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<p>A INTERVENÇÃO NO</p><p>TRABALHO</p><p>PSICOPEDAGÓGICO</p><p>CLÍNICO</p><p>AULA 1</p><p>Profª Tânia Mara Grassi</p><p>2</p><p>CONVERSA INICIAL</p><p>Nesta aula, vamos conhecer o processo de intervenção psicopedagógica</p><p>clínica, cujo objetivo é equacionar dificuldades de aprendizagem apresentadas</p><p>por sujeitos que não conseguem aprender e precisam da mediação do</p><p>psicopedagogo para estabelecer um vínculo positivo e resgatar as possibilidades</p><p>de aprendizagem, desenvolvimento e conquista da autonomia.</p><p>Discutiremos o que é intervenção, quais as especificidades e objetivos do</p><p>processo de intervenção psicopedagógica, apresentaremos o enquadramento e</p><p>suas constantes e caracterizaremos o setting psicopedagógico.</p><p>Nosso objetivo é propiciar conhecimentos sobre a intervenção, de modo</p><p>que se possa compreender a práxis psicopedagógica na organização desse</p><p>trabalho clínico.</p><p>Os objetivos específicos desta aula são os seguintes:</p><p>• Conhecer as especificidades do trabalho de intervenção psicopedagógica</p><p>clínica de modo a considerá-las no momento de planejar as ações;</p><p>• Compreender quais são os objetivos da intervenção psicopedagógica;</p><p>• Compreender o que é enquadramento e sua importância na organização</p><p>do trabalho de intervenção psicopedagógica;</p><p>• Identificar as constantes do enquadramento para incluí-las no</p><p>planejamento;</p><p>• Definir setting psicopedagógico a fim de compreender as características</p><p>desse espaço;</p><p>• Compreender o setting psicopedagógico como espaço físico e emocional</p><p>onde se desenvolve o trabalho técnico do psicopedagogo;</p><p>• Identificar os elementos essenciais na organização do setting</p><p>psicopedagógico.</p><p>TEMA 1 – O QUE É INTERVENÇÃO PSICOPEDAGÓGICA?</p><p>Recebemos uma queixa sobre um sujeito que não está conseguindo</p><p>aprender ou que encontra dificuldades nesse processo. Essa queixa nos auxilia</p><p>na escolha dos instrumentos de avaliação que utilizamos para fazer o</p><p>diagnóstico psicopedagógico.</p><p>3</p><p>Após o diagnóstico, tem início a intervenção psicopedagógica, e</p><p>novamente o psicopedagogo deve selecionar os recursos que vai utilizar para</p><p>atender à demanda do sujeito que apresenta dificuldades e suas necessidades</p><p>específicas.</p><p>1.1 O que significa intervenção</p><p>Intervenção é a ação de intervir, ou seja, é a ação de colocar-se no meio,</p><p>entre dois elementos, fazendo uma ligação entre eles, mediando, estando</p><p>presente voluntariamente, tomando parte como elemento de um processo.</p><p>Compreendemos, então, a intervenção psicopedagógica como um</p><p>processo em que o psicopedagogo, atuando como mediador, estabelece uma</p><p>relação vincular especial com um sujeito que está enfrentando dificuldades. Esse</p><p>profissional desenvolve a práxis psicopedagógica de modo a possibilitar que</p><p>esse sujeito conquiste autonomia e se aproprie dos conhecimentos.</p><p>O psicopedagogo, segundo Souza (2013), assinala, apresenta uma</p><p>interpretação, faz uma mediação no processo, introduzindo elementos novos,</p><p>com o objetivo de alterar os padrões relacionais estabelecidos entre o aprendiz</p><p>e o conhecimento, entre o ensinante e o aprendente. Ele toma parte no processo</p><p>como elemento essencial e determinante para a mudança e para a</p><p>aprendizagem.</p><p>A intervenção psicopedagógica pode ser denominada, também,</p><p>tratamento psicopedagógico (Paín, 1985) ou de processo corretor (Visca, 1991)</p><p>em que acompanhamos a aprendizagem de um sujeito com dificuldades,</p><p>fazendo a mediação por meio de recursos subjetivos e de recursos objetivos,</p><p>numa atitude operativa, mobilizamos esse aprendiz e oferecemos experiências</p><p>que possibilitem a elaboração simbólica de pensamentos e sentimentos, a</p><p>superação das dificuldades e o alcance de estruturas mais complexas de</p><p>pensamento.