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<p>PROF. JOSÉ PIO MARTINS EDUCAÇÃO 5 AO ALCANCE DE TODOS EDITORA FUNDAMENTO</p><p>EDUCAÇÃO FINANCEIRA</p><p>PROF. JOSÉ PIO MARTINS EDUCAÇÃO 5 AO ALCANCE DE TODOS FUNDAMENTO</p><p>Agosto 2004, Editora Fundamento Educacional Ltda. Editor: Editora Fundamento Edição de texto: Editora Fundamento Revisão de texto: Nancy Campi Capa: Commcepta Design Editoração eletrônica: Commcepta Design Fotolito: Sociedade Vicente Pallotti Impressão: Sociedade Vicente Pallotti Copyright © Editora Fundamento 2004 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Martins, José Pio Educação financeira ao alcance de todos: adquirindo conhecimentos financeiros em linguagem simples / José Pio Martins. - 1. ed. - Paulo - SP: Editora Fundamento Educacional, 2004. 104 p. ISBN 85-88350-62-9 1. Finanças I. Título 04-4122 CDD332 Índices para catálogo sistemático: 1. Economia 332 2. Finanças: Economia 332 Fundação Biblioteca Nacional Depósito legal na Biblioteca Nacional, conforme Decreto n° 1.825, de dezembro de 1907. Todos os direitos reservados no Brasil por Editora Fundamento Educacional Ltda. Impresso no Brasil Telefone: (41) 3015.9700 E-mail: info@editorafundamento.com.br Site:</p><p>À minha esposa, Cleusa, e às minhas filhas, Josy, Daiane e Liana, pela tolerância e pela paz que proporcionam ao lar, um abrigo seguro. 3</p><p>Sumário Introdução Há uma falha no sistema 5 1. Três histórias 7 História um / História dois / História três 2. A nova realidade do emprego 14 A sociedade 20 por 80 / A agricultura de pouca gente / A indústria seguindo a agricultura / governo não é mais um grande empregador / Não espere muito do governo / A falência da previdência estatal / Cada um por si 3. Uma esperança paira no ar 24 A internet / As telecomunicações / As organizações não-governamentais (ONGS) / turismo e o lazer / A educação / A segurança privada / Sim, há esperança! 4. Entendendo a origem da sua renda 30 Você trabalhando pelo dinheiro / O dinheiro trabalhando para você 5. Aprendendo a ler demonstrações financeiras 36 Estoque e fluxo / balanço patrimonial / A demonstração de renda / Ativos bons e ativos ruins / O fluxo de caixa 6. Educação emocional em primeiro lugar 48 desejo e o impulso / Pobreza não é virtude 7. Educação financeira: um programa de dez passos 56 Passo n. I Estude / Passo n. 2 Faça o seu balanço patrimonial / Passo n. 3 Faça a sua demonstração de resultado / Passo n. 4 - Classifique as suas despesas / Passo n. 5 Elabore o seu fluxo de caixa / Passo n. 6 Entenda o seu fluxo de caixa / Passo n. 7 Estabeleça metas de / Poupança e gerencie os gastos / Passo n. 8 Envolva todos os membros da família / Passo n. 9 Invista em ativos bons / Passo n. 10 - Seja feliz na jornada 8. Os principais tipos de investimentos 73 Imóveis / Títulos públicos de renda fixa / Títulos privados de renda fixa / Ações / Derivativos / Sobre a previdência complementar / Ouvindo o do investidor / Segurança, rentabilidade e liquidez 9. As cinco regras de ouro para o sucesso 89 Regra n. I Interessar-se pelo assunto "dinheiro" / Regra n. 2 Estudar para expandir a sua inteligência financeira / Regra n. 3 Organizar a sua vida financeira / Regra n. 4 - Planejar as suas metas financeiras / Regra n. 5 Disciplinar-se para executar os seus planos com êxito 10. Conclusão 100 A chave do sucesso Bibliografia 103 4</p><p>Educação Financeira ao Alcance de Todos Introdução Há uma falha no sistema Uma criança passa oito anos no ensino fundamental, três anos no ensino médio e, durante esses onze anos de educação básica, é obrigada a memorizar nomes e datas de pouca utilidade na vida real. Em pouco tempo tudo, ou quase tudo, é esquecido. Nesses onze anos, o aluno não estuda noções de comércio, economia, finanças ou impostos. sistema educacional ignora o assunto "dinheiro", algo incompreensível, já que a alfabetização financeira é fundamental para ser bem-sucedido em um mundo complexo. Se fizer um curso universitário fora da área econômica, o estudante completará a sua formação superior sem noções de finanças. Não tenho dúvida de que essa falha é responsável por muitos fracassos pessoais e familiares. Fui vítima desse sistema. Consegui suprir parte da falha porque fiz o curso Técnico em Contabilidade e a faculdade de Economia; ainda assim, falhas sérias persistiram. A principal é que, mesmo nos cursos da área, não há preocupação em ensinar como gerir as finanças pessoais, não se discute a postura de vida diante do dinheiro e não se fala da relação entre as emoções e o sucesso financeiro. Em um curso de Economia, você aprende a resolver os problemas de um país, mas não aprende a resolver os seus próprios problemas. A consciência que adquiri dessa realidade foi por meio de estudos, pelo trabalho e pelos erros que cometi. Como muitos brasileiros, fui vítima, também, da origem familiar. Sendo o mais velho de nove irmãos e tendo um pai alcoólatra, que faliu três vezes e morreu quando eu era muito jovem, herdei apenas pobreza, dívidas, complexo de inferioridade e insegurança. Cresci em um ambiente de fracasso e sei o quanto isso reduz o moral e dificulta a ascensão social. Fui vítima uma terceira vez, da formação religiosa. Tendo feito os cinco primeiros anos escolares em colégio de freiras, cresci achando que 5</p><p>Introdução os ricos e o dinheiro eram coisa do demônio, e que a pobreza me colocava mais perto do céu. Hoje, acredito que é nossa função cuidar para que os filhos recebam educação financeira, qualquer que seja a profissão que desejam seguir. Foi pensando nisso que escrevi este texto. Este livro é simples e destinado a pessoas de todas as formações. Nele você encontrará conceitos de contabilidade, economia, finanças e investimentos, os quais permitirão uma iniciação na ciência do dinheiro. Os assuntos são tratados de maneira introdutória, sem a pretensão de aprofundamento. Cada capítulo tem vida própria e a sua leitura isolada permite compreender o tema do qual trata; porém, os capítulos guardam relação entre si e, por isso, é interessante lê-los todos na Sugiro que, ao final de cada capítulo, o leitor faça uma pequena anotação com umas poucas idéias ou conceitos que deseja destacar como lembrete. Boa leitura! José Pio Martins 6</p><p>1 Três histórias HISTÓRIA UM Certo dia, uma das filhas me aborda: - Pai, dá um dinheiro para eu comprar um videogame! Duas coisas eu não queria em casa: televisão no quarto das crianças e videogame. - Eu não tenho dinheiro pra isso não - respondi. - Então dá um cheque! - ela rebateu. 7</p><p>Três histórias Já falei que não tenho dinheiro! Mas eu já disse, pai: dá um cheque! Mas eu não tenho dinheiro no banco! Eu não pedi dinheiro do banco: pedi um cheque. Vou lá na loja e pago com o cheque e pronto. Fiquei ali parado, pensando. Você sabe quem descobriu o Brasil? - perguntei Pedro Álvares Cabral. Em que ano? Em 1500. Esse diálogo é uma ponta da falha existente na educação básica. A criança seria capaz de recitar uma lista de nomes e datas de pouca utilidade e que exigiram dispêndio de tempo e energia para memorizar. Mas ela não tinha noção do que era um cheque, embora naquela altura já fosse uma substancial "unidade de despesa". O fato é que questões simples ligadas ao mundo do dinheiro eram completamente desconhecidas para ela, embora já contasse dez anos de idade. Gastei alguns minutos para explicar o que é um cheque. Foi grande o desapontamento dela quando falei que o banco apenas guardava o dinheiro que eu recebia do patrão. Expliquei que eles colocavam as notas num cofre e, quando eu pagava com cheque, o dono da loja ia ao banco e o rapaz do banco entregava as cédulas no valor do cheque que eu havia emitido. Falei que, para dar