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<p>Transtornos do N</p><p>eurodesenvolvim</p><p>ento</p><p>C</p><p>arina Alice de O</p><p>liveira</p><p>ISBN 978-65-5821-278-2</p><p>9 786558 212782</p><p>Código Logístico</p><p>I000782</p><p>Transtornos do</p><p>Neurodesenvolvimento</p><p>Carina Alice de Oliveira</p><p>IESDE BRASIL</p><p>2024</p><p>Todos os direitos reservados.</p><p>IESDE BRASIL S/A.</p><p>Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200</p><p>Batel – Curitiba – PR</p><p>0800 708 88 88 – www.iesde.com.br</p><p>© 2024 – IESDE BRASIL S/A.</p><p>É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito da autora e do</p><p>detentor dos direitos autorais.</p><p>Projeto de capa: IESDE BRASIL S/A. Imagem da capa: Macrovector/shutterstock</p><p>23-87066</p><p>CDD: 618.9285889</p><p>CDU: 616.89-008.434.3-053.2</p><p>CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO</p><p>SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ</p><p>O46t</p><p>Oliveira, Carina Alice de</p><p>Transtornos do neurodesenvolvimento / Carina Alice de Oliveira. - 1. ed. -</p><p>Curitiba [PR] : IESDE, 2024.</p><p>Inclui bibliografia</p><p>ISBN 978-65-5821-278-2</p><p>1. Transtornos do neurodesenvolvimento. 2. Crianças com transtorno do</p><p>neurodesenvolvimento. I. Título.</p><p>Meri Gleice Rodrigues de Souza - Bibliotecária - CRB-7/6439</p><p>13/11/2023 17/11/2023</p><p>Carina Alice de</p><p>Oliveira</p><p>Especialista em Saúde Mental pela Faculdade</p><p>Metropolitana de Ribeirão Preto; em Psicologia</p><p>Positiva pela University of Pennsylvania (UPenn); em</p><p>Cuidados Paliativos pela University of Colorado (CU);</p><p>em Saúde Global pela Johns Hopkins University (JHU);</p><p>em Psicologia Anormal pela Wesleyan University (WES);</p><p>em Neuropsicologia pela Faculdade Unyleya; e em</p><p>Saúde Mental, Psicopatologia e Atenção Psicossocial</p><p>pela Universidade Anhanguera (Uniderp). Graduada</p><p>em Psicologia pelo Centro Universitário Anhanguera</p><p>Pitágoras Ampli (Unia); e em Letras – Inglês/Português</p><p>pelo Centro Universitário Fundação Santo André</p><p>(FSA). Atualmente é coordenadora do Programa de</p><p>Melhoria da Convivência e Proteção Escolar (Conviva)</p><p>da Secretaria de Educação do Governo do Estado de</p><p>São Paulo – com atuação na Diretoria de Ensino da</p><p>Região de Santo André. É professora há 24 anos e tem</p><p>experiência na área de Letras com ênfase no ensino de</p><p>língua inglesa para crianças e jovens.</p><p>Agora é possível acessar os vídeos do livro por</p><p>meio de QR codes (códigos de barras) presentes</p><p>no início de cada seção de capítulo.</p><p>Acesse os vídeos automaticamente, direcionando</p><p>a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet</p><p>para o QR code.</p><p>Em alguns dispositivos é necessário ter instalado</p><p>um leitor de QR code, que pode ser adquirido</p><p>gratuitamente em lojas de aplicativos.</p><p>Vídeos</p><p>em QR code!</p><p>SUMÁRIO</p><p>1 Neurodesenvolvimento 9</p><p>1.1 Sistema nervoso 10</p><p>1.2 Proteções do sistema nervoso central 14</p><p>1.3 Neurônios e suas funções 17</p><p>1.4 Etapas do neurodesenvolvimento infantil 23</p><p>2 Transtornos do neurodesenvolvimento 28</p><p>2.1 Principais transtornos do neurodesenvolvimento 29</p><p>2.2 Nature ou nurture? 35</p><p>2.3 Perspectiva epigenética do desenvolvimento humano 36</p><p>2.4 Funcionamento cerebral 39</p><p>2.5 Contribuições da neurociência cognitiva 43</p><p>3 Transtornos do neurodesenvolvimento e aprendizagem 50</p><p>3.1 O que são transtornos do neurodesenvolvimento? 51</p><p>3.2 Dificuldades e transtornos de aprendizagem 62</p><p>3.3 TDAH e TEA 63</p><p>3.4 Deficiências sensoriais 67</p><p>3.5 Aspectos biológicos, cognitivos e emocionais 72</p><p>4 Prevenção e cuidado 76</p><p>4.1 Prevenção e promoção de saúde 77</p><p>4.2 Avaliação de situações de risco 82</p><p>4.3 Identificação de vulnerabilidades 85</p><p>4.4 Fortalecimento de vínculos 87</p><p>4.5 Redes de apoio 93</p><p>5 O papel da escola e da família 98</p><p>5.1 O papel da família 99</p><p>5.2 Suporte à família 102</p><p>5.3 O papel da escola 106</p><p>5.4 Desafios no ambiente escolar 109</p><p>5.5 Contribuições da neurodiversidade 114</p><p>Resolução das atividades 120</p><p>Agora é possível acessar os vídeos do livro por</p><p>meio de QR codes (códigos de barras) presentes</p><p>no início de cada seção de capítulo.</p><p>Acesse os vídeos automaticamente, direcionando</p><p>a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet</p><p>para o QR code.</p><p>Em alguns dispositivos é necessário ter instalado</p><p>um leitor de QR code, que pode ser adquirido</p><p>gratuitamente em lojas de aplicativos.</p><p>Vídeos</p><p>em QR code!</p><p>Nesta obra convidamos você a viajar pelo mundo</p><p>fascinante do neurodesenvolvimento humano, explorando o</p><p>cérebro, o único órgão capaz de estudar a si mesmo!</p><p>No primeiro capítulo conheceremos as estruturas do</p><p>sistema nervoso e seus mecanismos de ação. Identificaremos</p><p>as estruturas neurais e suas funções, entendendo a relevância</p><p>de cada estrutura do sistema nervoso nas etapas do</p><p>neurodesenvolvimento.</p><p>No segundo capítulo apresentaremos os transtornos do</p><p>neurodesenvolvimento, compreendendo o impacto desses no</p><p>desenvolvimento infantil. Entenderemos também o conceito</p><p>de nature (natureza) versus nurture (criação) na perspectiva</p><p>da epigenética, a ciência que estuda a relação entre o meio</p><p>ambiente e a nossa expressão genética, bem como o impacto</p><p>dessas descobertas na atualidade.</p><p>No terceiro capítulo ampliaremos o nosso olhar sobre</p><p>os transtornos do neurodesenvolvimento e os transtornos</p><p>específicos de aprendizagem, identificando a sua gênese</p><p>e conhecendo as características de cada um, tais como</p><p>a dislexia e a discalculia. Estudaremos o transtorno do</p><p>déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) e o transtorno do</p><p>espectro autista (TEA) analisando seus aspectos biológicos,</p><p>cognitivos e emocionais.</p><p>No quarto capítulo teremos uma reflexão sobre a</p><p>importância da prevenção e do cuidado, bem como a</p><p>promoção de saúde e bem-estar. Identificaremos os</p><p>fatores de risco para o neurodesenvolvimento infantil</p><p>e outras questões de vulnerabilidade. Conheceremos a</p><p>importância do fortalecimento dos vínculos afetivos para um</p><p>neurodesenvolvimento saudável, nas relações entre família,</p><p>escola e comunidade.</p><p>No quinto capítulo discutiremos o papel da escola</p><p>e da família no suporte à criança com transtornos do</p><p>neurodesenvolvimento. Apontaremos ações e intervenções</p><p>APRESENTAÇÃOVídeo</p><p>8 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>possíveis, entendendo a relevância da comunidade escolar no acolhimento</p><p>aos estudantes com transtornos específicos de aprendizagem, analisando as</p><p>contribuições da neurodiversidade no contexto escolar.</p><p>Ao final desta obra, esperamos que você amplie a sua visão sobre os</p><p>transtornos do neurodesenvolvimento para além de laudos e diagnósticos,</p><p>valorizando as relações humanas como potências em ação e a capacidade do</p><p>ser humano de crescer, desenvolver-se e superar-se, reconhecendo a força</p><p>transformadora dos vínculos afetivos e do suporte comunitário.</p><p>Um provérbio africano afirma que é preciso uma vila para criar uma</p><p>criança. A vila, hoje, é global! Que essa obra possa contribuir para que todas</p><p>as crianças tenham acesso à saúde, ao cuidado e ao suporte especializado, a</p><p>fim de que possam se desenvolver e florescer, vivendo vidas plenas de sentido</p><p>e de significado.</p><p>Neurodesenvolvimento 9</p><p>1</p><p>Neurodesenvolvimento</p><p>O cérebro, o órgão mais incrível de todo o corpo humano, faz parte do</p><p>sistema mais complexo que conhecemos no organismo: o sistema ner-</p><p>voso. Por isso, neste capítulo, iremos fazer uma viagem por este mundo</p><p>fantástico de informações, sensações e sentidos que só é possível por</p><p>meio da relação do cérebro com o sistema nervoso.</p><p>Na primeira parada de nossa viagem, iremos conhecer as estruturas</p><p>do sistema nervoso e identificar as suas funções, além de nos debruçar</p><p>rapidamente sobre os aspectos anatômicos e fisiológicos desse sistema,</p><p>de modo que possamos conhecê-lo. Em seguida, identificaremos as di-</p><p>ferentes etapas de desenvolvimento humano que o transformam e apri-</p><p>moram e, consequentemente, o separam em estruturas diversas, que se</p><p>completam e se complementam, e tornam possível experienciarmos o</p><p>mundo ao nosso redor.</p><p>Diante da complexidade do sistema nervoso, e de sua aparente fra-</p><p>gilidade, nossa terceira parada permitirá identificarmos as estruturas e</p><p>mecanismos de proteção do sistema nervoso</p><p>células e tecidos, permitindo a especialização e diferencia-</p><p>ção das células em tipos específicos.</p><p>As modificações epigenéticas podem ser influenciadas por uma va-</p><p>riedade de fatores ambientais, incluindo dieta, estresse, exposição a to-</p><p>xinas, interações sociais e experiências no início da vida. Esses fatores</p><p>externos podem afetar o epigenoma, que se refere ao padrão geral de</p><p>modificações epigenéticas no genoma de um indivíduo. O epigenoma</p><p>atua como uma memória molecular de exposições e experiências pas-</p><p>sadas, deixando uma marca na expressão gênica que pode persistir ao</p><p>longo do tempo (RAVEN et al., 2023).</p><p>É importante ressaltarmos que as alterações epigenéticas são reversíveis, o</p><p>que significa que podem ser modificadas ao longo da vida. Essa maleabilida-</p><p>de do epigenoma fornece um mecanismo pelo qual as influências ambientais</p><p>podem moldar a expressão gênica e, consequentemente, o desenvolvimento</p><p>humano. Também implica que as intervenções destinadas a modificarem</p><p>marcas epigenéticas têm o potencial de influenciar os resultados de saúde</p><p>e bem-estar.</p><p>De modo geral, a visão epigenética do desenvolvimento humano des-</p><p>taca a interação dinâmica entre os genes e o meio ambiente. Ela enfatiza</p><p>que a expressão de nossos genes não é determinada apenas por nosso</p><p>código genético, mas também por modificações epigenéticas que respon-</p><p>dem a estímulos ambientais. Essa visão expande nossa compreensão dos</p><p>A obra de Richard Francis,</p><p>Epigenética: como a ciência</p><p>está revolucionando o que</p><p>sabemos sobre heredita-</p><p>riedade, é considerada a</p><p>primeira sobre epigené-</p><p>tica destinada ao público</p><p>em geral. Os estudos da</p><p>epigenética são realmente</p><p>intrigantes e prometem</p><p>revolucionar a maneira</p><p>como nós enxergamos o</p><p>desenvolvimento infantil</p><p>e a evolução humana. A</p><p>leitura desse livro abrirá</p><p>novas portas e modificará</p><p>a maneira pela qual você</p><p>enxerga o desenvolvimen-</p><p>to humano.</p><p>FRANCIS, R. Rio de Janeiro: Zahar, 2015.</p><p>Livro</p><p>Transtornos do neurodesenvolvimento 39</p><p>processos complexos envolvidos no desenvolvimento humano e oferece</p><p>caminhos potenciais para melhorar os resultados de saúde.</p><p>O estudo da epigenética avançou nossa compreensão sobre doen-</p><p>ças complexas e distúrbios do desenvolvimento. Alterações epigené-</p><p>ticas têm sido implicadas em condições como câncer, distúrbios do</p><p>neurodesenvolvimento, doenças cardiovasculares e distúrbios de saú-</p><p>de mental. Ao desvendar os mecanismos epigenéticos subjacentes a</p><p>essas condições, os pesquisadores esperam desenvolver intervenções</p><p>e terapias direcionadas.</p><p>2.4 Funcionamento cerebral</p><p>Vídeo</p><p>Estima-se que o cérebro adulto tenha entre 86 e 100 bilhões de neurô-</p><p>nios, sendo a maioria deles compostos por células de suporte, as chama-</p><p>das células da glia. Cada neurônio se conecta diretamente com pelo menos</p><p>outros mil neurônios, o que resulta em uma rede de circuitos e conexões</p><p>de tal complexidade que vai além da nossa compreensão. Os neurônios</p><p>se comunicam uns com os outros por sinais eletroquímicos. Esses sinais</p><p>permitem a transmissão de informações dentro do cérebro – isto é, entre</p><p>os neurônios – com o resto do corpo (NICHOLLS, 2018).</p><p>O cérebro é um órgão complexo e notável que serve como centro</p><p>de controle do sistema nervoso, sendo responsável por coordenar e re-</p><p>gular várias funções corporais, processar informações sensoriais, gerar</p><p>pensamentos e emoções e controlar o comportamento.</p><p>Com base nisso, a seguir abordaremos de modo mais específico cada</p><p>uma das funções principais desempenhadas pelo cérebro, que são:</p><p>Processamento</p><p>de informações</p><p>Redes</p><p>cerebrais</p><p>Comunicação</p><p>neural</p><p>Circuitos</p><p>neurais</p><p>Plasticidade e</p><p>aprendizagem</p><p>Feedback</p><p>e controle</p><p>Jolygon/Shutterstock</p><p>sutadimages/Shutterstock</p><p>sutadimages/Shutterstock</p><p>O processamento de informações se refere ao processo que o cére-</p><p>bro realiza ao receber informações do corpo e do ambiente externo por</p><p>meio de órgãos sensoriais, como olhos, ouvidos, nariz e pele. Basicamen-</p><p>te, esses estímulos são convertidos em sinais elétricos e transmitidos ao</p><p>cérebro pelos neurônios. A organização das atividades nas regiões e re-</p><p>des cerebrais é também um processo muito importante, já que o cére-</p><p>bro é dividido em diferentes regiões, com cada uma sendo responsável</p><p>por funções específicas, como o lobo occipital, que processa informações</p><p>visuais; o lobo temporal, que está envolvido no processamento auditivo</p><p>e na memória; e o lobo frontal, que desempenha um papel na tomada</p><p>de decisões e nas funções executivas. Essas regiões cerebrais trabalham</p><p>juntas em redes interconectadas para processar e integrar informações.</p><p>A comunicação neural permite que os neurônios se comuniquem</p><p>entre si por meio de conexões especializadas, as chamadas sinapses.</p><p>Quando um sinal elétrico atinge o final de um neurônio (neurônio pré-</p><p>-sináptico), ele desencadeia a liberação de mensageiros químicos – os</p><p>neurotransmissores – que viajam pela sinapse e se ligam a receptores</p><p>no próximo neurônio (neurônio pós-sináptico), transmitindo o sinal.</p><p>Quanto aos circuitos neurais, eles ocorrem quando os neurônios for-</p><p>mam redes ou circuitos complexos no cérebro, permitindo assim o pro-</p><p>cessamento de informações complexas, de modo que o cérebro possa</p><p>executar várias tarefas. Por exemplo, o processamento visual envolve</p><p>uma rede de neurônios que analisam diferentes aspectos dos estímu-</p><p>los visuais, como cor, forma e movimento.</p><p>A plasticidade e a aprendizagem se referem ao conceito</p><p>da neuroplasticidade, ou seja, a capacidade notável do cé-</p><p>rebro humano de mudar e se adaptar em resposta às ex-</p><p>periências, o que permite esse órgão reorganizar e formar</p><p>novas conexões neurais. Os processos de aprendizagem</p><p>e memória estão intimamente ligados a essa caracte-</p><p>rística, com o fortalecimento ou enfraquecimento das</p><p>conexões sinápticas – causado pela intensidade com</p><p>que um tipo de conhecimento é exercitado – levan-</p><p>do a alterações nos circuitos neurais.</p><p>A plasticidade cerebral é um fator muito importan-</p><p>te quando falamos em transtornos do neurodesenvol-</p><p>vimento. Isso porque a capacidade de adaptação do</p><p>cérebro pode compensar uma área que está compro-</p><p>4040 Transtornos do NeurodesenvolvimentoTranstornos do Neurodesenvolvimento</p><p>Transtornos do neurodesenvolvimento 41</p><p>metida, fazendo com que outra parte do cérebro possa se reorganizar e</p><p>realizar a função que foi perdida ou teve o seu funcionamento prejudicado.</p><p>Quanto mais as conexões entre neurônios específicos são ativadas,</p><p>mais forte será a ligação entre elas. Os caminhos formados pelos im-</p><p>pulsos elétricos durante a comunicação entre os neurônios (a sinapse)</p><p>são o que temos de mais importante no que diz respeito à aprendiza-</p><p>gem, memória e recuperação de lesões cerebrais. Podemos estabele-</p><p>cer um exemplo típico de neuroplasticidade ao analisarmos como um</p><p>bebê aprende a andar: de início, a criança tenta caminhar e cai repeti-</p><p>das vezes, mas em algumas destas tentativas ela é capaz de manter o</p><p>equilíbrio e dar um passo após o outro. Sempre que o bebê dá um pas-</p><p>so à frente com sucesso, ele está usando os mesmos caminhos neurais,</p><p>em outras palavras, os mesmos neurônios estão trabalhando juntos</p><p>para enviar mensagens efetivas para as diferentes partes do corpo. Por</p><p>meio da repetição, esse caminho neural específico se fortalece e as co-</p><p>nexões entre os mesmos neurônios se torna mais fácil.</p><p>É como se pegássemos uma estrada de terra cheia de buracos e</p><p>valetas – o carro segue devagar, com grande dificuldade. Contudo, cada</p><p>vez que passamos novamente por essa estrada, ela se torna mais lisa</p><p>e plana, até que conseguimos passar por ela sem maiores problemas.</p><p>Com o passar do tempo, nosso carro seguirá cada vez mais rápido,</p><p>como o impulso nervoso disparado pelos neurônios.</p><p>Quanto mais os caminhos neurais que levam o bebê a andar sem</p><p>cair são ativados, menos são usados os demais caminhos neurais que</p><p>surgiram como resultado da queda da criança, logo, as conexões entre</p><p>esses neurônios são enfraquecidas e desaparecem. Seguindo a nossa</p><p>analogia, é como se ninguém mais usasse</p><p>aquela estrada de terra e ela</p><p>acabasse sendo coberta pela vegetação.</p><p>A neuroplasticidade também é responsável pela recuperação de</p><p>lesões cerebrais, sendo capaz de criar “novas estradas” ao redor das</p><p>áreas que foram danificadas e estruturar diferentes partes do cérebro</p><p>para novas funções. Por exemplo, nos casos de hemisferectomia, em</p><p>que um dos hemisférios do cérebro é removido cirurgicamente, o he-</p><p>misfério remanescente do cérebro é capaz de realocar quase todas as</p><p>funções do hemisfério que foi retirado. Com o auxílio de terapias, os</p><p>pacientes são capazes de reaprender a linguagem, recuperar funções</p><p>motoras e viver uma vida saudável, sem convulsões.</p><p>Resumidamente, a</p><p>hemisferectomia, por</p><p>ser um procedimento</p><p>cirúrgico muito invasivo,</p><p>é realizada apenas em</p><p>casos de crianças que</p><p>apresentam quadros</p><p>consultivos graves, com</p><p>crises frequentes, e que</p><p>correm risco de morte.</p><p>Saiba mais</p><p>42 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>Sabemos que a poda neuronal de algumas pessoas com transtor-</p><p>no do espectro autista (TEA), por exemplo, não ocorre da mesma ma-</p><p>neira nos cérebros com desenvolvimento neurotípico. É por isso que</p><p>algumas crianças com TEA têm mais “estradas” neurais, o que pode</p><p>resultar em altas habilidades ou mesmo habilidades extraordinárias</p><p>em todas as áreas do conhecimento.</p><p>Pesquisas da atualidade também afirmam que certos fatores po-</p><p>dem aumentar a neuroplasticidade, tais como ambientes enriquecidos,</p><p>experiências de aprendizado, exercícios físicos e treinamento focado.</p><p>Dessa maneira, a neuroplasticidade é a capacidade do cérebro de</p><p>mudar sua estrutura e função ao longo da vida, possibilitando nosso</p><p>aprendizado, nossa adaptação e nossa recuperação de lesões. Além</p><p>disso, a neuroplasticidade enfatiza a notável flexibilidade e adaptabili-</p><p>dade do cérebro humano.</p><p>Por fim, o feedback e o controle têm uma relação mais próxima com</p><p>a homeostase, processo pelo qual os organismos vivos mantêm um am-</p><p>biente interno estável, apesar das mudanças externas. Isso envolve a re-</p><p>gulação de diversas variáveis fisiológicas – como temperatura corporal,</p><p>níveis de pH, níveis de açúcar no sangue, equilíbrio de fluidos, entre outros</p><p>– dentro de uma faixa estreita e ideal para o funcionamento do organismo.</p><p>O conceito de homeostase foi proposto pela primeira vez pelo fisio-</p><p>logista francês Claude Bernard, no século XIX, e é um princípio funda-</p><p>mental que rege o funcionamento dos sistemas vivos, desde organismos</p><p>unicelulares até organismos multicelulares complexos como os huma-</p><p>nos. A homeostase é alcançada por meio de uma série de mecanismos</p><p>de feedback que monitoram continuamente as condições internas de</p><p>um organismo e fazem adaptações para trazê-los de volta ao ponto de</p><p>ajuste desejado. Esses mecanismos normalmente envolvem três compo-</p><p>nentes principais: um receptor, um centro de controle e um efetor.</p><p>Receptor</p><p>Detecta mudanças no ambiente</p><p>interno e envia sinais para o cen-</p><p>tro de controle.</p><p>Centro de controle</p><p>Recebe informações dos recepto-</p><p>res e as compara com o ponto de</p><p>ajuste ou faixa desejada, ativando</p><p>o efetor apropriado se houver um</p><p>desvio do ponto de ajuste.</p><p>Efetor</p><p>Quando ativada pelo centro de</p><p>controle, é uma resposta que</p><p>neutraliza o desvio e restaura</p><p>as condições internas para ní-</p><p>veis ideais.</p><p>da</p><p>vo</p><p>od</p><p>a/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>Transtornos do neurodesenvolvimento 43</p><p>O receptor detecta mudanças no ambiente interno e envia sinais</p><p>para o centro de controle, geralmente localizado no cérebro ou em ór-</p><p>gãos específicos, que recebe as informações dos receptores e as com-</p><p>para com o ponto de ajuste ou faixa desejada. Se houver um desvio do</p><p>ponto de ajuste, o centro de controle ativa o efetor apropriado – um</p><p>músculo, uma glândula ou um órgão – para produzir uma resposta que</p><p>neutraliza o desvio e restaura as condições internas para níveis ideais.</p><p>Por exemplo, se a temperatura corporal sobe acima do ponto de</p><p>ajuste, os receptores na pele e no cérebro detectam o aumento e en-</p><p>viam sinais ao hipotálamo, o centro de controle. O hipotálamo então</p><p>desencadeia respostas como sudorese e dilatação dos vasos sanguí-</p><p>neos para liberar calor e resfriar o corpo. Uma vez que a temperatura</p><p>corporal retorna ao intervalo desejado, as respostas efetoras são redu-</p><p>zidas ou desligadas.</p><p>A homeostase é essencial para o bom funcionamento das células e ór-</p><p>gãos dentro de um organismo, pois garante que as reações bioquímicas,</p><p>a atividade enzimática e os processos celulares ocorram em um ambiente</p><p>ideal, promovendo a saúde e permitindo que os organismos se adaptem</p><p>às mudanças nas condições externas, mantendo a estabilidade interna.</p><p>Sendo assim, o cérebro recebe continuamente feedback do corpo e</p><p>do ambiente para monitorar e regular as funções corporais. Ele envia si-</p><p>nais para controlar as funções motoras, regular a produção de hormônios,</p><p>manter a homeostase e modular as emoções e o comportamento.</p><p>É importante observarmos que essa é uma visão geral simplificada,</p><p>e o funcionamento real do cérebro é muito mais intrincado e complexo.</p><p>Os cientistas continuam a explorar e descobrir os mistérios do cérebro</p><p>para aprofundar nossa compreensão de suas funções e dos mecanis-</p><p>mos subjacentes à cognição e comportamento humanos.</p><p>Você sabia que o cérebro</p><p>funciona como uma</p><p>empresa, com cada setor</p><p>sendo responsável pelo</p><p>processamento de um</p><p>determinado grupo de</p><p>informações? Com base</p><p>nessa premissa, o vídeo Co-</p><p>nheça os setores do cérebro</p><p>apresenta, de maneira leve</p><p>e de fácil compreensão,</p><p>uma explicação sobre cada</p><p>uma das regiões cerebrais,</p><p>contendo a sua função</p><p>principal e como esse</p><p>funcionamento também se</p><p>dá de modo solidário entre</p><p>as diversas regiões.</p><p>Disponível em: https://youtu.be/</p><p>bQvYZ0TkHjk?si=CmGd3BrSltebnUXR.</p><p>Acesso em: 10 out. 2023.</p><p>Vídeo</p><p>2.5 Contribuições da neurociência cognitiva</p><p>Vídeo</p><p>A neurociência cognitiva é um campo interdisciplinar que se con-</p><p>centra na compreensão dos mecanismos neurais subjacentes à cog-</p><p>nição humana e aos processos mentais, e procura explorar como</p><p>o cérebro processa as várias funções cognitivas, como percepção,</p><p>atenção, memória, linguagem, tomada de decisão, resolução de pro-</p><p>blemas e cognição social.</p><p>44 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>In</p><p>k</p><p>Dr</p><p>op</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>O campo combina princípios e metodologias da neu-</p><p>rociência, psicologia e ciência cognitiva para investigar</p><p>como o cérebro estrutura e processa informações,</p><p>resultando em habilidades e comportamentos</p><p>cognitivos complexos. Ao estudar a relação entre</p><p>a atividade neural e os processos cognitivos, a</p><p>neurociência cognitiva visa entender a base bioló-</p><p>gica do pensamento e do comportamento humano</p><p>(D’SOUZA; KARMILOFF-SMITH, 2016).</p><p>Os avanços tecnológicos esclarecem como o cére-</p><p>bro funciona, embora não permitam o estabelecimento</p><p>de alterações cerebrais associadas a um determinado es-</p><p>tágio do neurodesenvolvimento. O que algumas técnicas</p><p>de neuroimagem têm permitido, no entanto, é a iden-</p><p>tificação de alterações associadas ao desenvolvimento</p><p>cerebral e cognitivo (D’SOUZA; KARMILOFF-SMITH, 2016).</p><p>Pesquisadores em neurociência cognitiva empregam uma varieda-</p><p>de de técnicas para investigar o envolvimento do cérebro na cognição,</p><p>sendo elas:</p><p>Neuroimagem</p><p>Técnicas de neuroimagem funcional, como a ressonância magnéti-</p><p>ca funcional (RMF) e a tomografia por emissão de pósitrons, são usadas</p><p>para medir a atividade cerebral durante tarefas cognitivas, fornecendo</p><p>informações sobre as regiões e redes cerebrais envolvidas em proces-</p><p>sos cognitivos específicos.</p><p>Go</p><p>ro</p><p>de</p><p>nk</p><p>of</p><p>f/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>Transtornos do neurodesenvolvimento 45</p><p>Eletroencefalografia (EEG)</p><p>A EEG registra a atividade elétrica do cérebro por meio de eletrodos</p><p>colocados no couro cabeludo, que oferecem alta resolução temporal,</p><p>permitindo que os pesquisadores estudem o tempo e a dinâmica dos</p><p>processos cognitivos.</p><p>Estimulação magnética transcraniana (EMT)</p><p>A EMT envolve a aplicação de campos magnéticos em regiões espe-</p><p>cíficas do cérebro, interrompendo temporariamente a atividade neural</p><p>nessas áreas. Ao prejudicar seletivamente a função cerebral, os pesqui-</p><p>sadores podem inferir o papel de certas regiões do cérebro em proces-</p><p>sos cognitivos específicos.</p><p>YA</p><p>KO</p><p>BC</p><p>HU</p><p>K</p><p>VI</p><p>AC</p><p>HE</p><p>SL</p><p>AV</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>Im</p><p>ag</p><p>e</p><p>So</p><p>ur</p><p>ce</p><p>T</p><p>ra</p><p>di</p><p>ng</p><p>L</p><p>td</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>46 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>Estudos de lesões</p><p>Os pesquisadores estudam indivíduos com danos cerebrais, com</p><p>lesões resultantes de acidentes vasculares cerebrais ou com doenças</p><p>neurodegenerativas. Ao examinarem os déficits cognitivos associados</p><p>a essas lesões cerebrais específicas, eles podem inferir as regiões cere-</p><p>brais envolvidas em funções cognitivas específicas.</p><p>Por meio da integração dessas técnicas, a neurociência cognitiva</p><p>visa desvendar a intrincada relação entre o cérebro e a cognição para</p><p>responder questões fundamentais sobre como o cérebro processa</p><p>informações, como diferentes regiões do cérebro interagem para dar</p><p>suporte a funções cognitivas e como as interrupções nos processos</p><p>neurais podem levar a déficits e distúrbios cognitivos.</p><p>A pesquisa em neurociência cognitiva tem amplas implicações, des-</p><p>de a compreensão dos princípios fundamentais da cognição humana</p><p>até o desenvolvimento de intervenções para distúrbios neurológicos</p><p>e psiquiátricos. Ao elucidar os mecanismos neurais subjacentes à cog-</p><p>nição, o campo contribui para nossa compreensão da mente humana</p><p>e fornece insights sobre o complexo funcionamento do cérebro, bem</p><p>como quais intervenções são possíveis ou benéficas para cada um dos</p><p>diferentes tipos de transtornos do neurodesenvolvimento.</p><p>Dessa maneira, a neurociência cognitiva e os distúrbios do neuro-</p><p>desenvolvimento são campos interconectados que estudam a relação</p><p>entre a função cerebral e o desenvolvimento de certas condições neu-</p><p>rológicas. A neurociência cognitiva investiga como o cérebro proces-</p><p>sf</p><p>am</p><p>_p</p><p>ho</p><p>to</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>Transtornos do neurodesenvolvimento 47</p><p>sa as informações e como esse processamento contribui para várias</p><p>funções cognitivas, como percepção, atenção, memória, linguagem e</p><p>tomada de decisão. Os distúrbios do neurodesenvolvimento, por outro</p><p>lado, são um grupo de condições que surge durante a primeira infância</p><p>e afeta o desenvolvimento do sistema nervoso, resultando em padrões</p><p>cognitivos e comportamentais atípicos.</p><p>O estudo da neurociência cognitiva fornece informações valiosas</p><p>sobre os mecanismos neurais subjacentes aos distúrbios do neurode-</p><p>senvolvimento. Ao examinar a estrutura, a conectividade e a atividade</p><p>do cérebro usando técnicas – como a RMF, a EEG e a neuroimagem – os</p><p>pesquisadores podem identificar diferenças na função e organização</p><p>do cérebro entre indivíduos com distúrbios do neurodesenvolvimen-</p><p>to e indivíduos com desenvolvimento típico. Essas técnicas ajudam a</p><p>descobrir a base neural de deficiências cognitivas observadas em dis-</p><p>túrbios como o transtorno do espectro autista, transtorno de déficit</p><p>de atenção/hiperatividade, deficiência intelectual e transtornos especí-</p><p>ficos de aprendizagem.</p><p>A pesquisa em neurociência cognitiva fornece evidências de conec-</p><p>tividade cerebral alterada, padrões de ativação neural aberrantes e</p><p>anormalidades estruturais em indivíduos com distúrbios no desenvol-</p><p>vimento neurológico. Por exemplo, estudos mostram que indivíduos</p><p>com TEA podem exibir ativação atípica em regiões cerebrais envolvi-</p><p>das na cognição social e no processamento facial. Da mesma forma,</p><p>indivíduos com TDAH podem apresentar diferenças em áreas cerebrais</p><p>associadas à atenção e ao controle de impulsos. Esses estudos ajudam</p><p>a entendermos as bases neurais dos sintomas cognitivos e comporta-</p><p>mentais característicos desses distúrbios (NICHOLLS, 2018).</p><p>Além disso, a pesquisa em neurociência cognitiva dá suporte ao</p><p>desenvolvimento de intervenções e terapias para indivíduos com dis-</p><p>túrbios do neurodesenvolvimento. Ao obter uma melhor compreen-</p><p>são dos mecanismos cerebrais subjacentes a esses distúrbios, os</p><p>pesquisadores podem projetar intervenções direcionadas que visem</p><p>modular ou compensar déficits cognitivos específicos. Técnicas como</p><p>neurofeedback 1 , estimulação cerebral e treinamento cognitivo têm se</p><p>mostrado promissoras para melhorar as funções cognitivas e aliviar os</p><p>sintomas em indivíduos com distúrbios do neurodesenvolvimento.</p><p>Em resumo, a neurociência cognitiva e os distúrbios do neurodesen-</p><p>volvimento são campos de estudo intimamente ligados. A neurociência</p><p>Quando foi lançado pela</p><p>primeira vez, em 1988, o</p><p>livro de Michael Gazzani-</p><p>ga, Neurociência cognitiva:</p><p>a biologia da mente, mo-</p><p>dificou o modo como os</p><p>estudantes da graduação</p><p>enxergavam a psicologia</p><p>cognitiva, a neurologia</p><p>e as neurociências do</p><p>comportamento. Essa</p><p>é uma leitura excelente</p><p>para quem deseja se</p><p>aprofundar no assunto,</p><p>fazendo conexões com</p><p>outros campos cientí-</p><p>ficos, já que esse livro,</p><p>além de trazer uma abor-</p><p>dagem interdisciplinar,</p><p>oferece casos clínicos</p><p>que ilustram e embasam</p><p>a prática, não ficando</p><p>restrito apenas à teoria.</p><p>GAZZANIGA, M. S. 2. ed. Porto</p><p>Alegre: Artmed, 2006.</p><p>Livro</p><p>Técnica que ensina aos</p><p>indivíduos o autocontrole</p><p>das funções cerebrais, me-</p><p>dindo as ondas cerebrais</p><p>e fornecendo um sinal de</p><p>feedback. O neurofeedback</p><p>geralmente fornece uma</p><p>resposta em áudio ou</p><p>vídeo, principalmente pela</p><p>análise de gráficos gerados</p><p>pelas ondas cerebrais que</p><p>foram captadas durante o</p><p>treinamento.</p><p>1</p><p>48 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>cognitiva fornece uma estrutura científica para investigar a base neural</p><p>das deficiências cognitivas nos distúrbios do neurodesenvolvimento,</p><p>ajudando a descobrir os mecanismos cerebrais subjacentes a essas</p><p>condições. Esse conhecimento pode ser aplicado para desenvolver in-</p><p>tervenções e terapias eficazes para melhorar a vida dos indivíduos afe-</p><p>tados por esses distúrbios.</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>Neste capítulo, aprendemos um pouco mais sobre os transtornos do</p><p>neurodesenvolvimento e sobre como as deficiências foram vistas ao longo</p><p>da história – a morte e a segregação iniciais evoluíram para um cuidado</p><p>familiar, social e institucional ao longo das eras. Após um período funesto</p><p>de abusos e violações de direitos, as pessoas com transtornos do neuro-</p><p>desenvolvimento foram reconhecidas como sujeitos e reintegradas à so-</p><p>ciedade, com acesso à educação e tratamento adequados.</p><p>Devemos isso ao avanço da cultura e das neurociências, que agora</p><p>reconhecem que todos somos não apenas o produto dos genes que rece-</p><p>bemos de nossos genitores, mas também fruto do meio no qual vivemos e</p><p>nos movimentamos, logo, natureza e criação caminham juntas. Refletimos</p><p>um pouco sobre o funcionamento cerebral, o processamento das infor-</p><p>mações e sobre como a neuroplasticidade revolucionou o modo como</p><p>pensamos esse funcionamento, que não é estanque, mas é vivo e pulsan-</p><p>te, modificando-se e adaptando-se, com implicações significativas para a</p><p>aprendizagem, memória, aquisição de habilidades e reabilitação.</p><p>Contudo, não podemos perder de vista que por trás de todo diagnós-</p><p>tico há um ser único e singular, que vivencia também de maneira única</p><p>suas especificidades e limitações. É preciso pensar e viver a prática do</p><p>cuidado com humanidade e inteligência, a fim de que todos possam se</p><p>beneficiar das descobertas científicas com relação aos transtornos do</p><p>neurodesenvolvimento.</p><p>ATIVIDADES</p><p>Atividade 1</p><p>Como as pessoas com deficiência e/ou transtornos do neurode-</p><p>senvolvimento eram tratadas na Antiguidade?</p><p>Transtornos do neurodesenvolvimento 49</p><p>Atividade 2</p><p>Quais são os transtornos do neurodesenvolvimento mais comuns</p><p>em crianças?</p><p>Atividade 3</p><p>Descreva o conceito científico de nature versus nurture.</p><p>Atividade 4</p><p>Defina o conceito de neuroplasticidade.</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>APA – American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos</p><p>mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.</p><p>ARTIGAS-PALLARÉS, J.; GUITART, M.; GABAU-VILA, E. Bases genéticas de los trastornos del</p><p>neurodesarrollo. Revista de Neurología, v. 56, n. 1, p. 23-33, 2013.</p><p>BROWN, I.; RADFORD,</p><p>J. P. The growth and decline of institutions for people with</p><p>developmental disabilities in ontario: 1876-2009. Journal on Developmental Disabilities, v.</p><p>21, n. 2, p. 7-27, 2015.</p><p>D’SOUZA, H.; KARMILOFF-SMITH, A. Neurodevelopmental disorders. Wiley Interdisciplinary</p><p>Reviews: Cognitive Science, v. 8, p.1-2, 2016.</p><p>GAUDET, I.; GALLAGHER, A. Chapter 1 – Description and classification of neurodevelopmental</p><p>disabilities. Handbook of Clinical Neurology, v. 173, p. 3-6, 2020.