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<p>RESUMO DE AULA – DIREITO PENAL I</p><p>CULPABILIDADE</p><p>NOÇÕES GERAIS: A culpabilidade, enquanto categoria</p><p>sistemática do delito, é fruto da evolução da dogmática jurídico-</p><p>penal, produzida na segunda metade do século XIX, com a</p><p>separação entre antijuridicidade e culpabilidade. Essa</p><p>sistematização da teoria do delito ocasionou uma transformação</p><p>fundamental no estudo dogmático penal, e tornou-se majoritária a</p><p>partir da obra de Von Liszt.</p><p>(BITENCOURT, 2018, p. 446).</p><p>Atribui-se, em Direito Penal, um triplo sentido ao conceito de</p><p>culpabilidade, que precisa ser liminarmente esclarecido. Em</p><p>primeiro lugar, a culpabilidade — como fundamento da pena —</p><p>refere-se ao fato de ser possível ou não a aplicação de uma pena</p><p>ao autor de um fato típico e antijurídico, isto é, proibido pela lei</p><p>penal. Para isso, exige-se a presença de uma série de requisitos —</p><p>capacidade de culpabilidade, consciência da ilicitude e exigibilidade</p><p>de conduta conforme a norma — que constituem os elementos</p><p>positivos específicos do conceito dogmático de culpabilidade. A</p><p>ausência de qualquer desses elementos é suficiente para impedir a</p><p>aplicação de uma sanção penal.</p><p>(BITENCOURT, 2018, p. 447).</p><p>Em segundo lugar, a culpabilidade — como elemento da</p><p>determinação ou medição da pena. Nessa acepção, a culpabilidade</p><p>funciona não como fundamento da pena, mas como limite desta,</p><p>impedindo que a pena seja imposta além da medida prevista pela</p><p>própria ideia de culpabilidade, aliada, é claro, a outros fatores, como</p><p>importância do bem jurídico, fins preventivos etc. E, finalmente, em</p><p>terceiro lugar, a culpabilidade — vista como conceito contrário à</p><p>responsabilidade objetiva, ou seja, como identificador e delimitador</p><p>da responsabilidade individual e subjetiva. Nessa acepção, o</p><p>princípio de culpabilidade impede a atribuição da responsabilidade</p><p>penal objetiva, assegurando que ninguém responderá por um</p><p>resultado absolutamente imprevisível e se não houver agido, pelo</p><p>menos, com dolo ou culpa.</p><p>(BITENCOURT, 2018, p. 447).</p><p>CULPABILIDADE COMO PREDICADO DO CRIME:</p><p>Desde que o pensamento sistemático se consolidou na dogmática</p><p>jurídico-penal, a atribuição de responsabilidade penal é entendida</p><p>como um processo valorativo escalonado de imputação. Ou seja, o</p><p>delito é atribuído (imputado) ao comportamento humano quando</p><p>reúne determinadas características. Já analisamos os dois</p><p>primeiros degraus de valoração: a tipicidade e a antijuridicidade.</p><p>Mas não basta caracterizar uma conduta como típica e antijurídica</p><p>para a atribuição de responsabilidade penal a alguém.</p><p>Esses dois atributos não são suficientes para punir com pena o</p><p>comportamento humano criminoso, pois para que esse juízo de</p><p>valor seja completo é necessário, ainda, levar em consideração as</p><p>características individuais do autor do injusto. Isso implica,</p><p>consequentemente, acrescentar mais um degrau valorativo no</p><p>processo de imputação, qual seja, o da culpabilidade.</p><p>(BITENCOURT, 2018, p. 448).</p><p>Desde que o pensamento sistemático se consolidou na dogmática</p><p>jurídico-penal, a atribuição de responsabilidade penal é entendida</p><p>como um processo valorativo escalonado de imputação. Ou seja, o</p><p>delito é atribuído (imputado) ao comportamento humano quando</p><p>reúne determinadas características. Já analisamos os dois</p><p>primeiros degraus de valoração: a tipicidade e a antijuridicidade.</p><p>Mas não basta caracterizar uma conduta como típica e antijurídica</p><p>para a atribuição de responsabilidade penal a alguém.