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<p>edição revista e atualizada ECONOMIA INTERNACIONAL MARIA AUXILIADORA DE CARVALHO E ROBERTO LEITE DA SILVA N. Cham.: 337 C325e 4. ed. Autor: Carvalho, Maria Auxiliadora Título: Economia internacional . d. 14149680 Ac. 97133 BCSO Editora Saraiva</p><p>MARIA AUXILIADORA DE CARVALHO, natural de Areias, São Paulo, é engenheira agrônoma formada pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/ USP). Obteve os títulos de mestre em Ciências Econômicas pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP) e de doutora em Economia de Empresas pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV/EAESP). Concluiu pós-doutorado em Economia Aplicada no Departamento de Economia e Sociologia Rural da ESALQ/USP. Atualmente é pesquisadora do Instituto de Economia Agrícola e professora da FMU. CÉSAR ROBERTO LEITE DA SILVA, paulistano, formou-se em economia na Universidade de São Paulo, onde obteve ainda os títulos de mestre e doutor em Ciências Econômicas pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA/USP). Concluiu pós-doutorado em Economia Aplicada pelo Departamento de Economia e Sociologia Rural da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/ USP). Atualmente é pesquisador do Instituto de Economia Agrícola e professor da PUCSP.</p><p>MARIA AUXILIADORA DE CARVALHO CÉSAR ROBERTO LEITE DA SILVA ECONOMIA INTERNACIONAL UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ Biblioteca do Campus de edição Revista e atualizada Editora Saraiva</p><p>ISBN 978-85-02-06010-4 CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ. Editora Carvalho, Maria Auxiliadora de Saraiva Economia Internacional / Maria Auxiliadora de Carvalho, César Roberto Leite da - 4. ed. - São Paulo Saraiva, 2007. Rua Henrique Schaumann, 270 Pinheiros - São Paulo - SP - CEP: 05413-010 ISBN 978-85-02-06010-4 PABX (11) 3613-3000 1. Economia mundial 2. Relações econômicas internacionais 0800-0117875 I. Silva, César Roberto Leite da. II. Título. SAC De a das 8h30 às 19h30 01-1922 CDD-337 Diretora editorial Flávia Alves Bravin Copyright Maria Auxiliadora de Carvalho, Gerente editorial Rogério Eduardo Alves César Roberto Leite da Silva 2007 Editora Saraiva Planejamento editorial Rita de Cássia S. Todos os direitos reservados. Editoras Luciana Cruz Patricia Quero Produtoras editoriais Daniela Nogueira Secondo edição Rosana Peroni Fazolari tiragem: 2007 Comunicação e produção digital Nathalia Setrini Luiz tiragem: 2009 Suporte editorial Najla Cruz Silva tiragem: 2011 tiragem: 2014 Arte e produção ERJ Composição Editorial Capa S4 Editorial Produção gráfica Liliane Cristina Gomes Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por Atualização da tiragem Join Bureau qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Editora Impressão e acabamento Mark Press Brasil Saraiva. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na lei n° 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal. 350.549.004.004 FEDERAL DO CEARA Biblioteca do Campus de Sobral-BCSO UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ do Campus 12 15</p><p>P INTERNACIONAL EORIA E</p><p>TEORIA CLÁSSICA DO COMÉRCIO INTERNACIONAL Voce vera neste Mercantilismo Teoria das Vantagens Absolutas Teoria das Vantagens Comparativas Fronteira de Possibilidades de Produção e Preços Relativos Fronteira de Possibilidades de Consumo e Ganhos de Comércio or que as nações comerciam? Essa é a pergunta a que este capítulo preten- de responder. O bom senso nos leva a crer que as nações comerciam porque podem obter vantagens. Essa afirmação, seca e direta, pode nos parecer óbvia, mas passou a fre- qüentar as principais obras, os manuais e as discussões econômicas há apenas mais de dois séculos. Este capítulo vai se ocupar da fase inicial da construção teórica desse argumento, que denominamos teoria clássica do comércio internacional. A princípio, situaremos historicamente o mercantilismo, corrente de pensamento protecionista que enxergava os benefícios do comércio de maneira muito limitada. A doutrina mercantilista, prevalecente durante muitos anos, foi duramente criticada por Adam Smith, que formalizou a teoria das vantagens absolutas, talvez a primeira teoria econômica científica a procurar demonstrar as vantagens do comércio. O tema central do capítulo, porém, é uma crítica à própria teoria de Smith. Trata-se da teoria das vantagens comparativas, formulada por David Ricardo, que será apresentada em duas etapas. Na primeira, abordaremos o princípio das vantagens comparativas de forma intuitiva, com exemplos algébricos, mas sem grande preocupação em formalizar os conceitos econômicos. Na segunda eta- pa, o tratamento será mais rigoroso. Tanto as hipóteses do chamado modelo ricardiano como suas implicações serão explicitadas. Nessa etapa, apresentare- mos diversos conceitos econômicos, sempre ilustrados por exemplos práticos. Por fim, trataremos dos conceitos de fronteira de possibilidades de produ- ção e fronteira de possibilidades de consumo, demonstrando a origem dos ganhos de comércio, uma das explicações para a ocorrência de comércio. MERCANTILISMO Considera-se que a doutrina mercantilista vigorou entre o século XV e meados do século XVIII, como resultado direto da expansão do comércio iniciada no final da</p><p>PARTE INTERNACIONAL TEORIA E Idade Média, e atingiu seu apogeu após o descobrimento da América e do caminho do marítimo para as Índias. Suas idéias expressavam a conjugação dos interesses Estado nacional e da ascendente burguesia, que se contrapunham ao Pode-se dizer que, aos monarcas, interessava preponderantemente o poder, en- quanto a burguesia preocupava-se com o acúmulo de riquezas. Entretanto, poder e riqueza estavam intimamente ligados. O poder só podia ser exercido com o apoio de exércitos bem armados, sustentados às custas de abundantes recursos. A riqueza, por sua vez, era mantida e ampliada com maior facilidade num ambiente em que leis e direitos fossem respeitados, sobretudo o direito de propriedade. Embora não possa ser caracterizado como uma teoria sólida e acabada, o mercantilismo pode ser entendido a partir da visão que se tinha na época do que constituía a riqueza e o poder de uma nação. De forma geral, acreditava-se que uma nação seria tanto mais rica quanto maiores fossem sua população e seu estoque de metais preciosos. Segundo essa visão, o Estado deveria tomar as providências neces- sárias para aumentar o bem-estar de sua população, estimular o comércio e a indús- tria, considerados mais importantes que a agricultura, e favorecer as exportações principal maneira de incrementar o volume de metais preciosos no país, pois os paga- mentos internacionais eram feitos em ouro ou prata. Essa última função do Estado, defendida pelos mercantilistas, é a que interessa mais de perto à análise da evolução do estudo da economia internacional. Fica claro que um país poderia se tornar mais rico se obtivesse um superávit comercial (expor- tações maiores que importações) nas transações com seus parceiros. Para atingir esse objetivo, o governo deveria estimular as exportações e dificultar ao máximo ou até proibir terminantemente as mesmo importações. No entanto, se os governantes de todos os países agissem dessa forma, as economi- as se fechariam até o ponto em que não importariam nada além do que fosse essencial e não pudesse ser produzido internamente. Conseqüentemente, se essas políticas tives- sem continuidade, em um dado momento, as exportações ficariam praticamente redu- zidas a zero, pois, para que algum país pudesse efetivamente aumentar suas exporta- ções, outros deveriam incrementar as importações. Se todos se fechassem, não haveria comércio. Com isso, nota-se que as proposições mercantilistas não eram consistentes. DAS VANTAGENS ABSOLUTAS A Riqueza das Nações: Investigação sobre Sua Natureza e Suas prin- cipal obra de Adam Smith, publicada em 1776, é tida como o primeiro trabalho a tratar com exclusividade de economia e a incluir uma visão sistemática acerca do 1 SMITH, A. A Riqueza das Nações: Investigação sobre Sua Natureza e Suas Causas. São Paulo: Abril Cultural, 1983 (Coleção Os Economistas).</p><p>TEORIA CLASSICA DO COMERCIO INTERNACIONAL 5 comércio entre os países. Smith, nesse trabalho, tinha um alvo claro: o mercantilismo. Atacava todo o conjunto de idéias mercantilistas defendidas e implementadas por chefes de Estado, altos funcionários, comerciantes e financistas em suma, a elite econômica da época. A falha dos mercantilistas, segundo Smith, foi não perceber que uma troca de- veria beneficiar as duas partes envolvidas no negócio, sem que se registre, necessaria- mente, um déficit para uma das nações envolvidas. O argumento de Smith a favor do livre comércio pode ser facilmente compreen- dido a partir de um exemplo. Suponhamos que haja apenas dois países no mundo, sendo um deles o Brasil. Vamos representar o Brasil por B e o outro país por W. Para que o exemplo não pareça exageradamente simplificado (um mundo com dois paí- ses?!), podemos considerar que W represente todos os outros países com os quais realizamos ou podemos vir a realizar trocas. Esse conjunto de países recebe o nome de parceiros comerciais ou resto do Mantendo-nos dentro do espírito da obra de Smith, vamos assumir que o único fator de produção relevante seja o trabalho, representado por L, e que o valor das mer- cadorias seja determinado pela quantidade de trabalho, medida pelas horas necessárias para sua produção. Consideremos ainda que esses países só produzam dois bens: M e X. Não vamos nos referir aos serviços por uma simples razão: trabalhar com dois bens, ou dois tipos de bens, torna mais clara a apresentação. Sabemos que o Brasil é um país industrializado, mas não é o mais industrializado do mundo. Podemos supor, portanto, que temos mais facilidade em produzir produtos primários do que bens industrializados. Os produtos agrícolas serão representa- dos por X e os produtos industrializados por M. É preciso definir também algumas características técnicas do processo de produ- ção desses bens, em especial a relação entre as quantidades produzidas do bem e as quantidades de insumos necessários a sua produção. Sabemos, da microeconomia, que essa relação recebe o nome de função de produção: M=f(L) (1.1) (1.2) A primeira expressão indica que uma determinada quantidade de M é obtida em função de certa quantidade de L, por unidade de tempo, que pode ser uma hora, um dia, um ano ou um período qualquer. O produto industrializado M é produzido com o insumo trabalho L. O mesmo ocorre com os bens primários, X, que também são produzidos a partir de trabalho, conforme indica a segunda expressão. As funções de produção apresentadas dessa forma são genéricas e não dizem muito a respeito do processo de produção, por exemplo, quantas unidades de traba- 2 em economia. algumas variáveis são representadas pela inicial da palavra em inglês, mesmo nos livros escritos no Brasil. Assim, o "mundo" é representado por sua inicial em inglês (W de world), bem como "trabalho" (por L de labor). 