p><p>posteriores, orais ou nasalizadas, ou seja, antes de /i/, /e/, /Ɛ/, /ĩ/, /ẽ/, como</p><p>exemplificam as palavras quitanda, aquele, quero, quintal, esquente.</p><p>Convém notar, entretanto, que a escrita da consoante /k/, às vezes, é</p><p>imprevisível, ou seja, em alguns casos não é possível prever qual grafema</p><p>deve representar esse fonema. Assim, essa consoante pode ser escrita como</p><p>o grafema <C> ou <QU> antes de /u/ ou da semivogal /w/ – ambos fonemas</p><p>posteriores – como exemplificam palavras tais como recuo, oblíquo, quarto,</p><p>coalizão, incoerente, adequei (cf. SCLIAR-CABRAL, 2003, p. 125).</p><p>Vejamos um último texto com exemplos de fatos relacionados à</p><p>previsibilidade das relações entre grafemas e fonemas que estamos</p><p>examinando:</p><p>Texto 0712</p><p>12Texto recolhido do Banco de Dados mencionado na nota 8. Leitura possível (as //</p><p>indicam mudança de linha; os trechos entre colchetes duplos indicam suposições que</p><p>fizemos para atribuir sentido ao texto): Dia 13 de junho de 2001// Nome// O rato do campo</p><p>e o//rato da cidade// Um dia, o rato do campo//recebeu uma carta do // seu primo da</p><p>cidade.//O rato do campo abriu a carta//e leu e [[es]]tava escrito que// era convidado para</p><p>jantar// em sua casa, hora marcada//e sem atraso. Chegando [[lá o]] rato//do campo mal</p><p>conseguia// falar e estava servindo a// mesa, naquele banquete, e ouviram//um barulho na</p><p>po[[rta]] e saíram// correndo mas parecia que não//era nada e puderam com//tinuar o</p><p>banquete e de novo//outro barulho bem mais forte// e depois disso o rato do campo//foi</p><p>embora.</p><p>14</p><p>No texto 07, produzido por um aluno da primeira série do ensino</p><p>fundamental, as palavras destacadas permitem observar oscilações entre o</p><p>uso dos grafemas <M> e <N>, em posição final de sílaba não-final: ora o</p><p>aluno escreve de forma adequada às convenções escritas, como em jantar,</p><p>chegando¸ banquete, ora não, como em inbora (embora), canpo (campo),</p><p>com vidado (convidado). Essas oscilações são resultado do fato de esse</p><p>escrevente ainda não dominar uma das regras que constituem a escrita do</p><p>PB. Segundo Scliar-Cabral (2003, p. 76), “a representação gráfica da</p><p>distribuição complementar das variantes das vogais nasalizadas</p><p>condicionada pela consoante que inicia a sílaba seguinte foi claramente</p><p>registrada no sistema alfabético do português”. Na nossa escrita, a</p><p>nasalização da vogal em final de sílaba não-final (como em campo e canto),</p><p>15</p><p>antes das consoantes /p/ e /b/ [+ anteriores e – coronais] que iniciem sílaba</p><p>seguinte é codificada pelo grafema <M>. Antes das demais consoantes, a</p><p>nasalização é assinalada pelo grafema <N>. Scliar-Cabral (2003, p. 148)</p><p>salienta ainda que, nessa forma de codificação, “aplicou-se o princípio</p><p>binário da marcação num dos contextos, ou seja, grafar com ‘m’ a</p><p>nasalização da vogal precedente se a esta se sucederem as [-cont, +ant, -cor]</p><p>/p/ e /b/ (ou seja, as bilabiais) (...)”, deixando os demais contextos</p><p>reservados para o grafema <N>.</p><p>Poderíamos, certamente, examinar outras formas de relação entre</p><p>grafemas e fonemas tais como as que viemos observando até aqui – tanto as</p><p>biunívocas quanto as múltiplas (previsíveis e imprevisíveis). Esgotar as</p><p>possibilidades de relação entre grafemas e fonemas não é, entretanto, o foco</p><p>deste capítulo. O nosso propósito é, sobretudo, o de examinar alguns fatos</p><p>que caracterizam as relações entre escrita e fonologia que possam servir</p><p>como ponto de partida (mas não de chegada!) para que o leitor/aluno reflita</p><p>sobre essas relações. Para maiores informações sobre os princípios que</p><p>regem a relação entre fonemas e grafemas do PB, o leitor/aluno pode</p><p>consultar os textos que foram citados ao longo das discussões feitas neste</p><p>capítulo.