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<p>REGRAS DE DERIVA<;AO</p><p>Com o auxflio de morfes apropriados, podemos enriquecer consideravel-</p><p>mente o lexico da lfngua, desde que sejam respeitadas certas regras basicas.</p><p>Peca pela falta de born senso a atitude condenat6ria em relac;ao a todo equal-</p><p>quer neologismo ou palavra nao dicionarizada, sobretudo numa epoca em que</p><p>ideias e inventos novas surgem a cada dia.</p><p>Narremos um fato verfdico:</p><p>Uma bibliotecaria, ao redigir um relat6rio de suas atividades, empregou</p><p>espontaneamente o termo mapeamento. Em seguida, teve o cuidado de con-</p><p>sultar o dicionario e nao encontrou registrado o verbete. Decidiu entao telefo-</p><p>nar a um professor que, de modo intransigente, considerou errado o emprego</p><p>do vocabulo.</p><p>Ora, na realidade, houve apenas a aplicac;ao de duas regras de derivac;ao</p><p>perfeitamente admissfveis pela estrutura da lfngua. Tais regras podem ser as-</p><p>sim enunciadas:</p><p>2. (X)v [(X)v + mento]N</p><p>Pela primeira regra, dada uma base nominal X, produz-se um verbo medi-</p><p>ante o acrescimo do sufixo [e(ar)]:</p><p>capa</p><p>flor</p><p>claro</p><p>mapa</p><p>+</p><p>+</p><p>+</p><p>+</p><p>ear</p><p>ear</p><p>ear</p><p>ear</p><p>capear</p><p>florear</p><p>clarear</p><p>mapear</p><p>. De acordo com a segunda, dada uma base verbal X, forma-se um nome</p><p>abstrato com o auxflio de [mento]:</p><p>159</p><p>capear</p><p>julgar</p><p>tratar</p><p>mapear</p><p>+ mento</p><p>+ mento</p><p>+mento</p><p>+ mento</p><p>capeamento</p><p>julgamento</p><p>tratamento</p><p>mapeamento</p><p>Alguns sufixos sao extremamente ferteis, enquanto outros entram na</p><p>forma<;ao de raros vocabulos. Entre os improdutivos, mencionamos: [ebre]</p><p>(somente em casebre), [iz] (aprendiz), [er] (chanceler) e [ate] (engra-</p><p>xate).</p><p>A formula<;ao das regras deve levar em conta a natureza da base (se</p><p>nominal ou verbal) e o resultado (se nome abstrato, adjetivo, verbo ou ad-</p><p>verbio). A base X estabelece uma relac;ao paradigmatica entre semantemas</p><p>de identicas propriedades morfol6gicas e assim e imprevisf vel a freqiiencia</p><p>de aplicac;oes.</p><p>Eis algumas outras regras de derivac;ao bastante produtivas:</p><p>a) (X)v [(X)v + c;ao]N</p><p>coroar + c;ao coroac;ao</p><p>fixar + c;ao fixa<;ao</p><p>taxar + c;ao taxac;ao</p><p>punir + c;ao punic;ao</p><p>aferir + c;ao aferic;ao</p><p>b) (X)v [(X)v + agem]N</p><p>vadiar + agem vadiagem</p><p>lavar + agem lavagem</p><p>contar + agem contagem</p><p>pesar + agem pesagem</p><p>c) (X)y [(X)v + dor]N,Adi</p><p>guardar + dor guardador</p><p>cobrar + dor cobrador</p><p>veneer + dor vencedor</p><p>varrer + dor varredor</p><p>perder + dor perdedor</p><p>ganhar + dor ganhador</p><p>marcar + dor marcador</p><p>160</p><p>d) (X)Adi [(X)Adj + (i)dao]N</p><p>imenso +idao --) imensidao</p><p>escuro + idao --) escuridao</p><p>podre + idao --) podridao</p><p>servo + idao --) servidao</p><p>manso + idao --) mansidao</p><p>e) (X)Acti [(X)Acti + (i)dade]N</p><p>real + idade --) realidade</p><p>claro + idade --) claridade</p><p>final + idade --) finalidade</p><p>legal + idade --) legalidade</p><p>f) (X)v [(X)v + vel]Actj</p><p>saudar + vel --) saudavel</p><p>amar + vel --) amavel</p><p>punir + vel --) punfvel</p><p>passar + vel --) passavel</p><p>g) (X)N [ (X)N + udo] Adi</p><p>barriga +udo --) barrigudo</p><p>cabe~a +udo --) cabe~udo</p><p>orelha +udo --) orelhudo</p><p>peito + udo --) peitudo</p><p>bunda +udo --) bundudo</p><p>bei~o + udo --) bei~udo</p><p>h) (X)Adj--) [(X)Adj + mente]Adv</p><p>formal + mente --) formalmente</p><p>real + mente --) realmente</p><p>civil + mente --) civilmente</p><p>pobre + mente --) pobremente</p><p>triste + mente --) tristemente</p><p>Determinadas regras tern aplicabilidade quase total. Assim, a maioria dos</p><p>adjetivos se transforma em adverbio com o recurso ao sufixo [mente]. Todavia,</p><p>muitas outras regras se definem por um carater fortuito e assistematico, nao</p><p>apresentando qualquer tendencia a generaliza~oes. Como observa Rio-Torto</p><p>161</p><p>r</p><p>(1986:112), "raros sao os casos em que e possfvel predizer qua! dos rec</p><p>. d . d b 1 . , ursos afixais concorrentes se assocrn a etermma a ase ex1cal '.