</p><p>O psicopedagogo representa para o sujeito um elemento continente, nas</p><p>palavras de Barbosa (2012). Ele acolhe, dá segurança, não faz julgamentos,</p><p>representa um suporte para suas angústias, dificuldades, sofrimentos, tristezas,</p><p>entre outros sentimentos. Essa ação é de suma importância no processo.</p><p>Na intervenção psicopedagógica, o profissional da psicopedagogia faz</p><p>uma interferência planejada e organizada, filtrando e selecionando os estímulos,</p><p>modificando o processo de aprendizagem, resgatando as possibilidades de</p><p>4</p><p>aprendizagem, selecionando as atividades e recursos que oportunizem vivências</p><p>que levem à superação de dificuldades e ao desenvolvimento das funções</p><p>psicológicas superiores necessárias à aprendizagem.</p><p>Vamos conhecer os objetivos da intervenção psicopedagógica!</p><p>TEMA 2 – OBJETIVOS DA INTERVENÇÃO PSICOPEDAGÓGICA</p><p>No processo de intervenção psicopedagógica, há uma série de objetivos</p><p>que vão nortear a elaboração do planejamento e as ações psicopedagógicas que</p><p>serão desenvolvidas.</p><p>O trabalho psicopedagógico de intervenção tem como objetivo</p><p>compreender o processo de aprendizagem sistemática (formal, escolar) e</p><p>assistemática (informal, extraescolar) dos sujeitos (aprendizes/aprendentes),</p><p>analisando relações e vínculos estabelecidos (conhecimento, ensinantes,</p><p>escola, familiares, aprendizagem) e fatores que o obstaculizam e determinam a</p><p>não aprendizagem.</p><p>Para alcançar esse objetivo, é preciso conhecer o sujeito e sua rede de</p><p>relações, o que se faz primeiro pela avaliação e, depois, durante a intervenção,</p><p>pela escuta apurada e pelo olhar atento que acompanha o processo e dialoga</p><p>com o sujeito, com a família e com a escola.</p><p>Busca desenvolver metodologias diferenciadas que possibilitem a</p><p>aprendizagem e estimulem o desenvolvimento de estruturas mais complexas de</p><p>pensamento e de funções psicológicas superiores.</p><p>As propostas de intervenção se utilizam de recursos objetivos escolhidos</p><p>para atender à demanda e às necessidades do sujeito. Atividades diversificadas</p><p>e metodologias diferenciadas são utilizadas para otimizar o tempo, tornar o</p><p>vínculo com a aprendizagem positivo e resgatar o prazer de aprender.</p><p>Trabalhamos para resgatar a possibilidade de aprendizagem, para</p><p>aumentar a autoestima do sujeito, para estabelecer um vínculo positivo com a</p><p>aprendizagem sistemática, para possibilitar a expressão dos sentimentos e</p><p>afetos e para que ele conquiste autonomia, autoria e protagonismo.</p><p>O processo é longo e complexo, há uma história anterior marcada pela</p><p>não aprendizagem e, muitas vezes, pelo fracasso. É preciso considerar esses</p><p>elementos e intervir mediando, de forma a alcançar aprendizagens possíveis e,</p><p>nessa caminhada, apresentar progressivamente desafios e tarefas mais</p><p>5</p><p>complexas que possam ser realizadas com auxílio, depois com independência e</p><p>com autonomia.</p><p>É preciso trabalhar para que o sujeito possa experimentar, criar, construir,</p><p>refazer, desconstruir, descobrir, produzir, acreditando em suas capacidades, o</p><p>que depende da mediação e da atitude operativa do psicopedagogo.</p><p>TEMA 3 – ESPECIFICIDADES DA INTERVENÇÃO PSICOPEDAGÓGICA</p><p>O trabalho de intervenção psicopedagógica apresenta algumas</p><p>especificidades que o caracterizam e o organizam de uma maneira particular.</p><p>Vamos listar essas especificidades de modo a compreender a inter-</p><p>relação entre elas e sua importância na construção da práxis psicopedagógica.</p><p>Começamos nossa lista destacando a importância do vínculo afetivo,</p><p>estabelecido entre o psicopedagogo e o sujeito no processo de intervenção.