</p><p>Fonologia e escrita: para além da dimensão segmental</p><p>Antecipamos que as relações entre escrita e fonologia não se</p><p>restringem aquelas que se podem estabelecer entre fonemas e grafemas da</p><p>língua. Nesta seção, procurar-se-á justamente apresentar algumas noções a</p><p>respeito da organização prosódica da língua/linguagem e como essa</p><p>organização pode determinar ou influenciar sua dimensão gráfica.</p><p>Comecemos pensando no que podemos definir como organização</p><p>prosódica. O termo prosódia, em linhas bastante gerais, refere-se a um</p><p>conjunto de fenômenos fônicos que estaria “além ou ‘acima’</p><p>(hierarquicamente) da representação linear dos fonemas” (SCARPA, 1999,</p><p>p. 8). Atualmente, esse termo refere-se, segundo Scarpa (1999, p. 8), a uma</p><p>16</p><p>gama variada de fenômenos que englobam parâmetros de altura,</p><p>intensidade, duração, pausa, velocidade de fala, bem como o estudo dos</p><p>sistemas de tom e entoação, acento e ritmo das línguas naturais13.</p><p>Vários trabalhos no âmbito das pesquisas linguísticas têm se</p><p>dedicado a estudar fenômenos prosódicos da linguagem. Os chamados</p><p>estudos prosódicos são feitos em duas grandes direções: a partir de</p><p>perspectivas que poderíamos chamar de “mais fonéticas” ou de perspectivas</p><p>que poderíamos chamar de “mais fonológicas”.</p><p>Alguns estudos prosódicos de natureza “mais fonológica”, que aqui</p><p>nos interessam mais perto, têm se preocupado em estudar unidades da</p><p>língua mais vastas que os segmentos (consoantes e vogais), como, por</p><p>exemplo, a sílaba. Em linhas gerais, esses estudos partem do pressuposto de</p><p>que existiria uma organização prosódica da linguagem e que essa</p><p>organização estaria inscrita no próprio sistema da língua, sob a forma de</p><p>constituintes específicos, também chamados de domínios. Ou seja, esses</p><p>estudos fundamentam-se na noção de que a corrente fônica, embora</p><p>contínua, seria organizada hierarquicamente em constituintes prosódicos –</p><p>pensamos, aqui, em propostas como a de Nespor & Vogel (1986). Neste</p><p>capítulo, trataremos sucintamente de apenas três deles: a sílaba, o pé e a</p><p>palavra ou vocábulo fonológico, constituintes esses que julgamos relevantes</p><p>para pensar alguns fatos da relação entre fonologia e escrita.</p><p>Vimos, em capítulos anteriores, que a sílaba, do ponto de vista</p><p>fonético, corresponde a cada uma das emissões de ar que produzimos</p><p>enquanto falamos. Do ponto de vista fonológico, pudemos observar, nesses</p><p>mesmos capítulos, que a sílaba é o lugar de organização dos fonemas</p><p>consonantais e vocálicos. Ela também é considerada, pelas teorias</p><p>prosódicas, o constituinte basilar da hierarquia prosódica e “parte</p><p>constitutiva de regras de fonologia do português” (BISOL, 2001, p. 231).</p><p>Nos capítulos anteriores, vimos, igualmente, que as línguas</p><p>apresentam restrições no modo como os elementos consonantais e vocálicos</p><p>13 Cf. uma apresentação e descrição das características de alguns desses fenômenos em</p><p>CAGLIARI, L. C. Prosódia: algumas funções dos supra-segmentos. Cadernos de Estudos</p><p>Linguísticos. Campinas, 1992, p. 137-151.</p><p>17</p><p>que compõem a sílaba podem ser combinados, ou seja, cada língua segue</p><p>determinados princípios de organização. Assim, o número de segmentos e a</p><p>sequência dos segmentos na sílaba podem variar de língua para língua. Por</p><p>exemplo: a sequência /sl/, em inglês, pode ocorrer na margem direita de uma</p><p>sílaba, como na palavra slogan, mas não em português. No português, na</p><p>margem direita de sílabas complexas como CCV (C corresponde a um</p><p>segmento consonantal e V a um segmento vocálico), a primeira consoante</p><p>sempre será uma oclusiva ou uma fricativa labial e a segunda um /r/ ou um</p><p>/l/ como nas palavras blusa e prato.