3 Há uma razão para a escolha dessas letras. M, como será visto mais adiante, costuma representar as importações e as exportações. Aqui, são bens importáveis e bens exportáveis, respectivamente.</p><p>6 PARTE I INTERNACIONAL TEORIA E lho são necessárias para produzir uma unidade de cada um dos bens. Essa questão também pode ser respondida pela microeconomia, com o conceito de coeficiente técnico de produção, ou coeficiente de insumo/produto: I = M L (1.3) X L (1.4) Introduziremos esses conceitos no nosso exemplo admitindo, de início, que tanto B quanto W possuam o equivalente a 1.200 horas de trabalho disponíveis e que os coeficientes técnicos de produção dos bens M e X sejam os seguintes: Quadro 1.1 Coeficientes técnicos de produção (em horas de trabalho) Bem País M X W B No país W (ou resto do mundo), são necessárias três horas de trabalho para pro- duzir uma unidade de um bem primário X e duas horas de trabalho para produzir um bem industrializado M. No caso de B, cada unidade do bem industrializado demanda três horas de trabalho, enquanto uma unidade do bem primário requer apenas duas horas. A partir dessas informações podemos concluir que o trabalho, no Brasil, é mais produtivo quando alocado na agricultura, em comparação com os parceiros comerciais. Por outro lado, o fator trabalho, no resto do mundo, é mais produtivo quando emprega- do nas atividades industriais. É importante reter essa idéia de produtividade do fator de produção, que é fundamental na discussão do comércio internacional. Na ausência de comércio exterior, ou na condição de autarquia, supondo que cada um dos países empregue metade de suas horas de trabalho na produção de cada um desses bens, o resultado será o seguinte: Quadro 1.2 Produção e consumo em autarquia Produção Consumo M X Total M X Total W 300 200 500 300 200 500 B 200 300 500 200 300 500 Total 500 500 1.000 500 500 1.000 No resto do mundo (W), 1.200 horas de trabalho produziriam 300 unidades de M, produtos industrializados, e 200 de X, produtos primários. Esses números são</p><p>TEORIA CLASSICA DO COMERCIO INTERNACIONAL of obtidos dividindo-se a quantidade de horas de trabalho disponíveis pelo coeficiente técnico de produção, ou seja: = = 600 = 300 2 600 = 200 3 Mb = = 600 = 200 3 Lb 600 = 300 2 Como estamos considerando a hipótese de ausência de comércio exterior, cada país só pode consumir o que produz; logo, a produção é igual ao consumo. Suponhamos agora que os países decidam abrir-se para o comércio, realizando trocas. Parece claro que, para obter algum tipo de vantagem, cada nação deve concentrar seus esforços na produção do bem que consegue produzir em melhores condições. Os coeficientes técnicos de produção já nos informaram que o país B tem vantagem na produção de X, pois consegue produzir uma unidade desse bem ao custo de duas horas de trabalho, enquanto precisa de três horas de trabalho para produzir uma unidade do bem M. No caso do país W ocorre o contrário: produz M ao custo de duas horas de trabalho e X ao custo de três horas. Assim, de modo geral, o país B tem vantagem absoluta na produção de X quando: (1.5) De forma análoga, W tem vantagem absoluta na produção de M quando: (1.6) Suponhamos que cada país se especialize na produção daquele bem em cuja produção possui vantagem absoluta. Especialização significa alocar todas as unidades disponíveis de seu fator de produção relevante, o trabalho, na pro- dução do bem em que esse fator é mais produtivo. Assim, o país B produziria apenas X, enquanto o país W, somente M. Essa situação pode ser sintetizada pelo seguinte quadro:</p><p>S INTERNACIONAL TEORIA E POLÍTICA Quadro 1.3 Produção e consumo com especialização e comércio Produção Consumo Pols M X Total M X Total W 600 600 300 300 600 600 600 300 300 600 Total 600 600 1.200 600 600 1.200 As quantidades produzidas dos bens M e X foram obtidas da mesma maneira que na situação de autarquia: 1.200 = 600 2 Lb 1.200 = = 600 Ib 2 A simples comparação desses resultados com os do Quadro (1.2) indica que a pro- dução total dos dois bens aumentou de 1.000 para 1.200 unidades. Isso ocorreu devido à especialização. Se a produção total aumentou, o consumo pode ser maior nos dois países ou, pelo menos, em um deles. O aumento nas quantidades consumidas dos bens concretiza o que se denomina benefícios do comércio ou ganhos do comércio. Nesse ponto, entretanto, deparamos com um problema que não foi resolvido por Adam Smith: a proporção em que seriam feitas as trocas entre os dois países. Ou seja, quais seriam os termos de troca ou relações de troca entre as mercadorias M e X. Essa questão só foi tratada adequadamente mais tarde, como veremos. Em nosso exemplo, suponhamos que B e W acordem que uma unidade de X seja trocada por uma unidade de M, ou seja, que os termos de troca sejam 1:1 e que as transa- ções envolvam 300 unidades de cada mercadoria. Assim, exportaremos 300 unida- des de X e importaremos 300 unidades de M. Após essa transação, o consumo dos dois países será aquele apresentado acima, no Quadro (1.3). Comparando os resultados do Quadro (1.3) com os apresentados no Quadro (1.2), evidenciam-se os ganhos do comércio. Após as trocas comerciais, B passa a consumir 300 unidades de M, enquanto antes consumia apenas 200. Em W aconte- ceu o mesmo o consumo de X aumentou de 200 para 300 unidades. O consumo dos outros bens manteve-se inalterado em ambos os países: 300 unidades. A grande crítica de Adam Smith contra os mercantilistas baseou-se, portanto, no fato de que a riqueza de uma nação é mais adequadamente medida em termos de produção e consumo de sua população e não na quantidade de metais preciosos em seu poder. O livre comércio é um poderoso mecanismo capaz de promover o aumento da produção por meio da especialização com as trocas, aumentar o consumo e, o bem-estar das populações dos países que participam do comér- cio internacional.</p><p>TEORIA INTERNACIONAL 9 Smith arquitetou um poderoso argumento a favor do livre comércio, desde que um país tivesse algum tipo de vantagem absoluta, ou seja, que conseguisse produ- zir alguma mercadoria a um custo mais baixo que outros países e tirar proveito da especialização e das trocas. Entretanto, essa teoria não conseguia explicar e justifi- car todas as possibilidades de comércio. O que aconteceria, por exemplo, se um país não produzisse nenhuma mercadoria a custos menores do que os de seus pos- síveis parceiros comerciais? Estaria essa nação condenada a ficar excluída dos be- nefícios da especialização e das trocas? TEORIA DAS VANTAGENS COMPARATIVAS da Sabemos que existem países pobres, sem tecnologia nem recursos para produ- zir mercadorias a custos reduzidos em relação aos das grandes potências. Essa situação não era contemplada pela teoria das vantagens absolutas. Entretanto, em 1817, David Ricardo publicou seus Princípios de Economia Política e Tributação, que, além de ser considerada a obra que instituiu a economia como ciência, apre- sentou a teoria das vantagens comparativas, que explicava o comércio mesmo entre nações sem vantagem absoluta na produção de nenhum bem. Voltando ao exemplo da seção anterior, suponhamos agora que os coeficien- tes técnicos de produção do país B na produção de X e M não sejam mais 2 e 3, mas sim 4 e 5, ou seja, = 4 e = 5. Já não temos vantagem absoluta na produção de nenhuma mercadoria, em relação ao nosso parceiro W, como vemos no Quadro (1.4): Quadro 1.4 Coeficientes técnicos de produção (em horas de trabalho) Bem M X W B Ib=5 Numa situação como essa, pelo raciocínio de Smith, como o país W tem vanta- gem absoluta na produção de ambas as mercadorias, não teria interesse em se especializar na produção de nenhum dos bens, nem em comercializar com B. Isso pode ser concluído da comparação dos coeficientes técnicos dos dois países: (1.7) 4 RICARDO, D. Princípios de Economia Política e São Paulo: Abril Cultural, 1982 (Coleção Os Economistas).</p><p>10 PARTE I COMÉRCIO INTERNACIONAL TEORIA E POLÍTICA Ricardo argumentou, porém, que o país W tem vantagem comparativa na pro- dução de M, pois seu custo é equivalente a 40% do custo em B, enquanto o custo de produção de X é 75% daquele apresentado em B. Esses percentuais são facil- mente obtidos por intermédio das expressões: Ib = 2 5 0,4 m relative = 4 3 0,75 Conseqüentemente, como 0,40 < 0,75, então: m < m Isso significa também que o custo relativo para o país W produzir M é menor do que seu custo relativo para produzir X. Do ponto de vista de B, há vantagem comparativa na produção de X, pois: 4 = = 2 5 = Como é a diferença entre os custos de produção de M e X nos dois países que indica a possibilidade de comércio, esse argumento também é conhecido como teo- ria dos custos comparativos. O que levaria, então, o país B a se especializar na produção de X, e o país W a alocar todo seu trabalho na produção de M? De acordo com Ricardo, o fato de as relações de troca serem mais favoráveis do que os preços relativos domésticos. Os termos de troca ainda não foram determinados, mas já podemos saber quais são os preços relativos nos dois países. preço relativo do bem M. por exemplo, no país W, é a quantidade de X que deve deixar de ser produzida para que aumente a produção de M em uma unidade. Suponhamos que em autarquia os países aloquem metade de seu fator trabalho na produção de cada bem. Como cada país tem 1.200 horas de trabalho por período, o resultado em termos de produção e consumo é o representado no Quadro (1.5). Quadro 1.5 Produção e consumo em autarquia Produção Consumo Pois M X Total M X Total W 300 200 500 300 200 500 B 120 150 270 120 150 270 Total 420 350 770 420 350 770</p><p>TEORIA DO COMERCIO INTERNACIONAL 11 9.600 na M. O que ocorreria se a população de W alterasse suas preferências e decidisse aumen- tar o consumo de X em 100 unidades? Por meio do coeficiente técnico de X, sabemos que são necessárias três horas de trabalho para produzir uma unidade desse bem, logo, as 100 unidades adicionais de X seriam obtidas absorvendo 300 horas de trabalho. Como não há mais trabalho disponível em W, a única alternativa seria deslo- car essas 300 horas da produção de M. O coeficiente técnico de produção de M, é 2, o que implicaria uma redução da produção de M em 150 unidades. Logo, o custo de produzir mais 100 unidades de X, ou o preço relativo de 100 unidades de X, é de 150 unidades de M. De modo geral, podemos dizer que o preço relativo de X é igual a 1,5 unidade de M, resultado que pode ser obtido dividindo-se o coeficiente técnico de produção de X pelo coeficiente técnico de produção de M. Assim, o preço relativo de X em = (1.9) de O preço relativo de M em W, por sua vez, é: de (1.10) No país B, os