</p><p>Esse vínculo vai tornar a mediação ativa e dinâmica, possibilitando a expressão</p><p>de sentimentos e pensamentos, que fará o sujeito sentir-se seguro, acolhido,</p><p>respeitado e confiante, e vai prepará-lo para receber as interpretações e os</p><p>assinalamentos do profissional.</p><p>O trabalho de intervenção se organiza em função de uma urgência, que</p><p>indica que é preciso começar o mais breve possível e resolver as questões</p><p>relativas à não aprendizagem, principalmente em relação à aprendizagem</p><p>escolar a fim de que o sujeito possa aproveitar as oportunidades oferecidas pela</p><p>escola. O sujeito precisa aprender nas sessões de intervenção, mas também na</p><p>escola e</p><p>em outros espaços.</p><p>A ludicidade está presente no processo e é a linguagem que possibilita o</p><p>exercício da criação, da exploração e da experimentação, além da vivência do</p><p>erro como algo natural no processo de conhecer. Brincadeiras, jogos de</p><p>exercício, simbólicos e de regras, música, canto, dança, dramatização, literatura,</p><p>desenho, pintura e outras tantas atividades são recursos lúdicos utilizados na</p><p>intervenção e que possibilitam a aprendizagem. Há a vivência da</p><p>espontaneidade, do resgate do prazer de brincar, imaginar e simbolizar por meio</p><p>dessas atividades.</p><p>Desenvolvemos a intervenção com base numa proposta semiestruturada,</p><p>com objetivos definidos, seleção de recursos, instrumentos e materiais,</p><p>indicações de prioridade, contudo há flexibilidade que permite adaptações e</p><p>modificações durante o processo, que considera as necessidades, a demanda e</p><p>6</p><p>a superação das dificuldades pelo aprendiz, e a análise do mediador. O que</p><p>norteia o planejamento é a demanda do sujeito e a escuta do profissional.</p><p>Estimula-se o desenvolvimento das funções psicológicas superiores</p><p>fundamentais para a aprendizagem escolar, bem como a construção de</p><p>estruturas mais complexas do pensamento, necessárias para a apropriação dos</p><p>conhecimentos.</p><p>Não trabalhamos com a recuperação de conteúdos escolares ou reforço</p><p>pedagógico, embora indiretamente possa acontecer a aprendizagem de</p><p>conteúdos.</p><p>Há, na intervenção, um espaço para a expressão de desejos, de</p><p>interesses e para o exercício da escolha, portanto é fundamental possibilitar,</p><p>durante o processo de intervenção, momentos em que isso se efetive, sem</p><p>esquecer que são eventuais e relacionados às necessidades do trabalho</p><p>psicopedagógico.</p><p>Os limites, regras e normas são colocados de maneira clara e direta e são</p><p>elementos de intervenção. Para casos específicos, podem ser enfatizados e</p><p>estão presentes nos jogos de regras e nas demais atividades.</p><p>Durante a intervenção, o erro é provocado de modo a ser constatado,</p><p>analisado e compreendido como elemento constituinte e natural no processo de</p><p>aprender, como hipótese a confirmar no processo de construção de</p><p>conhecimentos, que leva a mudanças nas estratégias de ação.</p><p>O profissional atua como mediador e contribui para que o sujeito construa</p><p>sua aprendizagem, conquiste autonomia, protagonismo e autoria. Ele precisa ter</p><p>uma sólida formação técnica e preparo emocional para lidar com as situações e</p><p>conflitos que surgem e atuar de modo operativo.</p><p>A família e a escola são parceiros no processo de intervenção, sendo</p><p>fundamental manter contato estreito com ambos, acompanhando-os e</p><p>orientando-os.</p><p>Teremos períodos em que o trabalho se efetiva de maneira excepcional e</p><p>outros períodos em que há pouco avanço e, às vezes, retrocessos, o que é</p><p>natural em um processo dinâmico e dialético.