</p><p>Alguns erros ortográficos presentes em textos de crianças, de</p><p>adolescentes e de adultos em processo de ensino-aprendizagem colocam em</p><p>evidência justamente a dificuldade desses escreventes em organizar, na</p><p>escrita, os elementos que compõem as sílabas. Vejamos os exemplos</p><p>circulados nos dois textos abaixo, produzidos por alunos da primeira série</p><p>do ensino fundamental:</p><p>Texto 0914:</p><p>Texto 1015:</p><p>14 Texto recolhido do Banco de Dados mencionado na nota 8. Leitura possível (as //</p><p>indicam mudança de linha): Mãe, hoje eu vou falar sobre a orelha.//A orelha tem três</p><p>ossinhos, um se chama martelo//e o outro estribo e o último bigorna.</p><p>15 Texto recolhido do Banco de Dados mencionado na nota 8. Leitura possível (as //</p><p>indicam mudança de linha): A minha escola é legal. Renata o teu filho// deve ser uma</p><p>gracinha. Dudu, essa escola....//</p><p>18</p><p>Segundo Abaurre (2001), exemplos como os circulados nesses textos</p><p>não se referem meramente a problemas ortográficos tal como os que</p><p>examinamos no início deste capítulo, problemas ligados a dúvidas dos</p><p>escreventes quanto à escolha de um dentre alguns grafemas que podem, na</p><p>escrita do PB, representar determinado fonema. Para ela, estaríamos diante</p><p>de exemplos que indicam que a dúvida do escrevente está voltada para a</p><p>decisão sobre a posição que os segmentos devem ocupar na estrutura das</p><p>sílabas (cf. ABAURRE, 2001), ou seja, a decisão sobre em que ordem esses</p><p>segmentos devem aparecer. São, portanto, momentos em que os escreventes</p><p>têm dificuldade com a organização, na escrita, de um dos constituintes</p><p>prosódicos da língua: a sílaba.</p><p>Nos dados que estamos examinando, a dificuldade dos escreventes é</p><p>a de organizar, na escrita, os elementos que compõem sílabas do tipo CCVC</p><p>e VC. No exemplo 09, a criança seleciona adequadamente os grafemas que</p><p>deverão representar os fonemas que compõem a sílaba três, mas, no</p><p>momento de distribuir essa seleção, ela erra, produzindo têrs. O mesmo</p><p>ocorre com o exemplo em 10, mas, desta feita, com a palavra escola, escrita</p><p>como secola.</p><p>Outros tipos de erros ortográficos relacionados à organização</p><p>prosódica da língua bastante comuns na escrita de escreventes em processo</p><p>de ensino-aprendizagem são os que foram destacados no texto abaixo:</p><p>Texto 1116</p><p>16Texto recolhido do Banco de Dados mencionado na nota 8. Leitura possível (as//</p><p>indicam mudança de linha; os trechos entre colchetes duplos indicam suposições que</p><p>fizemos para atribuir sentido ao texto; os trechos entre colchetes simples indicam trechos</p><p>para os quais não pudemos atribuir sentidos): O rato do campo e o rato da cidade//era uma</p><p>vez um// rato da cidade mandou uma carta// pro rato do campo e o rato abriu// a carta</p><p>[ratido] e falou chamou ele// para ele almoçar. Ele aceitou// Tinha presunto e mussarela.</p><p>O rato// entrou na toca e não quis sair // O rato [[não]] quis sair porque senão// o gato ia:</p><p>miau!</p><p>19</p><p>Nesse texto, produzido por um aluno da primeira série do ensino</p><p>fundamental, os erros ortográficos referem-se a segmentações não previstas</p><p>pelas convenções ortográficas: ora o escrevente segmenta menos do que o</p><p>esperado por essas convenções, como dasidade (da cidade) acata (a carta) e</p><p>natoca (na toca), ora segmenta mais do que o esperado, como em a brio</p><p>(abriu), e le (ele) e a ceto (aceitou). Os primeiros erros são conhecidos</p><p>hipossegmentações17 e os segundos como hipersegmentações. Essas</p><p>segmentações não-convencionais obedecem, em grande parte, a princípios</p><p>que estão na base da organização do componente fonológico da língua em</p><p>constituintes prosódicos.