preços relativos de cada bem são calculados da mesma forma. Em resumo, temos: = = 3 País W X = m = 3 = de M pb pb = = 4 5 = 0,80 País B pb = = 4 5 = 1,25 Onde: = preço relativo de X em W = preço relativo de X em B pb = preço relativo de M em W pb pb = preço relativo de M em B</p><p>12 PARTE I INTERNACIONAL TEORIA E POLÍTICA Os limites para o estabelecimento da relação de troca são os preços relativos dos bens em cujas produções cada país tem vantagens comparativas. Como W tem vantagem comparativa na produção de M, poderia importar X desde que precisasse pagar menos do que 1,5 unidade de M por unidade de X. Para que B se dispusesse a efetuar essa transação, teria de receber mais do que 0,8 unidade de M por unidade de X exportada. Figura 1.1 Relações de troca de X por M 0,8 1,15 1,5 país B país W exporta X importa X Há, portanto, um intervalo dentro do qual podem estabelecer-se relações de troca. Ricardo, assim como Smith, não resolveu essa questão, que só foi tratada convenientemente quando se levou em conta a demanda. Consideremos agora que cada país se especialize na produção do bem em que tem vantagem comparativa, que haja uma relação de troca arbitrária, por exemplo, uma unidade de X para 1,15 unidade de M, e que B troque 200 unidades de X por 230 (200 X 1,15) unidades de M. O resultado desse processo é apresentado no Quadro (1.6): Quadro 1.6 Produção e consumo com especialização e comércio exterior Produção Consumo M X Total M X Total W 600 600 370 200 570 B 300 300 230 100 330 Total 600 300 900 600 300 900 Os ganhos de comércio ficam evidentes quando se compara este quadro com o Quadro (1.5). Nota-se que houve aumento da produção total de mercadorias, de 770 para 900 unidades. No país W, são claros os ganhos decorrentes do comércio, pois, se anteriormente consumiam-se 300 unidades de M e 200 de X, agora são consumidas 370 de M (acréscimo de 70 unidades) e as mesmas 200 de X. No que se refere ao país B, todavia, esse ganho não é evidente se não forem consi- deradas as preferências dos consumidores. Enquanto em autarquia o consumo nesse país era de 120 unidades de M e 150 de X, com o comércio exterior o consumo de M aumentou para 230 unidades, enquanto o de X diminuiu para 100 unidades. Para que se possa afirmar que houve aumento do bem-estar da população de B, é preciso admi- tir que a satisfação derivada do consumo adicional de 110 unidades de M seja superior à perda de satisfação decorrente da redução do consumo de 50 unidades de X.</p><p>TEORIA CLASSICA DO INTERNACIONAL 13 Aplicação Imaginemos que Brasil e Japão produzam apenas dois bens: computadores e automóveis. Os coeficientes técnicos, em horas de trabalho, são os seguintes: Bens Computadores (unidade) Automóveis (unidade) Brasil 20 300 Japão 15 200 a) De acordo com a teoria das vantagens absolutas, é possível haver comércio entre Brasil e Japão? A teoria das vantagens absolutas postula que o comércio entre países é possível, num modelo com dois bens, quando o coeficiente técnico de produção de uma mercadoria é maior num país do que em outro, ocorrendo o contrário com a outra mercadoria. Temos: ou 300 > 200 e 20 > 15, onde: Ib e I representam os coeficientes técnicos de produção de automóveis, no Bra- sil e no Japão, e e I representam os coeficientes técnicos de produção dos computadores, no Brasil e no Japão. Nessa situação, de acordo com a teoria das vantagens absolutas, não seria possí- vel ocorrer comércio entre esses países. b) Segundo a teoria das vantagens comparativas, é possível haver comércio entre Bra- sil e Japão? Em caso de resposta afirmativa, qual mercadoria o Brasil exportaria? Embora o Brasil seja menos eficiente na produção dos dois bens, a teoria das vantagens comparativas diz que pode haver comércio de forma vantajosa entre países quando os custos relativos de produção das mercadorias envolvidas são diferentes, ou seja: < Substituindo pelos coeficientes técnicos: 20 300 < ou 1,33< 1,5 15 200</p><p>14 PARTE I INTERNACIONAL TEORIA E Esse resultado nos indica que, no Brasil, é relativamente mais barato produzir com- putadores do que automóveis e que, no Japão, é relativamente mais barato pro- duzir automóveis do que computadores. Nessas condições, o Brasil pode especia- lizar-se na produção de computadores e o Japão, na de automóveis. Assim, os dois países poderão trocar os bens produzidos, com vantagens para c) Sugira uma possível relação de troca que viabilize o comércio entre Brasil e Japão. A relação de troca deve-se situar entre os preços relativos dos dois países envol- vidos no comércio. Assim: 20 = = = 0,067 pb Ib 300 Esse valor (0,067) é o preço relativo, no Brasil, do computador em termos de automóvel. No Japão, temos: = = 200 15 = 0,075 Esses números indicam que, no Brasil, um computador custa 0,067 automóvel, enquanto no Japão o custo de um computador é 0,075 automóvel. Para que essas relações fiquem mais claras, também podemos dizer que no Brasil um automó- vel vale 15 computadores (300/20) e que, com 13,3 computadores (200/15), pode-se adquirir um automóvel no Japão. Brasil tem vantagem comparativa na produção de computador e se especializará na produção desse bem desde que obtenha mais do que 0,067 automóvel por um computador, enquanto o Japão só se especializará em automóveis se pagar me- nos do que 0,075 automóvel por um computador. Logo, qualquer número entre 0,067 e 0,075 é uma relação de troca viável. Um resultado possível seria, por exemplo, 0,070. O Brasil receberia 0,070 automóvel por computador, valor maior do que aquele que receberia em autarquia (0,067). Japão pagaria 0,070 automóvel por computador, em vez de 0,075, o que lhe cus- taria na produção sem comércio exterior. FRONTEIRA DE POSSIBILIDADES DE RELATIVOS A discussão da teoria das vantagens comparativas pode ser enriquecida se intro- duzirmos o conceito de fronteira de possibilidades de produção e a análise gráfica. A fronteira de possibilidades de produção nos indica as quantidades máximas que um país pode produzir de cada bem. Evidentemente, essas quantidades dependerão da disponibilidade de fatores de produção e dos coeficientes técnicos de produção.</p><p>TEORIA CLASSICA DO COMERCIO INTERNACIONAL 15 Voltando a nosso exemplo (Quadro 1.4), suponhamos que, no país B, a produ- ção de uma unidade de X demande quatro horas de trabalho e que o país disponha de 1.200 horas. Caso decida alocar todas essas horas na produção de X, produzirá, no máximo, 300 unidades de X e nenhuma de M. 1.200 4 = 300 Se, ao contrário, B decida alocar todo seu trabalho na indústria de M. supondo um coeficiente técnico de produção igual a 5, o resultado será a produção de 240 unidades de M e nenhuma de X. 1.200 = 240 5 Essas informações podem ser inseridas num diagrama cartesiano (Figura (1.2), onde representamos as quantidades físicas de X no eixo horizontal e as de M no eixo vertical. O resultado é a linha PP, conhecida como fronteira de possibilidades de produção. Figura 1.2 Fronteira de possibilidades de produção do país B M 240 PP 160 G 100 100 175 300 X Em autarquia, entretanto, os países produzem um pouco de cada bem para atender a seus consumidores. Essa situação é ilustrada pelo ponto F, por exem- plo, que indica a produção de 175 unidades de X e 100 de M, ou ainda por G, que corresponde a 100 unidades de X e 160 de M. Neste momento, é conveniente explicitar algumas hipóteses sobre as quais estamos trabalhando. A primeira diz respeito à tecnologia expressa pelas funções de produção de X e M que, nessa economia, apresentam rendimentos constantes de escala. Isso significa que a produção de um bem aumenta, ou diminui, na mesma proporção em que a quantidade de trabalho varia. Podemos verificar essa hipótese examinando a produção do bem X no país B. Como já vimos, a quantidade máxima que pode ser produzida de X em B é dada pela relação:</p><p>16 PARTE I TEORIA E POLITICA (1.11) O elo que relaciona a quantidade de X e a quantidade de L é o coeficiente técnico de produção Ib. Quanto menor for o coeficiente técnico, maior será a pro- dução de X, dada uma certa dotação de trabalho. Podemos perceber, então, que o coeficiente técnico, que também pode ser chamado de necessidade unitária de tra- balho, expressa o nível tecnológico da indústria que produz X, pois nos diz quantas horas de trabalho são necessárias para produzir uma unidade de X. Dado o coeficiente técnico de produção 4 e atribuindo valores arbitrários a Lb, como 120 e 240, temos: = 30 e = Note-se que, quando dobramos a quantidade de trabalho na indústria X, de 120 para 240, também dobramos a quantidade de X, de 30 para 60. Procedendo da mesma maneira na indústria M, ainda no país B, obteremos um resultado qualitativamente semelhante: = e Em outras palavras, ao dobrarmos a quantidade de fator trabalho, o produto respondeu na mesma proporção, passando de 24 para 48 unidades. Esse resultado só é possível porque os coeficientes técnicos de produção são constantes, ou seja, a produção cresce na mesma proporção do crescimento dos fatores de produção. Temos agora devidamente explicitado um importante pressu- posto da teoria das vantagens comparativas: os coeficientes técnicos são constan- tes, e, como temos apenas um fator de produção, o trabalho e as funções de produ- ção têm retornos constantes de escala. Outra hipótese importante é a que explica por que a fronteira de possibilidades de produção tem a forma de uma linha reta: o fator trabalho é homogêneo e pode ser transferido livremente da indústria X para a indústria M, apresentando sempre o mesmo desempenho, determinado, em última instância, pelos coeficientes técnicos de produção. Isso equivale a dizer que todos os trabalhadores são iguais, têm as mesmas habilidades, o mesmo conhecimento, a mesma força física e a mesma de- dicação para executar as tarefas que lhes são atribuídas. Em nosso exemplo, se o país B aloca 700 horas de trabalho na indústria X e as restantes 500 horas na indústria M, as produções desses bens serão:</p><p>TEORIA CLASSICA DO 17 = = e 4 500 = 5 Supondo agora que haja transferência de 300 horas de trabalho da indústria X para a indústria M, teremos: = e 4 800 = Os trabalhadores deslocados de X para M apresentaram o mesmo desempenho que seus companheiros que já estavam Esse exemplo é ilustrado pelos pontos F e G da Figura (1.2). A transferência de trabalho entre a indústria X e a indústria M ocasionou, de um lado, um ganho para a sociedade de 60 unidades de M, mas, de outro, a perda de 75 unidades de X. Por isso, podemos dizer que o custo social de produzir 60 unidades adicionais do bem M é a redução da produção de 75 unidades do bem X. Se quiser- mos saber o custo, em termos do bem X, de produzir uma unidade a mais de M, basta fazer a operação: 75 = 1,25 60 ou seja, cada unidade de M "custa" 1,25 unidade de X. O custo social, ou custo de oportunidade, portanto, é a quantidade de um bem que precisa ser sacrificada para se uma unidade adicional de outro bem. No exemplo que vínhamos desenvolvendo, o custo de oportunidade de produzir uma unidade de M é 1,25 unidade de X. Naturalmente, também podemos calcular o custo de oportunidade de X: 60 75 Verificamos que o custo de oportunidade ou custo social de X é 0,80 unidade de M. A operação que realizamos nos permite deduzir a interpretação geométrica do custo social. Observando a Figura (1.2), nota-se que o custo social de X é: 75 = 175 100 = AX 60 160 - 100 AM que é a declividade da fronteira de possibilidades de produção. O custo de oportu- nidade de M, por sua vez, é: 60 160 100 AM = 75 175 AX ou seja, o inverso da declividade.