</p><p>Esses dois atributos não são suficientes para punir com pena o</p><p>comportamento humano criminoso, pois para que esse juízo de</p><p>valor seja completo é necessário, ainda, levar em consideração as</p><p>características individuais do autor do injusto. Isso implica,</p><p>consequentemente, acrescentar mais um degrau valorativo no</p><p>processo de imputação, qual seja, o da culpabilidade.</p><p>ANTECEDENTES DAS TEORIAS MODERNAS:</p><p>Os antecedentes da teoria da culpabilidade, em sua forma ainda</p><p>elementar, remontam ao Direito Penal italiano da Baixa Idade Média</p><p>e à doutrina do Direito Comum elaborada nos séculos XVI e XVII.</p><p>O Direito Natural, do qual Puffendorf (1636-1694) é reconhecido</p><p>como autêntico representante, apresenta a primeira aproximação à</p><p>teoria da culpabilidade, partindo da ideia de imputação, que</p><p>corresponderia à atribuição da responsabilidade da ação livre ao</p><p>seu autor, ou seja, atribuía-se a responsabilidade penal àquele que,</p><p>livremente, praticasse a ação. (BITENCOURT, 2018, p. 451).</p><p>Na segunda metade desse mesmo século, a teoria da liberdade de</p><p>vontade entra em franco declínio, tornando insustentável o conceito</p><p>de culpabilidade do Direito Natural, abrindo, assim, o caminho para</p><p>a evolução da dogmática jurídico-penal através da distinção</p><p>fundamental entre antijuridicidade e culpabilidade defendida por Von</p><p>Liszt. Essa transformação na sistematização da teoria do delito</p><p>ocorreu num momento em que o método positivista predominava no</p><p>âmbito das ciências sociais, contribuindo para o surgimento da</p><p>concepção psicológica da culpabilidade. (BITENCOURT, 2018, p. 451).</p><p>TEORIA PSICOLÓGICA DA CULPABILIDADE:</p><p>A teoria psicológica da culpabilidade tem estrita correspondência</p><p>com o naturalismo-causalista, fundamentando-se ambos no</p><p>positivismo do século XIX. Von Liszt, como demonstramos</p><p>anteriormente, reduz a ação a um processo causal originado do</p><p>impulso da vontade. Nesses termos, vinculada a essa concepção</p><p>de Von Liszt, “culpabilidade é a responsabilidade do autor pelo</p><p>ilícito que realizou”, ou, em outras palavras, culpabilidade é a</p><p>relação subjetiva entre o autor e o fato.</p><p>Em termos bem esquemáticos, culpabilidade é o vínculo psicológico</p><p>que une o autor ao resultado produzido por sua ação.</p><p>No mesmo sentido, Bellavista definiu a culpabilidade como a</p><p>relação psicológica entre o agente e a ação que ocasiona um</p><p>evento querido ou não querido, ainda que não previsto, mas</p><p>previsível. Enfim, a culpabilidade era, para essa teoria, a relação</p><p>psicológica, isto é, o vínculo subjetivo que existia entre a conduta e</p><p>o resultado, assim como, no plano objetivo, a relação física era a</p><p>causalidade. Dentro dessa concepção psicológica, o dolo e a culpa</p><p>não só eram as duas únicas espécies de culpabilidade como</p><p>também a sua totalidade, isto é, eram a culpabilidade, na medida</p><p>em que esta não apresentava nenhum outro elemento constitutivo.</p><p>Admitia, somente, como seu pressuposto, a imputabilidade,</p><p>entendida como capacidade de ser culpável.</p><p>CRÍTICAS À TEORIA PSICOLÓGICA:</p><p>A impossibilidade de configurar um conceito superior de</p><p>culpabilidade que abrangesse as suas duas formas (ou espécies),</p><p>dolosa e culposa, especialmente a hipótese de culpa inconsciente,</p><p>foi efetivamente a maior dificuldade da teoria psicológica. Na sua</p><p>forma mais elaborada, a dolosa, a previsão (elemento intelectivo)</p><p>deve estar acompanhada da vontade (elemento volitivo), pois “a</p><p>previsão sem vontade é vazia e a vontade sem previsão é</p><p>cega”. Logo, era absolutamente incoerente visualizar a</p><p>culpabilidade como algo puramente psicológico, quando uma de</p><p>suas formas de manifestação — a culposa — não tinha caráter</p><p>psicológico.