um cheque na loja, eu precisaria ter no cofre do banco as notas que eu dei para o banco guardar. Foi a maneira que encontrei para explicar a ela o que era um cheque sem fundos; mostrei o canhoto do meu talão de cheques para explicar por que eu não tinha mais dinheiro no banco. HISTÓRIA DOIS Um jovem advogado, casado e pai de dois filhos, começou a sair-se bem na profissão. A sua primeira atitude foi comprar um automóvel de 8</p><p>Educação Financeira ao Alcance de Todos luxo, cujo preço era equivalente à metade do apartamento de 220 que havia herdado do pai. Um ano depois, tendo ganho um bom dinheiro, ele adquiriu uma chácara de lazer com casa, piscina e jardim. Passado um tempo, encontro o sorridente jovem na praia e ele me convida para visitar o apartamento novo que acabara de adquirir. E lá fomos nós. Lá chegando, sou apresentado à mulher e aos filhos, e sentamos para jogar conversa fora. casal apresentava empolgação com os bens que havia comprado. Afinal, o patrimônio era bem razoável: algo perto de 500 mil reais, equivalentes à época a uns 400 mil dólares. Percebendo que a empolgação era grande, propus uma provocação. Por que vocês estão tão animados com a aquisição desses bens? Porque quero formar um patrimônio - respondeu-me ele. E para que você deseja ter esse patrimônio? - indaguei. Por segurança. Afinal, sou profissional autônomo e'se eu vier a faltar, minha esposa, que não trabalha fora, estará garantida foi a sua resposta. Então, rezem todas as noites para que você viva muito, porque, se o seu objetivo for esse, vocês fizeram uma grande bobagem - afirmei. Você está louco? Eu tenho o apartamento em que moro, uma chácara com casa e piscina, um apartamento de praia e um automóvel de luxo, e você vem me dizer que fizemos bobagem! Qual a sua lógica? Acho que o meu marido tem razão - complementou a esposa. - Antes de argumentar, lhe fazer umas perguntas. Você é um bom advogado. Você sabe ler um balanço patrimonial? - perguntei. Acho que sei. Quer dizer, mais ou menos ele respondeu. Bem, no balanço você tem a coluna dos ativos e a coluna dos passivos. Você sabe a diferença? - insisti. Creio que entendo: os ativos são os bens que a empresa possui e passivos são as dívidas que ela tem. E aí você concluiu que possuir ativos é necessariamente bom, e por isso resolveu comprar esses bens, que você chama de patrimônio? provoquei. Sim. É isso o que eu penso. Até porque paguei tudo. Não tenho dívidas retrucou. 9</p><p>Três histórias E você crê que a sua mulher ficará protegida se você ficar doente ou morrer? Acredito, claro. Veja: você está olhando o seu balanço apenas do ponto de vista patrimonial. Ou seja, porque possui bens e não tem dívidas, você crê que os seus ativos protegerão a sua família. Você está cometendo um erro; um erro, até certo ponto, banal. - Como assim? Nelson, Rodrigues dizia que os gênios enxergam o óbvio". Eu diria que nós somos treinados para compreender as coisas complexas. Não somos educados para ver o simples. Você está analisando o seu balanço em termos de patrimônio. Porém, o que uma família precisa para se sustentar não é patrimônio: ela precisa de renda regular e constante. Precisa de um fluxo mensal de caixa - respondi. Bem... Você sabe a diferença entre ativo bom e ativo ruim? - perguntei. Nos balanços que leio nos jornais não há essas expressões. Então você não sabe? Não, não sei - concordou. Não é só você. Na faculdade de Direito também se ignora o treinamento em gestão de finanças pessoais. Você sabe classificar um ativo do ponto de vista do balanço; saberia fazê-lo do ponto de vista do fluxo de caixa? Eu sou advogado, não sou economista nem contador. Você sabe distinguir um balanço patrimonial de uma demonstra- ção de renda e, ambos, de um fluxo de caixa? Claro que não! fulminou. Okay, doutor! Então saiba que você comprou um conjunto de ativos ruins: os seus bens são ativos do ponto de vista do seu balanço patrimonial, mas são ruins do ponto de vista do seu fluxo de caixa. Os ativos que possui são duplamente ruins, pois, além de não gerarem qualquer renda para o seu orçamento mensal, eles comem uma parte dos honorários que você ganha como advogado - ponderei. Ele me fitou, e seguimos o diálogo por um bom tempo. 10</p><p>Educação Financeira ao Alcance de Todos HISTÓRIA TRÊS Certa feita, dois médicos me procuraram com a idéia de venda de um hospital de porte médio. Haviam herdado o hospital dos pais e o tinham como uma propriedade sentimental; ali trabalhavam como médicos e ganhavam o sustento das suas famílias. Todavia, o hospital estava definhando, os custos eram maiores do que as receitas, os prejuízos se acumulavam, as dívidas aumentavam e já não eram pagas no vencimento. Era visível o início de desespero. Abriram uma pasta com informações para um potencial comprador. Naquela pasta, eu vi confirmada uma velha máxima: "Se você dá um martelo a uma criança, tudo o que vê pela frente ela pensa que é um prego". Havia informação sobre doentes, doenças, remédios, tratamentos, planos de saúde, equipamentos e sobre outros assuntos "médicos"; praticamente não havia informação econômica. - Como vocês administram o hospital? - perguntei. Bem, nós nos dividimos entre o trabalho médico e o trabalho administrativo - respondeu um deles. Certo, mas como vocês administram as receitas, definem preços, controlam os custos, supervisionam o pessoal, gerenciam os materiais, os serviços, o caixa e como monitoram os lucros? - Nós aprendemos pela prática e aplicamos o bom senso - disse o segundo médico. - Entendi, mas deixem-me fazer algumas perguntas específicas: vocês conhecem os custos fixos, os custos variáveis e o custo unitário por tipo de procedimento? Não somos profissionais de finanças; não temos essa sofisticação. Vocês fazem planejamento do fluxo de caixa? Simulam resultados previamente? Dominam as receitas? Examinam alternativas de negócios médicos? Conhecem os custos marginais? Conhecem a taxa de ocupação em unidades internas (UTI, quarto, enfermaria)? Sabem o custo da lavanderia, da cozinha, da farmácia, da operação do hospital, dos 11</p><p>Três histórias impostos, do passivo trabalhista? Têm controle de qualidade dos serviços? Conhecem a opinião dos clientes sobre o hospital? - perguntei. Eles me olharam por uns segundos, até que um deles respondeu: Nós temos um hospital e não uma empresa industrial. Vocês têm alguma explicação por que o hospital está em situação difícil? Sim. problema é que os custos são muitos altos, não há mais pacientes particulares, a maioria é atendida pelo SUS (Sistema Único de Saúde, que é a medicina estatal) ou pelos convênios com planos de saúde; tanto o SUS como os planos de saúde pagam pouco pelas consultas e pelos procedimentos médicos e estão matando os hospitais - explicaram eles. Todos os hospitais do país estão quebrados? indaguei. Não. Ou melhor, acreditamos que não; mas, uma boa parte está falida falou um deles. Se há hospitais que vão bem, vocês sabem o que eles fazem para ter sucesso? Já visitaram alguns deles e observaram como são administrados? Bem, sabemos alguma coisa, sim; mas, não fizemos nenhum trabalho mais profundo de investigação. exercício da medicina deixa muito pouco tempo para outras atividades. Expressões como receita, custo fixo, custo variável, taxa de ocupação, resultado por tipo de procedimento, produtividade e fluxo de caixa simplesmente não apareciam no trabalho. Fiquei espantado com o desconhecimento e o descaso dos dois médicos-empresários em relação às questões financeiras. 