</p><p>Evitamos a vivência de situações relacionadas diretamente às</p><p>dificuldades de aprendizagem e a temas ou assuntos em que há conflitos ou</p><p>dificuldades, principalmente no início do processo.</p><p>7</p><p>Finalizamos destacando que o processo se efetiva em etapas e citamos</p><p>a classificação apresentada por Barbosa (1998), que nos auxilia a compreendê-</p><p>las: a fase inicial do processo é denominada etapa simbólica, em que são</p><p>estabelecidos os vínculos entre o aprendiz o mediador; a fase intermediária,</p><p>geralmente no meio do processo, é a etapa semirreal, em que as dificuldades</p><p>são mobilizadas e trabalhadas ludicamente; e a fase final, chamada de etapa</p><p>real, em que o sujeito percebe suas dificuldades e potencialidades por meio da</p><p>aprendizagem.</p><p>TEMA 4 – ENQUADRAMENTO</p><p>A intervenção psicopedagógica tem seu início marcado pela definição de</p><p>algumas constantes que Jorge Visca (2010) denomina de enquadramento.</p><p>Você deve estar interessado em conhecer o enquadramento e suas</p><p>constantes, pois é comum que, no início do trabalho como psicopedagogos,</p><p>surjam dúvidas e questionamentos sobre como organizar essa práxis.</p><p>Há enquadramento no processo de avaliação diagnóstica</p><p>psicopedagógica, bem como o estabelecimento de suas constantes, mas, após</p><p>o término da avaliação, no momento da devolutiva que é realizada com os</p><p>familiares, ou quando estes decidem pelo trabalho de intervenção, é fundamental</p><p>o estabelecimento de um contrato de trabalho entre o profissional e os</p><p>responsáveis pelo sujeito.</p><p>É nesse contrato que se definem as constantes do enquadramento, ou</p><p>seja, os elementos norteadores importantes para o trabalho de intervenção,</p><p>conforme enfatiza Visca (2010).</p><p>O enquadramento é definido por Carlberg (2012, p. 31) como um “conjunto</p><p>de aspectos que organizam uma realidade. É um marco de referência, um</p><p>caminho que é organizado, uma margem que contém e dá segurança”.</p><p>Ele organiza o trabalho de intervenção por meio da definição de uma série</p><p>de aspectos que servem de referência para a práxis psicopedagógica e dão</p><p>segurança a todos os envolvidos no processo.</p><p>As constantes do enquadramento são apresentadas por Visca (2010, p.</p><p>27) da seguinte maneira:</p><p>• tempo – duração das sessões;</p><p>• espaço – o local onde as sessões vão acontecer – sala, consultório;</p><p>8</p><p>• frequência – número de sessões semanais;</p><p>• Duração – limitada ou não – um ano, seis meses, dois anos;</p><p>• caixa de trabalho – conjunto de objetos para a intervenção;</p><p>• interrupções – feriados, férias;</p><p>• honorários – valores e formas de pagamento.</p><p>Aspectos que normatizam a práxis psicopedagógica e facilitam o</p><p>planejamento e a organização das ações, além de clarificar aos contratantes</p><p>como o trabalho será desenvolvido.</p><p>A intervenção acontece em um tempo determinado e em um número</p><p>específico de sessões que, geralmente, são semanais, mas, quando necessário,</p><p>é possível realizá-las mais vezes por semana.</p><p>As sessões têm duração de 50 minutos, podendo se estender a 60</p><p>minutos. O tempo pode ser mais curto (30 minutos ou mais amplo 90 minutos ou</p><p>mais), o que depende do trabalho planejado e das características ou</p><p>necessidades do sujeito, mas precisa ser definido no enquadramento.</p><p>Quanto às interrupções, elas acontecem no período de férias e recessos</p><p>escolares, sem comprometer o trabalho psicopedagógico, pois já foram</p><p>previstas. Os feriados são considerados antecipadamente, evitando</p><p>agendamento de atividades nessas datas.</p><p>Em relação às faltas, define-se no enquadramento como será o</p><p>procedimento em caso de faltas sem aviso-prévio e em caso de imprevistos,</p><p>reagendamentos podem ser feitos.