</p><p>PARTE I INTERNACIONAL TEORIA E custo de oportunidade de M também pode ser definido como: Lb Mb = m Xb L (1.12) m Ib ou seja, a razão entre os coeficientes técnicos de produção de X e M. Como os coefi- cientes técnicos de produção são constantes, podemos dizer que B tem uma fron- teira de possibilidades de produção a custos A apresentação do conceito de custo social nos permite explicitar mais uma hipótese importante na discussão das vantagens comparativas: a economia dos países opera em pleno emprego dos fatores de produção. Como o único fator de produção na teoria clássica é o trabalho, sempre que se deseje aumentar a produção de um bem, será necessário deslocar trabalhadores de outra indústria, pois não há de- semprego. Não fosse assim, seria possível aumentar a produção de um bem sem sacrificar outro, ou até mesmo aumentar a produção dos dois ao mesmo tempo. Quando há desemprego numa economia, as quantidades produzidas dos bens são representadas dentro da fronteira de possibilidades de produção, por exem- plo o ponto A da Figura (1.3). Figura 1.3 Economia operando com desemprego M PP M2 D B A X Quando essa economia está operando com desemprego (ponto A), é possível aumentar a quantidade de M1 para M2 e continuar produzindo X1 (ponto C). Outra alternativa, partindo-se de A, seria aumentar a quantidade produzida de X, de X1 para X2, enquanto M mantém-se no mesmo patamar M1 (ponto B). A terceira pos- sibilidade é que tanto as quantidades produzidas de X quanto as de M aumentem (ponto D). Os pontos B, C e D, e qualquer outro sobre a fronteira de possibilidades de produção, são de pleno emprego. 5 Certamente o leitor deve estar achando essa discussão familiar, apesar da introdução de alguns conceitos novos. E tem toda razão. o custo social, ou de oportunidade, neste caso, é equivalente a preço</p><p>TEORIA CLASSICA DO INTERNACIONAL 19 FRONTEIRA DE POSSIBILIDADES DE CONSUMO E GANHOS DE A fronteira de possibilidades de produção nos mostra não apenas as quantida- des de dois bens que um país pode produzir e consumir em autarquia, como tam- bém é bastante útil para ilustrar os ganhos de comércio. Já construímos a fronteira de possibilidades de produção do país B. Para fazer o mesmo com W, basta lembrar que seus coeficientes técnicos de produção são: e e que sua dotação de trabalho, é de 1.200 horas. Logo, as quantidades máximas de X e M que podem ser produzidas são: = X 1.200 = 600 Como os coeficientes técnicos são fixos, a economia de W também é represen- tada por uma fronteira de possibilidades de produção a custos constantes, como a da Figura (1.4). Figura 1.4 Fronteira de possibilidades de produção do país W M 600 PP 200 400 X O país W pode produzir, no máximo, 400 unidades de X ou 600 de M ou, ainda, combinações de X e M, como a indicada pelo ponto F. Os preços relativos de X e M, em W, são: Pw = 2 e Pw = 2 3 = 0,67</p><p>20 PARTE INTERNACIONAL TEORIA E POLÍTICA Já sabemos que B tem vantagem comparativa na produção de X e que W tem na de M. O país B está disposto a comerciar se puder trocar uma unidade de X por algo mais que 0,8 unidade de M. No caso de W, que se especializa na produção de M, os termos de troca teriam de ser tais que uma unidade de X lhe custasse menos que 1,5 unidade de M. Os termos de troca foram definidos anteriormente como 1 unidade de X por 1,15 unidade de M. Esses termos podem ser representados graficamente como uma reta de inclinação: AM =1,15 AX no mesmo plano em que estão as fronteiras de possibilidade de produção. A Figura (1.5) mostra as relações de troca com as linhas tracejadas RT Figura Ganhos de comércio dos países B e W M M 600 G 427,5 F RT 240 172,5 120 D RT 150 300 X 115 150 400 X País B País W Uma possibilidade de comércio para B é a troca de 150 unidades de X por 172,50 (150 X 1,15) unidades de M. Em autarquia, para consumir, e portanto produzir, 150 unidades de X, B só teria a sua disposição 120 unidades de M (ponto D). Com o comércio, B passa a produzir 300 unidades de X e a consumir 150, trocando as restantes 150 unidades por 172,50 de M. O ponto E é seu ponto de consumo. Na prática, é como se a fronteira de possibilidades de produção se deslocasse para a direita a partir do eixo X e agora fosse representada pela linha dos termos. de troca, RT. Por essa razão, podemos chamar RT de fronteira de possibilidades de No país W ocorre um processo semelhante. Em autarquia, produção e consumo de 427,5 (600 172,5) unidades de M liberariam trabalho para produzir apenas 115 unidades de X (ponto F). Com o comércio, W se especializaria em M, podendo</p><p>TEORIA CLASSICA DO COMERCIO INTERNACIONAL 21 consumir 150 (172,5/1,15) unidades de X (ponto G). A fronteira de possibilidade de consumo de W é RT. Os ganhos de comércio podem ser representados como um deslocamento da fronteira de possibilidade de produção de um país. Esse deslocamento é uma rota- ção para a direita, a partir de um ponto que representa a quantidade máxima que pode ser produzida do bem em cuja produção o país tem vantagem comparativa e, conseqüentemente, especializa-se. Os pontos da fronteira de possibilidades de consumo são superiores, em termos de aos da fronteira de possibilida- des de produção porque representam maior disponibilidade dos bens X e M. É como se o comércio provocasse um aumento da produtividade do trabalho, ou seja, uma redução no valor do coeficiente técnico de produção, na indústria do bem no qual o país não tem vantagem comparativa. Aplicação Prálica Brasil e Estados Unidos produzem apenas dois bens, laranjas e computa- dores, de acordo com os seguintes coeficientes técnicos de produção, em ho- ras de trabalho: Coeficientes técnicos de produção (horas de trabalho) Bem Computador BR 20 EU TEU 15 Pode-se discutir a possibilidade de ocorrência de comércio e seus ganhos, sem preocupação com a dotação de trabalho de cada país, porque os coeficientes técni- cos nos fornecem todas as informações importantes. O critério para se determinar o padrão de vantagens comparativas é confrontar os custos dos bens entre os países: 20 10 ou seja, o Brasil tem vantagens comparativas na produção de laranja porque nosso custo comparativo é menor. Os Estados Unidos, por sua vez, têm vantagens com- parativas na produção de computadores. Para estabelecermos os termos de trocas, precisamos saber quais são os preços relativos em cada país:</p><p>22 PARTE TEORIA E 20 = 20 = 15 No Brasil, um computador custa uma unidade de laranja,6 enquanto, nos Estados Unidos, uma unidade de laranja custa 1,5 computador. Logo, para haver comércio, o Brasil precisa receber mais do que um computador por unidade de laranja, e os Esta- dos Unidos, pagar menos do que 1,5 computador para obter uma unidade de laranja. Um termo de troca possível seria uma unidade de laranja por 1,25 computador. A Figura (1.6) apresenta os gráficos das fronteiras de possibilidade de produção e con- sumo dos países. Figura 1.6 Ganhos do comércio entre Brasil e Estados Unidos Computadores Computadores RT G C, E F D RT 0 Loranjas 0 Laranjas Brasil Estados Unidos O Brasil se especializa na produção de laranjas e troca unidades desse bem por OCBR unidades de computadores. Em autarquia, o mesmo consumo de laranjas só seria possível com apenas unidades de computadores. Com o comércio, o país se desloca do ponto D, na fronteira de possibilidades de produção, PP E, na fronteira de possibilidades de consumo (RT). Os Estados Unidos, em autarquia, consumiriam unidades de laranjas e OCBU de computadores. o para Com comércio, produziriam apenas computadores e trocariam computadores por unidades de laranjas. O bem-estar dos americanos aumentaria, pois sairiam do ponto F e iriam para o ponto G na curva de possibilidades de consumo. 6 A unidade de laranja pode corresponder a uma tonelada de suco concentrado e congelado, por exemplo.</p><p>TEORIA CLASSICA DO COMERCIO INTERNACIONAL 23 Resumo Os adeptos do mercantilismo, doutrina econômica prevalecente entre os séculos XV e XVIII, acreditavam que a riqueza e poder de uma nação eram determinados pelo tamanho de sua população e por seu estoque de metais preciosos. Defendiam que a ocorrência de superávits comerciais era a única forma de um país se tornar mais forte e abastado. Essa meta só alcançada com políticas de incentivos às exportações e restrições às importações. Se todos países seguissem esses preceitos, resultado seria a virtual ausência de comércio entre as nações. Os mercantilistas foram alvo das críticas de Adam Smith quando formulou sua teoria do comércio internacional. Smith era um entusiasta do livre comércio e sustentava que as transações internacionais colaboravam para aumento do bem-estar dos países, pois colocavam à disposição de suas populações quantidades maiores de bens e serviços. Sua teoria das vantagens absolutas atestava que comércio seria vantajo- SO sempre que houvesse diferenças nos custos de produção de bens entre países. David Ricardo, com a sua teoria das vantagens comparativas, resolveu um problema que Adam Smith deixou em aberto: que ocorreria quando, em um dado país, os custos de produção de todas as mercadorias fossem maiores do que no resto do mundo? Ricardo demonstrou que não são os custos absolutos que importam, mas os relativos OU comparativos, que, por sua vez, são determinados pela produtividade do trabalho. As fronteiras de possibilidades de produção e de consumo são recursos gráficos muito úteis para a compreensão da teoria das vantagens comparativas de Ricardo. A frontei- ra de possibilidades de produção nos permite visualizar as quantidades máximas que um país pode produzir de cada bem, segundo sua disponibilidade de fatores de pro- dução e sua tecnologia. A fronteira de possibilidades de consumo indica quais são ganhos, em termos de consumo, obtidos em decorrência da realização de comércio. Questoes para Revisão 1. Qual era a origem da riqueza para os mercantilistas? 2. No entender dos mercantilistas, qual era o papel reservado ao comércio inter- nacional? 3. Por que uma estratégia que persegue superávits comerciais pode ser considera- da inconsistente no âmbito mundial? 4. O que é um coeficiente técnico de produção? 