</p><p>Os dados hipossegmentados, por exemplo, muito provavelmente,</p><p>derivam da atuação do constituinte conhecido como palavra fonológica ou,</p><p>ainda, como vocábulo fonológico. Vimos, no capítulo 2, que é possível</p><p>estabelecer uma diferença entre vocábulo fonológico e vocábulo formal (Cf.</p><p>CÂMARA, 1991). O primeiro é uma unidade da dimensão fonológica da</p><p>língua e, para Câmara (1991, p. 34), “(...) corresponde a uma divisão</p><p>espontânea na cadeia de emissão vocal” e deve ser definido em função da</p><p>presença de acento primário. O segundo é uma unidade da dimensão</p><p>17 Cagliari (1995, p. 142) também nomeia esse tipo de erro como de “juntura</p><p>intervocabular”.</p><p>20</p><p>morfológica e é identificado “(...) quando um segmento fônico se</p><p>individualiza em função de um significado específico que lhe é atribuído na</p><p>língua” (CÂMARA, 1991, p. 34).</p><p>No capítulo 2, observamos, também, que embora o vocábulo</p><p>fonológico e vocábulo formal possam ser equivalentes, eles não são</p><p>isomórficos. Assim, no PB, é possível que um vocábulo fonológico seja</p><p>menor que um vocábulo formal, como em guarda-chuva, sequência em que</p><p>temos apenas um vocábulo formal e dois fonológicos, ou, ainda, que um</p><p>vocábulo fonológico seja formado por dois vocábulos formais, como em a</p><p>casa, a mesa, fala-se etc. (CÂMARA, 1991, p. 37)18. A distribuição de</p><p>espaços em branco na escrita do PB baseia-se no que Câmara (1991) nomeia</p><p>como vocábulo morfológico. Assim, devemos delimitar, na escrita,</p><p>sequências de letras que tenham o estatuto morfológico de palavra.</p><p>Com base nessas considerações de Câmara (1991), podemos afirmar</p><p>que, nos exemplos que destacamos acima, o escrevente erra, provavelmente,</p><p>porque registra em sua escrita os limites dos vocábulos fonológicos</p><p>dacidade, natoca e acarta, quando deveria registrar os limites dos</p><p>vocábulos morfológicos da cidade, na toca e a carta.</p><p>Nos dados hipersegmentados, por sua vez, as rupturas não previstas</p><p>são feitas em pontos de delimitação de outros constituintes prosódicos: em</p><p>limites de sílabas a brio e e le e em limites de sílaba e pé a ceitou.</p><p>O pé é constituinte prosódico que se define pela relação de</p><p>dominância que se estabelece entre duas ou mais sílabas (cf. NESPOR e</p><p>VOGEL, 1986). Segundo Bisol (2001, p. 232), o pé é “(...) domínio de</p><p>muitas regras da fonologia do português, especificamente, das regras de</p><p>acento” das quais constitui a unidade basilar. Nas línguas naturais, a</p><p>estrutura do pé dependerá do tipo de relação que é estabelecida entre as</p><p>18 Segundo Bisol (2004), o estatuto do grupo constituído de uma palavra com acento e outra</p><p>ou outras sem acento, prosodicamente relacionadas (como fala-se e a mesa), é, ainda hoje,</p><p>uma questão bastante controversa na literatura a respeito da organização fonológica das</p><p>línguas. A autora destaca, por exemplo, que alguns fonólogos, como Nespor e Vogel</p><p>(1986), acreditam na existência de um grupo clítico, uma unidade prosódica subsequente à</p><p>chamada palavra fonológica, na qual se organizariam os monossílabos átonos (clíticos) e as</p><p>palavras fonológicas, postura que difere da adotada por Câmara (1991), por exemplo.</p><p>21</p><p>sílabas acentuadas (fortes) e não acentuadas (fracas) que constituem a</p><p>estrutura do pé. O fato de as hipersegmentações que estamos examinando</p><p>respeitarem a estrutura da sílaba e do pé – por exemplo, a (sílaba) ceito (pé)</p><p>– sugere que a organização prosódica desses constituintes estaria atuando</p><p>nas decisões da criança sobre como delimitar essas sequências.