</p><p>Sem duvida, a explica<;ao reside na multiplicidade de sufixos com fun~~</p><p>significado identicos. Para a forma9ao dos adverbios, s6 ha uma probabil:</p><p>de: a adjun9ao de [mente] a adjetivos. Por isso, a regra adquire ur:a</p><p>aplicabilidade quase plena. Mas para a produ9ao de nomes abstratos ha varia</p><p>op<;oes. Pode-se ter, por exemplo, um dos sufixos [9ao], [mento], [agem] 0 ~</p><p>[(a,e)n9a], numa distribui9ao de certo modo aleat6ria.</p><p>Daf se justifica por que as regras da flexao organizam paradigmas dis-</p><p>tintos dos derivacionais. E que inexiste a possibilidade de escolha entre</p><p>diversas desinencias para a indica9ao de uma dada categoria. 0 plural s6</p><p>possui um morfema flexional e assim se aplicara em tese a totalidade dos</p><p>nomes. Na flexao verbal, cada tempo ou pessoa gramatical tern igualmente</p><p>uma s6 desinencia. Se houvesse muitos morfemas flexionais com a mesma</p><p>fun9ao, a distribui<;ao passaria a ser aleat6ria, como acontece no processo</p><p>deri vacional.</p><p>Nada obstante, resta comprovar se a aplica<;ao de um dado sufixo com</p><p>exclusao de outros e arbitraria ou resulta de condicionamentos morfofonernicos</p><p>ou semanticos. Supomos que haja algum fator decisivo que necessita ser escla-</p><p>recido. Por que temos consola~ao em vez de consolamento ou consolan~a?</p><p>Por que escuridao em vez de escureza ou escuridade?</p><p>Uma das respostas sugeridas para essa questao se define como a hip6tese</p><p>do bloqueio: escolhida uma entre as diversas possibilidades de realiza<;ao, as</p><p>demais sao bloqueadas. Potencialmente existiriam os abstratos escureza e</p><p>escuridade, mas foram impedidos de circular por causa da forma escuridao.</p><p>Assim sendo, de acordo com Aronoff (1976), e impossfvel que fa~am</p><p>parte do lexico de uma pessoa, ao mesmo tempo, duas palavras com o mes-</p><p>mo significado e o mesmo radical. Por isso, ele define o bloqueio como "a</p><p>nao-ocorrencia de uma forma em virtude da simples existencia de uma ou-</p><p>tra" (Aronoff, 1976: 43).</p><p>Com o conceito de bloqueio, comenta Laca (1993), se busca explicar a</p><p>inaceitabilidade de uma palavra considerada possfvel segundo as regras de</p><p>forma9ao operantes na lingua. Uma palavra possfvel pode ser bloqueada em</p><p>sua realiza<;ao em virtude dos seguintes fatores:</p><p>a) existencia de outro vocabulo que recubra total ou parcialmente o que</p><p>seria seu significado potencial;</p><p>b) existencia de uma palavra homonima;</p><p>c) simples impossibilidade de se imaginar uma entidade ou uma proprie-</p><p>dade que corresponda ao significado potencial e tenha a relevancia necessaria</p><p>para ser codificada lexicalmente.</p><p>162</p><p>O falante estrangeiro, ao aprender o portugues, sem duvida sentira dificul-</p><p>dades ao usar os paradigmas derivacionais. Um espanhol, por exemplo, dira</p><p>seguridade em vez de seguram;a. De modo amilogo, as criarn;as em fase de</p><p>aquisi<;ao da linguagem freqlientemente nos surpreendem com vocabulos nao</p><p>atualizados no lexico, mas plenamente ajustaveis as regras de deriva<;ao. No</p><p>mesmo sentido, o celebre Odorico Paragua<;u, personagem de Dias Gomes,</p><p>tern seu discurso caracterizado exatamente pela inobservancia a regra do blo-</p><p>queio. 0 inusitado de sua linguagem se explica pelo aproveitamento das possi-</p><p>bilidades de realiza<;ao lexical que foram bloqueadas dentro da norma linglifs-</p><p>tica. Tai ocorre com os adjetivos excomunguenta, badernista e valentosa ou</p><p>com os substantivos comprovamento e manifestan~a, para nao citar rnuitos</p><p>exernplos.</p><p>Mas a hip6tese do bloqueio, se tiver alguma validade, s6 explica a irnpossi-</p><p>bilidade de duas forrnas funcionarern exatarnente corn o rnesmo significado.</p><p>Por isso, toda vez que houver necessidade por questao de variabilidade seman-</p><p>tica, formas paralelas surgirao.