5. Discuta as condições necessárias para que haja comércio entre duas nações, segundo os argumentos da teoria das vantagens absolutas. 6. Defina relações de troca (ou termos de troca). 7. Defina custos comparativos. 8. Em que circunstâncias um país tem vantagem comparativa na produção de uma mercadoria?</p><p>24. PARTE INTERNACIONAL TEORIA E POLÍTICA 9. Quais são as hipóteses do modelo ricardiano? 10. Quais são as condições básicas para que haja comércio entre dois países se- gundo a teoria das vantagens comparativas? 11. Defina preços relativos. 12. O que é fronteira de possibilidade de produção? 13. Explique os conceitos de custo de oportunidade ou custo social. 14. O que são ganhos de comércio? 15. O que é fronteira de possibilidades de consumo? 16. Os países A e B apresentam os seguintes coeficientes técnicos na produção de M e X em horas de trabalho por unidade de tempo: Coeficientes técnicos de produção (horas de trabalho) Bem M X A B m e contam com a seguinte disponibilidade do fator de produção trabalho: A partir dessas informações, determine, algébrica e graficamente: a. o padrão de vantagens comparativas dos países A e B; b. os preços relativos de X e M, em cada país; a produção e consumo de cada bem em autarquia, considerando que A e B aloquem metade de seus fatores na função de produção de cada mercadoria; d. o intervalo em que poderiam se situar as relações de troca de X por M de forma que o comércio fosse vantajoso para os dois países; e. escolha um ponto qualquer das relações de troca, dentro do intervalo aci- ma, e, sob a hipótese de especialização completa, determine os ganhos do comércio.</p><p>TEORIA DA RELATIVA DOS FATORES CAPÍTULO Voce Hipóteses da Teoria de Heckscher-Ohlin Fronteira de Possibilidades de Produção Teorema de Heckscher-Ohlin Teorema da Equalização do Preço dos Fatores de Produção (ou de Heckscher-Ohlin-Samuelson Teorema de Stolper-Samuelson teoria das vantagens comparativas apresentava algumas limitações que seriam superadas somente no século XX. Na verdade, da maneira como foram abordadas por David Ricardo, as vantagens comparativas eram do fato de que o único fator de produção relevante - o trabalho tinha níveis de produtividade diferentes nos distintos países e, conseqüente- mente, os bens tinham custos de produção diferentes. Ricardo não apresentou nenhuma justificativa econômica para esse fato. Somente no início do século XX surgiu uma explicação razoável para as dife- renças de custo de produção de uma mesma mercadoria produzida em diferentes países e para as razões do comércio. A origem da teoria é um artigo publicado, em sueco, por Eli Filip Heckscher, em e que só seria traduzido para o inglês em 1949. A divulgação de suas idéias começou realmente a ocorrer após a tradu- ção para o inglês da tese de doutorado de seu discípulo, Bertil Ohlin, em Como Ohlin havia sido fortemente influenciado por Heckscher, essa argumentação ficou conhecida como teoria de Heckscher-Ohlin. A teoria de Heckscher-Ohlin, apesar de controvertida, é considerada a mais importante e influente explicação para o comércio, depois da teoria das vantagens comparativas de Ricardo. DA TEORIA DE HECKSCHER-OHLIN Em linhas gerais, a teoria de Heckscher-Ohlin afirma que cada país se especia- liza e exporta o bem que requer utilização mais intensiva de seu fator de produção Esse enunciado nos coloca diante de conceitos novos, que precisam ser discutidos com algum cuidado. I OHLIN, B. International and Interregional Trade. Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1933.</p><p>26 PARTE I INTERNACIONAL TEORIA E é necessário considerar que as funções de produção agora con- tam com dois fatores: trabalho (L) e capital (K). (2.1) (2.2) (2.3) (2.4) Onde: Mb = quantidade produzida do bem M no país B; Xb = produzida do bem X no país B: = quantidade produzida do bem M no país W; = quantidade produzida do bem X no país W. Agora sabemos que os bens X e M são produzidos nos dois países por meio de dois fatores de produção: capital e trabalho. Essas expressões, todavia, não são muito conclusivas a respeito das proporções de capital e trabalho que entram na produção de cada bem. Para discutirmos melhor essa questão, vamos explicitar al- gumas hipóteses importantes da teoria de Heckscher-Ohlin. Hipótese 1: as tecnologias de produção são idênticas nos dois países. De acordo com essa hipótese, a função de produção de X em B é igual à função de produção de X em W, e a função de produção de M em B é igual à função de produção de M em W. Isso não quer dizer, entretanto, que a indústria produtora de X em B, por exemplo, empregue capital e trabalho na mesma proporção que a indústria de X em W. Tecnologias idênticas implicam que o mesmo conjunto de fécnicas ou processos de produção esteja disponível para todos os produtores de um mesmo bem Essa idéia pode ser ilustrada com o mapa de isoquantas da função de produ- ção de X. Isoquanta, como sabemos, é o lugar geométrico de todas as combina- ções dos fatores que produzem eficientemente uma mesma quantidade de um bem. No nosso exemplo, X é produzido com trabalho e capital, representados, respectivamente, nos eixos horizontal e vertical da Figura (2.1). Os pontos so- bre a isoquanta X = 1 indicam as diferentes combinações de capital e trabalho que produzem uma unidade de X. As combinações de trabalho e capital neces- sárias para produzir duas e três unidades de X estão indicadas pelas isoquantas X = 2 e X = 3, respectivamente.</p><p>TEORLA DOTACAO RELATIVA DOS FATORES 27 Figura 2.1 Função de produção do bem no país B Capital (K) X=3 X=2 0 4 Trabalho (L) Duas unidades de X podem ser produzidas, por exemplo, com unidades de L e unidades de K, ou unidades de trabalho e unidades de capital, situa- ções representadas pelos pontos C e D sobre X = 2. Cada uma dessas combinações de capital e trabalho é um processo ou técnica de produção do bem X. O que distingue uma técnica de outra, na mesma função de produção, é a proporção em que os fatores são empregados. Em nosso exemplo, fica claro que: (2.5) A linha tracejada T1 representa a técnica 1 e indica as várias quantidades de X que podem ser produzidas com capital e trabalho empregados nessa mesma proporção A linha tracejada T2 representa o mesmo para a técnica 2. Como a técnica 1 é mais inten- siva em capital, cada unidade de trabalho é combinada com uma quantidade maior de capital do que no caso da técnica 2, que, por sua vez, é mais intensiva em trabalho. As isoquantas, ou curvas de indiferença, como pudemos notar, são concavas em relação à origem. Essa forma indica que os fatores não são perfeitamente substituíveis entre si. Observemos a Figura (2.2), que representa a isoquanta referente a uma unidade de X. No ponto C, são empregadas unidades de trabalho e K unidades de capital. Suponhamos que a indústria de X resolva substituir trabalho por capital, mudando seu processo de produção para o ponto D. Em outras pala- vras, a quantidade de capital substituiu unidades de trabalho na produ- ção de uma unidade de X. Se a indústria continuasse esse processo de substitui- ção, deslocando-se para o ponto E, notaríamos que unidades de trabalho seriam substituídas por unidades de capital. Como: KK < então: < (2.6)</p><p>28 PARTE I INTERNACIONAL TEORIA E Essa relação é chamada de taxa marginal de substituição de trabalho por capital e, neste caso, é crescente. Figura 2.2 Taxa de substituição do trabalho pelo capital Capital (K) E D a 0 0 4 Trabalho (L) Hipótese 2: a função de produção de X é intensiva em trabalho e a função de produção de M é intensiva em capital. Se as funções de produção de dois bens apresentam o mesmo conjunto de téc- nicas, ou seja, empregam capital e trabalho na mesma temos duas fun- ções iguais. A única maneira de diferenciá-las é determinar qual a intensidade com que os fatores de produção são utilizados. Vejamos um exemplo. Suponhamos que a produção de X seja realizada por uma firma e a de M, por outra. As isoquantas dessas firmas estão na Figura (2.3). Sabemos, da microeconomia, que uma firma escolhe o processo de produção que maximiza a quantidade produzida, dado o montante de recursos de que dispõe para contratar os serviços dos fatores de produ- ção, como no caso do trabalho, ou adquiri-los, como é o caso do capital. Naturalmente, o preço dos fatores de uma variável é determinante. O preço ou remuneração do traba- lho é o salário, e o preço ou remuneração do capital é a taxa de juros, r2. Os recursos que a firma compromete na aquisição dos fatores de produção constituem o custo de produção. Como a firma pode adquirir diferentes combina- ções de capital e trabalho de tal forma que o custo se mantenha constante, podemos escrever a expressão: (2.7) Essa é uma linha de isocusto (IC na Figura (2.3)). Se reescrevermos essa ex- pressão como a equação de uma linha reta, teremos: K = IC r - (2.8) 2 A empresa também pode alugar o capital uma máquina, por exemplo e, neste caso, r seria o preço do aluguel.</p><p>TEORIA RELATIVA DOS FATORES 29 que nos mostra que a inclinação da linha de isocusto é ou seja, a razão entre o salário, W, e a taxa de juros, r. Figura 2.3 Intensidade no USO dos fatores de produção Capital (K) M=1 D, Kx pl 0 LM Lx Trabalho (L) a como Agora podemos saber qual é a combinação de capital e de trabalho que cada firma deve escolher. Como no mercado tanto os salários e as taxas de juros a quanto as linhas de isocusto são iguais para todas as firmas, aquelas que produ zem X ou M escolhem as quantidades de trabalho e de capital que, dado um determinado custo, permitam produzir a maior quantidade possível de cada bem. Isso acontece no ponto em que a linha de isocusto tangencia a isoquanta mais distante da origem. Na Figura (2.3), apenas como exemplo, supusemos que o custo de produzir uma unidade de X é igual ao de produzir uma unidade de M. Logo, a firma que produz X escolhe unidades de trabalho e Kx unidades de capital, enquanto a produção de M emprega LM unidades de trabalho e dades de capital - pontos C e D, respectivamente. A intensidade no uso dos fatores de uma função de produção é determinada quando verificamos qual a combinação de capital e trabalho adotada em cada uma das funções diante da mesma razão entre as remunerações do trabalho e do capital. Da Figura (2.3), deduzimos que: K. K M (2.9) Lx M ou seja, que a produção de X emprega menos capital por unidade de trabalho a produção de M. Conseqüentemente, a produção de M usa intensivamente capital, enquanto a produção de X emprega trabalho intensivamente.