12</p><p>Educação Financeira ao Alcance de Todos Anotações 13</p><p>2 A nova realidade do emprego A humanidade enfrentou três grandes revoluções. A primeira foi a Revolução Agrícola, há dez mil anos, quando se descobriu que, lançando uma semente à terra, dali nasceria um produto. milho e a mandioca eram dois produtos-símbolos da Era Agrícola. A segunda foi a Revolução Industrial, bem mais recente. Ocorreu pouco antes do ano de 1800, quando foi inventada a máquina movida a energia não-humana. Na Era Agrícola, o instrumento de produção era a ferramenta, que é definida como "instrumento de produção movido 14</p><p>Educação Financeira ao Alcance de Todos pelo braço humano". martelo, o serrote e o machado são exemplos de ferramenta. A máquina é um "instrumento de produção movido por energia não-humana". A diferença é enorme: a máquina funciona sem que por trás haja um ser humano. Começa aí a verdadeira Era Industrial e, com ela, oportunidades fantásticas e problemas imensos. Agora, estamos vivendo a Era da Informação. Um marco básico desta Era é o ano de 1989. A derrocada dos sistemas socialistas, o fim das ditaduras, a revolução nas telecomunicações, surgimento da Internet, a globalização financeira e fim das barreiras entre os países são os acontecimentos que dão o panorama fundamental da Era da Informação. Todavia, a principal característica da Era da Informação é a mudança de paradigma na produção e no emprego. Várias coisas mudaram radicalmente: o mundo está evoluindo para uma predominância da "economia de serviço". A tecnologia está mudando rapidamente em todos os setores da economia. conhecimento muda de forma contínua e a educação não vale mais para a vida toda. Os produtos têm vida curta e novos produtos surgem diariamente. As empresas padecem de grande instabilidade; assim como nascem, elas também morrem com rapidez. As pessoas mudam rapidamente de cidade e de profissão. Não há mais garantia de emprego e as pessoas permanecem menos tempo no mesmo vínculo. A Era da Informação trouxe outra realidade e faz outras exigências. As pessoas estão constatando que não basta mais cursar uma faculdade, 15</p><p>A nova realidade do emprego aprender uma profissão, pôr o diploma na parede e conseguir um emprego para a vida toda. Na Era Industrial, um engenheiro se formava, ia para o mercado de trabalho e passava a vida trabalhando e ganhando dinheiro. A tecnologia não mudava muito no curso de uma vida. Essa Era morreu. Na Era da Informação, esse mesmo engenheiro vê o seu conhecimento se diluir rapidamente e se defronta com a necessidade inevitável de se atualizar. O conhecimento muda de forma contínua, é preciso estudar durante a vida toda, a escola é apenas o início do processo educacional e a instabilidade é a regra. Nem a empresa nem o governo nem o sistema previdenciário estatal vão tomar conta de você quando não puder mais trabalhar ou quando for hora de se aposentar. A SOCIEDADE 20 POR 80 Em 1995, quinhentos homens importantes realizaram um encontro no Hotel Fairmont, em São Francisco, na Califórnia. Empresários, intelectuais, escritores, políticos e cientistas ali se por três dias, tendo como convidado especial o ex-presidente soviético Mikhail Gorbatchev. foco do encontro era uma pergunta apenas: para onde o mundo irá em 2015? Isolados da imprensa, discutiram durante três dias temas como globalização, pobreza, desemprego, esgotamento das reservas de petróleo, escassez de água potável, tecnologia, analfabetismo e por aí afora. Pela importância das pessoas presentes e pela relevância dos assuntos tratados, o encontro chamou a atenção. Uma das idéias que surgiram dos debates foi a que se convencionou chamar "a sociedade 20 por 80" (nada a ver com a teoria do economista Vilfredo Pareto). A tese era a seguinte: a persistir a estrutura produtiva e os padrões tecnológicos atuais (1995), em 2015 apenas 20% da mão-de-obra produzirá todo o produto de que o planeta necessitar. Tão dramática afirmação desembocaria em uma pergunta angustiante: e o que o mundo fará com os outros 80%? 16</p><p>Educação Financeira ao Alcance de Todos Em 2004, oito anos depois desse evento, é possível afirmar que a trágica projeção não se confirmará; pelo menos não ocorrerá com a gravidade prevista pelos luminares do Hotel Fairmont. Porém, mesmo que não se verifique a previsão pessimista, poderíamos colocar uma questão: o mundo pode não ir para a sociedade 20 por 80... mas qual será a proporção? Mesmo que o percentual não venha a ser trágico como a previsão da "sociedade 20 por 80", o desemprego é um dos mais dramáticos problemas da humanidade. que aconteceu para que as perspectivas se tornassem tão sombrias? A AGRICULTURA DE POUCA GENTE Há muitas explicações para o fenômeno do desemprego e algumas são fáceis de entender. A revolução tecnológica é uma explicação. mercado internacional de grãos movimenta mais de 220 milhões de toneladas; embora metade das exportações mundiais seja feita pelos Estados Unidos, a agricultura daquele país absorve menos de 3% da população. A agricultura moderna não precisa de gente: precisa de máquinas. Fico angustiado quando examino o problema dos sem-terra no Brasil. programa de Reforma Agrária assentou milhões de famílias e, mesmo assim, o problema da diminuição da população no campo continua. E continua não por maldade do governo. Há poucas décadas, o Brasil tinha mais da metade da sua população na agricultura; em 1970, já eram 46% e, em 1990, esse percentual caíra para apenas 23%; no fim de 2003, o campo não absorvia mais do que 18%. crescimento do agronegócio vem gerando empregos, mas não na lavoura: são empregos urbanos em indústria, comércio, transporte, logística e serviços. É uma luta inglória. Há quem diga que devemos voltar à agricultura de subsistência e esquecer esse modelo americano de produção agrícola. É ingenuidade: não dá para fazê-lo. Uma família camponesa, por mais modesta que seja, precisa produzir algum excedente para vender no 17</p><p>A nova realidade do emprego mercado e gerar renda para adquirir vestuário, produtos de higiene e limpeza, combustíveis, energia, telefone, educação, serviços médicos, remédios etc. etc. Não há mais padrão de consumo da família camponesa dos anos 50. O problema surge quando tal família vai ao mercado vender o seu produto. Ela tem de aceitar o preço do mercado; logo, o custo de produção na lavoura tem de ser menor do que o preço de venda. Ocorre que, no mundo globalizado, os preços são dados pelo mercado mundial e se eles são baixos é porque a tecnologia moderna permite que os custos de produção sejam Portanto, o nosso camponês precisa assimilar a tecnologia moderna se quiser vender o excedente da sua produção sem prejuízo. No fim das contas, o lavrador brasileiro, mesmo aquele homem simplório assentado pelo programa de reforma agrária, também vai acabar fazendo uma agricultura de tecnologia, cuja característica principal é a baixa geração de emprego. A INDÚSTRIA SEGUINDO A AGRICULTURA Em 2001, participei de um programa de rádio, cujo tema era uma controvérsia. governo do Estado do Paraná enaltecia seu programa de industrialização, louvando-o como fator de geração de emprego. Um órgão do próprio governo havia divulgado estatística sobre crescimento do emprego industrial no Estado. O índice era pífio. A oposição política brandia essa estatística e criticava o governo, acusando-o de enganar a população, já que a criação de emprego era quase inexistente. Fui para o programa com mais dois debatedores: um do governo e outro de um partido oposicionista de esquerda. Quando chegou a minha vez, entrevistador perguntou: "Quem está mentindo, o governo ou a oposição?" "Nenhum deles está mentindo; ambos estão dizendo a verdade", respondi. "O Estado recebeu substanciais investimentos industriais, como diz o defensor do governo, mas emprego industrial não cresceu, como diz oposicionista." 