</p><p>GROFF, C. A. Mental retardation: a book of readings. Nova York: MSS Information</p><p>Corporation, 1973.</p><p>MCNABB, C. Medieval disability sourcebook: Western Europe. Goleta: Punctum Books, 2020.</p><p>NAUMOVA, A. K.; TAKETO-HOSOTANI, T. Epigenetics in human reproduction and</p><p>development. Singapura: World Scientific Publishing Company, 2016.</p><p>NICHOLLS, C. J. Neurodevelopmental disorders in children and adolescents: a guide to</p><p>evaluation and treatment. Abingdon: Routledge, 2018.</p><p>PURVES, D. et al. Neuroscience. 6. ed. Nova York: Oxford University Press, 2018.</p><p>RAVEN, P. et al. Biology. 13 ed. Nova York: McGraw Hill, 2023.</p><p>50 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>3</p><p>Transtornos do</p><p>neurodesenvolvimento</p><p>e aprendizagem</p><p>Aprendizagem é o processo pelo qual os indivíduos adquirem conhe-</p><p>cimento, habilidades, atitudes ou comportamentos por meio de experiên-</p><p>cia, estudo ou instrução. É um aspecto fundamental da cognição humana</p><p>e animal, permitindo que os organismos se adaptem ao seu ambiente</p><p>e melhorem seu desempenho ao longo do tempo. Mas o que acontece</p><p>quando esse processo é prejudicado?</p><p>Neste capítulo, buscaremos definir o que são transtornos do neu-</p><p>rodesenvolvimento e aprendizagem e identificar sua gênese. Com base</p><p>nessa definição, identificaremos os transtornos mais comuns e como</p><p>eles impactam o processo de aprendizagem. Além disso, conheceremos</p><p>as características que constituem os transtornos mais comuns, como a</p><p>dislexia, a disgrafia, a disortografia, a discalculia, a anaritmia e a disnomia.</p><p>Embora não sejam caracterizados como transtornos específicos de</p><p>aprendizagem, reconheceremos os aspectos que configuram o transtorno</p><p>de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) e o transtorno do espectro au-</p><p>tista (TEA), já que esses transtornos do neurodesenvolvimento estão intima-</p><p>mente ligados e têm um impacto direto nos processos de aprendizagem.</p><p>Ao final deste capítulo, conheceremos as estruturas das deficiências</p><p>sensoriais e seus impactos no neurodesenvolvimento e na aprendizagem,</p><p>identificando os aspectos biológicos, cognitivos e emocionais e sua in-</p><p>fluência nos transtornos de aprendizagem.</p><p>Com o estudo deste capítulo, você será capaz de:</p><p>• definir o que são transtornos de aprendizagem e identificar sua</p><p>gênese;</p><p>• identificar as características que constituem a dislexia, disgrafia,</p><p>disortografia, discalculia, anarritmia e disnomia;</p><p>(Continua)</p><p>Objetivos de aprendizagem</p><p>Transtornos do neurodesenvolvimento e aprendizagem 51</p><p>• entender os aspectos que caracterizam o TDAH e o TEA;</p><p>• descrever as estruturas das deficiências sensoriais e seus impac-</p><p>tos no neurodesenvolvimento;</p><p>• classificar os aspectos biológicos, cognitivos e emocionais</p><p>e sua influência nos transtornos do neurodesenvolvimento e</p><p>aprendizagem.</p><p>3.1 O que são transtornos do</p><p>neurodesenvolvimento? Vídeo</p><p>Antes de abordar os transtornos de neurodesenvolvimento em si,</p><p>é importante compreender como se dá o processo de aprendizagem,</p><p>para que então possamos identificar com segurança as alterações que</p><p>podem afetar esse processo. No geral, a aprendizagem pode ser com-</p><p>preendida como a habilidade e a possibilidade que os seres humanos</p><p>têm de perceber, compreender, conhecer e reter em sua memória as</p><p>informações que são captadas do ambiente com o qual ele interage</p><p>(TOPCZEWSKI, 2014). Por outro lado, alguns pesquisadores têm o seu</p><p>foco no cérebro como o órgão responsável pela cognição, onde acon-</p><p>teceria a aprendizagem, de maneira que o cérebro passa a ser a matriz</p><p>de todo o conhecimento adquirido, sem levar em consideração as inte-</p><p>rações com o meio ambiente e as interações sociais.</p><p>Basicamente, a aprendizagem pode ocorrer baseando-se em alguns</p><p>mecanismos, muito influenciados pelo modo como as interações acon-</p><p>tecem entre quem aprende e os mediadores desse processo:</p><p>Ocorre por meio de interações diretas do indivíduo com o</p><p>ambiente. Os indivíduos aprendem com suas observações,</p><p>interações e experiências e podem ajustar seu</p><p>comportamento com base nos resultados de suas ações.</p><p>Aprendizagem</p><p>baseada na</p><p>experiência</p><p>Ocorre pela mediação de professores, mentores ou com</p><p>recursos educacionais. Pode incluir educação formal em</p><p>escolas, cursos on-line, workshops ou qualquer outra</p><p>forma estruturada de transferência de informações.</p><p>(continua)</p><p>Aprendizagem</p><p>baseada em</p><p>instruções</p><p>52 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>Ocorre quando os indivíduos associam um estímulo ou</p><p>evento a outro, por exemplo: o condicionamento clássico</p><p>é um tipo de aprendizado associativo em que um estímulo</p><p>neutro (ver uma maçã) associa-se a um estímulo significativo</p><p>(lembrar de ter comido uma maçã de sabor agradável) e</p><p>provoca uma resposta semelhante (começar a salivar).</p><p>Aprendizagem</p><p>associativa</p><p>Envolve pensamento de alto nível, resolução de problemas</p><p>e compreensão de conceitos complexos. Esse tipo de</p><p>aprendizado geralmente associa-se ao pensamento e ao</p><p>raciocínio crítico.</p><p>Aprendizagem</p><p>cognitiva</p><p>Ocorre quando os indivíduos aprendem observando os</p><p>comportamentos dos outros e suas consequências. A</p><p>aprendizagem social é essencial para a transmissão da</p><p>cultura, normas e tradições de uma sociedade.</p><p>Aprendizagem</p><p>social</p><p>Aprender habilidades – como tocar um instrumento</p><p>musical, dirigir um carro ou dominar um esporte – envolve</p><p>prática, repetição e refinamento.</p><p>Aquisição de</p><p>habilidades</p><p>A aprendizagem pode ser intencional ou não intencional, além</p><p>de poder ser influenciada por fatores internos, como motivação,</p><p>atenção e memória, e fatores externos, como o ambiente de apren-</p><p>dizagem e os métodos de ensino. Ao longo da vida, a aprendiza-</p><p>gem desempenha um papel crucial no desenvolvimento pessoal,</p><p>no crescimento profissional e na adaptação a novos desafios e si-</p><p>tuações. É um processo contínuo que ocorre em diferentes níveis</p><p>e em vários domínios, moldando os indivíduos e as sociedades à</p><p>medida que avançam no tempo.</p><p>A aprendizagem, portanto, é um processo multifacetado, no</p><p>qual cada estrutura exerce uma função específica. De acordo com</p><p>Sampaio e Freitas (2020), para que ocorra o processo de apren-</p><p>dizagem é necessário que cada estrutura esteja adequadamente</p><p>integrada em sua função. Atualmente, as neurociências classificam</p><p>esse processo integrado em três níveis de funções, como podemos</p><p>ver na Figura 1.</p><p>Transtornos do neurodesenvolvimento e aprendizagem 53</p><p>Figura 1</p><p>Funções para a aprendizagem</p><p>Controle e</p><p>integridade</p><p>psicoemocional.</p><p>Psicodinâmicas</p><p>Recepção dos</p><p>estímulos sensoriais;</p><p>aprendizagem</p><p>simbólica.</p><p>Sistema</p><p>nervoso</p><p>periférico</p><p>Armazenamento,</p><p>elaboração e</p><p>processamento das</p><p>informações.</p><p>Sistema</p><p>nervoso</p><p>central</p><p>Fonte: Elaborada pela autora.</p><p>Sendo assim, qualquer alteração que envolva essas três funções es-</p><p>pecíficas terão um impacto direto na aprendizagem do indivíduo, que</p><p>resultará em um transtorno ou dificuldade de aprendizagem escolar</p><p>(SAMPAIO; FREITAS, 2020).</p><p>Os transtornos específicos de aprendizagem são um grupo de</p><p>condições neurológicas que afetam a capacidade de um indivíduo de</p><p>adquirir, processar ou usar informações de modo eficaz, podendo se</p><p>manifestar em várias áreas do aprendizado e interferir no desempenho</p><p>acadêmico, no funcionamento diário e nas interações sociais de uma</p><p>pessoa. Os tipos mais comuns de transtornos específicos de aprendi-</p><p>zagem incluem:</p><p>Dislexia: dificuldade em ler, soletrar e reconhecer palavras escritas.</p><p>Indivíduos com dislexia podem ter problemas para entender a relação</p><p>entre sons e letras.</p><p>Disnomia: disfunção da linguagem caracterizada pela incapacidade</p><p>do indivíduo de nomear objetos ou pessoas,</p><p>bem como de recordar</p><p>nomes próprios.</p><p>Disgrafia: desafios na escrita, incluindo dificuldades com caligrafia,</p><p>ortografia e organização de pensamentos no papel.</p><p>Disortografia: dificuldade de fazer uma associação entre os fonemas</p><p>(som das letras) e os grafemas (escrita das letras).</p><p>(Continua)</p><p>54 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>Discalculia: dificuldade em compreender conceitos matemáticos, in-</p><p>cluindo dificuldades com números, operações matemáticas e resolução</p><p>de problemas.</p><p>Distúrbio do processamento auditivo central (DPAC): desafios no</p><p>processamento e interpretação das informações auditivas que podem afe-</p><p>tar a audição e a compreensão da linguagem falada.</p><p>É importante observar que os distúrbios de aprendizagem não são</p><p>indicativos de falta de inteligência ou motivação, pois têm a sua gênese</p><p>na maneira como o cérebro recebe e processa as informações rece-</p><p>bidas. A identificação precoce e as intervenções apropriadas podem</p><p>melhorar significativamente a experiência de aprendizagem e os resul-</p><p>tados para indivíduos com transtornos de aprendizagem. O tratamento</p><p>pode envolver apoio educacional especializado, estratégias de aprendi-</p><p>zagem individualizadas e outras terapias adaptadas aos desafios espe-</p><p>cíficos que cada pessoa enfrenta.</p><p>A seguir, abordaremos de modo mais específico cada um desses</p><p>transtornos, trazendo sua conceituação e características.</p><p>Dislexia</p><p>Este é um distúrbio específico de aprendizagem caracterizado</p><p>por dificuldades na leitura, ortografia e reconhecimento de palavras,</p><p>que ocorre mesmo em indivíduos de inteligência considerada pa-</p><p>drão ou acima da média e com acesso a oportunidades educacionais</p><p>adequadas. É um dos transtornos específicos de aprendizagem mais</p><p>comuns e, de acordo com a Associação Brasileira de Dislexia (ABD),</p><p>é o de maior incidência nas salas de aula, atingindo entre 5% e 17%</p><p>da população mundial (DISLEXIA..., 2017).</p><p>Os indivíduos com dislexia podem enfrentar desafios em várias</p><p>áreas relacionadas à leitura e ao processamento da linguagem, como:</p><p>• Precisão de leitura: dificuldades em reconhecer e decodificar</p><p>palavras com precisão, levando a uma leitura lenta e trabalhosa.</p><p>• Fluência de leitura: indivíduos disléxicos precisam se esforçar</p><p>para ler o texto sem problemas e podem experimentar hesita-</p><p>ções ou repetições.</p><p>No livro Transtornos e</p><p>dificuldades de aprendiza-</p><p>gem: entendendo melhor os</p><p>alunos com necessidades</p><p>educativas especiais, Simaia</p><p>Sampaio e Ivana de</p><p>Freitas apresentam vários</p><p>capítulos sobre cada um</p><p>dos transtornos especí-</p><p>ficos de aprendizagem.</p><p>As informações estão</p><p>atualizadas e o livro traz</p><p>uma análise de transtor-</p><p>nos ligados à infância e à</p><p>adolescência, bem como a</p><p>necessidade de pesquisas</p><p>e uma reflexão sobre o</p><p>conceito de inclusão.</p><p>SAMPAIO, S; FREITAS, I. B. (org.).</p><p>2. ed. Rio de Janeiro: Wak Editora,</p><p>2020.</p><p>Livro</p><p>Transtornos do neurodesenvolvimento e aprendizagem 55</p><p>Le</p><p>on</p><p>ik</p><p>N</p><p>at</p><p>al</p><p>ia</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>• Compreensão de leitura: compreender o significado do texto</p><p>escrito pode ser um desafio para indivíduos com dislexia, ainda</p><p>que consigam decodificar as palavras.</p><p>• Ortografia: os disléxicos geralmente têm problemas para sole-</p><p>trar palavras corretamente, mesmo as simples e comuns.</p><p>• Consciência fonológica: refere-se à capacidade de reconhecer</p><p>e manipular os sons da linguagem falada, o que é crucial para</p><p>desenvolver habilidades de leitura e ortografia.</p><p>É essencial entender que a dislexia é uma condição neurológica, e</p><p>não resultado de preguiça, falta de inteligência ou ensino deficiente.</p><p>Acredita-se que a causa raiz da dislexia esteja relacionada</p><p>a diferenças em como o cérebro processa a linguagem</p><p>e a informação visual, particularmente nas áreas res-</p><p>ponsáveis pela leitura e habilidades de linguagem.</p><p>A identificação e intervenção precoces são cruciais</p><p>para indivíduos com dislexia, e com apoio adequa-</p><p>do e intervenções direcionadas, os indivíduos com</p><p>esse transtorno podem melhorar suas habilidades</p><p>de leitura e linguagem e levar uma vida bem-suce-</p><p>dida e gratificante.</p><p>Diferentes abordagens e estratégias educacionais</p><p>podem ser empregadas para ajudar indivíduos disléxi-</p><p>cos a aprender a ler e escrever de modo mais eficaz, o que pode</p><p>incluir programas estruturados de alfabetização, instrução foné-</p><p>tica, técnicas de aprendizado multissensorial e tecnologia assisti-</p><p>va. O objetivo é ajudar indivíduos disléxicos a desenvolver estratégias</p><p>compensatórias para contornar seus desafios de leitura e explorar seus</p><p>pontos fortes. A intervenção precoce e as acomodações adequadas po-</p><p>dem fazer uma diferença significativa na vida acadêmica e pessoal.</p><p>Disnomia</p><p>A disnomia é um distúrbio de memória que se caracteriza pela di-</p><p>ficuldade do indivíduo em se recordar de palavras e nomes de obje-</p><p>tos. As pesquisas atuais consideram que a sua causa é potencialmente</p><p>congênita, mas também pode ter como causa doenças neurológicas</p><p>degenerativas e, neste caso, a condição pode se agravar com o tempo.</p><p>56 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>A disnomia pode estar presente em alguns distúrbios de aprendiza-</p><p>gem, como a dislexia, influenciando a aquisição da linguagem e a me-</p><p>mória, além de também poder afetar as habilidades de fala, de escrita</p><p>ou ambas. No que diz respeito à memória, também pode ser provoca-</p><p>da por condições médicas, como intoxicação, baixos níveis de açúcar</p><p>no sangue, desidratação e overdose.</p><p>Indivíduos diagnosticados com esse transtorno têm conhecimento</p><p>das palavras, mas não conseguem recuperá-las na memória quando</p><p>precisam, e para contornar isso, podem ainda substituir a palavra por</p><p>um sinônimo ou por palavras semelhantes em significado ou sonorida-</p><p>de. Em casos mais graves de disnomia, essa substituição ocorre por pa-</p><p>lavras inventadas que não têm qualquer correlação ou sentido com o</p><p>objeto. A disnomia também pode interferir na capacidade de realização</p><p>de testes cronometrados; logo, os disnômicos também podem hesitar</p><p>ou parecer angustiados na tentativa de recordar palavras ou nomes,</p><p>apresentando ansiedade recorrente e altos níveis de estresse.</p><p>Quando a disnomia se apresenta nos transtornos específicos de</p><p>aprendizagem, terapias adequadas podem auxiliar as crianças a desen-</p><p>volver habilidades de enfrentamento, como colocar etiquetas com o</p><p>nome dos objetos fixados a eles, e assim aprender a lidar com o distúr-</p><p>bio. Porém, quando a disnomia está atrelada à uma condição genética,</p><p>ela persistirá.</p><p>Disgrafia</p><p>Este é um distúrbio específico de aprendizagem que afeta princi-</p><p>palmente as habilidades de escrita, fazendo com que indivíduos com</p><p>disgrafia possam apresentar dificuldades significativas com a caligrafia,</p><p>ortografia e expressão de pensamentos por escrito. Apesar de terem</p><p>inteligência considerada padrão e não apresentarem nenhum proble-</p><p>ma físico ou neurológico que justifique essas dificuldades, indivíduos</p><p>com esse quadro têm uma grande dificuldade em produzir uma escrita</p><p>legível, coerente e organizada.</p><p>Existem diferentes tipos de disgrafia, e os indivíduos podem apresen-</p><p>tar sintomas variados, sendo que as características mais comuns incluem:</p><p>• Escrita ilegível: a disgrafia geralmente leva a uma caligrafia con-</p><p>fusa, irregular ou malformada. As letras podem ser malformadas,</p><p>de tamanho inconsistente ou difíceis de ler.</p><p>Transtornos do neurodesenvolvimento e aprendizagem 57</p><p>• Dificuldades de ortografia: o distúrbio pode resultar em proble-</p><p>mas persistentes com a ortografia, incluindo erros ortográficos de</p><p>palavras comuns e dificuldade em lembrar as regras de ortografia.</p><p>• Gramática e sintaxe deficientes: as frases escritas podem não</p><p>ter coerência gramatical, pontuação e estrutura de frases ade-</p><p>quadas, tornando a escrita difícil de compreender.</p><p>• Velocidade de escrita lenta: a disgrafia pode fazer com que os</p><p>indivíduos escrevam em um ritmo muito mais lento do que seus</p><p>colegas, levando à frustração e à dificuldade de concluir tarefas</p><p>escritas dentro do tempo previsto.</p><p>• Dificuldade em organizar pensamentos no papel: esse distúr-</p><p>bio pode afetar</p><p>a capacidade de planejar e organizar pensamentos</p><p>de modo coerente ao escrever, dificultando o desenvolvimento</p><p>de parágrafos ou ensaios bem estruturados.</p><p>• Dificuldade com habilidades motoras finas: alguns indivíduos</p><p>com disgrafia podem ter déficits subjacentes de habilidades mo-</p><p>toras finas, afetando ainda mais sua capacidade de controlar o</p><p>lápis ou a caneta enquanto escrevem.</p><p>A causa exata da disgrafia não é totalmente compreendida, mas</p><p>acredita-se que esteja relacionada à maneira como o cérebro processa</p><p>e coordena as habilidades motoras finas necessárias para a escrita e a</p><p>linguagem, e os processos cognitivos envolvidos na geração da lingua-</p><p>gem escrita. Dessa maneira, a criança com disgrafia apresenta dificul-</p><p>dade na coordenação visuomotora e não é capaz de traçar as linhas da</p><p>escrita com uma trajetória predeterminada, já que, apesar de todo o</p><p>esforço empreendido, a mão não obedece ao trajeto que foi planejado</p><p>(SAMPAIO; FREITAS, 2020).</p><p>Como outros distúrbios de aprendizagem, a identificação e a inter-</p><p>venção precoces são cruciais para o manejo da disgrafia e várias es-</p><p>tratégias e adaptações podem ser empregadas para apoiar indivíduos</p><p>com disgrafia em suas tarefas de escrita. A terapia ocupacional pode ser</p><p>benéfica para melhorar as habilidades motoras finas e a proficiência na</p><p>escrita. Além disso, o uso de tecnologia assistiva, como um software</p><p>que converta a fala para um arquivo de texto, pode ajudar indivíduos</p><p>com esse transtorno a expressar suas ideias sem as demandas físicas</p><p>da caligrafia.</p><p>58 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>Para que a disgrafia seja corretamente diagnosticada é essencial buscar</p><p>uma avaliação abrangente por um profissional qualificado, pois somente</p><p>assim será possível desenvolver um plano de intervenção personalizado</p><p>para abordar os desafios de escrita específicos do indivíduo.</p><p>Disortografia</p><p>Este é um distúrbio de aprendizagem específico que afeta principal-</p><p>mente as habilidades de ortografia; logo, indivíduos com disortografia</p><p>têm dificuldades persistentes e significativas com a ortografia, mesmo</p><p>quando têm inteligência considerada padrão e acesso a oportunidades</p><p>educacionais. De acordo com as autoras Sampaio e Freitas (2020, p. 84),</p><p>a disortografia consiste em confusões de letras, sílabas e pala-</p><p>vras, com trocas ortográficas já conhecidas e trabalhadas pelo</p><p>professor. A ortografia é o conjunto das regras e das normas que</p><p>regem o código da linguagem escrita, não é aleatória ou construí-</p><p>da individualmente, mas é fruto de um acordo coletivo entre os</p><p>povos que compartilham uma mesma língua.</p><p>É importante distinguir a disortografia de outros distúrbios de</p><p>aprendizagem, como dislexia e disgrafia: enquanto a dislexia afeta prin-</p><p>cipalmente a leitura e a disgrafia, sobretudo a caligrafia e a expressão</p><p>escrita, a disortografia prejudica especificamente as habilidades de or-</p><p>tografia (SAMPAIO; FREITAS, 2020). As principais características da di-</p><p>sortografia incluem:</p><p>• Dificuldades de ortografia: indivíduos com disortografia têm difi-</p><p>culdade para soletrar palavras corretamente, tanto em contextos es-</p><p>critos quanto orais. Eles podem ter dificuldade em lembrar padrões</p><p>ortográficos, regras fonéticas e convenções ortográficas comuns.</p><p>• Ortografia inconsistente: indivíduos com esse transtorno podem</p><p>soletrar a mesma palavra de maneira diferente a cada vez que a</p><p>escrevem, pois têm dificuldade em internalizar a ortografia correta.</p><p>• Erros de ortografia fonética: a disortografia, geralmente, leva a</p><p>erros de ortografia com base na forma como as palavras soam,</p><p>em vez de sua representação visual correta.</p><p>• Dificuldade com palavras irregulares: enquanto algumas pa-</p><p>lavras seguem regras ortográficas previsíveis, outras são consi-</p><p>deradas irregulares e não seguem padrões fonéticos típicos do</p><p>idioma. Indivíduos com disortografia podem achar particular-</p><p>mente difícil soletrar palavras irregulares.</p><p>Transtornos do neurodesenvolvimento e aprendizagem 59</p><p>• Habilidades de decodificação deficientes: a disortografia pode</p><p>afetar a capacidade de um indivíduo de pronunciar com precisão</p><p>e decodificar palavras durante a leitura.</p><p>As causas subjacentes da disortografia não são ainda totalmente</p><p>compreendidas, mas acredita-se que estejam relacionadas a dificulda-</p><p>des no processamento fonológico das palavras, o que afeta a capaci-</p><p>dade de reconhecer e manipular os sons da linguagem falada e aplicar</p><p>esse conhecimento à ortografia.</p><p>Assim como outros distúrbios de aprendizagem, a identificação</p><p>precoce e a intervenção apropriada são cruciais para o manejo da di-</p><p>sortografia. Abordagens instrucionais que se concentram na instrução</p><p>fonética explícita, análise de palavras e técnicas de aprendizado multis-</p><p>sensorial podem ser benéficas. O suporte educacional e as acomodações</p><p>podem ajudar os indivíduos disortográficos a desenvolverem estratégias</p><p>compensatórias para melhorar suas habilidades de ortografia.</p><p>Discalculia</p><p>Este é um distúrbio específico de aprendizagem que afeta a capaci-</p><p>dade do indivíduo de compreender e trabalhar com números e concei-</p><p>tos matemáticos. Pessoas com discalculia experimentam dificuldades</p><p>persistentes e significativas em aprender e aplicar habilidades mate-</p><p>máticas, apesar de terem inteligência e oportunidades educacionais</p><p>adequadas. As principais características desse transtorno são:</p><p>• Dificuldade com aritmética básica: indivíduos com discalculia</p><p>podem ter problemas para realizar operações matemáticas bási-</p><p>cas, como adição, subtração, multiplicação e divisão.</p><p>• Sentido numérico ruim: eles podem ter dificuldade em enten-</p><p>der a magnitude dos números, seu valor relativo e o conceito de</p><p>quantidade, por exemplo.</p><p>• Desafios com padrões e relacionamentos numéricos: a discal-</p><p>culia pode dificultar o reconhecimento e a aplicação de padrões</p><p>e relacionamentos matemáticos, como a compreensão do valor</p><p>posicional ou o reconhecimento de sequências numéricas.</p><p>• Dificuldade com símbolos e terminologia matemática: indi-</p><p>víduos com discalculia podem ter problemas para entender e</p><p>lembrar símbolos matemáticos (+, -, ×) bem como termos e voca-</p><p>bulário matemáticos.</p><p>60 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>MrSquid/Shutterstock</p><p>• Problemas com o raciocínio matemático: a discalculia pode afe-</p><p>tar a capacidade de um indivíduo de resolver problemas matemá-</p><p>ticos e aplicar conceitos matemáticos a situações do mundo real.</p><p>• Dificuldade com conceitos espaciais e temporais: alguns indi-</p><p>víduos com discalculia também podem ter dificuldades para en-</p><p>tender as relações espaciais e o tempo de processamento, o que</p><p>pode afetar ainda mais suas habilidades matemáticas.</p><p>Assim como em outros transtornos específicos de aprendizagem, a</p><p>causa exata da discalculia não é totalmente compreendida, mas acredita-</p><p>-se que esteja relacionada a diferenças na função e no desenvolvimento</p><p>do cérebro, particularmente nas áreas responsáveis pelo processamento</p><p>matemático.</p><p>A discalculia é diferente das simples dificuldades matemáticas que</p><p>podem ser melhoradas com a prática e instrução direcionada. É um</p><p>transtorno específico de aprendizagem que afeta os</p><p>indivíduos ao longo de suas vidas, dificultando a</p><p>aquisição de habilidades matemáticas básicas</p><p>e sua aplicação efetiva em diversas situações, e</p><p>não somente no contexto escolar.</p><p>A identificação precoce e a intervenção apro-</p><p>priada são cruciais para o tratamento da discalcu-</p><p>lia. Abordagens instrucionais que se concentram</p><p>em um aprendizado mais concreto e prático, bem</p><p>como recursos visuais e técnicas multissensoriais,</p><p>podem ser benéficas.</p><p>DPAC</p><p>Também conhecido como distúrbio do processamento au-</p><p>ditivo (DPA), esta é uma condição neurológica que afeta a capacidade</p><p>do cérebro de processar informações auditivas de modo eficaz. Indi-</p><p>víduos com DPAC têm habilidades auditivas consideradas normais,</p><p>ou seja, embora consigam “ouvir”, têm dificuldade de processar e in-</p><p>terpretar informações auditivas com precisão, especialmente em am-</p><p>bientes auditivos desafiadores (por exemplo, muitas pessoas falando</p><p>ao mesmo tempo) ou ruidosos.</p><p>O sistema auditivo envolve um processo complexo que inclui a</p><p>capacidade do ouvido de detectar ondas sonoras, a transmissão des-</p><p>Transtornos do neurodesenvolvimento e aprendizagem 61</p><p>treety/Shutterstock</p><p>ses sinais sonoros ao cérebro e a interpretação do cérebro desses</p><p>sinais em informações significativas (PURVES et al., 2018). Em pes-</p><p>soas com DPAC há um problema com o processa-</p><p>mento cerebral da informação auditiva, levando</p><p>a várias dificuldades em ouvir e compreender a</p><p>linguagem falada.</p><p>Os sintomas do distúrbio do processamento au-</p><p>ditivo central podem incluir:</p><p>• Dificuldade de compreensão da fala em am-</p><p>bientes ruidosos: pessoas com DPAC podem</p><p>ter dificuldade para se concentrar e compreen-</p><p>der a fala quando há ruído de fundo ou sons concorrentes.</p><p>• Dificuldade em seguir instruções verbais: eles podem ter pro-</p><p>blemas para lembrar e seguir instruções em várias etapas ou ins-</p><p>truções dadas verbalmente.</p><p>• Dificuldade com a discriminação auditiva: essa condição alte-</p><p>ra a capacidade de distinguir entre sons semelhantes, como sons</p><p>de consoantes diferentes (por exemplo, “b” e “d”) ou palavras</p><p>com sons semelhantes.</p><p>• Dificuldade com o sequenciamento auditivo: o DPAC envolve</p><p>desafios no processamento e na lembrança da ordem dos sons</p><p>ou informações verbais, como letras em uma palavra ou núme-</p><p>ros em uma sequência.</p><p>• Dificuldade com a consciência fonêmica: pessoas com DPAC</p><p>podem ter dificuldade em reconhecer e manipular sons de fala in-</p><p>dividuais, o que pode afetar as habilidades de leitura e ortografia.</p><p>• Dificuldade com a memória auditiva: DPAC pode afetar a capa-</p><p>cidade de reter e recordar informações auditivas, como lembrar</p><p>o que foi dito em uma conversa ou palestra.</p><p>É importante observar que o DPAC é uma condição complexa cujos</p><p>sintomas podem variar de pessoa para pessoa. Pode estar presente</p><p>em crianças e adultos e pode coexistir com outros distúrbios de apren-</p><p>dizagem e de neurodesenvolvimento, como dislexia ou transtorno do</p><p>déficit de atenção/hiperatividade (TDAH). O diagnóstico do distúrbio</p><p>do processamento auditivo central geralmente envolve uma avaliação</p><p>abrangente por um fonoaudiólogo, incluindo uma avaliação detalhada</p><p>das habilidades de escuta e de processamento auditivo.</p><p>62 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>O tratamento para DPAC geralmente requer intervenções direciona-</p><p>das para melhorar habilidades específicas de processamento auditivo,</p><p>exercícios de treinamento auditivo e estratégias para lidar com desafios</p><p>auditivos em vários ambientes. O diagnóstico e a intervenção precoces</p><p>são cruciais para ajudar os indivíduos com DPAC a superar as dificulda-</p><p>des e melhorar suas habilidades de comunicação e aprendizado.</p><p>3.2 Dificuldades e transtornos de aprendizagem</p><p>Vídeo</p><p>Os termos dificuldades de aprendizagem e transtornos específicos de</p><p>aprendizagem são frequentemente usados de modo intercambiável,</p><p>mas existem algumas distinções entre eles: no geral, dificuldades de</p><p>aprendizagem referem-se a desafios que os indivíduos podem enfren-</p><p>tar ao adquirir certas habilidades ou conhecimentos. Essas dificuldades</p><p>podem ser temporárias e podem surgir devido a vários fatores, como</p><p>falta de instrução adequada, influências ambientais, problemas de saú-</p><p>de ou fatores emocionais.</p><p>Por exemplo, a dificuldade de aprendizado pode ser causada por algum</p><p>acontecimento ou situação frustrante, ou algo que cause alguma forma de</p><p>sofrimento psíquico na criança – como uma mudança de escola, troca de</p><p>professor, chegada de um irmão, morte de um familiar próximo, questões</p><p>familiares ou separação dos pais –, de maneira que se torna necessário</p><p>investigar quais fatores estão, de alguma forma, alterando o desempenho</p><p>da criança na escola (GIROTTO; GIROTTO; OLIVEIRA JUNIOR, 2015).</p><p>As dificuldades de aprendizagem geralmente não são atribuídas a</p><p>deficiências neurológicas ou cognitivas específicas, mas sim a fatores</p><p>externos ou situacionais. Com apoio e intervenções apropriados, os</p><p>indivíduos com dificuldades de aprendizagem, muitas vezes, podem</p><p>superar seus desafios e atingir seus objetivos de aprendizagem. De</p><p>acordo com Moojen, Bassôa e Gonçalvez (2016), quando falamos em di-</p><p>ficuldade de aprendizagem, estamos nos referindo a problemas de or-</p><p>dem pedagógica, sociocultural, emocional ou até mesmo neurológica.</p><p>Por outro lado, os transtornos específicos de aprendizagem têm a</p><p>sua gênese nas disfunções do sistema nervoso central e estão relaciona-</p><p>dos a problemas de aquisição e processamento da informação adquiridas</p><p>em seu meio ambiente. Sendo assim, esses transtornos são condições</p><p>mais específicas e duradouras que afetam a forma como os indivíduos</p><p>Transtornos do neurodesenvolvimento e aprendizagem 63</p><p>processam, compreendem ou retêm informações. Eles são normalmente</p><p>atribuídos a diferenças neurológicas ou cognitivas e podem afetar signifi-</p><p>cativamente a capacidade de uma pessoa aprender e realizar determina-</p><p>das tarefas, mesmo com instrução e suporte adequados.</p><p>Os transtornos específicos de aprendizagem são frequentemente ca-</p><p>racterizados por uma discrepância significativa entre a inteligência ou ca-</p><p>pacidade cognitiva de um indivíduo e seu desempenho acadêmico real.</p><p>Transtornos específicos de aprendizagem</p><p>São condições mais específicas e duradouras normalmente atribuídas a</p><p>diferenças neurológicas ou cognitivas; podem afetar significativamente a</p><p>capacidade de uma pessoa aprender e realizar determinadas tarefas.</p><p>Dificuldades de aprendizagem</p><p>Geralmente, são atribuídas a fatores externos ou situacionais, podendo ser</p><p>temporárias.</p><p>Em resumo, a principal diferença reside na natureza e duração dos</p><p>desafios: as dificuldades de aprendizagem são mais amplas e tempo-</p><p>rárias, enquanto os transtornos específicos de aprendizagem são con-</p><p>dições específicas e persistentes de origem neurológica ou cognitiva.</p><p>É importante reconhecer e abordar esses dois conceitos de maneira</p><p>adequada para fornecer o apoio e as intervenções necessárias para</p><p>que os indivíduos tenham sucesso em suas atividades educacionais.</p><p>No livro Dificuldades de</p><p>aprendizagem: a psicope-</p><p>dagogia na relação sujeito,</p><p>família e escola, a autora</p><p>Simaia Sampaio aborda</p><p>a psicopedagogia como</p><p>ciência norteadora da</p><p>relação entre o estudante,</p><p>a família e a escola. Além</p><p>disso, trata de aspectos</p><p>sobre a formação da</p><p>criança como sujeito e</p><p>apresenta uma reflexão</p><p>dos transtornos especí-</p><p>ficos de aprendizagem,</p><p>fazendo uma análise de</p><p>qual é o papel da família e</p><p>da escola nesse contexto</p><p>desafiador.</p><p>SAMPAIO, S. 3. ed. Rio de Janeiro:</p><p>Wak Editora, 2011.</p><p>Livro</p><p>3.3 TDAH e TEA</p><p>Vídeo</p><p>O transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) é um</p><p>distúrbio do neurodesenvolvimento que afeta crianças e adultos, ca-</p><p>racterizado por um padrão persistente de desatenção, hiperatividade e</p><p>impulsividade que interfere no funcionamento e nas atividades diárias.</p><p>Embora o TDAH não seja um transtorno específico de aprendizagem em</p><p>si, muitas vezes apresenta comorbidade relacionada a algum transtor-</p><p>no, o que pode aumentar seu impacto nos processos de aprendizagem.</p><p>De maneira geral, existem três tipos principais de TDAH: o chamado</p><p>de apresentação predominantemente desatenta, em que os indivíduos</p><p>64 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>lutam principalmente contra a desatenção. Eles podem ter dificuldade</p><p>em manter o foco, seguir instruções, organizar tarefas e, muitas vezes,</p><p>parecem esquecidos ou facilmente distraídos. A desatenção, principal-</p><p>mente na infância, tem um grande impacto negativo na aprendizagem.</p><p>Já os indivíduos com a denominada apresentação predominante-</p><p>mente hiperativa-impulsiva exibem sobretudo comportamentos de</p><p>hiperatividade e impulsividade. Eles podem ter problemas para ficar</p><p>parados, muitas vezes são inquietos, agem impulsivamente sem pen-</p><p>sar nas consequências e podem interromper os outros com frequên-</p><p>cia. Por fim, na conhecida como apresentação combinada, o tipo mais</p><p>comum de TDAH, os indivíduos apresentam sintomas de desatenção e</p><p>hiperatividade-impulsividade.</p><p>Apresentação predominantemente desatenta</p><p>Dificuldade em manter o foco, seguir instruções, organizar tarefas; muitas vezes, os</p><p>indivíduos parecem esquecidos ou facilmente distraídos.</p><p>Apresentação predominantemente hiperativa-impulsiva</p><p>Comportamentos de hiperatividade e impulsividade, com problemas para ficar</p><p>parados e a propensão a interromper os outros com frequência.</p><p>Apresentação combinada</p><p>Presença de sintomas de desatenção e hiperatividade-impulsividade, o tipo mais</p><p>comum de TDAH.</p><p>Os sintomas do TDAH geralmente aparecem durante a infância, e</p><p>o diagnóstico é feito comumente antes dos 12 anos de idade, embora</p><p>alguns indivíduos não recebam um diagnóstico até a idade adulta. A</p><p>causa exata do TDAH não é totalmente compreendida, mas acredita-se</p><p>que seja uma combinação de fatores genéticos, ambientais e neuroló-</p><p>gicos. De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos</p><p>Mentais (DSM-5), não há marcadores biológicos para o diagnóstico de</p><p>TDAH (APA, 2014).</p><p>No Quadro 1 podemos ver listados os sintomas mais comuns de</p><p>TDAH relacionados à desatenção e à hiperatividade/impulsividade.</p><p>Transtornos do neurodesenvolvimento e aprendizagem 65</p><p>Quadro 1</p><p>Sintomas comuns do TDAH</p><p>Desatenção Hiperatividade e impulsividade</p><p>Dificuldade em prestar atenção aos deta-</p><p>lhes; cometimento de erros por descuido.</p><p>Inquietação intensa; o indivíduo se bate ou</p><p>contorce quando sentado.