</p><p>30 PARTE I INTERNACIONAL TEORIA E POLÍTICA Hipótese 3: no país B trabalho é relativamente no país W, capital é relativamente abundante. A teoria de Heckscher-Ohlin não se baseia apenas nas diferenças das propor- ções entre as funções de produção, como também das dotações relativas dos fato- res de produção dos países. Há duas maneiras de se definir a abundância relativa de fatores. A maneira leva em conta sua disponibilidade Dizemos que no país B o trabalho é abundante relativamente ao país W se: Kb < (2.10) Onde: Kb = quantidade de capital disponível no país B; Lb = quantidade de trabalho disponível no país B; = quantidade de capital disponível no país W; = quantidade de trabalho disponível no país W. Note-se que não é a quantidade absoluta dos fatores disponível em cada um dos países que caracteriza a abundância, e sim a relação entre essas quantidades. Suponhamos que o país B possua 1.200 unidades de trabalho e 600 unidades de capital, e o país W disponha de 1.800 unidades de trabalho e 1.800 de capital. Ou seja: = A disponibilidade absoluta de fatores é maior em W, pois: (2.11) (2.12) 1.800 > 1.200, mas, Kb < 600 1.800 1.200 1.800 ou seja, em B, temos meia unidade de capital para cada unidade de trabalho, enquanto em W cada unidade de capital corresponde a uma unidade de trabalho. Logo, relati- vamente a B, o capital é abundante em W, e, em B, o fator abundante é o trabalho.</p><p>a du de TEORIA DOTACAO RELATIVA FATORES 31 Outra situação hipotética seria a seguinte: Kb 600 1.800 = = 1.200 3.600 Nesse caso, apesar de W possuir três vezes mais capital e trabalho que B, os dois países têm a mesma dotação relativa de fatores, pois em ambos há meia unidade de capital para cada unidade de trabalho. A segunda maneira de medir a abundância relativa dos fatores é comparando os preços relativos dos fatores de produção dos dois países. Por preços relativos dos fatores entendemos a razão entre os preços do trabalho e do capital, ou seja, entre suas remunerações: W (2.13) r Onde: = preço do trabalho, = preço do capital, r. A taxa de salário, W, e a taxa de juros, r, são determinadas pela oferta e demanda desses fatores. Como a produção dos bens demanda ambos os fatores de produção, ainda que em proporções diferentes, pode-se esperar, de modo geral, que a remu- neração do fator escasso seja relativamente maior que a do fator abundante. Se o trabalho é relativamente mais abundante em B, e o capital, em W, a expres- são: (2.14) indica que a taxa de salário é relativamente menor em B do que em W. Também nesse caso os níveis absolutos dos salários e dos juros não importam, e sim suas razões. Supondo que prevaleçam as seguintes remunerações dos fatores em B e W: do 10. = 30 10 = 3 1 < = 10 5 = 2 1 rb notamos que, mesmo sendo o salário em B duas vezes maior do que em W, para cada unidade monetária que os trabalhadores recebem em B, os capitalistas rece-</p><p>32 PARTE I - INTERNACIONAL TEORIA E POLÍTICA bem 3, enquanto em W os capitalistas recebem apenas duas unidades monetárias. Portanto, relativamente ao capital, o trabalho é mais barato por ser abundante em B. Hipótese 4: as preferências dos consumidores são iguais nos dois países. Nos modelos de comércio internacional as preferências dos consumidores são representadas pelas curvas de indiferença Curva de indiferença é o lu- gar geométrico de todas as combinações dos bens que proporcionam a mesma satisfação aos consumidores. Supondo que a economia produza apenas dois bens, X e M, a satisfação ou utilidade do consumidor depende do consumo de X e M: M) (2.15) Onde: U = nível ou índice de utilidade; X = quantidade consumida do bem X; e M = quantidade consumida do bem M. Se os bens X e M são substituíveis, o mesmo nível de utilidade pode ser atingi- do com várias combinações desses bens. Essa relação é expressa graficamente por uma curva de indiferença, como a da Figura (2.4). Figura 2.4 Curva de indiferença M D U=1 0 X Admitamos, como exemplo, que a curva de indiferença U indique um nível de satisfação igual a um.4 Esse nível de utilidade pode ser obtido tanto com o consumo de unidades de X e unidades de M quanto com X de X e M de M. Mas o que leva os consumidores a escolher o ponto C ou o ponto D sobre a curva de indiferença? 3 As curvas de indiferença nacionais, ou sociais, como também são conhecidas, são obtidas pela agregação das curvas de indiferença individuais. Lembre-se: não é possível medir a satisfação ou utilidade, apenas ordenar as preferências dos consumidores.</p><p>TEORIA RELATIVA DOS FATORES 33 Os consumidores escolhem as quantidades de cada bem que desejam consumir levando em conta os preços relativos de X e de M. Se estivéssemos discutindo o caso de um consumidor individual, teríamos de considerar, além dos preços dos bens, sua renda. No caso de um país, entretanto, o que importa é a renda real (ou produto) da economia, que, em última instância, no nosso modelo simples, é medi- da pelas quantidades físicas de X e M que a nação produz. Já sabemos que a fronteira de possibilidades de produção nos mostra as quantida- des máximas de bens que um país pode produzir a partir de sua dotação de fatores. Trataremos agora desse conceito, já discutido no âmbito do modelo de Ricardo, adaptando-o às necessidades da teoria de Heckscher-Ohlin FRONTEIRA DE DE A fronteira de possibilidades de produção, usada para discutir a teoria das van- tagens comparativas, foi construída a partir de hipóteses bem restritivas. As que nos interessam lembrar agora são: o trabalho era o único fator de produção relevante e os coeficientes técnicos de produção eram constantes. Com base nessas hipóteses, obtivemos fronteiras de possibilidades de produção com formatos de reta, que indi- cavam preços relativos - ou custos de oportunidade constantes Agora, nossas funções de produção têm dois fatores que podem ser combinados em proporções diferentes, indicando que trabalho pode ser substituído por capital e vice-versa, mas dentro de certos limites, pois não se trata de fatores perfeitamente cambiáveis. A produção de X, em relação à de M, emprega proporcionalmente mais trabalho que capital. Os fatores de produção não são distribuídos eqüitativamente entre os países: o trabalho é relativamente abundante em B e relativamente escasso em W. Em contrapartida, o capital é abundante em W e escasso em B. Figura 2.5 Fronteiras de possibilidades de produção dos países B e W M M X X País B País W</p><p>34 PARTE I - TEORIA E POLÍTICA As fronteiras de possibilidades de produção, construídas a partir desses pressu- postos, são apresentadas na Figura (2.5). Como a função de produção de X utiliza intensivamente trabalho, é de se esperar que o país B produza relativamente mais X que M; se todos os fatores fossem alocados na produção de X, B produziria Xb unidades desse bem, e, se alocados na indústria M, o resultado seria Mb unidades. Aplicando o mesmo raciocínio para o país W, o resultado seria unidades de X e unidades de M. Observa-se que: Xb > Mb (2.16) Note-se que essas fronteiras de possibilidades em relação à origem indicam que os preços relativos não são constantes. Isso acontece porque os coefi- cientes técnicos variam à medida que muda a escala de produção, ou seja, para cada ponto da fronteira de possibilidades, temos capital e trabalho empregados em pro- porções diferentes nas funções de produção de X e de M. Como esses fatores são substitutos imperfeitos, aumentos sucessivos na produção de X, por exemplo, le- vam ao abandono de quantidades crescentes de M, e vice-versa. Em resumo, os custos sociais, ou custos de oportunidade, são crescentes. TEOREMA DE HECKSCHER-OHLIN Agora que já apresentamos e discutimos os pressupostos que sustentam a teoria da proporção dos fatores, podemos apresentar o teorema de Heckscher-Ohlin, que explica a diferença dos preços relativos das mercadorias entre as nações e o respec- tivo padrão de vantagens comparativas, com o auxílio da Figura (2.6). Figura 2.6 gráfica do teorema de Heckscher-Ohlin M M M" M* E U=2 U=2 U=1 pb RT 0 X 0 X* X (a) Autarquia (b) Comércio</p><p>TEORIA DOTACAO RELATIVA FATORES 35 Antes do estabelecimento do comércio, a demanda e a oferta de cada país, representadas pelas curvas de indiferença nacionais e fronteiras de possibilidade de produção, respectivamente, determinam o preço relativo de equilíbrio e as quanti- dades de cada bem que serão produzidas e consumidas. Como as preferências dos consumidores são iguais nos dois países, as demandas de ambos são representadas pelo mesmo mapa de indiferença. ponto Eb representa o equilíbrio de autarquia no país B. A tangência da curva de indiferença U = 1 e de sua fronteira de possibilidades de produção nos indica que serão produzidas unidades de X e OMb unidades de M ao preço relativo indicado pela declividade da tangente Pb. Lembremos que o preço relati- ou custo de oportunidade nos indica qual é a quantidade de cada bem que os consumidores desejam consumir, o que, em equilíbrio, é igual às quantidades produzidas. O preço relativo de equilíbrio, portanto, como em qualquer mercado, é aquele que iguala as quantidades ofertadas e demandadas. Uma forma alterna- tiva de visualizar o preço relativo pb é dada pela razão que é a declividade da reta paralela, portanto, à tangente Pb. Pelas mesmas razões, no país W o equilíbrio se situa no ponto E", ao preço relativo que equilibra as quantidades ofertadas e demandadas de X e de M. A magnitude dos ganhos esperados com o comércio por esses países é determi- nada pela diferença dos preços relativos em autarquia. OXb (2.17) A relação acima mostra que o preço relativo de X em B é menor do que em W. Conseqüentemente, como visto na Seção 1.3, B tem vantagens na produção de X, e W, na de M. Portanto, existe uma razão para que haja comércio. Com o comércio, o país B aumenta a produção de X, enquanto o país W faz o mesmo com M, que são os bens nos quais têm vantagens Essa especialização aumenta a disponibilidade total dos bens, permitindo que os consu- midores dos dois países atinjam o equilíbrio no ponto E, na curva de indiferença U=2. Nesse ponto, os consumidores aumentaram seu bem-estar, pois U=2 está mais afastada da origem que Os termos de troca (linha RT) nos informam tanto as proporções em que X e M serão trocados, quanto sinalizam para os pro- dutores e consumidores dos dois países as quantidades que devem ser produzidas e consumidas, de forma que haja equilíbrio entre oferta e demanda totais. Vamos analisar esses resultados mais detidamente. O país B agora produz unidades de X e OMb* unidades de M, enquanto W produz e de X e M, respectivamente. Os pontos Eb* e são pontos de equilíbrio na produção, determinados pela tangência das fronteiras de possibilidades de produção com os termos (ou relações) de troca, RT. Note-se</p><p>36 PARTE I INTERNACIONAL TEORIA E POLÍTICA que os termos de troca substituem os preços relativos observados antes do co- mércio e, portanto, orientarão as decisões de produção e de consumo nos dois países. Como as preferências são as mesmas, os consumidores de B e W demanda- rão X e M na mesma proporção: OX* de X e OM* de M. Para que o país B possa consumir OM* de M, precisa importar de M, pois só produz Isso é possível graças à exportação de X*Xb* unidades de