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Assédio Moral no Local de Trabalho - Estudo FGV

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em uma situação em 
que o predador está demonstrando poder ou tentando explorar uma vítima aleatória. Assédio 
predatório é provavelmente causado por uma combinação de clima social, em que a 
hostilidade e agressividade são freqüentes, com uma cultura organizacional tolerante e 
permissiva; 2) Agressão devido a uma disputa - se desenvolve após discussões e envolve 
reações de controle social e percepção de que um “mal” aconteceu. (wrong-doing). 
 
Por outro lado, Freitas e Heloani consideram que nem toda situação de assédio moral deriva 
de uma situação de conflito. Realmente, se tomarmos o exemplo em que a vítima é escolhida 
como bode expiatório, não houve no início do processo um conflito desencadeador da 
situação de assédio moral, mas há na repetição da agressão o conflito que não pode “ser 
aberto”, não pode ser desnudado. E situações em que o assédio é do subordinado para com o 
superior, este dificilmente se dá conta da situação exceto quando esta já esta bastante 
degradada. 
 
Hirigoyen (2001) tratou desta diferença conceitual de maneira bastante interessante. Ela 
considera que o assédio moral não se estabelece em uma relação simétrica com o conflito, 
mas em uma relação dominante-dominado, em que aquele que controla o jogo tenta submetê-
lo e fazê-lo perder a sua identidade. Mesmo quando o assédio se dá entre colegas ou de modo 
ascendente sempre o assédio moral é sempre precedido de uma dominação psicológica do 
agressor e uma submissão psicológica da vítima. Freitas, por outro lado, discorda 
frontalmente deste argumento. Luna (2003) diz que uma característica do assédio é ser um 
conflito assimétrico entre as partes, no qual o agressor tem mais recursos, apoios ou uma 
 
 
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posição superior à da vítima. Nesta dinâmica, para este pesquisador, o agressor ou agressores 
se valem de um estatuto de poder tal como a força física, antiguidade na empresa, força do 
corpo, popularidade no grupo ou nível hierárquico superior para levar a cabo estes 
comportamentos. 
 
 
6.3 Assédio moral e dano moral 
 
 
Já nos referimos aos desafios na língua inglesa da terminologia do estudo sobre assédio 
moral; no caso brasileiro, notamos também que, por vezes, há certa confusão do termo assédio 
moral com o termo dano moral. Esta confusão pode ser resultado da inexistência no país de 
uma legislação específica sobre assédio moral, recorrendo-se à legislação sobre dano moral 
para julgar, na maioria das vezes, os casos que poderiam ser assédio moral. Outra 
possibilidade para tal confusão pode ser o desconhecimento do que seriam assédio moral e 
dano moral, levando alguns a tomarem um termo pelo outro. 
 
Froio (2005) diz que a responsabilidade por danos morais tem por fim reparar ou compensar 
as lesões de ordem moral, causadas aos direitos da personalidade, como a honra, a intimidade, 
a vida privada, o sigilo e a imagem. 
 
Cahali explica que: 
é possível distinguir, no âmbito dos danos, a categoria dos danos patrimoniais, de um lado, 
dos danos extra-patrimoniais, ou morais, de outro; respectivamente, o verdadeiro e próprio 
prejuízo econômico, o sofrimento psíquico ou moral, as dores, as angústias e as frustrações 
infligidas ao ofendido (2000, p. 19) 
 
Este autor esclarece que o dano moral tem sido explicado sob a forma negativa, ou seja, em 
contrapartida ao dano patrimonial. Mas afirma que é insatisfatória a abordagem do dano 
moral com base na exclusão, ou seja, tudo aquilo que não é dano econômico. Ele lança mão 
de definição do jurista italiano Dalmartello (apud Cahali, 2000, p. 19) de dano moral que é “a 
privação ou diminuição daqueles bens que têm um valor precípuo na vida do homem e que 
são a paz, a tranqüilidade de espírito, a liberdade individual, a integridade individual, a 
integridade física, a honra e os demais sagrados afetos”. Segundo esta visão o dano moral 
seria “aquele que afeta a parte social do patrimônio moral (honra, reputação etc.) e dano que 
 
 
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molesta a parte afetiva do patrimônio moral (dor tristeza, saudade etc.); dano moral que 
provoca direta ou indiretamente dano patrimonial (cicatriz deformante etc.) e dano moral puro 
(dor, tristeza etc.)” (CAHALI, 2000, p. 20) 
 
Para Cahali (2000, p. 22) esta definição de dano moral vai ao encontro do pensamento de 
Limongi França quando afirma que “dano moral seria, pois, o mesmo que dano não 
econômico, não patrimonial (stricto sensu), ou extrapatrimonial. Com efeito, parece mais 
adequado reservar o restritito patrimonial para as espécies de dano material exclusivo”. 
 