18</p><p>Educação Financeira ao Alcance de Todos Iniciei minha explicação dizendo que era preciso ver além da superfície do problema. A revolução científica e tecnológica está fazendo o que Karl Marx queria: liberar o ser humano das tarefas pesadas e repetitivas. A indústria está seguindo a agricultura e estamos presenciando o fenômeno do investimento sem emprego. Mesmo que as fábricas novas criem algumas vagas, a modernização do parque industrial, a renovação dos equipamentos e a implantação de novos processos fabris estão reduzindo o nível de emprego. balanço final é que a quantidade de empregos não cresce, ou cresce em percentuais pequenos se comparados com o volume de investimentos. Os políticos que ainda falam em industrialização como fator de combate ao desemprego não entenderam o que está acontecendo no mundo. Quando surgiu o robô industrial, nos anos 80, o mundo entrou em pânico e foi grande o volume de demissões na indústria mundial. Surgiu a onda do downsizing (redução) e da reengenharia; agora estamos assistindo ao surgimento do robô sapiens (robô inteligente) e, embora saibamos que ele substituirá pessoas no processo industrial, já não estamos tão assustados. robô sapiens executará tarefas sofisticadas até então somente realizadas pelo homem; a indústria do futuro será apenas um complexo de máquinas e equipamentos operados via computador, monitorados a partir de uma sala de controles. GOVERNO NÃO É MAIS UM GRANDE EMPREGADOR No passado, ao lado da agricultura e da indústria, o governo era um grande empregador. O problema é que, durante 40 anos após a segunda grande guerra, os governos no mundo inteiro se nutriram de empreguismo e déficits fiscais para bancar políticas de estatização, intervencionismo e regulamentação. resultado prático foi inflação, ineficiência, corrupção e diminuição do grau de liberdade econômica. A globalização e o fim das barreiras entre os países puseram os governos contra a parede. Primeiro, o mundo resolveu não tolerar mais 19</p><p>A nova realidade do emprego a inflação, sobretudo porque ela é um fator de empobrecimento das nações e das pessoas; a foi o fim da farra de financiar gastos públicos com emissão de moeda. Segundo, a exigência de mais eficiência e mais competição obrigou os governos a privatizarem as suas estatais. Terceiro, a exigência de liberdade econômica impôs redução do intervencionismo e da regulamentação. resultado prático dessas mudanças é que setor público, em todos os níveis, teve de enfrentar seu downsizing e tratar de melhorar a gestão das contas públicas, sempre malgeridas. Os governos também tiveram de cortar empregos públicos, fenômeno ocorrido em todas as partes do mundo. Em decorrência da competição mundial, da impossibilidade de aumento da carga tributária, da exigência de mais eficiência e da redução da esfera de intervenção do Estado, governo deixou de ser uma grande fonte de emprego. NÃO ESPERE MUITO DO-GOVERNO Estudante de Economia, encantava-me a idéia de que fosse possível erradicar a miséria pela ação do governo. Li, nos textos marxistas, que o capitalismo é eficiente para produzir e ineficiente para distribuir. Acreditava que, tomando parte da renda gerada pelo "egoísmo capitalista" por meio dos impostos, o governo fizesse a distribuição capaz de fim à pobreza extrema. Muito cedo me frustrei: compulsando as estatísticas, eu via que o governo cobrava cada vez mais impostos dos pobres e os transferia cada vez mais aos ricos. Antes mesmo de concluir a faculdade, eu já não conseguia mais acreditar na capacidade de o governo fazer o bem em larga escala. Estado, como entidade pública, tornara-se injusto em quase todas as partes do mundo. A exorbitância na cobrança de impostos foi a causa de revoluções e mortes; a própria Revolução Francesa foi a revolta da burguesia, que era uma classe média composta de produtores e comerciantes, contra 20</p><p>Educação Financeira ao Alcance de Todos a exploração do governo e dos contratadores, muitos dos quais foram decapitados na guilhotina. Contratadores eram pessoas que adiantavam dinheiro ao governo e adquiriam o direito de tributar uma área ou um produto, como forma de pagamento pelo dinheiro entregue ao Estado. Em 2003, o setor público brasileiro já estava retirando 36% da renda nacional em forma de tributos, pouco se importando com o fato de que os pobres são os mais tributados; nem por isso se conseguiu dar fim à miséria. A revista VEJA, em uma das edições de janeiro de 2002, traz uma reportagem de capa mostrando a miséria no Brasil. A revista fala em 23 milhões de pessoas miseráveis e, lá pelas tantas, insinua que a sociedade capitalista não teve êxito em acabar com tamanha injustiça. É o contrário: com a enorme tributação sobre a sociedade, era de se esperar que o governo lograsse êxito no combate à miséria. A história dos impostos mostra que eles foram aumentados no mundo inteiro em nome do combate à pobreza e foi com tal argumento que os políticos conseguiram ir abocanhando uma fatia cada vez maior de tudo o que a sociedade produz. Lamentavelmente, a injustiça assumiu faces múltiplas: Os pobres são os mais tributados, os impostos são mal-administrados e os serviços públicos são de baixa qualidade, o que justifica a frase do filósofo Nietzsche de que "o Estado é o mais frio dos monstros frios". Os políticos parecem gostar desse sistema, pois vivem criando municípios e suas estruturas político-burocráticas, não param de aumentar impostos e nunca tocam na real ferida, que é a ineficiência da máquina estatal e a sua incapacidade de reduzir a miséria. A FALÊNCIA DA PREVIDÊNCIA ESTATAL Durante décadas, fomos levados a acreditar que o governo tomaria conta de nós quando a velhice chegasse. instrumento da bondade seria uma previdência social, estatal e compulsória, operada no regime de repartição; por esse regime, todos os que estão trabalhando pagam a 21</p><p>A nova realidade do emprego previdência social e o bolo arrecadado é distribuído para os aposentados e os pensionistas. Esse sistema faliu. O emprego formal com registro em carteira está diminuindo, a taxa de natalidade decaindo e a arrecadação da previdência social diminuindo; por outro lado, o número de beneficiários vem aumentando, a expectativa média de vida vem subindo e o tempo de vida das pessoas após a aposentadoria se torna bem maior. Os gastos explodem, enquanto a receita não. Para agravar o problema, o governo nunca foi um gerente eficiente, o sistema de aposentadoria do funcionário público é incompatível com a situação do país e o resultado é um déficit anual monstruoso que, mais cedo ou mais tarde, provocará a falência completa do sistema. O ex-presidente americano Ronald Reagan dizia que governo é o problema, não a solução". O drama da previdência social estatal no mundo corrobora a afirmação. Os políticos não conseguem enfrentar definitivamente o problema e limitam-se a fazer remendos que só adiarão a cirurgia Em 2003, alguns países ensaiaram passos para corrigir a inviabilidade sistêmica da previdência, ainda que parcialmente, inclusive o Brasil; algumas reformas foram feitas. Mas é pouco: quando novas mudanças vierem, é possível que cada um de nós veja a sua fatia da previdência estatal diminuir ainda mais. CADA UM POR SI A edição de 20/02/2002 da revista VEJA trouxe uma interessante reportagem de capa, com o seguinte título: "OS TRÊS DESEJOS DA CLASSE MÉDIA: Plano de Saúde, Educação, Previdência Privada. Estes itens passaram à frente da casa própria, do carro e do telefone". É a sociedade entendendo que o welfare-state (Estado do bem- estar) faliu e que, apesar dos impostos elevados que pagamos, não dá para esperar nada do governo; o melhor que cada um deve fazer é cuidar de acumular reservas para o futuro e não ficar esperando muito do Estado. 