</p><p>Dificuldade de manter o foco em tare-</p><p>fas ou atividades.</p><p>Impossibilidade de permanecer sentado,</p><p>mesmo quando deveria.</p><p>Dificuldade em organizar tarefas e per-</p><p>tences.</p><p>O indivíduo corre ou escala excessivamen-</p><p>te quando não é apropriado.</p><p>Evitamento de tarefas que exigem es-</p><p>forço mental sustentado.</p><p>Dificuldade de brincar ou se envolver silen-</p><p>ciosamente em atividades.</p><p>Perda frequente de itens necessários</p><p>para completar tarefas específicas.</p><p>Fala excessiva e interrupção dos outros</p><p>com frequência.</p><p>Esquecimento frequente de tarefas ou</p><p>atividades diárias.</p><p>Dificuldade de esperar a sua vez; deixa</p><p>escapar as respostas ou termina as frases</p><p>dos outros.</p><p>Fonte: Elaborado pela autora.</p><p>Jovens com TDAH podem ser hiperativos, além de tenderem a ser im-</p><p>pulsivos e propensos a acidentes. Eles podem responder perguntas antes</p><p>de levantar a mão, esquecer coisas, inquietar-se, contorcer-se na cadeira</p><p>ou falar muito alto. Por outro lado, alguns estudantes com esse transtorno</p><p>podem ser quietos ou desatentos, esquecidos e facilmente distraídos.</p><p>De acordo com a Associação para Saúde Mental Infantil de Minne-</p><p>sota (Minnesota Association for Children’s Mental Health), o ambiente</p><p>também pode influenciar os sintomas apresentados pelo TDAH, por</p><p>exemplo: estudantes com TDAH podem não exibir alguns comporta-</p><p>mentos em casa se esse ambiente for menos estressante, menos esti-</p><p>mulante ou mais estruturado do que a escola. Mesmo lidando com a</p><p>desatenção, estudantes com TDAH podem se concentrar na tarefa ao</p><p>fazer um projeto de algo que gostem, como arte. Estima-se que 5% das</p><p>crianças tenham alguma forma de TDAH, com prevalência para crian-</p><p>ças do sexo masculino (FREIRE; PONDÉ, 2005).</p><p>Estudantes com TDAH tendem a ser negligenciados ou rotulados</p><p>como quietos e desmotivados, porque não conseguem organizar seu</p><p>trabalho a tempo e correm maior risco de desenvolver dificuldades de</p><p>aprendizagem, transtornos de ansiedade, conduta e humor, e até mes-</p><p>mo doenças mais sérias como a depressão. Esses indivíduos também</p><p>podem ter dificuldade em manter amizades e sua autoestima sofrerá</p><p>por experimentar falhas frequentes por causa do sentimento de inca-</p><p>66 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>pacidade. Sem tratamento adequado, as crianças correm um alto risco</p><p>de fracasso escolar.</p><p>Abordagens multidisciplinares que incluem a família, escola e</p><p>saúde mental podem ser bem-sucedidas, e crianças identificadas em</p><p>tenra idade devem ser monitoradas, pois a mudança de sintomas</p><p>pode indicar distúrbios relacionados, tais como transtorno bipolar,</p><p>depressão, ou condições subjacentes, como transtorno do espectro</p><p>alcoólico fetal 1 (TEAF).</p><p>O TDAH pode afetar vários aspectos da vida de um indivíduo, in-</p><p>cluindo desempenho acadêmico, produtividade no trabalho, relacio-</p><p>namentos e autoestima. No entanto, com diagnóstico e tratamento</p><p>adequados, a exemplo de terapia comportamental e/ou medicação, os</p><p>indivíduos com TDAH podem aprender a controlar seus sintomas de</p><p>modo eficaz e levar uma vida plena e saudável.</p><p>O transtorno do espectro autista (TEA), por sua vez, é um transtorno</p><p>do neurodesenvolvimento que afeta a comunicação, o comportamento</p><p>e a interação social. Ele é caracterizado por uma ampla gama de sinto-</p><p>mas e habilidades, razão pela qual é chamado de distúrbio de espectro.</p><p>O TEA afeta os indivíduos de maneira diferente, e não há duas pessoas</p><p>com autismo com exatamente o mesmo conjunto de características.</p><p>As principais características do transtorno do espectro autista incluem:</p><p>Dificuldades de comunicação: pessoas com TEA podem ter proble-</p><p>mas com a comunicação verbal e não verbal. Podem ter atraso no</p><p>desenvolvimento da linguagem, dificuldade de entender e usar gestos</p><p>e dificuldade em manter contato visual ou entender sinais sociais.</p><p>Desafios sociais: indivíduos com TEA geralmente apresentam difi-</p><p>culdade de se envolver em interações sociais típicas e podem achar</p><p>difícil desenvolver e manter relacionamentos. Eles podem ter dificul-</p><p>dade de entender as emoções dos outros ou expressar suas próprias</p><p>emoções de maneira adequada.</p><p>(Continua)</p><p>Comportamentos repetitivos e interesses restritos: muitos indiví-</p><p>duos com TEA se envolvem em comportamentos repetitivos, como</p><p>bater as mãos, balançar ou repetir frases (ecolalia). Eles também</p><p>podem mostrar intenso interesse em tópicos específicos e ter dificul-</p><p>dade em mudar seu foco para outras atividades.</p><p>O TEAF tem como</p><p>consequência alterações</p><p>comportamentais bem</p><p>definidas, que incluem má</p><p>qualidade do sono, de-</p><p>ficiência nas habilidades</p><p>sociais e uma maior pre-</p><p>valência do TDAH. Em tor-</p><p>no de 40% dos indivíduos</p><p>diagnosticados com TEAF</p><p>também são diagnostica-</p><p>dos com TDAH. No TDAH</p><p>apresentado por crianças</p><p>com diagnóstico de TEAF,</p><p>as maiores dificuldades</p><p>estão relacionadas ao</p><p>processamento visual/es-</p><p>pacial e na capacidade de</p><p>adaptação e controle da</p><p>impulsividade (CONANT,</p><p>2021).</p><p>1</p><p>O documentário Em um</p><p>mundo interior acompa-</p><p>nha a vida de famílias de</p><p>crianças com TEA e tem</p><p>como proposta trazer</p><p>informação e entendi-</p><p>mento sobre o tema</p><p>para o público de uma</p><p>forma séria, mostrando</p><p>toda a complexidade do</p><p>espectro e sinalizando</p><p>que o desenvolvimento</p><p>integral das crianças</p><p>com TEA varia de acordo</p><p>com as oportunidades</p><p>que elas receberam para</p><p>progredir.</p><p>Direção: Flavio Frederico e Mariana</p><p>Pamplona. Brasil: Elo Company,</p><p>2018.</p><p>Mídia</p><p>Transtornos do neurodesenvolvimento e aprendizagem 67</p><p>Sensibilidades sensoriais: pessoas com TEA podem ter sensibi-</p><p>lidade aumentada ou reduzida a estímulos sensoriais, como luz,</p><p>som, toque, paladar ou olfato. Certas texturas ou ruídos podem</p><p>ser perturbadores ou angustiantes, enquanto outros podem ser</p><p>calmantes ou fascinantes.</p><p>De acordo com o DSM-5, o transtorno do espectro do autista é</p><p>tipicamente diagnosticado na primeira infância, geralmente por vol-</p><p>ta dos 2 ou 3 anos de idade, embora possa ser diagnosticado mais</p><p>tarde, em alguns casos. Tem uma prevalência estimada de 1% na po-</p><p>pulação mundial. A causa exata do TEA não é totalmente compreen-</p><p>dida, mas acredita-se que seja uma combinação de fatores genéticos</p><p>e ambientais.</p><p>Como esse é um transtorno do espectro, o nível de deficiência e o</p><p>suporte necessário podem variar amplamente. Alguns indivíduos com</p><p>TEA têm desafios significativos que requerem apoio substancial, en-</p><p>quanto outros podem apresentar sintomas mais leves e levar uma vida</p><p>mais independente.</p><p>A intervenção precoce e o suporte adequado são cruciais para indivíduos</p><p>com transtorno do espectro autista. Terapias comportamentais, fonoaudio-</p><p>logia, treinamento de habilidades sociais e terapia ocupacional podem ajudar</p><p>os</p><p>indivíduos a desenvolver seus pontos fortes e gerenciar seus desafios de</p><p>modo eficaz. Os planos de tratamento geralmente são personalizados para</p><p>atender as necessidades específicas do indivíduo, e quase sempre requerem</p><p>uma equipe multiprofissional.</p><p>É essencial reconhecer que os indivíduos com TEA têm habilida-</p><p>des e perspectivas únicas. Com compreensão, aceitação e o apoio</p><p>certo, eles podem fazer contribuições significativas para a sociedade</p><p>e levar uma vida gratificante.</p><p>3.4 Deficiências sensoriais</p><p>Vídeo</p><p>As deficiências sensoriais referem-se a condições que afetam um ou</p><p>mais dos sentidos, que são os canais pelos quais os indivíduos perce-</p><p>bem e interagem com o mundo. Os principais sentidos são visão, au-</p><p>dição, paladar, olfato e tato, e quando um ou mais deles são afetados,</p><p>68 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>temos as deficiências sensoriais. Existem vários tipos de deficiências</p><p>sensoriais, mas as principais são:</p><p>Deficiência visual: refere-se a condições que causam perda parcial</p><p>ou total da visão. Pessoas com deficiência visual podem ter dificul-</p><p>dade de enxergar objetos, formas, cores e detalhes; algumas deficiên-</p><p>cias visuais comuns incluem cegueira, baixa visão e várias condições</p><p>oculares, como catarata, glaucoma e degeneração macular.</p><p>Deficiência auditiva: envolve a incapacidade, parcial ou total, de</p><p>ouvir sons. Pessoas com deficiência auditiva podem ter dificuldade</p><p>de entender a fala, acompanhar conversas ou perceber certos sons.</p><p>As deficiências auditivas podem variar de leve a profunda e estar</p><p>presentes desde o nascimento ou serem adquiridas mais tarde du-</p><p>rante a vida.</p><p>Deficiências do paladar e do olfato: afetam a capacidade de uma</p><p>pessoa de detectar e diferenciar sabores e cheiros, que pode experi-</p><p>mentar um sentido reduzido de paladar ou olfato, ou não ser capaz de</p><p>identificar certos sabores ou odores.</p><p>Deficiência de toque: consiste na incapacidade de sentir pressão,</p><p>temperatura, dor e outras sensações táteis. Condições como neuro-</p><p>patias ou danos nos nervos podem levar a deficiências de toque.</p><p>As deficiências sensoriais podem ter um impacto significativo na</p><p>vida diária de um indivíduo e podem influenciar a forma como ele inte-</p><p>rage com o ambiente e com outras pessoas. Pessoas com deficiências</p><p>sensoriais podem enfrentar desafios de comunicação, mobilidade, au-</p><p>tocuidado, interações sociais e acesso a informações.</p><p>O suporte e as acomodações podem ajudar os indivíduos com defi-</p><p>ciências sensoriais a se adaptar e participar plenamente das atividades</p><p>diárias e da sociedade, por exemplo: pessoas com deficiência visual po-</p><p>dem usar dispositivos auxiliares, como bengalas, cães-guia ou leitores</p><p>de tela em computadores para acessar informações. Pessoas com de-</p><p>ficiência auditiva podem usar aparelhos auditivos ou implantes coclea-</p><p>res para melhorar sua audição e linguagem de sinais ou legendas para</p><p>facilitar a comunicação.</p><p>Transtornos do neurodesenvolvimento e aprendizagem 69</p><p>Indivíduos com deficiências de paladar e olfato podem confiar em</p><p>outros sentidos e texturas para apreciar a comida, e as deficiências de</p><p>toque podem exigir monitoramento cuidadoso para evitar lesões e ga-</p><p>rantir a segurança.</p><p>Ambientes acessíveis, ambientes educacionais inclusivos e</p><p>tecnologias assistivas são essenciais para apoiar indivíduos com</p><p>deficiências sensoriais e lhes proporcionar oportunidades iguali-</p><p>tárias de participar da sociedade e atingir seu pleno potencial. É</p><p>muito importante promover a conscientização e a compreensão</p><p>das deficiências sensoriais para construirmos uma comunidade</p><p>mais inclusiva e solidária para indivíduos com essas condições.</p><p>As deficiências sensoriais podem ter impactos significativos no</p><p>neurodesenvolvimento, particularmente durante os períodos críti-</p><p>cos da primeira infância, quando o cérebro está formando conexões</p><p>rapidamente e estabelecendo as bases para o aprendizado e desen-</p><p>volvimento futuros. Os efeitos específicos dependem do tipo e gra-</p><p>vidade da deficiência sensorial e da idade em que ocorre (PURVES et</p><p>al., 2018).</p><p>3.4.1 Impactos no neurodesenvolvimento</p><p>Vamos agora explorar os impactos no neurodesenvolvimento dos</p><p>tipos de deficiência sensorial, sendo que para cada um deles os im-</p><p>pactos têm características distintas, por exemplo, a deficiência visual</p><p>pode impactar três áreas: o chamado processamento visual, em que</p><p>– na ausência de entrada visual típica – as áreas de processamento</p><p>visual do cérebro podem sofrer reorganização ou redirecionamento</p><p>para aprimorar outro processamento sensorial, como processamento</p><p>auditivo ou tátil; a denominada cognição espacial, pois indivíduos com</p><p>deficiência visual geralmente dependem mais da cognição espacial e</p><p>das informações auditivas para navegar em seu ambiente e interagir</p><p>com o mundo; e por fim, a área conhecida como sentidos não visuais</p><p>aprimorados, em que o cérebro se adapta aguçando os sentidos não</p><p>visuais, como audição e tato, para compensar a falta de entrada visual.</p><p>A deficiência auditiva pode ter impactos no neurodesenvolvimen-</p><p>to em duas grandes áreas: no chamado processamento auditivo, devi-</p><p>do ao fato de que a ausência de entrada auditiva típica pode afetar</p><p>o desenvolvimento de áreas de processamento auditivo no cérebro,</p><p>Af</p><p>ric</p><p>a</p><p>St</p><p>ud</p><p>io</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>70 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>fazendo com que o cérebro se reorganize para alocar recursos para ou-</p><p>tro processamento sensorial; e na conhecida como desenvolvimento da</p><p>linguagem, pois a deficiência auditiva pode afetar o desenvolvimento da</p><p>linguagem falada, levando a atrasos na aquisição da linguagem. No en-</p><p>tanto, indivíduos com deficiência auditiva podem desenvolver habilida-</p><p>des aprimoradas em linguagem de sinais ou comunicação não verbal.</p><p>Quanto às deficiências de paladar e olfato, o cérebro pode sofrer</p><p>alterações no que chamamos de integração sensorial, pois ele depende</p><p>de informações de todos os sentidos para criar uma percepção coesa</p><p>do ambiente, portanto a perda do paladar e do olfato pode levar a dife-</p><p>renças no processamento sensorial.</p><p>O olfato e o paladar são sentidos químicos e os sistemas neurais que</p><p>os compõem estão entre os mais antigos do encéfalo, do ponto de vista da</p><p>filogenética. As sensações que sentimos provêm da interação de molécu-</p><p>las com os receptores do olfato e da gustação. Esses impulsos elétricos se</p><p>propagam para o sistema límbico, que é a sede das nossas emoções, bem</p><p>como para algumas áreas do córtex superior. Por isso, determinados odo-</p><p>res e sabores são capazes de desencadear respostas emocionais intensas</p><p>e resgatar cadeias de memórias arquivadas pelo cérebro.</p><p>Sendo assim, esses distúrbios podem afetar a qualidade de vida do</p><p>indivíduo (por não ser capaz, por exemplo, de identificar que um alimento</p><p>esteja estragado) e sua capacidade de experimentar emoções intensas e</p><p>vivenciar memórias afetivas por meio desses sentidos.</p><p>Por fim, a deficiência de toque impacta duas áreas, o processamento</p><p>tátil e a propriocepção. Sobre a primeira delas, como o cérebro depende</p><p>de informações táteis para entender e interagir com o mundo físico, ocorre</p><p>uma perda de entrada de toque que pode influenciar a forma como o cére-</p><p>bro processa informações táteis.</p><p>É pelo sistema tátil que recebemos informações sobre o mundo que</p><p>nos rodeia logo após o nascimento, e é a capacidade de processar in-</p><p>formações táteis que possibilita que nos sintamos seguros e que crie-</p><p>mos laços de afeto com aqueles que amamos. Este fator é de grande</p><p>importância para o nosso desenvolvimento social e emocional.</p><p>O sistema de processamento tátil tem um papel de grande impor-</p><p>tância, de caráter protetivo, cuja função é nos alertar diante de algo</p><p>desconfortável ou perigoso. Em algumas crianças essa função do siste-</p><p>ma tátil não funciona adequadamente, o que pode causar problemas.</p><p>Transtornos do neurodesenvolvimento e aprendizagem 71</p><p>Nessas crianças, o sistema tátil gera informações equivocadas para o</p><p>cérebro, o que faz com que elas estejam sempre em um estado de aler-</p><p>ta, e qualquer toque</p><p>pode causar reações extremas (gritos, reações de</p><p>luta ou fuga ou explosões de violência), e esse comportamento pode</p><p>ser erroneamente interpretado como “mau comportamento”.</p><p>A deficiência de toque não afeta, necessariamente, a capacidade de</p><p>aprendizado da criança, porém o desconforto e as reações comporta-</p><p>mentais causados por essa deficiência interferem muito no processo</p><p>de aprendizagem.</p><p>Já a propriocepção (a sensação da posição e movimento do corpo);</p><p>nesse caso, o toque é comprometido, de modo que as habilidades mo-</p><p>toras e a coordenação são potencialmente afetadas.</p><p>Deficiência visual</p><p>Pode afetar três áreas:</p><p>• processamento visual;</p><p>• cognição espacial;</p><p>• sentidos não visuais aprimorados.</p><p>Deficiência auditiva</p><p>Pode afetar duas grandes áreas:</p><p>• processamento auditivo;</p><p>• desenvolvimento da linguagem.</p><p>Deficiências de paladar e olfato</p><p>O cérebro pode sofrer alterações</p><p>no que chamamos de integração</p><p>sensorial.</p><p>Deficiência de toque</p><p>Pode afetar duas áreas:</p><p>• processamento tátil;</p><p>• propriocepção (a sensação da</p><p>posição e movimento do corpo).</p><p>Como sabemos, o cérebro é altamente plástico, o que significa que</p><p>tem a capacidade de se reorganizar e se adaptar às mudanças senso-</p><p>riais. Em resposta às deficiências sensoriais, o cérebro utiliza-se dessa</p><p>plasticidade neural e faz com que as conexões neurais existentes sejam</p><p>fortalecidas, ou até mesmo forma novas conexões para compensar a</p><p>perda sensorial. Essa neuroplasticidade pode variar dependendo da</p><p>idade em que ocorre o comprometimento sensorial e da capacidade</p><p>de adaptação do indivíduo (PURVES et al., 2018).</p><p>A intervenção precoce é crucial para indivíduos com deficiências</p><p>sensoriais para apoiar seu neurodesenvolvimento de modo eficaz. A</p><p>estimulação sensorial e as terapias especializadas podem ajudar a oti-</p><p>mizar o neurodesenvolvimento e aprimorar as habilidades adaptativas.</p><p>Além disso, as tecnologias assistivas e as adequações educacionais po-</p><p>Os sistemas sensoriais</p><p>são responsáveis pela</p><p>obtenção de informações</p><p>sobre o meio ambiente</p><p>e sobre nosso próprio</p><p>corpo, e o cérebro é o</p><p>órgão responsável pela</p><p>recepção e interpretação</p><p>dessas informações. No</p><p>vídeo Sistemas Sensoriais -</p><p>#01 Introdução - Neurofi-</p><p>siologia são apresentadas</p><p>as características gerais</p><p>dos sistemas sensoriais</p><p>de uma forma bem didáti-</p><p>ca. Vale a pena conferir!</p><p>Disponível em: https://youtu.be/</p><p>Hv8W2UdTmiI?si=ZIlNMzaJYFlb63Il.</p><p>Acesso em: 16 nov. 2023.</p><p>Vídeo</p><p>dem capacitar indivíduos com deficiências sensoriais a acessar infor-</p><p>mações, comunicar-se e participar plenamente de seu ambiente.</p><p>3.5 Aspectos biológicos, cognitivos</p><p>e emocionaisVídeo</p><p>Os transtornos específicos de aprendizagem são condições complexas</p><p>que envolvem uma combinação de fatores biológicos, cognitivos e emocio-</p><p>nais. Logo, é essencial compreender esses aspectos para desenvolver inter-</p><p>venções e suporte eficazes para indivíduos com distúrbios de aprendizagem.</p><p>Partindo para as definições em si, quanto aos aspectos biológicos,</p><p>três fatores são influenciados por eles:</p><p>• Diferenças neurológicas: acredita-se que os distúrbios de</p><p>aprendizagem estejam enraizados em diferenças neurológicas</p><p>que afetam a forma como o cérebro processa e integra informa-</p><p>ções, além de também poder afetar áreas cerebrais específicas</p><p>responsáveis pelo processamento da linguagem, leitura, escrita,</p><p>habilidades matemáticas e funções executivas.</p><p>• Fatores genéticos: há evidências de que os distúrbios de apren-</p><p>dizagem têm um componente genético, o que significa que po-</p><p>dem ocorrer em famílias. Genes específicos podem influenciar o</p><p>desenvolvimento do cérebro e as funções relacionadas ao apren-</p><p>dizado e à cognição.</p><p>• Estrutura e função cerebral: estudos de neuroimagem identifi-</p><p>caram diferenças estruturais e funcionais nos cérebros de indiví-</p><p>duos com distúrbios de aprendizagem, apoiando a ideia de que a</p><p>organização cerebral e a conectividade desempenham um papel</p><p>nas dificuldades de aprendizagem.</p><p>Quando nos referimos aos aspectos cognitivos dos transtornos</p><p>de aprendizagem, também podemos identificar alguns fatores:</p><p>• Processamento de informações: indivíduos com</p><p>transtornos específicos de aprendizagem podem</p><p>ter dificuldades com processos cognitivos es-</p><p>pecíficos, como memória de trabalho, aten-</p><p>ção, velocidade de processamento e funções</p><p>executivas (por exemplo, planejamento, or-</p><p>ganização e autorregulação).</p><p>PeopleImages.com - Yuri A/Shutterstock</p><p>PeopleImages.com - Yuri A/Shutterstock</p><p>7272 Transtornos do NeurodesenvolvimentoTranstornos do Neurodesenvolvimento</p><p>Transtornos do neurodesenvolvimento e aprendizagem 73</p><p>• Linguagem e processamento fonológico: a linguagem e o</p><p>processamento fonológico são críticos para a leitura e a escrita.</p><p>Transtornos como a dislexia podem estar relacionados a dificul-</p><p>dades na compreensão da relação entre sons e letras (consciên-</p><p>cia fonológica).</p><p>• Processamento numérico: a discalculia, que, como sabemos,</p><p>afeta as habilidades matemáticas, pode estar associada a dificul-</p><p>dades no processamento numérico e na compreensão de concei-</p><p>tos matemáticos.</p><p>Por fim, os aspectos emocionais também têm sua influência, vincu-</p><p>lando-se principalmente à relação do indivíduo com transtorno especí-</p><p>fico de aprendizagem com o mundo ao seu redor:</p><p>• Sentimentos e sensações: os transtornos específicos de apren-</p><p>dizagem podem levar à frustração e ansiedade, especialmente</p><p>quando os indivíduos enfrentam desafios acadêmicos e têm di-</p><p>ficuldade em acompanhar os colegas. Isso pode afetar negativa-</p><p>mente a autoestima e a motivação para aprender.</p><p>• Interações sociais: podem ocorrer alterações nas interações so-</p><p>ciais, pois os indivíduos podem se sentir isolados. Isso pode levar</p><p>a sentimentos de solidão e dificuldades em fazer amizades.</p><p>• Lidar com dificuldades: alguns indivíduos com os transtornos</p><p>específicos de aprendizagem podem desenvolver mecanismos</p><p>de enfrentamento, como evitação ou retraimento, para admi-</p><p>nistrar suas dificuldades. Essas estratégias de enfrentamento</p><p>podem afetar ainda mais o bem-estar acadêmico e emocional. É</p><p>preciso manter um olhar atento e acolhedor.</p><p>É importante reconhecer que os indivíduos com transtornos especí-</p><p>ficos de aprendizagem também têm pontos fortes e talentos, por isso</p><p>fornecer apoio, intervenções e acomodações adequados – tudo isso</p><p>adaptado às suas necessidades específicas – pode ajudá-los a superar</p><p>desafios e explorar seus pontos fortes.</p><p>Avaliação abrangente e intervenção precoce são cruciais para abor-</p><p>dar os aspectos biológicos, cognitivos e emocionais dos distúrbios de</p><p>aprendizagem de modo eficaz. Uma abordagem multidisciplinar envol-</p><p>vendo educadores, psicólogos, terapeutas e outros profissionais pode</p><p>fornecer estratégias personalizadas para promover aprendizagem,</p><p>bem-estar e sucesso para indivíduos com distúrbios de aprendizagem.</p><p>Você quer conhecer a</p><p>importância das emoções</p><p>no processo de apren-</p><p>dizagem? No vídeo A</p><p>importância das emoções</p><p>na aprendizagem, Geraldo</p><p>Almeida nos fala da ne-</p><p>cessidade urgente de re-</p><p>fletirmos sobre o impacto</p><p>das emoções no processo</p><p>educativo, chegando a</p><p>afirmar que não há edu-</p><p>cação sem emoção. Vale a</p><p>pena assistir!</p><p>Disponível em:</p><p>https://youtu.be/5TdeC13looo?si</p><p>Acesso em: 16 nov. 2023.</p><p>Vídeo</p><p>74 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>Neste capítulo, traçamos um panorama dos transtornos de aprendi-</p><p>zagem e dos transtornos do neurodesenvolvimento que mais afetam os</p><p>processos educativos, como o TEA e o TDAH. Investigamos como esses</p><p>transtornos se apresentam – isto é, seus sinais e sintomas – e como eles</p><p>se manifestam na vida do indivíduo, gerando consequências que se ex-</p><p>pandem não apenas em nível acadêmico, mas também no campo das</p><p>emoções, da cognição e das relações sociais.</p><p>Enfim, aprendemos que em qualquer situação – seja ela afetada por</p><p>uma dificuldade específica de aprendizagem, um transtorno de aprendi-</p><p>zagem ou do neurodesenvolvimento –, o diagnóstico precoce e o trata-</p><p>mento adequado, com as intervenções necessárias e com profissionais</p><p>especializados</p><p>central e reconhecer suas</p><p>ações no neurodesenvolvimento. Tudo no corpo humano compete para</p><p>a nossa saúde e bem-estar, e com o sistema nervoso não poderia ser</p><p>diferente, pois todas as suas estruturas trabalham incessantemente pela</p><p>busca da homeostase, no caso, o equilíbrio.</p><p>Seguiremos a nossa jornada, buscando identificar as estruturas neu-</p><p>ronais e reconhecer suas funções, com foco nos neurônios, as estruturas</p><p>vitais que nos permitem pensar, refletir, sonhar, amar, reconhecer um</p><p>rosto querido na multidão ou cantarolar a nossa canção preferida quando</p><p>ouvimos os seus primeiros acordes.</p><p>Finalizamos a viagem deste primeiro capítulo entendendo a relevância</p><p>de cada estrutura do sistema nervoso nas etapas do neurodesenvolvi-</p><p>mento infantil, bem como a importância de analisarmos as questões biop-</p><p>sicossociais que permeiam e impactam esse desenvolvimento.</p><p>10 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>Com o estudo deste capítulo, você será capaz de:</p><p>• reconhecer as estruturas do sistema nervoso e sua formação;</p><p>• identificar as funções do sistema nervoso e as diferentes etapas</p><p>do desenvolvimento humano;</p><p>• descrever as estruturas e mecanismos de proteção do sistema ner-</p><p>voso central e reconhecer suas ações no neurodesenvolvimento;</p><p>• classificar as estruturas neuronais e descrever suas funções;</p><p>• compreender a relevância de cada estrutura do sistema nervoso</p><p>nas etapas do neurodesenvolvimento infantil.</p><p>Objetivos de aprendizagem</p><p>1.1 Sistema nervoso</p><p>Vídeo</p><p>O sistema nervoso é uma rede complexa de células especializadas</p><p>chamadas de neurônios, que transmitem sinais entre diferentes partes</p><p>do corpo, além de serem responsáveis por controlar e coordenar as</p><p>funções de vários órgãos e sistemas, permitindo-nos perceber e intera-</p><p>gir com o mundo que nos rodeia. Quando pensamos nas funções do</p><p>sistema nervoso, estamos diante do sistema mais complexo de todo o</p><p>corpo humano, isso porque suas características únicas proporcionam a</p><p>interação com o ambiente e a regulação interna de todos os sistemas</p><p>que garantem o desenvolvimento do organismo e a preservação da vida.</p><p>A formação do nosso sistema nervoso data de milhões de anos, perío-</p><p>do no qual ele foi se aperfeiçoando e ganhando novas e mais complexas</p><p>funções, um processo que se deu tanto em nível anatômico (organização</p><p>estrutural) quanto fisiológico (função orgânica), por isso a fisiologia do</p><p>sistema nervoso é extremamente complexa (OLIVEIRA, 2005).</p><p>O sistema nervoso tem o papel de coordenar o sentir, o pensar</p><p>e o controlar tudo o que acontece no corpo, atividades que aconte-</p><p>cem pelas informações que o sistema coleta tanto internamente (no</p><p>corpo) quanto no ambiente externo. Essas informações são extraí-</p><p>das das terminações nervosas sensoriais que estão espalhadas pela</p><p>nossa pele, nos tecidos internos, nos órgãos dos sentidos (olhos,</p><p>ouvidos, nariz) e são transmitidas para a medula espinhal e para o</p><p>encéfalo por meio dos nervos (HALL; HALL, 2021).</p><p>Todos esses estímulos que o sistema nervoso recebe do corpo e do</p><p>ambiente que nos rodeia precisam ser processados e corretamente in-</p><p>terpretados, de maneira que sejam transformados em informações que</p><p>tenham um sentido e sirvam de base para a tomada de decisões do sis-</p><p>tema nervoso, seja na preservação do organismo, seja na regulação das</p><p>funções vitais, como respiração, pressão arterial e temperatura corporal.</p><p>Sendo assim, o sistema nervoso humano desempenha três funções</p><p>principais, que podemos ver listadas no Quadro 1 (HALL; HALL, 2021).</p><p>Quadro 1</p><p>Principais funções do sistema nervoso</p><p>Função</p><p>sensorial</p><p>Coletar informações que são recebidas pelas terminações nervosas</p><p>e transmiti-las para a medula espinhal e o encéfalo.</p><p>Função</p><p>integrativa</p><p>Interpretar as informações recebidas pelas terminações nervosas,</p><p>incluindo os processos de pensamento e memória.</p><p>Função</p><p>motora</p><p>Conduzir e receber as informações do sistema nervoso central para</p><p>os músculos e glândulas do corpo.</p><p>Fonte: Elaborado pela autora.</p><p>Tratando especificamente de cada uma delas, a função sensorial</p><p>do sistema nervoso envolve a coleta e o processamento de informações</p><p>sensoriais de ambientes externos e internos. Ela nos permite perceber</p><p>e interpretar vários estímulos, como toque, temperatura, dor, pressão,</p><p>som, luz, paladar e olfato. Os receptores sensoriais em nosso corpo</p><p>detectam esses estímulos e os convertem em sinais elétricos, que são</p><p>transmitidos ao sistema nervoso central (SNC) para processamento.</p><p>A função integrativa do sistema nervoso envolve o processamen-</p><p>to e a integração da informação sensorial, bem como a coordenação</p><p>das respostas motoras, e ocorre no SNC, particularmente no cérebro.</p><p>O cérebro recebe entradas sensoriais e as integra com informações ar-</p><p>mazenadas e experiências passadas para darmos sentido ao mundo</p><p>e tomarmos decisões. Essa função nos permite perceber,</p><p>analisar e responder aos estímulos de maneira coor-</p><p>denada e apropriada, além de também permitir</p><p>funções cognitivas superiores, como aprendi-</p><p>zado, memória, raciocínio e emoções.</p><p>Já a função motora do sistema nervoso</p><p>é responsável por iniciar e controlar os</p><p>movimentos voluntários e involuntários.</p><p>Trata-se da transmissão de sinais do SNC</p><p>Para quem deseja apro-</p><p>fundar-se na formação,</p><p>no desenvolvimento e</p><p>nas funções do sistema</p><p>nervoso, o livro de Arthur</p><p>Guyton, Neurociência básica</p><p>– anatomia e fisiologia, é</p><p>um guia completo sobre os</p><p>aspectos estruturais e fun-</p><p>cionais mais importantes.</p><p>GUYTON, A. C. 2. ed. Rio de Janeiro:</p><p>Guanabara Koogan, 1993.</p><p>Livro</p><p>De</p><p>an</p><p>D</p><p>ro</p><p>bo</p><p>t/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>NeurodesenvolvimentoNeurodesenvolvimento 1111</p><p>Pr</p><p>os</p><p>to</p><p>ck</p><p>-s</p><p>tu</p><p>di</p><p>o/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>para os músculos e glândulas por todo o corpo. Os neurônios moto-</p><p>res transportam esses sinais, também conhecidos como impulsos ou</p><p>comandos motores, do SNC para os músculos ou glândulas-alvo, resul-</p><p>tando em ações ou respostas específicas. Essa função nos permite</p><p>mover nosso corpo, manter a postura e realizar várias ações, como</p><p>caminhar, falar ou pegar objetos.</p><p>Em resumo, a função sensorial do sistema nervoso envolve a per-</p><p>cepção e o processamento de informações sensoriais, a função motora</p><p>controla os movimentos voluntários e involuntários e a função integrado-</p><p>ra integra as entradas sensoriais e coordena as respostas motoras, permi-</p><p>tindo a percepção, a tomada de decisões e funções cognitivas superiores.</p><p>1.1.1 Divisões do sistema nervoso</p><p>De modo geral, o sistema nervoso divide-se em dois componentes</p><p>principais, o sistema nervoso central (SNC), que engloba o cérebro e</p><p>a medula espinhal – isto é, os órgãos do sistema nervoso protegidos</p><p>pelo crânio e pelas vértebras da coluna cervical – e o sistema nervoso</p><p>periférico (SNP), formado pelos nervos e os gânglios nervosos. Além</p><p>disso, este segundo componente tem também uma subdivisão, o cha-</p><p>mado sistema nervoso autônomo (SNA), que como o próprio nome diz, é</p><p>responsável pelas funções autônomas do organismo.</p><p>Na Figura 1 podemos ver um resumo das principais funções</p><p>desses componentes.</p><p>1212 Transtornos do NeurodesenvolvimentoTranstornos do Neurodesenvolvimento</p><p>Ve</p><p>ct</p><p>or</p><p>M</p><p>in</p><p>e/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>SNP</p><p>• Transmite todas as</p><p>ações do SNC para os</p><p>respectivos receptores.</p><p>• Responsável pelas</p><p>ações voluntárias e</p><p>involuntárias do corpo.</p><p>SNC</p><p>• Centro de comando</p><p>do sistema nervoso.</p><p>• Processa</p><p>informações e</p><p>coordena todas as</p><p>funções corporais.</p><p>Figura 1</p><p>Principal divisão do</p><p>sistema nervoso</p><p>Fonte: Elaborada pela autora.</p><p>Neurodesenvolvimento 13</p><p>Explicando de modo mais detalhado, o SNC é formado por dois</p><p>órgãos: o cérebro, que é o centro de comando do sistema nervoso e</p><p>o responsável por processar informações, controlar pensamentos e</p><p>emoções, e coordenar todas as funções corporais. Já a medula espi-</p><p>nhal é um feixe longo e cilíndrico de nervos que se estende do tronco</p><p>cerebral por toda a coluna cervical do indivíduo, servindo como um</p><p>caminho para os sinais entre o cérebro e o resto do corpo, além de</p><p>desempenhar um papel crucial nas ações reflexas. No caso do SNP,</p><p>e qualificados, são um fator imprescindível para que se</p><p>possa assegurar o pleno desenvolvimento do indivíduo e para que ele</p><p>possa fruir uma vida gratificante, plena de sentido e de significado.</p><p>ATIVIDADES</p><p>Atividade 1</p><p>Para que o processo de aprendizagem possa ocorrer sem dificul-</p><p>dades, quais são as três funções que precisam estar preservadas?</p><p>Atividade 2</p><p>O que caracteriza o transtorno do déficit de atenção/hiperativida-</p><p>de (TDAH)?</p><p>Atividade 3</p><p>Como podemos identificar o transtorno do espectro autista (TEA)?</p><p>Transtornos do neurodesenvolvimento e aprendizagem 75</p><p>Atividade 4</p><p>Qual é a diferença entre transtornos específicos de aprendizagem</p><p>e dificuldades de aprendizagem?</p><p>Atividade 5</p><p>O que são deficiências sensoriais?</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>APA – American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos</p><p>mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.</p><p>CONANT, B. J. et al. Relationships between Fetal Alcohol Spectrum Disorder, adverse</p><p>childhood experiences, and neurodevelopmental diagnoses. Open Journal of Pediatrics, v.</p><p>11, n. 4, out. 2021.</p><p>DISLEXIA atinge até 17% da população mundial. Edição do Brasil, 5 maio 2017. Disponível</p><p>em: https://edicaodobrasil.com.br/2017/05/05/dislexia-atinge-ate-17-da-populacao-</p><p>mundial/. Acesso em: 16 nov. 2023.</p><p>FREIRE, A. C. C.; PONDÉ, M. P. Estudo piloto da prevalência do transtorno de déficit de</p><p>atenção e hiperatividade entre crianças escolares na cidade do Salvador. Arquivos de</p><p>Neuro-Psiquiatria, v. 63, n. 2, p. 474–478, 2005.</p><p>GIROTTO, P. R. C.; GIROTTO, E.; OLIVEIRA JUNIOR, I. B. Prevalência de distúrbios da escrita</p><p>em estudantes do Ensino Fundamental: uma revisão sistemática. Revista de Ensino,</p><p>Educação e Ciência Humanas, v. 16, n. 4, p. 361-366, 2015.</p><p>MOOJEN, S. M. P.; BASSÔA, A.; GONÇALVES, H. A. Características da dislexia de</p><p>desenvolvimento e sua manifestação na idade adulta. Revista Psicopedagogia, v. 33, n. 100,</p><p>p. 50-59, 2016.</p><p>PURVES, D. et al. (ed.). Neuroscience. 6. ed. Nova York: Oxford University Press, 2018.