No nosso entendimento, pode-se dizer que todas as situações caracterizadas como assédio 
moral podem ser classificadas como dano moral, mas nem todo dano moral é uma ação de 
assédio moral. 
 
 
6.4 Fronteiras entre o assédio moral e o assédio sexual 
 
 
Hoel (2004) diz que, embora as fronteiras conceituais sejam essenciais para pesquisadores e 
legisladores, elas podem nos impedir de entender as nuances deste fenômeno. Em virtude das 
múltiplas abordagens teóricas que conceituam o assédio moral, podemos notar que os 
pesquisadores consideram os limites do assédio moral e assédio sexual de maneira diferente. 
Enquanto os pesquisadores Guimarães e Rimoli (2006), Hirigoyen (2001) e Salin (2003b) 
delimitam claramente que assédio moral e assédio sexual são fenômenos distintos, para os 
pesquisadores Einarsen (2000); Freitas (2001); Hogh e Doffradotti (2001); Mikklesen e 
Eirnarsen (2001); Zapf, Knorz e Kulla (1996); Piñuel y Zabala (2004) e Peralta (2004) o 
assédio sexual pode ser uma das facetas do assédio moral. 
 
Notamos que as duas ferramentas mais usadas para medir a ocorrência de assédio moral, ou 
seja, tanto o questionário LIPT desenvolvido por Leymann quanto o NAQ, desenvolvido por 
Einarsen, incluem o assédio sexual dentro das maneiras de assediar moralmente alguém. 
Segundo pesquisa de Barreto (2005) o assédio sexual constitui uma porta de entrada para o 
assédio moral, sendo que 12,5% dos casos de assédio moral também compreendiam assédio 
sexual. Na Escandinávia (Noruega, Suécia e Finlândia) assédio sexual é visto como uma 
forma específica de assédio moral, na qual a sexualidade é usada como uma maneira de 
 
 
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oprimir o outro. (BJORKQVIST, OSTERMAN, e HJELT-BACK apud EINARSEN, 2000). 
Para Hirigoyen (2001) ainda que haja uma diferença conceitual entre assédio moral e sexual, é 
freqüente passar de um a outro. 
 
Notamos, porém, que, pelo menos para um pesquisador, houve uma mudança no seu 
pensamento: Piñuel y Zabala (2004 e 2007) em seu trabalho Cisneros II claramente distinguia 
um fenômeno do outro e, alguns anos mais tarde, no Informe Cisneros V ele admitia que um 
poderia passar para o outro. Acreditamos que isto possa ter acontecido com outros 
pesquisadores e que pode ser resultado do processo natural de conhecer mais este fenômeno. 
 
Por fim, é interessante analisar os resultados da pesquisa de Keashley (2001) sobre violência 
no trabalho (física, verbal e sexual). Seus resultados indicam que participantes têm visões 
diferentes do que seja violência física, emocional e sexual não por suas diferenças intrínsecas, 
mas por conta do contexto em que estes incidentes ocorreram; ou seja, somente considerar as 
formas de violência envolvidas em um incidente e não considerar as outras variáveis pode 
resultar em um retrato parcial da realidade. Concordamos com a necessidade de traçar 
fronteiras claras entre este e outros assuntos relacionados com violência no trabalho, no 
entanto, não acreditamos que o caso do assédio sexual deva ser excluído das possíveis 
agressões de assédio moral. 
 
 
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PARTE II – CATEGORIAS DE ANÁLISE MAIS FREQUENTES 
 
 
Chega mais perto e contempla as palavras. 
Cada uma 
tem mil faces secretas sob a face neutra 
e te pergunta, sem interesse pela resposta, 
pobre ou terrível que