22</p><p>Educação Financeira ao Alcance de Todos Anotações 23</p><p>3 Uma esperança paira no ar U ma questão que sempre me intrigou foi fato de que os Estados Unidos sofreram altas taxas de redução relativa do emprego na agricultura e na indústria e, no entanto, é o país que vem tendo um dos menores índices de desemprego. Estudando o fenômeno, tirei algumas conclusões. Nos EUA, a vitória contra o desemprego foi obra do setor privado e não do setor público. As duas revoluções científicas promovidas pelo Estado, a nuclear e a espacial, não deram o resultado que delas se esperava; 24</p><p>Educação Financeira ao Alcance de Todos houve ganhos, porém, eles foram pequenos em relação ao gigantesco custo dos programas. A tecnologia atômica é um processo condenado. A Alemanha, país em que um terço de toda a energia consumida é produzida por usinas nucleares, fez um acordo com os ambientalistas para, dentro de 20 anos, não possuir nenhuma usina atômica; o compromisso de destruir todas elas é uma confissão da inconveniência desse tipo de energia para a humanidade. programa espacial consumiu bilhões de dólares e não apresentou as soluções tecnológicas que justificassem o tamanho do gasto; embora tenha havido progresso no domínio da tecnologia dos satélites, há certa frustração com relação ao retorno dessa tecnologia para a humanidade. Já o setor privado comandou três revoluções científicas, que acabaram criando as condições para o surgimento de novos bens materiais e serviços, e para a geração de milhões de empregos: a biotecnologia, que permitiu o aumento da produção de alimentos e a descoberta de novos medicamentos; a nanotecnologia, que permitiu enorme evolução nas telecomunicações; e a Internet. A INTERNET Os empregos nos setores que gravitam em torno da Internet compensaram parte do desemprego na agricultura e na indústria. Em fins de 1999, foi divulgado que, no Brasil, perto de 700 mil empregos seriam gerados em função da Internet nos quatro anos seguintes; isso é mais de uma vez e meia o número dos empregados de todo o setor bancário brasileiro e é uma boa notícia no meio de tanto desemprego. As primeiras estatísticas ao fim de 2003 mostram que as estimativas se confirmaram. A nanotecnologia é a atribuição de função de máquina ao microchip. Há poucos anos, um disco musical só poderia nascer de um processo industrial complexo; hoje, é possível baixar música em um disco por 25</p><p>Uma esperança paira no an meio da Internet, dispensando o processo industrial convencional. É a desmaterialização do produto; embora essa tecnologia possa provocar a desmontagem de muitas fábricas, toda uma gama de serviços surge em razão da nova realidade, fazendo com que os empregos gerados sejam em número maior do que os empregos perdidos. AS TELECOMUNICAÇÕES A assombrosa revolução científica no domínio das telecomunicações permitiu que os benefícios da telefonia, inclusive a celular, fossem levados a um amplo número de comunidades. Além de popularizar o acesso ao telefone e aos diversos serviços vinculados, esse setor tornou-se um dos maiores geradores de emprego, no Brasil e no mundo. As telecomunicações estão entre as alternativas mais importantes para absorção da mão-de- obra liberada pela tecnologia agrícola e industrial. AS ORGANIZAÇÕES NÃO-GOVERNAMENTAIS (ONGs) A década dos noventa viu expandir um tipo de emprego pouco comum nos anos anteriores: são aqueles gerados pelas Organizações Não-Governamentais (ONGs), cujo crescimento em várias partes do mundo inteiro, inclusive no Brasil, foi imenso. Nos EUA, o número de pessoas que trabalham nas é mais que o dobro dos empregados na agricultura. o TURISMO E LAZER Com a globalização, a revolução nas telecomunicações e o barateamento nos custos do transporte aéreo, as pessoas passaram a viajar mais. Com isso, a indústria do turismo e do lazer experimentou um crescimento excepcional nos últimos 20 anos, com a geração 26</p><p>Educação Financeira ao Alcance de Todos de milhões de empregos em todo o planeta. Antes do atentado terrorista de 11 de setembro de 2001 nos EUA, a estimativa era de que o setor iria crescer a taxas elevadas, bem superior à média da economia como um todo. atentado alterou o curso da história, diminuiu o movimento do turismo no mundo e os cacos ainda estão sendo recolhidos; apesar disso, as perspectivas para o setor continuam otimistas e os investidores seguem acreditando em crescimento dos empregos nas atividades vinculadas a turismo e lazer. A EDUCAÇÃO A educação foi outro setor que teve um crescimento impressionante em todo o mundo, com o conseqüente aumento do número de empregados. A educação continuada de adultos foi o segmento do setor que mais cresceu e se tornou um grande gerador de empregos. Isso se deve à mudança de paradigma: a escola passou a ser apenas o início do processo educacional e estudar agora é para a vida toda. Nos EUA, há em torno de 5000 universidades convencionais e estima-se que rapidamente as universidades corporativas (universidades de empresas voltadas para a educação profissional) atinjam igual número. Como se trata de empresas de serviços, a capacidade de gerar empregos nessa área é bastante grande, maior que na indústria, o que é bastante animador. A SEGURANÇA PRIVADA Em todo o planeta, tem havido um impressionante crescimento no setor de segurança privada; embora por motivos lamentáveis, a segurança privada tem sido um dos maiores geradores de emprego. No Brasil, as estatísticas mostram a gigantesca expansão desse setor e o elevado número de empregos gerados. O atentado terrorista de 11 de setembro de 2001, quando dois aviões foram lançados contra as torres gêmeas do World 27</p><p>Uma esperança paira no an Trade Center e um contra o prédio do Pentágono, provocou uma histeria mundial e a indústria da segurança privada não pára de crescer. SIM, HÁ ESPERANÇA! Internet, turismo, lazer, educação, segurança privada e telefonia celular são exemplos de setores que provocaram uma demanda por mão-de-obra em grandes proporções nos últimos anos, o que permitiu verificar que, passados oito anos do famoso congresso do Hotel Fairmont, o mundo não caminha para a sociedade 20 por 80. O mundo terá alto desemprego em 2015; porém, até os mais pessimistas sabem que não será de 80% da mão-de-obra mundial. Haverá emprego no futuro; mas não será o mesmo tipo de emprego do passado. Quem quiser se preparar para os novos tempos deve, a meu ver, considerar três aspectos: a) investir na sua educação permanente; b) acumular reservas para sua aposentadoria; c) não ficar dependente de benefícios do governo. 28</p><p>Educação Financeira ao Alcance de Todos Anotações 29</p><p>4 Entendendo a origem da sua renda M uitas pessoas apresentam rejeição diante das expressões financeiras. Como a escola não dá qualquer instrução financeira, a criança cresce e continua ignorando o assunto "dinheiro". Quando o adulto se depara com os esquisitos termos do mundo das finanças, a tendência é fugir deles. É grande o número de empresários que não sabem a diferença entre um balanço, uma demonstração de renda e um fluxo de caixa, como é grande o número de empregados e profissionais autônomos que não têm noção do assunto. 