X, excedentes da produção desse bem no país B. país W consome OX* unidades de X, das quais unidades são produzidas internamente e são importadas de B. Para importar essa quantidade de X, W exporta unidades de M, que é a diferença entre sua produção e seu consumo. Como em nosso exemplo há apenas duas economias, as exportações de B são iguais às importações de W, e vice-versa. Portanto: Exportação de B = = = Importação de W Importação de B = Mb*M* = Exportação de W E a relação entre as quantidades exportadas e importadas de um país é igual aos termos ou relações de troca. Assim, o país W exporta e importa de X, enquanto o país B importa de W e exporta X*Xb* de X. Temos que: Mb*M* (2.18) Os ganhos de comércio ficam demonstrados pela mudança nos pontos de equilí- brio. Em autarquia, os consumidores do país B maximizavam a satisfação no ponto Eb, na curva de indiferença U = 1. O ponto indica o nível máximo de satisfação dos consumidores de W. Com o comércio, o equilíbrio passa para E, na curva de indiferença U = 2, mais afastada da origem que U = 1, o que indica, mente, maior nível de bem-estar. Um resumo dos resultados do comércio aparece no Quadro (2.1). Quadro 2.1 Produção e consumo, em e com comércio Produção Consumo Bem X M X M Comércio Autarquia Comércio Comércio Comércio B OX OMb OMb* OXb OX* OMb OM* W OX OX* OM*</p><p>TEORIA RELATIVA FATORES 37 TEOREMA DA EQUALIZAÇÃO DO PREÇO DOS FATORES DE (ou TEOREMA DE Na seção anterior apresentamos a explicação de Heckscher-Ohlin para a ori- gem das vantagens comparativas e o surgimento dos ganhos de comércio. Para que tenhamos uma idéia mais clara do poder explicativo dessa teoria, precisamos dis- cutir os efeitos do comércio no preço dos fatores de produção e na distribuição de renda. O principal fundamento dos trabalhos de Eli Heckscher e Bertil Ohlin é que as nações trocam mercadorias porque não podem comerciar os fatores de produção. Uma nação na qual o trabalho é relativamente escasso importa bens cuja função de produção emprega esse fator intensivamente e exporta mercadorias que utilizam capital, seu fator abundante, em maior proporção. O comércio de bens, portanto, é uma forma indireta de comerciar os fatores de produção contidos nas mercadorias. Vimos que uma das da diferença na dotação relativa de fatores entre os países é que as remunerações relativas também diferem. Os preços relativos dos fatores escassos são maiores do que os preços relativos dos fatores Se fosse possível haver completa mobilidade dos fatores entre os países, certamente o trabalho migraria em busca de melhores salários e o capital se deslocaria para onde seu retorno fosse maior. Esse processo eliminaria as diferenças nas dotações e, por nas remunerações relativas dos fatores entre os países. O teorema da equalização dos preços dos fatores de produção demonstra que o comércio de mercadorias tem o mesmo efeito sobre as taxas de salário e de retorno sobre o capital físico que a mobilidade desses fatores. Na realidade, esse teorema, demonstrado pela primeira vez por Paul Samuelson em 1948,5 é um corolário do teorema de Por essa razão, também é conhecido por teorema de Formalmente, o teorema pode ser assim enunciado: mantidas as hipóteses do teorema de Heckscher-Ohlin, o comércio de bens equaliza a remuneração dos fatores de produção. Para demonstrar esse teorema, precisamos nos lembrar de que, em autarquia, as indústrias de cada país maximizam lucros quando escolhem a combinação de capi- tal e trabalho correspondente ao ponto de tangência entre a linha de isocusto e a maior isoquanta possível. Como a declividade da linha de isocusto é igual ao preço relativo dos fatores, w/r, a linha de isocusto do país B tem declividade menor do que a do país W, posto que o trabalho é relativamente abundante em B e, proporcionalmente, mais barato que o capital: 5 Paul. International trade and the equalization of factor prices. Economic Journal, 58. jun. 1948.</p><p>38 PARTE INTERNACIONAL TEORIA E wb rb (2.19) Do ponto de vista de W, a conclusão é inversa. Como nesse país o capital é relativamente abundante, a taxa de juros é menor, em relação ao salário: (2.20) rb As funções de produção de cada bem são iguais nos dois países, mas os preços relativos dos fatores são diferentes. Como o trabalho é mais barato em B, mesmo a produção de M, intensiva em capital, nesse país, emprega proporcionalmente mais trabalho do que em W. Temos então, em autarquia, associado a cada nível de produção de X e de M, o respectivo preço relativo dos fatores. Tomando a Figura (2.6), nota-se que, antes do comércio, tínhamos as seguintes relações entre quantidades produzidas e preços dos fatores: OMb < (2.21) que foram induzidas pelas relações de preços dos fatores: wb (2.22) Com o comércio, cada país se especializa, ou seja, passa a produzir mais do bem em que possui vantagem comparativa. Assim, ainda nos referindo à Figura (2.6), B aumenta a produção de X de para e diminui a de M de para OM*. Como a produção de X é intensiva em trabalho, a demanda por esse fator aumenta enquanto a de capital diminui proporcionalmente. Em decorrência, a taxa de salário, wb, tende a aumentar para e a remuneração do capital, diminuir para Como o país W tem vantagem comparativa na produção de M, a produção desse bem aumenta de para A produção de X, naturalmente, dimi- nui, de para Por um mecanismo equivalente ao ocorrido em B, o acréscimo na demanda por capital, fator intensivamente empregado na produ- ção de M, eleva a taxa de juros para enquanto a taxa de salário se reduz para No país B, temos: e</p><p>TEORIA RELATIVA FATORES 39 No país W, temos: e Portanto, a relação wb rb aumenta, e diminui, de tal forma que há uma ten- dência de se igualarem. Em suma, segundo o teorema de Heckscher-Ohlin- Samuelson, como resultado do comércio, obtemos a seguinte igualdade: (2.23) TEOREMA DE STOLPER-SAMUELSON Por fim, apresentamos o teorema de Stolper-Samuelson, segundo o qual o co- mércio beneficia o fator de produção abundante em detrimento do fator escasso de cada país.6 O interesse agora é avaliar os efeitos do comércio na distribuição funcio- nal da renda, ou seja, em que medida a troca de mercadorias influencia a repartição da renda entre o capital e o trabalho. Os resultados são imediatos e decorrem do teorema da equalização dos preços dos fatores. Inicialmente, devemos recordar que um dos pressupostos básicos das teorias do comércio que estudamos até agora é o pleno emprego. Isso significa que não há trabalho nem capital ociosos, seja em autarquia, seja com comércio. As diferenças nas dotações relativas de fatores provocam diferenças nas remunerações do trabalho e do capital. Os salários, por exemplo, são relativamente mais baixos que o retorno do capital nos países em que o trabalho é abundante. Conseqüentemente, nesse caso, uma unidade de capital recebe relativamente mais que uma unidade de trabalho. Logo, podemos dizer que a renda é concentrada em favor dos proprietários do capi- tal. No país em que o capital é relativamente abundante, e o trabalho escasso, ocorre o oposto. Em autarquia, portanto, a escassez relativa de fatores condiciona a distri- buição da renda. Com o comércio e a especialização, como vimos, o preço do fator abundante aumenta enquanto o do escasso diminui, em ambos os países. Como as mesmas quantidades de trabalho e de capital continuam empregadas, a parcela dos salários na renda aumenta, e diminui a do juro, nos países onde o trabalho é abundante. O mesmo processo redistribui renda a favor do capital no país em que o trabalho é escasso. 6 STOLPER, WOLFANG & Paul. 'Protection and real wages'. In: Review of Economic 1941.</p><p>40 PARTE I INTERNACIONAL TEORIA E Aplicação Prálica Esse é o mecanismo básico da demonstração do teorema de Stolper-Samuelson. O pleno emprego, por um lado, e a equalização do preço dos fatores, por outro, garantem que o fator de produção abundante se beneficie com o comércio. Tomemos dois países, X e Y, que produzam dois bens, A e B, utilizando traba- lho e capital, representados por L e K, respectivamente, a partir das seguintes funções de produção: Os preços relativos dos fatores de produção nos dois países são: = 0,5 0,1 e = 0,4 0,2 onde e são, respectivamente, as taxas de salários e de juros em Com esses preços, os bens A e B são produzidos segundo as seguintes proporções de fatores: País X: = 3 2 e País Y: L 3' K = 2 5 Esse conjunto de relações nos revela alguns pontos importantes sobre a dotação rela- I tiva de fatores e a intensidade no uso de fatores de cada indústria. Em primeiro lugar: = 0,1 = 0,4 0,5 0,2 Como o preço relativo do trabalho é menor em X que em Y, podemos dizer que o trabalho é relativamente abundante em X, o mesmo acontecendo com o capital em Y.</p><p>TEORIA DOTACAO RELATIVA FATORES 41 Em segundo lugar: Kx = 3 = 2 3 e = 2 3 K = 2 5 Deduzimos que o bem A emprega intensivamente trabalho enquanto a produ- ção de B é intensiva em capital, em ambos os países. Segundo o teorema de Heckscher-Ohlin, o país X tem vantagens comparativas na produção de A, e o país Y, na de B. Para comerciar, X aumenta a produção de A, e Y, a de B. Para produzir mais A, no país X, a demanda por trabalho aumentará, proporcional- mente, mais do que aquela por capital, pois a função de produção de A é intensi- va em trabalho. Como aumenta a taxa de salário e diminui a remu- neração do capital. No país Y, ocorre o inverso, pois a especialização em B eleva a taxa de juros e diminui os salários. Ao final desse processo, os preços do trabalho e do capital poderiam ser: = 0,3 0,4 Esse resultado é uma ilustração do teorema da equalização do preço dos fatores, ou do teorema de Heckscher-Ohlin- Samuelson, como também é conhecido. Em cada país, a proporção em que KeL são empregados em cada função de produção também se alterou em decorrência da mudança nos preços relativos dos fatores. Agora a produção de A usará a mesma proporção de capital e de trabalho nos dois países, porque o comércio equalizou o preço relativo desses fatores. Um resultado possível é: e = 2 4 Isso indica que a produção de A continua intensiva em trabalho, mas o país X utiliza proporcionalmente menos trabalho que antes, e Y, mais desse fator. Com a produção de B ocorreu o inverso: X emprega proporcionalmente mais capital, e Y, menos. Essa conclusão decorre das simples comparações abaixo: Kx 3 < Kx' 2 1 = 2 3 = 2 4</p><p>42 PARTE I INTERNACIONAL TEORIA E Resumo Os economistas Eli Heckscher e Bertil Ohlin construíram uma teoria que justifica a exis- tência de comércio a partir das diferenças nas dotações relativas dos fatores de produ- ção. Essa teoria é baseada numa série de pressupostos. Os mais importantes são: a. Consideram-se dois países que produzem dois bens a partir de dois fatores de produção. teorema também é conhecido por modelo 2 X 2: dois países, dois bens e dois fatores. b. A tecnologia de produção é idêntica nos dois países, que significa que as funções de produção de cada bem também são idênticas em ambos. A função de produção de um dos bens é intensiva em trabalho e a função de produção de outro bem é intensiva em capital, para uma mesma relação de preços dos fatores. C. Os consumidores têm as mesmas preferências nos dois países. Tendo como base esses pressupostos, pode-se apresentar a teoria da proporção dos fatores teoria de Heckscher-Ohlin a partir de três teoremas: i) teorema de Heckscher-Ohlin cada país se especializa e exporta bem em cuja produção emprega intensivamente seu fator abundante. ii) teorema de Heckscher-Ohlin-Samuelson OU da equalização dos preços dos fatores: comércio equaliza os preços dos fatores de produção. iii) teorema de Stolper-Samuelson: comércio beneficia o fator de produção abun- dante de cada país, em detrimento do fator escasso. Questoes para Revisão 1. Qual é a explicação para as vantagens comparativas oferecida pela teoria de Heckscher-Ohlin? 