</p><p>Existem, certamente, outros fatores que podem determinar o</p><p>aparecimento de hipersegmentações.</p><p>Nos dados que estamos observando,</p><p>por exemplo, a inserção do escrevente em práticas letradas pode ter</p><p>permitido a ele reconhecer “palavras sob palavras”. Notar que, nesses dados,</p><p>parte das estruturas resultantes das segmentações não-convencionais</p><p>corresponde a palavras da língua, como, por exemplo, o “e” resultante da</p><p>hipersegmentação de “ele” que pode corresponder à conjunção “e”19.</p><p>Além dos erros ortográficos que destacamos acima, outro exemplo</p><p>de que a organização prosódica da língua pode determinar ou influenciar sua</p><p>dimensão gráfica está relacionado ao processo de leitura. Vejamos: a partir</p><p>de uma reflexão sobre algumas afirmações de Quirk et al. (1985 apud</p><p>CHACON, 2005) Chacon (2005, p. p. 78) salienta que</p><p>Pensando em leitores ouvintes, o que se pode inferir das palavras de</p><p>Quirk et al. é que uma condição fundamental de atribuição de sentidos</p><p>a sequências de palavras (ou mesmo de letras) é a de esses leitores</p><p>ouvintes organizarem tais sequências, durante a leitura, sob forma de</p><p>constituintes prosódicos (...) (grifo nosso).</p><p>Ou seja, a proposição de uma organização prosódica para a escrita é</p><p>um dos fatores que determinam nossos atos de leitura. Essa organização em</p><p>constituintes prosódicos exigida pela leitura é facilitada, segundo Chacon</p><p>(2005, p.78), pela existência de sinais de pontuação, uma vez que esses</p><p>sinais “(...) marcam graficamente (embora imperfeitamente) limites de</p><p>contornos rítmico-entonacionais com os quais uma sequência de palavras</p><p>escritas poderia ser enunciada oralmente”.</p><p>19 Para um aprofundamento das discussões sobre a relação entre organização prosódica da</p><p>língua e segmentações não-convencionais cf., a título de exemplificação, os trabalhos de</p><p>Chacon (2005, 2006b).</p><p>22</p><p>Assim, embora a pontuação não esteja relacionada unicamente a uma</p><p>tentativa de delimitar aspectos da organização prosódica da língua20, é parte</p><p>de seu funcionamento possibilitar uma organização prosódica para que</p><p>possamos atribuir sentidos às sequências com as quais lidamos em nossos</p><p>atos de leitura. Uma diferença na pontuação de um texto implica diferenças</p><p>na organização prosódica necessária para que ele possa ser lido, bem como</p><p>diferenças de sentido. Vejamos um exemplo: os versos abaixo, utilizados</p><p>por Nascimento (s/d, 173 apud CHACON, 1998, P. 118-119) para mostrar a</p><p>importância da pontuação:</p><p>Três belas que belas são</p><p>Querem por minha fé</p><p>Que eu diga qual delas é</p><p>Que ama o meu coração</p><p>Se obedecer à razão</p><p>Digo que amo Soledade</p><p>Não a Rosa cuja bondade</p><p>Ser humano não teria</p><p>Não aspiro à mão de Íria</p><p>Que não é linda beldade</p><p>Segundo Chacon (1998, p. 118-119), para exemplificar a relevância</p><p>da pontuação para a atribuição de sentidos para esses versos, Nascimento</p><p>(s/d, 173 apud CHACON, 1998, p. 119) faz a seguinte análise:</p><p>Para dizer-se que se ama Soledade, pontuamos assim:</p><p>Se obedecer à razão</p><p>Digo que amo Soledade.</p><p>Não a Rosa, cuja bondade</p><p>Ser humano não teria.</p><p>Não aspiro à mão de Íria</p><p>Que não é linda beldade.</p><p>Para dizer-se que se ama Rosa, usamos esta pontuação:</p><p>20 Segundo Chacon (1998), a presença de sinais de pontuação na escrita estaria ligada à</p><p>organização rítmica própria da escrita, sempre multidimensional, tendo em vista que</p><p>envolve, ao mesmo tempo, dimensões semânticas, morfossintáticas e prosódicas da língua.</p><p>23</p><p>Se obedecer à razão</p><p>Digo que amo Soledade?</p><p>Não. A Rosa cuja bondade</p><p>Ser humano não teria.