</p><p>SAMPAIO, S.; FREITAS, I. B. (org.). Transtornos e dificuldades de aprendizagem: entendendo</p><p>melhor os alunos com necessidades educativas especiais. 2. ed. Rio de Janeiro: Wak</p><p>Editora, 2020.</p><p>TOPCZEWSKI, A. Transtorno do déficit de atenção e hiperatividade: uma vertente</p><p>terapêutica. Einstein (São Paulo), v. 12, n. 3, p. 310-313, 2014.</p><p>76 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>4</p><p>Prevenção e cuidado</p><p>Neste capítulo discutiremos as necessidades de cuidado que envolvem os</p><p>transtornos do neurodesenvolvimento na infância, refletindo sobre quanto</p><p>esse cuidado impacta não apenas a fase de desenvolvimento da criança atí-</p><p>pica, uma vez que isso tem consequências que se estendem por toda a vida</p><p>adulta. Buscaremos compreender o processo de prevenção e promoção da</p><p>saúde para um neurodesenvolvimento saudável, pensando em estratégias</p><p>de cuidado materno e controle de fatores externo que podem impactar o</p><p>desenvolvimento infantil. Buscaremos analisar e identificar situações de risco</p><p>para o neurodesenvolvimento infantil, estejam elas no contexto do histórico</p><p>familiar, da saúde da gestante ou da situação socioeconômica familiar.</p><p>Também seremos capazes, neste capítulo, de entender os aspectos</p><p>comportamentais e sociais envolvidos nas situações de vulnerabilidade e</p><p>como identificá-los com segurança para que possamos pensar em inter-</p><p>venções possíveis, bem como conhecer a importância do fortalecimento</p><p>de vínculos afetivos para um neurodesenvolvimento saudável.</p><p>Ao final deste capítulo saberemos identificar e fortalecer as redes de</p><p>apoio à comunidade escolar, de maneira que a escola se transforme em</p><p>um lugar seguro e acolhedor para os estudantes com transtornos do</p><p>neurodesenvolvimento, oferecendo suporte adequado para que eles se</p><p>desenvolvam na plenitude de suas habilidades, sonhos e esperanças.</p><p>Com o estudo deste capítulo, você será capaz de:</p><p>• compreender o processo de prevenção e promoção da saúde para</p><p>um neurodesenvolvimento saudável;</p><p>• identificar situações de risco para o neurodesenvolvimento infantil;</p><p>• entender os aspectos comportamentais e sociais envolvidos nas</p><p>situações de vulnerabilidade;</p><p>• reconhecer a importância do fortalecimento de vínculos afetivos</p><p>para um neurodesenvolvimento saudável;</p><p>• identificar e fortalecer as redes de apoio da comunidade escolar.</p><p>Objetivos de aprendizagem</p><p>Prevenção e cuidado 77</p><p>RE</p><p>DP</p><p>IX</p><p>EL</p><p>.P</p><p>L/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>RE</p><p>DP</p><p>IX</p><p>EL</p><p>.P</p><p>L/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>4.1 Prevenção e promoção de saúde</p><p>Vídeo</p><p>A promoção e prevenção da saúde são dois conceitos importantes</p><p>na saúde pública, com ambos se concentrando na manutenção e me-</p><p>lhoria da saúde e do bem-estar dos indivíduos e das comunidades, mas</p><p>com definições e estratégias distintas.</p><p>Quando falamos em promoção de saúde, estamos nos referindo</p><p>a uma abordagem proativa para melhorar e manter a saúde e o bem-</p><p>-estar. Ela envolve esforços a fim de capacitar indivíduos e comunida-</p><p>des a fazer escolhas mais saudáveis e se envolver em comportamentos</p><p>que promovam uma boa saúde. A promoção da saúde visa prevenir</p><p>o aparecimento de doenças e condições abordando os determinantes</p><p>subjacentes da saúde, tais como fatores de estilo de vida, condições</p><p>sociais e econômicas e o ambiente físico.</p><p>De uma maneira geral, as estratégias de promoção da saúde in-</p><p>cluem campanhas de educação e sensibilização para a saúde, incentivo</p><p>a comportamentos saudáveis (por exemplo, exercício regular e dieta</p><p>equilibrada), melhoria do acesso aos serviços de saúde, criação de</p><p>ambientes de apoio à saúde e abordagem dos determinantes sociais</p><p>da saúde, como a pobreza e a educação. Incentivar a atividade física</p><p>regular, defender hábitos alimentares nutritivos, oferecer programas</p><p>de cessação do tabagismo, promover práticas sexuais seguras e apoiar</p><p>campanhas de sensibilização para a saúde mental são exemplos de ini-</p><p>ciativas de promoção da saúde.</p><p>A prevenção, no contexto dos cuidados de saúde, refere-se às</p><p>atividades e medidas tomadas para evitar ou reduzir a ocorrência de</p><p>doenças, lesões ou outros problemas relacionados com a saúde. Visa</p><p>identificar e mitigar os fatores de risco, prevenir a progressão das con-</p><p>dições existentes e, em última análise, reduzir o peso das consequên-</p><p>cias de uma determinada doença ou incapacidade.</p><p>Em resumo, a promoção da saúde centra-se na capacitação dos</p><p>indivíduos e das comunidades para que façam escolhas mais sau-</p><p>dáveis e em abordar os determinantes subjacentes da saúde, en-</p><p>quanto a prevenção abrange uma série de estratégias destinadas a</p><p>evitar ou reduzir a ocorrência e o impacto das condições de saúde.</p><p>Ambos os conceitos são componentes essenciais da saúde pública</p><p>e dos sistemas de saúde, trabalhando em conjunto para promover melho-</p><p>res resultados de saúde para indivíduos e populações em geral.</p><p>Prevenção</p><p>Estratégias destinadas a evitar ou reduzir a ocorrência e o impacto das</p><p>condições de saúde.</p><p>Promoção da saúde</p><p>Capacitação dos indivíduos e das comunidades para fazerem escolhas mais</p><p>saudáveis e abordagem dos determinantes subjacentes da saúde.</p><p>Os transtornos do neurodesenvolvimento são um grupo de dis-</p><p>túrbios que afetam o desenvolvimento do sistema nervoso, principal-</p><p>mente do cérebro. Essas condições manifestam-se frequentemente</p><p>no início da vida e podem ter um impacto significativo nas capa-</p><p>cidades cognitivas, sociais e motoras de uma pessoa. Embora os</p><p>transtornos do neurodesenvolvimento se encaixem nos princípios</p><p>da prevenção de saúde, é complexo falarmos da sua prevenção, já</p><p>que todos têm a sua gênese em condições que são quase sempre</p><p>multifatoriais.</p><p>Ainda assim, a seguir veremos algumas diretrizes gerais para</p><p>prevenção e cuidados que têm relação com os transtornos do</p><p>neurodesenvolvimento.</p><p>Cuidado pré-natal</p><p>O pré-natal refere-se aos cuidados médicos e ao apoio</p><p>que uma gestante recebe antes do nascimento do seu</p><p>bebê, algo crucial para garantir uma gravidez saudável e</p><p>um parto seguro. O cuidado pré-natal normalmente en-</p><p>volve uma série de exames médicos e orientações</p><p>sobre</p><p>estilo de vida fornecidos por profissionais de saúde</p><p>para monitorar a saúde da gestante e do feto em</p><p>desenvolvimento.</p><p>Cuidados pré-natais precoces e consistentes</p><p>permitem que os prestadores de cuidados de</p><p>saúde detectem quaisquer problemas poten-</p><p>Pr</p><p>os</p><p>to</p><p>ck</p><p>-s</p><p>tu</p><p>di</p><p>o/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>Pr</p><p>os</p><p>to</p><p>ck</p><p>-s</p><p>tu</p><p>di</p><p>o/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>7878 Transtornos do NeurodesenvolvimentoTranstornos do Neurodesenvolvimento</p><p>Gorodenkoff/ShutterstockGorodenkoff/Shutterstock</p><p>ciais, realizando intervenções adequadas e oferecendo suporte para</p><p>que a gestante tenha uma experiência de gravidez e parto segura e</p><p>saudável. Também desempenham um papel significativo na redução</p><p>do risco de complicações e na garantia dos melhores resultados possí-</p><p>veis para a mãe e para o bebê.</p><p>Um pré-natal adequado é essencial para prevenir distúrbios do</p><p>neurodesenvolvimento, e ele inclui: consultas regulares com um</p><p>profissional de saúde; uma dieta equilibrada; e evitar a exposição</p><p>a substâncias nocivas, como álcool, tabaco e certos medicamentos,</p><p>durante a gravidez.</p><p>Aconselhamento genético</p><p>Este é um serviço de saúde especializado que fornece informa-</p><p>ções, apoio e orientação a indivíduos e famílias que estão em risco</p><p>ou são afetados por doenças genéticas ou hereditárias. Os geneti-</p><p>cistas dessa área são profissionais treinados, com experiência em</p><p>genética e aconselhamento, e que ajudam a compreender os aspec-</p><p>tos genéticos relacionados à saúde e a tomar decisões informadas</p><p>sobre cuidados médicos e planejamento familiar.</p><p>O aconselhamento genético é um serviço essencial que capacita</p><p>indivíduos e famílias com o conhecimento e apoio necessários para</p><p>que tomem decisões informadas sobre a sua saúde genética. Ele</p><p>desempenha um papel fundamental em testes genéticos, preven-</p><p>ção de doenças e planejamento familiar. Os conselheiros genéticos</p><p>trabalham em colaboração com os profissionais da saúde para for-</p><p>necer cuidados e apoio abrangentes aos indivíduos afetados por</p><p>condições genéticas.</p><p>Se houver um histórico familiar de distúrbios do neurodesen-</p><p>volvimento ou preocupações sobre o risco genético, o aconse-</p><p>lhamento pode ajudar os indivíduos e os casais a compreender</p><p>os seus fatores de risco e tomar decisões informadas sobre o</p><p>planejamento familiar.</p><p>Prevenção e cuidadoPrevenção e cuidado 7979</p><p>80 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>Intervenção precoce</p><p>O diagnóstico e a intervenção precoces são cruciais para muitos</p><p>transtornos do neurodesenvolvimento, pois a identificação precoce de</p><p>sinais e sintomas pode levar a um tratamento eficaz e a estratégias de</p><p>apoio que podem melhorar seus resultados.</p><p>Terapias e intervenções</p><p>Dependendo do distúrbio específico do neurodesenvolvimento, vá-</p><p>rias terapias e intervenções podem ser recomendadas – como fonoau-</p><p>diologia, terapia ocupacional, fisioterapia e terapia comportamental</p><p>– para ajudar os indivíduos a desenvolver as habilidades necessárias e</p><p>lidar com seus desafios.</p><p>Gestão de medicamentos</p><p>Em alguns casos, medicamentos podem ser prescritos para contro-</p><p>lar sintomas ou condições concomitantes, como transtorno de déficit de</p><p>atenção/hiperatividade (TDAH) ou epilepsia. É essencial seguir as orienta-</p><p>ções de um profissional de saúde quanto ao uso de medicamentos.</p><p>Educação de apoio</p><p>As crianças com perturbações do neurodesenvolvimento frequente-</p><p>mente se beneficiam de programas educativos especializados e de ati-</p><p>vidades adaptadas às suas necessidades. Programas de intervenção na</p><p>primeira infância e planos de educação individualizados podem ser be-</p><p>néficos, como o ensino da Língua Brasileira de Sinais (Libras) e do Braille.</p><p>Além disso, é importante a oferta de material pedagógico acessível por</p><p>meio de tecnologias assistivas, como suporte emborrachado para que a</p><p>Pr</p><p>os</p><p>to</p><p>ck</p><p>-s</p><p>tu</p><p>di</p><p>o/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>Pr</p><p>os</p><p>to</p><p>ck</p><p>-s</p><p>tu</p><p>di</p><p>o/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>Prevenção e cuidado 81</p><p>criança consiga segurar o lápis ou o uso de tablets como recurso para a</p><p>utilização de textos aumentados visando uma melhor visualização.</p><p>Modificações comportamentais e de estilo de vida</p><p>Os cuidadores e os familiares podem desempenhar um papel sig-</p><p>nificativo no apoio a indivíduos com perturbações do neurodesenvol-</p><p>vimento implementando estratégias comportamentais e criando um</p><p>ambiente estruturado e de apoio em casa.</p><p>De acordo com Bowling et al. (2019), disparidades de saúde enfren-</p><p>tadas por crianças com transtornos do neurodesenvolvimento são</p><p>consideráveis. Seus estudos apontam que as crianças com diagnósti-</p><p>cos como transtorno do espectro autista (TEA), TDAH, bipolaridade, de-</p><p>pressão e ansiedade apresentam altos níveis de hábitos de vida não</p><p>saudáveis, como baixos níveis de atividade física, dieta pobre, rotina de</p><p>sono interrompida e tempo de exposição a telas muito elevado. Esses</p><p>hábitos pouco saudáveis na infância provavelmente contribuem para o</p><p>risco elevado de doenças crônicas nessas crianças.</p><p>Pesquisas recentes começam a elucidar como os pais moldam há-</p><p>bitos de saúde das crianças que predizem o risco de doenças crônicas</p><p>futuras, particularmente no que diz respeito a ingestão alimentar, tempo</p><p>de exposição a telas, atividade física e higiene do sono (que são as práti-</p><p>cas e hábitos que permitem uma boa qualidade de sono noturno). Esses</p><p>estudos também descrevem as diferenças nos comportamentos paren-</p><p>tais entre famílias com crianças com desenvolvimento típico e aquelas</p><p>com transtornos do neurodesenvolvimento (BOWLING, 2019).</p><p>VG</p><p>st</p><p>oc</p><p>ks</p><p>tu</p><p>di</p><p>o/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>82 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>Acesso a cuidados de saúde e serviços</p><p>É preciso garantir o acesso aos cuidados de saúde, incluindo exa-</p><p>mes regulares e consultas especializadas, para monitorizar o progresso</p><p>do indivíduo e resolver quaisquer preocupações emergentes.</p><p>Redes de apoio</p><p>Construir uma rede de apoio de familiares, amigos e grupos de</p><p>apoio também é um passo muito importante, principalmente para for-</p><p>necer apoio emocional e prático tanto para indivíduos com transtornos</p><p>do neurodesenvolvimento quanto para seus cuidadores. Essa rede de</p><p>apoio é organizada por meio de encontros e reuniões periódicas entre</p><p>a família e a escola, entre os cuidadores e professores, bem como por</p><p>meio de terapias de grupo ou grupos de ajuda mútua. Essas reuniões</p><p>podem ser semanais, quinzenais ou mensais, de acordo com o objetivo</p><p>e a organização de cada grupo.</p><p>Pesquisa</p><p>É preciso manter-se sempre informado sobre as últimas pesquisas</p><p>e esforços relacionados aos transtornos do neurodesenvolvimento.</p><p>Advogar a favor da causa pode ajudar a aumentar a sensibilização, pro-</p><p>mover a investigação e melhorar o acesso a recursos e serviços.</p><p>É importante observar que as estratégias específicas de prevenção e</p><p>cuidados podem variar dependendo do tipo e da gravidade do transtor-</p><p>no do neurodesenvolvimento. Consultar profissionais de saúde – como</p><p>pediatras, neurologistas e especialistas em desenvolvimento – é essencial</p><p>para desenvolver um plano personalizado para cada indivíduo afetado</p><p>por essas condições. A intervenção precoce e o apoio contínuo podem</p><p>melhorar significativamente a qualidade de vida desses indivíduos.</p><p>4.2 Avaliação de situações de risco</p><p>Vídeo</p><p>A avaliação do risco relativo aos distúrbios do neurodesenvolvimen-</p><p>to envolve a avaliação dos fatores que podem aumentar ou diminuir a</p><p>probabilidade de esses distúrbios ocorrerem em indivíduos ou popula-</p><p>ções em geral. A partir de agora, analisaremos alguns aspectos-chave</p><p>da avaliação de risco para transtornos do neurodesenvolvimento.</p><p>No vídeo Aula 3 - De-</p><p>senvolver PRÁTICAS em</p><p>crianças com Transtorno</p><p>do Neurodesenvolvimento,</p><p>do canal NeuroSaber, a</p><p>autora aborda práticas</p><p>para desenvolver a psico-</p><p>motricidade em crianças</p><p>com transtornos do</p><p>neurodesenvolvimento.</p><p>Sua abordagem é voltada</p><p>para atividades que sejam</p><p>totalmente inclusivas, a</p><p>fim de que todas as crian-</p><p>ças possam participar e se</p><p>desenvolver, levando-se</p><p>em consideração que a</p><p>psicomotricidade engloba</p><p>os aspectos emocionais,</p><p>cognitivos e motores das</p><p>diferentes</p><p>etapas do de-</p><p>senvolvimento humano.</p><p>Disponível em: https://</p><p>www.youtube.com/</p><p>live/1RTtuYe18qc?si=JNt0-</p><p>HUN7_kHoMF-.</p><p>Acesso em: 16 nov. 2023.</p><p>Vídeo</p><p>Prevenção e cuidado 83</p><p>Um dos fatores de risco mais significativos para muitos transtornos</p><p>do neurodesenvolvimento é o histórico familiar da doença, pois, se</p><p>parentes próximos (pais ou irmãos, por exemplo) tiverem sido diagnos-</p><p>ticados com algum transtorno, isso pode aumentar o risco para outros</p><p>membros da família, embora não seja um fator determinante. Vários fa-</p><p>tores pré-natais também podem influenciar o risco de desenvolvimen-</p><p>to desses transtornos, incluindo a saúde materna (em casos de infecções</p><p>durante a gravidez e diabetes gestacional, por exemplo) e exposição a</p><p>substâncias (tabaco, álcool, drogas etc.). Não tomar os cuidados pré-na-</p><p>tais ou ter uma nutrição inadequada durante a gestação também podem</p><p>afetar o desenvolvimento fetal, transformando-se em fatores de risco.</p><p>A exposição a toxinas ambientais como chumbo ou certos pro-</p><p>dutos químicos durante o desenvolvimento inicial do feto pode au-</p><p>mentar o risco de distúrbios do neurodesenvolvimento. Além disso,</p><p>alguns eventos durante a gravidez, como nascimento prematuro,</p><p>baixo peso ao nascer e complicações durante o parto também po-</p><p>dem aumentar o risco.</p><p>Os avanços na genética levaram à identificação de genes específicos</p><p>e marcadores moleculares associados a alguns distúrbios do neurode-</p><p>senvolvimento, logo testes genéticos e a triagem podem ajudar a ava-</p><p>liar o risco para indivíduos com histórico familiar.</p><p>Marcos de desenvolvimento atrasados ou atípicos na primeira</p><p>infância podem ser indicativos de um risco aumentado de distúrbios</p><p>do desenvolvimento neurológico, portanto o monitoramento desses</p><p>marcos é crucial para uma intervenção precoce. Alguns exemplos de</p><p>marcos do desenvolvimento típico são os seguintes:</p><p>• De 0 a 6 meses: sorri e dá risada; é capaz de virar a cabeça acom-</p><p>panhando o deslocamento de um objeto.</p><p>• De 6 a 9 meses: responde quando é chamado pelo seu nome;</p><p>consegue sentar-se sem apoio.</p><p>• De 9 a 12 meses: aprende a dar tchau; consegue apontar as par-</p><p>tes do corpo quando solicitado.</p><p>Certos comportamentos e indicadores clínicos – como dificulda-</p><p>des de comunicação social, comportamentos repetitivos, desatenção</p><p>e hiperatividade – podem sinalizar um risco aumentado de distúrbios</p><p>do neurodesenvolvimento, por isso a avaliação precoce pelos profissio-</p><p>nais de saúde é essencial para o diagnóstico e a intervenção precoces.</p><p>84 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>A presença de outras condições médicas ou psiquiátricas, como</p><p>epilepsia ou perturbações do humor, pode aumentar o risco de altera-</p><p>ções do desenvolvimento neurológico ou complicar o seu tratamento.</p><p>É preciso mantar-se atento a esses fatores de risco. O status socioe-</p><p>conômico e o acesso a recursos de saúde e educacionais também</p><p>são fatores de risco, pois a baixa condição socioeconômica pode estar</p><p>associada a um risco aumentado devido ao acesso limitado a serviços</p><p>de intervenção precoce.</p><p>Programas de intervenção precoce e serviços de apoio familiar</p><p>podem mitigar alguns fatores de risco e melhorar os resultados para</p><p>crianças em risco de perturbações do desenvolvimento neurológico.</p><p>É importante observar que, embora certos fatores de risco possam aumentar</p><p>a probabilidade de distúrbios do neurodesenvolvimento, nem todos os indiví-</p><p>duos expostos a esses fatores desenvolverão um distúrbio.</p><p>A avaliação de riscos é um processo complexo que envolve a ava-</p><p>liação de múltiplos fatores e suas interações. A identificação e in-</p><p>tervenção precoces desempenham um papel decisivo na mitigação</p><p>do impacto dos distúrbios do neurodesenvolvimento e na melho-</p><p>ria da qualidade de vida dos indivíduos afetados. Pais, cuidadores</p><p>e profissionais de saúde devem trabalhar juntos para monitorar o</p><p>desenvolvimento, identificar riscos e fornecer apoio e intervenções</p><p>adequadas quando necessário.</p><p>Pi</p><p>xe</p><p>l-S</p><p>ho</p><p>t/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>No livro Transtornos</p><p>do desenvolvimento: da</p><p>identificação precoce às</p><p>estratégias de intervenção, a</p><p>autora Sônia Rodrigues nos</p><p>apresenta a importância</p><p>de se estabelecer um dife-</p><p>rencial quando se trata de</p><p>diagnosticar os transtornos</p><p>do neurodesenvolvimento,</p><p>trazendo uma reflexão</p><p>sobre quais comporta-</p><p>mentos são esperados e</p><p>considerados “normais” na</p><p>sociedade em que vivemos,</p><p>bem como se é possível a</p><p>identificação precoce de</p><p>tais transtornos.</p><p>RODRIGUES, S. D. Ribeirão Preto:</p><p>Book Toy, 2014.</p><p>Livro</p><p>Prevenção e cuidado 85</p><p>4.3 Identificação de vulnerabilidades</p><p>Vídeo</p><p>Identificar vulnerabilidades no momento em que surgem transtor-</p><p>nos do neurodesenvolvimento envolve reconhecer fatores de risco e</p><p>avaliar fatores que podem aumentar a probabilidade de um indivíduo</p><p>desenvolver tais distúrbios. A identificação precoce de vulnerabilidades</p><p>pode ajudar na intervenção e no apoio precoces, mitigando potencial-</p><p>mente o impacto desses distúrbios.</p><p>Os transtornos do neurodesenvolvimento, como o TEA e o TDAH,</p><p>geralmente têm causas complexas e multifatoriais e, em muitos casos,</p><p>não podem ser completamente prevenidos. No entanto, existem algu-</p><p>mas estratégias gerais que podem ajudar a reduzir o risco ou mitigar o</p><p>impacto desses transtornos, por exemplo: o gerenciamento de con-</p><p>dições crônicas como diabetes e hipertensão durante a gravidez pode</p><p>ajudar a reduzir o risco de distúrbios do desenvolvimento neurológico;</p><p>tomar suplementos de ácido fólico antes e durante a gravidez tem</p><p>sido associado a diminuição do risco de certos distúrbios do desenvol-</p><p>vimento neurológico, como defeitos do tubo neural e algumas deficiên-</p><p>cias cognitivas.</p><p>Para famílias com histórico de distúrbios do neurodesenvolvimento</p><p>ou predisposições genéticas, o aconselhamento genético pode aju-</p><p>dar os indivíduos a tomar decisões informadas com relação ao plane-</p><p>jamento familiar. Outra estratégia é minimizar a exposição a toxinas</p><p>e poluentes ambientais, como chumbo, mercúrio e pesticidas, que</p><p>têm sido associados a um risco aumentado de distúrbios do desenvol-</p><p>vimento neurológico.</p><p>A gravidez e a chegada de um novo bebê marcam um momento</p><p>de mudanças sem precedentes e quase sempre de esperança para o</p><p>futuro. Para muitas mulheres, porém, esse é um momento desafia-</p><p>dor; para uma parte das mães, esse período pode ser dolorosamente</p><p>ofuscado por transtornos de ordem psicológica, sendo agravado pelo</p><p>preconceito e pelo estigma social. Devido a isso, é preciso abordar os</p><p>problemas de saúde mental materna, pois há um amplo es-</p><p>pectro de transtornos que podem ocorrer na gravidez e no</p><p>pós-parto, desde transtornos mentais comuns – como</p><p>depressão e ansiedade – até diagnósticos de mania</p><p>e psicose no início do pós-parto, que</p><p>SeventyFour/Shutterstock</p><p>SeventyFour/Shutterstock</p><p>86 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>podem impactar o desenvolvimento do bebê, principalmente no que</p><p>concerne à criação do vínculo afetivo, ao desenvolvimento do apego</p><p>seguro, ao desenvolvimento da linguagem e demais funções cognitivas.</p><p>Outra estratégia de prevenção é incentivar a amamentação, pois</p><p>ela fornece nutrientes e anticorpos essenciais que apoiam o desenvol-</p><p>vimento saudável do cérebro dos bebês. Se surgirem preocupações ou</p><p>dúvidas sobre o desenvolvimento de uma criança, é preciso procurar</p><p>imediatamente serviços de intervenção precoce, uma vez que a identi-</p><p>ficação e a intervenção precoces podem ajudar a resolver os atrasos</p><p>no desenvolvimento e melhorar os resultados.</p><p>Além desses fatores que estão mais ligados à gestante, uma das es-</p><p>tratégias direcionadas às crianças é fornecer uma dieta balanceada,</p><p>especialmente rica em nutrientes essenciais (como os ácidos graxos</p><p>ômega-3), que pode contribuir para o desenvolvimento cerebral mais</p><p>saudável. Além de fornecer uma dieta rica e balanceada, é preciso dimi-</p><p>nuir o tempo de exposição excessiva a telas – smartphones, tablets,</p><p>computadores etc. – das crianças pequenas, visto que se trata de um</p><p>fator de vulnerabilidade quando se trata do neurodesenvolvimento. A di-</p><p>minuição</p><p>do uso desses equipamentos pode ser incentivada por brinca-</p><p>deiras que desenvolvam a coordenação motora e as habilidades sociais.</p><p>A família pode se tornar um grande fator de vulnerabilidade. É pre-</p><p>ciso apoio e educação parental às famílias, especialmente àquelas</p><p>com crianças em risco de distúrbios do desenvolvimento neurológico.</p><p>Os programas parentais podem melhorar as habilidades de cuidado e</p><p>criar um ambiente acolhedor.</p><p>É importante notar que, embora essas estratégias possam reduzir o risco de</p><p>alguns distúrbios do neurodesenvolvimento, elas não garantem a prevenção</p><p>em todos os casos, pois esses distúrbios são complexos e resultam de uma</p><p>combinação de fatores genéticos, ambientais e de desenvolvimento. É pre-</p><p>ciso reconhecer, ainda, que as vulnerabilidades podem evoluir com o tempo.</p><p>O monitoramento regular do desenvolvimento de uma criança</p><p>ao longo da infância e da adolescência pode ajudar a identificar</p><p>questões emergentes e ajustar as intervenções de acordo com</p><p>cada necessidade apresentada. É importante abordar a avaliação</p><p>da vulnerabilidade por uma perspectiva holística, considerando</p><p>múltiplos fatores e as suas interações. A identificação precoce de</p><p>No livro Intervenções psico-</p><p>lógicas para promoção de</p><p>desenvolvimento e saúde</p><p>na infância e adolescência,</p><p>Sônia Enumo, Tatiane</p><p>Dias e Fabiana Ramos</p><p>trazem uma miríade de</p><p>intervenções possíveis</p><p>com crianças, adoles-</p><p>centes e seus familiares,</p><p>identificando as vulnera-</p><p>bilidades apresentadas</p><p>para que seja possível agir</p><p>de maneira eficaz a fim</p><p>de promover o desen-</p><p>volvimento integral do</p><p>indivíduo. O livro é desti-</p><p>nado aos profissionais da</p><p>educação, da saúde e aos</p><p>pais, no que diz respeito à</p><p>participação da família na</p><p>garantia da promoção da</p><p>saúde infanto-juvenil.</p><p>ENUMO, S. R. F.; DIAS, T. L.; RAMOS, F. P.</p><p>(org.). Curitiba: Appris, 2021.</p><p>Livro</p><p>Prevenção e cuidado 87</p><p>Sv</p><p>et</p><p>la</p><p>na</p><p>Fe</p><p>do</p><p>se</p><p>ye</p><p>va</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>Sv</p><p>et</p><p>la</p><p>na</p><p>Fe</p><p>do</p><p>se</p><p>ye</p><p>va</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>vulnerabilidades é crucial para uma intervenção e um apoio opor-</p><p>tunos, o que pode melhorar significativamente os resultados para</p><p>indivíduos em risco de transtornos do desenvolvimento neurológi-</p><p>co. A colaboração entre pais, cuidadores, educadores e profissio-</p><p>nais de saúde é essencial nesse processo.</p><p>4.4 Fortalecimento de vínculos</p><p>Vídeo</p><p>Os laços emocionais desempenham um papel essencial no nosso</p><p>desenvolvimento psicossocial ao longo da vida. Esses vínculos são for-</p><p>mados principalmente por meio de relacionamentos com cuidadores</p><p>durante a primeira infância, mas continuam a evoluir e a influenciar</p><p>o bem-estar psicológico e social de um indivíduo no decorrer da vida.</p><p>A teoria do apego, desenvolvida por John Bowlby, enfatiza a impor-</p><p>tância dos laços emocionais iniciais formados entre os bebês e seus</p><p>cuidadores principais. Para o autor (BOWLBY, 2021, p. 11), “o que se</p><p>acredita ser essencial para a saúde mental é que o bebê e a criança pe-</p><p>quena experimentem um relacionamento carinhoso, íntimo e contínuo</p><p>com a mãe (ou mãe substituta permanente), no qual ambos encontrem</p><p>satisfação e prazer”. Um apego seguro serve de base para um desen-</p><p>volvimento psicossocial saudável. Bebês com apego seguro tendem a</p><p>ser mais confiantes, ter maior autoestima e a desenvolver melhores</p><p>habilidades sociais ao longo da vida.</p><p>Dessa forma, os laços emocionais formados durante a infância têm</p><p>uma importância crucial, pois proporcionam uma sensação de segu-</p><p>rança e proteção, permitindo à criança explorar o seu ambiente e de-</p><p>senvolver um autoconceito positivo.</p><p>Os vínculos emocionais estabelecidos durante a infância também</p><p>ajudam as crianças a aprender a regular suas emoções. Os cuida-</p><p>dores que respondem com sensibilidade, consistên-</p><p>cia e acolhimento às necessidades da criança</p><p>ajudam-na a desenvolver as competências de</p><p>regulação emocional, que são importan-</p><p>tíssimas para o equilíbrio das relações</p><p>sociais na vida adulta. As crianças que</p><p>experimentam apoio emocional con-</p><p>88 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>sistente estarão mais bem equipadas para lidar com o estresse, a</p><p>ansiedade e os desafios emocionais da vida adulta.</p><p>Os vínculos emocionais contribuem, ainda, para o desenvolvimento</p><p>de habilidades sociais e a capacidade de formar relacionamentos saudá-</p><p>veis. Por meio de interações com os cuidadores, as crianças aprendem</p><p>sobre empatia, cooperação e comunicação. A qualidade dos vínculos</p><p>emocionais iniciais pode influenciar a capacidade de um indivíduo em</p><p>estabelecer e manter relacionamentos positivos na idade adulta.</p><p>O autoconceito e a autoestima de um indivíduo são moldados signi-</p><p>ficamente pela qualidade dos vínculos que ele experimentou durante</p><p>o seu desenvolvimento infantil. Experiências emocionais positivas com</p><p>cuidadores promovem uma autoimagem saudável e ajudam os indi-</p><p>víduos a formar um senso de identidade e autoestima, que são vitais</p><p>para o desenvolvimento psicossocial.</p><p>Vínculos saudáveis na infância são capazes de proporcionar uma</p><p>proteção psíquica contra os desafios da vida. Indivíduos com ligações</p><p>emocionais seguras tendem a ser mais resilientes e mais bem equi-</p><p>pados para lidar com o stress e a adversidade, permanecendo mais</p><p>confiantes diante dos desafios existenciais. Dessa forma, o apoio emo-</p><p>cional dos entes queridos pode ajudar os indivíduos a enfrentar even-</p><p>tos difíceis da vida e a manter o bem-estar mental.</p><p>Quando nos referimos à saúde e a promoção de bem-estar, po-</p><p>demos identificar que a ausência de vínculos emocionais seguros ou</p><p>experiências de negligência ou abuso durante a infância podem ter</p><p>efeitos negativos duradouros no desenvolvimento psicossocial, o que</p><p>pode impactar o desenvolvimento de modo global e não somente nas</p><p>habilidades socioemocionais. Pesquisas apontam que o cérebro de</p><p>uma criança institucionalizada, que recebe os cuidados de higiene e ali-</p><p>mentação apenas, sem a criação de vínculo emocional com o seu cuida-</p><p>dor, é notadamente menor do que o cérebro de uma criança da mesma</p><p>idade que tem acesso a vínculos saudáveis, proporcionados por cuida-</p><p>dores afetivamente vinculados a ela (PAPALIA; FELDMAN, 2013).</p><p>Em resumo, os laços emocionais são essenciais para o desenvolvi-</p><p>mento psicossocial, pois fornecem a base para a regulação emocional,</p><p>o desenvolvimento social, o autoconceito, a resiliência e o bem-estar</p><p>mental geral. Conexões emocionais positivas com os cuidadores du-</p><p>Prevenção e cuidado 89</p><p>rante a primeira infância preparam o terreno para um funcionamento</p><p>psicológico e social saudável ao longo da vida de um indivíduo.</p><p>E quando nos referimos a crianças com transtornos do neurodesen-</p><p>volvimento? Será que esse vínculo fica comprometido? Qual é o papel</p><p>do vínculo afetivo no neurodesenvolvimento dessas crianças atípicas?</p><p>Os laços emocionais para as crianças com transtornos de neurodesenvol-</p><p>vimento – assim como para aquelas com desenvolvimento típico – são de</p><p>extrema importância, pois proporcionam um apoio crucial e transformador,</p><p>facilitando o desenvolvimento positivo de várias maneiras.</p><p>Partindo para os vínculos em si, a seguir falaremos de alguns deles</p><p>de modo mais específico.</p><p>Regulação emocional</p><p>Muitas crianças com transtornos do neurodesenvolvimento, como</p><p>TEA e TDAH, têm grande dificuldade com a sua própria regulação emo-</p><p>cional. O vínculo afetivo saudável com os pais ou cuidadores pode aju-</p><p>dar essas crianças a aprender a identificar, nomear, expressar e gerir</p><p>as emoções de uma forma mais eficaz. O apoio emocional consistente</p><p>e a compreensão oferecidos pelos cuidadores são imprescindíveis para</p><p>ajudar as crianças a enfrentar os seus desafios emocionais.</p><p>Desenvolvimento social</p><p>Crianças com distúrbios do neurodesenvolvimento muitas vezes</p><p>apresentam dificuldades nas interações sociais e na comunicação. Os</p><p>vínculos emocionais com os cuidadores servem como modelo, como</p><p>uma base segura e de apoio para que elas elaborem, experimentem,</p><p>pratiquem e desenvolvam suas habilidades sociais. Por meio desses la-</p><p>ços, as crianças podem aprender sobre reciprocidade, empatia e</p><p>o com-</p><p>portamento social adequado no ambiente e no contexto em que vivem.</p><p>Sensação de segurança</p><p>Crianças com neurodesenvolvimento atípico podem enfrentar ní-</p><p>veis elevados de ansiedade ou estresse devido a dificuldades no pro-</p><p>cessamento de informações sensoriais ou na compreensão de sinais</p><p>sociais. Os vínculos afetivos com os cuidadores proporcionam uma</p><p>sensação de segurança e estabilidade, o que pode ser especialmente</p><p>90 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>importante para essas crianças na gestão da ansiedade e na constru-</p><p>ção de resiliência.</p><p>Autoestima e autoconceito</p><p>Os vínculos emocionais podem contribuir significativamente para</p><p>a autoestima e o autoconceito de uma criança. Quando os cuidado-</p><p>res proporcionam amor e aceitação, as crianças com transtornos do</p><p>neurodesenvolvimento têm maior probabilidade de desenvolver uma</p><p>autoimagem positiva, mesmo frente aos desafios sociais e à estigmati-</p><p>zação relacionados à sua condição.</p><p>Resultados comportamentais e acadêmicos</p><p>Os vínculos emocionais são capazes de influenciar positivamente o</p><p>comportamento e os resultados acadêmicos de uma criança. Quando</p><p>as crianças se sentem intimamente conectadas e apoiadas pelos seus</p><p>cuidadores, ficam mais motivadas para se envolver na aprendizagem e</p><p>apresentam um comportamento de bem-estar tanto em casa como em</p><p>ambientes educativos.</p><p>Progresso terapêutico</p><p>Os vínculos saudáveis podem aumentar a eficácia das intervenções</p><p>terapêuticas. As crianças têm maior probabilidade de se envolver e res-</p><p>ponder positivamente às intervenções terapêuticas quando confiam e</p><p>se sentem emocionalmente ligadas aos seus terapeutas ou profissio-</p><p>nais de saúde.</p><p>Bem-estar familiar</p><p>Os laços emocionais dentro da família são cruciais para crianças</p><p>com distúrbios do neurodesenvolvimento. Esses laços podem ajudar</p><p>os membros da família a compreender melhor as necessidades e os</p><p>desafios da criança, promovendo um ambiente familiar mais solidário,</p><p>harmonioso e acolhedor. Fortes laços emocionais na infância podem</p><p>ter efeitos positivos que se estenderão por toda a idade adulta para</p><p>indivíduos com distúrbios do neurodesenvolvimento, o que contribui</p><p>para melhorar a independência, a integração social e a qualidade de</p><p>vida geral na fase adulta.</p><p>É importante observarmos que construir e manter vínculos emo-</p><p>cionais com crianças que apresentam transtornos do neurodesen-</p><p>Prevenção e cuidado 91</p><p>volvimento pode ser mais desafiador. Exige paciência, compreensão,</p><p>equilíbrio, consistência e adaptabilidade adicionais dos cuidadores,</p><p>pois cada criança é única e suas necessidades e preferências podem va-</p><p>riar. Adaptar as abordagens de prestação de cuidados às necessidades</p><p>específicas da criança é fundamental para promover um forte vínculo</p><p>emocional e apoiar o seu desenvolvimento global.