</p><p>A definição dos honorários considera os valores de mercado e o custo do</p><p>tempo, do número de sessões, do serviço prestado, do material utilizado,</p><p>procurando ser justo para o sujeito e sua família e para o profissional.</p><p>Define-se, também, no enquadramento, datas e formas de pagamento,</p><p>além da definição do material e técnicas utilizadas (caixa de trabalho, oficinas,</p><p>pastas e outros) e o tipo de atendimento (individual e/ou em grupo).</p><p>O contrato pode ser firmado verbalmente, mas pode ser registrado por</p><p>escrito e impresso, o que é aconselhável e dá mais segurança a todos.</p><p>TEMA 5 – SETTING PSICOPEDAGÓGICO</p><p>A definição e a organização do espaço em que a intervenção vai se</p><p>desenvolver também é importante. Esse trabalho psicopedagógico demanda um</p><p>9</p><p>espaço físico e emocional, um tempo e uma técnica, que são organizados</p><p>segundo determinada concepção psicopedagógica, que se fundamenta em um</p><p>referencial teórico específico.</p><p>Denominamos esse espaço, o tempo e sua organização técnica de</p><p>setting, termo que tomamos de empréstimo da psicologia e cujo significado é</p><p>configuração, ambientação, organização, enquadre ou cenário.</p><p>Desenvolvemos nosso trabalho em uma sala ou consultório, que podem</p><p>estar em uma clínica ou em uma escola, cujo espaço deve ser adequado ao</p><p>número de participantes, seja ele individual ou em grupos.</p><p>O espaço adequado, de acordo com Weiss (2004), é uma sala ampla,</p><p>ventilada, com iluminação natural e possibilidade</p><p>de escurecimento. Quanto ao</p><p>tamanho, deve comportar o número de participantes, possibilitar o</p><p>desenvolvimento das atividades e a necessidade de mobilidade.</p><p>Achamos importante ter uma pia na sala, o que facilita a realização de</p><p>algumas atividades, evitando saídas para lavar as mãos, por exemplo; e um</p><p>banheiro na sala ou próximo, evitando a saída para sua utilização ou a demora</p><p>para retornar.</p><p>A decoração deve ser básica, as paredes devem ter cores claras e a</p><p>possibilidade de serem lavadas e o piso deve ser neutro, facilitando a</p><p>higienização. Um tapete de material natural e lavável e/ou um tatame coberto</p><p>com material impermeável, além de almofadas, complementam o espaço.</p><p>É interessante ter um relógio analógico na parede e um calendário, pois</p><p>ambos auxiliam o sujeito a ser organizar temporalmente em relação ao ritmo de</p><p>trabalho e aos limites temporais.</p><p>Chegamos, enfim, ao mobiliário! Este deve ser básico e confortável. É</p><p>interessante haver na sala um sofá, uma mesa com cadeiras, um banco pequeno</p><p>ou uma mesinha que pode servir de apoio em algumas atividades, um armário</p><p>com portas, uma estante com livros, um quadro de giz ou um quadro branco e</p><p>um espelho.</p><p>Um fichário com pastas e arquivos pode ser utilizado para guardar e</p><p>organizar documentos, relatórios, pareceres, fotos, produções e outros</p><p>materiais.</p><p>Um computador e outros recursos tecnológicos são materiais utilizados</p><p>na intervenção e podem compor a sala, mas guardados em um armário:</p><p>10</p><p>notebook, filmadora, câmera fotográfica, tablet, gravador, videogame, Kindle,</p><p>entre outros.</p><p>Há uma infinidade de jogos, brinquedos e outros materiais que podemos</p><p>utilizar, mas que devem permanecer guardados no armário, acondicionados em</p><p>caixas ou, se possível, armazenados em outro espaço e trazidos para a sala</p><p>apenas quando forem utilizados.</p><p>Os livros podem ser colocados em estantes, alguns podem ser guardados</p><p>em caixas, devendo ser variados, de diferentes gêneros, materiais e faixas</p><p>etárias.</p><p>Os materiais de uso específico de cada sujeito e suas produções são</p><p>guardados em caixas (caixa de trabalho) ou pastas individuais personalizadas.</p><p>Essas caixas podem ser guardadas no armário.