</p><p>Outro grande problema era a dificuldade de explicar</p><p>satisfatoriamente a gradualidade da culpabilidade, isto é, a</p><p>ocorrência de causas que excluíam ou diminuíam a</p><p>responsabilidade penal, como, por exemplo, estado de necessidade</p><p>exculpante, emoções, embriaguez, enfim, as causas de exculpação,</p><p>onde a presença do dolo é evidente. Ocorre que, nessas</p><p>circunstâncias, isto é, na exculpação, apesar da existência do nexo</p><p>psicológico entre o autor e o resultado, representado pelo dolo, não</p><p>há culpabilidade. Esse aspecto somente poderia ser explicado se se</p><p>renunciasse à identificação da culpabilidade com o vínculo</p><p>psicológico entre o autor e o seu ato.</p><p>PRECURSORES DA TEORIA PSICOLÓGICO-NORMATIVA DA</p><p>CULPABILIDADE:</p><p>O fundador da teoria normativa da culpabilidade, também conhecida</p><p>como psicológico-normativa, foi Reinhard Frank, concebendo-a</p><p>como reprovabilidade,</p><p>sem, no entanto, afastar-lhe o dolo e a culpa.</p><p>Frank foi o primeiro a advertir que o aspecto psicológico que se</p><p>exprime no dolo ou na culpa não esgota todo o conteúdo da</p><p>culpabilidade, que também precisa ser censurável. Para Frank, “o</p><p>estado normal das circunstâncias em que o autor atua” é elemento</p><p>da culpabilidade, pois a anormalidade pode exculpar o agente.</p><p>Circunstâncias anormais afastariam a reprovabilidade da conduta.</p><p>Assim, a culpabilidade passava a ser, ao mesmo tempo, uma</p><p>relação psicológica e um juízo de reprovação.</p><p>Mezger, embora não tenha sido seu criador, foi o grande difusor da</p><p>teoria normativa da culpabilidade. Para ele, a culpabilidade é tanto</p><p>um determinado conteúdo como também um juízo de valor sobre</p><p>esse conteúdo: é, pois, reprovabilidade. Enfim, a culpabilidade, para</p><p>Mezger, é “o conjunto daqueles pressupostos da pena que</p><p>fundamentam, frente ao sujeito, a reprovabilidade pessoal da</p><p>conduta antijurídica. A ação aparece, por isso, como expressão</p><p>juridicamente desaprovada da personalidade do agente”. Assim,</p><p>seriam componentes da culpabilidade: a) a imputabilidade (que não</p><p>é seu pressuposto); b) uma determinada relação psicológica do</p><p>autor com o fato — dolo ou culpa; c) a ausência de causas</p><p>especiais de exclusão da culpabilidade (enfim, as circunstâncias</p><p>acompanhantes, a motivação normal ou a exigibilidade não</p><p>aparecem positivamente como característica da culpabilidade, mas</p><p>em forma negativa, como exclusão dela).</p><p>TEORIA PSICOLÓGICO-NORMATIVA DA CULPABILIDADE:</p><p>A elaboração da teoria normativa da culpabilidade produziu-se no</p><p>contexto cultural de superação do positivismo-naturalista e sua</p><p>substituição pela metodologia neokantiana do chamado “conceito</p><p>neoclássico de delito”. Sintetizando, em toda a evolução da teoria</p><p>normativa da culpabilidade ocorre algo semelhante ao que</p><p>aconteceu com a teoria do injusto. No injusto, àquela base natural-</p><p>causalista acrescentaram-se as contribuições da teoria dos valores,</p><p>ou seja, ao positivismo do século XIX somou-se o método valorativo</p><p>do neokantismo das primeiras décadas do século XX.</p><p>Na culpabilidade, a exemplo do que ocorreu com o injusto, a uma</p><p>base naturalistapsicológica acrescentaram-se também os</p><p>postulados da teoria dos valores, primeiro com Frank, de forma</p><p>vaga e difusa, posteriormente, com maior clareza, com os autores</p><p>Goldschmidt e Freudenthal. Com isso, se superpõe na culpabilidade</p><p>um critério de caráter eticizante e de nítido cunho retributivo.