</p><p>E quanto ao contexto escolar? Como podemos fomentar a criação</p><p>de vínculos afetivos saudáveis entre as crianças com neurodesenvolvi-</p><p>mento atípico e seus educadores? Como inserir a importância do víncu-</p><p>lo nesse contexto, que pode ser um tanto desafiador?</p><p>Apoiar estudantes com transtornos do neurodesenvolvimento re-</p><p>quer uma abordagem multifacetada que leve em consideração as</p><p>necessidades deles e desafios individuais. No contexto escolar, esse</p><p>aspecto ganha grandes proporções, pois estamos nos referindo a toda</p><p>uma comunidade de estudantes, muitas vezes com necessidades com-</p><p>pletamente diferentes. Com base nisso, na figura a seguir vemos algu-</p><p>mas estratégias e considerações para que toda a comunidade escolar</p><p>possa apoiar esses alunos.</p><p>Figura 1</p><p>Abordagens no contexto escolar</p><p>Identificar</p><p>e avaliar</p><p>precocemente1 Elaborar</p><p>o PEI2</p><p>Disponibilizar</p><p>acomodações</p><p>adequadas3 Oferecer apoio</p><p>social e emocional4</p><p>Criar estratégias</p><p>de comunicação5 Colaborar com</p><p>profissionais</p><p>especializados6</p><p>Incentivar o apoio e</p><p>a inclusão de pares7 Motivar por</p><p>reforços</p><p>positivos8</p><p>Fonte: Elaborada pela autora.</p><p>antoniodiaz/Shutterstock</p><p>antoniodiaz/Shutterstock</p><p>A identificação e o diagnóstico precoces são cruciais, e tanto os</p><p>professores quanto os pais devem estar atentos a sinais de transtornos</p><p>do desenvolvimento neurológico em crianças pequenas. É muito im-</p><p>portante que professores e cuidadores colaborem com os profissionais</p><p>de saúde e especialistas para realizar testes e avaliações e determinar</p><p>as necessidades e os pontos fortes específicos do estudante. O profes-</p><p>sor da sala de aula deve trabalhar com a equipe de educação especial</p><p>da escola na elaboração do Plano Educacional Individualizado (PEI),</p><p>que deve ser adequado às necessidades do estudante e moldado de</p><p>acordo com a natureza e gravidade do transtorno apresentado. É pre-</p><p>ciso certificar-se de que o plano atenda às necessidades exclusivas do</p><p>aluno, descreva acomodações, modificações e metas e especifique os</p><p>serviços de apoio apropriados.</p><p>A disponibilização de acomodações adequadas na sala de aula é</p><p>também uma abordagem muito importante. Para isso, o docente pode</p><p>modificar o ambiente da sala a fim de minimizar distrações sensoriais</p><p>para alunos com distúrbios de processamento sensorial. Também é</p><p>possível fornecer suporte visual – como horários e dicas visuais – para</p><p>ajudar os alunos com transtornos do neurodesenvolvimento a com-</p><p>preender as expectativas e rotinas. Talvez seja preciso oferecer tempo</p><p>estendido para tarefas e testes, reduzir a carga de trabalhos de casa e</p><p>ajustar os critérios de avaliação.</p><p>Ainda no que se refere ao ambiente da sala, é importante que o</p><p>professor esteja disponível e preparado para oferecer apoio social e</p><p>emocional aos seus alunos, especialmente àqueles com transtornos</p><p>de neurodesenvolvimento, de modo a construir um ambiente favorável</p><p>e inclusivo, promovendo a compreensão e a aceitação entre os colegas.</p><p>É possível, por exemplo, ensinar habilidades sociais explicitamente por</p><p>meio de atividades estruturadas e dramatizações; ou até mesmo usar</p><p>estratégias para controlar a ansiedade e a regu-</p><p>lação emocional, como exercícios de atenção</p><p>plena ou um espaço seguro designado.</p><p>Devido a essa relação próxima que os</p><p>docentes têm com seus alunos, é sempre</p><p>importante criar estratégias de comunica-</p><p>ção, adaptando os métodos de comunica-</p><p>ção às necessidades do indivíduo. Alguns</p><p>estudantes podem se beneficiar de dispo-</p><p>9292 Transtornos do NeurodesenvolvimentoTranstornos do Neurodesenvolvimento</p><p>Prevenção e cuidado 93</p><p>sitivos ou ferramentas de comunicação aumentativa e alternativa,</p><p>mas, para isso, os educadores devem procurar usar uma linguagem</p><p>clara e concisa, fornecendo recursos visuais para reforçar as instru-</p><p>ções verbais. Além da comunidade escolar – pais, funcionários, outros</p><p>docentes e alunos etc. –, o educador também podem colaborar com</p><p>profissionais especializados (fonoaudiólogos, terapeutas ocupacio-</p><p>nais ou terapeutas comportamentais) conforme necessário. É possí-</p><p>vel utilizar as estratégias aprendidas pelo estudante em sessões de</p><p>terapia em sala de aula para reforçar suas habilidades.</p><p>O educador pode incentivar o apoio e a inclusão de pares por meio</p><p>de tutores ou sistemas de camaradagem, de modo a ajudar os alunos</p><p>com transtornos do neurodesenvolvimento a se envolver com seus cole-</p><p>gas de maneira significativa, estabelecendo vínculos afetivos de qualida-</p><p>de. Pode-se promover a inclusão envolvendo estudantes neurodiversos</p><p>em atividades regulares de sala de aula e extracurriculares, quando</p><p>apropriado. Por último, mas não menos importante, o professor pode</p><p>fazer uso das técnicas de reforço positivo e recompensas para motivar</p><p>e reconhecer os esforços e as realizações do aluno. É importante cele-</p><p>brar pequenos sucessos para aumentar a autoestima e a confiança do</p><p>estudante, ajudando, assim, a fortalecer os vínculos entre professores</p><p>e alunos, para promover o sentimento de pertencimento e bem-estar.</p><p>É importante lembrar que cada aluno com transtorno do neurode-</p><p>senvolvimento é único, por isso é essencial adaptar estratégias de apoio</p><p>aos pontos fortes e desafios específicos desses alunos. A colaboração</p><p>regular entre professores, pais,</p><p>especialistas e os próprios estudantes</p><p>pode contribuir para uma experiência educacional mais bem-sucedida.</p><p>No vídeo Vínculos Afetivos</p><p>e Desenvolvimento Humano</p><p>vemos a importância</p><p>do vínculo afetivo no</p><p>neurodesenvolvimento</p><p>infantil. Aprendemos que</p><p>o desenvolvimento se dá</p><p>por meio das relações</p><p>que estabelecemos com o</p><p>outro, sendo elas a chave</p><p>para o desenvolvimento</p><p>das crianças. É por meio</p><p>da relação com o outro</p><p>que vamos criando a</p><p>nossa própria individua-</p><p>lidade e desenvolvendo</p><p>as nossas habilidades</p><p>socioemocionais.</p><p>Disponível em: https://youtu.</p><p>be/HhmvJZlmARs?si=Dsj6_</p><p>L1M4Tukn5P1. Acesso em: 17</p><p>nov. 2023.</p><p>Vídeo</p><p>4.5 Redes de apoio</p><p>Vídeo</p><p>Em 2013, a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou que é</p><p>um direito das crianças ter plena oportunidade de atividades de lazer</p><p>e recreação, e, por meio da participação nessas atividades, as crianças</p><p>experimentariam melhorias em sua saúde e bem-estar, o que promove-</p><p>ria o seu desenvolvimento e autoeficácia, bem como seu desempenho</p><p>físico e emocional e habilidades cognitivas e sociais que as ajudariam</p><p>ainda mais a serem incluídas nas redes sociais das suas comunidades e</p><p>a construir amizades (UN, 2013).</p><p>94 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>De acordo com Araniti (2020), diversos estudos e pesquisas relatam</p><p>que crianças e jovens com transtornos do neurodesenvolvimento e de-</p><p>ficiências físicas participam menos de atividades de lazer do que crian-</p><p>ças com neurodesenvolvimento típico. Os programas comunitários</p><p>tendem a apoiar essas crianças e aumentar a participação delas na co-</p><p>munidade. As intervenções educacionais e terapêuticas se concentram</p><p>em facilitar atividades recreativas, esportivas e de lazer, aumentando a</p><p>participação de crianças com neurodesenvolvimento atípico por meio</p><p>da avaliação e adaptação do ambiente a elas (ARANITI, 2020).</p><p>Afirma-se, ainda, que a participação pode ser aumentada não ape-</p><p>nas pelas intervenções junto à criança como também pelas mudanças</p><p>ambientais e sociais, reformulando o ambiente da criança para que ele</p><p>se torne mais acessível (WHO, 2010). No entanto, as crianças com trans-</p><p>tornos do neurodesenvolvimento ainda enfrentam muitas barreiras de</p><p>participação, uma vez que seu acesso, muitas vezes, é restrito a esses</p><p>ambientes. Há uma necessidade notável de abordagens centradas na</p><p>pessoa e baseadas na comunidade que foquem o seu planejamento</p><p>de intervenção nas preferências das crianças e dos jovens e nas suas</p><p>plenas participações nessas atividades de lazer, sejam elas esportivas</p><p>ou recreativas (ARANITI, 2020).</p><p>Independentemente da existência ou não de deficiência, todas as</p><p>crianças têm as mesmas necessidades e direitos de participar das suas</p><p>atividades preferenciais de lazer, esportivas, recreativas e educacionais.</p><p>Ok</p><p>sa</p><p>na</p><p>S</p><p>hu</p><p>fry</p><p>ch</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>Prevenção e cuidado 95</p><p>A participação nas atividades cotidianas em casa, na escola e na co-</p><p>munidade é uma das ações mais importantes e que têm um efeito ime-</p><p>diato no desenvolvimento de uma criança, principalmente no que se</p><p>refere à sua saúde, ao seu bem-estar e à sua qualidade de vida. Alguns</p><p>fatores vitais para o desenvolvimento e a transição para a idade adulta</p><p>são alcançados durante a infância, como saúde física e mental, além</p><p>de aquisição de competências e desenvolvimento de redes de apoio</p><p>sociais (ARANITI, 2020).</p><p>De acordo com Araniti (2020), crianças e jovens com transtornos do</p><p>neurodesenvolvimento sofrem restrições em suas participações na co-</p><p>munidade em comparação com seus pares neurotipicamente desenvol-</p><p>vidos. Para a Araniti (2020), a participação comunitária é caracterizada por</p><p>dois componentes principais: presença e envolvimento. Estar envolvido</p><p>significa que uma pessoa experimenta a participação enquanto efetiva-</p><p>mente participa de uma atividade, estando engajado e conectado social-</p><p>mente com os outros. É importante ressaltar que, para que uma pessoa</p><p>experimente envolvimento, sua participação em uma atividade é um pré-</p><p>-requisito. Quando uma pessoa participa de uma atividade qualquer, a</p><p>experiência de envolvimento não é garantida, pois estar fisicamente pre-</p><p>sente em um ambiente não garante que o indivíduo esteja engajado nas</p><p>atividades que estão sendo realizadas ali.</p><p>Para identificar tanto a frequência de participação quanto o al-</p><p>cance da atividade, a diversidade de atividades de que uma pessoa</p><p>participa pode ser medida. Para medir a importância do envolvi-</p><p>mento ou engajamento, fatores como o contexto em que a atividade</p><p>ocorre precisam ser levados em conta a fim de se entender melhor</p><p>o conceito de participação (IMMS et al., 2016).</p><p>De acordo com Imms et al. (2016), a competência em realizar ativi-</p><p>dades inclui competências e habilidades cognitivas, físicas e afetivas,</p><p>sendo possível medir-se capacidade, habilidade e desempenho com</p><p>essas atividades. Junto com a chamada atividade competência – isto é, a</p><p>atividade que tem um caráter pedagógico –, pode ser dado ênfase ao</p><p>sentido de identidade das crianças nas percepções dirigidas ao futuro</p><p>(como a criança se vê no futuro?), incluindo autoeficácia, autonomia e</p><p>satisfação. Fornecer oportunidades para as crianças experimentarem</p><p>atividades socialmente significativas e valiosas – como um campeonato</p><p>de futebol entre as turmas da escola – é um fator fundamental para</p><p>aumentar a participação das crianças atípicas em atividades coletivas.</p><p>O vídeo indicado traz uma</p><p>discussão sobre o papel</p><p>da escola e da família na</p><p>inclusão e desenvolvimen-</p><p>to de crianças e jovens</p><p>com deficiência. Para falar</p><p>sobre o tema, foram con-</p><p>vidados o presidente da</p><p>Comissão de Defesa dos</p><p>Direitos das Pessoas com</p><p>Deficiência da OAB-CE,</p><p>Emerson Damasceno, e</p><p>o secretário executivo</p><p>de Equidade e Direitos</p><p>Humanos da Secretaria da</p><p>Educação do Ceará, Hélder</p><p>Nogueira. A apresentação</p><p>é da jornalista Daniela</p><p>Nogueira. Uma discussão</p><p>necessária e muito atual</p><p>sobre todos os atores</p><p>envolvidos na inclusão de</p><p>crianças e jovens.</p><p>Disponível em: https://</p><p>www.youtube.com/live/</p><p>CEGlZsCj_NI?si=sPryIEynsrJS1YZz.</p><p>Acesso em: 17 nov. 2023.</p><p>Vídeo</p><p>96 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>A comunidade é um dos ambientes do entorno das crianças ou jo-</p><p>vens que mais tem impacto imediato no seu desenvolvimento. As inter-</p><p>venções práticas baseadas na comunidade são estratégias, programas</p><p>ou iniciativas que visam abordar várias questões de saúde, sociais ou</p><p>ambientais no âmbito comunitário. Essas intervenções são projetadas</p><p>para melhorar o bem-estar, a saúde e a qualidade de vida dos indi-</p><p>víduos em uma área geográfica ou comunidade específica. Elas nor-</p><p>malmente envolvem a colaboração entre membros da comunidade,</p><p>organizações e profissionais para identificar, planejar, implementar e</p><p>avaliar soluções para desafios locais.</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>Neste capítulo aprendemos a importância da prevenção e da promo-</p><p>ção em saúde quando se trata de crianças e jovens com transtornos do</p><p>neurodesenvolvimento, bem como a importância do suporte para a quali-</p><p>dade de vida desses indivíduos. Refletimos sobre a avaliação de situações</p><p>de risco, buscando identificar os fatores que podem influenciar no neuro-</p><p>desenvolvimento infantil.</p><p>Aprendemos também a identificar vulnerabilidades em crianças com</p><p>transtornos do neurodesenvolvimento e suas famílias, buscando oferecer</p><p>acolhimento adequado, e compreendendo que o trabalho em rede – sen-</p><p>do esta formada por escola, família e equipes de saúde – é imprescindível</p><p>entre a escola, a família e as equipes de saúde, buscando sempre o forta-</p><p>lecimento de vínculos com a comunidade na qual a criança está inserida.</p><p>Assim, compreendemos a importância da construção de redes de apoio</p><p>como parte fundamental no suporte às crianças e aos jovens com trans-</p><p>tornos do desenvolvimento.</p><p>m</p><p>at</p><p>im</p><p>ix</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>Prevenção e cuidado 97</p><p>ATIVIDADES</p><p>Atividade 1</p><p>Como podemos definir os conceitos de promoção e prevenção em</p><p>saúde?</p><p>Atividade 2</p><p>Qual é a importância dos vínculos afetivos no desenvolvimento</p><p>infantil?</p><p>Atividade 3</p><p>As crianças com transtornos</p><p>do neurodesenvolvimento têm o</p><p>mesmo acesso a atividades de lazer e esportes de sua preferência</p><p>quando comparadas às crianças neurotípicas? Explique.</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ARANITI, A. Promoting community-based participation interventions for children and youth with</p><p>neurodevelopmental disorders: a systematic literature review. 2020. Dissertação (Mestrado</p><p>em Interventions in Childhood) – Escola de Educação e Comunicação, Universidade de</p><p>Jönköping, Suécia.</p><p>BOWLBY, J. Apego e perda. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2021.</p><p>BOWLING, A. et al. Shaping healthy habits in children with neurodevelopmental and mental</p><p>health disorders: parent perceptions of barriers, facilitators and promising strategies. The</p><p>International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity, v. 16, n. 52, p. 1-10, jun.</p><p>2019.</p><p>IMMS, C. et al. Participation, both a means and an end: a conceptual analysis of processes</p><p>and outcomes in childhood disability. Developmental Medicine & Child Neurology, v. 59, n. 1,</p><p>p. 16-25, 2016.</p><p>PAPALIA, D. E.; FELDMAN, R. D. Desenvolvimento humano. Porto Alegre: Artmed, 2013.</p><p>UN – United Nations. Convention on the Rights of the Child, 29 maio 2013. Disponível em:</p><p>https://www2.ohchr.org/english/bodies/crc/docs/gc/crc_c_gc_14_eng.pdf. Acesso em: 16</p><p>nov. 2023.</p><p>WHO – World Health Organization. Social component. In: WHO. Community-based</p><p>rehabilitation: CBR guidelines. Genebra: WHO, 2010.</p><p>98 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>5</p><p>O papel da escola e da família</p><p>Neste capítulo, abordaremos com maior profundidade o papel da es-</p><p>cola e da família e como eles muitas vezes se interpõem. Analisaremos a</p><p>importância não apenas do apoio mútuo, mas da urgência de ações afir-</p><p>mativas e políticas públicas que promovam a Educação Especial, a fim de</p><p>que ela seja inclusiva e atenda, de fato, cada estudante com transtornos</p><p>do neurodesenvolvimento em sua individualidade e especificidade.</p><p>De início, descreveremos o papel da família no suporte à criança com</p><p>transtorno do neurodesenvolvimento: o que cabe à família? Quais são as</p><p>suas responsabilidades de suporte e promoção de saúde? Como ela se</p><p>organiza? Qual é o impacto de uma criança com necessidades especiais</p><p>na dinâmica familiar? Em seguida, apontaremos possibilidades de ações</p><p>que servem de suporte para a família: quais equipamentos podem ofe-</p><p>recer apoio? O conhecimento é importante para que a família ofereça à</p><p>criança oportunidades assertivas de aprendizagem?</p><p>Como cada família está inserida em um contexto social e em uma</p><p>comunidade específica, precisaremos entender a importância do papel</p><p>da comunidade escolar no acolhimento dos estudantes com transtornos</p><p>específicos de aprendizagem.</p><p>Finalizando a nossa reflexão a respeito desse tema tão complexo e</p><p>multifacetado, identificaremos os principais desafios enfrentados pela</p><p>escola no acolhimento dos estudantes com transtornos do neurodesen-</p><p>volvimento, a fim de que possamos, também, entender as contribuições</p><p>da neurodiversidade no contexto escolar.</p><p>Com o estudo deste capítulo, você será capaz de:</p><p>• descrever o papel da família no suporte à criança com transtorno</p><p>do neurodesenvolvimento;</p><p>• apontar possibilidades de ações que sirvam de suporte para a família;</p><p>• compreender a importância do papel da comunidade escolar no</p><p>acolhimento dos estudantes com transtornos de aprendizagem;</p><p>(Continua)</p><p>Objetivos de aprendizagem</p><p>O papel da escola e da família 99</p><p>• identificar os principais desafios enfrentados pela escola e des-</p><p>crever recursos específicos que garantam a educação integral dos</p><p>estudantes com transtornos do neurodesenvolvimento;</p><p>• entender as contribuições da neurodiversidade no contexto escolar.</p><p>5.1 O papel da família</p><p>Vídeo</p><p>Ter um membro da família que vê e vivencia o mundo de modo di-</p><p>ferente pode colocar uma pressão muito grande nos relacionamentos</p><p>pessoais e causar efeitos em toda a dinâmica familiar, fazendo com</p><p>que muitos pais tenham dificuldade em estabelecer um vínculo com os</p><p>filhos, em função da necessidade de desconstrução daquele filho que</p><p>foi idealizado e que não correspondeu às expectativas, gerando culpa</p><p>e dificuldade de aceitação.</p><p>Devido à necessidade maior de suporte e atenção, as crianças com</p><p>transtornos do neurodesenvolvimento demandam mais tempo dos</p><p>pais, o que pode gerar ressentimento entre os irmãos. O aumento do</p><p>conflito pode gerar comportamentos desafiadores e difíceis de com-</p><p>preender e gerenciar; como consequência, podem surgir rompimentos</p><p>de relacionamentos e, em última instância, até mesmo prejudicar o re-</p><p>lacionamento entre os pais.</p><p>Todos os comportamentos têm uma função, além disso, fatores am-</p><p>bientais, frustrações causadas por diferenças perceptivas, exigências e</p><p>expectativas sociais podem aumentar a probabilidade e a intensidade</p><p>do surgimento de algum tipo de comportamento específico. O papel</p><p>da família no cuidado de crianças com transtornos do neurodesenvol-</p><p>vimento é crucial e multifacetado, pois atuam dando apoio, amor e re-</p><p>cursos para ajudar essas crianças a prosperarem.</p><p>Com base nisso, no Quadro 1 elencamos alguns aspectos-cha-</p><p>ve do papel da família no cuidado com crianças com distúrbios do</p><p>neurodesenvolvimento.</p><p>100 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>Quadro 1</p><p>Aspectos-chave do papel da família</p><p>Apoio</p><p>emocional</p><p>Devem fornecer apoio emocional, oferecendo amor, aceitação e</p><p>compreensão à criança, de modo a ajudarem as crianças a de-</p><p>senvolverem autoestima e confiança, enfatizando seus pontos</p><p>fortes e conquistas.</p><p>Defesa de</p><p>direitos</p><p>Defendem os direitos das crianças de receberem atendimen-</p><p>to adequado, tanto no sistema de saúde quanto em ambien-</p><p>tes educacionais. Isso inclui trabalhar em conjunto com pro-</p><p>fissionais de saúde, terapeutas e educadores para garantir</p><p>que a criança receba os serviços adequados.</p><p>Educação e</p><p>conscientização</p><p>Assumem a liderança na educação sobre o transtorno do neu-</p><p>rodesenvolvimento específico das crianças, ajudando-as a com-</p><p>preender melhor os desafios que irão enfrentar e como fornecer</p><p>um apoio eficaz, podendo também sensibilizar as comunidades</p><p>a reduzirem o estigma e promoverem o entendimento dessa</p><p>condição.</p><p>Tratamento</p><p>e terapia</p><p>São normalmente responsáveis por coordenar e facilitar diver-</p><p>sas terapias e intervenções que podem ser recomendadas para</p><p>as crianças, como terapia da fala, terapia ocupacional, terapia</p><p>comportamental ou gerenciamento de medicamentos. Podem</p><p>precisar participar de sessões de terapia com a criança e prati-</p><p>car em casa as técnicas recomendadas.</p><p>Ambiente</p><p>estruturado</p><p>Criar um ambiente estruturado e consistente em casa pode ser</p><p>benéfico para crianças com transtornos do neurodesenvolvi-</p><p>mento, por isso estabelecer rotinas e expectativas claras pode</p><p>ajudar a reduzir a ansiedade e melhorar a capacidade da criança</p><p>de funcionar de maneira eficaz.</p><p>Comunicação</p><p>Uma comunicação aberta e eficaz dentro da família é essencial.</p><p>Isso inclui discutir o progresso da criança, partilhar preocupa-</p><p>ções e trabalhar em conjunto para enfrentar quaisquer desafios</p><p>que surjam.</p><p>Apoio financei-</p><p>ro e de recursos</p><p>Podem precisar de assistência financeira ou solicitar recursos</p><p>públicos para ajudar a cobrir os custos de terapia, educação</p><p>especializada e outros serviços de apoio. Isso pode envolver a</p><p>navegação em sistemas de seguros ou a procura de programas</p><p>de assistência governamental.</p><p>Apoio aos</p><p>irmãos</p><p>Os irmãos de crianças com transtornos do neurodesenvolvimen-</p><p>to também desempenham um papel significativo na dinâmica</p><p>familiar, com os pais ajudando-os a compreender a condição de</p><p>seus irmãos neurodivergentes e fornecer-lhes apoio emocional,</p><p>buscando dedicar tempo de qualidade a todos, sem distinção.</p><p>Fonte: Elaborado pela autora.</p><p>Em resumo, as famílias são parceiras essenciais no cuidado e no</p><p>bem-estar das crianças com transtornos do neurodesenvolvimento,</p><p>O papel da escola e da família 101</p><p>dando apoio emocional, defesa, educação e acesso aos recursos e tera-</p><p>pias necessárias. Ao se envolverem ativamente nos cuidados dos seus</p><p>filhos e promoverem um ambiente</p><p>de apoio e inclusivo, as famílias po-</p><p>dem ajudar as crianças com transtornos do neurodesenvolvimento a</p><p>atingirem o seu potencial máximo e a terem vidas plenas.</p><p>De acordo com algumas pesquisas, é possível abraçar a neurodiver-</p><p>sidade como parte da vida familiar cotidiana, utilizando algumas estra-</p><p>tégias específicas para alcançar esse objetivo, como (MCLEAN, 2022):</p><p>Conversar com os filhos sobre</p><p>neurodiversidade, neurodivergência e</p><p>aceitação, de modo a familiarizar as crianças</p><p>ao tema e resolver possíveis questionamentos</p><p>delas. Por exemplo, os pais podem dizer: “o</p><p>cérebro de algumas pessoas funciona de</p><p>maneira diferente do que de outras. Isso</p><p>significa que eles também aprendem e fazem</p><p>amigos de maneira diferente”.</p><p>2</p><p>- A</p><p>nd</p><p>re</p><p>w</p><p>Kr</p><p>as</p><p>ov</p><p>itc</p><p>ki</p><p>i/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>1</p><p>- p</p><p>ic</p><p>s</p><p>fiv</p><p>e/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>11</p><p>22</p><p>Pesquisar sobre neurodiversidade e</p><p>neurodivergência – por meio de livros,</p><p>artigos, notícias etc. – para responder</p><p>corretamente aos questionamentos das</p><p>crianças sobre esses temas. A intenção</p><p>aqui não é realizar uma pesquisa intensa e</p><p>consultar várias fontes diferentes, mas sim</p><p>se preparar para responder corretamente às</p><p>dúvidas que podem surgir.</p><p>2</p><p>- A</p><p>nd</p><p>re</p><p>w</p><p>Kr</p><p>as</p><p>ov</p><p>itc</p><p>ki</p><p>i/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>1</p><p>- fi</p><p>zk</p><p>es</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>11</p><p>22</p><p>Incluir crianças neurodivergentes nas</p><p>atividades sociais, como festas, brincadeiras</p><p>etc. Entretanto, para isso é necessária uma</p><p>preparação, por exemplo: caso uma criança</p><p>com TEA seja convidada para uma festa de</p><p>aniversário, deve-se perguntar aos pais dela</p><p>como as necessidades dessa criança devem ser</p><p>atendidas ou lhes dar maiores detalhes da festa</p><p>(quais atividades acontecerão, se haverá ou não</p><p>música ou barulhos muito altos etc.).</p><p>2</p><p>- A</p><p>nd</p><p>re</p><p>w</p><p>Kr</p><p>as</p><p>ov</p><p>itc</p><p>ki</p><p>i/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>1</p><p>- O</p><p>le</p><p>si</p><p>a</p><p>Bi</p><p>lk</p><p>ei</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>11</p><p>22</p><p>No livro Como lidar com</p><p>mentes a mil por hora: En-</p><p>tenda o TDAH de uma vez</p><p>por todas e descubra como</p><p>mentes hiperativas e desa-</p><p>tentas podem ter uma vida</p><p>bem-sucedida, o Dr. Clay</p><p>Brites traduz as desco-</p><p>bertas das neurociências</p><p>para a compreensão de</p><p>pais sobre o TDAH. Além</p><p>disso, também responde</p><p>a questões instigantes</p><p>sobre como lidar com os</p><p>comportamentos disrup-</p><p>tivos, a fim de que eles</p><p>não tenham um impacto</p><p>negativo no desenvolvi-</p><p>mento, com estratégias</p><p>úteis que promovem a</p><p>superação, de maneira</p><p>assertiva, das dificuldades</p><p>trazidas pelo TDAH.</p><p>BRITES, C. São Paulo: Gente, 2021.</p><p>Livro</p><p>102 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>Informar às crianças qual é a melhor forma de</p><p>se comunicar com os amigos neurodivergentes,</p><p>seja utilizando imagens, desenhos, comunicação</p><p>não-verbal etc. É importante também que os</p><p>pais informem aos filhos as práticas a serem</p><p>evitadas nesses momentos, para que as</p><p>brincadeiras ocorram sem maiores problemas,</p><p>sempre prezando pela inclusão da criança</p><p>neurodivergente em todos os momentos.</p><p>2</p><p>- A</p><p>nd</p><p>re</p><p>w</p><p>Kr</p><p>as</p><p>ov</p><p>itc</p><p>ki</p><p>i/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>1</p><p>- fi</p><p>zk</p><p>es</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>11</p><p>22</p><p>Dessa maneira, compreendemos que educar uma criança com</p><p>transtornos do neurodesenvolvimento apresenta muitos desafios. Os</p><p>níveis de stress e o cansaço parental são mais elevados e mais frequen-</p><p>tes, afetando o funcionamento familiar de maneira global.</p><p>É importante observarmos que a saúde psicossocial dos pais e a</p><p>presença de qualquer disfunção no núcleo familiar influenciam o de-</p><p>senvolvimento da criança, independentemente de a criança ter trans-</p><p>torno do neurodesenvolvimento ou não.</p><p>As famílias de crianças com transtornos do neurodesenvolvimen-</p><p>to podem se beneficiar muito com programas de educação para os</p><p>pais que devem se concentrar em melhorar as competências co-</p><p>municativas dos pais, fornecer estratégias de psicoeducação e de</p><p>gestão comportamental. As intervenções devem também ter como</p><p>objetivo ajudar os pais a resolverem possíveis conflitos emocionais</p><p>associados ao diagnóstico dos seus filhos e promover o seu próprio</p><p>bem-estar psicossocial, criando assim um suporte adequado para o</p><p>desenvolvimento integral da criança.</p><p>5.2 Suporte à família</p><p>Vídeo</p><p>Os pais querem o melhor para os seus filhos e querem apoiá-los</p><p>para que possam maximizar o seu potencial e levar uma vida feliz, sau-</p><p>dável e plena. Muitas vezes, a vida familiar pode se tornar caótica e</p><p>estressante e as frustrações e reações podem prejudicar as capacida-</p><p>des parentais, levando à ruptura de relacionamentos, ao sofrimento</p><p>psíquico e ao aumento de comportamentos desafiadores.</p><p>Trabalhando com os pais, precisamos adotar uma abordagem foca-</p><p>da em soluções para desenvolver estratégias e abordagens adaptadas</p><p>O papel da escola e da família 103</p><p>à dinâmica única da família. O desenvolvimento de estilos de comuni-</p><p>cação positiva capacita pais e filhos para serem capazes de expressar</p><p>seus sentimentos, seus medos e suas necessidades de uma forma efi-</p><p>caz, respeitosa e eficiente.</p><p>Quando estamos fornecendo suporte à família, precisamos utilizar</p><p>uma abordagem focada em soluções para apoiar os casais e seus rela-</p><p>cionamentos. A falha na comunicação, as pressões da vida cotidiana e</p><p>as mudanças nas aspirações podem contribuir para um relacionamen-</p><p>to infeliz, sem apoio e potencialmente volátil.</p><p>Muitas vezes, os casais podem ver o mundo de maneiras diferen-</p><p>tes, fazendo com que seja muito difícil enxergar algo na perspectiva do</p><p>outro, e por terem dificuldade em compreender alguns dos comporta-</p><p>mentos – como rigidez de pensamento ou alguma especificidade nas</p><p>interações sociais – podem até mesmo pensar que seus companheiros</p><p>têm algum tipo de transtorno de neurodesenvolvimento.</p><p>Por isso precisamos apoiar os indivíduos e o casal a identificarem</p><p>problemas e estabelecer estratégias e abordagens para fortalecerem</p><p>os seus relacionamentos por meio de uma compreensão partilhada</p><p>das percepções de cada um, criando uma comunicação significativa,</p><p>reduzindo assim as oportunidades de conflito.</p><p>Irmãos de crianças com transtorno do espectro autista muitas</p><p>vezes enfrentam uma série de problemas durante a infância que</p><p>podem impactar suas vidas e seus relacionamentos na idade adul-</p><p>ta, por exemplo: os irmãos podem sentir que lhes foi negada uma</p><p>Gr</p><p>ou</p><p>nd</p><p>P</p><p>ic</p><p>tu</p><p>re</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>Embora a obra de Débora</p><p>Fava, Martha Rosa e Angela</p><p>Oliva, Orientação Para</p><p>Pais: o que é Preciso Saber</p><p>Para Cuidar dos Filhos,</p><p>não seja específica para a</p><p>educação de crianças com</p><p>transtornos de neurode-</p><p>senvolvimento, ela traz</p><p>uma leitura rica que vale a</p><p>pena ser explorada, dando</p><p>ao pais a oportunidade de</p><p>refletir sobre a parentalida-</p><p>de e seus desafios, como</p><p>o impacto da chegada</p><p>dos filhos e as relações de</p><p>afetividade. A obra ainda</p><p>aponta caminhos para o</p><p>desenvolvimento de hábi-</p><p>tos familiares saudáveis,</p><p>como empatia, responsabi-</p><p>lidade e saúde integral.</p><p>FAVA, D. C.; ROSA, M.; OLIVA, A. D.</p><p>(org.). Belo Horizonte: Artesã, 2018.</p><p>Livro</p><p>104 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>infância considerada normal, pois tiveram que assumir um papel de</p><p>cuidadores desde a tenra idade.</p><p>A autoestima dessas crianças também pode ser afetada e muitas ve-</p><p>zes pode haver ressentimento em relação aos irmãos neurodivergentes</p><p>e aos pais, logo é necessário fornecermos acompanhamento psicológico</p><p>e avaliarmos qual é o impacto da dinâmica familiar sobre a criança neu-</p><p>rotípica, promovendo também seu desenvolvimento e seu bem-estar.</p><p>Profissionais de saúde, educadores e demais profissionais especia-</p><p>lizados devem adotar uma abordagem focada em soluções, trabalhan-</p><p>do com irmãos neurotípicos para ajudá-los a identificar e comunicar</p><p>seus pensamentos e sentimentos e a desenvolver estratégias que lhes</p><p>permitam estabelecer e manter relacionamentos saudáveis e definir</p><p>aspirações de vida significativas.</p><p>Uma pesquisa financiada pelo Departamento de Serviços Sociais do</p><p>governo australiano nos traz algumas estratégias sobre como abraçar</p><p>a neurodiversidade na comunidade (MCLEAN, 2022):</p><p>Estar atento à linguagem utilizada nas</p><p>interações com pessoas com transtornos</p><p>de neurodesenvolvimento,</p><p>mas em caso</p><p>de dúvida, é possível sempre perguntar</p><p>diretamente à pessoa: “você prefere</p><p>‘criança autista’ ou ‘criança com autismo’?”</p><p>2</p><p>- A</p><p>nd</p><p>re</p><p>w</p><p>Kr</p><p>as</p><p>ov</p><p>itc</p><p>ki</p><p>i/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>1</p><p>- L</p><p>ig</p><p>ht</p><p>Fi</p><p>el</p><p>d</p><p>St</p><p>ud</p><p>io</p><p>s/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>11</p><p>22</p><p>Agir em situações em que uma pessoa</p><p>neurodivergente precise de ajuda, ou para</p><p>conscientizar os demais indivíduos, por</p><p>exemplo: ao presenciar um adulto gritando</p><p>com uma criança em crise em um parque,</p><p>é necessário agir para auxiliar a criança –</p><p>oferecendo apoio e ajuda a ela – ou para</p><p>conscientizar o adulto em questão.2</p><p>- A</p><p>nd</p><p>re</p><p>w</p><p>Kr</p><p>as</p><p>ov</p><p>itc</p><p>ki</p><p>i/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>1</p><p>- K</p><p>ik</p><p>uj</p><p>ia</p><p>rm</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>11</p><p>22</p><p>O papel da escola e da família 105</p><p>Evitar suposições e possíveis comentários</p><p>ao presenciar uma criança neurodivergente</p><p>com comportamentos peculiares (como</p><p>apenas comer sanduíches embalados em um</p><p>piquenique) ou utilizando materiais incomuns</p><p>(como fones de ouvido em supermercados ou</p><p>alguma peça de roupa muito específica).</p><p>2</p><p>- A</p><p>nd</p><p>re</p><p>w</p><p>Kr</p><p>as</p><p>ov</p><p>itc</p><p>ki</p><p>i/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>1</p><p>- M</p><p>ar</p><p>ia</p><p>S</p><p>by</p><p>to</p><p>va</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>11</p><p>22</p><p>Procurar formas de tornar a sua comunidade</p><p>mais inclusiva e acolhedora, como fazer parte</p><p>de uma petição incentivando o supermercado</p><p>local a optar por uma hora de silêncio por</p><p>semana, quando as luzes são reduzidas e</p><p>nenhuma música é tocada.</p><p>2</p><p>- A</p><p>nd</p><p>re</p><p>w</p><p>Kr</p><p>as</p><p>ov</p><p>itc</p><p>ki</p><p>i/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>1</p><p>- D</p><p>ra</p><p>ze</p><p>n</p><p>Zi</p><p>gi</p><p>c/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>11</p><p>22</p><p>Tratar temas ligados à neurodiversidade e</p><p>à neurodivergência com o devido respeito,</p><p>pois sempre há chance de convivermos</p><p>com pessoas neurodivergentes no dia a dia,</p><p>mesmo que elas não tenham informado</p><p>isso aos demais.