</p><p>Você pode ter uma caixa com materiais de uso coletivo como lápis, tintas,</p><p>lápis de cor, cola, tesouras etc., que ficam guardados no armário e são retirados</p><p>conforme a necessidade.</p><p>Para alguns sujeitos temos adotado o uso de planner e/ou de agenda,</p><p>para organizar melhor sua rotina e atividades. Estes ficam guardados em sua</p><p>caixa e são usados durante a sessão.</p><p>Ao término de cada sessão, os materiais utilizados devem ser</p><p>higienizados e guardados, por isso as sessões devem ser agendadas com um</p><p>espaço de tempo entre elas que permita a limpeza e a reorganização. A sala</p><p>precisa estar organizada e higienizada para receber cada aprendiz.</p><p>O espaço de atendimento psicopedagógico deve permanecer constante,</p><p>uma vez que serve de continente para o sujeito, local onde se sente seguro e</p><p>pode expressar seus sentimentos, aponta Visca (2010). As sessões devem ser</p><p>realizadas no mesmo espaço (sala), no mesmo horário, no mesmo dia da</p><p>semana, nas datas agendadas, mas é fundamental evitar alterações que, se</p><p>necessárias, devem ser eventuais.</p><p>O espaço emocional é criado levando-se em conta a relação especial</p><p>estabelecida entre o psicopedagogo e o aprendiz. O vínculo e a mediação fazem</p><p>do ambiente um espaço continente em que o sujeito se sente seguro e acolhido</p><p>e em que pode experimentar, expressar, ser, estar e criar com autonomia.</p><p>É nesse espaço que o psicopedagogo desenvolve a práxis</p><p>psicopedagógica, desenvolve o trabalho de intervenção que se organiza</p><p>11</p><p>segundo a concepção que o fundamenta. As escolhas que faz são norteadas por</p><p>essa concepção e definem as ações que serão desenvolvidas.</p><p>Lembre-se: quando for organizar seu espaço para a intervenção, que</p><p>menos é mais, ou seja, não exagere na decoração e na quantidade de materiais,</p><p>considere as necessidades do sujeito, seus interesses e as prioridades e planeje</p><p>a intervenção para atender a essa demanda.</p><p>NA PRÁTICA</p><p>O processo de intervenção psicopedagógica clínica baseia-se sempre nos</p><p>resultados da avaliação diagnóstica, que norteiam a sua organização e a escolha</p><p>dos instrumentos.</p><p>Luciana é uma menina de 11 anos, aluna do sexto ano do ensino</p><p>fundamental de uma escola particular.</p><p>Tímida, retraída e com autoestima baixa, foi avaliada com necessidade</p><p>de intervenção psicopedagógica clínica em função das dificuldades de</p><p>aprendizagem apresentadas: dificuldades na leitura e na escrita, que atrapalham</p><p>a compreensão de enunciados e a interpretação de textos, o que interfere na</p><p>resolução de situações-problema em matemática e nas outras disciplinas</p><p>escolares.</p><p>O diagnóstico foi de dislexia, necessitando de acompanhamento</p><p>psicopedagógico com uma sessão semanal, de 50 minutos, com a</p><p>psicopedagoga e sessões semanais com fonoaudióloga e psicóloga.</p><p>Elaborou-se a proposta de intervenção, escolhendo-se os instrumentos e</p><p>materiais. O enquadramento foi feito com os pais, momento em que as suas</p><p>constantes foram definidas.</p><p>O vínculo entre o profissional e a menina foi estabelecido e o espaço</p><p>constante facilitou a expressão de Luciana, que se sentiu segura para colocar-</p><p>se, parecendo menos tímida agora.</p><p>Estamos no meio do processo, ou seja, vivenciando a etapa semirreal, em</p><p>que as atividades propostas mobilizam as dificuldades de Luciana, mas são</p><p>trabalhadas de forma lúdica.</p><p>Jogos de regras, jogos simbólicos e jogos de exercício são propostos nas</p><p>sessões e mobilizam as áreas que precisam ser trabalhadas, além das</p><p>dificuldades específicas. Ela está mais segura e agora consegue suportar</p><p>angústias e expressar seus sentimentos.</p><p>12</p><p>Faça uma reflexão sobre o processo de intervenção e sobre a última etapa</p><p>proposta por Barbosa. Como você acha que será desenvolvida com Luciana?