</p><p>Não aspiro à mão de Íria</p><p>Que não é linda beldade.</p><p>Para dizer-se que se ama Íria, pontuamos desta maneira:</p><p>Se obedecer à razão</p><p>Digo que amo Soledade?</p><p>Não. A Rosa cuja bondade</p><p>Ser humano não teria?</p><p>Não. Aspiro à mão de Íria</p><p>Que não é linda beldade.</p><p>Para dizer-se que não se ama a nenhuma, empregamos esta pontuação:</p><p>Se obedecer à razão</p><p>Digo que amo Soledade?</p><p>Não. A Rosa cuja bondade</p><p>Ser humano não teria?</p><p>Não. Aspiro à mão de Íria?</p><p>Que!? Não é linda beldade.</p><p>Observa-se, portanto, que as mudanças na pontuação do verso</p><p>marcam alterações em sua organização prosódica que, por sua vez, resultam</p><p>em variações nos sentidos que atribuímos a esse texto.</p><p>Considerações finais: notas sobre as relações entre escrita e outros</p><p>subsistemas da língua.</p><p>Para finalizarmos este capítulo, gostaríamos de assinalar, conforme</p><p>adiantamos, que, embora muitas características da nossa escrita se ancorem</p><p>em características do nosso sistema fonológico, não é apenas a informação</p><p>fonológica que define a nossa escrita. Existem vários fatos que indicam, por</p><p>exemplo, vínculos entre organização morfológica da língua e sua</p><p>organização ortográfica. Para ficarmos em apenas um exemplo, vejamos os</p><p>textos abaixo – o texto 12 foi recolhido de Chacon (2006a, p. 256) e o texto</p><p>13 foi produzido por um aluno da segunda série do ensino fundamental:</p><p>24</p><p>Texto 12</p><p>Um aluno, ao escrever no caderno a palavra “bateu”, se questionou:</p><p>A: “Bateu” é com “l” ou “u”?</p><p>Depois de refletir um pouco, disse:</p><p>A: Ah, é claro que é com “u”.</p><p>Texto 1321</p><p>A dúvida manifestada pela criança do diálogo em 12 e as grafias</p><p>não-convencionais circuladas no texto em 13 colocam em cena o</p><p>funcionamento complexo, na nossa escrita, do grafema <U> e do grafema</p><p><L>, especialmente quando esses grafemas representam segmentos em</p><p>posição final de sílaba. De forma geral, o grafema <U> representa a vogal</p><p>/u/, oral ou nasalizada, em palavras como luta e mundo, ou a semivogal /w/,</p><p>em palavras como saudade, encontrou, sarau. O grafema <L>, em início de</p><p>sílaba simples, como em lata, ou como segundo elemento de sílabas</p><p>complexas, como em blusa, representa o fonema /l/. Em final de sílaba,</p><p>coincidente ou não com final de palavras, como em saltar, anzol, anel e</p><p>calma, esse grafema pode representar diferentes segmentos a depender da</p><p>variedade sociolinguística do falante. Desta forma, em grande parte dos</p><p>dialetos do PB, o grafema <L> dessas palavras representa a semivogal /w/.</p><p>21 Texto recolhido do Banco de Dados mencionado na nota 8.</p><p>25</p><p>Em outros poucos dialetos, ele se realiza como [ɫ] (algumas regiões do Rio</p><p>Grande do Sul) ou como [ɹ] (no chamado “dialeto caipira”).</p><p>Ocorre, portanto, que, em final de sílaba, que corresponde ou não a</p><p>final de palavras, tanto o grafema <U> quanto o grafema <L> podem</p><p>representar a semivogal /w/. A decisão entre um ou outro grafema, em geral,</p><p>não pode ser prevista, como em calma, causa, saudade, sal, varal, coube,</p><p>colchão. Em outros casos, a escolha entre um ou outro grafema pode ser</p><p>determinada por características morfológicas das palavras em que ocorrem.</p><p>Na nossa escrita, a terminação verbal da terceira pessoa do singular de</p><p>verbos regulares no pretérito perfeito do indicativo, tanto da primeira quanto</p><p>da segunda e da terceira conjugações, deve ser grafada com <U>, e não</p><p><L>, como em bateu, catou, cortou, colocou, saiu. Aqui, novamente, está</p><p>em jogo o valor contextual que se pode atribuir a um grafema da língua.</p><p>Nesse caso, entretanto, esse valor é dado por informações de caráter</p><p>morfológico: o sufixo número-pessoal dos verbos em questão.