</p><p>2</p><p>- A</p><p>nd</p><p>re</p><p>w</p><p>Kr</p><p>as</p><p>ov</p><p>itc</p><p>ki</p><p>i/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>1</p><p>- S</p><p>tu</p><p>di</p><p>o</p><p>Ro</p><p>m</p><p>an</p><p>tic</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>11</p><p>22</p><p>Sendo assim, quando nos referimos ao suporte às famílias, preci-</p><p>samos melhorar a integração de cuidados e a prestação de serviços</p><p>de saúde para crianças com transtornos do neurodesenvolvimento. A</p><p>falta de coordenação entre os setores de serviços de saúde e os edu-</p><p>cacionais infantis é uma barreira comum no sucesso do tratamento e</p><p>do apoio a essas crianças.</p><p>106 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>A prestação de serviços fragmentados afeta negativamente os re-</p><p>sultados dos pacientes; o funcionamento familiar e a qualidade de vida</p><p>muitas vezes levam à utilização inadequada e ineficiente dos cuidados</p><p>em saúde. Em função dessa desconexão entre os serviços de saúde,</p><p>quase sempre a responsabilidade pela coordenação do cuidado recai</p><p>em grande parte sobre a família. E quando falamos de crianças com</p><p>necessidades complexas, essa coordenação do cuidado está além da</p><p>capacidade de coordenação das famílias, sendo necessário o apoio dos</p><p>órgãos de saúde e educacionais para a gestão do cuidado e a promo-</p><p>ção de saúde e desenvolvimento integral.</p><p>5.3 O papel da escola</p><p>Vídeo</p><p>As escolas desempenham um papel crucial no apoio a crianças</p><p>com transtornos do neurodesenvolvimento, principalmente no que</p><p>diz respeito à identificação e à avaliação desses transtornos, com pro-</p><p>fessores, psicólogos escolares e profissionais de Educação Especial</p><p>trabalhando juntos para identificar alunos que possam estar em risco</p><p>ou ter esses transtornos.</p><p>Para alunos com distúrbios do neurodesenvolvimento as escolas</p><p>desenvolvem Planos Educacionais Individualizados (PEI), documen-</p><p>to criado com base em avaliações realizadas em um estudante que</p><p>apresente necessidades educacionais específicas e descreve objetivos</p><p>educacionais específicos, acomodações e serviços adaptados às ne-</p><p>cessidades únicas da criança, garantindo que a criança receba apoio</p><p>e instrução adequadas.</p><p>Resumidamente, o objetivo principal do PEI é estabelecer um pla-</p><p>nejamento acerca do desenvolvimento do estudante durante toda sua</p><p>trajetória escolar, registrando cada etapa, bem como cada progresso</p><p>e cada área em que ele apresente alguma dificuldade. Diante desse</p><p>documento, o professor é capaz de traçar caminhos sobre como agir</p><p>e quais estratégias podem se tornar mais eficazes para a promoção</p><p>de competências e habilidades do estudante.</p><p>Quanto à sua forma, o ideal é que qualquer PEI seja elaborado</p><p>em uma colaboração entre o professor regente da sala e o profissio-</p><p>nal responsável pelo Atendimento Educacional Especializado (AEE) 1 ,</p><p>O AEE tem como função</p><p>principal identificar,</p><p>organizar e elaborar</p><p>estratégias e recur-</p><p>sos pedagógicos para</p><p>garantir a acessibilidade</p><p>do estudante ao ensino</p><p>integral, eliminando-se,</p><p>assim, as barreiras que</p><p>o impedem de participar</p><p>do processo educacional,</p><p>levando-se em conside-</p><p>ração as suas necessida-</p><p>des específicas.</p><p>1</p><p>O papel da escola e da família 107</p><p>para que as práticas desenvolvidas com o aluno em ambos os perío-</p><p>dos sejam equivalentes (AMARO, 2017). Ainda para Amaro (2017), o</p><p>estudante – independentemente da idade – tem papel central na apli-</p><p>cação de tudo o que foi planejado, pois são suas validações e observa-</p><p>ções que legitimarão se essa equivalência está sendo cumprida.</p><p>Para qualquer profissional da área da docência, é importante com-</p><p>preender que os estudantes são o ponto de partida do processo de</p><p>aprendizagem, algo ainda mais importante no AEE, visto que, de acor-</p><p>do com a Resolução n. 4/2009 do Conselho Nacional de Educação –</p><p>que institui as Diretrizes Operacionais do AEE na Educação Básica:</p><p>O Atendimento Educacional Especializado tem como função com-</p><p>plementar ou suplementar a formação do aluno por meio da dis-</p><p>ponibilização de serviços, recursos de acessibilidade e estratégias</p><p>que eliminem as barreiras para sua plena participação na socieda-</p><p>de e desenvolvimento de sua aprendizagem.</p><p>O PEI precisa ter como função traçar caminhos para que sejam</p><p>minimizadas e/ou eliminadas as barreiras aos estudantes com</p><p>deficiência, de modo que seja factível a participação de todos os</p><p>estudantes no processo educacional, considerando-se as especifi-</p><p>cidades de cada indivíduo nesse contexto (AMARO, 2017).</p><p>Sendo assim, as escolas precisam disponibilizar uma variedade</p><p>de serviços de Educação Especial para atender às diversas neces-</p><p>sidades dos alunos com transtornos do neurodesenvolvimento. É</p><p>preciso fornecer recursos acessíveis e estratégias que favoreçam</p><p>a escolarização desses estudantes, no que tange aos processos de</p><p>aprendizagem e ao currículo.</p><p>As escolas, muitas vezes, implementam planos de intervenção</p><p>comportamental para abordar comportamentos desafiadores as-</p><p>sociados a distúrbios do neurodesenvolvimento, planos esses que</p><p>envolvem métodos para promover comportamentos positivos e ge-</p><p>renciar ou reduzir comportamentos problemáticos. As instituições de</p><p>ensino podem ainda fornecer formação a professores e funcionários</p><p>sobre metodologias para ensinar e apoiar eficazmente os alunos com</p><p>transtornos do neurodesenvolvimento, de modo a auxiliar os educa-</p><p>dores a compreenderem melhor essas condições e a implementarem</p><p>práticas fundamentadas em evidências.</p><p>Esta leitura do livro de</p><p>Augusto Galery, A escola</p><p>para todos e para cada um,</p><p>traz-nos uma abordagem</p><p>crítica sobre o modelo</p><p>de escola que temos na</p><p>atualidade. O paradigma</p><p>da educação é colocado à</p><p>prova diante da necessida-</p><p>de de uma escola que seja,</p><p>de fato, inclusiva, levan-</p><p>do-se em consideração a</p><p>complexidade do processo</p><p>de aprendizagem, que é</p><p>único em cada sujeito. O</p><p>livro também aborda a</p><p>necessidade de analisar o</p><p>contexto social em que o</p><p>estudante está inserido,</p><p>trazendo um olhar voltado</p><p>para profissionais e</p><p>estudantes das áreas da</p><p>educação e da saúde.</p><p>GALERY, A. (org.). São Paulo:</p><p>Summus Editorial, 2017.</p><p>Livro</p><p>108 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>As escolas devem colaborar com os pais e os cuidadores para</p><p>garantir a continuidade dos cuidados e do apoio à criança, uma ação</p><p>feita em conjunto e que precisa estar alinhada, pois quanto maior</p><p>for o alinhamento entre a escola, os pais e os cuidadores, maiores</p><p>serão as chances de sucesso na garantia do pleno atendimento das</p><p>necessidades</p><p>específicas do estudante, gerando assim um processo</p><p>educacional ecológico, pleno de sentido e realização. Sendo assim,</p><p>a comunicação regular e frequente entre a equipe escolar e as famí-</p><p>lias é essencial para abordar preocupações, monitorizar o progresso</p><p>e ajustar as intervenções conforme necessário.</p><p>As escolas também podem desempenhar um papel crucial na sen-</p><p>sibilização da comunidade para os transtornos do neurodesenvol-</p><p>vimento e na defesa de políticas públicas que apoiem a inclusão e o</p><p>bem-estar dessas crianças no sistema educacional. À medida que os</p><p>alunos com transtornos do neurodesenvolvimento se aproximam da</p><p>idade adulta, prioritariamente nos Anos Finais do Ensino Médio, as es-</p><p>colas podem auxiliar os pais no planejamento da transição para além</p><p>da escola, avançando para o nível universitário, o primeiro emprego ou</p><p>outros cursos profissionalizantes.</p><p>É importante observarmos que as funções e os recursos específi-</p><p>cos disponíveis nas escolas podem variar dependendo da cidade ou do</p><p>estado, embora as legislações da Educação Especial sejam do âmbito</p><p>federal. A colaboração entre educadores, pais, profissionais de saúde e</p><p>especialistas é essencial para fornecer o melhor apoio possível às crian-</p><p>ças com perturbações do neurodesenvolvimento e para promover seu</p><p>desenvolvimento global e seu bem-estar.</p><p>Dr</p><p>az</p><p>en</p><p>Z</p><p>ig</p><p>ic</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>O papel da escola e da família 109</p><p>5.4 Desafios no ambiente escolar</p><p>Vídeo</p><p>As escolas enfrentam vários desafios quando se trata de atender</p><p>às necessidades de crianças com transtornos do neurodesenvolvimen-</p><p>to. Esses desafios podem variar dependendo do tipo de transtorno, da</p><p>gravidade e do nível de suporte necessário, dos recursos disponíveis</p><p>e das características individuais da criança. Entre os desafios mais co-</p><p>muns presentes nos ambientes de escolares, temos:</p><p>Diagnóstico e identificação</p><p>Embora a escola não tenha a função de diagnosticar os distúrbios</p><p>do neurodesenvolvimento, posto que qualquer diagnóstico está res-</p><p>trito à área da saúde, a falta de um diagnóstico impacta e pode ser</p><p>um desafio no ambiente escolar. Apesar dessa importância, algumas</p><p>crianças podem não ser diagnosticadas ou podem ter um diagnóstico</p><p>equivocado por um longo período, levando a possíveis atrasos e prejuí-</p><p>zos na prestação de apoio e serviços adequados.</p><p>Limitações de recursos</p><p>As limitações de recursos podem ter um grande impacto na inclu-</p><p>são das crianças com transtornos do neurodesenvolvimento. As esco-</p><p>las podem não ter os recursos necessários, incluindo professores de</p><p>Educação Especial qualificados e pessoal de apoio para atender ade-</p><p>quadamente às necessidades desses estudantes. As restrições orça-</p><p>mentárias também podem limitar a disponibilidade de programas e</p><p>serviços especializados.</p><p>Ha</p><p>na</p><p>ne</p><p>ko</p><p>_S</p><p>tu</p><p>di</p><p>o/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>110 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>Barreiras à educação inclusiva</p><p>Embora a educação inclusiva seja ideal, podem existir barreiras à</p><p>inclusão eficaz de crianças com transtornos do neurodesenvolvimento</p><p>nas salas de aula regulares. Essas barreiras podem incluir turmas gran-</p><p>des (o que gera maiores níveis de barulho, menor possibilidade de uma</p><p>atenção mais direcionada do professor e excesso de estímulos), for-</p><p>mação inadequada dos professores e falta de adaptações necessárias.</p><p>Desafios comportamentais</p><p>Crianças com distúrbios do neurodesenvolvimento podem apre-</p><p>sentar comportamentos desafiadores, como agressão, impulsividade</p><p>e dificuldade de autorregulação, principalmente no que diz respeito às</p><p>emoções. Gerenciar esses comportamentos na sala de aula pode ser</p><p>desafiador e exige treinamento e intervenções especializadas.</p><p>Isolamento social</p><p>Crianças com transtornos do neurodesenvolvimento podem so-</p><p>frer com isolamento social e bullying por parte dos seus pares, o que</p><p>pode ter um impacto profundamente negativo na sua autoestima e</p><p>no seu bem-estar.</p><p>PEI</p><p>Desenvolver e implementar PEI eficazes requer tempo e experiên-</p><p>cia, e sem treinamento e formações adequadas algumas escolas po-</p><p>dem ter dificuldades para criar e atualizar regularmente esses planos</p><p>para atender às necessidades específicas de cada criança.</p><p>Estigma e conscientização</p><p>O estigma em torno dos transtornos do neurodesenvolvimento</p><p>pode levar a mal-entendidos e preconceitos, tanto entre estudan-</p><p>tes quanto entre pais, professores e demais funcionários da escola.</p><p>Trabalhar a conscientização e promover uma cultura de aceitação e</p><p>eliminação do estigma é um desafio constante, que demanda ações</p><p>frequentes e assertivas.</p><p>Formação de professores</p><p>Nem todos os professores recebem formação adequada sobre</p><p>como apoiar alunos com transtornos do neurodesenvolvimento. As</p><p>O papel da escola e da família 111</p><p>oportunidades de desenvolvimento profissional podem ser limitadas e</p><p>os professores podem ter dificuldades para implementar práticas com</p><p>base em evidências, em função de uma formação deficitária.</p><p>Colaboração entre pais e escola</p><p>Construir parcerias fortes entre escolas e pais pode ser um desafio,</p><p>especialmente se houver divergências sobre as necessidades da crian-</p><p>ça ou sobre a adequação das intervenções. De acordo com Snowling</p><p>et al. (2004), os pais das crianças com dificuldades de aprendizagem</p><p>e transtornos do neurodesenvolvimento costumam ser mais distantes</p><p>dos professores no ambiente escolar, tendo pouco contato com eles.</p><p>Por isso, muitas vezes esses pais não se sentem seguros em conversar</p><p>com os professores sobre os desafios do processo educativo de seus</p><p>filhos, criando-se assim uma imagem negativa entre docentes e pais.</p><p>Em alguns casos, os próprios pais também experimentaram di-</p><p>ficuldades na vida escolar, como dificuldade para ler, escrever ou</p><p>se comportar da maneira esperada, e esse mal-estar pode se refle-</p><p>tir em relação a seus filhos e à escola, gerando ansiedade e culpa</p><p>(SNOWLING et al., 2004). Precisamos entender que esse contexto</p><p>pode gerar obstáculos na comunicação entre os pais e a escola,</p><p>muitas das vezes um responsabilizando o outro pela falta de inicia-</p><p>tiva nesse diálogo.</p><p>A escola precisa compreender, então, a necessidade de buscar</p><p>esses pais, considerados mais inamistosos, para que efetivamente</p><p>seja possível trabalhar em conjunto, em busca de uma educação in-</p><p>tegral e de qualidade.</p><p>M</p><p>ed</p><p>ia</p><p>_P</p><p>ho</p><p>to</p><p>s/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>112 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>Questões jurídicas e políticas</p><p>As escolas precisam navegar em um cenário jurídico e político</p><p>complexo relacionado com a Educação Especial. No Brasil, a legisla-</p><p>ção que rege a Educação Especial é composta de diversos decretos,</p><p>leis, portarias e resoluções, que podemos ver elencadas e resumidas</p><p>no Quadro 2.</p><p>Quadro 2</p><p>Fundamentação jurídica da Educação Especial.</p><p>Decreto n. 3.298,</p><p>de 20 de dezem-</p><p>bro de 1999.</p><p>Regulamenta a Lei n. 7.853, de 24 de outubro de 1989, dispõe</p><p>sobre a Política Nacional para a Integração da Pessoa Porta-</p><p>dora de Deficiência, consolida as normas de proteção, e dá</p><p>outras providências.</p><p>Decreto n. 3.956,</p><p>de 8 de outubro</p><p>de 2001.</p><p>Promulga a Convenção Interamericana para a Eliminação de</p><p>Todas as Formas de Discriminação contra as Pessoas Porta-</p><p>doras de Deficiência.</p><p>Lei n. 8.859, de</p><p>23 de março de</p><p>1994.</p><p>Modifica dispositivos da Lei n. 6.494, de 7 de dezembro de</p><p>1977, estendendo aos alunos de ensino especial o direito à</p><p>participação em atividades de estágio.</p><p>Lei n. 10.098, de</p><p>19 de dezembro</p><p>de 2000.</p><p>Estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção</p><p>da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou</p><p>com mobilidade reduzida, e dá outras providências.</p><p>Lei n. 10.436, de</p><p>24 de abril de</p><p>2002.</p><p>Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – Libras e dá outras</p><p>providências.</p><p>Portaria n. 1.793,</p><p>de dezembro de</p><p>1994.</p><p>Dispõe sobre a necessidade de complementar os currículos</p><p>de formação de docentes e outros profissionais que intera-</p><p>gem com portadores de necessidades especiais e dá outras</p><p>providências.</p><p>Resolução n. 2,</p><p>de 11 de setem-</p><p>bro de 2001.</p><p>CEB/CNE – Institui Diretrizes Nacionais</p><p>ele é o sistema responsável por transmitir os sinais entre o SNC e os</p><p>órgãos, músculos e receptores sensoriais por meio de nervos, que se</p><p>dividem em duas categorias distintas: os chamados nervos sensoriais,</p><p>que transportam informações dos órgãos sensoriais (como olhos, ou-</p><p>vidos, pele etc.) para o SNC, permitindo-nos perceber e interpretar o</p><p>ambiente externo; e os denominados nervos motores, que transmitem</p><p>sinais do SNC para os músculos e glândulas, possibilitando movimen-</p><p>tos voluntários e involuntários e controlando as funções corporais</p><p>(HALL; HALL, 2021).</p><p>Por fim, o SNA – responsável pelas funções involuntárias do</p><p>corpo – atua como um sistema de controle que regula e mantém</p><p>os processos corporais internos sem esforço consciente, estando</p><p>profundamente relacionado às emoções, de maneira a responder</p><p>de maneira rápida aos estímulos do meio externo. O SNA funciona</p><p>de modo involuntário e contínuo, controlando atividades como fre-</p><p>quência cardíaca, digestão, respiração, secreção glandular e muitos</p><p>outros processos essenciais para a manutenção da homeostase, ou</p><p>seja, do equilíbrio entre todas as funções do organismo (OLIVEIRA,</p><p>2005). Além disso, o sistema nervoso autônomo também tem suas</p><p>subdivisões principais, quais sejam:</p><p>• Sistema nervoso simpático (SNS): a divisão simpática prepara</p><p>o corpo para a ação e é frequentemente associada à resposta</p><p>de “lutar ou fugir”; logo, é responsável por aumentar a excitação</p><p>fisiológica e o gasto de energia durante situações estressantes</p><p>ou de emergência. A ativação do sistema nervoso simpático re-</p><p>sulta em aumento da frequência cardíaca, dilatação das pupilas,</p><p>aumento da pressão arterial, respiração acelerada e mobilização</p><p>das reservas de energia (OLIVEIRA, 2005).</p><p>• Sistema nervoso parassimpático (SNP): a divisão parassimpá-</p><p>tica promove relaxamento, descanso e recuperação, ou seja, fun-</p><p>O vídeo Neuroanatomia</p><p>– divisões anatômicas do sis-</p><p>tema nervoso explica sobre</p><p>as divisões anatômicas do</p><p>sistema nervoso de manei-</p><p>ra bem didática, com foco</p><p>em todas as estruturas</p><p>que fazem parte dessas</p><p>divisões. Vale a pena para</p><p>quem quiser se aprofundar</p><p>nesse tema tão incrível!</p><p>Disponível em: https://youtu.be/</p><p>QwXYG96bzCI?si=F0YOJOLLIdzX-</p><p>N5Em. Acesso em: 31 out. 2023.</p><p>Vídeo</p><p>14 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>ciona em oposição à divisão simpática e é muitas vezes referido</p><p>como o sistema “descansar e digerir” ou “alimentar e reproduzir”.</p><p>O sistema nervoso parassimpático ajuda a conservar energia e</p><p>promove atividades como digestão, diminuição da frequência</p><p>cardíaca, constrição das pupilas, estimulação da secreção das</p><p>glândulas salivares e aumento do fluxo sanguíneo para os órgãos</p><p>digestivos (OLIVEIRA, 2005).</p><p>Essas duas divisões do SNA trabalham juntas para manter um equilí-</p><p>brio delicado e regular entre as várias funções corporais, e – a depender</p><p>da situação e das necessidades do corpo – uma divisão pode dominar</p><p>a outra, levando a diferentes respostas fisiológicas. O sistema nervoso</p><p>autônomo funciona automática e inconsciente, permitindo que o corpo</p><p>se adapte e responda às mudanças no ambiente interno e externo.</p><p>O sistema nervoso também compreende diferentes tipos de células,</p><p>os neurônios e as células gliais. Os neurônios são as células primárias</p><p>do sistema nervoso responsáveis pela transmissão de sinais elétricos e</p><p>consistem – em suas principais estruturas – de um corpo celular (cha-</p><p>mado de soma), dendritos (que recebem sinais) e um axônio (que trans-</p><p>mite sinais) (OLIVEIRA, 2005). No caso das células gliais, elas fornecem</p><p>suporte e proteção aos neurônios e auxiliam na manutenção do am-</p><p>biente químico, isolando neurônios e removendo produtos residuais.</p><p>De modo geral, o sistema nervoso funciona transmitindo impulsos elé-</p><p>tricos ou sinais pelos neurônios. Isso permite uma comunicação rápida</p><p>entre as diferentes partes do corpo do indivíduo, além da coordenação de</p><p>movimentos, regulação de funções corporais e integração de informações</p><p>sensoriais, criando, assim, comportamentos e respostas complexas.</p><p>1.2 Proteções do sistema nervoso central</p><p>Vídeo</p><p>O sistema nervoso central, por ser o responsável por coordenar</p><p>todas as ações do corpo humano, é protegido por diversas estrutu-</p><p>ras anatômicas e fisiológicas que ajudam a proteger o delicado tecido</p><p>neural de danos físicos e a manter seu funcionamento adequado. As</p><p>formas de proteção do sistema nervoso são classificadas em: óssea,</p><p>membranosa e líquida (OLIVEIRA, 2005).</p><p>A proteção óssea do sistema é composta pelo crânio, que é onde</p><p>está alojado o cérebro, e pela coluna vertebral, que protege a medula es-</p><p>Gi</p><p>ov</p><p>an</p><p>ni</p><p>C</p><p>an</p><p>ce</p><p>m</p><p>i/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>Gi</p><p>ov</p><p>an</p><p>ni</p><p>C</p><p>an</p><p>ce</p><p>m</p><p>i/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>A obra de Mark Bear,</p><p>Barry Connors e Michael</p><p>Paradiso, Neurociências:</p><p>desvendando o sistema</p><p>nervoso, ajuda a entender</p><p>melhor as divisões e fun-</p><p>ções do sistema nervoso,</p><p>bem como a sua forma-</p><p>ção e desenvolvimento ao</p><p>longo de milhões de anos.</p><p>BEAR, M. F.; CONNORS, B. W.;</p><p>PARADISO, M. A. 4. ed. Porto</p><p>Alegre: Artmed, 2017.</p><p>Livro</p><p>Neurodesenvolvimento 15</p><p>pinhal. Esses ossos fornecem uma barreira robusta e rígida que protege</p><p>o tecido neural de traumas externos, como quedas ou batidas. A prote-</p><p>ção membranosa é composta pelas chamadas meninges, três camadas</p><p>de membranas que envolvem o sistema nervoso central e fornecem su-</p><p>porte, absorção de choque e ajudam a prevenir o contato direto entre o</p><p>tecido neural e os ossos circundantes (HALL; HALL, 2021).</p><p>Na Figura 2 podemos ver uma representação das diversas camadas</p><p>da proteção óssea e membranosa do sistema nervoso.</p><p>Figura 2</p><p>Camadas das proteções óssea e membranosa</p><p>Meninges</p><p>Ve</p><p>ct</p><p>or</p><p>M</p><p>in</p><p>e/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>Pele</p><p>Aponeurose</p><p>Periósteo</p><p>Osso</p><p>Dura-máter</p><p>Aracnoide</p><p>Pia-máter</p><p>Fonte: Elaborada pela autora.</p><p>Falando especificamente de cada uma das camadas das meninges,</p><p>a chamada dura-máter é a camada mais externa das meninges. É uma</p><p>membrana resistente e fibrosa que fornece força e proteção ao SNC,</p><p>aderindo-se à superfície interna do crânio e ao canal vertebral, forman-</p><p>do uma barreira protetora entre o tecido neural e as estruturas ósseas.</p><p>A dura-máter, por sua vez, também tem suas próprias camadas, perios-</p><p>teal externa e a meníngea interna, que são fundidas, exceto em certas</p><p>regiões onde se separam para formar os seios durais, os quais são ca-</p><p>nais venosos especializados que permitem a drenagem sanguínea do</p><p>cérebro (PURVES et al., 2018).</p><p>A denominada aracnoide é a camada intermediária das menin-</p><p>ges, é uma membrana fina e delicada que leva esse nome por cau-</p><p>sa de sua aparência de teia de aranha. A aracnoide é preenchida</p><p>por uma rede de colágeno e fibras elásticas semelhante a uma</p><p>teia, e ajuda a fornecer suporte e amortecimento ao tecido neural</p><p>16 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>subjacente. Abaixo da camada aracnoide encontra-se o espaço su-</p><p>baracnoideo, que contém líquido cefalorraquidiano (LCR) e vasos</p><p>sanguíneos. A aracnoide não adere firmemente à superfície interna</p><p>da dura-máter, criando um espaço potencial conhecido como espa-</p><p>ço subdural (PURVES et al., 2018).</p><p>Por fim, a mais interna das camadas das meninges, chamada de</p><p>pia-máter, localiza-se mais próxima do tecido neural do cérebro e</p><p>da medula espinhal. É uma membrana fina e delicada que segue os</p><p>contornos do SNC e cobre sua superfície, fornecendo suporte físico</p><p>direto aos neurônios e vasos sanguíneos subjacentes. A pia-máter é</p><p>altamente vascularizada, o que significa que contém numerosos vasos</p><p>sanguíneos que fornecem oxigênio e nutrientes ao SNC. Também está</p><p>intimamente associada à camada aracnoide e ajuda a fixá-la em seu</p><p>lugar (PURVES et al., 2018).</p><p>Em conjunto, as três camadas das meninges formam uma bainha</p><p>protetora ao redor do sistema nervoso central, fornecendo suporte,</p><p>absorção ao choque e ajudando a manter o ambiente interno do SNC.</p><p>As meninges desempenham um papel crucial na proteção do delicado</p><p>tecido neural de traumas externos e na manutenção de seu funciona-</p><p>mento adequado.</p><p>No Quadro 2 vemos um resumo da</p><p>para a Educação Espe-</p><p>cial na Educação Básica.</p><p>Fonte: MEC, 2023.</p><p>O AEE, além de ser instrumento previsto na Lei de Diretrizes e Ba-</p><p>ses da Educação (LDB) e regulamentado pelo Decreto n. 7.611 – de</p><p>17 de novembro de 2011 – foi disciplinado pelo Conselho Nacional</p><p>de Educação (CNE) por meio da Resolução n. 4/2009.</p><p>O papel da escola e da família 113</p><p>Sensibilidades sensoriais</p><p>Algumas crianças com distúrbios do neurodesenvolvimento, como</p><p>o transtorno do espectro autista, apresentam sensibilidades sensoriais</p><p>que podem ser desencadeadas no ambiente escolar, logo gerenciar a</p><p>sobrecarga sensorial ou os comportamentos de busca sensorial pode</p><p>ser um desafio. Para enfrentar esses desafios, é essencial que as esco-</p><p>las priorizem o desenvolvimento profissional, aloquem recursos ade-</p><p>quados, promovam uma cultura de inclusão e aceitação e colaborem</p><p>com as famílias e as agências de apoio externas.</p><p>Além disso, as políticas públicas e as práticas escolares devem ser</p><p>continuamente revistas e adaptadas para atender às necessidades</p><p>crescentes dos estudantes com transtornos do neurodesenvolvimen-</p><p>to. As escolas podem se ajustar para que as crianças neurodivergentes</p><p>possam participar plenamente na aprendizagem e na socialização na</p><p>escola, de modo a abraçarem a neurodiversidade utilizando algumas</p><p>estratégias (MCLEAN, 2022):</p><p>Aplicar mudanças no ambiente que auxiliem</p><p>as crianças com sensibilidades sensoriais</p><p>ou altos níveis de ansiedade, como espaços</p><p>silenciosos e ajustes na iluminação. É possível</p><p>ainda permitir que as crianças usem itens</p><p>sensoriais como bolas macias nas aulas, ou</p><p>variações no uniforme.</p><p>2</p><p>- A</p><p>nd</p><p>re</p><p>w</p><p>Kr</p><p>as</p><p>ov</p><p>itc</p><p>ki</p><p>i/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>1</p><p>- P</p><p>eo</p><p>pl</p><p>eI</p><p>m</p><p>ag</p><p>es</p><p>.c</p><p>om</p><p>-</p><p>Yu</p><p>ri</p><p>A/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>11</p><p>22</p><p>Utilizar métodos de ensino variados para</p><p>atender a diversos estilos ou necessidades</p><p>de aprendizagem, por exemplo: permitir</p><p>que algumas crianças criem apresentações</p><p>de vídeo em vez de fazerem apresentações</p><p>em sala de aula, ou – nas práticas esportivas</p><p>– permitir que apenas façam o registro</p><p>ou o planejamento de tudo em vez de</p><p>efetivamente realizarem as práticas.</p><p>2</p><p>- A</p><p>nd</p><p>re</p><p>w</p><p>Kr</p><p>as</p><p>ov</p><p>itc</p><p>ki</p><p>i/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>1</p><p>- G</p><p>ro</p><p>un</p><p>d</p><p>Pi</p><p>ct</p><p>ur</p><p>e/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>22</p><p>11</p><p>No vídeo Educação e Neuro-</p><p>diversidade, os participantes</p><p>apresentam diversos te-</p><p>mas referentes à educação</p><p>e à neurodiversidade, am-</p><p>pliando a discussão sobre</p><p>as diversidades neurocog-</p><p>nitivas e como elas podem</p><p>ser acolhidas e aproveita-</p><p>das no ambiente escolar.</p><p>É possível promover uma</p><p>educação que seja inclusiva</p><p>e ao mesmo tempo ino-</p><p>vadora? Essa é a proposta</p><p>desse projeto de extensão.</p><p>Vale a pena conferir!</p><p>Disponível em: https://www.</p><p>youtube.com/live/hXgmNbIMX-</p><p>Y?si=khI15vW2N4YyKpSb.</p><p>Acesso em: 17 nov. 2023.</p><p>Vídeo</p><p>114 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>Oferecer apoio e orientação a todas as</p><p>crianças para que incluam as crianças</p><p>neurodivergentes nas interações e nas</p><p>brincadeiras, de acordo com as possibilidades</p><p>e as especificidades de cada estudante, por</p><p>exemplo: incluir aulas sobre neurodiversidade</p><p>nas aulas de projeto de vida ou eletivas.</p><p>2</p><p>- A</p><p>nd</p><p>re</p><p>w</p><p>Kr</p><p>as</p><p>ov</p><p>itc</p><p>ki</p><p>i/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>1</p><p>- G</p><p>ro</p><p>un</p><p>d</p><p>Pi</p><p>ct</p><p>ur</p><p>e/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>11</p><p>22</p><p>Quando as crianças conversam e compreendem como as crianças</p><p>neurodivergentes se comunicam e brincam, isso pode encorajar todas</p><p>as crianças a interagirem de maneira respeitosa e em igualdade de con-</p><p>dições. Isso ajuda a eliminar a expectativa de que as crianças neurodi-</p><p>vergentes devam mudar ou se adequar a um padrão estabelecido.</p><p>5.5 Contribuições da neurodiversidade</p><p>Vídeo</p><p>A neurodiversidade é um conceito que reconhece e celebra a va-</p><p>riação natural nas características neurológicas e no funcionamento da</p><p>população humana, sugerindo que diferenças neurológicas – como o</p><p>TEA, TDAH, dislexia e outras – não são necessariamente déficits ou dis-</p><p>túrbios, mas representam diversas formas de pensar, perceber e expe-</p><p>rimentar o mundo.</p><p>É importante notarmos que embora o movimento da neurodiversidade esteja</p><p>recebendo reconhecimento e apoio, nem todos os membros da comunidade</p><p>neurodiversificada ou da sociedade em geral concordam com todos os aspec-</p><p>tos desse conceito. Algumas pessoas preferem uma terminologia diferente</p><p>ou têm perspectivas diferentes sobre até que ponto determinadas condições</p><p>devem ser consideradas como parte do espectro da neurodiversidade.</p><p>Ainda assim, a neurodiversidade é um conceito que desafia a estig-</p><p>matização e a patologização das diferenças neurológicas, promovendo</p><p>a ideia de que a diversidade – na forma como o nosso cérebro funciona</p><p>– é uma parte natural e valiosa da existência humana. A neurodiversi-</p><p>dade reconhece que existe um amplo espectro de diferenças neuro-</p><p>lógicas e que o cérebro de cada indivíduo funciona de maneira única,</p><p>além de rejeitar a ideia de que existe uma única forma normal ou ideal</p><p>O papel da escola e da família 115</p><p>de o cérebro funcionar. Desse modo, o paradigma da neurodiversidade</p><p>promove aceitação e respeito por indivíduos com diferenças neurológi-</p><p>cas, enfatizando a importância de acomodar e apoiar esses indivíduos,</p><p>em vez de tentar normalizá-los.</p><p>O conceito de neurodiversidade também desafia o modelo médico</p><p>tradicional de deficiência, que costuma patologizar as diferenças neu-</p><p>rológicas e se concentra em curá-las ou corrigi-las. Em vez disso, de-</p><p>fende um modelo social que se concentra na abordagem das barreiras</p><p>sociais e na criação de ambientes inclusivos que permitam indivíduos</p><p>neurodiversos se desenvolverem e prosperarem.</p><p>A neurodiversidade reconhece que diferenças neurológicas podem</p><p>trazer pontos fortes, talentos e perspectivas únicas para a sociedade.</p><p>Incentiva a adoção desses pontos fortes e a sua integração em vários</p><p>aspectos da vida, incluindo a educação e o trabalho.</p><p>O estudo da neurodiversidade traz contribuições significativas para</p><p>a nossa compreensão das diferenças neurológicas e de desenvolvimen-</p><p>to e tem um impacto positivo em vários aspectos da sociedade. Entre</p><p>algumas das principais contribuições do estudo da neurodiversidade</p><p>na sociedade contemporânea, temos:</p><p>Promoção da inclusão e aceitação</p><p>O conceito de neurodiversidade promove a ideia de que as diferen-</p><p>ças neurológicas e de desenvolvimento são variações naturais da expe-</p><p>riência humana, sendo assim, esse conceito incentiva a sociedade a ser</p><p>mais inclusiva e a aceitar indivíduos com condições como TEA, TDAH,</p><p>dislexia e outros transtornos do neurodesenvolvimento e específicos</p><p>de aprendizagem. Esse fato levou a uma maior conscientização e à re-</p><p>dução do estigma em torno dessas condições.</p><p>Mudança de perspectiva</p><p>A neurodiversidade desafia o modelo médico da deficiência, que</p><p>vê as diferenças neurológicas como distúrbios que precisam ser cor-</p><p>rigidos ou curados. Em vez disso, o conceito da neurodiversidade</p><p>enfatiza um modelo social que se concentra na criação de ambientes</p><p>e acomodações que permitem aos indivíduos prosperarem com as</p><p>suas capacidades e seus desafios únicos, sem a necessidade de exis-</p><p>tir um único padrão de desenvolvimento, que garanta promoção de</p><p>saúde, qualidade de vida e bem-estar.</p><p>No livro O que é neurodi-</p><p>versidade?, o autor Tiago</p><p>Abreu traz uma breve</p><p>história do conceito de</p><p>neurodiversidade, que</p><p>teve início da década de</p><p>1990, e em seguida nos</p><p>convida a uma discussão</p><p>importante sobre o que</p><p>significa ser neurodivergente</p><p>em uma sociedade avessa</p><p>à deficiência, traçando um</p><p>panorama das discussões</p><p>e das descobertas dos últi-</p><p>mos 30 anos. Embora essa</p><p>discussão esteja longe de</p><p>terminar, o autor nos traz</p><p>boas reflexões a respeito</p><p>desse tema tão atual.</p><p>ABREU, T. Goiânia: Cânone</p><p>Editorial, 2022.</p><p>Livro</p><p>116 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>Advocacia e empoderamento</p><p>O movimento da neurodiversidade capacitou indivíduos com</p><p>condições neurodivergentes para defenderem seus direitos e suas</p><p>necessidades. Esse empoderamento levou uma maior autonomia e au-</p><p>todeterminação para muitos indivíduos com diferenças neurológicas,</p><p>desbravando limites do que era ou não possível de ser atingido, dentro</p><p>da singularidade de cada indivíduo.</p><p>Inovação educacional</p><p>O estudo da neurodiversidade influenciou as práticas educacio-</p><p>nais ao destacar a importância da educação personalizada e inclusi-</p><p>va, levando ao desenvolvimento de métodos de ensino mais flexíveis</p><p>e apoio individualizado para alunos com condições neurodivergen-</p><p>tes. Dessa forma, os professores também avançaram, no sentido</p><p>em que precisaram aprofundar os seus conhecimentos, lutando por</p><p>uma formação acadêmica mais sólida e de qualidade, a fim de aten-</p><p>der aos seus estudantes com necessidades específicas, promovendo</p><p>a educação integral para todos.</p><p>Diversidade e inclusão no local de trabalho</p><p>Muitas empresas da atualidade já reconheceram o valor da neurodi-</p><p>versidade no local de trabalho, implementando práticas de contratação</p><p>inclusivas e criando ambientes de apoio que permitem que indivíduos</p><p>neurodivergentes se destaquem em vários campos, incluindo áreas</p><p>como tecnologia, engenharia e indústrias criativas.</p><p>Pr</p><p>os</p><p>to</p><p>ck</p><p>-s</p><p>tu</p><p>di</p><p>o/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>O papel da escola e da família 117</p><p>Pesquisa e compreensão</p><p>O estudo da neurodiversidade estimulou a pesquisa sobre as cau-</p><p>sas subjacentes, os pontos fortes e os desafios associados às condições</p><p>neurodivergentes. Essa pesquisa contribuiu para a nossa compreensão</p><p>das diversas maneiras que o cérebro pode funcionar e apresenta novos</p><p>campos de estudo e pesquisa na área das neurociências.</p><p>Contribuições neurodivergentes</p><p>Indivíduos neurodivergentes fizeram contribuições significativas em</p><p>vários campos. Acredita-se que muitos cientistas, artistas, escritores e</p><p>inovadores famosos – como Albert Einstein – tenham sido ou sejam</p><p>neurodivergentes. O reconhecimento dessas contribuições destaca os</p><p>pontos fortes e os talentos dos indivíduos neurodiversos.