2. Compare o argumento de Eli Heckscher e Bertil Ohlin para a existência de vantagens comparativas com o argumento de David Ricardo. 3. Quais são os pressupostos básicos da teoria de Heckscher-Ohlin? 4. Como podemos identificar o uso intensivo de um fator numa função de produção? 5. Qual é a diferença entre dotação absoluta e dotação relativa de fatores de pro- dução? Qual desses conceitos é relevante na teoria de Heckscher-Ohlin? 6. Qual é a relação entre os preços relativos e a dotação relativa dos fatores de produção? 7. Discuta o teorema de Heckscher-Ohlin. 8. Demonstre graficamente o surgimento dos ganhos do comércio, segundo o teorema de Heckscher-Ohlin. 9. Explique a relação entre o teorema de Heckscher-Ohlin e o teorema da equalização dos preços dos fatores de produção.</p><p>TEORIA D A DOTACAO RELATIVA DOS FATORES 10. Qual é a relação entre comércio e distribuição de renda, no âmbito da teoria da dotação relativa dos fatores? 11. Brasil (BR) e Coréia (CO) produzem laranjas (L) e camisas (C) obedecendo à seguinte combinação de capital e trabalho: 1. KBR 3 = = 1 3' 2 = 2 1 onde , e KCO representam o capital, e e o trabalho de Brasil e Coréia, alocados na produção de laranjas e camisas. Os preços relativos dos fatores nos dois países são: WBR 0,4 = 0,2 e 0,8 0,3 De acordo com a teoria da dotação relativa dos fatores de produção: a. identifique a intensidade no uso dos fatores de produção e discuta a disponi- bilidade de fatores nos dois países; b. apresente o padrão de vantagens comparativas; C. demonstre graficamente os ganhos de comércio; d. analise o efeito do comércio sobre os preços dos fatores e a distribuição de renda.</p><p>TEORIA DA POLÍTICA COMERCIAL CAPÍTULO verá neste Tarifas Subsídios Outras Formas de Proteção Medidas do Grau de Proteção despeito da vigorosa defesa teórica do livre comércio, as barreiras sobre as importações não acabaram no final do período mercantilista. Nas relações comerciais contemporâneas, o livre comércio é mais exceção do que regra, tanto nos países menos desenvolvidos quanto nas economias industrializadas. Geralmente, o governo intervém com o objetivo de favorecer o produtor nacio- nal frente aos concorrentes estrangeiros. Esse processo é denominado proteção e, embora predominantemente vise a reduzir importações, pode incluir também me- canismos de promoção às exportações. A proteção pode-se dar por meio de diversos instrumentos de intervenção pública sobre o comércio exterior, em seu conjunto denominados política comer- cial. A análise das implicações do emprego desses instrumentos será apresentada neste capítulo. Para simplificar a análise, iremos supor que M represente o conjunto de bens cuja produção doméstica, no nível de preço internacional seja- insuficiente para atender à demanda interna. Se houver liberdade de comércio, haverá importação de M porque o país tem desvantagem comparativa na sua produção (Figura (4.1a). Em contrapartida, X representa o conjunto dos bens em que o país tem vantagens com- parativas, pois, ao preço internacional P* e liberdade de comércio, geram-se exce- dentes para exportação (Figura (4.1b). A análise será feita levando-se em conta os efeitos da política comercial sobre os mercados dos produtos M e X. TARIFAS O imposto sobre importações denominado tarifa é cobrado quando a mercadoria entra no país. Pode ser específico, ad valorem ou No caso do imposto específico, cobra-se determinado valor por unidade impor- tada. Um exemplo é a tarifa de US$ 454,00 cobrada por tonelada de suco de laranja brasileiro importada pelos Estados Unidos, independentemente do preço do produto.</p><p>56 PARTE INTERNACIONAL TEORIA E POLITICA Figura 4.1a Excesso de demanda no Figura 4.1b Excesso de oferta no mercado de M mercado de X Preço S Preço Exportação S Importação D D 0 Quantidade 0 Quantidade A cobrança ad valorem é a mais usual na atualidade e significa que o imposto é calculado como uma porcentagem do preço do produto, como a Tarifa Externa Comum (TEC), de 20%, acordada entre os membros do Mercosul, para importa- ções procedentes de países que não sejam membros desse bloco econômico. O sistema misto implica cobrança de determinado montante por unidade im- portada do produto, além de um percentual sobre o preço. Pode-se cobrar, por exemplo, US$ 50,00 por unidade de produto importada e 20% sobre o preço do produto. No passado, o governo brasileiro impunha tarifa específica sobre o comércio. Com a reforma tarifária de 1957, o sistema predominante passou a ser do tipo ad valorem. Esse é também o sistema preferido pela maioria dos países, em particu- lar, pela maior facilidade de Atualmente, em termos médios, a tarifa fixada pelas economias desenvolvi- das situa-se em torno de 5%, mas já foi muito mais elevada no passado. Na reali- dade, passou por "altos e baixos", destacando-se a Grande Depressão como um dos períodos de protecionismo mais exacerbado. Nessa época, em alguns casos, as tarifas chegavam a ser proibitivas, ou seja, eram fixadas em nível tão elevado que impediam a importação. A tarifa é uma das formas mais antigas de tributação e, no passado, era utilizada como importante fonte de receita de governos. Ainda hoje, em muitos países menos desenvolvidos, representa parcela expressiva da receita pública, como é o caso, por exemplo, de Belize, Guiné ou Lesoto, onde cerca de metade das recei- tas do governo corresponde a tributos sobre o comércio (Quadro (4.1). Essa par- o Mercosul é constituído por Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Venezuela.</p><p>TEORIA DA POLÍTICA COMERCIAL 57 ticipação elevada se deve, em grande parte, à maior facilidade de arrecadação relativamente a outras formas de tributação, pois, para arrecadar esse imposto, basta controlar os ingressos de mercadoria nos portos e fronteiras, enquanto a tributação da renda ou do consumo, por exemplo, exige um aparato burocrático expressivo. Nesse particular, o Brasil equipara-se às economias mais desenvolvidas do mundo. Em 1992, a participação dos tributos sobre o comércio era de 1,51% da receita total do governo, percentual pouco abaixo do observado, por exemplo, nos Estados Unidos, que, em 1994, tiveram 1,55% da receita pública procedente dessa fonte (Quadro (4.1). Quadro 4.1 Participação dos tributos sobre comércio exterior na receita total do governo Ano % País Ano % Argentina 1990 13,95 Estados Unidos 1994 1,55 Belize 1992 47.96 Filipinas 1993 29,95 Brasil 1992 1,51 Guiné 1992 47,43 1992 2,84 Lesoto 1991 51,75 China 1993 25,37 Paraguai 1993 12,46 Cingapura 1993 1,34 Reino Unido 1992 0,08 Congo (ex-Zaire) 1994 44.15 Uruguai 1994 4,12 Fonte: Fundo Monetário Para os países com participação expressiva no comércio, o principal objetivo das tarifas é oferecer vantagem ao produtor doméstico frente à concorrência estran- geira. Na verdade, qualquer que seja o objetivo da política tarifária, sua adoção provoca várias alterações na economia. Uma análise desses efeitos é apresentada a seguir, sob a perspectiva de um país Por país pequeno entenda-se aquele que pode importar ou exportar tanto quanto queira, sem afetar os preços internacionais. O Brasil pode ser considerado país pequeno na troca da maioria dos produtos, dada sua reduzida participação no comércio mundial, sobretudo em relação a produtos manufaturados. Café e açúcar são exceções importantes, pois a participação brasileira no mercado internacional destes bens é significativa, embora declinante. Assim, um país pequeno, que de- pende de importações da mercadoria M para atender ao excesso de demanda doméstica, é o ponto de partida dessa análise. Observe-se na Figura (4.2) que, sob regime de liberdade de comércio, o preço de M é P*, m' o que leva os produtores domésticos a ofertar a quantidade enquanto os con- sumidores demandam Como, a esse preço, a produção é insuficiente para atender à demanda, a diferença é complementada com importação da quantidade</p><p>58 PARTE I TEORIA E Figura 4.2 Efeitos da tarifa sobre mercado de M Quadro 4.2 Efeitos sobre: Livre comércio Tarifa Preço S Preço P* m Q1 Q3 Consumo Q2 Q T Importação Q2 D Receita pública nenhum área T 0 Q3 Q2 Quantidade Como partimos de uma situação de total liberdade de comércio, então o preço internacional de M é igual ao próprio preço praticado no mercado doméstico. A intro- dução de uma tarifa t sobre a importação de M alterará seu preço doméstico, tor- nando-o mais elevado do que o preço internacional. Então: A análise de equilíbrio parcial é útil para compreender algumas implicações desse fato. Vimos que a introdução da tarifa alfandegária eleva o preço no mercado doméstico para o que provoca aumento da produção nacional de Q1 para mas diminuição da quantidade demandada para O resultado é a queda na im- portação, que passa para - Concluindo, aumenta a produção nacional e diminuem a importação e o consumo do produto protegido. 4.1.1 CUSTOS E BENEFÍCIOS DAS TARIFAS O objetivo básico da tarifa é proteger o produtor doméstico da concorrência inter- nacional. Vimos que uma de suas é o aumento do preço do produto protegido no mercado do país importador. Os custos e benefícios dessa elevação de preços podem ser avaliados a partir dos conceitos de excedente do consumidor e do Sob liberdade de comércio, ao preço internacional P*, m' os produtores nacionais venderiam Q1, mas os consumidores demandariam Q2 (Figura (4.3a). O excedente do produtor localiza-se abaixo da linha de preço até a curva da oferta (triângulo A). O excedente do consumidor é representado pela área acima de P* e abaixo da curva m de demanda (áreas B + C). Após imposição de tarifa, o preço passa de P* para (Figura (4.3b). A perda dos consumidores domésticos é dada pelas áreas a + b + + d. Os produtores têm acréscimo de excedente igual à área a. A área C mede a receita do governo decor- 2 o anexo a este capítulo explica esses conceitos de maneira detalhada.</p>