</p><p>Assim, para não ter mais dúvidas e escrever de forma convencional</p><p>palavras como bateu, catou, cortou, colocou e saiu, crianças, adolescentes e</p><p>adultos em processo de ensino-aprendizagem terão que aprender regras</p><p>ligadas ao sistema morfológico da língua.</p><p>Referências Bibliográficas</p><p>ABAURRE, M. B. M. Dados da escrita inicial: indícios de construção da</p><p>hierarquia de constituintes silábicos? In: HERNANDORENA, C. L. M.</p><p>(Org.). Aquisição de língua materna e de língua estrangeira: aspectos</p><p>fonético-fonológicos. Pelotas: EDUCAT/ ALAB, 2001, v. 1, p. 63-85</p><p>BISOL, L. (Org) Introdução a estudos de fonologia do português</p><p>brasileiro. Porto Alegre: EDIPUCRS,</p><p>2001. P. 11-89.</p><p>______. Mattoso Câmara Jr. e a palavra prosódica. D.E.L.T.A., v. 20</p><p>(especial), p. 59-70, 2004.</p><p>26</p><p>CAGLIARI, L. C. Algumas reflexões sobre o início da ortografia da Língua</p><p>Portuguesa. Cadernos de Estudos Linguísticos, Campinas, v. 27, p. 103-</p><p>111, 1995.</p><p>______. O que é ortografia? Anais do Seminário do GEL XXIII, p.552-</p><p>559, 1994.</p><p>______. Alfabetizando sem o ba-bé-bi-bó-bu.São Paulo: Editora Scipione,</p><p>1999.</p><p>CHACON, L. Ritmo da escrita: uma organização do heterogêneo da</p><p>linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1998.</p><p>______. Hipersegmentações na escrita infantil: entrelaçamentos de práticas</p><p>de oralidade e de letramento. Estudos Linguísticos (São Paulo), Campinas</p><p>(SP), v. XXXIV, p. 77-86, 2005.</p><p>______. Comentários sobre ortografia em aulas de alfabetização. Filologia e</p><p>Linguística Portuguesa, v. 8, p. 251-268, 2006a.</p><p>______. Prosódia e letramento em hipersegmentações: reflexões sobre a</p><p>aquisição da noção de palavra. In: CORRÊA, M. L. G.; BOCH, F. (org.).</p><p>Ensino de língua: representação e letramento. Campinas (SP): Mercado de</p><p>Letras, 2006b. p. 155-167.</p><p>_____. Para além de vínculos diretos entre características fonético-</p><p>segmentais e ortográficas na escrita infantil. Revista de Estudos da</p><p>Linguagem, v. 16, p. 215-230, 2008.</p><p>CORRÊA, M. L. G. Letramento e heterogeneidade da escrita no ensino de</p><p>português. In: SIGNORINI, I. (Org.) Investigando a relação oral /escrito e</p><p>as teorias do letramento. Campinas: Mercado de Letras, 2001, pp. 135-</p><p>166.</p><p>_____. O modo heterogêneo de constituição da escrita. São Paulo:</p><p>Martins Fontes, 2004.</p><p>HERNANDORENA, C. L. M. Introdução à teoria fonológica. In: BISOL, L.</p><p>(Org) Introdução a estudos de fonologia do português brasileiro. Porto</p><p>Alegre: EDIPUCRS, 2001. P. 11-89.</p><p>LEMLE, M. Guia teórico do alfabetizador. São Paulo: Ática, 2010.</p><p>27</p><p>MATTOSO CÂMARA Jr., Joaquim. Problemas de Linguística</p><p>Descritiva. Petrópolis: Vozes, 1991, 14 edição.</p><p>MORAES, A. G. Ortografia: ensinar e aprender. São Paulo: Ática, 2000.</p><p>______. Ortografia: esse peculiar objeto de conhecimento. In: _____.(Org)</p><p>O aprendizado da ortografia. Belo Horizonte: Autêntica, 2005, pp.07-19.</p><p>NESPOR, M.; VOGEL, I. Prosodic phonology. Dordrechet: Foris</p><p>Publications, 1986.</p><p>SCLIAR- CABRAL, L. Princípios do sistema alfabético do Português do</p><p>Brasil. São Paulo: Contexto, 2003.</p><p>PROPOSTA DE ATIVIDADE</p><p>1. No início deste capítulo, foi apresentado um texto elaborado por um</p><p>aluno da quinta série do ensino fundamental de uma escola pública. Na</p><p>apresentação, foram destacados alguns erros ortográficos. Com base nas</p><p>discussões feitas ao longo deste capítulo e em eventuais consultas aos</p><p>trabalhos citados na bibliografia, tente explicar os fatos linguísticos que</p><p>subjazem à produção dos erros que foram destacados.</p>

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