30</p><p>Educação Financeira ao Alcance de Todos Seja você empregado, autônomo, empresário ou investidor, a sua vida gira em torno de um balanço, uma demonstração de renda e um fluxo de caixa; você pode ignorá-los, mas eles não ignoram você. Tais assuntos são, na essência, simples e o seu conhecimento é importante para defender-se do insucesso material (esses temas serão tratados no próximo capítulo). É importante que você saiba classificar a sua renda do ponto de vista da origem, o que é renda dependente e renda independente, e que diferença isso faz na sua segurança financeira. Embora não sejam os primeiros a explicar o assunto didaticamente, no livro Pai Rico, Pai Pobre, Roberto Kiyosaki e Sharon Lechter fazem um resumo interessante sobre a origem dos ganhos das pessoas. Qualquer que sejao trabalho que fazemos, estamos em uma das seguintes categorias: empregado, autônomo, dono de empresa ou investidor. o empregado recebe salário; o autônomo recebe honorários; o dono de empresa recebe lucros; o investidor recebe, basicamente, juros de aplicações financeiras, aluguéis de imóveis e dividendos de ações. As categorias podem ser separadas em dois grupos: o grupo um, cuja renda depende do trabalho pessoal, e o grupo dois, cuja renda vem da posse de ativos bons (os ativos ruins não geram dinheiro; pelo contrário, consomem o dinheiro que você ganha de outra forma. Lembra-se da história dois, do nosso amigo advogado?). Grupo um Grupo dois Dono de Empregado (E) empresa (DE) Autônomo (A) Investidor (I) VOCÊ TRABALHANDO PELO DINHEIRO Se você é um "E", a sua renda depende do seu empregador; é ele quem diz o trabalho que você deve fazer, registra o seu emprego na carteira 31</p><p>Entendendo a origem da sua renda profissional e paga o seu salário a cada fim de mês. O seu ganho depende de que você consiga uma vaga, segundo a sua capacidade profissional e a competência para vencer os seus concorrentes. trabalho como empregado está diminuindo no mundo. Mesmo no Brasil, que é um país onde se valoriza a cultura do emprego com carteira assinada e onde o sistema educacional está montado para formar empregados, o número de trabalhadores formais na categoria "empregados" está decrescendo como proporção do número de pessoas que trabalham; para uma população ativa de, aproximadamente, 80 milhões de pessoas, não há mais de 30 milhões de empregados com registro em carteira e benefícios da legislação trabalhista. Se você é um "A", significa que trabalha para si mesmo; ou seja, não tendo um patrão, o seu trabalho é oferecido a clientes que necessitam dos seus serviços e pagam honorários proporcionais ao trabalho realizado. Os autônomos não têm os benefícios da legislação trabalhista, não têm garantia de renda fixa e só ganham pelas horas efetivamente trabalhadas; é um trabalho dos mais difíceis, em função da irregularidade dos rendimentos, da dependência de procura pelos serviços e pelo não-direito à Se um autônomo fica inativo por um tempo, em razão de férias, doenças etc., o dinheiro deixa de fluir para o seu caixa; por isso, a administração financeira de um "A" exige apurada compreensão da lógica do seu trabalho e conhecimento dos conceitos de finanças pessoais. Um autônomo pode ser bem-sucedido na profissão e se dar mal na gestão financeira pessoal se não tiver instrução financeira e controle das emoções. O nosso amigo advogado da história dois do capítulo um é exemplo do profissional competente na sua área e desastroso na gestão das finanças da família. Mas ele não pensava assim: vivia comprando ativos ruins, que eram centros de gastos e não fonte de renda, pensando que estava garantindo a segurança da família. Um ativo é bom do ponto de vista do fluxo de caixa quando ele dinheiro na sua conta bancária. 32</p><p>Educação Financeira ao Alcance de Todos Se você adquire uma sala comercial para alugar, você está comprando uma fonte de renda; mas, se adquire uma casa de praia, você está comprando um ativo ruim, um centro de gastos que tira dinheiro da sua conta bancária. Na prática, a posse de ativos ruins nos deixa mais pobres, porque aumenta as nossas despesas mensais. Uma sala comercial e uma casa de praia são dois ativos iguais no patrimonial; porém, do ponto de vista do fluxo de caixa, a sala é um ativo bom e a casa é um ativo ruim. "E" e o "A" são categorias profissionais pertencentes ao grupo um, cuja renda depende exclusivamente do seu trabalho pessoal. Eles trabalham pelo dinheiro e o seu fluxo de ganho depende de que estejam sempre trabalhando. A sua renda é "dependente"; depende de que tenham saúde, depende de que sejam qualificados, depende de que encontrem clientes para os seus serviços, depende de que sejam melhores- do que os concorrentes. Enfim, o seu ganho depende de que não parem. Ocorre que o ser humano não é máquina: ele adoece, cansa, envelhece, tem depressão, é vencido, pára. E aí... o que fazer? Pode não haver lugar no grupo um para você durante toda a sua vida e depender exclusivamente de renda oriunda do trabalho pessoal é perigoso. Lembram quando falei, ao nosso amigo advogado, sobre renda dependente e renda independente? Como diz o escritor americano Robert Kiyosaki, os do grupo um trabalham pelo dinheiro. DINHEIRO TRABALHANDO PARA VOCÊ Os que estão no grupo dois têm uma característica comum: eles podem sair de férias, ficar doentes ou simplesmente se aposentar e, ainda assim, continuam ganhando dinheiro. Mesmo que estejam parados, o 33</p><p>Entendendo a origem da sua renda dinheiro continua entrando na sua conta bancária; a razão é que os seus ativos bons geram renda que flui para o seu caixa, diferentemente dos ativos ruins, que não geram renda e ainda tiram dinheiro do seu bolso pelas despesas que provocam. A sala comercial gera um aluguel mensal para o seu proprietário, por isso é um ativo bom; a casa de praia provoca despesa mensal, por isso é um ativo ruim. Se você é um dono de empresa (DE), ela produz um lucro constante, independentemente de quantas horas você trabalha; ou seja, o seu negócio gera dinheiro para você. Uma questão importante é que o "DE" depende de habilidades gerenciais e capacidade de contratar talentos que garantam o êxito da empresa, além de tino empresarial para tocar um negócio capaz de sobreviver e ganhar dinheiro; sem isso, o "DE" pode amargar prejuízos e até falir. De qualquer forma, o "DE" tem uma estrutura trabalhando para pôr dinheiro na conta bancária dele, dinheiro que pode ser aplicado na compra de outros ativos bons, os quais, por sua vez, vão colocar mais renda no caixa todo mês. Se você é um investidor (I), significa que possui ativos que geram dinheiro para o seu caixa, mesmo que você passe o dia dormindo; o investidor é alguém que possui ativos bons capazes de gerar renda regularmente, independentemente da sua competência pessoal. Um proprietário de imóveis de aluguel, ativos financeiros e/ou ações tem um fluxo de ganho mensal em aluguéis, juros e dividendos... um processo auto-sustentável, que é o sonho de todo mundo. O "DE" e o "I" são pessoas que podem desfrutar de três valiosos recursos para uma vida tempo, dinheiro e liberdade. O dinheiro trabalha para eles, o que lhes dá mais opções para decidir o que fazer com a sua vida; todavia, o bem mais precioso dos que estão no grupo dois é o fato de não dependerem dos problemas e do vai-e-vem do mercado de trabalho. 