</p><p>Construção de comunidade</p><p>O estudo da neurodiversidade promoveu o desenvolvimento de co-</p><p>munidades e redes de apoio para indivíduos e famílias afetadas por</p><p>condições neurodivergentes. Essas comunidades fornecem recursos,</p><p>informações e apoio social valiosos. O sentimento de pertencimento é</p><p>uma força motriz poderosa para os avanços comunitários.</p><p>Mudanças políticas e legais</p><p>A defesa fundamentada nos princípios da neurodiversidade influen-</p><p>ciou mudanças políticas e proteções legais para indivíduos com condi-</p><p>ções neurodivergentes. Isso inclui o fornecimento de um melhor acesso</p><p>à educação, aos cuidados de saúde e às oportunidades de emprego.</p><p>Desafiando estereótipos</p><p>Ao destacar a diversidade de experiências nas comunidades neu-</p><p>rodivergentes, o estudo da neurodiversidade desafia estereótipos e</p><p>suposições sobre o que significa ser neurodivergente. Ele enfatiza que</p><p>não existe uma descrição única para todos os indivíduos com essas</p><p>condições e que cada indivíduo vivenciará e experimentará a sua neu-</p><p>rodiversidade de uma maneira única e singular.</p><p>Em resumo, o estudo da neurodiversidade contribui para uma so-</p><p>ciedade mais inclusiva, receptiva e equitativa, ao reconhecer e valorizar</p><p>os pontos fortes e as perspectivas únicas dos indivíduos com condições</p><p>118 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>neurodivergentes. Ele traz mudanças positivas na educação, na empre-</p><p>gabilidade e nas atitudes sociais, de modo a promover, em última aná-</p><p>lise, o bem-estar e o potencial dos indivíduos neurodiversos.</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>Neste capítulo, pudemos refletir um pouco mais sobre o papel da fa-</p><p>mília, da escola e da comunidade no que diz respeito às crianças com</p><p>transtornos do neurodesenvolvimento. Pudemos identificar que todos es-</p><p>tão interligados e que uma ação conjunta é a única possível para que seja</p><p>factível o desenvolvimento pleno de todas as crianças com necessidades</p><p>educacionais especiais.</p><p>Foi possível identificarmos que somente quando as famílias e as</p><p>comunidades abraçam a neurodiversidade podemos falar de saúde</p><p>mental, bem-estar, sentido e identidade das crianças neurodivergen-</p><p>tes. Abraçar a neurodiversidade elimina a pressão para que as crianças</p><p>neurodivergentes se comportem de maneiras neurotípicas, escondam</p><p>seus comportamentos diferentes, mascarem ou escondam quem são,</p><p>ou tenham que lidar e suportar a superestimulação sensorial. Esse tipo</p><p>de pressão pode ser física e mentalmente desgastante, o que pode</p><p>dificultar que as crianças se concentrem nos trabalhos escolares e par-</p><p>ticipem de atividades sociais.</p><p>Pessoas neurodivergentes trazem muitos pontos fortes para a socie-</p><p>dade, como pensamento criativo, inovador e analítico e experiência em</p><p>áreas de interesse especial. Abraçar a neurodiversidade é bom para nós,</p><p>como sociedade; e tal como o planeta precisa de uma diversidade de</p><p>plantas e animais para sobreviver, a sociedade precisa da neurodiversi-</p><p>dade para prosperar. Aprender a respeitar o outro, em sua singularidade,</p><p>também faz com que aprendamos a respeitar a nós mesmos, em nossas</p><p>próprias singularidades e dificuldades.</p><p>ATIVIDADES</p><p>Atividade 1</p><p>Qual é o papel da família na garantia da aprendizagem das crian-</p><p>ças com transtornos do neurodesenvolvimento?</p><p>O papel da escola e da família 119</p><p>Atividade 2</p><p>O que são os Planos Educacionais Individualizados (PEIs)? Quem é</p><p>responsável por eles?</p><p>Atividade 3</p><p>Quais são as contribuições da neurodiversidade no ambiente escolar?</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>AMARO, D. G. Desenvolvimento, aprendizagem e avaliação na perspectiva de diversidade.</p><p>In: GALERY, A. (org.). A escola para todos e para cada um. São Paulo: Summus Editorial, 2017.</p><p>BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Resolução n. 4, de 2 de outubro de 2009.</p><p>Diário Oficial da União, Brasília, DF, 5 out. 2009. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/</p><p>dmdocuments/rceb004_09.pdf. Acesso em: 17 nov. 2023.</p><p>MCLEAN, S. Supporting children with neurodiversity. Southbank: Australian Institute of</p><p>Family Studies, 2022. Disponível em: https://aifs.gov.au/sites/default/files/publication-</p><p>documents/2112_cfca_64_supporting_children_with_neurodiversity_0.pdf. Acesso em:</p><p>17 nov. 2023.</p><p>MEC – Ministério da Educação. LEGISLAÇÃO de Educação Especial. MEC, 2023. Disponível em:</p><p>http://portal.mec.gov.br/programa-saude-da-escola/323-secretarias-112877938/orgaos-</p><p>vinculados-82187207/13020-legislacao-de-educacao-especial. Acesso em: 17 nov. 2023.</p><p>SNOWLING, M. J. et al. Dislexia, fala e linguagem: um manual do profissional. Porto Alegre:</p><p>Artmed, 2004.</p><p>Resolução das atividades</p><p>1 Neurodesenvolvimento</p><p>1. Descreva as funções que compõem o sistema nervoso.</p><p>A função sensorial busca coletar informações que são recebidas</p><p>pelas terminações nervosas e transmiti-las para a medula espinhal e</p><p>o encéfalo. Já a função integrativa busca interpretar as informações</p><p>recebidas pelas terminações nervosas, incluindo os processos de</p><p>pensamento e memória. Por fim, a função motora conduz e recebe as</p><p>informações do sistema nervoso central para os músculos e glândulas</p><p>do corpo.</p><p>2. Comente sobre as principais funções dos neurônios.</p><p>Os neurônios desempenham três funções principais dentro do sistema</p><p>nervoso: a primeira função é a de recepção e transmissão de sinais,</p><p>processo em que os neurônios recebem sinais de outros neurônios ou</p><p>receptores sensoriais pelos dendritos, sinais esses que são transmitidos</p><p>para os terminais axônicos na forma de impulsos elétricos. A segunda</p><p>função é a integração de informações, em que são processados e</p><p>integrados os impulsos vindos das diferentes partes do corpo e em</p><p>que se determina também se esses sinais devem ser transmitidos para</p><p>outros neurônios. Essa integração de informações e sinais permite</p><p>que os neurônios modulem e regulem o fluxo de informações dentro</p><p>do sistema nervoso. A terceira e última função é a de transmissão de</p><p>sinais para as células-alvo, que ocorre quando um impulso elétrico</p><p>atinge os terminais axônicos e desencadeia uma liberação de sinais</p><p>mensageiros nos neurotransmissores, que, por sua vez, ligam-se – por</p><p>meio da lacuna sináptica – aos receptores das células-alvo. É justamente</p><p>essa transmissão de sinais entre os diferentes neurônios</p><p>que permite a</p><p>coordenação e comunicação das diversas funções do corpo.</p><p>3. Na idade adulta, o cérebro tem uma estrutura rígida, pois seu</p><p>desenvolvimento já se completou na infância. Essa afirmação é</p><p>verdadeira? Comente.</p><p>Essa afirmação não é verdadeira. Na idade adulta, o cérebro pode, sim,</p><p>desenvolver-se e aprimorar-se. Isso é possível por meio do conceito da</p><p>neuroplasticidade, que se refere à capacidade do cérebro de mudar</p><p>e se adaptar, formando novas conexões, modificando as existentes</p><p>e realocando funções. É um mecanismo essencial que fundamenta</p><p>o aprendizado, a memória, a recuperação de lesões cerebrais e a</p><p>capacidade do cérebro de se adaptar a novas experiências e desafios.</p><p>120 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>2 Transtornos do neurodesenvolvimento</p><p>1. Como as pessoas com deficiência e/ou transtornos do</p><p>neurodesenvolvimento eram tratadas na Antiguidade?</p><p>As pessoas com transtornos do neurodesenvolvimento foram</p><p>discriminadas e viveram sob opressão durante todo o período antigo.</p><p>Na Grécia Antiga, por exemplo, os bebês nascidos com deficiência</p><p>eram jogados do topo de montanhas e não tinham qualquer chance</p><p>de sobrevivência. O nascimento de uma criança com deficiência era</p><p>considerado uma maldição, um castigo dos deuses para os pais.</p><p>2. Quais são os transtornos do neurodesenvolvimento mais comuns</p><p>em crianças?</p><p>Os transtornos mais comuns em crianças são: transtorno do</p><p>espectro do autismo (TEA), transtorno do déficit de atenção/</p><p>hiperatividade (TDAH), deficiência intelectual (DI), transtorno</p><p>específico de aprendizagem, transtorno da comunicação, transtorno</p><p>do desenvolvimento da coordenação (TDC) ou transtornos motores,</p><p>e transtornos de tique (síndrome de Tourette).</p><p>3. Descreva o conceito científico de nature versus nurture.</p><p>O conceito científico de nature (natureza) versus nurture (criação) é um debate</p><p>de longa data que busca entender quanto dos traços e características de</p><p>um indivíduo são influenciados por sua genética (natureza) versus seu</p><p>ambiente e suas experiências (criação). Na atualidade, é amplamente</p><p>aceito entre os cientistas que o debate da natureza versus criação não é</p><p>uma dicotomia, mas sim uma interação complexa entre fatores genéticos</p><p>e ambientais. Na realidade, a maioria dos traços e características é</p><p>influenciada por uma combinação de natureza e criação.</p><p>4. Defina o conceito de neuroplasticidade.</p><p>O cérebro tem uma capacidade notável de mudar e se adaptar</p><p>em resposta às experiências. Essa capacidade, conhecida como</p><p>neuroplasticidade, permite que o cérebro reorganize e forme novas</p><p>conexões neurais. Os processos de aprendizagem e memória</p><p>envolvem o fortalecimento ou enfraquecimento das conexões</p><p>sinápticas, levando a alterações nos circuitos neurais. A plasticidade</p><p>cerebral, ou neuroplasticidade, é um fator muito importante quando</p><p>falamos em transtornos do neurodesenvolvimento, isso porque a</p><p>capacidade de adaptação do cérebro pode compensar uma área</p><p>que está comprometida, fazendo com que outra parte do cérebro</p><p>possa se reorganizar e realizar a função que foi perdida ou teve o seu</p><p>funcionamento prejudicado.</p><p>Resolução das atividades 121</p><p>3 Transtornos do neurodesenvolvimento</p><p>e aprendizagem</p><p>1. Para que o processo de aprendizagem possa ocorrer sem</p><p>dificuldades, quais são as três funções que precisam estar</p><p>preservadas?</p><p>A aprendizagem é um processo multifacetado, no qual cada estrutura</p><p>exerce uma função específica. Para que ocorra o processo de</p><p>aprendizagem é necessário que cada estrutura esteja adequadamente</p><p>integrada em sua função, quais sejam: funções psicodinâmicas; funções</p><p>do sistema nervoso periférico e funções do sistema nervoso central.</p><p>2. O que caracteriza o transtorno do déficit de atenção/hiperatividade</p><p>(TDAH)?</p><p>O TDAH é caracterizado por um padrão persistente de desatenção,</p><p>hiperatividade e impulsividade que interfere no funcionamento e</p><p>nas atividades diárias. Os sintomas do TDAH geralmente aparecem</p><p>durante a infância, e o diagnóstico é feito comumente antes</p><p>dos 12 anos de idade, embora alguns indivíduos não recebam</p><p>um diagnóstico até a idade adulta. A causa exata do TDAH não</p><p>é totalmente compreendida, mas acredita-se que seja uma</p><p>combinação de fatores genéticos, ambientais e neurológicos.</p><p>3. Como podemos identificar o transtorno do espectro autista (TEA)?</p><p>O TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento que afeta</p><p>a comunicação, o comportamento e a interação social. Ele é</p><p>caracterizado por uma ampla gama de sintomas e habilidades,</p><p>razão pela qual é chamado de distúrbio de espectro. O TEA afeta os</p><p>indivíduos de maneira diferente, e não há duas pessoas com autismo</p><p>com exatamente o mesmo conjunto de características. As principais</p><p>características do transtorno do espectro autista são: dificuldades</p><p>de comunicação, desafios sociais, comportamentos repetitivos,</p><p>interesses restritos e sensibilidades sensoriais.</p><p>4. Qual é a diferença entre transtornos específicos de aprendizagem</p><p>e dificuldades de aprendizagem?</p><p>Dificuldades de aprendizagem referem-se a desafios que os</p><p>indivíduos podem enfrentar ao adquirir certas habilidades ou</p><p>conhecimentos. Essas dificuldades podem ser temporárias e podem</p><p>surgir devido a vários fatores, como falta de instrução adequada,</p><p>influências ambientais, problemas de saúde ou fatores emocionais.</p><p>Já os transtornos específicos de aprendizagem são condições que</p><p>122 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>têm como base diferenças neurológicas, cognitivas ou genéticas e</p><p>que podem afetar de modo significativo a capacidade de aprender e</p><p>realizar determinadas tarefas.</p><p>5. O que são deficiências sensoriais?</p><p>As deficiências sensoriais referem-se a condições que afetam um</p><p>ou mais dos sentidos, que são os canais pelos quais os indivíduos</p><p>percebem e interagem com o mundo. Os principais sentidos são visão,</p><p>audição, paladar, olfato e tato. Quando um ou mais desses sentidos</p><p>são afetados, temos as deficiências sensoriais.</p><p>4 Prevenção e cuidado</p><p>1. Como podemos definir os conceitos de promoção e prevenção em</p><p>saúde?</p><p>Quando falamos em promoção de saúde, estamos nos referindo</p><p>a uma abordagem proativa para melhorar e manter a saúde e o</p><p>bem-estar. Ela envolve esforços a fim de capacitar indivíduos e</p><p>comunidades para fazerem escolhas mais saudáveis e se envolverem</p><p>em comportamentos que promovam uma boa saúde. A promoção</p><p>da saúde visa prevenir o aparecimento de doenças e condições,</p><p>abordando os determinantes subjacentes da saúde, tais como fatores</p><p>de estilo de vida, condições sociais e econômicas e o ambiente</p><p>físico. A prevenção, no contexto dos cuidados de saúde, refere-se às</p><p>atividades e medidas tomadas para evitar ou reduzir a ocorrência de</p><p>doenças, lesões ou outros problemas relacionados com a saúde. Visa</p><p>também identificar e mitigar os fatores de risco, prevenir a progressão</p><p>das condições existentes e, em última análise, reduzir o peso das</p><p>consequências de uma determinada doença ou incapacidade.</p><p>2. Qual é a importância dos vínculos afetivos no desenvolvimento</p><p>infantil?</p><p>Os laços emocionais desempenham um papel crucial no nosso</p><p>desenvolvimento psicossocial ao longo da vida. Esses vínculos</p><p>são formados principalmente por meio de relacionamentos com</p><p>cuidadores durante a primeira infância, mas continuam a evoluir</p><p>e a influenciar o bem-estar psicológico e social de um indivíduo</p><p>no decorrer da vida. Esses laços podem proporcionar um apoio</p><p>fundamental e transformador, facilitando o desenvolvimento positivo</p><p>em vários aspectos: regulação emocional, desenvolvimento social,</p><p>sensação de segurança, autoestima, resultados comportamentais e</p><p>acadêmicos positivos, progresso terapêutico e bem-estar familiar.</p><p>Resolução das atividades 123</p><p>3. As crianças com transtornos do neurodesenvolvimento têm o</p><p>mesmo acesso a atividades de lazer e esportes de sua preferência</p><p>quando comparadas às crianças neurotípicas? Explique.</p><p>Crianças e jovens com transtornos do neurodesenvolvimento</p><p>sofrem restrições em suas participações na comunidade em</p><p>comparação com seus pares neurotipicamente desenvolvidos.</p><p>De</p><p>acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), por meio</p><p>da participação nessas atividades, as crianças experimentariam</p><p>melhorias em sua saúde e no seu bem-estar, o que promoveria o</p><p>seu desenvolvimento, autoeficácia, bem como seu desempenho</p><p>físico, emocional, habilidades cognitivas e sociais que os ajudariam</p><p>ainda mais a serem incluídos nas redes sociais das suas comunidades</p><p>e a construir amizades. No entanto, as crianças com transtornos</p><p>do neurodesenvolvimento ainda enfrentam muitas barreiras de</p><p>participação, uma vez que seu acesso, muitas vezes, é restrito a esses</p><p>ambientes. Há uma necessidade notável de abordagens centradas na</p><p>pessoa e baseadas na comunidade que foquem o seu planejamento</p><p>de intervenção nas preferências das crianças e dos jovens e nas suas</p><p>plenas participações em atividades de lazer, sejam elas esportivas ou</p><p>recreativas.</p><p>5 O papel da escola e da família</p><p>1. Qual é o papel da família na garantia da aprendizagem das crianças</p><p>com transtornos do neurodesenvolvimento?</p><p>O papel da família no cuidado de crianças com transtornos do</p><p>neurodesenvolvimento é crucial e multifacetado. Ela desempenha</p><p>um papel central no fornecimento de apoio, amor e recursos para</p><p>ajudar essas crianças a prosperarem. A família deverá prover</p><p>apoio emocional; defender os diretos da criança em quaisquer</p><p>circunstâncias; cooperar para a conscientização e educação popular</p><p>à respeito dos transtornos do neurodesenvolvimento; oferecer</p><p>tratamento e terapias adequadas às necessidades dela; oferecer um</p><p>ambiente acolhedor e estruturado, no qual ela possa se desenvolver</p><p>com segurança; prezar pela comunicação aberta; e oferecer apoios</p><p>aos irmãos neurotípicos, para que não se sintam estigmatizados</p><p>ou ignorados perante as demandas do irmão com transtorno do</p><p>neurodesenvolvimento.</p><p>124 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>2. O que são os Planos Educacionais Individualizados (PEIs)? Quem é</p><p>responsável por eles?</p><p>Os PEIs são produzidos pela escola para os alunos que apresentam</p><p>necessidades educacionais especiais, como transtornos do</p><p>neurodesenvolvimento, e são utilizados para descrever objetivos</p><p>educacionais específicos, acomodações e serviços adaptados às</p><p>necessidades únicas da criança. Esses planos ajudam a garantir que a</p><p>criança receba apoio e instrução adequadas.</p><p>3. Quais são as contribuições da neurodiversidade no ambiente escolar?</p><p>O estudo da neurodiversidade traz contribuições significativas</p><p>para a nossa compreensão das diferenças neurológicas e de</p><p>desenvolvimento e tem um impacto positivo em vários aspectos</p><p>da sociedade, contribuindo, principalmente, para uma sociedade</p><p>mais inclusiva, receptiva e equitativa, ao reconhecer e valorizar os</p><p>pontos fortes e as perspectivas únicas dos indivíduos com condições</p><p>neurodivergentes. Também traz mudanças positivas na educação, nas</p><p>condições de emprego e nas atitudes sociais, promovendo, em última</p><p>análise, o bem-estar e o potencial dos indivíduos neurodiversos.</p><p>Resolução das atividades 125</p><p>Transtornos do N</p><p>eurodesenvolvim</p><p>ento</p><p>C</p><p>arina Alice de O</p><p>liveira</p><p>ISBN 978-65-5821-278-2</p><p>9 786558 212782</p><p>Código Logístico</p><p>I000782</p><p>função de cada uma das cama-</p><p>das das meninges.</p><p>Quadro 2</p><p>As meninges</p><p>Dura-máter Aracnoide Pia-máter</p><p>É a camada mais</p><p>externa das meninges,</p><p>e por ser mais resis-</p><p>tente e fibrosa, forma</p><p>uma barreira protetora</p><p>entre o tecido neural e</p><p>as estruturas ósseas.</p><p>É a camada intermediária</p><p>das meninges. É uma</p><p>membrana fina e delicada,</p><p>preenchida por uma rede</p><p>de colágeno e fibras elásti-</p><p>cas semelhante a uma teia.</p><p>Ajuda a fornecer suporte e</p><p>amortecimento ao tecido</p><p>neural subjacente.</p><p>É a camada mais interna das</p><p>meninges, mais próxima do</p><p>tecido neural do cérebro e</p><p>da medula espinhal. É uma</p><p>membrana fina e delicada</p><p>que segue os contornos do</p><p>SNC e cobre sua superfície,</p><p>fornecendo suporte físico</p><p>direto aos neurônios e vasos</p><p>sanguíneos.</p><p>Fonte: Elaborado pela autora.</p><p>Neurodesenvolvimento 17</p><p>Quanto à proteção líquida, temos o líquido cefalorraquidiano</p><p>(LCR), que envolve todo o SNC e atua como um fluido protetor e de</p><p>amortecimento. O LCR é produzido por estruturas especializadas cha-</p><p>madas de plexos coroides que ficam dentro dos ventrículos do cérebro,</p><p>circula pelos ventrículos e flui ao redor do cérebro e da medula espi-</p><p>nhal, proporcionando flutuabilidade e ajudando a absorver choques e</p><p>impactos. Dessa maneira, o cérebro permanece flutuando dentro do</p><p>crânio, o que faz com que fique mais protegido na ocorrência de trau-</p><p>ma (BEAR; CONNORS; PARADISO, 2017).</p><p>A barreira hematoencefálica é uma barreira altamente seletiva</p><p>e semipermeável que separa o sangue circulante do cérebro e do</p><p>tecido da medula espinhal. É uma membrana formada por junções</p><p>apertadas entre as células dos vasos sanguíneos no SNC que res-</p><p>tringem a passagem de substâncias da corrente sanguínea para o</p><p>tecido neural como se fosse uma peneira ou um filtro, permitindo</p><p>que apenas moléculas de tamanho reduzido consigam passar. Os</p><p>neurônios que formam o encéfalo precisam de um ambiente ex-</p><p>tremamente controlado a fim de não sofrerem lesões (OLIVEIRA,</p><p>2005), por isso essa barreira ajuda a manter um ambiente interno</p><p>estável dentro do SNC e o protege de substâncias e patógenos po-</p><p>tencialmente nocivos.</p><p>Dessa maneira, todos esses mecanismos de proteção trabalham</p><p>juntos para proteger o sistema nervoso central de lesões físicas, man-</p><p>ter sua integridade estrutural e regular seu ambiente interno. Eles</p><p>desempenham um papel crucial na preservação do funcionamento</p><p>normal do cérebro e da medula espinhal e garantem a saúde geral do</p><p>sistema nervoso.</p><p>O vídeo Meninges – aspec-</p><p>tos funcionais, localização</p><p>e espaços oferece uma</p><p>explicação mais detalhada</p><p>sobre o funcionamento</p><p>das meninges como</p><p>estrutura protetiva do</p><p>sistema nervoso.</p><p>Disponível em: https://</p><p>youtu.be/AekLT_</p><p>Uuqmc?si=UpzaZeEYXmsNl4OG.</p><p>Acesso em: 31 out. 2023.</p><p>Vídeo</p><p>1.3 Neurônios e suas funções</p><p>Vídeo</p><p>Um neurônio é uma célula especializada e compõe a unidade fun-</p><p>damental do sistema nervoso. Ele é responsável por transmitir sinais</p><p>elétricos e químicos, permitindo a comunicação dentro do sistema ner-</p><p>voso. Os neurônios são altamente especializados em suas funções e</p><p>contam com propriedades estruturais e funcionais únicas. Vejamos na</p><p>Figura 3 como se apresenta a estrutura de um neurônio.</p><p>18 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>Figura 3</p><p>Estrutura do neurônio</p><p>lo</p><p>gi</p><p>ka</p><p>60</p><p>0/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>Núcleo</p><p>Dendritos</p><p>Corpo celular</p><p>Axônio</p><p>Bainha de mielina</p><p>Nó de Ranvier</p><p>Terminais de axônio</p><p>Sinapse</p><p>Um neurônio típico consiste em três partes principais, o soma –</p><p>também chamada de corpo celular –, os dendritos e o axônio. O corpo</p><p>celular é a principal região do neurônio e onde se localiza o núcleo,</p><p>que abriga o material genético e outras organelas celulares necessárias</p><p>para as funções metabólicas e sintéticas do neurônio. Os dendritos</p><p>são extensões semelhantes a ramificações que recebem sinais de ou-</p><p>tros neurônios ou receptores sensoriais. Eles desempenham um papel</p><p>crucial na coleta de informações recebidas e na transmissão para o cor-</p><p>po celular.</p><p>Quanto ao axônio, ele é uma extensão longa e delgada que trans-</p><p>porta impulsos elétricos para longe do corpo celular e os transmite</p><p>para outros neurônios, músculos ou glândulas. O axônio é coberto por</p><p>uma bainha de mielina, um isolante gorduroso que acelera a condução</p><p>de sinais elétricos. No final do axônio, existem pequenos ramos conhe-</p><p>cidos como terminais axônicos ou terminais sinápticos, que formam co-</p><p>nexões especializadas – chamadas de sinapses – com outros neurônios</p><p>ou células-alvo (HALL; HALL, 2021).</p><p>A bainha de mielina é outro componente vital do sistema ner-</p><p>voso e desempenha um papel crucial na facilitação da transmissão</p><p>Neurodesenvolvimento 19</p><p>eficiente de sinais elétricos ao longo dos neurônios. É uma cobertu-</p><p>ra protetora, tal como uma camada isolante, que envolve e isola os</p><p>axônios de muitos neurônios. Essa cobertura é composta por células</p><p>especializadas chamadas de células gliais ou oligodendrócitos, quan-</p><p>do estão no SNC, e de células de Schwann, quando presentes no SNP</p><p>(HALL; HALL, 2021).</p><p>A principal função da bainha de mielina é aumentar a velocidade</p><p>e a eficiência da condução do impulso nervoso, isto é, atua como um</p><p>isolante elétrico e impede a perda de sinal, permitindo que os impulsos</p><p>elétricos se propaguem rapidamente ao longo do axônio. A bainha de</p><p>mielina atinge esse objetivo formando uma estrutura segmentada ao</p><p>longo do comprimento do axônio, com pequenos espaços denomina-</p><p>dos nódulos de Ranvier entre os segmentos de mielina. Esses nódulos</p><p>desempenham um papel crucial na condução saltatória dos impulsos</p><p>nervosos (OLIVEIRA, 2005).</p><p>A condução saltatória refere-se ao salto rápido do impulso elétrico</p><p>de um nódulo de Ranvier para o seguinte. Esse modo de transmissão</p><p>acelera significativamente a propagação do impulso nervoso, permitin-</p><p>do que ele viaje de modo mais rápido e eficiente ao longo do axônio.</p><p>Sem a bainha de mielina, os sinais nervosos viajariam muito mais deva-</p><p>gar e de maneira mais difusa (OLIVEIRA, 2005).</p><p>Figura 4</p><p>Impulso saltatório</p><p>De</p><p>si</p><p>gn</p><p>ua</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>Axônio com a bainha de mielina normal</p><p>Impulso saltatório (~400 km/h)</p><p>Fonte: Elaborada pela autora.</p><p>Além disso, a bainha de mielina fornece suporte estrutural e pro-</p><p>teção aos axônios, ajudando a manter sua integridade e estabilidade</p><p>e evitando, assim, danos ou perda de sinais elétricos. Além disso, a</p><p>bainha de mielina contribui para a aparência branca de regiões do</p><p>cérebro e da medula espinhal – daí a origem do termo substância</p><p>Quer conhecer um pouco</p><p>mais sobre as células da</p><p>glia, também chamadas</p><p>neuroglias? O artigo Glia:</p><p>dos velhos conceitos às novas</p><p>funções de hoje e as que ain-</p><p>da virão traz as descobertas</p><p>mais atuais sobre essas</p><p>importantes estruturas.</p><p>Disponível em: https://www.scielo.</p><p>br/j/ea/a/DZKjD5QGZFfP3bVJ6H-</p><p>jGggL/?format=pdf&lang=pt.</p><p>Acesso em: 31 out. 2023.</p><p>Leitura</p><p>20 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>branca, que é mais notada nas regiões em que os axônios mielini-</p><p>zados são densamente compactados. O processo de mielinização é</p><p>um processo demorado, e as pesquisas da atualidade afirmam que</p><p>ele só é finalizado em humanos por volta dos 25 a 30 anos de idade</p><p>(PURVES et al., 2018).</p><p>Distúrbios ou condições que afetam a bainha de mielina podem</p><p>ter consequências neurológicas significativas, por exemplo, na es-</p><p>clerose múltipla (EM), o sistema imunológico ataca por engano</p><p>e danifica a bainha de mielina no SNC, levando a interrupções na</p><p>transmissão do sinal nervoso. Essa falha de transmissão resulta em</p><p>uma ampla gama de sintomas, incluindo disfunção motora, distúr-</p><p>bios sensoriais e deficiências cognitivas.</p><p>Em resumo, a bainha de mielina é uma estrutura especializada que</p><p>desempenha um papel importantíssimo na transmissão rápida e efi-</p><p>ciente dos sinais elétricos ao longo dos neurônios. Fornece isolamento,</p><p>aumenta a velocidade de condução e contribui para a integridade es-</p><p>trutural do sistema nervoso.</p><p>Outra estrutura importante que encontramos nos neurônios são</p><p>os nódulos de Ranvier, também conhecidos como lacunas de Ranvier,</p><p>estruturas que</p><p>compõem pequenas regiões não mielinizadas (sem a</p><p>bainha de mielina) ao longo do comprimento dos axônios mielinizados.</p><p>Eles receberam esse nome em homenagem ao histologista francês</p><p>Louis-Antoine Ranvier, que os descreveu pela primeira vez no século</p><p>XIX. Em cada nódulo de Ranvier o axônio está exposto e em contato</p><p>direto com o líquido extracelular (PURVES et al., 2018)</p><p>Os nódulos de Ranvier desempenham um papel essencial na con-</p><p>dução dos impulsos nervosos ao longo dos axônios mielinizados, algo</p><p>fundamental no processo de condução saltatória, em que, como vi-</p><p>mos na Figura 4, o impulso nervoso “pula” de um nódulo de Ranvier</p><p>para o outro, contornando as regiões isoladas do axônio cobertas</p><p>pela bainha de mielina. Esse salto acelera significativamente o pro-</p><p>cesso de condução em comparação com a condução contínua ao lon-</p><p>go de axônios não mielinizados. Ao permitir a condução rápida, os</p><p>nódulos de Ranvier são fundamentais para garantir o funcionamento</p><p>eficaz do sistema nervoso.</p><p>Neurodesenvolvimento 21</p><p>1.3.1 Principais funções</p><p>Agora que já analisamos as estruturas funcionais mais importantes</p><p>dos neurônios, vejamos quais são as principais funções que essas célu-</p><p>las especializadas desempenham no sistema nervoso. São elas:</p><p>Recepção e transmissão de sinais: os neurônios recebem sinais de</p><p>outros neurônios ou receptores sensoriais por meio de seus dendritos.</p><p>Esses sinais, que chegam na forma de impulsos elétricos – também</p><p>chamados de potenciais de ação – são transmitidos ao longo do axônio</p><p>para os terminais axônicos.</p><p>Integração de informações: os neurônios integram e processam os</p><p>sinais recebidos de várias fontes. No corpo celular, os sinais recebidos</p><p>de diferentes dendritos são combinados e integrados para determinar</p><p>se o neurônio deve ou não transmitir um sinal para outros neurônios.</p><p>Esse processo de integração permite ao neurônio modular e regular o</p><p>fluxo de informações dentro do sistema nervoso.</p><p>Transmissão de sinais para células-alvo: quando um potencial de</p><p>ação (impulso elétrico) atinge os terminais axônicos, ele desenca-</p><p>deia a liberação de mensageiros químicos – chamados de neuro-</p><p>transmissores – que atravessam a lacuna sináptica e se ligam a</p><p>receptores nas células-alvo, como outros neurônios, músculos ou</p><p>glândulas. Essa transmissão de sinais entre neurônios ou de neurô-</p><p>nios para outras células permite a comunicação e coordenação de</p><p>várias funções no corpo.</p><p>Os neurônios desempenham um papel crítico na transmissão e</p><p>processamento de informações, permitindo a comunicação e a coor-</p><p>denação dentro do sistema nervoso. Eles formam redes e caminhos</p><p>complexos que fundamentam o funcionamento de nossos sentidos,</p><p>pensamentos, movimentos e processos fisiológicos gerais.</p><p>Antigamente, acreditava-se que nascíamos com uma certa quanti-</p><p>dade de neurônios e que, “morrendo” ao longo da vida, eles não eram</p><p>substituídos por outros, o que aparentemente justificava a perda cog-</p><p>nitiva com o avançar da idade cronológica. Porém, pesquisas atuais</p><p>22 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>afirmam que o nosso cérebro funciona como se fosse um músculo do</p><p>corpo: quanto mais você o utiliza, mais ele cresce e se desenvolve. Logo,</p><p>quanto mais utilizamos nosso cérebro em atividades que o desafiam,</p><p>como estudos, leituras, jogos e atividades físicas, mais ele se desenvol-</p><p>ve. Novos neurônios nascem na região do hipocampo, e os neurônios</p><p>antigos são capazes de ampliar os seus axônios, criando redes cada vez</p><p>maiores e mais complexas (PURVES et al., 2018).</p><p>Esse conceito é denominado de neuroplasticidade, que nada mais é</p><p>do que a capacidade do cérebro de mudar e de se reorganizar ao longo</p><p>da vida de um indivíduo em resposta a experiências, aprendizado e in-</p><p>fluências ambientais. É a capacidade do cérebro de se adaptar, formar</p><p>novas conexões neurais e modificar as existentes.</p><p>Tradicionalmente, acreditava-se que a estrutura e a função do cé-</p><p>rebro eram relativamente fixas e rígidas após uma certa idade. No</p><p>entanto, pesquisas recentes demonstraram que o cérebro é altamen-</p><p>te maleável e tem a capacidade de reorganizar suas vias neurais e se</p><p>adaptar a novas circunstâncias. A neuroplasticidade permite que o cé-</p><p>rebro modifique suas conexões, fortaleça ou enfraqueça sinapses e até</p><p>gere novos neurônios (PURVES et al., 2018).</p><p>Existem duas formas primárias de neuroplasticidade, a estrutural e</p><p>a funcional:</p><p>Plasticidade estrutural</p><p>Capacidade do cérebro de</p><p>reorganizar fisicamente</p><p>sua estrutura.</p><p>Plasticidade funcional</p><p>Capacidade do cérebro de</p><p>mudar funções de áreas</p><p>que foram danificadas para</p><p>áreas não danificadas.</p><p>Ri</p><p>bk</p><p>ha</p><p>n/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>A plasticidade estrutural refere-se à capacidade do cérebro de reor-</p><p>ganizar fisicamente sua estrutura. Envolve mudanças no tamanho e na</p><p>forma dos neurônios, a formação de novas conexões entre os neurônios</p><p>(sinaptogênese) e a eliminação das conexões existentes (poda sináptica).</p><p>A plasticidade estrutural é particularmente proeminente durante o de-</p><p>senvolvimento inicial do cérebro nos primeiros anos de vida, mas conti-</p><p>nua ao longo da vida em menor grau (PURVES et al., 2018).</p><p>Neurodesenvolvimento 23</p><p>Já a plasticidade funcional corresponde à capacidade do cérebro</p><p>de mudar funções de áreas que foram danificadas para áreas não dani-</p><p>ficadas. Quando uma determinada região do cérebro é lesionada ou so-</p><p>fre alterações, outras regiões podem assumir ou compensar as funções</p><p>perdidas (PURVES et al., 2018). Por exemplo, após um acidente vascular</p><p>cerebral (AVC), as áreas não afetadas do cérebro podem se reorganizar e</p><p>assumir as funções anteriormente desempenhadas pela área danificada.</p><p>A neuroplasticidade tem implicações muito significativas para o</p><p>aprendizado, memória, aquisição de habilidades e recuperação de le-</p><p>sões cerebrais ou distúrbios neurológicos. Ela permite a aquisição de</p><p>novos conhecimentos e habilidades, bem como a capacidade de adap-</p><p>tação a ambientes em mudança, além do potencial de reabilitação após</p><p>danos cerebrais. É por meio da neuroplasticidade que o cérebro con-</p><p>segue recuperar e readquirir funções após um trauma ou compensar</p><p>déficits cognitivos.</p><p>Fatores que influenciam a neuroplasticidade incluem enriquecimen-</p><p>to ambiental, experiências ricas de aprendizagem, exercício físico e in-</p><p>terações sociais. Escolhas positivas de estilo de vida e atividades que</p><p>desafiem o cérebro podem promover e aumentar a neuroplasticidade</p><p>do cérebro.</p><p>Por outro lado, tudo aquilo que não utilizarmos em nosso cérebro</p><p>pode fatalmente se perder, é o conceito de use it or lose it – que, em</p><p>uma tradução livre, significa use ou perca. Por exemplo, se aprende-</p><p>mos uma segunda língua, mas não fazemos uso dela regularmente,</p><p>esse conhecimento vai se perdendo aos poucos, em função do enfra-</p><p>quecimento das redes neurais que dão suporte a esse aprendizado ad-</p><p>quirido que não é exercitado.</p><p>1.4 Etapas do neurodesenvolvimento infantil</p><p>Vídeo</p><p>Quando falamos em desenvolvimento humano, nos referimos</p><p>ao estudo dos processos sistemáticos de mudança que ocorrem nas</p><p>pessoas. Os pesquisadores do desenvolvimento humano afirmam que</p><p>nos transformamos desde a nossa concepção até a maturidade, em</p><p>um processo que se desenvolve ao longo de toda a vida conhecido</p><p>como desenvolvimento do ciclo de vida. De acordo com as pesquisadoras</p><p>Diane Papalia e Ruth Feldman (2013, p. 37):</p><p>24 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>Quase desde o começo, o estudo do desenvolvimento humano</p><p>tem sido interdisciplinar. Alimenta-se de um amplo espectro de</p><p>disciplinas que incluem psicologia, psiquiatria, sociologia, antro-</p><p>pologia, biologia, genética, ciência da família (estudo interdiscipli-</p><p>nar sobre as relações familiares, educação, história e medicina).