</p><p>Voltemos aos sufixos [<;ao] e [mento]. Do verbo casar deriva casamen-</p><p>to, ao passo que de cassar tem-se cassa~ao. Os substantivos casa~ao e</p><p>cassamento forarn bloqueados. Como entao se justificarn as forrnas parale-</p><p>las coroa~ao e coroamento, acumula~ao e acumulamento, medica~ao e</p><p>medicamento? Crernos que por for<;a de especializa<;oes sernanticas, as</p><p>vezes bastante sutis. A prova e que o contexto frasal deterrnina urna forrna</p><p>em vez da outra. Dizernos urn acumulamento de palavras e urna acumula-</p><p>~ao de cargos. Tomarnos urn medicamento (concreto), em fun<;ao dame-</p><p>dica~ao adequada.</p><p>Assirn sendo, nao se deve rnenosprezar a observa<;ao de Lang (1990) se-</p><p>gundo a</p><p>qua!, em virtude da rnobilidade do sisterna derivacional, pode resultar</p><p>que urna forrna<;ao aparenternente bloqueada se realize em contextos especffi-</p><p>cos ou sirnplesrnente cornece a ser utilizada. 0 bloqueio irnplica a ideia de que</p><p>o lexico e estatico, e este fato contradiz o pr6prio princf pio da criatividade</p><p>lexica, cornprovado ate na linguagern infantil.</p><p>Por isso rnesrno, Lang (1990) afirrna que a tendencia atual e a de negar o</p><p>princfpio do bloqueio postulado pela teoria lexicalista, desde que e bastante</p><p>cornurn a existencia de forrnas alternativas vizinhas, geradas a partir das mes-</p><p>mas bases.</p><p>Todavia, nao ha corno negar que as regras rnorfol6gicas obedecern a restri-</p><p><;oes de natureza sernantica, sintatica, rnorfol6gica ou fonol6gica, conforrne</p><p>exernplificarnos abaixo:</p><p>a) restrir;;oes semanticas - Forrnas derivadas corno *remorrer, *reparecer,</p><p>*ex-mae, *inasqueroso ou *desasqueroso dificilrnente podern ser concebidas</p><p>e, por conseguinte, nao se realizarn.</p><p>163</p><p>b) restri<;oes sintaticas- Um sufixo como [vel] forma adjetivos a parr d</p><p>b , p . d . 1r e ver os, porem estes devem ser transitivos. or 1sso, os envados *fracassa</p><p>1 *suspiravel e *caivel parecem impossf veis. ve '</p><p>c) restri~oes morfol6gicas - Depois do sufixo [ec(er)] nao podem apare-</p><p>cer sufixos como [~ao] ou [(e,i)dade]. Por essa razao, nao se realizam forma</p><p>como *empobrecidade, *empobreci~ao, *rejuvenescidade etc. s</p><p>d) restri~oes fonol6gicas - 0 prefixo [in], antes de uma base iniciada por</p><p>consoante liquida, nao se realiza como tal, porem como [i]. Assim sendo, te-</p><p>mos insensato e incerto, porem nao *in16gico.</p><p>Em sfntese, entendemos que o lexico da lingua nao e um sistema fechado.</p><p>0 falante tern a faculdade de criar neologismos e dela fara uso de acordo com</p><p>as necessidades comunicativas ou intuitos expressivos. Inumeras palavras,</p><p>porem, s6 se realizam nessas situa~oes, sem penetrar no domfnio comum. Re-</p><p>corde-se como ilustra~ao a linguagem de Guimaraes Rosa, alem do esfor~o de</p><p>muitos escritores de vanguarda.</p><p>Para que um vocabulo seja do domfnio comum, incorporando-se ao Iexico</p><p>da lingua, alguns fatores s6cio-culturais entram em jogo. Surgindo novas ob-</p><p>jetos culturais ou conceitos de diffcil ou impossfvel manifesta~ao com base no</p><p>repert6rio existente, neologismos diversos passam a ter livre curso.</p><p>Nao obstante, a cria~ao de neologismos deve fundamentar-se em regras</p><p>precisas de forma~ao, a fim de que o sistema lingtifstico nao sofra com exce-</p><p>~5es e desvios. Tanto quanto possfvel, e conveniente manter-se a fei~ao estru-</p><p>tural da lingua, definida por fatos regulares e previsfveis. 0 acumulo (ou</p><p>acumulamento?) de exce~oes apenas dificulta a aprendizagem do idioma e</p><p>gera equfvocos entre os pr6prios falantes nativos.</p><p>164</p><p><</p><p>{"type":"Document","isBackSide":false,"languages":["en-us"],"usedOnDeviceOCR":true}</p><p>{"type":"Document","isBackSide":false,"languages":["en-us"],"usedOnDeviceOCR":true}</p><p>{"type":"Document","isBackSide":false,"languages":["en-us"],"usedOnDeviceOCR":true}</p><p>{"type":"Document","isBackSide":false,"languages":["en-us"],"usedOnDeviceOCR":true}</p><p>{"type":"Document","isBackSide":false,"languages":["en-us"],"usedOnDeviceOCR":true}</p><p>{"type":"Document","isBackSide":false,"languages":["en-us"],"usedOnDeviceOCR":true}</p>