</p><p>Enfim, a partir dessa teoria normativa (psicológiconormativa), dolo e</p><p>culpa deixam de ser considerados como espécies de culpabilidade,</p><p>ou simplesmente como “a culpabilidade”, passando a constituir,</p><p>necessariamente, elementos da culpabilidade, embora não</p><p>exclusivos, pois esse novo conceito de culpabilidade, ao contrário</p><p>da teoria psicológica, necessita de outros elementos para</p><p>aperfeiçoar-se. Em outros termos, poderá existir dolo sem que haja</p><p>culpabilidade, como ocorre nas causas de exculpação (v. g.,</p><p>legítima defesa putativa), em que a conduta, mesmo dolosa, não é</p><p>censurável. Essa concepção, que preferimos denominar</p><p>psicológico-normativa, vê a culpabilidade como algo que se</p><p>encontra fora do agente, isto é, não mais como um vínculo entre</p><p>este e o fato, mas como um juízo de valoração a respeito do</p><p>agente.</p><p>Essa concepção, que preferimos denominar psicológico-normativa,</p><p>vê a culpabilidade como algo que se encontra fora do agente, isto é,</p><p>não mais como um vínculo entre este e o fato, mas como um juízo</p><p>de valoração a respeito do agente. Em vez de o agente ser o</p><p>portador da culpabilidade, de carregar a culpabilidade em si, no seu</p><p>psiquismo, ele passa a ser o objeto de um juízo de culpabilidade,</p><p>que é emitido pela ordem jurídica.</p><p>Há, então, uma reprovação, uma censura, que recai sobre o sujeito,</p><p>sobre o agente autor de um fato típico e ilícito, que se condiciona,</p><p>no entanto, à existência de certos elementos:</p><p>I) a imputabilidade, que aliás, na teoria psicológica, era vista como</p><p>um pressuposto da culpabilidade. A imputabilidade continua sendo</p><p>indispensável na teoria psicológico-normativa, mas como seu</p><p>elemento, e não mais como seu pressuposto;</p><p>(II) o dolo ou a culpa, que de formas ou espécies da culpabilidade</p><p>são transformados em um de seus elementos, no caso, psicológico-</p><p>normativo.</p><p>[...] (III) a exigibilidade de outra conduta, o conhecido “poder agir</p><p>de outro modo”. Enfim, sintetizando, a culpabilidade psicológico-</p><p>normativa compõe-se dos seguintes elementos: a) imputabilidade;</p><p>b) elemento psicológico-normativo (dolo ou culpa); c) exigibilidade</p><p>de conduta conforme ao Direito.</p><p>CRÍTICA À TEORIA PSICOLÓGICO-NORMATIVA DA</p><p>CULPABILIDADE:</p><p>Por essa teoria, para haver dolo, como elemento da culpabilidade,</p><p>fazia-se necessário que o agente quisesse praticar um fato típico e</p><p>ilícito, com a consciência da antijuridicidade desse fato, isto é,</p><p>sabendo que estava contrariando a ordem jurídica. Dessa forma,</p><p>repetindo, o dolo deixava de ser puramente psicológico (natural),</p><p>passando a ser também normativo, isto é, reunia os dois aspectos</p><p>simultaneamente: psicológico (vontade e previsão) e normativo</p><p>(consciência da ilicitude), configurando o que se denominou um</p><p>dolo híbrido, isto é, psicológico-normativo.</p><p>Com a adoção de um dolo híbrido — ao mesmo tempo psicológico</p><p>e normativo —, cria-se um problema para o Direito Penal,</p><p>prontamente detectado por Mezger, a respeito da punibilidade do</p><p>criminoso habitual ou por tendência. Esse criminoso, em virtude do</p><p>seu meio social, não tinha consciência da ilicitude, necessária à</p><p>configuração do dolo, porque, de regra, se criava e se desenvolvia</p><p>em um meio em que determinadas condutas ilícitas eram</p><p>consideradas normais, corretas, eram esperadas pelo seu grupo</p><p>social. Ora, se essa pessoa não tinha a consciência da ilicitude,</p><p>porque nasceu e se criou em determinado grupo social, em que a</p><p>visão sobre a realidade é diversa, e sendo a consciência da ilicitude</p><p>indispensável à existência do dolo, a que conclusão se chegava?</p><p>Somente se podia concluir que tal indivíduo agia sem dolo, pois não</p><p>tinha consciência da ilicitude.</p>

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