</p><p>Como você trabalharia com essa criança? Registre suas ideias e</p><p>reflexões!</p><p>FINALIZANDO</p><p>Chegamos ao final de nossa aula. Dialogamos sobre o que é intervenção</p><p>psicopedagógica clínica, de modo a possibilitar a você a compreensão de seu</p><p>caráter preventivo e terapêutico, bem como de sua estreita relação com o</p><p>processo de avaliação diagnóstica psicopedagógica.</p><p>Compreendemos que a intervenção é um processo em que há a</p><p>mediação, do profissional da psicopedagogia, na aprendizagem e/ou no</p><p>desenvolvimento de um sujeito que está enfrentando dificuldades.</p><p>O trabalho de intervenção psicopedagógica é desenvolvido com base</p><p>numa proposta semiestruturada, em que há um planejamento prévio, mas</p><p>flexível, em que adaptações e modificações podem ser feitas durante o processo,</p><p>considerando as necessidades do sujeito/aprendiz, os avanços, as relações</p><p>estabelecidas entre ele e o conhecimento, as modalidades de aprendizagem, os</p><p>vínculos, as aprendizagens, além da escuta do mediador.</p><p>Conhecemos, também, os objetivos e as especificidades do trabalho</p><p>psicopedagógico de intervenção, elementos que norteiam a organização da</p><p>intervenção. Há uma urgência e uma folga, uma demanda e um espaço em que</p><p>o erro é considerado como elemento natural no processo de conhecer e</p><p>aprender, visto que é vivenciado ludicamente, provocado e analisado, percebido</p><p>para que os procedimentos e estratégias de ação se modifiquem. Trata-se de</p><p>um espaço em que a mediação é condição essencial, em que não há culpa,</p><p>vergonha ou medo.</p><p>Destacamos, ainda, a importância do enquadramento e da definição de</p><p>suas constantes para o desenvolvimento da práxis psicopedagógica.</p><p>Conhecemos também setting psicopedagógico, caracterizando o espaço físico e</p><p>o espaço emocional onde a intervenção se desenvolve, onde nosso trabalho</p><p>técnico se concretiza.</p><p>Os conteúdos escolares não são trabalhados ou recuperados diretamente</p><p>na intervenção, mas são estimuladas as funções psicológicas superiores que</p><p>possibilitam a aprendizagem desses</p><p>conteúdos.</p><p>13</p><p>Encerramos ressaltando que psicopedagogo precisa apurar sua escuta e</p><p>seu olhar para compreender o processo de aprendizagem do sujeito e suas</p><p>necessidades, selecionando a intervenção mais adequada por meio de recursos</p><p>objetivos e subjetivos, servindo como continente que acolhe e escuta, dá</p><p>segurança e faz mediação operativamente.</p><p>14</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>BARBOSA, L. M. S. O projeto de trabalho: uma forma de atuação</p><p>psicopedagógica. Curitiba: L. M. S. Barbosa, 1998.</p><p>_____. (org.). Intervenção psicopedagógica no espaço da clínica. Curitiba:</p><p>InterSaberes, 2012.</p><p>CARLBERG, S. Caixa de trabalho. In: BARBOSA, L. M. S. (org.). Intervenção</p><p>psicopedagógica no espaço da clínica. Curitiba: InterSaberes, 2012, p. 6-53.</p><p>GRASSI, T. M. Psicopedagogia um olhar uma escuta. Curitiba: InterSaberes,</p><p>2013.</p><p>PAÍN, S. Diagnóstico e tratamento dos problemas de aprendizagem. Porto</p><p>Alegrwe: Artes Médicas, 1985.</p><p>SOUZA, M. T. C. C. de. Intervenção psicopedagógica: como e o que planejar?</p><p>In: SIST, F. F. Atuação psicopedagógica e aprendizagem escolar. Petrópolis,</p><p>RJ: Vozes, 2013, p. 113-126.</p><p>VISCA, J. Clínica psicopedagógica: epistemologia convergente. São José dos</p><p>Campos: Pulso, 2010.</p><p>_____. Psicopedagogia: novas contribuições. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,</p><p>1991</p><p>WEISS, M. L. L. Psicopedagogia clínica – uma visão diagnóstica dos</p><p>problemas de aprendizagem escolar. Rio de Janeiro: DP & A, 2004.</p><p>.</p>

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