34</p><p>Educação Financeira ao Alcance de Todos Anotações 35</p><p>5 Aprendendo a ler demonstrações financeiras S empre que converso com algum profissional autônomo, como médico e advogado, ou com alguém talentoso que virou empresário, faço a pergunta: você sabe o que é um balanço, uma demonstração de renda e um fluxo de caixa? Mesmo que você seja um empregado, saber a resposta é importante para o sucesso na gestão das finanças pessoais. Todavia, não basta saber "mais ou menos". Há contadores que sabem ler as três demonstrações financeiras com os olhos, mas não com a mente; eles entendem os 36</p><p>Educação Financeira ao Alcance de Todos números, mas não entendem a história que os números contam. A incapacidade de ler e entender demonstrações financeiras é responsável por fracassos e por erros que podem ser fatais. As histórias de queda são abundantes. É o exímio cozinheiro que abriu um restaurante e quebrou; o famoso ortopedista que montou um hospital e faliu; o competente advogado que vive afogado em dívidas; a grande estilista que quebrou a butique... e muitas outras histórias de ótimos profissionais na sua área que se deram mal montando negócios empresariais. A saída é estudar e buscar educação financeira, o que exige humildade, boa vontade e esforço. ESTOQUE E FLUXO Há alguns conceitos econômicos que são fundamentais para a compreensão dos financeiros. Embora eles sejam simples, a maioria das pessoas, incluindo economistas, não tem noção precisa do seu significado. Dois dos "conceitos-chave" são: estoque e Estoque é sinônimo de existência. Se você fotografar uma caixa d'água, você constatará a existência de uma certa quantidade de litros de água. Estoque é algo que existe em dado momento, por isso é uma variável estática. Quando faz a sua declaração anual para o imposto de renda, você relaciona os seus bens; ali consta o estoque de bens e direitos que você possui no último dia do ano. Olhando o balanço de uma empresa, a coluna de ativos mostra os bens e direitos que ela possui na data do balanço. Dizemos que tais ativos são o estoque (existência) de bens e direitos da empresa. A coluna de passivos mostra as obrigações e as dívidas da empresa na data do balanço; logo, os passivos são o estoque (existência) de dívidas a pagar e compromissos a honrar naquela data. estoque na caixa d'água diz apenas quanta água existia no momento da fotografia, mas não informa quanta água entrou na caixa e quanta água saiu da caixa durante o dia. Se colocar um medidor na torneira de entrada e 37</p><p>Aprendendo a ler demonstrações financeiras outro na torneira de saída, você pode, ao fim do dia, identificar a quantidade de água que entrou e a quantidade que saiu. Este é o conceito de fluxo. Fluxo é, por definição, movimento de entrada e saída. Fluxo é uma variável dinâmica. Se você quiser saber qual o seu consumo de água durante o mês, você precisa conhecer a quantidade de água que passou pela caixa, o que requer conhecer quanta água entrou e quanta água saiu. As fotografias mostrando os estoques de água na caixa em várias datas nada dizem sobre as entradas e as saídas. Apesar de simples, muita gente vê confusamente esses conceitos. A lista de bens e direitos que constam na sua declaração anual para o imposto renda não informa quanto você ganhou nem quanto gastou naquele ano. seu patrimônio (a lista de bens) é um conceito de estoque. A sua renda e a sua despesa do ano são um conceito de fluxo. Da mesma forma, o balanço de uma empresa mostra apenas o estoque de ativos e o estoque de passivos, mas não mostra quanto ela fez em vendas nem quanto pagou de despesas no ano; o balanço nada informa sobre as receitas e sobre os custos da companhia. Por quê? Simplesmente, porque o balanço é uma demonstração de estoque e, sobre rendas e gastos, você precisa de uma demonstração de fluxo. Você precisa de uma demonstração que informe as receitas e as despesas do período. que é importante entender aqui é que, na vida, o que garante sobrevivência é o fluxo de caixa. nosso amigo advogado da história dois tinha um estoque de patrimônio bastante grande; só que os bens que possuía eram ativos ruins, que só provocavam despesas. Os ativos ruins contribuíam para aumentar os seus gastos mensais. fluxo é simplesmente um conceito para mostrar o movimento de entrada e saída de alguma coisa em determinado período, seja o movimento de entrada e saída de água da caixa, seja o movimento de receitas e despesas de uma empresa, seja o movimento de rendimentos e gastos de uma família. saldo do fluxo de caixa é que vai dizer se você ficou mais rico ou mais pobre ao final de um ano. que o nosso amigo advogado não entendeu foi que, ao comprar ativos ruins, ele criou mais despesas, passou a depender 38</p><p>Educação Financeira ao Alcance de Todos de ganhar cada vez mais e, se ele morresse, a pobre família ficaria com um grande "mico"; ou seja, ficaria com carro, chácara de lazer, apartamento de praia, teria de pagar as despesas mensais (linha de saída do fluxo de caixa) e não teria mais os rendimentos mensais de honorários (linha de entrada do fluxo de caixa). Se ele tivesse comprado ativos bons, eles gerariam renda. A compreensão dos conceitos de estoque e de fluxo é fundamental para uma boa gestão financeira de uma família, de uma empresa ou do tesouro nacional. A beleza e a utilidade desses conceitos estão na sua simplicidade e na facilidade para e aplicá-los ao mundo real. É lamentável que ainda exista quem saia de uma universidade sem nunca ter ouvido falar desses conceitos e da importância que eles têm para o êxito pessoal e profissional. o BALANÇO PATRIMONIAL Balanço Patrimonial é uma folha que mostra os ativos e os passivos. Ativos são os bens e direitos que você tem; são as suas dívidas e as suas obrigações. Porém, um balanço só diz o que você possui e o que você deve, mas não diz quanto você ganha e quanto gasta. A razão é simples: o quanto você ganha e o quanto você gasta é um conceito de fluxo, que requer uma demonstração de renda (é o seu fluxo de caixa). Balanço Ativo Passivo Dívidas e Bens e Direitos Obrigações a que você tem cumprir 39</p><p>Aprendendo a ler demonstrações financeiras Por dedução você já deve ter percebido que, se tomar o valor dos seus ativos e diminuir o valor dos seus passivos, saldo é o seu patrimônio real, o seu patrimônio líquido. Patrimônio Líquido é a expressão usada oficialmente pelos contadores para fazerem o balanço das empresas. Tudo é simples; basta que se olhe a essência sem as filigranas da contabilidade. Por dedução, também, dá para inferir que o seu patrimônio líquido crescerá ou diminuirá de um ano para outro conforme o seu fluxo de caixa. Se, neste ano, você ganhar mais do que os seus gastos, o seu patrimônio líquido ao final do ano será maior. Assim também se dá com a empresa. Se ela tiver mais receitas do que custos, sobrará um lucro, que aumentará o patrimônio líquido ao fim do exercício. Neste ponto, é relevante observar que não é inteligente acumular um conjunto de ativos que só provocam despesas no seu fluxo de caixa; ou seja, ativos ruins, que vão tirar dinheiro do seu bolso todo mês, a exemplo da chácara de lazer do nosso amigo advogado da história dois. Enquanto os ativos bons geram renda para você e aumentam a sua solidez financeira, os ativos ruins dão despesas e reduzem o seu poder de compra. A DEMONSTRAÇÃO DE RENDA A Demonstração de Renda é conhecida na linguagem dos contadores por DRE (Demonstração de Resultado Econômico). Não gosto dessa expressão; ela é muito genérica. "Resultado Econômico" é expressão que não explica precisamente o que se quer, pois a palavra "econômico" é muito ampla e pode significar várias coisas. Demonstração de Renda aqui é uma informação que diz respeito a quanto você ganha e quanto gasta num dado período um mês, um trimestre ou um ano. 40</p><p>Educação Financeira ao Alcance de Todos A Demonstração de Renda é, por definição, um fluxo. Ela diz quanto dinheiro entrou e quanto dinheiro saiu do seu caixa em um dado período. Para o empregado, é simples entender a sua demonstração de renda: na linha da renda, ele tem o seu salário líquido e na linha da despesa tem os seus gastos do período. Por aí, ele pode ver se tem superávit (ganha mais do que gasta) ou se tem déficit (gasta mais do que ganha). Demonstração de Renda Renda Seus ganhos Despesas Seus gastos Para uma empresa, a coisa já não é tão simples. Pelas regras da contabilidade, uma empresa faz uma venda, emite uma nota fiscal e registra como uma renda (receita). Mas ela pode ter feito a venda a prazo e não recebe o dinheiro no ato da emissão da nota fiscal; ou seja, ela registra a renda, mesmo que o dinheiro ainda não tenha entrado. Isso faz com que, para as empresas, uma demonstração de renda deva vir acompanhada de um mapa que demonstre o movimento de entrada e saída de dinheiro, ou seja, um fluxo de caixa. Tirando esse aspecto da diferença entre a data da geração da renda e a data do recebimento do dinheiro, uma demonstração de renda informa se a pessoa ou a empresa tem mais ganhos do que despesas. Saber o que se passa no fluxo de caixa de uma pessoa é fundamental para saber se estamos falando de alguém que está acumulando um patrimônio ou de alguém que está no caminho da insolvência. 