</p><p>Ainda segundo as referidas autoras, os ciclos da vida referem-se</p><p>aos diferentes estágios ou períodos pelos quais os indivíduos passam</p><p>à medida que progridem desde o nascimento até a velhice. Do ponto</p><p>de vista do neurodesenvolvimento, o desenvolvimento infantil também</p><p>pode ser dividido em várias fases, cada uma caracterizada</p><p>por mudan-</p><p>ças significativas na estrutura e nas funções cerebrais.</p><p>O período pré-natal abrange desde a concepção até o nascimento.</p><p>Papalia e Feldman (2013) caracterizam o desenvolvimento pré-natal in-</p><p>cluindo os estágios germinativo, embrionário e fetal, destacando-se o rá-</p><p>pido crescimento e diferenciação de órgãos e sistemas durante essa fase:</p><p>Hs</p><p>tro</p><p>ng</p><p>AR</p><p>T/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>Inicia-se na concepção e dura aproximadamente duas</p><p>semanas. Durante esse período, o óvulo fertilizado</p><p>sofre divisão celular e forma um blastocisto, que even-</p><p>tualmente se implanta na parede uterina.</p><p>Inicia-se por volta das semanas três a oito da gravidez.</p><p>É caracterizado pelo rápido desenvolvimento dos princi-</p><p>pais órgãos, tecidos e sistemas do corpo. O tubo neural</p><p>se forma, dando origem ao cérebro e à medula espinhal.</p><p>Inicia-se na semana 9 de gestação até o nascimento. O</p><p>feto experimenta crescimento e desenvolvimento cere-</p><p>bral significativo, refinamento das conexões neurais e</p><p>formação de estruturas mais especializadas.</p><p>Estágio</p><p>germinal</p><p>Estágio</p><p>embrionário</p><p>Estágio</p><p>fetal</p><p>Em seguida, o ciclo da primeira infância refere-se ao período desde</p><p>o nascimento até aproximadamente os 3 anos de idade. Esse período é</p><p>caracterizado pelo crescimento físico, desenvolvimento motor, aumen-</p><p>to das capacidades sensoriais e o desenvolvimento inicial de apego e</p><p>das interações sociais. Durante essa fase, que abrange os primeiros</p><p>anos de vida, há um crescimento cerebral significativo e a poda sináp-</p><p>tica, além de surgirem as habilidades motoras, o desenvolvimento da</p><p>linguagem e as habilidades cognitivas. Experiências sensoriais e moto-</p><p>O vídeo O neurodesenvolvi-</p><p>mento infantil mostra como</p><p>os estímulos dos pais têm</p><p>influência no neurodesen-</p><p>volvimento do bebê.</p><p>Disponível: https://youtu.be/4ywP-</p><p>KOo9W9g?si=0ESC0no5VHTFRfs9.</p><p>Acesso em: 31 out. 2023.</p><p>Vídeo</p><p>Ol</p><p>lyy</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>Ol</p><p>lyy</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>ras desempenham um papel crucial na formação de conexões neurais</p><p>(PAPALIA; FELDMAN, 2013).</p><p>A segunda infância abrange o período de cerca de 3 aos 6 anos</p><p>de idade. Durante essa fase, apreciamos o desenvolvimento de habi-</p><p>lidades de linguagem, habilidades cognitivas e pensamento simbólico.</p><p>As crianças já são capazes de explorar o surgimento do autoconceito,</p><p>identidade de gênero e interações sociais com os pares. A imaturidade</p><p>cognitiva é responsável por algumas ideias ilógicas, porém a inteligên-</p><p>cia se torna mais previsível (PAPALIA; FELDMAN, 2013).</p><p>O ciclo da terceira infância compreende o período dos 6 aos 11</p><p>anos de idade. Nessa fase podemos identificar o desenvolvimento con-</p><p>tínuo de habilidades cognitivas, incluindo memória, resolução de pro-</p><p>blemas e pensamento lógico, embora concretamente. É o período em</p><p>que o cérebro continua a amadurecer e há um maior refinamento das</p><p>habilidades motoras, de memória e linguagem. Há uma crescente im-</p><p>portância nas relações sociais, amizades e o desenvolvimento do senso</p><p>de diligência e competência (PAPALIA; FELDMAN, 2013).</p><p>A adolescência é o ciclo que vai aproximadamente dos 11 aos 20</p><p>anos de idade, caracterizado por mudanças físicas, cognitivas e socioe-</p><p>mocionais. Nesse período apresenta-se a formação da identidade, as</p><p>relações entre pares, o desenvolvimento do pensamento abstrato e os</p><p>desafios e oportunidades da adolescência (PAPALIA; FELDMAN, 2013).</p><p>Do ponto de vista do neurodesenvolvimento, a fase é caracterizada</p><p>pelo início de mudanças hormonais significativas e pela maturação do</p><p>córtex pré-frontal, que desempenha um papel fundamental nas fun-</p><p>ções executivas, na tomada de decisões e no controle dos impulsos. O</p><p>desenvolvimento do cérebro continua, particularmente em áreas asso-</p><p>ciadas ao julgamento, raciocínio e regulação emocional. Os adolescen-</p><p>tes ganham mais independência, refinam suas habilidades cognitivas e</p><p>se preparam para a vida adulta.</p><p>É importante observar que essas fases são aproximadas e podem</p><p>ocorrer variações individuais no desenvolvimento. Além disso, o neu-</p><p>rodesenvolvimento é influenciado por fatores genéticos, experiên-</p><p>cias ambientais, nutrição e vários outros fatores, todos</p><p>os quais contribuem para a trajetória única de cres-</p><p>cimento e desenvolvimento de uma criança.</p><p>O livro de Diane Papalia e</p><p>Ruth Feldman, Desen-</p><p>volvimento humano, é</p><p>considerado referência no</p><p>desenvolvimento humano</p><p>e traz uma base teórica</p><p>sólida sobre o desenvolvi-</p><p>mento infantil. Uma leitura</p><p>imperdível para quem</p><p>deseja aprofundar-se</p><p>neste tema.</p><p>PAPALIA, D.; FELDMAN, R. D. Porto</p><p>Alegre: Artmed, 2013.</p><p>Livro</p><p>NeurodesenvolvimentoNeurodesenvolvimento 2525</p><p>26 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>Neste capítulo, aprendemos que o sistema nervoso é uma rede com-</p><p>plexa de células e estruturas que desempenham um papel vital na coor-</p><p>denação e regulação das funções corporais. É por meio dele que se dá</p><p>a comunicação entre diferentes partes do corpo e o processamento e</p><p>a interpretação da informação sensorial, por isso o sistema nervoso é</p><p>essencial para a cognição, movimento, percepção sensorial e homeostase</p><p>fisiológica geral. É por meio dele que interagimos com o mundo e o inter-</p><p>pretamos, desenvolvendo nossas habilidades cognitivas e sociais. Além</p><p>disso, é com esse sistema que construímos o nosso psiquismo e estabele-</p><p>cemos o nosso lugar no mundo e na sociedade em que vivemos.</p><p>Para desempenhar essas funções, o sistema nervoso é protegido por</p><p>vários mecanismos de garantia de sua integridade e bom funcionamento.</p><p>Essas medidas de proteção incluem o crânio e a coluna vertebral, que</p><p>protegem o cérebro e a medula espinhal, respectivamente. Além disso,</p><p>o SNC é cercado por membranas protetoras chamadas meninges e é ain-</p><p>da amortecido pelo líquido cefalorraquidiano. Essas proteções ajudam a</p><p>proteger o delicado tecido neural de lesões ou danos. Ao longo do ca-</p><p>pítulo, também aprendemos sobre a importância dos neurônios como</p><p>blocos de construção fundamentais do sistema nervoso. Os neurônios</p><p>desempenham um papel crucial no processamento de informações, per-</p><p>cepção sensorial, controle motor e funções cognitivas; são responsáveis</p><p>por transmitir e integrar sinais, permitindo pensamentos, emoções e com-</p><p>portamentos complexos.</p><p>Quando analisamos o desenvolvimento infantil do ponto de vista da</p><p>neurociência, observamos que o neurodesenvolvimento se refere às mu-</p><p>danças progressivas que ocorrem no sistema nervoso durante a infância</p><p>e a adolescência. O neurodesenvolvimento envolve o crescimento, ama-</p><p>durecimento e refinamento das conexões neurais que moldam o desen-</p><p>volvimento cognitivo, motor e socioemocional. Compreender os estágios</p><p>do neurodesenvolvimento infantil é essencial para identificar possíveis</p><p>atrasos, fornecer intervenções apropriadas e promover crescimento e</p><p>bem-estar ideais.</p><p>Nesse contexto, observamos que a questão biopsicossocial permeia o</p><p>neurodesenvolvimento infantil em toda a sua extensão. O ambiente que</p><p>envolve a criança tem um impacto relevante no neurodesenvolvimento</p><p>saudável, bem como as interações sociais e a qualidade do vínculo de</p><p>afetividade que os adultos estabelecem com ela.</p><p>Neurodesenvolvimento 27</p><p>Sendo assim, o sistema nervoso é vital para coordenar as funções cor-</p><p>porais e permitir a comunicação entre as diferentes partes do corpo. As</p><p>divisões do sistema nervoso, as proteções do sistema nervoso central e as</p><p>funções dos neurônios contribuem para o seu funcionamento adequado.</p><p>Além disso, compreender os estágios do neurodesenvolvimento infantil</p><p>ajuda a identificar e apoiar o crescimento e o desenvolvimento saudável</p><p>das crianças.</p><p>ATIVIDADES</p><p>Atividade 1</p><p>Descreva as funções que compõem o sistema nervoso.</p><p>Atividade 2</p><p>Comente sobre as principais funções dos neurônios.</p><p>Atividade 3</p><p>Na idade adulta, o cérebro tem uma estrutura rígida, pois seu</p><p>desenvolvimento já se completou na infância. Essa afirmação é</p><p>verdadeira? Comente.</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>BEAR, M. F.; CONNORS, B. W.; PARADISO, M. A. Neurociências: desvendando o sistema</p><p>nervoso. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.</p><p>HALL, J. E.; HALL,</p><p>M. E. Guyton & Hall – Tratado de Fisiologia Médica. 14. ed. Rio de Janeiro:</p><p>Gen/Guanabara Koogan, 2021.</p><p>OLIVEIRA, M. A. D. Neuropsicologia básica. Canoas: Ulbra, 2005.</p><p>PAPALIA, D. E.; FELDMAN, R. D. Desenvolvimento humano. Porto Alegre: Artmed, 2013.</p><p>PURVES, D. et al. (ed.). Neuroscience. 6. ed. Nova York: Oxford University Press, 2018.</p><p>28 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>2</p><p>Transtornos do</p><p>neurodesenvolvimento</p><p>Neste capítulo, iremos conhecer os transtornos do neurodesenvolvi-</p><p>mento e como eles reverberam em todo o desenvolvimento psicossocial</p><p>da criança e do adolescente, perpassando as expectativas dos pais e pro-</p><p>fessores. É importante mantermos um olhar atento e gentil, compreenden-</p><p>do que para além de um diagnóstico, seja ele qual for, há um ser humano</p><p>único que vivencia tal diagnóstico de modo único e singular.</p><p>Aprenderemos a identificar os transtornos do neurodesenvolvimento</p><p>mais comuns e a compreender suas consequências para o desenvolvi-</p><p>mento infantil. Também refletiremos sobre o conceito da atualidade cha-</p><p>mado de nature versus nurture, que utiliza termos da língua inglesa para</p><p>abordar uma ciência que estuda até que ponto nosso comportamento</p><p>tem suas bases na natureza (nature), ou seja, nos nossos genes, e até que</p><p>ponto esse mesmo comportamento pode ser modificado pelo conceito</p><p>de criação (nurture), ou seja, aquilo que nos é ensinado em nosso ambien-</p><p>te durante nosso desenvolvimento.</p><p>Conheceremos a perspectiva da epigenética na compreensão do desen-</p><p>volvimento humano e como se dá o funcionamento cerebral no que tange o</p><p>processamento de informações. Ao final deste capítulo, refletiremos sobre</p><p>as contribuições da neurociência cognitiva para a compreensão dos trans-</p><p>tornos do neurodesenvolvimento e como esses estudos podem auxiliar na</p><p>melhoria da qualidade de vida daqueles que são afetados por eles.</p><p>Com o estudo deste capítulo, você será capaz de:</p><p>• identificar os transtornos do neurodesenvolvimento mais comuns e</p><p>compreender suas consequências para o desenvolvimento infantil;</p><p>• refletir sobre o conceito de nature ou nurture e as pesquisas que o</p><p>embasam na atualidade;</p><p>• conhecer a perspectiva da epigenética na compreensão do desen-</p><p>volvimento humano;</p><p>(Continua)</p><p>Objetivos de aprendizagem</p><p>Transtornos do neurodesenvolvimento 29</p><p>• entender como se processa o funcionamento cerebral;</p><p>• validar as contribuições da neurociência cognitiva para a com-</p><p>preensão dos transtornos do neurodesenvolvimento.</p><p>2.1 Principais transtornos do</p><p>neurodesenvolvimento Vídeo</p><p>Para iniciarmos nossa discussão sobre os transtornos do neurode-</p><p>senvolvimento, é preciso antes fazermos uma viagem ao passado. Ao</p><p>longo da história, as pessoas com deficiências ou transtornos de neu-</p><p>rodesenvolvimento foram chamadas de diversos nomes pejorativos,</p><p>que não são mais utilizados na atualidade – como deficientes mentais,</p><p>mente fraca, idiotas, tolos etc. Esses nomes têm base em um modelo</p><p>de defectologia, que afirmava que as pessoas com deficiências e/ou</p><p>limitações em suas áreas intelectuais, socioculturais ou comportamen-</p><p>tais ficavam para trás em comparação com as pessoas chamadas neu-</p><p>rotípicas durante o período de desenvolvimento. Logo, indivíduos com</p><p>qualquer tipo de transtorno ou déficit eram classificados apenas com</p><p>base em suas fragilidades (MCNABB, 2020).</p><p>As pessoas com transtornos do neurodesenvolvimento foram discri-</p><p>minadas e viveram sob opressão durante todo o período antigo. Na Gré-</p><p>cia Antiga, por exemplo, os bebês nascidos com deficiência eram jogados</p><p>de topos de montanhas ou abandonados ao relento, não tendo qualquer</p><p>chance de sobrevivência. O nascimento de uma criança com deficiência</p><p>era considerado uma maldição, um castigo dos deuses para os pais, e,</p><p>segundo as literaturas, as mulheres eram proibidas de engravidarem se</p><p>houvesse alguma possibilidade de terem um filho com algum tipo de de-</p><p>ficiência. Aristóteles recomendou o infanticídio e Platão sugeriu que mu-</p><p>lheres com mais de quarenta anos deveriam praticar o aborto. Na antiga</p><p>região de Esparta, havia uma responsabilidade legal de abandonar crian-</p><p>ças deformadas e doentes (GROFF, 1973).</p><p>Durante a Idade Média, as pessoas com transtornos do neurode-</p><p>senvolvimento eram cuidadas, principalmente, por seus familiares</p><p>ou pela sociedade na Europa até o período de industrialização, ini-</p><p>ciado no século XVIII.</p><p>30 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>Tavrius/Shutterstock</p><p>Na Era Moderna, com as mudanças sociais, surgiram novos desafios</p><p>para as pessoas com deficiência, principalmente com o surgimento do</p><p>conceito de instituições para pessoas com deficiências intelectuais e fí-</p><p>sicas, que se tornaram muito populares e se desenvolveram em vários</p><p>lugares durante esse período. Embora inicialmente o conceito fosse</p><p>dar apoio às pessoas com deficiência, essas instituições ficaram super-</p><p>lotadas e se transformaram em um palco para várias formas de abuso,</p><p>especialmente as instituições financiadas com recursos públicos.</p><p>Havia também outra ideia, conhecida como eugenia, que</p><p>surgiu de uma interpretação deturpada da teoria de</p><p>Charles Darwin sobre a evolução e sobrevivência do</p><p>mais apto. Introduzida pela primeira vez pelo primo</p><p>de Darwin, Sir Arthur Galton, em 1880, os defensores</p><p>da eugenia acreditavam que era possível melhorar a</p><p>qualidade genética da população humana por meio</p><p>da reprodução seletiva, ou seja, pelo encorajamento</p><p>da reprodução de indivíduos com características ditas</p><p>desejáveis e o desencorajamento – ou simplesmente im-</p><p>pedimento – da reprodução daqueles com características consi-</p><p>deradas indesejáveis por eles (BROWN; RADFORD, 2015).</p><p>O conceito de eugenia se dividia em dois: a eugenia positi-</p><p>va envolvia encorajar indivíduos com características consideradas</p><p>desejáveis – como inteligência, força física e boa saúde – a terem mais</p><p>filhos, algo que poderia ser alcançado pela promoção do casamento</p><p>e da reprodução entre tais indivíduos; a eugenia negativa, por outro</p><p>lado, focava em prevenir que indivíduos com características conside-</p><p>radas indesejáveis – como doenças, deficiências ou comportamento</p><p>criminoso – tivessem filhos. Para Galton, isso poderia envolver a imple-</p><p>mentação de políticas como esterilização, segregação ou até mesmo</p><p>eutanásia (BROWN; RADFORD, 2015).</p><p>Numerosos métodos evoluíram para desencorajar esses indiví-</p><p>duos de grupos segregados a criarem suas famílias, um conceito que</p><p>foi amplamente aceito nos países industrializados, que promoviam</p><p>essas práticas ao separarem homens e mulheres internados em asi-</p><p>los. Programas de esterilização foram estabelecidos para pessoas com</p><p>deficiência, em que métodos perversos de esterilização forçada foram</p><p>realizados (BROWN; RADFORD, 2015). Apesar de ter sido amplamente</p><p>utilizada em vários países – levando a abusos de direitos humanos, dis-</p><p>Transtornos do neurodesenvolvimento 31</p><p>criminação e violação da autonomia individual –, a teoria de eugenia de</p><p>Galton foi completamente desacreditada e rechaçada pela comunidade</p><p>científica devido a sua natureza antiética e a falta de validade científica.</p><p>Avançando pela Era Contemporânea, desde meados do século XIX,</p><p>algumas das instituições focadas em acolherem indivíduos com defi-</p><p>ciências começaram a fechar. Com o avanço do conhecimento sobre de-</p><p>ficiências intelectuais e físicas, a percepção das pessoas com relação às</p><p>deficiências começou a mudar. Como resultado, programas para treinar</p><p>esses indivíduos, para torná-los parte da sociedade – não mais segre-</p><p>gando-os –, lentamente se desenvolveram. As pessoas com deficiência e</p><p>suas famílias tornaram-se mais conscientes de seus direitos, o que tam-</p><p>bém contribuiu para essas mudanças. A partir desse período, pessoas</p><p>com deficiência foram autorizadas a fazerem parte do sistema escolar e</p><p>receberem educação e treinamento especial (BROWN; RADFORD, 2015).</p><p>Grécia Antiga</p><p>O nascimento de uma criança com deficiência era considerado uma maldição, um</p><p>castigo dos deuses para os pais.</p><p>Idade Média</p><p>Pessoas com transtornos do neurodesenvolvimento eram cuidadas</p><p>principal-</p><p>mente por seus familiares ou pela sociedade.</p><p>Era Moderna</p><p>O conceito de instituições para pessoas com deficiências intelectuais e físicas tor-</p><p>nou-se popular. Também surgiu a ideia de eugenia, que encorajava a reprodução</p><p>de indivíduos com características ditas desejáveis e buscava prevenir a repro-</p><p>dução daqueles com características indesejáveis, como doenças, deficiências ou</p><p>comportamento criminoso.</p><p>Era Contemporânea</p><p>Começaram a ser desenvolvidos programas para treinar pessoas com deficiência.</p><p>Além disso, pessoas com deficiência foram autorizadas a fazerem parte do siste-</p><p>ma escolar e receberem educação e treinamento especial.</p><p>32 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>Voltando da nossa viagem ao passado para os dias atuais, podemos</p><p>dizer que os distúrbios do neurodesenvolvimento são um grupo de con-</p><p>dições que afeta o desenvolvimento e o funcionamento do sistema ner-</p><p>voso, principalmente do cérebro. Esses distúrbios geralmente surgem</p><p>durante a primeira infância e são caracterizados por deficiências em vá-</p><p>rios aspectos do desenvolvimento neurológico, incluindo cognição, com-</p><p>portamento, interação social, comunicação e habilidades motoras.</p><p>Acredita-se que os distúrbios do neurodesenvolvimento resultem de uma</p><p>combinação de fatores genéticos e ambientais que perturbam o crescimento</p><p>e a organização típicos do cérebro. As causas específicas desses distúrbios</p><p>costumam ser complexas, multifatoriais e não totalmente compreendidas,</p><p>mas as pesquisas da atualidade sugerem que tanto as predisposições gené-</p><p>ticas quanto as influências ambientais desempenham um importante papel.</p><p>As classificações dos transtornos do neurodesenvolvimento foram</p><p>feitas com base em suas apresentações clínicas, e há muitas sugestões</p><p>para mudanças nessas classificações. Existe uma sobreposição signi-</p><p>ficativa de sintomas entre os vários transtornos do neurodesenvolvi-</p><p>mento e eles compartilham características comuns, como o TEA e o</p><p>TDAH. Portanto, usar o termo geral transtornos do neurodesenvolvimen-</p><p>to ajuda a reconhecer as semelhanças e a sobreposição de sintomas</p><p>entre esses distúrbios (GAUDET; GALLAGHER, 2020).</p><p>Embora exista uma ampla classificação dos transtornos do neuro-</p><p>desenvolvimento, de acordo com Artigas-Pallarés, Guitart e Gabau-Vila</p><p>(2013), eles podem ser divididos em três grandes grupos:</p><p>transtornos sem causa específica;</p><p>transtornos que residem em um gene específico;</p><p>transtornos que residem em uma causa ambiental conhecida.</p><p>An</p><p>dr</p><p>ew</p><p>K</p><p>ra</p><p>so</p><p>vit</p><p>ck</p><p>ii/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>Transtornos do neurodesenvolvimento 33</p><p>Os transtornos do neurodesenvolvimento que não têm uma</p><p>causa específica – isto é, não têm base genética – compreendem</p><p>todos os transtornos encontrados na quinta edição do Manual diag-</p><p>nóstico e estatístico de transtornos mentais sob a denominação de</p><p>distúrbios do neurodesenvolvimento, e são (APA, 2014): Deficiência</p><p>Intelectual (DI), transtornos da comunicação, transtorno do espec-</p><p>tro autista (TEA), transtorno do déficit de atenção/hiperatividade</p><p>(TDAH), transtornos específicos de aprendizagem, transtornos mo-</p><p>tores e transtornos de tique.</p><p>No segundo grupo, encontramos os transtornos do neurodesenvol-</p><p>vimento que residem em um gene específico e que estão ligados a</p><p>alterações estruturais, como a síndrome de Down, a síndrome de Rett,</p><p>a síndrome de Williams, entre outras. Quanto ao terceiro grupo, nele</p><p>estão os transtornos do neurodesenvolvimento que residem em uma</p><p>causa ambiental conhecida, como a síndrome alcoólica fetal, altera-</p><p>ções embrionárias por ácido valproico etc.</p><p>Os sintomas e a gravidade dos distúrbios do neurodesenvolvi-</p><p>mento podem variar amplamente, com algumas crianças tendo de-</p><p>ficiências leves, que afetam apenas ligeiramente suas vidas diárias,</p><p>enquanto outras podem enfrentar desafios significativos, que re-</p><p>querem apoio e intervenções contínuas. A identificação precoce e</p><p>o diagnóstico de distúrbios do neurodesenvolvimento são cruciais</p><p>para intervenção e suporte oportunos, pois com intervenções apro-</p><p>priadas, como terapia comportamental, apoio educacional e, por ve-</p><p>zes, medicamentos, os indivíduos com essas especificidades podem</p><p>levar uma vida plena e produtiva, alcançando todo o seu potencial</p><p>dentro de suas capacidades individuais.</p><p>É importante observarmos que a identificação ou não de distúrbios do neu-</p><p>rodesenvolvimento não é indicativo da inteligência ou do potencial de uma</p><p>pessoa, pois cada indivíduo tem pontos fortes e desafios únicos e, com o</p><p>apoio e a compreensão adequados, eles podem prosperar e contribuir para a</p><p>sociedade de modo significativo.</p><p>Partindo dessa conceituação, no Quadro 1 vemos os transtornos</p><p>do neurodesenvolvimento mais comuns em crianças e suas respec-</p><p>tivas características.</p><p>O livro de Emanoele</p><p>Freitas, Transtornos do</p><p>neurodesenvolvimento: co-</p><p>nhecimento, planejamento</p><p>e inclusão real, traz uma</p><p>abordagem humanizada</p><p>da real condição da pes-</p><p>soa com transtornos do</p><p>neurodesenvolvimento e</p><p>como este diagnóstico se</p><p>manifesta no processo</p><p>de aprendizagem. A</p><p>obra tem uma linguagem</p><p>acessível aos profis-</p><p>sionais da educação e</p><p>contempla os processos</p><p>de adaptação em todas</p><p>as etapas de ensino.</p><p>FREITAS, E. Rio de Janeiro: WAK, 2019.</p><p>Livro</p><p>Aquarius Studio/Shutterstock</p><p>Aquarius Studio/Shutterstock</p><p>Quadro 1</p><p>Principais transtornos e suas características</p><p>Transtorno Descrição</p><p>Transtorno do espectro</p><p>autista (TEA)</p><p>O TEA é um transtorno do desenvolvimento caracteriza-</p><p>do por dificuldades na interação social e comunicação,</p><p>além de comportamentos restritos e repetitivos.</p><p>Transtorno do déficit</p><p>de atenção/hiperativi-</p><p>dade (TDAH)</p><p>O TDAH é uma condição que afeta a capacidade da</p><p>criança de prestar atenção, controlar comportamentos</p><p>impulsivos e pode incluir hiperatividade.</p><p>Deficiência intelectual</p><p>(DI)</p><p>A DI refere-se a limitações significativas no funciona-</p><p>mento intelectual e no comportamento adaptativo. Ge-</p><p>ralmente se manifesta antes dos 18 anos.</p><p>Transtornos específicos</p><p>de aprendizagem</p><p>Esses transtornos afetam a aquisição e o uso de habi-</p><p>lidades acadêmicas específicas, como leitura, escrita ou</p><p>matemática. A dislexia, por exemplo, é um distúrbio es-</p><p>pecífico de aprendizagem que afeta as habilidades de</p><p>leitura.</p><p>Distúrbios da comuni-</p><p>cação</p><p>Esses distúrbios envolvem dificuldades na fala, lingua-</p><p>gem e comunicação, e incluem condições como distúr-</p><p>bio do som da fala, distúrbio da linguagem e gagueira.</p><p>Transtorno do desen-</p><p>volvimento da coorde-</p><p>nação (TDC)/Transtor-</p><p>nos motores</p><p>Também conhecido como dispraxia, o TDC afeta a coor-</p><p>denação motora da criança e pode levar a dificuldades</p><p>com habilidades motoras finas e grossas.</p><p>Transtornos de tique/</p><p>síndrome de Tourette</p><p>A Síndrome de Tourette é um distúrbio neurológico</p><p>caracterizado pelos chamados tiques, que podem ser</p><p>movimentos repetitivos e involuntários e vocalizações.</p><p>Fonte: Elaborado pela autora.</p><p>É importante observarmos que a prevalência e a</p><p>categorização específica dos transtornos do neu-</p><p>rodesenvolvimento podem variar entre estudos</p><p>e critérios diagnósticos. Além disso, existem ou-</p><p>tros distúrbios do neurodesenvolvimento que</p><p>são menos comuns. O diagnóstico e o tratamen-</p><p>to devem ser conduzidos por profissionais de</p><p>saúde qualificados, com base em uma avalia-</p><p>ção minuciosa dos sintomas e das necessida-</p><p>des da criança. Também devem ser avaliados</p><p>os impactos psicossociais do transtorno na</p><p>vida da criança para que ela possa receber o</p><p>tratamento adequado, que leve em conside-</p><p>ração o ser integral e não apenas o diagnós-</p><p>tico ou suas limitações.</p><p>3434 Transtornos do NeurodesenvolvimentoTranstornos do Neurodesenvolvimento</p><p>Transtornos do neurodesenvolvimento 35</p><p>2.2 Nature ou nurture?</p><p>Vídeo</p><p>O conceito científico de nature (natureza) versus nurture (criação)</p><p>é um debate de longa data que busca entender quanto dos traços e</p><p>características de um indivíduo são influenciados por sua genética</p><p>(natureza) e o quanto deles é influenciado pelo ambiente e suas expe-</p><p>riências (criação). O debate gira em torno das contribuições relativas</p><p>dos</p><p>fatores genéticos e ambientais na formação de várias característi-</p><p>cas do desenvolvimento humano, como comportamento, personalida-</p><p>de, inteligência e saúde.</p><p>O lado da natureza do debate argumenta que nossa composição</p><p>genética desempenha um papel significativo na determinação de quem</p><p>somos. Isso sugere que traços e características são amplamente prede-</p><p>terminados por nossos genes herdados, que foram transmitidos pelos</p><p>nossos pais biológicos. De acordo com essa perspectiva, nosso código ge-</p><p>nético fornece o modelo para nossos atributos físicos e psicológicos.</p><p>Por outra perspectiva, o lado da criação do debate enfatiza a impor-</p><p>tância das influências ambientais. Essa perspectiva afirma que fatores ex-</p><p>ternos, como educação, interações sociais, contexto cultural, educação e</p><p>experiências, têm um impacto substancial na formação e no desenvolvi-</p><p>mento de um indivíduo. Os defensores desse ponto de vista acreditam que</p><p>os indivíduos são moldados pelo ambiente e que seu comportamento e</p><p>características são aprendidos por meio da interação com esse ambiente.</p><p>Lado da natureza (nature)</p><p>Argumenta que o nosso código genético</p><p>fornece o modelo para nossos atributos</p><p>físicos e psicológicos.</p><p>Lado da criação (nurture)</p><p>Afirma que o ambiente, ou seja, os fatores</p><p>externos, tem um impacto substancial na</p><p>formação e no desenvolvimento de um indivíduo.</p><p>No entanto, na atualidade, é amplamente aceito entre os cientistas</p><p>que o debate da natureza versus criação não é uma dicotomia, mas sim</p><p>An</p><p>dr</p><p>ew</p><p>K</p><p>ra</p><p>so</p><p>vit</p><p>ck</p><p>ii/</p><p>Sh</p><p>ut</p><p>te</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>36 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>uma interação complexa entre fatores genéticos e ambientais. Na reali-</p><p>dade, a maioria dos traços e características é influenciada por uma com-</p><p>binação de natureza e criação. De acordo com Dr. Raymond St. Leger, em</p><p>seu curso Genes and the human condition – from behavior to biotechnology</p><p>(traduzido do inglês, Os genes e a condição humana – do comportamento à</p><p>biotecnologia), quando comparamos os conceitos de natureza – herança</p><p>genética que recebemos de nossos pais biológicos – versus criação – am-</p><p>biente onde crescemos e nos desenvolvemos –, cada qual fica com 50%</p><p>daquilo que nos tornamos ao longo da nossa história de vida.</p><p>Pesquisas modernas em áreas como genética comportamental, biolo-</p><p>gia molecular e epigenética revelaram que os genes fornecem a base para</p><p>nosso potencial, mas eles interagem com o ambiente para moldar a ex-</p><p>pressão desses genes. Fatores ambientais podem influenciar a expressão</p><p>gênica por meio de vários mecanismos, incluindo modificações epigenéti-</p><p>cas que podem ativar ou desativar os genes. Mas o que isso, de fato, sig-</p><p>nifica? Isso significa que a nossa genética pode ser representada por uma</p><p>parede cheia de interruptores: cada interruptor representa um gene do</p><p>nosso organismo, e a interação com o ambiente durante o nosso processo</p><p>de desenvolvimento é capaz de ligar ou desligar cada um desses interrup-</p><p>tores. Assim sendo, o ambiente onde nos movemos é capaz de ativar ou</p><p>desativar os nossos genes, incluindo os genes que nos causam doenças.</p><p>Compreendermos a interação entre natureza e criação é importan-</p><p>te para estudarmos o desenvolvimento e o comportamento humano.</p><p>Esse conceito amplia a nossa compreensão a respeito das interações</p><p>complexas e dinâmicas entre nossos genes e os ambientes que habita-</p><p>mos, enfatizando que ambos os fatores contribuem para moldar quem</p><p>somos como indivíduos.</p><p>2.3 Perspectiva epigenética do</p><p>desenvolvimento humano Vídeo</p><p>A epigenética refere-se ao estudo das mudanças na expressão gêni-</p><p>ca ou no fenótipo celular que ocorrem sem alterações na sequência de</p><p>DNA subjacente, envolvendo modificações no DNA e suas proteínas as-</p><p>sociadas, que podem influenciar a atividade do gene, ativando-os ou de-</p><p>sativando-os. Essas modificações atuam como um mecanismo regulador,</p><p>determinando quais genes são expressos e quando (PURVES et al., 2018).</p><p>O vídeo Nosso comporta-</p><p>mento vem dos genes ou</p><p>da criação? O caso dos</p><p>trigêmeos separados traz</p><p>uma boa reflexão sobre</p><p>a influência genética e do</p><p>ambiente no desenvol-</p><p>vimento humano. Para</p><p>ilustrar os conceitos de</p><p>nature versus nurture, o</p><p>professor apresenta um</p><p>caso de irmãos trigêmeos</p><p>que foram adotados e</p><p>criados separadamente,</p><p>buscando identificar em</p><p>cada um dos irmãos os</p><p>traços que eram oriundos</p><p>da natureza (genéticos) e</p><p>da criação (ambiente).</p><p>Disponível em: https://youtu.</p><p>be/L1ad1NO7f_g?si=Bo5-</p><p>mwmuwyk2In_J. Acesso</p><p>em: 10 out. 2023.</p><p>Vídeo</p><p>An</p><p>us</p><p>or</p><p>n</p><p>Na</p><p>kd</p><p>ee</p><p>/S</p><p>hu</p><p>tte</p><p>rs</p><p>to</p><p>ck</p><p>O termo epigenética é derivado da palavra grega epi, que significa</p><p>acima ou em cima de, indicando que as modificações epigenéticas ocor-</p><p>rem acima ou além da própria sequência de DNA. Essas modificações</p><p>podem ser hereditárias, o que significa que podem ser transmitidas de</p><p>uma geração para outra, potencialmente levando a efeitos duradouros</p><p>na expressão gênica e na função celular (PURVES et al., 2018).</p><p>As modificações epigenéticas podem ocorrer por meio de vários</p><p>mecanismos, mas existem dois que são os mais bem estudados. O pri-</p><p>meiro é a metilação do DNA, que envolve a adição de um grupo metil</p><p>à molécula de DNA. Essa modificação geralmente ocorre em regiões</p><p>específicas, chamadas ilhas CpG, que são trechos de DNA em que um</p><p>nucleotídeo citosina (C) é seguido por um nucleotídeo guanina (G). A me-</p><p>tilação do DNA pode bloquear a expressão do gene, inibindo a ligação</p><p>dos fatores de transcrição ao DNA, silenciando efetivamente a atividade</p><p>do gene (PURVES et al., 2018). O segundo método são as modificações</p><p>de histonas, em que as histonas – proteínas em torno das quais o DNA</p><p>é enrolado – formam uma estrutura chamada de cromatina. Diferentes</p><p>modificações químicas, como acetilação, metilação, fosforilação e ubi-</p><p>quitinação, podem ocorrer nas histonas, alterando a acessibilidade do</p><p>DNA à maquinaria transcricional. Por exemplo, a acetilação de histonas</p><p>está associada à ativação de genes, enquanto a metilação pode estar</p><p>ligada ao silenciamento de genes (PURVES et al., 2018).</p><p>As modificações epigenéticas são dinâmicas e podem ser influencia-</p><p>das por uma variedade de fatores, incluindo exposições ambientais,</p><p>escolhas de estilo de vida, envelhecimento e processos de de-</p><p>senvolvimento. Elas podem ser reversíveis, o que significa que</p><p>podem ser alteradas ao longo da vida de um indivíduo, per-</p><p>mitindo a adaptação e resposta a ambientes em mudança.</p><p>Essas modificações têm sido aplicadas em vários processos</p><p>biológicos, incluindo desenvolvimento, diferenciação celular, enve-</p><p>lhecimento e doenças. Elas desempenham um papel crítico na</p><p>orquestração de padrões de expressão gênica, garantin-</p><p>do a ativação e o silenciamento apropriados de genes</p><p>em diferentes tipos de células e tecidos.</p><p>O estudo da epigenética fornece informações so-</p><p>bre como o ambiente pode interagir com nosso ma-</p><p>terial genético e influenciar os padrões de expressão</p><p>Transtornos do neurodesenvolvimentoTranstornos do neurodesenvolvimento 3737</p><p>38 Transtornos do Neurodesenvolvimento</p><p>gênica, moldando o desenvolvimento humano, a saúde e a suscetibili-</p><p>dade a doenças. Esses estudos também oferecem caminhos potenciais</p><p>para entender e potencialmente modificar a expressão gênica, melho-</p><p>rando os resultados de saúde (NAUMOVA; TAKETO-HOSOTANI, 2016).</p><p>A visão epigenética do desenvolvimento humano enfatiza o papel da</p><p>epigenética no desenvolvimento e no fenótipo de um indivíduo. A epige-</p><p>nética refere-se a mudanças na expressão gênica que não envolvem alte-</p><p>rações na sequência de DNA subjacente, mas envolvem modificações no</p><p>DNA e suas proteínas associadas que podem ativar ou desativar genes,</p><p>influenciando sua atividade e expressão (PURVES et al., 2018).</p><p>Os mecanismos epigenéticos desempenham um papel crucial no</p><p>desenvolvimento humano, regulando os padrões de expressão gênica</p><p>durante vários estágios da vida, incluindo o desenvolvimento embrio-</p><p>nário, o crescimento fetal, a infância e a idade adulta. Esses mecanis-</p><p>mos ajudam a determinar quais genes são ativados ou silenciados em</p><p>diferentes</p>

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