41</p><p>Aprendendo a ler demonstrações financeiras ATIVOS BONS E ATIVOS RUINS No caso da pessoa física, há um dado a considerar. Um empregado ou um autônomo só tem renda enquanto está trabalhando; quando perde o emprego, quando pára, quando se aposenta ou quando fica doente, o trabalhador do grupo um deixa de ter renda. Por aí já dá para ter uma idéia dos problemas do nosso amigo advogado da história dois. Ao comprar ativos ruins, que só exigiam gastos para mantê-los, ele criou uma camisa-de-força para si mesmo; além dos gastos normais da sua vida e da sua família, ele adicionou despesas novas ao comprar ativos ruins. Antes ele precisava trabalhar para sustentar a família; depois, ele passou a ter de trabalhar duro para sustentar, também, o carro, a chácara de lazer e o apartamento na praia. O nosso amigo advogado se tornou escravo da sua linha de despesas. Seria diferente se ele tivesse comprado imóveis de aluguel: além de não ter as despesas para manter os ativos de lazer, ele teria adicionado uma torneira de entrada de dinheiro no seu caixa e não novos ralos de despesas. Como já foi visto, um ativo bom é uma fonte que manda dinheiro para o seu caixa. Um ativo ruim é um ralo por onde vaza dinheiro do seu caixa. Essa diferença, embora muito simples, é essencial. Ativo Demonstração de Renda Ativo Bom Renda Despesas Ativo Ruim Na prática, do ponto de vista do fluxo de caixa, um ativo ruim tem o mesmo efeito de um passivo: se você tem uma dívida com um 42</p><p>Educação Financeira ao Alcance de Todos banco, você paga juros; se tem uma chácara de lazer, você paga impostos, água, luz, limpeza e conservação. A sua dívida com o banco tira dinheiro do seu bolso e o seu ativo ruim faz a mesma coisa. o nosso amigo advogado tinha o conceito certo - proteger a família no caso da sua falta - mas usava o meio errado. Ele deveria ter comprado ativos bons, que gerariam renda mesmo que ele parasse de trabalhar. Normalmente, nós cometemos grandes erros transgredindo princípios simples. Demonstração de Renda Renda Balanço Passivos Ativo Bom Ativo Ruim Despesas Quem vivia chamando a atenção para o conceito de ativos bons e ativos ruins era o economista e diplomata Roberto Campos, ex-ministro do Planejamento do Brasil. Em um artigo publicado em setembro de 1995, sob o título Tristes Tropiques, no qual discutia a privatização de empresas estatais, dizia ele: "Não há político que não tenha orgasmos verbais pretendendo ser defensor do patrimônio público. Mas que é patrimônio público? Patrimônio é o que dá retorno. Nesse sentido, as empresas públicas não são patrimônio e sim encargos públicos". o FLUXO DE CAIXA Em geral, para uma pessoa o fluxo de caixa é a sua própria demonstração de renda; os ganhos pessoais são, geralmente, recebidos 43</p><p>Aprendendo a ler demonstrações financeiras todos durante o mês e as despesas pagas no mesmo período. Para a empresa isso nem sempre é verdade; por esta razão, além da demonstração de renda, a empresa precisa de um demonstrativo de fluxo de caixa, que demonstre todas as entradas e saídas de dinheiro a qualquer título. A empresa pode ter uma receita de $100 no mês um e só receber o dinheiro dessa receita no mês um, mês dois e mês três; isto é, a entrada do dinheiro proveniente das vendas pode entrar no caixa em três meses. Da mesma forma, a empresa pode ter despesas de $90 no mês e distribuir o pagamento por três meses. Por isso, a vida financeira de uma empresa é mais complexa do que a vida financeira de uma pessoa ou uma família. Uma palavra precisa ser dita sobre o conceito de "despesa": para a pessoa, toda saída de dinheiro do seu bolso é considerada uma despesa, mas para uma empresa o conceito não é tão simples. Se você é um empregado e compra um automóvel, o pagamento das prestações mensais deve ser considerado como uma despesa na sua demonstração de renda, entendida como uma saída de caixa. Para uma empresa, a compra de um automóvel é considerada um investimento: embora ela deva pagá-lo e lançar a saída de dinheiro no seu fluxo de caixa, na demonstração de renda das operações da empresa o pagamento do carro não é considerado como despesa. A razão é que, para as empresas, o conceito de "despesa" pode ser entendido como gasto necessário para produzir a mercadoria que ela vende. pagamento das prestações do automóvel (investimento) é uma saída de caixa, mas não é uma despesa na demonstração da renda das atividades operacionais; ao pagar a prestação ela está quitando a compra de um bem de capital lançado na sua coluna de ativos. A demonstração de renda (ou resultado) de uma empresa informa as receitas de vendas e as despesas necessárias para produzir e vender durante um exercício, geralmente um ano. Considerando que o automóvel dura muito mais que um ano, apenas o desgaste do veículo no ano é custo a ser debitado aos negócios daquele ano. Por isso, é importante saber distinguir claramente os conceitos. 44</p><p>Educação Financeira ao Alcance de Todos Demonstração de Renda Fluxo de Caixa Mês 1 Mês 1 Mês 2 Mês 3 Renda Recebimentos Recebimentos Recebimentos 100 70 10 20 Despesas Pagamentos Pagamentos Pagamentos 90 70 20 0 Veja que, embora a empresa tenha uma superior às despesas em $10, o fluxo de caixa apresenta déficit de $10 no mês dois e superávit de $20 no mês três. Para não ficar inadimplente no mês dois, a empresa terá de tomar um empréstimo bancário, o que cria uma nova despesa: os juros do empréstimo. O fato de as receitas entrarem no caixa em momentos diferentes das datas de pagamento das despesas altera completamente a demonstração de renda da empresa. aparecimento de uma nova despesa - os juros - modifica a capacidade de geração de lucro da organização, e o fluxo de caixa positivo de todo o período, que era igual a $10, acabará sendo reduzido. Se todas as receitas fossem recebidas no ato em que elas são geradas e se todas as despesas fossem pagas à vista, o fluxo de caixa operacional seria parecido com a demonstração de renda. É o fato de as receitas serem recebidas a prazo e de as despesas serem pagas a prazo que faz o fluxo de caixa ser diferente da demonstração de renda. 45</p><p>Aprendendo a ler demonstrações financeiras Para ser bem-sucedido tanto na gestão de empresas quanto na gestão das finanças pessoais, o executivo precisa conhecer essas três peças financeiras: o balanço patrimonial, a demonstração de renda e o fluxo de caixa. Aprenda isso e você terá dado um passo enorme na aquisição de conhecimentos financeiros úteis para toda a vida. 46</p><p>Educação Financeira ao Alcance de Todos Anotações 47</p><p>6 Educação emocional em primeiro lugar ser humano é resultado mais das suas emoções do que das suas habilidades técnicas. Nenhum conhecimento levará você a um determinado objetivo se as suas emoções forem inadequadas para alcançar tal objetivo; a relação com o dinheiro não é diferente. A nossa trajetória financeira se dá em três pontos: como ganhamos, como gastamos e como conservamos dinheiro. 48</p>